município de aveiro MUNICÍPIO DE AVEIRO Aveiro – Uma visão integrada da mobilidade urbana município de aveiro 45 aveiro – uma visão integrada da mobilidade urbana José Quintão Arquitecto do Departamento de Desenvolvimento e Planeamento Territorial Maria João Moreto Chefe de Gabinete do Presidente António Soares Assessor do Presidente Resumo As cidades, pela sua capacidade de atracção enquanto motor do crescimento económico e de competitividade mas também pela oferta cultural e desenvolvimento social, promovem concentração populacional, o que acarreta desafios de gestão para obviar os problemas de segurança, congestionamento e poluição. A preocupação dos municípios na melhoria da qualidade de vida nas nossas cidades exige reais alternativas ao automóvel privado nas deslocações em meio urbano. Perante os desafios ambientais e energéticos, procurar alternativas de mobilidade sustentável e activa exigirá uma profunda alteração do espaço público, elemento central do planeamento, palco da vida urbana e da integração social. A cidade de Aveiro (Portugal), pelas suas características naturais e pelos projectos em curso, encontra-se bem posicionada para enfrentar os desafios da mobilidade urbana sustentável. Particularmente, Aveiro tem condições ímpares para o encorajamento dos modos activos de mobilidade (pedonal e ciclável), encontrando-se agora a desenvolver uma visão integrada da mobilidade de modo atingir uma maior eficiência no funcionamento da cidade, com redução de custos ambientais e financeiros e óbvias vantagens para a vida dos seus cidadãos e empresas. Abstract Cities, due their attractiveness resulting for being the engine of economic growth and competitiveness, center of cultural offer and social development, promote population concentration, which causes nevertheless security problems, traffic congestion and pollution. The concern of municipalities, about improving the quality of life in our cities requires real alternatives to the use of private car as mean of transport in urban environment. Given the environmental and energy challenges, seek alternatives of active sustainable mobility will require a profound change in public space, a central element of the urban planning and area where urban life and social integration occurs. The city of Aveiro (Portugal), its natural features and the ongoing projects, is well positioned to face the challenges of sustainable urban mobility. In particular, Aveiro has unique conditions for the encouragement of active mobility (pedestrian and cycling), and is now developing an integrated vision of mobility system in order to achieve greater efficiency in the functioning of the city, reducing costs and environmental and financial obvious advantages for the lives of its citizens and businesses. município de aveiro 47 1 Introdução A forte concentração populacional nas cidades confere-lhes o estatuto de motores do crescimento económico e de competitividade territorial. Actualmente, já cerca de 85 % da população europeia vive em zonas urbanas (e a tendência é crecente) tornando-as em importantes pólos de crescimento e emprego. Por esse motivo, as cidades têm necessidade de sistemas eficientes de transporte em apoio à sua economia e ao bem-estar dos seus habitantes. As zonas urbanas estão hoje confrontadas com o desafio de assegurar a sustentabilidade dos transportes em termos ambientais (CO2, poluição atmosférica, ruído) e de competitividade (congestionamento), tendo ao mesmo tempo em conta a dimensão social, a qualidade de vida que providencia aos seus cidadãos e as necessidades das pessoas com mobilidade reduzida, das famílias e das crianças. A mobilidade urbana assume assim um papel crucial no funcionamento das cidades, sendo um dos principais desafios que se coloca ao seu planeamento e gestão, na actualidade. De facto, o fenómeno de crescente urbanidade confunde-se com a própria História das Civilizações. A Cidade enquanto defesa, representação ou utopia, é a prova mais evidente do sentido gregário da espécie humana, o seu ecossistema. O Espaço Público, quer a Ágora da Antiguidade Clássica, quer as actuais Praças são o palco para as manifestações de representação humana. A Urbanidade apresenta-se como um dos principais desígnios das civilizações modernas, e a cidade, o seu espaço público, é a “escola” da urbanidade. A cidade e o seu espaço público assumem-se como elemento identitário e referencial que acentua o sentido de pertença ao lugar. É aqui que se praticam as “normas” de socialização e se ensaiam as liberdades individuais e colectivas. Assim, e ao longo dos tempos, as cidades atraíram a maioria da população, em concentrações inimagináveis até há bem pouco tempo. São muitas as metrópoles europeias e mundiais com mais habitantes que alguns países. Sobretudo a partir da revolução industrial e consequente necessidade de mão-de-obra, as cidades não param de crescer. A sua capacidade de atracção enquanto motor do desenvolvimento económico, mas também a oferta cultural e as hipóteses de desenvolvimento social, promovem a concentração populacional. Todavia, se férteis no providenciar de oportunidades, as concentrações urbanas originam congestionamentos, nalguns casos de forma dramática, uma grande ineficiência no desempenho das cidades, dificuldades acrescidas na sua gestão, fortes índices de poluição, perigosidade para a saúde pública, e insegurança para os seus habitantes. São pois estes os novos desafios ambientais e energéticos que as cidades enfrentam no início deste novo século. A mobilidade de pessoas e bens é um dos principais consumidores de energia, maioritariamente energia de origem fóssil, por isso muito poluidora, e também origem de acidentes e insegurança. A cidade moderna, funcionalmente segregada, obrigou a um aumento exponencial de mobilidade para manter os mesmos níveis de acessibilidade aos bens e serviços. 