L UCIA MARIA BRANCO
ET AL .
ORIGINAL / ORIGINAL
A Percepção Corporal Influencia no Consumo
do Café da Manhã de Adolescentes?
Does the Body Perception Have an Influence in
Teenagers’ Breakfast Consumption?
L UCIA M ARIA B RANCO *
Nutricionista e mestre em Ciências
(Unifesp/SP )
E LIANA C RISTINA DE A LMEIDA
Nutricionista e mestre em Ciências
(Unifesp/SP )
M ARIA A PARECIDA Z ANETTI PASSOS
Nutricionista e mestre em Ciências
(Unifesp/SP )
A LINE DE PIANO
Nutricionista e mestranda do
Programa de Pós-Graduação em
Nutrição (Unifesp/ SP )
I SA DE P ÁDUA C INTRA
PhD e professora titular do
Departamento de Pediatria
(Unifesp/SP )
Mauro Fisberg
PhD e professor titular do
Departamento de Pediatria
(Unifesp/SP )
* Correspondências:
Rua Aracambé, 35 – Jd. Sta. Teresa
04187-110 São Paulo/SP
[email protected]
Saúde em Revista
Percepção Corporal e Café da Manhã
RESUMO A adolescência é uma fase de transformações e vulnerabilidade
às pressões da mídia, que cultua a magreza como padrão de beleza, o
que faz com que os adolescentes lancem mão de recursos inadequados
para a redução de peso, como a omissão de refeições. Objetivo: Conhecer o hábito do consumo do café da manhã e sua relação com a percepção corporal. Métodos: Foram avaliados 812 adolescentes, matriculados
em escolas da cidade de Cotia/SP. A classificação da imagem corporal
foi realizada por auto-avaliação com o auxílio de figuras de silhuetas e
o hábito do café da manhã por questionário. Para a análise estatística,
utilizou-se o teste qui-quadrado. Resultados: Verificou-se que 15% da
população estudada apresentava-se acima do peso, porém 49% se achavam em tal condição nutricional, principalmente os sujeitos do sexo
feminino. Observou-se que 44,3% dos adolescentes não consumiam o
café da manhã diariamente, sem diferença estatística entre os sexos.
Conclusão: Verificou-se que a omissão do café da manhã foi maior
entre os adolescentes com excesso de peso, e observou-se relação estatisticamente significativa entre a omissão do café da manhã e a distorção
da percepção corporal nos adolescentes do sexo feminino, demonstrando
que a percepção corporal exerce influência sobre o hábito do café da
manhã.
Palavras-chave ADOLESCENTE – HÁBITOS ALIMENTARES – IMAGEM CORPORAL.
A BSTRACT Adolescence is characterized by many transformations and
vulnerability to the pressures of the media, which values thinness as a
beauty standard, making teenagers use inadequate methods to lose
weight, as skipping meals. Objective: to know the habit of breakfast
consumption and the body image perception. Methods: 812 adolescents
registered in school of the town of Cotia/SP (14.6 ±1.7 years) were
evaluated. The body image classification was carried out by a selfapplied questionnaire containing figures of silhouettes, and the breakfast
habits, by closed questions. We applied the Chi-square test for the
statistical analysis. Results: We observed that 15% of the population
was overweight. However, 49% were found in such nutritional
condition, mainly among females. We also observed that 44.3% of the
adolescents did not consume breakfast daily, with no statistic difference
between genders. Conclusion: The habit of skipping breakfast prevailed
among overweight adolescents, as well as the statistically significant
relation between the elimination of breakfast and the distortion of the of
the body image perception among females, showing that the body image
perception influences breakfast eating habits.
Keywords ADOLESCENT – FOOD HABITS – BODY IMAGE.
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INTRODUÇÃO
A adolescência é uma fase que, além da
ocorrência de uma variedade de eventos biológicos e psicossociais, pode ser uma etapa
da vida em que ocorrem grandes transformações dos hábitos alimentares, podendo interferir de forma direta no estado nutricional
dessa população. 1, 2
Os hábitos alimentares dos adolescentes
têm sido destacados, principalmente em função das refeições irregulares, dos lanches
calóricos, da alimentação fora de casa e da
prática de seguir dietas alternativas. 3
Sabe-se que esse é um período de grande
vulnerabilidade, em que as revistas, os programas de TV, as propagandas e os amigos são
considerados fontes de informações, evidenciando a importância, mesmo que indiretamente,
sobre o comportamento alimentar.4, 5
Estudos demonstram que as meninas
omitem mais o café da manhã que os meninos,
sugerindo que esse recurso é utilizado para
evitar ganho e/ou controlar o peso.6, 7 Aqueles
que não fazem o desjejum apresentam certa
dificuldade em compensar o potencial perdido
de nutrientes e energia em outras refeições,
tendo sido observado que os adolescentes que
consomem o café da manhã selecionam melhor
o alimento durante todo o dia, contribuindo na
qualidade nutricional da dieta.8, 9
A influência que a auto-imagem corporal
exerce sobre os hábitos de saúde dos adolescentes tem sido discutida na literatura. 10, 11
Atualmente, a forte tendência social e cultural
de considerar a magreza como uma situação
ideal de aceitação e êxito está influenciando
cada vez mais os adolescentes, especialmente
os do sexo feminino,12 favorecendo a formação de padrões alimentares inadequados.
