Por Que a Construção de um Modelo é Tão Árdua? Autocríticas dos Resultados de uma Pesquisa Testando Indicadores de Desempenho de Incubadoras Empresariais Autoria: Charbel José Chiappetta Jabbour, Sergio Azevedo Fonseca Resumo O objetivo de maior hierarquia deste texto é o de contribuir com a reflexão e para a gestão de processos de avaliação de desempenho de incubadoras empresariais, mistas e tradicionais. Numa escala inferior da hierarquia de objetivos, pretende-se relatar os resultados de uma pesquisa realizada com o propósito de testar a aplicabilidade de sete indicadores concebidos para aquele fim. O teste empírico foi realizado, durante os anos de 2004 e 2005, em quatro incubadoras situadas em diferentes municípios do interior do Estado de São Paulo. A pesquisa revelou que os indicadores, embora considerados válidos enquanto instrumentos capazes de avaliar o desempenho de incubadoras necessitam ser ajustados e aprimorados, como estágio intermediário para a construção de um futuro modelo integrado e parametrizado. Objetiva-se contribuir, assim, com a escassa literatura, nacional e internacional, acerca da avaliação do desempenho de incubadoras empresariais. Palavras chave: Incubadoras empresariais; avaliação de desempenho; indicadores de desempenho. 1. Introdução Nas últimas décadas passaram a proliferar, em grande número de países, diversos programas de incentivo à criação de novas incubadoras e de apoio às incubadoras em operação. No Brasil, a maior parte dos programas conta com o aporte crescente de recursos públicos, das três esferas de governo. Esse fato, por si só, seria suficiente para justificar uma maior atenção, dos agentes públicos, da academia e da sociedade, com a performance das incubadoras. Haveria que se investigar, com o rigor desejável, se os programas de apoio às incubadoras vêm alcançando resultados satisfatórios e se as incubadoras em operação vêm fazendo jus aos elevados montantes de recursos públicos que recebem. Não é isso, no entanto, o que se verifica: enquanto a literatura revela uma lacuna, a dinâmica das incubadoras mostra uma gestão pouco intensiva em instrumentos de avaliação de desempenho e, ademais, os agentes públicos não dispõem de instrumentos sistemáticos de controle e acompanhamento dos investimentos realizados. Este texto ocupa-se precisamente desse ponto, qual seja, o da reflexão em torno de instrumentos e processos de avaliação de desempenho de incubadoras, com foco mais direto sobre incubadoras empresariais mistas – adiante definidas. Trata-se de uma reflexão cujo fulcro é um estudo empírico realizado em quatro incubadoras situadas em igual número de municípios do interior do paulista. O texto está estruturado em sete seções: na seção dois é traçado um breve panorama da evolução do movimento de incubadoras no plano internacional, buscando apurar, particularmente, a existência e os tipos de mecanismos e instrumentos de avaliação de desempenho relatados pela literatura; nas seções três e quatro, a abordagem desloca-se para o Brasil, com um breve histórico da evolução das incubadoras e com uma rápida apresentação das principais propostas de avaliação de desempenho encontradas na literatura; a seção cinco apresenta os materiais e métodos utilizados na pesquisa; nas seções seis e sete são discutidos os resultados da pesquisa; finalmente a seção oito contém as conclusões. 2. Conceituando incubadoras de empresas 1 O fenômeno da globalização, acelerado a partir dos anos 90, combinado com a adoção de estratégias conhecidas como downsizing pelas grandes empresas, tem impulsionado o desenvolvimento da atividade empreendedora, tendo como conseqüência o surgimento de novos negócios, muitos dos quais de caráter individual ou familiar. Trata-se de um processo que pode ser qualificado como de auto-defesa do organismo econômico, com vistas a possibilitar o surgimento de novos postos de trabalho, compensando as perdas geradas pelas grandes corporações empresariais. Mais do que uma auto-defesa regida pelas leis de mercado, constitui-se em um processo que conta crescentemente com o estímulo e o apoio do Estado, por meio de políticas públicas (DORNELAS, 2002). Variados têm sido os instrumentos e mecanismos utilizados com essa finalidade, despontando, como um deles, as incubadoras de empresas (MIAN, 1996; ETZKOWITZ, MELLO e ALMEIDA, 2005; ROTHSCHILD e DARR, 2005), modalidade organizacional já consolidada nos EUA, Inglaterra, França, Suécia, Itália, Filipinas, China e Brasil (BARROW, 2001; KAHANE e RAZ, 2005). Atualmente, essas organizações “são reconhecidas como um dos mais efetivos modos de se promover a atividade empreendedora e o desenvolvimento econômico local” (ADEGBITE, 2001, p.157). As incubadoras são reconhecidas como dispositivos orientados para fomentar o êxito de micro e pequenas empresas (HANNON, 2004), a fim de mitigar as altas taxas de mortalidade que as vitimizam (LEONE, 1999). Segundo KAHANE e RAZ (2005), as incubadoras objetivam apoiar o fortalecimento de empresas inovadoras, fornecendo espaço, infra-estrutura e serviços facilitadores da atividade empreendedora. HANNON (2004) afirma que uma incubadora de empresas é uma organização que fornece a oportunidade de as empresas abrigadas atingirem um fortalecimento superior ao de suas congêneres não-incubadas. Destarte, uma incubadora empresarial é uma organização “que facilita o processo de criação bem sucedida de novas pequenas empresas, uma vez que as provê uma ampla e integrada gama de serviços” (PEÑA, 2004, p.223), até que a empresa incubada atinja, de fato, um nível de maturidade que a torne independente (MEDEIROS, 1998; GRIMALDI e GRANDI, 2005). Pode ser entendida, também, como uma ferramenta de desenvolvimento econômico para acelerar o crescimento