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es
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um
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mo
m
o
Abstract
Ab
bsstra
b
ract Resumo
Physical activity during pregnancy: review and recommendations
Apesar das recomendações para a prática de exercícios físicos durante a gestação já estarem
bem estabelecidas entre os profissionais de saúde, vários estudos vêm sendo realizados
com objetivo de demonstrar que o exercício durante a gravidez é benéfico tanto para
mãe como para o feto. Entretanto, existem controvérsias em relação a potenciais efeitos
deletérios. Os principais questionamentos a respeito do tema dizem respeito ao parto
prematuro e a redução do fluxo sanguíneo feto-placentário. O objetivo desta revisão é
apresentar uma atualização sobre as recomendações da prática do exercício físico durante
a gravidez e suas repercussões sobre os resultados maternos e fetais. Medline, Lilacs/SciELO
e a Biblioteca Cochrane, foram consultadas usando os termos “exercício”, “atividade física”,
“gestação” e “resultados perinatais”.
AT U A L I Z A Ç Ã O
Atividade física durante a gravidez:
revisão e recomendações
Melania Maria Ramos de Amorim1,2
Adriana Suely de Oliveira Melo3
Maria Aparecida Alves Cardoso3
Paula Lisiane de Assunção3
Palavras-chave
Exercício
Gravidez
Resultados perinatais
Keywords
Exercise
Pregnancy
Perinatal outcome
Although recommendations for practicing physical activity during pregnancy are a wellestablished practice among health careers, several studies have been conducted with the
objective of demonstrate that exercises during pregnancy are beneficial to mother and
baby. Notwithstanding, there are controversies about potential deleterious effects. The main
questions about this issue are related to risk of preterm birth and reduction of fetal and
placental blood flow. The objective of this review is to present the modern concepts and
recommendations about physical activity during pregnancy and its repercussions on maternal
and perinatal outcomes. Medline, Lilacs/Scielo and Cochrane Library were consulted using
the keywords “exercise”, “physical activity”, “pregnancy” and “outcome assessment”.
Instituto Materno-Infantil de Pernambuco
Faculdade de Medicina/Universidade Federal de Campina Grande
3
Núcleo de Estudos e Pesquisas Epidemiológicas (NEPE)/Universidade Estadual da Paraíba
1
2
FEMINA | Agosto 2007 | vol 35 | nº 8
521
Atividade física durante a gravidez: revisão e recomendações
Introdução
O homem moderno vem cada vez mais discutindo a prática do exercício físico para além dos seus efeitos estéticos.
Atualmente já são reconhecidos os efeitos benéficos do
exercício para a saúde do indivíduo em todas as idades, sendo
esta prática estratégia de promoção de saúde e prevenção de
doenças. Nesse sentido, discutem-se os efeitos do exercício
durante a gestação em relação à saúde materna e fetal.
Até pouco tempo a prática de exercícios na gravidez não
era estimulada, ao contrário era geralmente contra-indicada.
Em 1985, recomendações do American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG) limitavam a intensidade e
o tempo dos exercícios, com sessões durando 15 min ou
menos. Revendo suas diretrizes a este respeito em 1994,
o ACOG passou a recomendar a prática da atividade física
regular durante a gestação, devendo ser desenvolvida desde
que a gestante apresente condições apropriadas.
Em 2002 o ACOG publicou novas recomendações sobre
exercício regular e gravidez. A recomendação da prática de
30 min ou mais de exercício físico moderado ao dia, todos os dias,
ou pelo menos três vezes na semana, passou a ser dirigida não
apenas às mulheres que já praticavam exercício antes da gravidez,
mas também àquelas sedentárias e com complicações clínicas
ou obstétricas, após avaliação médica. Na mesma publicação
o ACOG destacou ainda o papel do exercício para a prevenção
e controle de doenças como diabetes gestacional.
