1 UNIVERSIDADE DO SUL DE SANTA CATARINA ANA PAULA RUIZ PESSENDA OS SENTIDOS ATRIBUÍDOS PELOS MEMBROS DE UMA ONG À QUALIDADE DE VIDA NO TRABALHO: UM ESTUDO DE CASO Palhoça 2008 2 ANA PAULA RUIZ PESSENDA OS SENTIDOS ATRIBUÍDOS PELOS MEMBROS DE UMA ONG À QUALIDADE DE VIDA NO TRABALHO: UM ESTUDO DE CASO Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso de Graduação em Psicologia – Campus Norte – Unidade Pedra Branca, como requisito parcial para a obtenção do título de psicólogo. Universidade do Sul de Santa Catarina Núcleo Orientado: Psicologia e Trabalho Humano Orientadora: Profª. Msc. Michelle Regina da Natividade. Palhoça 2008 3 ANA PAULA RUIZ PESSENDA OS SENTIDOS ATRIBUÍDOS PELOS MEMBROS DE UMA ONG À QUALIDADE DE VIDA NO TRABALHO: UM ESTUDO DE CASO .Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso de Graduação em Psicologia – Campus Norte – Unidade Pedra Branca, como requisito parcial para a obtenção do título de psicólogo. Universidade do Sul de Santa Catarina Núcleo Orientado: Psicologia e Trabalho Humano Palhoça, 02 de novembro de 2008. ________________________________________ Profª. e orientadora Michelle Regina da Natividade, Msc. Universidade do Sul de Santa Catarina ________________________________________ Profª. Drª Juliane Viecili Universidade do Sul de Santa Catarina ________________________________________ Profª. Marilda Contessa Lisboa Universidade do Sul de Santa Catarina 4 Dedico este trabalho aos meus pais, Pedro Américo (in memoriam) e Ruth, exemplos de retidão, generosidade e humildade que me inspiram os caminhos do sentir e do ser. 5 AGRADECIMENTOS À minha linda família, em especial minha mãe, que sempre me inspirou e me acolheu nos momentos difíceis, mesmo com a distância, oferecendo o ombro quando a saudade apertava e o apoio, compreensão e carinho por minhas escolhas na vida, sem os quais este trabalho não seria possível. A meu querido amigo e irmão Luiz Carlos, que me incentivou desde muito cedo o interesse pela leitura e possibilitou o contato com áreas do conhecimento científico e também por representar exemplo de determinação e profissionalismo, sendo um modelo de inspiração para meu caminhar acadêmico. A todos os professores, mestres que contribuíram para minha formação profissional, em especial à professora Lucilia Reboredo, mestra querida, pelo exemplo de ética profissional e grande sensibilidade. À meu companheiro e acima de tudo amigo, Dalberti, pelos momentos de apoio, acolhimento e força para continuar a seguir em frente. À minha orientadora Michelle, pela incomparável dedicação, compreensão e apoio nos momentos difíceis e inseguros. Às minhas colegas que compartilharam comigo esta jornada acadêmica em pesquisa, Raquel, Mariana, Carol, pelo carinho, companheirismo e contribuições. À todos meus grandes amigos que fizeram parte de minha vida durante o período de graduação acadêmica, em especial Karina,Nancy,Catarina, William,Glória,Camila, Raquel. Aos membros da banca examinadora, professoras Marilda e Juliane, pela dedicação e sensibilidade e por contribuírem com minha pesquisa, assinalando o melhor caminho metodológico e teórico a seguir. Á ONG que possibilitou a realização da pesquisa e às maravilhosas pessoas que conheci em virtude deste trabalho, sujeitos desta pesquisa, que muito me inspiraram com seus relatos e exemplos de vida. 6 “O segredo da existência humana consiste não somente em viver, mas em encontrar um motivo para viver”. Dostoievski 7 RESUMO O trabalho se constitui como um fenômeno cujas conseqüências afetam diretamente o bemestar do ser humano, podendo proporcionar ou não, condições de qualidade de vida no trabalho (QVT). Nesse sentido, pode-se citar determinadas condições de trabalho, cujas conseqüências incidem diretamente na saúde física e emocional dos trabalhadores, criando condições de adoecimento ou favorecendo o crescimento pessoal e profissional. Entretanto, as pesquisas sobre a qualidade de vida no trabalho estão relacionadas aos modos de gestão empresarial, sejam nas instituições governamentais, na indústria ou no comércio, sendo reduzidos os estudos que visam identificar os sentidos de qualidade de vida em Organizações Não Governamentais (ONG), apesar das implicações destas no cenário social, econômico e organizacional brasileiro. Assim, o presente estudo teve por objetivo investigar os sentidos atribuídos por membros de uma ONG á qualidade de vida no trabalho. A pesquisa foi realizada com cinco sujeitos que atuam com vínculo empregatício em uma ONG localizada na região da Grande Florianópolis, atuante nas áreas de desenvolvimento social, comunitário e ambiental. Utilizou-se o delineamento de pesquisa qualitativa do tipo descritivo-exploratória e entrevistas semi-estruturadas com questões abertas e fechadas. O instrumento foi adaptado dos indicadores BPSO-96(LIMONGI-FRANÇA, 1996 apud ARELLANO, 2008), sustentado na abordagem teórica biopsicossocial-organizacional, que considera a visão integrada de necessidades psicológicas, biológicas, sociais, organizacionais do ser humano influenciando na qualidade de vida no trabalho. A partir da organização e categorização dos dados foi possível verificar uma confluência nos sentidos atribuídos pelos sujeitos à qualidade de vida no trabalho, no qual se pôde destacar as oportunidades de desenvolvimento pessoal e a natureza solidária do trabalho como reforçadores de seus vínculos com a ONG. Em relação aos aspectos psicológicos, biológicos, organizacionais e sociais, foi possível observar que estes são influenciados, dentre outros fatores, por atividades de cunho religioso, como as reuniões e treinamentos articulados com momentos de interiorização e o engajamento social e religioso, verificado nas orientações para promoção de saúde e também no modo de gestão da Instituição. Além da religiosidade presente no cotidiano de trabalho desses sujeitos, pode-se verificar o incentivo ao trabalho voluntário e também a participação da família no ambiente de trabalho. Deste modo, conclui-se que os sentidos atribuídos pelos membros desta ONG à qualidade de vida no trabalho referiram-se, sobretudo a aspectos humanitários de trabalho, 8 como a valorização, o reconhecimento, a realização e desenvolvimento pessoal e profissional, além do incentivo ao processo de mudança pessoal. Palavras-chave: Sentido Atribuído. Qualidade de vida no trabalho. Organização-não governamental (ONG). 9 INDICE DE SIGLAS: ABONG - Associação Brasileira de ONGs BIRD - Banco Internacional para a Reconstrução e o Desenvolvimento CEATS-Centro de empreendedorismo social e administrativo do Terceiro setor CETS- Centro de Estudos do Terceiro Setor CLT-Consolidação das Leis do Trabalho CNPq - Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico CNUMAD - Conferência das Nações Unidades para o Meio Ambiente e Desenvolvimento IBASE - Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística IBTS - Instituto Brasileiro do Terceiro Setor IDIS-Instituto para o desenvolvimento do investimento social IPEA - Instituto de pesquisas avançadas ISER - Instituto de Estudos da Religião FASFIL - Fundações e Associações sem Fins Lucrativos FBDS - Fundação Brasileira de desenvolvimento sustentável GIFE - Grupo de institutos, fundações e empresas. ONG - Organização Não-Governamental OMS - Organização Mundial da Saúde ONU - Organização das Nações Unidas OSCIPS - Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público. PETI- Programa de Erradicação ao trabalho infantil PUCAMP - Pontifícia Universidade Católica de Campinas PUCSP - Pontifícia Universidade Católica de São Paulo PNUD- Programa das Nações Unidas para o desenvolvimento QV - Qualidade de vida QVT - Qualidade de vida no trabalho RITS - Rede de informações do Terceiro Setor SCIELO - Scientific Electronic Library Online UEL - Universidade Estadual de Londrina USP - Universidade de São Paulo UNB - Universidade de Brasília UFMG - Universidade Federal de Minas Gerais 10 SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO........................................................................................................... 12 1.1. TEMA DO TRABALHO........................................................................................... 13 1.2. PROBLEMÁTICA..................................................................................................... 14 1.3. OBJETIVO GERAL.................................................................................................. 17 1.3.1. Objetivo Específico............................................................................................... 17 1.4. JUSTIFICATIVA....................................................................................................... 17 2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA............................................................................. 22 2.1. SENTIDO DO TRABALHO..................................................................................... 22 2.2. ONGS E TERCEIRO SETOR................................................................................... 24 2.2.1. CLASSIFICAÇÃO DO TERCEIRO SETOR........................................................ 28 2.3. QUALIDADE DE VIDA NO TRABALHO............................................................ 31 2.3.1. Indicadores Biopsicossociais Organizacionais de Qualidade de Vida no Trabalho........................................................................................................................... 36 3. DELINEAMENTO DE PESQUISA.......................................................................... 42 3.1. CARACTERIZAÇÃO DA PESQUISA.................................................................... 42 3.2. CARACTERIZAÇÃO DA ONG............................................................................... 42 3.3. CARACTERIZAÇÃO DOS PARTICIPANTES DA PESQUISA............................ 43 3.4. A ESCOLHA E CONTATO COM PARTICIPANTES............................................ 44 3.5. INSTRUMENTO E PROCEDIMENTO PARA COLETA DE DADOS............................................................................................................................. 45 3.6. PROCEDIMENTO PARA ORGANIZAÇÃO, TRATAMENTO E ANÁLISE DOS DADOS.................................................................................................................... 47 4. APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DE DADOS............................................................................................................................. 49 4.1. ASPECTOS PSICOLÓGICOS.................................................................................. 49 4.1.1. Relacionamento Interpessoal............................................................................... 49 4.1.2. Oportunidade de crescimento profissional......................................................... 53 4.2.ASPECTOS.BIOLÓGICOS....................................................................................... 58 4.2.1. Ações de prevenção e promoção de saúde no ambiente de trabalho................ 58 4.2.2. Ações que previnem acidentes de trabalho......................................................... 63 4.3. ASPECTOS SOCIAIS............................................................................................... 64 11 4.3.1. Atividades de lazer................................................................................................ 65 4.3.2. Participação da família de alguma atividade oferecida pela ONG.................. 67 4.4. ASPECTOS ORGANIZACIONAIS.......................................................................... 70 4.4.1. Treinamento ou cursos oferecidos pela ONG..................................................... 70 4.4.2. Benefícios oferecidos pela ONG........................................................................... 76 4.5. OS MOTIVOS QUE LEVARAM OS ENTREVISTADOS A TRABALHAR NA ONG................................................................................................................................. 78 4.6. QUALIDADE DE VIDA NO TRABALHO E SEUS INDICADORES................... 82 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS..................................................................................... 88 REFERÊNCIAS.............................................................................................................. 92 APÊNDICES.................................................................................................................... 100 APÊNDICE A - Roteiro de entrevista ............................................................................. 100 APÊNDICE B- Termo de Consentimento Livre e Esclarecido para participação dos membros da ONG............................................................................................................. 103 12 1 INTRODUÇÃO O trabalho de conclusão do curso (TCC) de Psicologia da Universidade do Sul de Santa Catarina (UNISUL), devido a critérios do Projeto Pedagógico, deve articular e vincular os temas de pesquisa com os fenômenos observados na prática dos núcleos de estágio. A escolha pelos núcleos de estágio ocorre na oitava fase do curso, onde o aluno pode optar entre o núcleo orientado de Psicologia e Saúde o núcleo orientado de Psicologia e Trabalho Humano. Nas fases posteriores (9ª e 10ª fases) as práticas de estágio curriculares obrigatórias e a elaboração do trabalho de conclusão de curso, permitem que o aluno exercite tanto a apropriação das teorias e abordagens aprendidas durante o curso na prática do estágio, como o exercício para pesquisa. Contudo no núcleo orientado de Psicologia e Trabalho Humano, pôde-se escolher entre três linhas de pesquisa, as quais indicam um lócus especifico de atuação: Gestão de Pessoas; Saúde do Trabalhador e Identidade profissional. A autora deste trabalho optou pelo Núcleo de Psicologia e Trabalho Humano, linha de pesquisa Saúde do Trabalhador, em virtude do interesse em investigar o fenômeno da saúde no âmbito do trabalho, relacionado com os novos conceitos organizacionais, como responsabilidade social, cidadania organizacional, trabalho solidário, dentre outros, que influem na qualidade de vida do trabalhador (QVT), dentro e fora do ambiente de trabalho. O projeto saúde do trabalhador compreende três ações relativas à saúde como prevenção, promoção no universo do trabalho, são elas: o Grupo de Desenvolvimento Humano com os trabalhadores da Biblioteca do Campus Grande Florianópolis da UNISUL; Projeto de Saúde Vocal dos Professores e a parceria com uma Organização Não Governamental (ONG) da grande Florianópolis, articulando as ações de prevenção e erradicação ao trabalho infantil (PETI) do Projeto Catavento (ocorrido no segundo semestre de 2007) . O interesse pelo tema sentidos atribuídos por membros de uma ONG à qualidade de vida no trabalho partiu da vivência da pesquisadora em estágios e trabalhos voluntários junto a ONGs do Estado de São Paulo, onde pôde perceber que os objetivos que orientam o trabalho em ONGs são diferentes dos objetivos propostos por empresas privadas. Nas ONGs, um dos objetivos é promover melhoria da qualidade de vida e o bem-estar social, voltado às questões relativas à demanda provinda da sociedade. Ademais, o contato no núcleo de estágio 13 por meio de uma parceria com uma ONG da região da grande Florianópolis, oportunizou a efetivação da pesquisa em si. As ações recentes da ONG, cenário desta pesquisa, englobam inúmeros projetos voltados ao desenvolvimento social e ambiental, erradicação e prevenção do trabalho infantil e também desenvolvimento social e comunitário, empregando os moradores daquele bairro, fortalecendo a economia da região e oferecendo melhores condições de vida para a comunidade local. A pesquisa divide-se em cinco capítulos, sendo apresentada da seguinte forma: capítulo 1 corresponde a tema de pesquisa, problemática, objetivo geral, objetivos específicos e justificativa. O capítulo 2 compreende: referencial teórico (discussão de conceitos relacionados à qualidade de vida no trabalho, indicadores biopsicossocialorganizacional de qualidade de vida no trabalho, ONGs) o capítulo 3 corresponde ao delineamento da pesquisa, o capítulo 4 à apresentação e análise dos dados e o quinto capitulo apresenta as considerações finais. A vertente teórica escolhida para análise foi a abordagem biopsicossocialorganizacional de qualidade de vida no trabalho, considerando a visão holística e integrada do ser humano, sua história pessoal, suas necessidades biológicas, psicológicas, socioculturais e a inter relação entre essas dimensões. Como instrumento para coleta foi utilizado a entrevista semi estruturada com questões abertas e fechadas, sendo selecionadas duas questões para cada indicador biopsicossocial-organizacional de qualidade de vida no trabalho, adaptado do instrumento BPSO-96 de Limongi-França (1996 apud ARELLANO, 2008) Esta pesquisa caracteriza-se como qualitativa do tipo descritivo-exploratória de uma ONG, pertencente à grande Florianópolis, que objetiva a erradicação e prevenção ao trabalho infantil, o desenvolvimento social, urbano e comunitário do bairro escolhido para seu estabelecimento, fortalecendo a economia da região e oferecendo melhores condições de vida para a comunidade local. Deste modo, o presente projeto, vinculado ao Núcleo de Psicologia e Trabalho Humano, linha de pesquisa em Saúde do Trabalhador, objetiva investigar os sentidos atribuídos por membros de uma ONG, pertencente a região da grande Florianópolis, à qualidade de vida no trabalho 1.1 TEMA DO TRABALHO Os sentidos atribuídos por membros de uma ONG, pertencente a um município da grande Florianópolis, à qualidade de vida no trabalho. 14 1.2 PROBLEMÁTICA No final do século XX, a responsabilidade social, o desenvolvimento sustentável, o aumento da expectativa de vida da população e o trabalho solidário, são alguns dos aspectos da sociedade contemporânea que geraram reflexões sobre a relação ser humano- trabalho em pesquisadores em QVT e também gestores de empresas privadas, propiciando o surgimento de novos paradigmas com relação à qualidade de vida e qualidade de vida no trabalho (LIMONGI-FRANÇA, 2004). Aos poucos, as preocupações dos gestores com relação à produtividade, passam também a dividir espaço com preocupações sobre a condição humana no ambiente de trabalho, tais como, maior atenção às atividades de lazer, cuidados com saúde do trabalhador, alimentação, relacionamento interpessoal, maior atenção à vida pessoal do trabalhador e com sua família, implicando em uma mudança nos contornos das ações de qualidade de vida nas organizações (LIMONGI-FRANÇA, 2004). Além dos aspectos acima, Bose (2004) considera que a partir de 1980, novas possibilidades de emprego e modelos novos de gestão organizacional surgiram no cenário econômico brasileiro, com as organizações do terceiro setor, as cooperativas com a economia solidária, destacando-se a preocupação das ONGs com o cenário social e políticas públicas, as cooperativas com a proposta de gestão participativa são alguns exemplos. Esses novos modelos de gestão geraram reflexões, no âmbito empresarial, sobre a humanização no ambiente de trabalho e relação entre responsabilidade das organizações e com a sociedade e seu entorno (BOSE, 2004). Segundo dados da Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável Brasil (2008), a década de 1980 foi marcada por intensas mudanças políticas e economias refletindo também nos modos de produção e nas questões sociais. O crescimento das desigualdades sociais, econômicas e o retorno da livre expressão marcaram o início da democracia no Brasil. Falconer (1999) afirma que o Terceiro Setor surgiu no Brasil como uma mudança de orientação com relação à participação do cidadão na esfera pública, frente à tradicional ação do Estado (Primeiro Setor) e do Mercado (Segundo Setor). Acrescenta Tenório (1997) que como estes dois setores (primeiro-Estado e segundo-mercado) não conseguiram administrar a situação social e as suas demandas, surgiu um Terceiro Setor que englobaria 15 todas as entidades e associações sem fins lucrativos. As ONGs neste contexto passaram a ser consideradas fazendo parte do Terceiro Setor, pois não se adequava aos demais Setores. Neste cenário, as grandes empresas objetivando a busca de um diferencial competitivo, estabelecem parcerias com as organizações do terceiro setor e também investem em modelos de ação social semelhantes aos utilizados nos projetos de ONGs, definindo-os como ações de responsabilidade social e qualidade de vida da empresa. Desta forma esta parceria contribuiria para auxiliar a atender as demandas sociais, objetivo das ONGs ao mesmo tempo em que a empresa obtém a legitimidade para suas ações (MONTE e CARVALHO, 2005). Neste sentido pode-se afirmar que algumas das ações de cunho social das organizações de terceiro setor refletiram nas ações de responsabilidade social e ações voluntárias propostas nas empresas, influindo também nos critérios de qualidade de vida no ambiente organizacional. Contudo é possível perceber que existem lacunas e ambigüidades com relação ao conceito terceiro setor, ao modelo de gestão neste contexto e também com relação aos critérios de classificação destas organizações. Landim (1999 apud MONTAÑO, 2002) descreve que o conceito terceiro setor não é um termo “neutro”, fazendo parte de uma cultura política e cívica baseada no individualismo liberal. A autora relata que o termo é de procedência americana e de funcionalidade com os interesses de classe e transformações necessárias a alta burguesia, sendo criado por intelectuais “orgânicos do capital” (MONTAÑO, 2002). Observa-se nesta sentença que o conceito ideológico de terceiro setor é muito diferente do fenômeno do terceiro setor, identificado no Brasil como as organizações provindas de movimentos sociais, estes preocupados com a igualdade social e defesa de direitos humanos . Percebe-se que ao utilizar do conceito americano, encobre-se a história e a essência do movimento a favor da burguesia. Esta é uma das ambigüidades do conceito, que por ter origem americana carrega características específicas aos interesses desta cultura e sendo adaptado ao Brasil influiu nos critérios de classificação das organizações de terceiro setor. Neste contexto inserem-se as organizações privadas, não governamentais, sem fins lucrativos, autogovernadas, de associação voluntária (MONTAÑO, 2002). O autor afirma que esta ausência de delimitação conceitual, reflete “um constructo ideal que, antes de esclarecer sobre um “setor” da sociedade, mescla diversos sujeitos com aparentes igualdades nas atividades, porém com interesses, espaços e significados diversos, contrários e até contraditórios ”(MONTAÑO, 2002, p 57). 16 Outra ambigüidade conceitual de acordo com Montaño (2002) refere-se à construção teórica do conceito e ao recorte dos setores em primeiro setor (Estado), segundo setor (mercado) e terceiro setor (organizações da sociedade civil). O autor relata que existe debilidade teórica e falta de rigor conceitual, pois se o terceiro setor representa a sociedade civil, e se historicamente a sociedade produziu o Estado e mercado, então não existe delimitação entre os setores. A quarta incoerência encontrada por Montaño (2002) refere-se às parcerias, pois o governo ao financiar algumas organizações, demonstra o caráter seletivo e tendencioso aos conformes políticos, determinando a sobrevida destas instituições. Deste modo, o contexto apresentado por Montaño (2002) demonstra o distanciamento entre a ideologia que originou o termo e a realidade efetiva (adaptada a realidade brasileira), podendo refletir também nos critérios de gestão das ONGs. Embora nos últimos 20 anos tenha ocorrido um aumento significativo do número de organizações ligadas ao terceiro setor no Brasil, a gestão neste setor não acompanhou este crescimento, demonstrando a fragilidade técnica e o amadorismo em sua administração (FALCONER, 1999). Teodósio (2001 apud BOSE, 2004) afirma que a tentativa do terceiro setor em adotar técnicas provenientes da esfera privada pode trazer distorções conceituais e resistência á mudança, pois esbarra na gestão social, que expressa características especificas e até contraditórias ao modelo de gestão privado. Além das dificuldades técnicas enfrentadas, observa-se que muitas publicações existentes sobre gestão de terceiro setor são originadas dos EUA, refletindo a fragmentada e restrita contribuição teórica neste tema, pois não se adapta a cultura brasileira e objetivo das ONGs nacionais, que seria atender às demandas sociais (BOSE, 2004). Muito embora na contemporaneidade, a qualidade de vida no setor privado tenha sofrido influências dos modelos de gestão social das organizações não governamentais, a qualidade de vida do trabalhador inserido neste contexto pode sofrer influências da fragilidade das ações administrativas e também devido à deficiência teórica e técnica da gestão de terceiro setor. Limongi-França (2004, p. 33) ao definir qualidade de vida no trabalho afirma que “é o conjunto das ações de uma empresa que envolve a implantação de melhorias e inovações gerenciais, tecnológicas e estruturais no ambiente de trabalho”. Destaca ainda a autora que as escolhas de bem-estar e expectativas dos gestores e também dos trabalhadores influem na qualidade de vida no trabalho, desta forma sendo necessária considerar as perspectivas de todos os sujeitos envolvidos em uma organização. A partir das reflexões acima surge o problema de pesquisa: 17 Quais os sentidos atribuídos pelos membros de uma ONG à qualidade de vida no trabalho? 