“TRABALHO ESCRAVO”: A LUTA DECLARADA DE SENTIDOS Nilsa Brito Ribeiro – Universidade Federal do Pará RESUMO: Este texto tem por objetivo desenvolver uma análise discursiva sobre o embate ideológico que se trava sobre o sintagma trabalho escravo - utilizado para caracterizar condições indignas de trabalho forçado a que são submetidos trabalhadores, principalmente do campo brasileiro. Tal conceito é polemizado por formações discursivas distintas e muitas vezes antagônicas, sobretudo a esfera jurídica, organizações não governamentais e representantes de grandes empresas agropecuárias. Tomando o conceito de ideologia, tal como formulado por Bakhtin e seu Círculo, procuraremos discutir a partir das distintas mobilizações discursivas deste sintagma, como os sentidos se constroem no palco das disputas ideológicas, demarcando lugares sócio-históricos distintos e opostos, onde se inscreve a memória discursiva que orienta sentidos em circulação na sociedade. Resulta desta reflexão a compreensão de que os sentidos não estão dados no sistema lingüístico nem emanam de um ato da consciência individual, mas se constituem no embate de posições ideológicas a que os sujeitos estão submetidos, num movimento contraditório, seja ocultando seja evidenciando a disputa de interesses no contexto das lutas sociais. PALAVRAS CHAVE: Linguagem; Discurso; Ideologia ABSTRACT: This text aims to develop a discursive analysis on effects of senses produced by “slave labour” – used to characterize conditions unworthy of forced labour to which workers are subjected, mainly from rural Brazil. This concept is emphasized for discursive formations different and often antagonistic, especially spheres of legal, non-governamental organizations and representatives of major agriculture enterprises. Taking the concept of ideology, as expressed by Bakhtin and his Circle, try discussing from different mobilizations discursive the words “ slave labour” as the senses is built on the stage of ideological disputes, demarcating positions socio-historical distinct and opposite, which it inscribe the memory discursive that guides meanings in circulation in society. Result this reflection of the understanding that the senses are no data on the linguistics system and no emanating from an act of individual conscience, but it constitute in the clash of ideological positions, that the subjects are submitted, in a contradictory move, is hiding is evident the dispute interests in the Publicado nos Anais do III Simpósio Internacional sobre Análise do Discurso: emoções, ethos e argumentação, 01 a 04/04/2008. Belo Horizonte, Minas Gerais-ISBN: 978-85-7758-056-9 1 context of social struggles. KEY-WORDS: language; Discours; Ideology 1. Introdução O sitagma trabalho escravo vem sendo utilizado por organizações sindicais, religiosas, de direitos humanos, jornalistas, etc., para referir o trabalho sob coerção por dívida, praticado freqüentemente por empresas agropecuárias, principalmente a partir de 1960 (FIGUEIRA, 2004). Segundo o autor, o trabalhador é geralmente aliciado por fazendeiros ou por um intermediário e uma vez transportado para o local de trabalho, é informado de que só poderá sair após o pagamento da dívida contraída por gastos com viagem, hospedagem e alimentação. Esta dívida aumenta com a aquisição de alimentação diária e de instrumentos de trabalho, de modo que o pagamento recebido nunca é suficiente para saldar os débitos com o “senhor” da fazenda. Além disso, a relação trabalhista é freqüentemente acompanhada de violência física, assassinatos, violação das leis trabalhistas, etc. O trabalhador permanece sob o domínio do fazendeiro até conseguir realizar a fuga ou ser resgatado por instituições do Estado. A noção de escravidão no sentido acima descrito passa também a ser aplicada a outras formas de super exploração de trabalho no campo e na cidade. É nesse movimento que pretendemos analisar os diferentes sentidos que são construídos para o sintagma trabalho escravo, de acordo com posições ideológicas do sujeito que toma como objeto de seu discurso a questão do trabalho forçado e por dívida. 2. De escravidão a trabalho escravo: o embate ideológico No contexto da luta pela terra, o debate sobre trabalho escravo, principalmente na região amazônica,vem obrigando o Estado a adotar iniciativas para enfrentar a problemática, exemplo disso pode-se citar a alteração do Artigo 149 do Código Penal Brasileiro, que, em função de pressões sociais, sofre reformulações em 2003, redefinindo as relações de trabalho que se configuram como trabalho forçado, assim como as penas aplicáveis a cada caso; o Plano Nacional de Erradicação do Trabalho Escravo, criado em 2003, etc. Publicado nos Anais do III Simpósio Internacional sobre Análise do Discurso: emoções, ethos e argumentação, 01 a 04/04/2008. Belo Horizonte, Minas Gerais-ISBN: 978-85-7758-056-9 2 O debate sobre formas contemporâneas de escravidão no campo brasileiro se inicia com denúncias originadas de organizações sindicais e religiosas, particularmente a Comissão Pastoral da Terra, entidades de defesas de direitos humanos, etc. No entanto, pela força das denúncias endereçadas ao Estado, ocupando espaço na imprensa nacional e internacional, o debate se amplia para outros espaços da sociedade brasileira. Na