Considerando a importância dos hábitos
alimentares para a saúde – especificamente
do adolescente –, este estudo teve como objetivos: avaliar o estado nutricional de adolescentes, identificar a percepção que têm
sobre o corpo – sua imagem corporal – e
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ET AL .
analisar as relações entre o estado nutricional, a imagem corporal e o hábito de consumir o café da manhã.
MATERIAL
E
MÉTODOS
A pesquisa foi realizada com 812 adolescentes, de 10 a 19 anos de idade, de ambos os
sexos, matriculados em escolas públicas e
privadas, da região central da cidade de Cotia,
São Paulo. Esse projeto teve aprovação do
comitê de ética da Universidade Federal de
São Paulo. Somente participaram do estudo os
alunos cujos responsáveis assinaram o termo
de consentimento informado. A pesquisa foi
descritiva com delineamento transversal.
Para a avaliação antropométrica, foi
medida a massa corporal por meio da balança eletrônica (Tanita TBS-521 ®), plataforma, com capacidade de 150kg e graduação
em 100g. Os adolescentes foram pesados
com roupas leves e descalços, segundo
Jelliffe (1968).13
A estatura foi mensurada por meio do
estadiômetro (SECA ®), afixado na parede a
90o em relação ao solo, com escala em milímetros (mm), de acordo com Jelliffe, 1968.13
A classificação do estado nutricional foi
realizada por meio do Índice de Massa Corporal [IMC = peso (kg) / estatura²(m)], de
acordo com os parâmetros estabelecidos por
Must et al. (1991),14 e a classificação proposta pela OMS (1995).15
A classificação da imagem corporal foi
realizada por meio da auto-avaliação contendo figuras de silhuetas, em que o aluno identificava a figura que mais achava parecida
com seu tipo físico, conforme os critérios
estabelecidos por Fritsch-Madrigal et al.
(1999), 16 contendo quatro categorias para a
classificação: baixo peso (silhueta 1),
eutrófico (silhuetas 2 a 5), sobrepeso (silhuetas 6 e 7) e obeso (silhuetas 8 e 9).
Para verificar se os adolescentes tinham o
hábito de consumir o café da manhã, foi aplicado um questionário, cuja resposta poderia ser
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diariamente (5 a 7 vezes por semana), de vez
em quando (1 a 4 vezes por semana) ou nunca.
Para a análise estatística dos dados, foi
utilizado o software SPSS versão 10.0 for
Windows. Foram aplicados o teste qui-quadrado e a correlação de Pearson para as variáveis. O nível de rejeição fixado foi igual
ou menor que 5% (p < 0,05).
RESULTADOS
Dos 812 adolescentes avaliados, 407
(50%) eram do sexo feminino e 405 (50%)
do sexo masculino. A média de idade foi de
ET AL .
14,6 anos (± 1,7 anos), sendo que 44% pertenciam à escola particular e 56% à escola
pública. Aproximadamente 17% dos adolescentes apresentavam excesso de peso, não
havendo diferença significativa entre os sexos (p > 0,05) (Figura 1).
Conforme ilustra a figura 2, 65,9% dos
adolescentes do sexo feminino e 31,4% do
sexo masculino consideravam-se acima do
peso, sem diferença estatística (p > 0,05).
Pode-se notar que, aproximadamente,
49% (395 adolescentes) da população estudada considerava-se acima do peso, porém apenas 15% (123 adolescentes) estavam com
Figura 1. Distribuição do estado nutricional dos adolescentes.
Figura 2. Distribuição da percepção corporal dos adolescentes.
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Percepção Corporal e Café da Manhã
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excesso de peso (p > 0,05), o que demonstra uma tendência à distorção da imagem corporal
desses adolescentes, principalmente entre o sexo feminino, como ilustra a tabela 1.
Tabela 1. Relação do estado nutricional e a percepção corporal.
Observa-se que 359 (44,3%) adolescentes não possuem o hábito de realizar o café da
manhã diariamente, sem diferença estatisticamente significativa entre os sexos (Figura 3).
Figura 3. Consumo do café da manhã entre os adolescentes.
