Refletindo o fazer Projeto político pedagógico: aprende-se a fazer, fazendo* Arlene Andrade Malta** Maria do Carmo da Silva*** Maria Nadja Bittencourt**** Marlene Oliveira dos Santos***** Este é um texto construído de forma solidária. Muitos outros sujeitos são também personagens da experiência que agora narramos e, como tais, são evocados, a partir de suas vivências (falas, sorrisos, medos, sonhos e saberes) como professores comunitários interessados pela formação continuada, para a trama que enredamos aqui. A nossa intenção, portanto, é refletir e tornar pública a experiência de (re)construção do Projeto Político Pedagógico (PPP) de Escolas Comunitárias feita por professores e coordenadores através do Projeto Escola: uma ponte para o futuro. Além disso, é também nosso * propósito fortalecer a idéia de que se aprende a fazer fazer,, fazendo fazendo. Isto é, aprende-se a ler, lendo os textos necessários à instrumentalização teórica para enriquecer os argumentos; aprende-se a escrever, escrevendo textos com funcionalidade na vida prática; aprende-se a elaborar um projeto, elaborando-o com os motivos sociais explícitos, num processo permanente de (re)construção pessoal e coletivo. Na organização didático-metodológica do Projeto, insistimos em assegurar o caráter de elo que o nosso fazer possibilitava e que já se fazia anunciar no próprio nome do Projeto. No Minidicionário da Língua Portuguesa, de Sérgio Artigo elaborado a partir dos nossos textos publicados no Caderno Temático CEAP – “Projeto Político Pedagógico da Escola Comunitária” – Ano I, nº 01, Julho/2004 e apresentado no VI Fórum de Educação CEAPoutubro/2004. Na apresentação, além das autoras, participaram os professores: Claudinéia Nascimento, Luciana Bispo, Lucyjane Silva, Marilene Vieira, Rita de Cássia Anjos e Ricardo Dantas. ** Pedagoga e Mestranda em Educação/UFBA. Coordenadora Pedagógica da Rede Estadual de Ensino e Técnica do Programa de Assessoria Pedagógica da Pró-Reitoria Comunitária da UCSAL. [email protected]. *** Pedagoga, Coordenadora Pedagógica do EJACAV/Colégio Antônio Vieira, Coordenadora Pedagógica da Escola Estadual Elisabeth Chaves Veloso e Colaboradora do Projeto Formação de Professores/CEAP. [email protected]. **** Mestre em Educação, Professora da UNEB e Editora Revista da Faeeba Educação e Contemporaneidade/UNEB. [email protected]. ***** Pedagoga, Mestranda em Educação, Coordenadora do Projeto Formação de Professores/CEAP e Professora-orientadora do Curso de Pedagogia/Rede UNEB 2000 – Salvador II/4ª etapa. [email protected] / [email protected]. Revista de Educação CEAP - Ano 12 - n° 47 - Salvador, dez/2004 - fev/2005 (p. 67-75) 1 Projeto político pedagógico: ... - Arlene A. Malta, M do Carmo da Silva, M Nadja Bittencourt e Marlene O. Santos Ximenes, encontramos o seguinte conceito para o vocábulo ponte: “sf. 1. Construção que liga dois pontos separados por um curso d’água ou qualquer depressão de terreno. 2. Fig. Qualquer elemento que estabelece ligação entre coisas ou pessoas”. Afirmamos, aqui, que o segundo conceito é o que mais nos interessa, pois a idéia de estabelecer relação entre diferentes saberes e práticas se faz fundamental para a compreensão do caráter coletivo e participativo da (re)construção do PPP e das escolas comunitárias que fizeram parte desse Projeto. Pois bem, foi com esse desejo que configuramos nossa ação e que conduzimos, de forma partilhada, o processo de formação dos professores proposto pelo Centro de Estudos e Assessoria Pedagógica – CEAP – e financiado pela Região da Lombardia/Itália, por intermédio do Movimento e Ação dos Jesuítas para o Desenvolvimento – MAGIS, em 2003. Os professores e coordenadores se reuniam, quinzenalmente, em um local próximo às suas escolas, ora para o estudo de textos, análise de filmes, músicas e práticas de sala de aula, ora para a reescrita e análise do texto do Projeto Político Pedagógico. O Projeto Escola: uma ponte para o futuro colaborou na organização do trabalho pedagógico e na qualificação pedagógica/política de 51 professores e coordenadores que trabalham em 14 escolas comunitárias localizadas na Península de Itapagipe e no Subúrbio Ferroviário de Salvador. São elas: Escola Centro Social Mangueira (Massaranduba) Escola Comunitária 1º de Novembro (Plataforma) Escola Comunitária Adonai (Periperi) Escola Comunitária Cosme Damião e Tomázia (Periperi) Escola Comunitária Criança Feliz (Fazenda Coutos I) Escola Comunitária Doce Fantasia (Paripe) Escola