1.3 OBJETIVOS 1.3.1 Objetivo Geral Investigar os sentidos atribuídos pelos membros de uma ONG, pertencente a região da grande Florianópolis à qualidade de vida no trabalho. 1.3.2 - Objetivos Específicos § Analisar os aspectos psicológicos referentes à qualidade de vida no trabalho para membros de uma ONG; § Analisar os aspectos biológicos referentes à qualidade de vida no trabalho para membros de uma ONG; § Analisar os aspectos sociais referentes à qualidade de vida no trabalho para membros de uma ONG; § Analisar os aspectos organizacionais referentes à qualidade de vida no trabalho para membros de uma ONG; § Identificar os motivos que levaram os membros a trabalhar na ONG; 1.4 JUSTIFICATIVA A qualidade de vida no ambiente de trabalho em empresas é um tema freqüente na literatura acadêmica. De acordo com a revisão realizada pela pesquisadora, muitas pesquisas sobre qualidade de vida no trabalho existem, mas nenhuma delas tem como objeto de estudo qualidade de vida no trabalho em ONGs ou demais organizações do Terceiro Setor. Os autores Arellano (2008), Limongi-França (2002; 2004) Gaspar (2001), Fernandes (1996), Rodrigues (1994), Vasconcelos (2001), Patrício (1999), dentre outros e dados da Organização mundial de Saúde OMS (2007), revelam a incidência de doenças decorrentes da relação do ser humano com trabalho, como DORT, LER, depressão, dentre outras, evidenciando a 18 necessidade de se desenvolver práticas que favoreçam a qualidade de vida e o bem-estar do trabalhador. No caso das organizações do terceiro setor, o presidente do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS, 2008)1, Marcos Kisil, em entrevista no dia 31 de outubro de 2008 para o site IDIS, afirma que a empregabilidade no terceiro setor representa aproximadamente 1,5 milhões de assalariados (5,5% de todas as organizações formais cadastradas no Brasil). Dados do IBGE (2004) indicam que as ONGs representavam em 2002 cerca de 5% do total de 5,3 milhões de organizações no Brasil, entre setores públicos, empresas privadas e entidades sem fins lucrativos, ou seja, empregando aproximadamente cerca de 2,5 milhões de pessoas. Diante do aumento de trabalhadores nas organizações de terceiro setor, verifica-se a necessidade em desenvolver pesquisas sobre qualidade de vida neste ambiente, considerando o aspecto de gestão social e a cultura destas ONGs. Desta maneira, a relevância da pesquisa sobre o sentido de qualidade de vida no trabalho para membros de ONG se faz necessária em relação a dois principais aspectos: ao científico e sócio-econômico. Em relação ao aspecto científico, pôde ser observado que a partir de pesquisas em base de dados de bibliotecas de universidades como UEL, USP, PUCAMP, PUCSP, UNB, UFMG, bancos de dados da Capes e Scielo, além da pesquisa em sites como Rede de informações sobre Terceiro Setor (RITS, 2007), Instituto Brasileiro do Terceiro Setor (IBTS, 2007), Instituto DESS - Filantropia e Investimento Social (DESS, 2008), Instituto PÓLIS (PÓLIS, 2007), pôde ser verificada a ausência de pesquisas sobre ONGs na área da Psicologia e também relacionadas à temática qualidade de vida no trabalho e terceiro setor. As contribuições teóricas em pesquisa observadas nestas bases de dados e sites sobre o tema ONG e Terceiro Setor, referem-se às áreas administrativas, e da economia, como pode ser verificado no Centro de empreendedorismo social e administração em Terceiro Setor ( CEATS2 ) que representa a FEA/USP e conta com base de dados composta por 18 teses e dissertações, 32 trabalhos de conclusão de pós graduação e 19 monografias de graduação, todos relacionados com o tema Terceiro Setor e Empreendedorismo Social. 1 IDIS:www.idis.org.br/biblioteca/artigos/crise-mundial-podera-transformar-o-terceiro-setor-no-brasil/view 2 CEATS: www.ceats.org.br/academicos.php 19 O Centro de Estudos do Terceiro Setor da FGV-EAESP (CETS3), é outro grupo de pesquisa com a missão de produzir e disseminar conhecimento e formar especialistas em gestão social. Com relação à produção científica relacionada à gestão de terceiro setor e ONGs, Pinto (2003) e Bose (2004) em suas pesquisas consideraram as práticas administrativas e a relação do funcionário com a ONG. Bose (2004) afirma que é precária a produção científica brasileira em gestão e cita os pesquisadores Teodósio (2001), Teodósio e Resende (1999), Falconer (1999), dentre outros, que pesquisaram a gestão do trabalho voluntário no terceiro setor. Na área das ciências sociais, Fischer (1998), Landim (2002) e (1993), contribuíram cientificamente com estudos sobre dos movimentos sociais no contexto de mudança social com a inserção das ONGs no Brasil. A partir dos trabalhos produzidos por estes autores, pôde ser verificada a necessidade e importância da psicologia, na figura do psicólogo, de se apropriar e produzir conhecimentos pertinentes ao fenômeno em questão. Em relação ao aspecto sócio-econômico, dois sub-aspectos podem ser contemplados: as ofertas de trabalho disponibilizadas pelas ONGs e sua representatividade na economia nacional. Deste modo, as questões das ofertas crescentes de trabalho em ONGs (ABONG, 2007), suscitam a necessidade de pesquisar a qualidade de vida destes funcionários. Rifkin (s.d. apud FISCHER e FALCONER, 1998) em sua análise sobre as perspectivas do desemprego no mundo, afirma que as organizações do Terceiro Setor representam um dos raros setores que aumentarão a possibilidade de empregar trabalhadores de diversos setores e perfis. Nos anos de 1996 a 2002 no Brasil, os empregos formais no Terceiro Setor tiveram um aumento de 48% em comparação a 24% dos empregos em empresas e órgãos públicos (IBGE, 2004). Marcos Kisil (IDIS, 2008) e dados de 2006 do Programa das nações unidas para o desenvolvimento (PNUD, 2008) afirmam que as organizações do terceiro setor representam 5% do produto interno bruto (PIB) do país, ou seja, esta participação é superior a indústria de extração mineral e maior do que 22 estados brasileiros, perdendo somente para São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do sul e Paraná. Com relação à região de Santa Catarina, dados do IBGE (2004) em site do Instituto Comunitário (ICOM, 2008) demonstram que Florianópolis concentra 1.173 ONGs. Este instituto está realizando um mapeamento para levantamento do número e perfis das 3 CETS:www.eaesp.fgvsp.br/interna1coluna.aspx?portalid=GJIKQPPM&areaid=JQMCRNON&pagid=ISICUJ WP&navid=-1&menuid=-1 20 ONGs de Florianópolis, São José, Palhoça e Biguaçu, nomeada de Agenda Terceiro Setor, e verificou em 2006 que a região da grande Florianópolis possuía 175 ONGs. Com relação ao perfil dessas organizações, 45% atuam na área de assistência social, 31% atuam com preservação do meio ambiente, 15% apresenta viés religioso. De acordo com site da Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais (ABONG, 2008), em 1996 no II Encontro Ibero-Americano do Terceiro Setor, realizado no Rio de Janeiro, Jeremy Rifkin afirmou em palestra que na era do pós mercado, as organização não governamentais e de terceiro setor representam uma maneira de dar conta da grande quantidade de mão de obra do setor público e do mercado. Devido ao aumento constante da mão de obra nas organizações de terceiro setor, pesquisar a qualidade de vida neste ambiente de trabalho é de fundamental importância para a saúde do trabalhador. Os dados indicam a relevância social e econômica das ONGs, como promotoras de empregos e demais bem sociais, tanto para o Estado quanto para o país. Os indicadores relativos à quantidade de ONGs encontram-se na Tabela 1. Tabela 1: Distribuição das Fundações Privadas e Associações sem Fins Lucrativos e da população total, segundo as Grandes Regiões e Unidades da Federação - Brasil – 2002. Região Quantidade Porcentagem População ONGs do Total Norte 11 715 4,25 13.724.235 Nordeste 61 295 22,22 49.246.420 Sul 63.562 23,04 25.962.162 Sudeste 121.175 43,92 75.187.605 Centro-oeste 18.148 6,58 12.270.592 Fonte: IBGE, 2004. Adaptado pela autora Na questão da empregabilidade, 55% das contratações realizadas pelas ONGs são feitas mediadas pela CLT4, ou seja, com registro em carteira. O restante se divide entre voluntários, terceirizados e autônomos que desenvolvem seus projetos nas ONGs (IBGE, 4 Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) 21 2004). Em uma pesquisa realizada pela Secretaria Nacional de Economia Solidária, ligada ao ministério de Trabalho e Emprego – MTE revela a presença de 14.954 empreendimentos econômicos solidários (54% são associativos) no Brasil. Os principais motivos levantados pelo surgimento destes empreendimentos de natureza solidária é o índice de desemprego (45%) e os demais, referem-se a uma alternativa diferente de emprego frente ao trabalho em empresas privadas e órgãos públicos (ABONG, 2007). Diante dos dados acima apresentados, pode-se concluir que os índices de empregabilidade nas organizações de terceiro setor vêm aumentando nos últimos 20 anos, sendo necessário observar a saúde e qualidade de vida do trabalhador neste contexto. 22 2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA Para realizar este projeto de pesquisa, buscou-se na literatura, em sites, base de dados, periódicos, autores, que sustentassem os temas sentido de trabalho, qualidade de vida no trabalho e ONGs. 2.1 SENTIDOS DE TRABALHO: No contexto contemporâneo de trabalho, muitas mudanças estão ocorrendo na relação homem trabalho, inspirando questionamentos sobre o “ser” e o “ter”. A era da globalização, com a hiper valorização do capital acima dos homens, demarca também a qualidade nas relações de trabalho, na sociedade e também reflete na subjetividade humana. Durante o processo histórico, o trabalho demarcou lugar central na vida dos homens. Lima (2007), Tolfo (1992) e Moraes Neto (2002) são alguns dos autores que discursam sobre a visão de ser humano e sua relação com o trabalho na história. Lima (2007) relata que a atividade enquanto trabalho para o homem iniciou-se com a caça, pesca e agricultura, tendo seu excedente utilizado como moeda de troca. Morin (1973) afirma que as atividades de caça e pesca fizeram emergir as primeiras ações humanas consideradas solidárias e de cooperação (dividiam as tarefas e realizavam trabalho coletivo em prol de todos), e também o primeiro sentido de dominação. Como os grupos de homens realizavam as tarefas de subsistência, trazendo o alimento, eram considerados superiores às mulheres, que possuíam como tarefa cuidar das crianças (MORIN, 1973). Com a introdução das tecnologias e o uso das máquinas, a partir da revolução industrial, os processos de trabalho passaram a ter outro sentido. Marx (s. d. apud MORAES NETO, 2002) afirma que o processo de desqualificação do homem se inicia com o desenvolvimento tecnológico em sobreposição a própria condição humana. O trabalho que antes era realizado artesanalmente passa a ser substituído pela produção em largas escalas e a função dos homens neste processo passou a ser de criadores de produtos artesanais, a meros apêndices de máquinas (MORAES NETO, 2002) para seu melhor funcionamento. Antunes (1999) afirma que a partir da década de 1970 o apogeu do fordismo refletiria a crise do capitalismo, como conseqüência ocorreria a queda dos lucros nas organizações. Assim, uma opressora e ofensiva ação do Estado e do capital contra a classe trabalhadora se mostra presente, refletindo no aumento do desemprego e das desigualdades 23 sociais culminando também na crise do Estado do Bem Estar Social5 pela falência e incapacidade do fordismo e taylorismo. A década de 1980 nos países capitalistas foi marcada por profundas mudanças no trabalho, na política e nos movimentos sindicais. Essas mudanças afetaram além do aspecto financeiro, a subjetividade das pessoas, ou seja, a maneira de significar o trabalho (ANTUNES, 1999). Coutinho, Tolfo, Fernandes (2005), afirmam que as mudanças na sociedade vivenciadas no mundo contemporâneo geraram diferentes sentidos e significados ao trabalho. A sociedade contemporânea é marcada pela globalização, relações de trabalho baseadas na competição, instável e imprevisível, produzindo esses diferentes significado e sentidos ao trabalho. As autoras citam Vigotsky para referir-se a análise dos sentidos e significados numa perspectiva sociocultural no materialismo histórico dialético. O trabalho, nesta perspectiva, representa a relação de transformação do homem com a natureza no qual ele também se modifica. Este somente é possível como processo de transformação graças a dois instrumentos: própria ação do homem no mundo e a semiótica (signos). Pino (1995 apud MAGRO, 2006 p.36) afirma que de acordo com Vygotski “função semiótica equivale ao desdobramento do real a sua forma simbólica”. Acrescenta o autor, que Vygotski destaca a importância da mediação semiótica, principalmente com a linguagem, para “estruturar a consciência humana” (MAGRO 2006). Como os signos são produções sociais, na relação dialética com a realidade, o sujeito ao mesmo tempo em que se transforma e transforma a realidade. Heller (1989) afirma que a vida cotidiana engloba significados e sentidos de trabalho, vida pessoal, lazer, vida social sistematizada, ou seja, aspectos objetivos e subjetivos, inseridos em um contexto histórico. Deste modo Coutinho, Tolfo, Fernandes (2005) afirmam que os significados são produções coletivas em decorrência de um momento histórico, envolvendo o aspecto culturalsocial-econômico. Os sentidos são elaborados de forma singular, em virtude da apreensão particular, Magro (2006) afirma que nas experiências os sujeitos experimentam psicologicamente uma situação, produzindo sentidos individuais. Desta forma os sentidos de 5 Estado de Bem-estar Social ou Estado-providência (em inglês: Welfare State) é um tipo de organização política e econômica que coloca o Estado (nação) como agente da promoção (protetor e defensor) social e organizador da economia. Nesta orientação, o Estado é o agente regulamentador de toda vida e saúde social, política e econômica do país em parceria com sindicatos e empresas privadas, em níveis diferentes, de acordo com a nação em questão. Cabe ao Estado do bem-estar social garantir serviços públicos e proteção à população. FONTE:Wikipédia: http://pt.wikipedia.org/wiki/Estado-provid%C3%AAncia 24 qualidade de vida no trabalho, produzidos na relação do trabalhador com o universo de ONGs, podem apresentar-se de forma diferente do que no contexto das organizações privadas. 2.2 - ONGS E TERCEIRO SETOR A definição do termo Terceiro Setor ( Sociedade Civil) se faz pela distinção entre o Primeiro Setor (Estado) e Segundo Setor (mercado). Segundo Correia (2005), o Terceiro Setor faz a mediação entre os dois outros setores (Estado, mercado). Enquanto o segundo setor objetiva a obtenção de lucro e enriquecimento do empreendedor, e o primeiro setor se faz perante ações do poder público, o Terceiro Setor se torna responsável, portanto, pelas demandas sociais não atendidas pelos dois primeiros. Bose (2004) afirma que o surgimento das entidades no Brasil, no século XVI, datam do período colonial, com o atendimentos das pessoas carentes pela Irmandade da Misericórdia. Acrescenta a autora que no século XVII, ocorreu grande expansão das associações religiosas, financiadas por ricos filantropos, com o objetivo da caridade cristã e filantropia. De acordo com Correia (2005), o Terceiro Setor apresenta seis fases ao longo da história. A primeira fase (até Primeira República), de acordo com o autor, em 1543 surgiu a primeira entidade responsável pela assistência aos desamparados. Nesse período, as leis do Brasil eram vinculadas à igreja católica, sendo que os recursos nacionais privados passavam pela sua aprovação. Com a revolução de 1930 até 1960, o país passou a se industrializar e o estado ganhou força. Com Getúlio Vargas foi ditada a primeira lei brasileira de regulamentação para os serviços de Utilidade Pública Federal. De 1960 até 1970, relata Falconer (1999), que em resposta ao autoritarismo do regime militar, a sociedade passou a se organizar em micro esferas no intuito de reivindicar seus direitos e lutar pela democracia. Com o fortalecimento da sociedade civil, em oposição a um estado autoritário que não atendia as demandas sociais. Ocorre um aumento da quantidade de ONGs em apoio aos movimentos sociais da época. Nos anos 1990, acrescenta o autor, que o Estado e o Mercado passam a assumir relação de parceria com o 3º Setor e surge o Grupo de Institutos, Fundações e Empresas – GIFE, promovida por entidades empresariais. Esta instituição de acordo com Falconer (1999) foi pioneira no Brasil na popularização do Terceiro Setor. Acrescenta o autor que, em função de advir de atividades empresariais no Terceiro Setor, o GIFE promove a participação privada na reorganização e resignificação do espaço público. 25 Fernandes (1994 apud FALCONER, 1999) descreve o conceito de Terceiro Setor, como um conjunto de iniciativas sociais que objetivam a conscientização dos direitos a cidadania, prevenção de doenças transmissíveis, a luta pela igualdade racial. Falconer (1999) acrescenta que essa terminologia engloba entidades não governamentais, filantrópicas, solidárias, caridosas, associativas, sem fins lucrativos, dentre outras. Na década de 1990, o Terceiro Setor amplia sua atuação, resgatando as questões de solidariedade, cidadania, com tentativas de humanizar o capitalismo (FALCONER, 1999). Neste novo formato, Terceiro Setor engloba tanto as entidades tradicionais, como hospitais, quanto as ONGs e entidades decorrentes das organizações que apoiaram os movimentos sociais na década de 1960 e 1970. Entretanto as ONGs foram as primeiras a se organizar e a expressar seus valores e sua identidade, enquanto promotora de defesa de direitos humanos, negando o viés assistencialista /filantrópico. Fato este que leva alguns autores, como Fischer e Fischer (1994 apud FISCHER e FALCONER, 1998), juntamente com a ABONG a considerarem inadequada a inserção das ONGs como pertencentes ao Terceiro Setor. Neste sentido, o Terceiro Setor diverge das ONGs por não cumprir o mesmo papel que estas em relação à sociedade. (FALCONER, 1999). Para ABONG (2007), Terceiro Setor representa um setor novo com viés social e que abrange, por exemplo, entidades filantrópicas e institutos empresariais. Portanto, de acordo com ABONG (2007) a inclusão das ONGs neste contexto significa um erro conceitual. As divergências entre ONGs e Terceiro setor estão no percurso histórico de cada termo e na função política – social decorrente de cada processo histórico em sua singularidade. A afirmação do presidente da ABONG, Silvio Caccia Bava6 (1998 FALCONER, 1999 p. 5) ilustra essa divergência: “Nós não nos reconhecemos como parte do Terceiro Setor. Não achamos que esse modelo teórico contempla quem nós somos e o que fazemos”. Fischer & Fischer (1994 apud FISCHER-FALCONER, 1998) descrevem vários motivos que não caracterizam ONG como Terceiro Setor. Algumas dessas características referem-se à freqüente oposição e confrontação das ONGs com o governo, vigente de um processo histórico em resposta a repressão da década de 1960 a início de 1980. Em contradição, o Terceiro Setor na década de 1990 ao invés de atuar em resistência, exigindo medidas do governo, buscaram estabelecer relações de complementaridade e parceria. 6 Entrevista com Silvio Caccia Bava - Presidente da ABONG - Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais”, obtida em:4/12/98 no site http://www.cogeae.pucsp.br/sircri/utilid/trabalha/polsoc/abong.ht 26 O conceito de Organização não governamental - ONG, de acordo com a Associação Brasileira de organizações não governamentais (ABONG), Barbosa (2006) e Landim (2002), foi criado pela primeira vez em 1940 pelas Organizações das Nações Unidas (ONU), em específico na Europa e EUA, sendo citado também pelo Conselho econômico e social (ECOSOSC). De acordo com Barbosa (2006) o termo foi criado para designar organizações que se reconhecem como distintas do Estado e que recebem ajuda para a execução de projetos de interesse da comunidade ou dos grupos. Fernandes (1994 apud FALCONER, 1999), retrata que o termo ONG foi criado inicialmente para descrever entidades internacionais que por suas atividades poderiam fazer parte da ONU como, por exemplo, a Organização Internacional do Trabalho (OIT). Landim (2002) considera a origem do termo ONG um conceito socialmente elaborado, construído pela sociedade, ou seja, é uma expressão que carrega a polissêmia da apropriação de diversas ideologias, podendo variar com o passar do tempo. As ONGs neste contexto seriam alternativas às entidades assistenciais e institucionais como as igrejas, os hospitais, universidades, dentre outros (LANDIM 2002). Afirma Landim (2002), que as ONGs se adaptaram às relações e dinâmicas sociais particulares de cada país, traduzindo culturalmente seu significado. Juridicamente, estas não se diferenciam de outras entidades sem fins lucrativos. Até o final do século XIX, quase tudo o que possuía como objetivo a assistência social, filantropia, educação, saúde eram designadas associações, sendo estas criadas pela igreja com a autorização do Estado (LANDIM 1993). Landim (1993) afirma que após a década de 1930, ocorreu um fortalecimento de sindicatos e projetos corporativistas em resposta a cidadania controlada e ao caráter excludente do bem estar social oferecido pelo Estado. A política assistencialista baseada na Filantropia não auxiliava a sociedade a conquistar autonomia e sim reforçava a dependência à doações, demarcando ainda mais as desigualdades sociais e as preconceitos provenientes destas ações (LANDIM,1993). O período da ditadura de 1937 a 1945 e também do pós 1964 (chamado de pacto populista) representaram, de acordo com Landim (2002), não somente a história da repressão, mas também a história do associativismo no Brasil. De acordo com Oliveira (2002), existe um período de nascimento das ONGs no Brasil que coincide com a ditadura militar (golpe de Estado de 1964). A partir da década de 1970 é que estas organizações que faziam a mediação da sociedade com o Estado e Mercado começam a marcar presença. Como essas organizações não possuíam como fim a obtenção de lucro e também não visavam o controle dos poderes 27 políticos, passaram a ser denominadas como pertencentes ao Terceiro setor (no qual faziam parte as associações, o voluntariado, as igrejas enfim, a filantropia) (LANDIM 2002). Pode-se observar que a história das ONGs e do Terceiro Setor se entrelaçam em muitos momentos, possibilitando discussões sobre a inclusão ou não das ONGs como pertencentes ao Terceiro Setor. Neste contexto as ONGs começam a emergir no Brasil a partir da década de 1970, na medida em que se fortalece também o campo das associações na sociedade ou o chamado Terceiro Setor. Neste período, as ONGs surgem de forma organizada apoiando os movimentos sociais e sindicais da época, mas ela não se define como movimento e também não aparece com intenção de substituir o Estado, pois seu compromisso é com a sociedade. Na década de 1960 foram desenvolvidos os primeiros estudos acadêmicos, na área de ciências sociais sobre ONG e Terceiro Setor, sendo importante ressaltar que até a década de 1970 ocorreu pouca produção cientifica. Na década de 1990 este tema passou a ser inserido no programa de mais de 100 Universidades (FALCONER, 1999). O interesse por estes estudos decorre do próprio momento histórico, em resposta a repressão imposta pela Ditadura militar. Falconer (1999) afirma que recentemente a área administrativa no Brasil passou a realizar pesquisas sobre gestão, mas a produção científica é muito pequena. Neste momento histórico, afirma Oliveira (2002), as ONGs eram confundidas com revolucionários e pertencentes aos movimentos sociais (as ONGs apoiavam os movimentos). Estas organizações chamadas de ONGs cívicas pelo autor possuíam uma identidade democrática que lutava pela cidadania, igualdade social e solidariedade. Oliveira (2002) acrescenta que esta fase das ONGs cívicas foi muito reprimida até meados da década de 1980. Neste período os intercâmbios culturais com outros países começaram a ser possíveis graças as ONGs que possuíam suas raízes no exterior. Assim as ONGs com suas relações internacionais foram fatores importantes para situar a sociedade brasileira em um novo momento com novas complexidades e paradigmas divergentes. O fim do século, de acordo com Oliveira (2002), representou uma volta ao privado exigindo do Estado medidas mais efetivas com relação às questões sociais. O autor prossegue utilizando o conceito escolhido por Fernando Henrique Cardoso ao referir-se as ONGs naquele período, nomeando-as de ONGs Democráticas, pois de acordo com o ex Presidente, o Estado não precisa ser desmontado institucionalmente, mas sim politicamente. Antunes (1999) relata que a década de 1980 foi palco de profundas transformações nas condições do trabalho, o que também afetou a subjetividade dos trabalhadores, de suas 28 formas de representação, provocando reflexões e uma busca por novas formas de emprego. Prossegue o autor relatando que ocorreu uma expansão do Terceiro setor neste período decorrente da retração dos serviços, do mercado e conseqüente aumento do desemprego. Deste modo, o Terceiro Setor se torna um meio de incorporar as pessoas expulsas do mercado de trabalho, fazendo com que estas busquem um sentido social para trabalho. A falência do Estado do bem estar social, conclui o autor, é mais um dos fatores que possibilitou um aumento do Terceiro Setor, das ONGs e consequentemente das ofertas de emprego nesta área. Muito embora muitos autores como Landim (1999), Falconer (1999), Souza (1994) dentre outros retratem a história do Terceiro setor e ONGs, movida e sedimentada por movimentos sociais e políticos que contribuem para amenizar os problemas de ordem social e as desigualdades, o conceito carrega ambigüidades e controvérsias em sua classificação em sua funcionalidade, como modelo de ação, no que diz respeito aos procedimentos políticos e operacionais que adota em países de Terceiro Mundo. Montaño (2002), dentre outros autores, discursam sobre estas contradições, afirmando que as ambigüidades ocorrem a nível conceitual, nos critérios para delimitar e classificar as entidades que representam o terceiro setor e também as controvérsias observadas nas parcerias e financiamento, descaracterizando o termo” Sem Fins Lucrativos”. Afirma Montaño (2002) que a origem do termo terceiro setor adaptado de "nonprofit sector", se torna inadequado às características da cultura brasileira. No Brasil, ao definir-se o termo, deve-se considerar este inserido em um momento de mudanças sociais e políticas, além das influências religiosas que perpassam as ações dessas entidades. Montaño (2002) critica esta divisão dos três setores afirmando ser reducionista designar o econômico ao segundo setor, o político ao primeiro setor e o terceiro as questões sociais. O autor em sua tese de doutorado, defendida em 2001, faz uma crítica ainda aos acadêmicos e pesquisadores que se utilizam do termo atribuindo funções “salvacionistas” a um conjunto de entidades pertencentes ao terceiro setor. Deste modo, o termo terceiro setor ao mesmo tempo em que abarca muitas conquistas na esfera social, política, carrega ambigüidades e contradições reveladas em seu percurso histórico. 