48 movilidad sostenible en ciudades medias mobilidade sustentável em cidades médias Esta situação passou a constar da agenda de discussão das políticas públicas e a impelir a necessidade de se actuar, sob pena de se estar a hipotecar o futuro das nossas cidades, a sua economia e a vida dos seus habitantes. Num trabalho promovido pela Comissão Europeia em 1996 (Cidades Europeias Sustentáveis, relatório do grupo de peritos sobre Ambiente Urbano) reconhece-se que “A mobilidade é essencial para a subsistência das cidades. Porém, os níveis de saturação de tráfego atingidos, devido à predominância do veículo privado, estão a prejudicar o funcionamento eficiente de muitas cidades, ao reduzir a acessibilidade, e a deteriorar o ambiente a longo prazo. Os padrões de transformação urbana na Europa, nos últimos 40 anos, conduziram a mudanças significativas na forma como as pessoas se deslocam e nas distâncias percorridas em áreas urbanas. A urbanização e as alterações do modo de vida favoreceram o afastamento das residências e das actividades económicas. Isto, por sua vez, suscitou um grande aumento dos fluxos de tráfego e uma mudança radical nos meios de transporte – afastando-se cada vez mais da deslocação a pé, de bicicleta e em transporte público a favor dos veículos privados.” (Comissão Europeia, 1996). Neste contexto, as Cidades Médias apresentam-se melhor posicionadas para enfrentar estes novos desafios, melhorar a sua eficiência, reduzir a poluição e garantir segurança, ou seja, garantir uma gestão adequada do espaço urbano. Mas, para isso, será necessário alterar os sistemas de mobilidade, criando reais alternativas ao automóvel privado, pela melhoria dos transportes públicos, pela intermodalidade nas deslocações, pelos modos mais sustentáveis e activos. Perante os desafios ambientais e energéticos, procurar alternativas de mobilidade sustentável e activa exigirá uma profunda alteração do espaço público e da sua gestão, elemento central do planeamento, palco da vida urbana, da integração social e elemento central da mobilidade citadina. Para que se possa operar a necessária alteração ao, ainda presente, paradigma da mobilidade urbana há que adoptar políticas integradas e encontrar soluções inovadoras para os problemas existentes. O “Plano de Acção para Mobilidade Urbana da Comissão Europeia de 2009, incentiva a adopção de acções que promovam a interoperabilidade e a interligação eficazes entre diferentes redes de transporte, definindo-as como características essenciais de um sistema de transportes eficiente. Acredita-se que estes factores podem facilitar a transferência modal para modos de transporte mais respeitadores do ambiente e logísticas de transporte de mercadorias mais eficientes. A existência de soluções de transporte público económicas e atraentes para as famílias é essencial para incentivar os cidadãos a ficarem menos dependentes do automóvel, a utilizarem o transporte público, a andarem mais a pé e de bicicleta e a explorarem novas formas de mobilidade, como, por exemplo, a co-utilização ou co-propriedade de viaturas, a partilha de bicicletas e o uso de veículos mais ecológicos. Neste sentido, importa pois que as cidades possam ter acesso a conhecimento da experiência e práticas desenvolvidas por cidades que estejam mais avançadas em determinados domínios da mobilidade urbana sustentável. O presente artigo visa pois contribuir para partilhar a experiência que a cidade de Aveiro já detém em determinadas áreas, não obstante o muito caminho a percorrer, mas que constituem passos consistentes para a definição de uma estratégia integrada de mobilidade urbana sustentável. município de aveiro 49 2 Aveiro e Mobilidade Urbana Sustentável 2.1 O Território Aveiro é uma cidade média portuguesa, com forte dinamismo empresarial e sede de uma Região com cerca de 500.000 habitantes (NUT III Baixo Vouga). O Município de Aveiro tem 78.500 habitantes e situa-se na Região Centro de Portugal, 60 Km a Sul do Porto. Fruto do seu património natural, do seu tecido económico, da sua oferta cultural e das vivências urbanas que proporciona, a cidade de Aveiro é considerada como uma das cidades portuguesas que oferece melhor qualidade de vida. Um dos principais factores competitivos é o seu padrão de acessibilidades em termos rodoviários e ferroviários. Aveiro tem ligação com as principais Auto-Estradas do País. Nomeadamente a A1(Lisboa – Porto) e a A25 (IP5 no mapa) que assume o papel da mais importante infra-estrutura de comunicação com a Europa. A região é servida, também, pelo Porto de Aveiro, plataforma logística fundamental de Portugal que se encontra num processo contínuo de expansão e cuja ligação por via ferroviária facilitar o escoamento de mercadorias. Aveiro é uma cidade de água e, por muitos, reconhecida como a Veneza de Portugal. A Ria penetra na cidade através de canais criando uma imagem única de interligação entre o meio aquático e o meio urbano. Esta estreita simbiose entre a cidade e a sua Ria, conferem à paisagem um carácter exemplar de equilíbrio ambiental. figura 