SIGNOS IDENTITÁRIOS NA COMUNIDADE DE VARGINHA: CONSTRUÇÃO NARRATIVA DA ALTERIDADE. PRADO, Gustavo José Jordan1 UFMT/ECCO [email protected] OSÓRIO, Patrícia Silva2 UFMT/ECCO [email protected] Quando estudamos o homem, procuramos e encontramos signos em toda parte e nos empenhamos em interpretar o seu significado” Mikhail Bakhtin 1. INTRODUÇÃO A seguinte pesquisa encontra-se em andamento, sendo parte substancial do processo de desenvolvimento da dissertação de mestrado e dos resultados obtidos até o momento. Nesse sentido, cabe salientar que serão evidenciados os parâmetros já trilhados na pesquisa, como a própria metodologia utilizada, que visa alcançar os traços de pertencimento/identidade - ao qual chamamos de signos-identitários - da comunidade de Varginha em Santo Antonio do Leverger em Mato Grosso. Essa busca pelos signosidentitários foi orientada pela metalingüística de Mikhail M. Bakhtin e pela etnografia da Antropologia Interpretativa de Clifford Geertz; agregando ambas disciplinas numa ferramenta fronteiriça, que busca mergulhar na linguagem cultural. Para complementar, buscamos dialogar com o filósofo Merlou-Ponty e estudiosos da antropologia, tanto clássica como contemporânea, como Malinowski, Evans-Pritchard, James Clifford, George Marcus, Mariza Peirano e Roberto Cardoso de Oliveira. Os dados foram coletados entre o final do ano de 2010 e o carnaval de 2011, e serão apresentados no texto de modo sintetizado, com objetivo único de torná-los claros para o congresso em questão. 1 Aluno de Mestrado do Programa de Estudos de Cultura Contemporânea – ECCO/UFMT e bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Mato Grosso - FAPEMAT. 2 Professora doutora do Departamento de Antropologia da Universidade Federal de Mato Grosso – DAN/UFMT. 2. FERRAMENTAS METODOLÓGICAS 2.1 METALINGUISTICA E ETNOGRAFIA O presente texto busca entrelaçar dois campos das ciências humanas fazendo uma reflexão acerca da Antropologia Interpretativa de Geertz, tentando colocar a descrição densa e a materialização da cultura sob a perspectiva de linguagem bakhtiniana. Buscamos zonas limítrofes, tentando alcançar um caráter interdisciplinar da pesquisa e, assim, buscar pensamentos vários sobre o objeto problematizado. A metalingüística3, apresentada por Bakhtin no livro Problemas da Poética de Dostoiévski como um estudo do discurso, onde visa a língua na sua concretude, enquanto construção verbal e dialógica, é uma disciplina que ultrapassa as barreiras da lingüística, mas não a ignora, utilizando também de seus resultados: ambas na verdade devem se completar. (Bakhtin, [1963] 2008, p. 207)4 Acreditamos que buscar parâmetros além da lingüística seria essencial para a proposta de trabalho, onde tenta-se inscrever, traduzir o discurso social do outro. Volochinov, membro do chamado Círculo de Bakhtin5 faz algumas observações no livro "Marxismo e Filosofia da Linguagem" apontando alguns dos pontos que a lingüística saussuriana, mesmo tendo alta relevância para uma construção da noção de língua e reconhecendo sua importância histórica, equivocou-se ao abordar sob um ponto de vista meramente abstrato, adotando a língua como uma entidade incapaz de notar os fluxos e as mudanças das relações sociais. (Souza, 2002, p. 57) Nesse sentido, Volochinov e os demais membros do Círculo, mencionam que a substancia da linguagem seria a interação verbal, seu alcance e diálogo com o outro (Volochinov, 3 Para maiores detalhes sobre a ciência metalingüística ver: Souza, Geraldo Tadeu. A construção da metalingüística (Fragmentos de uma ciência da linguagem na obra de Bakhtin e seu Círculo). Tese de Doutorado em semiótica e lingüística geral. São Paulo: USP, 2002 4 Como forma organizacional de referência das obras do Círculo, buscamos colocar entre colchetes a data de publicação do primeiro volume e em seguida a data da edição brasileira. 