confluência dos discursos produzidos em diferentes lugares, produz-se uma discursividade que verbaliza esta prática trabalhista, discursividade esta filiada a diferentes posições ideológicas, uma vez que o tema passa a ser objeto de polêmica, mais intensamente, nos discursos: i) das organizações que se posicionam em defesa dos trabalhadores; ii) do judiciário; iii) e de proprietários de terra que se organizam para enfrentar as denúncias sobre super exploração do trabalhador e desrespeito às leis do trabalho. As contrapalavras produzidas nestas diferentes esferas da sociedade traduzem diferentes compreensões sobre o que seja trabalho escravo praticado na sociedade contemporânea, construindo assim uma rede de sentidos para trabalho escravo. Interessa-nos, portanto, compreender diferentes sentidos produzidos nessas três esferas sociais. A justificativa para a delimitação destas esferas de atividade social, se dá em função da hipótese de que nestas três esferas vem se constituindo uma polêmica (MAINGUENEAU, 1997) explícita que alimenta os discursos nelas produzidos sobre trabalho escravo. Obviamente que a força desta polêmica mobilizada por estas formações sociais se justifica por ser elas que estão historicamente mais envolvidos na controvérsia sobre trabalho escravo. Por um lado estão aqueles que lutam por evidenciar e denunciar esta prática, considerando-a efetivamente trabalho escravo, por outro lado está o discurso do fazendeiro ou grandes empresas, que contundentemente nega essa prática e, conseqüentemente, as palavras que a nomeiam. O discurso jurídico, por sua vez, se apresenta como o espaço conciliador das tensões entre classes sociais antagônicas, um discurso que se apresenta como se acima das condições materiais dos sujeitos. De acordo com Martins (1999), as denúncias sobre práticas de trabalho escravo no campo brasileiro ganham força a partir de 1970. Estas denúncias eram feitas pelas próprias vítimas a padres e bispos, sindicatos, etc. e repassadas ao Ministério do Trabalho e à polícia (Op. Cit.). Do outro lado, na posição de denunciados, estão representantes do setor agropecuário (grandes fazendeiros) que começam a se organizar para contrapor tanto os movimentos sociais quanto o judiciário. Nestas três instâncias discursivas aqui recortadas para efeito de análise, o sintagma trabalho escravo se reveste de sentidos orientados por posições ideológicas e Publicado nos Anais do III Simpósio Internacional sobre Análise do Discurso: emoções, ethos e argumentação, 01 a 04/04/2008. Belo Horizonte, Minas Gerais-ISBN: 978-85-7758-056-9 3 imaginárias construídas nestas esferas sociais. A palavra, como espaço privilegiado de embates sociais e disputas ideológicas, reflete e refrata a realidade, mediada pelo crivo ideológico do grupo social (BAKHTIN/VOLOCHINOV, 1929). Nesses espaços discursivos1, instaura-se, portanto, um jogo polêmico orientado por „tons‟ valorativos distintos para o que seja trabalho escravo. Embora os discursos elaborados em cada uma das formações discursivas aqui recortadas se definam por identidades ideológicas que sustentam e conduzem os discursos produzidos nestas diferentes formações discursivas, é possível dizer que os três discursos se fundam numa mesma memória discursiva, num interdiscurso onde se inscrevem sentidos da escravidão legal existente no Brasil até 1888, ou seja, embora divergentes, os três discursos, recorrem a uma lembrança de escravidão antiga. O discurso em defesa do trabalhador, o discurso jurídico e o discurso do fazendeiro, ao utilizarem o signo trabalho escravo, o fazem por uma recorrência aos sentidos da escravidão que teve seu fim no século XIX. É a memória social de escravidão que permite falar de trabalho escravo. Obviamente que nesse movimento de recorrência ao já-dito, as formações ideológicas que sustentam cada uma destas formações discursivas determinam sentidos também distintos, sentidos que refletem as forças históricas que os movimentam. Cada formação discursiva estabelece suas próprias regras de relação com o interdiscurso, com a memória discursiva de escravidão. 2.1. Efeitos de memória e processo discursivos Os sentidos produzidos nesta relação de retomada de um já-dito podem ser de manutenção de sentidos já formulados, de deslocamento de sentidos ou mesmo de denegação de sentidos. No discurso dos movimentos sociais e entidades de defesa de direitos humanos, sentidos de trabalho escravo mobilizam a memória social historicamente construída a partir da escravidão abolida em 1888. Neste discurso há um trabalho sobre o interdiscurso no sentido de manter uma memória e os efeitos que esta memória produz para a sociedade brasileira, razão pela qual os movimentos de defesa dos direitos do trabalhador enfrentam controvérsias acerca de um conceito de escravidão. 