2.2.1 Classificação do terceiro setor A classificação das entidades do terceiro setor sempre apresentou incertezas em sua delimitação e incoerências em seu aspecto conceitual. Muitas mudanças no aspecto 29 jurídico ocorreram nas décadas de 1980 e 1990, na tentativa de redimensionar novas classificações e clarificar o conceito. Landim (1993) afirma que como a década de 1990 sofreu com intensas mudanças na esfera pública, estas refletiram também no campo de desenvolvimento social e na esfera jurídica. A Associação Brasileira das Organizações não governamentais (ABONG), neste contexto, auxiliou na organização e classificação das ONGs e organizações de terceiro setor em seu aspecto jurídico. A ABONG foi fundada em 1991 das ONGs e como parte de um movimento que almejava uma maior presença das ONGs na esfera pública, promovendo a interação com o grupo de institutos, fundações e empresas e com o campo da Assistência Social. Em 1997, de acordo com Ferrarezi (2001) o conselho da comunidade solidária7 iniciou a interlocução entre representantes da sociedade civil e o governo para reformular o Marco Legal do Terceiro Setor8, com objetivo de articular parceria entre ambos em combate à pobreza e à exclusão por meio de desenvolvimento social e também impor limites ou ampliar a atuação das ONGs. Prossegue a Ferrarezi (2001) afirmando que as Leis n- 9.790 de 1999 consolidaram as Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIPS), representando um marco legal para as ONGs e também como forma de organizar a esfera jurídica destas entidades. O Marco Legal das ONGs foi criado no mesmo ano que a ABONG, sendo esta uma associação civil legalizada, constituída por outras associações e fundações. Portanto, ONG pode ser considerada na esfera jurídica sob dois formatos: como associação civil ou fundação. Estas, dependendo da finalidade da organização, pode ser chamada de Organização da Sociedade civil (OSCS), Organização sem fins lucrativos (OSFL) ou ainda Organização da Sociedade Civil de Interesse Publico (OSCIP). Desta maneira, fica clara que a legislação de entidades sem fins lucrativos não se limita ao jurídico, mas também 7 Os objetivos do Conselho da Comunidade Solidária são: desenhar e implantar programas inovadores de desenvolvimento social baseados na parceria Estado-Sociedade e voltados a grupos populacionais vulneráveis e excluídos; desenvolver iniciativas de fortalecimento da sociedade civil; promover a Interlocução Política sobre temas de uma estratégia de desenvolvimento social para o país. 8 Antes da Lei 9.790/99 a legislação brasileira definia a finalidade não lucrativa para efeitos de certas leis, especialmente tributárias. A finalidade não lucrativa, para efeitos próprios de benefícios daquela lei específica, depende da não distribuição de lucros e não remuneração de sócios. Assim, na prática, acaba se proibindo a remuneração dos dirigentes e criando subterfúgios em que o sócio da organização deve deixar de ser sócio para receber a justa remuneração por seus serviços. Foi nesse ponto que a Lei 9.790/99 inovou, ao reconhecer pela primeira vez em uma lei que a finalidade não lucrativa não depende da não remuneração, contudo o fez somente para os efeitos daquela lei (Martins, 2000). http://www.lasociedadcivil.org/uploads/ciberteca/ferrarezi.pdf 30 envolve interesses e objetivos diversos e muitas vezes contraditórios (MAPA TERCEIRO SETOR, 2008). De acordo com o Novo Código Civil (MAPA TERCEIRO SETOR, 2008), as categorias de pessoas jurídicas de direito privado são divididas em: § Associações: (art. 53); formadas pela junção de pessoas com objetivos não econômicos, de modo que sua gênese parte da vontade humana. § Fundações: (art. 62); formadas por dotações de bens realizadas por terceiros. § Sociedades: (art. 981): formadas por pessoas que assumem a responsabilidade pela contribuição de bens e serviços, partilhando entre si os resultados. Estes termos jurídicos são também explicados na cartilha do terceiro setor: Apesar de serem comumente utilizadas as expressões” “entidade”, “ONG” (Organização Não Governamental), “instituição”, “instituto”etc., essas denominações servem apenas para designar uma associação ou fundação, as quais possuem importantes diferenças jurídicas entre si. Associação é uma pessoa jurídica de direito privado, sem fins econômicos ou lucrativos, que se forma pela reunião de pessoas em prol de um objetivo comum, sem interesse de dividir resultado financeiro entre elas. Fundação é uma pessoa jurídica de direito privado, sem fins econômicos ou lucrativos, que se forma a partir da existência de um patrimônio destacado pelo seu instituidor para servir a um objetivo específico, voltado a causas de interesse público. (MAPA TERCEIRO SETOR, 2008 p.7) De acordo com a Cartilha do terceiro setor (MAPA TERCEIRO SETOR, 2008), as entidades do terceiro setor não possuem tratamento jurídico diferenciado no aspecto trabalhista, embora as leis do voluntariado contemplem aspectos específicos à sua natureza. O trabalho voluntário insere-se na Lei nº 9.608/98, sendo que esta não gera vinculo empregatício, nem obrigação de natureza trabalhista e é caracterizada por atividade não remunerada, com objetivos cívicos, culturais, educacionais, científicos, recreativos ou de assistência social. A atividade voluntária deve ser formalizada em contrato escrito (Termo de Adesão), constando com clareza a natureza da função como as condições do serviço. (MAPA TERCEIRO SETOR, 2008) O perfil do trabalho voluntário no Brasil, de acordo com dados do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD, 2008) concentrou-se na área de saúde, educação, meio ambiente e assistência social (OLIVEIRA, 2002). 31 Observa-se que a classificação das organizações de terceiro setor é decorrente do Marco Legal, com a legalização das Organizações da Sociedade Civil (OSCIP), abarcando na esfera jurídica os Termos de Parceria e representando para a legislação um avanço nos critérios de classificação e qualificação. Com o governo estas mudanças não foram diferentes, afirma Landim (2002), pois o Marco Legal para o Terceiro Setor e a Comunidade Solidária representaram a necessidade de se definir e classificar as associações sem fins lucrativos . Mesmo com a tentativa de delimitar as entidades do terceiro setor, observa-se que as contradições e incertezas relacionadas ao conceito perpetuam, pois, não há outros critérios de classificação definidos como os modelos de gestão, ou porte destas instituições. A delimitação entre as entidades se dá em função da legitimidade e também em função da natureza do trabalho social desenvolvido. Além do aspecto jurídico, a gestão do terceiro setor também apresenta imprecisão de conceitos e insegurança em sua ação administrativa. Bose (2004) descreve a gestão do terceiro setor como em processo de desenvolvimento, sendo marcada pela carência de conceitos e pesquisas acadêmicas sobre o tema e também na resistência à mudança refletida na prática gerencial. Acrescenta a autora que a gestão de pessoas no terceiro setor reflete imaturidade administrativa, pela ausência de programas e práticas formais. Falconer (1999), Bose (2004) afirmam que muitos são os desafios do terceiro setor com relação ao modelo de gestão, pois além da funcionalidade incerta, apresenta carência na qualidade de serviços, de aperfeiçoamento técnico, remunerar especialistas, sendo exigidos até os critérios de governança, como padrões de transparência. Desta forma, verifica-se que a não clareza e falta de técnicas formais das práticas administrativa, favorecem as contradições sobre as definições e características das entidades do terceiro setor. A2.3 - QUALIDADE DE VIDA NO TRABALHO Para discutir conceitos e práticas de qualidade de vida no trabalho no século XXI, deve-se considerar as transformações ocorridas no contexto sócio - histórico - político do trabalho, como também as mudanças na economia mundial, nas relações de trabalho, na educação, na evolução tecnológica e também considerar os novos paradigmas sobre consumo e estilo de vida no ambiente de trabalho como fora deste (LIMONGI-FRANÇA, 2004). Na década de 1990, a qualidade de vida no trabalho reflete a dicotomia produtividade e humanização do ser humano trabalhador, evidenciando temas que revelam a preocupação global com o desenvolvimento produtivo e estilo de vida saudável, como 32 desenvolvimento sustentável, responsabilidade social e o próprio envelhecimento da população mundial (LIMONGI-FRANÇA,2004). A qualidade de vida no trabalho na sociedade pós-industrial foi desencadeada pelas seguintes determinantes: • • • • Vínculos e estruturas da vida pessoal: família, atividades de lazer, esportes, hábitos de vida, expectativa de vida, cuidados com a saúde, alimentação saudável, combate à vida sedentária, grupos de afinidade e apoio; Fatores socioeconômicos: globalização, tecnologia, informação, desemprego, políticas de governo, organizações de classe, privatização de serviços públicos, expansão do mercado de seguro-saúde, padrões de consumo mais sofisticados; Metas empresariais: competitividade, qualidade do produto, velocidade, custos, imagem corporativa; Pressões organizacionais: novas estruturas de poder, informação, agilidade, co-responsabilidade, remuneração variável, transitoriedade no emprego, investimento em projetos sociais. (LIMONGI-FRANÇA, 2004 p.21) Além desses determinantes acima, deve-se considerar que a partir de 1980, com a entrada das ONGs e as cooperativas no cenário nacional, novas possibilidades de emprego foram disponibilizados e também novos modelos de gestão organizacional, gerando reflexões no âmbito empresarial sobre a humanização no ambiente de trabalho e também com relação à responsabilidade das organizações com a sociedade e com seu entorno (BOSE, 2004). As ações de RS, no contexto empresarial, são aquelas que se comprometem em contribuir para a melhoria da qualidade de vida da sociedade, além das obrigações legais, tal como as leis trabalhistas e ambientais (GASPAR, 2001). Para Melo Neto e Froes (1999 apud GASPAR, 2001), o conceito de RS está vinculado a princípios norteadores que se agrupam em várias dimensões como a interna, com o treinamento e desenvolvimento, capacitação profissional e planos de remuneração e benefícios qualidade de vida do cliente interno e a dimensão externa atende à comunidade localizada próxima à empresa com a qual são desenvolvidas atividades de educação (programas de alfabetização de adultos e crianças, cursos de computação), saúde, assistência social (fornecimento de carteira de identidade, certidão de nascimento) e também ações ligadas à preservação do meio ambiente. Neste sentido pode-se afirmar que algumas das ações de cunho social das organizações de terceiro setor refletiram nas ações de responsabilidade social e ações voluntárias propostas nas empresas, influindo também nos critérios de qualidade de vida no ambiente organizacional. Muito embora a qualidade de vida no trabalho na contemporaneidade considere os aspectos sociais, ambientais, dentre outros como influentes 33 na saúde do trabalhador, a QVT, enquanto conceito e prática,” faz parte das mudanças pelos quais passam as relações de trabalho da sociedade moderna”(LIMONGI-FRANÇA,2004 p.20). A relação do homem com o trabalho desde 300 a.C., sempre despertou interesse em estudiosos que procuravam meios de aliviar os esforços físicos e otimizar as formas de trabalho (VASCONCELOS,2001).Neste sentido a preocupação com a qualidade de vida do ser humano no ambiente de trabalho, prosseguiu no século XX, demonstrada em estudos sobre motivação, necessidades, satisfação desenvolvidos por Mayo,Maslow,McGregor , Frederick Herzberg, dentre outros (RODRIGUES,1994). A origem do conceito QVT de acordo com Limongi-França e Arellano (2002) ocorreu a partir da crise dos anos 1930 e do conseqüente movimento sindical pós recessão com a regulamentação do trabalho de menores, da reinvidicação por horários adequados de jornadas de trabalho e das indenizações por acidentes. A partir da crise ocorreu maior preocupação de alguns gestores de empresas privadas com segurança e insalubridade no trabalho e também com adequação dos cargos aos salários, refletida no aspecto jurídico. Fernandes (1996) Rodrigues (1994) Vieira (1996) consideram que a origem do conceito científico de qualidade de vida no trabalho se deve a Eric Trist e colaboradores, que na década de 1950 desenvolveram pesquisas relativas às mudanças na relação homemtrabalho-organização, criando a abordagem sócio-técnica das organizações, visando amenizar os sofrimentos no ambiente de trabalho. A partir da década de 1960 os movimentos de QVT foram impulsionados pelas pesquisas de cientistas sociais, movimentos sindicais, empresários e governantes, com objetivo de compreender os efeitos do trabalho na saúde do trabalhador ( VIEIRA,1996). Rodrigues (1994) relata que na década de 1970, a crise energética afetou as grandes potências do ocidente, em específico nos Estados Unidos, e desta forma instituiu a competição no mercado internacional, modificando os modelos de gestão e conseqüentemente questionamentos sobre a qualidade de vida no trabalho. Acrescenta o autor que neste cenário as preocupações com a qualidade de vida no trabalhado foram desviadas para a preocupação com competição, aumento de produtividade e com a alta inflação. No fim da década de 1970, o interesse por pesquisas e técnicas relacionadas à QVT aumentou, principalmente após a superação da crise no Japão com um novo modelo de gerenciamento. Segundo Nadler e Lawler (s.d apud LIMONGI - FRANÇA, ARELLANO, 2002), a fase ocorrida entre os anos 1970 e 1980, foi o período de intensas discussões por parte de acadêmicos, pesquisadores, líderes sindicais e governistas em relação à saúde, bem estar e 34 satisfação das pessoas com seus trabalhos. No início da década de 1990, o cenário nacional começa a implantar medidas e programas de QVT, devido à maior competição com a entrada no mercado nacional de empresas internacionais (VIEIRA, C.G e LIMONGI-FRANÇA, A.C. s.d). Deste modo, Fernandes (1996 apud VIEIRA e LIMONGI-FRANÇA, s.d.) firma que muitos pesquisadores encontraram um ambiente favorável para desenvolver estudos relacionados a saúde do trabalho, produtividade e QVT, principalmente com as exigências na do Governo Federal brasileiro com o Programa Nacional de Qualidade.Segue abaixo quadro com alguns pesquisadores e suas definições de qualidade de vida no trabalho. Definição “QVT é o conjunto de ações de uma empresa no sentido de implantar melhorias e inovações gerenciais, tecnológicas e estruturais no ambiente de trabalho.” (LIMONGI-FRANÇA, 1996) “Atendimento de necessidades e aspirações humanas, calcado na idéia de humanização e responsabilidade social da empresa.” (WALTON, 1973) “QVT está associada à melhoria das condições físicas, atendimento das reivindicações dos trabalhadores e ampliação do conjunto de benefícios”(FERNANDES, 1996) De acordo com Westley (s d apud Fernandes,1996) existem quatro indicadores para QVT: econômico (referem-se a benefícios, equidade salarial, carga horária, local de trabalho), político (atuação sindical, liberdade de expressão, segurança no emprego, relacionamento com chefia), psicológico (desenvolvimento pessoal e profissional, auto-realização, variedade da tarefa, identificação com a tarefa, criatividade, realização potencial), sociológico (participação nas decisões, autonomia, relacionamento interpessoal, grau de responsabilidade e valorização pessoal). Maneira de pensar a respeito das pessoas, participação na resolução de problemas, enriquecimento do trabalho, melhoria no ambiente de trabalho. (NADLER e LAWLER, 1983) “Avaliação qualitativa da qualidade relativa das condições de vida, incluindo-se atenção aos agentes poluidores, barulho, estética, complexidade etc.” (DRUCKER, 1981) “QVT extrapola o ambiente organizacional e suas inter-relações no contexto do trabalho.A qualidade de vida do ser humano passa por todas as inter-relações que ele tem em seu processo de viver.”(PATRICIO,1999) Quadro1:Conceitos de Qualidade de vida no trabalho Fonte: Adaptado de Vieira, A.C. G e Limongi-França, A.C( s.d., p.5) 35 Com tantas definições sobre o conceito e características de QVT, Limongi-França (2004) propõe a divisão das dimensões de QVT em Escolas de Pensamento: Socioeconômica, Organizacional e Condição Humana no Trabalho. A socioeconômica refere-se às mudanças nas análises do conceito, decorrentes da globalização, refere-se à cidadania, responsabilidade social, igualdade, preservação do meio ambiente e o desenvolvimento sustentável. A escola organizacional, representada por Walton (1975), refere-se às pesquisas sobre saúde física e psicológica do trabalhador, expansão de processos de qualidade e produtividade, política de gestão de pessoas, valorização e capacitação, imagem corporativa; tempo livre comprometimento desenvolvimento cultural, lazer e esporte, risco e desafio como fatores de motivação. A escola de condição Humana no trabalho refere-se ao aspecto biopsicossocial, considerando as potencialidades biológicas, psicológicas e sociais (LIMONGI, 2004). Observa-se que os conceitos e práticas de qualidade de vida no trabalho que regem a sociedade contemporânea ou pós industrial (LIMONGI-FRANÇA, 2004) não mais priorizam somente a produtividade, mas também se atêm ao cumprimento de normas de qualidade de vida, questões de segurança, prevenção a situações de stress, com a conscientização social e ambiental. Fernandes (1996), Limongi-França (2004) defendem a idéia que a qualidade de vida no trabalho está relacionada às práticas gerenciais, necessitando que o gestor compreenda o lado humano da organização, além de utilizar os treinamentos, mas como ferramentas para um bom relacionamento interpessoal. Fernandes (1996) salienta que para se efetivar a QVT em uma organização não basta aderir a modismos, mas tem-se que adotar mudanças no sistema de recompensas, nas tecnologias e no ambiente de trabalho, adotando modelos de gestão mais participativos, com maior envolvimento dos funcionários, investindo na satisfação do cliente tanto externo como interno (funcionário). Ademais afirma a autora que um programa de QVT é responsabilidade de todos na organização e, portanto deve sempre ter o apoio da gerencia, chefias e funcionários. Acrescenta afirmando que a importância desta pratica de avaliação consiste em identificar os principais problemas que afetam os trabalhadores, buscando uma maior QVT e também maior produtividade, sendo que de acordo com Fernandes (1996) é o próprio trabalhador que possui o verdadeiro conhecimento de sua qualidade de vida nas várias situações de trabalho. Limongi-França (2004) relata que muitos ganhos em QVT nas organizações estão relacionados à valorização do ser humano e a gestão neste sentido colabora para que o processo de desenvolvimento pessoal, QVT e a produtividade caminhem juntos. 36 Neste sentido, as ONGs em sua maioria, possuem como um dos principais objetivos, o desenvolvimento social e pessoal de seus colaboradores, mas o modelo de gestão é deficiente. Teodósio (2001) faz citação de Che Guevara com relação ao principal desafio do terceiro setor, que seria “endurecer sem perder a ternura”, ou seja, formalizar prática de gestão, mas sem perder a característica da gestão social. Bose (2004) descreve o modelo de gestão do terceiro setor como” imaturo”, sendo que a dificuldade de implementação de melhorias gerenciais, dá-se muitas vezes pela própria resistência de seus colaboradores e coordenadores, devido ao receio de descaracterizar o modelo social de gestão. Muito embora ocorra esta resistência à mudança nos modelos de gestão, LimongiFrança (2004) afirma que a qualidade de vida no ambiente de trabalho se institui pelo conjunto de ações da organização, sendo elas de cunho social ou administrativo. Neste sentido Tenório (1999) descreve que a principal preocupação das ONGs é a descaracterização da natureza social, pois seus objetivos são pautados em um produto social, ou seja, não seguem a lógica de mercado. As ações de responsabilidade social, deste modo, podem representar tanto melhoria da qualidade de vida e sobrevivência das organizações, com a otimização de projetos sociais desenvolvidos com o financiamento realizado pelas empresas, como também pode ser uma tentativa de humanizar o ambiente do setor privado, melhorando consequentemente a QVT. 2.3.1 Indicadores Biopsicossociais e Organizacionais de Qualidade de vida no Trabalho O inventário de indicadores biopsicossociais-organizacionais de qualidade de vida no trabalho (BPSO-96) proposto por Limongi-França (1996 apud Limongi - França, 2004) foi baseado na visão ampliada de saúde (advindo da medicina psicossomática) apresentado por Lipowsky (1996 apud, Arellano, 2008) (Limongi-França, 2004) (Limongi-França& Rodrigues, 1999), no qual são consideradas as potencialidades biológicas, sociais, psicológicas do ser humano. A medicina psicossomática é uma abordagem herdeira do pensamento antigo, considerando a unidade corpo-alma-ambiente, tendo sua origem no surgimento da medicina com Hipócrates (séc. VI a.C.), que defendia a visão integrada de ser humano, de saúde J.T.D,MULLER,M.C,2007) e doença (RIECHELMANN, 2000 apud SILVA, 37 Mello Filho (1992 apud SILVA, J.T.d,MULLER,M.C,2007) afirma que a teoria da psicossomática na contemporaneidade desenvolveu-se em três fases: a primeira com os estudos psicanalíticos sobre a gênese do inconsciente, a segunda fase, behaviorista, com estudos sobre stress e a terceira fase multidisciplinar e interdisciplinar, destacando a dimensão social como fator influente na saúde humana. Muito embora o inventário BPSO-96(LIMONGI-FRANÇA, 1996 apud ARELLANO, 2008) baseou-se na proposta ampliada de saúde de Lipowsky, muitos pesquisadores em psicologia, como Vygostky, Skinner, Piaget, discursaram sobre esses aspectos influindo na vida do ser humano. O modelo biopsicossocial adotado pela medicina psicossomática na contemporaneidade é pautado em três dimensões influindo na saúde do ser humano: • • • Dimensão biológica: refere-se às características físicas herdadas ou adquiridas ao nascer e durante toda a vida. Inclui metabolismo, resistência e vulnerabilidades dos órgãos ou sistemas; Dimensão psicológica: refere-se aos processos afetivos, emocionais e de raciocínio, conscientes ou inconscientes, que formam a personalidade de cada pessoa e seu modo de perceber e de posicionar-se diante das demais pessoas e das circunstâncias que vivencia; Dimensão social: revela os valores socioeconômicos, a cultura e as crenças, o papel da família e as outras formas de organização social,no trabalho e fora dele, os sistemas de representação e a organização da comunidade a que cada pessoa pertence e da qual participa.O meio ambiente e a localização geográfica também formam a dimensão social.