Em consonância com as orientações do ACOG, o CDC
(Centers for Disease Control and Prevention) e o AmericanCollege
of Sports Medicine (ACSM) têm recomendado para gestantes a
realização de 30 min ou mais de exercício físico de moderada
intensidade, preferencialmente todos os dias da semana. Para
a maioria dos adultos saudáveis recomendam-se exercícios
de maior intensidade, por um período de 20 a 60 min, três a
cinco vezes na semana (Pate, 1995).
Apesar da orientação para a realização de exercícios
durante a gestação ser uma prática já estabelecida entre os
profissionais de saúde, vários estudos vêm sendo realizados
com objetivo de comprovar que o exercício durante a gravidez
é saudável tanto para mãe como para o feto, porém existem
controvérsias em relação aos efeitos benéficos e potenciais
efeitos deletérios.
Com o intuito de verificar o que na atualidade vem sendo
discutido acerca dos efeitos do exercício durante a gestação
sobre os resultados maternos e fetais, realizamos uma revisão
de literatura usando como fonte os bancos de dados Medline,
Lilacs/Scielo e a Biblioteca Cochrane. Os termos utilizados
522
FEMINA | Agosto 2007 | vol 35 | nº 8
foram “pregnancy and exercise”, “exercise and birth weight”,
“exercise and weight gain”.
Fisiologia do exercício na gravidez
Alterações maternas na gravidez
O organismo da mulher sofre intensas modificações
estruturais e funcionais para suprir as necessidades do feto
e preparar a mãe para o parto e puerpério imediato. Para
que sejam, portanto, mantidos o crescimento fetal, placentário e dos tecidos maternos, é necessário um aumento
do metabolismo basal materno, que se deve ao incremento
em massa dos tecidos metabolicamente ativos e à intensificação dos trabalhos cardiovascular, renal e respiratório
(IOM, 1990).
• Alterações respiratórias – durante a gravidez, à medida
que o volume intra-abdominal vai aumentando uma maior
pressão interna resultante ocorre, acarretando uma elevação
das cúpulas diafragmáticas, que associada à diminuição da
complacência da parede torácica favorece a redução a) da capacidade funcional residual, b) do volume de reserva expiratório
e c) do volume residual. Em resposta ao conseqüente aumento
das concentrações do CO2 o organismo materno lança mão
de uma hiperventilação como mecanismo protetor para o feto;
o volume minuto aumenta aproximadamente 50%.
• Alterações cardiovasculares – sob ação do sistema reninaangiotensina-aldosterona, um aumento do volume sanguíneo começa a ocorrer precocemente no primeiro trimestre,
atingindo um máximo de 40 a 50% de aumento por volta da
30ª semana de gestação. Uma das funções desta alteração
volumétrica é compensar a perda sangüínea durante o parto.
Para corresponder a esta nova demanda o rendimento cardíaco
aumenta conseqüente a uma hipertrofia ventricular esquerda;
o débito cardíaco aumenta em torno de 30 a 50%. Por outro
lado, devido à ação dos hormônios vasodilatadores e redução
da resistência vascular periférica a pressão arterial diastólica
cai acentuadamente entre a 12ª e a 26ª semanas de gestação
voltando a subir em torno da 36ª.
• Alterações músculo-esqueléticas e composição corporal
– com o deslocamento progressivo do centro de gravidade, ocasionado pelo peso do abdome à frente, acentua-se a lordose lombar
e a rotação externa dos quadris da gestante como mecanismo
compensatório. A ação hormonal traz frouxidão às articulações
sacro-ilíaca, sacrococcígea e sínfise púbica. O crescimento fetal,
líquido amniótico, placenta, útero, tecido mamário e volume
sanguíneo aumentados, bem como o acúmulo variável de líquido
tecidual e tecido adiposo conferem à gestante um ganho ponderal
em torno de 25% do peso pré-gestacional.