e o sucesso de empresas incubadas, potencializando as chances de geração de inovações e de sobrevivência destas no mercado, pela provisão de uma ampla gama de serviços empresariais e de suporte (SMILOR, 1986; MEDEIROS e ATAS, 1995; ADEGBITE, 2001; HACKETT e DILTS, 2004; HANSEN ET AL. 2000; MIAN, 1996). As incubadoras se constituem, ademais, em locais propícios para o surgimento de redes empresariais pró-inovação, arquitetadas entre múltiplos agentes: entre empresas incubadas; entre incubadoras; entre agentes de inovação – universidades e institutos de pesquisa – e empresas; entre incubadora e agentes públicos, etc (JABBOUR, DIAS e FONSECA, 2005). Em outras palavras, assumem a feição de “arranjos interinstitucionais” (MEDEIROS, 1996), com seu modus operandi alicerçado no modelo da Hélice Tripla (Triple Helix), que é definido pela Associação Nacional de Entidades Promotoras de Empreendimentos Inovadores (ANPROTEC, 2002) como um sistema de interação coordenada e de ações integradas entre três agentes sociais, quais sejam, instituições governamentais, do setor empresarial e de pesquisa, a fim de se promover o desenvolvimento socioeconômico. A tipologia das incubadoras é vasta e crescente (ALMEIDA, 2004). Porém, considerando-se o objetivo da presente pesquisa, optou-se por adotar a seguinte classificação (MCT, 1998; ANPROTEC, 2004; VEDOVELLO e FIGUEIREDO, 2005): (a) incubadora de base tecnológica, que abriga empresas cujos produtos, processos ou serviços resultam de pesquisa científica, para os quais a tecnologia apresenta alto valor agregado; (b) incubadora de empresas de setores tradicionais, que abriga empreendimentos ligados aos setores da 2 economia que detém tecnologias largamente difundidas; e (c) incubadora mista, a qual abriga ao mesmo tempo empresas de base tecnológica e de setores tradicionais. Feitas essas considerações preliminares, convêm expor, brevemente, as principais características do movimento brasileiro de incubadoras empresariais. 3. Histórico das incubadoras no Brasil A origem das incubadoras no Brasil remonta à década de 1980 quando, por iniciativa da então Secretaria de Indústria, Comércio, Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo, foi instalado, em 1984, o Centro de Desenvolvimento da Indústria Nascente – CEDIN, no município de São Carlos (FONSECA, 2000). Logo em seguida, são criadas, também em São Carlos, a incubadora da Fundação Parque de Alta Tecnologia de São Carlos – ParqTec e a Incubadora Empresarial Tecnológica, em Florianópolis (ALMEIDA, 2004). Em 1987 é criada a ANPROTEC, com o objetivo de representar o movimento e elaborar políticas e mecanismos de fomento à ampliação e fortalecimento das incubadoras no país, por meio de incentivos das esferas pública e privada (ANPROTEC, 2005). Desde então, a idéia passou a difundir-se, no inicio de forma lenta, adquirindo maior velocidade e amplitude no início da década de 1990 (Figura 1). Inicialmente, cresceram mais em número as incubadoras do tipo tecnológico (FONSECA, 2000). Já no final daquela década, o que se observa é uma redução na proporção de incubadoras de base tecnológica, ao mesmo tempo em que ocorre um crescimento, também contínuo, no número de incubadoras mistas (ANPROTEC, 2004). Figura 1 - Magnitude do movimento de incubadoras empresariais no Brasil Fonte: ANPROTEC (2004). Quando se analisam as mudanças na composição do agregado de incubadoras brasileiras, tomando-se como base a taxonomia acima proposta, os dados revelam uma redução na proporção de incubadoras de base tecnológica, ao mesmo tempo em que ocorre um crescimento, também contínuo, no número de incubadoras mistas (ANPROTEC, 2004). Assim, a gestão de incubadoras mistas passa a adquirir importância crescente (JABBOUR, DIAS e FONSECA, 2005). 4. Notas sobre o desempenho de incubadoras empresariais Durante as décadas de 1980 e 1990, as incubadoras cresceram em ritmo acelerado. Passada a euforia inicial, o movimento já se encontra em estágio de maturidade na maioria dos países que o adotaram e necessita de instrumentos de avaliação de desempenho que avaliem sua validade e efetividade (GONZÁLES e LUCEA, 2001, grifo nosso). Propor modelos de avaliação de desempenho de incubadoras empresariais é um tema que tem ocupado a agenda de diversos pesquisadores da comunidade internacional. A importância da 3 avaliação reside no fato de que ela indica os principais pontos em que os programas de incubação devem ser remodelados ou melhorados (CHAN e LAU, 2005), fornecendo subsídios para que as entidades apoiadoras do movimento possam avaliar investimentos e expectativas (MARKLEY e MCNAMARA, 1997). A utilização de indicadores de desempenho é reconhecida como de extrema relevância, uma vez que eles são “uma forma de representação usada para medir o nível de sucesso de recursos em processo ou operação” (ANPROTEC, 2002, p.62). Lalkaka e Bishop (1996) e Hannon e Chaplin (2003), baseados no estudo de experiências internacionais sobre incubadoras de empresas, ressaltam que a avaliação do desempenho de incubadoras constituise em um desafio para os agentes envolvidos. Em que pese o reconhecimento da importância da avaliação de desempenho, ainda é um campo de estudo carente de maior atenção nos âmbitos acadêmico e empresarial (REMEDIUS e CORNELIUS, 2003), resultando em uma sistematização insuficiente dos impactos concernentes às principais incumbências das incubadoras empresariais (MARKLEY e MCNAMARA, 1997; BEARSE, 1998). Quando existentes, os modelos disponíveis para a avaliação de desempenho de incubadoras empresariais são voltados para a modalidade tecnológica (Fonseca, 2000) e, em geral, examinam fatores como número de postos de trabalho criados por empresas incubadas e graduadas, quantidade de inovações