(LIMONGI-FRANÇA,2004,p. 26- 27) O modelo acima propõe uma visão holística e integrada do ser humano, considerando sua história pessoal, suas necessidades biológicas, psicológicas, socioculturais e a inter relação entre essas dimensões, podendo estas contribuírem para viabilizar ou não as condições de saúde e bem estar. O termo holístico, de acordo com Capra (1999) advém da palavra grega holos e a partir da década de 1980, foi definida como sinônimo da palavra sistêmico, designando as dimensões inter ligadas e também em inter relação, considerando que nenhuma ação humana é isolada. O quadro abaixo apresenta as três dimensões propostas pela abordagem biopsicossocial, apoiado no enfoque holístico. Esfera biológica Esfera psicológica -Sono, alimentação e atividade Auto conhecimento; Esfera social -Melhoria das condições 38 física; -Métodos: terapêuticos, de vida pessoal e familiar; espirituais e filosóficos; -Intervenções clínicas; -Desenvolvimento -Busca de convivência profissional e cultural; -Medicação, vitaminas; menos conflituosa com -Interação indivíduo e -Técnicas de distensão e pares e grupos; meio ambiente; repouso; -Compensação de -revisão e -Adequação do estilo de vida frustrações com atividades redimensionamento das de auto-realização; às necessidades individuais. formas de organização de -Compreensão dos trabalho; símbolos e das -Investimento na necessidades dos pares. autogestão da carreira de do sucesso profissional e pessoal Quadro 2- Dimensões biopsicossociais Fonte: Adaptado de Ana Cristina Limongi-França e Gustavo Zaima (2002, p.407) Nesta linha de pensamento, a Organização Mundial de Saúde, OMS ( LIMONGIFRANÇA, 2004) em 1986, ao definir o conceito de saúde, adotou o modelo biopsicossocial, designando saúde como “o completo bem-estar biológico, psicológico e social e não apenas ausência de doença”. Minayo et al.(2000) corroboram com esta definição,afirmando que saúde deve ser considerado como um conjunto de necessidades humanas,tais como, materiais,sociais, espirituais, dentre outras. Acrescentam os autores que a OMS desenvolveu dois instrumentos para avaliar qualidade de vida nos critérios biopsicossociais, o WHOQOL100 e o WHOQOL-Bref. Vasconcelos (1998 apud SILVA, J.T.d,MULLER,M.C,2007) afirma que pesquisas recentes na abordagem psicossomática consideram que a saúde e doença sofrem influências das dimensões biológica ,psicológica, social, espiritual e ecológica, ampliando deste modo o modelo biopsicossocial de saúde que influi no bem-estar e qualidade de vida, adotado pela OMS. Acrescenta o autor que a abordagem biopsicossocial de saúde está aos poucos se transformando em abordagem biopsicossocioespiritual-ecológico. De acordo com Patrício (1999) a qualidade da vida humana devido à sua complexidade, deve ser abordada de maneira interdisciplinar, considerando os estudos de autores que revelam novos paradigmas como o holístico (CAPRA, 1999) e holisticoecológico proposto por Patrício (1999). A qualidade de vida do ser humano, expressa a 39 qualidade de sua saúde, de suas relações, necessidades e também na relação consigo mesmo, com sua totalidade e complexidade, considerando o processo de transformação da vida humana e a qualidade de vida neste processo (PATRICÍO, 1999). Qualidade de vida, enquanto produto e processo, diz respeito aos atributos e às propriedades que qualificam essa vida, e ao sentido que tem para cada ser humano. Diz respeito às “características do fenômeno da vida”, ao “como esta se apresenta”, ao “como se constrói” e “como o indivíduo sente” o constante movimento de tecer o processo de viver nas interações humanas.( PATRICÍO 1999, p.50) Para a autora o ser humano saudável é aquele que busca realização e também situações de prazer e felicidade respeitando os princípios éticos e estéticos da vida individual, comunitária e também da vida global. Com relação à qualidade de vida no trabalho, Limongi-França (2004) ampliou o modelo apresentado por Lipowsky (1996, apud LIMONGI-FRANÇA, 2004) acrescentando o aspecto organizacional (ARELLANO, 2008). O ambiente de trabalho e os variados aspectos que o constituem, representam um dos aspectos principais na vida do homem contemporâneo (ANTUNES, 1999; MORIN et al, 2007), desta maneira Limongi-França (2004 apud, ARELLANO, 2008) ao considerar o aspecto organizacional pretendeu englobar a imagem corporativa, programas de treinamento e desenvolvimento, ambiente organizacional, a cultura e demais aspectos corporativos. Limongi-França (2004) afirma que o modelo biopsicossocial no ambiente de trabalho refere-se à ética da condição humana, ou seja, controle dos riscos ambientais, padrões e qualidade das relações, implicações políticas e ideológicas, significado do trabalho e satisfação das pessoas em seu cotidiano. O trabalho como um dos aspectos centrais da vida influi na qualidade de vida do ser humano. Rodrigues (1994) destaca que a QVT influência e é influenciada por vários aspectos dentro e fora do ambiente de trabalho, sendo necessário considerar todas as variáveis que intervém na vida pessoal e também na vida profissional. A QVT é considerada de fundamental importância neste sentido, não somente para vida profissional, como também para a realização humana em outros domínios da vida, observando-se que existe uma ligação entre as atitudes das pessoas em relação à sua vida pessoal e também ao seu trabalho (VREDENBURGH e SHERIDAN, 1979 apud RODRIGUES, 1994). Este fato demonstra o aspecto sistêmico do conceito de qualidade de vida e qualidade de vida no trabalho, no qual se deve considerar as múltiplas variáveis que envolvem e influem na saúde do ser humano . Com base nesta afirmação, Limongi-França (1996 apud 40 MANCINI, 2004) ao elaborar o inventário de indicadores BPSO-96 de qualidade de vida no trabalho considerou os critérios de QVT propostos por Walton e os indicadores de índice de desenvolvimento Social (IDS), ou seja, as questões políticas, econômicas, sociais, ambientais, culturais de um povo e também o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) que abrange as questões relativas à saúde, alimentação, lazer, condição de trabalho. Os indicadores de acordo com Limongi-França (1996 apud MANCINI, 2004) são ferramentas que auxiliam as organizações, permitindo maior clareza nos planejamentos e decisões. Os indicadores BPSO96 podem ser verificados no quadro abaixo: Dimensão Organizacional Social Indicadores BPSO-96 Descrição -Endomarketing; -Comitês executivos decisórios; -Comunicação interna; -Treinamentos; Ações que valorizam e imagem, estrutura, produto e relacionamento da empresa com os empregados. Direitos legais; Ações que oferecem -Atividades associativas e benefícios sociais obrigatórios e esportivas; -Eventos de turismo e espontâneos e criam cultura; oportunidade de lazer e -Atendimento à família. cultura. Psicológica Processo de seleção e Ações que promovem a avaliação de desempenho; auto-estima e o -Carreira; desenvolvimento de -Remuneração; capacidades pessoais e -Programas participativos. profissionais. Biológica Mapa de riscos; -SIPAT; -Refeições; -Serviço médico interno contratado; -Melhorias ergonômicas; Ações que promovem a saúde, que controlam os riscos ambientais e atendem às necessidades físicas. Quadro3- Indicadores BPSO-96 Fonte: Adaptado de Ana Cristina Limongi-França e Gustavo Zaima (2002, p.409). Acrescenta Limongi-França (1996 apud MANCINI, 2004) que a ação social, ação de cidadania, ações de responsabilidade sócio ambiental, atividades culturais ou lazer, 41 autonomia para o trabalho, conforto no ambiente físico, estabilidade no emprego, privacidade para realização do trabalho, nível cultural dos empregados e empregadores são considerados indicadores de qualidade de vida no trabalho. 42 3. DELINEAMENTO DA PESQUISA 3.1 CARACTERIZAÇÃO DA PESQUISA Esta pesquisa define-se por ser um estudo qualitativo, do tipo descritivo exploratório, que visa investigar os sentidos de qualidade de vida no trabalho para membros de uma ONG promotora de desenvolvimento social, comunitário e ambiental, situada na região da grande Florianópolis, SC. De acordo com Gil (1991), a pesquisa descritiva visa caracterizar determinado fenômeno identificando suas características e as variáveis que o constitui. O objetivo da investigação descritiva é descrever de forma mais completa possível os comportamentos de uma variável em uma população definida, sem, porém, estabelecer relações causais entre as variáveis. A pesquisa exploratória oportuniza ao pesquisador entrar em contato com o campo de pesquisa, a fim de levantar dados e hipóteses sobre o objeto pesquisado (GIL, 1991). 3.2 CARACTERIZAÇÃO DA ONG Esta pesquisa foi realizada em uma ONG situada na região da grande Florianópolis, Santa Catarina, fundada e legalizada em 1980, objetivando inicialmente o desenvolvimento social, urbano e comunitário do bairro escolhido para seu estabelecimento, empregando somente os moradores daquele bairro, fortalecendo a economia da região e oferecendo melhor qualidade de vida e de moradia. Com a finalidade de proteger a identidade da ONG, cenário desta pesquisa, esta foi nomeada com nome fictício de ONG Educação para o Futuro. Atualmente o quadro de funcionários é composto por 80% de pessoas do bairro, sendo os demais cargos ocupados por pessoas de outras localidades, que possuíam a qualificação exigida, mas não encontrada no bairro. Para compreender a estrutura desta ONG, pode-se afirmar que esta é dividida em três Equipes: a Equipe Administrativa e a Equipe Pedagógica (trabalhadores de ambas as equipes são contratados pela CLT) e a Equipe do Conselho Fiscal (são voluntários). A equipe administrativa compreende a recepção (uma pessoa), o RH ( quatro pessoas), o Bem Estar (possui 3 pessoas para equipe de limpeza) e Alimentação (3 pessoas). A equipe pedagógica é responsável pelas avaliações, sendo que os atuais professores (14) foram as próprias crianças e adolescentes da fase inicial da ONG. O quadro do Conselho Fiscal é composto por voluntários dividido em Presidente, um vice- 43 presidente, secretários e tesoureiros, em um total de seis pessoas. O conselho passa por eleições de três em três anos para a escolha de seus participantes. O quadro atual da ONG é formado por 25 trabalhadores pela CLT (sendo 22 mulheres) e conta com a ajuda de 34 voluntários (sendo que todos os funcionários exercem algum tipo de trabalho voluntário), atendendo a 105 crianças e 60 adolescentes. Todas as pessoas que trabalham na ONG são nomeadas de educadores independente de sua função. As ações atuais da ONG englobam inúmeros projetos voltados ao desenvolvimento social e ambiental, erradicação e prevenção do trabalho infantil e também desenvolvimento social e comunitário. A ONG além de atender a comunidade, oferece para seus membros encontros e reuniões para desenvolvimento pessoal, no qual são articulados os planejamentos, treinamentos, ´”cultivo de espiritualidade” sempre permeados pelo cunho religioso. Além destes encontros, outras atividades que perpassam pela corrente da fé, são as práticas de saúde , os retiros espirituais atividades de lazer como bingos e outras festas em parceria com as congregações do bairro. Missão da ONG: Ser presença de transformação na comunidade e através de programas Pedagógicos, Profissionalizantes, Ambientais e Comunitários, caminhar com a comunidade na busca de cidadania e melhor qualidade de vida. 3.3 CARACTERIZAÇÃO DOS PARTICIPANTES DA PESQUISA Os sujeitos participantes desta pesquisa são todas do sexo feminino e trabalham um período de oito horas durante cinco dias semanais em duas equipes da ONG (Administrativa e Pedagógica). Segue abaixo a quadro 4 com a caracterização dos sujeitos: Sujeitos Idade Sujeito 1 32 anos Estado Civil Divorciada Filhos Grau de Instrução Função exercida em sua entrada na ONG Função atual exercida Equipe Uma filha de quinze anos Superior Incomplet o em Pedagogia Auxiliar de Limpeza-Bem Estar Função administrativa no setor RH (auxiliar administrativa ) e também Administr ativa 44 Fórum Externo Sujeito 2 84 anos Solteira por vocação religiosa Não tem Superior Completo em Orientaçã o profission al pela PUC-Rio Coordenadora Geral Coordenadora Geral Administr ativa Sujeito 3 50 anos Casada há Quatorze anos Possui dois filhos adotivos Ensino médio completo Auxiliar de Limpeza-Bem Estar Atua no Bem Estar e também ministra aulas de Musica Administr ativa Sujeito 4 26 anos Casada há cinco anos Possui dois filhos Ensino médio Completo Recepcionista Recepcionista há cinco anos Administr ativa Sujeito 5 27 anos União Estável à quatro anos Possui uma filha Superior Incomplet o em Pedagogia Auxiliar de classe Professora Pedagógic a Quadro 4- Perfil dos Sujeitos Participantes Fonte:Elaboração da autora,2008. 3.4 A ESCOLHA E CONTATO COM PARTICIPANTES A escolha dos participantes desta ONG deu-se em virtude da própria vivência acadêmica da pesquisadora no estágio obrigatório do núcleo de Psicologia e Trabalho Humano, linha de pesquisa em Saúde do Trabalhador, sendo que o único critério da pesquisadora para escolha destes sujeitos pautou-se em realizar a entrevista com os sujeitos registrados pela CLT, independente de pertencer à Equipe Administrativa ou a Equipe Pedagógica da ONG. Os sujeitos da pesquisa foram os cinco trabalhadores (todas as mulheres) registrados pela CLT que atuam nas equipes Administrativas e Pedagógicas, isto é, quatro sujeitos exercem suas funções nos setores da Recepção (recepcionista), RH ( coordenadora geral e auxiliar administrativa) e Bem-Estar (setor de limpeza) e uma pessoa atua ministrando aulas e avaliando alunos, pertencente à Equipe Pedagógica. Com relação ao primeiro contato com a ONG, este ocorreu no segundo semestre de 2007, momento em que a pesquisadora elaborava o projeto de pesquisa da 45 disciplina TCC I. O contato inicial se deu por telefone, em uma conversa com a coordenadora geral da ONG, em que foi agendada uma visita para a apresentação do projeto de pesquisa. Neste encontro com a coordenadora da ONG foi informado o objetivo da pesquisa e o seu procedimento para coleta dos dados. Com a aprovação da coordenadora, foi entregue o documento a ser assinado, o Termo de Concordância entre as Instituições, para autorização de realização da pesquisa conforme as normas do comitê de ética e pesquisa (CEP- UNISUL). Foi realizado um novo contato com a coordenadora no segundo semestre de 2008, e posteriormente agendado os horários de entrevista com os sujeitos indicados pela própria coordenadora (de acordo com critérios apresentados pela pesquisadora). Nestes encontros com as entrevistadas primeiramente foi explicado o objetivo da pesquisa sendo entregue o Termo de Consentimento livre e esclarecido (TCLE), autorizando a realização da entrevista com cada sujeito. Durante a realização da pesquisa, os procedimentos pautaram-se nos preceitos éticos, respeitando o anonimato dos sujeitos, objetivando a coerência e fidelidade ao relato dos sujeitos e clareza com relação aos resultados. 3.5 INSTRUMENTOS E PROCEDIMENTO PARA COLETA DE DADOS Para coleta dos dados foi utilizado como instrumento a entrevista semi-estruturada (APÊNDICE A), cujo objetivo foi investigar os sentidos de qualidade de vida no trabalho, a partir de indicadores biológicos, psicológicos, sociais e organizacionais de qualidade de vida no trabalho e também identificar os motivos que levaram cada sujeito a trabalhar na ONG. De acordo com Gil (1991) a entrevista semi estruturada consiste em um processo de investigação, caracterizado pelo diálogo entre entrevistador e entrevistado, que permite uma grande flexibilidade de obtenção de informações, tanto com o relato do entrevistado, quanto com a sua comunicação não verbal. O instrumento utilizado nesta pesquisa foi elaborado pela pesquisadora com auxílio da orientadora, sendo selecionadas duas questões para cada indicador biopsicossocialorganizacional de qualidade de vida no trabalho de acordo com Limongi-França (1996 apud ARELLANO, 2008), três questões para os motivos que levaram o sujeito a trabalhar na ONG, estas respondendo aos cinco objetivos específicos. O instrumento foi uma adaptação do BPSO-96(LIMONGI-FRANÇA, 1996 apud ARELLANO, 2008), sendo que os indicadores são derivados dos indicadores independentes de QVT e foram selecionados pela pesquisadora de forma aleatória. Segue abaixo quadro com os indicadores de qualidade de vida no trabalho selecionados para a pesquisa: 46 Organizacionais Biológicos Psicológicos Sociais Endomarketing Programa T&D Implantação de processos e tecnologias Gestão participativa Redução da burocracia Atendimento as rotinas de pessoal Semana de prevenção a acidentes Prevenção de riscos (PPRA) Ambulatório convênio médico Ginástica/refeições Controle medico-PCMSO Atuação na CIPA Critérios de recrutamento e seleção Ferramentas de avaliação de desempenho Gestão de clima organizacional Plano de carreira Administração de salários Respeito à vida profissional e pessoal Convênios comerciais Atividades de lazer Atendimento aos filhos Fornecimento de cesta básica Previdência privada Financiamento de cursos externo Quadro 5-Indicadores de qualidade de vida utilizados na pesquisa Fonte:Adaptado de (LIMONGI-FRANÇA,1996 apud ARELLANO,2008) O instrumento também possui uma questão principal sobre o que seria qualidade de vida no trabalho com objetivo de apreender os sentidos de cada membro e uma última questão composta por 28 itens relacionados aos indicadores biopsicossociais-organizacionais. Esta última questão (21) foi posteriormente desconsiderada na análise, pois não apresentou dados relevantes à pesquisa, sendo que todos os sujeitos consideraram 26 dos 28 indicadores biopsicossociais –organizacionais como influentes na qualidade de vida no trabalho. Foi realizado uma entrevista teste (piloto), anterior as entrevistas oficiais com o objetivo de validar o instrumento, testando sua confiabilidade e fidelidade, para mais efetiva obtenção de resultados. A entrevista piloto foi realizada com o coordenador de uma ONG da 47 região da grande Florianópolis com características semelhantes à ONG escolhida. Posteriormente a realização da entrevista piloto foi verificada a necessidade de adequação do instrumento aos sujeitos e realidade do fenômeno escolhido para pesquisa. Após o contato com os sujeitos e a entrega do termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) e com a autorização de gravação das entrevistas, estas foram realizadas em local de trabalho tranqüilo. Quatro das cinco entrevistas ocorreram em ambiente tranqüilo com o mínimo de interrupção. Apenas em uma das entrevistas ocorreram muitas interrupções, com entrada e saída de pessoas. Cada entrevista foi realizada em um tempo aproximado de 40 minutos, sendo posteriormente transcritas conforme relato literal de cada sujeito. 3.6 PROCEDIMENTOS PARA ORGANIZAÇÃO, TRATAMENTO E ANÁLISE DOS DADOS Primeiramente foi realizada a transcrição das entrevistas, com escuta atenta ao relato do sujeito, tentando analisar as respostas, organizando o material, como uma pré análise e posteriormente foram escolhidas as categorias. A pesquisadora selecionou as respostas semelhantes a cada entrevistado, advindas de perguntas que se referiam aos objetivos específicos. A categorização de acordo com Bardin (2004) é uma operação de classificação, diferenciação e reagrupamento de conceitos semelhantes. Acrescenta a autora que os processos de seleção das categorias seguem um determinado padrão: devem ser exaustivas: considerando todo corpo do texto; exclusivas: cada categoria possui sua determinada propriedade e elementos; objetivas: devem transmitir clareza e pertinentes: coerentes com os objetivos e com o tema proposto pela pesquisa. As categorias selecionadas foram necessárias para a etapa posterior de análise de conteúdo que é a escolha das unidades de análise, compreendendo o tratamento dos resultados, a inferência e a interpretação. Minayo (2000) afirma que a análise de conteúdo verifica hipóteses, ou seja, o que está por trás do conteúdo relatado e também expressado pelo sujeito entrevistado. Depois de estabelecidas as categorias, a etapa seguinte é o tratamento dos dados, permitindo inferir no conteúdo comunicado pelo sujeito aproximando-o do tema proposto pela pesquisa. Bardin (2004) afirma que a análise é um conjunto de técnicas da comunicação que objetiva obter por procedimentos a descrição do conteúdo relatado e manifesto produzindo inferências. A inferência significa interpretar o que a mensagem representa, sendo que é possível interpretar o conteúdo narrado e seus significados (BARDIN, 2004). A interpretação é a próxima etapa, objetivando buscar um sentido no conteúdo relatado, sendo necessário 48 nesta etapa retomar as referencias teóricas. Desta forma, foi realizada a análise dos dados relatados pelos sujeitos, interpretando e buscando um sentido de acordo com a literatura escolhida para análise. 49 4. APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS DADOS Neste capítulo serão apresentados e analisados os dados obtidos por meio do relato dos sujeitos entrevistados. Estas serão organizadas em subcapítulos referentes aos objetivos específicos da pesquisa, contextualizados em cinco eixos temáticos, os quais são: aspectos psicológicos, aspectos biológicos, aspectos sociais, aspectos organizacionais, motivos que levaram a trabalhar na ONG. 4.1 ASPECTOS PSICOLÓGICOS Segundo Limongi-França (1996 apud LIMONGI-FRANÇA, 2004), são vários os aspectos ou indicadores psicológicos que influem na qualidade de vida no trabalho. Confiança nos critérios de recrutamento, seleção e nas ferramentas de avaliação de desempenho; plano de carreira; administração de salários; respeito à vida pessoal e relacionamento interpessoal com os colegas no ambiente de trabalho, são alguns exemplos. Nesse eixo temático, são analisados os critérios relacionados ao objetivo específico: sentidos que os sujeitos atribuem aos aspectos psicológicos, mais especificamente em relação à relacionamento interpessoal e a oportunidade de crescimento profissional. 4.1.1 Relacionamento interpessoal O ambiente de trabalho guarda a propriedade de influenciar os afetos e humores dos trabalhadores (GONDIM e SIQUEIRA, 2004), desse modo, procurou-se verificar como os sujeitos da pesquisa descrevem suas relações no ambiente de trabalho. Os dados demonstrados no quadro abaixo foram obtidos a partir da seguinte questão do instrumento de coleta de dados: Como você descreveria a relação com seus colegas no ambiente de trabalho? As categorias são apresentadas na coluna esquerda, as respostas encontram-se na coluna central do presente quadro e a freqüência de cada resposta é apresentada na coluna da direita. Categorias Unidade de Contexto Elementar (UCE) Freqüência 50 Amigável “Boa, bem boa. (...) Assim eu procuro estar sempre disponível 5 pra ajudar,porque eu tenho consciência assim que se alguém me pediu ajuda é porque eu posso suprir e se eu não posso é ver quem pode ajudar. Aqui às vezes eu estou cheia de serviço,mas a pessoa pediu e sempre procuro me colocar no lugar da pessoa né, de levar um não,eu não posso ou de estar ali nem que seja rapidinho,eu vou perder um pouquinho de tempo,mas e quando eu tiver na posição inversa” (Sujeito 1) 3 Às difícil “Mas claro que já aconteceu da gente ter bastantes desentendimentos (...) não é um mar de rosas. Eu penso que em nenhum lugar é um mar de rosas. (...) Mas é isso, acho coisas internas [problemas pessoais] e stress ás vezes atrapalha...”( vezes Sujeito 5) Quadro 6- Relacionamento Interpessoal Fonte: Elaboração da Autora, 2008 Observa-se no quadro 6, que os cinco sujeitos entrevistados consideram o relacionamento com os colegas no ambiente de trabalho como amigável, e três sujeitos apresentam opiniões complementares, considerando o relacionamento com os colegas de trabalho às vezes difícil, mas sempre com possibilidade de superação dessas dificuldades. O ambiente de trabalho de acordo com Gondim e Siqueira (2004) influencia nas emoções, humor e afeto do trabalhador podendo viabilizar ou não as relações entre os colegas e o clima de bem estar no trabalho. Na categoria amigável pode-se perceber como as relações na ONG, caracterizam-se pela superação das dificuldades que venham a surgir nos relacionamentos no ambiente de trabalho e também a disponibilidade em ajudar o próximo, sendo verificada nos relato do sujeito 1 . “(...) Assim eu procuro estar sempre disponível pra ajudar, porque eu tenho consciência assim que se alguém me pediu ajuda é porque eu posso suprir e se eu não posso é ver quem pode ajudar. Aqui às vezes eu estou cheia de serviço,mas a pessoa pediu e sempre procuro me colocar no lugar da pessoa né (...)”