1 Espaços discursivos, de acordo com Maingueneau (1997, p.117), “delimita um subconjunto do campo discursivo, ligando pelo menos duas formações discursivas que, supõe-se, mantêm relações privilegiadas para compreensão dos discursos considerados”. Publicado nos Anais do III Simpósio Internacional sobre Análise do Discurso: emoções, ethos e 4 argumentação, 01 a 04/04/2008. Belo Horizonte, Minas Gerais-ISBN: 978-85-7758-056-9 Um conceito de escravidão depende de uma teoria das relações sociais das sociedades em que a escravidão é praticada, relações que não são nem podem ser as mesmas em diferentes circunstâncias e situações. No caso brasileiro atual, a escravidão, que é escravidão temporária e circunstancial, esta diretamente ligada ao modo como se da entre nós o desenvolvimento capitalista (MARTINS, 1999, p. 159). No discurso jurídico, por sua vez, verifica-se o efeito de memória como reformulação de um discurso, um já-dito. Esta relação pode ser nomeada como uma relação de “atenuação” do sentido tradicional de escravidão em relação a escravidão contemporânea. A relação estabelecida entre a memória discursiva e o discurso das empresas agropecuárias é de (re)configuração, cujo efeito de sentidos produzido é de denegação do outro, ou seja, o já-dito é retomado por este discurso para ser apagado: sentidos de escravidão no discurso do fazendeiro é interditado, impedindo desta forma que relações de trabalho no campo sejam nomeadas de trabalho escravo nesta formação discursiva. Nas palavras de Maingueneau: Enunciar certos significantes, implica significar (nos dois sentidos da palavra) o lugar de onde os enunciamos; é também significar sobretudo o lugar de onde não enunciamos, de onde, em hipótese alguma, se deve enunciar. A palavra aparece tanto como a projeção do que um grupo “deseja dizer”, o meio de expressar uma doutrina, quanto como o resultado de uma negociação que sempre deve ser retomada, entre diferentes coerções através de um espaço saturado de outros signos (MAINGUENEAU, 1997, p. 155). A “formulação–origem” sobre escravidão é atualizada de maneiras distintas nestes discursos. Na sociedade contemporânea, novas condições sócio-históricas acionam um novo discurso a partir das “formulações de referência”, no entanto, espaços sócio-históricos distintos traduzem os sentidos da “formulação-origem” com as grades semânticas do seu discurso (MAINGUENEAU, 1997), traçando assim a sua própria identidade. 3. A palavra e a criatividade ideológica Procurando situar as bases da teoria marxista aos estudos da linguagem, Bakhtin/Volochinov (1929) assevera que tudo que é ideológico está carregado de densidade Publicado nos Anais do III Simpósio Internacional sobre Análise do Discurso: emoções, ethos e argumentação, 01 a 04/04/2008. Belo Horizonte, Minas Gerais-ISBN: 978-85-7758-056-9 5 sígnica. Signo e ideologia se correspondem, de modo que um não existe sem o outro (p.31). É na tensão motivada pela disputa de sentidos produzidos entre formações ideológicas e discursivas distintas que a palavra vai sendo impregnada de índices valorativos contraditórios, e, por isso mesmo ela carrega em si o traço da luta ideológica e de classes. Não se trata de pensar, no entanto, que a disputa de sentidos se dê apenas entre classes antagônicas, pois também há concorrências de sentido internas a uma mesma classe e a uma mesma formação discursiva. Maingueneau alerta contra qualquer idéia de formação discursiva como um bloco compacto que se oporia a outro (MAINGUENEAU, 1997, p. 112), pois não há limites definitivos entre formações discursivas, posto que uma formação discursiva se define por sua relação com outras e com o interdiscurso. A formação discursiva é um domínio instável e aparece como “o lugar de um trabalho no interdiscurso” (MAINGUENEAU, Op. Cit., p. 113). Ainda nas palavras do autor: O fechamento de uma formação discursiva é fundamentalmente instável, não se constituindo em um limite que, por ser traçado de modo definitivo, separa um interior e um exterior, mas inscrevendo-se entre diversas formações discursivas, como uma fronteira que se desloca em função dos embates das lutas ideológicas. A disputa ideológica a que toda palavra é submetida no processo de constituição é que lhe transforma em material semiótico, sendo, portanto, a palavra o espaço privilegiado de manifestação da ideologia. Todo produto pode alçar-se à condição de signo, na medida em que é submetido ao crivo avaliativo de um dado grupo social, recebendo dele o tom valorativo, o que distingue o signo de um sinal. Uma mesma palavra recebe tom valorativo concernente à função ideológica que a introduz na dinâmica social. ”Cada campo dispõe de própria função no conjunto da vida social. É seu caráter semiótico que coloca todos os fenômenos ideológicos sob a mesma definição geral” (BAKHTIN/VOLOCHINOV, 1929, p. 33). Para Bakhtin/Volochinov, o signo não é apenas parte de uma dada realidade, pois ele pode refletir, mas também distorcer ou refratar a realidade. Os discursos em disputa nas diferentes esferas de atividade social revelam a dimensão ideológica da linguagem e ao mesmo tempo contraria a idéia de unicidade da língua fechada em si mesma. Embora o trabalho histórico que os sujeitos realizam na e pela linguagem seja em busca da estabilidade de sentidos, esta é sempre instável, justamente porque no contato com a ideologia o sujeito está sempre a significar, o que dá acabamento Publicado nos Anais do III Simpósio Internacional sobre Análise do Discurso: emoções, ethos e argumentação, 01 a 04/04/2008. Belo Horizonte, Minas Gerais-ISBN: 978-85-7758-056-9 6 provisório ao sujeito e à linguagem, porque também são provisórios os sentidos que significam as práticas sócio-históricas em que sujeito e linguagem se inserem. Assim sendo, o que se coloca em