tecnológicas criadas na esteira do processo de incubação e localização da empresa incubada após sua graduação (MARKLEY e MCNAMARA, 1997). Para o InfoDev Incubator Support Center (IDISC, 2005), “a avaliação do desempenho e dos resultados das atividades das incubadoras é importante por duas razões complementares: por um lado, fornece as informações necessárias para o aprimoramento contínuo do desempenho e da eficiência gerencial; por outro, gera informações para que o público externo possa conhecer o papel desempenhado pelas incubadoras”. Para os objetivos deste texto a avaliação do desempenho deve ser vista como um conjunto de técnicas adotadas para apurar a eficiência e a eficácia das atividades organizacionais. Segundo Neely, Gregory e Platts (1995), as principais razões para se medir o desempenho organizacional são: (a) geração e disponibilidade de informações acerca do desempenho organizacional para a tomada de ações gerenciais; (b) utilização das medidas de desempenho para comunicar resultados às partes interessadas; e (c) com a avaliação da performance é possível avaliar e reavaliar metas de desempenho pré-fixadas. Assim sendo, sugere-se, no caso das incubadoras, que os sistemas de avaliação de desempenho indiquem a efetividade dessa estrutura organizacional em termos sócio-econômicos (DORNELAS, 2002). A National Business Incubation Association (NBIA, 1997) recomenda que a elaboração de novos métodos de avaliação de incubadoras seja orientada por diversos princípios, dentre os quais se destacam: (a) desenvolver um conjunto de métricas que possam ser utilizadas globalmente; (b) efetuar avaliações contínuas e não apenas periódicas; (c) entender as várias missões de cada incubadora de empresas e comparar umas com as outras; (d) utilizar especialistas no assunto para analisar os impactos decorrentes da avaliação; (e) desenvolver programa de melhores práticas baseado nas conclusões das avaliações realizadas; e (f) desenvolver bancos de dados que contenham informações referentes às incubadoras e que permitam análises e comparações. A avaliação de desempenho de incubadoras mistas se constitui em um desafio ainda maior: esse tipo de incubadora apresenta alto grau de diversidade entre as empresas residentes, o que dificulta a comparação do desempenho entre empresas incubadas; a velocidade de crescimento das incubadoras desse tipo é maior do que a das demais. Não obstante, as principais proposições de avaliação de desempenho encontradas na literatura especializada possuem como foco as incubadoras tecnológicas (FONSECA, JABBOUR e DIAS, 2005). 4 Um fato importante a se destacar é que a carência de métodos, sistemáticas, modelos, indicadores (ou outros meios) para a avaliação do desempenho de incubadoras no Brasil contrasta-se com os expressivos montantes de recursos públicos investidos no movimento brasileiro de incubadoras. O Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT, 1998) sugere que seja efetuada avaliação do impacto social e econômico da incubadora em duas fases, quais sejam, quando as empresas adquirem condição de graduadas; e quando as empresas graduadas atingem a maturidade, após três anos da graduação. O Programa Nacional de Incubadoras (PNI) sugere um conjunto de indicadores de desempenho que deve ser variável componente em qualquer programa de avaliação de incubadoras, visto que é considerado como referência sobre o assunto no Brasil. O diferencial desse conjunto de indicadores é o fato de considerar três fases do ciclo de incubação, quais sejam, pré-incubação, incubação e pós-incubação, sendo que para cada uma destas fases criou-se um grupo pertinente de indicadores (DORNELAS, 2002). Morais (1997) e Bermúdez e Morais (1998) propõem um modelo de avaliação de desempenho que visa: (a) avaliar o impacto sócio-econômico e cultural das incubadoras e empresas incubadas no desenvolvimento regional ou local; (b) induzir a aplicação de técnicas gerenciais no processo de gestão dos pequenos empreendimentos de forma a fomentar probabilidades de êxito; (c) construir indicadores de avaliação da performance das incubadoras que sejam úteis para as instituições apoiadoras desses programas. Algumas constatações podem ser extraídas a partir da apreciação, ainda que superficial, dessas propostas: (a) o alcance restrito dos métodos de avaliação correspondentes, seja em termos de sua aplicabilidade às diferentes tipologias de incubadoras, seja em termos do seu reconhecimento; (b) o caráter estanque e limitado de cada uma das propostas, visível pela inexistência de pontos de interseção entre as mesmas; (c) a inexistência de uma proposta que possa ser considerada como modelo de avaliação de desempenho de incubadoras, mesmo que sejam de apenas um tipo; e (d) nenhuma das propostas testou empiricamente os instrumentos, variáveis ou indicadores sugeridos, para verificar a sua eventual aplicabilidade. Foram essas lacunas que motivaram a realização desta pesquisa, cujo objeto contempla o tipo de incubadoras mistas. A escolha por estudar incubadoras mistas encontra as seguintes justificativas: (a) acredita-se que essa modalidade de incubadora desempenhe importante papel na geração de emprego e renda, oferecendo contribuições para o desenvolvimento local; (b) o número de incubadoras mistas em operação no Brasil vem registrando um significativo aumento nos últimos anos, com uma proporção de crescimento que ultrapassa a das incubadoras tecnológicas, como mostra a ANPROTEC (2004); (c) o caráter multifacetado dessas incubadoras, que propicia uma maior riqueza e variedade de características, situações e dados a serem avaliados, podendo contribuir, dessa forma, para uma mais sólida investigação dos indicadores de desempenho; (d) a particularidade das incubadoras tecnológicas, cujo desempenho é avaliado muito mais com base no indicador fundamental de inovações geradas; (e) a grande injeção de recursos públicos, diretos e indiretos (particularmente por meio do sistema SEBRAE), das três esferas de governo mas especialmente dos municípios, constituindo-se em fator motivador para a construção de mecanismos para a avaliação dos resultados da aplicação desses recursos. 