(Sujeito 1) Moscovici (1998) afirma que viver em grupo é complexo e a habilidade de lidar com as situações interpessoais remete a necessidade de auto conhecimento para desfazer as impressões negativas não realísticas. A importância de auto conhecimento portanto,se faz necessário, quando se trabalha com grupo de pessoas, pois auxilia na avaliação das situações e 51 também na efetividade e congruência da ação, podendo ser observada esta característica no relato do sujeito 2 abaixo: “Eu sou uma pessoa, eu me relaciono bem com todo mundo. Eu faço brincadeiras assim, brinco. Tem os momentos difíceis que a gente tem que ser mais dura, mas não existe dificuldade.” (Sujeito 2) Outra característica percebida na categoria amigável é a valorização pela atitude de cooperação e solidária no ambiente de trabalho, podendo ser verificada no relato do sujeito 5 abaixo: “(...) faltou algum funcionário, todo mundo se abraça, todo mundo ajuda (...).” (Sujeito 5) Zanelli (2004) afirma que muitas vezes são introduzidas normas que estimulam a solidariedade, empatia e expressão de sentimentos visando à união grupal, mas às vezes estes recursos são utilizados para minimizar sentimentos negativos ou até inibir essas emoções percebidas e avaliadas como desintegradoras. Teodósio e Brum (2001 apud BOSE, 2004) referem-se à proximidade nos relacionamentos como tentativa de manutenção da confiança, harmonia e afeição entre os membros. Moscovici (1998) afirma que as relações interpessoais decorrem do processo de interação no grupo e engloba crenças, valores, atitudes, preconceitos, estilo comportamental particular de cada sujeito. Acrescenta a autora que as diferenças individuais influem nos processos de comunicação, relacionamento e também nos processos de trabalho. Na categoria relacionamento interpessoal como às vezes difícil, essas diferenças individuais são descritas fazendo parte do cotidiano de trabalho, podendo ser observado no relato do sujeito 4: ´´(...) em todos os setores a gente tem sempre uma diferença assim, uma coisa assim, mas a gente tenta da um jeitinho para arrumar e tal né.´´(Sujeito 4) Na fala do sujeito 4 observa-se que este identifica dificuldades individuais influenciando no coletivo,mas existe a superação destas pelo próprio grupo. Moscovici (1998) afirma que quando as diferenças individuais são aceitas e tratadas no coletivo com uma comunicação transparente e efetiva a relação no ambiente de trabalho torna-se cooperativa e estimulante. Observa-se que as dificuldades e diferenças pessoais são reconhecidas pelos sujeitos, mas estas são resolvidas e trabalhadas no grupo de forma a não prejudicar o 52 andamento do trabalho, muito embora situações de stress possam influir no relacionamento, como é verificado na categoria a seguir. Na categoria às vezes difícil observa-se também, a presença de fatores inviabilizadores nas relações, como por exemplo, o stress. Este dado pode ser verificado na fala do sujeito 5: “(...) Mas é isso acho coisas internas [problemas pessoais] e stress ás vezes atrapalha.” (Sujeito 5) De acordo com Tamayo et al (2002 apud TAMAYO, 2004) em uma pesquisa sobre stress ocupacional e auto conceito profissional, revelou que o stress influi negativamente na percepção dos trabalhadores sobre a saúde e segurança no ambiente de trabalho, além de influir nos relacionamentos. Este fato pode ser verificado no relato do sujeito 5, demonstrando que o stress e problemas pessoais influem na dinâmica do trabalho.Além destes fatores, observa-se que a falta de clareza nas tarefas também pode contribui para gerar desentendimentos.Este fato pode ser observado no relato do sujeito 1: “(...) Assim eu procuro estar sempre disponível pra ajudar, porque eu tenho consciência assim que se alguém me pediu ajuda é porque eu posso suprir e se eu não posso é ver quem pode ajudar(...)(Sujeito 1) Bose (2004) afirma que um dos problemas das organizações do terceiro setor é a não clareza das tarefas, o que muitas vezes justifica a lentidão do serviço e também alguns conflitos que possam surgir. Desta forma pode-se inferir que a comunicação e a qualidade no ambiente de trabalho influem diretamente na qualidade de vida do trabalhador, sendo necessário desta forma criar estratégias positivas de gerenciamento para manutenção da integração entre os membros da ONG. Teodósio (2001) afirma que a melhor estratégia para promover a integração dos membros de Terceiro Setor é investir em técnicas gerenciais adaptadas à realidade social como, por exemplo, optar por uma estrutura hierárquica reduzida, priorizar o trabalho em equipes multidisciplinares, estimular a comunicação formal e informal, adotar reuniões periódicas, dentre outras. Muito embora as técnicas gerenciais possam influir nas condições de trabalho e consequentemente na saúde do trabalhador, faz-se necessário “ouvir” o cliente interno, fortalecendo a comunicação e o relacionamento interpessoal, para que a qualidade de vida no ambiente de trabalho aconteça de acordo com as necessidades destes sujeitos. 53 No próximo eixo será discutido outro indicador psicológico, oportunidade de crescimento profissional, que de acordo com Limongi-França (2004) influi na qualidade de vida no trabalho. 4.1.2 Oportunidades de crescimento profissional As oportunidades de crescimento profissional estão relacionadas com a motivação para o trabalho (COSTA, 2000), de modo a influir na qualidade de vida no trabalho. No próximo quadro abaixo, são apresentados os relatos dos sujeitos relativos à forma como os mesmos analisam as oportunidades de crescimento profissional existentes na ONG. Em virtude da diversidade de respostas, foi criada a coluna das subcategorias. Os dados abaixo analisados são decorrentes da pergunta: Como você analisa as oportunidades de crescimento profissional existentes na ONG? Categorias Existe Subcategorias Unidade de Contexto Elementar Freqüência (UCE) “Olha nós fazemos quatro vezes no 3 ano uma reunião com os educadores e nessa reunião tem cultivo de Desenvolvimento personalidade, espiritualidade e Pessoal treinamento e cada um assume uma tarefa para cultivar liderança,para tentar ajudar e também tem mais duas reuniões desta pra planejamento , avaliação e temos um dia de cultivo.”(Sujeito 2) “Eu vejo assim ó...eu vejo boa assim. Incentivo à Muitas estão fazendo faculdade, formação fazendo direto curso,aqui eles incentivam muito a gente a aprender.”(Sujeito 3 54 Depende do sujeito Limitada “Na ONG?... Olha eu não sei, porque minha história por si já diz que há uma possibilidade(...). (...) Mas é assim pra mim foi e é importante, agora é importante pra quem sabe aproveitar, porque eu vejo assim a instituição ofereceu muita coisa sim, mas também foi porque eu fui buscar, eu quis aprender. Muitas pessoas aqui começaram na limpeza e continuam na limpeza então é muito da pessoa buscar e dispor para cursos, ir fazer contatos. Aqui é diferente das empresas (...)” ( Sujeito 1) “Oportunidade, hoje em dia não tem 2 mais né,como carreira não tem nenhuma porque é uma ONG pequena né e a função é professor,auxiliar e eu já estou no estágio já no meio termo e tem a coordenadora e a Irmã que é a coordenadora geral.”(Sujeito 5) Quadro 7- Oportunidades de crescimento profissional Fonte: Elaboração da autora, 2008. Observa-se no quadro acima que 3 dos entrevistados consideram que existe a possibilidade de crescimento profissional e 2 dos entrevistados consideram limitada a oportunidade de crescimento profissional. Desses 3 sujeitos que consideram existe oportunidade de crescimento profissional, 1 considera crescimento profissional decorrente de desenvolvimento pessoal, 1 considera que o crescimento profissional é resultado de incentivo a formação e 1 avalia que o crescimento profissional depende do sujeito. Muito embora Falconer (1999) alegue que as organizações do terceiro setor não invistam em técnicas de desenvolvimento pessoal, esta subcategoria pode ser observada nesta ONG, como uma condição da gestão administrativa, inserida nas reuniões e treinamentos, como estratégia de crescimento pessoal, observado no relato do sujeito 2: “Olha nós fazemos quatro vezes no ano uma reunião com os educadores e nessa reunião tem cultivo de personalidade, espiritualidade e treinamento e cada um assume uma tarefa para cultivar liderança,para tentar ajudar e também tem mais duas reuniões desta pra planejamento ,avaliação e temos um dia de cultivo.” (Sujeito 2) 55 Muito embora o sujeito 2 considere crescimento profissional como inserido nas reuniões, como desenvolvimento pessoal, observa-se que não existe uma formalidade nas ações administrativas,sendo que estas estão sempre vinculadas ao aspecto religioso. Portanto existe uma necessidade de formalização das técnicas administrativas, afim de beneficiar tanto a organização como o próprio funcionário, devido a possibilidade de crescimento na carreira. Costa (2000) afirma que a organização que investe em seu funcionário, preocupando-se também com o treinamento relacionado ao terceiro setor observa que ocorre maior motivação e desenvolvimento pessoal e profissional. A subcategoria incentivo a formação, pode desta forma, ser verificada no relato abaixo: “Eu vejo assim ó...eu vejo boa assim.Muitas estão fazendo faculdade,fazendo direto curso,aqui eles incentivam muito a gente a aprender.”(Sujeito 3) Pode-se observar que um dos objetivos que fazem parte da missão da ONG, o desenvolvimento comunitário, influi diretamente no modelo de gestão da ONG e no quadro de funcionários, pois os integrantes da comunidade são favorecidos nos critérios de seleção e também são incentivados a participar de palestras, cursos e desta forma melhorar sua qualificação profissional e poder possibilitar uma melhor condição de vida. Campos (2002 apud COSTA 2000) afirma que a captação de recursos irá ter êxito se ocorrer investimento no quadro de funcionários com remuneração adequada, treinamento, seleção com critérios definidos, demonstrando desta forma compromisso e impacto social no ambiente interno e externo da instituição. Rodrigues (1994) considera que a qualidade de vida no trabalho está diretamente relacionada com os incentivos e investimentos em treinamento e desenvolvimento profissional e pessoal, motivando este funcionário. De acordo com Riff (1989 apud ZANELLI, 2004) dentre seis componentes que influem no bem estar e crescimento profissional está o crescimento pessoal como sendo a busca de conhecimentos e aprimoramentos pessoais. As reuniões e treinamentos oferecidos pela ONG neste sentido podem favorecer ao desenvolvimento pessoal tanto quanto melhorar o desenvolvimento grupal. Com relação à subcategoria depende do individuo observa-se na fala do sujeito 1 que o crescimento profissional decorre de dedicação, comprometimento, entrega e responsabilidade do sujeito. “Na ONG?...Olha eu não sei, porque minha história por si já diz que há uma possibilidade(...). (...) Mas é assim pra mim foi e é importante, agora é importante pra quem sabe aproveitar, porque eu vejo assim a instituição ofereceu muita coisa sim, mas também foi porque eu fui buscar, eu quis aprender. Muitas pessoas aqui 56 começaram na limpeza e continuam na limpeza então é muito da pessoa buscar e se dispor para cursos, ir fazer contatos. Aqui é diferente das empresas (...)”(Sujeito 1) De acordo com Fleury (2001 apud OLIVEIRA e ZAGO, 2008) o termo entrega designa agir de forma responsável envolvendo-se com a organização e desta forma identificando as competências necessárias a serem desenvolvidas para obter o objetivo profissional desejável. Um dos aspectos principais observados no relato dos sujeitos é o comprometimento e engajamento social, afetivo dos membros com a ONG, tanto que, além de exercer as funções burocráticas exigidas pelo trabalho,todos atuam também como voluntários. Dutra (2002 apud BOSE, FISCHER, SCHOENMAKER, 2005) afirma que o envolvimento e comprometimento de pessoas que trabalham em ONGs, está diretamente relacionado com o atendimento às necessidades e expectativas que estes sujeitos possuem no presente em relação ao seu futuro e não é portanto, decorrente de salários e envolvimento por discursos sedutores. Bose, Fischer, Schoenmaker (2005) afirmam que a profissionalização das pessoas que compõem ONGs esbarra na adesão aos valores da organização, mas é pautado principalmente pelo incentivo a novas formas de pensar o trabalho. Observa-se na categoria limitada, que os sujeitos 4 e 5, consideram que as oportunidades de crescimento profissional na ONG são limitadas, devido a pequena estrutura organizacional da ONG e também pela pouca articulação de cargos/salários,como pode ser verificado no relato abaixo: “Mas de crescimento não sei se for assim relacionado a ir pra um cargo melhor, daí eu não vejo.” (Sujeito 4) Bose (2004) afirma verificar que o processo de profissionalização e adaptação dos cargos e salários a realidade das ONGs ainda está em desenvolvimento, pois existe a necessidade de articular as ferramentas de gestão empresarial a linguagem e conceitos advindos do social. Teodósio (2001 apud BOSE, 2004) corrobora com a afirmação acima, afirmando que a adaptação das técnicas de gestão advindas da esfera privada não ocorre de maneira” linear e absoluta”, pois deve-se considerar a gestão social,cerne da natureza do Terceiro Setor .O autor ainda destaca que deve ser motivo de cautela a adaptação dessas ferramentas de gestão administrativa privada, pois estas carregam conceitos e critérios que podem distorcer aspectos inerentes da gestão social,trazendo incoerências neste sentido.Outro aspecto que influe na administração de cargos e salários nas ONGs é a dimensão estrutural destas,pois grande maioria é pequena,como mostra pesquisa realizada em dezembro de 2004, 57 pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) e o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em parceria com a Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais (ABONG) e o Grupo de Institutos, Fundações e Empresas (GIFE).Observouse neste estudo que em 2002, havia 276 mil fundações e associações sem fins lucrativos (Fasfil) no país,a maioria delas muito pequenas, empregando 1,5 milhões de pessoas. A ONG Educação para o Futuro, emprega atualmente 25 funcionários pela CLT (80% são moradores do bairro) e conta com o auxilio de 34 voluntários, sendo que a maior parte da renda obtida com eventos internos (festinhas, bingos) é revertida para subsistência dos projetos sociais, comunitários e de educação. Portanto observa-se aqui que a estrutura da ONG é pequena e não possui investimentos para criar uma gestão de cargos e salários adequado aos funcionários, desta forma, verifica-se no relato do sujeito 5, que não existe oportunidade de carreira pois a ONG é pequena. “Oportunidade, hoje em dia não tem mais né,como carreira não tem nenhuma porque é uma ONG pequena né ....”( Sujeito 5) De acordo com Costa (2000) as instituições sem fins lucrativos por sobreviverem devido á doações, eventos, campanhas e às vezes com alguma ajuda municipal, não apresentam condições de manter um quadro de funcionários treinados e capacitados, pois implicaria em maiores salários e também ampliaria o número de cargos. Muito embora verifica-se no relato dos sujeitos, o indicador de qualidade de vida no trabalho, crescimento profissional,associado à valores humanitários e ao incentivo da ONG à formação profissional, poucas ações internas favorecem esses crescimento profissional. A ONG em questão, apesar de possuir estrutura pequena, poderia criar ações que possibilitassem crescimento profissional como, por exemplo, um plano de cargos e salários, que poderia motivar o funcionário, devido a possibilidade de uma carreira e também com o reconhecimento, sob forma de remuneração, de seus esforços no trabalho. Arellano (2004 apud ARELLANO, 2008) considera que o crescimento profissional e também pessoal é decorrência da qualidade de vida no trabalho, quando se conquista o equilíbrio físico, psíquico e social dos trabalhadores. Ou seja, a oportunidade de crescimento profissional está diretamente relacionada com a qualidade de vida do trabalhador, pois está relacionada com as perspectivas de projetos futuros, influindo nas escolhas e na saúde deste trabalhador. Após apresentar e discutir os indicadores psicológicos que influem na qualidade de vida do trabalho será discutido a seguir os indicadores biológicos. 58 4.2 ASPECTOS BIOLÓGICOS Neste eixo serão analisados os aspectos biológicos referentes aos indicadores biológicos: ações de prevenção e promoção de saúde no ambiente de trabalho e ações que previnem acidentes de trabalho. Ademais se verifica que as atividades relacionadas à promoção de saúde e bem-estar como as ações de prevenção, são calcadas em técnicas naturais e também práticas religiosas, podendo ser verificados nos quadros 8 e 9 abaixo. 4.2.1 Ações de prevenção e promoção de saúde no ambiente de trabalho Saúde não é ausência de doença, saúde é qualidade de vida (MINAYO et al.,2000) . A autora com esta afirmação faz uma critica ao modelo reducionista biomédico, aproximando o conceito de saúde ao conjunto de necessidades humanas e também de condições oferecidas pelo meio, ou seja, a qualidade de vida do ser humano. Desta forma qualidade de vida em saúde deve ser compreendida em seu sentido ampliado, considerando as necessidades humanas materiais, sociais, espirituais, dentre outras. Segue quadro 8 com as falas dos sujeitos : Categorias Unidade de Contexto Elementar (UCE) Freqüência Palestras e 5 orientação “Também temos uma agente comunitária que cuida das sobre saúde receitas médicas, e também quando as crianças tem febre, de chamar os pais,a campanha para comer verduras, do descanso. “Bom a gente teve palestras este ano com a irmã na área da saúde né,isso sim em relação a saúde e começou esse ano,agora nos anos anteriores eu não lembro.A irmã fez palestras,umas duas assim até para os pais também pra saúde assim no caso que vai prevenir né.Mas também acho que promove eu acho,mas em relação a saúde eu acho que é só isso mesmo.”(Sujeito 4) Auxilio de 3 profissionais “(...) até está mais direcionado ás crianças né, que a gente tem de outras uma nutricionista né, mas a gente acaba também quando áreas almoça aqui tal também, usufruindo daquele cardápio que é feito pelas nutricionistas e tal.”(Sujeito 4) Retiro e “(...) e também tem os encontros de espiritualidade e elas 2 práticas [irmãs] sempre se preocupam com estas questões de saúde.A espirituais Congregação tem uma casa na Penha que trabalham muito com prevenção na saúde,alimentação e tudo né. Elas estão sempre passando para a gente as informações na área natural 59 Não tem programa de saúde para funcionários Benefícios organizacion ais como prática de saúde né.”(Sujeito 3) “Olha pelo que eu vejo assim não tem nenhum programa assim 1 especificamente aos funcionários em relação a saúde né. O que promovem? ... Eu não vejo.”(Sujeito 4) “Acho que ter um convenio com alguma clinica e a gente tem 1 pelo CDL ,né, e isso já ajuda bastante e ter também alguma orientação com saúde.(...) Então eu acho que é isso que deve ter, a preocupação que o empregador deve ter com a saúde dos funcionários, porque se ele estiver mal,vai pegar atestado,vai entrar na pericia,então se tu ta fazendo prevenção,se tem consciência é melhor.”(Sujeito 1) Quadro 8- Ações de prevenção e promoção de saúde no ambiente de trabalho Fonte: Elaboração da autora, 2008 De acordo com a Primeira Conferência Internacional sobre Promoção de Saúde Carta de Otawa (OMS, 1986), promover saúde significa processo de capacitação da comunidade para buscar melhoria de qualidade de vida, de bem estar físico e mental e consequentemente favorecer a saúde de todos, tanto dos sujeitos quanto do ambiente em que vivem. Ou seja, a ação de promoção de saúde não depende somente do governo, mas também dos atores sociais envolvidos. Este é um dos objetivos da ONG Educação para o Futuro, promover o desenvolvimento comunitário da região do bairro, e em decorrência deste objetivo em especifico, a ONG promoveu na década de 1980, a melhoria das condições de moradia do bairro em questão, com a dragagem e soterramento das margens. A ONG apresentou como uma característica desde sua fundação em 1980, o envolvimento dos atores comunitários e também a versatilidade em arrendar parcerias para auxiliar a melhoria das condições de saúde, enquanto promoção e também prevenção. De acordo com Carta de Otawa (OMS, 1986), os pré-requisitos para a saúde são: paz, habitação, educação, alimentação, renda, ecossistema estável, recursos sustentáveis, justiça social e equidade. Alguns destes critérios para promoção de saúde corroboram com alguns objetivos e também missão da ONG, que são desenvolvimento comunitário, social, favorecer a educação e também ofertar empregos, além de vários outros projetos sociais e ambientais que se articulam entre si. Nos relatos dos sujeitos as parcerias com orientações de agentes comunitários e de outros profissionais, também com retiros para práticas de interiorização, revelaram a natureza dos cuidados de prevenção e promoção de saúde oferecida pela ONG Educação para o Futuro. Na categoria palestras e orientações sobre saúde, promovidas por uma irmã ( é agente comunitária), nota-se o engajamento e comprometimento religioso, afetivo e também 60 social, demonstrado na dedicação aos membros da ONG e também ao reconhecimento das práticas naturais e espirituais como promotoras de saúde pelos membros. Cinco sujeitos consideram que as orientações e palestras ofertadas pela agente comunitária favorecem a promoção e prevenção de saúde, como pode ser constado nos relatos do sujeito 1 abaixo: “A gente tem uma freira que é agente de saúde e dá ás vezes palestras do que se deve comer, o que se deve evitar, o que isto traz pro organismo, a qualidade de vida que a gente deve ter, de descanso, também de não sobrecarregar, então isso a gente tem, também acho super importante sim. Ás vezes tem alguma reportagem, uma leva pra outra, um dia a irmã trouxe sobre exercícios pra quem trabalha muito em computador, sentado, a cada duas horas parar e fazer uma série de exercícios que tem.”(Sujeito 1) Rondineli (s.d.) faz referência à influência das práticas religiosas nos hábitos alimentares e também de saúde. Destaca a autora que a alimentação, por exemplo, tem uma relação de significação com as normas religiosas estabelecidas como, os jejuns para purificação, o que é permitido e o que é proibido, enfim os hábitos e costumes. A autora faz um contraponto dessas influências religiosas nos hábitos cotidianos, com as influências dos movimentos alternativos nos costumes, relacionados às práticas naturais. Observa-se que a agente comunitária se orienta nas práticas de saúde com técnicas naturais e alternativas, como consta relato do sujeito abaixo: “Tem uma irmã aqui que é agente de saúde e sempre está falando sobre medicina alternativa, reflexologia, reiki, massagem, como lidar com as ervas (...) ”(Sujeito 3) Estas práticas alternativas, juntamente com a vertente religiosa, demonstra a versatilidade e o sincretismo de saberes distintos, que unidos, cumprem uma tentativa de ação de prevenção e promoção de saúde, adaptado a uma realidade social singular, que são a comunidade e os membros da ONG. De acordo com Brito (2004) o agente comunitário, enquanto profissional, possui duplo significado, pois, além de ser um cuidador da área da saúde, ele é acima de tudo um educador. Percebe-se também nos relatos dos sujeitos uma identificação com a natureza social e religiosa do trabalho da agente comunitária. O Habitus de acordo com Brito (2004),conduzem e delimitam os comportamentos dos agentes de saúde,ou seja, esta educação em saúde na comunidade, pode vir a tornar-se parte do processo de identificação social. Observa-se, portanto, que as práticas de saúde efetivadas pela agente comunitária se estendem também para a comunidade, beneficiando além dos membros internos da ONG, verificadas no relato abaixo: 61 “Também temos uma agente comunitária que cuida das receitas médicas, e também quando as crianças tem febre, de chamar os pais,a campanha para comer verduras, do descanso. (...) A agente comunitária deu uma palestra na reunião de pais sobre alimentação, porque por onde entra cura pode entrar doença também.”