Re es ssu um u mo m o Abstract Ab bsstra b ract Resumo Physical activity during pregnancy: review and recommendations Apesar das recomendações para a prática de exercícios físicos durante a gestação já estarem bem estabelecidas entre os profissionais de saúde, vários estudos vêm sendo realizados com objetivo de demonstrar que o exercício durante a gravidez é benéfico tanto para mãe como para o feto. Entretanto, existem controvérsias em relação a potenciais efeitos deletérios. Os principais questionamentos a respeito do tema dizem respeito ao parto prematuro e a redução do fluxo sanguíneo feto-placentário. O objetivo desta revisão é apresentar uma atualização sobre as recomendações da prática do exercício físico durante a gravidez e suas repercussões sobre os resultados maternos e fetais. Medline, Lilacs/SciELO e a Biblioteca Cochrane, foram consultadas usando os termos “exercício”, “atividade física”, “gestação” e “resultados perinatais”. AT U A L I Z A Ç Ã O Atividade física durante a gravidez: revisão e recomendações Melania Maria Ramos de Amorim1,2 Adriana Suely de Oliveira Melo3 Maria Aparecida Alves Cardoso3 Paula Lisiane de Assunção3 Palavras-chave Exercício Gravidez Resultados perinatais Keywords Exercise Pregnancy Perinatal outcome Although recommendations for practicing physical activity during pregnancy are a wellestablished practice among health careers, several studies have been conducted with the objective of demonstrate that exercises during pregnancy are beneficial to mother and baby. Notwithstanding, there are controversies about potential deleterious effects. The main questions about this issue are related to risk of preterm birth and reduction of fetal and placental blood flow. The objective of this review is to present the modern concepts and recommendations about physical activity during pregnancy and its repercussions on maternal and perinatal outcomes. Medline, Lilacs/Scielo and Cochrane Library were consulted using the keywords “exercise”, “physical activity”, “pregnancy” and “outcome assessment”. Instituto Materno-Infantil de Pernambuco Faculdade de Medicina/Universidade Federal de Campina Grande 3 Núcleo de Estudos e Pesquisas Epidemiológicas (NEPE)/Universidade Estadual da Paraíba 1 2 FEMINA | Agosto 2007 | vol 35 | nº 8 521 Atividade física durante a gravidez: revisão e recomendações Introdução O homem moderno vem cada vez mais discutindo a prática do exercício físico para além dos seus efeitos estéticos. Atualmente já são reconhecidos os efeitos benéficos do exercício para a saúde do indivíduo em todas as idades, sendo esta prática estratégia de promoção de saúde e prevenção de doenças. Nesse sentido, discutem-se os efeitos do exercício durante a gestação em relação à saúde materna e fetal. Até pouco tempo a prática de exercícios na gravidez não era estimulada, ao contrário era geralmente contra-indicada. Em 1985, recomendações do American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG) limitavam a intensidade e o tempo dos exercícios, com sessões durando 15 min ou menos. Revendo suas diretrizes a este respeito em 1994, o ACOG passou a recomendar a prática da atividade física regular durante a gestação, devendo ser desenvolvida desde que a gestante apresente condições apropriadas. Em 2002 o ACOG publicou novas recomendações sobre exercício regular e gravidez. A recomendação da prática de 30 min ou mais de exercício físico moderado ao dia, todos os dias, ou pelo menos três vezes na semana, passou a ser dirigida não apenas às mulheres que já praticavam exercício antes da gravidez, mas também àquelas sedentárias e com complicações clínicas ou obstétricas, após avaliação médica. Na mesma publicação o ACOG destacou ainda o papel do exercício para a prevenção e controle de doenças como diabetes gestacional. Em consonância com as orientações do ACOG, o CDC (Centers for Disease Control and Prevention) e o AmericanCollege of Sports Medicine (ACSM) têm recomendado para gestantes a realização de 30 min ou mais de exercício físico de moderada intensidade, preferencialmente todos os dias da semana. Para a maioria dos adultos saudáveis recomendam-se exercícios de maior intensidade, por um período de 20 a 60 min, três a cinco vezes na semana (Pate, 1995). Apesar da orientação para a realização de exercícios durante a gestação ser uma prática já estabelecida entre os profissionais