Comunitária João Paulo II (Alto da Teresinha) Escola Comunitária Jóias de Cristo (Alto da Teresinha) Escola Comunitária Lírio do Vale (Rio Sena) Escola Comunitária Rio Nilo (Rio Sena) Escola Comunitária Vale do Paraguary (Periperi) O Projeto foi desenvolvido a partir de dois eixos, o da produção de texto e o da (re)construção do PProjeto rojeto PPolítico olítico Pedagógico edagógico, sintetizados na temática Refletindo a prática e (re)construindo o Projeto Político Pedagógico e organizados em dois módulos, cada um com 64 horas. O primeiro, Aspectos sociopolíticos e pedagógicos, sob a responsabilidade da Profª Arlene Andrade Malta, tratou das questões ligadas aos princípios da Educação Popular, aos fundamentos da Escola Comunitária e aos saberes necessários à prática pedagógica, subsidiando a construção dos referenciais teóricos dos PPPs. O segundo módulo, Aspectos lingüísticos e metodológicos, orientado pela Profª Maria Nadja Bittencourt, priorizou os aspectos metodológicos e a análise lingüística dos textos produzidos para a reelaboração do PPP, possibilitando a estruturação e a adequação dos textos em cada item do Projeto Político Pedagógico. A concepção de Projeto Político Pedagógico que adotamos no nosso trabalho é a mesma de Veiga (1995:11). Definimos, então, o PPP como a própria organização do trabalho pedagógico da escola como um todo. Consideramos, entretanto, que essa organização nasce de uma intencionalidade e requer responsabilidade coletiva; o que dependerá, em parte, do compromisso individual dos sujeitos. Por isso, o processo formativo teve como objetivo preparar, técnica e politicamente, o professor para que este pudesse contribuir individual e qualitativamente para a (re)construção do PPP. A (re)construção do Projeto Político Pedagógico caracteriza-se como um eterno diagnosticar, planejar, repensar, começar e recomeçar, analisar e avaliar as práticas educativas (Villas Boas, 1998, p. 182), requerendo da equipe escolar clareza do porquê e para quê o PPP na escola. Para Vasconcellos (2002, p. 20-1), as finalidades do Projeto Político Pedagógico são: Escola Comunitária Luiza Mahin (Uruguai) Escola Comunitária Popular de Alagados (Jardim Cruzeiro) Escola Comunitária Porto Santo (Paripe) 2 • Resgatar a intencionalidade da ação (marca essencialmente humana), possibilitando a Revista de Educação CEAP - Ano 12 - n° 47 - Salvador, dez/2004 - fev/2005 (p. 67-75) Projeto político pedagógico: ... - Arlene A. Malta, M do Carmo da Silva, M Nadja Bittencourt e Marlene O. Santos (re)significação do trabalho: superar a crise de sentido; • Ser um instrumento de transformação da realidade; resgatar a potência da coletividade; gerar esperança; • Dar um referencial de conjunto para a caminhada; aglutinar pessoas em torno de uma causa comum; gerar solidariedade, parceria; • Ajudar a construir a unidade (e não a uniformidade); superar o caráter fragmentário das práticas de educação, a mera justaposição. Possibilitar a continuidade da linha de trabalho na instituição; • Propiciar a racionalização dos esforços e recursos (eficiência e eficácia) utilizados para atingir fins necessários do processo educacional; • Ser um canal de participação efetiva; superar as práticas autoritárias e/ou individualistas. Ajudar a superar as imposições ou disputas de vontades individuais, à medida que há um referencial construído e assumido coletivamente; • Diminuir o sofrimento; aumentar o grau de realização/concretização e, portanto, de satisfação do trabalho; • Fortalecer o grupo para enfrentar conflitos, contradições e pressões, avançando na autonomia (“caminhar com as próprias pernas”) e na criatividade (descobrir o próprio caminho); • Colaborar na formação dos participantes. Atento a essas finalidades, o grupo foi revelando a identidade da escola, o tipo de ser humano que desejava formar e a sociedade que desejava construir. Essas intenções se manifestaram na concepção de escola, de educação, de currículo, de aprendizagem e de avaliação tomada como matriz teóricometodológica na (re)construção do Projeto Político Pedagógico. Aos professores, foi propiciada a leitura e a discussão de temas que lhes permitiram a ampliação do conhecimento político, técnico e teórico de um projeto voltado para a Educação Popular e para a sua emancipação. Ou seja, os temas foram sugeridos a partir de necessidades percebidas no grupo. Essas leituras não só estavam instrumentalizando o professor de saberes necessários à sua prática, como também