UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA ESCOLA DE ADMINISTRAÇÃO NÚCLEO DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ADMINISTRAÇÃO CURSO DE DOUTORADO EM ADMINISTRAÇÃO MARCO ANTÔNIO SEIFRIZ INTERNACIONALIZAÇÃO E IMIGRAÇÃO NO CONTEXTO DAS PEQUENAS E MÉDIAS EMPRESAS Salvador - BA 2012 MARCO ANTÔNIO SEIFRIZ INTERNACIONALIZAÇÃO E IMIGRAÇÃO NO CONTEXTO DAS PEQUENAS E MÉDIAS EMPRESAS Tese apresentada ao Núcleo de Pós-Graduação em Administração, Universidade Federal da Bahia, como requisito parcial para obtenção do grau de Doutor em Administração. Orientadora: Profª. Drª. Sonia Maria Guedes Gondim Salvador - BA 2012 Escola de Administração - UFBA S459 Seifriz, Marco A. Internacionalização e imigração no contexto das pequenas e médias empresas /Marco A. Seifriz. - 2012. 127 f. : il. Orientadora : Profa. Dra. Sonia Maria Guedes Gondim. Tese (doutorado) - Universidade Federal da Bahia, Escola de Administração, Salvador, 2012. 1. Comércio internacional. 2. Empresas multinacionais. 3. Pequenas e médias empresas. 4. Imigração. I. Universidade Federal da Bahia. Escola de Administração. II. Gondim, Sonia Maria Guedes. III. Título. CDD 382 MARCO ANTÔNIO SEIFRIZ INTERNACIONALIZAÇÃO E IMIGRAÇÃO NO CONTEXTO DAS PEQUENAS E MÉDIAS EMPRESAS Tese apresentada como requisito parcial para obtenção do grau de Doutor em Administração, do Núcleo de Pós-Graduação em Administração, Universidade Federal da Bahia. Aprovada em 24 de maio de 2012. Banca Examinadora Profª. Drª. Sonia Maria Guedes Gondim (Orientadora) ___________________________________ Doutora em Psicologia Universidade Federal da Bahia Prof. Dr. Augusto de Oliveira Monteiro ________________________________________ Doutor em Administração Universidade Salvador Profª. Drª. Elisabeth Loiola __________________________________________________ Doutora em Administração Universidade Federal da Bahia Profª. Drª. Graziela Dias Alperstedt ___________________________________________ Doutora em Engenharia de Produção Universidade do Estado de Santa Catarina Prof. Dr. Rogério Hermida Quintella __________________________________________ Doutor em Gerenciamento Estratégico Universidade Federal da Bahia Para meu filho, Guilherme. AGRADECIMENTOS Escrever uma tese de doutorado envolve alguns desafios que só podem ser superados com a colaboração de outras pessoas. É a elas que presto aqui meus sinceros agradecimentos. À minha orientadora, professora Sonia Maria Guedes Gondim, pelo profissionalismo e dedicação prestados durante a realização deste trabalho. À minha esposa, Babi, pelo suporte nos momentos mais difíceis. Aos Coordenadores do NPGA-UFBA, professor Jose Antonio Gomes de Pinho e professor Sandro Cabral pelo incentivo e companheirismo. Agradecimentos especiais à Dacy e Anaélia, colaboradoras do NPGA. Ao Sr. Ronaldo Baumgarten Jr., Presidente da Associação Empresarial de Blumenau, pelo apoio institucional necessário à realização deste trabalho. Agradecimentos especiais a Sra. Marilda Steil e ao Sr. Charles Schwanke pelo apoio incondicional. À Professora Graziela Dias Alperstedt, pela importante colaboração na construção do modelo teórico deste trabalho. Aos colegas da ESAG-UDESC, professores Everton Cancellier, Julio Dias e Eduardo Jara pela colaboração nos trabalhos de campo. À Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC) pelo suporte financeiro que viabilizou a minha participação neste Curso de Doutorado. Aos colegas do Sistema SEBRAE, que contribuíram com suas experiências para enriquecer este trabalho. Por fim, agradeço a Deus pela vida. “A paz vem de dentro de você mesmo. Não a procure à sua volta.” Siddharta Gautama (Buda) SEIFRIZ, Marco A. Internacionalização e imigração no contexto das pequenas e médias empresas. 2012. 127 f. Tese (Doutorado em Administração) – Núcleo de Pós-Graduação em Administração, Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2012. RESUMO O ambiente empresarial vem assistindo a consolidação de tendências como a desregulamentação e o incremento do comércio internacional, a intensa movimentação de capitais entre os países e a integração de economias regionais. É dentro deste cenário dinâmico e complexo que um número, cada vez maior, de empresas, se vê compelida a buscar um espaço em mercados estrangeiros. Particularmente, a recente inserção internacional de pequenas e médias empresas (PMEs) ocorrida a partir da década de 1990, vem chamando a atenção da produção acadêmica pelo surgimento de novas correntes teóricas da internacionalização como a abordagem de networks e o empreendedorismo internacional. Estudos apontam que é expressivo o ingresso de novas PMEs em mercados estrangeiros, investigando os fatores que condicionam o sucesso destas empresas em perceber no seu processo de internacionalização uma efetiva estratégia de negócio. Dentre estes fatores, destaca-se o estabelecimento de redes de relacionamento entre PMEs na obtenção de informações sobre oportunidades de negócios além-fronteira. Este estudo analisa de que modo os laços formados entre empresários descendentes de imigrantes europeus e empresários europeus estão associados ao processo de internacionalização de PMEs locais. Parte-se da suposição que estas comunidades tendem a operar sob a lógica de redes baseadas em laços familiares e culturais, gerando uma dinâmica de compartilhamento de recursos, informações e expertises que são decisivas na exploração de mercados estrangeiros. Para isto, utiliza-se como referência teórica a abordagem do processo de internacionalização de empresas segundo o modelo Uppsala com ênfase em networks. A coleta de dados foi feita por meio de questionário eletrônico respondido por dirigentes de PMEs exportadoras, com o objetivo de identificar o grau de internacionalização e suas relações com laços familiares e culturais. A análise dos dados coletados a partir de uma amostra de 71 PMEs revelou indícios de que esses laços são relevantes para a expansão internacional destas empresas. Os estudos sobre internacionalização de PMEs brasileiras ainda são escassos. Este estudo busca, sobretudo, diminuir algumas lacunas de conhecimento sobre a relação entre as PMEs e o comércio internacional. Palavras-chave: Comércio internacional. Internacionalização de empresas. Imigração. Pequenas e médias empresas. SEIFRIZ, Marco A. Internationalization and immigration in the context of small and medium-sized enterprises. 2012. 127 f. Tese (Doutorado em Administração) – Núcleo de Pós-Graduação em Administração, Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2012. ABSTRACT Business environment has seen the consolidation of trends such as deregulation and increased international trade, expressive international investment flow and regional economies integration. It is within this dynamic and complex economic scenery that an increasing number of companies are compelled to seek its place in foreign markets. Particularly, the recent international entry of small and medium enterprises (SMEs) that occurred from the 1990s has attracted the attention of researches by new theoretical perspectives such as networks approach and international entrepreneurship. Studies show the growing participation of SMEs in foreign markets, investigating the success factors of these companies to realize their internationalization process in an effective business strategy. Among these factors, there is the establishment of networks between SMEs in obtaining information on business opportunities abroad. This work examines how these ties operating between entrepreneurs descendants of European immigrants and European entrepreneurs are involved in the internationalization process of local SMEs. It starts from the assumption that these business communities operate under networks based on family and cultural ties, creating a dynamic sharing of resources, information and expertise that are critical in exploring foreign markets. As a theoretical basis, this work uses the traditional behavioral model of the internationalization process of firms, represented by the Uppsala Model, with emphasis on network approach. Data collection was conducted through an electronic survey answered by exporting SMEs managers, in order to identify the internationalization degree and its relationship to familiar and cultural ties. The analysis of data collected from a sample of 71 SMEs support the evidence that ties are relevant to the international expansion of these companies. Studies on the internationalization of Brazilian SMEs are still scarce. This work aims, especially, to fill up some gaps in knowledge about the relationship between SMEs and international trade. Keywords: International trade. Internationalization of firms. Immigration. Small and medium enterprises. LISTA DE ILUSTRAÇÕES Figura 1 - Mecanismo básico de internacionalização............................................... 37 Quadro 1 - Internacionalização de empresas e assistência institucional.................... 38 Quadro 2 - Internacionalização na perspectiva de Networks...................................... 44 Figura 2 - Modelo conceitual da associação entre laços de descendência imigratória e o grau de internacionalização de empresas......................... 74 Quadro 3 - Modelo de análise..................................................................................... 82 Quadro 4 - Operacionalização da variável “Grau de Internacionalização”................ 85 Quadro 5 - Operacionalização da variável “Relevância dos Laços”.......................... 86 Quadro 6 - Regras práticas sobre o valor do coeficiente de correlação...................... 88 Figura 3 - Diagrama de dispersão: força dos laços x grau de internacionalização... 98 LISTA DE TABELAS Tabela 1 – Brasil: empresas exportadoras e o tamanho da firma................................... 62 Tabela 2 – Amostra de empresas respondentes.............................................................. 78 Tabela 3 – Frequência exportadora da amostra.............................................................. 90 Tabela 4 – Intensidade exportadora da amostra............................................................. 90 Tabela 5 – Dispersão geográfica das vendas externas da amostra................................. 91 Tabela 6 – Modos de entrada em mercados estrangeiros da amostra............................. 92 Tabela 7 – Tipos de relações de negócios com empresas estrangeiras.......................... 92 Tabela 8 – Grau de internacionalização da amostra....................................................... 93 Tabela 9 – Correlação grau de internacionalização x motivos para internacionalizar... 96 Tabela 10 – Tabulação cruzada: força dos laços x grau de internacionalização............ 99 LISTA DE ABREVIATURAS ACIB Associação Empresarial de Blumenau APEC Cooperação Econômica Ásia-Pacífico APEX Agência de Promoção de Exportações e Investimentos BNDES Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social ESAG Escola Superior de Administração e Gerência GIZ Deutsche Gesellschaft für Internationale Zusammenarbeit IED Investimento Estrangeiro Direto ITC International Trade Center MIT Massachussets Institute of Technology OECD Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico OMC Organização Mundial do Comércio PMEs Pequenas e Médias Empresas SBA Small Business Administration SEBRAE Serviço Brasileiro de Apoio a Micro e Pequena Empresa SME Small and Medium-sized Enterprises UNCTAD United Nations Conference on Trade and Development SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO.......................................................................................................... 14 1.1 FORMULAÇÃO DO PROBLEMA DE PESQUISA............................................... 16 1.2 OBJETIVOS.............................................................................................................. 17 1.2.1 Objetivos Específicos............................................................................................ 18 1.3 JUSTIFICATIVA DO ESTUDO.............................................................................. 18 1.4 ORGANIZAÇÃO DA TESE.................................................................................... 20 2 TEORIAS DE INTERNACIONALIZAÇÃO DE EMPRESAS............................. 21 2.1 ABORDAGENS ECONÔMICAS DA INTERNACIONALIZAÇÃO..................... 23 2.1.1 Teoria do Poder de Mercado............................................................................... 24 2.1.2 Teoria do Ciclo de Vida do produto................................................................... 25 2.1.3 Teoria da Internalização...................................................................................... 27 2.1.4 Paradigma Eclético da Produção Internacional................................................ 29 2.2 ABORDAGENS COMPORTAMENTAIS DA INTERNACIONALIZAÇÃO....... 32 2.2.1 O Modelo Uppsala................................................................................................ 34 2.2.2 Desdobramentos Teóricos ao Modelo Uppsala.................................................. 40 2.2.2.1 A Abordagem de Networks................................................................................. 42 2.2.2.2 Empreendedorismo Internacional........................................................................ 47 3 DELIMITAÇÃO DO OBJETO DE ESTUDO........................................................ 52 3.1 CARACTERIZAÇÃO DAS PEQUENAS E MÉDIAS EMPRESAS...................... 52 3.2 INTERNACIONALIZAÇÃO DE PEQUENAS E MÉDIAS EMPRESAS............. 54 3.3 INTERNACIONALIZAÇÃO E IMIGRAÇÃO........................................................ 62 3.4 CONTRIBUIÇÕES DO CAMPO DAS REDES SOCIAIS...................................... 69 4 DELINEAMENTO METODOLÓGICO................................................................. 76 4.1 CARACTERIZAÇÃO DA PESQUISA.................................................................... 76 4.2 POPULAÇÃO E AMOSTRA................................................................................... 76 4.3 INSTRUMENTO DE COLETA DOS DADOS........................................................ 78 4.4 PROCEDIMENTOS DE COLETA, TRATAMENTO E ANÁLISE DOS DADOS 83 4.4.1 Coleta dos Dados................................................................................................... 83 4.4.2 Tratamento dos Dados: Medidas e Variáveis Criadas...................................... 85 4.4.3 Análise dos Dados................................................................................................. 87 5 DESCRIÇÃO E ANÁLISE DOS DADOS............................................................... 89 5.1 ANÁLISE DESCRITIVA DOS DADOS................................................................. 89 5.2 ANÁLISE INFERENCIAL DOS DADOS............................................................... 94 5.2.1 Conteúdo dos Laços.............................................................................................. 95 5.2.1.1 Laços Pessoais..................................................................................................... 95 5.2.1.2 Laços de Identificação......................................................................................... 95 5.2.2 Força dos Laços.................................................................................................... 97 6 CONCLUSÕES........................................................................................................... 101 REFERÊNCIAS............................................................................................................ 106 APÊNDICE.................................................................................................................... 118 APÊNDICE A – Questionário Estruturado da Pesquisa................................................ 119 14 1 INTRODUÇÃO O panorama econômico mundial mudou, profundamente, desde o término da Segunda Guerra Mundial. Tendo a revolução da tecnologia da informação e o domínio das relações multilaterais entre os países como “pano de fundo”, o mundo assiste à consolidação de tendências como a desregulamentação e o forte incremento do comércio internacional, a intensa movimentação de capitais entre os países e a regionalização econômica. Esta nova ordem provocou transformações sociais, políticas e econômicas na sociedade contemporânea com amplos reflexos sobre o ambiente empresarial. Dentre esses reflexos destacam-se: a tomada por parte dos países industrializados de uma parcela substancial do mercado mundial de manufaturados; a instabilidade financeira global provocada pelas novas relações entre os principais centros financeiros; a ocorrência de grandes variações da taxa de câmbio e de mudanças estruturais nos padrões de comércio; e, finalmente, a perda da identidade nacional de produtos, promovida pelo outsourcing agressivo das grandes corporações. A criação de um mercado multilateral de comércio atende às exigências das companhias de atuação global. Para obter apoio junto à opinião pública, as corporações globais passaram a difundir a ideia do "cidadão do mundo", objetivando facilitar a aceitação de seus produtos dentro de bases de produção comuns para todo o planeta. Neste sentido, a Organização Mundial do Comércio (OMC), quer pelo seu amplo espectro de atuação ou pela amplitude das suas competências que ultrapassa a simples redução de tarifas, abre terreno para a consolidação dos ideais das grandes corporações globais. É nesse cenário dinâmico e complexo que muitas empresas se veem compelidas a internacionalizar suas operações. A disponibilidade para comercializar seus produtos externamente, a possibilidade de abastecimento por meio de fontes externas e a vontade de estabelecer alianças com empresas estrangeiras, no sentido de diversificar mercados e ganhar competitividade, são alguns dos critérios atuais de sobrevivência empresarial para enfrentar a turbulência ambiental generalizada. Neste ponto merece destaque o novo posicionamento das Pequenas e Médias Empresas (PMEs) no mercado global. A criatividade, a inovação e a flexibilidade se transformaram em preceitos de excelência empresarial e consubstanciam os novos determinantes de competitividade mundial, e parece ser razoável imaginar que as empresas de menor porte, 15 dentro dessa perspectiva, possam ter alguma vantagem sobre as grandes corporações. Valendo-se de menores custos de entrada ou saída, maior flexibilidade na alteração de processos, maior velocidade nas decisões e uma maior personificação nos processos de negociação, empresas menores podem ser mais céleres em dar retorno às demandas específicas, ajustando-se a nichos de mercado que estão fora do escopo de atuação das grandes empresas. As mudanças tecnológicas, especialmente na área da microeletrônica, parecem ter minimizado as desvantagens das PMEs em termos de custo de produção. Uma nova geração de bens de capital “flexíveis” adapta-se, particularmente bem, à estratégia da pequena empresa, que dá preferência a pequenas quantidades de produtos especializados e sob medida. A compreensão desses fenômenos, todavia, não finda as dificuldades e os obstáculos que as PMEs enfrentam na disputada arena do comércio internacional. As PMEs convivem com uma série de deficiências que prejudicam, sobremaneira, sua inserção e sua continuidade na atividade exportadora. As dificuldades para alcançar economias de escala, o alto investimento em inovação tecnológica e os excessivos gastos com promoção comercial no exterior, condicionantes inequívocos de ingresso no mercado internacional, contrastam com a natural escassez de recursos das empresas de menor porte (HOLLENSTEIN, 2005). Oviatt e McDougall (1999) destacam o expressivo aumento na internacionalização de PMEs. Para os autores, a crescente busca das grandes empresas multinacionais em orientar seus esforços nas suas competências essenciais e a consequente adoção de estratégias de downsizing, criaram novas oportunidades de internacionalização para o segmento das PMEs, principalmente em virtude dos movimentos de subcontratação industrial, que acabaram por posicionar um número expressivo de pequenos negócios em cadeias internacionais de fornecimento. Como consequência, muitos estudos acadêmicos passaram a analisar os fatores que condicionam o processo de internacionalização das PMEs. Percebe-se um esforço de pesquisa que busca analisar a grande diversidade de fatores críticos de sucesso para a inserção competitiva de PMEs no comércio internacional, dado as suas naturais deficiências em termos de disponibilidade de recursos e a necessidade de serem formuladas políticas públicas de apoio a essa inserção. O que se pode afirmar é que boa parte destes fatores passam, inevitavelmente, pela escolha de nichos de mercado com maior conteúdo tecnológico, o estabelecimento de alianças ou parcerias estratégicas, pelo apelo em inovação e a articulação 16 da empresa em redes de relacionamentos (MOEN; SERVAIS, 2002; ALVAREZ, 2004; FREEMAN; EDWARD; SCHRADER, 2006). No tocante a esse último fator, a experiência profissional do autor desta tese em programas de inserção internacional de PMEs, no âmbito de atuação do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE) e da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (APEX), levou a crer que a habilidade do pequeno empreendedor em buscar articulações com redes de relacionamentos de negócios assume um papel fundamental no processo de internacionalização. De fato, dada à intensidade dos processos de abertura comercial e ao aumento das trocas internacionais, um grande número de atores passou a participar ativamente como facilitadores do comércio. Órgãos governamentais de apoio às exportações, trading companies, agências de cooperação internacional, câmaras de comércio, associações empresariais, operadores de carga, serviços de correio expresso, empresas de consultoria, comissárias de despacho aduaneiro, dentre outros, são exemplos de empresas e profissionais que estão viabilizando, neste momento, a concretização de milhares de operações comerciais internacionais. Especificamente no Estado Santa Catarina, cuja história da formação econômica foi fortemente marcada por movimentos imigratórios, esta experiência profissional revelou, na prática, alguns casos de pequenos empreendedores descendentes de imigrantes europeus, sobretudo no município de Blumenau, que adquiriram capacidade exportadora por meio de um ciclo contínuo de intercâmbio de recursos e expertises com empresas e entidades da Europa, obedecendo a uma consistente rede de negócios baseada em laços familiares, em relações de confiança e em ações de cooperação mútua. 1.1 FORMULAÇÃO DO PROBLEMA DE PESQUISA São fortes as evidências de que o processo de internacionalização de empresas, sobretudo as de pequeno porte, é influenciado por redes de relacionamento que deslocam as decisões de internacionalização da racionalidade econômica, para o contexto dos laços de cooperação e confiança entre determinadas empresas (COVIELLO; MUNRO, 1995; 17 JOHANSON; MATTSSON, 1988; MOEN; SERVAIS, 2002; JOHANSON; VALHNE, 2003). Busca-se nesta pesquisa um melhor entendimento de como esses laços podem estar associadas ao avanço do processo de internacionalização de PMEs e, mais especificamente, como a relação entre empresários locais, descendentes de imigrantes, e empresários localizados no país de origem explica a dinâmica desses laços, dadas às características históricas do Estado de Santa Catarina. Pareceu oportuno conhecer melhor a realidade de alguns desses casos; o porquê da ênfase nos relacionamentos; qual o papel dos laços de descendência; quais os fatores que condicionaram o seu avanço no processo de internacionalização; e, sobretudo, quais os reflexos dessas decisões sobre o futuro das empresas. Finalmente, dentro de uma perspectiva de se tentar consolidar as indagações levantadas pela revisão bibliográfica e de se buscar uma relação entre internacionalização de PMEs e laços de descendência imigratória, formulou-se o seguinte problema de pesquisa: Os laços familiares e culturais entre empresários descendentes de imigrantes europeus e empresários europeus explicam o grau de internacionalização das pequenas e médias empresas? 1.2 OBJETIVOS Este trabalho tem como objetivo geral analisar a associação entre laços familiares e culturais formados por empresários descendentes de imigrantes europeus e empresários europeus e o grau de internacionalização das pequenas e médias empresas. 18 1.2.1 Objetivos específicos Mapear as PMEs filiadas à Associação Empresarial de Blumenau (ACIB) que são exportadoras, identificando aquelas em que os empreendedores/proprietários são descendentes de imigrantes europeus; Avaliar o grau de internacionalização das PMEs exportadoras filiadas a ACIB nas quais os empreendedores/proprietários são descendentes de imigrantes europeus; e Identificar a existência de laços familiares e culturais entre empresários descendentes de imigrantes europeus e empresários e/ou instituições europeias. 1.3 JUSTIFICATIVA DO ESTUDO A literatura sobre negócios internacionais passou a incluir, recentemente, aspectos sociológicos entre os fatores que influenciam a internacionalização da força empreendedora, basicamente em função da emergência dos temas “Networks” e “Empreendedorismo Internacional” como novos campos de estudos (HEMAIS; HILAL, 2002; KIRCA; CAVUSGIL; HULT, 2009). Entre os principais periódicos sobre negócios internacionais 1 pesquisados encontraramse diversas aplicações dessas duas abordagens. Em particular, percebe-se maior ênfase em estudos que buscam identificar a influência do perfil empreendedor no processo de internacionalização de empresas, bem como a influência de redes de relacionamento intragrupos minoritários, no estabelecimento de atividades comerciais e oportunidades de emprego em grandes metrópoles como, por exemplo, os estudos de Altinay e Basu (2002) e Prasad e Pisani (2005). 1 Journal of International Business Studies, International Business Review, International Marketing Review, International Small Business World e Journal of International Marketing. 19 Comparativamente, são poucos os estudos que versam, especificamente, sobre as relações de negócios entre descendentes de imigrantes e suas famílias localizadas no país de origem, objeto central desta pesquisa. O que se pretende analisar neste trabalho é exatamente esta relação de cunho mercantil, ainda pouco explorada pela área dos negócios internacionais. Conforme demonstrado por Hayer e Ibeh (2006), de forma geral, a internacionalização de um pequeno negócio parte de iniciativas não deliberadas dos atores centrais (proprietários) das empresas, ou seja, a vontade de exportar emerge em circunstâncias, nas quais o empreendedor passa a acreditar no comércio externo como uma boa oportunidade de expansão para os seus negócios e começa, gradativamente, a tomar decisões que vão moldando o escopo da sua atuação internacional. Tais decisões podem ser fortemente influenciadas por uma combinação de laços de ordem familiar e cultural, por meio dos quais grupos de empresários recorrem à sua comunidade (grupos étnicos, círculos de confiança e de amizade) para estabelecer e manter seus negócios. Sendo assim, é de fundamental importância que se tenha um melhor entendimento sobre como esses laços possam contribuir para a expansão internacional das PMEs. Este estudo também se justifica pela possibilidade de oferecer novos subsídios aos programas de apoio às exportações de PMEs do governo brasileiro, tendo em vista a heterogeneidade desse segmento e a requerida combinação de atitudes empreendedoras, técnicas e gerenciais capazes de contornar as típicas dificuldades encontradas por essas empresas na atividade exportadora. Parte-se da suposição que o sucesso na “aventura” exportadora de um pequeno negócio depende diretamente das habilidades, do conhecimento e dos valores dos seus proprietários, e de como eles percebem os riscos e as oportunidades decorrentes da sua exposição ao mercado internacional. Esta convicção fortalece a ideia de que a verdadeira tônica das políticas públicas, voltadas para a internacionalização de PMEs, deve residir na capacitação gerencial da força empreendedora e no esforço de se reduzirem os riscos e os custos de entrada e permanência deste segmento de empresas na atividade exportadora. As desvantagens que essas empresas possuem em relação às grandes empresas, as dificuldades para que se modernizem e ganhem em eficiência para poder competir internacionalmente, a exposição proibitiva a riscos típicos da atividade internacional, o alto custo das ações de promoção comercial no exterior, os obstáculos relacionados à diversidade de normas técnicas e de cultura estrangeiras, as necessidades de concentração geográfica para alcançarem dimensão produtiva e técnica são, dentre outros, problemas que preocupam a todos os países e determinam a importância de serem adotadas medidas de apoio. 