III SEMINÁRIO INTERNACIONAL ENLAÇANDO SEXUALIDADES 15 a 17 de Maio de 2013 Universidade do Estado da Bahia – Campus I Salvador - BA PRECONCEITO LINGUÍSTICO E A LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS André Luis Santos de Souza1 Ana Luisa Borba Gediel2 Roselia Ap. Gonçalves3 RESUMO: Este artigo pretende refletir, amparado as ideias do Filólogo Marcos Bagno em seu livro “Preconceito Linguístico: o que é, como faz” e nos estudos da Língua de Sinais, a realidade experienciada pelas pessoas surdas na cidade de Viçosa, MG. Nosso objetivo é discutir como a modalidade de língua oral-auditiva impacta na modalidade de língua visuo-espacial. Para tanto, convidamos você a exercitar conosco uma transposição linguística ao longo do texto, a fim de pensar na possível existência de um tipo de preconceito social, nem sempre visível: o preconceito linguístico, relativo às Línguas de Sinais, e, neste caso à Língua Brasileira de Sinais, reconhecida pelo decreto de lei n˚. 10.436/02 como segunda língua oficial do Brasil. Partiremos da perspectiva de que a surdez vista como “deficiência” está relacionada com uma construção social com base numa visão de mundo estreitada que desconhece as potencialidades comunicativas do corpo surdo. Palavras-chaves: Corpo Surdo; Exclusão Social; Libras; Preconceito Linguístico; Transposição Linguística. De início, gostaríamos de chamar a atenção para o cuidado que devemos ter ao longo do texto para, em hipótese nenhuma, confundir as línguas Portuguesa e LIBRAS; e considerar suas particularidades estruturais. Convidamos você a pensar na dimensão do preconceito linguístico, como por exemplo, explorado pelo Filólogo4 Marcos Bagno no livro “Preconceito Linguístico: o que é, como faz”, publicado em 1999 pela editora Loyola. Tal escolha se justifica por nossa afinidade com a discussão contida no livro que remete ao preconceito linguístico, problemáticas sociais de preconceitos formulados a partir da gramática normativa da língua brasileira falada e no 1 Estudante do 7˚período do curso de Licenciatura em Ciências Sociais na Universidade Federal de Viçosa, MG, voluntário da Pesquisa Sinais Como Nomes Próprios: significados corporais a partir das especificidades da Língua de Sinais para as Comunidades Surdas e Bolsista FUNARBIC – Bolsa de Iniciação Científica da Fundação Arthur Bernardes. Email: [email protected] 2 Coordenação e Orientação dos projetos supracitados. Professora Adjunta II do Departamento de Letras da UFV, Drª. em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Brasil. Email: [email protected] 3 Revisão Textual. Professora de Língua Portuguesa e Especialista em Educação de Jovens e Adultos, pelo IF-SC. [email protected] 4 O dicionário Houaiss da Língua Portuguesa define filologia como “o estudo científico do desenvolvimento de uma língua ou de famílias de línguas, em especial a pesquisa de sua história morfológica e fonológica baseada em documentos escritos e na crítica dos textos redigidos nessas línguas. III SEMINÁRIO INTERNACIONAL ENLAÇANDO SEXUALIDADES 15 a 17 de Maio de 2013 Universidade do Estado da Bahia – Campus I Salvador - BA modo como esta é ensinada nas escolas. Neste sentido, a reflexão está pautada em uma transposição de linguagem, o que significa dizer, adaptar as ideias de Bagno pensadas em relação à Língua Portuguesa, em uma mesma situação de preconceito social, no que se refere à Língua Brasileira de Sinais - LIBRAS, oficialmente reconhecida pelo decreto de lei n˚. 