SEGREGAÇÃO URBANA E RACIAL EM SÃO PAULO Reinaldo José de Oliveira PUC SP – [email protected] Resumo Este trabalho analisa a segregação da população negra em São Paulo, a principal metrópole do capitalismo brasileiro e latino-americano. Na capital paulistana a população negra tem um papel histórico e contemporâneo imprescindível, ela participou e se mant ém presente em todas as etapas da economia local, nacional e internacional. Buscou-se conhecer a origem e o desenvolvimento da segregação em São Paulo, particularmente da população negra. Concluiu -se que a segregação sócio-espacial é insuficiente para examinar o quadro histórico e contemporâneo de negros e negras na capital paulistana. Palavras-chave: cidade. racismo. relações raciais. segregação. SEGREGAÇÃO URBANA E RACIAL EM SÃO PAULO INTRODUÇÃO Em princípio, a produção da academia brasileira nega que exista a segregação racial. Portanto, a produção nacional aborda em sua s reflexões a segregação sócio-espacial, centro versus periferia ou a segregação da pobreza versus a segregação da riqueza (Villaça , 2001; Torres, 2005) Recentes estudos vem se dedicando à análise e reflexão, elegendo raça/etnia como categorias analíticas centrais para a observação da segregação da população negra (Oliveira, 2008; Vargas, 2005). Para demonstrar se há ou não segregação de base racial, analiso as principais referências da academia brasileira sobre segregação e, sobretudo, trabalhos que abo rdam a segregação da população negra e as territorialidades negras. Abordar a segregação em São Paulo, focalizando a clivagem da condição social e raça/cor, altera e propõe outra discussão na academia e na sociedade brasileira, esta reflexão nos encaminha à problematizar a busca por igualdade e o direito à cidadania para todos os indivíduos que vivem, trabalham e constroem a cidade; ricos e pobres, brancos e negros e homens e mulheres. Na história e em nossa contemporaneidade, há um acumulo de benefícios, oportunidades e vantagens, restritas à população branca e extensiva aos segmentos socioeconômicos. Na capital paulistana, a segregação proporciona diferentes (di)visões territoriais: de um lado, àqueles que lucram e se beneficiam com o racismo e as desigualdades, como os segmentos pertencentes às classes média e alta branca, que continuam mantendo seus privilégios, de outro lado, a população negra que sistematicamente vive nos lugares da pobreza e das desigualdades. SEGREGAÇÃO URBANA A segregação desponta com a afirmação da sociedade urbana industrial, ou seja, a partir da revolução industrial que despeja nos grandes centros a classe trabalhadora. A luta de classes sociais é uma relação que se constitui em torno dos bens materiais e simbólicos, que é política, social, econômica e espacial. Os espaços das cidades são os lugares onde estas lutas, conflitos, vitórias e derrotas se inscrevem, ora a partir da história dos segmentos sócio-econômico de mais alta renda e, ora por intermédio dos segmentos sociais de baixa renda. Lojkine (1977) distingue três tipos de segregação urbana: 1. Uma oposição entre o centro e a periferia, onde o preço do solo varia conforme o lugar; 2. Uma separação crescente entre as zonas e moradias reservadas às camadas sociais mais privilegiadas e as zonas de moradia popular. 3. A divisão generalizada da cidade em funções de uso e consumo, disseminadas geograficamente em zonas especializadas: regiões de escritório, indústrias, comércio, moradia, ciência e tecnologia e as áreas de cultura e lazer. É o que a literatura acadêmica e a legislação tratam de zoneamento urbano. Para Castells (1983) a segregação urbana interfere na organização do espaço em zonas de forte homogeneidade social interna e com bruscas disparidades sociais entre elas, sendo esta disparidade compreendida em termos de diferenças e de hierarquia. A segregação urbana aparece como uma rede complexa que separa não só as residências, mas se estende às formas de produção e reprodução da força de trabalho e das forma s mais variadas de apropriação do espaço social (referente aos valores de uso e aos valores de troca que constituem o corpo da cidade). A literatura marxista é uma fonte muito importante para melhor delinear a segregação urbana. Segundo a abordagem marxista, a segregação urbana aparece como resultado dos processos de exclusão resultante dos conflitos sociais na luta pelo espaço (Véras, 1991). Harvey (1980) é um dos principais pesquisadores contemporâneos, cuja abordagem tem como referência a análise marxista sobre a cidade e o urbano. De acordo com o autor, o valor de uso e o valor de troca constantemente mudam de posição e lugar, através da forma que eles ocupam na mercadoria 1. Na cidade e, em particular, em todo o processo da segregação urbana o valor de troca vem ganhando a luta contra o valor de uso, que determina a mercantilização da terra, das benfeitorias e do ambiente construído. Para Harvey 1 A mercadoria tem dois valores, que são produzidos em todas as etapas até ser consumida. Valor de uso é um bem material essencial para todas as realizações do consumo, como o alimento, o vestuário, a habitação, os meios de transporte e, nos dias de hoje, os meios de comunicação do