20 1.4 ORGANIZAÇÃO DA TESE Esta parte introdutória apresenta algumas reflexões sobre o panorama atual do comércio internacional, buscando-se posicionar o segmento das PMEs, objeto deste estudo, no mercado global. Apresenta-se também a formulação do problema de pesquisa, os objetivos que norteiam a sua elaboração e as justificativas do estudo. No segundo capítulo, apresenta-se a revisão da literatura relacionada às teorias de internacionalização de empresas, com ênfase nos modelos de internacionalização concebidos pelas abordagens comportamentais da internacionalização, sobretudo no papel das redes de relacionamento na inserção internacional de pequenas e médias empresas. O terceiro capítulo apresenta o delineamento do objeto de estudo. Tendo em vista a crença de que o processo de internacionalização de PMEs é influenciado por redes de relacionamento e, mais especificamente, que essas redes podem ser fortalecidas por laços de descendência entre empresários locais e estrangeiros, buscou-se caracterizar o comportamento de internacionalização das pequenas e médias empresas enfatizando os desafios e os obstáculos envolvidos. Apresenta-se, ainda, uma revisão de estudos empíricos sobre o funcionamento de redes de negócios formadas entre imigrantes e parceiros comerciais localizados nos seus países de origem. De forma complementar, o capítulo traz uma breve revisão da literatura sobre redes sociais, no intuito de enriquecer o debate sobre o papel das redes de negócios no processo de internacionalização de empresas. O quarto capítulo aborda os aspectos metodológicos adotados no planejamento e na execução deste estudo. Apresenta-se o modelo de análise proposto, o método utilizado e os procedimentos de coleta e análise de dados. No quinto capítulo, são relatados os dados obtidos, a partir dos instrumentos de coleta e as suas relações com o tema deste estudo, obedecendo-se aos critérios de análise e interpretação previamente definidos. O sexto capítulo apresenta as conclusões do estudo e, finalmente, encerra-se a tese com as referências bibliográficas utilizadas para sua elaboração. 21 2 TEORIAS DE INTERNACIONALIZAÇÃO DE EMPRESAS Este capítulo apresenta as principais teorias no campo da internacionalização de empresas com foco nas suas duas principais abordagens – a econômica e a comportamental. Para efeitos desta tese, enfatiza-se a abordagem de Networks, um dos desdobramentos da abordagem comportamental, como um caminho analítico para se refletir sobre o recente movimento da inserção internacional das pequenas e médias empresas (PMEs), tema que receberá maior atenção e detalhamento no Capítulo 3. As abordagens teóricas que buscam explicar os fluxos de comércio e de investimento internacional contemplam uma parte tanto vigorosa quanto controversa da ciência econômica. Para Krugmam e Obstfeld (2005), muitas das observações básicas de análise econômica surgidas nos séculos XVIII e XIX sobre as razões que levam as nações a promoverem o comércio internacional, envolvem temas que ainda geram polêmica. Pelo comércio internacional, as economias dos diferentes países estão mais inter-relacionadas do que jamais estiveram antes. Ao mesmo tempo, a economia mundial está mais turbulenta do que há muitas décadas. O objeto de estudo das primeiras investigações científicas sobre o comércio internacional eram as nações, tendo como trabalho precursor a Teoria das Vantagens Absolutas de Adam Smith, publicado em 17762. Em seguida, buscando preencher algumas lacunas não explicadas pela teoria de Smith, Ricardo (1985) desenvolveu a Teoria das Vantagens Comparativas, que serviria como referencial teórico para importantes desdobramentos futuros. Mais recentemente, a partir da década de 1960, o foco destes estudos passou, então, da nação para a empresa. Na busca de compreender os fatores que condicionavam a expressiva expansão das empresas multinacionais pelo globo e o aumento significativo dos volumes de investimento estrangeiro direto (IED), economistas, administradores e acadêmicos passaram a direcionar suas atenções no papel das competências organizacionais, que ajudavam as empresas a ingressarem e obterem êxito em mercados estrangeiros, sobretudo em termos de custos de produção, porte e capacidade de inovação (CAVUSGIL; KNIGHT; RIESENBERGER, 2010). 2 Os princípios da Teoria das Vantagens Absolutas surgiram das ideias de Adam Smith, em sua obra "A riqueza das Nações: Investigação sobre sua Natureza e suas Causas”, publicada em 1776. 22 Para Czinkota e Ronkainen (1993), a empresa que busca uma maior inserção no mercado internacional está, acima de tudo, tomando uma decisão de sobrevivência em um ambiente de negócios que evolui aceleradamente. Neste momento, sua cúpula diretiva deverá estar preparada para responder uma questão crucial: “devemos exportar ou investir no exterior?”. Fatores como a política comercial do país hospedeiro, a possibilidade de acesso a matérias-primas e mão de obra mais baratas, questões de ordem cultural e infraestrutura disponível constituem pauta urgente nos níveis estratégicos da empresa global, exigindo discussões que poderão levar a empresa a optar por diversos modos de entrada em mercados estrangeiros. Fleury e Fleury (2007) incluem outras decisões intrínsecas ao processo de internacionalização de uma empresa, tais como, escolha do país, escolha da estrutura de controle, programação e sequência de investimentos, escolha de produtos a serem produzidos no exterior, forma de transferência de conhecimentos, logística e suprimento da fábrica e modelo de gestão. Todas essas decisões envolvem questões complexas e variadas, tornando necessário o desenvolvimento de teorias capazes de dar suporte às empresas em seus planejamentos estratégicos, bem como aos agentes formuladores de políticas públicas. Para dar conta desta tarefa, a literatura especializada busca explicar (IETTO-GILLIES, apud DIB, 2008): A escolha entre a exportação, a produção no exterior, a franquia internacional ou o licenciamento da produção no exterior; A escolha entre joint venture ou solo venture como estratégia de penetração em mercados estrangeiros; A escolha entre o investimento direto em unidades próprias no exterior (greenfield), a aquisição ou a fusão com empresas estrangeiras; A escolha entre a ampliação interna ou a utilização de estratégias de subcontratação industrial; Os diferentes padrões observáveis entre indústrias e entre empresas nas mesmas indústrias; e O padrão industrial e geográfico do investimento estrangeiro direto ao longo do tempo. De acordo com Goulart et al. (1996), a internacionalização é, geralmente, descrita como um processo crescente e continuado de uma empresa em operações com outros países fora da 23 sua base de origem. As empresas tendem a iniciar sua atuação internacional por meio da atividade exportadora, evoluindo para outros formatos de negócio como licenciamento da produção, joint ventures, ou ainda, a realização de investimentos próprios em territórios estrangeiros. Diante do crescente processo de abertura de mercados e de todos os seus reflexos sobre o ambiente dos negócios, o processo de internacionalização de empresas tornou-se um campo de pesquisa acadêmica, amplamente explorado nas últimas décadas, o que pode ser comprovado pelo seu volume de publicações em anais de congressos e em periódicos da área de administração (MACHADO-DA-SILVA; SEIFERT JR., 2004). Conforme observado por Andersson (2000), existem diversas teorias que tratam do processo de internacionalização de empresas, as quais podem ser agrupadas em duas principais abordagens – a econômica e a comportamental. As abordagens econômicas analisam o fenômeno da internacionalização, a partir das concepções teóricas dos custos de transação, internalização, localização e vantagem monopolista, enquanto as abordagens comportamentais percebem a internacionalização como um processo evolutivo de etapas incrementais, a partir da aquisição de experiência e acumulação de conhecimento em mercados internacionais. 2.1 ABORDAGENS ECONÔMICAS DA INTERNACIONALIZAÇÃO As abordagens econômicas da internacionalização de empresas são pioneiras nas investigações sobre o fenômeno. Essas abordagens privilegiam os aspectos econômicos para explicar o processo de internacionalização de empresas, a partir de decisões predominantemente racionais e objetivas, notadamente aquelas que implicam investimento direto das grandes corporações em mercados estrangeiros. Destacam-se a Teoria do Poder de Mercado de Hymer (1960), a Teoria do Ciclo de Vida do Produto de Vernon (1966), a Teoria de Internalização de Buckley e Casson (1976), e o Paradigma Eclético de Dunning (1988) 3. 3 John Dunning apresentou este conceito, pela primeira vez, em 1976, durante um simpósio em Estocolmo. 24 2.1.1 Teoria do Poder de Mercado Stephen Hymer (1960), economista canadense que desenvolveu boa parte da sua obra no MIT (Massachussets Institute of Technology), é reconhecido como um dos primeiros críticos ao domínio econômico das multinacionais e dos seus reflexos sobre a crescente internacionalização das economias do terceiro mundo, no final dos anos 1960. Para Hymer (1960), as explicações sobre as decisões de investimento estrangeiro direto (IED) das empresas norte-americanas precisavam de novos elementos que não eram previstos pelas teorias do comércio internacional existentes à época, principalmente, quanto às decisões de controle acionário e gerencial das subsidiárias localizadas em outros países. Em sua tese de doutorado, Hymer (1960) buscou definir qual era a lógica que os fluxos de IED obedeciam: a) as leis econômicas do fluxo internacional de capitais, ou seja, movendo-se segundo as diferenças de taxas de juros entre os países (investimento de portfólio); ou b) a lógica das operações internacionais de expansão da firma, no sentido da exploração da propriedade e do consecutivo controle sobre as subsidiárias. Hymer (1960) argumentou que era exatamente a necessidade de controlar as operações em outros países, que determinavam o fluxo de IED das grandes empresas norte-americanas. O controle das operações seria uma condição para que a empresa (multinacional) pudesse se apropriar, integralmente, dos lucros oligopolistas, provenientes de certas vantagens competitivas que ela teria frente aos produtores locais. A obra de Hymer (1960) introduziu novos elementos para os debates sobre o comércio e o investimento internacional. Ao tentar explicar os motivos da expansão das grandes empresas multinacionais em mercados estrangeiros, o autor acabou definindo que, dada a existência de imperfeições de mercado, existiam vantagens em coordenar as operações de produção dentro de uma mesma organização que se expandia atravessando fronteiras e indústrias, contrariando a lógica tradicional de mediação de mercados como, por exemplo, as operações de compra (importação) e venda (exportação) entre diferentes indústrias (RUGMAN, 1981). 25 2.1.2 Teoria do Ciclo de Vida do Produto O trabalho de Vernon (1966) trouxe uma nova perspectiva para a compreensão do processo de internacionalização de empresas no período pós-guerra. Afastando-se da tradição das teorias modernas do comércio internacional, em destacar os custos comparativos como fator condicionante das trocas entre as nações, Vernon (1966) buscou compreender o fenômeno da internacionalização investigando o papel da inovação tecnológica, da economia de escala e do desconhecimento gerado pela informação limitada como determinantes do padrão de comércio e do investimento internacional. No seu artigo “Investimento externo e comércio internacional no ciclo do produto”, Vernon (1966) analisou o comportamento do mercado norte-americano de bens manufaturados e concluiu que a inovação – desenvolvimento de produtos para novas necessidades ou novos processos de produção para produtos já existentes – ocorre basicamente em função de duas razões, a saber: a renda elevada dos consumidores em comparação com outros países; e a substituição dos altos custos de mão de obra pelos bens de capital abundantes no país. A inovação resultante da renda elevada é explicada pelo nível de sofisticação da demanda interna dos Estados Unidos. O elevado padrão de consumo da população norteamericana induz ao surgimento de novas necessidades e, consequentemente, o lançamento de novos produtos pela força empreendedora. A inovação resultante da substituição de mão de obra por bens de capital é expressa no lançamento de novos produtos para satisfazer necessidades, tanto de indivíduos como de indústrias, que envolvem alto custo de mão de obra. Para Vernon (1966), as inovações tecnológicas que levam efetivamente à introdução de novos produtos são intensivas em capital e em mão de obra especializada e, portanto, é mais provável que ocorram em países caracterizados por avançado grau de desenvolvimento econômico. Para explicar como a inovação influencia as decisões de internacionalização das grandes empresas, Vernon (1966), em uma abordagem preliminar, caracteriza a inovação como um processo dinâmico que se divide em três estágios distintos: I. Produto novo; II. Produto em maturação; e III. Produto padronizado. O estágio de produto novo é considerado como um momento crítico da inovação, ainda que transitório. As decisões de investimento e produção são relativamente mais complexas, 26 pois o mercado ainda não percebe as novas possibilidades e vantagens de uso oferecidas pelo bem e, associado a este fato, há um grande grau de incerteza quanto ao tamanho do mercado efetivamente consumidor. Com a progressiva padronização do processo produtivo, o produto entra no seu estágio de maturação. Nessa fase, o emprego de mão de obra qualificada é menos demandado e os insumos e as especificações finais do produto já não estão sujeitas a tantas alterações, possibilitando um maior grau de liberdade para a escolha alternativa de fornecedores e potenciais insumos. O terceiro estágio revela o nível máximo de padronização do produto. Intensificam-se as características centrais do estágio de maturação como experiência adquirida, economia de escala e consumo massificado e, de forma análoga, o produto acaba por atingir sua máxima padronização. Neste momento, a empresa inovadora tende a tomar decisões de internacionalização voltadas à implantação de subsidiárias de produção em mercados estrangeiros, notadamente aqueles que apresentam menores custos de mão de obra. Hemais e Hilal (2004) afirmam que o modelo de Vernon (1966) acabaria recebendo muitas críticas, principalmente a partir da década de 1980, em função do impacto das transformações técnico-produtivas e organizacionais. Diante deste contexto, os novos padrões de comércio induziram diversas multinacionais a adotar a estratégia de lançar um mesmo produto simultaneamente em diferentes países e, paralelamente, os investimentos em indústrias de insumos passaram a não mais seguir a trajetória sugerida pela sua teoria. De fato, a nova configuração industrial que ensaiava o processo de abertura comercial dos países em desenvolvimento trouxe novos elementos para a análise econômica que prejudicavam o poder explicativo da teoria de Vernon (1966). Todavia, deve-se atribuir ao seu trabalho a abordagem sequencial do fenômeno da internacionalização de empresas, uma nova perspectiva que viria a ser utilizada por importantes trabalhos acadêmicos (BUCKLEY; CASSON, 1998). Para Vernon (1966), a empresa ao descobrir uma inovação no seu país de origem procuraria estender deliberadamente o ciclo de vida deste produto em mercados estrangeiros menos desenvolvidos, normalmente iniciando pela atividade exportadora até alcançar modos de entrada mais complexos como a instalação de subsidiárias no exterior. 27 2.1.3 Teoria da Internalização A teoria da internalização tem sua origem nas abordagens econômicas que conferiam às imperfeições de mercado, a razão da expansão das firmas além das fronteiras internacionais, rompendo com as teorias ortodoxas de produção que tinham como pressupostos a maximização do lucro e as condições de concorrência perfeita. Dentre estes trabalhos destacase o artigo de Coase (1937), que propunha que as firmas estariam sempre crescendo, enquanto fosse mais barato racionalizar os custos de transação de um determinado produto internamente, do que adquiri-lo diretamente no mercado (CANTWELL, 1991). Foi o trabalho de Buckley e Casson (1976) que formalizou a teoria da internalização no contexto das multinacionais. A idea central dos autores é a de que a empresa, como estrutura organizativa, nasce para integrar (internalizar) aquelas transações que o mercado realiza de uma maneira ineficiente ou mais dispendiosa para a empresa, principalmente as transações intermediárias de caráter intangível como marketing, pesquisa e desenvolvimento (P&D), transferência de conhecimentos, treinamento de mão de obra, dentre outras. Desta forma, quanto maior as forças das imperfeições dos mercados, maior será a necessidade da firma multinacional em controlar (adquirir) esses ativos alheios a sua propriedade (BARRETTO, 2002). Partindo dessa visão, a internacionalização de uma empresa ocorre exatamente quando a internalização dessas atividades (virtualmente imperfeitas) é processada através das fronteiras. Essa transposição de limites territoriais objetiva, sobretudo, que os recursos e conhecimentos compartilhados no exterior sejam de propriedade exclusiva da empresa, garantindo que as capacidades e os recursos gerados em outros países se tornem competências essenciais da empresa. Assim, ao internalizar as atividades da cadeia de valor baseadas no exterior, é a empresa, e não os produtos, que cruza as fronteiras (BARNEY, 1991). A teoria da internalização origina-se a partir de três pressupostos defendidos por Buckley e Casson (1976): a) firmas maximizam lucros em mercados imperfeitos; b) quando os mercados de produtos intermediários são imperfeitos, há um incentivo para esquivar-se deles, mediante a internalização desses mercados pela propriedade e controle das atividades antes mediadas por aqueles mercados imperfeitos; e c) a internalização de mercados intermediários dá origem às empresas multinacionais. 28 Para Buckley e Casson (1976), uma firma continuará internalizando transações intermediárias até o momento em que os custos dessas operações sejam mais elevados do que os custos que derivam da sua própria integração organizativa. Essa dinâmica seria mediada por cinco imperfeições de mercado, que os autores definem como geradoras de oportunidades de internalização. São elas: 1. Lapsos de tempo entre o início e a conclusão de atividades intermediárias, sem a consolidação dos respectivos mercados futuros; 2. Prática de preços discriminatórios – em determinados setores, a viabilidade do negócio depende de a empresa conseguir comprar, sistematicamente, com preços diferenciados. Nesse caso, a empresa novamente será incentivada a internalizar os mercados intermediários para obter maior poder de controle sobre seus respectivos preços; 3. Incerteza do comprador em relação ao real valor do produto – se a empresa vendedora não consegue convencer pontualmente a empresa compradora acerca do valor do seu produto, ela será incentivada a, dentro de um prazo racional, adquirir o controle a jusante “comprando a incerteza” do comprador; e 4. Políticas governamentais de comércio e investimento exterior – muitos países adotam práticas para proteger produtores domésticos contra a competição externa, criando obstáculos ao fluxo normal de comércio e investimento. Essas proteções incentivam as empresas a buscarem a internalização de mercados nesses países. O estudo de Buckley e Casson (1976) representou um importante avanço para a compreensão do fenômeno da internacionalização de empresas. Ao demonstrar a importância de se minimizarem os custos de coordenação de atividades intermediárias entre as fronteiras nacionais, os autores acabaram destacando as funções da informação e do conhecimento nas decisões de internacionalização, em uma época marcada por intensas inovações tecnológicas. Rocha e Almeida (2006) afirmam que a perspectiva de Buckley e Casson (1976) consolidou a ideia de que o conhecimento que uma empresa detém sobre mercados estrangeiros influencia diretamente a escolha do modo de entrada. Em um momento inicial, tendo em vista a incerteza e o desconhecimento sobre as características de um determinado mercado, a empresa optará pela exportação. Ao longo do tempo, caso este mercado venha a 29 apresentar atributos desejáveis, a multinacional optará pelo investimento direto, de forma a garantir o controle sobre a marca e sobre o know-how. 2.1.4 Paradigma Eclético da Produção Internacional Dunning (1988) propôs o chamado paradigma eclético da produção na tentativa de ampliar as interpretações científicas sobre o padrão, a forma e a amplitude das operações desenvolvidas pelas empresas em mercados estrangeiros, buscando consolidar um arcabouço teórico que envolvia contribuições da teoria dos custos de transação de Coase (1937) e Willianson (1975) e dos desenvolvimentos teóricos da internalização de Buckley e Casson (1976). Os esforços de Dunning (1988) estavam orientados para os elementos econômicos que a empresa deveria analisar para se decidir entre produzir ou não em mercados externos. Para o autor, a existência de falhas de mercado incentivaria a empresa a realizar investimento estrangeiro direto (IED) como modo de entrada em mercados externos, ao invés de utilizar modos menos complexos e arriscados como a exportação ou o licenciamento da produção. Dunning (1988) estabeleceu, todavia, que a pré-condição para a internacionalização via IED seria que a empresa possuísse vantagens diferenciais sobre seus concorrentes localizados naquele mercado para que, consequentemente, pudesse proteger seus ganhos virtuais utilizando-se da sua própria estrutura de produção. Dunning (1988) especifica, então, três condições determinantes da internacionalização de uma empresa por meio de IED que, para lograr sucesso na sua inserção internacional, precisam ser utilizadas em conjunto. São elas: as vantagens da propriedade; as vantagens de internalização; e as vantagens de localização. As vantagens de propriedade (ownership) referem-se ao domínio que a empresa possui sobre determinados ativos como tecnologia, marca, processos produtivos, capital intelectual, patentes e monopólio sobre fontes de matéria-prima. As vantagens de internalização, como visto anteriormente no estudo de Buckley e Casson (1976), decorrem da necessidade de a empresa integrar (internalizar) aquelas operações em que os custos de transacionar com um determinado parceiro internacional são muito dispendiosos. Em outras palavras, a empresa 30 acaba preferindo substituir os custos de mercado (gerados ineficientemente) por custos burocráticos. Por fim, as vantagens de localização tratam das decisões sobre em quais países a empresa deve instalar suas unidades produtivas, em função de determinados atrativos locais, dentre os quais se destacam o acesso a insumos e recursos naturais, custo de mão de obra, o tamanho e a dinâmica dos mercados locais, cadeias de distribuição, escoamento da produção (infraestrutura oferecida) e incentivos governamentais. Posteriormente ao trabalho de Dunning (1988), Porter (1993) reforçou a importância das vantagens de localização como determinante da utilização de investimento externo direto (IED), nas decisões de internacionalização das multinacionais. Porter (1993) afirma que o único conceito significativo de competitividade para as nações é a produtividade das suas indústrias, que depende tanto da qualidade do produto como da eficiência com a qual ele é produzido. Para competir em setores sofisticados, os fatores situacionais que mais importam para as empresas são os que a nação oferece, como recursos humanos especializados ou um know-how científico especial. Estes fatores são decorrentes da combinação de quatro atributos que moldam o ambiente, no qual as empresas competem e que promovem a criação da vantagem competitiva da sua nação. São eles: Condições de fatores – qualidade e especialização dos inputs básicos para gerar competitividade (recursos naturais, recursos humanos, capital, infraestrutura física, infraestrutura administrativa, infraestrutura de informação, infraestrutura científica e tecnológica); Condições de demanda – sofisticação da demanda doméstica e a pressão dos consumidores locais por modernização; Indústrias correlatas e de apoio – a presença ou ausência, no país, de indústrias abastecedoras e correlatas que sejam internacionalmente competitivas; e Estratégia, estrutura e rivalidade das empresas – contexto formado pelos investimentos corporativos, tipos de estratégias empregadas e a intensidade da concorrência local. Dentro deste enforque, a prosperidade nacional pode, então, ser criada, não sendo simplesmente o resultado de dotes naturais ocasionalmente herdados. Mtigwe (2006) afirma que a principal contribuição do paradigma eclético de Dunning (1988) foi o de estabelecer uma correlação positiva entre o sucesso da inserção internacional 31 de uma empresa e a sua capacidade de construir vantagens competitivas duradouras, um conceito que viria a ser utilizado por importantes trabalhos sobre competitividade internacional como Porter (1993) e Prahalad e Hamel (1990). Todavia, haja vista o inexorável envolvimento de volumosos recursos, o pressuposto da propriedade de Dunning (1988) se aplicaria quase que exclusivamente às grandes multinacionais, em função da sua capacidade estrutural diferenciada. Para Mtigwe (2006), o paradigma eclético seria incapaz de explicar a expressiva inserção internacional de pequenas e médias empresas (PMEs), um movimento econômico que passou a ser amplamente estudado por novas correntes teóricas da internacionalização de empresas, como a abordagem de networks e o empreendedorismo internacional. Com efeito, a década de 1990 inaugurou um período de profundas transformações econômicas que relevou o papel das empresas de pequeno porte no comércio internacional. De um lado, consumidores mais exigentes em mercados, cada vez mais saturados, provocaram uma necessidade de constante inovação tecnológica por parte das grandes empresas, requerendo uma série de investimentos para a criação de novos produtos. Além disso, o tempo para amortização dos investimentos reduzia-se, cada vez mais, em função do menor ciclo de vida dos bens, em consequência das constantes inovações tecnológicas, das novas exigências do mercado e da velocidade das comunicações (HOLLENSTEIN, 2005). Desta forma, a criatividade, a inovação e a flexibilidade se tornaram preceitos de excelência empresarial e presume-se, assim, que empresas de menor porte possam ter uma vantagem sobre as grandes corporações. Valendo-se de menores custos de entrada ou saída, maior flexibilidade na alteração de processos, maior velocidade nas decisões e uma maior personificação nos processos de negociação, empresas menores poderão dar mais celeridade às demandas de eventuais clientes estrangeiros, ou mesmo se ajustarem a uma demanda especializada encontrando seu nicho de mercado. As mudanças tecnológicas, especialmente na área da microeletrônica, virtualmente eliminaram as desvantagens das pequenas empresas em termos de custo de produção. Uma nova geração de bens de capital “flexíveis” adaptou-se particularmente bem à estratégia da pequena empresa, que dá preferência a pequenas quantidades de produtos especializados e encomendas sob medida. Relatórios de organizações internacionais como a UNCTAD (1993) e, posteriormente, OECD (1997), já destacavam a necessidade de se estabelecer políticas públicas de apoio à inserção internacional de PMEs, dada a amplitude e ao impacto das questões socioeconômicas envolvidas. Essas pesquisas buscavam analisar a grande diversidade de fatores críticos de 32 sucesso para a inserção competitiva de PMEs no comércio internacional, em função das suas naturais deficiências em termos de disponibilidade de recursos. Dentre esses fatores de sucesso, Alvarez (2004) destaca que a inserção internacional de PMEs pode ser facilitada pela escolha de nichos de mercado com maior conteúdo tecnológico, do apelo em inovação e da utilização de redes de relacionamentos com players de comércio exterior. Posteriormente, Oviatt e McDougall (1999) confirmariam o expressivo aumento na internacionalização de PMEs durante a década de 1990. Para os autores, a crescente busca das grandes empresas multinacionais em orientar seus esforços nas suas competências essenciais e a consequente adoção de estratégias de downsizing, criaram novas oportunidades de internacionalização para o segmento das PMEs, principalmente em virtude das novas formas de subcontratação industrial que acabariam por posicionar pequenos negócios em cadeias internacionais de fornecimento. Esse período marcaria a necessidade de estudos mais aprofundados sobre os motivos que levam os pequenos negócios a buscarem relações de negócios com empresas estrangeiras, um fenômeno pouco explicado pelas abordagens de internacionalização de foco econômico. 