RODRIGO ROJAS DUARTE (Integrante do CEDOPE – Centro de Documentação e Pesquisa de História dos Domínios Portugueses) O COMÉRCIO VAREJISTA NA VILA DE CURITIBA: Os Preços na segunda metade do século XVIII. Monografia apresentada como requisisto parcial à obtenção do título de Bacharel em História no Curso de História do Setor de Ciências Humanas, Letras e Artes da Universidade Federal do Paraná. Orientador: Prof. Dr. Magnus Roberto de Mello Pereira. Curitiba, 2003 SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO...........................................................................................................1 2. CARACTERIZAÇÃO DA VILA ............................................................................. 3 2.2 PECUÁRIA ............................................................................................................... 3 2.3 ECONOMIA MORAL .............................................................................................. 5 2.4 ALMOTAÇARIA ...................................................................................................... 8 3. O MERCADO E OS PREÇOS ................................................................................ 13 3.1 MÉTODOS .............................................................................................................. 13 3.2 PREÇOS .................................................................................................................. 14 4 CONCLUSÃO ......................................................................................................... 32 5 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS E FONTES ................................................. 34 AGRADECIMENTOS Gostaria de agradecer ao Prof. Dr. Magnus Roberto de Mello Pereira por ser um Orientador muito mais compreensivo do que eu imaginei a princípio. Ao Prof. Dr. Antônio César Santos por ter me dito “isso não é nem um texto” e me ajudado a transformar aquelas três páginas iniciais no meu primeiro relatório de Iniciação Científica que agora se transformou nesta Monografia. Á Profa. Dra. Maria Luiza Andreazza por me ensinar que milhares de fichas podem ser encaradas com bom humor. Aos meus amigos do CEDOPE, por tudo. Às bandas Shelter, Rage Against the Machine e Raimundos sem cujo hardcore eu jamais teria conseguido passar todas essas noites acordado. 1. INTRODUÇÃO Recentemente estive num simpósio onde se discutiam questões acerca do mercado colonial1 de cachaça quando se levantou a questão de que, embora tenhamos o costume de tratar os preços no antigo regime segundo o mecanismo da oferta e procura, este não é o único meio influenciador da fixação de valores. No Antigo Regime há que se lembrar que o mercado não é livre mas o argumento de que o controle estatal não era efetivo foi terminal para o debate já que realmente não bastava publicar uma tabela de preços para controlar as relações de mercado. Assim, enveredamos pela História dos Preços a fim de contribuir para essa discussão com algumas séries de preços. Tais intrumentos de referência são essenciais quando precisamos contextualizar quaisquer valores com os quais estejamos trabalhando como por exemplo causas relativas a dívidas julgadas nas justiças ordinárias, heranças, multas. A História dos Preços do século XVIII no Brasil ainda está em seus princípios, apenas dois trabalhos foram efetuados para este período por dois americanistas: Dauril Alden2 e Harold Johnson3 para Salvador e Rio de Janeiro, respectivamente. Considerando que estes são os dois maiores portos mercantis da colônia, cremos que uma tentativa como esta de formular séries de preço para a vila de Nossa Senhora da Lux dos Pinhais de Curitiba produziria um interessante contraponto já que esta é, durante boa parte do XVIII a ponta de lança da expansão portuguesa rumo ao Prata e, portanto, uma periferia longínqua além de pequena e pobre. Como o mercado, especialmente o de víveres, se comporta numa região assim? Quais as suas especificidades? Estas perguntas podem ser respondidas pelas séries de preço que construímos para este trabalho. Segue-se o capítulo 2. Caracterização da Vila dividido em três subtítulos: Pecuária em que empreendemos um olhar sobre a principal atividade econômica da vila; Economia Moral, onde inserimos o conjunto de noções relativas ao comércio de víveres e ao mercado 1 1º Simpósio Alcool e Drogas na História do Brasil da UFOP. (ICHS – Mariana – MG) ALDEN, Dauril.Los movimientos de precios en Brasil antes y después del auge del oro, com referencia especial al mercado de Salvador, 1670-1769. IN: JOHNSON, L; TANDETER, E (org). Economias Coloniales: precios y salarios en América Latina: Siglo XVIII. Buenos Aires: Fondo de Cultura Econômica, 1992. 3 JOHNSON, Harold. A Preliminary Inquiry into money, prices and wages in Rio de Janeiro, 1763-1823. In: ALDEN, D.(org). Colonial Roots of modern Brazil. Berkeley, 1973. p 230-283. 2 1 que era vigente no período abordado e Almotaçaria onde abordamos a ação da Câmara Municipal, ou Senado da Câmara a respeito das relações de mercado. No capítulo 3. Os Preços e o Mercado tecemos primeiramente algumas considerações metodológicas em Métodos e apresentamos os resultados da pesquisa em Preços. Após o que fechamos sumariamente as questões ora levantadas. 2 2. CARACTERIZAÇÃO DA VILA 2.1 PECUÁRIA Em seu clássico Formação do Brasil Contemporâneo, Colônia, Caio Prado Jr. nos propõe que o Brasil se constituiu enquanto uma grande empresa colonial destinada a fornecer artigos tropicais altamente valorizados no mercado consumidor europeu. Se este sentido primordial da colonização perpassa toda a organização da colônia, como podemos pensar a vila de Curitiba numa tal empresa? Através das atividades comerciais que se efetuavam nela durante o período que nos interessa, que no caso é a criação e invernagem de gado. O século XVIII é o período do auge e queda das Minas produtoras de ouro no Brasil. A grande concentração de pessoas envolvidas com a extração do metal e toda a atividade mineira demandaram dois tipos de insumos que os campos de Curitiba se organizaram para suprir: alimentação e animais para transporte (mulas). Desse modo a elite da vila esteve durante este tempo ligada, através de suas fazendas de criar e de seus campos de invernagem, com o comércio de muares e vacuns que se destinavam á Sorocaba e dali para abastecerem as Minas e o Rio de Janeiro. Poderíamos assim qualificar, com Pinheiro Machado, a ocupação econômica principal – mas não exclusiva – dos habitantes de Curitiba como a lida com o gado, já que esta era a forma pela qual a pequena vila se inseria na grande empresa exportadora que foi o Brasil Colonial4. O trato do gado é, segundo Manoel de Andrade5, o grande responsável pela interiorização da ocupação portuguesa em território brasileiro. Desde que o Estado português proibiu a criação de gado nas dez léguas do litoral – por que os animais invadiam as plantações de cana para se alimentarem – os criadores iniciaram uma lenta marcha de ocupação que foi ganhando terras do interior para a pecuária, destinada para os centros produtores de açúcar no litoral e, posteriormente, para as Minas Gerais. No Sul, a criação começa com os estabelecimentos jesuíticos da região das Missões. Após a destruição infligida pelos bandeirantes e pelas guerras entre Portugal e Espanha, estas manadas se dispersam pelo interior, sendo posteriormente reunidas por estancieiros 4 MACHADO, Brasil P. Formação da Estrutura Agrária Tradicional dos Campos Gerais. Boletim da Universidade do Paraná, n. 3, Jun. 1963. 5 ANDRADE, Manoel. A pecuária e a produção de alimentos no período colonial. In: SZMRECSÁNYI, Tamás(org). História Econômica do Período Colonial. São Paulo: Hucitec, 1996. 