III SEMINÁRIO INTERNACIONAL ENLAÇANDO SEXUALIDADES
15 a 17 de Maio de 2013
Universidade do Estado da Bahia – Campus I
Salvador - BA
PRECONCEITO LINGUÍSTICO E A LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS
André Luis Santos de Souza1
Ana Luisa Borba Gediel2
Roselia Ap. Gonçalves3
RESUMO: Este artigo pretende refletir, amparado as ideias do Filólogo Marcos Bagno em seu livro
“Preconceito Linguístico: o que é, como faz” e nos estudos da Língua de Sinais, a realidade
experienciada pelas pessoas surdas na cidade de Viçosa, MG. Nosso objetivo é discutir como a
modalidade de língua oral-auditiva impacta na modalidade de língua visuo-espacial. Para tanto,
convidamos você a exercitar conosco uma transposição linguística ao longo do texto, a fim de
pensar na possível existência de um tipo de preconceito social, nem sempre visível: o preconceito
linguístico, relativo às Línguas de Sinais, e, neste caso à Língua Brasileira de Sinais, reconhecida
pelo decreto de lei n˚. 10.436/02 como segunda língua oficial do Brasil. Partiremos da perspectiva
de que a surdez vista como “deficiência” está relacionada com uma construção social com base
numa visão de mundo estreitada que desconhece as potencialidades comunicativas do corpo surdo.
Palavras-chaves: Corpo Surdo; Exclusão Social; Libras; Preconceito Linguístico; Transposição
Linguística.
De início, gostaríamos de chamar a atenção para o cuidado que devemos ter ao longo do
texto para, em hipótese nenhuma, confundir as línguas Portuguesa e LIBRAS; e considerar suas
particularidades estruturais. Convidamos você a pensar na dimensão do preconceito linguístico,
como por exemplo, explorado pelo Filólogo4 Marcos Bagno no livro “Preconceito Linguístico: o
que é, como faz”, publicado em 1999 pela editora Loyola. Tal escolha se justifica por nossa
afinidade com a discussão contida no livro que remete ao preconceito linguístico, problemáticas
sociais de preconceitos formulados a partir da gramática normativa da língua brasileira falada e no
1
Estudante do 7˚período do curso de Licenciatura em Ciências Sociais na Universidade Federal de Viçosa, MG,
voluntário da Pesquisa Sinais Como Nomes Próprios: significados corporais a partir das especificidades da Língua de
Sinais para as Comunidades Surdas e Bolsista FUNARBIC – Bolsa de Iniciação Científica da Fundação Arthur
Bernardes. Email: [email protected]
2
Coordenação e Orientação dos projetos supracitados. Professora Adjunta II do Departamento de Letras da UFV, Drª.
em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Brasil. Email: [email protected]
3
Revisão Textual. Professora de Língua Portuguesa e Especialista em Educação de Jovens e Adultos, pelo IF-SC.
[email protected]
4
O dicionário Houaiss da Língua Portuguesa define filologia como “o estudo científico do desenvolvimento de uma
língua ou de famílias de línguas, em especial a pesquisa de sua história morfológica e fonológica baseada em
documentos escritos e na crítica dos textos redigidos nessas línguas.
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modo como esta é ensinada nas escolas. Neste sentido, a reflexão está pautada em uma
transposição de linguagem, o que significa dizer, adaptar as ideias de Bagno pensadas em relação à
Língua Portuguesa, em uma mesma situação de preconceito social, no que se refere à Língua
Brasileira de Sinais - LIBRAS, oficialmente reconhecida pelo decreto de lei n˚. 10.436/02 que a
institui como a segunda língua oficial do Brasil.
A discussão aqui não está centrada nos aspectos normativos gramaticais; tampouco, discutir
questões fonéticas ou criticar a utilização social histórica-política de que deriva a construção padrão
de uma Língua5. E sim, realizar um paralelo entre as questões tratadas por Bagno em seu livro, ao
que tange o uso da Língua Portuguesa e sua prática social; com a preocupação de percorrer o
caminho da estrutura linguística da LIBRAS na sua trajetória social, e de como esta interage com a
Língua padrão oral, utilizada pelos ouvintes de Viçosa. Tais noções são amparadas pela pesquisa
etnográfica, realizada junto às pessoas Surdas da cidade de Viçosa – MG, a qual é desenvolvida
pelo Departamento de Letras, da Universidade Federal de Viçosa e com bolsa FUNARBIC/PPGUFV.