2.2 ABORDAGENS COMPORTAMENTAIS DA INTERNACIONALIZAÇÃO De acordo com Hemais e Hilal (2002), até a metade do Século XX, poucos economistas se preocupavam com o que ocorria no interior da firma, uma vez que o foco dos seus estudos estava mais voltado para as questões macroeconômicas do comércio internacional. O redirecionamento foi feito a partir dos trabalhos de Penrose (1959), Cyert e March (1963) e, posteriormente, Aharoni (1966) que estabeleceram os fundamentos da teoria da firma como um campo independente de estudos. No início da década de 1960, a economista Edith Penrose (1959) incorporou em sua análise elementos que eram ignorados pelas tradicionais abordagens de mercado para explicar as razões que determinavam o crescimento de uma firma. Seu objetivo era o de compreender até que ponto os fatores macroeconômicos, como balanço de pagamentos e taxa de câmbio, ou microeconômicos, como preços relativos e a alocação de recursos, promoviam ou limitavam o crescimento de uma determinada empresa. 33 Deslocando a unidade de análise para a firma, Penrose (1959) partiu da premissa de que uma empresa é um conjunto de recursos organizados administrativamente que cresce e procura sobreviver em torno da concorrência, sendo que seus limites de crescimento são definidos pela forma com que o seu esforço de gestão lida com tais recursos. A autora sugeriu que o crescimento da firma estaria diretamente associado a sua aquisição de conhecimento, obedecendo a um processo de acumulação de experiência coletiva na firma. Em outras palavras, Penrose (1959) estava afirmando que é a firma que, estrategicamente, molda o mercado, ao invés de apenas reagir passivamente aos seus movimentos. À medida que as firmas fossem se desenvolvendo e respondendo às oportunidades mercadológicas, elas se modificariam, aumentariam a sua diferenciação e, consequentemente, o seu tamanho e o seu grau de penetração nos mercados. Dessa forma, Penrose (1959) afastou-se do pressuposto clássico da economia, de que o limite de crescimento da firma seria determinado pela demanda existente. Cyert e March (1963) buscaram demonstrar que a tomada de decisões de uma firma baseada em fatores econômicos necessita, paralelamente, do estudo sobre o comportamento dos agentes internos e dos seus reflexos sobre as operações, sugerindo a carência de um diálogo entre o econômico e o comportamental. A firma é vista por esses autores como um grupo de coalizões de interesses múltiplos e conflitantes e que operam em condições de racionalidade limitada. Operando sob incertezas e dentro de um mercado imperfeito, o processo de tomada de decisão da firma, segundo o modelo de Cyert e March (1963), é influenciado por quatro fatores inerentes à própria natureza das organizações. São eles: a) a “quase-resolução de conflitos” derivada da própria incapacidade em se obter o consenso organizacional nas decisões, demandando negociações e renegociações contínuas dos interesses dos grupos; b) a “fuga da incerteza” que gera a tendência em se resolverem problemas mais urgentes, em detrimento de se desenvolverem estratégias de longo prazo; c) a “busca estimulada de problemas” decorrente da experiência acumulada, da capacitação e dos próprios objetivos dos gestores; e d) a “aprendizagem organizacional” como um comportamento adaptativo, a partir do qual as organizações modificam seus objetivos, adotam novos focos e revisam seus procedimentos pelas experiências adquiridas ao longo do tempo. Finalmente, Aharoni (1966) estendeu o modelo de Cyert e March (1963) ao plano internacional. A ideia central de Aharoni (1966) consistiu em mostrar que as decisões de internacionalização raramente são baseadas em processos sofisticados e bem estruturados. Ao contrário, o comportamento oportunista, a coincidência e a existência de um momento 34 propício, geralmente é que determinam o desencadeamento do processo de internacionalização. A iniciativa da empresa em transpor fronteiras internacionais forma-se de maneiras variadas, podendo se originar a partir de iniciativas irrefletidas de determinados atores da organização, ou de fluxos de atividades que eventualmente invadem a organização (pressões do ambiente externo) ou de convergências espontâneas no comportamento desses atores. Para Aharoni (1966), as estratégias voltadas à internacionalização emergem em circunstâncias nas quais as empresas passam a acreditar no comércio externo, como uma boa oportunidade de expansão para os seus negócios e passam, gradativamente, a tomar decisões que vão moldando o escopo da sua atuação internacional. 2.2.1 O Modelo Uppsala As contribuições de Penrose (1959), Cyert e March (1963) e Aharoni (1966) criaram referenciais teóricos que motivaram alguns estudiosos a perceberem a importância das questões de ordem comportamental no processo de internacionalização das empresas. Expressões-chave como aprendizagem organizacional, acumulação de experiência coletiva, limites da racionalidade humana, fuga de incertezas e metas sequenciais acabaram exigindo uma nova sensibilidade para o estudo empírico das questões envolvidas no processo de internacionalização, aumentando a necessidade de se buscar uma maior familiaridade com o que de fato ocorre no interior das empresas. As organizações passavam a ser consideradas como coalizões de grupos de interesses conflitantes, cujo processo decisório é baseado em experiências passadas, regras e normas adotadas de forma gradual e incremental. De fato, o comportamento da empresa seria resultante de uma miríade de decisões incrementais cotidianas. A partir dessas contribuições, pesquisadores da Universidade de Uppsala, Suécia, desenvolveram uma linha de raciocínio que privilegiava as questões de ordem organizacional, como elemento explicativo do processo de internacionalização. Buscava-se, agora, investigar a percepção dos administradores quanto às incertezas e aos benefícios da atuação internacional como um fator condicionante do ingresso e da evolução (comprometimento) das empresas neste processo. 35 Dentre as abordagens destacam-se o modelo de internacionalização de Uppsala com enfoque em processos (JOHANSON; VALHNE, 1977) e com enfoque em networks (JOHANSON; VALHNE, 1990). O denominado “Modelo Uppsala” foi desenvolvido por Johanson e Valhne (1977) na Universidade de Uppsala, e é considerado um marco no estudo sobre internacionalização de empresas. Propondo ir além das limitações dos aspectos econômicos para entender os processos de tomada de decisão associados à internacionalização de empresas, Johanson e Valhne (1977) buscaram demonstrar que o processo de internacionalização ocorria, segundo uma ordem incremental, em virtude das incertezas (racionalidade limitada) e das imperfeições das informações recebidas sobre o novo mercado que se vislumbrava. Esta ótica incremental sugeria que as empresas iniciariam a internacionalização das suas operações em pequenos passos, ao invés de realizarem grandes investimentos em solo estrangeiro, logo nas suas primeiras experiências (HEMAIS; HILAL, 2002). Johanson e Valhne (1977) ressaltam a forte influência da teoria comportamental da firma de Cyert e March (1963), tomando as firmas como um complexo de redes de relacionamentos, em que a habilidade de aprender, a partir da acumulação de experiências, seria uma das ferramentas mais importantes. Desta forma, a sequência natural dos modos de entrada de uma empresa em mercados estrangeiros se iniciaria com um leve envolvimento como, tipicamente, uma exportação por intermédio de um agente internacional responsável pelo contato com potenciais importadores estrangeiros. Com efeito, a falta de conhecimento sobre os canais de distribuição nos países estrangeiros, questões de ordem cultural, procedimentos aduaneiros, barreiras tarifárias e regimes de câmbio diferenciados criariam, em um primeiro momento, impedimentos para a realização de operações internacionais mais complexas e arriscadas como, por exemplo, a implantação de uma subsidiária de produção em solo estrangeiro. A forma gradual com que as empresas se envolvem com mercados estrangeiros, advogada pelo modelo de Johnason e Valhne (1977), tem suas raízes no estudo empírico de Johanson e Wiedersheim-Paul (1975) sobre o comportamento de firmas suecas como Volvo, Facit e Atlas Copco. De acordo com esse estudo, as empresas tendem a obedecer a um processo gradativo de envolvimento com o mercado externo, dividido em quatros estágios: 1 Estágio – atividades não regulares de exportação; 2 Estágio – exportação via agentes independentes; 36 3 Estágio – implantação de uma subsidiária de vendas no exterior; e 4 Estágio – implantação de uma subsidiária de produção no exterior. O modelo de internacionalização de Johanson e Valhne (1977) contribuiu para consolidar um mecanismo explicativo básico sobre as etapas de um processo de internacionalização. Tomando a empresa como unidade de análise, a ideia central do modelo era demonstrar que a empresa adquire, incorpora e usa o conhecimento obtido, a partir de mercados e operações estrangeiras e, consequentemente, a acumulação deste conhecimento gera um crescente e sucessivo comprometimento da empresa com os mercados estrangeiros. O processo de internacionalização de uma empresa deixou de ser visto como única consequência da ótima alocação de recursos, conforme as condições macroeconômicas dos países, ou de questões microeconômicas como as dinâmicas industriais entre as empresas, conforme preconizado pelas abordagens econômicas da internacionalização. Na visão da escola nórdica, o processo de internacionalização obedece a um padrão incremental, pelas incertezas sobre o funcionamento dos mercados estrangeiros e do próprio comportamento dos seus gestores, no sentido de reduzir os riscos inerentes a tais incertezas. Para Johnson e Valhne (1977), à medida que o processo de internacionalização evolui por estágios, há um maior comprometimento das empresas com as operações internacionais, representado pela efetividade da alocação dos recursos em um nível tal de especialização, que seria difícil retroceder. Ao passar da condição de exportadora para estágios de maior comprometimento, a empresa assume riscos de longo prazo e cria laços mais difíceis de serem desfeitos como, por exemplo, a instalação de uma subsidiária de produção no exterior. Nas exportações, por outro lado, a empresa pode voltar atrás e se retirar de um mercado com um volume de perdas muito menor. Em outras palavras, o processo de internacionalização pressupõe tanto a evolução como o retrocesso das empresas no seu comprometimento com o mercado externo. No comprometimento com grau reduzido, a internacionalização caracteriza-se pela constância em atividades de exportação e pelo emprego mínimo de recursos e investimentos no exterior, o que possibilita que a empresa possa abandonar um mercado estrangeiro que se tornou por demais competitivo ou pouco lucrativo. A empresa pertencente a essa categoria pode, ainda, em determinado momento, centrar sua atenção sobre o mercado doméstico do seu país, reduzindo o volume das operações internacionais sem grandes riscos em termos de 37 recursos. Já no comprometimento com grau elevado, além da realização de operações de exportação para diversos mercados, a internacionalização caracteriza-se por um maior emprego de recursos em nível internacional e pela busca de retorno de longo prazo, não pautando suas decisões na conjuntura econômica momentânea. No intuito de representar graficamente estes ciclos, Johnson e Valhne (1977) descrevem, em seu artigo, o mecanismo básico de internacionalização: Figura 1 - Mecanismo Básico da Internacionalização Aspectos de Estado Aspectos de Mudança Conhecimento de Mercado Decisões de Comprometimento Comprometimento de Mercado Atividades Correntes Fonte: Johanson e Valhne (1977). De acordo com esse “mecanismo”, na medida em que a empresa adquire conhecimento sobre um determinado mercado estrangeiro, toma decisões com vistas a comprometer recursos nesse mercado. O comprometimento de recursos gera maior dinâmica de interação da empresa com o novo mercado (atividades correntes), que representa a maior fonte de conhecimento experencial que, por seu turno, gera recursos para serem novamente comprometidos. Desta forma, o estado atual de conhecimento de mercado e o estado atual de comprometimento de recursos para este mesmo mercado determinam o nível atual de atividades internacionais e as novas decisões de comprometimento, as quais alavancarão a mudança para o próximo estágio de internacionalização. Outra questão que Johanson e Valhne (1977) destacam, como decisiva na tomada de decisão de internacionalização, é o conceito de “distância psíquica”, uma expressão referida inicialmente por Johanson e Wiedersheim-Paul (1975) e que viria, posteriormente, influenciar diversos estudos sobre internacionalização. Definida como a soma de fatores que interferem 38 no fluxo de informações entre empresas localizadas em países distintos, tais como idioma, diferenças de nível de desenvolvimento, diferenças culturais, linguagem de negócios e os vínculos sociais e políticos, a distância psíquica é um fator que pode dificultar ou, até mesmo, impedir o aprendizado e o entendimento sobre o funcionamento de um determinado mercado estrangeiro (NORDSTRON; VALHNE, 1994). Dessa forma, haveria uma propensão das empresas em realizar seus investimentos iniciais em países nos quais elas encontrariam uma menor distância psíquica e, somente de forma gradual, tenderiam a penetrar em mercados mais distantes. Os modelos de internacionalização de etapas tiveram um importante papel junto aos programas governamentais de apoio às exportações em diversos países (ITC, 1997). Numa tentativa de melhorar a eficácia dos programas de inserção internacional de PMEs, o International Trade Center, reconhecida organização internacional no auxílio às economias emergentes, sugere que o foco dos programas seja orientado pelas necessidades intrínsecas ao estágio das empresas no processo de internacionalização, conforme demonstrado no quadro 01: Quadro 1 - Internacionalização de Empresas e Assistência Institucional Estágio de Internacionalização 1. Não Exportador 2. Exportador Reativo Foco dos Programas de Assistência Estimular a percepção sobre as oportunidades e os benefícios da atividade exportadora. Motivar e fornecer informações sobre mercados potenciais. 3. Exportador Ativo Treinamento em gestão e sistemática de comércio exterior, capacitação tecnológica e auxílio na promoção comercial (feiras e missões). 4. Exportador Comprometido Estruturação organizacional para o comércio exterior, crédito orientado, informações sobre barreiras técnicas e políticas de networking. Fonte: International Trade Center – ITC (1993). A associação do nível de comprometimento da empresa em mercados estrangeiros com o volume de recursos empregados motivou o referenciado trabalho de Sullivan (1994). De acordo com o autor, não há consenso na literatura existente sobre um modelo efetivo para medir o grau de internacionalização de empresas. As pesquisas realizadas com esse propósito revelaram “resultados contraditórios e arbitrários”, utilizando uma abordagem instrumental livremente estruturada sobre um exame das evoluções das empresas, das suas estruturas 39 físicas e dos seus processos em solo estrangeiro. Da mesma forma, Sullivan (1994) destacou outras pesquisas que defendem a escolha de uma única variável para a mensuração do grau de internacionalização, porém, cada uma trabalhando com uma única variável distinta, o que resulta em uma grande variedade de medidas, tornando, cada vez mais, difícil a adoção de um padrão. Sullivan (1994) propôs, então, uma metodologia para medir o grau de internacionalização de empresas, em particular, as multinacionais. Ao pesquisar uma amostra de 74 empresas norte-americanas industriais que apresentavam elevado volume de receitas externas, o autor construiu uma combinação linear de itens precedida por uma análise fatorial, o que auxiliou na identificação das variáveis mais significativas para a mensuração do grau de internacionalização da uma empresa. São elas: a) vendas no exterior sobre o total de vendas; b) ativos no exterior sobre ativo total; c) número de subsidiárias no exterior sobre número de subsidiárias domésticas; d) dispersão física das vendas externas; e e) experiência internacional da alta gerência. Dessa forma, o grau de internacionalização resultaria do somatório dessas variáveis, como o que segue: GIN = VETV +AXAT + SESD + DFVE + EIAG, onde: GIN= escala do grau de internacionalização VETV= vendas externas sobre o total de vendas AXAT= ativos no exterior sobre ativo total SESD= nº de subsidiárias no exterior sobre nº de subsidiárias domésticas DFVE= dispersão física das vendas externas EIAG= experiência internacional da alta gerência No modelo de Sullivan (1994), as variáveis foram convertidas em taxas, de modo que o grau de internacionalização possa variar numa escala de zero – nenhum envolvimento com operações internacionais – até cinco, grau que revela o total envolvimento da empresa com mercados estrangeiros. Ramaswamy, Kroeck e Renforth (1996) criticam o modelo de Sullivan (1994), afirmando que a complexidade do processo de internacionalização não pode ser expressa em um cálculo linear. Para os autores, as empresas podem regredir no seu processo de internacionalização retornando a fases anteriores, devido a condicionantes do ambiente macroeconômicos ou mesmo à adoção de um novo direcionamento estratégico, o que não 40 significa, necessariamente, uma redução qualitativa no seu grau de internacionalização. Finalizam sua argumentação, afirmando que o conhecimento sobre o fenômeno da internacionalização de empresas ainda não permite a construção de indicadores agregados capazes de captar toda a sua complexidade. Em artigo posterior, Sullivan (1996) rebate as críticas ao seu modelo, enfatizando que o conhecimento sobre internacionalização de empresas é vasto e resultante de um acúmulo de mais de duas décadas de pesquisa científica. O autor reforça a validade do seu modelo pela sua aplicabilidade prática, mas ressalta que esse campo de conhecimento ainda é incapaz de generalizar seus resultados sobre o amplo e heterogêneo segmento dos negócios empresariais. 2.2.2 Desdobramentos Teóricos ao Modelo Uppsala Na literatura recente sobre negócios internacionais, percebe-se uma evidente concordância em se afirmar que o modelo Uppsala consolidou importantes fundamentos teóricos sobre o processo de internacionalização de empresas (AABY; SLATER, 1989; ANDERSEN, 1993; MOEN; SERVAIS, 2002). No entanto, vários também são os estudos que criticam o modelo de Johnason e Valhne (1977), pela perda gradativa de seu poder explicativo. Para Hemais e Hilal (2004), uma crítica recorrente ao modelo Uppsala refere-se à concepção da internacionalização de empresas como um processo sequencial (gradual) de envolvimento das empresas com mercados estrangeiros. Estudos anteriormente, realizados como Hedlund e Kverneland (1985) e Welsch e Luostarinen (1988), demonstraram vários casos de empresas que suprimiram (saltaram) as etapas iniciais do processo de internacionalização, adotando caminhos mais curtos e rápidos para etapas mais avançadas, como a instalação de subsidiárias de produção no exterior. Estes “saltos” não previstos no modelo Uppsala parecem ser ainda mais frequentes em setores de alta tecnologia. Uma das explicações seria o fato de as empresas high tech-based poderem se tornar intensas exportadoras logo no início do seu ciclo de vida, simplesmente porque o mercado doméstico ainda não oferece oportunidades suficientes para garantir um faturamento compatível com as 41 expectativas de retorno dos seus empreendedores que, dado o seu perfil, já possuem alta prédisposição à aceitação dos riscos envolvidos nas operações internacionais. A apreciação da “distância psíquica” como fator condicionante de internacionalização também foi bastante criticada pela sua baixa comprovação em determinadas condições de mercado. Uma das críticas é apresentada pelo trabalho de Nordström (1991), que balizou seus argumentos na homogeneização de mercados, promovida pelo crescente processo de abertura de mercado. Para esse autor, os acordos econômicos multilaterais e a tecnologia da informação ampliaram as fronteiras do comércio internacional, facilitando o acesso das empresas a um número muito maior de países. Esta nova dinâmica reduziu os efeitos das questões de ordem cultural, de idioma e de distância física como fatores inibidores de entrada em mercados estrangeiros. Para Forsgren (1989), o modelo Uppsala é válido apenas para explicar a internacionalização de uma empresa nos seus estágios iniciais, momento em que tanto o desconhecimento sobre o funcionamento dos mercados estrangeiros como a pouca disponibilidade de recursos para atuação internacional revelam-se como fatores influenciadores da tomada de decisões. Kraus (2000) é cauteloso ao analisar o modelo Uppsala, afirmando que este reflete a experiência de empresas em um país de muitas particularidades, para as quais o reduzido mercado doméstico identifica a atuação internacional, como uma alternativa óbvia para a ampliação do seu volume de negócios, estando, ainda, a internacionalização ligada à atuação em mercados fisicamente distantes. O autor destaca, também, que o êxito exportador sueco deve-se, em boa parte, a sua neutralidade durante as duas grandes guerras do Século XX, associada ao fato de ter fornecido produtos, fortemente vinculados ao setor metalúrgico, para os países envolvidos nos dois lados do conflito. Uma boa explicação para a forte representatividade das multinacionais suecas no mercado internacional como Volvo, SKF, Electrolux, White Martins, Ericsson, dente outras. Não obstante as críticas, o modelo Uppsala continua sendo considerado um referencial teórico central na vasta literatura sobre negócios internacionais. Os próprios Johanson e Valhne (1990) reconheceram, posteriormente, que o modelo foi concebido por um esforço inédito para explicar o fenômeno da internacionalização de empresas, a partir de questões ainda pouco exploradas à época. Apresentando uma ampla revisão sobre os vários estudos que testaram, empiricamente, esse modelo em outros países, os autores reconheceram as limitações do poder explanatório de alguns dos seus fundamentos, em especial a dificuldade 42 de se generalizar a aplicação da distância psíquica e do gradualismo sobre o “amplo espectro do fenômeno da internacionalização”. Em um estudo posterior, Johanson e Valhne (2003) defenderam a necessidade do desenvolvimento de novos modelos de internacionalização, capazes de explicar o comportamento além-fronteira das empresas, segundo uma nova dinâmica de competição global, associada ao acelerado ritmo de desenvolvimento tecnológico. Mais recentemente, Johanson e Valhne (2009) apresentam uma revisão do modelo Uppsala dada a “complexidade” do mercado, defendendo uma nova visão sobre o processo de internacionalização de empresas não mais puramente como uma sequência de etapas planejadas por uma análise racional. Ao contrário, o processo seria precipuamente orientado por relacionamentos interorganizacionais, baseados na confiança e no compromisso com parceiros estrangeiros, predicados agora entendidos pelos autores como recursos fundamentais para a internacionalização de empresas, dadas as naturais incertezas envolvidas neste processo. A internacionalização, como processo contínuo, passa a ser vista como o resultado de esforços de gestão voltados ao fortalecimento da posição que a organização ocupa na rede de relacionamentos, que se traduz em como melhorar e proteger sua posição no próprio mercado. 