3 gaúchos e uruguaios “dando origem a uma civilização pecuarista no Brasil Meridional, área que sempre esteve ligada a São Paulo e que, com o desenvolvimento da mineração foi grande fornecedora de animais de tração – muares sobretudo – e de abate à zona mineradora”6. Há que se destacar neste sentido a abertura, durante a primeira metade do século XVIII, de duas vias principais que vinham do Sul e se encontravam na região de Ponta Grossa. Uma delas vinha de Viamão e a outra da região das Missões, ligada a Corrientes na Argentina. Estes caminhos eram destinados ao transporte do gado desde as longínquas áreas de criação no Rio Grande de São Pedro do Sul até a grande feira de Sorocaba, passando pelos campos da região de Curitiba. No início do Setecentos Curitiba não passava de um vilarejo pobre, sem exportação de excedente algum e sua principal troca comercial com o restante da colônia era a importação de sal para o gado7. Com a descoberta de ouro nas Minas Gerais e o conseqüente adensamento populacional naquela área, o consumo de carne passou a pressionar a produção, o preço do produto aumentou e regiões anteriormente desligadas do comércio externo passaram a ser requisitadas para suprir esta demanda. Da mesma forma cresce a utilização do transporte em lombo de burro – único animal apropriado para as estradas da época – que vinha do Sul desde o Rio Grande e a Argentina, entrava na rota de Viamão, era vendido em Sorocaba e chegava finalmente às Minas. Ora, os campos de Curitiba se inseriram na economia colonial através do gado que tanto poderia ser criado domesticamente quanto poderia estar invernando em pastagens alugadas. Segundo Pinheiro Machado “a fazenda de criar, nos campos de Curitiba e nos Campos Gerais se tornou a empresa fundamental da economia da comunidade paranaense, durante todo o século XVIII e grande parte do seguinte.”8 Tal estrutura econômica suscitou uma organização social baseada em fazendas quase auto suficientes, comandadas por uma “classe senhorial composta de famílias patriarcais”9. Nestas unidades econômicas se produzia praticamente tudo o que se utilizava, desde artefatos em couro até a própria subsistência, apenas aço e sal eram importados. Para isso formava-se toda uma gama de artífices escravos: oficiais de carpinteiro, oficiais de 6 Op. Cit. Pg 105. MACHADO, B. Op. Cit. P 8. 8 MACHADO, B. Op. Cit. P 9. 9 MACHADO, B. Op. Cit. P 11. 7 4 sapateiro, oficiais de alfaiate, roupeiros, cosinheiros, arrieiros, domadores, campeiros etc. além de se delegar funções específicas para as filhas e escravas10. Dentro da fazenda identificamos a estratificação acentuada das relações entre senhor e escravo, que poderia ser negro ou indígena (sob a alcunha de “administrado”). À medida em que a criação prosperava e os rebanhos cresciam, assim também os plantéis de escravos aumentavam, sendo esta a tendência para todo o século XVIII. O trabalho, entretanto, não era totalmente cativo, havia a figura do agregado, homem livre mas completamente dependente do senhor e que, em geral, residia nas partes mais afastadas da fazenda servindo de mão de obra no trato do gado e de milícia contra eventuais inimigos; outra denominação corrente é a de camarada. O trabalho de escravos e agregados consistia em ajuntar o gado para tratamento, castração, marcação, separação de vacas com cria e bezerros em idade de desmame. Havia ainda que preparar o pasto e fornecer o sal, ingrediente indispensável na dieta dos animais. Depois de pronta a tropa de bois gordos, os peões cativos e os camaradas tangiam a manada até Sorocaba onde era vendida. 2.2 ECONOMIA MORAL Durante a Idade Média houve uma releitura da obra de Aristóteles levada a cabo por Tomás de Aquino que resultou na escolástica. Esta doutrina usa a metáfora do corpo para explicar a sociedade, que então era dividida entre seus membros, cada qual responsável por uma atribuição do corpo. Isto incluía os grupos sociais sem exceção alguma: desde o nobre até o mendigo tinham seu lugar definido dentro da sociedade. Posteriormente o corpo foi a associado ao Estado Moderno, com o rei no comando (ou na cabeça) e os demais setores da sociedade ocupando seus lugares e executando suas próprias funções. Este corpo que foi associado ao reino era então composto de corpos menores que se organizavam de forma semelhante: se o rei era o chefe da nação, assim o era o pai no interior da sua casa, o nobre no interior de sua propriedade, o mestre no interior de sua oficina etc. entretanto, ao contrário do que acontecia no medievo, cada miniatura da estrutura estava subordinada à outra, que por sua vez se subordinava a uma outra e assim por diante até chegar ao rei, que 10 MACHADO, B. Op. Cit. P 12. 5 se subordinava apenas a Deus, nos apresentando a complexidade hierárquica própria do século XVIII. Dentro dessa hierarquia existiam distinções muito bem marcadas entre os grupos sociais, a inclusão de todos os grupos não significou, de forma alguma, igualdade entre as partes. Pelo contrário, a noção corrente era de que cara setor tinha uma especificidade em relação aos outros e, portanto, uma importância relativa. Por outro lado, essa forma de organização da sociedade impõe uma responsabilidade descendente, ou seja, o mais poderoso – o rei – deve ocupar-se de proteger e prover a subsistência dos que estão abaixo, que devem fazer o mesmo com seus subordinados e assim sucessivamente. O rei, por sua vez, não está desamparado no topo da pirâmide social: ele pode contar com a proteção e guarda de Deus, por obra de Quem recebeu a graça da coroa, mas deve cuidar de todos como um grande pai. Nos Setecentos, entretanto, uma outra doutrina se apresenta e este século é o palco para o embate entre a escolástica e o liberalismo. É muito elucidante, para o nosso espectro de questões, a maneira como E. P. Thompsom nos apresenta este embate: motins de subsistência dos pobres ingleses11. A alimentação do povo inglês no XVIII consiste basicamente de pão, sendo o de trigo o mais utilizado. Segundo o modelo paternalista que existia “em um corpo desgastado de lei estatuída, assim como na common law e nos costumes”12, o trigo deveria passar sem intermediários do agricultor para o consumidor, não se poderia comprar por amostragem, não se poderia comprar para revenda com lucros e haveria de se reservar um espaço de tempo para que os pobres comprassem seu grão em quantidades compatíveis com suas posses. Na medida em que o livre mercado vai ganhando força, ao mesmo tempo em que contesta o modelo paternalista, surgem demonstrações de desagrado especialmente dos pobres, que se manifestam via de regra “fixando o preço” do trigo a preços populares, isto é, se apropriando – com ou sem violência – do trigo daqueles comerciantes ou atravessadores considerados abusivos e distribuindo-o a preços considerados aceitáveis. Esse modus operandi, para Thompsom, origina-se num conjunto de medidas que, com efeito, “outorgava aos magistrados o poder (com a ajuda dos tribunais locais) de 11 THOMPSOM, E. P. Costumes en Común. Crítica: Barcelona, 1995. 6 inspecionar a existência de cereais em câmaras e celeiros; de ordenar o envio de certas quantidades ao mercado...”13. mesmo as autoridades estão presas ao modelo e tendem a garantir sua manutenção principalmente nos anos de escassez. Thompsom propõe que estas manifestações, a despeito do fato da fome, estavam baseadas num todo que é dado pela tradição, pelo costume, pela regulamentação das relações de mercado, pelo paternalismo e por uma noção de que os pobres não poderiam ser deixados à míngua de acordo com as flutuações do preço do trigo no mercado. Ao invés da distribuição para quem pudesse pagar mais, os pobres exigiam a sua inclusão no mercado pelo preço que pudessem pagar: É certo, por suposto, que os motins de subsistência eram provocados por preços que subiam vertiginosamente, por práticas incorretas dos comerciantes, ou por fome. Mas estes agravos operavam dentro de um consenso popular sobre que práticas eram legítimas e quais ilegítimas na comercialização, na elaboração do pão etc. Isto estava, por sua vez, baseado em uma visão tradicional, conseqüente das normas e obrigações sociais, das funções econômicas próprias dos distintos setores dentro da comunidade que, tomadas em conjunto, pode-se dizer que constituem a economia moral dos pobres.14 Ao propor que o Estado não efetue qualquer controle sobre as relações de mercado, o liberalismo está tirando dele a possibilidade de assistir aqueles que estão sob sua responsabilidade, quebrando dessa forma o acordo da sociedade corpo. Tensões acerca do abastecimento são também freqüentes no Brasil colonial, especialmente depois que a descoberta das Minas abriu um mercado onde a maioria dos produtos de primeira necessidade poderia atingir preços muito maiores do que nas cidades onde eram produzidos, como Curitiba. O caso do sal em São Paulo é exemplar. O sal era um produto estancado pela coroa e, como tal, seu comércio envolvia uma extensa rede de contratadores e atravessadores. De outro lado, o sal é insumo essencial para a criação de gado. Como nos mostra Ilana Blaj, desde os primeiros anos do século XVIII aparecem indícios de carência de sal nas atas da Câmara de São Paulo através de reclamações dos criadores e pedidos de resolução do problema. Em 1709, segundo queixas 12 THOMPSOM, E. Op. Cit. P 222. THOMPSOM, E. Op. Cit. P 256. 