10.436/02 que a institui como a segunda língua oficial do Brasil. A discussão aqui não está centrada nos aspectos normativos gramaticais; tampouco, discutir questões fonéticas ou criticar a utilização social histórica-política de que deriva a construção padrão de uma Língua5. E sim, realizar um paralelo entre as questões tratadas por Bagno em seu livro, ao que tange o uso da Língua Portuguesa e sua prática social; com a preocupação de percorrer o caminho da estrutura linguística da LIBRAS na sua trajetória social, e de como esta interage com a Língua padrão oral, utilizada pelos ouvintes de Viçosa. Tais noções são amparadas pela pesquisa etnográfica, realizada junto às pessoas Surdas da cidade de Viçosa – MG, a qual é desenvolvida pelo Departamento de Letras, da Universidade Federal de Viçosa e com bolsa FUNARBIC/PPGUFV. O viés tratado por Bagno, em relação aos mitos da Língua Portuguesa pode ser usado na Língua de Sinais, ao entendê-los como artifícios capazes de manter funcionado um “circulo vicioso do preconceito linguístico” (BAGNO, 1999, p. 93). Entretanto, não sejamos ingênuos em pensar que os mesmos mitos podem ser verificados na LIBRAS, não é este o caso; porque, quando falamos em mitos acerca da Língua de Sinais (QUADROS & KARNOPP, 2004; GESSER, 2009), temos que considerar a diferença entre a modalidade linguística oral-auditiva da modalidade vísuoespacial. Este é o ponto para iniciarmos essa conversa: como podemos pensar o “preconceito” a partir da perspectiva da modalidade linguística oral-auditiva em relação à modalidade visuoespacial? Refletindo a respeito da existência, nos dias de hoje, de um tipo de preconceito presente na sociedade dos ouvintes e no modo como estes interpretam e percebem as pessoas surdas – que chamaremos de “preconceito linguístico” em relação à Língua de Sinais, que surge a partir de crenças insustentáveis, “fruto de uma visão de mundo estreita, inspiradas em mitos e superstições que tem como objetivo perpetuar os mecanismos de exclusão social” (BAGNO, 1999, p.12.); 5 Trata-se da transposição dos conceitos linguísticos tratados na Língua Portuguesa – especialmente daqueles discutidos por Bagno (1998) -, para a Língua de Sinais. III SEMINÁRIO INTERNACIONAL ENLAÇANDO SEXUALIDADES 15 a 17 de Maio de 2013 Universidade do Estado da Bahia – Campus I Salvador - BA Assim, ideias turvas ou distorcidas do corpo e/ou da língua se cristalizam a partir dos mitos, camuflando a ocorrência da manifestação do preconceito com relação ao Corpo e a Língua Surda6. Contrapondo essa visão de mundo estreitada, a concepção sustentada em nosso estudo, parte da perspectiva que considera o Corpo e a Língua como lócus de cultura (CSORDAS, 2008). Assim, os mitos relacionados a LIBRAS são diferentes e mais perversos do que os mitos citados por Bagno (2009) em relação a Língua Portuguesa. Estes, muitas vezes, estão para além das questões linguísticas, pois perpetuam uma exclusão e um desconhecimento do indivíduo social, que assume uma postura estigmatizada pelo outro e perde sua identidade pessoal (GOFFMAN, 1988). O preconceito, de um modo geral, deriva do não reconhecimento das diferenças, sustentado por ideologias dominantes (FOUCAULT, 1997). A partir das pontuações realizadas acima, discorreremos acerca dos caminhos seguidos para a realização do artigo, desde o enfoque metodológico e os passos iniciais da pesquisa até a discussão teórica, a qual foi amparada por perspectivas teóricas advindas de diferentes campos do saber. I – Metodologia utilizada Por que pensar a realidade surda? Este artigo surge a partir de reflexões proporcionadas pelos dados obtidos na pesquisa “Sinais como Nomes Próprios”, e a inserção inicial no campo por meio da pesquisa de iniciação científica “A constituição do Sujeito Surdo a partir da LIBRAS e das Experiências Corpóreas nas Instituições Religiosas”, vinculadas ao Departamento de Letras, da UFV, entre os anos de 2011 e 2013. Ambas pesquisas tem caráter qualitativo, embasado nos princípios metodológicos da etnografia. Sendo assim, utilizamos da observação participante como ferramenta de pesquisa, tendo o diário de campo “como principal instrumento” (MINAYO, 2010, p. 70). O trabalho de campo, que consolida esta