de saúde, vários estudos vêm sendo realizados com objetivo de comprovar que o exercício durante a gravidez é saudável tanto para mãe como para o feto, porém existem controvérsias em relação aos efeitos benéficos e potenciais efeitos deletérios. Com o intuito de verificar o que na atualidade vem sendo discutido acerca dos efeitos do exercício durante a gestação sobre os resultados maternos e fetais, realizamos uma revisão de literatura usando como fonte os bancos de dados Medline, Lilacs/Scielo e a Biblioteca Cochrane. Os termos utilizados 522 FEMINA | Agosto 2007 | vol 35 | nº 8 foram “pregnancy and exercise”, “exercise and birth weight”, “exercise and weight gain”. Fisiologia do exercício na gravidez Alterações maternas na gravidez O organismo da mulher sofre intensas modificações estruturais e funcionais para suprir as necessidades do feto e preparar a mãe para o parto e puerpério imediato. Para que sejam, portanto, mantidos o crescimento fetal, placentário e dos tecidos maternos, é necessário um aumento do metabolismo basal materno, que se deve ao incremento em massa dos tecidos metabolicamente ativos e à intensificação dos trabalhos cardiovascular, renal e respiratório (IOM, 1990). • Alterações respiratórias – durante a gravidez, à medida que o volume intra-abdominal vai aumentando uma maior pressão interna resultante ocorre, acarretando uma elevação das cúpulas diafragmáticas, que associada à diminuição da complacência da parede torácica favorece a redução a) da capacidade funcional residual, b) do volume de reserva expiratório e c) do volume residual. Em resposta ao conseqüente aumento das concentrações do CO2 o organismo materno lança mão de uma hiperventilação como mecanismo protetor para o feto; o volume minuto aumenta aproximadamente 50%. • Alterações cardiovasculares – sob ação do sistema reninaangiotensina-aldosterona, um aumento do volume sanguíneo começa a ocorrer precocemente no primeiro trimestre, atingindo um máximo de 40 a 50% de aumento por volta da 30ª semana de gestação. Uma das funções desta alteração volumétrica é compensar a perda sangüínea durante o parto. Para corresponder a esta nova demanda o rendimento cardíaco aumenta conseqüente a uma hipertrofia ventricular esquerda; o débito cardíaco aumenta em torno de 30 a 50%. Por outro lado, devido à ação dos hormônios vasodilatadores e redução da resistência vascular periférica a pressão arterial diastólica cai acentuadamente entre a 12ª e a 26ª semanas de gestação voltando a subir em torno da 36ª. • Alterações músculo-esqueléticas e composição corporal – com o deslocamento progressivo do centro de gravidade, ocasionado pelo peso do abdome à frente, acentua-se a lordose lombar e a rotação externa dos quadris da gestante como mecanismo compensatório. A ação hormonal traz frouxidão às articulações sacro-ilíaca, sacrococcígea e sínfise púbica. O crescimento fetal, líquido amniótico, placenta, útero, tecido mamário e volume sanguíneo aumentados, bem como o acúmulo variável de líquido tecidual e tecido adiposo conferem à gestante um ganho ponderal em torno de 25% do peso pré-gestacional. Resposta materna e fetal aos exercícios Como resposta à prática regular de exercício físico, o organismo materno redistribui o débito cardíaco, com aumento Atividade física durante a gravidez: revisão e recomendações do fluxo para músculos e pele e redução para as vísceras. Tal resposta acarreta uma redução de cerca de 35% do fluxo sanguíneo útero-placentário. Como mecanismo protetor ocorre uma redistribuição do fluxo sanguíneo favorecendo placenta ao invés do miométrio, uma hemoconcentração e uma maior afinidade do sangue fetal ao oxigênio. Vale salientar que esta redução do fluxo é diretamente proporcional à intensidade do exercício e à massa muscular utilizada; uma vez cessado o exercício o fluxo retorna rapidamente ao normal. Outra preocupação com relação ao exercício físico seria o efeito na estimulação de noradrenalina, o que poderia aumentar a atividade uterina. Entretanto, estudos têm mostrando que mínima ou nenhuma mudança ocorre quando se monitoriza a atividade uterina durante o exercício físico (Artal et al., 1981). O exercício físico também promove uma queda dos níveis de glicose, que se mantém em níveis mais baixos por algum tempo após cessar as atividades. A magnitude da hipoglicemia pode ser maior nos casos de gravidez