14 THOMPSOM, E. Op. Cit. P 216 (grifo e tradução nossos) 13 7 da câmara, o alqueire de sal era vendido até a 16$000, sendo que seu preço contratado para venda em Santos era de $960. Nas Minas este preço poderia atingir 500$00015. Em 1710 o sal que deveria ser vendido a 1$280 o alqueire (incluídos os $400 de impostos) na verdade era comercializado a 20$000 em São Paulo. Esta carestia foi responsável pelo episódio de Bartolomeu de Faria que, residente em Jacareí, se revoltou com a situação, levando então seus escravos e agregados até Santos. Lá saqueou os depósitos e armazéns que estocavam o sal e o vendeu ao povo pelo seu justo preço, pagando igualmente aos contratadores o valor estipulado pelo contrato.16 Não se pode subestimar o papel da Câmara paulista nestes casos, como veremos a seguir, não é á tôa que as reclamações de carestia são à ela dirigidas e que dela emanam as tentativas de solução oficial, tais como o tabelamento de preços e a criminalização da figura do atravessador. Todo este arcabouço está presente no direito de almotaçaria. 2.3 ALMOTAÇARIA Tendo base nas Ordenações Filipinas, isto é, no direito administrativo português, a almotaçaria é a instituição designada para tratar basicamente de três agendas citadinas: a do construtivo, a da higiene e a que nos interessa aqui, a do abastecimento. Os almotacés eram os oficiais encarregados de garantir que as relações de mercado, aí incluso o abastecimento da cidade, se dessem de acordo com os princípios morais apresentados acima. Cabia a eles fiscalizar se os preços praticados no mercado estavam de acordo com a noção de justo, materializada pelo Senado da Câmara em tabelas cujo descumprimento resultava em multa. Nesta Postura de 1782 a Câmara de Curitiba efetua um desses tabelamentos: eles oficiais da Câmara determinaram que se passasse um edital sobre os mantimentos a saber: farinha que não passe o Alqueire mai9s de seiscentos e quarenta réis o milho por mão não excedesse seu preço por não mais de oitenta réis com pena de que todo e qualquer exceder do preço tarado de pagar para este Senado seis mil réis. 15 SIMONSEN, Roberto. História Econômica do Brasil (1500-1820). Apud BLAJ, Ilana. A Trama das Tensões: O processo de mercantilização de São Paulo colonial (1681-1721). São Paulo: Humanitas, 2002. Pg 247. 16 BLAJ, Ilana. A Trama das Tensões: O processo de mercantilização de São Paulo colonial (1681-1721). São Paulo: Humanitas, 2002. Pg 245-248. 8 S.C.M.C., 28 de setembro de 1782.17 Avançando mais alguns anos até 1787 encontraremos a Câmara lidando novamente com a mesma problemática e externando, através de outra Postura, sua preocupação com o abastecimento de víveres para a vila: E na mesma [sessão] por eles oficiais foi determinada a postura sobre os mantimentos mais necessários para os víveres deste Povo pelos repetidos clamores que nele têm havido pelas muitas faltas de mantimentos, por se terem extraviado nos respectivos comércios para fora deste distrito sendo esta a causa de mais excessivos preços nos diminutos mantimentos que ficam de semelhantes extravios; Pelo que acordamos em fazer Provimentos para que não fique o distrito exausto dos mantimentos necessários, e que estes não cheguem a preços excessivos pelas referidas faltas: Para o que determinaram que de hoje em diante se venda o Alqueire de trigo em grãos a seiscentos e quarenta réis e farinha do mesmo arroba por arroba novecentos réis e feijão por alqueire quatrocentos réis milho por alqueire a trezentos e vinte réis e por mão oitenta réis; Toucinho arroba a dez tostões* aos quais preços não se poderá exceder, ficando de arbítrio do vendedor o poder dar por menos do que fica taxado, e para que dos sobreditos gêneros que Deus for servido produzir nesta terra não passem pra fora do Distrito sem que nesta vila se saiba ordenamos a todos os lavradores que tiverem dos sobreditos gêneros o venham ou mandem dar ao manifesto ao Juiz que se achar presidindo, e na ausência deste a qualquer dos vereadores atuais para que com ordem de qualquer destes se publique pelo Porteiro desta todos os gêneros que assim forem manifestados pelas ruas desta vila para que chegue a notícia a todos os moradores para que havendo compradores nesta se faça o trato na forma dos preços acima referidos, E no caso que ao depois de publicado não haja compradores aos gêneros da publicação passará o oficial presidente Licença para aquele lavrador poder vender os gêneros que tiver manifestado a qualquer outro comprador, e Porquanto estes por qualquer modo sinistro se poderão indo ir atravessando os referidos mantimentos sem que jamais possam vir a esta vila razão porque assim a esses atravessadores como a todos os que quiserem conduzir carregações dos sobreditos gêneros para fora deste distrito sem proceder o dito manifesto ao dito Presidente para este o fazer publicar nesta vila para se utilizarem disso na falta que houver nela entre os moradores, por cujo motivo na consideração de haver transgressões a esta postura ordenamos que todas as pessoas assim compradores e lavradores que dos ditos gêneros transportarem para fora do distrito sem Licença de satisfazerem para esta Câmara a quantia de seis mil réis e perdimento da carregação que nos parecer ser o justo tudo a nosso arbítrio e trinta dias de cadeia. S.C.M.C., 28 de janeiro de 1787.18 17 Boletim do Arquivo Municipal de Curitiba (BAMC), v. 32, p. 19. 1 tostão = $160 18 BAMC, v. 33, p. 40-41. * 9 O nascimento do Estado Moderno presencia uma apropriação por parte do rei de esferas de poder pertencentes aos outros setores da sociedade. Na medida em que o soberano se torna tanto uma autoridade passiva – mediadora e judiciaria – quanto positiva (administrativa) é que o processo de centralização do poder se desenvolve19. Ora, a esfera administrativa da cidade é justamente dada pela regulamentação moral das edificações, do abastecimento e do sanitário, que está contida no corpo do direito de almotaçaria. Como vimos, o rei deve prover a subsistência de seus súditos e o fará apropriando-se da administração citadina a fim de implementar o que dele é esperado: uma ação de polícia. Embora a noção atual de polícia – manutenção da ordem pública – esteja contida na original, é importante não reduzir sua abrangência para o século XVIII. A polícia é nascida de demandas que as instituições tradicionais não conseguiram suprir e que, portanto, acabaram diante do Préncipe esperando solução. O resultado foi um engrandecimento das atribuições do Príncipe, que lançou mão de esferas de poder outrora pertencentes ás ordens, aos parlamentos, enfim, aos outros setores da sociedade, completando o processo do absolutismo. Desso modo, podemos pensar o controle das relações de mercado enquanto uma política interna do Estado moderno.20 Pereira irá questionar, entretanto, se de fato as cidades do Império Colonial Português foram assim esvaziadas de suas atribuições administrativas. É verdade que Lisboa e o Porto acabaram perdendo poder para o Príncipe, especialmente depois que o terremoto de Lisboa justificou uma intervenção de Pombal nas mais diversas áreas administrativas daquela cidade. Estudos para outras cidades, no entanto, demonstram que estas mantiveram seus poderes de almotaçaria até bem adentrado o século XIX, concluindo-se que a interferência do rei é mais veemente nas capitais e portos importantes, que são na realidade a exceção e não a regra. 19 PEREIRA, Magnus. Almuthasib: Considerações sobre o direito de almotaçaria nas cidades de Portugal e suas colônias. Revista Brasileira de História. São Paulo, v. 21, n. 42, p. 365-395. 2001. “O estado nacional moderno não nasceu, portanto, de aprofundamentos e desdobramentos da esfera administrativa do rei, mas pela apropriação da esfera administrativa da cidade”. P. 380. 20 SCHIERA, Pierangelo. A “polícia” como síntese de ordem e bem estar no estado moderno. IN: HESPANHA, A. M. Poder e Instituições na Europa do Antigo Regime. Lisboa: Gulbenkian, 1984. 