questão para uma teoria do signo ideológico, tal como propõe Bakhtin/Volochinov, não é a correlação ou a veracidade entre o que é dito e a coisa ou ação verificável no mundo. O que está em jogo são posições de onde os sujeitos enunciam, a partir das quais a palavra é preenchida de valor social de acordo com o grupo que a utiliza. Bakhtin alerta que ideologia e infra-estrutura não têm uma relação causal, mecanicista. “As palavras são tecidas a partir de uma multidão de fios ideológicos e servem de trama a todas as relações sociais em todos os domínios”, razão pela qual não há reciprocidade entre signo ideológico e infra-estrutura (Op. Cit, p. 41), podendo o signo refletir ou distorcer a realidade. A palavra sempre indiciará transformações sociais, mesmo aquela ainda não estruturada ideologicamente e que mais tarde recebe acento ideológico acabado. É nesse sentido que Bakhtin/Volochinov introduz a reflexão sobre a relação dialógica entre ideologia oficial e ideologia do cotidiano, asseverando que a ideologia do cotidiano refere-se às interações espontâneas, ainda não submetidas ao sistema ideológico, em que se dá “o nascedouro mais primário da ideologia” (MIOTELLO, 2005, p. 173). Trata-se de níveis superiores da ideologia do cotidiano já em contato com a ideologia oficial, repercutindo mudanças, alterações dos sistemas ideológicos constituídos, caso contrário a ideologia oficial perderia sua força e estagnaria. Por esta via Bakhtin/Volochinov reafirma as disputas ideológicas que tornam a palavra um signo, elemento vivo e dialético. Ou seja, toda palavra adquire valor semiótico à medida que vai sendo preenchida de sentidos vivenciais. Mantém também o princípio da dialogicidade que atravessa a sua obra e de seu círculo. A palavra é sempre entrecruzada de muitas vozes que se confrontam, tencionam e garantem o vigor do signo, se não for assim ele desaparece, morre. Centrando as bases de sua teoria no princípio da dialogicidade, Bakhtin/Volochinov nos leva a compreender que a ideologia dominante existe no jogo com a ideologia dominada. Nesse jogo, joga-se com a manutenção e reprodução da ordem social ou a subversão desta ordem (MIOTELLO, 2005). Na perspectiva da concepção dialógica bakhtiniana, é possível dizer que a relação de poder é relativizada, uma vez que este, no jogo das relações sociointeracionais, é constantemente ameaçado por outros sentidos, outros discursos, o que exige o jogo permanente da negociação, descartando, por esse raciocínio, qualquer idéia que leve a pensar no poder como uma categoria estável, fixa e inerente ao sujeito, tampouco deve Publicado nos Anais do III Simpósio Internacional sobre Análise do Discurso: emoções, ethos e argumentação, 01 a 04/04/2008. Belo Horizonte, Minas Gerais-ISBN: 978-85-7758-056-9 7 corresponder a relação harmônica ou a homogeneidade de discursos. Foucault (1987) já alertou que o poder não deve ser compreendido como uma propriedade, mas como uma estratégia, de modo que os efeitos de dominação não devem ser atribuídos a uma „apropriação‟, mas a disposições, manobras, táticas, técnicas (RIBEIRO, 2007). No jogo de forças entre formações discursivas, o poder se apresenta distribuído na multiplicidade de vozes construídas nas relações sociointeracionais, sempre orientadas por posições ideológicas. 4. No jogo de forças ideológicas, a luta de sentidos O princípio da dialogicidade bakhtiniana põe em questão o fenômeno da interação social. Nenhuma palavra encontra sua origem no indivíduo, posto que ela está sempre atravessada de pontos de vista alheios (BAKHTIN, 1953). É sob o efeito da interação que a palavra ganha densidade sígnica, porque submetida à avaliação de um dado grupo social. Nesse sentido, Bakhtin defende que a identidade se constrói numa relação permanente com a alteridade: um discurso só se define depois de experimentado, questionado, contestado, complementado ou refutado pelo grupo social em que ele é produzido. Esta relação de alteridade permite o movimento dialógico de construção e reconstrução de discursos sempre em contato com discursos outros já produzidos na cadeia discursiva, mas também com discursos a serem produzidos. Nas análises que se seguem procuraremos analisar processos de significação construídos para trabalho escravo contemporâneo, nas três formações discursivas já mencionadas. 4.1. Efeitos de captação de sentidos da memória social [1] Escravidão negra, escravidão branca (...) Na escravidão negra do passado, quer no delta do Mississipi, quer em Pernambuco, os escravos faziam parte do patrimônio do seu dono. Os que nasciam escravos, morriam escravos. Em troca de seu trabalho eram vestidos, abrigados, alimentados e medicados. (...). Os escravos negros eram ligados à casa ou à plantação, mas os escravos atuais não pertencem a Publicado nos Anais do III Simpósio Internacional sobre Análise do Discurso: emoções, ethos e argumentação, 01 a 04/04/2008. Belo Horizonte, Minas Gerais-ISBN: 978-85-7758-056-9 8 lugar nenhum. Os escravos negros eram possuídos e usados, os escravos de hoje são dominados e usados. No sistema feudal, os escravos negros faziam parte de uma ordem social estabelecida, reconhecida e forçada pela coroa e pela Igreja. No sistema capitalista, os “escravos brancos” são recrutados de acordo com a necessidade, postos