mundo virtual. O valor de troca é a transformação do valor de uso em necessidades do mercado e do consumo, por exemplo, a força de trabalho, o mercado imobiliário da terra e da habitação, os serviços privados de consumo coletivo, etc. (1980) o ambiente construído se divide em elementos de capital fixo a serem utilizados na produção (fábricas, rodovias, ferrovias, etc.) e em elementos de fundo de consumo a serem utilizados no consumo (ruas, casas, parques, passeios, etc). Na sociedade capitalista e contemporânea, o ambiente construído é produzido pelo Estado, capital imobiliário, pela iniciat iva privada e outros atores que atuam no espaço urbano. Geralmente, os atores que ditam a segregação urbana interferem nos espaços da cidade que irão receber os principais instrumentos do ambiente construído, como hospitais, escolas, setor de negócios fin anceiros, mercado de trabalho, rede de transportes (metro, trens e ônibus), centros de ciência e tecnologia, dentre outros. A literatura sociológica sobre segregação não é absoluta, em diferentes sociedades e contextos espaciais as diferenças estão prese ntes. Do século XX aos dias de hoje, as lutas do e pelo espaço não se resume à segregação sócio-espacial. Existem outros mecanismos que movem e dão forma à segregação urbana, com ou sem a vontade explícita dos atores sociais envolvidos. A segregação voluntária entra em cena quando determinado grupo social decidi ocupar ou deixar determinada área. Um exemplo típico é a segregação da riqueza em São Paulo, que no decorrer do século XX foi se deslocando para o quadrante sudoeste 2. A outra face, a segregação involuntária, como a segregação da pobreza que muda de lugar conforme o seu poder de compra, geralmente, nos últimos lugares da cidade onde o mercado imobiliário da terra e da habitação não tem interesse ; em loteamentos irregulares, morros, cortiços e favelas (Villaça, 2001). A elaboração de políticas públicas para combater a segregação deve ter como orientação a cidadania e a igualdade para todos. Nós só podemos pensar em uma sociedade democrática e cidadã, onde todos possam ter os mesmos direitos de igualdade, mobilidade, comunicação, moradia digna e usufruto de tudo o que a cidade produz, a partir de políticas de combate e eliminação da segregação e das desigualdades. A literatura da academia brasileira pouco observou a segregação da população negra (Villaça, et al. 2001). A raça não é uma categoria analítica central nos estudos sobre segregação no Brasil, quando aparece ocupa um lugar de pouco 2 São Paulo do ponto de vista político administrativo tem 96 distritos, a região sudoeste reúne os distritos mais ricos e de melhor infra-estrutura urbana, dentre eles: Perdizes, Vila Mariana, Itaim Bibi, Moema, Morumbi, etc. destaque. Vargas (2005) contextualiza que a literatura nacional aborda raça nas entrelinhas, ou seja, está no universo da segregação da pobreza. SEGREGAÇÃO E RELAÇÕES RACIAIS A construção da segregação racial no Brasil só pode ser interpretada a partir da análise da literatura nacional, a primeira fase, referente aos anos de 1900 até 1950, particularmente, as obras que inauguram a Pesquisa Unesco no país 3. A segunda fase, tendo como base os estudos das décadas de 1960 até o final de 1990. Por último, a terceira fase, o final da década de 1990 até os nossos dias. Inicialmente, Florestan Fernandes e Roger Ba stide (1971) observam a cidade e a realidade urbana de São Paulo em constante metamorfose, tendo como eixo de análise a questão das desigualdades entre brancos e negros. Segundo Fernandes e Bastide (1971), mesmo vivendo e participando da construção da economia local e nacional, a população negra vivia restrita aos muros da cidade, nas ocupações mais humildes e mal remuneradas (Fernandes e Bastide, 1971). A transição da economia agrícola para a urbana industrial proporcionou progresso e desenvolvimento para a cidade de São Paulo. Porém, as oportunidades criadas foram parar nas mãos dos trabalhadores nacionais brancos e imigrantes. A mão-de-obra negra foi segregada nas ocupações mais modestas e que exigiam esforço físico e de baixa remuneração. No corpo da c idade, brancos e negros compartilhavam a mesma geografia social de São Paulo. O branco e o imigrante habitavam as casas, sobrados e cortiços, quanto aos negros, as habitações mais insalubres e precárias, geralmente, os porões. Homens e mulheres negras hab itavam os subterrâneos de São Paulo, mesmo ocupando as mesmas posições na hierarquia social. Em “A Integração do negro na sociedade de classes” Fernandes reitera as desigualdades sociais na sociedade em mudança. Dentre as contribuições mais emblemáticas, destacamos três questões: 1. a primeira, trata-se da sobrerepresentação branca e imigrante nos espaços mais importantes da economia paulistana; 2. até as três primeiras décadas do século XX, o progresso e o 3 A Pesquisa Unesco nos idos de 1940, tinha como objetivo, comprovar que em solo brasileiro a idéia de democracia racial era fértil, um verdadeiro paraíso racial. Os resultados dos primeiros estudos, como os de Florestan Fernandes e Roger Bastide, comprovaram que o mito da democracia racial não é real no cotidiano brasileiro. desenvolvimento