1 Padrão de Acessibilidades 50 movilidad sostenible en ciudades medias mobilidade sustentável em cidades médias Aveiro é uma cidade média com características naturais que propiciam a adopção de soluções de mobilidade sustentável. A dimensão da chamada “cidade consolidada”, as freguesias urbanas, entre a A25 e a 109 (NW/SE) e a A25 e o limite exterior do Campus da Universidade (NE/SW), não tem mais do que 3400X1800 metros, ou seja, uma área inferior a 7km2. Também a topografia é francamente favorável. Uma vez na margem da Laguna Ria de Aveiro, é praticamente plana, apesar de pontuais desníveis mais acentuados. figura 2 Panorâmica da cidade de Aveiro Estas duas características, dimensão e topografia, são muito convidativas aos modos activos de mobilidade, a pé ou de bicicleta. A cidade é toda facilmente percorrida de bicicleta em poucos minutos e, mesmo a pé, considerando círculos de acessibilidade a partir da habitação, trabalho ou escola, de 10,15 ou 20 minutos, facilmente se alcança os limites atrás definidos. Aveiro possui também uma escala humana, onde a média dos edifícios ronda os 4 pisos. Nas zonas mais recentes, onde o espaço público e os afastamentos são mais generosos, é que se verificam cérceas superiores aos 5 pisos. O centro da cidade, possui um núcleo histórico interessante, com um bom índice de ruas pedonalizadas e algum património edificado de onde sobressaem edifícios “art déco” e “art noveau”do início do século XX, mas também património civil e religioso anterior e posterior a esta data. Outro dos factores francamente favoráveis é a idade média dos seus habitantes. O concelho não chega aos 80.000 habitantes, a cidade terá metade, mas a cidade consolidada atrás definida tem cerca de 30.000 habitantes. A Universidade de Aveiro tem mais de 12.000 alunos e, apesar de sabermos que nem todos aqui moram, ou que moram provisoriamente, todos utilizam a cidade no dia-a-dia, aos quais acrescem os estudantes dos outros graus de ensino e demais jovens. 2.2 Aveiro como centro polarizador de uma “Constelação Urbana” Aveiro é a capital de uma vasta área poli-nucleada que é por ela polarizada, gerando grandes movimentos pendulares. Segundo os censos de 2001, o maior número de movimentos pendulares de toda a Região Centro foi verificado entre Aveiro e Ílhavo, com cerca de 7000 movimentos diários. Estas deslocações pendulares assentam essencialmente no automóvel privado. município de aveiro figura 3 Planta do Centro de Aveiro figura 4 Repartição das Viagens Pendulares pelos Principais Modos de Transporte (2001) e movimentos pendulares de Aveiro Concelhos de origem/destino Estradas Saídas 1991 2001 Variação 1991/2001 1991 2001 Ílhavo 3097 5675 83,2% 1239 1426 Albergaria-a-Velha 1345 1998 48,6% 220 331 50,5% Oliveira do Bairro 587 1091 85,9% 267 538 101,5% 1335 1623 21,6% 168 289 72% 806 1456 80,6% 119 248 108,4% 478 1027 114,9% 430 728 69,3% 7648 12870 68,3% 2443 3560 45,7% Estarreja Vagos Águeda Total Variação 1991/2001 15,1% Fonte: INE, Recenseamento Geral da População e Habitação, 2001 figura 5 Modos de transporte utilizados Legenda Colectivo Individual Pedonal Fonte: Instituto Nacional de Estatística 51 52 movilidad sostenible en ciudades medias mobilidade sustentável em cidades médias A presença do automóvel no centro de Aveiro é por demais visível. A ineficiência dos transportes públicos, em particular os intermunicipais, aliado aos maus hábitos urbanos, determina uma circulação excessiva de automóveis privados e, em particular, estacionamento indevido em todo o centro da cidade. Como resultado destes movimentos pendulares casa/trabalho, a tendência a que se procure estacionamento sem pagamento para todo o dia de trabalho origina muito estacionamento indevido. Também quem procura os serviços e o comércio que a cidade oferece, faz as suas deslocações maioritariamente em automóvel particular. O espaço público é muita das vezes invadido e existe uma enorme desproporção entre o que é dedicado ao automóvel e o que é dedicado aos modos suaves e sustentáveis. 2.3 A mobilidade sustentável nos Instrumentos de Planeamento Os principais instrumentos políticos e de ordenamento territorial nacionais, regionais e concelhios definem a necessidade de alteração do paradigma de mobilidade urbana actual, propondo orientações que, paulatinamente, Aveiro tem vindo a seguir. Ao nível supra-municipal podemos identificar no: - Programa Nacional para as Políticas de Ordenamento do Território (PNPOT), o reconhecimento de que se assiste a uma “ineficiência e insustentabilidade ambiental e económica nos domínios dos transportes e energia”, bem como uma “Deficiente intermodalidade dos transportes, com excessiva dependência da rodovia e do uso dos veículos automóveis privados e insuficiente desenvolvimento de outros modos de transporte…”. No seu Programa de Acção, no Capítulo referente à necessidade de se executar a Estratégia Nacional para a Energia e prosseguir a política sustentada para as alterações climáticas, propõe como medidas prioritárias nomeadamente: a)” Desenvolver planos de transportes urbanos sustentáveis, visando reforçar a utilização do transporte público e a mobilidade não motorizada e melhorar a qualidade do ar, nomeadamente em áreas de grande densidade populacional.” b) Regulamentar a utilização de veículos em meio urbano, tanto de transporte público como individual, de passageiros ou de mercadorias e mistos, definindo os índices de emissão admissíveis, através de medidas