(Sujeito 2) Nesta perspectiva, outros profissionais também se identificam com os objetivos da ONG, podemos citar outra categoria relatada por três sujeitos auxiliares a promoção e prevenção, o auxilio de outros profissionais, observado abaixo: “(...) até está mais direcionado ás crianças né, que a gente tem uma nutricionista né, mas a gente acaba também quando almoça aqui tal também, usufruindo daquele cardápio que é feito pelas nutricionistas e tal.” (Sujeito 4) A Carta de Otawa (OMS, 1986), faz referência a importância do profissional de saúde como mediador para se efetivar as práticas de saúde, sempre levando em consideração, o aspecto social, econômico, político e religioso da realidade beneficiada. As ações conjuntas desses profissionais atuando com orientação e educação favorecerá a criar um ambiente mais saudável e consequentemente contribuirá para a qualidade de vida do trabalhador, pois além de receber auxílio e orientações sobre saúde em seu trabalho, possivelmente será favorecido com o auxílio a comunidade, do qual sua família faz parte. Outra categoria trazida pelos sujeitos três e cinco, relacionada com saúde foi o retiro e práticas espirituais. A ONG, devido à natureza não monetária, não possui verba para oferta de benefícios organizacionais relacionados à saúde de seus trabalhadores, portanto, ela realiza parcerias com pastorais que oferecem retiros espirituais para os membros da ONG e também da comunidade. “(...) e também tem os encontros de espiritualidade e elas [irmãs] sempre se preocupam com estas questões de saúde.A Congregação tem uma casa na Penha que trabalham muito com prevenção na saúde,alimentação e tudo né. Elas estão sempre passando para a gente as informações na área natural né.”(Sujeito 3) A Organização Mundial de Saúde (OMS apud LUZ, 2005) em 1962 designou o conceito medicina alternativa como um termo amplo, não necessariamente médico, mas da área da saúde e de origem polissêmica, advinda do oriente, sendo inserido no ocidente devido a crise no modelo de atenção à saúde. As práticas de saúde descritas pelos sujeitos sugerem desde práticas naturais, como fitoterapia, geoterapia, até praticas espirituais como meditação, alimentação para purificação, dentre outros. Atualmente, estas práticas alternativas e a religiosidade e crenças pessoais são conceitos considerados influentes na qualidade de vida das pessoas, podendo viabilizar ou não a saúde das pessoas. 62 Minayo (2000) afirma que a OMS incluiu o “domínio religiosidade, espiritualidade e crenças pessoais” no instrumento de avaliação de qualidade de vida, WHQOL-100, demonstrando a implicação desta vertente na saúde das pessoas. Pode-se perceber com o relato dos sujeitos que as consideradas ações promotoras de saúde na ONG são de natureza religiosa e também da ordem da medicina alternativa, sendo que apenas um sujeito afirmou não ter programa de saúde para funcionários e também apenas um sujeito considerou os benefícios organizacionais como prática de saúde. Na categoria não ter programa de saúde para funcionários, observa-se que o sentido atribuído por estes sujeitos refere-se a programas que demandam um processo de intervenção, ou seja, não são ações isoladas em saúde ou de caráter paliativo. Deste modo, observa-se a inexistência de programas de prevenção ou promoção à saúde do trabalhador como o PPRA, PCMSO ou alguma prática formalizada e organizada de atendimento à saúde dos funcionários como Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (CIPA) na ONG. “Olha pelo que eu vejo assim não tem nenhum programa assim especificamente aos funcionários em relação a saúde né. O que promovem? ... Eu não vejo.”(Sujeito 4) Limongi-França (2004) relata que estes programas foram introduzidos recentemente na legislação e, portanto tanto as empresas como outras organizações estão em fase de aprendizado. Na categoria os benefícios organizacionais como prática de saúde, observa-se que o sujeito considera fundamental ter convênios médicos e outros benefícios que auxiliem a saúde. “Acho que ter um convenio com alguma clinica e a gente tem pelo CDL ,né, e isso já ajuda bastante e ter também alguma orientação com saúde.(...) Então eu acho que é isso que deve ter, a preocupação que o empregador deve ter com a saúde dos funcionários, porque se ele estiver mal,vai pegar atestado,vai entrar na pericia,então se tu ta fazendo prevenção,se tem consciência é melhor.”(Sujeito 1) Chiavenato (1999) considera benefícios como ações voltadas para a preservação física, emocional do funcionário. No caso do beneficio médico, o autor o denomina como benefícios espontâneos ou marginais, pois não são exigidos por lei, muito embora estes benefícios somente promoverão qualidade de vida no trabalho se aliados as necessidades do próprio trabalhador. 63 4.2.2 Ações que previnem acidentes de trabalho O ambiente de trabalho pode tornar-se ameaçador a saúde do trabalhador se medidas de controle, segurança e higiene adequadas não forem tomadas. Medidas preventivas de acordo com site do Sesi-Segurança9 e saúde no trabalho, referem-se a projetos para reduzir danos e incidências de eventos indesejáveis e inesperados. Os dados apresentados no quadro 9 foram resultados do instrumento de coleta de dados: “O que você considera ações de prevenção e promoção de saúde no ambiente de trabalho” e “Para você, quais ações previnem acidentes de trabalho”. Os sentidos atribuídos à segurança e também a prevenção de acidentes, referentes à como cada sujeito em sua relação dialética com a realidade atribuiu distintos sentidos dos sujeitos. Os dados podem ser verificados no quadro que segue abaixo: Categorias Orientação Cuidados com materiais de limpeza Ambiente de trabalho adequado e seguro Não lembra Unidade de Contexto Elementar (UCE) Freqüência “Eu acho que a primeira ação é conversa,pra evitar acidentes 3 (...)e tal e todo esse controle é feito e bem com orientação mesmo,nas reuniões orientando. (...) a cozinha, elas vivem fazendo capacitação até nesta área e os serviços gerais também.”(Sujeito 1) “(...) tem a irmã que está sempre cobrando ate a mistura dos 2 materiais de limpeza, porque tem materiais que não podem estar sendo misturados.” (Sujeito 1) “(...) Aqui eu não acho que tenha tanto perigo.Eu nunca na 2 verdade pensei nisso não,por que o trabalho aqui não oferece tanto risco,aqui o ambiente é tranqüilo, até seguro.”(Sujeito 3) “Não me lembro agora.” (Sujeito 5) 1 Quadro 9- Ações que previnem acidentes de trabalho Fonte: Elaboração da autora, 2008 Na categoria orientação, foi verificada a importância desta no relato de três sujeitos. Para três sujeitos ações de prevenção a acidentes são as orientações, verificado no relato abaixo: “Eu acho que a primeira ação é conversa,pra evitar acidentes (...)e tal e todo esse controle é feito e bem com orientação mesmo,nas reuniões orientando. (...) a cozinha, elas vivem fazendo capacitação até nesta área e os serviços gerais também.”(Sujeito 1) 9 SESI: www.sesirs.org.br/sesidh/ 64 As orientações neste caso podem ser compreendidas também como educação em saúde, visto que ocorre uma mudança nas contingências ambientais, sociais, atitudinais relacionadas à prevenção à acidentes. De acordo com CREPOP (2008) o desenvolvimento de cursos e palestras com o objetivo de orientar os profissionais é necessária como prevenção a problemas futuros. Mesmo as orientações de profissionais para melhoria da alimentação, a capacitação das funcionárias da cozinha e também para os cuidados com materiais de limpeza, demonstram uma preocupação maior com a saúde das crianças, sendo que os funcionários se beneficiam destas ações de maneira indireta. Observa-se na categoria cuidados com materiais de limpeza existe cautela na utilização dos produtos. Podendo ser observado nos relatos abaixo: “(...) tem a irmã que está sempre cobrando ate a mistura dos materiais de limpeza, porque tem materiais que não podem estar sendo misturados. “(Sujeito 1) De acordo com CREPOP (2008) a exposição no ambiente de trabalho à substâncias tóxicas pode acarretar em comprometimento das funções psíquicas e cognitivas e também quadros de estresse. Na categoria ambiente de trabalho adequado e seguro,observa-se no relato dos sujeitos abaixo que o ambiente é considerado seguro e não oferece ameaças. “(...) Aqui eu não acho que tenha tanto perigo. Eu nunca na verdade pensei nisso não, por que o trabalho aqui não oferece tanto risco, aqui o ambiente é tranqüilo, até seguro.”(Sujeito 3) De acordo com Arellano (2008) a qualidade de vida no trabalho para os indivíduos está diretamente relacionada como estes sentem, percebem e valorizam as questões do trabalho como ambiente, relacionamentos, processo de trabalho e não somente a aspectos relacionados à saúde.Valorização para a autora neste caso refere-se ao ambiente cultural e social no qual este indivíduo está inserido, além de suas expectativas e ideais particulares. 4.3 ASPECTOS SOCIAIS Neste eixo serão analisados os aspectos sociais referentes aos indicadores: atividades de lazer e participação da família das atividades na ONG. Segue abaixo resultado 65 dos dados obtidos, referentes ao objetivo especifico: sentidos atribuídos pelos sujeitos aos indicadores sociais de qualidade de vida no trabalho. 4.3.1 Atividades de lazer Lazer pode ser compreendido como a cultura em seu sentido mais amplo, vivenciada numa perspectiva de descanso, divertimento e desenvolvimento pessoal e social. (MARCELINO, 1999). No quadro 10, serão apresentados os relatos dos sujeitos relativos o que este considera como atividades de Lazer oferecidas pela ONG. Os dados abaixo analisados são decorrentes da pergunta: Categorias Unidade de Contexto Elementar (UCE) Passeios “Pela ONG... a gente faz um passeio todo final de todos os funcionários que querem né!(...) Se recolhimento mensalmente para quem quer ir no ano.Porque a instituição em si não tem condições bancando o passeio ta, então se tenta de forma(...)”(Sujeito 1) Não identifica as atividades de lazer Reuniões de interiorização “... Não são muitas....sabe..porque a ONG ela suga muito da 3 gente, ela está sempre pensando nos outros e nas crianças.”(Sujeito 5) “A gente tem uns encontros,que a gente pára.As reuniões com 2 cultivo de personalidade,com trabalho com todos,para melhorar nossa relação com o colega. (...) tem também a reunião de espiritualidade,de interiorização.”(Sujeito 3) Eventos internos “Eu considero também os eventos da instituição, que é a festa 2 junina, os bingos que a gente faz,porque querendo ou não estão todos juntos. (...) também se faz jantares assim, quando não tem o passeio se faz o jantar aqui na instituição.”(Sujeito 1) Freqüência ano,com 5 faz um final de de estar alguma Quadro 10- Atividades de lazer Fonte: Elaboração da autora, 2008 Observa-se no quadro 10, verifica-se que cinco sujeitos identificam os passeios como atividades de lazer, três dos sujeitos não identificam atividades de Lazer na ONG, e dois sujeitos consideram reuniões de interiorização e eventos internos da ONG como atividades de lazer. Na categoria passeios pode-se verificar que todos os sujeitos consideram os passeios de fim de ano como momento de lazer. As opções de lazer como os passeios, estão intimamente relacionadas com a qualidade de vida no ambiente de trabalho (LIMONGI- 66 FRANÇA, 2004). Fenner (2002) afirma que o lazer é um dos grandes investimentos em empresas com o objetivo de prevenir fadigas, melhorando a qualidade de vida no trabalho para seus empregados. Embora os estudos sobre o lazer como indicador de qualidade de vida no ambiente de trabalho ocorram em empresas, no caso da ONG, este critério pode ser observado nos relatos abaixo: . “Pela ONG... a gente faz um passeio todo final de ano, com todos os funcionários que querem né!(...) Se faz um recolhimento mensalmente para quem quer ir no final de ano.Porque a instituição em si não tem condições de estar bancando o passeio ta, então se tenta de alguma forma(...)”(Sujeito 1) Observa-se no discurso do sujeito 4 abaixo, que os momentos de lazer muitas vezes ocorrem por iniciativas de parceiros da ONG ou voluntários, demonstrando a proximidade e confiança existente na relação entre os membros e voluntários da ONG. “A única atividade que nós temos é final de ano ou a gente já teve né,o dia do professor né, que daí incluía todos os educadores e nós mesmos né,programávamos um passeio.Ano passado a gente também teve a ida a casa de um voluntário também, que queria muito a visita do pessoal.Aí teve esse passeio assim,mas só nestas oportunidades assim.”(Sujeito 4) A hospitalidade pode ser verificada no relato do sujeito 4 sendo considerada por Camargo (2004) um processo de comunicação verbal e não verbal,de acolhimento do outro. Na categoria não identifica atividades de lazer, verifica-se no relato dos sujeitos que o conceito de lazer está relacionado a investimento financeiro em atividades de lazer, atividades programadas, podendo ser confirmado nos relatos abaixo: “Nós não temos muito não... não considero que nós temos atividades de lazer aqui dentro né (...)agora programado assim,não vejo lazer nenhum...”(Sujeito 4) O lazer em seu contexto mais amplo é um conjunto de atividades no qual o indivíduo pode sentir-se livre para escolher se deseja se divertir, repousar, permitindo sentirse descompromissado com as obrigações de trabalho, família e sociedade (FENNER, 2002). Mintzberg (1996, apud TEODÓSIO e RESENDE, 1999), destaca que a gestão social do terceiro setor, como favorece a questão do bem publico e cidadania, por sua vez faz prevalecer os aspectos da gestão social em detrimento da rentabilidade do setor privado. Observa-se na categoria Reuniões de interiorização que o lazer aparece no relato dos sujeitos como desenvolvimento pessoal em reuniões de interiorização, verificado no relato abaixo: 67 “ (...) Outra coisa que a gente faz, eu não sei se é lazer é uma parada em julho, que é o recesso escolar, dá uma semana e meia mais ou menos,quando se retorna foi solicitado um encontro pra desenvolvimento pessoal,daí todos os funcionários vem e ficam um dia todo na instituição. (...) então esse é o dia que todos estão juntos e vem alguém de fora para trabalhar algum tema com a gente.”(Sujeito 1) O lazer neste contexto de reunião favorece os relacionamentos interpessoais , o desenvolvimento pessoal, estimula a participação e consequentemente favorece para uma melhoria de qualidade de vida. Fromer e Vieira (2003, apud PESSOA e NASCIMENTO, 2008) consideram o lazer como capaz de propiciar maior liberdade de ação, criatividade, influindo na qualidade de vida do ser humano. Na categoria eventos internos, verifica-se que dois sujeitos consideram as festas, bingos, aniversários como momentos de lazer, identificando desta forma o engajamento social e o comprometimento com os ideais da organização, pois mesmo em momento de trabalho, os sujeitos relatam ser prazeroso, como consta o relato do sujeito abaixo: “Eu considero também os eventos da instituição, que é a festa junina, os bingos que a gente faz,porque querendo ou não estão todos juntos. (...) também se faz jantares assim, quando não tem o passeio se faz o jantar aqui na instituição.”(Sujeito 1) Neste caso o ambiente de trabalho significou-se como lúdico, como momento para convivência harmoniosa, que por sua vez auxilia diluir as diferenças hierárquicas e ameniza os conflitos (LIMONGI-FRANÇA, 2004). Verifica-se no relato do sujeito que muitos eventos internos são tidos como lazer, muito embora não se observe ações de lazer oferecidas pela ONG. Dentre as opções de lazer relatadas pelos sujeitos estão os passeios nos fins de ano e as reuniões de interiorização. Muito embora todas as entrevistadas considerem os passeios como opções de lazer, estes não são oferecidos pela ONG e sim partem de iniciativas dos próprios funcionários. A ONG em si não apresentou oferecer opções de lazer, como por exemplo, salas de descanso para funcionários, atividades lúdicas ou esportivas como forma de amenizar o cotidiano de trabalho de seus funcionários. 4.3.2 Família participa de alguma atividade oferecida pela ONG Para Patrício (1999) a família pode viabilizar ou não o processo de viver do ser humano, mediando suas escolhas, necessidades, enfim os padrões de viver, de ser, de estar e também de significar o conceito qualidade de vida. A família participando do ambiente 68 organizacional auxilia para que se consiga um clima favorável de confiança e flexibilidade nas relações. No quadro 11, são apresentados os relatos dos sujeitos sobre a participação da família em atividades na ONG. Os dados abaixo são decorrentes da pergunta: A sua família participa de alguma atividade oferecida pela ONG? Categorias Unidade de Contexto Elementar (UCE) Freqüência Realiza trabalho voluntário “Meu ex marido até hoje é voluntário nas festas,né,a gente 5 solicita,daí ele vem é voluntário, então sempre que tem alguma coisa que eu possa estar envolvendo a família a ser voluntária eu faço.(...) Todos os funcionários na verdade acabam envolvendo a família, sempre trazendo ou o marido pra ajudar em festa ou filho....”(Sujeito 1) Participa da “A minha filha..porque é assim de três aos seis eles vão pro 3 Escolinha e contra turno e ficam até os quatorze,(...) Ela então participou do de projetos programa primeiro emprego da escrava Anastácia e agora está trabalhando.”(Sujeito 1) Quadro 11- Participação da família de atividades oferecidas pela ONG Fonte: Elaboração da autora, 2008 Observa-se no relato dos sujeitos que as famílias de todos os sujeitos entrevistados participam das atividades da ONG, sendo como voluntários ou realizando algum projeto em beneficio de sua formação. Na categoria realiza trabalho voluntário pode-se verificar que o trabalho voluntário se fez presente no relato dos sujeitos, sendo que os familiares destes participam gratuitamente e de forma ativa das atividades e eventos ocorridos na ONG. Os voluntários são engajados e atuam com dedicação a fim de contribuir para efetivas mudanças. Dentre muitas definições de trabalho voluntário, o conceito que mais se aproximou da ação voluntária das famílias foi de estudo sobre as ações de estímulo ao trabalho voluntário no Brasil, realizado em 1995 do site da Fundação Abrinq (2008) pelos direitos das crianças, definindo como: “Ator social e agente de transformação, que presta serviços não remunerados em benefício da comunidade, doando seu tempo e conhecimentos, realiza um trabalho gerado pela energia de seu impulso solidário, atendendo tanto às necessidades do próximo ou aos imperativos de uma causa, como às suas 69 próprias motivações pessoais, sejam estas de caráter religioso, cultural, filosófico, político ou emocional” (grifos nossos). Observa-se no relato do sujeito abaixo o envolvimento da comunidade nas atividades voluntárias da ONG: “Meu ex marido até hoje é voluntário nas festas,né,a gente solicita,daí ele vem é voluntário, então sempre que tem alguma coisa que eu possa estar envolvendo a família a ser voluntária eu faço.(...) Todos os funcionários na verdade acabam envolvendo a família, sempre trazendo ou o marido pra ajudar em festa ou filho....”(Sujeito 1) A ação voluntária de acordo com Silva (2007) demonstra que a ação solidária traz características semelhantes como, por exemplo, o desejo de ajudar o outro, desejo de compartilhar dons, sentimentos altruístas, sendo que devido a influencia da religião em algumas organizações, estas características tendem a fazer parte da caridade movida pela fé. Outra característica observada é o sentimento de pertença com o lugar, com a ONG, verificado no relato do sujeito abaixo: “A minha avó que começou, meu avô e daí a família vai levando assim né, minha mãe e minhas tias assim né que trabalham bastante principalmente na festa junina que tem todos os anos é tradição né.Então eles assumiram a barraquinha do cachorro quente e até hoje passou da minha avó,depois minha mãe e também minhas tias que cuidam e que fazem o cachorro quente da X,que já pegou né e é legal né.É legal assim porque minha família é lembrada e eu fico orgulhosa disso,porque realmente eles se dedicam assim né para ajudar é de coração né!”(Sujeito 4) Observa-se no relato do sujeito que a família participa desde várias gerações das atividades da ONG, identificando-se com as atividades solidárias de cunho religioso e também apresentando sentimento de pertença com o lugar, como se a ONG fosse extensão de seu lar. Kollmuss y Agyeman (s.d apud DURAN, 2007) afirmam que quanto maior a implicação emocional com o ambiente, maiores serão os compromissos com ações efetivas. Segundo Vivas (2007) o sentido de apego emocional e também de identidade de lugar relaciona-se diretamente com a identificação com valores de determinado lugar. De acordo com Pol (1996 apud FREIRE, J. e VIEIRA, 2007) os sentimentos de apropriação ou pertença com relação à um determinado lugar consiste em estabelecer uma 70 relação com este, tornando-o parte deste,deixando sua marca.Acrescenta o autor que no processo de identificação do sujeito com um lugar,ele se reflete um pouco nele e desta forma torna-se ator também das mudanças nessa relação. Na categoria Participa da Escolinha e de projetos considerado por três sujeitos como a participação dos filhos na escolinha e também de projetos oferecidos pela ONG, observa-se que os sujeitos relatam de maneira a expressar satisfação, como segue no discurso abaixo: “A minha filha..porque é assim de três aos seis eles vão pro contra turno e ficam até os quatorze,(...) Ela então participou do programa primeiro emprego da escrava Anastácia e agora está trabalhando.”(Sujeito 1) No relato do sujeito 1 acima pode-se inferir que a possibilidade de ter um lugar, uma creche, escola para deixar a filha durante o período de trabalho pode ser um motivo de satisfação no trabalho, podendo vir a influenciar , a qualidade de vida no ambiente de trabalho. 4.4 ASPECTOS ORGANIZACIONAIS Limongi-França (2001 apud ARELLANO, 2008) adicionou ao modelo biopsicossocial proposto por Lipowisk (1986 apud ARELLANO, 2008) a dimensão organizacional, reconhecendo que a qualidade de vida no trabalho é influenciada por fatores provindos da cultura e do ambiente organizacional. Neste eixo serão analisados os indicadores organizacionais relacionado ao objetivo especifico: sentidos que os membros da ONG atribuem aos indicadores organizacionais que influem na qualidade de vida. Dentre os vários os aspectos ou indicadores organizacionais que influem na qualidade de vida no trabalho, serão contemplados nesta pesquisa os indicadores treinamentos e benefícios. 4.4.1 Treinamentos e cursos oferecidos pela ONG 71 O treinamento é um conceito amplo em significados, sendo considerado como uma forma para desenvolver a força de trabalho nas organizações ou também como um sinônimo de educação, no qual ocorre o desenvolvimento dos sujeitos, preparando-os tanto para o cargo específico quanto para o ambiente de trabalho (CHIAVENATO, 1999). Limongi-França (2001) afirma que o treinamento é fundamental para o desenvolvimento da gestão de QVT. A autora define treinamento como capacitação do potencial humano considerando os aspectos criatividade, compromisso, para obtenção de mudança organizacional, grupal e também pessoal. Na realidade organizacional de ONGs, o treinamento ganha nova ´´roupagem´´,adaptando-se a natureza e objetivos do trabalho solidário, ou seja, o treinamento apresentou-se com caráter informal. No quadro abaixo serão apresentados os relatos dos sujeitos com relação aos treinamentos e cursos oferecidos pela ONG, sendo que os dados analisados são decorrentes das perguntas: A ONG oferece cursos ou treinamentos?Você participa?O que estes proporcionam para você? Segue abaixo quadro 12 : Categorias Participa treinamento cursos Aprende reuniões Incentivo Unidade de Contexto Elementar (UCE) Freqüência de “(...) eu estou fazendo agora um no ICOM (Instituto 4 ou Comunitário de Florianópolis) que é pra capacitação de gestores de ONG. Não seria o meu caso, mas como estou em uma função muito próxima a gestão então tem uma certa influência de estar trazendo,de buscando,então faz todo o trabalho lá e traz pra dentro da instituição pros gestores estarem participando.”(Sujeito 1) nas “ A gente também faz,a gente tem quatro reuniões no ano e 3 sempre se busca trazer atualidades,como é que está as perspectivas e como está dentro do Terceiro Setor e dentro dos outros Setores pra pessoas estarem sabendo e também buscar assim,porque tem pessoas que não sabem,que falam terceiro setor,segundo setor e pra mim é bem estranho quando a pessoa pergunta o que é.A gente aqui está tão envolvido que é meio estranho,então a gente traz essas capacitação pra agenda da reunião,porque a reunião faz todo um treinamento de lideranças também,toda reunião é revisada e tem todos os papéis da reunião,o secretario,a animação,quem faz o cultivo,a espiritualidade e a falta.E há capacitações também como o que houve sobre elaboração de projetos com Ricardo Falcão e a gente foi convidado(...)”(Sujeito 1) “É gratificante, porque tu tem noção de como é aí na rua, a 2 fila de espera para trabalho.Eu fiz meu curso de magistério no Coração de Jesus, um dos cursos mais caros da grande 72 Florianópolis, e a ONG não pagou lógico, não tem, mas com influência conseguiu essas bolsas gratuitas,todas as professoras daqui fizeram este curso é no mínimo seis mil reais e nós fizemos,então tu vê,tu se sente em primeiro lugar,né.Imagina fazendo um curso desses fora que quando dava algum problema com passe assim a irmã dava um jeito,vamos lá vamos resolver,ela sempre deu um jeito.A ONG sempre..e esses cursos que foram oferecidos para nós,nós ganhamos porque fazia parte da nossa área,só que tinha o pré vestibular,um outro lá no colégio catarinense pra fazer segundo grau,que a comunidade,uns quatro ou cinco ganharam,não era exclusivo pra nós entende.”