ficaram nas mãos dos brancos; 3. a crítica em relação ao mito da democracia racial (Fernandes, 1965). Com a sociedade urbana industrial em desenvolvimento, a inserção do negro na sociedade de classes foi necessária. A inserção aconteceu em razão do fim da imigração, a necessidade de mão-de-obra barata para compor o operariado e o dinamismo das transformações do mundo urbano industrial. As desigualdades entre brancos e negros, tão abruptas nas três primeiras décadas do século XX sofreria impactos diretos com a constituição da sociedade industrial, que tenderia a proporcionar mudanças e oportunidades no mercado de trabalho para a população negra, no entanto, em postos de baixa remuneração. Na cidade maravilhosa – Rio de Janeiro – a transição de escravo à cidadão também não se concretizou. A capital carioca proporcionou proletarização em massa dos homens e mulheres negras. A participação da população negra no desenvolvimento urbano industrial do Rio de Janeiro foi mais elevada do que São Paulo, em razão da imigração, que foi espontânea, a de São Paulo foi subsidiada pelo Estado (Hasenbalg, 1999). Nas três primeiras décadas do século XX a geografia física e social do Rio de Janeiro já delimitava os lugares entre brancos e negros. A construção da cidade, ou seja, a produção e reprodução d o espaço social já estava em plena contextualização: de um lado, quanto maior a urbanização, maior a participação de brancos; de outro lado, quanto menor a urbanização, maior a participação de negros. Nos idos de 1940 no Rio de Janeiro, 70,95% da população favelada era negra, sob um total de 138.837 favelados (Pinto, 1998). Quanto mais proletária a área, maior a participação negra. Em outro contexto, Donald Pierson (1945) e Thales de Azevedo (1955) estudaram as relações raciais na cidade de Salvador, co nsiderada a principal concentração negra dentre as cidades brasileiras. Segundo os autores, encontramos em Salvador uma sociedade multirracial de classes. Mas os negros estão sobrerepresentados nas ocupações mais degradantes e de baixa remuneração e, no que tange à ocupação residencial, também são maioria nos bairros mais pobres da capital soteropolitana. Thales de Azevedo (1955) descreve a distribuição da população negra conforme a condição social e racial, isto é, a maioria da população negra vivia como toda a classe baixa, em bairros pobres e nos contornos da cidade ou em pequenos aglomerados de casas modestas intercaladas nas áreas residenciais das classes mais altas. A estrutura de classes e a ocupação da cidade de Salvador é, de um lado, sobre-representada por brancos nas principais posições sociais e os melhores lugares na cidade, e, de outro lado, a sobre-representação da população negra nas desigualdades sócio-territoriais. A segregação da população negra nas primeiras décadas do século XX, conforme as leituras de Fernandes (1971), Pinto (1998) e Azevedo (1955) é o cenário da segregação invisível e mascarada. Os negros estão sobre -representados nas favelas, nos cortiços, porões, nas periferias, em determinadas regiões próximo dos melhores lugares, mas em geral, estão na base da hierarquia socioeconomica. Após os trabalhos da Pesquisa Unesco, nas décadas de 1970 e 1980 temos a combinação de estudos sobre a questão urbana e as relações raciais. As primeiras análises interpretativas, elas não só reiteram as anteriores, (Fernandes; Pinto, 1998), mas avançam ao compor o quadro das desigualdades entre brancos e negros na sociedade brasileira. Dentre os trabalhos críticos, Nascimento (1977) colabora para a composição da análise do urbano combinado às relações raciais. O autor faz interessante abordagem (intelectual e política) ao denunciar o genocídio material e simbólico da população negra. O genocídio é resultado do racismo institucional, tendo à frente a estrutura do Estado (escola, mercado de t rabalho, saúde, cultura, equipamentos de consumo coletivo, etc). A estrutura legal garante vantagens e benefícios para a população branca de todas as classes sociais, que estão presentes no cotidiano brasileiro mesmo sem o exercício da lei. As desigualdades sociais e raciais no plano urbano e da cidade, demarca lugares e hierarquias socioeconômicas entre brancos e negros. Gonzáles (1982) descreve que, da cidade escravista à cidade contemporânea, os lugares ocupados por negros e brancos não sofreram mudança s estruturais. “O lugar natural do grupo branco dominante são as moradias amplas, espaçosas situadas nos mais belos recantos da cidade ou do campo e devidamente protegidas por diferentes tipos de policiamento: desde os antigos feitores, capitães do mato, capangas etc, até a polícia formalmente constituída (...) Já o lugar natural do negro é o oposto, evidentemente: das senzalas às favelas, cortiços, porões, invasões, alagados e conjuntos habitacionais (...)” Posteriormente, Hasenbalg (1989) analisa as d esigualdades materiais e simbólicas entre brancos e negros no país, suas conclusões trazem novas colaborações para tratar do acesso do negro à cidadania. Segundo o autor, a integração do negro na sociedade de classes, conforme indicava Florestan, não se realizou. A industrialização não garantiu participação da