avançada, exercícios de baixa intensidade e prática de exercício nas duas primeiras horas após a refeição. Para se proteger da hipoglicemia, a placenta utiliza vias alternativas. Além das alterações nos níveis de glicose e no fluxo sanguíneo placentário já discutido acima, ocorre também, no início do exercício, uma taquicardia fetal como resposta a uma hipóxia transitória. Esta resposta seria um mecanismo protetor facilitando a transferência de oxigênio através da placenta, com redução da pressão do CO2. Bradicardia transitória poderá também ocorrer após o termino do exercício, provavelmente por reflexo vagal. Contra-indicações absolutas para exercício na gestação, de acordo com o ACOG • • • • • • • • • Doença cardíaca significante Doença pulmonar restritiva Incompetência istmo-cervical Gestação múltipla de risco para trabalho de parto prematuro Sangramento persistente no 2º ou 3º trimestre de gestação Placenta prévia Trabalho de parto prematuro durante a gestação atual Ruptura prematura das membranas Pré-eclampsia Sinais de alerta para suspender o exercício na gestação, de acordo com o ACOG • Sangramento vaginal • Dispnéia pós-exercício • Cefaléia • • • • • • • Dores no peito Parto prematuro Redução dos movimentos fetais Perda de líquido amniótico Vertigens Fraqueza muscular Dores ou edema nas panturrilhas Exercício físico submáximo, capacidade funcional materna e freqüência cardíaca fetal Em um ensaio clínico randomizado estudando 92 mulheres saudáveis com sobrepeso, observou-se um aumento na capacidade de exercício submáximo, sem riscos para a gestação, quando se praticava exercício físico três vezes por semana. O grupo controle realizou exercícios de relaxamento (Santos et al., 2005). Baciuk et al., 2005, observaram em um ensaio clínico aleatorizado e controlado, que a prática regular e moderada de hidroginástica não resultou em diferença entre as respostas materno-fetais dos dois grupos, com exceção de dois aspectos: o primeiro foi a menor necessidade de analgesia de parto para as mulheres que praticaram atividade física sistemática e o segundo consistiu em uma diferença na freqüência cardíaca fetal após o teste de esforço da gestante; os fetos do grupo de intervenção voltavam aos valores próximos do repouso em 15-20 min, enquanto que no grupo controle a recuperação era mais lenta. Em 2000, Macphail, ao realizar um estudo longitudinal com 23 mulheres ativas, aplicou um protocolo de teste máximo em cicloergômetro no terceiro trimestre de gestação com monitoramento da resposta cardíaca fetal. O exercício máximo no final da gravidez mostrou-se seguro para o feto. Exercício físico e ganho de peso materno O efeito do exercício físico no ganho de peso materno ainda não é consenso. Clapp e Little, 1995, encontraram que gestantes praticando atividade física durante o terceiro trimestre de gestação apresentavam redução na velocidade de ganho de peso com significante diminuição da gordura localizada, aferida através de cinco dobras subcutâneas. Em contrapartida, Horns et al., 1996, comparando primíparas sedentárias (n = 48) e praticantes de atividade física regular (n = 53) durante o último trimestre de gravidez, concluíram que a prática da atividade física não apresentava significante efeito sobre o ganho de peso materno, mas associava-se com a redução de edema, cãibra nas pernas e fadiga. FEMINA | Agosto 2007 | vol 35 | nº 8 523 Atividade física durante a gravidez: revisão e recomendações Prevedel et al., 2003, estudando dois grupos de gestantes, praticantes e não-praticantes de um programa de hidroterapia de intensidade moderada, verificaram que, entre as gestantes adeptas da hidroterapia os índices de massa magra aumentaram de modo significativo entre o início e o final da gestação e, apesar do aumento significativo de gordura absoluta, a proporção peso/gordura foi mantida (Tabela 1). Apesar dos resultados significantes, ressalvas podem ser feitas, devido ao método empregado para avaliação da composição corporal, uma vez que para a avaliação da mesma existem métodos mais sensíveis (DEXA e diluição isotópica). Exercício físico, crescimento fetal e peso ao nascer A saúde do feto sempre foi a principal preocupação com relação à prática de exercício físico. Um dos grandes receios seria a redistribuição do fluxo sangüíneo feto-placentário durante o exercício físico, o que poderia levar a uma hipóxia fetal