Cadernos de Letras da UFF – Dossiê: Letras e cognição no 41, p. 55-70, 2010 55 DAS MUDANÇAS HISTÓRICAS NA PARASSÍNTESE À LUZ DA LINGUÍSTICA COGNITIVA Caio César Castro da Silva RESUMO Pretendemos, neste trabalho, fazer uma análise longitudinal de circunfixos verbais partindo da premissa de que o circunfixo a-X-ecer teria se fossilizado. Para isso, buscaremos indícios em textos de várias fases do português, assim como em dicionários etimológicos. Exploraremos alguns conceitos básicos da semântica cognitiva para analisar a mudança morfossemântica dos formativos e dos vocábulos gerados. Palavras-chave: Parassíntese, mudança morfossemântica e Linguística Cognitiva. 1. Introdução A área de morfologia histórica, embora ainda seja carente de estudos, começa a despertar o interesse de alguns pesquisadores em descobrir por quê caminhos passou uma determinada forma, como os trabalhos de Marinho (2009) e de Rondinini (2009) 1. Neste texto, temos o objetivo de nos debruçar sobre a mudança ocorrida em construções parassintéticas do português, ou morfes descontínuos. Além disso, estamos interessados em investigar até que ponto a motivação cognitiva pode nos ajudar a melhor compreender processos de mudança formal e casos de polissemia. 1 MARINHO, M. A. F. Do latim ao português: percurso histórico dos sufixos -DOR e -NTE. Tese de doutorado. Rio de Janeiro: UFRJ, 2009. RONDININI, R. B. O acento primário no latim clássico e no latim vulgar: o tratamento da mudança na perspectiva da Teoria da Otimalidade. Tese de doutorado. Rio de Janeiro: UFRJ, 2009. 56 Silva, Caio César Castro da. Das mudanças históricas na parassíntese à luz da linguística cognitiva A defesa da hipótese de que um dos circunfixos tenha se tornado improdutivo terá como pano de fundo buscas arqueológicas nos registros da língua (Castro da Silva, 20092). Objetivamos, também, apresentar as noções cognitivas que acomodarão os dados de mudança3, deixando de lado a separação entre sincronia e diacronia que é preservada em alguns estudos linguísticos. O artigo está estruturado da seguinte maneira: primeiramente, faremos uma apresentação do processo de formação de palavras, considerando os enfoques da tradição e da literatura morfológica, e defenderemos a proposta da circunfixação; em seguida, percorreremos a trajetória histórica dos circunfixos a-X-ecer e e/N/-X-ecer a fim de encontrar indícios que comprovem a hipótese inicial. Analisaremos essas mudanças históricas com base na fundamentação teórica da Linguística Cognitiva (LC). Para isso, discorreremos superficialmente sobre alguns conceitos caros aos cognitivistas e, assim, tentaremos examinar os dados. Por fim, seguem as palavras finais. 2. Parassíntese ou circunfixação: problemas Nos termos tradicionais, a parassíntese é definida como um processo de formação de palavras que se caracteriza pela anexação simultânea de um prefixo e um sufixo a uma base (cf. Cunha & Cintra, 2007; Rocha Lima, 20084). São exemplos de verbos parassintéticos alistar, empobrecer, encarar, entre outros. O caso de recontratar, em que o fator de simultaneidade não é ativado, comporta-se de maneira diferente. Ao contrário dos verbos parassintéticos, a existência de contratar impede que recontratar seja considerado como parassíntese. Esse verbo é formado, pois, por derivação prefixal e sufixal (contrato + ar > 2 3 4 CASTRO DA SILVA, C. C.; VALENTE, A. C. M. de M.; GONÇALVES, C. A.; ALMEIDA, M. L. L. de. “Percurso histórico das formações parassintéticas a-X-ecer e e/n/-X-ecer: produtividade e polissemia”. In: ALMEIDA, M. L. L. de et alii. Linguística Cognitiva em Foco: Morfologia e Semântica. Rio de Janeiro: Publit, 2009. Os principais conceitos são aqui tratados como um breve panorama. Não significa, logo, que os mais interessados na área da semântica cognitiva ficam isentos da leitura dos principais estudos citados. CUNHA, C. F. da & CINTRA, L. F. L. Nova gramática do português contemporâneo. Rio de Janeiro: Lexicon Informática, 