ampliando o repertório de conhecimento e informação sobre os conteúdos desses textos. Isto é, orientando a reformulação dos conceitos, distinguindo as tendências teóricas, fazendo as opções metodológicas e conhecendo as correntes de pensamento sobre a aprendizagem, sobretudo os conhecimentos específicos das Escolas Comunitárias e Educação Popular. Assim é que, com lápis, papel na mão e muitas idéias/saberes na cabeça, iniciamos a construção - para alguns reconstrução - do Projeto Político Pedagógico de cada escola. Contudo, bem sabemos que o exercício da escrita não se dá de forma fácil; então, não nos surpreendemos ao detectar, no processo de elaboração do PPP, alguns aspectos denunciadores da fragilidade do professor em relação ao conhecimento lingüístico, ao conhecimento sobre a natureza da própria língua, à compreensão da realidade e ao próprio processamento da leitura e da escrita. Essas fragilidades ora se manifestavam na escrita, ora na leitura. Quando o professor escrevia, escrevia sempre as mesmas idéias; quando lia, não estabelecia uma funcionalidade do que leu. O repertório conceitual trazido pelos professores, de início, não era suficiente para atender à demanda do texto a ser produzido. Neste movimento, sonhos foram mobilizados e/ou resgatados, saberes foram produzidos e a vontade/necessidade da escrita, instigada. Coletivamente, fomos descobrindo que não basta decodificar o texto é preciso processá-lo, compreendê-lo, apreendê-lo e usá-lo usá-lo. Para a produção escrita, precisamos mais do que lápis e papel; precisamos de idéias, saberes que passam pelos nossos sentidos e saltam no papel na mais pura expressão das nossas subjetividades. Já o trabalho realizado em torno dos aspectos sociopolíticos e pedagógicos da prática escolar comunitária objetivou a construção de novos e melhores referenciais para o trabalho com Revista de Educação CEAP - Ano 12 - n° 47 - Salvador, dez/2004 - fev/2005 (p. 67-75) 3 Projeto político pedagógico: ... - Arlene A. Malta, M do Carmo da Silva, M Nadja Bittencourt e Marlene O. Santos a Educação Popular. Para tanto, se alicerçou nos estudos da Teoria Progressista de Paulo Freire e nas idéias de autores interacionistas como Piaget, Vygotsky e Fernando Becker, os quais proclamam a premissa do conhecimento como construçãotransformação. A concepção emancipatória da educação foi assegurada em todo o processo de trabalho e os princípios da Educação Popular e Comunitária foram experienciados através do caráter dialógico e do princípio da negociação que permearam as relações interpessoais e também a relação dos diferentes sujeitos com os objetos de conhecimento. Investimos nesses princípios por acreditar, verdadeiramente, nas palavras de Freire: o sujeito que se abre ao mundo e aos outros inaugura em seu gesto a relação dialógica em que se confirma como inquietação e curiosidade, como (in)conclusão em permanente movimento na História (1996:136). Deste processo, algumas construções merecem destaque, a saber: • o fazer coletivo, vivenciado pelo grupo; • o desejo de ser/fazer, sempre mais e melhor; • a revisão da prática pedagógica a partir de referenciais crítico-reflexivos; • o exercício do registro da prática de sala como elemento problematizador para novas e mais elaboradas produções escritas; • a relação que o grupo estabeleceu entre aprendizagem e emancipação. Sobre este último item pudemos observar que as dimensões da emancipação que mais se sobressaíram foram: Emancipação pessoal: Ao se declararem agora mais confiantes e capazes, foi possível perceber, inclusive, que alguns professores tiveram a coragem de retomar antigos projetos de vida, buscando alternativas para a sua concretização; Emancipação profissional: A mesma confiança foi levada para o âmbito profissional 4 quando muitos professores disseram ter se libertado do medo de falar, de discordar, de indignar-se, de sugerir e de intervir nas ações desenvolvidas no espaço escolar, alterando substancialmente a sua prática pedagógica; Emancipação coletiva: Conseqüentemente, quando pessoas e profissionais mais seguros de seu papel passam a agir nos diversos espaços (escola, família, comunidade...), conseguem sensibilizar outras pessoas para também se emanciparem. Em relação às nossas aprendizagens podemos dizer que, como espaço de formação, este curso também nos possibilitou algumas construções, quais sejam: • a certeza de estarmos no caminho certo; • o reconhecimento de que o saber solidário tem mais sabor; • o (re)encontro com a paixão de educar; • a constante (re)construção de conceitos. Ao tempo em que ensinamos, também aprendemos nos diálogos, estudos e discussões realizadas. Assim, de forma solidária, reorganizamos idéias no pensar coletivo; aprendemos a partilhar a palavra ouvindo a palavra do outro; nos aventuramos na escrita do PPP escrevendo os nossos fazeres e intenções comungados nos fazeres e intenções da comunidade escolar; e, principalmente, aprendemos a ser mais no reconhecimento e valoração do ser mais do outro. Foi assim que afirmamos nossas identidades, nas idiossincrasias do grupo e, como grupo, buscamos ser mais e melhores a cada encontro. Mais encontros, mais olhares, mais saberes precisavam emergir no sentido de criar elos capazes de nos garantir a devida competência para a escrita do documento. Muitas foram as mudanças operadas no grupo, todavia queremos destacar uma que, sem dúvida, fez a diferença: a descoberta de ser um aprendiz da leitura e da escrita. Ao se ver nessa condição, o grupo passou a ser mais cuidadoso com as idéias que expressava no texto. Conseqüentemente, mudou as atitudes, que não eram explícitas nem Revista de Educação CEAP - Ano 12 - n° 47 - Salvador, dez/2004 - fev/2005 (p. 67-75) Projeto político pedagógico: ... - Arlene A. Malta, M do Carmo da Silva, M Nadja Bittencourt e Marlene O. Santos valorizadas, como consultar dicionários e gramáticas. As dificuldades vieram à tona e isto fez com que existisse no grupo mais cumplicidade. Estabeleceu-se uma rede de leitura dos textos produzidos pelo grupo. O professor compreendeu nesta prática que se aprende com o outro e que esta condição ressignifica o seu saber. Além desses indicadores positivos, outros resultados também contribuíram para a emancipação dos sujeitos envolvidos: • auto-estima mais elevada; • vivência e reconhecimento da importância do trabalho coletivo; • mais conhecimento sobre a história da Escola Comunitária; PPP, pois compreendemos tratar-se de algo que precisa ser retomado constantemente por todos os segmentos que compõem a comunidade educativa. O exercício de trazer para o palco a memória do trabalho desenvolvido nos fez reconhecer que, hoje, principalmente quando a pauta é PPP, seja na escola, na faculdade ou nos encontros de formação, esses professores demonstram, além do saber sobre, terem provado o sabor deste conhecimento por eles vivenciado, dando o real significado ao se aprende a fazer fazer,, fazendo fazendo. Também nos fizeram sentir que a amizade, a alegria, a coragem, a solidariedade, a persistência, o compromisso e a indignação foram algumas das marcas deixadas por esse grupo no nosso coração e na história do CEAP. • senso crítico mais desenvolvido em relação às formas de gestão da Escola Comunitária; • visão mais ampliada/aprofundada sobre o cotidiano escolar e as ações desenvolvidas na Escola Comunitária; • sistematização e publicação da experiência vivenciada no processo de (re)construção dos PPPs; • compromisso político mais fortalecido com a educação das classes populares; • 14 projetos (re)construídos; político-pedagógicos • organização do Caderno Temático pela equipe de coordenação; • 28 professores aprovados (de 30 inscritos) no vestibular da Faculdade Social da Bahia. Referências bibliográficas FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996. VASCONCELOS, Celso dos Santos. Coordenação do trabalho pedagógico: do projeto políticopedagógico ao cotidiano da sala de aula. São Paulo: Libertad, 2002. VEIGA, Ilma P. A. (Org.). Projeto político-pedagógico da escola: uma construção possível. São Paulo: Papirus, 1995. VILLAS BOAS, Benigna Mª de F. O projeto político-pedagógico e a avaliação. In: VEIGA, Ilma P. A. e RESENDE, Lúcia Maria G. de (Orgs). Escola: espaço do projeto político-pedagógico. São Paulo: Papirus, 1998. Este trabalho exigiu de nós maior cuidado e sensibilidade na observação dos movimentos cognitivos, emocionais, corporais, éticos e estéticos de cada pessoa e do grupo e nos permitiu fazer, de acordo com as necessidades, intervenções que possibilitaram o tensionamento das falas, o redimensionamento das ações, a resolução de problemas, a valorização das histórias pessoais e profissionais e o alcance das metas e dos objetivos previstos no Projeto Escola: uma ponte para o futuro. O término oficial deste projeto não significa a interrupção do trabalho de (re)construção do Revista de Educação CEAP - Ano 12 - n° 47 - Salvador, dez/2004 - fev/2005 (p. 67-75) 5