transitória, com taquicardia fetal compensatória, podendo resultar, caso o efeito persista, em restrição de crescimento. Para evitar possíveis danos o feto utiliza mecanismos protetores, já mencionados acima. Não existem relatos ligando o exercício a estes resultados adversos. Kardel e Kase, 1998, ao estudarem dois grupos de gestantes, um praticante de atividade física moderada e outro de alta intensidade, não encontraram nenhuma diferença entre o peso dos recém-nascidos. O fato de não existir um grupo sedentário para comparar os achados talvez tenha mascarado alguma diferença. Em contrapartida, Hatch et al., em 1993, em uma coorte de 800 gestantes distribuídas em três grupos: praticantes com intensidade leve/moderada, praticantes com intensidade alta e não praticantes, observaram que as gestantes que se exercitavam durante os três trimestres tenderam a ter bebês com peso maior. Campbell e Mottola, 2001, em estudo de caso controle, no qual gestantes no terceiro trimestre realizaram exercício em diferentes intensidades, observaram que o risco de baixo peso ao nascer aumentou substancialmente em gestantes que praticavam exercício físico 5 vezes ou mais na semana. Em contrapartida, Bell e Palma, 2000, em ensaio clínico randomizado estudaram dois grupos de praticantes de exercício físico, um que permaneceu praticando exercício cinco vezes ou mais por semana e outro reduziu para três ou menos. Não houve diferença estatística significante em relação ao peso ao nascer nos dois grupos. Em um estudo de revisão sobre os efeitos do exercício materno sobre a oxigenação fetal e crescimento feto-placentário, Clapp, 2003, sugeriu que o efeito de um dado exercício sobre o crescimento fetal e peso ao nascer depende do tipo, freqüência, intensidade e duração do exercício, bem como do período da gravidez em que o exercício é realizado. Em outro estudo, o mesmo autor evidenciou que o exercício físico iniciado no início da gravidez aumenta a taxa de crescimento placentário, o volume da placenta no termo, além de aumentar de 20 a 25% a função placentária, com conseqüente incremento do peso ao nascer em cerca de 260 g e do comprimento em 1,2 cm (Clapp et al., 2001). Exercício físico e crescimento placentário Clapp et al., em 2000, através de ensaio clínico estudou dois grupos de gestantes (n = 46) que eram sedentárias antes da gravidez, sendo que um começou a se exercitar, outro não. Concluiu que iniciar um programa de exercícios durante a gestação favorecia o crescimento placentário. Em 2002, o mesmo autor testou a hipótese de que o volume de exercício em diferentes épocas da gravidez não tem efeito sobre o crescimento placentário em 75 mulheres previamente ativas, separadas em três grupos Tabela 1 - Média e desvio padrão (DP) dos índices da composição corporal (peso, massa magra, gordura absoluta e relativa) e capacidade cardiovascular (VO2 máx, volume sistólico e débito cardíaco) dos grupos controle e hidroterapia no início e final do programa. Composição corporal Peso corporal (kg)* Massa magra (kg)* Gordura absoluta(kg)* Gordura relativa (%)*,** Grupo controle Início Média ± DP 59.6 ± 15.1 44.0 ± 7.3 18.4 ± 6.2 28.8 ± 3.8 *p>0,05 – diferença não significativa nas comparações iniciais e finais entre os grupos. **p>0,05 – diferença significativa entre as avaliações iniciais e finais dentro do grupo controle. Reprodução autorizada por Prevedel et al. 524 FEMINA | Agosto 2007 | vol 35 | nº 8 Final Média ± DP 72.3 ± 13.8 49.5 ± 6.5 22.8 ± 7.7 30.7 ± 5.0 Grupo hidroterapia Início Final Média ± DP Média ± DP 58.2 ± 9.4 73.2 ± 10.9 44.3 ± 5.7 51.5 ± 5.3 18.9 ± 5.5 21.7 ± 6.1 29.9 ± 4.7 29.2 ± 4.4 Atividade física durante a gravidez: revisão e recomendações com diferentes volumes de exercício físico. O grupo de maior volume gerou crianças mais leves e magras. Altos volumes de exercício reduzem o crescimento placentário, enquanto que uma redução no volume de exercício aumenta o crescimento da placenta, com um ganho proporcional no peso fetal (massa magra e gordura). Exercício físico e diabetes gestacional Nos casos de diabetes gestacional o objetivo principal é manter a euglicemia, seja através de controle dietético isolado ou associado com insulinoterapia. Vários trabalhos vêm mostrando que a prática de exercício físico tem efeitos tanto agudo como em longo prazo na sensibilidade e secreção da insulina, e no metabolismo da