técnica de pesquisa, conta com observações diretas das práticas, hábitos e visões de mundos relativos à realidade estudada, não se limitando apenas a isto; ainda, conta com a 6 A palavra Surdo, com a inicial em letra maiúscula, é utilizada com respaldo em Padden & Humphries (1998) que considera a pessoa pertencente a um grupo ou comunidade surda, identificada culturalmente por seus pares, que usufrui da Língua de Sinais. Já a palavra surdo com inicial em minúscula refere-se ao uso geral, sem necessariamente especificar a identidade de um grupo. III SEMINÁRIO INTERNACIONAL ENLAÇANDO SEXUALIDADES 15 a 17 de Maio de 2013 Universidade do Estado da Bahia – Campus I Salvador - BA “entrevista” como técnica privilegiada de comunicação - uma conversa com finalidades (MINAYO, 2010). Antes de nossa entrada a campo, foi realizado um levantamento bibliográfico que melhor se adaptasse a nossa pesquisa, depois disto a equipe de pesquisa debateu os referenciais bibliográficos por meio de um grupo de estudos. Isso nos preparou para iniciar a etapa de investigação empírica das vivências Surdas da cidade de Viçosa, MG. O passo seguinte foi entrevistar pessoas ouvintes e intérpretes da LIBRAS, que conheciam as pessoas Surdas que estávamos procurando. Nessa primeira etapa, conversamos em dois momentos diferentes com cinco pessoas, sendo uma surda. Em um primeiro momento, uma entrevista rasa e, no segundo momento, uma entrevista exploratória com base nas informações coletadas anteriormente. Minayo (2010) categoriza a primeira como um instrumento inicial de coleta de dados, que sugere o reconhecimento do campo e da construção de possíveis indagações, as quais serão remetidas à segunda entrevista, realizada já com certo direcionamento, com base nas percepções dos atores sociais envolvidos na pesquisa. As entrevistas foram realizadas por dois pesquisadores, sendo gravadas, transcritas e analisadas discursivamente. A partir das entrevistas com os intérpretes ouvintes, conseguimos mapear algumas pessoas com Surdez, que nos possibilitou prosseguir na fase exploratória do campo. Assim, chegamos ao encontro de quatro Surdos, os quais denominamos de lideranças Surdas, com relação à utilização e ensino da LIBRAS em Viçosa. Além disso, podem ser mencionados como líderes políticos e/ou religiosos, instruídos com relação aos direitos dos Surdos e a causa de uma minoria cultural etnicolinguistica. Devido à pesquisa estar em andamento, somente duas entrevistas com os líderes surdos foram realizadas. Desse modo, os dados aqui apresentados incluem uma base incipiente da pesquisa de campo até o momento, a qual inspirou a discussão da aplicação do preconceito linguístico na Língua de Sinais. II – Preconceito linguístico e as experiências corporais: como acontece? Ao levar em consideração a reflexão iniciada acerca do conceito “preconceito lingüístico”, utilizado por Bagno, que “se baseia na crença de que só existe uma única língua portuguesa digna deste nome e que seria a língua ensinada nas escolas” (BAGNO, 1999, p. 28). Transpondo esta ideia para se pensar a realidade vivenciada pelos Surdos e na existência de certos estigmas em relação ao III SEMINÁRIO INTERNACIONAL ENLAÇANDO SEXUALIDADES 15 a 17 de Maio de 2013 Universidade do Estado da Bahia – Campus I Salvador - BA Corpo Surdo7, que é vítima de preconceitos sociais normalizadores, considerando estes sujeitos, desviantes de uma conduta padrão, definida e normatizada pelo grupo em maior número de pessoas (GOFFMAN, 1988), no caso as pessoas ouvintes versus as pessoas com surdez. Esses preconceitos sociais resultam da concepção da Surdez como desvio da normalidade, que deve ser corrigido pedagogicamente e medicamentosamente. Assim, o corpo surdo não é considerado com potencialidades linguísticas diferenciadas. O que estamos querendo refletir neste tópico, diz respeito