Resposta materna e fetal aos exercícios
Como resposta à prática regular de exercício físico, o organismo materno redistribui o débito cardíaco, com aumento
Atividade física durante a gravidez: revisão e recomendações
do fluxo para músculos e pele e redução para as vísceras. Tal
resposta acarreta uma redução de cerca de 35% do fluxo sanguíneo útero-placentário. Como mecanismo protetor ocorre
uma redistribuição do fluxo sanguíneo favorecendo placenta
ao invés do miométrio, uma hemoconcentração e uma maior
afinidade do sangue fetal ao oxigênio. Vale salientar que esta
redução do fluxo é diretamente proporcional à intensidade
do exercício e à massa muscular utilizada; uma vez cessado
o exercício o fluxo retorna rapidamente ao normal.
Outra preocupação com relação ao exercício físico seria o
efeito na estimulação de noradrenalina, o que poderia aumentar
a atividade uterina. Entretanto, estudos têm mostrando que
mínima ou nenhuma mudança ocorre quando se monitoriza a
atividade uterina durante o exercício físico (Artal et al., 1981).
O exercício físico também promove uma queda dos níveis
de glicose, que se mantém em níveis mais baixos por algum
tempo após cessar as atividades. A magnitude da hipoglicemia
pode ser maior nos casos de gravidez avançada, exercícios de
baixa intensidade e prática de exercício nas duas primeiras
horas após a refeição. Para se proteger da hipoglicemia, a
placenta utiliza vias alternativas.
Além das alterações nos níveis de glicose e no fluxo
sanguíneo placentário já discutido acima, ocorre também,
no início do exercício, uma taquicardia fetal como resposta
a uma hipóxia transitória. Esta resposta seria um mecanismo
protetor facilitando a transferência de oxigênio através da
placenta, com redução da pressão do CO2. Bradicardia transitória poderá também ocorrer após o termino do exercício,
provavelmente por reflexo vagal.
Contra-indicações absolutas para exercício
na gestação, de acordo com o ACOG
•
•
•
•
•
•
•
•
•
Doença cardíaca significante
Doença pulmonar restritiva
Incompetência istmo-cervical
Gestação múltipla de risco para trabalho de parto prematuro
Sangramento persistente no 2º ou 3º trimestre de gestação
Placenta prévia
Trabalho de parto prematuro durante a gestação atual
Ruptura prematura das membranas
Pré-eclampsia
Sinais de alerta para suspender o exercício
na gestação, de acordo com o ACOG
• Sangramento vaginal
• Dispnéia pós-exercício
• Cefaléia
•
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•
•
•
•
Dores no peito
Parto prematuro
Redução dos movimentos fetais
Perda de líquido amniótico
Vertigens
Fraqueza muscular
Dores ou edema nas panturrilhas
Exercício físico submáximo,
capacidade funcional materna
e freqüência cardíaca fetal
Em um ensaio clínico randomizado estudando 92 mulheres saudáveis com sobrepeso, observou-se um aumento
na capacidade de exercício submáximo, sem riscos para a
gestação, quando se praticava exercício físico três vezes por
semana. O grupo controle realizou exercícios de relaxamento
(Santos et al., 2005).
Baciuk et al., 2005, observaram em um ensaio clínico aleatorizado
e controlado, que a prática regular e moderada de hidroginástica
não resultou em diferença entre as respostas materno-fetais
dos dois grupos, com exceção de dois aspectos: o primeiro foi a
menor necessidade de analgesia de parto para as mulheres que
praticaram atividade física sistemática e o segundo consistiu
em uma diferença na freqüência cardíaca fetal após o teste de
esforço da gestante; os fetos do grupo de intervenção voltavam
aos valores próximos do repouso em 15-20 min, enquanto que
no grupo controle a recuperação era mais lenta.
Em 2000, Macphail, ao realizar um estudo longitudinal com
23 mulheres ativas, aplicou um protocolo de teste máximo
em cicloergômetro no terceiro trimestre de gestação com
monitoramento da resposta cardíaca fetal. O exercício máximo
no final da gravidez mostrou-se seguro para o feto.