10 Curitiba não faz parte dessas exceções. No século XVIII a sua Câmara era um “corpo de representação dos cidadãos”21, e sua atividade administrativa era pautada por “uma noção de mercado moral, regulado pela idéia do justo preço e pela defesa de uma ordem espacial que se apoiava na tradição”22. Para caracterizar a maneira pela qual os almotacés deveriam atuar contamos com uma documentação preciosa: as provisões do Ouvidor Pires Pardinho23. É aí que encontramos as orientações para a distribuição dos cargos, para que se fizesse registro das atividades e para que se efetivassem as cobranças com correção pois no caso de diminuição da condenação caberia ao próprio almotacé o ressarcimento aos cofres públicos. No tocante ao mercado, as provisões se referem basicamente a três situações: a verificação dos pesos e medidas segundo um padrão, o controle dos preços e a regularização dos comerciantes através da Licença afiançada. Desde muito cedo a necessidade de padronizar os pesos e medidas se colocou para o Estado. A mesma unidade não deveria ter valores diferentes entre cidades diferentes. Assim, a verificação de balanças tinha, por um lado, um sentido de bem comum ao impedir que comerciantes roubassem no peso e, por outro lado, ela se dava para permitir um controle mais efetivo dos preços dos produtos, que fica facilitado quando todo o Império adota as mesmas medidas. Daí a necessidade de o padrão ser confeccionado na Casa da Moeda da Bahia ou Rio de Janeiro. O controle dos preços por sua vez é tão visceral na almotaçaria que a própria palavra almotaçar era entendida como “verificar se os preços estão de acordo com o determinado pela Câmara”. O almotacé saía ás ruas verificando os preços praticados pelos comerciantes, multava os irregulares em 6$000 (seis mil réis) e referendava os regulares com um bilhete a ser deixado á vista de todos. Além deste bilhete, que comunicava que aquele estabelecimento já havia sido almotaçado, havia ainda a licença da Câmara que também deveria estar á vista. Estas visitas ao comércio da vila deveriam se realizar uma vez por mês, ao menos, de modo a ter em vista as práticas dos comerciantes e verificar a fartura de gêneros alimentícios no mercado. A preocupação quanto a freqüência das correições, segundo as 21 PEREIRA, M. Op. Cit. P 381. PEREIRA, M. Op cit. P 385. 23 PARDINHO, Rafael Pires. Provisões. In: MARCONDES, Moysés (org). Documentos para a História do Paraná. Rio de Janeiro: Typ. do Anuário do Brasil, 1923. P 45. 22 11 provisões, decorria do temor de um eventual racionamento, especialmente se fosse provocado pelos comerciantes a fim de alçar os preços. 12 3. OS PREÇOS E O MERCADO 3.1 MÉTODOS Ainda que produzamos séries confiáveis de preços e nos prestemos a analisá-las, elas continuam sendo apenas números se não forem relacionadas com alguma outra coisa. A significação de um preço não pode ser dada em função de seu montante pois assim teríamos preços absolutos e, portanto, inadequados para o estudo da sociedade que os produziu. Segundo Herbert Klein e Staley Engerman, esta relação deve se dar frente a outras três séries de valores: “do dinheiro (taxas de interesse), das divisas (taxas de câmbio) e do trabalho (salários)”24. Certamente a abundância ou carência de moeda afetam a formulação dos preços, a rigor, não se alterando a produção, um mercado com muita moeda para pouco produto tende a inflacionar e vice-versa. Quanto ao tipo de câmbio, é uma categoria útil quando se está pensando o comércio internacional já que considera duas moedas de países diferentes, o que não é o caso do nosso estudo. Finalmente, os salários são a baliza mestra para pôr em perspectiva os valores que encontramos. Se pudermos determinar qual é a renda média de uma população poderemos concluir muito acerca do valor dos produtos. Para termos uma noção da importância da História dos Preços para a compreensão do passado basta olharmos a diversidade de usos possíveis para as séries de preços. Tomando como base a coletânea de Johnson e Tandeter encontramos artigos que se servem desta ferramenta: como base para uma medição técnica de produção real e salário real; para compreensão, através do mecanismo de oferta e demanda, das variações econômicas enquanto um incentivo e uma retribuição; para pôr á prova certas hipóteses25. Klein e Engerman ressaltam a importância de se relacionar as movimentações dos preços de itens individualmente analisados com as flutuações dos preços como um todo, quer dizer, a interpretação da variação do preço do aguardente deverá levar em conta a variação dos preços em geral no mercado curitibano por podem ocorrer duas situações diferentes. Ora o aguardente pode acompanhar o fluxo do mercado, subindo ou descendo, ora sua movimentação é-lhe excêntrica e para cada um desses casos abrem-se possibilidades diferenciadas de abordagem. Vale dizer que quando falamos em preços 24 KLEIN, HERBERT; ENGERMAN, STANLEY. Metodos y Significados en la Historia dos Precios. In: JOHNSON, L.; TANDETER, E. Economías Coloniales: precios y salarios en America Latina, siglo XVIII. Buenos Aires: Fondo de Cultura Econômica de Argentina, 1990. P 19. 25 KLEIN, H.; ENGERMAN, S. Op cit. P 21. “... tais como a relação entre as variações no nível de preços e o crescimento econômico e entre as variações no nível dos preços e a natureza e magnitude do protesto social”. 13 como um todo, estamos nos referindo, segundo estes autores, a um nível absoluto de preços, que pondera os preços dos artigos considerados mais importantes fornecendo uma referência diante da qual um preço individualmente analisado sobe ou desce26. Na análise dos preços também não se deve perder de vista o mecanismo da oferta e demanda, especialmente para determinar os elementos subjacentes que influenciam a movimentação dos valores no mercado. Como exemplos de circunstâncias que alteram a demanda estão as alterações na população, nos ganhos, os preços dos substitutos e a mudança no gosto. Sobre a oferta incidem, por exemplo, a disponibilidade e os custos dos fatores e insumos da produção e a sua eficiência técnica. “os conceitos dos economistas acerca da elasticidade da demanda e da oferta relacionam as modificações das porcentagens nas quantidades com modificações de preços, recordando-nos que bruscas modificações de porcentagens nos preços podem significar modificações menos dramáticas nas quantidades.”27 Ainda que a ligação entre oferta e demanda seja um tanto quanto visceral, não é prudente tomar isto como uma regra pois, como ocorre comumente com a maioria dos produtos alimentícios, que têm uma demanda inelástica, o aumento no preço não significa uma diminuição proporcional no consumo. 3.2 PREÇOS Os preços de que dispomos são provenientes de variadas fontes. Ora vêm do esforço controlador da Câmara sobre o mercado, ora das compras de instituições que deixaram resquícios até hoje. Segue-se uma apresentação das fontes e dos preços obtidos através de cada qual. Num esforço administrativo ilustrado de conhecer melhor a praça comercial de Curitiba para melhor poder controlá-la o governo da Capitania passa a demandar informações mais complexas a respeito das atividades econômicas da população preocupado principalmente com questões tributárias e militares. O “Mappa dos preços correntes na Parochia de Coritiba no Mez de Fevereiro de 1799” (TABELAS 1 e 2) é uma tabela onde constam informações úteis para essa demanda tais como os gêneros de 26 KLEIN, H.; ENGERMAN, S. Op cit. P 21-23. “não é suficiente explicar as modificações de preços observando o preço de um artigo sem efetuar comparações com preços de outros produtos comercializados no mesmo mercado” 27 KLEIN, H.; ENGERMAN, S. Op cit. P 24. 14 importação, de exportação e os consumidos no interior da Parochia além dos preços (máximo, médio e mínimo) para uma profusão de itens: vinho, aguardente, vinagre, açúcar, sal, panos de algodão e lã, linho, baeta, chita, feijão, toucinho, fumo, congonha (erva-mate), trigo, milho, farinha de trigo, farinha de milho, arroz, queijos, azeite de mamona, colchonilhas (planta pigmentosa), ouro em pó, bestas (mulas), potros e bois. Ele é o retrato da praça mercantil de Curitiba, infelizmente o é para um momento único: Fevereiro de 1799. Note-se que são dois Mapas, mas apenas um deles está assinado pelo que consideramos este o definitivo, que foi enviado para o governo da Capitania em São Paulo e o outro, com menos produtos e sem constar os gêneros de importação, como uma tabela base. O Livro de Aferição e Almotaçaria compreende os anos entre 1755 e 1776. Ele é resultado da fiscalização exercida pelo almotacé, que saía em correição verificando se as balanças estavam de acordo com o padrão da Câmara (aferição) e se os preços cobrados pelos comerciantes se encaixavam dentro da expectativa de bem comum discutida anteriormente. Para cada estabelecimento visitado há um registro manuscrito pelo escrivão do que se vendia, quanto se cobrava e se havia alguma irregularidade; compreende ainda, via de regra, o nome do comerciante, do almotacé e do escrivão que fez o registro. Aqui encontramos preços da aguardente (do reino e da terra, a granel e “pelos miúdos”, isto é, no varejo), do vinho (idem) do vinagre, do fumo e toucinho. Tais preços, para os quais foi possível construir séries, aparecem no Livro como na TABELA 3. 