às diferenças na modalidade da comunicação humana e suas infinitas formas de manifestação nas variadas formas de representação e significação de mundo (GEERTZ, 2008). Nesta perspectiva, os sujeitos surdos possuem as mesmas capacidades comunicativas de os sujeitos ouvintes (QUADROS & KARNOPP, 2004). Desta forma quando pensamos em “preconceito linguístico”, relacionado a LIBRAS, estamos querendo dizer que a Surdez, vista como “deficiência”, tem a ver com uma construção social inspirada em uma visão de mundo ouvinte acerca do corpo humano. Olhar para a Surdez com apenas nossa visão de ouvinte pode criar interpretações equivocadas acerca da real percepção do sujeito surdo sobre o mundo, observado de seu ponto de vista. Se uma relativização não acontece, o preconceito lingüístico cria limitações sociais, e não físicas, a respeito da pessoa surda, contrapondo os objetivos de nosso estudo, que considera o corpo como sujeito de cultura, conceituado com base na “corporalidade”, por meio da experimentação de fazer-se humano (CSORDAS, 2008). Para finalizar este tópico, gostaríamos de ressaltar que nosso exercício reflexivo é pensar como surgem os preconceitos linguísticos a partir de interações face a face, em determinados grupos de pessoas, os quais se comunicam por meio de diferentes línguas. Ademais, a proposta do estudo é pensar o preconceito linguístico em relação à Língua de Sinais Brasileira, ou melhor, relacionado à estigmatização do corpo Surdo pela maioria das pessoas ouvintes, inseridas na sociedade viçosense. O corpo aqui é discutido como solo existencial do sujeito e da cultura (CSORDAS, 2008). E sendo assim, refletiremos os sentidos atribuídos ao mundo percebido a partir das experiências corpóreas do sujeito surdo na cidade de Viçosa, Minas Gerais. Historicamente, podemos verificar e observar que a Surdez é vista como uma “deficiência” (DINIZ, 2003). Isso gera limitações e traumas psicossociais, a partir de práticas sociais de 7 o corpo entendido como sujeito de cultura, em particular utilizamos da teoria de Thomas Csordas, considerando o corpo como recurso metodológico na antropologia social através do conceito de “embodiment”. III SEMINÁRIO INTERNACIONAL ENLAÇANDO SEXUALIDADES 15 a 17 de Maio de 2013 Universidade do Estado da Bahia – Campus I Salvador - BA constantes tentativas de correção do Corpo Surdo, direcionando-o para a normalidade deste, que seria a do ouvinte - na tentativa de fazer a pessoa surda se adequar a língua oral dominante e que, influenciadas pelas metodologias educacionais, como o Oralismo, percebem a condição da Surdez como uma disfunção e incapacidade do corpo (CAPOVILLA, 2000). Contrapondo a esta concepção acerca da surdez, nosso estudo pretende propor olhar para a surdez não por meio da falta, mas, sim, da diferença. Lopes, (2007. p. 18) diz, a esse respeito que é preciso atentar para “narrativas surdas a partir de um entendimento que não é aquele marcado pelas práticas clínicas ou pela diferenciação entre deficientes e não-deficientes”. Então, a “deficiência” nessa lógica é um preconceito linguístico, manifestado pelos mecanismos de informações sociais, idealizados com base numa visão limitada acerca do corpo humano, centrada na “corporalidade” do sujeito ouvinte? É preciso pensar com mais calma a respeito de possíveis respostas para esta indagação; uma afirmação não deve ser dita tão rapidamente. É preciso conceber antes a condição dos Surdos viçosenses, que, a maioria vive isolado linguisticamente e, em alguns casos, não acessam os serviços públicos básicos por dificuldades de comunicação. A partir disso, convém ressaltar que o entendimento acerca da ausência da audição traz visões de mundo divergentes a partir da perspectiva da “deficiência” e da “diferença”. Estas estão amparadas por sentidos que se contrapõem, de um lado biológico e do outro