2007. ROCHA LIMA, C. H. da. Gramática normativa da língua portuguesa. Rio de Janeiro: José Olympio, 2008. Cadernos de Letras da UFF – Dossiê: Letras e cognição no 41, p. 55-70, 2010 57 re + contratar). Entretanto, em alguns casos, deveremos interpretar a forma derivada como parassintética (baixar ~ abaixar), mesmo que a exclusão de um dos afixos resulte em uma palavra da língua. Como demonstram Basílio (2007) e Kehdi (2003) 5, o critério de simultaneidade não é suficiente para identificar um derivado de parassíntese. No par alargar x largar, por exemplo, há dois verbos gerados a partir de diferentes construções morfológicas. Como visto acima, para alguns autores, a ocorrência de uma forma sem o prefixo (largar) seria o necessário para excluir o primeiro verbo dos moldes parassintéticos. Dito de outra forma, largar, formado por derivação sufixal (largo + ar), inviabilizaria o reconhecimento de alargar como parassíntese. Se analisarmos esses verbos sob o ângulo semântico, verificaremos que os significados são diferentes. Assim os exemplos (1) A costureira alargou a calça. (2) A costureira largou a calça. revelam que em (1) o significado do verbo é, conforme o dicionário Houaiss (2001)6, tornar mais largo, ao passo que o verbo em (2) significa soltar, deixar de segurar. A insuficiência do critério meramente formal, como a utilização do prefixo e do sufixo ao mesmo tempo, reside no fato de não se atentar para aspectos semânticos. Castro da Silva (no prelo)7 propõe, à semelhança de outros autores (cf. Lopes, 2003; Gonçalves, 2005, Gonçalves & Almeida, 2008)8, que a parassíntese seja compreendida como um processo de circunfixação, no qual morfes descontínuos atuariam para a formação do vocábulo. O morfe seria desmembrado para a inserção de uma base, tornando-se, pois, descontínuo. Assim, em enrouquecer o circunfixo e/N/...ecer seria fracionado para que a base rouco pudes- 5 6 7 8 BASÍLIO, M. Teoria lexical. São Paulo: Ática, 2007. K EHDI, V. Formação de palavras em português. São Paulo: Ática, 2003. HOUAISS, A. Dicionário eletrônico Houaiss da língua portuguesa. Ed. Objetiva: 2001. CASTRO DA SILVA, C. C. “As cabeças de Janus: pela defesa da circunfixação”. In: Cadernos do NEMP (no prelo). LOPES, C. A. G. Lições de morfologia da língua portuguesa. Jacobina: Tipô-carimbos, 2003. GONÇALVES, C. A. Flexão e derivação em português. Rio de Janeiro: Ed Faculdade de Letras da UFRJ, 2005. GONÇALVES, C. A. & ALMEIDA, M. L. L. de. “Das relações entre forma e conteúdo nas estruturas morfológicas do português”. In: Diadorim: Revista de Estudos Linguísticos e Literários, v. 4, p. 27-55, 2008. 58 Silva, Caio César Castro da. Das mudanças históricas na parassíntese à luz da linguística cognitiva se ser inserida como um recheio. Essa proposta será adotada no presente trabalho, uma vez que parece acomodar da melhor maneira o processo: não recorre a artifícios de se postular morfes significativos sem representação fonológica; resguarda o princípio da simultaneidade e considera o fator semântico, uma vez que o significado emerge do circunfixo. 3. A estruturação do corpus As amostras que constituem o trabalho são de duas naturezas. Os dados de uma das amostras foram coletados nos dicionários eletrônicos Houaiss (2001) e Ferreira (2004)9, ou como é popularmente conhecido, Aurélio. Foram selecionados verbos gerados a partir dos morfes descontínuos a-X-ecer (amanhecer e apodrecer são exemplos) e e/N/-X-ecer (enriquecer e envaidecer são exemplos). A outra amostra de dados foi recolhida em registros escritos de várias fases do português com a ajuda das ferramentas de consulta dos projetos Corpus Informatizado do Português Medieval, Corpus Histórico do Português Tycho Brahe e Labor Histórico10. Observando o primeiro corpus, percebemos que alguns verbos apresentam a mesma base, embora sejam formados por construções diferentes. É o caso de (3) abrutecer x embrutecer (4) abranquecer x embranquecer, em que aparecem as bases bruto