para trabalhar o quanto for possível, e descartados assim que espira a sua utilidade. As condições sociais, econômicas e geográficas do Brasil sempre fizeram dele um chão fértil para o surgimento da escravidão”. ( BRETON, 2002, pp. 221-222). O trecho acima foi extraído de Breton (2002), em que a autora explicita sua defesa à causa de trabalhadores submetidos a condições desumanas de trabalho no campo brasileiro. Neste livro a autora procura documentar casos de escravidão, registrando relatos de trabalhadores rurais submetidos a trabalhos forçados em grandes fazendas, sobretudo na Amazônia. O fragmento acima introduz um dos capítulos do livro, que tem como título “Escravidão negra, escravidão branca”. Recorremos à materialidade deste discurso - que é lingüístico-histórica - para compreendermos o seu funcionamento e sentidos produzidos. O encadeamento das duas seqüências discursivas que intitulam o capítulo do livro (escravidão negra, escravidão branca) inscreve-se em uma memória. Se pensarmos que escravidão negra remete a toda uma história de escravidão legal vigente até o século XIX, memória marcada de sentidos sobre o que representou/representa a escravidão na/para a sociedade brasileira, uma dos efeitos de interpretação produzidos é o de captação do sentido de escravidão em um novo contexto histórico. Em se tratando das condições de produção desse dizer que integra um livro o qual expressa a força da denúncia sobre a super exploração de trabalho no campo, podemos dizer que esta seqüência discursiva ao atualizar uma memória discursiva de escravidão, dela extrai ou capta sentidos históricos em favor do discurso que denuncia a existência de trabalho escravo contemporâneo. Tratar de escravidão no presente requer, portanto, a sua distinção da escravidão abolida no século XIX e, paradoxalmente, é necessário manter com ela o diálogo vivo para orientar sentidos atuais de trabalho escravo. Assim, “escravidão negra” remete-nos a uma memória social que fornece as bases imaginárias e ideológicas para compreendermos a segunda seqüência discursiva: “ escravidão branca”. Na seqüência do excerto, pode-se perceber como a memória discursiva sobre a escravidão do negro no século XIX é mobilizada para que se possa trabalhar no interdiscurso o sentido de escravidão branca. Pela paráfrase os sentidos se aproximam, se afastam, se excluem, mas no movimento entre um sentido e outro, o discurso trabalha sobre o interdiscurso. Nesse sentido, o sintagma nominal “escravidão branca”, por si já atualiza ou Publicado nos Anais do III Simpósio Internacional sobre Análise do Discurso: emoções, ethos e argumentação, 01 a 04/04/2008. Belo Horizonte, Minas Gerais-ISBN: 978-85-7758-056-9 9 produz interpretação de uma história de escravidão, transpondo sentidos de escravidão antiga para outro contexto histórico. A recorrência a escravidão branca reforça esse sentido de escravidão contemporânea, evidenciando que a escravidão permanece, embora revestida de novas práticas empreendidas pelo capitalismo. [2] Ao contrário do que possa parecer, a utilização da expressão “trabalho escravo” não constitui qualquer excesso de linguagem. Que outro nome usar para designar um sistema em que as famílias inteiras são deslocadas para pontos afastados do território nacional, tem seus documentos retirados, são constrangidos a assumir dívidas para a própria sobrevivência e são obrigados a trabalhar em condições degradantes, sob a mira das armas de pistoleiros? (MOREYRA, 1999, p. 22). O recorte 2 foi extraído da introdução de um livro organizado pela Comissão Pastoral da Terra (CPT- GO), no qual os autores, inseridos numa reflexão acerca do trabalho escravo contemporâneo, tematizam a prática de escravidão, convergindo todos os discursos para uma posição de combate a esta prática, ainda que a maneira de tratar a questão seja orientada por perspectivas diferenciadas. No excerto acima, observa-se também a luta pela fixação de um sentido (e não outro) para trabalho escravo. Neste discurso, o sujeito trabalha a construção de uma referência do objeto do discurso, estabilizando o que Courtine (Apud MAINGUENEAU, 1997) denomina de “rede de formulações”. O trabalho de fixação de uma referência e a exclusão de outras parece constituir o processo discursivo inerente a esta formação discursiva. Por exemplo, se por um lado, é possível identificar no funcionamento discursivo, o trabalho de “estabilidade referencial‟, por outro, na mesma medida, observa-se o trabalho de negação de discursos que afirmam ser descabido referir certas relações de trabalho no campo como trabalho escravo. Esse processo discursivo mostra-nos que a formação discursiva não possui relação apenas com enunciados que pertençam à rede de formulações interna. No recorte 2, a negação polêmica (ao contrário do que possa parecer) mostra que este discurso mantém vínculo também com discursos de outras formações discursivas que afirmam ser um exagero considerar a exploração de trabalho contemporânea sinônimo de escravidão. É nesse sentido que Maingueneau afirma que (...) “a toda formação discursiva é associada uma memória discursiva, constituída de formulações que repetem, recusam e transformam outras formulações” (MAINGUENEAU, Op. Cit. p. 115). O que se observa é um discurso que recorre e refuta o Outro para delimitar sua própria Publicado nos Anais do III Simpósio Internacional sobre Análise do Discurso: emoções, ethos e argumentação, 01 a 04/04/2008. Belo Horizonte, Minas Gerais-ISBN: 978-85-7758-056-9 1 0 identidade, alimenta-se do outro para negá-lo, produzindo um discurso no avesso de um outro também em circulação. 