2.2.2.1 Abordagem de Networks Os estudos sobre as redes de relacionamento social encontram-se em um processo contínuo de ampliação e propagação em diversos campos do saber, incluindo o surgimento de novas abordagens e aplicações. Sua base conceitual vem se tornando um caminho analítico para a investigação e a compreensão de diversos fenômenos da vida em sociedade, com destaque para os campos da sociologia, da antropologia e dos estudos organizacionais (SCOTT, 2000). Não foi diferente com a escola comportamental da internacionalização. Utilizando extensivamente o termo networks, os autores nórdicos também passaram a abordar as redes de relacionamento dentro da perspectiva do modelo Uppsala, no intuito de preencher algumas de suas lacunas, afirmando que o processo de internacionalização de uma empresa estaria 43 associado ao fato de estar, primeiramente, conectada a uma rede doméstica e, posteriormente, expandiria esse relacionamento social para outros países. Hemais e Hilal (2002) consideram o tema das networks como uma “evolução natural do pensamento da Escola de Uppsala”. Focalizando seus estudos nas relações entre firmas e entre mercados industriais, uma nova corrente da escola nórdica passou a investigar a internacionalização, a partir de redes de empresas que se vinculam por meio de contínuas trocas de informação, produtos, serviços e tecnologia. Compartilhando a mesma base conceitual do modelo Uppsala, o estudo de Johanson e Mattsson (1988) buscou estabelecer a relação entre o processo de internacionalização das empresas e a existência de redes de relacionamento social estabelecidas no interior das diversas indústrias, muitas vezes, organizadas pela lógica das cadeias de suprimento ou para criar valor para os consumidores. Ao partir do pressuposto que o próprio mercado deve ser entendido como uma rede de negócios, Johanson e Mattsson (1988) consideraram a internacionalização como um processo interativo entre as vantagens competitivas de empresas participantes da mesma rede, ou seja, a internacionalização de uma empresa ocorre quando esta estabelece e desenvolve posições em relação a contrapartes em redes estrangeiras. Essa aproximação ocorre pela existência de laços cognitivos e sociais que se formam entre os vários atores inseridos nessas relações de negócios, envolvendo a dependência de recursos externos, tempo e esforços para a construção de parcerias e desenvolvimento de relações de conhecimento e confiança mútua (BJÖRKMAN; FORSGREN, 2000). Uma das questões centrais do estudo de Johanson e Mattsson (1988) consiste na suposição de que as empresas são naturalmente dependentes de recursos controlados por outras empresas. Desta forma, para que possam realizar as suas atividades, as empresas precisam interagir, trocar mercadorias, ativar canais de distribuição, intercambiar conhecimento e outras ações que demandam a construção de uma base de conhecimento e confiança mútuos, que ocorre de forma gradual e cumulativa. A perspectiva de networks sugere, então, que o contexto dos negócios internacionais de uma empresa baseia-se, em grande parte, em relacionamentos específicos com atores localizados em outros países (importadores, fornecedores, subsidiárias etc.), constituindo, muitas vezes, os fatores decisivos subjacentes ao processo de internacionalização da firma. Dessa forma, pode-se afirmar que o grau de internacionalização de uma empresa reflete, não somente os recursos alocados nos mercados externos, mas também, o próprio grau de internacionalização da rede na qual ela está inserida (HEMAIS; HILAL, 2002). 44 Para Johanson e Mattsson (1988), o processo pelo qual as empresas estabelecem e desenvolvem posições nos mercados externos depende da associação entre duas características básicas: o grau de internacionalização da empresa; e o grau de internacionalização da própria rede a qual ela pertence, conforme pode ser observado no Quadro 2. Quadro 2 – Internacionalização na Perspectiva de Networks Baixo grau de internacionalização do mercado Alto grau de internacionalização do mercado Baixo grau de internacionalização da empresa Empresa de internacionalização iniciante (The early starter) Empresa de internacionalização tardia (The late starter) Alto grau de internacionalização da empresa Empresa de internacionalização solitária (The lonely international) Empresa de internacionalização coletiva (The international among others) Fonte: Johanson e Mattsson (1988). A partir do esquema proposto pelos autores, as empresas poderiam ser classificadas nestas quatro categorias: Empresa de internacionalização iniciante – a empresa atua em um mercado com baixo grau de internacionalização, ocorrendo poucas relações entre empresas localizadas em diferentes países. A possibilidade de atuar em outros países com diferentes idiomas, outras culturas e costumes e práticas comerciais desconhecidas, aumenta o nível de incerteza dos seus gestores, levando-os a buscar apoio em agentes intermediários para ingressar em mercados estrangeiros. Conforme preconizado pelo Modelo Uppsala, o aprendizado experiencial torna-se uma questão crítica criando um padrão de internacionalização lento e incremental; Empresa de internacionalização solitária – trata-se de uma empresa já com larga experiência internacional e comprometimento com mercados estrangeiros que deseja penetrar em mercados pouco internacionalizados. Esta situação foi bastante vivenciada por multinacionais, sobretudo norte-americanas e europeias, quando do seu ingresso em países economicamente fechados durante o processo de abertura comercial da década de 1990; 45 Empresa de internacionalização tardia – situação na qual as redes de relacionamento são decisivas para o ingresso de novas empresas no mercado internacional. A empresa eminentemente doméstica, mas já com capacidade produtiva, é impulsionada por outros atores da sua network, pelo alto grau de internacionalização do mercado. Seus gestores decidem por ampliar seus conhecimentos sobre as práticas de comércio internacional e sobre os fatores que condicionam o sucesso nesta área, principalmente, no que tange a melhoria do nível de qualidade ofertado; e Empresa de internacionalização coletiva – situação na qual há uma predominância de empresas altamente internacionalizadas, atuando em um determinado mercado que concentra e integra networks de diferentes origens. O processo de internacionalização das empresas ocorre de forma acelerada. Estas empresas, muitas vezes, deixam de realizar investimentos diretos mais permanentes em países anfitriões, optando por investimentos colaborativos mais flexíveis com parceiros independentes de negócios como, por exemplo, acordos de joint ventures. Percebe-se a influência do modelo Uppsala sobre o modelo de Johanson e Mattsson (1988), principalmente no que concerne a acumulação de experiência como fator condicionante do processo de internacionalização. Todavia, há uma diferença central entre a perspectiva de networks e o modelo Uppsala: o padrão heterogêneo do modo de entrada. Segundo o modelo Uppsala, as empresas tendem a escolher modos de entrada, invariavelmente menos complexos, como a utilização de agentes intermediários ou, até mesmo, a exportação direta. O modelo de redes, por sua vez, preconiza que as forças competitivas que agem nas indústrias (mercados), altamente internacionalizados, criam um padrão heterogêneo de oportunidades de entrada pelo rápido estabelecimento de redes de ralacionamento nos novos mercados. Os relacionamentos (pessoais ou de negócios) acabam sendo utilizados como pontes para entrada em outras redes, resultando na adoção de múltiplos modos de entrada como exportação, joint ventures, licenciamento, subsidiárias de vendas ou subsidiárias de produção. Em outras palavras, tal heterogeneidade motivará a firma a escolher mercados e estratégias de entrada que poderão ser bem diferentes do que é previsto pelo modelo Uppsala. Posteriormente, o estudo de Johanson e Valhne (2003) enfatizou a influência das redes de relacionamento sobre o processo de internacionalização de empresas. Buscando preencher 46 as lacunas deixadas pelos “velhos modelos de internacionalização incremental”, os autores reconheceram a necessidade de se conceberem novos modelos, capazes de explicar a acelerada internacionalização de novos empreendimentos que fugia ao padrão gradual dos modelos da década de 1970. Mantendo sua ideia inicial (JOHANSON; VALHNE, 1977) de que o processo de internacionalização resulta da combinação entre experiência adquirida e comprometimento com mercados estrangeiros, os autores passaram, então, a defender que estas duas variáveis dependem diretamente do potencial dos parceiros de redes já existentes. A internacionalização de empresas deixa de ser vista não somente como uma questão de produção no exterior, como também, um fator de relacionamentos potenciais além das fronteiras. Johanson e Valhne (2003) definiram redes como os conjuntos de relacionamentos de negócios interconectados por empresas. Neste processo, cada empresa-parceira de uma rede aprende, gradativamente, sobre as demandas das demais, em termos de recursos, estratégias e práticas de negócios. Desta forma, ao adquirirem conhecimento por meio de seus relacionamentos, as empresas criam oportunidades para entrar em novos mercados estrangeiros, nos quais poderão estabelecer outros novos relacionamentos que lhes servirão de base para entrar em outros novos mercados estrangeiros. Esta dinâmica sugerida pelos autores considera a capacidade da empresa em desenvolver parcerias em outros países, como fator crítico para o sucesso do seu processo de internacionalização, não só pela sua efetividade como fonte de expansão internacional, mas também pela própria complexidade envolvida na lenta e dispendiosa tarefa de se construir redes de relacionamento. Para Coviello (2006), em virtude da dinâmica de relacionamento entre os atores (gestores de empresas), a abordagem de networks consegue explicar determinados processos de internacionalização que não se enquadram no modelo Uppsala, em particular, casos que envolvam pequenas e médias empresas (PMEs), cujo crescimento tende a ser dependente de recursos externos e de relacionamentos com outros atores. A abordagem de networks pode oferecer uma nova perspectiva para os estudos sobre internacionalização das PMEs, cuja inserção internacional implica enfrentamento de diversos obstáculos, decorrentes das suas naturais carências. As desvantagens que essas empresas possuem em relação às grandes organizações, as dificuldades de modernização e ganho em eficiência para poder competir internacionalmente, a exposição proibitiva a riscos típicos da atividade internacional, os obstáculos relacionados à diversidade de normas técnicas e de cultura estrangeiras, além do 47 alto custo das ações de promoção comercial no exterior são, dentre outras, barreiras que podem ser reduzidas, senão superadas, pelos efeitos sinérgicos das redes de relacionamento. Neste contexto, os recursos demandados pelas ações de internacionalização poderão ser supridos pelos outros atores da rede, ou compartilhados de forma a torná-los viáveis para um maior grupo de empresas associadas a esta mesma rede. Diante dessa afirmação, destaca-se o papel crucial do gestor na articulação da empresa junto a uma rede selecionada, no momento em que se inicia a sua inserção internacional (COVIELLO; MUNRO, 1995). 2.2.2.2 Empreendedorismo Internacional O empreendedorismo vem se constituindo em uma área de estudos amplamente explorada pela ciência da administração, tendo suas demandas sustentadas pelas políticas públicas, voltadas a geração de emprego e renda, por meio da criação de negócios sustentáveis (FILION, 1991). Para Jones e Coviello (2005), o campo do empreendedorismo vem, gradativamente, sendo observado pelas teorias de internacionalização de empresas. Nos anos recentes, há uma grande tendência em aproximar os dois campos, na busca por respostas mais precisas para o complexo fenômeno da internacionalização, notadamente quando o foco dos estudos está sobre o amplo e heterogêneo segmento das PMEs. De acordo com McDougall e Oviatt (2003), a expressão empreendedorismo internacional foi inicialmente descrita por Morrow (1988), ao fazer referência a um recente e expressivo movimento de “novos empreendimentos de nível internacional” promovido pela lógica da economia global. Os autores consideram o empreendedorismo internacional como um novo campo de estudos multidisciplinares, atraindo o interesse de acadêmicos de disciplinas como marketing, gestão empresarial e negócios internacionais. No entanto, pela sua natureza multidisciplinar, ainda existem lacunas a serem preenchidas por um framework teórico mais unificador e conclusivo. Posteriormente, Oviatt e McDougall (2005) afirmam que as lacunas tendem a persistir pela divisão existente entre os autores que dominam as teorias de negócios internacionais, mas não demonstram conhecimento sobre empreendedorismo e, os que possuem este 48 conhecimento, mas não guardam proximidade com as teorias de negócios internacionais. Para Oviatt e McDougall (2005), a contribuição central do empreendedorismo internacional está na ampliação dos estudos sobre internacionalização de PMEs. Tradicionalmente, as teorias de internacionalização consideram que as PMEs iniciam suas operações internacionais em uma etapa posterior ao processo de sua criação, ou seja, um pequeno negócio normalmente não nasce com a ambição de exportar. Os autores relatam, então, diversos casos de PMEs que já nasceram globais (born global). O conceito born global tornou-se um dos mais difundidos temas nas recentes pesquisas sobre internacionalização de empresas, os quais buscam explicar as razões que levam determinadas PMEs a ingressarem, rapidamente, nas operações internacionais e nelas permanecerem com relativo sucesso. Essas empresas pulam as etapas iniciais do processo de internacionalização, por se beneficiarem, desde cedo, das redes de contatos com agências de fomento, institutos de pesquisa tecnológica, associações empresariais e parceiros estrangeiros, destacando-se por atuarem em segmentos de grande intensidade tecnológica e alto dinamismo na corrente de comércio (MOEN; SERVAIS, 2002; RÄISÄNEN, 2003). Rocha et al. (2007) definiram as born globals como uma categoria de empresas que se envolvem com operações internacionais, a partir de dois a oito anos de funcionamento e que apresentem, pelo menos, 25% das suas vendas provenientes de mercados estrangeiros. Oviatt e McDougall (1994) ampliaram o conceito de Morrow (1988), ao definirem empreendedorismo internacional como uma organização comercial que, desde sua criação, obtém significante vantagem competitiva no uso de recursos e a venda de produtos finais em vários países. Essa vantagem competitiva seria obtida a partir da habilidade do empreendedor em controlar ativos, especialmente conhecimento exclusivo, capazes de criar valor para seus produtos e serviços, simultaneamente, em vários países. A questão de controlar ao invés de possuir os ativos torna-se absolutamente crucial pela natural escassez de recursos na abertura de novas empresas. Essa característica distintiva entre novos empreendimentos e organizações tradicionais é particularmente importante para os estudos sobre internacionalização de PMEs, pois, ao privilegiar o controle em detrimento da propriedade, pressupõe-se a utilização mínima de internalização de recursos e, de forma alternativa, o apelo à utilização de estruturas de governança para a consolidação de operações internacionais, com especial destaque para a articulação da empresa em redes de relacionamento social. É por meio do comportamento 49 empreendedor que as PMEs superam suas limitações de recursos e passam a competir no cenário internacional (McDOUGALL; OVIATT, 2000). Nos estudos sobre empreendedorismo internacional, percebe-se uma clara convergência dos autores em destacar o empreendedor como o elemento-chave no processo de internacionalização da firma e relevar a importância do estabelecimento de uma rede de relacionamentos sociais, no momento em que a empresa inicia sua inserção internacional. Esses contatos podem prover à empresa recursos e conhecimentos, servindo como fator determinante do crescimento internacional da empresa. Também motivado pelas lacunas existentes entre empreendedorismo e as teorias de internacionalização, Andersson (2000) desenvolveu um framework conceitual orientado para o empreendedorismo individual como ação causadora da internacionalização. Seu argumento central aponta para a incapacidade das teorias econômicas e comportamentais (de processo) da internacionalização em explicar, consistentemente, a complexidade do fenômeno. Andersson (2000) realizou três estudos de caso em indústrias do mesmo setor de atuação (negócio), localizadas no mesmo país, mas que apresentaram comportamentos de internacionalização distintos. O autor afirmou que as teorias econômicas não poderiam explicar essas diferenças, porque as empresas partiram de condições econômicas idênticas. As teorias comportamentais também falhariam, porque partem do pressuposto da racionalidade do agente e, sendo assim, todos os agentes deveriam buscar a situação ótima e, portanto, agir de forma similar. Afirmando que o problema central das teorias de internacionalização corrente está em generalizar suas explicações para todo e qualquer tipo de firma, Andersson (2000) advoga pela construção de conceitos e teorias do tipo “médio alcance” (middle-range), afirmando que empreendedores diferentes tendem a influenciar o comportamento internacional para direções igualmente diferentes. Andersson (2000) definiu um empreendedor não apenas como um tomador de decisões críticas, mas como um indivíduo que realiza ações empreendedoras. Ele não depende do cargo ou da posição que ocupa na estrutura organizacional, pois o que realmente importa são as implicações das suas ações sobre o futuro da empresa. Tomando por base a classificação proposta por Schumpeter (1982), Andersson (2000) aponta três tipos de empreendedores: o técnico; o estrutural; e o mercadológico. 50 Para Oviatt e McDougall (2005), não obstante o crescente interesse por este campo de estudo, percebe-se que o empreendedorismo internacional apresenta pontos expostos no seu escopo teórico de maneira ainda pouco conclusiva. Embora essas lacunas sejam ricas em possibilidades e oportunidades, serão gradativamente preenchidas com a integração entre as diversas contribuições teóricas na área. Todavia, essas lacunas parecem não ser exclusividade apenas da área do empreendedorismo internacional. Mesmo com toda a densidade teórica do campo dos negócios internacionais, uma questão crucial parece ficar sem uma resposta mais definitiva: é realmente possível explicar o processo de internacionalização de empresas no atual contexto da economia mundial? Conforme observado, as primeiras abordagens teóricas sobre a internacionalização de empresas inauguradas na década de 1960 foram concebidas no intuito de explicar um fenômeno ainda pouco explorado à época. Mesmo com a gradativa aparição de novas abordagens, virtualmente mais evoluídas, os testes empíricos apresentados destacam as limitações do poder explanatório de alguns dos seus fundamentos, basicamente em virtude da própria ampliação do espectro da internacionalização de empresas. Com efeito, a desregulamentação do comércio e do investimento internacional, o avanço dos setores de alta tecnologia, a ascensão do setor de serviços e o papel das redes de negócios sugerem, dentre outros fatores, que os mercados ficaram bem mais complexos. Diante desse quadro, o processo de internacionalização tornouse mais veloz, os modos de entrada adotados tornaram-se mais arrojados e o aclamado conceito de distância psíquica perdeu parte do seu poder explicativo. Jones e Coviello (2005) afirmam que as teorias de internacionalização devem convergir, no sentido da complementação entre os seus fundamentos. O desafio de se criar um framework teórico sobre esse tema passa, necessariamente, pela busca do equilíbrio entre os modelos causais específicos, como é o caso do modelo de networks, que tende a ter um foco bastante estreito, e os modelos universais amplos que oferecem descrições mais generalistas (modelo Uppsala, por exemplo). Para os autores, as tentativas de integração das teorias da internacionalização ainda são muito recentes e não foram capazes de consolidar, até o momento, uma base mais sólida para a análise crítica por parte da literatura específica. Gradativamente, à medida que surgirem novos trabalhos empíricos, é natural que ocorra uma melhor avaliação da validade dos modelos integrativos propostos, ou mesmo, o surgimento de modelos novos. 51 O estudo de Axxin e Matthyssens (2002) também demonstra preocupação semelhante em relação às teorias de internacionalização de empresas. Concebido com o sugestivo título “Limites das Teorias de Internacionalização em um Mundo Ilimitado”, os autores afirmam a recorrência da necessidade de novos modelos de internacionalização, capazes de explicar a complexidade do fenômeno, segundo a atual dinâmica dos mercados e a crescente velocidade das transformações tecnológicas, demandando processos de internacionalização bem mais acelerados do que os investigados na época em que foi desenvolvida a grande maioria das teorias tradicionais. É fato que o campo da internacionalização de empresas ainda está longe de consolidar uma teoria única e definitiva. Deve-se, no entanto, destacar que essas lacunas são decorrentes da própria amplitude e da natureza das chamadas “questões internacionais”. Sabe-se que a história econômica ocorreu de forma absolutamente diferenciada ao redor do mundo, principalmente no que concerne à disponibilidade de recursos, à capacidade empresarial, ao papel das instituições e às formas de intervenção governamental na construção de cada uma das nações. A previsível dificuldade de generalização dos modelos de internacionalização elaborados em regiões economicamente mais avançadas deve servir, de fato, como motivação para a pesquisa acadêmica em países como o Brasil, nos quais, embora ainda seja timidamente explorado, é um tema largamente demandado pelas políticas públicas, voltadas a melhoria do ambiente de negócios. Este capítulo apresentou as teorias que buscam explicar o fenômeno da internacionalização dos negócios empresariais. Entende-se que os conceitos abordados são fundamentais para se refletir sobre o comportamento além-fronteira das empresas investigadas nesta tese. O capítulo a seguir apresentará a delimitação do objeto de estudo, buscando-se caracterizar o processo de internacionalização das pequenas e médias empresas. Apresenta-se, ainda, uma revisão de estudos empíricos sobre o funcionamento de redes de negócios formadas entre empresas localizadas em diferentes países. 52 3 DELIMITAÇÃO DO OBJETO DE ESTUDO Este capítulo tem como objetivo apresentar aspectos conceituais e teóricos que demarcam o objeto de estudo, buscando destacar o referencial teórico adotado. São abordados os estudos empíricos que investigam o comportamento internacional das PMEs, com particular ênfase nos fatores que condicionam o sucesso dessas empresas na atividade exportadora. As relações entre internacionalização e laços de descendência imigratória também terão destaque, vez que o principal objetivo é analisar de que modo os laços familiares e culturais entre empresários, descendentes de imigrantes europeus e empresários europeus explicam o processo de internacionalização das pequenas e médias empresas. De forma complementar, mencionam-se algumas contribuições do campo das redes sociais, no intuito de enriquecer o debate sobre o papel das redes de relacionamento no processo de internacionalização de empresas, notadamente as de menor porte. 3.1 CARACTERIZAÇÃO DAS PEQUENAS E MÉDIAS EMPRESAS Em 1776, quando publicou “A Riqueza das Nações”, Adam Smith descreveu uma economia em que os pequenos negócios locais eram virtualmente as únicas entidades econômicas. De fato, o capitalismo moderno teve seu início na concepção de “pequeno negócio”, crescendo a partir de negociantes e seus servos que viajavam pelo interior da Europa pós-feudal vendendo mercadorias à nobreza. Gradualmente, esses indivíduos foram minando a autoridade dos nobres, à medida que a riqueza e, em seguida o poder, se deslocavam para as suas mãos. Ramos (1995) afirma que a presença das PMEs na economia dos países, após a segunda metade do século XVIII, sempre foi percebida como um fato sem muita importância. Políticas voltadas ao segmento dos pequenos negócios são encontradas somente a partir da segunda metade do século XX, quando o governo dos EUA, preocupado com os reflexos do término da Segunda Guerra Mundial sobre a sua economia, implementou programas de incentivo para 53 famílias norte-americanas abrirem pequenos negócios. A rigor, seu objetivo era absorver a mão de obra até então envolvida no esforço de guerra daquele país e desenvolver um parque de serviços imprescindível à nova ordem econômica em ascensão. O desenvolvimento econômico dos Estados Unidos no período pós-guerra acabou criando oportunidades desiguais entre as entidades econômicas de pequeno e de grande porte, principalmente no setor varejista e de produção de bens de consumo. Em 1953, o governo norte-americano criou, então, o Small Business Administration (SBA), primeiro órgão governamental exclusivamente voltado ao apoio e à promoção de empresas de pequeno porte. De empresas de segunda categoria, as PMEs foram alçadas à condição de cidadania empresarial, a partir da constatação do seu dinamismo como polo gerador de empregos e de distribuição de riqueza. As PMEs inauguraram uma nova funcionalidade econômica relacionada à superação do modelo fordista de produção em massa, explorando diferentes possibilidades para o emprego de novas tecnologias e agregação de serviços à produção de bens. Nas últimas décadas, observa-se uma intensificação do debate sobre a posição, o papel e os condicionantes de permanência das PMEs no processo de desenvolvimento das economias pós-industriais, o que torna necessário os estudos sobre o ambiente dos pequenos negócios (AUDRETSCH, 1999). De acordo com Souza e Botelho (2001), a avaliação das práticas de política industrial nos países da Organização Econômica para Cooperação e Desenvolvimento (OECD) revela que há forte intervenção dos governos, visando atingir o segmento das PMEs. O amplo espectro de políticas para PMEs recomendadas e efetivamente implementadas – desde o estímulo à criação até o fomento de todas as atividades concernentes ao desenvolvimento das PMEs – caracterizam uma intervenção ativa dos governos e o posicionamento desse segmento de empresas como um dos elementos importantes de política industrial. Segundo esses autores, a experiência internacional aconselha que estas políticas devam, prioritariamente, estimular estruturas organizacionais, em que as PMEs atuem de forma conjunta e cooperativa ou estejam associadas a instituições voltadas ao seu desenvolvimento. Em um segundo plano, elas devem se direcionar para ações mais específicas, para facilitar o acesso dessas empresas ao sistema financeiro; conceder assistência gerencial e técnica antes e depois do início das atividades das empresas; articular politicamente a concessão de tratamento tributário, administrativo e fiscal diferenciados; dar apoio tecnológico e à promoção de negócios. 