15 TABELA 1: Mappa dos Preços correntes na Parochia de Coritiba no Mez de Fevereiro do anno de 1799 Generos de exportações Generos consumidos na Parochia Feijão Toucinho Fumo Congonha Bestas Potros Maximo 480 1600 1600 160 10000 5000 Medio 400 1280 1280 140 9000 4000 Minimo 320 1120 1200 120 8000 3200 Por Alqueire Arroba Arroba Alqueire Cada Cada Bois 2000 1600 1440 Cada Feijão Trigo Milho Fumo Congonha Farinha de milho Toucinho Bois Oiro em pó Farinha de trigo Arroz Tanador Azeite de mamona Cochunilhas Queijos Potros Maximo 480 720 240 1600 160 640 Medio 400 640 200 1280 140 480 Minimo 320 180 1200 120 400 Por Alqueire Alqueire Alqueire Arroba Alqueire Alqueire 1600 2500 1140 1000 1280 2400 1120 900 1120 2000 110 880 Arroba Cada Oitava Arroba 1280 640 480 1200 600 400 1120 560 360 Alqueire Cada Medida 12800 1250 5000 12000 1200 4000 10000 960 3200 Cada Duzia Cada 16 TABELA 2: Mappa Dos Preços correntes da Parochia de coritiba no Mez de Fevereiro do anno de 1799 Generos de Importação Vinho Aguardente do reino Vinagre Aguardente de cana Linhos ordinários Baetas Chitas ordinárias Panos de Lã Panos de algodão Açúcar Sal Bestas Generos de exportação Maximo Medio 960 800 1600 1440 Minimo 720 1280 Por Medida Medida 800 640 720 480 640 400 600 560 800 Generos consumidos na Parochia Feijão Toucinho Maximo 480 1600 Medio 400 1280 Minimo 320 1120 Por Alqueire Arroba Feijão Trigo Maximo 480 720 Medio 400 640 Minimo 320 Por Alqueire Alqueire Medida Medida Fumo Congonha 1600 160 1220 140 1200 120 Arroba Alqueire Milho Fumo 240 1280 200 1200 180 Alqueire Arroba 500 Vara Bestas 10000 9000 8000 Cada Congonha 160 140 120 Alqueire 720 680 Covado Potros 5000 4000 3200 Cada 480 400 Alqueire 1280 1120 1000 Cada Bois 2000 1600 1440 Cada Farinha de 610 milho Toucinho 1680 1280 1120 Arroba 1440 21000 1280 20000 1120 19000 Covado Peça Bois 2400 2000 Cada 2880 4420 16000 2560 4000 15000 2100 3200 14000 Arroba Alqueire Cada 2500 Luiz Ribeiro da Silva Capitão 17 Estes preços são recorrentes no Livro de Aferição e Almotaçaria, perpassando todo o período abrangido por ele; aparecem pequenas variações mas em geral esse são os preços apresentados ao longo destes 21 anos. Num primeiro momento eles impressionam justamente por essa constância mas lembremo-nos de que são preços oriundos da instituição encarregada de mantê-los assim, constantes. Por se tratarem de preços almotaçados, quer dizer, tabelados pela Câmara, vale questionar o efetivo cumprimento pelos comerciantes do tabelamento imposto. TABELA 3: Preços do Livro de Aferição e Almotaçaria (1755-1776) Produto Aguardente da Terra Aguardente da Terra pelos miúdos Aguardente do Reino Aguardente do Reino pelos miúdos Vinho Vinho pelos miúdos Vinagre Vinagre pelos miúdos Fumo Toicinho Medida Medida Vara Libra Preço $480 $640 $960 1$280 $800 1$280 $480 $640 $120 $120 É muito interessante perceber que da lista acima, que compreende os produtos controlados pelos almotacés, apenas fumo e toicinho são produzidos no interior da vila de Curitiba, como mostram os Mappas dos Preços Correntes. Aguardente, vinho e vinagre são produtos importados. Poderíamos imaginar que ao controlar preços de produtos de fora os vereadores estivessem pensando na balança comercial da vila com relação ao exterior e mantendo estes preços o mais baixos possível a fim de minimizar os déficits. Nossa outra fonte de origem camarária é o Livro de Tomadas de Contas dos Procuradores da Câmara (1735-1772), dos oficiais encarregados de prover as necessidades materiais do Concelho transcrito no Boletim do Arquivo Municipal de Curitiba (BAMC). Os gastos da Câmara Municipal se destinavam a cuidar da manutenção dos prédios públicos (usualmente a casa do Conselho e a cadeia adjacente) e das melhorias da vila, ou seja, dos caminhos e pontes além de pagar os salários dos funcionários e oficiais e de vez em quando comprar algum produto no mercado. Temos aqui pre ços relacionados com essas funções da Câmara como o da jornada de trabalho braçal, na TABELA 4. Paga aos homens que iam trabalhar na abertura e manutenção dos caminhos a jornada nos dá uma boa noção do ganho diário da 19 população mais pobre. Como sabemos, esta população é aquela que raramente aparece nos registros históricos e, quando aparece, é sob o enfoque das classes mais altas da sociedade. Isto se reflete aqui na falta de dados sobre os trabalhadores, aparecendo no registro apenas a quantidade deles e quantos dias levaram para fazer os caminhos para os quais foram pagos. TABELA 4: Jornada de trabalho braçal. 1735 $160 1756 $160 1770 $100 Nestas ocasiões a instituição pagava a alimentação dos empregados, que levavam um boi para abater no local de trabalho, gerando os preços da cabeça de gado para abate da TABELA 5. Os preços para velas da TABELA 6 são computados nas contas da cadeia onde elas eram usadas para iluminação e, eventualmente, para a execução de missas para os presos, da mesma forma, o azeite de peixe (TABELA 7) era queimado para iluminação da casa da cadeia mas também era utilizado para cicatrização de ferimentos, denunciando os castigos corporais. TABELA 5: Boi para abate. 1735 1$920 1758 1$600 1762 1$600 1767 2$000 1769 2$000 1770 2$000 1771 1$793 1768 160 1769 160 1770 160 TABELA 6: Vela. 1736 280 1738 240 1756 200 1760 200 TABELA 7: Frasco de Azeite de Peixe 1755 600 1769 400 1770 400 1772 400 Não se pôde fazer séries initerruptas dos preços acima pois a grande maioria dos registros no Livro dos Procuradores da Câmara não é individualizado, traz variados produtos num mesmo registro de valor. No caso da manutenção dos caminhos o que geralmente aparece é o valor total gasto sob a designação genérica de “mantimentos durante a feitura do caminho...” aí incluindo-se farinha, sal, carne seca entre outras coisas e velas e azeite frequentemente aparecem junto com outros produtos no mesmo registro com um só preço para os dois, impedindo-nos de saber quanto foi pago por cada um. 20 Os ordenados do escrivão e do alcaide, ao contrário, fornecem séries bem definidas para todo o período. Mesmo que dentro do ano o pagamento pudesse ser parcelado de variadas formas, o montante anual pode ser percebido facilmente. Percebemos que não houve variação no valor destes salários durante a abrangência do Livro (1735-1772), permanecendo fixo em 10$000 (dez mil réis) para o escrivão e 8$000 (oito mil réis) para o alcaide. Nos anos finais do Livro o salário do escrivão aparece um pouco maior (12$000, 13$000) mas não se trata de aumento do salário anual para aquele cargo camarário e sim de uma nova função agregada ao possuidor momentâneo do cargo, Antônio Francisco Guimarães: fazer os pelouros28. Note-se que este salário era anual, então, se fôssemos fazer uma conta de salário mensal, ainda que isto não fosse entendido como uma entrada mensal de dinheiro, teríamos $667 réis mensais para o alcaide e $833 réis para o escrivão. Comparando-se este salário com o que ganhava um trabalhador braçal por mês, supondo que conseguisse trabalho para todos os dias úteis, ele ganharia aproximadamente 3$360. Evidente que não havia trabalho assim por todo o mês e mesmo que houvesse, um mesmo trabalhador não poderia ficar nos caminhos e pontes tanto tempo pois sua criação e quem sabe uma horta ficariam sem cuidado. Mas mesmo que supuséssemos um mês em que ele trabalhasse somente 15 dias úteis (que era o que levava o conserto do caminho à Paranaguá, por exemplo) este trabalhador ainda estaria ganhando 2$400 réis. Podemos pensar que o cabedal do escrivão não dependia unicamente do seu salário mas ainda assim temos uma atividade braçal melhor remunerada do que uma intelectual. No entanto, como sabemos, no antigo regime isso não fazia muita diferença, mesmo que essa fosse realmente a relação entre os salários, ainda assim ao trabalhador não seria permitido adentrar