glicose, tanto nas diabéticas como nas não-diabéticas (Horton, 1991). Zhang et al., 2006, em estudo prospectivo analisando 21.765 mulheres, dentre essas, 1.428 com diabetes gestacional, encontraram significante associação inversa entre atividade vigorosa e risco de diabetes gestacional. Além de forte evidência que atividade física regular antes da gravidez está associada com menor risco de diabetes gestacional. Rudra et al., 2006, em estudo de caso-controle, ao questionarem grávidas quanto à freqüência da prática de atividade física antes da gravidez, observaram que o risco de diabetes gestacional foi menor em mulheres que relataram vigorosa atividade física regular durante um ano antes da gravidez em relação àquelas que relataram negligência. Significante declínio na glicemia foi observado em gestantes com diabetes gestacionais que realizaram exercício físico, sendo este declínio maior em gestantes que praticavam exercício de moderada intensidade. Estes achados foram de um ensaio clínico onde avaliaram dois grupos de gestantes com diabetes gestacional, sem complicações e sem uso de insulina. O grupo de intervenção realizou exercício de baixa e moderada intensidade e o controle não realizou nenhum tipo de exercício (Avery e Walker, 2001). Exercício físico e pré-eclampsia Estudos epidemiológicos sugerem que exercício físico regular pode prevenir ou minimizar os efeitos da pré-eclampsia, estando associado com a redução de sua incidência. Hipóteses têm sido levantadas para tentar explicar este efeito protetor do exercício físico: 1) estímulo da vascularização e do crescimento placentário, 2) redução das substâncias oxidantes e 3) reversão da disfunção endotelial. Em estudo de caso-controle Rudra et al., 2005, compararam o nível de atividade física recreacional antes de engravidar e o risco de desenvolver pré-eclampsia, sendo 244 casos (pré-eclampsia) e 470 controles (normotensas). Foi observado que mulheres que praticavam atividade física vigorosa pré-gestacional tiveram 78% menos chance de desenvolver pré-eclampsia. Esta associação foi independente do peso pré-gestacional. Estudando a relação entre atividade física recreacional e o risco de desenvolver pré-eclampsia, em estudo de caso controle, sendo 201 casos e 383 controles, Sorensen et al., 2003, observaram que mulheres que praticavam alguma atividade física desde o início da gravidez reduziram o risco em 35% de ter pré-eclampsia. Exercício físico e fluxo sangüíneo uterino e fetoplacentário Estudos avaliando o efeito do exercício físico no fluxo sangüíneo uterino, placentário e fetal ainda são incipientes. A maioria dos estudos encontrados nas bases de dados da bibliografia em saúde refere-se à avaliação do fluxo sanguíneo pós-testes de esforço e os achados são contraditórios. Kennelly et al., 2002, estudando 22 primíparas entre 30 e 34 semanas, mensuraram o índice de pulsatilidade das artérias umbilicais e uterinas durante o repouso e após exercício físico. Os autores observaram um imediato aumento da freqüência cardíaca fetal, um significante aumento do IP da artéria uterina direita e uma redução do IP das artérias umbilicais, apesar de não estatisticamente significante. Ertan et al., 2004, estudaram o efeito do exercício físico sobre o fluxo sanguíneo fetal em 33 gestantes com gravidez não complicadas comparando com 10 gestantes com restrição do crescimento fetal.. Nenhuma mudança significativa foi observada nas artérias uterinas e umbilicais dos dois grupos, em contrapartida foi observada uma vasodilatação da artéria cerebral média e um aumento da resistência da aorta fetal, sendo mais evidente em fetos com restrição do crescimento. Em 2005, Chaddha et al., em estudo prospectivo avaliaram 12 gestantes com insuficiência placentária (índice de pulsatilidade – IP – da artéria uterina > 1.45) e 23 gestantes com IP das artérias uterinas normais, submetidas a teste de esforço em bicicleta ergométrica no segundo trimestre. Foi observado um aumento do IP da artéria umbilical no grupo com artéria uterina alterada e um decréscimo no IP das umbilicais no grupo com uterinas normais. FEMINA | Agosto 2007 | vol 35 | nº 8 525 Atividade física durante a gravidez: revisão e recomendações Review: Aerobic exercise for women during pregnancy Comparison: 01 Regular aerobic exercise during pregnancy Outcome: 03 Preterm birth Study Relative Risk (Fixed) 95% CI 1/25 12.6 1.00 [0.07, 15.12] 0/12 0/8 0.0 Not estimable 17/174 7/177 87.4 2.47 [1.05, 5.81] 100.0 2.29 [1.02, 5.13] Control n/N Clapp 2000b 1/25 Collings 1983 Lee 1996 Relative Risk (Fixed) 95% CI Weight (%) Treatment n/N Total (95% CI) Test for heterogeneity chi-square=0.39 df=1 p=0.5335 Test for overall effect=2.00 p=0.05 Fonte: Biblioteca Cochrane .1 .2 1 5 10 Figura 1 - Análise de 3 ensaios clínicos totalizando 421 mulheres. 