5 Segundo Geraldo Tadeu Souza, Círculo de Bakhtin era o nome dado aos estudiosos de várias áreas do conhecimento que se reuniam na Rússia stalinista para discutir assuntos acerca da linguagem, entre eles e de maior importância devido os trabalhos realizados, destaca-se: Mikhail Bakhtin, Pavel N. Medvedev e Valentin N. Volochinov. (2002, p. 19) [1929] 1999, p. 123-25), pois toda comunicação, seja verbal ou não, se mescla num campo comum de produção (contexto) (Volochinov, [1929] 1999, p. 124). Os trabalhos do Círculo de Bakhtin são alicerçados por dois pilares que fundamentam sua teoria da linguagem: a alteridade, enquanto uma forma de reconhecer Outro como constituinte do "eu"; e o dialogo, como essa relação/interação com o Outro. (Geraldi, 2010, p. 105) Vários outros conceitos-chaves da arquitetônica bakhtiniana que, perfazem a metalingüística e possibilitam um olhar esmiuçado sobre o discurso, são agregados em cima destes dois conceitos. Cabe aqui, fazer uma breve elucidação de alguns conceitos, pois eles serão fundamentais para compor o próprio ato etnográfico. A utilização da metalingüística pelo russo para se aprofundar nas entranhas da literatura de Dostoiévski privilegia o dialogo enquanto força orgânica que rompe o espaço e o tempo, possibilitando assim o olhar eqüipolente sobre qualquer manifestação sígnica, seja ela falada ou escrita: ritualística ou uma obra filosófica; ou seja "como eventos da grande interação sociocultural de qualquer grupo humano..."(Faraco, 2009, p. 62) O signo seria um fragmento da realidade, uma capsula ideológica que se manifesta no discurso, na interação verbal ou escrita. Ele surge em um terreno interindividual como uma ponte, no contato entre indivíduos num dado meio social; e “é seu caráter semiótico que coloca todos os fenômenos ideológicos sob a mesma definição geral.” (Volochinov, [1929] 1999, p. 33) Nesse sentido, a ideologia6 difere parcialmente daquela proposta pelo marxismo, sendo flexível e dinâmica, nascida das relações do cotidiano e das trocas sociais de valores. Não existe uma ideologia dominante que detenha subordinados numa luta desigual, mascarando realidades; existe apenas uma ideologia que refrata e reflete uma realidade concreta, que lhe é exterior (Volochinov, [1929] 1999, p. 31). Os aspectos ideológicos do signo se materializam como tema do enunciado, não devendo ser entendido como um “assunto”. O tema é uma reação da consciência em devir ao ser em devir.” (Volochinov, [1929] 1999, p. 129). Sua particularidade advém do recorte momentâneo realizado entre as significações possíveis do signo, a “significação é um aparato técnico para a realização do tema.” (Volochinov, [1929] 1999, p. 129), ela 6 Esta ideologia utilizada pelo Círculo se diferencia daquela proposta por Marx e Engels como algo pronto e acabado, um pacote subjetivo interiorizado pela cabeça do homem. Por se tratar da linguagem e do seu movimento Volochinov amplia a concepção de ideologia a colocando em estado de movimento, troca de valores. (Miotello, 2007, p. 167-176) possibilita o movimento do signo e ao mesmo tempo, o paralisa. Em meio as tantas significações possíveis advindas do signo, somente o contexto e os integrantes de um diálogo podem valorar a palavra e lhe atribuir um tema. Ambos - Tema e Significação são indissociáveis e caminham juntos dando sempre cor e a substância necessária ao signo. E como complemento dessa substância, podemos encontrar a entoação expressiva que, compete à enunciação acentos significativos de produção de sentido. Uma mesma palavra, ou enunciação poderia ser pronunciada repetidamente, mas de acordo com a entoação aplicada, além dos fatores já mencionados como contexto e sujeitos do discurso; ela tomaria tonalidades diferentes. A utilização da língua ocorre em forma de enunciados (orais ou escritos), sendo um conjunto de signos plurivalentes que se orientam como um elo na cadeia comunicativa. O enunciado é um tipo relativamente estável do discurso, ou gênero discursivo (Bakhtin, [1979] 2003 p. 262), que se realiza na própria escolha do gênero do discurso, com todos os elementos individuais e subjetivos (Bakhtin [1979] 2003, p. 282) Segundo o Círculo, qualquer manifestação comunicativa se faz por meio de um gênero do discurso num determinado local com determinadas intenções. O contexto da enunciação forja nuances fundamentais para a significação do signo, para expressar seu verdadeiro conteúdo. Deste modo, o gênero do discurso ou a enunciação – oral ou escrita – “é diretamente vinculado à