de incidentes na aquisição e na utilização. c) Desenvolver as redes de infra-estruturas, de equipamentos e de serviços de suporte à acessibilidade e à mobilidade, reforçando a segurança, a qualidade de serviço e as condições de equidade territorial e social.” O PNPOT propõe ainda o transporte acessível, a eliminação das barreiras físicas, como suporte de uma mobilidade sustentada, promovendo modos de transporte menos poluentes e mais atractivos, a integração física, tarifária e lógica dos sistemas de transporte que reforcem a intermodalidade. Paralelamente destaca a urgência de intervir na redefinição dos usos do solo, favorecendo a acessibilidade das populações em transporte público aos locais de emprego e aos equipamentos colectivos. - Plano Regional de Ordenamento do Território do Centro (PROT-C), que apesar de ainda não ter sido publicado está concluído e aguarda ratificação do Conselho de Ministros, pode ler-se que “Sendo certo que persistem limitações de cariz infra-estrutural que deverão ser colmatadas, entende-se que é sobretudo para a promoção de padrões de mobilidade mais sustentáveis que se deve apontar com maior prioridade, o que significa lançar as bases e criar as condições para a implementação de sistemas intermunicipais de transporte público mais eficazes e eficientes.” município de aveiro 53 Constata ainda que “a magnitude assumida pelos fluxos de transporte entre concelhos vizinhos em diversas áreas do território regional deve justificar modalidades mais estruturadas de colaboração entre os Municípios envolvidos, designadamente através do recurso a formas de integração institucional do tipo Autoridade/ Associação Intermunicipal de Transporte Público”. Ao nível municipal do planeamento, Aveiro tem feito repercutir esta aposta na mobilidade urbana sustentável, nos diversos documentos e instrumentos de gestão territorial que desenvolve. O Plano Estratégico do Concelho de Aveiro (PECA), publicado em 2010, considera na sua “Estratégia e Plano de Acção”, com um dos objectivos de desenvolvimento concelhio “Afirmar o espaço urbano, polarizado pela Cidade, como território inclusivo e agregador das múltiplas realidades socioeconómicas do Concelho”. Nesse sentido propõe a elaboração de um Programa Integrado de Promoção da Mobilidade de Aveiro (MOB_A). Os objectivos que persegue são: - Promover um processo continuado de cooperação e entendimento entre os vários operadores de transporte de Aveiro; - Reduzir os impactos ambientais da mobilidade motorizada como consequência directa da diminuição do tráfego rodoviário através de incentivos à utilização combinada de meios de transporte alternativos; - Oferecer um sistema de transportes funcional e adequado às reais necessidades do território concelhio; - Aumentar a utilização dos transportes públicos assim como os modos suaves e activos, nomeadamente da bicicleta e do andar a pé, como meios preferenciais de suporte às deslocações intra-concelhias de curta distância; - Sensibilizar a população para a importância da intermodalidade e da alteração de hábitos de mobilidade menos sustentáveis; - Valorizar o centro da cidade como espaço âncora na promoção de um sistema integrado de gestão da mobilidade urbana; - Criar condições à escala local, para a execução das propostas preconizadas pelo PROT no domínio da mobilidade, nomeadamente as que advierem da materialização da Autoridade Metropolitana de Transportes; - Reforçar o conceito “low carbon” na política e projectos no domínio da mobilidade, nomeadamente através valorização da integração na rede nacional de cidades com mobilidade eléctrica. Da análise destes documentos, PNPOT, PROT-C e PECA, concluímos que o pensamento estratégico, no que a esta matéria refere, aponta sempre no mesmo sentido: diversificar os modos nos movimentos pendulares, diminuindo acentuadamente a dependência do automóvel privado, e apostando no transporte colectivo, energeticamente mais eficaz, intermodal e de bilhética integrada, bem como na promoção dos modos activos, em particular nos centros urbanos. 54 movilidad sostenible en ciudades medias mobilidade sustentável em cidades médias O Plano Director Municipal de Aveiro (PDM), embora em processo de revisão, prossegue estas orientações, criando condições territoriais para a sua concretização, designadamente defendendo a: - Contenção dos perímetros urbanos; - Revitalização dos centros urbanos; - Adequação dos níveis de densificação urbana; - Consolidação dos valores patrimoniais. Destaca ainda a imperiosa necessidade de “Coordenar as políticas de mobilidade com as de ordenamento”, com vista à: - Redução da dependência de transporte individual poluente; - Diferenciação do trânsito de atravessamento para libertar o trânsito local; - Diversificação de percursos pedonais, cicláveis e fluviais. figura 6 Hierarquia viária município de aveiro 55 Considera assim o PDM fundamental qualificar os centros urbanos, o seu espaço público, como forma de criar centralidades identificáveis, que aumentem o sentido de pertença nos seus habitantes, e em que sejam melhoradas as condições de acessibilidade. É necessário conquistar espaço para o peão, reduzir a dependência do automóvel individual, mas também clarificar por característica funcional a hierarquia viária, definindo o trânsito de atravessamento e dando-lhe capacidade para os transportes colectivos, para a logística e transporte individual, e assim defendendo outros níveis viários, nomeadamente nas zonas