54 3.2 INTERNACIONALIZAÇÃO DE PEQUENAS E MÉDIAS EMPRESAS As primeiras teorias que tratam do processo de internacionalização de empresas foram criadas a partir de estudos sobre o comportamento das grandes corporações no mercado global, sobretudo as multinacionais. Conforme demonstrado anteriormente, estas teorias são incapazes de explicar a expressiva inserção internacional de PMEs, ocorrida a partir da década de 1990, um movimento econômico que passou a ser amplamente estudado por novas correntes teóricas da internacionalização, como a abordagem de networks e o empreendedorismo internacional. Com efeito, a relação entre o porte das empresas e a capacidade de internacionalização constitui-se em um tema bem explorado pela bibliografia especializada, tendo em vista a crescente preocupação das nações quanto à participação mais efetiva das PMEs na atividade exportadora. Um referenciado estudo sobre a relação entre o porte das empresas e o comportamento exportador foi elaborado por Bonaccorsi (1992), o qual realizou uma pesquisa junto a 8.180 empresas indústrias italianas motivado pela expressiva participação de PMEs no comércio exterior daquele país (46,6% do valor das exportações nacionais à época), como também, pela “clara divergência entre os estudos sobre este assunto”, quase todas decorrentes da utilização de diferentes medidas do comportamento exportador. Bonaccorsi (1992) afirma que as duas medidas mais utilizadas para a análise do comportamento exportador das empresas são: a) a dicotomia “exportadora – não exportadora”; e b) a “intensidade exportadora” (participação percentual das exportações no faturamento total da empresa). O autor destaca que os estudos empíricos que tentaram estabelecer uma relação entre estas medidas e o porte das empresas confundem-se e são conflitantes em determinados pontos, mas convergem sobre dois princípios básicos: 1 proposição – a proporção do número de empresas exportadoras sobre o total das empresas produtoras está positivamente relacionada ao porte da empresa; e 2 proposição – a intensidade exportadora está positivamente relacionada ao porte da empresa. Há uma maior concordância em torno da primeira proposição, conceituada pelo autor como “propensão a exportar”, ou seja, a probabilidade de se identificar PMEs italianas 55 exportadoras dentro do seu próprio universo é menor do que a probabilidade de se identificar grandes empresas no mesmo sentido, confirmando, então, a correlação positiva entre propensão a exportar e o porte das empresas. A ideia que existe por detrás desta proposição é a de que as PMEs crescem a partir do mercado doméstico e evitam um maior envolvimento com os riscos da atividade exportadora, enquanto as grandes empresas percebem na exportação uma das alternativas estratégicas para incrementar suas vendas e optam, sistematicamente, por estabelecer laços duradouros com o mercado externo. No tocante à segunda proposição, Bonaccorsi (1992) afirma haver um nível de concordância bem menor, basicamente pelas condições estruturais e conjunturais particulares de cada país, que tendem a influenciar significativamente o comportamento exportador das PMEs. De forma provocativa, o autor afirma não acreditar que haja uma correlação positiva entre a intensidade exportadora e o porte das empresas. De acordo com a sua pesquisa, aplicada em diversos setores industriais da Itália, várias PMEs, incluindo aquelas consideradas de porte muito pequeno (até 20 empregados), apresentaram um índice de intensidade exportadora acima da média da amostra, com destaque especial para os setores de alimentação, têxtil, móveis, calçados, papel e celulose, e serviços gráficos. Todavia, Bonaccorsi (1992) buscou demonstrar que as pequenas empresas produtoras e exportadoras italianas não atuam, propriamente, de forma isolada. Essas empresas se beneficiam das aglomerações geográficas de setores específicos, como, por exemplo: têxtil e de confecções; calçadista; cutelaria; móveis etc. Há tradição, na Itália, das empresas cooperarem e partilharem informações de produtos e mercados, o que, por certo, são vantagens quando comparadas às empresas brasileiras, as quais, em sua maioria, não adotam tal procedimento. Para Mistri (1989), a análise da relação entre a intensidade exportadora e o porte da empresa só é válida se for mediada pela estrutura de cada setor industrial, a qual a empresa estiver inserida, bem como das condições de demanda do mercado doméstico da cada país. Para exemplificar, o autor destaca que: a) PMEs que atuam em setores de alta tecnologia (high tech-based SME) podem tornar-se exportadoras intensas, logo no início do seu ciclo de vida, simplesmente, porque o mercado doméstico ainda não oferece oportunidades suficientes para garantir um faturamento compatível com as expectativas dos seus empreendedores; b) setores de demanda sazonal tendem a inibir uma maior intensidade de exportação das PMEs, dada a sua incapacidade em lidar com ciclos financeiros descontinuados; e c) da mesma forma, setores em que a competitividade está associada às economias de escala tendem a 56 prejudicar o crescimento do volume exportado por uma PME, que acaba por adotar uma postura oportunista e não estratégica, em relação ao comércio internacional, atendendo pedidos pontuais sem desenvolver laços mais duradouros com empresas estrangeiras. Calof (1994) também prestou importante colaboração para os estudos sobre a relação entre o porte das empresas e o comportamento exportador. No intuito de validar as conclusões de Bonnaccorsi (1992), o autor desenvolveu semelhante pesquisa junto a 14.072 empresas industriais canadenses, utilizando o mesmo critério de classificação de porte, incluindo novas variáveis para análise do comportamento exportador, segundo o porte das empresas como o número de mercados atingidos, o estágio alcançado no processo de internacionalização, o propósito da exportação e o número de anos na atividade exportadora. Calof (1994) concluiu que há uma significativa relação entre o porte das empresas pesquisadas e a propensão a exportar, com destaque para as empresas com mais de 1.000 empregados, que apresentaram uma variação de propensão acima das escalas observadas nas demais categorias de porte. Da mesma forma, o número de países de destino das exportações está, positivamente, correlacionado ao porte das empresas e que as empresas de menor porte tendem a não avançar para estágios de internacionalização com maior comprometimento. De forma complementar, as entrevistas revelaram que há ligeiro consenso entre executivos de PMEs, no sentido de apontar a exportação como alternativa viável, somente para grandes empresas, ou quando ocorre um circunstancial desaquecimento do mercado doméstico ou uma expressiva saturação nos segmentos de atuação. No decorrer do artigo, Calof (1994) procura desmistificar algumas deficiências das PMEs, frequentemente apontadas pela bibliografia como fatores inibidores de uma maior inserção deste segmento no comércio internacional. As mais comentadas são a insuficiência de recursos financeiros e as naturais dificuldades para alcançar economias de escala. O autor não contraria integralmente estes posicionamentos, mas destaca que não são aplicáveis a todos os setores de atividade, e que há muitas PMEs competitivas que não exportam, unicamente, em virtude de uma percepção exagerada sobre os riscos do comércio internacional, por parte dos seus executivos e proprietários, atribuindo à atitude empreendedora, um papel crítico e decisivo para o sucesso de PMEs na atividade exportadora. Mais recentemente, Majocchi et al. (2005) buscaram aprofundar os estudos sobre a relação entre o porte das empresas e o comportamento exportador, utilizando uma abordagem longitudinal, contrapondo-se aos estudos anteriores de corte transversal. Os autores desenvolveram um modelo econométrico aplicado a uma amostra de PMEs industriais 57 italianas no período 1997-2001 e conseguiram corroborar várias conclusões dos estudos transversais. Seus resultados evidenciaram o papel da experiência gerencial dos empreendedores como o fator decisivo no desempenho exportador das PMEs, supondo que a evolução do ciclo de vida organizacional é determinante para que uma empresa de menor porte, atinja maior número de mercados externos, aumente a frequência das suas vendas externas e, consequentemente, perceba a atividade internacional como uma estratégia de negócio. A compreensão desses fenômenos e dos procedimentos e diligências envolvidas nas operações de comércio internacional, todavia, parece não incentivar muito a maior participação de PMEs nesta área. Para aquelas poucas que já se iniciaram nas exportações, percebe-se um alto grau de desistências logo após terem efetuado suas primeiras operações com o exterior. As PMEs convivem com uma série de deficiências que prejudicam, sobremaneira, sua inserção e sua continuidade na atividade exportadora. As dificuldades para alcançar economias de escala, o alto investimento em inovação tecnológica e os excessivos gastos com promoção comercial no exterior, condicionantes inequívocos de ingresso no mercado internacional, contrastam com a natural escassez de recursos das PMEs (MOEN; SERVAIS, 2002). Embora a “importação” de modelos de desenvolvimento econômico consagrados em outros países constitua um assunto muito controverso, é importante reconhecer alguns exemplos bem sucedidos de inserção de PMEs no mercado internacional. Um deles é o caso das economias emergentes da Ásia. Ao contrariarem a crença dos anos 1950 e 1960, de que países em desenvolvimento só poderiam alavancar suas bases industriais empregando modelos de substituição de importações, Taiwan, Cingapura, Hong Kong e Coréia do Sul alcançaram níveis elevados de crescimento econômico, por meio de políticas industriais fortemente orientadas para a exportação de bens manufaturados, destacando-se os programas voltados, especificamente, à internacionalização de PMEs. Estas nações podem ser citadas como exemplos de intervencionismo sofisticado, baseado em uma bem elaborada articulação entre governo, instituições representativas, empresas e bancos. Outro exemplo de orientação internacional de PMEs é o caso italiano, que para ser mais bem compreendido é necessário abordar alguns antecedentes históricos, conforme demonstrado por Casarotto Filho e Pires (1998). Após a Segunda Guerra Mundial, a economia da Itália caracterizou-se por uma elevada taxa de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB). Este crescimento, contudo, não foi uniforme ao longo do seu território, criando 58 assim, um dualismo econômico entre as regiões norte e sul. O norte caracterizou-se por ser uma região altamente industrializada com forte concentração de grandes empresas intensivas em capital e tecnologia, enquanto a produção no sul era realizada, basicamente, por pequenas empresas que absorveram o excesso de mão de obra dos setores mais avançados. Posteriormente, no início dos anos 1970, surgiu entre o norte e o sul da Itália uma nova região econômica que viria a ser conhecida como “Terceira Itália”. Nessa região, o crescimento das PMEs foi impulsionado pela formação de distritos industriais (redes de empresas), nos quais se estabeleceu um sistema de confiança e cooperação, elevando substancialmente o nível de competitividade dessas empresas. Agrupando-se na forma de consórcios, essas PMEs se especializaram na produção de artigos de maior dinamismo na corrente de comércio e desenvolveram um forte programa de promoção comercial sob o slogan Made in Italy, o que possibilitou o ingresso planejado e a permanência deste segmento de empresas no comércio internacional. Casarotto Filho e Pires (1998) afirmam que a origem histórica da vocação associativista das PMEs italianas, data do início do ano de 1600, durante as primeiras tentativas de cultura racional de batatas na região da Toscana. Os autores reforçam a importância do estabelecimento de redes de PMEs, a partir de casos como a “Batata Típica de Bologna”, um produto de alto conceito no mercado internacional que evoluiu, a partir do século XIX, com a organização de consórcios de valorização de produto e, mais recentemente, com consórcios de gestão da marca. Destaca-se, neste ponto, o importante papel das instituições representativas como agentes de articulação entre os organismos de fomento. Nesta perspectiva, as PMEs brasileiras estariam em clara desvantagem, devido à forma em que estão estruturadas: extremamente verticalizadas internamente, sem a necessária representatividade e sem a existência de acordos econômicos (com fornecedores, clientes e concorrentes). Segundo os mesmos autores, a ótica moderna aponta para o caso italiano, em que a competitividade das PMEs reside no sistema competitivo onde estão inseridas, ou seja, na formação de organização em grupos cooperativos com alto grau de especialização, background tecnológico e dotados de estratégias que transcendem a empresa individual. Seria arbitrário, então, afirmar que um maior índice de internacionalização de PMEs seja sinônimo de potencial econômico de uma nação. O processo de internacionalização das empresas está condicionado tanto a fatores externos, tais como, políticas industrial e comercial, a cultura associativista, a atratividade do mercado doméstico, a política cambial e a infraestrutura oferecida pelos países, quanto a fatores internos, dentre os quais, o nível de 59 recursos disponíveis para atuação em nível internacional, a forma de inserção na indústria e o papel das lideranças organizacionais no processo decisório (PORTER, 1993). No contexto brasileiro, a Fundação Dom Cabral (1996), por meio de seu Núcleo de Negócios Internacionais, desenvolveu um estudo retrospectivo sobre o processo de internacionalização das empresas brasileiras. O estudo seminal foi realizado em 1996 e complementado por Oliveira Júnior e Cyrino (2002). Esses estudos destacam que houve uma evolução incremental da participação das empresas brasileiras no mercado internacional, que pode ser dividida em três períodos: décadas anteriores aos anos 1980; transição da década de 1980; e a situação presente iniciada a partir de 1990. O primeiro período caracterizou-se por uma presença no mercado internacional de um número restrito de grandes empresas exportadoras de bens não manufaturados. No segundo período, ou seja, na transição da década de 1980, houve um número crescente de empresas exportadoras de bens e serviços em vários segmentos. Por fim, a partir de 1990, vem ocorrendo a ampliação da presença internacional com a participação de empresas de diferentes portes e setores. A constatação central do estudo da Fundação Dom Cabral (1996) foi que as empresas brasileiras, em suas incursões internacionais, ampliam o seu comprometimento de forma incremental. A evolução do processo de internacionalização das empresas produtoras brasileiras, na maioria dos casos, não decorre de uma estratégia deliberada por parte da cúpula administrativa. Estas empresas têm se transformado em exportadoras de forma gradativa, segundo um conjunto de decisões que emergem em uma determinada circunstância e podem inibir, acelerar ou retroceder o processo, o que caracteriza uma postura não estratégica em relação ao comércio internacional. Esta conclusão converge com os resultados do estudo de Motta Veiga (1999), sobre o comportamento exportador das PMEs brasileiras. A principal observação de Motta Veiga (1999) é a de haver claramente um lag temporal entre a fundação da empresa e o início das exportações. A procura pelo mercado externo só ocorre, em média, cinco anos depois da sua criação, pois a decisão de exportar, em geral, é tomada segundo fatores contingenciais que reduzem a percepção dos pequenos empreendedores sobre os riscos do comércio internacional, e parecem ser facilmente reversíveis a qualquer momento. No tocante as PMEs, destaca-se também o estudo de Motta Veiga e Markwald (1998) sobre o desempenho deste segmento nas exportações nacionais. Os autores procuram 60 identificar traços distintivos das PMEs exportadoras em relação a um conjunto de variáveis como participação nas exportações nacionais, conteúdo tecnológico, origem setorial, mercados de destino, diversificação de produtos e frequência exportadora. A análise quantitativa das exportações brasileiras no período 1990/96 destaca dois fatos relevantes: a) a elevada concentração dos fluxos de exportação sobre as grandes empresas; e b) o explosivo aumento do número de PMEs na base exportadora, mas com reduzido impacto sobre o volume exportado. As PMEs industriais responderam por 25% das exportações brasileiras, com elevadíssima concentração no segmento das médias empresas, que responderam por mais de 90% das exportações das PMEs. As conclusões de Motta Veiga e Markwald (1998) destacam os exportadores permanentes e os assíduos, notadamente empresas de grande porte, como os elementos de sustentação das exportações nacionais, sendo responsáveis por cerca de 89% do volume exportado. Destacam, também, que embora tenha havido um explosivo aumento no número de PMEs na base exportadora, há uma expressiva desistência frente ao esforço exportador que caracteriza esse segmento, sugerindo a importância estratégica das políticas para consolidar a oferta exportadora das PMEs brasileiras, como as ações coordenadas de promoção comercial e de difusão de práticas produtivas compatíveis com os requisitos de competitividade do mercado internacional. De fato, o caso brasileiro revela as razões que inibem uma maior participação de PMEs no esforço exportador de países, cuja formação de cultura exportadora é prejudicada por paradigmas herdados do ainda recente período protecionista. Os motivos que determinam a baixa participação são de natureza diversa, mas todos passam pela falta de tradição na área dos negócios internacionais. A preferência comodista pelo mercado interno, principalmente quando a taxa cambial não é favorável ao exportador, dificulta o desenvolvimento de uma postura comercial, efetivamente voltada para o exterior. O mercado local é menos exigente, fala o mesmo idioma, muitas vezes paga mais caro (e na mesma moeda) e seus canais de distribuição são mais conhecidos. Ribeiro (2009) procurou abordar o desempenho exportador das micro e pequenas empresas brasileiras frente a questões de ordem macroeconômica, no período 2003-2007. Entre suas conclusões, o autor destaca a valorização do Real (R$), verificada a partir de 2003, como um fator determinante do menor crescimento do volume de exportação das pequenas empresas, em relação ao das empresas maiores. Além disso, a forte valorização cambial que caracterizou o triênio 2005-2007 reduziu, expressivamente, o percentual de pequenas 61 empresas estreantes na atividade exportadora, embora não tenha alterado o percentual de empresas que desistem de exportar a cada ano. Em outras palavras, o autor atesta alguns indícios de que as exportações das PMEs apresentam uma maior sensibilidade ao câmbio real do que as empresas de maior porte. Finalmente, cabe destacar o trabalho de monitoramento do Sistema SEBRAE (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas), divulgado no relatório anual “As Micro e Pequenas Empresas na Exportação Brasileira”. Considerando o período compreendido entre 1998 e 2009, o estudo procura identificar traços distintivos das micro e pequenas empresas exportadoras, em relação a um conjunto de variáveis, como participação nas exportações nacionais, conteúdo tecnológico, origem setorial, mercados de destino, diversificação de produtos e frequência exportadora. A classificação do porte das empresas pesquisadas foi baseada nos critérios utilizados pelo SEBRAE com a inclusão da categoria “MPE especial”, que objetiva corrigir distorções causadas pela magnitude das suas receitas de exportação como, por exemplo, pequenas empresas baseadas em alta tecnologia. De acordo com o relatório do SEBRAE (2010), a evolução da atividade exportadora das micro e pequenas empresas evidencia um crescimento contínuo entre os anos de 1998 e 2008, mas seguido de forte queda em 2009, revelando os impactos da valorização cambial e da crise financeira internacional, registradas no período. A participação do segmento “micro e pequenas” nas exportações totais brasileiras voltou a aumentar em 2009, depois de vários anos de redução contínua. É provável que essa recuperação esteja relacionada mais ao efeito da queda dos preços internacionais das commodities, do que a um desempenho relativamente melhor das quantidades exportadas, tendo em vista que as exportações das empresas de menor porte concentram-se em bens manufaturados, e as firmas de maior porte dependem mais das commodities. As exportações das micro e pequenas empresas brasileiras são, historicamente, muito concentradas em produtos manufaturados de baixa e média intensidade tecnológica e intensivos em mão de obra, caracterizando uma faixa de produtos de menor dinamismo na corrente de comércio. A seguir, a Tabela 1 apresenta o número de empresas brasileiras exportadoras, classificadas segundo o porte e o valor exportado: 62 Tabela 1 – Brasil: Empresas Exportadoras Classificadas segundo o Tamanho da Firma Número de empresas Valor exportado (US$ mil) Porte das empresas 2008 2009 2008 2009 Micro (1) 5.678 5.452 183,7 156,7 Pequena (2) 7.037 6.778 2.080,8 1.738,0 MPE especial (3) 1.383 1.156 15.430,5 10.061,5 Média (4) 3.762 3.709 23.538,2 17.997,5 Grande (5) 1.937 1.957 156.364,6 122.675,6 - 220 - 78,8 19.272 197.597,7 152.708,1 Empresa não classificada Total de empresas 19.797 Fonte: adaptado de SEBRAE (2010). (1) empresa com menos de 20 empregados e exportações anuais até US$ 300 mil; (2) empresa com menos de 100 empregados e exportações anuais até US$ 2.500; (3) empresa com menos de 100 empregados e exportações superiores à US$ 2.500; (4) empresa entre 100 e 499 empregados; (5) empresa com mais de 499 empregados. O relatório destaca que, embora tenha havido um significativo aumento no número do estrato das micro, pequenas e médias empresas na base exportadora nacional, há ainda um expressivo nível de desistência frente ao esforço exportador, sugerindo a importância estratégica das políticas para consolidar a oferta exportadora, como as ações coordenadas de promoção comercial e de difusão de práticas produtivas compatíveis com os requisitos de competitividade do mercado internacional. Desta forma, os programas voltados à internacionalização de empresas nacionais devem buscar fortalecer os exportadores iniciantes, com o intuito de evitar as desistências ou a descontinuidade na atividade exportadora. 3.3 INTERNACIONALIZAÇÃO E IMIGRAÇÃO Conforme observado anteriormente, a necessidade de se estabelecer políticas públicas de apoio à inserção internacional de PMEs incentivou várias pesquisas sobre os fatores críticos para a inserção competitiva desse segmento no comércio internacional, dentre os quais se destaca, o papel decisivo das redes de relacionamento com players de comércio exterior. 63 Over the past decade we have witnessed a dramatic increase in research on international entrepreneurship. A key assumption underlying this body of work is that, given limited resources and market power, the internationalization process of small and medium-sized enterprises (SMEs) differs significantly from that of established multinationals. One such difference relates to the use of networks. Compared to larger multinationals, SMEs typically rely more extensively on network relationships as they pursue international opportunities (MUSTEEN et al., 2010, p. 197) Tendo em vista os propósitos desta tese, é importante ressaltar que a abordagem de networks, ainda que de forma tímida, tem sido particularmente utilizada para explicar o comportamento e o sucesso da atividade empresarial de comunidades de imigrantes em determinados países (MUSTAFA; CHEN, 2010). Estudos como os de Ward (1991) e Stewart (2003) buscaram demonstrar a tendência destas comunidades em operar dentro de uma complexa rede de relacionamentos, baseada em laços familiares e de amizade, gerando uma dinâmica de compartilhamento de recursos, informações e expertises, que são determinantes na identificação de oportunidades de negócios e na exploração de mercados potenciais. Neste ponto, destaca-se a análise histórica elaborada por Truzzi e Sacomano (2007), que presta importante colaboração ao investigar a influência de questões imigratórias na formação da economia do Estado de São Paulo. Segundo os autores, a sociologia econômica, ao buscar a aproximação entre a atividade empresarial e a etnia, criou as bases para a emergência do tema “empreendedorismo étnico”, um campo que ganhou relevância entre os estudiosos das redes sociais, ao reconhecerem que os recursos e as oportunidades de negócios dos imigrantes estão em suas próprias comunidades étnicas, permeadas por redes de relacionamento e capital social. As redes de imigração podem ser caracterizadas como conjuntos de laços interpessoais que ligam imigrantes, pioneiros imigrantes e não imigrantes, em áreas de origem e destino, por meio de vínculos de parentesco, amizade e de conterranismo. Truzzi e Sacomano (2007) destacam que o estudo destas redes constitui um tópico de particular interesse, porque possibilita conectar os determinantes da imigração aos níveis micro e macro, podendo, assim, explicar fenômenos como o expressivo comércio intergrupos minoritários em países desenvolvidos e a corrente de comércio internacional dos negócios étnicos (entre imigrantes descendentes e seu país de origem), que é foco de estudo desta tese. No campo da internacionalização de empresas, os “negócios étnicos” são descritos por Hayer e Ibeh (2006) como redes de negócios internacionais formadas por indivíduos que possuem as mesmas raízes ancestrais. Afirmando que as questões étnicas deveriam receber 64 maior atenção pelos estudos sobre internacionalização, dada a formação de subculturas geradas pela grande mobilidade de pessoas no contexto da economia global, os autores realizaram uma série de entrevistas com representantes de pequenas e médias empresas localizadas no Reino Unido e que tinham como proprietários imigrantes indianos. O objetivo central do estudo consistiu em identificar em que medida as redes de negócios baseadas em laços étnicos influenciavam o processo de internacionalização das empresas pesquisadas. As conclusões de Hayer e Ibeh (2006) destacam o importante papel desses laços na facilitação das atividades de internacionalização destas empresas, principalmente aquelas em que a primeira geração de imigrantes ainda está no comando das empresas. Fatores como laços familiares, círculos de amizade, domínio de idioma estrangeiro e identificação cultural representam fortes pretextos para a consolidação dessas relações de negócios. Esses empresários estão fortemente imersos dentro de uma “comunidade indiana de negócios”, estabelecida em toda a extensão do Reino Unido há mais de 40 anos, beneficiando-se de uma extensa rede de contatos com outros empresários indianos localizados em países como Estados Unidos, China, Singapura e, previsivelmente, na própria Índia. Entre os empresários, destaca-se uma relação de confiança e de aconselhamentos nas escolhas dos mercados e dos seus respectivos modos de entradas, o que é particularmente importante nos estágios iniciais de internacionalização. O trecho da entrevista com um empresário do setor de tecnologia da informação oferece um exemplo claro da influência dessas redes de negócios: Asian networks can definitely help in internationalization. My previous business in shipping and forwarding expanded because of this. I got a contact who said he had a contract from India to supply computer products and would I take care of it. I went to India to meet the importers and this led to us becoming partners. I opened offices in India, Singapore, UK, USA, all based on a network socialization thing. (HAYER; IBEH, 2006, p. 515). O estudo de Xie e Amine (2009) também traz importantes contribuições sobre o funcionamento das redes de negócios entre empresários imigrantes. Motivados pelo expressivo crescimento da participação de PMEs no volume das exportações da China, os autores buscaram um melhor entendimento sobre como estes pequenos negócios moderavam suas dificuldades na obtenção de informações estratégicas para ingressar em mercados estrangeiros, sobretudo naqueles países mais atingidos pela “diáspora” de empresários chineses como Tailândia, Vietnã, Indonésia, Filipinas e Malásia. Historicamente, as diversas comunidades da diáspora chinesa espalhada por diversas regiões do mundo são derivadas de 65 vagas migratórias provenientes de diferentes regiões da China, motivadas, sobretudo, por dificuldades de inserção no mercado de trabalho (HUMPHREYS, 2007). Xie e Amine (2009) entrevistaram executivos de pequenas e médias empresas localizadas nos distritos industriais de Chengdu e Ningbo, no intuito de responder a três questões básicas: a) o que motiva a internacionalização de PMEs chinesas; b) quais os modos de entrada em mercados estrangeiros mais utilizados por estas empresas; e c) qual o papel das redes de negócios no seu processo de internacionalização. A conclusão central do estudo destaca e existência de “redes de negócios recíprocos” (guanxis) funcionando em diferentes regiões do mundo, com particular destaque para a forma como se ramificam e se articulam por todo o Sudeste Asiático e para os fortes vínculos que os imigrantes mantêm com seus ancestrais locais de origem chinesa. Estas “conexões familiares” auxiliam a empresa chinesa desejosa de estabelecer parcerias internacionais na redução das incertezas sobre imposições governamentais, formas contratuais, modos de entrada e potencial dos nichos de mercado pretendidos. Em contrapartida, imigrantes chineses que estabeleceram empresas em outros países também buscam apoio informacional nestas redes para exportar seus produtos/serviços para a China. Based on this study, we conclude that guanxi must be recognized as a sine qua non factor in the process of internationalization of entrepreneurial Chinese SMEs. Guanxi represents a unique and inimitable competitive resource that combines elements of human and organizational capital. This being the case, it appears unavoidable that any generalized theory of the internationalization process must recognize and include a social network construct. (XIE; AMINE, 2009, p. 73). De acordo com Collins (2002), a chamada “diáspora chinesa” constitui um tema largamente explorado pelos recentes estudos que buscam vincular o fenômeno da internacionalização de empresas ao fluxo de negócios étnicos, destacando-se a grande variedade de países que são alvo dessas investigações. Dentre esses estudos destaca-se o de Tung e Chung (2010). Utilizando uma amostra de 135 empresas australianas que mantém relações comerciais e de investimento com a China, os autores buscaram analisar a ação de imigrantes chineses estabelecidos na Austrália, como facilitadores do comércio entre as duas nações. Os resultados apontaram que as empresas fundadas por imigrantes chineses ou mesmo aquelas em que esses imigrantes trabalham como gestores são mais propensas a recorrer a modos de entrada mais complexos e compromissados, em especial, o estabelecimento de joint ventures e a instalação de subsidiárias de produção em território australiano. 