5. A metodologia A pesquisa foi realizada entre março/2004 e fevereiro/2005 e contou com o apoio da FAPESP. Seguiu o método qualitativo, com escolha intencional de quatro elementos amostrais, brevemente descritos na Tabela 1. Essas quatro fontes de dados foram investigadas em profundidade durante a pesquisa, confirmando a essência qualitativa da mesma. O 5 propósito da pesquisa foi claramente exploratório, o que pode ser justificado pelas seguintes condições inerentes à investigação: (a) pelo conhecimento relativamente limitado a respeito de cada um dos agentes investigados; (b) pela finalidade explícita de se realizar um teste da aplicabilidade dos indicadores nas incubadoras pesquisadas; (c) pela impossibilidade de extrapolação de seus resultados. A estratégia de pesquisa utilizada foi a de “estudo de casos múltiplos incorporados” (YIN, 2001, p. 61), sendo considerados como casos o objeto de estudo “as incubadoras” e como unidades múltiplas de análise as empresas abrigadas em cada uma das incubadoras. Os instrumentos de coleta de dados utilizados distribuíram-se, essencialmente, em três categorias: (a) os roteiros semi-estruturados para entrevistas; (b) os roteiros para a observação direta, realizada quando das visitas às incubadoras e às empresas; (c) as planilhas para registro dos dados coletados junto aos arquivos das incubadoras e das empresas. Subentende-se, daí, que as principais fontes de dados foram os dirigentes ou profissionais representantes das incubadoras e das empresas, as próprias empresas e incubadoras enquanto objetos de observação e os arquivos mantidos por esses dois tipos de unidades organizacionais. A adoção de múltiplos instrumentos de coleta de dados é adequada à estratégia de estudo de casos, segundo Einsenhardt (1989). Para proceder à análise dos dados decidiu-se por adotar a estratégia qualificada por Yin (2001) como de adequação ao padrão. Essa estratégia pressupõe a comparação de um padrão empírico com outro prognóstico. O padrão prognóstico utilizado como referência analítica compreende o conjunto de indicadores ilustrados na Figura 3, propostos para constituírem uma base para a avaliação do desempenho de incubadoras. O padrão empírico corresponde ao conjunto dos dados coletados para cada um dos indicadores considerados. Nos estágios preliminares da pesquisa buscou-se desenvolver um melhor detalhamento dos indicadores propostos por Fonseca (2000). A compreensão e a sistematização de cada indicador foram acompanhadas por busca de fundamentos com base na literatura especializada. Essa fase compreendeu os primeiros seis meses da pesquisa. Uma vez sistematizados os indicadores, foi realizado o teste de aplicabilidade em quatro incubadoras em igual número de municípios no interior paulista. A atribuição de códigos alfanuméricos às incubadoras obedeceu o princípio ético da não identificação das mesmas. Incubadora Tipologia Sistema de Gestão Incubadora A Mista Incubadora B Mista Incubadora C Mista FIESP/CIESP, em parceria com o SEBRAE/SP Gestão ligada à Prefeitura Municipal SEBRAE/SP Incubadora D Mista SEBRAE/SP Número de empresas incubadas Número de empresas graduadas 07 20 11 14 07 08 15 23 Tabela 1: Perfil das incubadoras investigadas Como se pode observar na tabela, à época da coleta de dados havia 40 empresas incubadas, às quais foram aplicadas entrevistas semi-estruturadas e questionários fechados, a fim de se avaliar os efeitos do processo de incubação. O número de empresas graduadas considera o total de empresas que se graduaram desde a instalação de cada incubadora. A análise dos dados foi levada a cabo por meio do modelo da “escada da abstração analítica”. Esse método compreende um estágio inicial de sinopse, resumo e sistematização dos dados. Na seqüência, procede-se à agregação dos dados, buscando-se identificar tendências, o que culmina em um esquema explicativo. 6 6. Os indicadores propostos A contribuição de Fonseca (2000) consiste no agrupamento de dois conjuntos de indicadores: (a) o primeiro conjunto aplicável às empresas incubadas; e (b) outro, às incubadoras. Em ambos os casos o propósito é o mesmo, qual seja, o de avaliar o desempenho de incubadoras enquanto unidades organizacionais, como mostra a Figura 2. Para uma melhor compreensão do significado de cada indicador são detalhados, nas Tabelas 2 e 3 os seus respectivos conteúdos e variáveis pertinentes, essas últimas orientadoras do processo de coleta de dados. FOCO NA INCUBADORA FOCO NAS INCUBADAS Estratégia de Ocupação Retenção Graduação Desempenho Econômico feedback Geração de Postos de Trabalho Geração de Inovação Fortalecimento das empresas AVALIAÇÃO DO DESEMPENHO DA INCUBADORA feedback Figura 2 Construto testado na pesquisa O desempenho de cada um desses quatro indicadores, com foco nas incubadoras, encontra-se em uma relação de influência mútua, e por isso aparecem interagindo na Figura 2. Da mesma forma, as intersecções também se encontram presentes no conjunto de indicadores com foco em dados provenientes das empresas incubadas. Por fim, cabe ressaltar que esses dois conjuntos de indicadores devem ser analisados em agregado, pois é essa perspectiva que possibilita que a incubadora seja avaliada. Essa avaliação possibilita que sejam emitidos feedbacks, tanto para os dirigentes das empresas incubadas, quanto para as instituições mantenedoras e gerentes das incubadoras (Figura 2). 