força de trabalho negra na sociedade brasileira, isto é, em condição de igualdade com a mão de obra branca (Hasenbalg, 1989). Portanto, a indicativa de que com a industrialização a população negra teria, gradualmente, conquistas, oportunidades e melhores posições na sociedade brasileira só se efetivaram no plano formal, porque no plano real as desigualdades persistem. O avanço da literatura nacional sobre segregação vai ocorrer em 1990, com os trabalhos de Villaça (1998) e Caldeira (2000). Estes autores, assim como a literatura nacional não desconhecem a segregação articulada às relações raciais, mas são raros os trabalhos com esse recorte no país. As primeiras análises sobre o tema – segregação e relações raciais – foram realizadas por pesquisadores norteamericanos (Andrews; Telles, 2003). Telles é o pesquisador que tem se dedicado a fazer este estudo no Brasil, tendo como base suas reflexões em pesquisas quantitativas, por exemplo, a PNAD e o Censo de 2000, do IBGE. Segundo o autor, a categoria raça/etnia não é insignificante para a análise da segregação no Brasil, criticando a idéia de que a segregação residencial no país refere-se apenas às desigualdades de classe, mas reconhecendo a idéia de que a questão racial em interface à segregação não é auto evidente e nem tem a mesma dimensão política que no Estados Unidos ou na África do Sul. Telles (2003) afirma que a segregação racial nos Estados Unidos é severa, em razão do alto índice de separação de brancos e negros, e, no Brasil, ela é moderada. Compartilhamos da opinião do autor acima, a segregação brasileira não pode ser limitada às desigualdades de classe social. Porém, discordamos de que aqui a segregação é moderada. Por motivos históricos, culturais, políticos e sociais, consideramos inadequadas estas analises, a comparação das sociedades norte americana e brasileira. Lá, nos Estados Unidos, a segregação e as desigualdades eram abertas, aqui, em solo brasileiro, continuamos com a mesma ideologi a, o mito da democracia racial que mascara e transmite para o cotidiano social a falsa igualdade entre brancos e negros na estrutura social. Para melhor constituição do cenário da segregação de base racial no país, destacamos a seguir recentes interpretações sociológicas e espaciais sobre o assunto, as cidades do Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo. Em 2000, a distribuição negra na cidade de Salvador correspondia a 74%, no Rio de Janeiro, 40% e, em São Paulo, 30%. No passado e no presente, as inscrições materiais e simbólicas e o protagonismo de negros e negras foram e continuam sendo fundamentais para a construção das cidades brasileiras. O Rio de Janeiro completou no corrente ano, 454 anos, são histórias que retratam os contrastes socioeconômico e territorial, entre ricos e pobres, brancos e negros. Campos (2007) observa a cidade do Rio de Janeiro nos últimos anos do século XIX até o final do século passado, particularmente a apropriação do espaço pelos mais pobres e negros. Historicamente, na cidade do Rio de Janeiro, os quilombos urbanos e os cortiços deram lugar às favelas localizadas nos morros da cidade, como único recurso frente às transformações do mercado imobiliário da terra e da habitação. O Rio de Janeiro também experimentou as transformações urbanas, visando à imagem da cidade bela, moderna e civilizada. Buscando inscrever nas pedras da cidade feições das cidades européias, através da limpeza e higienização dos espaços ocupados pela população pobre, principalmente negra. O período de 1900 é conhecido como a era do “bota abaixo” no Rio de Janeiro, significou a limpeza urbana dos cortiços e habitações insalubres distribuídas nas áreas centrais e estratégicas, de interesse do Estado e dos atores sociais envolvidos com o mercado imobiliário. Com a derrubada dos cortiços, do dia para a noite, teve início a edificação das favelas nos morros da “Cidade Maravilhosa”. Já se completaram 100 anos da favela enquanto fenômeno urbano na cidade do Rio de Janeiro. Em mais de um século de história (das desigual dades sociais e raciais), a favela permanece nos espaços das cidades brasileiras, porém do ponto de vista estratégico de localização e origem social, os direitos à cidade e à cidadania são negados aos habitantes que nela vivem e escrevem suas histórias. Campos (2007) demonstra que, historicamente a segregação espacial ou a discriminação étnica de um dado segmento social é constituída para atender aos interesses de grupos socialmente dominantes. A condição de excluído teve seus reflexos no passado e no presente. Primeiro, pela constituição dos espaços de resistência dos quilombos urbanos e, segundo, no Brasil República, com a subida aos morros e a edificação das favelas. Portanto, a segregação teve grande impacto nas políticas públicas e sociais voltada ao crescimento da cidade do Rio de Janeiro. Em 458 anos, a história da cidade de Salvador não é diferente quanto à ocupação do espaço por parte da população negra. Com a transição da cidade escravista para a cidade industrial, observa-se que o tipo de habitação popular não se traduz em transformações fundamentais, ou seja, no sentido de uma cidade cidadã. Da casa grande, sobrados