vida em si e não pode ser divorciado dela sem perder sua significação.” (Volochinov, [1929] 1999, p. 4). Ou seja, para estudar uma relação discursiva, deve-se contextualizá-la para que os significados e principalmente o conteúdo real do discurso não seja perdido, ou abstraído. “Os signos são o alimento da consciência individual, a matéria de seu desenvolvimento, e ela reflete sua lógica suas leis.” (Volochinov, [1929]1999, p. 36). Eles podem ser tanto exteriores, como interiores, situados assim na consciência do individuo. A troca entre signos interiores e exteriores acontece continuamente, pois “todo signo ideológico exterior, qualquer que seja sua natureza, banha-se nos signos interiores, na consciência.” (Volochinov, [1929] 1999, p. 57). E dessa forma se constitui a consciência, que possui sua competência particular, individual, mas faz parte do social, do todo. Essa construção da consciência acontece com a “absorção” dos signos exteriores, o individuo só toma consciência de si, a partir do momento que é integrado paulatinamente num sistema de signos (língua). Essa assimilação da língua materna ou de outra língua é realizada de forma processual, integrando-se na comunicação verbal (Volochinov, [1929] 1999, p. 117). De fato, o aspecto conceitual que o Círculo propõe ao signo, assemelha-se ao que Geertz aponta em "Interpretação das Culturas" fazendo uso do termo símbolo. No caso, o Círculo acaba se aprofundando nos fragmentos da engenharia discursiva, diferente de Geertz, que se mantinha preocupado com outros elementos, talvez para não cair numa armadilha lingüística. Segundo o antropólogo, os símbolos são "incorporações concretas de ideais, atitudes, julgamentos, saudades ou crenças" (Geertz, 1978, p. 105), localizado socialmente e utilizado especialmente para significar. O homem seria um animal simbolizante, capaz de ordenar experiências e realidades dando-lhe formas (Geertz, 1978, p. 158). A cultura, tanto para o Círculo quanto para a Antropologia Interpretativa, teria esse caráter semiótico. Geertz assume que “o homem é um animal amarrado a teias de significado que ele mesmo teceu, [...] sendo [a cultura] essas teias e a sua análise.” (1978, p. 15). Enquanto que Bakhtin menciona que "Todo ato cultural vive por essência sobre fronteiras: nisso está sua seriedade e importância; abstraído da fronteira, ele perde terreno, torna-se vazio, pretensioso, degenera e morre." ( [1975] 2010, p. 29). Ambas as visões abrem um leque de leituras possíveis para as variadas relações sociais. Enxergar a cultura como essa produção de sentidos e estando sobre fronteiras possibilita uma abertura metodológica e epistemológica do próprio conceito, não o reduzindo a parâmetros deterministas; na verdade o coloca em seu devido lugar: em constante estado de mudança. Merleau-Ponty, filósofo francês, faz uma observação mencionando que a cultura nunca nos oferece significações absolutamente transparentes, a gênese do sentido nunca está terminada. Aquilo a que chamamos com razão nossa verdade, sempre o contemplamos apenas num contexto de signos que datam o nosso saber. (1960, p. 42) A cultura é um documento público, onde todos podem ler e compreender seus significados (Geertz, 1978, p. 20). Ela não está presa no tempo e se movimenta no grande tecido de signos, de trocas sociais e ideológicas se moldando constantemente. Claramente, “cada época e cada grupo social têm seu repertório de formas de discurso na comunicação sócio-ideológica" (Volochinov, [1929] 1999, p. 23) E a cultura pode ser entendida e visualizada como um emaranhado dialógico, semiótico, repleto de signos exteriores que se cruzam na palavra interior. Ela se materializa por meio de signos ideológicos exteriores que podem estar ali publicamente para os interessados, signos exteriores emergidos dos signos interiores da consciência individual sócioideológica. Não obstante, os rituais religiosos, os gestos performáticos e as musicas podem ser interpretadas por signos, pois “tudo que ocorre com o organismo pode tornar-se material para a expressão da atividade psíquica, posto que tudo pode adquirir um valor semiótico, tudo pode tornar-se expressivo.” (Volochinov, [1929] 1999, p. 52) Sabendo