PRÓ-REITORIA DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA ÁREA DE CIÊNCIAS NATURAIS E TECNOLÓGICAS Curso de Mestrado Profissionalizante em Ensino de Física e de Matemática ANA CRISTINA ESPINDOLA DISSERTAÇÃO DE MESTRADO O USO DE PROJETOS EXPERIMENTAIS PARA O ENSINO E A APRENDIZAGEM DE FÍSICA NA ESCOLA MÉDIA Santa Maria, RS 2008 ANA CRISTINA ESPINDOLA O USO DE PROJETOS EXPERIMENTAIS PARA O ENSINO E A APRENDIZAGEM DE FÍSICA NA ESCOLA MÉDIA Dissertação apresentada ao Curso de Mestrado Profissionalizante em Ensino de Física e de Matemática do Centro Universitário Franciscano, Área de Concentração em Ensino de Física, como exigência parcial para obtenção do título de Mestre em Ensino de Física. Orientador (a): VANIA ELISABETH BARLETTE Co-orientador (a): ANA CRISTINA GARCIA DIAS Santa Maria, RS 2008 2 CENTRO UNIVERSITÁRIO FRANCISCANO PRÓ-REITORIA DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA CURSO DE MESTRADO PROFISSIONALIZANTE EM ENSINO DE FÍSICA E DE MATEMÁTICA A COMISSÃO EXAMINADORA, ABAIXO-ASSINADA, APROVA A DISSERTAÇÃO: O USO DE PROJETOS EXPERIMENTAIS PARA O ENSINO E A APRENDIZAGEM DE FÍSICA NA ESCOLA MÉDIA Elaborada por: ANA CRISTINA ESPINDOLA COMISSÃO EXAMINADORA ______________________________________________ Prof.ª Dr.ª Vania Elisabeth Barlette Presidente _______________________________________________ Prof.a Dr.a Ana Cristina Garcia Dias _______________________________________________ Prof. Dr. Sandro Rogério Vargas Ustra Santa Maria, 30 de julho de 2008 3 Biblioteca Termo de autorização Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu Mestrado Profissionalizante em Ensino de Física e de Matemática. Área de concentração: Ensino de Física Título da Dissertação: O USO DE PROJETOS EXPERIMENTAIS PARA O ENSINO E A APRENDIZAGEM DE FÍSICA NA ESCOLA MÉDIA Orientador: Profa. Dra. VANIA ELISABETH BARLETTE Eu, ANA CRISTINA ESPINDOLA, R. G. n° 1046222038, autora da Dissertação acima citada, autorizo ao Centro Universitário Franciscano – UNIFRA - a disponibilizar, gratuitamente, sem ressarcimento dos direitos autorais, o documento, em meio eletrônico, na Rede Mundial de Computadores (Internet) para fins de leitura e/ou impressão e para divulgação da produção científica gerada na Instituição, a partir desta data. _____________________________ Ana Cristina Espindola _____________________________ Profa. Dra. Vania Elisabeth Barlette SANTA MARIA, 30 de julho de 2008 4 Ao meu filho Pedro Henrique, ao meu esposo Cláudio e aos meus pais Benjamin e Neli. 5 AGRADECIMENTOS O meu desejo de fazer Mestrado dava-me a idéia de que para realizar este desejo só dependeria de mim, do meu esforço, dedicação, estudo, enfim... Percebi que ia muito além de mim. À medida que buscava esse sonho, e as coisas iam acontecendo, pessoas a minha volta foram surgindo e se mostrando importantes e imprescindíveis. A primeira pessoa a quem agradeço é meu esposo Cláudio, que ao meu lado durante todos esses anos de nossas vidas sempre me ensinou de tudo com suas palavras fortes e amigas. Todo o meu sonho ele tomou para si e passou a sonhar junto comigo, dando todo o apoio que podia e muitas vezes fazendo um esforço além de suas capacidades. Sem ele jamais seria quem sou. Ao meu filhinho Pedro Henrique que, durante a minha jornada de aulas, trabalhos e leituras, estava no auge de seus quatro aninhos. As minhas professoras Ana Cristina e Vania, em especial à professora Vania, até mesmo por manter mais contato e possuir tamanha inteligência, sabedoria e sensibilidade. Elas perceberam o que eu realmente queria e sabia fazer, sendo que eu mesma ainda não havia descoberto. Neste momento agradeço os meus queridos alunos, que foram o ápice de tudo isso, demonstrando, a todo o momento, pela proposta de trabalho, carinho, dedicação, alegria, divertimento e, principalmente, que faziam os aparatos e apresentavam com entusiasmo e confiança porque confiavam e acreditavam no meu trabalho e também percebiam em mim a dedicação por eles. Não temos um fim para este trabalho, e nem uma turma específica, apenas uma seqüência, e várias turmas, pois foram inúmeras as turmas que passaram pelo andamento dos projetos, e várias virão, após o término deste, com outras idéias, a cada projeto apresentado por eles; eles são assim, se renovam, se revigoram e contagiam as pessoas que estão por perto e querem ser contagiadas por eles. À Escola Thomás Fortes que serviu de palco para a minha pesquisa, através do diretor Aldemir, que sempre, sorrindo, acreditou e me incentivou. E, em especial a minha vice-diretora do turno da manhã, Sandra, pela sua postura sempre correta e verdadeira, fui abençoada no momento que encontrei com ela nesse lugar e nesse período de minha vida. E também ao meu aluno Ricardo, que editou o vídeo e as fotos, material de minha pesquisa, mesmo ele tendo tão pouca idade, mas já demonstrando enorme seriedade, comprometimento e responsabilidade. E por fim, a Deus, sinto a tua presença em todos os momentos da minha vida em meu coração. 6 SUMÁRIO RESUMO I ABSTRACT Ii LISTA DE FIGURAS Iii INTRODUÇÃO 13 Percurso profissional e contexto escolar 13 Problema 18 Objetivos 19 Objetivo geral 19 Objetivos específicos 19 1 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA 20 1.1 O modelo tradicional de ensino 20 1.2 O movimento da Escola Nova 22 1.3 Uma nova forma de ensinar e aprender por meio de projetos 24 1.4 A motivação para aprender 28 2 AS ATIVIDADES DE ENSINO-APRENDIZAGEM COM OS PROJETOS 30 EXPERIMENTAIS DE FÍSICA 2.1 O cronograma de trabalho 31 2.2 A escolha dos assuntos de pesquisa e a busca de informações 31 2.3 O planejamento, a busca de materiais e a construção dos experimentos 37 2.4 Os testes dos experimentos e o esclarecimento de dúvidas 37 2.5 A busca de relações teoria-prática 37 2.6 Apresentação dos projetos: síntese do conhecimento elaborado 37 2.6.1 Apresentação dos projetos em sala de aula 37 2.7 Apresentando os projetos: dando visibilidade aos trabalhos 37 desenvolvidos durante a experiência educacional 2.7.1 Apresentação dos projetos na escola: a exposição “Thomás em Ação” 38 2.7.2 Apresentação dos projetos em eventos 38 2.7.3 Visitação a escolas da região 38 2.7.4 Divulgação no jornal da cidade 40 2.7.5 Produção de uma mídia digital no formato de vídeo 40 7 3 PROCEDIMENTOS MÉTODOLÓGICOS 41 3.1 Participantes e local da pesquisa 41 3.2 Instrumentos de coleta de dados 41 3.3 Análise dos dados 43 4 ALGUNS ASPECTOS SOBRE O USO DE PROJETOS 45 EXPERIMENTAIS DE FÍSICA: TENSÃO SUPERFICIAL COMO EXEMPLO 4.1 Resultados 46 4.1.1 Registros no questionário inicial 46 4.1.2 Registros no diário de campo dos alunos 47 4.1.3 Registros no questionário final 49 4.2 Discussão 51 5 A MOTIVAÇÃO PARA APRENDER COM O USO DE PROJETOS 53 EXPERIMENTAIS DE FÍSICA 5.1 Resultados 53 5.1.1 Acerca da escolha dos projetos 53 5.1.2 Acerca da expectativa quanto ao desenvolvimento dos projetos 55 5.2 Discussão 57 6 ALGUNS EPISÓDIOS COM OS PROJETOS EXPERIMENTAIS DE 60 FÍSICA: UM RELATO A PARTIR DO DIÁRIO DA PRÁTICA PEDAGÓGICA 6.1 Um episódio envolvendo cinemática 60 6.2 Um episódio envolvendo correntes de convecção 61 6.3 Um episódio envolvendo gêiser 63 6.4 Construção dos experimentos e aprimoramento do conteúdo: imagens 66 de episódios no laboratório da escola 6.5 Apresentação dos projetos experimentais na escola: imagens de 67 episódios em sala de aula CONSIDERAÇÕES FINAIS 71 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 76 8 APÊNDICES 80 APÊNDICE A: Mídia digital no formato de vídeo sobre o processo 80 educacional envolvendo os projetos experimentais 9 RESUMO Em uma perspectiva de educação que visa o desenvolvimento humano, uma metodologia pedagógica baseada em projetos traz importantes implicações para o trabalho docente na escola em favor a mudanças transformadoras nos modos de ensinar e de aprender, em consonância com as necessidades e os novos modos de vida, de relações sociais e de relações de trabalho da nossa época. O presente estudo diz respeito à aplicação e a análise de como uma proposta de ensino e aprendizagem baseada em projetos experimentais pode motivar a aprendizagem de conteúdos de Física por alunos do ensino médio, bem como auxiliar na construção de outras aprendizagens importantes ao desenvolvimento humano. A proposta foi aplicada com 181 alunos do primeiro e segundo anos do ensino médio da Escola Estadual de Educação Básica Thomás Fortes, Santiago, RS, usando uma abordagem de trabalho por projetos experimentais. Como instrumentos de coleta de dados, utilizaram-se registros escritos (diários de campo e questionários) dos alunos e do professor. Os resultados obtidos foram analisados por meio do método de análise de conteúdo. De maneira geral, observou-se que os alunos tiveram uma boa receptividade a esse tipo de abordagem, pois se perceberam atores de suas próprias aprendizagens. Contudo, ressaltase que para que isso aconteça, há necessidade de uma postura diferenciada tanto do professor quanto do aluno, sendo que a atitude do primeiro influenciará no desenvolvimento da atitude do segundo. Neste trabalho, observou-se que os alunos indicaram ter uma postura interessada e responsável em relação à construção de seus próprios conhecimentos. Como um dos resultados da aplicação da proposta, produziu-se uma mídia digital no formato de vídeo para dar visibilidade ao processo educacional envolvendo os projetos experimentais. Palavras-chave: Trabalho por projetos; Motivação; Projetos experimentais; Ensino de Física. 10 ABSTRACT In a perspective of education aimed at human development, a methodology based on educational projects brings important implications for the teaching work at school which it is favorable to transformative changes in the modes of teaching and learning, in agreement with the needs and new ways of life, social relations and of working relationships of our time. This study concerns the implementation and analysis of how a proposal for teaching and learning based on experimental projects can motivate students of high school to learn the contents of Physics, as well as to help in constructing other important learning to human development. The proposal was implemented with 181 students of the first and second year of high school of the Escola Estadual de Educação Básica Thomás Fortes, Santiago, RS, using work by experimental projects. As data collection instruments, written entries (activity books and questionnaires) of the students and the teacher were used. The results analyses were done by using the content analysis method. In general, it was observed that the students had a good receptivity to this type of approach, because they realized actors of their own learning. However, it is evident that to achieve this, we need a different posture of both the teacher as the student, and the attitude of the first influences in the development of the attitude of the second. In this work, it was observed that the students indicated they have an interest and responsible attitude regarding the construction of their own knowledge. As a result of the implementation of the proposal, it was produced a digital media in the video format to give visibility of the educational process with the experimental projects. Keywords: Work by projects; Motivation; Experimental projects; Physics teaching. 11 LISTA DE FIGURAS Figura 1. Imagem da apresentação em sala de aula do projeto envolvendo o 45 experimento “Um peixe de papel” (NETTO, 2007) por alunas do 2º ano. Figura 2. Imagem da realização em laboratório de testes do experimento 66 “Dilatação de Sólidos” (DIEZ, 1996) por alunos do 2° ano. Figura 3. Imagem da realização em laboratório de testes do experimento 66 “Modelo de foguete – 3ª Lei de Newton” (NETTO, 2007) por alunas do 1° ano. Figura 4. Imagem da realização em laboratório de testes do experimento 67 “Cinemática dos dominós” (NETTO, 2007) por alunas do 1° ano. Figura 5. Imagem da realização em laboratório de testes do experimento 67 “Máquina a vapor” (NETTO, 2007) por alunas do 2° ano. Figura 6. Imagem da realização em laboratório de testes do experimento 68 “Irradiação” (DIEZ, 1996) por alunos do 2° ano. Figura 7. Imagem da apresentação em sala de aula do experimento “Gênio 69 da garrafa” (NETTO, 2007) por alunas do 2° ano. Figura 8. Imagem da apresentação em sala de aula do experimento 69 “Máquina a vapor” (NETTO, 2007) por alunas do 2° ano. Figura 9. Imagem da apresentação em sala de aula do experimento 70 “Correntes de convecção” (NETTO, 2007) por alunas do 2° ano. Figura 10. Imagem da apresentação em sala de aula da apresentação do 70 experimento “Gêiser” (NETTO, 2007) por alunos do 2° ano. 12 INTRODUÇÃO Percurso profissional e contexto escolar No ano de 2000, depois de aproximadamente quatro anos atuando como professora de Física no ensino médio na Escola Estadual de Educação Básica Thomás Fortes, Santiago, RS, nos moldes tradicionais de ensino, usando giz, livro texto e quadro-negro, percebia que não conseguia fazer com que meus alunos respondessem a si mesmos o porquê de estar estudando Física. No entanto, continuei com o mesmo método de ensino, ou seja, aulas tradicionais, sem muitas mudanças no modo de trabalhar os conteúdos, por aproximadamente mais um ano. Continuava observando nos alunos atitudes de desinteresse quanto aos conteúdos trabalhados em aula, havendo pouca motivação para estudá-los. Os jovens apresentavam certa distância da figura do professor nas aulas de Física, e também, demonstravam resultados insatisfatórios quanto à aprendizagem. Eu percebia, ainda, que eles consideravam estudar Física como sendo chato e difícil. Incomodada com essa reação de meus alunos, buscava em meus pensamentos formas de modificar isso, e pensava: ou mudo a maneira de dar aulas e motivo os alunos, sendo que essa atividade me dê gratificação ou abandono minha carreira junto ao magistério. Em 2003 fazia uso de uma apostila em sala de aula de autoria de um outro professor. Ao utilizar este recurso observei, em um determinado momento, que a apostila sugeria que ao término dos módulos estudados fossem construídos experimentos, que demonstrariam os assuntos e conceitos abordados. Achei a proposta interessante, contudo ainda não era o momento oportuno para fazer uso desta proposta nas aulas de Física, pois precisava me familiarizar com o método. Em 2004, após seis meses de aula, não havia realizado nenhuma mudança no meu procedimento de ministrar as aulas, mas encontrava-me refletindo muito acerca de meu trabalho e sobre a atitude dos alunos. Considerei que seria necessário partir de mim esse processo de mudança no modo de ensinar Física, pois eu estava incomodada com essa situação. Iniciei então, neste segundo semestre do ano de 2004, a procura por atividades alternativas nas quais os alunos pudessem se envolver mais com a própria aprendizagem, e também, que tivessem no professor um apoio para os seus estudos. Neste ano, eu e outra colega professora de Física da mesma escola, começamos a pensar em uma forma que pudesse modificar a situação encontrada nas aulas e do ensino de Física, pois ela também 13 percebia a desmotivação geral dos alunos e suas atitudes negativas frente às aulas de Física. Através de algumas discussões, chegamos à conclusão que usar o Laboratório de Ciências da escola poderia ser uma alternativa para modificar a atitude no nosso aluno adolescente, fazendo com que o mesmo se envolvesse mais com a aprendizagem dos conteúdos de Física. Inicialmente, pensamos em realizar um trabalho com a demonstração de experimentos simples pelo professor aos alunos. Com o passar do tempo, verificamos que o fato de parte das aulas acorrerem no Laboratório de Ciências da escola já os motivou um pouco mais. Contudo, essa proposta ainda os deixava em uma atitude bastante passiva. Era o professor que manuseava os experimentos, mostrava e explicava os conceitos, eles só observam. Isso de certa forma, após passar a novidade, gerou desinteresse novamente. Então, lembrei da apostila que usei em 2003, a qual sugeria a construção de experimentos de Física no final de cada módulo estudado. Considerei que esse tipo de atividade geraria um maior envolvimento nos alunos, pois eles construiriam e apresentariam o experimento, explicando os conceitos de Física subjacentes. Elaboramos uma proposta em que o aluno poderia desenvolver atividades práticas no laboratório, a partir da escolha de experimentos simples propostos pelo professor. Particularmente, comecei a utilizar a construção de experimentos como mais uma forma de avaliar os meus alunos, além procurar nesta atividade uma forma de aproximar o aluno e o professor. No final do ano de 2004, no último trimestre, no mês de outubro, propus a eles que os assuntos estudados até aquele momento fossem contemplados na forma de projetos com a construção de um aparato por grupos de alunos, e apresentado para a turma. Logo após colocar essa proposta, sugeri alguns endereços eletrônicos, livros e revistas como fonte de busca para os grupos. Neste momento ainda forneci algumas orientações gerais e estabeleci algumas regras para que todos pudessem