7 Foco Em dados das incubadoras Foco Em dados das empresas incubadas Indicador Propósito Identificar eventuais estratégias, políticas, decisões ou ações para a seleção de candidatos à incubadora. Contrapõe dados referentes à ocupação efetiva com o planejamento inicial. Principais Variáveis - Tipo da estratégia de ocupação: explícita, pretendida ou inexistente; - Mecanismos para atração de candidatos; Estratégia de - Formas de seleção; ocupação - Perfil setorial ou tecnológico das empresas abrigadas. - Infra-estrutura e utilidades disponíveis; Avaliar capacidade das - Serviços de apoio oferecidos; incubadoras em reterem as - Perfil do quadro de pessoal da empresas incubadas até a Retenção incubadora; graduação, evitando-se - Custos dos serviços partilhados; mortalidade ou saída prematura. - Índices de evasões de empresas. - Números de empresas graduadas desde Avaliar desempenho da a fundação da incubadora; incubadora na promoção da - Números de empresas graduadas que graduação das empresas; avaliar Graduação permanecem no mercado; estágio de desenvolvimento das - Períodos de permanência das empresas empresas graduadas. na incubadora - Receitas e despesas da incubadora; - Recursos externos injetados e Avaliar grau de autonomia e Desempenho respectivas fontes; sustentabilidade econômica da econômico - Grau de autonomia na gestão de incubadora. recursos. Tabela 2 Indicadores relacionados às atividades das incubadoras Indicador Propósito Geração de inovações Avaliar contribuições da incubadora para a geração e a incorporação de inovações pelas empresas abrigadas. Geração de postos de trabalho Avaliar contribuições da incubadora para a geração de postos de trabalho. Principais Variáveis - Incentivos e apoios recebidos da incubadora para a inovação; - Quantidades de inovações geradas ou incorporadas; - Tipos e mecanismos de inovação. - Evolução dos postos de trabalho das empresas incubadas e graduadas; - Medidas e ações para qualificação do trabalho. - Evolução das receitas auferidas pelas empresas abrigadas e graduadas. Avaliar contribuições da incubadora para a geração de renda. Tabela 3: Indicadores relacionados às atividades das empresas Fortalecimento das empresas 7. Os resultados Os dados coletados revelaram que as incubadoras apresentaram um desempenho muito semelhante nos seguintes aspectos: (i) as incubadoras pouco contribuem para um melhor desempenho comercial das empresas abrigadas; (ii) nenhuma das incubadoras mantém iniciativas sistemáticas para buscar aproximação das empresas com fontes geradoras de inovações, tais como universidades e centros de pesquisa; (iii) todas as incubadoras apresentaram elevados graus de dependência econômica e financeira em relação às suas instituições mantenedoras. Similaridades à parte, a pesquisa revelou, com base em praticamente todos os indicadores testados, desempenhos heterogêneos entre as incubadoras investigadas. As constatações mais relevantes são relatadas a seguir e detalhadas na Tabela 4. • Embora nenhuma das incubadoras tenha estratégia de ocupação formalmente explicitada, apurou-se, em três das unidades, a presença de estratégias relativamente abertas: duas declararam dar prioridade a empresas tecnológicas, embora sem restringir a admissão de empresas tradicionais (incubadoras B e C) e uma afirmou não fazer qualquer restrição a 8 • • • • • • • tipos de empresas, inclusive de prestação de serviços. Apenas uma das incubadoras, a vinculada ao sistema FIESP/CIESP, declarou privilegiar a admissão de empresas com atividades de transformação sem, no entanto, fazer qualquer discriminação entre segmentos tradicionais ou tecnológicos. Na confrontação do perfil da ocupação efetiva com as estratégias anunciadas constatou-se, especialmente nas incubadoras B e C, um distanciamento entre a realidade observada e os propósitos declarados, possivelmente por dificuldades em atrair empresas de maior conteúdo tecnológico. Na incubadora D encontrou-se uma aderência entre a ausência de uma estratégia mais definida e a ocupação bastante diversificada, enquanto a incubadora A cumpria com o seu propósito de abrigar apenas empresas de caráter industrial. Um fato que chamou atenção nas quatro incubadoras foi o referente à inexistência de quaisquer tipos de políticas permanentes de busca de candidatos para o preenchimento de vagas. Todas as unidades trabalham dentro da perspectiva de atendimento às demandas materializadas na forma de planos de negócios aprovados, por ordem de apresentação. Uma das variáveis utilizadas para avaliar a capacidade de retenção de empresas pelas incubadoras corresponde à infra-estrutura, aos serviços e formas de apoio disponíveis. Os dados revelaram que, das quatro unidades, a incubadora B oferecia um conjunto mais completo, e de melhor qualidade, de benefícios e utilidades às empresas do que as suas congêneres. Os resultados dessas observações foram confirmados por percepções das empresas (outra variável): o grau de satisfação declarado pelos representantes entrevistados na incubadora B foi o mais alto, ficando a incubadora A com a avaliação mais baixa. Outro fator de retenção testado na pesquisa foi o referente às iniciativas tomadas pelas incubadoras para promover a qualificação de empresários e trabalhadores, especialmente pela promoção de cursos. Apurou-se, uma vez mais, que a incubadora B apresentou melhor desempenho na efetividade – medida em termos de contribuições para a melhoria da capacitação das empresas – dos cursos oferecidos. Os dados referentes à mortalidade e desistência de empresas durante o período de incubação revelam, no entanto, que malgrado os esforços empreendidos, os números situaram-se em patamares relativamente elevados – entre o nível mais baixo de 17% na incubadora B e 40% na incubadora D. Isso pode significar que, avaliadas sob a ótica do indicador de retenção, o desempenho das incubadoras não pode ser considerado dos mais satisfatórios. Carecem, contudo, dados para identificar os motivos das desistências e mortalidades. Ao avaliar o desempenho das incubadoras na promoção da graduação das empresas, a pesquisa apurou que a incubadora A obteve os melhores resultados, enquanto a unidade C alcançou o pior índice. Adotando-se outro critério de análise, que considera o número de empresas graduadas por tempo de atividade de cada incubadora, a unidade D foi a que apresentou os melhores resultados. Uma terceira perspectiva analítica considerou o número de empresas sobreviventes relativamente ao total de graduadas. Por esse enfoque, a incubadora D foi a que teve os piores resultados, seguida de A. Para as unidades B e C os índices de sobrevivência apurados foram de 100%. São dados que impedem a proposição de conclusões afirmativas, não significando, porém, que o indicador de graduação deva ser descartado, mas aprimorado. Avaliando as incubadoras sob a ótica do indicador de desempenho econômico, a pesquisa revelou que, à exceção da unidade B, as demais são altamente dependentes, financeiramente, de suas instituições mantenedoras, notadamente do SEBRAE-SP e do sistema CIESP/FIESP. Em termos econômicos, todas as incubadoras, inclusive a B, têm estruturas dependentes de recursos próprios das prefeituras dos respectivos municípios. Essa dupla dependência, além de subordinar as incubadoras às estratégias, políticas, 9 determinações e decisões das instituições mantenedoras, limita o potencial de desenvolvimento de atividades pelas incubadoras. Os outros três indicadores testados buscam avaliar o desempenho das incubadoras como reflexo do desempenho das empresas abrigadas. Em outras palavras, na concepção desses indicadores considerou-se que o desempenho das empresas teria, em algum grau, influência do desempenho das incubadoras. O desempenho das empresas foi medido em termos de: geração de postos de trabalho; variação na renda gerada e; inovações incorporadas. Os dados coletados revelaram que: • Apenas duas variáveis foram utilizadas para testar o indicador de inovação: uma que procurou averiguar a percepção das empresas a respeito de eventuais estímulos recebidos das incubadoras para que inovassem; a segunda, buscando apurar a existência de iniciativas concretas de inovação por parte das empresas. Para ambas as variáveis, apenas no caso da incubadora A a maioria das empresas informou não haver recebido incentivos nem incorporado inovações. Nas outras três incubadoras, mais de 70% das empresas declararam terem sido incentivadas a adotar inovações e terem, de fato, inovado. Não se apurou, no entanto, a intensidade, os tipos, as fontes e os mecanismos das inovações. • O teste do indicador de fortalecimento das empresas (eufemismo para o propósito da geração de renda) ficou totalmente prejudicado no curso da pesquisa. As principais dificuldades enfrentadas foram: a inexistência (ou a omissão) de registros, por parte das empresas, referentes aos dados de faturamento quando do ingresso nas incubadoras; as recusas e os receios, por parte dos representantes das empresas, em revelarem os respectivos montantes de faturamentos à época da realização das entrevistas; as falhas na própria metodologia da pesquisa, por não haver previsto esquema alternativo para a coleta de dados. Isso não significa, no entanto, que o indicador deva ser descartado. • Também no teste do indicador de geração de postos de trabalho identificou-se mais uma falha na pesquisa: foi utilizada apenas uma variável, que apurou as variações, absolutas e totais nos números de postos de trabalho gerados em cada incubadora, pelas empresas presentes à época da coleta de dados. Os percentuais de variação oscilaram entre 54% na incubadora D e 56% na incubadora A. Embora nenhuma outra afirmação possa ser feita, o certo é que tais índices superam, em muito, as taxas médias de geração de postos de trabalho na economia brasileira em quaisquer períodos recentes. A tabela 4 sintetiza os principais resultados da avaliação do desempenho das incubadoras, com base em cada um dos indicadores testados. São apontados, ainda, os números de variáveis que foram utilizadas para a avaliação de cada um dos indicadores. A tabela aponta duas constatações mais relevantes: (a) apenas dois dos indicadores testados conseguiram apurar alguma diferença de desempenho, passível de ser considerada significativa, entre as incubadoras avaliadas – destacou-se, no caso, a incubadora B; (b) quanto aos demais indicadores, ou apenas sugerem a existência de distintos padrões de desempenho, ou nada conseguiram apurar. Não se pretende afirmar, com isso, que os indicadores não sejam aptos a captarem padrões de desempenho de incubadoras, devendo, pois, ser descartados. Ao contrário, julga-se que a pesquisa propiciou um teste preliminar dos indicadores. Ao final desse estágio é possível concluir pela necessidade do aprimoramento das variáveis analíticas, dos instrumentos de coleta de dados e, conseqüentemente, dos próprios indicadores. No tópico a seguir destacam-se as principais lacunas detectadas, no curso e ao final da pesquisa. 