O viés tratado por Bagno, em relação aos mitos da Língua Portuguesa pode ser usado na
Língua de Sinais, ao entendê-los como artifícios capazes de manter funcionado um “circulo vicioso
do preconceito linguístico” (BAGNO, 1999, p. 93). Entretanto, não sejamos ingênuos em pensar
que os mesmos mitos podem ser verificados na LIBRAS, não é este o caso; porque, quando falamos
em mitos acerca da Língua de Sinais (QUADROS & KARNOPP, 2004; GESSER, 2009), temos
que considerar a diferença entre a modalidade linguística oral-auditiva da modalidade vísuoespacial. Este é o ponto para iniciarmos essa conversa: como podemos pensar o “preconceito” a
partir da perspectiva da modalidade linguística oral-auditiva em relação à modalidade visuoespacial?
Refletindo a respeito da existência, nos dias de hoje, de um tipo de preconceito presente na
sociedade dos ouvintes e no modo como estes interpretam e percebem as pessoas surdas – que
chamaremos de “preconceito linguístico” em relação à Língua de Sinais, que surge a partir de
crenças insustentáveis, “fruto de uma visão de mundo estreita, inspiradas em mitos e superstições
que tem como objetivo perpetuar os mecanismos de exclusão social” (BAGNO, 1999, p.12.);
5
Trata-se da transposição dos conceitos linguísticos tratados na Língua Portuguesa – especialmente daqueles discutidos
por Bagno (1998) -, para a Língua de Sinais.
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Assim, ideias turvas ou distorcidas do corpo e/ou da língua se cristalizam a partir dos mitos,
camuflando a ocorrência da manifestação do preconceito com relação ao Corpo e a Língua Surda6.
Contrapondo essa visão de mundo estreitada, a concepção sustentada em nosso estudo,
parte da perspectiva que considera o Corpo e a Língua como lócus de cultura (CSORDAS, 2008).
Assim, os mitos relacionados a LIBRAS são diferentes e mais perversos do que os mitos citados por
Bagno (2009) em relação a Língua Portuguesa. Estes, muitas vezes, estão para além das questões
linguísticas, pois perpetuam uma exclusão e um desconhecimento do indivíduo social, que assume
uma postura estigmatizada pelo outro e perde sua identidade pessoal (GOFFMAN, 1988). O
preconceito, de um modo geral, deriva do não reconhecimento das diferenças, sustentado por
ideologias dominantes (FOUCAULT, 1997).
A partir das pontuações realizadas acima, discorreremos acerca dos caminhos seguidos para
a realização do artigo, desde o enfoque metodológico e os passos iniciais da pesquisa até a
discussão teórica, a qual foi amparada por perspectivas teóricas advindas de diferentes campos do
saber.
I – Metodologia utilizada
Por que pensar a realidade surda? Este artigo surge a partir de reflexões proporcionadas
pelos dados obtidos na pesquisa “Sinais como Nomes Próprios”, e a inserção inicial no campo por
meio da pesquisa de iniciação científica “A constituição do Sujeito Surdo a partir da LIBRAS e das
Experiências Corpóreas nas Instituições Religiosas”, vinculadas ao Departamento de Letras, da
UFV, entre os anos de 2011 e 2013. Ambas pesquisas tem caráter qualitativo, embasado nos
princípios metodológicos da etnografia.
Sendo assim, utilizamos da observação participante como ferramenta de pesquisa, tendo o
diário de campo “como principal instrumento” (MINAYO, 2010, p. 70). O trabalho de campo, que
consolida esta técnica de pesquisa, conta com observações diretas das práticas, hábitos e visões de
mundos relativos à realidade estudada, não se limitando apenas a isto; ainda, conta com a
6
A palavra Surdo, com a inicial em letra maiúscula, é utilizada com respaldo em Padden & Humphries (1998) que
considera a pessoa pertencente a um grupo ou comunidade surda, identificada culturalmente por seus pares, que usufrui
da Língua de Sinais. Já a palavra surdo com inicial em minúscula refere-se ao uso geral, sem necessariamente
especificar a identidade de um grupo.
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“entrevista” como técnica privilegiada de comunicação - uma conversa com finalidades (MINAYO,
2010).