(Sujeito 5) Não participou “Bom no caso para mim,pela instituição eu não fiz 2 de Treinamento nenhum curso e tal né...é treinamento na verdade também ou Cursos para mim também não. (...)né...mas treinamento ou curso assim não recebi...”(Sujeito 4) Disponibilidade “Também vai da disponibilidade do pessoal,porque o que 1 em buscar acontece é assim,ás vezes tem a capacitação,mas é a noite aprender daí o pessoal não quer ir no horário de trabalho e daí as vezes quer ir mas é no horário de trabalho e ela tem consciência que poxa é no meu horário de trabalho e se ela falta,imagina!É uma engrenagem, se falta uma, prejudica,(...) e se elas soubessem a riqueza que elas tem de ter essa rede de contato pessoal,eu acho que elas participariam mais porque dos cursos que eu fiz assim a força de contatos que se tem é muito grande.”(Sujeito 1) Quadro 12- Treinamentos e cursos oferecidos pela ONG Fonte: Elaboração da autora, 2008 Observa-se no relato de quatro sujeitos, que na categoria Participa de treinamento ou cursos, essas oportunidades oferecidas aos sujeitos ocorrem em parceria com prefeitura ou também com outras ONGs, como pode ser verificado no relato do sujeito abaixo: “Ahaaaa sim, participei de muitos, participei de vários no Instituto Voluntários em Ação e esse curso de idosos daqui foi fundado por mim então fui fazer o curso para saber como começar o curso,já fiz também pra projetos.Treinamento vale a pena investir nele.”(Sujeito 2) 73 No relato acima se verifica também a importância da capacitação dos gestores para auxiliar a disseminar as técnicas administrativas e práticas organizacionais para se obter uma melhor eficiência nos objetivos propostos pela ONG. A profissionalização e capacitação de gestores no terceiro setor de acordo com Teodósio (2001) são fatores essenciais para a modernização das técnicas sem perder as características, como a vertente social, solidária e a cooperação nas políticas organizacionais. Teodósio (2001) faz citação de Che Guevara com relação ao principal desafio do terceiro setor, que seria “endurecer sem perder a ternura”. Esta afirmação traz uma reflexão sobre um dos principais desafios enfrentados pelo terceiro setor, fazer com que ocorra uma mudança nos aspectos organizacionais, adequando-se aos processos de recrutamento, seleção, planos de cargos e salários, do setor privado, mas sem perder as características sociais. Chiavenato (1999) afirma que o treinamento é a educação institucionalizada, ou seja, prepara o sujeito para sua vida profissional e compreende um processo que envolve transmissão de conhecimentos específicos, desenvolvimento de habilidades e consequentemente mudança de comportamento. Acrescenta o autor que o treinamento é uma responsabilidade administrativa e, portanto está implícita na função do gestor, cabendo a este concretizar esta ação, providenciando profissionais especializados para este propósito. No caso da ONG, pode-se inferir que a busca dos gestores por parceiros que ofereçam treinamentos e cursos fora do ambiente da ONG, reflete à precária condição financeira desta, não possuindo recursos para investir em capacitação interna. Este dado pode explicar também a iniciativa da ONG em tentar oferecer nas reuniões, que ocorrem quatro vezes ao ano, uma capacitação dos membros contemplando aspectos educativos e informativos com relação ao terceiro setor, organizado e promovido pelos gestores que participaram de treinamentos fora da ONG, como é verificado no relato abaixo: “(...) eu estou fazendo agora um no ICOM (Instituto Comunitário de Florianópolis) que é pra capacitação de gestores de ONG. Não seria o meu caso, mas como estou em uma função muito próxima a gestão então tem uma certa influência de estar trazendo,de buscando,então faz todo o trabalho lá e traz pra dentro da instituição pros gestores estarem participando.”(Sujeito 1) Na categoria Aprende nas reuniões, três sujeitos consideram que os treinamentos oferecidos ocorrem como aprendizado nas reuniões. “ A gente também faz,a gente tem quatro reuniões no ano e sempre se busca trazer atualidades,como é que está as perspectivas e como está dentro do Terceiro Setor e dentro dos outros Setores pra pessoas estarem sabendo e também buscar 74 assim,porque tem pessoas que não sabem,que falam terceiro setor,segundo setor e pra mim é bem estranho quando a pessoa pergunta o que é.A gente aqui está tão envolvido que é meio estranho,então a gente traz essas capacitação pra agenda da reunião,porque a reunião faz todo um treinamento de lideranças também,toda reunião é revisada e tem todos os papéis da reunião,o secretario,a animação,quem faz o cultivo,a espiritualidade e a falta.E há capacitações também como o que houve sobre elaboração de projetos com Ricardo Falcão e a gente foi convidado(...)”(Sujeito 1) O treinamento enquanto educação organizacional, de acordo com Chiavenato (1999) promove a mudança no comportamento e envolve etapas em seu processo: levantamento das necessidades, programação de treinamento, implementação e execução e avaliação de resultados. Observa-se no relato do sujeito 1 acima que existem procedimentos nas reuniões,mas estes não seguem nenhum modelo formal de treinamento para sua execução. Observa-se no relato que não aparece um planejamento a priori, encadeando as ações durante a reunião, além de o aspecto espiritual ser contemplado e vivenciado neste mesmo contexto. Todavia, apesar da ONG não possuir recursos financeiros para investir em treinamentos e cursos, pode ser verificado o incentivo a realizar cursos em outras instituições presente no relato de dois sujeitos, observado no discurso abaixo: “É gratificante, porque tu tem noção de como é aí na rua, a fila de espera para trabalho.Eu fiz meu curso de magistério no Coração de Jesus, um dos cursos mais caros da grande Florianópolis, e a ONG não pagou lógico, não tem, mas com influência conseguiu essas bolsas gratuitas,todas as professoras daqui fizeram este curso é no mínimo seis mil reais e nós fizemos,então tu vê,tu se sente em primeiro lugar,né.Imagina fazendo um curso desses fora que quando dava algum problema com passe assim a irmã dava um jeito,vamos lá vamos resolver,ela sempre deu um jeito.A ONG sempre..e esses cursos que foram oferecidos para nós,nós ganhamos porque fazia parte da nossa área,só que tinha o pré vestibular,um outro lá no colégio catarinense pra fazer segundo grau,que a comunidade,uns quatro ou cinco ganharam,não era exclusivo pra nós entende.”(Sujeito 5) O incentivo a realização de cursos favorece o desenvolvimento de habilidades profissionais e também a motivação por parte dos membros envolvidos. Falconer (1999, apud BOSE, 2004) afirma que o processo de profissionalização deve ser transformado em oportunidade para fortalecer o terceiro setor, mantendo as características do setor. Teodósio (2001) afirma que a profissionalização tanto de funcionários como voluntários em ONGs favorece a qualidade de vida no trabalho quanto na sociedade. Dentre os cinco sujeitos, dois relataram que não participaram de treinamento ou cursos, percebe-se neste caso que o conceito atribuído por estes sujeitos a treinamento relaciona-se com o aspecto organizacional. 75 “Bom no caso para mim,pela instituição eu não fiz nenhum curso e tal né...é treinamento na verdade também para mim também não. (...)né...mas treinamento ou curso assim não recebi...”(Sujeito 4) Na categoria disponibilidade em buscar aprender, um sujeito considerou que a formação dos integrantes da ONG não depende somente da organização e sim também da disponibilidade do sujeito em envolver-se no cotidiano e aproveitar oportunidades que venham a surgir, almejando desta forma aumentar o seu capital social, além do intelectual. Como as ONGs se articulam em redes de contato, o capital social neste sentido se faz um beneficio social. “Também vai da disponibilidade do pessoal,porque o que acontece é assim,ás vezes tem a capacitação,mas é a noite daí o pessoal não quer ir no horário de trabalho e daí as vezes quer ir mas é no horário de trabalho e ela tem consciência que poxa é no meu horário de trabalho e se ela falta,imagina!É uma engrenagem, se falta uma, prejudica,(...) e se elas soubessem a riqueza que elas tem de ter essa rede de contato pessoal,eu acho que elas participariam mais porque dos cursos que eu fiz assim a força de contatos que se tem é muito grande.”(Sujeito 1) O relato acima sugere também o sentido atribuído ao trabalho pelo sujeito, no qual a disponibilidade para realizar treinamentos e também buscar oportunidades, demonstra a preocupação em crescer profissionalmente, desafiando as dificuldades encontradas no cotidiano, em busca de maior autonomia profissional. Morin et al (2007) afirmam que os indivíduos que superam dificuldades, desafios,buscando autonomia, atribuem o sentido de trabalho como aprendizagem e consequentemente desenvolvimento pessoal. Para Limongi-França (2001) o treinamento e desenvolvimento pessoal fazem uma parceria quando se trata de QVT, pois o ambiente provoca mudanças nos comportamentos dos indivíduos e em suas qualificações em relação a QVT e também cria novas necessidades e exigências, por parte dos trabalhadores ,de treinamento e desenvolvimento. Observa-se no caso da ONG, que os treinamentos e cursos são realizados com instituições parceiras e as reuniões internas não contemplam uma organização e planejamento formal, seguindo as etapas de treinamento utilizadas na gestão de organizações privadas. Esta informalidade técnica é observada nas organizações que contemplam a gestão social no Brasil, sendo esta o grande dilema das organizações do terceiro setor, articular o desenvolvimento técnico com a questão social (TENÓRIO, 2001). 76 4.4.2 Benefícios Oferecidos pela ONG. O conceito benefício geralmente está vinculado ao beneficio legal, que seria decorrente das exigências trabalhistas ou sindicais. (CHIAVENATO, 1999) Com relação às organizações de terceiro setor, os benefícios mais freqüentes são os sociais e espontâneos. No quadro 13 serão apresentados os relatos dos sujeitos sobre o que estes consideram beneficio oferecido pela ONG. Os dados são decorrentes da pergunta: A ONG oferece algum beneficio a você? Segue abaixo quadro 13: Categorias Unidade de Contexto Elementar (UCE) Freqüência Desenvolvimento “Olha eu acho que pessoal sim, o desenvolvimento 3 pessoal,profissional de ter os contatos que eu tenho,porque pessoal através do profissional eu tive propostas de outras instituições.Mas o maior é de crescimento pessoal.”(Sujeito 1) Outros benefícios (...) agora pra mim é um beneficio, mas não que a ONG 3 oferece trabalhar aqui perto que é muito mais fácil pela locomoção assim (...) e também minha criança tá aqui né,é bom,tá perto de mim e eu trabalho e trago ele é mais fácil né.Bom acho que é isso.....(SUJEITO 4) A Vocação religiosa “É o beneficio é que posso me realizar a minha tendência, 1 minha vocação pela parte social né e também meu compromisso religioso e também posso viver o evangelho, esses são meus benefícios. E também conheço muitas pessoas, monetário não.”(Sujeito 2) Quadro 13- Benefícios oferecidos pela A ONG Fonte: Elaboração da autora, 2008 Observa-se no quadro acima que os sujeitos da pesquisa de forma geral são engajados e se identificam com os ideais da ONG, sendo assim motivados em sua ação. Na categoria desenvolvimento pessoal há identificação de três sujeitos com os objetivos da organização, tanto quanto o orgulho pela imagem social da ONG, verificado no relato abaixo: “A ONG oferece,eu me sinto gente de trabalhar aqui,porque verdade seja dita se algum dia eu trabalhar aqui é por causa de dinheiro,porque o dinheiro não traz 77 felicidade,mas ajuda,porque se você tem filhos,eles pedem boneca e as coisas vão caminhando,mas no resto a ONG me traz tudo de que necessito.( ...) e a recompensa é essa que já te disse tu se sente bem porque está fazendo a minha parte,onde eu vou o pessoal me cumprimenta,olha lá a filhinha da irmã, a irmã 2,isso pra mim é gratificante,imagina.Eu me sinto muito bem com isso por trabalhar aqui me sinto com o se fosse a prima da Xuxa.”(Sujeito 5) Bose (2005) afirma que a identificação com os valores da organização e a atitude engajada, mantém a equipe de trabalho motivada e comprometida. Raposo (2000 apud BOSE, 2004) e Falconer (1999) afirmam que o alto nível de engajamento é devido a possibilidade de trabalhar e unir um projeto de vida cidadã, sendo o ambiente motivado por um ideal compartilhado. Fischer (1998 apud BOSE, 2004) afirma que o desenvolvimento pessoal dos integrantes de ONG é fundamental para o desenvolvimento da própria organização. Os benefícios aqui considerados são sociais com exigibilidade espontânea e em sua maioria de natureza não monetária. Benefícios sociais de acordo com Chiavenato (1999) são facilidades, vantagens, com a finalidade de preservar a saúde física e mental do funcionário. Nas categorias outros benefícios observa-se que três sujeitos consideram que a ONG não dispõe de muitas ofertas de benefícios legais, mas sim de exigibilidade espontânea, podendo ser constado no relato do sujeito 4 abaixo: “(...) agora pra mim é um beneficio, mas não que a ONG oferece trabalhar aqui perto que é muito mais fácil pela locomoção assim (...) e também minha criança tá aqui né, é bom, tá perto de mim e eu trabalho e trago ele é mais fácil né. Bom acho que é isso.....( Sujeito 4) Estes benefícios espontâneos podem ser reconhecidos pela flexibilidade, e também vantagens que posam trazer ao sujeito, como no relato a possibilidade da filha freqüentar a escola e também a negociação informal e flexível com os gestores. Desta forma, mesmo que a ONG perca em competitividade salarial com empresas privadas, ela compensa esta falta promovendo maior flexibilidade no ambiente de trabalho e política interna participativa. De acordo com a Rede Brasileira de Terceiro Setor (Rebrates, 2008)10, ONGS e outras entidades de Terceiro setor, ainda têm desvantagem competitiva no mercado em relação aos empregos em instituições privadas, pois os salários são de 20% a 30% mais baixos que as tradicionais e também 90% não oferece benefícios indiretos (participação nos lucros, cestas básicas, dentre outros). 10 Rebrates:www.terceirosetor.org.br/quemsomos/index.cfm?page=programas 78 Na categoria vocação religiosa observa-se o benefício como o engajamento social e também vocação religiosa, conforme relato do sujeito abaixo: ´´É o beneficio é que posso me realizar a minha tendência, minha vocação pela parte social né e também meu compromisso religioso e também posso viver o evangelho, esses são meus benefícios. E também conheço muitas pessoas, monetário não. ´´(Sujeito 2) De acordo com a rede brasileira de terceiro setor (Rebrates), a diferença fundamental entre as entidades privadas e de terceiro setor, é que além das competências para exercer uma determinada função são necessários também comprometimento com a causa, engajamento seja político, religioso ou social. De acordo com Fernandes (1994) em artigo na revista eletrônica Estudos de Política e Teoria Social, as ações de caridade contemporâneas revela-se como uma modalidade de caráter cívico, sendo percebida nas ações voluntárias, relações com familiares e sociedade, vizinhança demarcadas pelas”obrigações religiosas”. Conclui o autor que as ações de desprendimento relacionadas ao imaginário religioso, à vocação religiosa, podem ser verificadas quando a pessoa passa a dedicar parte de sua vida ou sua vida toda a assistência espiritual, ou pode ser observada em ações de doação no cotidiano, mas tendo em comum a obrigação com a missão ou fé. Os benefícios de maneira geral estão relacionados à qualidade de vida no trabalho, pois promovem uma vida mais segura além do ambiente de trabalho. Verificou-se no relato dos sujeitos que os benefícios refletem a possibilidade de trabalhar e unir um projeto de vida cidadã, sendo considerados como desenvolvimento pessoal maior flexibilidade nos relacionamentos, a proximidade da moradia, escola para os filhos. No próximo subcapitulo serão discutidos os motivos que levaram estes sujeitos a trabalhar na ONG. 4.5 OS MOTIVOS QUE LEVARAM OS ENTREVISTADOS A TRABALHAR NA ONG De acordo com o relato dos sujeitos pode-se afirmar que os motivos que levaram os sujeitos a trabalhar na ONG provêm de cinco categorias: desemprego; trabalho solidário; e carinho com a instituição; vocação religiosa e proximidade de moradia. 79 O processo de escolha deste trabalho ou as oportunidades podem ter influenciado no sentido de trabalho atribuído pelos sujeitos e também nos sentidos de qualidade de vida neste contexto. Nesse eixo temático, serão analisados os critérios relacionados a pergunta:Quais foram as principais razões que o levaram a trabalhar na ONG? O sentido de qualidade de vida para os sujeitos com relação à dimensão de trabalho ocorre a partir das relações estabelecidas na dialética com o meio e, portanto está associada a história de vida do sujeito. Os sentidos atribuídos pelos sujeitos à qualidade de vida no trabalho pode ser advinda da dimensão social, organizacional e também individual atribuída ao sentido de trabalho (MORIN et.al,2007). Segue abaixo o quadro 13 com os relatos dos sujeitos. Categorias Unidade de Contexto Elementar (UCE) Freqüência Desemprego “E daí eu saí daquele emprego porque estava grávida e 3 tive meu menino e daí eu vim conversar com a irmã porque eu estava casada mas precisava trabalhar para ajudar né, no orçamento.(...) surgiu esta vaga né..e daí eu vim porque realmente eu precisava e coincidiu que realmente eu queria trabalhar aqui assim né,não foi uma coisa pensada mas foi porque realmente eu precisava.E daí que acabou que eu saí de um emprego,na verdade esse é meu primeiro emprego com carteira assinada.”(Sujeito 4) Trabalho Solidário “Existem outros fatores como desde cedo trabalhava com 2 tarefas solidárias né,então tem a inclinação pessoal.”(Sujeito 2) Carinho com a "Bom é assim..eu..eu...como te falei né...cresci aqui e 2 instituição sempre tive carinho pela instituição.(Sujeito 4) Vocação Religiosa “As razões são que nós,como religiosas,então fizemos a 1 opção pelo pobre e também a inserção nos meios populares,se inserir no meio do povo e trabalhar com o povo pobre.então existe uma motivação e um empenho como religiosas.”(Sujeito 2) Morava próximo “Sinceramente, quando eu vim trabalhar na Instituição eu 1 morava aqui perto e uma vizinha indicou(...)E como eu ao local morava aqui na época,agora não moro mais,a minha vizinha comentou que tinha uma vaga(...)Mas na época que comecei era mesmo por ser mais próximo,hoje eu não saio por esse beneficio em desenvolvimento pessoal.”(Sujeito 1) 80 Quadro 14- Os motivos que levaram os entrevistados a trabalhar na ONG Fonte: Elaboração da autora, 2008 Na categoria Desemprego observa-se que três sujeitos atribuem a situação de desemprego o motivo que o levou a trabalhar na ONG. De acordo com Martins (2006), a teoria neoclássica define o conceito desemprego como determinado pelo equilíbrio entre a oferta de trabalho e a demanda de mão-de-obra. “E daí eu saí daquele emprego porque estava grávida e tive meu menino e daí eu vim conversar com a irmã porque eu estava casada, mas precisava trabalhar para ajudar né, no orçamento. (...) surgiu esta vaga né... e daí eu vim porque realmente eu precisava e coincidiu que realmente eu queria trabalhar aqui assim né, não foi uma coisa pensada, mas foi porque realmente eu precisava. E daí que acabou que eu saí de um emprego, na verdade esse é meu primeiro emprego com carteira assinada.” (Sujeito 4) Observa-se no relato do sujeito que devido à busca por melhores condições socioeconômicas e também por coincidir com uma identificação com a natureza do trabalho desenvolvido pela ONG é o que o levou a fazer parte da organização. Pesquisas tem demonstrado que as organizações do terceiro setor tem representado uma parcela significativa do índice de empregabilidade. Dados do IBGE (1996 apud SECCHI e GUIMARÃES, s.d) demonstram que os índices de desemprego, vêm crescendo nos dois últimos anos, devido aos planos econômicos e também devido ao aumento da população ocasionada pelo êxodo rural. Acrescentam que a população economicamente ativa (PEA) do município do qual pertence a ONG, é de 43.835 pessoas para 7.160 trabalhos formais oferecidos. De acordo com o presidente do portal do Instituto de desenvolvimento Social (IDIS, 2008), Marcos Kisil, em matéria no dia 31/10/2008, que o terceiro setor emprega cerca de 1,5 milhões de assalariados ou 5,5% dos empregados de todas as organizações registradas no país, representando 5% do produto interno bruto. Na categoria trabalho solidário verifica-se que dois sujeitos consideram que a identificação com o trabalho desta natureza favoreceu para seu processo de escolha, podendo ser constado no relato abaixo: “ (...) eu sempre gostei de vir aqui mesmo quando eu trabalhava antes na X,né,antes da privatização.Aí eu saí né por causa da privatização e mesmo quando eu trabalhava eu sempre vinha aqui.Eu ficava umas horinhas, já gostava daqui.”(Sujeito 3) 81 Landim (1996) considera que existe a solidariedade presente no contexto brasileiro é permeada por relações sociais que compactuam de um modelo de caridade pessoalizado, ou seja, a escolha de doar-se é resultante de compromisso cívico. A autora ainda afirma que, existe uma religião social em que os indivíduos estão envolvidos em uma rede que controla seus atos. Na categoria carinho com a instituição, observa-se no relato dos sujeitos que este permanece na organização por razões afetivas. “Como meu caso,porque meu caso é um caso raro né...eu fui criança dessa sociedade.Aos dois anos e meio a sociedade me acolheu por que minha mãe me rejeitou e eu tinha problema. E a sociedade me acolheu na época e não podia só podia com três anos.(...) Com dez anos eu comecei,claro que na época não era assim,mas daí eu já ajudava,como auxiliar de classe.Tanto que aos 14 anos minha carteira já foi assinada como auxiliar de classe.Antes dos quatorze não podia,daí quando fiz quatorze já assinou.”(Sujeito 5) Spector (2002) afirma que o comprometimento afetivo tem relação direta com o desempenho na função, ou seja, as pessoas comprometidas afetivamente com a organização, são motivadas por aspectos distintos dos benefícios organizacionais, sendo a confiança um componente presente nas relações. O comprometimento também pode ser percebido na vocação religiosa do coordenador da ONG, verificado no relato abaixo: “As razões são que nós, como religiosas, então fizemos a opção pelo pobre e também a inserção nos meios populares, se inserir no meio do povo e trabalhar com o povo pobre. então existe uma motivação e um empenho como religiosas.”(Sujeito 2) Observa-se na fala do sujeito que a opção pelo trabalho na ONG, que o aspecto vocacional, também é uma realização pessoal, pois ele se identifica com os ideais solidários. A cooperação de acordo com Landim (2002) e o trabalho solidário permitem que as pessoas se aproximem mais das outras e desta forma ligados pelo sentimento de pertença e cuidado, percebam que o beneficio é mutuo. Pode-se inferir que muitos indivíduos que participam em trabalhos voluntários ou pela própria condição de doar-se, almejam uma melhor qualidade de vida. Os sentidos de qualidade de vida e qualidade de vida no trabalho, portanto são permeados por estes valores e crenças e também pela historia de vida do sujeito. Na categoria morava próximo ao local, observa-se no relato que o sujeito buscou trabalhar na ONG devido à proximidade com a ONG. 82 “Sinceramente, quando eu vim trabalhar na Instituição eu morava aqui perto e uma vizinha indicou(...)E como eu morava aqui na época,agora não moro mais,a minha vizinha comentou que tinha uma vaga(...)Mas na época que comecei era mesmo por ser mais próximo,hoje eu não saio por esse beneficio em desenvolvimento pessoal.”(Sujeito 1) A ONG possui como um dos seus objetivos promover a melhoria da qualidade de vida da comunidade e também dinamizar a economia local, empregando membros da comunidade em seu entorno. Deste modo observa-se que grande maioria dos funcionários são moradores do bairro e se beneficiam da proximidade com o local e também dos serviços prestados para a comunidade, como a escola, os projetos sociais, dentre outros. Verifica-se também no relato do sujeito que a principio foi à proximidade seu beneficio e agora o beneficio está no desenvolvimento pessoal conquistado. Brito (2005) relata que as práticas sociais nas comunidades promovem a transformação local, pois, favorecem o desenvolvimento social e pessoal dos atores envolvidos. 