10 Foco Indicador N° variáveis analíticas utilizadas Resultados da avaliação das incubadoras - Existência de supostas estratégias de ocupação, declaradas pelos representantes entrevistados; - Apurou-se baixos índices de aderência entre ocupação efetiva e estratégias declaradas; Estratégia de 3 - Inexistência de estratégias direcionadas de seleção de Ocupação candidatos; - Síntese: Indicador não encontrou evidências significativas de diferenças entre desempenhos das incubadoras - Níveis de desistência e mortalidade de empresas mostraram-se relativamente elevados, especialmente em três das incubadoras investigadas, sugerindo presença de 4 dificuldades na retenção de empresas; Retenção - Síntese: As quatro variáveis analíticas utilizadas e, por Em dados das conseqüência, o indicador, mostraram algumas evidências incubadoras de desempenho superior para uma das incubadoras; - As quatro incubadoras apresentaram padrões similares, e relativamente satisfatórios, de desempenho no estímulo à 3 graduação de empresas; Graduação - Síntese: Indicador não apurou evidências de diferenças significativas entre desempenhos das incubadoras - Três das incubadoras possuem fortes vínculos de dependência financeira com instituições apoiadoras; - Todas as incubadoras dependem de recursos econômicos Desempenho 2 das prefeituras. econômico - Síntese: Indicador apurou desempenho econômicofinanceiro diferenciado de uma das incubadoras - Em três das incubadoras investigadas as empresas apontaram a presença de ambiente propício à geração de Geração de 2 inovações e indicaram a adoção de práticas de inovação; inovações - Síntese: Indicador apenas sugere existência de diferenças entre desempenho de incubadoras. - Dados coletados revelaram, apenas, dois fatos: a presença de ganhos significativos nos números de postos de Em dados das trabalho gerados pelas empresas presentes nas empresas incubadoras; diferenças entre os percentuais de geração de Geração de 1 incubadas novos postos de trabalho, comparativamente entre as Empregos incubadoras; - Síntese: Indicador não foi capaz de captar diferenças significativas entre os desempenhos das incubadoras. - Empresas não forneceram dados que permitissem apurar contribuições para a geração de renda; Fortalecimento 1 - Síntese: Indicador não conseguiu avaliar eventuais das empresas diferenças de desempenho. Tabela 4: Síntese da análise comparativa entre os desempenhos das incubadoras 8. A avaliação dos indicadores Para uma melhor compreensão dos resultados da avaliação, serão apresentados dois comentários referentes a cada indicador: o primeiro, discutindo a validade do indicador enquanto instrumento para avaliação do desempenho de incubadoras; o segundo, abordando as deficiências observadas na pesquisa, resultantes, tanto dos instrumentos de coleta de dados utilizados, como da própria concepção e construção das variáveis e dos indicadores. 8.1 Estratégia de ocupação • O teste realizado com este indicador confirmou a importância do mesmo para os fins propostos. A definição de uma estratégia de ocupação deve ocupar papel central no 11 • processo de planejamento das atividades de uma incubadora. Logo, avaliar tal estratégia – a existência e o cumprimento – tem o duplo significado de verificar o desempenho das funções gerenciais clássicas de planejamento e controle. As restrições encontradas para o alcance de resultados mais satisfatórios na aplicação deste indicador foram decorrentes de dois fatores: de um maior rigor no processo de coleta de dados – os registros foram feitos a partir de opiniões e informações emitidas verbalmente pelos representantes das incubadoras; da ausência de documentos internos das incubadoras, contendo a fixação de diretrizes e o acompanhamento de sua execução. 8.2 Retenção de empresas • A competência de uma incubadora para reter as empresas abrigadas durante o período contratual de permanência consiste na própria justificativa de sua existência enquanto unidade organizacional. A pesquisa veio apenas a reforçar a importância deste indicador enquanto instrumento de avaliação de desempenho. • Os resultados da pesquisa poderiam ter sido substancialmente superiores caso a metodologia fosse aprimorada nos seguintes aspectos: foram coletados dados apenas quantitativos e totalizados, dos números de empresas desistentes e desaparecidas durante todo o período de funcionamento das incubadoras, sem que fossem investigadas as causas das mortalidades ou desistências; não foram apurados os tempos de permanência das empresas desistentes e desaparecidas; não foram relacionados os dados de desistência e mortalidade com os respectivos tempos de vida das incubadoras; não foram confrontadas as óticas dos representantes das incubadoras e das empresas evadidas a respeito dos fatores causadores das rupturas – se de responsabilidade das empresas, das incubadoras ou conjuntas. 8.3 Graduação • Não menos importante do que a competência em assegurar a permanência das empresas durante o período de incubação, está a capacidade da incubadora em promover o fortalecimento e a emancipação das unidades abrigadas dentro do período contratual. Embora os dados coletados na pesquisa não tenham sido suficientes para estabelecer distinções de desempenho entre as incubadoras avaliadas, constatou-se que o esforço para a promoção da graduação, assim como o acompanhamento das empresas graduadas, constam como prioridades nas estratégias operacionais das incubadoras investigadas. • Aqui também, os dados coletados foram de natureza apenas quantitativa e totalizante: foram levantados somente dados dos números totais de empresas que ingressaram nas incubadoras e de quantas graduaram ao longo de todo o período de existência de cada unidade; não se atentou para os períodos de permanência das empresas nas incubadoras nem para os fatores qualitativos que possibilitaram a graduação das empresas; do mesmo modo, não foram apurados os tipos e intensidades dos relacionamentos e apoios mantidos pelas incubadoras com as empresas já graduadas. 