e branco. Segundo o dicionário Houaiss, os vocábulos de cada par apresentam os mesmos significados, que são tornar-se bruto, em (3), e ficar branco, em (4). A partir de testes informais com falantes nativos do português, percebemos que apenas um vocábulo de cada par (embrutecer e embranquecer, respectivamente) foi reconhecido. A essa competição entre circunfixos, soma-se a baixa ocorrência de for9 10 FERREIRA, A. B. de H. Miniaurélio Eletrônico versão 5.12. Positivo Informática: 2004. XAVIER, M. F.; VICENTE, M. G.; CRISPIM, M. L. Crispim, http://cipm.fcsh.unl-pt/, 20/10/2009. GALVES, C. M. C.; BRITTO, H.; FINGER, M., http://www.tycho.iel.unicamp.br, 06/07/2009. LOPES, C. R. dos S. et alii, http://www.letras.ufrj.br/laborhistorico, 19/07/2009. 59 Cadernos de Letras da UFF – Dossiê: Letras e cognição no 41, p. 55-70, 2010 mas de a-X-ecer (ver gráfico 1). Enquanto o circunfixo e/N/-X-ecer apresenta 33 verbos, o outro tem apenas 6. 35 30 25 20 a-X-e ce r 15 e /N/-X-e ce r 10 5 0 Gráfico 1: distribuição entre os circunfixos Dessa maneira, tentaremos, nas próximas seções, responder às seguintes perguntas: (i) por que a construção e/N/-X-ecer apresenta maior quantidade de dados? (ii) qual a razão de as palavras formadas a partir de e/N/-X-ecer apresentarem maior aceitabilidade entre os falantes do que as formadas por a-X-ecer? (iii) o que teria ocorrido com essa construção no percurso histórico do português? (iv) o que dizer da produtividade semântica, ou, mais especificamente, da especialização via metáfora? 4. A trajetória histórica dos circunfixos a-x-ecer e e/n/-x-ecer Tendo por base as informações mencionadas na seção anterior – (a) ambos os morfes descontínuos formarem vocábulos a partir da mesma base e (b) e/N/-X-ecer apresentar mais dados que a-X-ecer – , será empreendida uma pesquisa histórica dos circunfixos. Buscaremos precisar as datações de cada formação parassintética, resgatando o registro em dicionários etimológicos (Cunha, 1999; Machado, 1973; Nascentes 1955; Silveira Bueno, 1967)11. 11 CUNHA, A. G. da. Dicionário etimológico Nova Fronteira da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999. M ACHADO, J. P. Dicionário etimológico da língua portuguesa. Lisboa: Livros Horizonte, 1973. NASCENTES, A. Dicionário etimológico da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Acadêmica, 1955. Silva, Caio César Castro da. Das mudanças históricas na parassíntese à luz da linguística cognitiva 60 Segundo Teyssier (2007) e Castro (1991)12, os primeiros textos escritos em língua portuguesa surgem no século XIII. Coincide o fato de se registrar nesse tempo os mais antigos vocábulos parassintéticos, que são formados tanto por a-X-ecer, quanto por e/N/-X-ecer – construções que se mantiveram em competição durante o período que vai do século XIII ao XVI. Em outras palavras, os dois circunfixos geraram novos vocábulos nesses séculos e, muitas vezes, a partir da mesma base, como os exemplos em (3) e (4). Consideramos que, neste estágio da língua, ambos os circunfixos foram produtivos. A datação encontrada nos dicionários pode ser conferida no gráfico abaixo: 12 10 8 6 4 2 0 -2 Séc. XIII Séc. XIV Séc. XV Séc. XVI a-X-ecer Séc. XVII Séc. XVIII Séc. XIX Séc. XX e/N/-X-ecer Gráfico 2: a datação dos dados do corpus No gráfico 2, as formas foram separadas de acordo com o século em que foi registrado a primeira entrada. De um modo geral, percebemos o processo histórico de criação de novas palavras com os dois circunfixos. A linha cheia, que representa e/N/-X-ecer, chega ao auge durante o século XIV e sofre contínua queda a partir do XV. Vale ressaltar que, embora haja uma certa queda na linha cheia, o padrão, no geral, não foi tão baixo quanto o da linha pontilhada, que representa a-X-ecer. Esta somente aparece produtiva até o século XVI, período a partir do qual não se formam mais vocábulos. As curvas, guardadas 12 BUENO, F. da S. Grande dicionário etimológico e prosódico da língua portuguesa. São