desses elementos ubíquos da linguagem, Geertz compara a etnografia a leitura de um manuscrito velho, desbotado, que pode conter incoerências, comentários tendenciosos (1978, p. 20). Claramente, esses apontamentos condizem não com um manuscrito raro que fora encontrado em uma tumba, inscrito numa língua morta já esquecida, ou seja, um manuscrito isolado do seu contexto de produção. Longe da relação com o filólogo - que estuda a língua estática - o alerta seria para os grandes equívocos produzidos pela linguagem e sua natureza multiforme. Assim como Geertz anunciou em “O Saber Local”, talvez essa relação seria mais bem concebida com o “novo filólogo” de Alton Becker. (Becker, citado por Geertz, 1997, p.51-53) Não obstante, a “nova filologia” proposta por Becker apresenta alguns equívocos que podem reduzi-la consideravelmente, como utilizar o conceito de “intertextualidade”, que se restringe a lingüística. Os “textos antropológicos são eles mesmos interpretações e, na verdade, de segunda e terceira mão. (Por definição, somente um “nativo” faz a interpretação em primeira mão: é a sua cultura.)” (Geertz, 1978, p.25). Sob a ótica relativista, seria impossível entender outra cultura se estamos tão amarrados a nossa; impregnado de valores, signos culturais. De certa forma, interpretar sugere um “aproximar de mundos”, uma tradução. O etnógrafo então poderia ser comparado a um tradutor7, que aproxima linguagens, mundos, culturas, para explicar com suas palavras (equivalentes) a cultura do outro. Assim, “compreender um signo consiste em aproximar o signo apreendido de outros signos já conhecidos [...] a compreensão é uma resposta a um signo por meio de signos.” (Volochinov, [1929] 1999, p. 34). 7 Geertz no livro “O Saber Local” faz a mesma analogia comparando o etnógrafo a um tradutor e a um crítico literário (1997, p. 57) A etnografia, de acordo com a visão geertziana, não passa de “uma espécie de escrita, um colocar as coisas no papel.”(Geertz, 2005, p. 11) para ambos os públicos: pares e leitores; com o objetivo de demonstrar a cultura daquele grupo observado. Uma compreensão a partir dos olhos dos nativos, da sua própria interpretação (Geerz, 1978, p. 25). O produto etnográfico como resultado de um processo investigativo: do olhar, ouvir e do andar; firma-se com o escrever, com a atitude de descrever e compreender a cultura vigente (Oliveira, 2006, p. 17-37). No campo, o etnógrafo sofre e exerce influência: seus olhos, ouvidos e o próprio caminhar são instrumentos de imersão no campo que, constantemente sofrem e produzem sentidos. A inserção em campo modifica o grupo estudado, assim como esse grupo modifica o antropólogo. A etnografia começa pela “observação participante” e termina no escritório-gabinete: o escrever trará consigo outras interações sensoriais que fugiram aos olhos, como cheiros e sons, mas que também modelam a escrita em operações combinadas. O texto produzido tem caráter metonímico, em que as idéias deslizam sobre as palavras e relacionando-se com a identidade do produtor (Silva, 2009). O produto final etnográfico, nesse sentido, afastado do campo e submetido aos filtros subjetivos do antropólogo nunca buscará a verdade, tão pouco o real, do ponto de vista cientificista: sua pretensão, longe dessa visão objetiva que tende a esquecer que “a ciência busca tratar com precisão uma realidade imprecisa” (Demo, 2001, p. 48) está centrada na tradução. O etnógrafo pinta uma cultura que se entrelaça numa harmonia de signos discrepantes e opacos: ele inscreve um discurso social. 3. CONTEXTO ETNOGRÁFICO: DADOS DE CAMPO Os dados apresentados aqui são interpretações possíveis e estão abertos a novas interpretações futuras, possibilitando novos modos de olhar para os próprios signos, para o próprio olhar. Buscamos não fechar os sentidos, mas torná-los vivos, assim como são utilizados na vida cultural. Essas buscas pelos sentidos, termos e expressões são tentativas de reconhecimento dos signos-identirários na comunidade de Varginha que, geograficamente está localizada nas proximidades da cidade de Santo Antonio do Leverger em Mato Grosso. Sua distribuição espacial é semicircular, tendo em seu centro um vasto espaço