66 A Austrália representa um caso interessante para efeitos dessa análise porque, mesmo que esteja geograficamente na região do Pacífico, seu patrimônio cultural e seus laços comerciais estão, tradicionacionalmente, ligados a países ocidentais. Todavia, para se adaptar ao surgimento de blocos comerciais regionais como a Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (APEC), o destino econômico das exportações australianas tornou-se gradativamente mais voltado aos países asiáticos, o que criou oportunidades de negócios para as várias comunidades de imigrantes chineses. Outra contribuição sobre a influência dos negócios étnicos pode ser encontrada no estudo de Mayrhofer (2004), que focalizou seu trabalho especificamente na área do investimento externo. O autor pesquisou a influência da nacionalidade de origem dos empreendedores no processo de escolhas de mercados externos ao seu país para promoverem alianças estratégicas ou aporte de capital. Analisando o comportamento de uma amostra de empresas francesas e alemãs, em fase avançada de internacionalização, uma das principais conclusões aponta que uma maior familiaridade com a cultura do país-alvo reduz, substancialmente, a incerteza em se determinar o modo de entrada naquele mercado selecionado, sobretudo em regiões que geram fluxos imigratórios para estes dois países. Conclusões semelhantes podem ser encontradas no estudo de Jean et al. (2011), que abordou a influência dos “laços étnicos” nas decisões de investimento estrangeiro direto (IED). Investigando o comportamento de 88 grupos de empresários taiwaneses que realizaram investimento direto na China, o estudo buscou investigar se a escolha da localização do investimento era influenciada pela “proximidade étnica” entre os dois países. Seus resultados apontaram para o papel decisivo desta proximidade na obtenção in loco de informações e fontes de recursos para a realização do investimento, principalmente em se tratando do mercado chinês, caracterizado pelas suas deficiências institucionais no suporte a investidores estrangeiros como programas de fomento, subscrição de capital e registro de marcas e patentes. Our results show that firm ethnic ties of top managers do matter in facilitating firm foreign direct investment location choice. Firms can use ethnic ties through personal networks as an informal mechanism to obtain knowledge and resources for their organization. Although kinship and community ties initially exist as affective ties and social relationships, they have the potential to serve economic and business purposes. (JEAN et al., 2011, p. 7). No contexto brasileiro, Costa (2006) também buscou estabelecer uma relação entre “proximidade cultural” e dinamismo econômico, para explicar porque o Brasil é o principal 67 destino do investimento estrangeiro direto das empresas portuguesas. Segundo a autora, embora as principais motivações para o início deste processo de internacionalização, ocorrido a partir de 1990, tenham sido a dimensão e o potencial de crescimento do mercado brasileiro, houve uma grande influência da proximidade cultural. O idioma e os laços históricos percebidos entre os dois países pesaram na decisão de abordar um mercado tão longínquo e, reforçam a utilização de uma forma de internacionalização tão exigente e dispendiosa como a instalação de subsidiárias de produção. A influência da proximidade cultural é um tema recorrente nos estudos sobre as dificuldades e as barreiras encontradas pelas PMEs, ao decidirem ingressar em mercados estrangeiros. Neste contexto, a pesquisa de Musteen et al. (2010), realizada junto a uma amostra de 155 pequenas empresas checas, buscou investigar se empresas que compartilham aspectos culturais com o seu parceiro internacional, apresentam um processo de internacionalização mais rápido. Não obstante as facilidades de comunicação criadas pelos aplicativos de Internet (websites, skype etc.), os autores destacam que ao utilizarem o mesmo idioma, as empresas parceiras tendem a conferir um maior grau de confiança à relação, facilitando demandas complexas como o trato de requisitos técnicos, o registro de propriedade intelectual no exterior e a compatibilidade com normas técnicas impostas pelo governo do país exportador. A relação entre confiança e proximidade cultural é também explorada pelo estudo de Rauch (2001), que busca uma associação direta entre práticas de comércio internacional e redes de negócios. Para o autor, a organização em rede propicia o desenvolvimento de laços de confiança entre os seus atores que, por sua vez, ajudam a reduzir os custos de transação. A confiança é entendida como um elo fundamental no estabelecimento de relações comerciais internacionais duradouras, na medida em que aspectos centrais à transação, como confirmação de cartas de crédito, inspeção pré-embarque, respeito a prazos de entrega e assistência pósvenda são garantidas por uma relação de mútua cooperação legitimada ao longo do tempo por um ciclo de feedback positivo. Por fim, cabe ressaltar que a experiência profissional do autor desta tese em programas de inserção internacional de PMEs catarinenses, no âmbito de atuação do SEBRAE e da APEX, também corrobora a tese de que a habilidade do pequeno empreendedor em se articular com redes de negócios assume um papel fundamental no processo de internacionalização. Especificamente no Estado Santa Catarina, cuja história da formação econômica foi fortemente marcada por movimentos imigratórios, essa experiência 68 profissional permitiu aproximação com casos de pequenos empreendedores, descendentes de imigrantes europeus, sobretudo no município de Blumenau, que adquiriram capacidade exportadora por meio da importação de tecnologias daquele continente e, de forma consecutiva, exportavam seus produtos para empresas europeias, obedecendo a uma consistente rede de negócios baseada em laços familiares, confiança e relações de cooperação mútua. O Estado de Santa Catarina reúne características que lhe confere uma posição de destaque entre os demais Estados da federação. Diante do seu singular processo de formação econômica, muitos autores dedicaram esforços para identificar os fatores que contribuíram para constituir o que Cunha (2001) denomina de “Modelo Catarinense de Desenvolvimento”. Para o autor, o segmento das PMEs desempenha uma função de especial importância para a economia catarinense, fato consubstanciado no início do seu processo de industrialização, com a participação marcante de imigrantes italianos e alemães. Graças à experiência técnica e organizacional herdada dos seus antecessores, estas famílias foram se incorporando ao ambiente econômico de Santa Catarina, estabelecendo pequenas unidades fabris que acabaram por constituir um parque industrial altamente diversificado. O município de Blumenau está localizado em uma região fortemente influenciada pela imigração alemã ocorrida em meados do século XIX, e que abriga um dos principais pólos exportadores deste Estado. Fundada em 1850 pelo famacêutico alemão Dr. Hermann Bruno Otto Blumenau, a cidade traz consigo uma marcante herança cultural dos imigrantes que colonizaram a região (SANTIAGO, 2001). A princípio, a Colônia se manteve como propriedade particular do fundador que, ao enfrentar dificuldades financeiras, conseguiu em 1860, que o Governo Imperial encampasse o seu empreendimento. O Dr. Blumenau foi conservado na direção da colônia e nela se manteve até quando foi elevada à categoria de município, em 1880. Hermann Blumenau conseguiu em poucos anos fazer da colônia um dos maiores empreendimentos colonizadores da América do Sul, criando um centro agrícola e industrial de significativa importância e fontes de produção de ponderável influência na vida econômica do país. A disponibilidade de força de trabalho qualificada, proveniente basicamente da Alemanha, foi uma das bases de sustentação da industrialização da região desde finais do século XIX, época em que a economia regional ainda era tipicamente primário-exportadora. Mesmo sendo as atividades industriais bastante diversificadas, tiveram destaque, inicialmente, a indústria alimentícia e depois a indústria têxtil, a qual passou a predominar amplamente a partir dos anos vinte do século passado. 69 Na década de 1960, Blumenau passou a ser um importante pólo têxtil no contexto nacional e já nos anos de 1980 era um pólo produtivo reconhecido internacionalmente, albergando empresas do porte de Hering, Artex, Cremer, Karsten, Sulfabril e Teka. Paralelamente, outras atividades industriais não tradicionais também adquiriram importante dinamismo, como a cristaleria e a metal-mecânica. Como pode ser observado, a economia de Blumenau baseou-se historicamente no desenvolvimento, quase exclusivo, de setores manufatureiros tradicionais e, principalmente, da indústria têxtil. Porém, há duas décadas, surgiu na cidade uma nova atividade empresarial, intensiva em conhecimentos: a indústria de software. Nos últimos anos, este setor, composto por um numeroso grupo de PMEs, consolidou-se como um segmento de crescente significado na economia do município, tanto pelo movimento econômico gerado, quanto pela alta qualificação dos recursos humanos incorporados. Atualmente, Blumenau conta com uma população em torno de 309 mil habitantes e tem como base de sua economia, as atividades desenvolvidas por cerca de 17.200 empresas (FURB, 2011). Todas estas considerações podem sustentar a hipótese de que os laços familiares e as relações de amizade/confiança entre empresários brasileiros descendentes de imigrantes europeus e empresários daquele continente podem influenciar o processo de internacionalização de PMEs e, por conseguinte, explicar o grau de internacionalização das empresas do município de Blumenau/SC, objeto central desta tese. 3.4 CONTRIBUIÇÕES DO CAMPO DAS REDES SOCIAIS A seguir, serão apresentadas algumas contribuições do campo das redes sociais, objetivando abordar alguns conceitos considerados fundamentais para a construção do instrumento de coleta de dados desta tese. Os estudos sobre as redes sociais possuem um caráter eminentemente interdisciplinar e têm suas origens em diversos campos da ciência. No entanto, apesar da polissemia e da notória complexidade da noção de rede social, todas as suas definições convergem para o sentido de ligação, laço e interação (MINHOTO; MARTINS, 2001). 70 As primeiras investigações científicas sobre o funcionamento das redes sociais ocorreram na década de 1930, com os trabalhos de Jacob Moreno, que buscou representar graficamente as propriedades formais das configurações sociais, inaugurando uma abordagem conhecida como sociometria. Os sociogramas eram a representação gráfica de atores de um determinado grupo de pessoas que se apresentavam como pontos conectados por linhas, sinalizando a relação entre elas. Essas linhas representavam as relações afetivas positivas e negativas entre os atores, indicando a configuração social do indivíduo em análise. Moreno desenvolveu o método com vistas à medição de papéis desempenhados por indivíduos em um determinado grupo. A análise dos diagramas (sociogramas) gerados a partir destas medições, auxiliaria o pesquisador na visualização dos canais de comunicação, nas preferências pessoais, na identificação de líderes e na avaliação da intensidade das conexões entre os indivíduos. Desde então, vários esforços de pesquisa buscaram aprimorar e ampliar o campo das redes sociais. Scott (2000) destaca que, até o final da década de 1970, o foco central das pesquisas sobre redes ainda estava restrito a comunidades e pequenos grupos de indivíduos. Com a crescente complexidade dos fenômenos urbanos nas grandes metrópoles, sociólogos e antropólogos passaram a utilizar instrumentos de análise de redes sociais marcando a intensificação das pesquisas na área de Estudos Organizacionais. Para efeitos deste estudo, citam-se os trabalhos do sociólogo Mark Granovetter entre os quais se destacam The Strenght of Weak Ties (1973) e Getting a Job (1974). Granovetter (1974) promoveu grande impulso ao estudo das networks, ao pesquisar os fatores que influenciavam o acesso a postos de trabalho na cidade de Boston. A contribuição de Granovetter (1974) foi a de valorizar as relações informais que ocorrem no interior da estrutura social, em detrimento das relações hierárquicas privilegiadas pelos métodos não relacionais de análise. Nesta perspectiva, os atores se comportam e tomam decisões, segundo um contexto social determinado e não como átomos isolados, da mesma forma que não aderem a um roteiro pré-escrito. De fato, os estudos sobre redes sociais encontram-se em um processo contínuo de ampliação e propagação em diversos campos do saber, incluindo o surgimento de novas abordagens e aplicações. Sua base conceitual vem se tornando um caminho analítico para a investigação e a compreensão de diversos fenômenos da vida em sociedade. Para Martes et al. (2006), este crescente interesse pelas redes sociais é resultante de uma mudança que vem ocorrendo no meio acadêmico, desde a segunda metade do século XX. Esta 71 transformação está associada ao movimento de fuga das tradicionais explicações individualistas, essencialistas e atomistas em direção a explicações relacionais, contextuais e sistêmicas. De acordo com os autores, a abordagem das redes sociais passou a ser uma alternativa, por um lado, ao determinismo cultural – uma vez que elas são produto da human agency – e, por outro, à abordagem econômica neoclássica – na medida em que as relações entre indivíduos, e não os indivíduos isolados, é que são tomadas como unidade de análise (POWELL; SMITH-DOERR, 1994). Seguindo esta perspectiva, Wellman (1983) afirma que o comportamento social é resultante não apenas dos atributos do indivíduo, mas também, e, sobretudo, do seu envolvimento na estrutura das relações sociais. Pressupondo que o comportamento ou a opinião de uma determinada pessoa depende, também, das estruturas sociais nas quais ela está inserida, o autor sugere que a unidade de análise passa a ser não mais os atributos individuais (classe, sexo, idade, gênero), mas o conjunto de relações que os indivíduos estabelecem por meio das suas interações uns com os outros. A estrutura social é então vista como uma rede de relações e de limitações que influencia as escolhas, as orientações, os comportamentos e as opiniões dos indivíduos. É neste ponto que se fundamenta a principal diferença entre os métodos relacionais e não relacionais de análise: a inclusão de conceitos e informações sobre o relacionamento entre unidades de análise. A análise de redes sociais, por seu turno, compreende uma forma de abordagem para se realizar a análise da estrutura social, cujo objetivo é demonstrar que o formato da rede pode explicar os fenômenos analisados. A análise de redes não deve ser entendida como uma teoria formal ou unitária, mas uma ampla estratégia de investigação de estruturas sociais (EMIRBAYER; GOODWIN, 1994). Granovetter et al. (2000) definem networks como um conjunto de nós ou atores (indivíduos ou organizações) ligados por relações sociais ou laços de tipos específicos. Um laço ou relação entre dois atores tem força e conteúdo. A força reflete a intensidade e a frequência das interações e o conteúdo inclui fatores como informação, questões familiares, conselho ou amizade, interesses compartilhados e, particularmente, algum nível de confiança. Parte-se do pressuposto de que as pessoas, vivendo em coletividades, passam a estabelecer relações entre si e que estas relações podem ser vistas como conexões, pelas quais transitam estes conteúdos. As redes sociais são exatamente a representação destas coletividades como um conjunto de relações, conexões ou caminhos (graficamente representáveis por arestas) e de nodos (vértices). Quando os caminhos entre dois nodos são múltiplos (a rigor mais de um), tem-se a construção de uma rede social. 72 Este estudo volta-se para a análise de redes sociais interorganizacionais, uma área que passou a receber maior destaque a partir da década de 1970, quando economistas e sociólogos passaram a estudar os fluxos de informação entre empresas como processos de formação de redes sociais (networking process). Os trabalhos de DiMaggio e Powell (1983) e DiMaggio (1986) enfocaram as relações entre redes sociais e fluxos de informação no campo da sociologia das organizações, especialmente o processo de difusão de melhores práticas organizacionais em setores de atividade econômica específicos. Para os autores, as formas organizacionais das sociedades modernas assemelham-se umas às outras, não porque sejam necessariamente as mais eficientes, mas porque a necessidade de buscar legitimidade junto à esfera social exige isso delas, causando uma espécie de “isomorfismo” organizacional. A relação entre redes sociais e empresas também é abordada pelo trabalho de Granovetter (1985), com o emprego do conceito de “embeddedness” (imersão social), na busca por explicações de como o comportamento social influencia a ação econômica, um dos principais vetores que orientam os estudos em sociologia econômica. Cunhado originalmente por Polaniy na sua obra A Grande Transformação, o termo “embeddedness” indica que a ação econômica é “imersa socialmente”, o que significa dizer que as relações sociais afetam, profundamente, o desempenho das empresas e a dinâmica econômica da região onde estão inseridas. Diferentemente do que preconiza a economia neoclássica, a sociologia econômica nega que as relações sociais, inseridas no mercado, visem somente à satisfação racional e utilitária de interesses individuais. De fato, Granovetter (1985) acaba fornecendo um modelo teórico desvinculado da consagrada versão de Williamson (1975), de que as organizações com forte presença de mercado são aquelas que, em qualquer situação, sempre lidam, mais eficientemente, com o custo das transações econômicas. Para Granovetter (1985), a economia não deve ser percebida como uma esfera diferenciada e, cada vez mais, separada da sociedade moderna, pois as transações econômicas não podem ser definidas, exclusivamente, por cálculos racionais de ganho individual, mas também, e principalmente, por obrigações sociais ou de parentesco. O autor sustenta ainda que os cientistas sociais tendem a evitar análises mais aprofundadas previamente abordadas pela economia neoclássica, porque sustentam a crença de que os processos de mercado não são “objetos apropriados” para a abordagem sociológica, vez que, nas sociedades modernas, as relações sociais desempenham apenas um papel periférico nestes processos. 73 Uzzi (1997) destaca que a imersão social das empresas em redes de produção provoca uma significativa mudança de atitude nos seus atores frente aos aspectos da coletividade, desviando o foco da maximização dos ganhos individuais para o estabelecimento de laços de cooperação duradouros. Por essa ótica, a organização em rede propicia o desenvolvimento de laços de confiança entre os seus atores que, por sua vez, ajudam a reduzir os custos de transação por meio da economia de tempo, acordos de integração e melhorias de distribuição. A perspectiva analítica das redes sociais vem reforçando e expandindo a sociologia econômica, ao enfatizar a ideia de que para entender o mercado é necessário conhecer a natureza das relações sociais nas quais ele está inserido. Tal abordagem renova as críticas à teoria econômica neoclássica, colocando em dúvida, a suposição do indivíduo atomizado e independente, deslocando a unidade de análise para as efetivas relações entre os indivíduos e as organizações. Martes (2005) apresenta uma extensa análise da bibliografia brasileira e internacional sobre o funcionamento e a dinâmica das redes formadas entre empresas, objetivando estimular o debate teórico sobre o tema e contribuir para uma agenda de pesquisas no Brasil. Foram analisadas diversas publicações (artigos de periódicos e teses/dissertações) produzidas entre os anos de 1990 e 2003, as quais foram agrupadas em três campos específicos: a) a formação de redes entre empresas e a região (local) onde estão inseridas; b) o papel exercido pelas redes sociais nas mudanças organizacionais e na inovação; e c) a influência das relações de confiança existentes nas redes na definição de estratégias empresariais. Buscando uma convergência entre os resultados das publicações analisadas, o relatório de Martes (2005) apresenta finalmente três grandes conclusões que mereceram destaque. São eles: a) a organização em rede efetivamente promove o desenvolvimento local, sobretudo no contexto das micro e pequenas empresas que podem aumentar suas chances de sobrevivência quando organizadas em arranjos locais; b) as empresas organizadas em rede tendem a alterar seu foco estratégico para a cooperação. Como consequência, a mudança organizacional e a inovação tornam-se temas recorrentes; e c) a organização em rede favorece o estabelecimento de relações de confiança entre os atores, as quais auxiliam as empresas na redução dos custos de transação e na redução do comportamento oportunista dos parceiros. A confiança é percebida como um elo fundamental no estabelecimento de relações de negócios de longo prazo. Cabe destacar que a grande contribuição da análise de redes para as ciências sociais, consiste na sofisticação dos estudos sobre os padrões de relação entre indivíduos e grupos. 74 Expressões-chave da contemporaneidade como a individualização das formas de vida e a dissolução de velhas desigualdades sociais acabaram exigindo uma nova sensibilidade para o estudo empírico das questões envolvidas, tornando necessário que o cientista social busque uma maior familiaridade com o que de fato ocorre na esfera do cotidiano. Conforme dito anteriormente, acumulam-se evidências de que a ação humana é afetada pelas relações sociais em que os agentes estão imersos, relevando o papel da análise de redes como um novo olhar sobre fenômenos sociais ainda pouco compreendidos. Finalmente, com base na revisão de literatura apresentada e na delimitação do objeto de estudo, construiu-se um modelo conceitual para esquematizar a associação proposta entre laços de descendência imigratória e o grau de internacionalização de empresas, conforme pode ser observado na Figura 2. Busca-se demonstrar que fatores como laços familiares, círculos de amizade, domínio de idioma e identificação cultural com o país de origem geram uma dinâmica de compartilhamento de recursos, informações e expertises que são determinantes na identificação de oportunidades de negócios e na exploração de mercados estrangeiros potenciais. Esta dinâmica pode criar vantagens que facilitam a empresa local, no sentido de reduzir os riscos envolvidos nas operações internacionais e, consecutivamente, melhorar o desempenho da sua atuação internacional, traduzido, neste estudo, como o aumento do seu grau de internacionalização. Figura 2 – Modelo Conceitual da Associação entre Laços de Descendência Imigratória e o Grau de Internacionalização de Empresas Laços Pessoais: - laços familiares - laços de amizade - domínio do idioma Conteúdo Laços de identificação: - identificação cultural - identificação política - identificação institucional Laços de descendência imigratória Contatos raros Contatos ocasionais Força Contatos frequentes Contatos muito frequentes Fonte: elaborado pelo Autor Grau de internacionalização de empresas 75 Para caracterizar os laços de descendência imigratória foi empregado o conceito de Granovetter et al. (2000), que confere dois atributos fundamentais aos laços ou relações entre indivíduos: a força; e o conteúdo. A força reflete a intensidade e a frequência das interações e o conteúdo inclui fatores como informação, questões familiares, conselho ou amizade, interesses compartilhados e, particularmente, algum nível de confiança. A subdivisão do conteúdo dos laços, em laços pessoais e laços de identificação foi baseada nos resultados obtidos pelo trabalho de Hayer e Ibeh (2006), que buscou categorizar os “pretextos”, por meio dos quais, empresários com a mesma origem étnica aproximavam-se, no intuito de realizar operações internacionais. Por fim, para caracterizar o grau de internacionalização das empresas a serem investigadas utilizar-se-á a metodologia proposta por Sullivan (1994), que busca mensurar o nível de comprometimento da empresa em mercados estrangeiros por intermédio de variáveis como frequência exportadora, volume de embarques internacionais, modos de entrada utilizados e dispersão geográfica das vendas externas. O desdobramento deste modelo conceitual preliminar em um modelo de análise final receberá maior destaque no próximo capítulo. Serão abordados os aspectos metodológicos adotados no planejamento e na execução deste estudo, apresentando-se o modelo de análise proposto e os procedimentos de coleta e análise de dados. 76 4 DELINEAMENTO METODOLÓGICO Este capítulo aborda os aspectos metodológicos adotados no planejamento e na execução desta tese. Apresenta-se o modelo de análise proposto, o método de pesquisa utilizado e os procedimentos de coleta e análise de dados. 4.1 CARACTERIZAÇÃO DA PESQUISA Segundo Marcantonio et al. (1993), a pesquisa científica envolve o planejamento prévio dos caminhos e dos instrumentos fundamentais para o levantamento, organização e interpretação dos dados obtidos sobre o que se estuda. A pesquisa descritiva, uma das suas classificações, se subdivide em pesquisa bibliográfica e de campo. A pesquisa bibliográfica é realizada por meio da consulta a documentos e serve como fundamentação teórica. A pesquisa de campo corresponde à coletânea de informações no local em que aconteceram os fenômenos, observando, analisando, registrando, e correlacionando o objeto do estudo. Este estudo tem um enquadramento metodológico descritivo e inferencial, pois procura descrever a realidade das PMEs de uma determinada região do país, além de buscar encontrar relações entre grau de internacionalização de empresas e relevância dos laços de relacionamento entre empresários, na concretização de operações comerciais internacionais, proporcionando novas perspectivas para as pesquisas sobre negócios internacionais. 