Paulo: Saraiva, 1967. TEYSSER, P. História da língua portuguesa. São Paulo: Martins Fontes, 2007. C ASTRO, I. Curso de história da língua portuguesa. Lisboa: Universidade Aberta, 1991. Cadernos de Letras da UFF – Dossiê: Letras e cognição no 41, p. 55-70, 2010 61 as devidas proporções, assemelham-se até o século XVI, o que nos remete ao fato de terem sido concorrentes durante o período. Corrobora, ainda, a observação das acepções dos prefixos envolvidos. O prefixo a- tem o significado de aproximação, ou em direção a (base), enquanto e/N/- tem o significado prototípico de movimento sobre, mas também pode significar aproximação. Justifica-se, assim, que, nesse primeiro estágio (do século XIII ao XVI), algumas palavras, apesar de apresentarem a mesma base e veicular o mesmo significado, fossem formadas por circunfixos distintos. Conforme Valente et alli (2009)13, as duas estruturas veiculavam, pois, o mesmo sentido (...). Segundo esse princípio (o da Economia Linguística), os falantes tendem a adotar uma das estruturas que estão em concorrência no sistema lingüístico, enquanto a outra se cristaliza. Analisando a competição entre os circunfixos à luz das observações dos autores citados acima, podemos inferir que o falante adotou e/N/-X-ecer, que se tornou produtivo, enquanto a-X-ecer se fossilizou morfologicamente. As palavras já existentes nessa construção se especializaram via metáfora, como veremos mais adiante. Como foi dito anteriormente, uma de nossas amostras se constitui de verbos obtidos em textos escritos do português do século XIII ao XIX. Utilizamos esses dados para comparar as construções de parassíntese. Caso nossa hipótese de improdutividade do circunfixo a-X-ecer esteja correta, os dados dessa amostra serão favoráveis ao grupo e/N/-X-ecer. Dito de outra forma, nos séculos em que estiveram em concorrência, haveria uma aproximação na quantidade de vocábulos de ambas as formações. Entretanto, à medida que a-X-ecer deixasse de ser produtivo (a partir do século XV), a quantidade de novas formações deve também cair nos resultados dos textos. Ao contrário, devem ser encontrados dados de e/N/-X-ecer durante todo o período pesquisado, visto que sempre foi produtivo (ver gráfico 2). Neste trabalho, não estamos considerando os vários aparecimentos de um mesmo vocábulo, mas sim de diferentes vocábulos. Assim, a ocorrência de 3 formas do verbo enlouquecer em um mesmo texto não implica que sejam contabilizados 3 dados, mas sim 1. Faremos, portanto, a distinção entre 13 VALENTE, A. C. M. de M.; CASTRO DA SILVA, C. C.; GONÇALVES, C. A.; ALMEIDA, M. L. L. de. “Enfoques sobre parassíntese em português: da tradição gramatical à lingüística cognitiva”. In: ReVEL, vol. 7, n. 12, 2009. http://www.revel.inf.br/, 15/03/2010. Silva, Caio César Castro da. Das mudanças históricas na parassíntese à luz da linguística cognitiva 62 tipo e ocorrência, já clássica no âmbito dos estudos linguísticos. No mais, o procedimento se faz necessário por se tratar de uma pesquisa qualitativa, e não quantitativa. Se colocássemos todas as palavras, não estaríamos controlando os circunfixos, mas sim quantas vezes cada uma aparece e obteríamos resultados inesperados. Foram consultados 12 peças teatrais, 52 textos do Corpus Tycho Brahe, mais de 400 cantigas de escárnio e maldizer, e textos que vão desde o testamento de D. Afonso II à Crônica Geral de Espanha, desde Documentos Notariais à Demanda do Santo Graal. Ao término da garimpagem, os dados passaram por um processo de seleção para serem agrupados por século. Restaram 45 vocábulos parassintéticos, dos quais 32 seguem o modelo e/N/-X-ecer e apenas 13 são formados a partir da construção a-X-ecer. No gráfico abaixo, podemos visualizar a ocorrência dos dados nos textos coletados: 10 8 6 4 2 0 -2 Séc. XIII Séc. XIV Séc. XV Séc. XVI a-X-ecer Séc. XVII Séc. XVIII Séc. XIX e/N/-X-ecer Gráfico 3: dados em textos do português antigo Observando o gráfico 3, percebemos que do século