sociocultural respectivamente. No primeiro sentido, a condição da Surdez é vista como uma disfunção e uma incapacidade do corpo biológico; já no segundo, o Surdo/a é percebido, enquanto minoria etnilinguística (SILVA, 2008). O Preconceito Linguistico em relação a Língua de Sinais Brasileira relaciona-se com a estigmatização do Corpo Surdo, coexistindo engenhosamente através de mecanismos de exclusão social. III – O que é Língua Brasileira de Sinais? A LIBRAS possui um histórico de lutas pelos surdos, por direitos civis, políticos e sociais, fortemente organizadas e demandadas pelo movimento surdo. Demandas estas, sustentadas pelo discurso das autodenominadas comunidades surdas, principalmente, na região Sul e Sudeste do país. As reivindicações, pautadas no discurso desenvolve o argumento de um grupo, que não mais se via com deficiência, mas sim com identidade culturalmente diferente, que possui uma língua III SEMINÁRIO INTERNACIONAL ENLAÇANDO SEXUALIDADES 15 a 17 de Maio de 2013 Universidade do Estado da Bahia – Campus I Salvador - BA própria. Um grupo social que começa a se autodenominar, a partir do final da década de oitenta, no Brasil, como “grupo etnicolinguístico minoritário”. As lutas pelo reconhecimento da Língua de Sinais nas escolas, pelo reconhecimento da comunidade Surda e pelo fim de práticas oralistas nos trabalhos com sujeitos Surdos, ocuparam o cenário educacional com maior expressão acadêmica, social e política, a partir do final da década de oitenta e início da de noventa (LOPES, 2007). Neste sentido, entender a Surdez como uma diferença cultural significa dizer que a Língua de Sinais é uma língua natural dos Surdos. Entretanto, existe ainda hoje, uma dificuldade de reconhecimento de seu status linguístico “em muitos espaços educativos e sociais [...], pois as conquistas não ocorreram de forma homogênea nas diferentes regiões brasileiras” (LOPES, 2007. p. 26). Para os estudiosos que iniciaram os estudos acerca da Surdez e da Língua de Sinais, por volta dos anos 60, como Stoke (1965), por exemplo, definem esta como língua natural, pois surge espontaneamente e se configura estruturalmente como as línguas faladas, cumprindo os mesmos papéis e funções no processo de formação cognitiva do indivíduo. Além disso, há uma utilização afetiva desse sistema, com fim social. Assim, [...] as línguas de sinais são, portanto, consideradas pela linguística como línguas naturais ou como um sistema linguístico legítimo e não como um problema do Surdo ou como uma patologia da Linguagem (QUADROS & KARNOPP, 2004). A partir desses estudos, esse campo de conhecimento tem ganhado contornos significativos, no Brasil, as demandas advindas das comunidades surdas e a formação de pesquisadores atuantes nas universidades brasileiras repercutiram na política nacional, instituindo a LIBRAS pelo decreto de lei n˚. 10.436 de 2002, como a segunda língua oficial do Brasil. Este evento ganhou destaque a partir da inclusão obrigatória da disciplina de LIBRAS nos cursos superior de licenciatura por meio da Lei n˚. 5626 de 2005; e com o XV Congresso Mundial de Pessoas Surdas realizado em Madri, entre os dias 16 e 22 de julho de 2007, reafirmando ter os Surdos os mesmos direitos humanos de os demais grupos sociais (LOPES, 2007). Fecharemos este tópico, trazendo novamente a problemática de nosso estudo: refletir a cerca da existência de um tipo de preconceito social, nem sempre visível, relacionado à modalidade linguística utilizada pelos sujeitos surdos. Para tanto, quando relacionamos a discussão acerca do preconceito linguístico, direcionando-o à LIBRAS, enfatizamos as manifestações sociais que III SEMINÁRIO INTERNACIONAL ENLAÇANDO SEXUALIDADES 15 a 17 de Maio de 2013 Universidade do Estado da Bahia – Campus I Salvador - BA surgem a partir do uso de sua modalidade corpórea. A Língua Brasileira de Sinais, embora