e porões são substituídas por bairros ricos e bairros pobres, favelas e asfalto, apartamento versus periferias, palacetes e condomínios fechados versus conjuntos habitacionais para a população de baixa renda. Historicamente e contemporaneamente, nas periferias da cidade de Salvador, a sobre-representação negra aproxima-se de 90% (Garcia, 2009). Este cenário produz e reproduz diferentes lugares entre brancos e negros na estrutura urbana da cidade de Salvador; de um lado, ilhas ricas e brancas com status de poder econômico, político e cultural, de outro lado, territórios de desigualdades sociais e raciais, imprimindo o lugar de negro na urbe soteropolitana. Há o lado positivo, referente ao quadro da segregação da população negra em Salvador, os núcleos e as territorialidades negras fortalecem suas organizações sociais, culturais e políticas, principalmente por meio dos blocos afros, a capoeira e os terreiros de candomblé (Garcia; Oliveira, 2008). Em Salvador, a segregação se traduz em desigualdades de acesso ao mercado de trabalho, ao consumo de bens individuais e coletivos e toda a produção e reprodução social do espaço que impede o e xercício do direito à cidade, dos pobres e negros. Após as transformações da economia nacional e internacional, referente às últimas décadas do século XX na cidade de São Paulo, parte dos resultados está presente na massa de desempregados e no aumento do trabalho informal. Ainda assim, com as transformações da economia local e global, São Paulo continua mantendo o posto de sede da economia brasileira. Parte desta hegemonia política e econômica de São Paulo deve-se à força de trabalho de negros e negras. O trabalho investido não resulta em direitos sociais, igualdade e oportunidades de acesso à população negra no mercado de trabalho, moradia, saúde e educação de qualidade. Nos dizeres de Silva (2006), os melhores espaços, infra -estrutura urbana e os equipamentos sociais de consumo coletivo em São Paulo não são de direito de todos que trabalham e vivem na capital paulistana, como a população negra e pobre. Nas periferias onde a população negra está representada, o ambiente construído é ausente e/ou precário. Em outras direções da cidade, como o quadrante sudoeste, homens e mulheres negras convivem em geografias sociais onde há maior participação da população branca de todas as classes sociais (Silva, 2006; Oliveira, 2008). A literatura mais recente (Carril et al.,2006) aborda a combinação das desigualdades urbanas e as desigualdades raciais, compartilha da mesma opinião; as cidades de Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo são as capitais do racismo no Brasil. CARTOGRAFIAS NEGRAS EM SÃO PAULO: SEGREGAÇÃO E DESIGUALDADES São Paulo completou em 2012, 458 anos de histórias e transformações estruturais; do ponto de vista administrativo, econômico, político e espacial, de um pequeno e simples vilarejo, se transformou na metrópole mais importante do país e da América Latina. Hoje, a cidade de São Paulo não tem mais para onde crescer de forma horizontal, porque a cidade ilegal 4 se expandiu de forma desordenada. Em 1980, segundo informações do Censo do IBGE, a média da população negra na cidade era de 23%. Rolnik (1989) e Oliveira (2002) descrevem que a população negra deslocou-se em direção às periferias, em razão da desterritorialização de antigos núcleos negros das três primeiras décadas do século XX e da ideologia da casa própria, construída em regime de autoc onstrução em loteamentos irregulares com a ajuda da família e dos amigos. A distribuição da população negra corresponde aos núcleos da Brasilândia (42,4%), Capela do Socorro (36%), Santo Amaro (33%), Jabaquara (29%), Pirituba (27%), Vila Matilde (27%), Vila Nova Cachoeirinha (27%), Limão (26%) e Nossa Senhora do Ó (26%). Em seguida, no censo de 1991, novas cartografias se expandiram na capital paulistana: na região sul, a participação corresponde ao Jardim Ângela (53%), Capão Redondo (44%), Grajaú (43%), Parelheiros (41%), Pedreira (40%), Cidade Ademar (41%) e Jardim São Luiz (40%); na zona oeste, destaca -se apenas o distrito de Raposo Tavares (36%) e, na zona norte, o distrito de Brasilândia (39%). 4 A cidade ilegal é a forma de construção em loteamentos irregulares, cortiços, favelas, ocupações em áreas de proteção ambiental que não estão nos trâmites da legislação urbanística. No censo de 2000 5, a população negra alcançou as franjas da capital paulistana, ou seja, ela está nos limites da cidade (ver mapas 1 e 2). A representação negra alcançou a média de 30% na urbe paulistana, conforme as informações do Censo do IBGE. Na Figura 1, estão distribuídos os distritos com população negra acima de 30% e na Figura 2, os distritos com população negra abaixo de 15%. A primeira cartografia é resultado da segregação, promovida desde as primeiras décadas do século XX, como a separação da população negra do seu lugar de origem e o ininterrupto deslocamento para as regiões mais pobres. A segunda cartografia, de um lado, são os negros que conseguiram algum sucesso na vida, que se encontram na condição de classe média; profissionais liberais, micro empresários e àqueles que atingiram mobilidade sócio -econômica por meio da escolaridade (Silva, 2006; Oliveira, 2008). De outro lado, são os prestadores de serviços que moram no local de trabalho ou nos arredores. Figura 1. Distribuição Negra em SP Figura 2. Distribuição Negra em SP (concentração acima de 30%) (concentração abaixo de 15%) Fonte dos dados: Censo do IBGE, 2000. 