XIII ao século XV, de fato, os dois grupos se mantiveram em competição, uma vez que não há muita oscilação nos resultados. Do século XVI em diante, há uma vertiginosa separação entre as linhas: a-X-ecer se torna improdutivo, enquanto, inversamente, e/N/-X-ecer cria novos vocábulos. Os resultados obtidos sustentam nossa hipótese inicial, porém analisaremos, na próxima seção, as mudanças ocorridas tendo como fundamentação teórica a LC. Cadernos de Letras da UFF – Dossiê: Letras e cognição no 41, p. 55-70, 2010 63 5. A mudança histórica e a abordagem cognitiva Nesta seção, procuraremos demonstrar como o instrumental teórico cognitivo pode ser aplicado aos estudos de mudança histórica. Para isso, faremos a seguir um brevíssimo panorama das principais discussões na área. Essas ideias serão retomadas posteriormente no trabalho. Os estudos em LC começaram a se desenvolver nos fins da década de 1970 e têm como um dos seus grandes marcos a publicação de Metáforas da Vida Cotidiana, de George Lakoff e Mark Johnson, em 1980. Uma das principais preocupações da LC refere-se à hipótese de que a mente é corporificada (Almeida et alii, 2009; Evans & Green, 2006)14, o que remonta ao fato de a linguagem não ser inata, mas emergir das relações dos nossos corpos com o mundo real, conferindo, dessa forma, à LC um caráter relativista. Esse traço experiencialista da LC é percebido na concepção da mudança linguística, uma vez que a mudança não se principia dentro da linguagem, mas sim no seu uso. Dito de outra maneira, à mudança se relacionam fatores da mente humana e da interação social. Para explicar, por exemplo, a polissemia de uma palavra, deve-se atentar aos fatores externos que fizeram a palavra ativar novos sentidos. Um outro conceito caro às análises cognitivas é o da metáfora, um processo que se insere no que Almeida et alii (2009) e Croft & Cruse15 definem como operação de conceptualização. Ao contrário da tradição retórica, que considera a metáfora como um desvio da linguagem literal, a LC propõe que a metáfora seja compreendida como uma operação cognitiva fundamental. Lakoff & Johnson (2002)16 propõem que a nossa linguagem cotidiana é essencialmente metafórica, oferecendo uma alternativa experiencialista às perspectivas do objetivismo e do subjetivismo. Sob esse enfoque, toda metáfora pode ser explicada por nossas experiências corporais ou interações com o meio. Por exemplo, dizer 14 ALMEIDA, M. L. L. de; PINHEIRO, D.; SOUZA, J. L. de; NASCIMENTO, M. J. R. do; BERNARDO, S. P. “Breve introdução a linguística cognitiva”. In: ALMEIDA, M. L. L. de et alii. Linguística Cognitiva em Foco: Morfologia e Semântica. Rio de Janeiro: Publit, 2009. EVANS, V. & GREEN, M. Cognitive Linguistics: An introduction. Edinburgh: Edinburgh University Press, 2006. 15 CROFT, W. & CRUSE, D. A. Cognitive Linguistics. Cambridge: Cambridge University Press, 2004. 16 LAKOFF, G. & JOHNSON, M. Metáforas da vida cotidiana. Campinas: Mercado de Letras e Educ, 2002. 64 Silva, Caio César Castro da. Das mudanças históricas na parassíntese à luz da linguística cognitiva (5) Maria foi ao Rio de Janeiro; e (6) a viagem durou de Janeiro a Março implica conceptualizar uma trajetória, que será percorrida no espaço, ou no tempo. A diferença entre os exemplos reside no fato de (6) ser motivado metaforicamente, ou seja, compreendemos o segundo exemplo (um deslocamento no tempo) a partir do primeiro (um deslocamento no espaço). Esse espraiamento entre domínios é fundamental para a estruturação semântica. Croft & Cruse (2004) explicam que a metáfora envolve, pois, uma conexão entre um domínio fonte e um domínio alvo. Aquele estaria relacionado ao significado literal da expressão, enquanto este se relacionaria à ativação de processos figurativos, por exemplo. Essas noções estão intrinsecamente ligadas à ideia de mapeamento cognitivo, que, em linhas gerais, é a projeção parcial de elementos (com correspondência entre estes) de um domínio fonte para um