Antes de nossa entrada a campo, foi realizado um levantamento bibliográfico que melhor se
adaptasse a nossa pesquisa, depois disto a equipe de pesquisa debateu os referenciais bibliográficos
por meio de um grupo de estudos. Isso nos preparou para iniciar a etapa de investigação empírica
das vivências Surdas da cidade de Viçosa, MG. O passo seguinte foi entrevistar pessoas ouvintes e
intérpretes da LIBRAS, que conheciam as pessoas Surdas que estávamos procurando. Nessa
primeira etapa, conversamos em dois momentos diferentes com cinco pessoas, sendo uma surda.
Em um primeiro momento, uma entrevista rasa e, no segundo momento, uma entrevista
exploratória com base nas informações coletadas anteriormente. Minayo (2010) categoriza a
primeira como um instrumento inicial de coleta de dados, que sugere o reconhecimento do campo e
da construção de possíveis indagações, as quais serão remetidas à segunda entrevista, realizada já
com certo direcionamento, com base nas percepções dos atores sociais envolvidos na pesquisa.
As entrevistas foram realizadas por dois pesquisadores, sendo gravadas, transcritas e
analisadas discursivamente. A partir das entrevistas com os intérpretes ouvintes, conseguimos
mapear algumas pessoas com Surdez, que nos possibilitou prosseguir na fase exploratória do
campo. Assim, chegamos ao encontro de quatro Surdos, os quais denominamos de lideranças
Surdas, com relação à utilização e ensino da LIBRAS em Viçosa. Além disso, podem ser
mencionados como líderes políticos e/ou religiosos, instruídos com relação aos direitos dos Surdos
e a causa de uma minoria cultural etnicolinguistica. Devido à pesquisa estar em andamento,
somente duas entrevistas com os líderes surdos foram realizadas. Desse modo, os dados aqui
apresentados incluem uma base incipiente da pesquisa de campo até o momento, a qual inspirou a
discussão da aplicação do preconceito linguístico na Língua de Sinais.
II – Preconceito linguístico e as experiências corporais: como acontece?
Ao levar em consideração a reflexão iniciada acerca do conceito “preconceito lingüístico”,
utilizado por Bagno, que “se baseia na crença de que só existe uma única língua portuguesa digna
deste nome e que seria a língua ensinada nas escolas” (BAGNO, 1999, p. 28). Transpondo esta ideia
para se pensar a realidade vivenciada pelos Surdos e na existência de certos estigmas em relação ao
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Corpo Surdo7, que é vítima de preconceitos sociais normalizadores, considerando estes sujeitos,
desviantes de uma conduta padrão, definida e normatizada pelo grupo em maior número de pessoas
(GOFFMAN, 1988), no caso as pessoas ouvintes versus as pessoas com surdez. Esses preconceitos
sociais resultam da concepção da Surdez como desvio da normalidade, que deve ser corrigido
pedagogicamente e medicamentosamente. Assim, o corpo surdo não é considerado com
potencialidades linguísticas diferenciadas.
O que estamos querendo refletir neste tópico, diz respeito às diferenças na modalidade da
comunicação humana e suas infinitas formas de manifestação nas variadas formas de representação
e significação de mundo (GEERTZ, 2008). Nesta perspectiva, os sujeitos surdos possuem as
mesmas capacidades comunicativas de os sujeitos ouvintes (QUADROS & KARNOPP, 2004).
Desta forma quando pensamos em “preconceito linguístico”, relacionado a LIBRAS, estamos
querendo dizer que a Surdez, vista como “deficiência”, tem a ver com uma construção social
inspirada em uma visão de mundo ouvinte acerca do corpo humano. Olhar para a Surdez com
apenas nossa visão de ouvinte pode criar interpretações equivocadas acerca da real percepção do
sujeito surdo sobre o mundo, observado de seu ponto de vista. Se uma relativização não acontece, o
preconceito lingüístico cria limitações sociais, e não físicas, a respeito da pessoa surda, contrapondo
os objetivos de nosso estudo, que considera o corpo como sujeito de cultura, conceituado com base
na “corporalidade”, por meio da experimentação de fazer-se humano (CSORDAS, 2008).
Para finalizar este tópico, gostaríamos de ressaltar que nosso exercício reflexivo é pensar
como surgem os preconceitos linguísticos a partir de interações face a face, em determinados
grupos de pessoas, os quais se comunicam por meio de diferentes línguas. Ademais, a proposta do
estudo é pensar o preconceito linguístico em relação à Língua de Sinais Brasileira, ou melhor,
relacionado à estigmatização do corpo Surdo pela maioria das pessoas ouvintes, inseridas na
sociedade viçosense. O corpo aqui é discutido como solo existencial do sujeito e da cultura
(CSORDAS, 2008). E sendo assim, refletiremos os sentidos atribuídos ao mundo percebido a partir
das experiências corpóreas do sujeito surdo na cidade de Viçosa, Minas Gerais.