reconhecida legalmente como uma segunda língua nacional, ainda, não é utilizada por todos os surdos de Viçosa, pois muitos se encontram isolados linguisticamente, se comunicando somente com a família a partir de sinais caseiros. Podemos concluir que, para muitas pessoas Surdas, a LIBRAS é vista como um instrumento cultural importante e fundamental para se expressarem, se organizarem politicamente e participarem das esferas sociais que constituem os espaços públicos de interação social na sociedade viçosense, ou seja, trata-se de uma “materialização da própria cultura surda” (LOPES, 2007. p. 28). Entretanto todos os esforços para incluir a minoria linguistica Surda, de nada adiantam, se a sociedade dos ouvintes tratar o Surdo como um descapaz e não como um sujeito linguisticamente diferente. IV – Por que falar em preconceito linguístico acerca da LIBRAS? Pretendemos neste momento sintetizar nossa reflexão sobre o conceito “preconceito lingüístico” utilizado por Marcos Bagno (1998) como um tipo de preconceito social. Que em relação a LIBRAS, gera uma problemática social a partir das interações vivenciadas e significadas pelos sujeitos em um campo de interações face a face, que são capazes de incluir ou excluir indivíduos de um grupo social (GOFFMAN, 2010). Uma padronização da Língua Portuguesa de modalidade oral-auditiva tem a capacidade de construir imaginários sociais capazes de olhar as pessoas com Surdez como um problema a ser corrigido. Nesta direção, o sujeito surdo passa a se inserir na sociedade dos ouvintes, não pela experiência de mundo surda, mas, sim, pela ouvinte. Contudo, surge o preconceito linguístico relativo à Língua de Sinais Brasileira, que estabelece fronteiras à sua utilização, a partir de um “círculo vicioso do preconceito linguístico” (BAGNO, 1998 p.93), sustentado por “mitos” (crenças) capazes de produzirem estigmas e confusões interpretativas sobre o Corpo Surdo. Ao retomar a relação com o conceito utilizado por Bagno (1998), criando um modelo analítico para o problemática da inclusão das pessoas Surdas, como compreender o preconceito linguístico a partir de uma perspectiva pautada nos usuários da Língua de Sinais Brasileira? E de que maneira entender a influência dos “mitos” acerca da Língua de Sinais, e de como “o círculo III SEMINÁRIO INTERNACIONAL ENLAÇANDO SEXUALIDADES 15 a 17 de Maio de 2013 Universidade do Estado da Bahia – Campus I Salvador - BA vicioso do preconceito linguístico” pode ser observado no caso da LIBRAS? De que modo é possível ter o entendimento do Corpo Surdo, a partir do uso da Língua visuo-espacial, e suas expressões para além das fronteiras da aceitação social da língua sinalizada? Essas perguntas orientaram a reflexão a respeito da problemática apresentada neste estudo, relativo às pessoas com surdez e à língua surda. Quadros & Karnopp (2004, p.31) descrevem pesquisas realizadas em diversos países, as quais objetivam “descrever, analisar e demonstrar o status linguístico das línguas de sinais, desmistificando concepções inadequadas em relação a esta modalidade de língua”. Para estas estudiosas, é possível falar em “mitos” relacionados às Línguas de Sinas os quais reproduzem falsas concepções sobre o Corpo Surdo. As autoras supracitadas classificam os “mitos” da LIBRAS em seis tipos, dos quais dois seguem: Mito 4 – A língua de sinais seria um sistema de comunicação superficial, com conteúdo restrito, sendo estética, expressiva e linguisticamente inferior ao sistema de comunicação oral. [mito porque?] todavia, as línguas de sinais são línguas de modalidade visuoespacial que apresentam uma riqueza de expressividade diferente das línguas orais, incorporando tais elementos na estrutura dos sinais através de relações espaciais, estabelecidas pelo movimento ou outros recursos linguísticos. Mito 6 – As línguas de sinais, por serem