habitacionais ou centros históricos em que o espaço pode ser menos segregado e mais partilhado por todos, desde que o trânsito automóvel esteja condicionado a velocidades baixas e aos moradores. Só assim o espaço público poderá ser entendido como prolongamento das habitações para o lazer e recreio dos habitantes em conforto e segurança. Conforme previsto no Plano Estratégico (PECA) a C.M. Aveiro está a desenvolver o Plano de Mobilidade para o Concelho que pretende assumir uma perspectiva integrada para a mobilidade concelhia, definindo como objectivos: • Alterar a repartição modal nas deslocações a favor dos transportes públicos e dos meios suaves, (pedonal e ciclável), melhorando as condições de mobilidade das populações; • Aumentar a qualidade da mobilidade e do ambiente urbano, aumentando as sinergias que possam resultar da complementaridade entre os diversos modos de deslocação; • Melhorar o funcionamento da rede de transporte colectivo urbano com a reestruturação da rede para uma boa cobertura territorial e temporal; • Aumentar a segurança, o conforto e a qualidade dos espaços prioritários ao peão e à bicicleta e limitar as condições de uso do automóvel nos centros urbanos mais sensíveis; • Executar políticas diferenciadas de estacionamento, tendo em conta as necessidades específicas dos residentes, dos empregados e dos visitantes; • Melhorar o desempenho ambiental do sistema de transportes, integrando o Plano de Mobilidade com o plano de Mobilidade eléctrica a desenvolver no âmbito da Rede Nacional da Mobilidade Eléctrica. 2.4 A mobilidade urbana e o Espaço Público O desenho do espaço público é comummente concebido e pensado para receber de forma capaz as deslocações em automóvel, não ponderando as necessidades específicas do peão e ciclistas, não contribuindo para a criação de oportunidades de interacção social e a fruição da cidade. A Carta de Leipzig sobre as cidades Europeias Sustentáveis (Maio, 2007) recomenda a criação de espaços públicos de alta qualidade, a modernização de infra-estruturas viárias, o aumento da eficiência energética e a promoção de modos de transporte eficientes. O sentido consensual destas directrizes é a inversão da abordagem tradicional, onde o transporte é privilegiado em detrimento da acessibilidade. Há que reduzir o peso excessivo do automóvel na paisagem urbana, procurando um reequilíbrio na distribuição do espaço público, promovendo desta forma uma maior actividade cívica, ruas vibrantes e o sentido de comunidade. Os espaços públicos distintos são essenciais para a qualidade de vida: ajudam as cidades a criar e manter locais de forte centralidade, a promover a qualidade ambiental, a competitividade económica e o sentido de cidadania. São elementos determinantes na promoção da mobilidade sustentável, uma vez que permitem influenciar ou condicionar a escolha do modo de deslocação. 56 movilidad sostenible en ciudades medias mobilidade sustentável em cidades médias Aveiro começou já, nesta etapa, a identificar e caracterizar de forma sumária os principais espaços públicos estruturantes, dando particular atenção às questões relacionadas com a acessibilidade e a mobilidade. Os objectivos gerais, que caracterizam a situação desejável que se pretende alcançar em termos de mobilidade sustentável, são nomeadamente: - Assegurar a acessibilidade multimodal aos postos de trabalho para todos, equipamentos, comércio e serviços (inclui a questão do estacionamento como elemento regulador da opção de mobilidade); - Equilibrar a utilização do transporte individual; - Melhorar a atractividade do transporte colectivo; - Promover os modos suaves (peão e bicicleta); - Equilibrar a afectação do espaço público aos diferentes modos de transporte; - Assegurar a qualidade ambiental; - Garantir a segurança das deslocações; - Promover a acessibilidade como forma de inclusão social . 2.5 Projectos Municipais na área da Mobilidade Sustentável A par do enquadramento de planeamento que se desenha, o Município de Aveiro tem vindo a concretizar projectos, tanto na qualificação do seu Espaço Público, como no incentivo à Mobilidade Sustentável. A imagem de cidade moderna, criativa e inovadora, para o que contribui a Universidade de Aveiro, a PT Inovação e de uma forma geral, o empreendorismo da sua economia e relação com as novas tecnologias, também se prende com estes projectos que descrevemos de forma sucinta. 2.5.1 Pedonalização nos Centros Históricos e Centros Urbanos Com a democracia começa um renovado olhar sobre o património histórico, agora não exclusivo aos monumentos das suas cidades, mas também aos conjuntos edificados cujo valor não está na singularidade dos edifícios, mas na singularidade da paisagem e da vivência urbanas. Também em Aveiro os projectos de Reabilitação Urbana, primeiro com o GTL (Gabinete Técnico Local), depois com o GRUA (Gabinete de Reabilitação Urbana de Aveiro), começaram as obras de pedonalização, em particular nos centros históricos, cujo objectivo foi valorizar o espaço público como forma de incentivar a reabilitação urbana, atrair novas funcionalidades e dar vivência mais urbana e turística a estes conjuntos, disciplinando o trânsito automóvel e o estacionamento. Mais tarde, já nos anos 90 do séc. XX, Aveiro aderiu à primeira geração de PROCOM que, pela primeira vez, associou as questões do espaço público à regeneração do comércio de rua que sente a concorrência dos Centros Comerciais em expansão. Ainda nos finais da década