domínio alvo (Soares da Silva, 2006)17. Na figura 1 (adaptada de Cuenca & Hifelrty, 1999)18, podemos visualizar como se dá a projeção estrutural nos exemplos citados em (5) e (6). Temos, então, no domínio origem, os elementos do deslocamento no espaço que são projetados para o domínio alvo. Compreendemos, assim, o tempo, que tem particularidades abstratas, a partir de um domínio concreto. Sobre isso, Sweetser (1990)19 diz que os domínios mais abstratos são entendidos a partir de domínios mais concretos, o que estaria relacionado à corporificação da mente. Figura 1: mapeamento metafórico entre domínios 17 soares da silva, a. o mundo dos sentidos em português. Coimbra: Almeidina, 2006 CUENDA, M. J. & HILFERTY, J. Introducción a la lingística cognitiva. Barcelona: Ariel, 1999. 19 SWEETSER, E. From etymology to pragmatics. Metaphorical and cultural aspects of sematic structura. Cambridge: University Press, 1990. 18 Cadernos de Letras da UFF – Dossiê: Letras e cognição no 41, p. 55-70, 2010 65 Na próxima subseção, evidenciaremos como a noção de mapeamento e as estruturas radiais podem ajudar na visualização da mudança morfológica dos circunfixos. Em seguida, será observada a atuação da metáfora na especialização semântica de alguns dados do corpus. 5.1. As estruturas radiais dos circunfixos O percurso histórico de um fenômeno pode ser observado desde seu sentido mais prototípico – que, em alguns casos, coincide com o sentido mais primário20 – aos mais periféricos. Analisaremos, nas próximas linhas, as extensões semânticas dos circunfixos, pois, caso a-X-ecer tenha se fossilizado e e/N/-Xecer tenha se mantido produtivo, os mapeamentos refletirão essas diferenças. Apresentaremos os mapeamentos na forma de estruturas radiais (LAKOFF, 1987)15. Com base na teoria dos protótipos de Rosch (LAKOFF, op. cit.), Lakoff propõe que o espraiamento de sentido ocorre de domínios mais prototípicos para outros mais periféricos. O sentido metafórico não é, portanto, desvinculado do sentido original de uma palavra, mas com este mantém algum vínculo. Assim, teríamos em uma rede um núcleo central do qual irradiariam extensões caracterizadoras de polissemia para campos semânticos mais periféricos. Primeiramente, com base nos dados da amostra coletada no Houaiss e Aurélio, exibiremos a estrutura radial de a-X-ecer. Figura 2: rede radial de a-X-ecer 20 É o caso de agarrar, por exemplo, que ativa o sentido prototípico de segurar com força, como em O João agarrou a mão do filho para atravessar a rua. 21 LAKOFF, G. Women, Fire and Dangeroues Things: What categories reveal about the mind. Chicago: The University of Chicago Press, 1987 . 66 Silva, Caio César Castro da. Das mudanças históricas na parassíntese à luz da linguística cognitiva A rede na figura 2 consta de apenas um campo semântico, chamado de processo sem causador externo. São verbos característicos desse campo: amadurecer, amanhecer, amolecer, amortecer, anoitecer e apodrecer. O valor aspectual de processo do circunfixo alia-se ao fato de nenhuma das ações descritas por essas palavras serem causadas. Exemplificando com o verbo amadurecer o processo de maturação de um fruto ocorre naturalmente; é, pois, um evento natural, sem força externa que o cause. Diferentemente, o estudo das palavras formadas por e/N/-X-ecer nos revelou outros campos semânticos, além do que está presente na rede de a-Xecer. Isso seria uma evidência da especialização daquela construção em face desta. Observe a estrutura radial abaixo: Figura 3: rede radial de e/N/-X-ecer A rede radial de e/N/-X-ecer apresenta o mesmo campo semântico prototípico que a rede de a-X-e-cer: processo sem causador externo (entardecer é um verbo que serve de exemplo). Esse é um resquício do período em que ambos circunfixos estiveram em concorrência (ver gráfico 2). Há, então, um espraiamento semântico para o campo processso com causador externo. Ao contrário do anterior, esse campo apresenta o valor aspectual de processo