Historicamente, podemos verificar e observar que a Surdez é vista como uma “deficiência”
(DINIZ, 2003). Isso gera limitações e traumas psicossociais, a partir de práticas sociais de
7
o corpo entendido como sujeito de cultura, em particular utilizamos da teoria de Thomas Csordas, considerando o
corpo como recurso metodológico na antropologia social através do conceito de “embodiment”.
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constantes tentativas de correção do Corpo Surdo, direcionando-o para a normalidade deste, que
seria a do ouvinte - na tentativa de fazer a pessoa surda se adequar a língua oral dominante e que,
influenciadas pelas metodologias educacionais, como o Oralismo, percebem a condição da Surdez
como uma disfunção e incapacidade do corpo (CAPOVILLA, 2000). Contrapondo a esta concepção
acerca da surdez, nosso estudo pretende propor olhar para a surdez não por meio da falta, mas, sim,
da diferença. Lopes, (2007. p. 18) diz, a esse respeito que é preciso atentar para “narrativas surdas a
partir de um entendimento que não é aquele marcado pelas práticas clínicas ou pela diferenciação
entre deficientes e não-deficientes”.
Então, a “deficiência” nessa lógica é um preconceito linguístico, manifestado pelos
mecanismos de informações sociais, idealizados com base numa visão limitada acerca do corpo
humano, centrada na “corporalidade” do sujeito ouvinte? É preciso pensar com mais calma a
respeito de possíveis respostas para esta indagação; uma afirmação não deve ser dita tão
rapidamente. É preciso conceber antes a condição dos Surdos viçosenses, que, a maioria vive
isolado linguisticamente e, em alguns casos, não acessam os serviços públicos básicos por
dificuldades de comunicação. A partir disso, convém ressaltar que o entendimento acerca da
ausência da audição traz visões de mundo divergentes a partir da perspectiva da “deficiência” e da
“diferença”. Estas estão amparadas por sentidos que se contrapõem, de um lado biológico e do
outro sociocultural respectivamente. No primeiro sentido, a condição da Surdez é vista como uma
disfunção e uma incapacidade do corpo biológico; já no segundo, o Surdo/a é percebido, enquanto
minoria etnilinguística (SILVA, 2008).
O Preconceito Linguistico em relação a Língua de Sinais Brasileira relaciona-se com a
estigmatização do Corpo Surdo, coexistindo engenhosamente através de mecanismos de exclusão
social.
III – O que é Língua Brasileira de Sinais?
A LIBRAS possui um histórico de lutas pelos surdos, por direitos civis, políticos e sociais,
fortemente organizadas e demandadas pelo movimento surdo. Demandas estas, sustentadas pelo
discurso das autodenominadas comunidades surdas, principalmente, na região Sul e Sudeste do
país. As reivindicações, pautadas no discurso desenvolve o argumento de um grupo, que não mais
se via com deficiência, mas sim com identidade culturalmente diferente, que possui uma língua
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própria. Um grupo social que começa a se autodenominar, a partir do final da década de oitenta, no
Brasil, como “grupo etnicolinguístico minoritário”.
As lutas pelo reconhecimento da Língua de Sinais nas escolas, pelo reconhecimento da
comunidade Surda e pelo fim de práticas oralistas nos trabalhos com sujeitos Surdos, ocuparam o
cenário educacional com maior expressão acadêmica, social e política, a partir do final da década de
oitenta e início da de noventa (LOPES, 2007).
Neste sentido, entender a Surdez como uma diferença cultural significa dizer que a Língua
de Sinais é uma língua natural dos Surdos. Entretanto, existe ainda hoje, uma dificuldade de
reconhecimento de seu status linguístico “em muitos espaços educativos e sociais [...], pois as
conquistas não ocorreram de forma homogênea nas diferentes regiões brasileiras” (LOPES, 2007. p.
26).