aberto, onde se localizam três campos de futebol: dois campos grandes e um pequeno. Ao redor do centro "comum" ficam as casas, onde uma rua de paralelepípedos serve de caminho para a transição dos moradores e dos carros. Algumas casas não possuem muros e são agrupadas por famílias que dividem o mesmo terreno. A utilização ou não do muro é um critério dos moradores, sendo meio de segurança (para as casas afastadas) e como uma forma de dividir as famílias. As ruas possuem nomes dos santos que são "venerados" na comunidade: o nome da rua principal é Rua Bom Jesus, nome do padroeiro da comunidade. Dentro do grande espaço, pode-se ver além dos campos de futebol, um bar e uma creche que atende toda a comunidade. Esse espaço foi transformado num lugar comum que não pode ser usado por ninguém da comunidade, onde a construção tanto da creche como do bar só foram possíveis mediante uma assembléia. Esse espaço seria um lugar destinado para o atendimento público da comunidade, um espaço que não pode ser utilizado para fins particulares, adquirindo um traço coletivo. Ao redor, além das casas, existe a escola, a igreja, um galpão de festas, dois supermercados e vários bares. Sob essa malha cultural, acreditamos que alguns elementos ou signos, são "nós" que amarram os indivíduos uns aos outros. Nesse ponto de intersecção surge o pertencimento, a identidade coletiva partilhada entre os indivíduos formando a comunidade em questão. Nesse sentido, vale ressaltar que a comunidade, segundo Bauman, como um lugar que busca segurança perante o mundo globalizado, proporcionando aconchego e estabilidade, exige lealdade absoluta daqueles que nela se inserem ou buscam (2005, p. 68). A comunidade exige de seus membros regras rígidas que o mundo globalizado pode fragmentar num único sopro fluídico de instantaneidade. E para "pessoas inseguras, desorientadas, confusas e assustadas pela instabilidade e transitoriedade do mundo que habitam, a 'comunidade' parece uma alternativa tentadora. (Bauman, 2005, p. 68) 3. 1 "TROCAR O SANTO" Os santos são peças fundamentais do cosmo religioso da comunidade de Varginha. Eles estão presentes no cotidiano da comunidade organizando a maioria das relações sociais, como o funcionamento das festas, das relações familiares, espaciais e até políticas. Entendê-los e entender a dinâmica da relação entres os membros da comunidade e seus santos pode revelar aspectos interessantes da cultura. Eles são signos de coletividade que agrupam as pessoas, podendo reunir toda a comunidade ou apenas uma família. O calendário de Varginha é composto por festas que são dedicadas aos santos da própria comunidade: sendo o "maior" deles o "Senhor Bom Jesus", colocado como o padroeiro da comunidade. A festa em sua homenagem acontece na virada do ano, com a duração de três dias, tendo musicas populares, comidas e danças típicas, como o cururu. O cururu é uma dança regional, sendo dançado apenas por homens que tocam a viola de cocho (confeccionada em tronco de madeira inteiriço) e/ou o reco-reco (idiofone). Os homens se agrupam numa grande roda, cada qual com seu instrumento (viola ou recoreco) para cantar, tocar e dançar. As músicas, ou toadas são puxadas pelos próprios cururueiros que se revezam; geralmente falam de sentimentos, devoção e vida. Os violeiros desafiam uns aos outros num "meneio-sapateado", que poderia ser dançada por três ou mais cururueiros. Geralmente o cururu dura a noite inteira, começando antes mesmo do levantamento do mastro que leva a imagem do santo da festa - no caso o Senhor Bom Jesus - e fica levantado até o último dia. Ele está presente na maioria das manifestações culturais da comunidade, sendo um elemento caracterizador, um signo recorrente que marca a festa. O mastro suspenso indica o período de comemoração do santo indicado na imagem e, o cururu acontece tanto na subida do mastro quanto em sua descida. Como é comum na religião católica, os santos são representados por imagens (pequenas estátuas) que são colocados em altares, juntamente com os demais santos. Cada família possui seu próprio altar composto pelos santos que são devotos. E cada família possui um santo protetor, podendo ter herdado da geração passada