Novo Calicivírus Sistêmico Felino - é hora de vacinar?
Carlos Alberto Geraldo Júnior, Médico Veterinário
Mestrando FMVZ - USP
Leonardo Brandão, Médico Veterinário, Mestre e Doutor
Gerente de Produto Operação Animais de Companhia Merial Saúde Animal
O calicivírus felino (CVF) é um vírus extremamente contagioso, difundido entre a população de felinos em todo o mundo,
reconhecido há muitos anos como um dos agentes que compõe o complexo respiratório felino.1 Seu genoma é composto
por uma fita simples de RNA, o que confere elevada capacidade de adaptação e rápido desenvolvimento diante de
situações de seleção, devido à grande instabilidade de seu material genético.2
Os sintomas mais comuns associados à infecção pelo CVF correspondem a úlceras na cavidade oral, secreção serosa
ocular e nasal, conjuntivite, e em casos raros, poliartrite.1 A maioria dos animais é assintomático, manifestando sintomas
em condições associadas com a recrudescência da infecção, como no período gestacional ou situações de estresse.3 Os
animais uma vez infectados pelo CVF, com ou sem manifestações clínicas de doença, permanecem como portadores do
vírus, eliminando continuamente partículas virais pelas secreções orais e respiratórias por longos períodos.3
Existem várias cepas do calicivírus felino com graus variados de virulência presentes no meio ambiente. As vacinas
comerciais atuais são eficazes contra variantes bem conhecidas do calicivírus felino (cepas F9 e F255, por exemplo).
Embora sejam muito eficazes para minimizar os sintomas da infecção, não conferem imunidade esterilizante e nem
imunidade cruzada contra diferentes cepas do calicivírus, podendo um animal, mesmo vacinado, se contaminar com uma
cepa heterogênea do vírus.4
Atualmente vêm sendo descrito envolvimento do CVF na gengivite-estomatite crônica e em uma nova síndrome,
denominada febre hemorrágica, causada por uma nova cepa extremamente virulenta, que gerou alguns surtos nos EUA e
Europa. Essa cepa virulenta causou manifestações sistêmicas, apresentando alta letalidade.5 Não existem relatos dessa
síndrome ocorrida em animais no Brasil.
Em 1997 foi descrito um surto de calicivirose sistêmica em um gatil em Missouri (EUA), com elevada mortalidade.6 Sabese que algumas variantes do calicivírus felino causam um quadro sistêmico de vasculite endotelial (Calicivírus Sistêmico
Felino - CSF), podendo causar sintomas clínicos graves, inclusive o óbito. Não há imunidade cruzada entre as variantes
virais presentes na vacinas convencionais contra o calicivírus respiratório e as cepas do CSF, portanto, mesmo gatos
vacinados contra o calicivírus respiratório podem desenvolver a doença sistêmica.7
Não está determinado, entretanto, o real benefício de se vacinar gatos com a nova variante sistêmica. A nova vacina
disponível possui uma cepa inativada (morta) do calicivírus sistêmico, e portanto, possui adjuvante em sua formulação.
Sabendo-se da relação entre o uso de vacinas que causem maior inflamação no ponto de aplicação e a ocorrência de
sarcomas vacinais em gatos, o uso deste produto deve levar em consideração alguns fatores8:
1.
A prevalência do novo calicivírus sistêmico felino ainda é considerada muito baixa e de ocorrência rara.
2.
As cepas do calicivírus sistêmico encontradas até agora são geneticamente diferentes entre si, ou seja, a chance
de que uma vacina proteja contra outras cepas do calicivírus sistêmico é remota. Deste modo, deve-se
determinar qual a cepa do calicivírus sistêmico está envolvida no surto para que se possa vacinar com a vacina
adequada.
3.
A única vacina disponível comercialmente demonstrou ser protetora apenas contra a cepa homóloga (da vacina);
a duração da imunidade e a capacidade da vacina induzir proteção cruzada contra outros calicivírus sistêmicos
ainda são desconhecidas.