o clube dos homens bons. No Livro dos Procuradores também encontramos outros preços interessantes mas que aparecem uma única vez, não nos permitindo nenhuma comparação serial. É o caso do aluguel de um administrado pago à Luiz Palhano no valor de novecentos e sessenta réis ($960), para que aquele conduzisse o Ministro até a vila29; da vara dobradiça para os juízes que a Câmara mandava fazer a seiscentos e quarenta réis ($640); de 2 couros de veado pelo mesmo preço; de uma vaca salgada por 4$000 (quatro mil réis); de um 28 “Os oficiais maiores (juízes, vereadores, procuradores) eram eleitos por um sistema indireto. (...) Posteriormente, esses nomes eram anotados em pedaços de papel, que eram dobrados e recobertos de cera, os pelouros, que eram colocados em três sacos de pano: um para os juízes, um para os vereadores e outro para os procuradores.” PEREIRA, Magnus; SANTOS, A. Cesar. O Poder Local e a Cidade; a Câmara Municipal de Curitiba. Curitiba: Aos Quatro Ventos, 2000. P 17. (grifo no original) 21 ano de serviço como procurador da Câmara a Antônio Martins Lisboa por oito mil, novecentos e noventa réis (8$990); de um sermão de Corpus Christe ao padre comissário da Ordem Terceira, José de Santa Ursulla, seis mil e quatrocentos réis (6$400). Dissemos que os gastos da municipalidade se aplicavam a três esferas: salários, manutenção de prédios e caminhos e eventuais compras de produtos, contudo, o grande elemento deficitário no orçamento da Câmara não diz respeito a nenhuma destas esferas mas à visita do Corregedor e Ouvidor Geral da Comarca. O Concelho Curitibano arcava com as despesas de hospedagem (aposentadoria), alimentação e transporte da comitiva do Ouvidor que incluía, via de regra, mais dois escrivães. Além disso, o Ouvidor deveria numerar e rubricar os livros utilizados para os registros camarários de modo a evitar fraudes, pelo que cobrava uma taxa por página vistada e outra taxa para assinar as cartas de Usanças para os juízes da vila. O corregedor ainda era o procurador nomeado para receber a propina do secretário geral do Conselho Ultramarino e recebia um salário dos resíduos. O Livro de Aferição e o dos Procuradores, como dito, são de origem camarária e em função de esta ser a instituição encarregada de controlar o mercado através do direito de almotaçaria, os preços obtidos dessas fontes devem sofrer um avaliação mais meticulosa por parte do pesquisador já que embora o tabelamento seja baseado em uma noção de bem comum que perpassa a sociedade, é evidente que ele pode ser descumprido. O Livro de Contas do Hospício da Senhora do Terço (1753-1772) nos dará a oportunidade de cotejar preços almotaçados com outros provenientes de uma instituição que nada tem a ver com o controle do mercado: a Ordem Terceira. Como mantenedora do Hospício, a Ordem recolhe dinheiro de seus Irmãos e indica um Síndico para administrar as contas. Sendo uma mistura entre hospital e asilo, suas compras vão desde alimentos e tecidos para os quais temos séries bem completas a escravos e remédios, com aparecimentos mais pontuais mas ainda assim muito interessantes. Uma primeira questão colocada aos preços deste Livro foi a dos carretos. Alguns dos produtos adquiridos pelo Hospício eram provenientes de Paranaguá – principalmente farinha e peixe – e seu preço vinha ás vezes com o carreto incluído, ás vezes discriminado separadamente, assim, fizemos uma série para os preços do carreto, como consta a TABELA 8. 29 Boletim do Arquivo Municipal de Curitiba, vol. XXII. P 46-47. 22 TABELA 8: Carretos de Paranaguá para variados produtos. Ano 1753 1754 Arroba de peixe 200 256 320 320 270 280 1755 1756 1758 1759 1761 1762 1763 1769 1770 1771 1772 120 200 160 160 160 160 Alqueire de farinha Alqueire de sal 320 640 Alqueire de arroz 320 280 214 320 240 320 214 320 320 320 320 Como podemos perceber, os preços da TABELA 8 são, em sua grande maioria, múltiplos de $640 (em itálico para melhor visualização), o que nos leva a crer que este seja uma espécie de preço base para o transporte de Paranaguá a Curitiba. Via de regra este é o preço para o carreto de até 3 arrobas ou alqueires, sendo que 1 arroba poderia custar desde $160 até mesmo $640 para ser transportada. Não foi possível estabelecer um padrão lógico para a fixação de preços de carretos mas percebe-se que eles tendem a cair até chegarem a $160 por arroba e $320 pelo transporte do alqueire – ainda que no ano de 1772 tenhamos um preço de $640 réis para transporte de 3 alqueires de farinha – num movimento que pode ter relação com o aumento de gastos da Câmara Curitibana com a manutenção dos caminhos nesta década. Além dos preços do transporte Paranaguá-Curitiba o Livro de Contas do Hospício da Senhora do Terço possibilitou a construção de séries de alimentos. Dentro do conjunto de alimentos a série mais impressionante é a de arroba de carne, não só por ser a mais completa mas principalmente por sua imutabilidade durante os 21 anos de abrangência do Livro (1752-1773) como mostra a TABELA 9: TABELA 9: Arroba de carne Ano Preço 1752 1753 1754 1755 1756 1757 1758 280 280 280 280 280 280 280 23 1759 1760 1761 1762 1763 1764 1765 1766 1767 1768 1769 1770 1771 1772 1773 280 280 280 280 280 280 280 280 280 280 280 280 280 280 280 De 3 a 5 arrobas de carne bovina estão na lista de compras do Hospício todos os meses de todos os anos do Livro, demonstrando a sua importância dentro da dieta do curitibano setecentista. Não encontramos indícios de que o preço da carne fosse controlado ou tabelado, o que nos leva a crer que essa constância seja um fenômeno próprio do comércio, possivelmente ligado à abundância das boiadas que sempre invernavam nos campos de Curitiba. Os preços do Livro dos Procuradores mostram uma estabilidade em torno de 2$000 alterada somente por outra estabilidade em torno de 1$600 entre 1758 e 1762 e os Mapas de 1799 têm 2$000 como preço mínimo para consumo na paróquia e máximo para exportação demonstrando que quase 30 anos depois do final dos Livros dos Procuradores e do Hospício o gado para abate era vendido por preços semelhantes. Talvez por ser uma região produtora Curitiba tenha uma abundância maior de carne, o que mantém seu preço nesta praça muito menor do que em Salvador. Como Daril Alden nos mostra, a arroba de carne ali era vendida, no mesmo período de abrangência do nosso Livro do Hospício, a uma média de $526 réis, quase o dobro. Segundo o autor, Salvador sofreu muito mais com escassez de alimentos do que Curitiba e a Câmara daquela cidade teve de intervir seguidamente no abastecimento pois como os preços nas minas eram em muito superiores aos lá praticados logo surgiu a figura do atravessador, comprando todo o gado nas fazendas para revendê-lo nas minas30. No final da década de 1760, em função da intervenção estatal e do aumento da produção, os preços nesta praça iniciam nova tendência de queda. 30 ALDEN, Dauril.Los movimientos de precios en Brasil antes y después del auge del oro, com referencia especial al mercado de Salvador, 1670-1769. IN: JOHNSON, L; TANDETER, E (org). Economias Coloniales: precios y salarios en América Latina: Siglo XVIII. Buenos Aires: Fondo de Cultura Econômica, 1992. P. 381-382. 24 Processo semelhante acontece no Rio de Janeiro onde as séries construídas por Johnson para a carne seca ou charque a partir de 1763 passam a decair de $846 réis para $673.31 O único inconveniente da carne bovina, é sua conservação. Exatamente por isso é que a Câmara de Curitiba comprava um boi inteiro para alimentar os trabalhadores pois ele ia até o local dos reparos nos caminhos e pontes andando e alí era abatido, evitando o apodrecimento da carne e o acúmulo de carga. Em geral o uso de alimentos salgados era a opção para evitar que a carne se estragasse depois de abatida por isso o toicinho tem um lugar tão privilegiado na alimentação dos habitantes da Vila de Nossa Senhora da Lux dos Pinhais e fornece outra série quase tão completa quanto a carne bovina (TABELA 10). TABELA 10: Toicinho em Libras e Arrobas Ano 1752 1753 1754 1755 1756 1757 1758 1759 1760 1761 1762 1763 1764 1765 1766 1767 1768 1769 1770 1771 1772 1773 Libra 80 80 80 80 60 Arroba 2440 2560 2120 1600 1600 1920 1920 1920 1080 50 80 120 60 50 40 1600 1280 1280 1280 1280 1280 1280 1120 1120 1120 Se quisermos ter uma noção do quanto era valorizada uma carne que não se estragava no tempo – ou que pelo menos durava muito mais – basta comparar os preços da arroba de carne bovina com os da arroba de toicinho: no início do período este custa 8,7 vezes mais do que aquela e, no final do período, 4 vezes. É que no caso do toicinho 31 JOHNSON, Harold. A Preliminary Inquiry into money, prices and wages in Rio de Janeiro, 1763-1823. In: ALDEN, D.