Exercício físico e ganho de peso materno
O efeito do exercício físico no ganho de peso materno
ainda não é consenso. Clapp e Little, 1995, encontraram
que gestantes praticando atividade física durante o terceiro
trimestre de gestação apresentavam redução na velocidade
de ganho de peso com significante diminuição da gordura
localizada, aferida através de cinco dobras subcutâneas. Em
contrapartida, Horns et al., 1996, comparando primíparas
sedentárias (n = 48) e praticantes de atividade física regular
(n = 53) durante o último trimestre de gravidez, concluíram
que a prática da atividade física não apresentava significante
efeito sobre o ganho de peso materno, mas associava-se com
a redução de edema, cãibra nas pernas e fadiga.
FEMINA | Agosto 2007 | vol 35 | nº 8
523
Atividade física durante a gravidez: revisão e recomendações
Prevedel et al., 2003, estudando dois grupos de gestantes,
praticantes e não-praticantes de um programa de hidroterapia
de intensidade moderada, verificaram que, entre as gestantes
adeptas da hidroterapia os índices de massa magra aumentaram de modo significativo entre o início e o final da gestação
e, apesar do aumento significativo de gordura absoluta, a
proporção peso/gordura foi mantida (Tabela 1). Apesar dos
resultados significantes, ressalvas podem ser feitas, devido ao
método empregado para avaliação da composição corporal,
uma vez que para a avaliação da mesma existem métodos
mais sensíveis (DEXA e diluição isotópica).
Exercício físico, crescimento fetal
e peso ao nascer
A saúde do feto sempre foi a principal preocupação com
relação à prática de exercício físico. Um dos grandes receios
seria a redistribuição do fluxo sangüíneo feto-placentário
durante o exercício físico, o que poderia levar a uma hipóxia
fetal transitória, com taquicardia fetal compensatória, podendo
resultar, caso o efeito persista, em restrição de crescimento.
Para evitar possíveis danos o feto utiliza mecanismos protetores, já mencionados acima. Não existem relatos ligando
o exercício a estes resultados adversos.
Kardel e Kase, 1998, ao estudarem dois grupos de gestantes, um praticante de atividade física moderada e outro
de alta intensidade, não encontraram nenhuma diferença
entre o peso dos recém-nascidos. O fato de não existir um
grupo sedentário para comparar os achados talvez tenha
mascarado alguma diferença. Em contrapartida, Hatch
et al., em 1993, em uma coorte de 800 gestantes distribuídas
em três grupos: praticantes com intensidade leve/moderada,
praticantes com intensidade alta e não praticantes, observaram que as gestantes que se exercitavam durante os três
trimestres tenderam a ter bebês com peso maior.
Campbell e Mottola, 2001, em estudo de caso controle,
no qual gestantes no terceiro trimestre realizaram exercício
em diferentes intensidades, observaram que o risco de baixo
peso ao nascer aumentou substancialmente em gestantes
que praticavam exercício físico 5 vezes ou mais na semana.
Em contrapartida, Bell e Palma, 2000, em ensaio clínico randomizado estudaram dois grupos de praticantes de exercício
físico, um que permaneceu praticando exercício cinco vezes
ou mais por semana e outro reduziu para três ou menos.
Não houve diferença estatística significante em relação ao
peso ao nascer nos dois grupos.
Em um estudo de revisão sobre os efeitos do exercício
materno sobre a oxigenação fetal e crescimento feto-placentário, Clapp, 2003, sugeriu que o efeito de um dado exercício
sobre o crescimento fetal e peso ao nascer depende do tipo,
freqüência, intensidade e duração do exercício, bem como
do período da gravidez em que o exercício é realizado. Em
outro estudo, o mesmo autor evidenciou que o exercício
físico iniciado no início da gravidez aumenta a taxa de
crescimento placentário, o volume da placenta no termo,
além de aumentar de 20 a 25% a função placentária, com
conseqüente incremento do peso ao nascer em cerca de
260 g e do comprimento em 1,2 cm (Clapp et al., 2001).