Para os estudiosos que iniciaram os estudos acerca da Surdez e da Língua de Sinais, por
volta dos anos 60, como Stoke (1965), por exemplo, definem esta como língua natural, pois surge
espontaneamente e se configura estruturalmente como as línguas faladas, cumprindo os mesmos
papéis e funções no processo de formação cognitiva do indivíduo. Além disso, há uma utilização
afetiva desse sistema, com fim social. Assim, [...] as línguas de sinais são, portanto, consideradas
pela linguística como línguas naturais ou como um sistema linguístico legítimo e não como um
problema do Surdo ou como uma patologia da Linguagem (QUADROS & KARNOPP, 2004).
A partir desses estudos, esse campo de conhecimento tem ganhado contornos significativos,
no Brasil, as demandas advindas das comunidades surdas e a formação de pesquisadores atuantes
nas universidades brasileiras repercutiram na política nacional, instituindo a LIBRAS pelo decreto
de lei n˚. 10.436 de 2002, como a segunda língua oficial do Brasil. Este evento ganhou destaque a
partir da inclusão obrigatória da disciplina de LIBRAS nos cursos superior de licenciatura por meio
da Lei n˚. 5626 de 2005; e com o XV Congresso Mundial de Pessoas Surdas realizado em Madri,
entre os dias 16 e 22 de julho de 2007, reafirmando ter os Surdos os mesmos direitos humanos de os
demais grupos sociais (LOPES, 2007).
Fecharemos este tópico, trazendo novamente a problemática de nosso estudo: refletir a cerca
da existência de um tipo de preconceito social, nem sempre visível, relacionado à modalidade
linguística utilizada pelos sujeitos surdos. Para tanto, quando relacionamos a discussão acerca do
preconceito linguístico, direcionando-o à LIBRAS, enfatizamos as manifestações sociais que
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surgem a partir do uso de sua modalidade corpórea. A Língua Brasileira de Sinais, embora
reconhecida legalmente como uma segunda língua nacional, ainda, não é utilizada por todos os
surdos de Viçosa, pois muitos se encontram isolados linguisticamente, se comunicando somente
com a família a partir de sinais caseiros.
Podemos concluir que, para muitas pessoas Surdas, a LIBRAS é vista como um instrumento
cultural importante e fundamental para se expressarem, se organizarem politicamente e participarem
das esferas sociais que constituem os espaços públicos de interação social na sociedade viçosense,
ou seja, trata-se de uma “materialização da própria cultura surda” (LOPES, 2007. p. 28). Entretanto
todos os esforços para incluir a minoria linguistica Surda, de nada adiantam, se a sociedade dos
ouvintes tratar o Surdo como um descapaz e não como um sujeito linguisticamente diferente.
IV – Por que falar em preconceito linguístico acerca da LIBRAS?
Pretendemos neste momento sintetizar nossa reflexão sobre o conceito “preconceito
lingüístico” utilizado por Marcos Bagno (1998) como um tipo de preconceito social. Que em
relação a LIBRAS, gera uma problemática social a partir das interações vivenciadas e significadas
pelos sujeitos em um campo de interações face a face, que são capazes de incluir ou excluir
indivíduos de um grupo social (GOFFMAN, 2010).
Uma padronização da Língua Portuguesa de modalidade oral-auditiva tem a capacidade de
construir imaginários sociais capazes de olhar as pessoas com Surdez como um problema a ser
corrigido. Nesta direção, o sujeito surdo passa a se inserir na sociedade dos ouvintes, não pela
experiência de mundo surda, mas, sim, pela ouvinte. Contudo, surge o preconceito linguístico
relativo à Língua de Sinais Brasileira, que estabelece fronteiras à sua utilização, a partir de um
“círculo vicioso do preconceito linguístico” (BAGNO, 1998 p.93), sustentado por “mitos” (crenças)
capazes de produzirem estigmas e confusões interpretativas sobre o Corpo Surdo.
Ao retomar a relação com o conceito utilizado por Bagno (1998), criando um modelo
analítico para o problemática da inclusão das pessoas Surdas, como compreender o preconceito
linguístico a partir de uma perspectiva pautada nos usuários da Língua de Sinais Brasileira? E de
que maneira entender a influência dos “mitos” acerca da Língua de Sinais, e de como “o círculo
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vicioso do preconceito linguístico” pode ser observado no caso da LIBRAS? De que modo é
possível ter o entendimento do Corpo Surdo, a partir do uso da Língua visuo-espacial, e suas
expressões para além das fronteiras da aceitação social da língua sinalizada?