526 Exercício físico e parto Considerações finais Segundo Sternfeld, 1997, em relação ao trabalho de parto, parece já haver consenso que a prática de atividade física supervisionada durante a gestação não contribui para a prematuridade. Em contrapartida, a revisão sistemática publicada na Cochrane, analisando três ensaios clínicos abrangendo 421 mulheres (Clapp, 2000; Collings, 1983; Lee, 1996), mostrou um maior risco para parto prematuro para mulheres que praticavam exercício físico (Figura 1). Entretanto os revisores chamam atenção para a baixa qualidade metodológica dos ensaios aqui relatados, concluindo que os dados disponíveis são insuficientes para se inferir riscos ou benefícios importantes para a mãe e o concepto. Em relação ao tipo de parto, estudos têm mostrado uma redução significativa no primeiro e segundo estágio do trabalho de parto em mulheres que se exercitam (Clapp, 1990) e redução na incidência de cesárea (Clapp, 1990; Hall, 1987). A este respeito, apesar de não apresentar diferença estatística, Bungum et al., 2000, evidenciaram, avaliando nulíparas, que mulheres sedentárias tinham um risco duas vezes maior de ter parto cirúrgico do que aquelas que praticaram exercício nos dois primeiros trimestres da gravidez. A mesma revisão citada acima, analisando três ensaios clínicos (Márquez, 2000; Collings, 1983; Lee, 1996), não mostrou diferença estatística entre o tipo de parto e a prática de exercício físico. Participação em atividades recreacionais parece ser saudável durante a gravidez; entretanto, cada esporte deverá ser revisto individualmente, para avaliar seu potencial de risco. Atividades com risco de trauma abdominal e mergulho (risco de descompressão para o feto) devem ser evitadas. Os estudos indicam que a prática de exercícios físicos antes e durante a gravidez, principalmente se iniciados precocemente, ajuda a reduzir o risco de complicações como diabetes gestacional e pré-eclampsia. Por outro lado, deve-se salientar que os hábitos adotados no período gestacional afetam a saúde da mulher pelo resto da sua vida, apontando-se um possível efeito benéfico dos exercícios nesse sentido. A maioria dos trabalhos não atribui à prática de exercícios físicos durante a gestação risco para prematuridade, baixo peso ao nascer e complicações neonatais. No entanto, as investigações realizadas até o momento não têm poder suficiente para estabelecer conclusões definitivas a esse respeito e novos estudos são necessários para elucidar se existem possíveis efeitos deletérios da atividade física na gravidez. À luz das evidências atuais, os benefícios atribuídos ao exercício físico, já constatados, justificam a recomendação da prática de atividade física moderada durante a gestação. FEMINA | Agosto 2007 | vol 35 | nº 8 Atividade física durante a gravidez: revisão e recomendações Leituras suplementares 1. ACOG (American College of Obstetricians and 14. Clapp JF: The effects of maternal exercice on fetal Gynecologists). Committee on Obstetric. Exercise during pregnancy and the postpartum period. Pratice n.º 267. Am Col Obstet Gynecol 2002; 99: 171-3. oxygenation and feto-placental growth. Eur J Obstet Gynecol Reprod Biol, 2003; 110 Suppl 1:S80-5. 2. American College of Obstetricians and Gynecologists: Exercise during pregnancy and the postpartum period. ACOG Technical Bulletin,1994;Washington DC, ACOG, p 189. 3. Artal R. Exercise during pregnancy. Safe and beneficial for most. Physician and Sports Medicine 1999;27:51-60. 4. Avery MD, Walker AJ.Acute effect of exercise on blood glucose and insulin levels in women with gestational diabetes. J Matern Fetal Med. 2001;10:52-8. 5. Baciuk EP, Bernardo ALA, Dertkigil MSJ et al. Líquido amniótico, atividade física e imersão em água na gestação. Rev. Bras. Saude Mater. Infant. 2005, vol.5. 6. Bell R, Palma S.Antenatal exercise and birthweight. Aust N Z J Obstet Gynaecol. 2000;40:70-3. 7. 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