Exercício físico e crescimento placentário
Clapp et al., em 2000, através de ensaio clínico
estudou dois grupos de gestantes (n = 46) que eram
sedentárias antes da gravidez, sendo que um começou a
se exercitar, outro não. Concluiu que iniciar um programa
de exercícios durante a gestação favorecia o crescimento
placentário. Em 2002, o mesmo autor testou a hipótese
de que o volume de exercício em diferentes épocas da gravidez não tem efeito sobre o crescimento placentário em
75 mulheres previamente ativas, separadas em três grupos
Tabela 1 - Média e desvio padrão (DP) dos índices da composição corporal (peso, massa magra, gordura absoluta e relativa) e capacidade cardiovascular (VO2 máx,
volume sistólico e débito cardíaco) dos grupos controle e hidroterapia no início e final do programa.
Composição corporal
Peso corporal (kg)*
Massa magra (kg)*
Gordura absoluta(kg)*
Gordura relativa (%)*,**
Grupo controle
Início
Média ± DP
59.6 ± 15.1
44.0 ± 7.3
18.4 ± 6.2
28.8 ± 3.8
*p>0,05 – diferença não significativa nas comparações iniciais e finais entre os grupos.
**p>0,05 – diferença significativa entre as avaliações iniciais e finais dentro do grupo controle.
Reprodução autorizada por Prevedel et al.
524
FEMINA | Agosto 2007 | vol 35 | nº 8
Final
Média ± DP
72.3 ± 13.8
49.5 ± 6.5
22.8 ± 7.7
30.7 ± 5.0
Grupo hidroterapia
Início
Final
Média ± DP
Média ± DP
58.2 ± 9.4
73.2 ± 10.9
44.3 ± 5.7
51.5 ± 5.3
18.9 ± 5.5
21.7 ± 6.1
29.9 ± 4.7
29.2 ± 4.4
Atividade física durante a gravidez: revisão e recomendações
com diferentes volumes de exercício físico. O grupo de
maior volume gerou crianças mais leves e magras. Altos
volumes de exercício reduzem o crescimento placentário,
enquanto que uma redução no volume de exercício aumenta
o crescimento da placenta, com um ganho proporcional
no peso fetal (massa magra e gordura).
Exercício físico e diabetes gestacional
Nos casos de diabetes gestacional o objetivo principal é
manter a euglicemia, seja através de controle dietético isolado ou associado com insulinoterapia. Vários trabalhos vêm
mostrando que a prática de exercício físico tem efeitos tanto
agudo como em longo prazo na sensibilidade e secreção da
insulina, e no metabolismo da glicose, tanto nas diabéticas
como nas não-diabéticas (Horton, 1991).
Zhang et al., 2006, em estudo prospectivo analisando
21.765 mulheres, dentre essas, 1.428 com diabetes gestacional, encontraram significante associação inversa entre
atividade vigorosa e risco de diabetes gestacional. Além de
forte evidência que atividade física regular antes da gravidez
está associada com menor risco de diabetes gestacional.
Rudra et al., 2006, em estudo de caso-controle, ao questionarem grávidas quanto à freqüência da prática de atividade
física antes da gravidez, observaram que o risco de diabetes
gestacional foi menor em mulheres que relataram vigorosa
atividade física regular durante um ano antes da gravidez em
relação àquelas que relataram negligência.
Significante declínio na glicemia foi observado em gestantes com diabetes gestacionais que realizaram exercício
físico, sendo este declínio maior em gestantes que praticavam
exercício de moderada intensidade. Estes achados foram de
um ensaio clínico onde avaliaram dois grupos de gestantes
com diabetes gestacional, sem complicações e sem uso de
insulina. O grupo de intervenção realizou exercício de baixa
e moderada intensidade e o controle não realizou nenhum
tipo de exercício (Avery e Walker, 2001).