organizadas espacialmente, estariam representadas no hemisfério direito do cérebro, uma vez que esse hemisfério é responsável pelo preocessamento de informação espacial, enquanto que o esquerdo, pela linguagem. [mito porque?] Belligi e Klima (1990) apresentam resultados de pesquisas com surdos com lesões nos hemisférios esquerdo e direito do cérebro. As pesquisas mostraram que aqueles com lesão no hemisfério direito tinham condições de processar todas as informações linguísticas das línguas de sinais. [...] tais estudos indicam que as línguas de sinais são processadas no hemisfério esquerdo, assim como quaisquer outras línguas. (QUADROS & KARNOPP, 2004. p. 36) Pode parecer complicado pensar a relação da teoria de Bagno (1998) com a realidade experimentada pelas pessoas Surdas em Viçosa. Mas, o que estamos buscando aqui é considerar, a partir de um modelo analítico acerca da língua oral, um novo modelo para interpretar a utilização da Língua Brasileira de Sinais na cidade de Viçosa; e o impacto da Língua oral-auditiva na vida das pessoas Surdas pesquisadas. Para se ter uma noção mais clara da relação dos mitos com o preconceito linguístico, convém lembrar que “essas crenças insustentáveis produzem uma prática de mutilação cultural” III SEMINÁRIO INTERNACIONAL ENLAÇANDO SEXUALIDADES 15 a 17 de Maio de 2013 Universidade do Estado da Bahia – Campus I Salvador - BA (BAGNO, 1999, p. 98), como por exemplo, a de que todo Surdo é mudo. Algumas crenças e valores sociais podem construir um tipo de preconceito social, diretamente, relacionado ao Corpo Surdo e sua língua própria. Alguns valores ouvintes ganharam força a partir da aplicação de metodologias educacionais e clínicas, como as de “procedimentos de controle e cura da deficiência por meio de terapias da fala que submetiam aqueles que eram surdos a um duro processo de normalização e de disciplinamento” (LOPES, 2007, p. 48). Um disciplinamento do corpo direcionado pelo preconceito lingüístico, seguindo perspectivas padronizadoras dos sujeitos. No entanto, como apontam algumas pesquisas (QUADROS & KARNOPP, 2004) não há comprovações de que a pessoa com surdez desempenha funções cerebrais diferentes, pois as modalidades tanto ouvinte quando visual servem aos mesmos propósitos e funções: relativos à faculdade da Linguagem na comunicação humana. Ao levar em conta isto, fica fácil admitir que: quando falamos em “corporalidade” e “corporificar experiência”, estamos falando dos diferentes modos e visões de mundo (CSORDAS, 20008). Portanto, devemos considerar as experiências de mundo dos sujeitos Surdos, extremamente importantes para refletir sobre o Corpo Surdo. O Corpo que se comunica por imagens, o Corpo que se pensa por imagens. Este é o cerne de nossa reflexão – a existência do Preconceito Linguístico em relação à estrutura da Língua Brasileira de Sinais, e, consequentemente, em relação à corporalidade (Embodiment) do sujeito surdo na cidade de Viçosa. Considerações finais O presente estudo parte da concepção de que o corpo é locus de cultura. Uma perspectiva que considera o corpo, significado a partir das experiências corpóreas com base na maneira de ser e estar no mundo, e a partir de percepções subjetivas de cada corpo sujeito. Apesar disso, a Surdez observada por este viés não poderia ser considerada “deficiência” do ponto de vista de uma incapacidade do corpo humano, mas sim de uma “diferença” no corpo e na forma como se comunica. A contribuição do nosso estudo reflete a luz das ideias de Bagno a respeito da existência, nos dias de hoje, de um tipo de preconceito presente na sociedade dos ouvintes e no modo como estes interpretam e percebem as pessoas surdas, preconceito este, que origina de uma visão limitada sobre o Corpo Surdo, onde através de mitos/crenças financiam mecanismos sociais que perpetuam a exclusão social das pessoas com