ser avaliados por igual, uma vez que essa atividade substituiu as provas escritas do trimestre. Os alunos concordaram com a proposta, se mostrando interessados em realizar a mesma. Entre essas combinações iniciais, acordamos: a) sobre o dia e o local da apresentação; b) sobre o número de alunos nos grupos de trabalho, que deveriam ser de no máximo quatro alunos; c) que a construção do aparato seria realizada através de encontros extra classe; d) que os alunos deveriam encontrar-se com o professor, também em um horário extra classe, para que pudessem ser sanadas dúvidas sobre os conteúdos de Física e sobre o desenvolvimento do aparato experimental; e que, e) eventualmente, os encontros poderiam ser realizados durante as aulas, contudo, solicitava-se que preferencialmente estes apresentassem disponibilidade para realização dos mesmos em turno oposto, para não prejudicar o desenvolvimento dos conteúdos em sala de aula. 14 Essa primeira experiência, em 2004, foi de grande valia para mim e para os alunos. A primeira idéia proposta por nós professoras era a de simplificar ao máximo a atividade experimental, mas os estudantes foram bastante receptivos e ficaram muito empolgados com a execução dos experimentos. Assim, a proposta inicial tomou proporções maiores nos anos seguintes, devido às próprias iniciativas dos alunos. Lembro-me de um aluno que fazia planos para um futuro projeto de Física, no qual ele pretendia fazer “alguma coisa” muito grande, que ele não pudesse carregar sozinho, assim o pai dele o levaria a escola no dia programado para a apresentação do mesmo. Esse aluno me contou que pela primeira vez na vida dele o pai o havia levado à escola, em função do tamanho do aparato experimental construído neste primeiro ano. Isso pareceu ter significado muito para ele. Outra vez, uma professora veio me dar os parabéns, porque ela cuidava da sala de informática à noite na escola, e alguns alunos meus estiveram por lá. Essa professora observou que eles estavam empenhados, levando muito sério o trabalho, pesquisando sobre o assunto, procurando incessantemente informações em sites relacionados aos seus temas. Isso fez com que eles colhessem materiais que ia além do que o projeto inicialmente pedia. Em 2005, como aluna do Curso de Mestrado Profissionalizante em Ensino de Física e de Matemática, percebi que a experiência vivida me incentivou a buscar novos conhecimentos e a desenvolver outras idéias sobre como melhorar o ensino de Física por mim ministrado. O curso de mestrado, por meio das disciplinas e seminários ofertados, bem como da orientação e a co-orientação de um trabalho de pesquisa envolvendo projetos experimentais no ensino de Física, me possibilitou teorizar sobre esta prática pedagógica iniciada em 2004. Na escola, sugeri o desenvolvimento de projetos experimentais já no início do segundo trimestre de 2005, com a realização de apresentações dos alunos para toda a comunidade escolar. Durante todo o mês que antecedia a data de apresentação dos trabalhos desenvolvidos nos projetos de Física, o envolvimento dos alunos era total com a escola. Os alunos buscaram ativamente o laboratório de ciências para desenvolver os projetos, onde eu e minha colega também professora lá nos encontrávamos, para que as dúvidas dos alunos referentes aos conteúdos de Física e a montagem dos projetos fossem sanadas. Cabe lembrar que para a construção dos projetos experimentais, os alunos deveriam aprender os conteúdos de Física subjacentes a cada projeto. Percebi que este momento anterior à apresentação dos projetos fazia com que os alunos buscassem trabalhar com os conteúdos, explorando-os e buscando sanar as dúvidas que iam surgindo no estudo dos mesmos. Além disso, observei que os alunos se aglomeravam pelo pátio da 15 escola, em grupos, serrando, lixando, e pintando todo tipo de madeira, bem como, trabalhando com garrafas pet para substituir os recipientes de vidro necessários ao desenvolvimento dos projetos, que não eram encontrados na escola ou na cidade. A direção da escola ao perceber envolvimento dos alunos acabou, também, nos auxiliando com alguns materiais, tais como martelo, prego, água (gelada e quente), fios, tomadas, entre outros. Comecei a perceber que o caminho para conseguir promover uma aprendizagem da Física e de uma formação mais global passava por essa via: auxiliar o aluno na sua experiência de aprendizado. Fiquei segura em prosseguir e não desistir dessa idéia de trabalhar com projetos, e, de alguma maneira, me senti “fazendo a diferença”. Ao sugerir esse tipo de atividade para os meus alunos, inicialmente sentia receio que eles não se motivassem e desistissem da proposta, porém, foi empolgante para mim como professora vê-los tão entusiasmados. Percebi que a utilização desta proposta de ensino modificou minhas relações com os alunos. Estes passaram a me ver como uma pessoa mais próxima a eles, e também, que acreditava na capacidade deles. Através da utilização de projetos eles também passaram a reconhecer e desenvolver a sua capacidade de aprendizagem, e melhorar sua auto-estima. Isso me deu a certeza que estava no caminho certo, tanto quanto ao método pedagógico que eu estava iniciando a usar, quanto a minha escolha por esta profissão. Desde então, abandonei a idéia de sair do magistério, e todas as minhas atividades dentro da sala de aula fazia com prazer e alegria. Quando chegou a data da apresentação dos projetos experimentais, em junho de 2005, a supervisão escolar montou um horário específico em sala de aula para as visitações das outras turmas do turno da manhã da escola que não estavam envolvidas nos projetos experimentais por não serem meus alunos. Nesse momento, tive várias surpresas, todas agradáveis. Em primeiro lugar, me surpreendi com a postura dos meus alunos, que se apresentaram comprometidos, dominando o assunto e apresentando os trabalhos com desenvoltura e responsabilidade. Esses alunos, em alguns momentos, ficaram sozinhos em sala de aula, apresentando os projetos para os colegas que ali circulavam, explicando e demonstrando os princípios físicos envolvidos em seus trabalhos. Outra situação que merece destaque é o apoio recebido pela supervisão e direção da escola. Eles me auxiliaram nesse dia, tanto organizando a data como oferecendo esse espaço para a apresentação dos trabalhos. Essa atividade envolveu um grande número de alunos, da ordem de 120 alunos do 1o e 2o anos do ensino médio. 16 Continuei tendo surpresas agradáveis na semana seguinte a esse episódio, quando busquei avaliar os trabalhos; conversei com meus alunos sobre a apresentação dos projetos experimentais e tentei saber deles o que acharam da realização deste tipo de atividade. Obtive muitas respostas positivas sobre a proposta de trabalho com os projetos; a maioria dos alunos se mostrou empolgado e satisfeito com seu desempenho. Percebi, nesse momento, através de suas falas e atitudes, que muitos estavam mais confiantes sobre o que eram capazes de realizar. No entanto, nem todos aderiram à proposta; alguns manifestaram apenas preocupação com a melhora de nota e nada mais. Contudo, observo que a maioria ficou satisfeita e pediu para que seus trabalhos fossem expostos na praça central da cidade, que tem um fluxo grande de pessoas, para atingirem um público maior e diferente. A direção da escola, percebendo os resultados até aqui obtidos e a minha disposição em continuar trabalhando com os alunos no laboratório de ciências, me ofereceu, para 2006, 10 horas de trabalho destinadas a atividades com projetos experimentais. Então no ano de 2006, como professora responsável pelo Laboratório de Ciências da escola, sugeri às novas turmas a construção de projetos experimentais, semelhante à modalidade de anos anteriores. O desenvolvimento dos projetos ocorreu a partir do segundo trimestre, pois no primeiro trimestre foram trabalhados alguns conteúdos fundamentais ao desenvolvimento desta atividade. Em minha prática, percebo que aqueles que já haviam trabalhado no ano anterior com experimentação, logo nos primeiros dias de aula, já solicitam a realização de uma atividade experimental. Já os alunos que ainda não haviam trabalhado desta forma, mas por terem acompanhado a experiência dos colegas no ano anterior com projetos, ficaram entusiasmados com a idéia. Neste ano de 2006, a minha sugestão foi que a apresentação dos trabalhos acontecesse para os alunos de outras Escolas. Os alunos foram receptivos e adoraram a idéia. Agendamos, então, hora, data, local e propus que alunos e professores de outras escolas viessem prestigiar os trabalhos desenvolvidos pelos alunos da escola em que trabalho. Os alunos aceitaram a proposta, e a partir desses acertos, os grupos iniciaram as escolhas dos projetos experimentais que iriam desenvolver para o ano de 2006. Quando quase todos os grupos já estavam definidos, iniciaram-se os encontros em turno oposto ao das aulas, no laboratório da escola, para que os mesmos tivessem algum auxílio no desenvolvimento dos projetos. As apresentações dos trabalhos também aconteceram em turno oposto ao das aulas, durante duas tardes, com a visitação de alunos da Escola Estadual Monsenhor Assis e da Escola Estadual Cristóvão Pereira. Mais uma vez gostaria de destacar a diferença que percebi na atitude dos alunos quanto ao seu envolvimento com a Física; os alunos que no início deste relato não 17 percebiam o porquê de aprender Física, agora, encontravam-se extremamente envolvidos e motivados na construção de experimentos que implicavam na aprendizagem de conteúdos físicos. Uma novidade que desenvolvemos para este ano de 2006, foi que, enquanto eram realizadas as apresentações dos projetos, acontecia também visitação dos colegas das duas outras escolas ao laboratório de ciências da nossa escola. Considero que isso seja algo interessante e inovador, porque as escolas estaduais, na sua maioria, pelo menos em minha cidade, não possuem laboratório de ciências, e, por conseqüência, os alunos não conhecem ou nunca estiveram em um laboratório de ciências. Nosso laboratório possui equipamentos adquiridos por meio de compras da escola com verbas destinadas a esses fins ou doações dos próprios alunos. Nesse sentido, cabe ressaltar que muitos dos aparatos que se encontram no laboratório foram construídos pelos próprios alunos da escola. Para realização dessa atividade de visitação, convidei seis alunos participantes de projetos de anos anteriores para auxiliaram no trânsito dos estudantes visitantes. Desses seis alunos, dois ficaram no laboratório explicando e mostrando o funcionamento de alguns equipamentos comprados; os outros quatro alunos se distribuíram para receber os visitantes e cuidar do fluxo de visitação dos estudantes a sala dos projetos Teve-se o cuidado para que a sala de visitação não ficasse tumultuada, tornando-se possível observar os experimentos e suas respectivas explicações. As experiências com projetos experimentais desenvolvidas nos anos de 2005 e 2006 foram relatadas na forma de artigo científico, e divulgadas, em 2006, em eventos da área (ESPINDOLA et. al., 2006a; ESPINDOLA et. al., 2006b; ESPINDOLA et. al., 2006c). Problema A partir do exposto, podemos nos questionar sobre como uma proposta de ensino e aprendizagem baseada em projetos experimentais pode motivar a aprendizagem de conteúdos de Física por alunos do ensino médio, bem como auxiliar na construção de outras aprendizagens importantes ao desenvolvimento humano. Algumas questões importantes emergem desse problema, a saber: a) Quais os motivos que levam os alunos a aprender Física por meio do trabalho com projetos experimentais? b) Como a proposta é capaz de promover o desenvolvimento de outras aprendizagens importantes ao desenvolvimento humano? 18 c) A proposta é capaz de promover aprendizagem significativa de conteúdos de Física? Objetivos Objetivo Geral Desenvolver e analisar como uma proposta de ensino e aprendizagem baseada em projetos experimentais pode motivar a aprendizagem de conteúdos de Física por alunos do ensino médio, bem como auxiliar na construção de outras aprendizagens importantes ao desenvolvimento humano. Objetivos Específicos a) Conhecer a motivação dos alunos para a aprendizagem de Física por meio do trabalho com projetos experimentais; b) Identificar como o trabalho com projetos experimentais pode promover outros tipos de aprendizagem nos alunos, que não aquela diretamente relacionada aos conteúdos de Física; c) Identificar avanços e dificuldades para a aprendizagem com os projetos; d) Apresentar uma mídia digital no formato de vídeo sobre o processo educacional envolvendo esta experiência, no qual são mostrados os alunos em ação com os seus projetos experimentais. 19 1 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA 1.1 O modelo tradicional de ensino A retrospectiva da história da educação no Brasil (MARTINS, 2006) considera que, a partir do período colonial, e, em muitas escolas até nossos dias, a educação se manteve no modelo tradicional ou jesuítico. Essa forma de ensino é basicamente livresca, com baixo nível de interação do aluno com o conteúdo a ser assimilado, e deste para com o professor. Nesse sentido, o modelo tradicional de ensino, segundo Oliveira (2006), é baseado em metodologias expositivas e na fixação e memorização de conteúdos, em que o professor fala e o aluno passivamente ouve, predominando a transmissão de conhecimentos e dificultando a formação dos jovens para a vida. Oliveira (2006) ressalta dois pontos importantes sobre o modelo tradicional de ensino: • O ensino tradicional torna-se sem sentido para o educando, pois está desvinculado de sua realidade; e, • Pelo uso contínuo da metodologia de trabalho tradicional, nota-se acomodação e resistência à prática de propostas de ensino inovadoras tanto por parte de professores como de alunos, pois se considera que “o professor pode resumir em alguns minutos o conteúdo de um livro extenso, poupando, aos alunos, demorados e cansativos esforços de pesquisa pessoal” (op. cit., p.2). Martins (2005), ao referir-se ao ensino tradicional, considera que: Houve várias tentativas de modificá-lo ou substituí-lo por outros modelos que, no entanto, se mostraram insuficientes para uma verdadeira renovação no modo de ensinar, uma vez que o professor persistia em dizer: “não faça assim”, “faça isto”, “está errado”, “recomece” “siga o modelo”, “veja como deve ser feito” etc. (p.19). Segundo Oliveira (2006), a utilização da modelo tradicional de ensino não tem sido eficaz para promover a aprendizagem, pois o aluno não se encontra envolvido na construção do seu próprio conhecimento. No modelo tradicional de ensino, segundo essa autora, o professor fala e o aluno passivamente ouve, sendo o risco da não aprendizagem um dos grandes problemas encontrados neste modelo. Essa passividade dificulta a 20 interação entre o assunto que o professor deseja que o aluno aprenda com aquilo que o aluno efetivamente aprende. Martins (2005) observa que as metodologias de ensino tradicionais têm sido pouco eficientes para ajudar o aluno a aprender a pensar, a refletir, e a criar, com autonomia, soluções para as situações práticas, para a realidade em que vive. Este autor ainda acrescenta: “É nosso papel convencê-los de que são inteligentes e de que sua inteligência não é estática, podendo ser aprimorada a cada dia com a busca do conhecimento pelo método do “aprendendo a fazer e a pensar” (p.14)”. Oliveira (2006), por sua vez, lembra que o ensino tradicional não leva em consideração uma série de fatores que as ciências pedagógicas contemporâneas nos revelam. Algumas premissas são destacadas por essa autora: • O aluno precisa estar motivado para a aprendizagem; • O conhecimento efetiva-se na interação entre o aluno, o conteúdo e o cotidiano; e, • O conhecimento efetiva-se com a mediação do professor e não pela ação do professor de repassar conteúdos. Oliveira (2006) enfatiza, ainda, que o aluno traz uma bagagem cultural que precisa ser valorizada e aproveitada em prol dele mesmo. O professor deve compreender que nenhuma pessoa é igual à outra, e que o tempo para aprender, entender e assimilar é diferente de indivíduo para indivíduo. Nesse sentido, é importante se valorizar as diferenças. Por fim, essa autora ainda defende que (op. cit., 2006): • O trabalho em sala de aula tem uma dimensão coletiva, em que as atividades de grupo devem ser tidas como atividades colaborativas; e, • Que os alunos devem ser colocados em situações de pesquisa, as quais são pedagogicamente mais enriquecedoras. 