1
Por esta razão, a AAFP - American Association of Feline Practitioners9 faz importantes ressalvas em relação à
utilização de vacinas para gatos contendo o novo calicivírus sistêmico felino:
Após uma análise dos materiais apresentados pela empresa fabricante da vacina comercial que
contém a cepa inativada do calicivírus sistêmico felino (CSF) o grupo de especialistas concluiu que
não há informações suficientes para se fazer recomendações definitivas em relação ao uso de vacinas
que contenham o CSF neste momento de acordo com os seguintes pontos levantados:
o
A incidência de casos de surtos do calicivírus sistêmico ainda é desconhecida nos Estados
Unidos e em outros países;
o
Não existe qualquer dado que indique aumento do número de surtos do calicivírus sistêmico
na atualidade;
o
O Calicivírus Sistêmico é oriundo de mutação do calicivírus respiratório, e portanto, cada cepa
do vírus envolvida em surtos parece ser geneticamente e antigenicamente diferente entre si;
o
Não se sabe ao certo se a vacina comercial contra o CSF é capaz de conferir proteção cruzada
contra outras cepas do calicivírus sistêmico;
o
A duração da imunidade produzida pela vacina ainda não foi determinada;
o
O uso de vacinas inativadas induz imunidade mais lenta quando comparado com as vacinas
vivas-atenuadas, e neste caso de vacina combinada, recomenda-se que se utilize vacinas
vivas-atenuadas contra o vírus da panleucopenia felina para a primo-vacinação de filhotes
expostos à alto risco de infecção.
Portanto, levando-se em conta todas as características do calicivírus felino, como a instabilidade do RNA genômico,
elevada capacidade mutagênica, grandes diferenças genéticas e antigênicas entre as cepas, baixa indução de imunidade
cruzada e inexistência de relatos da calicivirose sistêmica no Brasil, não há indicações reais para vacinação contra a nova
cepa virulenta do calicivírus felino.
2
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1.
Radford AD, Coyne KP, Dawson S, Porter CJ Gaskell RM. Feline calicivírus. Veterinary Research 2007; 38: 319335.
2.
Radford AD, Coyne KP, Dawson S, Porter CJ Gaskell RM. The challenge for the next generation of feline
calicivirus vaccines. Veterinary Microbiology 2006; 117: 14-18.
3.
Greene C. Infectious Diseases of the Dog and Cat, 3 ed, Elsevier Health Sciences, 1397 p. 2006.
4.
Richards JR, Elston TH, Ford RB, Gaskell RM, Hartmann K, Hurley KF, Lappin MR, Levy JK, Rodan I, Scherk M,
Schultz RD, Sparkes AH. The 2006 American Association of Feline Practitioners Feline Advisory Panel report.
(PDF 37 pages). Journal of the American Veterinary Medical Association. 2006;229: 1405-1441.
5.
Radford AD, Addie D, Belák S, Boucraut-Baralon C, Egberink H, Frymus T, Gruffydd-Jones T, Hartmann K, Hosie
MJ, Lloret A, Lutz, H, Marsilio F, Pennisi MG, Thiry E, Truven U, Horzineck MD. Feline calicivirus infection. ABCD
guidelines on prevention and management. Journal of feline medical and surgery 2009; 11 (7): 556-564.
6.
Turnquist SE, Ostlund E. Calicivirus outbreak with high mortality in a Missouri feline colony. Journal of Veterinary
Diagnostic Investigation. 1997;9:195-198.
7.
Foley J, Hurley K, Pesavento PA, Poland A, Pedersen NC. Virulent systemic feline calicivirus infection: local
cytokine modulation and contribution of viral mutants. Journal of feline medical and surgery 2006; 8: 55-61.
8.
Lappin MR. Feline lifestyle vaccination protocols. Proceedings of the The North American Veterinary Conference;
2009 Jan 17-21; Orlando. United States of North America; 2009. p. 621-4.
9.
American Association of Feline Practitioners. Available from:
http://www.catvets.com/professionals/guidelines/feline%5Ffriendly/?Id=286
3
Download

Novo Calicivírus Sistêmico Felino - é hora de vacinar