ou trocado. Não existe um lugar fixo para os altares, mas geralmente ficam na sala ou no quarto do dono da casa e são configurados das mais variadas formas, podendo ter flores, velas, fitas coloridas etc. De acordo com a necessidade familiar, um santo pode ser adquirido, ou na expressão utilizada pelos membros da comunidade, pode ser "trocado". G: E a senhora tem algum santo, em casa assim... por exemplo que a senhora trocou? A: Por exemplo, eu tenho... Rita de Cássica.. uhum, São Francisco de Assis. [...] A: Tem o São Gonçalo... e tem o Imaculado Coração de Maria, Santa Francisca, Santa Rita... (Amorim, 2011) Esse termo é utilizado como uma substituição somente da palavra "comprar", pois o santo é "trocado" mediante um valor/dinheiro X. Apenas os membros da comunidade partilham desse significado, sendo desconhecido pelos arredores, como por exemplo na própria cidade de Santo Antonio do Leverger. Essa substituição do termo pode ser encarada de diversas formas, mas momentaneamente acreditamos que está ligada ao funcionamento da própria comunidade como um grupo de indivíduos que partilham de um interesse comum. "Trocar" seria um signo-identitário de pertencimento, que teria sua particularidade vinculada apenas ao tecido sígnico da comunidade. Recorrendo à lingüística, entre os vários significados que foram registrados pelo dicionário, podemos observar que a palavra "trocar" pode ser encontrado no dicionário Houaiss, já localizada conforme sua utilização na comunidade: transitivo indireto: 10 Regionalismo: Brasil. comprar ou vender (imagens sacras) Ex.: trocou uma imagem de Cristo crucificado (Houaiss, 2001) Longe de cristalizar a expressão, e tão pouco datá-la, categorizando sua manifestação como uma pedra angular da cultura da comunidade, buscamos sua utilização e seu sentido na cultura estudada. Isso se deve pelo estranhamento ao se deparar com um outro modo de utilização da palavra "trocar". Visitando outras pesquisas, como a de Galvão, observamos que esse termo é comum em outras comunidades: o que confere não uma padronização, mas um modo usual que outras comunidades usaram para substituir a palavra comprar: Surgiu uma questão. R, um dos moradores mais antigos, e considerado informalmente o líder da irmandade, promoveu uma reunião onde propôs a compra da imagem. A dona, porém, tina especial apego à santa e não quis trocar (Galvão, 155:50-1, citado por Alba Zaluar, 1983, p. 60) Acreditamos que a substituição não pode ser entendida como uma forma estética, já que o termo não é utilizado para outro elemento da cultura da comunidade, carregando consigo um sentido ideológico, uma outra realidade. Nesse sentido, não acreditamos que o termo possa ter ficado no contexto discursivo de forma histórica com sua velha utilização, que sem dúvida ganhou novos sentidos, novas significações. A língua se move juntamente com os indivíduos que nela se integram. Como já explicitado, um signo pode encarnar um material ideológico, incorporando consigo uma realidade outra; e qualquer fenômeno semiótico pode ser considerado signo. Ele sempre diz alguma coisa e vive sob fronteiras, no limiar de outras possíveis significações. Captá-lo requer ouvidos, olhos e tato aguçado, requer uma investigação minuciosa sobre o texto cultural de signos da comunidade. A substituição da palavra "comprar" por "trocar", pode significar a própria organização comunitária, que mesmo estando sob efeito da globalização, não vende ou compra seus santos, mas os "troca". Um signo duplo, usado para trocar o próprio sentido. Essa utilização categórica do termo para os santos pode significar o respeito pelo próprio santo; e conseqüentemente, como uma forma de resistir a modernidade, ou seja, a movimentação globalizante: ao invés de usar o termo que estampe a cultura capitalista, eles optaram por utilizar um termo que soe leve - mas que ainda assim obedece o mercado -, em respeito ao próprio santo, para não transformá-lo num produto de comercialização, de puro produto. O peso do signo "trocar" tende a se evidenciar quando olhamos os próprios santos como organizadores sociais. Como signos coletivos que agrupam os membros da comunidade, formando assim a dádiva (Mauss, 2003), como uma força que mantém as festas, relações de vizinhança, compadrio etc. Para qualquer membro da comunidade, "trocar" um santo exige sempre um novo reorganizar do próprio "panteão" católico, um realocar de lugar no altar, de relações com os demais santos, reforçando a própria cultura. 