Exercício físico e pré-eclampsia
Estudos epidemiológicos sugerem que exercício físico regular pode prevenir ou minimizar os efeitos da pré-eclampsia,
estando associado com a redução de sua incidência. Hipóteses
têm sido levantadas para tentar explicar este efeito protetor
do exercício físico: 1) estímulo da vascularização e do crescimento placentário, 2) redução das substâncias oxidantes
e 3) reversão da disfunção endotelial.
Em estudo de caso-controle Rudra et al., 2005, compararam o nível de atividade física recreacional antes de
engravidar e o risco de desenvolver pré-eclampsia, sendo
244 casos (pré-eclampsia) e 470 controles (normotensas).
Foi observado que mulheres que praticavam atividade física
vigorosa pré-gestacional tiveram 78% menos chance de
desenvolver pré-eclampsia. Esta associação foi independente
do peso pré-gestacional.
Estudando a relação entre atividade física recreacional
e o risco de desenvolver pré-eclampsia, em estudo de caso
controle, sendo 201 casos e 383 controles, Sorensen et al.,
2003, observaram que mulheres que praticavam alguma
atividade física desde o início da gravidez reduziram o risco
em 35% de ter pré-eclampsia.
Exercício físico e fluxo
sangüíneo uterino e fetoplacentário
Estudos avaliando o efeito do exercício físico no fluxo
sangüíneo uterino, placentário e fetal ainda são incipientes.
A maioria dos estudos encontrados nas bases de dados da
bibliografia em saúde refere-se à avaliação do fluxo sanguíneo
pós-testes de esforço e os achados são contraditórios.
Kennelly et al., 2002, estudando 22 primíparas entre
30 e 34 semanas, mensuraram o índice de pulsatilidade
das artérias umbilicais e uterinas durante o repouso e após
exercício físico. Os autores observaram um imediato aumento
da freqüência cardíaca fetal, um significante aumento do IP
da artéria uterina direita e uma redução do IP das artérias
umbilicais, apesar de não estatisticamente significante.
Ertan et al., 2004, estudaram o efeito do exercício
físico sobre o fluxo sanguíneo fetal em 33 gestantes com
gravidez não complicadas comparando com 10 gestantes
com restrição do crescimento fetal.. Nenhuma mudança
significativa foi observada nas artérias uterinas e umbilicais dos dois grupos, em contrapartida foi observada uma
vasodilatação da artéria cerebral média e um aumento da
resistência da aorta fetal, sendo mais evidente em fetos
com restrição do crescimento.
Em 2005, Chaddha et al., em estudo prospectivo avaliaram 12 gestantes com insuficiência placentária (índice de
pulsatilidade – IP – da artéria uterina > 1.45) e 23 gestantes
com IP das artérias uterinas normais, submetidas a teste de
esforço em bicicleta ergométrica no segundo trimestre. Foi
observado um aumento do IP da artéria umbilical no grupo
com artéria uterina alterada e um decréscimo no IP das
umbilicais no grupo com uterinas normais.
FEMINA | Agosto 2007 | vol 35 | nº 8
525
Atividade física durante a gravidez: revisão e recomendações
Review: Aerobic exercise for women during pregnancy
Comparison: 01 Regular aerobic exercise during pregnancy
Outcome: 03 Preterm birth
Study
Relative Risk (Fixed)
95% CI
1/25
12.6
1.00 [0.07, 15.12]
0/12
0/8
0.0
Not estimable
17/174
7/177
87.4
2.47 [1.05, 5.81]
100.0
2.29 [1.02, 5.13]
Control
n/N
Clapp 2000b
1/25
Collings 1983
Lee 1996
Relative Risk (Fixed)
95% CI
Weight
(%)
Treatment
n/N
Total (95% CI)
Test for heterogeneity chi-square=0.39 df=1 p=0.5335
Test for overall effect=2.00 p=0.05
Fonte: Biblioteca Cochrane
.1
.2
1
5
10
Figura 1 - Análise de 3 ensaios clínicos totalizando 421 mulheres.