(org). Colonial Roots of modern Brazil. Berkeley, 1973. P 277. 25 observamos uma clara tendência descendente nos preços desde 1752 até 1773, quando a arroba está custando menos da metade do preço inicial. Essa queda paulatina pode ter relação com os reiterados requerimentos que se faziam á população pobre para que se dedicassem á produção de alimentos de subsistência e, assim, a criação de porcos pode ter modificado o mercado ao longo desses 21 anos com aumento da oferta. Ainda assim, cabe ressaltar que embora a tendência seja de queda durante o período do Livro, o preço da arroba se manteve estável entre 1755 e 56 (1$600), de 57 a 59 (1$920), de 65 a 1770 (1$280) e de 1771 a 1773 (1$120) totalizando 14 anos nos quais não houve alteração nos valores. Neste mesmo sentido percebemos que embora o preço da arroba de toicinho seja variável durante os quatro primeiros anos da série, os preços da libra são estáveis em $080 réis. Uma constância de preço que é quebrada de um ano para outro poderia ser explicada por uma troca de fornecedor mas isso não pode ser averiguado já que no Livro do Hospício não são identificados os fornecedores dos alimentos comprados. No caso do Rio de Janeiro o movimento dos preços é igual ao da carne seca, com tendência de queda, provavelmente pelo mesmo motivo: a concentração das atenções das autoridades no abastecimento. O sal também compartilha a mesma tendência de queda do toicinho, embora determinar isso com mais precisão não seja tão fácil quanto naquele caso dada a falta de entradas para 7 anos dos 21 que o Livro compreende (1758, 59, 60, 67, 69, 71, 73). Ao tocarmos no sal, entretanto, estamos falando de um insumo para a criação de gado, principal atividade econômica da vila de Curitiba e arredores durante o século XVIII e boa parte do XIX. Mais do que isso, o comércio do sal na colônia era exclusivo para o arrematador do contrato que deveria recolher um imposto de $400 réis por alqueire para a Coroa. Para chegar aqui o sal invariavelmente passava por Paranaguá, assim, precisamos considerar o preço dos carretos para alguns dos preços da TABELA 11. TABELA 11: Alqueire de Sal Ano 1752 1753 1754 1755 1756 1757 1761 Preço 1760* 2080 1820 1840* 1000 2000 960 26 1762 1763 1764 1765 1766 1768 1770 1772 1000* 1000* 1300 1600 1360 1600 1220 1200 Outro produto extremamente importante na alimentação setecentista é a farinha. No caso do Livro do Hospício não é dito de que farinha se trata mas observamos que os preços dela seguem dois padrões diferentes, como mostra a TABELA 12: TABELA 12: Alqueire de Farinha (I e II) Ano 1752 1753 1754 1755 1756 1757 1758 1759 1760 1761 1762 1763 1764 1765 1766 1767 1768 1769 1770 1771 1772 1773 Preço I Preço II 800 240 320 640 240 640 640 640 640 320 320 640 320 240 360 Entendemos que se colocados numa mesma série estes preços ficariam ininteligíveis dada a grande variação que demonstrariam além de mascarar que em duas ocasiões no mesmo ano o Hospício comprou farinha a 640 e a 320 réis (1764 e 1767). Colocados assim, eles podem apontar para duas qualidades diferentes de farinha, ou mesmo para a farinha de trigo, na coluna I e de mandioca na II. Interessantemente, $640 réis é quanto a Câmara vai exigir que se cobre no máximo para um alqueire de farinha, * Preços em que o Carreto desde Paranaguá estava embutido e foi subtraído arbitrariamente segundo a TABELA 8: Carretos de Paranaguá para vários produtos. 27 assim, também sem maiores descrições na Postura de 178232 e é quanto o Mapa dos Preços mostra como um preço médio em 1799 para um alqueire de trigo. Da mesma forma como acontece com a carne, este alimento básico da dieta setecentista que é a farinha é mais caro em Salvador, onde oscila entre $548 e $250 o alqueire de farinha de mandioca e 1$418 e 3$840 o alqueire de farinha de trigo. No Rio de Janeiro Johnson encontra novamente umatendência de queda nos preços das farinhas, denotando aumento da produção. Neste sentido os anos em que o Hospício não comprou farinha podem indicar uma produção interna suficiente para a subsistência, que leva a preços baixos. Da mesma forma como nas compras do Livro dos Procuradores, o preço do azeite de peixe demonstra uma grande estabilidade, praticamente não variando, no entanto, são poucas entradas de preço e não se pode afirmar conclusivamente. Além disso, aqueles preços são para um frasco, algo um tanto quanto vago pois o tamanho do frasco pode variar enquanto o Hospício (TABELA 13) comprou azeite por medidas, que eram controladas para não variarem. Da mesma forma que aqui, os preços do Rio de Janeiro se mantém estáveis em $140 réis durante o período da série de Johnson (1763-1779). TABELA 13: Medida de Azeite de Peixe 1752 120 1753 120 1755 120 1756 120 1758 120 1767 175 1773 120 Segundo o Mapa dos Preços, em 1799 o preço mínimo para compra de uma medida de vinagre era $640 e o máximo de $800. É difícil dizer se estamos vendo uma continuidade aqui, afinal, de 69 que é a última entrada para a TABELA 14 até 99 lá se vão 30 anos. Ainda assim, os preços almotaçados ao que parece não foram cumpridos neste caso até o final do período já que $640 é o preço máximo que os almotacés esperavam ver praticado na praça. TABELA 14: Medida de Vinagre 55 640 32 56 640 67 500 69 800 Cf. pg. 28 A tabela abaixo só tem duas entradas, mas podemos usá-la para comparar com os preços do Livro dos Procuradores e adicionar mais dois anos em que o Boi para abate permanece com preço estável. TABELA 15: Boi para abate 1757 2000 1758 2000 Além destes preços que formaram séries, outros ainda chamaram nosso interesse por demonstrarem peculiaridades da vida material, serem raros de se encontrar ou simplesmente curiosos. Eles formam a TABELA 16: TABELA 16: Preços Interessantes Data Descrição Jan, 1753 Jul, 1753 Ago, 1753 Fev, 1754 Mai, 1754 Nov, 1754 Mar, 1755 Set, 1755 Out, 1755 Jul, 1756 Dez, 1756 Jan, 1757 Fev, 1757 Mar, 1757 Abr, 1757 Set, 1757 Fev, 1758 Jul, 1759 Ago, 1759 Out, 1759 Jul, 1760 Jul, 1760 Jul, 1760 Fev, 1761 Abr, 1761 Jul, 1761 Ago, 1761 Ago, 1761 Mai, 1762 Jul, 1763 Mar, 1764 Out, 1764 Out, 1764 Fev, 1766 Jun, 1766 1 Tizoura pa [aparar] os [fios] por 2 fexaduraz pa a Caza por Cobertores pa a Caza por hum candieiro pa o refectorio Por hum Relogio para a Caza por 3 Rozayros pa os rapazes por 6 duzias de Louça p 1 chapeo pa o Ir Anto da Piedade p 3 Cocoz pa a Caza por hum machado pa a Caza por hua enxada foiSe e machado por 8 cadernos de papel por hua frasqra com 10 frascos pa a Caza p 4 cobertores de Castella pello que emportou na praSa o preto João p 1 carro pa a caza p 1 Lanterna pa levar Lux a Capela p 1 ferro q marca o gado p hu Sacrario pa a Capella p hu tacho pequeno p 1 pedra de Ara p 1 Ceremonial da Prova pa Livraria p 1 liuva de Incenço pa a caza p 5 Bulas da Cruzada p No moscada, Canella e Cravo do Reyno p 1 Livra de pimenta do Reyno p 2 machados p hua resma de papel p 4 dobradiças pa a da porta p q importou a farda do Rapas Quintilianno p 1 frasco de vinho por pimenta do Rno por Canella por incenSo por 2 eixadas Preço (un) a 800 a 3420 a 100 a 480 a 120 [a 40] a 40 a 800 Preço (total) $160 1$600 6$840 $640 31$??? [$300] 2$880 1$600 $360 $800 2$000 $320 1$600 11$800 66$360 8$000 $420 $960 3$360 1$660 3$200 $960 $400 $200 $480 $320 1$280 1$400 $730 8$840 5$280 $320 $160 [$480] 1$600 29 Jul, 1766 Abr, 1767 Set, 1767 Mai, 1768 Set, 1768 Set, 1768 Mai, 1769 Jun, 1769 Jun, 1770 Out, 1770 Nov, 1770 Out, 1771 Set, 1772 Abr, 1773 por 1 maxado 1 resma de papel comprada em Santos p 1 frasco de azeite de amendoin p 1 enchada p 1 frasco de azeite de minduin p 1 cobertor p 1 par de Sandallas p hua Junta de Bois Carreros p hum facão p 1 cobertor p 3 dobradiças p 4 pratos, tigelas e carreto p hua junta de boys pa carro p 2 duzias de pratos tijellas de loSa e carreto a 160 $800 1$800 $420 $800 $400 3$200 1$280 8$000 $720 2$720 $480 $480 8$000 1$640 Aqui encontramos os mais variados preços listados por data. Sabemos através destes preços que artigos importados eram caríssimos, como cobertores, chapéus e um relógio. Há também o preço de um escravo (preto João a 66$360) que é raro de se encontrar para o século XVIII nos campos de Curitiba e preços para especiarias, nos