aliado a uma causatividade. Podemos exemplificar com o verbo enriquecer, em que a ação de ficar rico pode ser resultado de vários fatores, como roubo, Cadernos de Letras da UFF – Dossiê: Letras e cognição no 41, p. 55-70, 2010 67 recebimento de herança, sorteio em loteria. Outro verbo que pode ser citado é emagrecer, em que as causas para o ato de ficar magro podem ser inúmeras. As ações desse campo requerem, logo, um agente causador, pois não ocorrem naturalmente. Podemos ver na figura 3 que há ainda mais uma extensão semântica. No caso, a projeção acontece para o campo psicológico. O verbo enlouquecer, por exemplo, é processual e pode apresentar inúmeros causadores (distúrbios mentais, problemas familiares etc.). Observamos, então, com o mapeamento da rede, que ocorre uma conexão sistemática de um domínio mais físico para um domínio mais psicológico, ou seja, do [+ concreto] para o [+ abstrato]. De acordo com Sweetser (1990, p.19), physical-domain verbs frequently come to have speech-act and/ or mental-state meanings, and mental-state verbs come to have speech-act meanings, while the opposite directions of change do not occur. Essas projeções do [+ concreto] para o [+ abstrato] não são aleatórias, mas motivadas cognitivamente. Lakoff (1987, p.91) afirma que o modelo central determina as possibilidades de extensões, juntamente com as relações possíveis entre o modelo central e os modelos extensionais. Dessa forma, o núcleo prototípico da rede, i.e., o campo Processo sem causador externo, possibilita as projeções para campos mais periféricos. O contrário ocorre na rede de a-X-ecer, em que o mesmo campo prototípico não apresenta extensões, uma vez que se tornou improdutivo. O cotejo entre as redes nas figuras 2 e 3 nos permite evidenciar a mudança histórica pela qual passaram os circunfixos. Mudança, que no caso de e/N/X-ecer se manifestou através da polissemia. Ainda segundo Sweetser (1990), nenhuma mudança pode ocorrer sem que haja um estágio polissêmico. Isso é mais uma evidência de que nossa hipótese primeira parece se confirmar. 5.2. A polissemia das palavras Tendo encontrado indícios suficientes para licenciar a hipótese de improdutividade do circunfixo a-X-ecer, voltamos ao questionamento feito anteriormente em (iv): sabendo que os vocábulos continuaram produzindo novos sentidos – embora o circunfixo não tenha produzido novas formas –, como analisar as extensões semânticas? 68 Silva, Caio César Castro da. Das mudanças históricas na parassíntese à luz da linguística cognitiva Um verbo como amadurecer ativa o sentido prototípico ficar maduro (7), que se espraia metaforicamente para outros mais periféricos, como em (8) e (9): (7) A banana amadureceu rapidamente. (8) João amadureceu rapidamente. (9) A ideia amadureceu rapidamente. Do ponto de vista sintático, as sentenças acima são semelhantes, pois os verbos selecionam um argumento – [a banana], [João] e [a ideia] – e apresentam um adjunto adverbial de tempo, [rapidamente]. Entretanto, do ponto de vista do conteúdo são bem distintas. A forma amadurecer em (7) se encaixaria no campo semântico processo sem causador externo. Pode-se questionar o fato de (8) também não ser interpretado da mesma maneira que (7). Contudo em (8) não é a entidade física de João que está em processo de maturação, mas o seu estado mental. A extensão em (8) é licenciada pela metáfora ontológica MENTE É ENTIDADE NATURAL, na qual elementos característicos do domínio origem entidade natural são projetados para o domínio alvo mente. Percebemos, então, que (8) está relacionado ao campo semântico psicológico, assim como (9), em que há um deslocamento ainda maior para o domínio [+ abstrato]. Teríamos um modelo central, no qual se inscreveria (7), e as projeções radiais licenciadas por metáforas, em que estariam (8) e (9) (em diferentes graus no continuum (figura 4)). Figura 4: continuum da polissemia A palavra amadurecer teria, assim, uma rede radial mais próxima da proposta