21 1.2 O movimento da Escola Nova Esta seção traz um breve histórico da evolução do ensino que culminou com o movimento da Escola Nova na Europa, no final do século XIX, e sendo que no Brasil, este movimento inicia-se em 1920, como uma reação ao modelo tradicional de ensino (MARTINS, 2005; GADOTTI, 2005; KEHRWALD; GANDOLFO, 2007). De certa forma, foi a partir do modelo de escola tradicional que se abriram os caminhos para uma proposta de ensino mais abrangente e integrada, como o ensino de Física por meio de projetos. Um breve percurso histórico do movimento da Escola Nova é feito por Kehrwald e Gandolfo (2007). Segundo o relato desses autores, Pestalozzi (1746-1827) e Fröebel (17821825) são considerados os precursores da Escola Nova, pois estes autores, já no século VXIII, apontavam para a necessidade de uma educação voltada aos interesses e necessidades infantis. Há um consenso que os principais precursores da Escola Nova foram os seguintes educadores: • Ovide Decroly, na França, que sugere a aprendizagem globalizadora em torno de centros de interesse; • Maria Montessori, na Itália; • John Dewey, nos Estados Unidos, que preconizou a sala de aula como uma comunidade de aprendizagem em miniatura; • William Kilpatrick, discípulo de Dewey, que, no início do século XX, propõem os projetos de trabalho integrado; • Celestin Freinet, na França, na década de 30, que protagonizou a pedagogia de projetos, entendendo que a criança deve compreender o mundo com certa rigorosidade de pensamento, por meio de um trabalho de pesquisa reflexiva, propondo a valorização do trabalho e da atividade em grupo para estimular a cooperação, a iniciativa e a participação; • Paulo Freire, que a partir da década de 60 passa a ser destaque na educação brasileira com a introdução do debate político e da realidade sócio-cultural no processo escolar por meio da educação libertadora e os chamados temas 22 geradores. Suas idéias são mundialmente divulgadas através de seus vários livros como Pedagogia do Oprimido, Pedagogia da Autonomia, entre outros. • Antoni Zabala, década de 90 e século XXI (na Espanha), entende que a complexidade do projeto educativo deve ser abordado por um enfoque globalizador no qual a interdisciplinaridade está presente. • Jolibert na França, e Adelia Lerner e Ana Maria Kaufman, ambas na Argentina, também divulgam estudos sobre propostas educativas globalizadoras. • Miguel Arroyo, entre outros educadores brasileiros, defende a presença na escola dos temas emergentes e de um currículo plural. • Jurjo Santomé e Fernando Hernández, década de 90 em diante, que propõem o currículo integrado e os projetos de trabalho (na Espanha) com repercussões no Brasil. Os últimos anos têm sido marcados por mudanças significativas no discurso sobre Educação. Segundo Kawamura e Hosoume (2006), um novo vocabulário está sendo introduzido nas propostas educacionais. Esse vocabulário inclui palavras como contextualização, interdisciplinaridade, competências e habilidades. No entanto, esses autores lembram que devido ao sentido amplo dessas palavras, sua tradução para a sala de aula ainda continua difícil. Kawamura e Hosoume (2006) ressaltam que: • A implantação de qualquer procedimento a nível escolar, voltado a novas diretrizes para educação, é um processo lento, porém fundamental, e de construção coletiva; • Para promover uma formação visando competências e habilidades é imprescindível que os conhecimentos se apresentem como desafios aos alunos. Estimulando-os a busca de recursos cognitivos, o sentimento de acreditar em si mesmo, e a autonomia para uma tomada de decisão; e, • O que importa é o desenvolvimento de atividades, que solicitem dos alunos várias habilidades, entre elas, conexões com conceitos intuitivos e científicos. Isso possibilitará o desenvolvimento do espírito de cooperação, de solidariedade e de responsabilidade. 23 Ainda, citando Kawamura e Hosoume (2006), Fazer opções por determinadas formas de ação ou encaminhamento das atividades não é tarefa simples, já que exige o reconhecimento do contexto escolar específico, suas características e prioridades, expressas nos projetos dos professores e alunos e nos projetos pedagógicos das escolas. Discutir estratégias não deve, também, confundir-se com a prescrição de técnicas a serem desenvolvidas em sala de aula. (p. 17) Oliveira (2006) observa que esse novo paradigma educacional propõe desenvolver, junto às crianças e aos jovens, ações que ultrapassem as fronteiras da fragmentação do saber. Esse novo paradigma busca ir além da aprendizagem conteudista das práticas atualmente reproduzidas em salas de aula. Há uma procura por novos rumos para a educação escolar, especialmente vinculada a práticas educativas de qualidade, que proporcionem às crianças e jovens a vivência de suas potencialidades, de um trabalho integrado e cooperativo entre família e escola, enfim, que possibilite e desenvolva o exercício da cidadania. Dessa forma, as escolas terão a possibilidade de reconhecer que a sua missão é de formar cidadãos completos, abertos ao mundo, criativos, competitivos, alegres, humanizados e solidários. 1.3 Uma nova forma de ensinar e aprender por meio de projetos No Brasil, segundo Menezes e Santos (2007), o ensino por meio de projetos tornouse conhecido a partir da divulgação do movimento da Escola Nova, principalmente com os trabalhos de Anísio Teixeira e Lourenço Filho. Esse movimento forneceu as bases para um ensino dinâmico e criativo, centrado nos interesses do aluno, numa perspectiva de construção do conhecimento pelo aluno mais do que na transmissão dos conhecimentos pelo professor. Assim, ensinar por meio de projetos passa a assumir o status de uma postura pedagógica. O ensino por meio de projetos tem várias denominações, tais como ”método de projetos”, “pedagogia de projetos” e “projetos de trabalho”, diferenciando-se pela abrangência na implantação dessas abordagens na metodologia de ensino, podendo chegar a uma mudança total na orientação filosófico-pedagógica da escola. Lima e Santos (2007) indicam que, ao se falar em pedagogia de projetos se estará fazendo referência a uma postura educativa bastante diferenciada do que se vem fazendo na maioria dos processos educacionais. Trabalhar com a pedagogia de projetos implica em repensar as práticas educacionais tradicionais, especialmente aquelas que se remetem à fragmentação dos conteúdos em séries, aos horários semanais fixos, a centralidade da 24 figura do professor nas atividades educativas, e a desarticulação entre os conhecimentos veiculados na escola e os conhecimentos veiculados na vida cotidiana, social e tecnológica. Segundo Menezes e Santos (2007), o método desenvolvido por Kilpatrick aponta quatro características para a realização de um bom projeto didático: • Uma atividade motivada por meio de uma conseqüente intenção; • Um plano de trabalho, de preferência manual; • Um ensino global; • Um ambiente natural. Assim, os alunos podem aprender Ciência, Matemática ou História ao realizar alguma atividade de projeto motivadora para eles em um ambiente natural. A denominação “projetos de trabalho”, segundo Hernández (1998), se refere a uma concepção de educação que entende a aprendizagem como o desenvolvimento da compreensão sobre o mundo, compreensão esta que se desenvolve a partir dos significados construídos que emergem daquilo que se pesquisa, enquanto se identificam fatos, se buscam explicações e se formulam hipóteses. Neste trabalho, será adotado o conceito de projetos de trabalho dado por Hernández (1998). Os passos para um trabalho com projetos de envolve basicamente as seguintes etapas, segundo Hernández (1998): • Seleciona-se um tema ou problema em acordo com os participantes; • Inicia-se o desenvolvimento do projeto com a busca e seleção de fontes de informação; • Faz-se a interpretação das informações; • Reúnem-se as dúvidas; • Estabelecem-se relações com outros problemas; • Faz-se a síntese do conhecimento elaborado; e, 25 • Avalia-se o que se aprendeu articulando-se com um novo tema ou problema. Esse modelo de trabalhar os projetos propõe que o professor abandone a postura de professor-transmissor de conteúdos para se transformar num professor-pesquisador. O aluno, por sua vez, passa da atitude de receptor passivo a sujeito ativo colaborador em seus processos de ensino-aprendizagem. Segundo Hernández (1998), a utilização de projetos como prática pedagógica permite que o aluno envolvido com a proposta do professor sinta-se o ator principal nos seus processos de ensino-aprendizagem. O aluno constrói seus conhecimentos com o auxílio do professor. Essa abordagem permite que conteúdos difíceis se tornem mais acessíveis à compreensão do aluno, gerando uma aprendizagem interessante e divertida, e a nova postura do aluno, como agente do seu próprio conhecimento, faz dele mais seguro de si, tornando-o um aluno pré-disposto a aprender. Moreira (1999, p.1972) lembra que “acrescente-se aqui que o aprendiz deve perceber alguma relevância no conhecimento, para, então, manifestar disposição em aprender”. O trabalho com projetos é mais uma troca e construção de saberes entre os atores envolvidos (professores, alunos, familiares, entre outros). Isso se reflete em uma concepção diferenciada do professor em relação ao ensinar e aprender. Martins (2005) considera que o professor que coloca seus alunos diante de uma situação de projetos, é um professor pesquisador da realidade. Esse professor promove em seus alunos o exercício da observação, percepção, análise, crítica e criatividade; auxilia os seus alunos a compreenderem as suas responsabilidades sociais; é um professor que: investe na interação, sabe como se constrói conhecimento e planeja suas aulas, levando em conta o aluno real, avalia permanentemente sua prática e a modifica conforme a necessidades identificadas, é comprometido com novos paradigmas que orientam o pensar pedagógico, é um observador constante e atento, que media as ações e interage com seus alunos. Os professores que assumem uma postura comprometida com a utilização de projetos, segundo Almeida (1999), podem promover uma mudança pessoal e profissional na escola. Essa metodologia propõe reflexões, incentiva a imaginação criativa, favorece a iniciativa, a espontaneidade, o questionamento e a inventividade; além disso, promove a cooperação, o diálogo, a compartilhamento de experiências e a solidariedade. No entanto, segundo essa autora, os projetos não podem ficar restritos a sala de aula; para transformar o sistema educacional é preciso que esses valores desenvolvidos extrapolem o contexto da sala de aula e envolva todos os atores que constituem a comunidade escolar: dirigentes, 26 funcionários administrativos, pais, alunos, professores e a comunidade, na qual a escola está inserida. 1.4 A motivação para aprender Na educação em geral, uma das principais preocupações dos docentes é que seus alunos não estão motivados para aprender. Neste trabalho, compreendemos motivação ou motivo, como “aquilo que move uma pessoa ou que a põe em ação ou a faz mudar o curso” (BZUNECK, 2001. p.9). Segundo Bzuneck (2001), o aluno motivado demonstra um comportamento direcionado a um objetivo, como o de prestar atenção ou fazer o dever de casa. A motivação ainda assegura a persistência do estudante nas tarefas, uma vez que emergem, durante o percurso de realização das atividades, não apenas obstáculos e fracassos, como também outros motivos que instigam a pessoa a desistir ou a mudar o curso de sua ação. A motivação pode ser intrínseca ou extrínseca. Um indivíduo intrinsecamente motivado quer satisfazer sua curiosidade e mostrar suas novas habilidades e domínio daquilo que o está atraindo. A motivação extrínseca tem sido definida como a motivação para trabalhar em resposta a pressões externas, mostrar habilidades e competências, ou seja, o aluno acredita que o envolvimento nas atividades trará os resultados esperados, tais como, elogios, notas ou que ajudará a evitar problemas (GUIMARÃES, 2001). Para Guimarães (2001), a motivação intrínseca implica em escolha e desenvolvimento de determinada atividade, sendo esta vista como atraente e fonte de satisfação. Dessa forma, o indivíduo se envolve na tarefa e não está pensando em recompensas externas, ou prêmios, ou coisas desta natureza, seu envolvimento é a principal recompensa. Sabemos que muitas atividades desenvolvidas pelos nossos alunos são movidas por razões externas. Podemos questionar se o aluno exerceria o mesmo trabalho com o mesmo empenho se este não fosse de recompensas ou se não houvesse nenhuma forma de punição por não fazê-lo. Se respondermos positivamente a essa questão, temos um caso de motivação intrínseca, caso contrário ela será extrínseca. Segundo Hernández (1998), um clima agradável em sala de aula favorece a aprendizagem significativa quando estratégias e recursos são utilizados de forma a atender particularidades de cada aluno, sendo respeitado o seu tempo para aprender. 27 Quando o professor se utiliza de uma proposta pedagógica na qual ele acredita e demonstra entusiasmo, irá contagiar seus alunos os quais se sentirão envolvidos e motivados para a tarefa que será proposta. Em qualquer situação, a motivação do aluno esbarra na motivação de seus professores. E, para começar, a percepção de que é possível motivar todos os alunos nasce de um senso de compromisso pessoal com a educação; mais ainda, de um entusiasmo e até de uma paixão pelo seu trabalho. (BZUNECK, 2001, p. 28) É com esse ponto de vista que o professor de Física do ensino médio pode propor aos seus alunos, paralelo às suas aulas, atividades inovadoras que podem ser desenvolvidas em diferentes horários na escola ou em outros espaços. Criar estratégias para organizar o conhecimento escolar em relação ao tratamento das informações disponíveis, segundo Hernández (1998), é a função de um projeto, cuja organização dos diferentes conteúdos se dá em torno de problemas ou hipóteses que facilitam para os alunos a construção de seus conhecimentos. As questões de investigação são formuladas pelos participantes levando em conta suas dúvidas, curiosidades e indagações. Esse método considera também os conhecimentos prévios, valores, crenças, interesses e experiências dos alunos que interagem com os objetos de conhecimento, pois estes, de certa forma, orientam e definem os caminhos a seguir em suas explorações, descobertas e apropriação de novos conhecimentos. O professor, nessa abordagem, é concebido como um mediador, articulador, orientador, além de facilitador do processo em desenvolvimento pelo aluno. Nesse sentido, é responsável pela criação de um ambiente de confiança, respeito às diferenças e cooperação, no qual o aluno é encorajado a reconhecer os seus conflitos e a descobrir as potencialidades e as dificuldades de aprender a partir da investigação. Os projetos se constituem em planos de trabalho, nos quais um conjunto de tarefas pode proporcionar uma aprendizagem em tempo real e diversificada. A partir da escolha de um tema, o aluno investiga, registra dados, formula hipóteses, tornando-se sujeito do seu próprio conhecimento. Além de favorecer a construção da autonomia e da autodisciplina, o trabalho com projetos pode tornar o processo de aprendizagem mais dinâmico, significativo e interessante para o aluno; os projetos contribuem para dar um novo significado aos ambientes de aprendizagem de tal forma que eles se voltem para a formação de sujeitos ativos, reflexivos e participantes. Segundo Hernández (1998), 28 Globalização e significatividade são, pois, dois aspectos essenciais que se plasmam nos projetos. É necessário destacar o fato de que as diferentes fases e atividades que se devam desenvolver num projeto ajudam os alunos a serem conscientes de seu processo de aprendizagem e exige do professorado responder aos desafios que estabelece uma estruturação muito mais aberta e flexível dos conteúdos escolares. (p. 63-64) Para Almeida (1999), a prática pedagógica por meio do desenvolvimento de projetos é uma forma de conceber educação que envolve o aluno, o professor e todas as interações que se estabelecem no ambiente de aprendizagem. Esta metodologia promove a interação entre os elementos, propiciando o desenvolvimento da autonomia do aluno e a construção de conhecimentos distintos. Por meio da busca de informações significativas e construção de relações, o aluno consegue desenvolver a compreensão, representação e resolução de uma situação-problema. Isso está em acordo com os Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Médio (BRASIL, 2002), que orientam a educação da escola ao nível médio para uma formação global dos jovens. Considera-se que, independente do prosseguimento em termos de escolaridade futura, a escola deve prover uma formação para a vida e para o trabalho. Os jovens devem ser preparados para raciocinar, para criar, para compreender os fenômenos de causa e efeito, para o exercício de seus direitos, para participar e decidir sobre os seus próprios destinos, para transformar, e para desenvolverem-se de maneira integral. 