3. 2 "CHACAREIRO" A comunidade de Varginha é composta por diversos terrenos, sendo que alguns destes não pertencem as famílias que povoaram o lugar. Esses terrenos, anos atrás, foram vendidos a outras famílias, pois os donos tinham medo das invasões que poderiam ocorrer futuramente. Essa atitude trouxe migrantes de variadas regiões do país, trazendo com eles entorpecentes sintéticos que desestabilizaram a comunidade. Esses "novos" moradores, donos de chácaras dentro ou acerca da comunidade, acabaram alterando a cultura local de tal forma que começaram a ser vistos pelos moradores de forma negativa. Essa visão negativa passou a ser a expressão discursiva utilizada para marcar aquele que vive na comunidade ou em seus arredores, mas que de fato não pertence a ela. Assim , o termo "chacareiro", muito mais que "dono ou administrador" da chácara, seria uma etiqueta para aquele outro que usufrui da espacialidade da comunidade, mas que não compartilha dos mesmo traços culturais. Utilizar o termo é uma forma clara e objetiva de marcar o outro, classificá-lo como um possível "intruso" daquela região. Essa marcação, de fato, não está presa ao próprio sentido, pois muitos chacareiros são bem vindos, sendo participantes das manifestações culturais, o que dificulta e dá ambigüidade ao signo. Essa expressão de marcação, de acento é uma forma de identificação dentro da comunidade, um signo-identitário gerado pelos moradores de Varginha. Bauman salienta que a identidade é algo inventado (2005, p. 22), sendo revelada apenas no campo de batalha, no confronto com o outro (2005, p. 84). Desse modo, o signoidentitário utilizado pelos moradores da comunidade para acentuar outros surgiu numa tensão, sendo claramente uma marca comunicativa de expressão sobre o outro. O próprio signo é uma arena, com um entrecruzamento de valores que só o contexto (tecido cultural) pode revelar sua significação possível. Desta forma, "chacareiro", esse signo, sob a malha de signos culturais, aos ouvidos de um desavisado, nada marca, nada sugere. Aqui a própria entoação expressiva do signo o marca, o valoriza. A maneira de sua enunciação - as múltiplas formas da ponte criada para o interlocutor - o tinge de semelhante, diferente ou indiferente. Segundo um dos membros da comunidade, L, o diferente - outro - poderia ser identificado facilmente devido o tamanho e a distribuição geográfica da comunidade, que possibilita um alcance maior da visão na linha do horizonte. Nesse sentido, a integralidade familiar - sob o terreno da curiosidade -, com a disposição dos terrenos cria uma rede de comunicação que gera essa identificação. Andar pela comunidade cria olhares curiosos e desconfiados. Essa relação de encontro revela a alteridade como ponto constituinte da identidade, como forma de identificação pelo outro. A identificação é produto de aproximações, de traços (signos) que são compartilhadas por um grupo de pessoas no mesmo contexto de tempo. (Geraldi, 2010, p. 164). Essa identificação sígnica, só se torna possível com o olhar do outro. É ele que acaba construindo significações sobre o "eu". Assim, num movimento inverso buscar o outro é dar-lhe acabamento, completá-lo. Tudo o que me diz respeito, a começar por meu nome, e que penetra em minha consciência, vem-me do mundo exterior, da boca dos outros (da mãe, etc.), e me é dado com a entonação, com o tom emotivo dos valores deles. Tomo consciência de mim, originalmente, através dos outros: deles recebo a palavra, a forma e o tom que servirão para a formação original da representação que terei de mim mesmo (Bakhtin, [1979] 2003, p. 373). O termo "chacareiro" está ligado e se restringe ao espaço, marcando os indivíduos espacialmente. Durantes as festas, o cururu, siriri e todas as manifestações culturais presentes na comunidade são acompanhadas por inúmeros visitantes que, curiosos, se locomovem para Varginha para ver a beleza da tradição, da cultura cuiabana que se "manteve" na comunidade. Esses indivíduos são reconhecidos e tratados como "inofensivos", como constituintes da cultura de Varginha; portanto, espacialmente eles não apresentam "ameaça", eles apenas enriquecem e valorizam a cultura local. Aqui traçamos um parênteses na própria verificação dos termos lembrando que a cultura estudada se mantém opaca, nebulosa, devido sua própria natureza, pois carrega signos multidimensionais que se movem. 