Essas perguntas orientaram a reflexão a respeito da problemática apresentada neste estudo,
relativo às pessoas com surdez e à língua surda. Quadros & Karnopp (2004, p.31) descrevem
pesquisas realizadas em diversos países, as quais objetivam “descrever, analisar e demonstrar o
status linguístico das línguas de sinais, desmistificando concepções inadequadas em relação a esta
modalidade de língua”. Para estas estudiosas, é possível falar em “mitos” relacionados às Línguas
de Sinas os quais reproduzem falsas concepções sobre o Corpo Surdo. As autoras supracitadas
classificam os “mitos” da LIBRAS em seis tipos, dos quais dois seguem:
Mito 4 – A língua de sinais seria um sistema de comunicação superficial, com
conteúdo restrito, sendo estética, expressiva e linguisticamente inferior ao sistema de
comunicação oral. [mito porque?] todavia, as línguas de sinais são línguas de
modalidade visuoespacial que apresentam uma riqueza de expressividade diferente
das línguas orais, incorporando tais elementos na estrutura dos sinais através de
relações espaciais, estabelecidas pelo movimento ou outros recursos linguísticos.
Mito 6 – As línguas de sinais, por serem organizadas espacialmente, estariam
representadas no hemisfério direito do cérebro, uma vez que esse hemisfério é
responsável pelo preocessamento de informação espacial, enquanto que o esquerdo,
pela linguagem. [mito porque?] Belligi e Klima (1990) apresentam resultados de
pesquisas com surdos com lesões nos hemisférios esquerdo e direito do cérebro. As
pesquisas mostraram que aqueles com lesão no hemisfério direito tinham condições
de processar todas as informações linguísticas das línguas de sinais. [...] tais estudos
indicam que as línguas de sinais são processadas no hemisfério esquerdo, assim
como quaisquer outras línguas. (QUADROS & KARNOPP, 2004. p. 36)
Pode parecer complicado pensar a relação da teoria de Bagno (1998) com a realidade
experimentada pelas pessoas Surdas em Viçosa. Mas, o que estamos buscando aqui é considerar, a
partir de um modelo analítico acerca da língua oral, um novo modelo para interpretar a utilização da
Língua Brasileira de Sinais na cidade de Viçosa; e o impacto da Língua oral-auditiva na vida das
pessoas Surdas pesquisadas.
Para se ter uma noção mais clara da relação dos mitos com o preconceito linguístico,
convém lembrar que “essas crenças insustentáveis produzem uma prática de mutilação cultural”
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(BAGNO, 1999, p. 98), como por exemplo, a de que todo Surdo é mudo. Algumas crenças e valores
sociais podem construir um tipo de preconceito social, diretamente, relacionado ao Corpo Surdo e
sua língua própria. Alguns valores ouvintes ganharam força a partir da aplicação de metodologias
educacionais e clínicas, como as de “procedimentos de controle e cura da deficiência por meio de
terapias da fala que submetiam aqueles que eram surdos a um duro processo de normalização e de
disciplinamento” (LOPES, 2007, p. 48).
Um disciplinamento do corpo direcionado pelo preconceito lingüístico, seguindo
perspectivas padronizadoras dos sujeitos. No entanto, como apontam algumas pesquisas
(QUADROS & KARNOPP, 2004) não há comprovações de que a pessoa com surdez desempenha
funções cerebrais diferentes, pois as modalidades tanto ouvinte quando visual servem aos mesmos
propósitos e funções: relativos à faculdade da Linguagem na comunicação humana. Ao levar em
conta isto, fica fácil admitir que: quando falamos em “corporalidade” e “corporificar experiência”,
estamos falando dos diferentes modos e visões de mundo (CSORDAS, 20008). Portanto, devemos
considerar as experiências de mundo dos sujeitos Surdos, extremamente importantes para refletir
sobre o Corpo Surdo. O Corpo que se comunica por imagens, o Corpo que se pensa por imagens.
Este é o cerne de nossa reflexão – a existência do Preconceito Linguístico em relação à estrutura da
Língua Brasileira de Sinais, e, consequentemente, em relação à corporalidade (Embodiment) do
sujeito surdo na cidade de Viçosa.