29 2 AS ATIVIDADES DE ENSINO-APRENDIZAGEM COM OS PROJETOS EXPERIMENTAIS DE FÍSICA A professora-pesquisadora, ministrante da disciplina de Física, lançou a proposta de trabalho com projetos experimentais aos seus alunos de 1o e 2o anos do ensino médio da Escola Estadual de Educação Básica Thomás Fortes, Santiago, RS, entre os dias 04 a 07 de junho de 2007. A proposta foi feita na sala de aula de cada turma, como parte integrante das atividades de ensino de Física a serem desenvolvidas no trimestre letivo. Embora todos os alunos tenham realizado os trabalhos com os projetos, apenas os estudantes que foram voluntários participaram da pesquisa. Como parte integrante das atividades de ensino, os projetos foram, então, avaliados pela professora-pesquisadora, a qual atribuiu uma nota parcial para as atividades realizadas, e que foi computada para a integralização da nota dos alunos para o ano letivo em curso. Esta avaliação parcial levou em conta o envolvimento do grupo no desenvolvimento dos projetos e sua apresentação na data agendada, considerando o auxílio solicitado ao professor quanto à construção do aparato e os conceitos de Física envolvidos nos mesmos. Não teve nenhum grupo de alunos que deixou de apresentar seu projeto experimental, até porque a outra forma de avaliação seria uma prova com os conteúdos já explorados de forma discursiva e objetiva, então eles optaram pelo uso o dos projetos. Para a realização dos projetos experimentais, os alunos foram agrupados em duplas, cuja escolha do (a) parceiro (a) foi o critério de afinidade entre eles. Nesse sentido, as duplas formaram-se espontaneamente após as instruções oferecidas pela professora pesquisadora. O trabalho em grupo, segundo Gaspar e Monteiro (2006), possibilita a troca de saberes, bem como compartilhar observações, criando significados, explicações para o que é experimentado e podendo preencher lacunas cognitivas e aprimorar o universo sóciocultural em que os alunos vivem. A experimentação, por sua vez, é conhecida dos professores como uma estratégia potencialmente capaz de despertar o interesse dos alunos pelos conteúdos de Física, predispondo-os à aprendizagem (ARAÚJO; ABIB, 2003). As estratégias de trabalho em grupo e a experimentação foram combinadas aos projetos no esforço de motivar o aluno a uma aprendizagem significativa. Todo o processo contou com as seguintes etapas: 30 • Um cronograma de trabalho; • A escolha dos assuntos da pesquisa e a busca de informações; • O planejamento, a busca de materiais e a construção dos protótipos; • Os testes dos protótipos em laboratório e o esclarecimento de dúvidas; • A busca de relações teoria-prática; • A apresentação das produções pelos grupos aos colegas de turma, em sala de aula, com caráter de síntese do conhecimento elaborado; • A apresentação dos projetos para outras comunidades para dar visibilidade aos trabalhos desenvolvidos durante a experiência educacional. 2.1 O cronograma de trabalho Todo o trabalho foi dividido entre seleção, execução e apresentação dos projetos, e aconteceu entre os meses de maio a junho de 2007. 2.2 A escolha dos assuntos de pesquisa e a busca de informações A professora-pesquisadora deixou a cada grupo a tarefa da livre escolha dos seus projetos, apenas sugerindo que leis e conceitos físicos relativos aos assuntos do primeiro trimestre letivo de cada ano (1o e 2o) estivessem presentes nos projetos. Os assuntos sugeridos para o 1o ano foram Cinemática, Dinâmica e Estática. Para o 2o ano os assuntos sugeridos foram Hidrostática, Hidrodinâmica, Ondas, Termologia, Calor e Processos Térmicos. Para a escolha dos assuntos da pesquisa e levantamento de informações a professora-pesquisadora forneceu fontes para consulta em livros e também sites na internet. Os seguintes sites foram sugeridos: • http://www.feiradeciencias.com.br/; • http://www.saladefisica.cjb.net/; 31 • http://www.fisicaemcasa.com.br; e, • http://br.geocities.com/saladefisica/. Aos alunos foi dada flexibilidade para pesquisa em fontes diversas, tais como: • BONADIMAN, Hélio. Mecânica dos Fluidos: experimento, teoria, cotidiano. UNIJUÍ Ed., 1989; • DIEZ, Ir. Santos. Experiências de Física na escola. Passo Fundo: Editora Universitária, 1996; • SAAD, Fuad Daher. Demonstração em ciências: explorando os fenômenos da pressão do ar e dos líquidos através de experimentos simples. São Paulo: Editora Livraria da Física, 2005; • GASPAR, Alberto. Experiências de ciências: para o ensino fundamental. São Paulo: Editora Ática, 2003. • VALADARES, Eduardo de Campos. Física mais que divertida: inventos eletrizantes baseados em materiais reciclados e de baixo custo. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2007. Os alunos, enquanto autônomos na escolha e condução dos seus projetos, e organizados em duplas, efetivaram a escolha de um assunto. Os assuntos escolhidos pelas duplas versaram sobre leis e conceitos relativos a duas temáticas principais, a mecânica e a estática e a dinâmica de fluidos. Os tópicos e os experimentos trabalhados nos projetos estão listados abaixo. • Cinemática, Dinâmica e Estática: Velocidade escalar média – Experimento: Cinemática dos dominós (NETTO, 2007); Velocidade escalar média – Experimento: A lata ioiô (GASPAR, 2003); Movimento retilíneo uniforme – Experimento: MRU (DIEZ ARRIBAS, 1996); 32 Movimento retilíneo uniformemente variado – Experimento: MRUV (DIEZ ARRIBAS, 1996); Movimento retilíneo uniformemente variado – Experimento: Registrando o movimento com o gotejador de Mariotte (NETTO, 2007); Movimento retilíneo uniformemente variado – Experimento: Plano Inclinado de Duff (a calha) (NETTO, 2005); Movimento de projéteis – Experimento: Independência dos movimentos (NETTO, 2007); Movimento de projéteis – Experimento: Previsão das trajetórias (NETTO, 2007); Queda Livre – Experimento: Sem peso (NETTO, 2007); Queda Livre – Experimento: Medida do impacto (NETTO, 2007); Movimento circular uniforme – Experimento: O mistério das chamas das velas (SILVA, 2007); Energia cinética e potencial – Experimento: Cone de vórtice (SILVA, 2007); Primeira Lei de Newton – Experimento: Lei da inércia (SILVA, 2007); Primeira Lei de Newton – Experimento: A moeda que não gira (NETTO, 2007); Primeira Lei de Newton – Experimento: A bolinha e o copinho (NETTO, 2007); Primeira Lei de Newton – Experimento: O problema do elevador (NETTO, 2007); Primeira Lei de Newton – Experimento: Inércia de movimento (NETTO, 2007); Primeira Lei de Newton – Experimento: Garrafa fixa (NETTO, 2007); Primeira Lei de Newton – Experimento: Tiras que não rasgam (NETTO, 2007); Primeira Lei de Newton – Experimento: Carrinho de inércia (NETTO, 2007); Primeira Lei de Newton – Experimento: Garrafas e moedas (NETTO, 2007); 33 Primeira Lei de Newton – Experimento: Massa e movimento (SPILOTRO; MONTEIRO, 1994); Primeira Lei de Newton – Experimento: Puxando a toalha (WERLANG, 2001); Força de atrito – Experimento: Listas telefônicas (SILVA, 2007); Força de atrito – Experimento: Hovercraft (SPILOTRO; MONTEIRO, 1994); Força elástica – Experimento: Força elástica (MARCONDES; SARIEGO, 1996); Terceira Lei de Newton – Experimento: Ação e reação (NETTO, 2007); Terceira Lei de Newton – Experimento: Modelo de foguete (NETTO, 2007); Terceira Lei de Newton – Experimento: Carro mais carro (NETTO, 2007); Terceira Lei de Newton – Experimento: Carro mais rolha (NETTO, 2007); Terceira Lei de Newton – Experimento: Foguete de água (VALADARES, 2002); Terceira Lei de Newton – Experimento: Foguete a álcool (NETTO, 2007); Terceira Lei de Newton – Experimento: Foguete com bexiga (SILVA, 2007); Terceira Lei de Newton – Experimento: Balão a jato (SPILOTRO; MONTEIRO, 1994); Velocidade angular – Experimento: Qual ovo gira mais? (SILVA, 2007); Movimentos curvos – Experimento: A misteriosa força, as chamas em rotação (NETTO, 2007); Movimentos curvos – Experimento: Dinâmica dos movimentos curvos (SAMPAIO; CALÇADA, 2001) Conversão de energia – Experimento: Canhão de latas com bucha (NETTO, 2007); Conversão de energia – Experimento: Canhão de latas sem bucha (NETTO, 2007); 34 Conversão de energia – Experimento: Conversões de energia (NETTO, 2007); Equilíbrio – Experimento: Equilíbrio na ausência de forças horizontais (NETTO, 2007); Equilíbrio – Experimento: Centro de gravidade (DIEZ ARRIBAS, 1996); Equilíbrio – Experimento: Garfos equilibrados em uma cortiça (SILVA, 2007); • Hidrostática, Hidrodinâmica, Ondas, Termologia, Calor e Processos Térmicos: Densidade – Experimento: Confronto de densidade (NETTO, 2007); Densidade – Experimento: Densidade dos líquidos (DIEZ RIBAS, 1996); Pressão – Experimento: Pressão do ar (SPILOTRO; MONTEIRO, 1994); Diferença de pressão em fluidos – Experimento: Sifão (NETTO, 2007); Diferença de pressão em fluidos – Experimento: Gêiser (NETTO, 2007); Princípio de Pascal – Experimento: Princípio do elevador hidráulico (DIEZ RIBAS, 1996); Princípio de Pascal – Experimento: Máquina de água (X-Tudo, 2007); Empuxo – Experimento: Fazendo um ovo flutuar (SILVA, 1996); Tensão superficial – Experimento: Tensão superficial (DIEZ ARRIBAS, 1996); Tensão superficial – Experimento: Um peixe de papel (NETTO, 2007); Força de arrasto – Experimento: Movimento da bola de vidro no óleo (NETTO, 2007); Conversão da energia química em calor e energia cinética – Experimento: Canhão de latas 1 - com bucha (NETTO, 2007); Conversão da energia química em calor e energia cinética – Experimento: Canhão de latas 1 - sem bucha (NETTO, 2007); 35 Pressão Atmosférica – Experimento: Sino mergulhador, como trabalhar sob as águas (NETTO, 2007). Ondas – Experimento: Ressonância nos pêndulos (DIEZ ARRIBAS, 1996) Temperatura – Experimento: Termômetro caseiro (SILVA, 2007); Calor e Processos Térmicos – Experimento: Condução de calor (DIEZ ARRIBAS, 1996); Calor e Processos Térmicos – Experimento: Fervendo a água no papel (GASPAR, 2003); Calor e Processos Térmicos – Experimento: Motor psíquico (NETTO, 2007); Calor e Processos Térmicos – Experimento: Irradiação (DIEZ ARRIBAS, 1996); Calor e Processos Térmicos – Experimento: A vela necessita de ar para queimar (GASPAR, 2003); Calor e Processos Térmicos – Experimento: O balão que não queima (DIEZ ARRIBAS, 1996); Calor e Processos Térmicos – Experimento: O gênio da garrafa (DIEZ ARRIBAS, 1996); Calor e Processos Térmicos – Experimento: Correntes de convecção (BONADIMAN, 1989); Calor e Processos Térmicos – Experimento: Máquina a vapor (NETTO, 2007); Calor e Processos Térmicos – Experimento: Motor a vapor (NETTO, 2007); Calor e Processos Térmicos – Experimento: Absorção de energia radiante (SILVA, 2007); 36 2.3 O planejamento, a busca de materiais e a construção dos experimentos Os alunos pesquisaram em várias fontes de informação algumas sugestões de projetos para a professora avaliar, como citado na seção anterior. A seguir, os alunos procuraram matérias para confeccionar os experimentos tanto no laboratório da escola, como em casa e/ou no comércio da cidade. A adequação dos experimentos ocorreu de acordo com a disponibilidade de materiais e o custo dos mesmos. 2.4 Os testes dos experimentos e o esclarecimento de dúvidas O Laboratório de Ciências da Escola foi o ponto de encontro entre a professorapesquisadora e os grupos de trabalho. Nesses encontros, a professora-pesquisadora procurou prestar orientações e esclarecimento de dúvidas aos grupos, em turno oposto às aulas. 2.5 A busca de relações teoria-prática A busca de relações entre os conteúdos trabalhados e a prática experimental permeou a fase de planejamento, desenvolvimento e apresentação dos projetos. 2.6 Apresentando os projetos: síntese do conhecimento elaborado 2.6.1 Apresentação dos projetos em sala de aula Todos os projetos desenvolvidos pelos grupos foram apresentados em sala de aula para os colegas de turma, de 02 a 06 de julho de 2007. 2.7 Apresentando os projetos: dando visibilidade aos trabalhos desenvolvidos durante a experiência educacional 37 As ações da professora-pesquisadora realizadas em conjunto com os alunos são descritas nesta seção, as quais buscaram dar visibilidade a experiência educacional desenvolvida utilizando os projetos experimentais. 2.7.1 Apresentação dos projetos na escola: a exposição “Thomás em Ação” Todos os projetos foram apresentados em sala de aula. E ainda, os melhores projetos, na avaliação da professora-pesquisadora, além de terem sido apresentados em sala de aula, também foram apresentados em uma exposição anual da Escola que envolve todas as disciplinas curriculares do Ensino Médio e Ensino Fundamental, chamada “Thomás em Ação”, em 20 de julho de 2007. Foram escolhidos de um a dois trabalhos por turma. Devido ao grande número de turmas envolvidas neste estudo, foi preciso limitar o número de projetos por uma questão de espaço físico, uma vez que as apresentações acontecem no ginásio da escola. Os trabalhos selecionados deveriam ter o conjunto bom acabamento e explicação coerente com leis e princípios físicos. 2.7.2 Apresentação dos projetos em eventos Alguns projetos foram apresentados no V Seminário Nacional de Educação (V SENED), realizado na Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões (URI), Campus de Santiago, no ano de 2007. A URI, Campus de Santiago, convidou algumas escolas, por meio de seus diretores, para a exposição de seus trabalhos mais relevantes durante o V SENED. O diretor da E. E. E. Básica Thomás Fortes fez o convite à professora-pesquisadora para levar alguns trabalhos. Após o aceite desse convite, foram selecionados cinco projetos experimentais para a apresentação no V SENED (o espaço físico era bem limitado). Durante as apresentações dos projetos, a professora palestrante do V SENED, da parte da tarde, parabenizou aos alunos, e à professora-pesquisadora pelo trabalho que desenvolve junto à comunidade escolar. 2.7.3 Visitação a escolas da região de Santiago 38 Houve duas visitações a escolas da região, após os trabalhos serem apresentados em sala de aula e no evento “Thomás em Ação”, a saber: • Visitação à Escola Estadual de Educação Fundamental Vila Branca, de Vila Branca, interior da cidade de Santiago, RS; e, • Visitação à Escola Estadual de Educação Fundamental Lucas Araújo, na cidade de Santiago, RS. Para a professora-pesquisadora, e para seus alunos, divulgar os trabalhos realizados com os projetos experimentos para um público de alunos de menor idade foi extremamente importante como um estímulo para que esses alunos se preparem para o estudo de uma Física fascinante no futuro. (i) Visitação à Escola Estadual de Educação Fundamental Vila Branca A diretora desta escola, em visita à Escola Estadual de Educação Básica Thomás Fortes durante o evento “Thomas em Ação”, observou atentamente a apresentação dos projetos experimentais de Física. Então, entrou em contato com a professora responsável pelos trabalhos (a professora-pesquisadora deste estudo), convidando-lhe, e a seus alunos, para que levassem alguns projetos experimentais para uma apresentação, em visita, a sua escola. Como a referida escola é no interior da cidade de Santiago, e o acesso é difícil, seria necessário ir até Vila Branca e ficar lá ao longo do dia para fazer duas apresentações aos alunos daquela escola, uma para alunos do turno da manhã e outra para alunos do turno da tarde. Para isso, a diretora da Escola Estadual de Educação Fundamental Vila Branca sugeriu que a professora-pesquisadora conseguisse transporte para levar os seus alunos até Vila Branca, uma vez que aquela escola ofereceria aos alunos, em visita, lanche às 10 horas, almoço e lanche da tarde, antes de retornarem à cidade de Santiago. (ii) Visitação à Escola Estadual de Educação Fundamental Lucas Araújo A diretora da Escola Estadual de Educação Fundamental Lucas Araújo, na ocasião do V SENED (V Seminário Nacional de Educação), que ocorreu na Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões (URI), Campus de Santiago, após assistir a apresentação dos projetos dos alunos da E. E. E. Básica Thomás Fortes, fez um convite para a professora-pesquisadora e seus alunos divulgarem estes trabalhos junto aos alunos daquela escola. O aceite de mais esse convite, por parte da professora-pesquisadora e dos 39 alunos participantes desta pesquisa foi mais oportunidade de divulgar os trabalhos com projetos no ensino de Física. 2.7.4 Divulgação no jornal da cidade Na ocasião da visita à Escola Estadual de Educação Fundamental Vila Branca para a apresentação dos projetos experimentais, a Escola Estadual de Educação Básica Thomas Fortes, divulgou esta experiência por meio do jornal da cidade. Essa notícia está divulgada on-line no endereço http://www.expressoilustrado.com.br/. Esta experiência de trabalho foi, portanto, reconhecida pela direção da Escola Estadual de Educação Básica Thomás Fortes. Nesse caso, a direção buscou valorizar os alunos, o projeto inovador que a professora-pesquisadora realiza, e a escola da cidade de Vila Branca que fez o convite, e que abriu espaço para experiências como esta. 2.7.5 Produção de uma mídia digital no formato de vídeo Uma produção em DVD (Digital Video Disc) com registros feitos em imagens fotografadas e imagens vídeo filmadas dos alunos em ação com seus projetos também buscou dar visibilidade ao processo educacional realizado. A produção em DVD acompanha esta Dissertação (APÊNDICE A). 40 3 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS 3.1 Participantes e local da pesquisa Os participantes são 181 alunos do 1o e 2o anos da Escola Estadual de Educação Básica Thomás Fortes, da cidade de Santiago, RS. Desses alunos, 125 cursam o 1o ano, distribuídos em 5 turmas, e 56 cursam o 2o ano, distribuídos em 2 turmas. 