de 90, instalou-se no centro o Fórum de Aveiro que, apesar do seu carácter comercial, seguiu a estratégia de desenho urbano da cidade, ligando percursos, passando a ser uma zona pedonal de ligação no centro da cidade. O Programa Polis de Aveiro, cujas obras de efectivaram já na primeira década do séc. XXI, apostou no “investimento no chão” ou seja, construir espaço público de qualidade, privilegiando as frentes de água, como forma de atrair investimento na regeneração da cidade. município de aveiro 57 figura 7 Obras de pedonalização por década O conjunto destas obras melhorou a atractividade do centro de Aveiro, o que se nota, por exemplo, no aumento do turismo urbano em Aveiro. Recentemente, a indisciplina no trânsito e em particular no estacionamento automóvel, estão a degradar a qualidade do espaço público, havendo urgência de uma maior intervenção das forças de segurança e de melhorias na cultura cívica dos cidadãos. 2.5.2 Parque da Sustentabilidade – PdS Este projecto foi aprovado no âmbito do Programa Operacional da Região Centro, sendo financiado por Fundos Comunitários (União Europeia), encontrando-se actualmente em execução os vários projectos que o constituem. Para este projecto foram estabelecidas parcerias com diversos agentes locais (Universidade, Associações Culturais, Desportivas e Empresariais e Junta de Freguesia.), pretendendo-se alcançar um processo de regeneração sustentável para a área de intervenção, mas ainda integrá-la num processo de Desenvolvimento Sustentável. Esta área corresponde a um dos principais eixos pedonais da cidade. Liga o Centro (Jardim do Rossio, Beira-Mar) para Sul passando no Bairro do Alboi, Baixa de Sto António (parque), Parque Infante D. Pedro (parque), Parque dos Amores (parque), Rua das Pombas, e tem prolongamento natural pelos Jardins da Urbanização de Santiago. Trata-se de um dos principais eixos verdes da cidade, correspondente às linhas de água predominante, por isso muito ligado ao lazer urbano, mas corresponde a um eixo de mobilidade, uma vez que liga o centro a alguns dos principais 58 movilidad sostenible en ciudades medias mobilidade sustentável em cidades médias equipamentos, como a Fábrica da Ciência, o Clube de Ténis, o Conservatório de Música, a Universidade, o Hospital, escolas e dá acesso ainda ao Governo Civil e ao Tribunal. Por isso, os atravessamentos pedonais e de bicicletas mereceram especial atenção, criando-se um contínuo de percurso, como seja a Ponte Pedonal sobre o Canal Central e a ligação ao Canal do Paraíso, a ligação entre o Bairro do Alboi e o jardim da Baixa de Sto. António, ou a ligação entre os dois parques verdes, sobre a Av. Artur Ravara. Qualquer uma destas ligações será acessível e proporciona prioridade ao peão, constituindo-se assim como um eixo pedonal acessível. figura 8 Masterplan do Parque da Sustentabilidade O projecto procura assim criar um espaço urbano de elevada qualidade, através da recuperação da área verde que integra a extensão da área de intervenção, promovendo a adopção de hábitos de vida mais saudáveis. Pretende criar ainda condições para a existência de condições de “Mobilidade para todos” privilegiando e incentivando a mobilidade pedonal e ciclável, mas também dotando o espaço de características adequadas ao acesso a pessoas com mobilidade reduzida (pessoas idosas, pessoas que transportam bebés ou que vêem a sua mobilidade reduzida temporariamente). 2.5.3 BUGA – Bicicleta de Utilização Gratuita de Aveiro O projecto BUGA teve o seu início formal em 1 de Abril de 2000, tendo sido o primeiro projecto em Portugal, e dos primeiros na Europa, de bicicleta urbana partilhada e sem custos para o utilizador. município de aveiro 59 figura 9 Parques no Centro da Cidade Para além da bicicleta de modelo exclusivo, foram desenhados e construídos os equipamentos (Loja, estacionamentos, suportes para sinalética, adquirida uma carrinha para reposição das bicicletas nos pontos de estacionamento, e criada uma sinalética específica para as BUGAS e outras bicicletas, para sinalizar percursos, atravessamentos, limites de utilização, etc.) No modelo original era possível pegar numa bicicleta em qualquer dos 32 estacionamentos e largá-la em qualquer um deles, sem qualquer pagamento. Como nos carrinhos de supermercado, utilizava-se uma moeda para soltar a bicicleta que se reavia na reposição em qualquer parque. Inicialmente assistiu-se a alguns furtos, que acabaram por não resultar, uma vez que a bicicleta tem um desenho reconhecível. Houve também quem as retivesse por algum tempo, mas acabavam por voltar ao sistema, pelo menos quando se avariavam ou furava um pneu, pelo que o número de bicicletas realmente desaparecidas é pouco significativo. A dificuldade prendese com a manutenção, sobretudo provocada pela utilização indevida e abusiva, tanto mais que nunca foi realmente explorada a vertente comercial prevista, ou seja, a exploração publicitária dos painéis que envolvem as rodas. No entanto a maior dificuldade está em encontrar o modelo de gestão adequado, uma vez que existem estudos para melhorar a performance das bicicletas, nomeadamente no que diz respeito aos furos e às avarias. 