para e/N/-X-ecer (figura 3) do que da elaborada para a-X-ecer (figura 2). Esse fato demonstra que a construção parassintética a-X-ecer se tornou, sim, um fóssil na língua, ao contrário das formas geradas que se especializaram através de processos metafóricos. Também com amortecer observamos a atuação da metáfora. O verbo apresenta o significado primário de ficar morto (10)22,16que é, em geral, estranho 22 Adaptado de Houaiss (2001). Cadernos de Letras da UFF – Dossiê: Letras e cognição no 41, p. 55-70, 2010 69 a um falante nativo do português brasileiro. O sentido mais ativado é o de reduzir a intensidade, como em (11). (10) O susto amorteceu a menina. (11) O airbag amorteceu a colisão. Com os vocábulos formados a partir do circunfixo e/N/-X-ecer também verificamos mudanças semânticas. (12) Pedro enriqueceu o trabalho com bons argumentos. (13) O maître empobreceu o jantar ao recomendar um vinho de má qualidade. (14) Clarice engrandeceu na empresa com seu bom desempenho. (15) O candidato à reeleição enfraqueceu seu oponente durante o debate. Os exemplos de (12), (13) e (14) podem ser agrupados em torno da metáfora orientacional de Lakoff & Johnson (2002) STATUS SUPERIOR É PARA CIMA; STATUS INFERIOR É PARA BAIXO. Já a metáfora em (15), também dos autores citados, é TER CONTROLE É PARA CIMA; SER CONTROLADO É PARA BAIXO. Para essa metáfora, é arquitetado um cenário de combate entre dois oponentes, em que cada um dos adversários ocupa uma posição. Como num ringue de boxe, um pode estar acima (vencedor), enquanto o outro pode estar abaixo (vencido). Projetando esses elementos para a cena do jogo político, os dois adversários se comportam como lutadores: vence aquele que estiver por cima, ou seja, aquele que souber usar os melhores argumentos. 6. Palavras finais Esperamos ter demonstrado como ocorreu o processo de mudança morfossemântica em circunfixos de parassíntese verbal do português. Ao trazer dados de textos históricos e informações obtidas em dicionários etimológicos, buscamos ilustrar os diferentes estágios de produtividade das construções: desde a produtividade nos primeiros séculos analisados, passando por um período de concorrência, à cristalização de um dos circunfixos. Além disso, acreditamos que o aporte teórico da LC foi fundamental para evidenciar a mudança histórica dos formativos. Pudemos observar, através da formulação de estruturas radiais, a improdutividade da construção a-X-ecer, visto que só apresenta o campo semântico mais básico, e a produtividade de 70 Silva, Caio César Castro da. Das mudanças históricas na parassíntese à luz da linguística cognitiva e/N/-X-ecer. Além disso, o fato de ambas as construções apresentarem o mesmo campo semântico prototípico nos indica que, realmente, estiveram em concorrência durante alguns séculos. A metáfora também nos permitiu a observação de extensões de sentido regulares, que são motivadas pela cognição, i.e., que são manifestações de polissemia. Como bem lembra Sweetser (1990), synchronic polysemy and historical change of meaning really supply the same data in many ways. Assim, ao contrário do estruturalismo saussureano, a LC defende o intercâmbio entre sincronia e diacronia. De uma certa maneira, foi isso o que pretendemos mostrar com o estudo da parassíntese: mesmo que a-X-ecer tenha se cristalizado ao longo da história da língua, sincronicamente as palavras apresentam mudanças semânticas que estão relacionadas a estágios de polissemia. ABSTRACT In this paper, we intend to examine verbal circunfixes. The main hypothesis is that the circunfix a-X-ecer has become unproductive. We will search for some evidences in Portuguese texts since the earliest registers of the language, as well in etymological dictionaries. We will also handle with some cognitive basic concepts, like metaphor, radial networks and polysemy. KEYWORDS: Circunfixation, Morphological and semantic changes, Cognitive Linguistic Recebido em: 31/03/2010 Aprovado em: 17/06/2010