5 Infelizmente, para este trabalho, não temos os dados do Censo Demográfico do IBGE de 2010, referente a combinação de espaço urbano, classe social e raça. Estamos, no momento, em fase de observação das informações que serão analisadas em trabalhos posteriores. Classificamos abaixo, para melhor compreensão da segregação, a distribuição negra 6 nos 10 primeiros distritos com maior participação e nos 10 primeiros distritos com menor part icipação. Tabela 1 - Distribuição da população negra, conforme as 10 maiores e menores concentrações na cidade de São Paulo Distrito > 40% Negro % Distrito =< 15% Negro % Jardim Ângela Lajeado Cidade Tiradentes Grajaú Jardim Helena Jardim S.Luiz Parelheiros Guaianases Capão Redondo Vila Curuçá 51,40% 51,80% 50% 49% 48,10% 48,50% 48,50% 47,30% 45,50% 44,30% Jardim Paulista Vila Leopoldina Itaim Bibi Santo Amaro Mooca Tatuapé Moema Perdizes Vila Mariana Pinheiros 5,20% 6,0% 6,5% 6,90% 7,0% 7,0% 7,0% 7,0% 7,20% 7,2% Fonte: Censo do IBGE, 2000. Em primeiro lugar, os distritos que compõem a segregação da po pulação negra na cidade de São Paulo, estão localizados nos extremos das periferias e constituem a sobre-representação em loteamentos irregulares, favelas e conjuntos habitacionais. Na cidade, estas regiões apresentam alto índice de violência e homicídios, os jovens e adolescentes são os sujeitos e protagonistas da violência urbana e a sub-representação socioeconômica, que reforçam as de sigualdades sociais e raciais (Oliveira, 2008). Os capitais social, cultural, econômico e humano nestas áreas carecem de bens de produção e consumo, como parques, praças, clubes desportivos, teatros, centros culturais, hospitais, creches e infra -estrutura urbana na área de transportes. Em segundo lugar, nos distritos onde prevalece a segregação da elite, a presença negra é menor. Nestes distritos está concentrado o ambiente construído; são os shopping centers, universidades, transporte coletivo (metrô e ôn ibus), hospitais, teatros, cinemas, setor de prestação de serviços, as principais escolas particulares da elite paulistana, a conexão com o mundo informacional 6 As informações do IBGE, no que diz respeito à cor/raça, trabalha as seguintes categorias: branco, preto, pardo, amarelo e ignorados. Neste trabalho, estou considerando negro as pessoas que se declaram pretos e pardos. Portanto, estou utilizando a categoria negro enquanto um conceito social e político. (comunicação e tecnologias), o capitalismo nacional e internacional. No quadrante sudoeste estão distribuídos os mais altos salários dos chefes de família brancos. Em terceiro, quanto às diferenças espaciais e raciais, de um lado, o trabalhador negro é sobre-representado nos estratos de renda de zero até três salários mínimos, de outro lado, a su brepresentação nos estratos de renda acima de dez salários mínimos. Nas periferias, homens e mulheres negras recebem salários menores que seus vizinhos brancos, mesmo estando em ligeira vantagem no quadro educacional (Oliveira, 2008). O embranquecimento no mercado de trabalho na sociedade paulistana, geralmente, proporciona poucas oportunidades para o trabalhador negro nas posições de status, prestígio e poder econômico. Na capital paulistana, a renda média dos trabalhadores é de R$ 1.031,85 (Fundação SEA DE, 2000) no contexto geral da força de trabalho. O rendimento diferencia -se, primeiro, os homens brancos recebem em média R$ 1.919,20 e os negros R$ 690,54. As mulheres, R$ 1.092,23, para as brancas e R$ 425,47, para as negras. Calculando a média entre homens e mulheres, brancos e negros, os trabalhadores brancos recebem em média R$ 1.505,50 e os trabalhadores negros R$ 557,50. O trabalhador negro recebe apenas 37% do rendimento, comparado ao ganho médio do trabalhador branco. Nos espaços reservados à riqueza e à pobreza, brancos e negros definem seus lugares na sociedade paulistana, através das posições socioeconômicas, os lugares de moradia, trabalho e escolaridade. Tabela 2 - Renda do Chefe de Família nos dez distritos com maior população negra na cidade de São Paulo Homem Sub-Prefeitura Freguesia/Brasilândia C.Ademar Campo Limpo M’Boi Socorro São Miguel Itaim Paulista Itaquera Guaianases Cidade Tiradentes Fonte: IBGE, 2000. Branco 1.036,00 1.068,00 1.620,00 821,00 1.008,00 782,00 698,00 949,00 665,07 622,09 Mulher Negro 647,00 590,00 667,88 585,00 528,00 581,00 515,00 699,51 533,48 522,81 Branca 562,06 557,00 901,96 448,00 544,00 448,00 364,00 499,00 377,85 405,55 Negra 384,83 322,99 361,18 337,00 345,00 320,00 285,12 397,00 296,81 380,65 Nos 96 distritos da capital paulistana, a diferença de rendimento entre brancos e negros é significativa, conforme o recorte de classe social, espaço, gênero e raça. Conforme informações da tabela 2, nas subprefeituras/distritos a renda do chefe de família negra é inferior ao chefe de família branc a. A diferença tem grade