3.2 Instrumentos de coleta de dados Os instrumentos utilizados foram: um questionário aberto no início da pesquisa, um questionário aberto no final da pesquisa, o caderno de campo dos alunos, e o caderno de campo da professora-pesquisadora. Antes da aplicação do questionário inicial, foram explicados os objetivos e procedimentos adotados no estudo aos alunos participantes. Os jovens foram convidados a colaborar com o estudo que pretendia avaliar como o trabalho com projetos experimentais motivava a aprendizagem de conteúdos de Física, entre outras aprendizagens. Se eles aceitassem participar do estudo, deveriam responder a dois questionários (um no início e outro ao final do estudo) e preencher um caderno – diário de campo – durante o estudo. Todos os alunos se dispuseram a colaborar com o estudo. Na fase inicial de desenvolvimento dos projetos, foi aplicado o questionário inicial, composto de cinco questões abertas, o qual foi respondido pelos participantes de forma anônima e voluntária, em sala de aula, nos dias 26 e 28 de junho de 2007. Os questionários foram respondidos pelos 181 alunos participantes, que, para efeitos desta pesquisa, foram designados Aluno A1, aluno A2, Aluno A3, Aluno A4, ... , Aluno 180, Aluno A181. Nesse momento inicial da pesquisa, buscou-se identificar as opiniões dos alunos: • Acerca do impacto sentido por eles com o lançamento da proposta de trabalho com os projetos pela professora-pesquisadora; • Sobre os conhecimentos prévios dos assuntos relacionados aos projetos; • Sobre suas motivações para desenvolver os projetos e apresentar em sala de aula suas produções para os colegas; 41 • Sobre as expectativas com o desenvolvimento dos projetos e seus resultados; e, • Sobre o julgamento que eles fazem de si próprios quanto as suas capacidades ao desenvolver seus projetos. Com essas intenções, as seguintes questões foram colocadas no questionário inicial: 1) Como me senti quando a professora lançou a proposta de trabalhar com projetos? 2) O que sei sobre o assunto que escolhi? Como eu explico fisicamente o que sei? 3) Por que escolhi este projeto para desenvolver? 4) O que eu espero com este projeto? 5) O que eu mostro para os outros de mim ao fazer este projeto? Uma semana após a apresentação dos projetos em sala de aula, no dia 17 de julho de 2007, os alunos responderam ao questionário final composto de dez questões abertas, também de forma voluntária e anônima, e em sala de aula. O intervalo de tempo entre a aplicação do primeiro questionário e o segundo questionário foi de aproximadamente um mês. Esse foi um período de intensa movimentação na escola, principalmente nas duas semanas que antecederam as apresentações, devido ao grande número de alunos que participou dos projetos e devido ao fato de que eles ficavam construindo os aparatos nas dependências da escola e buscavam seguidamente a professora-pesquisadora, em turno oposto, para buscar sanar suas dúvidas. Neste momento final da pesquisa, buscou-se conhecer as percepções dos alunos sobre: • Como se deu a interação com o colega do grupo de trabalho; • Como foi a apresentação das produções para a classe; • Quais as percepções acerca da própria aprendizagem; 42 • O significado de desenvolver o projeto; • O que gostou e o que não gostou ao fazer o projeto; e, • As dificuldades encontradas. Com essas intenções, as seguintes questões foram apresentadas aos alunos no questionário final: 1) Como foram os encontros com o (a) colega de grupo? 2) Como foram os encontros do grupo com a professora? 3) Como foi sua apresentação na Escola para os colegas? 4) Quais conceitos de Física você percebeu no seu projeto? Dê o significado de cada um. 5) O que você mudou no seu projeto em relação àquele da bibliografia pesquisada? Por quê? 6) Como a execução desse projeto ajudou você a entender melhor a Física? 7) O que significou para você fazer esse projeto? 8) Do que você gostou ao fazer esse projeto? 9) Do que você não gostou ao fazer esse projeto? 10) O que você achou difícil ao fazer esse projeto? 3.2 Análise dos dados O conteúdo das respostas escritas pelos alunos nos questionários e nos cadernos de campo, e o conteúdo das mensagens escritas pela professora-pesquisadora em seu caderno de campo envolveu identificar a estrutura e os elementos de conteúdo na tentativa de esclarecer características e significados dos mesmos (BARDIN, 2000). As respostas foram avaliadas para extrair o significado e conteúdo das mesmas. Nesse método, a análise das respostas é feita através do desmembramento de sua 43 estrutura, em termos de conteúdos. Nesse sentido, foi realizada uma análise por categorias que agrupam temas semelhantes. 44 4 ALGUNS ASPECTOS SOBRE O USO DE PROJETOS EXPERIMENTAIS DE FÍSICA: TENSÃO SUPERFICIAL COMO EXEMPLO A seção 4.1 apresenta os registros obtidos no questionário inicial, no diário de campo, e no questionário final por um dos grupos de alunos pesquisados, da 2ª série da Escola de Educação Básica Thomás Fortes, durante as etapas do trabalho com o projeto experimental baseado no experimento “Um peixe de papel” (NETTO, 2007) e sua apresentação para os colegas da sala de aula. Esse projeto foi escolhido para esta discussão por sorteio entre os demais projetos apresentados pelos alunos. O experimento “Um peixe de papel” envolve o conceito de tensão superficial. Sobre uma figura de papel, no formato de peixe, é feito um corte linear de pequena espessura ao longo do comprimento do peixe, até aproximadamente a metade do corpo do peixe, finalizando o corte em forma circular. Ao se colocar a figura do peixe sobre a superfície de um líquido em repouso, como água em uma bacia, por exemplo, e ao pingar óleo de cozinha ou detergente na região circular, observa-se que o peixe começa a se mover na superfície do líquido. A Figura 1 ilustra um momento da apresentação da parte experimental deste projeto em sala de aula por alunas do 2º ano. Figura 1. Imagem da apresentação em sala de aula do projeto baseado no experimento “Um peixe de papel” (NETTO, 2007) por alunas do 2º ano. 45 A tensão superficial é uma propriedade que os líquidos em repouso apresentam devido às forças de atração entre moléculas internas ao líquido e moléculas da superfície do líquido, e que resultam na formação de uma camada na superfície do líquido que se comporta como uma membrana elástica. Assim, pequenos corpos podem permanecer sobre a superfície do líquido em repouso, sem afundar. As moléculas que estão no interior do líquido interagem com as demais em todas as direções, já as moléculas que estão na superfície só interagem com as moléculas que estão dentro do líquido. O resultado é uma força de interação para dentro do líquido. A seção 4.2 apresenta uma discussão sobre o uso de projetos experimentais na escola com algumas implicações para o trabalho pedagógico, a partir da análise dos registros apresentados por esse grupo de alunos durante o processo. 4.1 Resultados 4.1.1 Registros no questionário inicial No que se refere ao impacto da proposta apresentada pela professora-pesquisadora, pode-se dizer que os alunos ficaram bastante interessados e empolgados com a possibilidade de adoção de uma abordagem de ensino diferenciada daquelas tradicionalmente experimentadas. A158: Fiquei entusiasmada, e ‘anciosa’ porque isso é uma coisa nova, uma novidade, nunca tinha feito fiquei ‘loca’ de vontade de fazer logo para ver o que iria acontecer; A164: Bastante interessada, pois adoro fazer coisas diferentes do que estou acostumada a fazer. Sobre os conteúdos de Física vistos no experimento, observou-se que os jovens descrevem essa experiência mais a nível fenomenológico sem apresentar, nesse primeiro momento, uma compreensão maior sobre o fenômeno. Contudo, cabe destacar que o fenômeno observado por eles pode despertar sua curiosidade e a busca por explicações físicas subjacente aos mesmos. A158: Sei que botamos um pouco de detergente numa bacia de água, e o peixe irá se locomover o curioso é que o peixe irá se mover sem ajuda de mãos, ou que alguém mexa ele; A164: Que o óleo ou detergente faz o papel do peixe se locomover mais rapidamente e com mais precisão 46 Os jovens apresentam diferentes motivos para a escolha do projeto, entre eles encontra-se tanto o grau de facilidade na construção da parte experimental do projeto, como o domínio do conteúdo envolvido no projeto, e ainda, o interesse pelo mesmo. A158: Porque achei muito fácil, no momento e saberia explicar melhor; A164: Porque achei interessante e bom de explicar, e também fácil. No que se refere à avaliação de suas expectativas com o desenvolvimento do projeto, percebe-se que os jovens esperam que os outros gostem e que lhes possibilite aprendizagem. Ainda, observou-se que eles desejam uma boa avaliação por parte do professor. A158: Espero que todos entendam, e gostem como eu espero também que tire uma boa nota, e que meus colegas se animem e pesquisem mais; A164: Aprender hidrodinâmica e é um experimento mais simples e notável que os outros. Ao serem questionados acerca do julgamento que fazem de si na forma como se mostram para os outros ao desenvolver os projetos, observou-se que os alunos realizaram uma avaliação positiva de si mesmos; eles consideram que demonstram interesse, empenho e capricho. A158: Mostro que sou interessada em pesquisar, e que sou caprichosa e adoro novidades; A164: Mostrando interesse e empenho. 4.1.2 Registros no diário de campo do grupo de alunos A professora-pesquisadora fez os seguintes apontamentos aos seus alunos, ao solicitar que eles utilizassem diários para relatar suas experiências com os projetos: “Eu gostaria que vocês pudessem colaborar comigo me contando como foi a experiência de vocês com os projetos de Física. Fazer projetos é uma das formas de aprender Física que possui algumas vantagens e desvantagens. Gostaria de conhecer a opinião de vocês sobre a realização dos projetos. Alem disso, preciso conhecer o que vocês fizeram no dia-a-dia, em cada uma das etapas, para ver como essa forma de trabalho facilita ou não a aprendizagem dos conteúdos de Física. A opinião de vocês é muito importante para mim, pois ela poderá me auxiliar a melhorar as aulas de Física. Para tanto, preciso que vocês contem como foi o dia-a-dia do grupo, desde o momento em que vocês fizeram a escolha do projeto até o momento da apresentação. Nesse relato, gostaria que vocês me falassem o que vocês acharam difícil, o que vocês acharam fácil e legal, o que vocês aprenderam, o que vocês ainda tem dúvidas, como as pessoas que estavam próximas de 47 vocês reagiram à construção do projeto (por exemplo, pais, amigos, professores), o que vocês acham que essas pessoas pensaram, se elas ajudaram de alguma forma ou não. Por fim, gostaria de saber como vocês perceberam a apresentação. O interessante é que vocês procurem me contar etapas de seu projeto, como foi o andamento em um dia após o outro, não esquecendo dos detalhes. Gostaria, também, que vocês aproveitassem para dar sugestões para melhorar o ensino de Física.” O grupo que desenvolveu o projeto “Um peixe de papel”, fez as seguintes anotações no diário de campo: Primeiro encontro: Recebemos esse trabalho numa boa na escola e já providenciamos a fazer, à tarde fomos a uma casa e pesquisamos um experimento fácil e que tenha um resultado visível, foi então que achamos curioso o título “Um peixe de papel”, esse título ‘disperto’ curiosidade entre nos e abrimos a pagina para esclarecer duvidas e resolvemos fazer esse trabalho. Por meio do registro do primeiro encontro, observou-se que um dos critérios principais apontados pelo grupo para a escolha do experimento a ser trabalhado foi o resultado que o mesmo produziria, sendo que este resultado deveria ser visível a todos. Percebe-se, ainda, que os alunos prontamente se dispuseram a realizar a tarefa proposta pela professora-pesquisadora. Segundo encontro: No segundo dia que nos reunimos fomos à papelaria comprar cartolina para a estrutura do peixe imprimimos o peixe no computador e montamos o trabalho, experimentamos o trabalho com os dois produtos que pedia (óleo comestível e detergente liquido) os dois produtos foi um sucesso conseguimos o resultado que esperávamos que era o de o peixe se locomover usando óleo ou detergente pois diminuía a tensão da água. No dia 27/06 mostramos a professora: Esse dia fomos ao colégio às 2h e encontramos a prof. no laboratório realizamos o experimento e deu tudo certo a prof. disse que estava tudo ok, mas deveríamos fazer alguns ajustes. Terceiro encontro: Reunimo-nos para aprimorar nosso trabalho para que tudo desse certo no dia, pesquisamos mais coisas na internet e refizemos o trabalho que ficou bem melhor do que antes. Dia da apresentação: Levamos o experimento para a sala e a turma formou um círculo para começarmos a apresentar. Nosso trabalho era um dos últimos fomos ao meio da sala e começamos a apresentação sempre rezando para que desse tudo ok, Colocamos o peixe largamos o detergente e ufa deu tudo ok, ai a prof. pediu para largarmos o outro peixe e foi ai que o peixe falhou, mas já tínhamos visto a idéia do trabalho. Sentimentos: Nós nos sentimos muito felizes em receber o trabalho, pois é uma forma de sabermos mais sobre a física sem que ela se torne chata e rotineira. Os demais relatos apresentados pelas alunas indicam o envolvimento das mesmas com o projeto e suas preocupações no que se refere ao funcionamento do experimento no 48 dia da apresentação. Ao finalizar o relato, as alunas fazem uma avaliação sobre como o uso dos projetos as estimulou na aprendizagem da Física, sem que esta disciplina fosse vista como chata ou rotineira. O diário de campo da dupla acompanha um “Modelo do peixe”, como foi chamado pela dupla, que é um desenho no formato de peixe para ser utilizado como matriz para recortar sobre o papel. O desenho é apresentado no projeto original do autor (NETTO, 2007), mas a denominação de “Modelo” foi da própria dupla. Em conclusão, há o registro no diário de campo: Com esse trabalho aprendemos o que é hidrodinamica e que a física não é tão chata como pensávamos ela é muito legal e divertida dependendo de cada um e como ela é ensinada aos alunos. 4.1.3 Registros no questionário final Ao buscar as opiniões dos alunos sobre os encontros com o (a) colega do grupo, pode-se observar que estes encontros foram percebidos por eles como momentos tranqüilos e de divertimento. A158: Foi bem interessante, pois eu e minha colega nos divertimos bastante e ao mesmo tempo aprendemos porque foi uma experiência bem legal; A164: Muito tranqüilo, compareceu em todos os dias. Parece que esse clima também se estendeu ao encontro com a professora; quando questionadas sobre esses encontros, as jovens indicam que conseguiram compreender melhor o conteúdo de Física envolvido na parte experimental do projeto. A158: Foram poucos, mas foram legal, pois pudemos tirar nossas dúvidas, e mostrar nosso trabalho antes da apresentação dos colegas; A164: Tranqüilo, mudamos alguns erros e refizemos a teoria do projeto. No que se refere à apresentação realizada na Escola para os colegas, as jovens indicam que, apesar do nervosismo, perceberam esta experiência como gratificante. A158: Fiquei um pouco nervosa, mas como já tenho uma amizade grande com todos fiquei mais tranqüila, não falei muito, mas gostei de ver a experiência dar certo; A164: Muito divertido e interessante, não houve nenhum problema. 49 Sobre os conceitos de Física envolvidos e percebidos no projeto, as alunas escrevem: A158: Tensão superficial = é o fenômeno que as moléculas líquidas exercem força sobre um corpo de menor peso impedindo que afundem; A164: Tensão superficial, a tensão que a água exerce sobre o peixe, em que o detergente diminui e faz com que o peixe se locomova. Ao serem questionadas sobre os ajustes realizados no projeto em relação ao projeto original, as jovens indicam que não necessitaram realizar ajustes, pois a parte experimental envolvida no projeto inicial era bastante fácil. A158: Não precisamos mudar nada, pois o projeto era fácil e fizemos tudo como estava na bibliografia; A164: Não mudamos nada. Ao responderem à questão sobre como a execução do projeto ajudou a melhorar o entendimento sobre a Física, as jovens parecem considerar mais interessante para seu aprendizado a abordagem por projetos experimentais. A158: Ajudou sim, pois com ele entendi mais sobre a tensão superficial, e essa maneira é a melhor forma de entender o conteúdo; A164: Achei uma forma divertida e bem explicada. As jovens indicam que fazer o projeto representou aprender e se divertir conjuntamente. A158: Significou uma forma de aprender, me divertir e é claro ganhar uma nota boa; A164: Aprendemos sobre tensão superficial de uma maneira fácil. A opinião das estudantes sobre o que gostaram ao desenvolver o projeto experimental está relacionada tanto ao processo (procedimentos de escolha, busca de materiais e execução do experimento, bem como sua apresentação para os colegas) como ao que elas entendem como produto deste trabalho (tirar uma boa nota/aprender de forma divertida). A158: Todo o processo eu gostei, fazer os peixinhos, pegar o detergente, foi tudo muito legal; A164: De ganhar nota de uma maneira divertida. 