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Verifica-se que a omissão do café da
manhã foi maior entre os adolescentes com
excesso de peso (p < 0,05) de ambos os sexos (Tabela 2).
Nota-se uma relação estatisticamente significativa entre a omissão do café da manhã e
ET AL .
a distorção da imagem corporal nos adolescentes do sexo feminino, sendo que a maioria
das adolescentes que omitiam o café da manhã enxergava-se acima do peso (p < 0,05).
Nos meninos, essa relação não foi significativa (p > 0,05) (Tabela 2).
Tabela 2. Relação do estado nutricional e percepção corporal com o hábito do consumo do café
da manhã entre os adolescentes.
* p < 0,05, teste Qui-quadrado
DISCUSSÃO
A imagem corporal tem sido descrita
como a capacidade de representação mental
do próprio corpo pertinente a cada indivíduo,
sendo que essa imagem envolve aspectos
relacionados à estrutura (como tamanho, dimensões) e à aparência (forma, aspecto),
entre vários outros componentes psicológicos
e físicos da imagem corporal.17-19
Saúde em Revista
Percepção Corporal e Café da Manhã
Ao relacionar o estado nutricional com
a autopercepção corporal, verificou-se que
houve tendência de os adolescentes apresentarem distorção da imagem corporal. É importante ressaltar que, apesar de não haver
relação significativa entre essas variáveis, as
meninas tendem a superestimar sua imagem
corporal. Verificou-se que das 268 adolescentes (65,9%) que se acharam em excesso
de peso, somente 70 (17,2%) encontravam-se
19
LUCIA MARIA BRANCO
dessa forma. Uma pesquisa realizada com
145 estudantes do sexo feminino, com idade
entre 12 e 18 anos, revelou que, embora apenas 27% estivessem com excesso de peso,
56% apresentaram insatisfação com a imagem corporal, sendo que 48% desse grupo
relatou já ter feito algum tipo de tratamento
para emagrecer.20
Observou-se que aproximadamente metade dos adolescentes não possuía o hábito
de realizar diariamente o café da manhã, sem
diferença estatística entre os sexos. Os resultados encontrados no presente estudo demonstraram que a omissão do desjejum foi
maior entre os indivíduos com excesso de
peso, havendo uma relação significativa entre
o estado nutricional e o hábito de realizar
essa refeição, o que pode sugerir que alguns
adolescentes descontentes com sua imagem
corporal omitem determinadas refeições,
como, por exemplo, o café da manhã, na
tentativa de perder peso e reduzir o valor
calórico diário.
Estudo realizado com 1.245 adolescentes
suecos mostrou que 24% das meninas e 12%
dos meninos não consomem o café da manhã
diariamente e de forma adequada.21 Em estudo
longitudinal com 1.400 adolescentes americanos, verificou-se que, após três anos de acompanhamento, a omissão do desjejum promoveu aumento de peso significativo entre os
indivíduos eutróficos, quando comparado com
os indivíduos que consumiam o café da manhã diariamente.22 Outro estudo realizado com
153 adolescentes de seis escolas da rede estadual da região de Santo André, SP observou
que 56 % da população estudada não realizava
ET AL .
o café da manhã, com maior prevalência entre
o sexo feminino.7
O presente estudo mostrou uma relação
significativa entre a distorção da imagem
corporal e a omissão do desjejum entre as
meninas (p < 0,05). Em estudo com adolescentes do Reino Unido, foi observada uma
associação significativa entre o descontentamento com a imagem corporal e a omissão
de certas refeições, como o café da manhã,
sendo essa associação mais significativa entre as meninas. 23 Isso demonstra a relação
entre a distorção da imagem corporal e os
hábitos alimentares inadequados em adolescentes, especialmente do sexo feminino.
CONCLUSÃO
O café da manhã é uma refeição essencial no dia-a-dia do ser humano. No entanto,
a soma dos dados do presente trabalho mostra
que houve relação significativa entre o estado
nutricional e a omissão do café da manhã em
ambos os sexos, cujos adolescentes que apresentam excesso de peso ou distorção da imagem corporal estão mais sujeitos a comportamentos e atitudes alimentares inadequadas.
Entre as meninas, verificou-se uma significativa relação entre a distorção da imagem corporal e a omissão do desjejum. Essa prática
inadequada pode se relacionar com alterações
do estado nutricional. Portanto, deve-se encorajar os adolescentes a consumirem o café da
manhã diariamente, visando aos bons hábitos
alimentares, o estado nutricional adequado,
assim como o bem-estar físico e mental desses indivíduos.
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Submetido: 7/dez./2006
Aprovado: 6/jun./2007
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Percepção Corporal e Café da Manhã
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