60 movilidad sostenible en ciudades medias mobilidade sustentável em cidades médias Assim, no presente, só é possível levantá-la na loja, ou por prévia marcação. É ainda um sucesso no que refere o lazer e o turismo, uma vez que é agora a utilização mais viável. figura 10 Festa do primeiro aniversário da BUGA 2.5.4 Projecto LifeCycle – Bicicleta é Vida O projecto LifeCycle trata-se de um projecto europeu de Mobilidade Saudável, a que Aveiro aderiu, sob coordenação do seu Gabinete de Mobilidade, tendo como objectivo promover alterações aos estilos de vida sedentários e consequentes problemas de saúde, conjugando a actividade física com as rotinas diárias de mobilidade dos cidadãos (desde a infância até aos cidadãos seniores), com o recurso à bicicleta. O projecto teve a duração de 3 anos e acabou em Maio de 2011. A sensibilização fez-se sobretudo com convites à experimentação da utilização da bicicleta e, conforme o nível etário a que se destinou, procurou a linguagem e os desafios mais adequados. Promover a bicicleta entre os alunos universitários, em particular os caloiros, com recurso a “embaixadores”, a ciclos de conferências, e a passeios de bicicleta organizados no início do ano, para mostrar aos novos alunos a cidade. Mas ainda com iniciativas dedicadas à 3ª idade, à população que trabalha -“de selim para o trabalho” e ainda para a população em geral, como a realização da feira de bicicletas usadas e reparadas, a preços muito baixos, sempre com o intuito de promover experiências emocionalmente positivas que levem os cidadãos a querer ensaiar alterações comportamentais. município de aveiro 61 figura 11 Acção de promoção de deslocação em bicicleta 2.5.5 MOBI.E A Rede MOBI.E é uma rede de carregamento inteligente para veículos eléctricos, à qual Aveiro aderiu. Presente em todo o território nacional e acessível por todos os utilizadores, a Rede MOBI.E permitirá repor os níveis de energia gastos de forma e simples e cómoda. Mas a rede MOBI.E é mais que um conjunto de pontos de carregamento. A tecnologia desenvolvida permite ao utilizador localizar e seleccionar locais de carregamento, planear trajectos, saber o estado de carregamento do seu veículo, entre outras operações. A qualquer momento, através do seu computador pessoal ou do telemóvel, o utilizador poderá seleccionar as operações mais vantajosas, assim como analisar a sua factura de mobilidade com o objectivo de optimizar consumos. A fase piloto contempla a instalação de uma Rede Piloto com 1.300 pontos de carregamento normal e 50 pontos de carregamento rápido em espaços de acesso público em Portugal Continental. 62 movilidad sostenible en ciudades medias mobilidade sustentável em cidades médias Estes 1.300 pontos de carregamento normal serão colocados em Almada, Aveiro, Beja, Braga, Bragança, Cascais, Castelo Branco, Coimbra, Évora, Faro, Guarda, Guimarães, Leiria, Lisboa, Loures, Portalegre, Porto, Santarém, Setúbal, Sintra, Torres Vedras, Viana do Castelo, Vila Nova de Gaia, Vila Real e Viseu. Em Aveiro foram já instalados 17 postos dos 54 previstos até 2014. figura 12 Postos em Aveiro, executados e previstos município de aveiro 63 2.5.6 Táxis da Ria Tirando partido da Ria de Aveiro, o projecto pretendeu dotar os canais urbanos da Ria das infraestruturas necessárias ao embarque e desembarque de passageiros, bem como construir barcos específicos para navegarem nestes canais, com motores não poluentes de alimentação eléctrica, capazes de transportar em segurança quem os desejar utilizar. figura 13 Táxis da Ria O protótipo desenvolvido é constituído por um casco já testado e agora adaptado, em fibra de vidro, tipo catamaran, a que se associa uma capota também em fibra e as restantes funcionalidades para sentar sete passageiros e o arrais, à frente; o motor eléctrico desenvolve 2, 75 Kw que, para as características da embarcação e para a velocidade permitida nos canais, 3 nós, se demonstra suficiente, bem como um conjunto de baterias que garante a autonomia de 5 horas de funcionamento. O desenho da embarcação, bem com a decoração, emprestam uma imagem exclusiva e identificável com a cidade. Está a ser elaborado o plano de localização dos cais de embarque e desembarque de passageiros a fim de determinar os circuitos, tanto para carreira regular, como para a utilização “por encomenda”, tipo “táxi”. 64 movilidad sostenible en ciudades medias mobilidade sustentável em cidades médias O Departamento de Mecânica da Universidade de Aveiro, já demonstrou interesse em optimizar as questões da potência e a nova fábrica de baterias eléctricas, que está a ser montada em Aveiro, poderá trazer novas oportunidades na questão da autonomia, pelo que aguardamos oportunidade para retomar o projecto. Entretanto os canais já foram parcialmente equipados com os cais de embarque, que estão a ser usados pelos barcos que promovem os passeios turísticos nos Canais Urbanos. 2.5.7 Active Access – A Cidade a Pé Este projecto europeu teve como palco em Portugal a cidade de Aveiro que desenvolverá políticas para aumentar a circulação pedonal nas pequenas deslocações, pela alteração do “mapa mental” dos cidadãos, permitindo-lhes que ganhem consciência das hipóteses de compras, serviços e lazer na sua vizinhança. Assim consegue-se redução no consumo de energia e emissões, bem como a melhoria na saúde das populações, prosperidade do comércio de rua e ainda o aumento do sentido de pertença a um lugar, reforçando os laços de vizinhança e um maior sentido de urbanidade. figura 14 Brochura com Mapa da Zona de Intervenção município de aveiro 65 Integrado no programa Intelligent Energy que envolve 15 parceiros de 13 países, o projecto iniciou-se em Agosto de 2009 e termina em Julho de 2012. Esta tipologia de projecto não financia obra física, pretendendo