surdez, caso não se adapte as exigências sociais da Língua Oral. III SEMINÁRIO INTERNACIONAL ENLAÇANDO SEXUALIDADES 15 a 17 de Maio de 2013 Universidade do Estado da Bahia – Campus I Salvador - BA Nesse sentido, a modalidade linguistica oral-auditiva suprime a modalidade visuo-espacial, influindo diretamente no processo de estigmatização dos Corpos Surdos e da LIBRAS. A metodologia que amparou a construção do estudo teve como referencial os dados coletados com pesquisas de cunho etnográficos contando como instrumentos de coleta, entrevistas rasas e aprofundadas, observação participante e diário de campo. Este tipo de pesquisa torna-se relevante, uma vez que, o campo da Antropologia Linguística e do Corpo no Brasil encontra-se em processo de consolidação assim como a Língua Brasileira de Sinais. Olhar para a Surdez com apenas nossa visão de ouvinte, pode criar interpretações limitadas acerca da real percepção do sujeito Surdo. Se uma relativização não acontece, o preconceito lingüístico cria limitações sociais, e não físicas, a respeito do Corpo Surdo; este preconceito surge a partir das interações face a face, construídas com base no estigma da “deficiência” em relação ao Corpo Surdo e a utilização de sua Língua própria. Assim, quando pensamos no corpo não fragmentado entre mente e corpo, mas sim, em um todo integrado que captam através do imagético multissensorial dos sentidos do corpo, capaz de significar sua existência enquanto sujeito de cultura. O Preconceito Linguistico em relação a Língua Brasileira de Sinais está relacionado com a estigmatização do Corpo Surdo, coexistindo engenhosamente através de mecanismos de exclusão social criados pelo grupo que o estigmatiza. Para compreender a Surdez como diferença cultural, significa dizer que a Língua de Sinais é uma língua natural dos Surdos. Entretanto, existe ainda hoje, uma dificuldade no reconhecimento de seu status linguístico nos espaços educativos e sociais, principalmente se pensarmos que as conquistas relativas aos direitos dos Surdos, não se deram de forma homogênea nas diferentes regiões do país, como observamos na cidade de Viçosa, situada na Zona da Mata. Enfatizamos, que a discussão traçada acerca do preconceito linguístico relativo a LIBRAS, está ligada a sua manifestação através de sua modalidade linguística. A Língua Brasileira de Sinais, embora reconhecida legalmente como uma segunda língua oficial, ainda, não é utilizada por todos os surdos de Viçosa, pois muitos se encontram isolados linguisticamente, se comunicando somente com a família a partir de sinais caseiros. A padronização social da Língua Portuguesa e consequentemente de sua modalidade oralauditiva, vem construindo imaginários sociais capazes de olhar as pessoas com surdez como um problema clínico e educacional a ser corrigido. Surge daí, esquemas de controle e condutas que III SEMINÁRIO INTERNACIONAL ENLAÇANDO SEXUALIDADES 15 a 17 de Maio de 2013 Universidade do Estado da Bahia – Campus I Salvador - BA estabelecem fronteiras à sua utilização, idealizadas por “mitos” que auxiliam na estigmatização do diferente, por desconhecer sua percepção, sentido e significação de mundo. Um agravante sobre a temática do “preconceito linguistico” pensada para a LIBRAS em comparação ao uso dado por Bagno: é pensar que algumas crenças e valores sociais com base numa padronização oralista, contribuem para o tipo de preconceito social que discutimos, que diretamente, está relacionado ao corpo do sujeito surdo inserido na cidade de Viçosa. Referências ASSIS, César Augusto de. A particularidade étnico-linguística como uma normatividade da surdez. In: Entre a Deficiência e a Cultura: análise etnográfica de atividades missionária com surdos. USP, tese defendida no curso de pós-graduação em Antropologia Social, São Paulo, 2010. 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