4.2. deslocamento de sentidos por aproximação [3] Código Penal: Art. 149. Reduzir alguém à condição análoga à de escravo, quer submetendo-o a trabalhos forçados ou a jornada exaustiva, quer sujeitando-o a condições degradantes de trabalho, quer restringindo, por qualquer meio, sua locomoção em razão de dívida contraída com o empregador ou preposto: Pena – reclusão, de dois a oito anos, e multa, além da pena correspondente à violência. § 1º Nas mesmas penas incorre quem: I – cerceia o uso de qualquer meio de transporte por parte do trabalhador, com o fim de retê-lo no local de trabalho; II – mantém vigilância ostensiva no local de trabalho ou se apodera de documentos ou objetos pessoais do trabalhador, com o fim de retê-lo no local de trabalho. § 2º. A pena é aumentada da metade, se o crime é cometido: I – contra criança ou adolescente; II – por motivo de preconceito de raça, cor, etnia ou religião ou origem Como já discutimos acima, o signo trabalho escravo - que tem seu nascedouro ideológico nas vivências dos sujeitos que se encontram na luta em defesa do trabalhador vem sendo mobilizado também pelo discurso jurídico, uma vez que a sociedade demanda cada vez mais interpretação da prática jurídica sobre escravidão contemporânea. Nesse sistema ideológico (o sistema judiciário), o sintagma trabalho escravo, embora assuma sentidos orientados pela posição ideológica desta formação discursiva, não goza de estabilização plena de sentidos próprios aos valores ideológicos desta esfera sem manter o contato com outras ideologias que também movimentam sentidos na expressão trabalho escravo, porque é desses sentidos cotidianos que a ideologia oficial extrai a seiva para construir seus sistemas ideológicos. Como adverte Bakhtin/Volochinov, os sistemas ideológicos oficiais estabilizamse a partir da ideologia do cotidiano e a esta retorna exercendo sua influência. O signo trabalho escravo tem seu nascedouro na ideologia do cotidiano e é a partir dela que adentra as Publicado nos Anais do III Simpósio Internacional sobre Análise do Discurso: emoções, ethos e argumentação, 01 a 04/04/2008. Belo Horizonte, Minas Gerais-ISBN: 978-85-7758-056-9 1 1 esferas jurídicas. Uma vez lá, passa a sofrer alterações. Em [3], por exemplo, temos o Artigo 149 que rege as condutas que violam direitos dos trabalhadores, e a elas estipula penas. Veja que o que para os sindicatos, organizações religiosas, defensores de direitos humanos é atestado e defendido como trabalho escravo, no Código Penal Brasileiro (CPB), é interpretado apenas como “condição análoga à de escravo”. Vejamos as acepções de análogo no dicionário Aurélio: Análogo Adjetivo 1. Em que há ou que demonstra analogia; semelhante, comparável, afim; 2. Fundado em analogia; aspectos análogos; 3. Diz-se dos órgãos ou partes que, conquanto sejam de regimes diferentes, tem a mesma função biológica. 4. Filosofia: diz-se de palavra, conceito ou atributo em relação de analogia (3 a 5) 5. História, Filosofia: Segundo os tomistas, diz-se especialmente de palavra, conceito ou atributo que se aplica, de modo nem totalmente diverso nem totalmente idêntico, objetos essencialmente diferentes. É uma qualificação que se situa a igual distancia de unívoco [q.v] e de equivoco [q.v.]. 6. Física: Diz-se de qualquer sistema, fenômeno, etc., e que tem analogia com outro (...) Como se pode depreender das várias acepções da palavra análogo, todas evocam semelhança, nem totalmente diverso, nem totalmente idêntico. É nesse sentido que condição análoga à de escrevo nem se afasta nem se aproxima totalmente dos sentidos que os discursos fundados na denúncia à pratica de escravidão procuram circunscrever a trabalho escravo. O efeito de sentido produzido pelo discurso jurídico é de distenção da polêmica instaurada no discurso dos sujeitos que se posicionam em defesa dos trabalhadores. Trata-se de um discurso que, sob a rubrica da suposta neutralidade, distenciona o que desde sua origem se constitui no jogo tenso das forças sociais e da luta de classes. A relação deste discurso com a memória discursiva produz um deslocamento de sentidos porque relativiza o embate Publicado nos Anais do III Simpósio Internacional sobre Análise do Discurso: emoções, ethos e argumentação, 01 a 04/04/2008. Belo Horizonte, Minas Gerais-ISBN: 978-85-7758-056-9 1 2 ideológico marcado no discurso. Esse gesto traduz a posição social e ideológica dos sujeitos que se inscrevem nesta formação discursiva, a qual se sustenta na ideologia de que a lei está acima dos homens, veiculando verdades que não resultam das ações dos homens. Nesse sentido, Bakhtin/Volochinov observa que “A classe dominante tende a conferir ao signo ideológico um caráter intangível e acima das diferenças de classe, a fim de abafar ou de ocultar a luta dos índices sociais de valor que aí se trava, a fim de tornar o signo monovalente” (Op. Cit, p. 47). Este é o trabalho de incorporação de um sistema de expressão da ideologia do cotidiano pela ideologia oficial, recebendo outros tons avaliativos de outra comunidade semiótica, nos termos bakhtinianos. Enquanto o discurso do militante reatualiza sentidos de escravidão em outro contexto sócio-histórico, valendo-se de toda carga negativa que a memória social mobiliza sobre escravidão, o discurso jurídico trabalha em direção à domesticação ou naturalização de sentidos. O que no discurso do militante aparece como equivalente (escravidão negra, escravidão branca), no discurso jurídico emerge como semelhança apenas. Um discurso trabalha com a expansão, alargamento de sentidos, o outro, com a contenção, a regulação de sentidos - regularidade própria do discurso jurídico. 