50 Ao serem questionados sobre o que não gostaram de fazer, as jovens indicam que nada lhes aborreceu, e até demonstram sentimento de orgulho com a execução do mesmo. A158: Não tinha nada para não gostar, era fácil me senti muito orgulhosa do projeto dar certo; A164: Nada, gostei de tudo. Por fim, quando questionadas sobre o que foi por elas considerado difícil ao fazer o projeto, as alunas respondem: A158: Não achei nada difícil, era fácil e divertido fazer; A164: Nada de difícil, mas temos que testar várias vezes até a total perfeição. 4.2 Discussão É importante que a escola ofereça aos alunos espaços nos quais estes possam tirar suas dúvidas em relação ao que foi estudado e ao que se está estudando. Ela deve proporcionar aos alunos uma assistência para que estes possam se organizar e desenvolver métodos de estudos adequados às suas necessidades, habilidades e competências (DUNN; DUNN, 1997). A aprendizagem não pode estar somente centrada no conteúdo das disciplinas ou apenas nos métodos de transmissão de conhecimento. Para Eduardo Chaves (2007a), [...] A educação deixa de ser centrada no ensino (didatocêntrica) e passa a ser centrada na aprendizagem. A educação deixa de ser centrada no professor (magistrocêntrica) e passa a ser centrada no aluno. A educação deixa de ser algo passivo para o aluno e passa a ser algo no qual ele ativamente participa. Em outras palavras: a introdução da metodologia de projetos de aprendizagem é condição "sine qua non" para uma educação que tem como objetivo criar as condições objetivas que permitam que as crianças se transformem, das criaturas incompetentes e dependentes que são ao nascer, em seres humanos adultos competentes e autônomos, capazes de escolher e definir um projeto de vida e transformá-lo em realidade. Podemos perceber nos depoimentos dos alunos que estes consideraram estimulante aprender por meio de projetos experimentais, pois lhes despertou a curiosidade e o interesse. O trabalho por projetos também lhes ofereceu, em suas opiniões, a possibilidade de realizar uma aprendizagem em contexto, e lhes permitiu o desenvolvimento de diferentes habilidades e competências, que serão necessárias às suas vidas. 51 O trabalho com o projeto envolvendo o experimento “Um peixe de papel” possibilitou aos alunos a aplicação do conceito tensão superficial em uma atividade que eles próprios executaram. Nesse sentido, o conteúdo de Física passou a ser percebido por eles como algo acessível e interessante, não como uma coisa chata e hermética, distante dos seus cotidianos e difícil de ser apreendida. Além disso, esse trabalho lhes permitiu o desenvolvimento de diferentes habilidades e competências, tais como: a busca e a identificação de oportunidades de trabalhos a serem desenvolvidas, a análise física do problema com o respectivo levantamento de informações, a busca por materiais para confeccionar o experimento, a busca por soluções aos problemas encontrados, a negociação com os colegas, o falar em público, e a argumentação em favor das suas ideias, entre outras. Eduardo Chaves (2007a) observa que o mais importante no trabalho com projetos de aprendizagem é que o aluno, ao desenvolvê-los, além de aprender sobre conteúdos disciplinares, aprende a aprender, e pode aprender a viver junto. O aprendizado de competências e habilidades por meio do trabalho com projetos é uma aprendizagem que pode ser transferida para outras situações de vida, como por exemplo, para qualquer outra pergunta que desperte a curiosidade do indivíduo. Em uma perspectiva de educação que visa o desenvolvimento humano, uma metodologia pedagógica envolvendo projetos traz importantes implicações para o trabalho docente na escola, pois possibilita o desenvolvimento de mudanças transformadoras nos modos de ensinar e de aprender. Esse método parece encontrar-se mais em consonância com as necessidades e os novos modos de vida, de relações sociais, e de relações de trabalho da nossa época, por isso acaba motivando mais o aluno, pois os mesmos conseguem realizar associações com suas experiências de vida. Eduardo Chaves (2007b) considera que novos contextos exigem modos inovadores de ensinar e de aprender. O autor observa que modos inovadores de trabalho docente no cotidiano da escola também são acompanhados de ambientes, em geral, abertos e favoráveis à atuação exploratória de seus docentes. Esses métodos só são possíveis de serem desenvolvidos quando os gestores os valorizam, uma vez que os mesmos resultam em modos de aprender capazes de atender às necessidades e interesses dos estudantes, valorizando-os em suas habilidades e capacidades de atuação. 52 5 A MOTIVAÇÃO PARA APRENDER COM O USO DE PROJETOS EXPERIMETAIS DE FÍSICA 5.1 Resultados Os registros que serão transcritos aqui se referem as seguintes questões: 3) Por que escolhi este projeto para desenvolver? 4) O que eu espero com este projeto? 5.1.1 Acerca da escolha dos projetos Nesta questão, observa-se que o motivo que mais aparece nos registros dos alunos coletados foi a escolha por um projeto simples ou fácil. Alguns estudantes consideram que ser o projeto simples está relacionado com a facilidade na montagem do experimento, com a facilidade na obtenção do conjunto de materiais necessários à montagem do experimento, ao seu baixo custo, ou ao menor investimento em tempo ou habilidades para a sua execução. A2: Porque ele é fácil, prefiro muito mais fazer um trabalho simples e bom do que um complicado e ruim; A35: Achei este projeto simples, mas interessante e também não tinha tanto tempo, ainda tinha que testar par ver se funcionava; A36: Porque era muito legal e seria um trabalho fácil para montar com poucos materiais; A52: Porque eu achei fácil de fazer, antes o que eu tinha escolhido era praticamente impossível; A59: Porque é diferente e um pouco menos complicado para se fazer; A106: Porque era acessível, simples de ser feito e também um dos mais interessantes que encontramos no site; A107: Porque este projeto é mais acessível, simples e prático. Os materiais necessários não são tão complexos; A144: Achei interessante e fácil de ser elaborado, os materiais fáceis de ser encontrados. A escolha do projeto também foi motivada pela simplicidade de expor o conteúdo físico envolvido no projeto. Este motivo esteve relacionado ao fato da expectativa do aluno quanto a apresentação de uma síntese do que foi aprendido no projeto aos colegas de classe. Alguns desses registros indicam que o mais importante para esses alunos foi a simplicidade da explicação a ser dada aos colegas. Nesse sentido, observa-se que os motivos anteriormente apontados, tais como a facilidade na montagem ou obtenção de materiais, não foram os aspectos mais valorizados. Por outro lado, observamos que o fator 53 de desafio de encontrar um projeto mais complicado, que é de fácil compreensão no que tange a seus aspectos conceituais, pode ser um fator determinante na escolha do projeto. Alguns registros ainda indicam que esses alunos apresentam a preocupação de que tanto os colegas quanto a professora compreendam e gostem do trabalho por eles realizado e da explicação por eles oferecida. Nesse sentido, observa-se, ainda, que os jovens parecem demonstrar uma preocupação com o falar em público. A57: Porque achei interessante e bom de explicar, e também fácil; A85: Por que nós achamos legal, bem interessante que nós iríamos conseguir apresentar bem o trabalho. E que todos iriam gostar; A96: Escolhi este projeto porque ele da trabalho e ao mesmo tempo tem uma maneira simples de explicação; A98: Escolhi esse projeto porque ele da trabalho para fazer, precisa esta todos do grupo, e também é um projeto fácil de explicar; A99: Porque eu achei muito legal, eu adoro coisas difíceis e este trabalho é muito difícil e complicado e ao mesmo tempo fácil de explicar; A151: Porque é fácil de montar e um pouco mais simples para explicar; A166: Porque eu achei que seria melhor para explicar, menos complicado, já que tenho vergonha de ficar falando na frente de muita gente. Outros registros indicam que a busca da, ou a facilidade na, compreensão dos conteúdos pertinentes ao fenômeno é o motivo considerado fundamental para a escolha do projeto. A preocupação com a compreensão do outro sobre os conteúdos envolvidos no projeto desenvolvido é um aspecto central. Um critério utilizado na escolha do projeto que aponta para essa motivação é quando os alunos conseguem identificar nos projetos a serem desenvolvidos as teorias já trabalhadas em sala de aula. A72: Porque achei bem legal e mostra várias coisas do nosso conteúdo; A75: Porque nós achamos bem interessante e chamou a atenção logo que vimos, e também era fácil, e interessante e ainda ficou mais fácil pois era sobre o conteúdo atual da física; A121: Eu achei interessante, porque antigamente apresentavam isso em circos e diziam que era mágica, mas na verdade isso é a Lei da Inércia; A125: Para aprender porque a água quando ferve vai para cima saindo fora do tubo de ensaio; A127: Porque achei muito legal e acessível de fazer e que está bem dentro do conteúdo que estudamos e acho que todos irão entender. Além dos motivos citados anteriormente, outro motivo que determina a escolha dos projetos é a diversão ou a aventura que a atividade com projetos experimentais proporciona para eles. Esse motivo pode estar associado a concepções de perigo e desafio por eles identificados no desenvolvimento dos projetos. 54 A64: Por que achei muito interessante. Como envolvia fogo e álcool eu achei bom, por que gosto de trabalhar com isso; A91: Por causa da sua dificuldade, pois ao olharmos a primeira vez para o projeto temos a impressão dele ser simples e fácil de montar, mas na hora que compreendemos como ele deve ser feito temos que nos aventurar, tentar montar de várias maneiras, até que consigamos montar de maneira correta; A113: Achei um projeto legal, não porque ele é fácil, pois para mim é até um pouco complicado, é um projeto divertido, que talvez de certo ou talvez acerte ou talvez não; A118: Porque vai me proporcionar um conhecimento muito diferente de uma forma divertida e será muito interessante ao apresentar. Existe, ainda, o registro de outro motivo associado à escolha do projeto que é a busca da garantia de uma boa nota. A63: Porque eu tenho que tirar uma boa nota e se eu escolher um difícil, e se desse errado, então tive que escolher um fácil. 5.1.2 Acerca da expectativa quanto ao desenvolvimento dos projetos Observa-se que a expectativa mais citada pelos alunos envolveu atingir uma boa nota. Percebe-se que varia a ordem com que essa expectativa se apresenta nas falas; constata-se que outras expectativas puderam estar associadas a essa expectativa principal. Em alguns casos, primeiro foram citados os fatores associados à aprendizagem, e, em outros casos, a aprendizagem veio após esse fator de avaliação externa. No entanto, houve outros registros em que a nota nem foi citada. Ver-se-á, nos registros abaixo, que os alunos esperam, principalmente, obter como produto final do desenvolvimento de seus projetos experimentais uma melhor compreensão dos conteúdos de Física e uma boa nota. A7: Eu espero aprender mais sobre Física e garantir os meus pontos; A10: Acima de todo é tirar uma boa nota, mas também espero aprender mais coisas, adquirir conhecimento sobre o trabalho; A83: Eu espero aprender mais com esse projeto e ter uma nota boa; A89: Aprender um pouco mais de física, criar mais conhecimento de como a física pode ser difícil de aprender mas legal ao mesmo tempo. E claro ganhar uma boa nota; A96: Espero ter um entendimento maior sobre a velocidade e sobre as leis físicas, além de ter uma boa nota; A118: Tirar uma boa nota, aprender sobre este experimento, saber como ele funciona; A159: Espero que eu aprendo mais e tire uma nota boa. 55 A aprendizagem como um fator central, sem a consideração de uma avaliação externa, como a nota, foi citada por alguns alunos, como pode ser observado nos relatos abaixo. A13: Espero entender um pouco mais sobre queda livre; A101: Aprender um pouco + sobre gravidade, principalmente pq física é difícil de entender; A121: Além de aprender mais sobre a Física, conhecer o experimento, aperfeiçoar minha cultura; A133: Ampliar meus conhecimentos; A143: Entender os fenômenos físicos; A157: Que eu obtenha mais conhecimentos não só com o nosso experimento mas também com o dos colegas; Por outro lado, alguns registros demonstram que os alunos desenvolvem as tarefas esperando, apenas, alcançar uma boa nota: A70: Ba, ser bem recompensado pq elas tardes, que estou perdendo trabalhando nele com 10 lindos pontos; A80: Ganhar uma nota boa e recuperar uma nota com ele; A151: Uma boa nota para recuperar a média do trimestre passado. E ainda, conjugado a uma boa nota, o reconhecimento da professora, ou de seus colegas, pelo projeto desenvolvido e pela aprendizagem obtida. A40: Que ganhe uma nota boa porque estou péssima, e que mostre aos outros novas experiências; A61: Que tire uma nota excelente e que todos gostem do meu trabalho que seja o trabalho mais interessante da feira; A71: Espero ganhar uma boa nota e que os colegas e a professora goste; A85: Que todos gostem, e achem legal, e entendam o que nós vamos explicar. E que nós conseguimos tirar uma boa nota; A98: Espero que a professora goste deste e de nossa apresentação, uma boa nota e que seja o melhor. Outros relatos indicam que alguns alunos almejam uma boa nota também conjugada a boa explicação/explanação dos conteúdos no momento da apresentação para os colegas, e/ou a compreensão dos conteúdos e/ou reconhecimento por parte dos pares (colegas) e/ou da professora. A4: Que seja bem apresentado e que a professora fique satisfeita; A14: Que eu saiba explicar e tenha uma nota boa; A21: Aprender mais sobre o MRUV e ajudar os outros alunos; A17: Espero compreender melhor esse conteúdo e poder passar isso para os meus colegas, de maneira simples, e obter uma boa nota; A57: Que todos gostem do nosso trabalho e também da nossa explicação; A100: Realizar uma grande apresentação para que pessoas ganhem mais conhecimento e interesse sobre a física; 56 A117: Espero que eu possa colocar as idéias pesquisadas, e também aprender com os assuntos lidos e claro tirar uma boa nota; A158: Espero que todos entendam, e gostem como eu espero também que tire uma boa nota, e que meus colegas se animem e pesquise mais. E, de forma quase unânime, há a expectativa e a preocupação de que o experimento (não) funcione, especialmente no momento da apresentação para outros colegas da Escola, no evento anual da Escola chamado “Thomás em Ação”. Essa expectativa, em geral, vem acompanhada de uma boa nota. A29: Que ele de certo e cause insentivo para os outros e que eu seja avaliada pelo meu desempenho no trabalho; A35: Eu espero que dê certo, que eu tire uma boa nota e gostaria muito de ir para o “Thomas em Ação”; A39: Que seja um expetaculo e que de tudo certo e que eu consiga tirar 10 e Recuperar as minhas notas; A46: Espero que ele funcione, pois não é tão simples; A48: Que na realização dê tudo certo, que nós faça uma ótima explicação e apresentação para todos entender, e que ninguém deboche pois pode ser simples mas concerteza deu trabalho o suficiente para valer a pena a apresentação; A50: Que funcione, pois seria muito desagradável ter todo um trabalho para depois não funcionar; A106: Espero que ele de certo, e que todos consigam entender o porquê de termos escolhido ele para apresentarmos para a turma, é um projeto simples que olhado com bons olhos é muito interessante, espero também uma boa nota; A107: Espero primeiramente que ele dê certo (háháhá) e sendo assim que seja escolhido o melhor (difícil) para garantir 12 pontos na matéria que tirei meu primeiro vermelho. 5.2 Discussão Os resultados indicam que a escolha dos projetos pelos estudantes foi motivada principalmente pela simplicidade e facilidade por eles percebida de aspectos relacionados ao desenvolvimento e a apresentação de suas produções, sendo que a principal expectativa é a obtenção de um conceito favorável na disciplina. A obtenção dos materiais envolvidos no experimento, a montagem dos experimentos e o baixo custo dos materiais são aspectos que foram levados em conta na escolha dos seus projetos. Aqueles projetos cuja montagem ou compreensão dos conteúdos foi considerada complexa pelos estudantes, foram descartados e substituídos por outros com menor investimento em tempo e dedicação. Na visão do estudante, escolher um projeto difícil de ser executado pode colocar em risco o bom desempenho escolar ou implica em mais tempo de dedicação ao mesmo. 