8.4 Desempenho econômico • Este indicador pode vir a ser, com base em mais dados a serem coletados, descartado para fins de avaliação do desempenho de incubadoras. A literatura e grande parte das instituições mantenedoras e apoiadoras de incubadoras argumentam que esse tipo de modelo organizacional não deve ter como propósito a busca da auto-sustentação econômica. Julgam, no entanto, os responsáveis por esta pesquisa, que a autonomia pode vir a constituir-se em fator de sobrevivência de incubadoras no longo prazo. Os riscos da dependência, notadamente de recursos públicos, são grandes! 12 • A inexistência ou a precariedade dos registros internos, dos aportes e das movimentações de recursos econômicos e financeiros, constituíram-se nos maiores entraves para o teste deste indicador. A metodologia para a coleta dos dados também foi falha ao não tratar separadamente os recursos econômicos dos financeiros. 8.5 Inovações • Por este indicador, o desempenho de incubadoras é avaliado com base na sua competência para estimular os processos de inovação nas empresas abrigadas. Trata-se, pois, de um indicador que reflete o desempenho das incubadoras a partir do desempenho das empresas abrigadas. Os depoimentos dos empresários ouvidos durante a pesquisa sugerem que três das quatro incubadoras investigadas tenham contribuído positivamente para a geração ou a incorporação de inovações pelas empresas. Julga-se, a princípio, que essas manifestações sejam suficientes para validar o indicador. • Um olhar crítico sobre o processo da pesquisa para validar este indicador revela que muito pouco se avançou na construção desta medida de desempenho. Mais uma vez a falha constatada foi de cunho metodológico. Os dados coletados tiveram como conteúdo apenas as percepções (subjetivas, pois, e não fundadas em conceitos) dos empresários, captadas por meio de entrevistas estruturadas. Deixaram de ser investigados os tipos, as intensidades, as aplicações, os mecanismos utilizados e as fontes das inovações. E, fundamentalmente, não foram identificadas quais as contribuições efetivas das incubadoras, ou seja, como elas estimularam os processos de inovação. 8.6 Geração de postos de trabalho • Grande parte das incubadoras mistas e tradicionais brasileiras se insere em políticas e programas voltados para a promoção do desenvolvimento local. Geração de empregos usualmente é tida como uma das faces mais visíveis do desenvolvimento local. A efetividade na criação de novas oportunidades de trabalho constitui-se, nessas circunstâncias, em uma das principais expectativas depositadas na atuação das incubadoras de base local. Essa foi a lógica subjacente à proposição deste indicador. A pesquisa, embora não tenha captado diferenças significativas de desempenho entre as incubadoras investigadas, possibilitou o teste do indicador, minimamente com base nos dados quantitativos coletados. • A avaliação do desempenho apenas com base nas variações quantitativas de postos de trabalho geradas pelas empresas residentes no momento da coleta de dados ofereceu uma visão incompleta e estanque das efetivas contribuições das incubadoras nesta dimensão da sua atuação. O aprimoramento do indicador passa pela aplicação de instrumentos de coleta de dados que venham a apurar: as variações históricas nos números de postos de trabalho nas empresas abrigadas desde o início das atividades das incubadoras – incluindo-se aí as empresas já graduadas; a criação de postos de trabalho internos às incubadoras, elas próprias enquanto unidades organizacionais; o cruzamento entre as variações quantitativas dos postos de trabalho e o tempo de operação das incubadoras; as variações nos números de postos de trabalho nas empresas graduadas, pós-período de incubação; a utilização de alguma medida qualitativa capaz de avaliar eventuais aprimoramentos na qualificação de trabalhadores, empreendedores e empresários. 8.7 Fortalecimento das empresas • Como ficou refletido na tabela 4, o teste deste indicador foi prejudicado pelas restrições enfrentadas na coleta de dados. Trata-se, no entanto, de um indicador que, de forma complementar com o de geração de postos de trabalho, é crítico para avaliar as contribuições das incubadoras no contexto de políticas públicas de desenvolvimento local. 13 • Deve-se proceder, neste caso, a uma reavaliação da sistemática e dos instrumentos de coleta de dados, de modo que se possa captar as variações das rendas geradas pelas empresas, tanto as abrigadas como as já graduadas, desde o início do processo de incubação, em cada unidade, mesmo que seja por estimativa. 9. As conclusões Três conclusões principais podem ser extraídas a partir dos resultados da pesquisa realizada. A primeira, que pode ser vista como pretensiosa, é quanto à validação dos indicadores propostos como instrumentos capazes de avaliar o desempenho de incubadoras. Em segundo lugar, à luz de uma perspectiva autocrítica, reconhece-se, como ficou demonstrado no tópico oito deste texto, que os indicadores, suas variáveis internas e os respectivos instrumentos de coleta de dados, demandam uma profunda revisão, de modo que possam vir a ser aprimorados, vindo a oferecer um melhor panorama das futuras unidades avaliadas. Para proceder a essa revisão, será realizada pesquisa complementar a esta, utilizando-se como fontes de dados outras incubadoras. A terceira conclusão aponta para um horizonte temporal além do próximo estágio da pesquisa. Sugere-se que, após os ajustes propostos nos indicadores, seja possível estabelecer métricas internas a cada um deles, cruzadas com uma categorização horizontal, culminando na construção de um modelo de avaliação de desempenho de incubadoras. Esse estágio também será objeto de futuro teste empírico. AGRADECIMENTOS: À FAPESP, PELO FINANCIAMENTO DESTA PESQUISA. 10. Referências Bibliográficas ADEGBITE, O. (2001). 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