4.2 POPULAÇÃO E AMOSTRA A população de referência desta pesquisa foi o conjunto de empresas pertencentes ao quadro social da Associação Empresarial de Blumenau (ACIB). A escolha da ACIB como público-alvo de investigação decorreu da sua localização, em uma região fortemente 77 influenciada pela imigração alemã e por abrigar um dos principais pólos exportadores de Santa Catarina, características aderentes aos propósitos desta tese. De acordo com Santiago (2001), a ACIB foi fundada em 05 de novembro de 1901 na esteira da cultura do associativismo (kulturverein)4 trazida pelos imigrantes alemães que se estabeleceram em Blumenau no ano de 1850. É reconhecida como a mais antiga entidade de representação empresarial de Santa Catarina, tendo exercido um papel importante no crescimento econômico e na atividade empreendedora do município. Atualmente, a entidade conta com 914 empresas associadas, dentre as quais, 209 são empresas comerciais, 168 são indústrias e 537 são empresas prestadoras de serviços. A amostra de empresas utilizada nesta tese deve ser considerada não probabilística, pois o convite e o link de acesso à pesquisa foram enviados eletronicamente para todas as empresas associadas, independente do porte ou do setor de atividade econômica. Conforme observado no Capítulo 3, especificar padrões do porte de empresas tem um caráter arbitrário, porque os governos e seus organismos adotam diferentes critérios para distintos propósitos. Os limites entre as faixas utilizadas (micro, pequena, média e grande empresa) escondem uma grande heterogeneidade de conceitos e variam conforme o contexto institucional e histórico dos países. As pesquisas publicadas nos periódicos mais consultados5 nesta tese utilizam, na sua grande maioria, a notação “SME” (Small and Medium-sized Enterprises) para referenciar empresas que contam com até 500 empregados. Dentre essas pesquisas podem-se destacar, por exemplo, os trabalhos de Bonaccorsi (1992), Moen e Servais (2002) e Majocchi et al. (2005). No tocante ao contexto brasileiro, os relatórios de monitoramento do SEBRAE (2010), sobre a atividade exportadora de PMEs no Brasil, também utilizam critério de classificação semelhante, incluindo a subdivisão “micro-pequena-média”, mas limitando a faixa em 500 empregados. Sendo assim, com o propósito de homogeneizar a notação, este estudo atribui a sigla “PMEs” para caracterizar o segmento de empresas que conta com até 500 empregados. 4 Em 1863, alguns agricultores decidiram unir-se para criar a Sociedade da Cultura (Kulturverein), uma entidade formada por colonos interessados em melhorar seus resultados na agricultura e na pecuária, por meio de ações conjuntas. Eram compartilhadas informações sobre técnicas de plantio, conservação do solo e novas culturas que eram trazidas da Alemanha. 5 Journal of International Business Studies, International Business Review, International Marketing Review, International Small Business World e Journal of International Marketing. 78 Embora tenha havido registro de 192 respondentes, verificou-se um elevado número de respostas incompletas, as quais foram gradativamente excluídas depois de reiteradas tentativas junto às empresas respondentes (que se identificaram), para completarem as questões em branco. Ao final, a amostra contou com 73 questionários completos, sendo dois excluídos da análise por se tratarem de empresas com mais de 500 empregados, como pode ser observado na Tabela 02: Tabela 2 – Amostra de Empresas Respondentes Número de funcionários Faixa n % Até 09 funcionários 12 16,9 De 10 a 19 funcionários 13 18,3 De 20 a 49 funcionários 18 25,4 De 50 a 99 funcionários 20 28,1 De 100 a 499 funcionários 8 8,5 Acima de 499 funcionários 2 2,8 73 100,0 Total Cabe ainda destacar que, devido ao compromisso de confidencialidade celebrado com os dirigentes da Associação Empresarial de Blumenau, as denominações (razão social ou nome de fantasia) das empresas respondentes não foram relacionadas nesta tese. 4.3 INSTRUMENTO DE COLETA DE DADOS O procedimento utilizado para o estudo foi um survey. De acordo com Hair Jr. et al (2005), survey é um procedimento de coleta de dados primários, envolvendo informações que podem variar entre crenças, opiniões, atitudes e estilos de vida e, de forma complementar, informações sociodemográficas como idade, sexo, educação e ocupação profissional dos 79 entrevistados. É considerada uma técnica adequada para se estudar o comportamento de amplas populações, a partir de amostras selecionadas, para se descobrir a incidência relativa, a distribuição e a relação entre variáveis. Malhotra (2006) destaca outras vantagens do survey, como o fato de ser um método de coleta de dados relativamente simples de ser aplicado; por oferecer uma boa margem de confiabilidade nos dados obtidos; pela limitação das alternativas de resposta; e, como consequência, por criar facilidades na codificação, na análise e na interpretação dos dados. Como principal desvantagem, o survey tende a restringir a amplitude das escolhas dos respondentes. Para isto, o autor sugere que sejam criados ao final do questionário espaços livres para que os respondentes possam expressar suas complementações, bem como suas próprias dúvidas acerca do preenchimento, procedimento não adotado nesta tese. O instrumento de coleta de dados empregado foi um questionário apresentado em versão eletrônica utilizando-se o EFS Survey, software largamente utilizado para a condução de pesquisas acadêmicas on line, produzido pela empresa Globalpark GmbH (http://www.unipark.de). Como será detalhado mais adiante, o link de acesso à webpage do questionário foi oferecido por meio de mensagem eletrônica as PMEs, associadas à Associação Empresarial de Blumenau (ACIB). Para Crawford (2002), os softwares de condução de pesquisas on line possibilitam que questionários possam ser facilmente disponibilizados na Internet, registrando e salvando as respostas diretamente a uma base de dados, localizada no computador servidor ou mesmo para a conta de e-mail do pesquisador. Associado a esta vantagem está, também, o próprio fator temporal, já que o instrumento de pesquisa pode permanecer disponível para os potenciais respondentes 24 horas por dia, durante os sete dias da semana. A estrutura geral do questionário, com quatro questões de múltipla escolha e 18 questões de resposta única, encontra-se no Apêndice A. Sua versão preliminar foi submetida a um pré-teste com a participação de professores pesquisadores vinculados ao Programa de PósGraduação da Escola Superior de Administração e Gerência (ESAG). O teste final foi realizado com dirigentes de quatro empresas exportadoras, associadas à Câmara de Comércio e Indústria Brasil-Alemanha, sediada no município de Blumenau. Esse teste mostrou-se particularmente importante para os ajustes no instrumento, haja vista que o uso de filtros entre as questões que, na versão preliminar, prejudicava a linha de raciocínio e gerava erros de preenchimento por parte dos respondentes. Outro ajuste proporcionado pelo teste foi na 80 redação das perguntas e opções de respostas, sugerindo, na medida do possível, a utilização de frases e palavras de fácil entendimento para empresários. Da mesma forma, o teste piloto do instrumento auxiliou na definição dos escores atribuídos a algumas respostas. Conforme demonstrado por May (2004), para que a análise de dados obtidos mediante instrumentos extensivos seja realizada com validade e confiabilidade, torna-se necessária a codificação das respostas em categorias analisáveis, a partir de escalas. A codificação é a maneira pela qual se alocou um código numérico (escore) que serviu de parâmetro de medida das variáveis. Segundo o autor, a confiabilidade é gerada no momento em que uma escala produz resultados consistentes no decorrer de repetidas medidas de uma mesma característica. Por seu turno, a validade é gerada quando diferenças em escores observados na escala revelam as reais distinções entre objetos quanto à característica que está sendo medida. O questionário foi construído com o objetivo de buscar correlações entre duas variáveis consideradas fundamentais para responder à questão de pesquisa. São elas: o grau de internacionalização da empresa investigada e a relevância dos laços com empresas/entidades estrangeiras para a sua inserção internacional. Com base na revisão da literatura, as variáveis foram assim definidas: a) Grau de internacionalização da empresa Frequência exportadora (nº de exportações realizadas por ano); Intensidade exportadora (participação % da receita de exportação sobre a receita total); Dispersão geográfica das vendas externas (nº de países de destino das vendas); e Modos de entrada em mercados estrangeiros. b) Relevância dos laços Conteúdo dos laços; e Força dos laços. 81 O cálculo do grau de internacionalização (vide Quadro 5) das empresas investigadas foi adaptado a partir do modelo de Sullivan (1994), apresentado no Capítulo 2 desta tese. Alguns componentes deste modelo não foram empregados por possuírem pouca aplicação sobre a realidade financeira das PMEs, como, por exemplo, as relações percentuais “ativos no exterior sobre ativo total” e “número de subsidiárias no exterior sobre número de subsidiárias domésticas”. Para o componente “frequência exportadora” foi empregada a taxonomia utilizada pelo SEBRAE (2010): empresa não exportadora (nunca exportou durante o período em questão); exportadora estreante (exportou pela primeira vez a partir de 2009); exportadora desistente (já exportou durante o período em questão, mas não mais realizou vendas externas nos últimos dois anos); exportadora descontínua (exporta irregularmente durante o período em questão, porém, ficou até um ano sem realizar vendas externas neste período); e exportadora contínua (exporta continuamente durante o período em questão, não ficando sem realizar vendas externas por mais de um ano). As faixas de número de países de destino das exportações foram definidas após a coleta de dados, em virtude das frequências observadas: até 2 países; entre 3 e 6 países; e acima de 6 países. Os modos de entrada em mercados estrangeiros foram empregados com base no modelo de Johanson e Valhne (1977): exportação indireta; exportação direta; joint ventures; licenciamento; subsidiária comercial; franchising internacional; e subsidiária de produção. Para a caracterização dos laços com empresários estrangeiros foi empregado o conceito de Granovetter et al. (2000): um laço entre dois atores tem força e conteúdo. A força reflete a intensidade e a frequência das interações e o conteúdo inclui fatores como informação, círculos familiares, amizade, interesses compartilhados e, particularmente, algum nível de confiança. O Quadro 3 apresenta o modelo de análise adotado no planejamento desta pesquisa e que serviu de orientação para a definição das variáveis a serem interpretadas: 82 Quadro 3 - Modelo de Análise MODELO DE ANÁLISE FONTE DE DADOS CONCEITO Grau de internacionalização de empresas DIMENSÕES COMPONENTES Não exportadora Mercado interno Exportadora passiva Receita de exportação Exportadora ativa Intermediários comerciais (tradings) Investimento externo Subsidiárias no exterior. INDICADORES Participação % da receita de exportação sobre a receita total Frequência exportadora Dispersão geográfica das vendas externas Modos de entrada em mercados estrangeiros MODELO DE ANÁLISE CONCEITO DIMENSÕES COMPONENTES TÉCNICA DE TRATAMENTO DE DADOS INDICADORES Questionário estruturado aplicado via internet junto a PMEs associadas a Associação Empresarial de Blumenau Análise bivariada de dados: Teste de correlação de Spearman Teste t Laços familiares Relações baseadas em laços de descendência Relevância dos laços com empresários estrangeiros Relações não baseadas em laços de descendência Conteúdo dos laços Força dos laços Laços de amizade Residência no exterior Facilidade com idioma Identificação cultural Identificação política Identificação institucional Frequência de contatos Considerando-se as demandas do modelo de análise, a estrutura básica do questionário ficou assim desenhada: I. Carta de apresentação; II. Caracterização da empresa: - setor de atividade econômica; - nº de funcionários; - ano de fundação; 83 III. Grau de internacionalização: - motivos que provocaram a inserção internacional; - início das operações internacionais; - frequência exportadora; - intensidade exportadora; - modos de entrada em mercados estrangeiros; - países de destino das vendas externas; - ações de promoção comercial no exterior; IV. Dados sociodemográficos do respondente: - idade; - sexo; - grau de escolaridade; - relação contratual com a empresa; V. Relevância dos laços: - país com o qual a descendência está predominantemente vinculada; - existência de relações de negócios com empresas/entidades sediadas no país de descendência; - país com o qual a descendência está predominantemente vinculada; - tipos de relações de negócios com empresas/entidades sediadas no país de descendência; - conteúdo das relações de negócios com empresas/entidades sediadas no país de descendência; - frequência dos contatos com empresas/entidades sediadas no país de descendência; e - relevância dos laços de descendência para a inserção internacional da empresa. 4.4 PROCEDIMENTOS DE COLETA, TRATAMENTO E ANÁLISE DE DADOS 4.4.1 Coleta de Dados Depois de ser testado e sofrer alguns ajustes, o questionário foi disponibilizado em um ambiente on line para o início da coleta de dados. Para possibilitar o acesso à webpage da pesquisa foi necessário obter uma lista de endereços eletrônicos (mailing) dos potenciais respondentes para, posteriormente, disponibilizar o link de acesso. Após algumas reuniões com diretores e representantes da Associação Empresarial de Blumenau, obteve-se o apoio institucional, ficando o Presidente da entidade responsável por enviar uma mensagem de convite para todas as empresas associadas. Essas reuniões tornaram-se, particularmente, importantes, na medida em que se fazia necessário um “discurso” capaz de demonstrar a importância institucional da pesquisa. Procurou-se deixar claro que se tratava de uma investigação científica conduzida por uma equipe de professores vinculados a programas de 84 pós-graduação e, da mesma forma, demonstrar que o tema a ser explorado (laços familiares e culturais com empresários estrangeiros) revestia-se de importância estratégica para os programas de apoio oferecidos pela Instituição, incluindo a apresentação de artigos científicos específicos sobre internacionalização de PMEs. A coleta de dados ocorreu no período compreendido entre os dias 08 de março a 08 de dezembro de 2011, período em que a webpage da pesquisa permaneceu acessível aos respondentes. À medida que o questionário era acessado e respondido, buscava-se monitorar o volume de respostas, visto que a meta inicial era de 100 respondentes válidos ao final da fase de levantamento dos dados, ou seja, cerca de 10% da população de referência. Embora o ideal fosse ter uma representatividade maior em termos amostrais, reconhece-se que surveys eletrônicos possuem baixa taxa de retorno. Foram organizados alguns novos encontros com representantes da Associação Empresarial de Blumenau no intuito de reforçar o convite para a participação dos associados. Embora o número de questionários acessados/respondidos tenha chegado a 192, ao final do período obtiveram-se 73 respostas válidas, ou seja, questionários respondidos integralmente. Para Malhotra (2006), surveys via Internet, como todos os demais instrumentos de coleta de dados, possuem suas vantagens particulares, mas também, limitações. Segundo o autor, a pesquisa eletrônica ainda está em fase de maturação e, naturalmente, ocorrerão progressos no sentido de aumentar a sua eficácia como instrumento de aplicação científica. Não obstante as suas vantagens em termos de rapidez, amplitude e de menores custos, as suas limitações quanto às baixas taxas de resposta e ao risco de as amostras serem pouco representativas sugerem, de forma imperativa, que o pesquisador dedique boa parte do seu esforço em monitorar os acessos e reiterar convites aos respondentes potenciais. 4.4.2 Tratamento dos Dados: Medidas e Variáveis Criadas Para caracterizar a empresa investigada foram usadas as variáveis nominais ou categóricas, oferecendo questões, na sua maioria, de única alternativa. Para medir a atitude do entrevistado utilizou-se uma escala tipo Likert de quatro pontos, variando entre nada relevante (1) e muito relevante (4). Para medir o grau de internacionalização, atribuíram-se valores entre 1 (um) e 3 (três) pontos para cada uma das alternativas marcadas, conforme pode ser observado no Quadro 4: 85 Quadro 4 – Operacionalização da Variável “Grau de Internacionalização” Frequência Exportadora Categoria segundo a taxonomia usual Categoria ajustada6 Valor Exportadora sem experiência 01 Exportadora irregular 02 Exportadora regular 03 Características Não exportadora Nunca exportou durante o período em questão. Exportadora estreante Exportou pela primeira vez a partir de 2009. Exportadora desistente Já exportou durante o período em questão, mas não mais realizou vendas externas nos últimos 02 (dois) anos. Exportadora descontínua Exporta irregularmente durante o período em questão, chegando a ter ficado até 1 ano sem realizar exportações. Exportadora contínua Exporta continuamente durante o período em questão, não ficando sem realizar vendas externas por mais de 1 ano. Intensidade Exportadora Categoria segundo a taxonomia usual Até 10% da receita total Categoria ajustada6 Valor Baixa intensidade exportadora 01 Média intensidade exportadora 02 Alta intensidade exportadora 03 Entre 11% a 20% da receita total Entre 21% a 30% da receita total Entre 31% a 40% da receita total Entre 41% e 50% da receita total Entre 51% e 60% da receita total Mais de 60% da receita total Dispersão Geográfica das Vendas Externas Número de países de destino das vendas externas Categorias adotadas pelo estudo Valor Até 2 países Baixa dispersão geográfica 01 Entre 3 e 6 países Média dispersão geográfica 02 Alta dispersão geográfica 03 A partir de 7 países Número de Modos de Entrada em Mercados Estrangeiros Modos de entrada considerados Exportação indireta através de trading company, empresa comercial exportadora brasileira ou agente internacional. Exportação direta utilizando estrutura própria de comercialização externa. Acordos de joint ventures ou de transferência de tecnologia com empresas estrangeiras. Franchising internacional. Instalação de escritório comercial no exterior. Licenciamento de produção no exterior. Instalação/aquisição de unidade de distribuição no exterior. Instalação/aquisição de unidade de produção no exterior. Categorias adotadas pelo estudo Valor Até 1 modo de entrada Baixa diversificação 01 Entre 2 e 3 modos de entrada Média diversificação 02 A partir de 4 modos de entrada Alta diversificação 03 O grau de internacionalização de cada empresa participante foi definido pelo somatório dos valores obtidos nas respostas apresentadas no Quadro 4, podendo variar de 1 (um) e 12 (doze) pontos. 6 As categorias de frequência e intensidade exportadora foram ajustadas (reduzidas) em virtude do baixo número de respostas válidas. Desta forma, obteve-se maior representatividade numérica dentro de cada nova categoria. 86 Da mesma forma, buscou-se mensurar a relevância dos laços com empresas e/ou entidades estrangeiras, por meio das quais a empresa investigada afirmou manter relações de negócios. Entende-se por “relevância dos laços”, o papel exercido pelas redes de relacionamento na efetivação de negócios com parceiros localizados no país de descendência do respondente. Essas relações de negócios foram abordadas pelo questionário nas suas diversas formas, a saber: a) exportação de produtos e/ou serviços; b) importação de produtos e/ou serviços; c) contratação de serviços técnicos especializados; d) captação de investimento; e) contratação de serviços financeiros; f) cooperação tecnológica; g) cooperação financeira; participação societária no exterior; e h) participação de sócios estrangeiros na empresa local. De acordo com o modelo de análise adotado, a relevância dos laços é uma variável resultante da associação de dois componentes: o conteúdo dos laços e a força dos laços (GRANOVETTER et al., 2000). O componente “conteúdo dos laços” revela os fatores que contribuíram para a consolidação da relação como laços familiares, círculos de amizade, facilidade com o idioma estrangeiro, identificação cultural, dentre outros. Com base no trabalho de Hayer e Ibeh (2006), optou-se pela divisão deste componente em duas categorias distintas: laços pessoais e laços de identificação. Como as questões específicas incluíam múltipla escolha, foi atribuído o valor de 1 (um) ponto para cada fator registrado pelas respostas em cada categoria, podendo obter um total de 4 (quatro) pontos, conforme pode ser observado no Quadro 5. Quadro 5 – Operacionalização da Variável “Relevância dos Laços” Conteúdo dos laços Laços pessoais Valor Laços de identificação Valor Laços familiares 01 Identificação com a cultura do país 01 Laços de amizade 01 Identificação com a imagem do país 01 Residência no país estrangeiro 01 Confiança nas instituições do país 01 Facilidade com o idioma do país 01 Confiança nas empresas do país 01 Força dos laços Frequência Descrição Valor Raramente Sem representatividade 01 Ocasionalmente Pelo menos uma vez por semestre 02 Frequentemente Pelo menos uma vez por mês 03 Muito frequentemente Pelo menos uma vez por semana 04 87 Por seu turno, o componente “força dos laços” indica a frequência em que são realizados os contatos entre a empresa local e as empresas/entidades localizadas no país de descendência do respondente. Sendo uma questão de resposta única, atribuíram-se valores entre 1 (um) e 4 (quatro) pontos para cada uma das faixas de frequência previstas. 4.4.3 Análise dos Dados De acordo com Hair et al. (2005), as pesquisas em ciências sociais usualmente apresentam um grande volume de dados para serem tratados e analisados, trazendo para o pesquisador um grande desafio para converter esses dados em conhecimento. Os autores destacam a necessidade de se escolher uma estratégia de análise de dados alinhada com as etapas preliminares do projeto de pesquisa e, principalmente, com as características dos dados coletados. Malhotra (2006) salienta a importância de se conhecer a natureza dos dados, já que as escalas de medidas utilizadas exercem forte influência na escolha das técnicas estatísticas a serem utilizadas na sua análise. Após os procedimentos de tratamento e limpeza do banco de dados foram realizadas análises por meio de um pacote estatístico apropriado para as ciências sociais. Procedeu-se, inicialmente, a uma análise descritiva, a fim de caracterizar o grupo de respondentes e, em seguida, foram empregadas técnicas correlacionais e comparativas. Segundo Hair et al. (2005), a análise de correlação é apropriada quando se busca uma ligação coerente e sistemática entre duas variáveis métricas dentro de uma base de dados, ou seja, quando se precisa medir o grau em que a variação de uma variável X está relacionada com a variação de outra variável Y. Neste caso, se está fazendo referência às possíveis associações entre o grau de internacionalização das empresas investigadas e as interações sociais estudadas. De forma complementar, utilizaram-se diagramas de dispersão e tabulação cruzada de dados (crosstabs) para particularizar frequências de respostas, além de testes t para medir diferenças em médias de grupos específicos de resposta. É importante ressaltar que, para verificar se duas variáveis possuem alguma correlação em uma determinada base de dados, é necessário, inicialmente, definir a significância 88 estatística do coeficiente de correlação. Nesse caso, para ser entendida como “estatisticamente significativa”, a probabilidade deve ser menor ou igual a 0,05, ou seja, um erro máximo de 5%. Uma vez determinada a significância, é necessário decidir qual força de associação entre as variáveis é igualmente aceitável. Hair et al. (2005) sugerem as orientações comumente utilizadas em pesquisas sociais, as quais podem ser observadas no Quadro 6 Quadro 6 – Regras Práticas Sobre o Valor do Coeficiente de Correlação Variação do coeficiente Força de associação ±0,91 - ±1,00 Muito forte ±0,71 - ±0,90 Alta ±0,41 - ±0,70 Moderada ±0,21 - ±0,40 Pequena mas definida ±0,01 - ±0,20 Leve, quase imperceptível Fonte: Hair et al. (2005) Empregam-se, neste estudo, os coeficientes da “Correlação de Spearman” que variam de (-)1,00 e (+)1,00. Conforme observado, os coeficientes de correlação podem assumir valores positivos e negativos, dependendo da direção da relação entre as variáveis. Existirá uma relação positiva, caso as duas variáveis apresentem uma covariação na mesma direção. Da mesma forma, covariações em direções opostas serão representadas por valores negativos. Este capítulo apresentou o delineamento metodológico do planejamento e da execução desta tese. Acredita-se que o método empregado seja adequado aos objetivos propostos e enquadre-se no que é esperado de estudos desta natureza. O capítulo a seguir apresentará e discutirá os resultados encontrados. 89 5 DESCRIÇÃO E ANÁLISE DOS DADOS Este capítulo relata os resultados obtidos pela pesquisa, descrevendo os dados coletados e as suas respectivas análises. Os outputs da amostra gerados pelo programa estatístico foram avaliados sob a perspectiva do modelo de análise proposto e organizados no sentido de facilitar a leitura dos resultados. Apenas relembrando, esta tese tem como objetivo geral analisar de que modo laços familiares e culturais entre empresários descendentes de imigrantes europeus e empresários europeus explicam o processo de internacionalização das pequenas e médias empresas. A seguir, apresenta-se uma análise descritiva dos resultados, a fim de caracterizar a amostra de empresas respondentes e, em seguida, será apresentada a análise inferencial. 