trabalhar os comportamentos dos cidadãos e, por isso, integra campanhas e acções que transmitam a mensagem do projecto. Em Aveiro, a área de intervenção coincide com o Bairro da Beira Mar, mas as campanhas têm sido mais abrangentes. Quando falamos de alterar comportamentos urbanos, a tarefa depara-se como muito difícil, mas conseguiremos bons resultados se nos centrarmos em alterar a percepção comum sobre a dificuldade deste modo de mobilidade. Andar a pé, para além de ser o “cimento” da intermodalidade, ou seja, mesmo quando usamos outros modos este estará sempre presente, dá prazer e é saudável. A sensibilização dirige-se também aos decisores políticos, mas igualmente aos técnicos municipais, aos saberes académicos e ao público em geral. Ao longo do projecto, foram feitas várias acções de que destacamos dois seminários internacionais, 18 de Março 2010 “A Cidade a Pé” e 4 de Outubro de 2011 “Espaço Público: Acessibilidade e Cidadania”, em que estiveram presentes especialistas europeus e as universidades portuguesas, muito participados e vivos, que demonstram o interesse crescente nestas matérias. Destaca-se ainda uma acção – avaliação do “Índice de Pedonalidade” em que, com a presença de decisores políticos, técnicos comerciantes e comunicação social, foi avaliado um percurso na zona de intervenção, para alertar para os obstáculos e discutir as características de um bom percurso pedonal. figura 15 Cartazes dos Seminários 66 movilidad sostenible en ciudades medias mobilidade sustentável em cidades médias O sucesso deste tipo de projecto e mesmo a sua razão de existir, depende das parcerias sociais que são conseguidas. No Active Access para Aveiro, foram estabelecidas parcerias importantes, com a Associação Comercial, uma vez que os comerciantes são os mais directos beneficiados com o aumento da circulação pedonal, mas também com a AGIR – Associação para a Modernização e Revitalização do Centro Urbano de Aveiro, com a EPA – Escola Profissional, que envolveu alunos na pesquisa e acções de rua, a Junta de Freguesia e o turismo municipal (Welcome Center). Também a comunicação social é muito importante nestes projectos, pelo que é fundamental manter a proximidade, pelo que conseguimos ampla divulgação nos jornais, rádios e televisão, com notícias, reportagens e entrevistas, que alertam os cidadãos para a discussão dos temas. Das aplicações, destacamos o Mapa Pedonal, em duas fases, a primeira dedicada aos moradores e comerciantes da área de intervenção, Beira-Mar, distribuído porta a porta, onde pretendemos demonstrar que, num raio de 4 minutos a pé, existe tudo, ou quase, o que necessitam no quotidiano em matéria de comércio, serviços e equipamentos. Também para os utilizadores da cidade, centro, foi executado um mapa com a escala em minutos a pé que, para além dos círculos de 4 minutos, contém uma tabela com as distâncias em minutos a pé dos principais geradores da cidade: estação CP, Universidade, Centro Histórico, Loja do Cidadão, etc. figura 16 Mapa Pedonal da Cidade município de aveiro 67 2.5.8 RAMPA – Regime de Apoio aos Municípios Para a Acessibilidade O Plano Operacional para o Potencial Humano, criou o Regime de Apoio aos Municípios para a Acessibilidade, a que Aveiro se candidatou, obtendo a aprovação de financiamento para desenvolver os dois planos submetidos: O Plano Local, para a cidade, e o Plano Municipal para os centros de Freguesia. Numa segunda fase, com a execução dos planos, será possível candidatar obras no espaço público que permitam uma estrutura mínima de percursos acessíveis. Enquanto a mobilidade é quantitativa, o movimento de pessoas e bens, e pode ser medido, a acessibilidade é qualitativa, e define a facilidade de acesso das pessoas às actividades, aos bens e a outras pessoas, sendo mais justamente avaliada em qualidade de vida. É um erro pensar que a acessibilidade para todos só diz respeito às pessoas com dificuldade de locomoção. Estes projectos colocam o conceito de Acessibilidade Universal no centro das preocupações, isto é, diz respeito a todos nós, cidadãos, porque da qualidade do espaço público depende também a acessibilidade e está directamente relacionado com a qualidade de vida. O processo de planeamento está ainda no início, mas é já evidente que vai ser necessário estabelecer como prioridade uma rede mínima de percursos acessíveis. 3 Conclusões A adopção de modelos e práticas de mobilidade urbana sustentáveis constituem uma inevitabilidade, para enfrentar os grandes desafios com que as cidades se debatem, em virtude da primazia dada ao automóvel, como forma de deslocação nas cidades. Aveiro tem condições naturais propícias ao desenvolvimento dos modos suaves e activos de mobilidade, sendo que, para que isso se possa repercutir positivamente no funcionamento optimizado da cidade e na melhoria da qualidade de vida dos cidadãos, há que ter uma perspectiva integrada de toda a mobilidade urbana. Os projectos já desenvolvidos são um primeiro passo importante, sendo que haverá muito ainda a fazer. Este trabalho só será eficaz se sujeito a uma visão integrada, quer no planeamento, quer no projecto e execução, se envolver para além dos decisores políticos, os técnicos, todos os parceiros relevantes e as populações dos territórios, porque só a participação pode aprofundar o sentido de cidadania e alterar a percepção e os comportamentos. O espaço público é a matéria das cidades que importa trabalhar para atingir estes objectivos.