relevância no processo acumulativo das desigualdades entre brancos e negros (Hasenbalg e Silva, 1999). Segundo Porcaro (1981), o lugar do negro no mercado de trabalho diz respeito ao seguinte quadro: é o primeiro a adentrar e o último a sair, tem rendimento inferior aos brancos, forte tendência ao proletariado e sobre representação nos espaços da pobreza. A segregação da população negra acontece em virtude da sua condição soc ial ou em razão da cor/raça? São os dois fenômenos, a condição social e a cor/raça em combinação, são determinantes para a sobre-representação negra nas cidades brasileiras, em geral, inscrita no quadro das desigualdades em todas as frentes da sociedade brasileira (Fernandes, 1940). Os distritos pesquisados para este trabalho, Brasilândia, Cidade Tiradentes e Jardim Ângela, foram selecionados em razão da distribuição negra em seus territórios e, particularmente, os trabalhos de Oliveira (2002, 2008), q ue contribuem para a observação da segregação da população negra. Tabela 3 – População negra na cidade de SP e nos distritos pesquisados Distrito/MSP SP Brasilândia Cidade Tiradentes Jardim Ângela 1980 22,3% 42,4% - 1991 27,49% 38,73 49,24% 53,33% 2000 30% 40% 50% 51,4% Fonte: IBGE, censos de 1980, 1991 e 2000. Para retratar parte do cenário da segregação da população negra, faremos breves apontamentos do contexto habitacional, particularmente, as habitações subnormais nos três distritos pesquisados. São Paulo tem 10.340.036 habitantes que se distribuem no cenário municipal em casas, apartamentos e cômodos (IBGE, 2000). São 8.066.639 paulistanos residindo em casas, 2.199.269 em apartamento e 124.139 em cômodos. Do total de habitantes por tipo de habitação, há diferenças entre brancos e negros no contexto habitacional. Tabela 4 – Classificação por Distrito, Tipo de Habitação e Cor/Raça, 2000 Município De SP Brasilândia Cidade Tiradentes Jardim Ângela Brancos Casa Apto. 5.152.619 1.710.498 64,5% 77,8 124.979 15.038 58,5% 61,7% 42.918 50.460 45,9% 53,5% 109.558 1.146 47,3% 75% Cômodo 63.731 47,5% 2.577 41,9% 765 34,1% 4.992 41,8% Casa 2.635.235 32,9% 85.301 39,6% 49.929 553,4% 118.633 51,5% Negro Apto. 395.364 18% 8.868 36,4% 43.184 45,8% 352 23% Cômodo 68.781 51,3% 3.518 37.2% 1.458 65% 6.791 56,8% Fonte dos dados: IBGE, 2000. Entre os brancos, são 64,5% que moram em casas, 77,8% em apartamentos e 47,5% em cômodos. Os negros estão classificados em 32,9% em casas, 18% em apartamento e 51,3 em cômodos. Para os habitantes negros, a proporção é maior em casas e cômodos e menor em apartamentos. Os brancos estão sobre -representados nos três tipos de habitação. A diferença sobressai, os negros estão sobre representados no quadro habitacional, refe rente à pobreza paulistana. A classificação por distrito na cidade de São Paulo é complexa. O quadro se altera conforme o deslocamento do centro em direção às periferias. Na Brasilândia é o seguinte quadro habitacional: a classificação da população branca em casas é 58,5%, 61,7% em apartamentos e 41,9% em cômodos; para os negros, a classificação em casas é 39,6%, 36,54% em apartamentos e 37,3% em cômodos. Há um diferencial entre brancos e negros concentrados em apartamentos, onde a proporção de moradores brancos é superior. Na Cidade Tiradentes, encontra-se uma exceção em relação aos dois distritos, por ser uma região dormitório construída e “planejada” pelo Estado (Governo do Estado de São Paulo e Prefeitura Municipal de SP). Dentre os moradores brancos, são 45,9% em casas, 53,5% em apartamentos e 34,1% em cômodos. Para os moradores negros, são 53,4% em casas, 45,8% em apartamentos e 65% em cômodos. No Jardim Ângela, os brancos são 47,3% em casas, 75% em apartamentos e 41,8% em cômodos. Entre os negros, 51,5% em casas, 23% em apartamentos e 56,8% em cômodos. Verifica-se que, mesmo na periferia, a população negra está sobre representada em casas e cômodos. Na Cidade Tiradentes é um caso particular. No entanto, nesse distrito, encontra-se o maior percentual de negros morando em cômodos. Conforme o histórico da habitação no Brasil (Bonduki et al. 1998) a habitação prevalece por conta do trabalhador na periferia distante e em loteamentos irregulares. O quadro habitacional da população negra confirma a comb inação entre segregação e desigualdades sociais e raciais. Tabela 5 - Distribuição entre brancos e negros e tipo da condição do domicílio, SP, 2000 Cor/Raça Próprio Próprio Alugado Cedido por Cedido Outra Total ainda empregador de outra condição pagando forma Brancos 668.341 9,60% 330.977 10,70% Negros 4.369.990 63% 1.781.957 57,50% 1.350.580 19,50% 609.505 19,70% 71.417 4,70% 37.300 1,20% 327.627 4,70% 184.357 5,90% 148.889 2,10% 155.283 5% 6.936.844 100% 3.099.379 100% Fonte: Censo IBGE, 2000. De acordo com o IBGE 2000, a menor expressão de negros na condição de proprietário de domicílios confirma que o poder aquisitivo é insuficiente para arcar com a compra da habitação no mercado imobiliário. Adquirir habitação no mercado imobiliário de São Paulo, após o termino do padrão periférico de crescimento urbano 7, torna-se mais difícil para os estratos de menor renda. A viabilidade da compra da casa própria só se torna possível nos extremos da