4.3. A denegação da memória discursiva: efeito de disjunção Se trabalho escravo no discurso jurídico se apresenta como o espaço da mediação ou contenção da polêmica explicitamente instaurada no discurso em defesa do trabalhador, no discurso dos fazendeiros ou de seus representantes, a palavra trabalho escravo se introduz para ter seu sentido irredutivelmente negado. Vejamos os recortes abaixo: [4] Refutamos com a maior indignação qualquer alegação de trabalho escravo. Todos os trabalhadores na fazenda têm pleno direito de ir e vir, jamais reduzidos à condição de escravidão. (Depoimento de fazendeiro - extraído de Breton, 2002, p. 211). [5] Para nós da região trabalho escravo não é o que o MT entende que seja. (...) Mostrar ao Ministério do Trabalho os desvios de interpretação da lei que existem hoje na região, em virtude de ser uma região muito nova e de grandes distâncias. Nós temos, por exemplo, o Publicado nos Anais do III Simpósio Internacional sobre Análise do Discurso: emoções, ethos e argumentação, 01 a 04/04/2008. Belo Horizonte, Minas Gerais-ISBN: 978-85-7758-056-9 1 3 problema do barraco, ou seja, dos acampamentos. Isto é, os trabalhadores acampam, trabalham ali alguns dias, mudam o acampamento e passam a trabalhar em outro lugar dentro da mesma propriedade sucessivamente. Então, só isso já caracteriza escravidão, porque eles entendem que essa condição análoga à de escravo não é a ideal para trabalhar, tem características de escravidão, quando em verdade nós todos sabemos que isso não é transformar o trabalhador em escravo. (...) O que há são várias interpretações da lei em relação ao trabalho escravo e a respeito do que o Ministério do Trabalho entende como trabalho escravo, que para nós aqui não é isso (O Correio do Tocantins, 11-14/07/03, Caderno 2, p. 4). Maingueneau (Op. Cit.) defende, no quadro de uma perspectiva teórica da Análise do Discurso, que uma formação discursiva deve ser apreendida na interação entre formações discursivas e não na distinção entre um discurso e outro como blocos compactos e confinados a sua homogeneidade. A relação heterogênea entre discursos se depreende da relação destes com sua interdiscursividade constitutiva. Nesse sentido, quando uma formação discursiva “faz penetrar o seu Outro no seu próprio interior” (Op. Cit., p. 120), ocorre um processo de interpretação de sentidos alheios com as grades semânticas de seu próprio discurso. Neste caso, o sentido Outro é interpretado sempre como um mal-entendido ou como uma interincompreensão, de modo que, falando da mesma coisa, o sentido outro é interditado. Esse procedimento discursivo é possível de ser verificado no discurso dos “senhores” de fazendas ou representantes de grandes empresas agropecuárias. Nos recortes [4] e [5], o discurso do Outro é traduzido pelas regras que constituem a identidade do discurso deste grupo social. A memória polêmica sobre trabalho escravo é repetidamente marcada nos enunciados por índices de negação, o que denota a interdição de um sentido, embora ele precise ser convocado para ser interpretado com as regras que definem o discurso dos proprietários de fazendas. No recorte [4], a forma verbal “refutamos”, seguida de seu complemento “qualquer alegação de trabalho escravo”, sob o manto da generalização, produz efeito de denegação do discurso do Outro, silenciando todo e qualquer outro sentido que se possa construir sobre trabalho escravo. Nesse jogo, o processo de interincompreensão ou malogro parece polemizar com o discurso jurídico, sobretudo se atentarmos para a seqüência “direito de ir e vir” introduzida neste discurso como contrapalavras à voz jurídica que proclama o direito de ir e vir a qualquer cidadão. De forma semelhante, em 5, tem-se um discurso que se fundamenta na controvérsia com outros discursos. Índices de negação também marcam a denegação de Publicado nos Anais do III Simpósio Internacional sobre Análise do Discurso: emoções, ethos e argumentação, 01 a 04/04/2008. Belo Horizonte, Minas Gerais-ISBN: 978-85-7758-056-9 1 4 outras interpretações da realidade (...não é o que o MT entenda que seja...; ...nós todos sabemos que isso não é transformar o trabalhador em escravo...; .. para nos aqui não é isso...). O discurso do Outro é convocado e traduzido pela semântica do discurso interpretante, definindo sua identidade no avesso do outro discurso. Os ídices de negação (não) marcam a recusa do discurso do outro. Importante atentar para os dêiticos nós, aqui, hoje e isso, ancoragem de pessoatempo-espaço-objeto deste discurso. Se tomarmos estes índices para além de coordenadas de ancoragens contingentes e