4. CONSIDERAÇÕES FINAIS Como já acentuado, os dados apresentado aqui são partes do trabalho de campo e estão suscetíveis a outras interpretações a medida que vamos mergulhando na cultura vigente. Como priorizamos o estudo das identificações discursivas na comunidade de Varginha, nosso principal objetivo foi buscar uma visão teórica aberta que possibilitasse o estudo de forma clara, simples e interdisciplinar. A metalingüística, como ferramenta substancial da etnografia gera um olhar esmiuçado e amplo sobre a cultura, dando-lhe abertura para sua movimentação sobre e na vida. Ambos os teóricos utilizados possuem semelhança conceitual e essa brecha tentamos ao máximo aproveitar. A última parte do trabalho, não trabalhada, está em processo de formação, sendo calmamente confeccionada e, se estabelece dentro da pesquisa como um subproduto dos objetivos alcançados. Por meio dessa busca, será possível uma experimentação etnográfica, um novo produto orientado pela ficção, pelo discurso literário-romanesco que, semelhante o modo de fazer ciência, é uma construção de sentidos sobre a realidade. Aqui, traçamos um olhar semelhante ao do antropólogo Jean Rouch, que propõe uma “Antropologia compartilhada”, visando dar uma nova forma de ver a realidade, nesse caso, por intermédio dos filmes: Jaguar(1957); e Eu, um negro (1958); Sua proposta seria a de transformar o objeto etnográfico em sujeito, invertendo o jogo hierárquico da antropologia. Essa inversão, estabelece uma visão compartilhada de cultura entre os próprios “nativos”, envolvidos daquele grupo que constroem juntos sua própria cultura. De fato, o etnógrafo sempre descreveu e inscreveu o discurso social, mas porque não escrevê-lo em ficção, em forma de conto, ou romance? O ato de escrever ficção pelo antropólogo possibilita uma abertura conceitual, além do próprio distanciamento de si; pois dessa maneira o antropólogo passa de pesquisador para fabulador, um contador de história que consegue desnudar a si mesmo no contato com o Outro e a cultura que visitou/freqüentou. A imaginação sempre foi um veiculo de experimentação do homem, nela nos inserimos para encontrar o real e as possibilidades do real. O ato de imaginar, de criar, leva o antropólogo a uma reflexão maior da suas próprias atitudes; entretanto isso não significa e não cabe explicitar que esse ato requer profundo conhecimento do etnógrafo com relação a teoria-e-história, e que essa imaginação não deve ser desculpa para falar da indefinição dos limites da ciência. “A relação intersubjetiva [...] é uma comunicação simbólica que supõe processos básicos responsáveis pela criação de significados e de grupos.” (Cardoso de Oliveira, 2004, p. 103). A prática de campo – que é um dos procedimentos primeiro do produto etnográfico - deve valorizar o contato, a relação. Por isso, a pesquisa deve valorizar a observação tanto quanto a participação, pois a observação fornece o contato entre afeto e razão, enquanto a participação fornece a medida das coisas. (Cardoso de Oliveira, 2004, p. 103). O famoso mise-en-scène malinowskiano está enraizado no pensamento e na maneira de fazer etnografia; alguns pontos da tradição serão sempre perseguidos como uma forma de repensar o velho e buscar o novo. A ficção-realista suscitada por Geertz em Vidas e Obras, pode trazer novos modos a antropologia, fazendo-a reorganizar e ver que vida e arte, andam de mãos dadas. Para finalizar, deixo as palavras de Ernesto Sabato para trazer luz ao pensamento sobre a ficção-realista: “Os homens escrevem ficções porque estão encarnados, porque são imperfeitos. Um Deus não escreve romances.” (2003, p. 202) 8. REFERÊNCIAS AMORIM, Albertina. 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