4.6 QUALIDADE DE VIDA NO TRABALHO E SEUS INDICADORES Qualidade de vida no trabalho (QVT) é um tema largamente pesquisado, possuindo várias definições, muito embora as discussões sobre o conceito de QVT estejam sempre associadas à produtividade nas organizações (LIMONGI-FRANÇA, 2004), podemos citar a definição de dois pesquisadores, cujas teorias e conceitos sobre QVT se aproximam da realidade de uma ONG. A definição de QVT por Walton (1975 apud MANCINI et al,2004) é compreendida como ´´atendimento das aspirações e necessidades humanas,calcados na idéia de humanização e responsabilidade social da empresa´´. LimongiFrança (2004 ) considera QVT um conjunto de ações que envolvem melhorias e inovações para auxiliar o desenvolvimento humano ,mesmo durante seu trabalho. Nesse eixo temático, serão analisados os critérios relacionados a pergunta: Para você, o que é Qualidade de Vida no Trabalho?O quadro 15 apresenta os sentidos de cada sujeito para QVT. 83 Categorias Unidade de Contexto Elementar (UCE) Freqüência Ambiente de “... bom qualidade de vida no trabalho tem o ambiente 2 harmonioso, porque tu trabalhar assim em volta de trabalho saudável pessoas,tem a relação né..”(SUJEITO 4) Relevância Social de trabalhoresponsabilidade social “As pessoas que vem para a ONG não vem pela 1 recompensa financeira, qualidade de vida aqui é mais por saber que as pessoas atendidas estão recebendo carinho,estão recebendo ajuda,estão recebendo amor né,estão recebendo estudo.É a ajuda que a gente dá para a comunidade é o apoio que uma da para a outra aqui,necessidade que uma tem a outra ajuda.É o apoio, é o exemplo que a gente recebe das irmãs,principalmente.”(SUJEITO 3) Desenvolvimento humano “É quando o resultado é um resultado dentro dos 1 objetivos traçados,né.Então há resultado,há progresso há transformação, então há qualidade de vida no trabalho.Porque o resultado mostra que há algo de positivo né,especialmente a transformação do lugar e da pessoa.”(SUJEITO 2) Carga horária de “eu acho que ter uma carga de trabalho ideal,sei lá 1 umas seis horas,nem digo isso de repente.”(SUJEITO trabalho 1) Quadro 15: Qualidade de vida no trabalho Fonte: Elaboração da Autora, 2008 No quadro acima verifica-se no relato dos sujeitos que ocorre predominância de indicadores sociais de qualidade de vida no trabalho,sendo que dois sujeitos consideraram o ambiente de trabalho saudável como QVT, um considerou ações de responsabilidade social,um considerou desenvolvimento social e somente um sujeito considerou o indicador organizacional carga horária de trabalho. Observa-se com relação à qualidade de vida na ONG, que os indicadores trazidos pelos sujeitos não delimitam apenas o ambiente da organização, mas também se estendem à comunidade, do qual eles também fazem parte. Para Sampaio (2004 apud STEFANO et al,2006 ) a qualidade de vida interliga o trabalho, com família, lazer, religião, relações afetivas dentro e fora do ambiente de trabalho, ações sociais da organização e também as recompensas provindas deste trabalho, que seriam remuneração justa e também reconhecimento de suas funções. Como o ser humano, enquanto ser holístico apresenta uma pluralidade de potencialidades que se refletem em suas inúmeras necessidades, a qualidade de vida também acompanha esta lógica, assumindo esta dimensão complexa. Limongi-França (2004) propõe 84 uma concepção biopsicossocial e organizacional de qualidade de vida no trabalho, considerando indicadores biológicos, psicológicos, sociais e organizacionais que correspondem às potencialidades do ser humano complexo e respondem conseqüentemente às suas necessidades. Todavia observa-se que os critérios de qualidade de vida no trabalho propostos Walton (1975 apud LIMONGI-FRANÇA, 2004) e algumas das ações de Qualidade de vida no trabalho (De MARCHI, s.d apud LIMONGI-FRANÇA, 2004) são identificados nos relatos dos sujeitos nas quatro categorias apresentadas: ambiente de trabalho saudável, relevância social do trabalho, desenvolvimento humano e carga horária de trabalho. Na categoria ambiente de trabalho saudável verifica-se no relato de dois sujeitos, que as relações no ambiente de trabalho são fundamentais para alcançar QVT,como pode ser constado no relato do sujeito 4 abaixo: “Bom, qualidade de vida no trabalho tem o ambiente harmonioso, porque tu trabalhar assim em volta de pessoas tem a relação né..”(Sujeito 4) Walton (1976 apud LIMONGI-FRANÇA) considera que o ambiente de trabalho está diretamente relacionado com as estratégias organizacionais, o que influi na qualidade de vida no trabalho. Aspectos físicos, psicológicos e ambientais estão diretamente relacionados com a qualidade de vida no trabalho (CHIAVENATTO, 2003 apud ARELLANO, 2008). Verifica-se no relato do sujeito 5 que a qualidade nas relações e também o clima da organização influem na QVT . “O que é qualidade de vida no trabalho...bom eu acho que seria isso tu gostar do local onde tu tais.”(Sujeito 5) Verifica-se nos relatos acima a identificação do conceito de QVT com as relações no ambiente de trabalho como com o próprio ambiente, que envolve os valores e missão da organização. De Marchi (s.d.apud LIMONGI-FRANÇA, 2004) ao referir-se ao conceito de QV nas organizações, afirma ser este uma prioridade organizacional e também individual, pois envolve a saúde em vários aspectos, podendo ser física, social, espiritual, profissional, cultural e ambiental. O ambiente de trabalho, portanto, representa neste sentido um dos fatores que interferem na saúde do trabalhador, podendo viabilizá-la ou não. 85 Na categoria relevância social de trabalho, as ações de humanização e responsabilidade social nas organizações propostas por Walton (1976 apud LIMONGIFRANÇA, 2004) são consideradas pelo sujeito 3 como qualidade de vida no trabalho. “As pessoas que vem para a ONG não vem pela recompensa financeira, qualidade de vida aqui é mais por saber que as pessoas atendidas estão recebendo carinho,estão recebendo ajuda,estão recebendo amor né,estão recebendo estudo.É a ajuda que a gente dá para a comunidade é o apoio que uma da para a outra aqui,necessidade que uma tem a outra ajuda.É o apoio, é o exemplo que a gente recebe das irmãs,principalmente.”(Sujeito 3) Limongi-França (2004) ao estabelecer um contraponto entre qualidade de vida e cidadania faz referência a um artigo publicado no jornal da USP em 1993, no qual relata que a participação do cidadão na dimensão social depende do ambiente sociocultural em que este está inserido e que a atitude de considerar e zelar pelo bem estar do próximo não é mera questão social ou política, mas um aspecto cultural no qual os indivíduos propulsores de ações de acolhimento e solidariedade, almejam o próprio bem estar, mas também associam estas necessidades individuais com o conjunto de necessidades do coletivo. No relato do sujeito 3 fica claro o bem estar que as atitudes solidárias e colaborativas proporcionam. Mancini, S. et al (2004) consideram que as ações socialmente responsáveis da organização, não só colaboram para que ocorra maior preocupação e atenção com a QV dos trabalhadores como também pode vir a ser motivo para a implementação de GQVT(Gestão de qualidade de vida no trabalho). Melo Neto e Froes (1999, apud GASPAR, 2001) descrevem estas práticas de auxílio a comunidade e também o trabalho voluntário como responsabilidade social externa e às práticas voltadas aos clientes internos, como educação, lazer, políticas salariais e de benefícios, assistência nas áreas de saúde, como ações de responsabilidade social internas. Outra característica observada na fala do sujeito é o motivo pelo qual as pessoas vêm trabalhar em ONG. De acordo com relato do sujeito 3,as pessoas se identificam com as ações e projetos sociais , com a missão da ONG, refletindo o engajamento social dos membros da ONG, trabalhar pela causa(missão) e não somente pelo dinheiro. Bose (2004) afirma que os valores que norteiam as práticas em ONGs são compartilhadas por seus membros, sendo demonstrado no comprometimento com a organização. Na categoria desenvolvimento humano, Salamon (2000 apud BOSE, 2004) afirma que a natureza das organizações do Terceiro Setor, aliadas com a confiabilidade e vínculos com comunidades e grupos aos arredores, fazem destas instituições ferramentas 86 eficientes para auxiliar no desenvolvimento social, embora essas ações quando ocorrem de maneira isolada não acabam por mobilizar mudanças efetivas. Caso estas ações e práticas se tornem efetivas as mudanças podem ocorrer e consequentemente o desenvolvimento social será proporcionado aos membros da ONG e também a comunidade em seu entorno. A qualidade de vida no trabalho neste sentido pode vir a se tornar presente, sendo retratada no relato do sujeito 2 abaixo: “É quando o resultado é um resultado dentro dos objetivos traçados,né.Então há resultado,há progresso há transformação, então há qualidade de vida no trabalho.Porque o resultado mostra que há algo de positivo né,especialmente a transformação do lugar e da pessoa.”(Sujeito 2) Para Limongi-França (2004) o conceito de desenvolvimento humano é abrangente, estendendo-se à dimensão de bem-estar do ser humano trabalhador. De acordo com a autora pesquisadores do Programa das Nações Unidas (PNUD) consideram o desenvolvimento humano em uma perspectiva holística, presente nos critérios do Índice de Desenvolvimento Humano e também Índice de desenvolvimento social, ambos intimamente ligados ao conceito de qualidade de vida no trabalho. O relato do sujeito 2 demonstra que o sentido de qualidade de vida no trabalho para ela reflete o progresso, a transformação do lugar( ONG e arredores) e das pessoas ali inseridas. Fischer (1999 apud LIMONGI-FRANÇA, 2004) relata que as ações solidárias e de cidadania são vias para garantir o desenvolvimento das pessoas e também o desenvolvimento social, pois ao auxiliar o entorno da organização, obtêm-se criticas sobre as práticas internas de cidadania, melhorando consequentemente as relações no ambiente de trabalho. O sentido de qualidade de vida no trabalho para o sujeito 1 refere-se à carga horária de trabalho ideal,verificado n relato abaixo: “... eu acho que ter uma carga de trabalho ideal, sei lá umas seis horas, nem digo isso de repente.”(Sujeito 1) Pode-se inferir que a quantidade de carga horária de trabalho esteja relacionada à legitimidade do trabalho, ou seja, mesmo com o avanço tecnológico nas organizações e modernização nas relações de trabalho, a legitimidade pode não ocorrer. A questão da legitimidade nas organizações também está associada à responsabilidade social interna 87 (MELO NETO e FROES 1999, apud GASPAR, 2001) e a qualidade de vida no trabalho (LIMONGI-FRANÇA, 2004), ou seja, refere-se ao que é ofertado ao cliente interno e também ao respeito e valorização nas relações de trabalho, melhorando a qualidade de vida ao exercer suas funções operacionais. Observa-se na fala do sujeito que o respeito pelo trabalho, não exigindo deste acima do que lhe foi designado, favorece a qualidade de vida neste ambiente. Chiavenato (2003, apud ARELLANO, 2008) refere-se à qualidade de vida no trabalho como um profundo respeito pelo ser humano trabalhador, priorizando a recompensa justa e adequada por suas contribuições. Além das relações de respeito favorecerem a qualidade de vida no trabalho, outros aspectos de natureza organizacional, biológica, social, influem para viabilizar ou não a saúde do trabalho. 88 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS O objetivo geral desta pesquisa foi investigar os sentidos atribuídos por membros de uma ONG, pertencente à grande Florianópolis, à qualidade de vida no trabalho. Para tanto, foram criados cinco objetivos específicos, sendo quatro relacionados com os indicadores biopsicossociais-organizacionais de qualidade de vida no trabalho (LIMONGI-FRANÇA, 2004) e um sobre os motivos que levaram as entrevistadas a trabalhar na ONG. Esta pesquisa foi realizada com cinco mulheres, funcionárias de uma ONG situada na região da grande Florianópolis, por meio de entrevistas semi-estruturadas elaboradas com questões abertas que visaram responder os objetivos específicos. A análise do conteúdo das entrevistas foi realizada por meio de etapas de pré-análise (organização do material), descrição analítica dos dados (classificação, categorização) e interpretação referencial (tratamento e reflexão). Com relação aos sentidos atribuídos pelos sujeitos aos indicadores psicológicos de qualidade de vida no trabalho, crescimento profissional e relacionamento interpessoal, foi observado que o crescimento profissional é compreendido como incentivo a formação, como desenvolvimento pessoal e também dependente do sujeito, ou seja, como responsabilidade do sujeito. No indicador relacionamento interpessoal, pôde-se verificar que todos consideram a relação com os colegas no ambiente de trabalho como amigável, sendo que os conflitos são superados, podendo favorecer a qualidade de vida no ambiente de trabalho. No segundo eixo, relacionado aos indicadores biológicos de qualidade de vida, foi observado no indicador ações de promoção e prevenção à saúde, que todas as entrevistadas consideram que as palestras e orientações sobre saúde são as práticas mais utilizadas no ambiente da ONG, enquanto as demais categorias estavam relacionadas com auxílio de profissionais de outras áreas, retiro e práticas espirituais, benefícios organizacionais, sendo que apenas uma das entrevistadas não considera ter ações de prevenção e promoção de saúde. Com relação ao indicador ações de prevenção a acidentes, pôde-se observar que três sujeitos consideraram a orientação como uma ação de prevenção à acidentes de trabalho,dois sujeitos consideraram os cuidados com materiais de limpeza e ambiente adequado e seguro e apenas um sujeito não lembrou de nenhuma ação de prevenção a acidentes. Desta forma pôde-se notar que as ações relatadas pelos sujeitos referem-se a ações isoladas e de caráter paliativo, verificando-se ausência de programas continuados de prevenção e promoção à saúde e prevenção a acidentes, como o PPRA, PCMSO ou alguma prática formalizada e organizada de atendimento à saúde dos funcionários como Comissão 89 Interna de Prevenção de Acidentes (CIPA). Mesmo as orientações de profissionais para melhoria da alimentação, a capacitação das funcionárias da cozinha e também para os cuidados com materiais de limpeza, demonstram uma preocupação maior com a saúde das crianças, sendo que os funcionários se beneficiam destas ações de maneira indireta. O terceiro eixo refere-se aos indicadores sociais de qualidade de vida no trabalho, percebendo-se que, as entrevistadas consideraram as atividades de lazer e participação das famílias junto à ONG, norteadas pelo desenvolvimento social. O trabalho voluntário é uma categoria, considerada por todas as entrevistadas, como uma forma de participação das famílias de atividades da ONG, sendo que todas as funcionárias e suas famílias participam contribuindo voluntariamente. Outra categoria considerada por três entrevistadas refere-se à participação das crianças e adolescentes da escolinha e de projetos, como por exemplo, o programa primeiro emprego, observando-se que estas ações educacionais e de desenvolvimento social em prol da juventude pertencente à comunidade, são os pilares que sustentam os objetivos da ONG. Dentre as opções de lazer relatadas pelos sujeitos estão os passeios nos fins de ano e as reuniões de interiorização. Muito embora todas as entrevistadas considerem os passeios como opções de lazer, estes não são oferecidos pela ONG e sim partem de iniciativas dos próprios funcionários. A ONG em si não apresentou oferecer opções de lazer, como por exemplo, salas de descanso para funcionários, atividades lúdicas ou esportivas como forma de amenizar o cotidiano de trabalho de seus funcionários. No quarto eixo, os indicadores organizacionais de qualidade de vida no trabalho, treinamentos e benefícios oferecidos, demonstraram que as entrevistadas consideraram o desenvolvimento pessoal, profissional e também o aspecto religioso influindo nas ações internas da ONG. Foi observado que quatro entrevistadas afirmaram participar de treinamentos e cursos oferecidos por outras instituições, três consideram as reuniões internas articuladas com momentos de interiorização como uma forma de aprendizado e duas entrevistadas consideram que a ONG incentiva a participação de cursos assim como uma das entrevistadas relatou que o aprendizado depende da disponibilidade do sujeito e duas entrevistadas afirmaram não participar destes treinamentos. Observa-se no caso da ONG, que os treinamentos e cursos são realizados com instituições parceiras e as reuniões internas não contemplam uma organização e planejamento formal, seguindo as etapas de treinamento utilizadas na gestão de organizações privadas. Esta informalidade técnica é observada nas organizações que 90 contemplam a gestão social no Brasil, sendo esta o grande dilema das organizações do terceiro setor, articular o desenvolvimento técnico com a questão social (TENÓRIO, 2001). Os benefícios foram considerados por três sujeitos como desenvolvimento pessoal e também como outros benefícios, tais como, maior flexibilidade nos relacionamentos, a proximidade da moradia, escola para os filhos. Observa-se que o desenvolvimento pessoal tido como benefício revela que o trabalho na ONG, vai além de exercer um trabalho, refletido a possibilidade de trabalhar e unir um projeto de vida cidadã. Com relação aos motivos que levaram os sujeitos a trabalhar na ONG, verificou-se que o fator desemprego foi primordial, seguido de carinho com a instituição, vocação religiosa e tendência ao trabalho solidário. Observa-se nos relatos a identificação com os objetivos da instituição. A partir da análise dos dados do sexto eixo foi possível verificar a diversidade de sentidos atribuídos pelos membros da ONG à qualidade de vida no trabalho. De modo geral os principais aspectos trazidos pelos sujeitos com relação aos sentidos de qualidade de vida no trabalho referem-se ao ambiente de trabalho saudável, ações de responsabilidade social, desenvolvimento pessoal e carga de horário de trabalho adequada. A qualidade de vida no trabalho é um tema amplamente pesquisado no ambiente empresarial, portanto, ao pesquisar os sentidos de qualidade de vida no trabalho para membros de uma ONG, pode-se perceber que o trabalho solidário, o desenvolvimento pessoal, o trabalho voluntário, o engajamento social e a religiosidade permearam o discurso dos sujeitos. Após término desta pesquisa pôde-se concluir que as principais dificuldades encontradas foram às poucas referências sobre gestão de ONG e terceiro setor e nenhuma sobre qualidade de vida neste ambiente. No banco de teses e dissertações da CAPES, SCIELO, dentre outros não foi encontrado nenhum trabalho específico sobre o tema da pesquisa abordada neste trabalho ( Sentidos atribuídos por membros de ONG à qualidade de vida no trabalho) embora existam teses e dissertações que abordam temas como trabalho voluntário, movimentos sociais e ONGs, história das organizações do terceiro setor. Outra dificuldade encontrada foi com relação ao contato com os sujeitos da pesquisa, pois na etapa de projeto a pesquisa seria realizada com todos os integrantes da ONG, e no momento do agendamento para entrevista, percebeu-se que muitos profissionais não poderiam deixar seus cargos durante um período de 30 a 40 minutos. Os professores não poderiam ser retirados das salas de aula, a recepcionista não poderia sair da recepção. A facilidade encontrada aconteceu no contato com a ONG, devido ao ambiente pertencer ao núcleo de estágio de saúde do trabalhador. 91 A relevância científica desta pesquisa refere-se à contribuição para os estudos relacionados ao universo das ONGS na psicologia e também com relação às pesquisas sobre qualidade de vida no trabalho neste ambiente. O aumento de ofertas de empregos no terceiro setor geram a necessidade de estudos para o bem estar e qualidade de vida deste trabalhador. Portanto a relevância social desta pesquisa pauta-se na possibilidade de efetivar melhorias das condições de trabalho em instituições do Terceiro Setor. Embora os objetivos desta pesquisa tenham sido alcançados, sugere-se que se ampliem as pesquisas sobre a saúde do trabalhador no Terceiro Setor e ONGs, para maior apreensão deste fenômeno, possibilitando o desenvolvimento de programas de qualidade de vida adaptados à realidade dessas instituições e consequentemente se criem condições de melhoria da qualidade de vida para este trabalhador. 92 REFERÊNCIAS: ABONG, Associação brasileira de organizações não- governamentais. Disponível em :< http://www2.abong.org.br/final/index.php> . Acesso em: 04 nov. 2007. _______.Associação brasileira de organizações não- governamentais. Disponível em:< http://www2.abong.org.br/final/index.php> . Acesso em: 07 out. 2008. _______. Um novo marco legal para as ONGs no Brasil: Fortalecendo a cidadania e a participação democrática. Disponível em http://www.abong.org.br/. Acessado em 16 de novembro e 2007. ALBUQUERQUE, L.G., LIMONGI-FRANÇA, A. C. 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O que esses cursos proporcionaram para você? 14- Como você descreveria a relação com seus colegas no ambiente de trabalho? 15- A sua família participa de alguma atividade oferecida pela ONG? 16 – Como você analisa as oportunidades de crescimento profissional existentes na ONG? 17– O que você considera ações de prevenção e promoção de saúde no ambiente de trabalho? 18 – Para você, quais ações previnem acidentes de trabalho na ONG? 19 - O que você considera como beneficio oferecido pela ONG? 2011- Assinale dentre os aspectos citados abaixo que são promotores de qualidade de vida no trabalho? 1.( )Oportunidade de crescimento profissional ( oportunidade de carreira) 2. ( ) Transparência nas relações no ambiente de trabalho 3-( ) Ações de responsabilidade sócio-ambiental 11 Esta questão a autora utilizou o verbo” assinalar” de forma inadequada, pois se trata de uma entrevista. 102 4-( ) Possibilidade de participar de treinamentos 5-( )Possibilidade de participar das decisões 6-( ) Respeito a escolha da crença religiosa 7- ( ) Valorização do aspecto espiritual no cotidiano de trabalho ( práticas meditativas) 8-( ) Atendimento a familiares (creches,escolas,outros) 9- ( ) Financiamento de curso e/ou especialização 10-( ) Fornecimento de cestas básicas 11-( ) Convênios Comerciais com academias de ginástica,farmácias,supermercados etc 12-( ) Valorização da educação como aspecto primordial para o desenvolvimento de valores de cidadania e respeito. 13-( )Atividades que promovam eventos culturais(saraus,teatros,eventos musicais etc) e opções de lazer(passeios, jantares,festas,sala de descanso etc) 14-( ) Programas de cidadania 15-( )Programas de inclusão digital 16-( ) Fornecimento de alimentação de qualidade 17-( ) Promoção de atividade física no ambiente de trabalho 18-( ) Convênios médicos 19-( )Ações de prevenção à acidentes no trabalho 20-( ) Confiança nos critérios de recrutamento e seleção de funcionários 21-( ) Feedback sobre avaliação de desempenho de seu trabalho 22-( ) Clima de camaradagem entre as pessoas 23-( ) Satisfação com salário 24-( ) Respeito a relação trabalho/vida pessoal 25-( ) Programas ou projetos sobre uso de drogas 26-( )Projeto ergonômico no ambiente de trabalho(melhoria das condições de trabalho com adaptação de móveis ventilação,luminosidade) e aparelhos aos funcionários e também melhoria da 103 APÊNDICE B- Termo de Consentimento Livre e Esclarecido para a participação dos membros da ONG UNIVERSIDADE DO SUL DE SANTA CATARINA COMISSÃO DE ÉTICA EM PESQUISA - CEP UNISUL TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO Meu nome é Ana Paula Ruiz Pessenda, sou estudante de Psicologia e no momento estou cursando a graduação de Psicologia na Universidade do Sul de Santa CatarinaUNISUL, unidade Pedra Branca em Palhoça- SC. Estou desenvolvendo o projeto de pesquisa intitulado “Os sentidos atribuídos pelos membros de uma ONG à qualidade de vida no trabalho: Um estudo de caso. Desenvolvo esta pesquisa sob orientação da prof.ª Michelle Regina da Natividade. Vou realizar a pesquisa com os membros desta ONG, porque considero importante pesquisar a Qualidade de vida no trabalho em um contexto diferente do ambiente empresarial. Para a realização desta pesquisa eu entrevistarei os membros da ONG, sendo que cada encontro será de 40 a 60 minutos e as entrevistas individuais serão gravadas e posteriormente transcritas. Caso você queira esclarecer alguma duvida sobre a pesquisa ou não queira participar da mesma, entre em contato comigo, a qualquer momento, pelo fone (048) 91320031. Os resultados coletados serão utilizados na elaboração desta pesquisa, além de poderem ser utilizados para publicações cientificas. Esclareço que haverá sigilo sob os dados informados e que os participantes não serão identificados na pesquisa, pois serão utilizados nomes fictícios para preservar o anonimato e a privacidade dos mesmos. Desta forma, solicito sua autorização para entrevista.Em caso afirmativo, preencha os dados abaixo. Conto com sua colaboração e desde já lhe agradeço. Atenciosamente, Ana Paula Ruiz Pessenda 104 Eu,.................................................................,CPF n....................................,considero que fui suficientemente esclarecido sobre a pesquisa “Os sentidos atribuídos pelos membros de uma ONG à qualidade de vida no trabalho ”. Palhoça, ....../...../ 2008