remetê-los a um universo de sentidos que a própria formação discursiva instaura e que ao mesmo tempo a legitima, é possível compreender estas ancoragens para além de pessoas e tempo-espaço da cena enuciativas e remetê-las a instituições discursivas que se inscrevem numa dada formação ideológica, relacionando-as, portanto, a identidade de discurso que põe em cena a luta e interesses de classe. Neste sentido, o nós circunscreve um grupo social cuja posição discursiva se “desenha” no embate com sentidos outros de trabalho escravo, daí é preciso perguntar: quem o nós referencia neste discurso? Quem o nós exclui neste discurso? Da mesma forma o aqui remete à topografia deste discurso, topografia que não deve ser vista como o espaço empírico de onde fala o sujeito que enuncia, mas o espaço discursivo de onde enuncia, espaço que compreende uma identidade de posições social, ideológica e imaginária. Aqui `marca‟ a inscrição do discurso que defende o modelo agrário vigente numa fromação discursiva que refuta sentidos outros sobre trabalho escravo. O dêitico hoje, por sua vez, referencia um tempo não cronológico, mas discursivo. Ora, estudos apontam que o embate ideológico em torno da questão do trabalho escravo adquire centralidade apenas a partir da década de 60, embora apontem também que formas de trabalho escravo sempre estiveram presentes da história do Brasil. A intensificação deste debate em função das pressões sociais vem produzindo a organização prática e discursiva daqueles que ocupam posição em defesa do modelo agrário vigente. Nesse contexto, o hoje produzido na materialidade deste discurso traça rupturas históricas. Novas compreensões da lei colocam os sujeitos desta formação discursiva em desacordo com a lei em vigência. Antes a questão do trabalho forçado no campo não era um problema de enfrentamento legal. O hoje instaura, portanto, uma nova conjuntura de enfrentamentos ideológicos e de classes sociais. Por fim, Isso, tendo como referente o objeto do discurso que é o tema trabalho escravo, é também delimitado e traduzido com a semântica deste discurso. Neste discurso isso Publicado nos Anais do III Simpósio Internacional sobre Análise do Discurso: emoções, ethos e argumentação, 01 a 04/04/2008. Belo Horizonte, Minas Gerais-ISBN: 978-85-7758-056-9 1 5 referencia trabalho escravo como a negação daquilo que o Ministério Público encara como tal. Como se vê, os dêiticos ultrapassam uma referência contingente ou uma realidade no mundo. Eles constroem o “retrato” de um discurso, delimitando sua identidade no jogo de forças orientadas pela ideologia. Sobre a deixis discursiva, embora não marcada nesses índices lingüísticos, Maingueneau argumenta: Se existe deixis é porque uma formação discursiva não enuncia a partir de um sujeito, de uma conjuntura histórica e de um espaço objetivamente determináveis do exterior, mas por atribuir-se a cena que sua enunciação ao mesmo tempo produz e pressupõe para se legitimar (MAINGUENEAU, 1997, p 42). 5. Conclusão Neste trabalho procuramos refletir como a palavra tem uma relação determinada com a ideologia do grupo social que a utiliza. A palavra adquire colorações ideológicas distintas conforme a situação histórica em que é utilizada. No discurso em defesa do trabalhador, trabalho escravo é escravidão, e, em certo sentido, é mais degradante ainda; no discurso jurídico, trabalho escravo é situação análoga a trabalho escravo, mas não é escravidão e para o fazendeiro as relações trabalhistas estabelecidas no campo determinantemente não são escravidão, não são trabalho escravo, construindo em seu discurso a ausencia desta prática. Assim, a palavra tem os sentidos que as formações discursivas orientam. Nesta concorrência de sentidos é que a palavra se revela como território de disputas ideológicas. 6. Referência BAKHTIN, M./Volochinov. Marxismo e Filosofia da Linguagem. São Paulo: Huicitec, 1929. _____. Os gêneros do discurso. In: ___ Estética da Criação Verbal. São Paulo: Martins Fontes, 1953/1954, pp. 279- 326. BRETON, B. le. Vidas roubadas: a escravidão moderna na Amazônia brasileira. São Paulo, Loyola, 2002. FERREIRA, A. B. de H.. Novo dicionário da língua portuguesa Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986. Publicado nos Anais do III Simpósio Internacional sobre Análise do Discurso: emoções, ethos e argumentação, 01 a 04/04/2008. Belo Horizonte, Minas Gerais-ISBN: 978-85-7758-056-9 1 6 FIGUEIRA, Ricardo Rezende. Pisando fora da própria sombra: A escravidão por dívida no Brasil contemporâneo. Rio de Janeiro. Civilização Brasileira, 2004. FOUCAULT, M. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Trad. Raquel Ramalhete. Petrópolis, RJ: Vozes, 1987. MAINGUENEAU, D. Novas Tendências em Análise do discurso. Trad. Freda Indursky. 3 ed. Campinas, S.P: Editora Pontes, 1997. MARTINS, J. de S. A escravidão nos dias de hoje e as ciladas da interpretação. In: Comissão Pastoral da Terra-GO. Trabalho escravo no Brasil Contemporâneo. São Paulo: Edições Loyola, 1999, pp127164. MOREYRA, S. P. Trabalho escravo no Brasil contemporâneo (Introdução). São Paulo: Edições Loyola, 1999. MIOTELLO, V. “Ideologia”. In: Brait, B. (org.). Bakhtin: conceitos-chave. São Paulo: Contexto, 2005, pp.167-176. RIBEIRO, N. B. 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