57 Assim, o estudante pode, por vezes, deixar de ousar, de experimentar um projeto mais desafiador, pois para ele a garantia do bom resultado em termos de nota pode ser mais importante no ambiente escolar. Poucos alunos revelaram que o desafio ou a curiosidade foi um determinante na escolha. De certa forma, observou-se que os alunos escolheram a execução dos projetos principalmente por motivos extrínsecos. A motivação extrínseca “tem sido definida como a motivação para trabalhar em resposta a algo externo à tarefa ou atividade, como para a obtenção de recompensas materiais ou sociais, de reconhecimento, objetivando atender a comandos ou pressões de outras pessoas para demonstrar competências ou habilidades” (GUIMARÃES, 2001, p. 46). No contexto deste estudo, e, principalmente, no contexto escolar, esses resultados são esperados. Observa-se que diversos autores indicam que a escola propicia eminentemente o desenvolvimento de motivações extrínsecas, uma vez que as notas, a aprovação para série seguinte, o vestibular, um bom emprego, entre outros motivos, são os principais fatores apontados para realização das atividades na escola. O sistema escolar e os professores, de maneira geral, pouco incentivam a curiosidade ou enfatizam o caráter prazeroso do aprender como um fator motivador para a realização das tarefas. Contudo, a motivação intrínseca poderia seguir a extrínseca. Martinelli e Bartholomeu (2007) observam que uma pessoa motivada intrinsecamente procura o novo, o entretenimento, a oportunidade para exercitar novas habilidades e obter domínio sobre o mundo. Para as autoras, a motivação intrínseca é base do crescimento e da integridade psicológica, uma vez que se encontra associada à curiosidade para aprender e à persistência dos alunos nas atividades, mesmo quando elas se mostram difíceis. Guimarães (2001) também aponta que o aluno aprende mais ao envolver-se em atividades por motivações intrínsecas, uma vez que obtém satisfação e prazer associado à tarefa, e não a um fator externo, como no caso da motivação extrínseca. De fato, a percepção de progresso em si produz um senso de eficácia em relação ao que está sendo aprendido, o que gera expectativas positivas de desempenho, que, por sua vez, retroalimenta a motivação para aquela atividade. O problema que se apresenta na escola é que a avaliação da aprendizagem formal parece ser mais central para o aluno que o próprio processo de aprendizagem, uma vez que se observa que os alunos se preocupam mais com as notas que irão obter do que propriamente com a aprendizagem que realizaram. Isso ocorre devido à avaliação ser, frequentemente, somativa sem apresentar caráter formador. Boas (2006) observa que a 58 avaliação formadora é aquela que tem o processo de aprendizagem como parâmetro; ela mesma serve para mobilizar o aluno à aprendizagem, oferecendo-lhe uma avaliação de seu desempenho, apresentando seus pontos fortes e fracos. Essa forma de avaliação, ao invés de estar centrada no produto (nota), visa fomentar o processo de aprendizagem na medida em que toma como critério o próprio aluno e lhe oferece feedback progressivo de seu desempenho. Uma reflexão que, talvez, se possa deixar da presente experiência, seja desenvolver a abordagem de trabalho por projetos sem associá-la ao estabelecimento de um conceito ou nota para a disciplina. Isso poderia facilitar o desenvolvimento das motivações intrínsecas associadas à aprendizagem do aluno de maneira mais clara para os mesmos do que a presente experiência desenvolvida neste estudo. Por meio da fala de alguns alunos, observou-se que a presente experiência possibilitou o desenvolvimento de motivações intrínsecas, porém as falas dos jovens demonstram que outras preocupações foram mais centrais, pois o aluno estava preocupado com um desempenho associado a um fator externo – nota ou olhar do outro. Contudo, algumas falas também indicam que o trabalho por projetos possibilitou a busca por aprendizagem de determinados conteúdos de Física; vimos que o desafio, a curiosidade, o prazer de ver o experimento funcionar e de compreender os princípios físicos envolvidos em tal experimento norteou a escolha do projeto de alguns. Esses aspectos não apareceram de maneira central, pois a abordagem ainda se desenvolveu em um contexto em que prevaleceu a avaliação formal e somativa. Apesar dessas considerações, pode-se constatar que o trabalho por projetos permite o desenvolvimento tanto de fatores motivacionais intrínsecos, como extrínsecos, associados ao reconhecimento do outro. Observou-se que os estudantes também demonstram uma preocupação geral associada com o funcionamento dos protótipos no momento da apresentação para os colegas. Além da aprendizagem e da boa nota, almejadas como um produto importante das tarefas realizadas com os projetos, o estudante também almeja ter um bom desempenho frente aos pares (colegas), o que conduzirá ao reconhecimento por parte destes e da professora de suas capacidades e aprendizagem. De fato, percebe-se que alguns alunos desejam reconhecer a si próprios nas atividades por eles desenvolvidas, e almejam que os outros reconheçam seu trabalho. Além disso, eles buscam a aprendizagem, pois percebem que o domínio dos conteúdos lhes possibilita a realização de atividades interessantes. Dessa forma, o aprender é percebido como algo prazeroso e motivador, uma vez que promove a auto-estima e a auto-realização. 59 6 ALGUNS EPISÓDIOS COM OS PROJETOS EXPERIMENTAIS DE FÍSICA: UM RELATO A PARTIR DO DIÁRIO DA PRÁTICA PEDAGÓGICA Os relatos apresentados neste capitulo foram escolhidos por estarem no diário de campo da professora-pesquisadora de forma clara e possuir dados que ajudam a resgatar detalhes no momento da conversa da professora com seus alunos. 6.1 Um episódio envolvendo cinemática Aqui são reportadas algumas observações feitas a partir de um episódio com um dos grupos do 1o ano com o experimento “Registrando o movimento com o gotejador de Mariotte” (NETTO, 2007). Para esse grupo, quando estava superada, em parte, a etapa de construção do aparato, a dificuldade passou a ser como associar os conceitos da cinemática estudados em sala de aula ao fenômeno que eles observavam na prática; era a relação teoria-prática dos conceitos de cinemática o foco da discussão. O grupo deveria analisar cinematicamente o movimento de um carrinho sobre uma tira utilizando as marcações de tinta deixadas ao longo do seu movimento. À medida que o carrinho se deslocava, ficava demonstrado que o mesmo adquiria aceleração. Uma vez que o gotejador, fixado no carrinho, “pinga”, a separação em distância entre as marcas destas gotas permitia essa análise, quando as observações eram feitas em intervalos de tempos iguais. A professora-pesquisadora aproveitou tal situação para intervir e fixar outros conceitos relacionados à aceleração, tais como, velocidade, intervalo de tempo, distância, etc. Aos poucos, os próprios alunos concluíram que se tratava do movimento retilíneo e uniformemente variado. A seguir, a professora-pesquisadora sugeriu que esses dados fossem transferidos para gráficos, obtendo, assim, resultados físicos abrangentes, e neste momento vários tópicos foram explorados com os alunos referentes ao movimento uniformemente acelerado e movimento uniformemente retardado. Esses eram assuntos que eles próprios tentavam conceituar a partir das suas observações e relacionar com o discutido em sala de aula. Isso permitiu que eles entendessem o processo de funcionamento do aparato, relacionando o funcionamento do gotejador, e outros itens, ao movimento propriamente dito. Este foi um episódio no qual foi possível perceber que o aprender a fazer e o aprender a conhecer eram ações interrelacionadas, pois aprender Física não se reduziu a reprodução de conteúdos, passou a ser 60 um processo de descoberta, uma vez que os jovens se reconheciam e eram reconhecidos pelos demais colegas e pela professora em suas produções. No que se refere à aprendizagem de conceitos físicos, observou-se que, a primeira vista, o conceito a ser aprendido pelos alunos pareceu ser difícil e, muitas vezes, sem sentido ou sem aplicabilidade direta em seu cotidiano. O trabalho com projetos permitiu com que eles se envolvessem e começassem a perceber os conceitos na prática, a partir de suas próprias motivações e ações, o que permitiu um maior reconhecimento de si, enquanto atores da própria aprendizagem. 6.2 Um episódio envolvendo correntes de convecção No dia 19 de junho ocorreu o primeiro encontro entre a professora-pesquisadora e uma das duplas de alunos participantes dos projetos. A dupla era uma das primeiras a procurar a orientação da professora, que, então, os encaminhou ao laboratório da escola. No laboratório, a professora procurou auxiliar na construção do aparato experimental, pois a dupla de alunos já havia escolhido o projeto a desenvolver e até providenciado a coleta de material para a construção do aparato. Assim que os alunos entraram na sala, pela primeira vez, ficaram encantados com tudo, admiravam e procuravam manusear pipeta, béquer, tripé, fogareiro, etc. Com isso, os materiais que eles levaram foram logo sendo substituídos pelos materiais do laboratório. Para a professora-pesquisadora pareceu que eles queriam, como a maioria dos alunos, produzir um visual “com efeito” para seu experimento; e, mais do que depressa, foram efetuando as trocas dos matérias trazidos pelos matérias do laboratório. Então, a professora os deixou no laboratório para que finalizassem a construção do aparato e voltou para a sala de aula para dar orientações sobre a realização das atividades de sala de aula, retornando, a seguir, ao laboratório para verificar o que a dupla já havia feito. Nesse intervalo de tempo, houve troca de períodos na escola. O experimento estava pronto e funcionando, e os alunos estavam muito orgulhosos e entusiasmados com o que observavam. A primeira pergunta que a professora fez a eles foi sobre o qual era o título do experimento, uma vez que isso implicava nos conceitos físicos envolvidos: um dos alunos disse ser “Correntes de convecção” (BONADIMAN, 1989). Então a professora questionou sobre quais os conceitos que eles iriam discutir com os colegas usando a atividade experimental. Logo após a pergunta, os alunos começaram a falar que se colocava serragem no interior de um pote de vidro com água em aquecimento, e se visualizava o movimento da serragem no interior do pote (Figura 9). 61 Nesse momento, a professora perguntou aos alunos se eles compreendiam o fenômeno envolvido. A professora percebeu, em suas expressões faciais, indicativos de que seria necessário discutir sobre o fenômeno envolvendo correntes de convecção. Assim, a professora foi para o quadro-negro para discutir que o aquecimento da água, por meio da chama acesa na parte inferior do pote de vidro, produz diferentes valores para a temperatura em diferentes pontos do volume de água, resultando num menor valor para a densidade da água na parte inferior (pois a água sofre uma expansão no seu volume devido ao aquecimento) comparada a densidade da água na parte superior. Assim, esta diferença de densidade produz deslocamentos de volumes de água da parte inferior para a parte superior, bem como da parte superior para a parte inferior, chamadas de “correntes” de água ou “correntes de convecção”, em que a serragem é utilizada para visualizar este fenômeno. Essas “correntes” de água são responsáveis pela distribuição do calor por toda a massa de água. Para simplificar, a professora fez a seguinte suposição para valores de densidade e volumes da água a duas temperaturas diferentes: considerou hipoteticamente um volume de V = 1 cm3 para a temperatura ambiente, e um volume de V = 2 cm3 para uma temperatura mais elevada comparada ao valor da temperatura ambiente (foi exatamente assim que a professora esquematizou no quadro negro): Densidade da água à temperatura ambiente d H 2O = Densidade da água ao ser aquecida d H 2O = m 2 = = 2 g / cm 3 V 1 m 2 = = 1g / cm 3 V 2 Com isso, a professora ilustrou que a densidade da água é maior a uma temperatura menos elevada (cujo volume é menor) comparada a densidade da água a uma outra temperatura mais elevada (cujo volume é maior). Ao final da discussão, um dos alunos foi se manifestando e concluindo que se aquece primeiro a água que está embaixo, ou seja, as moléculas que estão próximas do fogo. Ao se aquecer, a água tem seu volume aumentado, logo, a densidade da água na parte inferior é menor do que a densidade da água na parte superior. Assim, as moléculas de água que estão na parte inferior sobem, enquanto as moléculas de água menos aquecidas descem, o que é possível de ser visualizado devido ao movimento da serragem (Figura 9). E, ainda, completou que o nome do trabalho é “Correntes de convecção”, porque o nome correntes se dá ao ciclo de subida e descida da água. A discussão foi encerrada 62 nesse momento; nas falas dos alunos, e na disposição apresentadas por eles, se percebia muita confiança e alegria, pois estavam falantes e prontos para auxiliar na organização do laboratório, parecendo se sentir responsáveis por tudo o que havia ali. Esse episódio relata a importância da mediação da professora para facilitar o processo de construção de significados pelo aluno no seu trabalho com projetos. 6.3 Um episódio envolvendo gêiser No dia 27 de junho de 2007, foi mais uma manhã e tarde de intensa movimentação no laboratório da escola, uma vez que o grande fluxo de alunos através dos portões da escola requeria a presença constante da professora para atendê-los. Como aquela semana precedeu o dia da apresentação dos projetos pelos alunos aos seus colegas de classe, a procura pelo professor foi grande. O que se observou é que a grande maioria apresentava dúvidas sobre como explicar o assunto de seu projeto experimental, e, por isso, recorreram à professora. Constatou-se que esses momentos têm se tornado os melhores momentos para aprendizagem, pois se trocam idéias e se exploram conceitos físicos intuitivos, muitas vezes correto, outras não. Na tarde de 27 de junho esteve com a professora uma dupla de alunos do 2° ano para montagem e teste de seu aparato experimental e para tirar dúvidas. Os alunos desejavam montar todo o aparato no laboratório, porque ali se encontra um grande número de tubos de vidro, e a intenção da dupla era aproveitar um dos vidros existentes no laboratório, alegando que, assim, o visual do aparato ficaria mais bonito e interessante a todos; o título do trabalho era “Gêiser” (Figura 10). A professora considerou que na montagem realizada pelos alunos havia uma grande quantidade de álcool no suporte (Figura 10), e os questionou sobre o motivo da quantia exagerada de álcool. Sobre isso, os alunos justificaram que era preciso ferver a água, para então começar a aparecer os efeitos do experimento. A professora concluiu que eles associaram muito álcool com chama mais intensa, para então acelerar o processo de aquecimento da água. Com isso, a professora solicitou a eles que apagassem o fogo, para que pudessem conversar um pouco. Prontamente eles atenderam o seu pedido, sentaram-se junto à bancada, em volta do experimento, e começaram uma conversa com a professora, muito construtiva para todos. Primeiramente, a professora questionou-lhes se sabiam o significado do título do trabalho deles: Gêiser. A aluna disse que havia procurado na Internet, e havia encontrado alguma coisa referente a jorrar, como panela de pressão, mas que ela não havia 63 compreendido totalmente em termos da Física envolvida no fenômeno. O outro integrante do grupo disse que não sabia nada sobre o assunto, e que na verdade a preocupação dele era deixar o “Gêiser” funcionando, mas que a partir daquele momento ficara curioso para saber o significado da palavra. Então, a professora enfatiza que a aluna havia encontrado significados interessantes para a palavra “Gêiser”, uma vez que Gêiser quer dizer jorrar, a semelhança do que eles queriam que acontecesse com experimento. A professora explica que o aparecimento de jatos de vapor de água quente para cima não ocorrem em qualquer lugar, somente em algumas regiões com características peculiares. Há regiões subterrâneas as quais são favoráveis ao aprisionamento de água aquecida. Quando a pressão da água quente e dos vapores superaquecidos chegam a certo valor, a água e os vapores são expulsos de forma violenta, rompendo na forma de jatos e atingindo a superfície, onde é lançado na atmosfera. Encontram-se jatos de água e vapores de água em regiões vulcânicas, onde há existência de uma fonte de calor não muito profunda e onde há água subterrânea em quantidade suficiente para ocorrer jatos de água e vapores de água, com um ou alguns canais por onde a água aquecida e os vapores de água podem escapar quando certa pressão é atingida. Ao término dessa explicação, percebeu-se satisfação nas expressões faciais deles. Um dos alunos disse estar adorando o experimento que eles haviam escolhido, pois não imaginava que, ao escolher essa experiência, ela seria tão rica e interessante. E ainda disse “Acho que os meus colegas vão ficar tão surpresos quanto nós, né Pati!”