Considerações finais
O presente estudo parte da concepção de que o corpo é locus de cultura. Uma perspectiva
que considera o corpo, significado a partir das experiências corpóreas com base na maneira de ser e
estar no mundo, e a partir de percepções subjetivas de cada corpo sujeito. Apesar disso, a Surdez
observada por este viés não poderia ser considerada “deficiência” do ponto de vista de uma
incapacidade do corpo humano, mas sim de uma “diferença” no corpo e na forma como se
comunica. A contribuição do nosso estudo reflete a luz das ideias de Bagno a respeito da existência,
nos dias de hoje, de um tipo de preconceito presente na sociedade dos ouvintes e no modo como
estes interpretam e percebem as pessoas surdas, preconceito este, que origina de uma visão limitada
sobre o Corpo Surdo, onde através de mitos/crenças financiam mecanismos sociais que perpetuam a
exclusão social das pessoas com surdez, caso não se adapte as exigências sociais da Língua Oral.
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Nesse sentido, a modalidade linguistica oral-auditiva suprime a modalidade visuo-espacial,
influindo diretamente no processo de estigmatização dos Corpos Surdos e da LIBRAS.
A metodologia que amparou a construção do estudo teve como referencial os dados
coletados com pesquisas de cunho etnográficos contando como instrumentos de coleta, entrevistas
rasas e aprofundadas, observação participante e diário de campo. Este tipo de pesquisa torna-se
relevante, uma vez que, o campo da Antropologia Linguística e do Corpo no Brasil encontra-se em
processo de consolidação assim como a Língua Brasileira de Sinais.
Olhar para a Surdez com apenas nossa visão de ouvinte, pode criar interpretações limitadas
acerca da real percepção do sujeito Surdo. Se uma relativização não acontece, o preconceito
lingüístico cria limitações sociais, e não físicas, a respeito do Corpo Surdo; este preconceito surge a
partir das interações face a face, construídas com base no estigma da “deficiência” em relação ao
Corpo Surdo e a utilização de sua Língua própria. Assim, quando pensamos no corpo não
fragmentado entre mente e corpo, mas sim, em um todo integrado que captam através do imagético
multissensorial dos sentidos do corpo, capaz de significar sua existência enquanto sujeito de cultura.
O Preconceito Linguistico em relação a Língua Brasileira de Sinais está relacionado com a
estigmatização do Corpo Surdo, coexistindo engenhosamente através de mecanismos de exclusão
social criados pelo grupo que o estigmatiza.
Para compreender a Surdez como diferença cultural, significa dizer que a Língua de Sinais é
uma língua natural dos Surdos. Entretanto, existe ainda hoje, uma dificuldade no reconhecimento de
seu status linguístico nos espaços educativos e sociais, principalmente se pensarmos que as
conquistas relativas aos direitos dos Surdos, não se deram de forma homogênea nas diferentes
regiões do país, como observamos na cidade de Viçosa, situada na Zona da Mata. Enfatizamos, que
a discussão traçada acerca do preconceito linguístico relativo a LIBRAS, está ligada a sua
manifestação através de sua modalidade linguística. A Língua Brasileira de Sinais, embora
reconhecida legalmente como uma segunda língua oficial, ainda, não é utilizada por todos os surdos
de Viçosa, pois muitos se encontram isolados linguisticamente, se comunicando somente com a
família a partir de sinais caseiros.
A padronização social da Língua Portuguesa e consequentemente de sua modalidade oralauditiva, vem construindo imaginários sociais capazes de olhar as pessoas com surdez como um
problema clínico e educacional a ser corrigido. Surge daí, esquemas de controle e condutas que
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estabelecem fronteiras à sua utilização, idealizadas por “mitos” que auxiliam na estigmatização do
diferente, por desconhecer sua percepção, sentido e significação de mundo. Um agravante sobre a
temática do “preconceito linguistico” pensada para a LIBRAS em comparação ao uso dado por
Bagno: é pensar que algumas crenças e valores sociais com base numa padronização oralista,
contribuem para o tipo de preconceito social que discutimos, que diretamente, está relacionado ao
corpo do sujeito surdo inserido na cidade de Viçosa.
Referências
ASSIS, César Augusto de. A particularidade étnico-linguística como uma normatividade da surdez.
In: Entre a Deficiência e a Cultura: análise etnográfica de atividades missionária com surdos. USP,
tese defendida no curso de pós-graduação em Antropologia Social, São Paulo, 2010.
BAGNO, Marcos. Preconceito linguistico: o que é, como se faz. 49ª Ed. Loyola, Ipiranga, SP,
1999.
CAPOVILLA, F. C. Filosofias educacionais em relação ao surdo: do oralismo à comunicação total
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