lembrando um pouco como tudo isso começou. Outra série interessante (TABELA 17) diz respeito aos preços de serviços de oficiais mecânicos: TABELA 17: Serviços de Oficiais Mecânicos. Data Descrição Jul, 1754 Jun, 1755 Dez, 1755 Set, 1756 Jun, 1757 Abr, 1759 Fev, 1760 Ago, 1760 Dez, 1761 Mai, 1762 Dez, 1763 Ago, 1767 Ago, 1767 Set, 1767 Out, 1767 Nov, 1767 Dez, 1767 Dez, 1767 Jul, 1768 Jul, 1768 Ago, 1768 Abr, 1769 Dez, 1769 Mar, 1770 Jun, 1770 por feitio da vestia e Calção do mesmo pello que se deu ao Carpinteiro de varios conSertos que fez da Caza p feitio das tres fardas pa os [famulhos] da Caza pello que se deo ao domador q amanSiou as egoas da Caza p feitio da da [prateleira] o carpintro pello que se pagou a Salvador Paes da livraria p q se deu ao Carpntro do aSualho dos [1p] p q se deu a Sebbam Alz do concerto do carro p taboas pa o aSoalho do Oratorio e feitio ao Carpintro p 1 [1p] a porta do quintal e feitio della p feitio de hua chave ao me ferro p dao ao me Carpinteiro de varias obras pa a Caza p concerto de hua chave ao me ferro pello que se pagou ao Me Carpintro p q se pagou so Carptro de obras do Oratorio p q se deu ao mestre fero de ferrages pa oratorio 1 [Leme] ao ferro pa a Portaria q se deu ao me carpintro de varias obras pelo q emportou a pintura do frontal do Oratorio p hum frasco de agoardente pa os pretos q trabalharão no mesmo p concerto de hum machado, 2 cadeados e 4 argollas pelo q se pagou aos Cpteiros de varios Concerto da Caza e Cerca p feitio dos 2 calçoins dos escravos p 1 Corte de calçam pa o Rapaz, com seus escravos, e feitio p Concerto de hum machado Preço (un) a 800 Preço (total) $640 $520 2$400 1$280 $640 2$560 $800 1$280 3$040 1$000 $240 2$560 $080 4$400 10$240 1$760 $240 $640 1$600 $320 $760 4$990 $960 3$590 $160 30 Abr, 1771 p concertos de hua fechadura, tranca e 5 pregos ripares $260 Aqui encontramos preços do feitio de roupas e consertos na casa do Hospício, interessantes são os serviços do domador que amansou as éguas da casa, o conserto do carro de bois, a série que demonstra a construção de um Oratório, inclusive com a compra de cachaça (uma das duas existentes em todo o livro) para os escravos que trabalharam nele. E finalmente, temos os gastos do Hospício com saúde (TABELA 18). Curiosamente, gastos com a saúde dos internos não aparecem nas contas apenas os gastos com os escravos. Aqui podemos perceber várias permanências medievais nos costumes primeiramente, de denominar os trabalhadores como servos, depois de comprar galinhas, carne e bebidas alcoólicas (a outra das duas compras de aguardente) para os doentes. Note-se que se isso não funcionasse, então se apelava para a purga, que em geral encerra a questão, é o último gasto das séries de “tratamentos” da TABELA 18. Note-se também que o escravo João já chegou ao Hospício doente já que foi adquirido em 1757 e no mesmo ano já foi submetido à 2 purgas. TABELA 18: Gastos relativos á saúde. Data Descrição Dez, 1756 Mai, 1757 Jul, 1757 Set, 1757 Nov, 1758 Nov, 1758 Nov, 1758 Mai, 1760 Nov, 1760 Jan, 1762 Out, 1766 Out, 1766 Out, 1766 Fev, 1767 Mai, 1768 Jun, 1769 Mar, 1771 Abr, 1771 Ago, 1773 Out, 1773 por hu frasco de agoardente e meya aRouba de carne pa o preto enfermo p 6 Galinhas pa o preto João emfermo p 2 purgas pa o preto João infermo p 2 lbas de aSucar pa o preto enfermo p 4 galas pa o preto enfermo p 1 aRoba de carne pa o mesmo p ovos e pam pa o mesmo p Pam, galinhas, e frangos pa o preto doente p 4 Balas e hua purga pa o preto p 1 purga de Manâ por galinhaz e ovoz para o doente João servo da caza por agoardente de cana para o mesmo por pam para o mesmo 320 e duas caxetas marmelda por duas purgas para o Servo p frangos pa hum doente p galinhas e mais meizinhas pa a Cura do escravo João p 1 purga e galinhas pa o preto infermo p pam e galinhas pa hu enfermo p hua Bulla de defto pa o preto q morreo p 1 purga pa o preto João enfermo Preço (un) Preço (total) $620 $720 $160 $320 $640 $280 $240 $960 $320 $3?? $640 [$400] $520 $320 $520 2$840 $800 $560 $080 $080 31 4. CONCLUSÃO Como uma regra geral, os preços da vila de N. Sra. da Lux dos Pinhais acompanham a conclusão de Alden em seu trabalho sobre Salvador: “o indicador dos produtos importados se moveu em geral para cima enquanto o dos produtos alimenticios locais continuou descendo, em algum casos voltando aos níveis do final do século XVII”33, aqueles preços de produtos localmente produzidos que não caíram, mostraram uma forte tendência estável durante praticamente todo o período, assim como os salários dos oficiais da câmara. Também como uma regra geral, os custos da vida material tendem a ser muito menores em Curitiba do que nos grandes portos da colônia que, de resto, sofrem muito mais escassez de alimentos do que esta praça. Por outro lado, produtos importados para a vila, tais como os controlados pelos almotacés da Câmara (cachaça, vinho, vinagre etc) e outros como açúcar chegam aqui exorbitantemente caros. Se formos acreditar nos preços almotaçados, a medida de aguardente era aqui quatro vezes mais cara do que no Rio de Janeiro. Creio que podemos parar de nos espantar ao ver essas séries de preços estáveis durante vinte anos. Isso só parece difícil de aceitar por que nos dias atuais é praticamente impossível que vinte anos se passem sem qualquer alteração nos preços das coisas, mas estamos falando da colônia, há aproximadamente 250 anos, quando justamente o contrário era fora do padrão e inspirava desconfiança, quando não uma atitude governalmental para evitar a flutuação. Vimos que em Salvador e Rio do Janeiro os preços dos víveres experimentam grandes altas mas foi preciso um acontecimento – a descoberta das Minas – de proporções estruturais na economia nacional para que essa alta acontecesse. Quanto ao cumprimento ou não dos tabelamentos camarários, nem de longe pretendemos dar uma palavra final para a questão. Mas se considerarmos os tabelamentos de preços que temos no Livro de Aferição e Almotaçaria e nas Posturas de 1782 e 1787 teríamos a seguinte TABELA 19: 32 TABELA 19: Tabelamentos de Preço da Câmara Produto Aguardente da Terra Aguardente da Terra pelos miúdos Aguardente do Reino Aguardente do Reino pelos miúdos Vinho Vinho pelos miúdos Vinagre Vinagre pelos miúdos Fumo Toicinho Toucinho Farinha Milho Milho Trigo em grão Farinha de trigo Feijão Medida Medida Vara Libra Arroba Alqueire Mão Alqueire Alqueire Arroba Alqueire Preço $480 $640 $960 1$280 $800 1$280 $480 $640 $120 $120 1$600 $640 $080 $320 $640 $900 $400 Os preços para aguardente que dispomos são em frasco e não em medida o que torna impossível verificá-los mas sabemos através dos Mapas que em 1799 ela era vendida a um máximo de $640 réis e por um preço médio de $480. Já a aguardente do reino tinha o preço tabelado como o mínimo praticado e um máximo de 1$600. Já o vinho tinha o preço médio equivalente ao tabelado, demonstrando que era cumprido, mas com exceções à regra, contrariamente ao vinagre, que era vendido por um mínimo de $640, que era o preço tabelado. No caso do toicinho, do feijão e milho ocorre o mesmo que com o vinho, seu preço médio equivale ao tabelamento. E por fim, a farinha, que permaneceu estável no preço tabelado para todas as entradas que temos como demonstra a TABELA12. Assim não seria arriscado afirmar que uma noção de bem comum perpassa essa sociedade e algo tão visceral quanto a alimentação tendia a ser tratado dentro desse conjunto de costumes com ela relacionados. Evidente que nem todos os comerciantes cumpriam á risca o tabelamento, mas dado o exposto acima, podemos dizer que eram as exceções e não a regra. 33 ALDEN, D. Op. Cit. P401. 33 5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALDEN, Dauril.Los movimientos de precios en Brasil antes y después del auge del oro, com referencia especial al mercado de Salvador, 1670-1769. 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XVIII-XXVII. 34 Postura da Câmara Municipal de Curitiba de 28 de Setembro de 1782, transcrita no Boletim do Arquivo Municipal de Curitiba, vol. XXXII. Postura da Câmara Municipal de Curitiba de 28 de Janeiro de 1787, transcrita no Boletim do Arquivo Municipal de Curitiba, vol. XXXIII. Livro de Aferição dos Almotacés da Câmara, manuscrito sob a guarda do Arquivo Municipal de Curitiba. Mapas dos Preços Correntes na Paróquia de Coritiba, Arquivo do Estado de São Paulo. Livro de Contas do Hospício da Senhora do Terço, Arquivo Dom Leopoldo Duarte, São Paulo. 35