. No entanto, a aluna, logo após o término desse diálogo, aponta que durante a explicação esperava uma associação entre o Gêiser e a panela de pressão, mas que a professora nada havia dito sobre isto, e que ela continuava sem saber qual a relação existente. Agradecendo a atenção da aluna na discussão, a professora passou a questionar aos alunos sobre o funcionamento da panela de pressão. A aluna disse que durante as aulas de Física a professora já havia falado sobre a panela de pressão relacionando com transformações térmicas. Ela, então, relatou que havia entendido que o funcionamento da panela de pressão começa quando o alimento é colocado com certa quantidade de água. O calor da chama do fogão faz a água ferver. Como a panela é totalmente fechada (a tampa é vedada com guarnição de borracha), o vapor da água não pode se dispersar e assim a pressão interna da panela aumenta, tornando-se maior que a pressão atmosférica. O aumento da pressão faz a água entrar em ebulição, a uma temperatura acima de 100ºC. O vapor formado levanta o pino da válvula central e sai da panela. Nesse momento, a pressão do vapor se estabiliza e a temperatura do interior da panela não aumenta mais. Embora as moléculas do vapor formado se choquem entre si e contra a parede da panela e da tampa, a 64 realização do trabalho ocorre somente no pino da válvula, pois ele é a única peça que pode “deslocar-se”. Com essa explanação, a professora pergunta se eles já haviam associado o Gêiser à panela de pressão. O aluno disse que achava que já havia entendido tudo, e logo foi falando que o vapor produzido pelo Gêiser expulsa a água e que esta é jorrada para cima, e que um mecanismo semelhante faz a válvula de uma panela de pressão girar, só que neste caso o movimento se torna contínuo e não intermitente como em um gêiser. Com isso, a professora fala que eles haviam entendido muito bem o objetivo do trabalho deles; e, para finalizar, volta a acrescentar, que mais álcool no aparato não seria o ideal, até mesmo pelo perigo que apresenta. A professora sugeriu que trouxessem um fogareiro de casa, e também água pré-aquecida para acelerar o processo de aquecimento. Então, os alunos utilizaram um vidro de conserva pepino e um cadarço grosso de algodão. Na análise da professora, a apresentação da dupla para os colegas de classe sobre o Gêiser foi excelente, pois sabiam explicar com clareza o fenômeno envolvido no experimento e estavam convictos ao falar para os colegas, tanto que foram questionados por eles, tornando a conversa interessante e empolgante. No entanto, para os alunos que realizaram o experimento sobre o Gêiser, o resultado final não foi satisfatório, pois no dia da apresentação para os colegas a água não jorrou como seria esperado, embora os testes realizados em laboratório mostraram que o fenômeno podia ser observado. Mesmo os colegas tendo gostado e se interessado pelo experimento, para eles, o fato de não jorrar a água como seria esperado lhes causou decepção; a professora tentou animá-los, mas a aluna teve vontade chorar. 65 6.4 Construção dos experimentos e aprimoramento do conteúdo: imagens de episódios no laboratório da escola Figura 2. Imagem da realização em laboratório de testes do experimento “Dilatação de Sólidos” (DIEZ, 1996) por alunos do 2° ano. Figura 3. Imagem da realização em laboratório de testes do experimento “Modelo de foguete – 3ª Lei de Newton” (NETTO, 2007) por alunas do 1° ano. 66 Figura 4. Imagem da realização em laboratório de testes do experimento “Cinemática dos dominós” (NETTO, 2007) por alunas do 1° ano. Figura 5. Imagem da realização em laboratório de testes do experimento “Máquina a vapor” (NETTO, 2007) por alunas do 2° ano. 67 Figura 6: Imagem da realização em laboratório de testes do experimento “Irradiação” (DIEZ, 1996) por alunos do 2° ano. 68 6.5 Apresentação dos projetos experimentais na escola: imagens de episódios em sala de aula Figura 7. Imagem da apresentação em sala de aula do experimento “Gênio da garrafa” (NETTO, 2007) por alunas do 2° ano. Figura 8. Imagem da apresentação em sala de aula do experimento “Máquina a vapor” (NETTO, 2007) por alunas do 2° ano. 69 Figura 9. Imagem da apresentação em sala de aula do experimento “Correntes de convecção” (NETTO, 2007) por alunas do 2° ano. Figura 10. Imagem da apresentação em sala de aula do experimento “Gêiser” (NETTO, 2007) por alunos do 2° ano. 70 CONSIDERAÇÕES FINAIS O objetivo deste trabalho foi desenvolver e analisar como uma proposta baseada em projetos experimentais pode motivar a aprendizagem de conteúdos de Física, bem como auxiliar na construção de outras aprendizagens importantes ao desenvolvimento integral do ser humano. Novos modos de aprender foram percebidos nos depoimentos dos alunos, os quais indicam que o trabalho com os projetos experimentais estimulou-lhes à curiosidade e ao interesse, além de oferecer-lhes possibilidades de aprendizagem em contexto e o desenvolvimento de diferentes habilidades e competências, que serão necessárias às suas vidas, tais como, a busca e a identificação de oportunidades de trabalho a serem desenvolvidas, a análise de um problema com o respectivo levantamento de informações, a busca por recursos materiais, a busca por soluções aos problemas identificados, a negociação com os colegas, o falar em público, a argumentação em favor das suas idéias, entre outras. No que tange a integração entre teoria e prática, observou-se que os projetos experimentais mostram ser uma possibilidade de trabalho interessante para o professor no ensino de Física. Os fenômenos físicos envolvidos nos experimentos despertam curiosidades aos jovens e os levam a buscar compreender os conceitos de Física subjacentes aos mesmos. De certa forma, observa-se que o ensino por meio de projetos amplia a busca dos alunos por conhecimentos a outros contextos, que não apenas o da sala de aula. Hernández e Ventura (1998) ressaltam que a construção de conhecimentos implica em um aprofundamento das relações em torno de um tema, demanda a associação de informações e reflexão sobre as mesmas. Essa tarefa cria novas possibilidades de compreensão e organização e reorganização dos conhecimentos do aluno. De maneira geral, percebeu-se que os alunos tiveram uma boa receptividade à proposta de trabalho com os projetos experimentais, avaliando que a execução dos projetos lhes auxiliou na aprendizagem dos conteúdos da disciplina. Através das falas dos próprios alunos, pode-se perceber que o uso dos projetos experimentais lhes facilitou a tarefa do aprender, tomando-se para si a própria aprendizagem, uma vez que indicaram ter uma postura interessada e responsável em relação à construção de seus conhecimentos. Aprender Física não se reduziu a reprodução de conteúdos, passou a ser um processo de descoberta, que lhes exigia dedicação, criatividade e responsabilidade, entre outras habilidades e competências. Aprender a conhecer e aprender a fazer passou a ser extremamente gratificante, uma vez que os jovens se reconheciam e eram reconhecidos pelos outros em suas produções. 71 O uso de projetos tem dois aspectos que são fundamentais para o ensino de ciências responsável e comprometido com o desenvolvimento de valores para a construção de um mundo melhor. Um primeiro aspecto abrangeria um âmbito mais individual que trabalha com os sentimentos de auto-eficácia e auto-estima do aluno; e um segundo, que implica em um plano mais grupal que considera as interações entre pares, realizadas no grupo que desenvolve o projeto. O aluno motiva-se ao desenvolver atividades de aprendizagem nas quais acredita que possuirá sucesso. Esse é um dos fatores que torna tão importante o professor valorizar a experiência prévia do aluno em seus conhecimentos, habilidades e talentos. De fato, o aluno se envolve de maneira mais ativa em atividades nas quais ele prevê êxito (BANDURA, 1986). O uso de projetos ao possibilitar que o aluno escolha a atividade entre uma série de projetos pré-determinados pelo professor, permite que o aluno considere suas experiências e motivações, além das próprias capacidades e talentos para a construção de novas aprendizagens; enfim, permite que o aluno escolha o desafio para o qual ele quer se lançar na busca por novas aprendizagens. Bandura (1986) indica que se o indivíduo possui fortes crenças acerca de sua autoeficácia, o esforço se fará presente desde o início, permanecendo ao longo do processo. Além disso, essas crenças contribuem para a perseverança na resolução de problemas e na aquisição de novas habilidades, mesmo frente a dificuldades e revezes importantes. No que se refere às trocas entre os pares, o aprendizado da convivência em grupo também é fundamental a esse período do desenvolvimento para a construção da identidade. Além disso, o trabalho em grupo permite o desenvolvimento de uma aprendizagem cooperativa. Essa forma de aprendizagem é baseada no processo de interação que possibilita aos indivíduos trocar pontos de vistas, conhecer e refletir sobre diferentes posições, inclusive refletir sobre o seu próprio pensar. Essas atividades são básicas para construção de indivíduos críticos e eticamente comprometidos. Segundo Zabala (2002), o desenvolvimento de uma atitude favorável e de motivação ao aprendizado dos métodos globalizados, como o trabalho por projetos, confere sentido e significado do aprendido. Neste trabalho, a realização dos projetos exigiu uma atitude ativa dos alunos, que eles se aprofundassem nos conteúdos, que ficassem implicados e motivados em seu processo de ensino-aprendizagem. Outro aspecto a ser ressaltado dessa abordagem é que ela permitiu uma aprendizagem diferenciada dos conteúdos de Física, valorizando as habilidades e os interesses de cada aluno. No entanto, para ambos, aluno e professor, fazer os projetos não foi sempre tarefa fácil. Para o professor, exigiu também 72 maior acompanhamento das tarefas de cada grupo de alunos, maior envolvimento e atenção às dificuldades apresentadas por eles no transcorrer do desenvolvimento dos projetos; para os alunos, as dificuldades de relacionamento que se apresentaram entre eles frente aos obstáculos e aos desafios da realização dos projetos lhes colocou diante de situações reais de confronto social e intelectual. O uso dos projetos também permitiu aos alunos uma avaliação de sua aprendizagem diferente das avaliações tradicionais, que são centradas apenas na memorização de conteúdo. Essas avaliações ocorreram não só quando da apresentação dos projetos aos colegas, mas a cada impasse apresentado no transcorrer do desenvolvimento dos projetos, que exigia discussão e reavaliação da teoria e dos procedimentos experimentais. Nas situações mais tradicionais, os estudantes, de acordo com Tapia e Monteiro (2003), sem compreender o porquê, devem cumprir tais avaliações e acabam apenas realizando a tarefa por obrigação, sem nem um pouco de motivação, uma vez que o aluno não se encontra implicado em seu fazer. Dorin (1984) aponta que o aluno deve acreditar que a matéria é suficientemente instigante, interessante para que prenda a sua atenção. Desta forma, a motivação e o incentivo que o educador proporciona são de suma importância para que desperte a atenção dos alunos. Para que ocorra uma aprendizagem eficiente é necessário que o professor encoraje e auxilie os alunos a estudar, ajude-os a adquirir confiança em si mesmos, dê um motivo importante para o estudo e que oriente os alunos para que adquiram bons métodos de estudo. O trabalho com projetos permitiu com que o aluno se envolvesse e começasse a construção de seu conhecimento a partir de suas próprias motivações e ações, o que permitiu um maior reconhecimento de si, enquanto ator da aprendizagem. Apesar de o professor sugerir uma listagem de experimentos possíveis de serem desenvolvidos com o uso de projetos, ofereceu-se espaço à criação, a busca de saberes e experiências que fossem pertinentes ao contexto do estudante. A realização dos projetos em grupo de pares (colegas) é outro aspecto importante no desenvolvimento deste tipo de abordagem, especialmente porque contempla algumas necessidades importantes desta fase do desenvolvimento humano. Observa-se que na adolescência, o grupo possui um papel fundamental na aquisição de uma identidade adulta, pois é o grupo que permite que os jovens reconheçam aspectos de si mesmos, diferenciados daqueles até então experienciados em família. De fato, a tendência grupal caracteriza o adolescente, na medida em que todos estão em um mesmo momento 73 existencial, vivendo situações em comum, e os mesmos medos e questionamentos a cerca de si mesmos podem ser compartilhados. Isso os torna menos frágeis e solitários, fortalecendo a auto-estima de cada um do grupo (SILVA, 2001). Na verdade, os adolescentes formam grupos também para sentirem-se menos expostos a críticas, para diluírem sentimentos de vergonha, medo, culpa ou inferioridade, e para assegurarem que serão aceitos como são. Através do reconhecimento da imagem que os outros tem sobre eles é que constroem seus sentimentos de auto-estima (ZIMERMAN & OSÓRIO, 1997). A utilização de projetos em grupo possibilita aos jovens experiências saudáveis, nas quais os mesmos se unem em função de uma tarefa construtiva - a aprendizagem e desenvolvimento de conceitos físicos. Essa união em torno de uma tarefa orienta suas atividades. Os jovens ao unirem-se em torno de uma atividade (o projeto) que lhes representará frente aos demais jovens da turma, e mesmo da comunidade escolar, buscam dar o melhor de si. Afinal, o projeto passa a representar a identidade de cada um e do grupo que o construiu. Nessa situação, pode ser esperado que surjam ansiedades, como as indicadas pelos adolescentes. Essas ansiedades não se referem apenas a um conceito (nota), mas sim ao que eles serão capazes de apresentar aos outros. São ansiedades relativas às suas próprias identidades. Para Erikson (1987), a formação da identidade é um processo de reflexão e observação. Durante ele, o indivíduo julga a si mesmo pelo modo como percebe ser a maneira como os outros o julgam. O olhar do outro ganha significativa relevância. Nesse sentido, se observa a importância do professor permanecer atento ao desenvolvimento dos projetos e aos significados que cada um dos jovens atribui para eles. Para o bom desenvolvimento dos projetos experimentais observa-se a necessidade de organização e comprometimento do professor no sentido de oferecer uma maior assistência aos alunos durante a execução dos projetos. Destaca-se que é importante e necessário que o professor prepare os materiais práticos e teóricos que servirão de base para a construção das experiências, e busque antecipar algumas dificuldades inerentes ao processo de desenvolvimento dos projetos. Das dificuldades observadas durante a realização do projeto podemos citar: as alterações nos roteiros das experiências em função dos materiais obtidos e dos objetivos propostos no trabalho, o tempo para execução das tarefas, os conflitos nos grupos de trabalho, etc. Ao antecipar e discutir alguns desses possíveis obstáculos com os jovens, o professor estará propiciando um ambiente facilitador para aprendizagem, no qual os alunos se sintam mais seguros para desenvolver os projetos. Cabe destacar que durante o 74 processo de desenvolvimento dos projetos experimentais alguns alunos, mais do que outros, apresentam a necessidade de atenção do professor. Assim, é preciso que o professor se encontre atento para essas necessidades e lhes ofereça apoio. Outros aspectos que são importantes a serem ressaltados e que necessitam uma especial atenção do professor que pretende trabalhar com este tipo de abordagem são: o custo dos materiais, o fato de que nem todo aluno encontrar-se disposto a engajar-se nesse tipo de atividade, e o fato dos conflitos “naturais” que podem emergir do trabalho em grupo. Essa é uma abordagem que necessita que o professor possua um maior tempo para poder acompanhar e assessorar os seus alunos. Por fim, gostaríamos de encerrar este trabalho com uma colocação de Fainguelernt (2003). Para este autor, ser professor não é apenas ensinar o domínio de uma técnica, mas empenhar-se no desenvolvimento de outras pessoas e de si próprio. Este deve comprometer-se com a realidade cultural de seus alunos. Seu trabalho deve interagir com as culturas e o fazer das comunidades. O desenvolvimento de projetos de Física neste caso, e em especial sua apresentação à comunidade escolar, permitiu uma maior aproximação do aluno ao professor, à família e à escola. Além disso, ao reconhecerem-se como atores ativos de seus processos de ensino-aprendizagem, observou-se nas falas um resgate do sentimento de auto-estima destes alunos. 75 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALMEIDA, Maria Elizabeth Bianconcini de. Projeto: uma nova cultura de aprendizagem. PUC/SP, Julho, 1999. Disponível em: <http://www.educacaopublica.rj.gov.br/biblioteca/educacao/0030.html>. Último acesso em: 20 nov. 2007. ARAÚJO, Mauro Sérgio Teixeira de; ABIB, Maria Lúcia Vital dos Santos. Atividades experimentais no ensino de Física: diferentes enfoques, diferentes finalidades. Revista Brasileira de Ensino de Física, v.25, n.2, jun., 2003. BANDURA, A. 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