cidade e da região metropolitana, haja vista que a população negra está distribuída nas periferias e na pobreza. Em relação aos domicílios alugados, brancos e negros dividem o mesmo ambiente (dados relativos). Somando as quatro últimas variáveis da tabela acima (alugado, cedido por empregador, cedido de outra fo rma e outra condição), concluímos que 31,80% da população negra não é proprietária do seu local de moradia. Em relação aos brancos, 26,3% não são proprietários dos imóveis em que vivem. A pobreza racial (Henriques, 2001) tem interfaces com o mercado de trabalho, escolaridade, renda e a habitação no contexto urbano das cidades brasileiras. Na periferia paulistana, o quadro racial permanece o mesmo: os brancos 7 Padrão periférico de crescimento urbano, trata-se da expansão horizontal das periferias na capital paulistana e na região metropolitana, por intermédio da autoconstrução em loteamentos irregulares, ocupações, em áreas de risco e de proteção ambiental, nos finais de semana. têm mais vantagens nos mercados de trabalho e habitacional. Outra face das desigualdades urbanas entre brancos e negros, diz respeito ao quadro da habitação subnormal (favelas, loteamentos irregulares e cortiços) 8. Tabela Nº 6 – Distribuição da Habitação Subnormal por Raça/Cor e dos distritos pesquisado s, 2000. Distritos/SP Média Brancos Negros MSP Brasilândia C.Tiradentes Jd.Ângela Fonte: IBGE, 2000. 912.972 (8,7%) 32.334 (13,1%) 2.165 (1,1%) 48.066 (19,6%) 427.876 (46,9%) 17.097 (52,9%) 775 (35,8%) 42.787 (46,9%) 472.195 (51,7%) 14.568 (45,1%) 1.390 (64,2%) 472.219 (51,7%) No conjunto da cidade, a população negra distribui-se nos aglomerados subnormais com 51,8% e os brancos, 46,9%. Homens e mulheres negras compartilham as habitações de menor relevância material e simbólica. A habitação subnormal é central nos três distritos pesqu isados e de forma mais complexa, nos 96 distritos que compõem a cidade de São Paulo. Esta é a realidade, o quadro das desigualdades urbanas e das desigualdades raciais é histórico e contemporâneo, ou seja, estão enraizadas no chão do território paulistano. Na Brasilândia, os brancos são 52,9% e os negros, 45,1%. Nesse caso particular, a diferença é de apenas 7% a mais para os brancos. A Cidade Tiradentes é um contexto recente, uma história de apenas 25 anos de vida do distrito. Porém, no último censo, o percentual de habitação subnormal se compôs em 13% de favelas e cortiços. Neste distrito, 35,8% de brancos e 64,2% de negros vivem em habitações subnormais. No Jardim Ângela é 46,9% entre os brancos e 51,7% em relação aos negros, classificados em habitaçõe s subnormais. Calcula-se que são 10% de habitantes morando em favelas na cidade de São Paulo, que é uma questão social urgente que precisa ter prioridade nas políticas públicas (Bógus, 2004). Em números absolutos são mais de 1.000.000 de indivíduos nesse tipo de habitação. No território da cidade, os negros estão sobre representados nas habitações subnormais. É preciso compreender que o cenário da habitação subnormal está associado a outros fatores, como o mercado de trabalho e 8 A classificação do censo do IBGE, 2000, consideração como subnormal apenas os aglomerados acima de 50 unidades. Portanto, a contagem não reconheceu o universo fora da lei abaixo de 50 unidades. a ocupação, portanto, a habitação é um bem material e simbólico em interface ao bairro, à estrutura urbana e social da cidade. CONSIDERAÇÕES FINAIS Este trabalho permitiu verificar a segregação da população negra na cidade de São Paulo, relacionando a questão da habitação a outras necessidades da vida cotidiana, como o mercado de trabalho, renda, equipamentos públicos e privados de consumo coletivo, saúde e educação. Homens e mulheres negras estão em desvantagens raciais, socioeconômicas e espaciais na capital paulistana, principalmente nas periferias, onde os direitos e a cidadania são regulados, inacabados e em construção. Fica comprovado que a raça não constitui uma categoria insignificante para a análise dos processos de segregação urbana, ainda que não seja uma catego ria central nas principais referências da academia nacional. Acreditamos que é preciso avançar, que a segregação socio espacial não é suficiente para analisar a segregação da população negra nas cidades brasileiras. BIBLIOGRAFIA ANDREWS. George Reid. Negros e Brancos em São Paulo (1888-1988). Bauru: EDUSC, 1982. AZEVEDO, Thales. As elites de cor – um estudo de ascensão social. São Paulo: Companhia Nacional, 1955. BERNARDO, Teresinha. Memória em Branco e Negro: olhares sobre São Paulo. São Paulo: EDUC e Editora Unesp, 1998. BÓGUS, Lúcia e PASTERNACK, Suzana. Cadernos Metrópoles Desigualdade e Governança, Como Anda São Paulo. São Paulo, EDUC, 2004. BONDUKI, Nabil. Origens da Habitação Social no Brasil – Arquitetura Moderna, Lei do Inquilinato e Difusão da Casa Própria. São Paulo, Estação Liberdade, 1998. CAMPOS, Andrelino. Do Quilombo à Favela – A Produção do “Espaço Criminalizado” no Rio de Janeiro, Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2007. CALDEIRA, Teresa Pires do Rio. Cidade de Muros – Crime, segregação e cidadania em São Paulo. 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