526
Exercício físico e parto
Considerações finais
Segundo Sternfeld, 1997, em relação ao trabalho de
parto, parece já haver consenso que a prática de atividade
física supervisionada durante a gestação não contribui para
a prematuridade.
Em contrapartida, a revisão sistemática publicada na Cochrane,
analisando três ensaios clínicos abrangendo 421 mulheres (Clapp,
2000; Collings, 1983; Lee, 1996), mostrou um maior risco para
parto prematuro para mulheres que praticavam exercício físico
(Figura 1). Entretanto os revisores chamam atenção para a baixa
qualidade metodológica dos ensaios aqui relatados, concluindo
que os dados disponíveis são insuficientes para se inferir riscos
ou benefícios importantes para a mãe e o concepto.
Em relação ao tipo de parto, estudos têm mostrado uma
redução significativa no primeiro e segundo estágio do trabalho de parto em mulheres que se exercitam (Clapp, 1990) e
redução na incidência de cesárea (Clapp, 1990; Hall, 1987). A
este respeito, apesar de não apresentar diferença estatística,
Bungum et al., 2000, evidenciaram, avaliando nulíparas, que
mulheres sedentárias tinham um risco duas vezes maior de
ter parto cirúrgico do que aquelas que praticaram exercício
nos dois primeiros trimestres da gravidez.
A mesma revisão citada acima, analisando três ensaios clínicos
(Márquez, 2000; Collings, 1983; Lee, 1996), não mostrou diferença
estatística entre o tipo de parto e a prática de exercício físico.
Participação em atividades recreacionais parece ser
saudável durante a gravidez; entretanto, cada esporte
deverá ser revisto individualmente, para avaliar seu potencial de risco. Atividades com risco de trauma abdominal
e mergulho (risco de descompressão para o feto) devem
ser evitadas.
Os estudos indicam que a prática de exercícios físicos
antes e durante a gravidez, principalmente se iniciados
precocemente, ajuda a reduzir o risco de complicações
como diabetes gestacional e pré-eclampsia. Por outro
lado, deve-se salientar que os hábitos adotados no período gestacional afetam a saúde da mulher pelo resto da
sua vida, apontando-se um possível efeito benéfico dos
exercícios nesse sentido.
A maioria dos trabalhos não atribui à prática de exercícios
físicos durante a gestação risco para prematuridade, baixo
peso ao nascer e complicações neonatais. No entanto, as
investigações realizadas até o momento não têm poder suficiente para estabelecer conclusões definitivas a esse respeito
e novos estudos são necessários para elucidar se existem
possíveis efeitos deletérios da atividade física na gravidez.
À luz das evidências atuais, os benefícios atribuídos ao
exercício físico, já constatados, justificam a recomendação da
prática de atividade física moderada durante a gestação.
FEMINA | Agosto 2007 | vol 35 | nº 8
Atividade física durante a gravidez: revisão e recomendações
Leituras suplementares
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14. Clapp JF: The effects of maternal exercice on fetal
Gynecologists). Committee on Obstetric. Exercise during
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Exercise during pregnancy and the postpartum period.
ACOG Technical Bulletin,1994;Washington DC, ACOG,
p 189.
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4. Avery MD, Walker AJ.Acute effect of exercise on blood
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diabetes. J Matern Fetal Med. 2001;10:52-8.
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response to maternal exercise in pregnancies with
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12. Clapp JF, Kim H, Burciu B, Lopez B. Beginning regular
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on fetoplacental growth. Am J Obstet Gynecol, 2002;
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