5.1 ANÁLISE DESCRITIVA DOS DADOS Neste tópico são apresentados os dados considerados relevantes para a análise inferencial, por estarem relacionados ao grau de internacionalização das empresas investigadas. São eles: frequência exportadora; intensidade exportadora; número de países de destino das exportações; e modos de entrada em mercados estrangeiros. É importante ressaltar que, como esta tese tem como foco o segmento das pequenas e médias empresas (PMEs), as duas empresas de grande porte que responderam ao questionário não foram consideradas para efeitos de análise, já que a questão especificadora do porte continha um filtro com esse propósito. No que tange à frequência exportadora, a análise dos dados da amostra sugere uma expressiva participação de PMEs continuamente exportadoras (41%), contrastando com os estudos de Motta Veiga e Markwald (1998), Majocchi et al. (2005) e SEBRAE (2010), os quais demonstram a tendência das PMEs em apresentar um comportamento desistente ou descontínuo frente à atividade exportadora. No entanto, não se pode ignorar que 21% da amostra nunca havia realizado atividade exportadora até então, sugerindo ser uma prática bem distante de algumas PMEs. A Tabela 3 descreve as frequências por categoria: 90 Tabela 3 – Frequência Exportadora da Amostra Frequência exportadora Nunca exportou durante o período em questão7 Exportou pela primeira vez a partir de 2009 Já exportou durante o período em questão, mas não mais realizou vendas externas nos últimos dois anos Exporta irregularmente durante o período em questão, chegando a ter ficado até 01 (um) ano sem realizar vendas externas neste período Exporta continuamente durante o período, não ficando sem Categoria n % Não exportadora 15 21,1 6 8,5 10 14,1 11 15,5 29 40,8 71 100,0 Exportadora estreante Exportadora desistente Exportadora descontínua Exportadora realizar vendas externas por mais de 01 (um) ano. contínua Total No tocante à intensidade exportadora, os dados coletados sugerem uma perspectiva semelhante aos estudos sobre o comportamento exportador de PMEs, como Calof (1994) e Majocchi et al. (2005), os quais destacam a tendência desse segmento em apresentar baixas participações das suas vendas externas sobre o total dos seus rendimentos. De acordo com esses estudos, as estratégias voltadas à diversificação de mercados estrangeiros implicam custos de promoção comercial internacional que ultrapassam a capacidade financeira das PMEs. Como pode ser observado na Tabela 4, quase 50% da amostra revelou que a receita proveniente das vendas externas não representa mais do que 10% do faturamento total da empresa. Tabela 4 – Intensidade Exportadora da Amostra % das exportações sobre o faturamento total n % Até 10% 26 49,1 Entre 11% e 20% 14 26,4 Entre 21% e 30% 8 15,1 Entre 31% e 40% 4 7,5 Entre 41% e 50% 0 0 Entre 51% e 60% 0 0 Acima de 60% 1 1,9 53 100,0 Total 7 Período compreendido entre os anos 2000 e 2009. 91 Da mesma forma, os dados sobre o número de países de destino das vendas externas também indicam possibilidades de articulação com a base teórica desta tese (ver Tabela 5). Em um primeiro plano, os dados coletados apontam para a comprovada tendência das PMEs em concentrarem suas vendas externas em poucos países (CALOF, 1994; FREEMAN et al., 2006). Em um segundo momento, analisando-se os principais destinos das exportações no output descritivo, verificou-se a presença de países como Argentina, Alemanha, Chile e Uruguai entre os dez mercados mais citados. Nesse particular, o conceito de distância psíquica empregado por Johanson e Valhne (1977) oferece contribuições importantes. Definida como a soma de fatores que interferem no fluxo de informações entre empresas localizadas em países distintos, tais como idioma, diferenças culturais, de linguagem de negócios e vínculos sociais e políticos, a distância psíquica é um fator que pode dificultar o entendimento do funcionamento de um determinado mercado estrangeiro. Dessa forma, haveria uma propensão das empresas em focalizar suas vendas externas em países, nos quais elas encontrariam uma menor distância psíquica. Importante destacar que 62,7 % dos respondentes afirmaram possuir laços de descendência com a Alemanha. A título de caracterização da amostra, os dez principais países de destino das vendas externas ficaram assim definidos: Argentina (n=38); Alemanha (n=34); Chile (n=24); Estados Unidos (n=16); Holanda (n=16); México (n=12), Portugal (n=11); Uruguai (n=11); Itália (n=7); e Paraguai (n=6). Tabela 5 – Dispersão Geográfica das Vendas Externas da Amostra Nº de países para os quais exporta n % Até dois países 12 22,6 Entre 3 e 6 países 21 39,7 Acima de 6 países 20 37,7 Total 53 100,0 Quanto ao número de modos de entrada em mercados estrangeiros, a amostra revelou uma marcante concentração nos modos “exportação indireta via trading company” e “exportação direta” (ver Tabela 6). Esse resultado fortalece a crença de que as empresas de menor porte demonstram receio em lidar com modos de entrada mais complexos e comprometidos com o exterior e que, por consequência, envolvam o empenho de recursos significativos como os modos franchising internacional, licenciamento da produção e instalação de unidades de produção no estrangeiro (HOLLENSTEIN, 2005). 92 Tabela 6 – Modos de Entrada em Mercados Estrangeiros da Amostra Modos de Entrada n Exportação indireta através de intermediários 27 Exportação direta 36 Joint ventures 5 Franchising internacional 5 Escritório comercial no exterior 6 Licenciamento da produção no exterior 10 Unidade de distribuição no exterior 1 Unidade de produção no exterior 1 Outros modos 2 De forma complementar, a Tabela 7 apresenta dados descritivos sobre os tipos de relações de negócios que as empresas investigadas desenvolvem com seus parceiros internacionais. Tabela 7 – Tipos de Relações de Negócios com Empresas Estrangeiras Tipo de Relação n % Exportação de produtos e/ou serviços 29 40,8 Importação de produtos e/ou serviços 18 25,4 Contratação de serviços técnicos especializados 12 16,9 Cooperação tecnológica 18 25,4 Cooperação financeira 5 7,0 Captação de investimento externo 0 0 Contratação de serviços financeiros 4 5,6 Participação societária em empresa estrangeira 0 0 Participação de sócios estrangeiros na empresa 0 0 Os dados da Tabela 7 corroboram com a ideia de que as PMEs tendem a optar por modos de entrada menos complexos, o que foi evidenciado pela concentração da amostra nas relações de exportação. Todavia, percebe-se, também, que alguns tipos de parcerias mais sofisticadas como a contratação de serviços técnicos especializados e, principalmente, a cooperação tecnológica, possuem uma boa representatividade neste conjunto. De acordo com 93 as observações descritas pelos respondentes nos campos específicos do questionário, parte da efetivação dessas parcerias de cooperação deve-se a atuação da Agência Alemã de Cooperação Internacional (GIZ) 8, junto a Associação Empresarial de Blumenau, oferecendo consultorias, programas de capacitação e aperfeiçoamento gerencial e programas de crédito orientado com recursos da União Europeia e do Banco Mundial. Para Tung e Chung (2010), as associações empresariais desempenham um papel importante na aproximação entre as empresas filiadas e as instituições de cooperação internacional. Esses programas de fomento criam um sistema de confiança e cooperação atraindo a participação de empresas estrangeiras com grande capacidade de inovação, alto grau de especialização e background tecnológico, potencializando o uso de estratégias que ultrapassam a capacidade de uma empresa individual. Consequentemente, essas vantagens competitivas acabam criando uma forte vocação exportadora nas empresas locais que participam desses programas. Finalmente, ao fazer uso da base de cálculo para mensuração do grau de internacionalização das empresas investigadas (ver seção 4.4.2), encontrou-se o seguinte resultado: Tabela 8 – Grau de Internacionalização da Amostra Grau de n % 1,0 15 21,1 2,0 0 0,0 3,0 1 1,4 4,0 5 7,0 5,0 5 7,0 6,0 10 14,1 7,0 6 8,5 8,0 12 16,9 9,0 8 11,3 10,0 5 7,0 11,0 4 5,6 12,0 0 0,0 Total 71 100,0 internacionalização 8 Deutsche Gesellschaft für Internationale Zusammenarbeit, no idioma alemão. 94 A despeito de se identificar um grupo representativo que não possui atividade exportadora (21%), percebe-se uma forte concentração de empresas na faixa intermediária do grau de internacionalização, mais precisamente entre 6,0 e 8,0 pontos (39,5%). Conforme demonstrado na análise descritiva, a amostra obteve uma elevada pontuação no componente “frequência exportadora”, baixas pontuações nos componentes “intensidade exportadora” e “número de modos de entrada”, e uma pontuação mediana no componente “número de países de destino”, o que seguramente contribuiu para a frequência modal observada. 5.2 ANÁLISE INFERENCIAL DOS DADOS A análise inferencial é o ponto chave para validar ou não a hipótese de que há correlação positiva entre o grau de internacionalização das empresas investigadas e a relevância dos laços com empresas/entidades estrangeiras para suas inserções internacionais. O último bloco de perguntas do questionário solicitava informações sobre esses laços, dentre elas: o país de descendência do respondente; a existência de relações de negócios com empresas/entidades sediadas no país de descendência; os fatores (ou bases) mediante os quais essas relações de negócios foram consolidadas (conteúdo dos laços); e a frequência dos contatos (força dos laços) com empresas/entidades sediadas no país de descendência. Neste particular, cabe relembrar o conceito de Granovetter et al. (2000), utilizado no modelo de análise. Redes de negócios são conjuntos de atores (indivíduos ou organizações) ligados por laços de tipos específicos. Um laço entre dois atores possui dois componentes: conteúdo e força. A força reflete a frequência das interações e o conteúdo inclui fatores como informação, círculos familiares, amizade, interesses compartilhados e, particularmente, algum nível de confiança. A seguir são descritos os resultados do teste de correlação de Spearman entre o grau de internacionalização das empresas investigadas e cada um dos componentes dos laços pesquisados. Todos os dados apresentados referem-se aos respondentes que afirmaram concomitantemente: a) possuir laços de descendência com o país com o qual mantém relações de negócios; e b) considerar esses laços como um fator colaborativo para a consolidação dessas relações. 95 5.2.1 Conteúdo dos Laços No intuito de melhor qualificar o conteúdo dos laços entre o respondente e o seu parceiro de negócios no exterior, dividiu-se este componente em duas categorias: laços pessoais e laços de identificação com o país estrangeiro. 5.2.1.1 Laços Pessoais Entende-se por laços pessoais, os vínculos de natureza familiar e/ou de amizade que o respondente possui com empresários do país de descendência, além do domínio do idioma e o fato de ter ou não morado nesse país. O teste de correlação não evidenciou associação entre o grau de internacionalização e a ocorrência de laços pessoais na efetivação das relações de negócios com o parceiro estrangeiro (p= 0,12). Esperava-se encontrar essa associação, haja vista as características da população investigada, bem como pelos resultados de pesquisas similares como as de Hayer e Ibeh (2006), Xie e Amine (2009) e Jean et al. (2011). São trabalhos que destacam essas conexões familiares como fatores decisivos no estabelecimento de parcerias internacionais, pela obtenção de informações privilegiadas sobre potencial de mercado, cadastro de potenciais compradores, imposições governamentais, práticas contratuais locais, dentre outros. Estas facilidades podem contribuir na redução dos custos de transação e nos riscos decorrentes da atuação internacional, potencializando a inserção da empresa local nesses mercados e, portanto, aumentando o seu grau de internacionalização. 5.2.1.2 Laços de Identificação Esta categoria inclui os laços de identificação do respondente com a cultura do país estrangeiro, com a imagem desse país junto à comunidade internacional e a sua confiança em 96 estabelecer relações de negócios com empresas e instituições locais. O teste de correlação também não revelou significância estatística (p= 0,48). Em uma tentativa de testar a relevância do conteúdo dos laços para a internacionalização, decidiu-se por realizar testes de correlação entre o grau de internacionalização e os motivos para internacionalizar apontados pelos respondentes, já que duas das situações previstas na questão específica tratavam do papel dos laços pessoais e dos laços de identificação com o país de descendência. A Tabela 9 apresenta os resultados dessas associações: Tabela 9 – Correlação Grau de Internacionalização x Motivos para Internacionalizar O mercado externo era Fomos uma opção procurados natural de por uma expansão das trading local vendas. Correlação de P. Grau de Significância internacionalização N Buscávamos aumentar a nossa produtividade (absorção de tecnologias, novas parcerias) Tínhamos Participávamos contatos no de programas exterior de apoio às (familiares exportações e/ou círculos de amizade) Tínhamos conhecimento prévio do mercado alvo (idioma, cultura, costumes) A política cambial era favorável às exportações, à época. -0,16 0, 40 0,22 0,34 0,34 0,40 -0, 003 0,25 0, 00* 0,10 0,01* 0,01* 0,00* 0,98 53 53 53 53 53 53 53 *p < 0.05 Como pode ser observado, o teste de correlação revelou uma força de associação moderada com significância estatística entre o grau de internacionalização da amostra e quatro tipos de motivos para a internacionalização: mercado externo como opção de vendas (r=0,40); participação em programas de apoio às exportações (r=0,34), contatos no exterior/familiares e círculos de amizade (r=0,34); e conhecimento prévio do idioma e costumes do mercado-alvo (r=0,40), o que sinaliza, indiretamente, haver associação entre o grau de internacionalização e alguns tipos de laços pessoais e de identificação. A questão específica utilizou escala tipo Likert de 4 pontos para identificar a importância atribuída pelo entrevistado aos motivos relacionados (nada relevante; pouco relevante; relevante; e muito relevante). Na categoria “muito relevante”, os motivos para a internacionalização mais citados pelos entrevistados foram: “fomos procurados por uma trading company” (35,8%); “tínhamos contatos no exterior/familiares e círculos de amizade” (28,3%); “tínhamos conhecimento prévio do mercado estrangeiro/cultura, costumes e idioma” 97 (17,0%); “participávamos de programas de apoio às exportações” (13,2%); e “buscávamos não depender unicamente do mercado doméstico” (13,1%). 5.2.2 Força dos Laços A força dos laços reflete a frequência em que são realizados os contatos entre o respondente e o seu parceiro de negócios localizado no país de descendência. O teste de correlação revelou uma força de associação “moderada” (r=0,41, p ≤ 0,05), entre o grau de internacionalização das empresas e a frequência dos contatos com parceiros de negócios localizados no país de descendência. Este resultado sugere possibilidades de articulação com algumas pesquisas citadas nesta tese. Destacam-se o estudo de Musteen et al. (2010), que buscou explicar como a dinâmica da comunicação entre parceiros internacionais que compartilham questões culturais semelhantes pode influenciar a performance exportadora. Os resultados do estudo demonstraram uma correlação positiva entre a frequência de contatos entre os parceiros e a rapidez com que se processou a internacionalização das empresas investigadas em mercados culturalmente próximos. Essa constatação é principalmente observada nos estágios iniciais da internacionalização, quando o desconhecimento sobre as práticas de comércio exterior e o funcionamento de mercados estrangeiros é mais flagrante. Para os autores, não obstante as facilidades de comunicação criadas pelos aplicativos de Internet (websites, skype etc.), empresas que compartilham padrões culturais semelhantes tendem a conferir um maior grau de confiança à relação, facilitando demandas complexas como formas de pagamento da operação, registro de propriedade intelectual no exterior e o trato com normas legais. Adotando a mesma linha de raciocínio, Rauch (2001) afirma que a confiança entre empresas de diferentes países é alimentada pela intensidade com que são realizados os contatos pelas redes de negócios. Para o autor, a confiança é entendida como um elo fundamental no estabelecimento de relações comerciais internacionais duradouras, garantidas por uma relação de mútua cooperação, legitimadas ao longo do tempo por um ciclo de feedback positivo. 98 Para dar visibilidade a este resultado, é apresentado, a seguir, um diagrama de dispersão, no intuito de demonstrar graficamente as faixas de frequências de contatos em função do grau de internacionalização por empresa pesquisada: Força dos laços Figura 3 – Diagrama de Dispersão: Força dos Laços x Grau de Internacionalização Grau de internacionalização O diagrama de dispersão demonstra uma expressiva concentração de empresas na faixa de contatos realizados “frequentemente” (valor 3). Com o auxílio da Tabela 10, pode-se perceber, também, que o maior número de ocorrências das faixas de contatos “frequentemente” e “muito frequentemente” concentra-se nos valores mais elevados do grau de internacionalização da amostra, com destaque para a faixa de grau 8. Essa constatação converge com o resultado da correlação positiva entre grau de internacionalização e frequência de contatos mencionada acima. Cabe também salientar, os dois outros agrupamentos de empresas demonstrados pelo diagrama de dispersão. Em um primeiro plano, chama a atenção o grupo de empresas situado acima da faixa intermediária, ou seja, empresas que apresentam um maior grau de internacionalização e que demonstram estar em uma linha “muito frequente” de contatos com 99 seus parceiros internacionais. Da mesma forma, o grupo situado abaixo da faixa intermediária também chama a atenção, por demonstrar algumas ocorrências com maior grau de internacionalização, mas com uma menor intensidade de contatos com seus parceiros internacionais. Os dados que constam no survey, lamentavelmente, não permitem identificar cada um dos casos, o que seria produtivo para analisar as características organizacionais dos diversos grupos; esclarecer como as escolhas estratégicas moldaram o escopo da atuação internacional dessas empresas; qual o papel das lideranças neste processo; e, sobretudo, quais os reflexos dessas decisões sobre o seu desempenho organizacional. Isto poderia contribuir de modo significativo para o campo dos estudos sobre internacionalização de PMEs, apontando caminhos para a inserção internacional. A tabela 10 descreve com mais detalhes as relações entre grau de internacionalização e força dos laços. Tabela 10 – Tabulação Cruzada: Força dos Laços x Grau de Internacionalização Força dos laços Grau de internacionalização Ocasionalmente Ocorrências 5,00 2 1 0 3 33,3% 0,0% 100,0% % na frequência de contatos 40,0% 5,0% 0,0% 8,8% 1 2 0 3 % no grau de internacionalização 33,3% 66,7% 0,0% 100,0% % na frequência de contatos 20,0% 10,0% 0,0% 8,8% 0 2 1 3 % no grau de internacionalização 0,0% 66,7% 33,3% 100,0% % na frequência de contatos 0,0% 10,0% 11,1% 8,8% 0 6 4 10 % no grau de internacionalização 0,0% 60,0% 40,0% 100,0% % na frequência de contatos 0,0% 30,0% 44,4% 29,4% 1 4 1 6 % no grau de internacionalização 16,7% 66,7% 16,7% 100,0% % na frequência de contatos 20,0% 20,0% 11,1% 17,6% 0 0 3 3 % no grau de internacionalização 0,0% 0,0% 100,0% 100,0% % na frequência de contatos 0,0% 0,0% 33,3% 8,8% 0 3 0 3 % no grau de internacionalização 0,0% 100,0% 0,0% 100,0% % na frequência de contatos 0,0% 15,0% 0,0% 8,8% 5 20 9 34 14,7% 58,8% 25,6% 100,0% 100,0% 100,0% 100,0% 100,0% Ocorrências 8,00 Ocorrências 9,00 Ocorrências 10,0 Ocorrências 11,0 Ocorrências Total Total 66,7% Ocorrências 7,00 Muito frequentemente % no grau de internacionalização Ocorrências 6,00 Frequentemente % no grau de internacionalização % na frequência de contatos De forma complementar, procedeu-se à comparação de médias entre grupos específicos de variáveis, que permitiriam inferir associações entre laços e internacionalização. Aplicou-se 100 o teste t para as respostas obtidas sobre as atividades de promoção comercial das empresas no exterior, em especial a participação em feiras internacionais e o encontro com parceiros de negócios no país de descendência. O resultado do teste t que comparou a participação em feiras internacionais, em relação ao grau de internacionalização, indicou significância estatística [t(44)=0,279; p<0,01]. Em síntese, pode-se afirmar que a exposição em feiras internacionais é um fator importante na explicação do grau de internacionalização. As empresas que fazem uso deste instrumento, apresentam grau de internacionalização na faixa 8 (M=8,4; dp=1,8), enquanto as que não fazem, não chegam ao grau 7 (M=6,7; dp=2,2). Este resultado converge com a experiência profissional do autor desta tese em programas de acesso a feiras internacionais para PMEs, no âmbito do SEBRAE e da APEX. Com efeito, essa experiência revelou que a participação planejada de PMEs em feiras internacionais constitui um eficaz instrumento de prospecção de mercados estrangeiros. Por intermédio das feiras internacionais, essas empresas podem não só concretizar acordos imediatos de compra e venda dos produtos exibidos, mas também, assentar bases para um fluxo futuro de transações comerciais por meio de redes de relacionamento com players de comércio internacional como agentes distribuidores, traders, representantes de entidades de suporte, agentes de carga internacional, dentre outros. O resultado do teste t que comparou as empresas que realizam viagens internacionais para visitar seus parceiros de negócios no exterior com as que não o fazem, em relação ao grau de internacionalização, também indicou significância [t(44)=0,267; p<0,01]. Em resumo, a realização de viagens internacionais para visitar parceiros é também um fator importante para explicar o grau de internacionalização das empresas. As que fazem uso deste dispositivo apresentam grau de internacionalização na faixa 8 (M=8,3; dp=1,9), enquanto as que não fazem não chegam ao grau 7 (M=6,7; dp=2,1). Realizadas as análises, embora sem o suporte de uma amostragem mais expressiva, pode-se afirmar haver indícios de que a associação proposta, ainda que não significativa em alguns casos, possa ser verdadeira para a correlação positiva entre o grau de internacionalização e a relevância das interações sociais investigadas. No próximo capítulo, serão apresentadas as conclusões com base nos resultados e nos objetivos da pesquisa. 101 6 CONCLUSÕES Este capítulo apresenta uma síntese do estudo realizado, descrevendo as principais conclusões levantadas a partir da confrontação entre a base teórica consultada e os dados observados. São feitas ainda algumas considerações sobre os objetivos alcançados, as limitações do estudo e, finalmente, as sugestões para pesquisas futuras no campo da internacionalização de empresas. Compreender o fenômeno da internacionalização de empresas continua sendo um desafio para as pesquisas na área da administração. Como prever, como e quando ocorrerão as primeiras tentativas de expansão internacional de uma empresa? Quais serão os passos subsequentes desse processo? São exemplos de questões ainda não tão bem compreendidas. Embora haja um grande empenho na busca por modelos de internacionalização capazes de explicar os novos contornos desse fenômeno, o campo da internacionalização de empresas ainda está longe de consolidar uma teoria única e definitiva. Pesquisar a influência de laços de descendência imigratória sobre o processo de internacionalização de empresas também revela ser um desafio. Trata-se de deslocar o foco de análise da internacionalização de empresas da racionalidade econômica, para a força dos laços familiares e das relações de confiança, reforçando a ideia de que para entender o mercado é necessário conhecer a natureza das relações sociais nas quais ele se encontra inserido. No que tange ao objetivo geral desta tese, os resultados obtidos oferecem indícios de que há associação, ainda que pouco significativa em alguns casos, entre o grau de internacionalização e a relevância dos laços investigados, oferecendo suporte empírico à hipótese de que essas interações sociais colaboram para a expansão internacional destas empresas. Analisando-se os fatores relacionados ao conteúdo desses laços, conclui-se que não há fortes evidências de associação entre o grau de internacionalização e a ocorrência de laços pessoais na efetivação das relações de negócios com o parceiro estrangeiro. Da mesma forma, não há evidência também de que os laços de identificação cultural e institucional com o país de descendência tenham associação com o grau de internacionalização das empresas investigadas. De forma complementar, na tentativa de testar a relevância do conteúdo dos laços para a internacionalização, decidiu-se por realizar testes de correlação entre o grau de 102 internacionalização e os motivos para internacionalizar apontados pelos respondentes. Estes testes concluíram haver correlação positiva entre grau de internacionalização e alguns dos motivos para a internacionalização como: a) a existência de contatos familiares e círculos de amizade em mercados estrangeiros; e b) o conhecimento prévio do idioma e dos costumes do mercado-alvo. Este resultado sinaliza haver associação entre o grau de internacionalização e alguns tipos de laços pessoais e de identificação, que merecem ser mais bem investigados em estudos futuros. Esperava-se que a análise dos dados revelasse o conteúdo dos laços como um fator central para explicar o diferenciado grau de internacionalização das empresas investigadas, o que não ocorreu. A crença em obter-se uma correlação positiva entre estas duas variáveis não resultava apenas dos trabalhos empíricos consultados, os quais destacam questões familiares e culturais como fatores decisivos no estabelecimento e na manutenção de parcerias internacionais. Resultava, também, da própria familiaridade do autor desta tese com casos de empresários blumenauenses, descendentes de imigrantes europeus que adquiriram capacidade exportadora por meio de um ciclo contínuo de intercâmbio de recursos e expertises com empresas e entidades daquele continente. De fato, é sobre a história de formação econômica do município de Blumenau, testemunho inequívoco da sua vocação exportadora e da expressiva inserção internacional das suas empresas, que essa crença ainda repousa. Poder-se-ia argumentar sobre a possibilidade de se obter uma maior significância estatística na associação entre conteúdo dos laços e grau de internacionalização, caso a amostra do estudo fosse maior. Não obstante os esforços empregados, a amostra obtida apresenta-se pouco diversificada e enseja o risco de não ser representativa da população. Não se pode ignorar, também, que instrumentos de autorrelato estejam sujeitos a vieses. É compreensível que um empresário dissimule sua resposta ao ser indagado sobre os fatores que foram decisivos para o sucesso da sua expansão internacional. A quem se deve atribuir essa conquista? Seria resultante da apurada visão de mercado deste empresário, da sua capacidade de gerenciar recursos ou de um virtual efeito sinérgico provocado por relacionamentos externos? Tratando-se de verificar fatos e reações de empresários (pessoas) acontecidos em um tempo passado, os resultados obtidos nem sempre refletem a realidade histórica da empresa, já que podem decorrer da percepção do respondente em um determinado momento, ocasionando distorções em relação à realidade ou ao fenômeno que está sendo investigado. 103 Por sua vez, a análise da força dos laços investigados revelou haver correlação positiva entre o grau de internacionalização e a frequência em que são realizados os contatos entre o respondente e o seu parceiro de negócios localizado no país de descendência. Respaldado pelas pesquisas consultadas, este resultado indica que a intensidade da comunicação entre parceiros internacionais que compartilham aspectos familiares e culturais oferece uma base de maior de confiança, favorecendo o estabelecimento de relações comerciais internacionais duradouras, na medida em que aspectos cruciais à transação são garantidos por uma relação de mútua cooperação legitimada por um ciclo de feedback positivo. Essa “conectividade” sugere uma preferência dominante em realizar parcerias com empresas estrangeiras, por meio das quais, em função da redução dos riscos de oportunismo, os estímulos à internacionalização são amplificados. Conforme preconizado pela escola comportamental da internacionalização com ênfase em redes de negócios, a relação de cooperação mútua tende a reduzir tanto o tempo gasto no desenvolvimento de um projeto de inserção internacional quanto no volume de recursos necessários, sobretudo aqueles de ordem financeira. Diante dessa perspectiva, a força dos laços reveste-se de importância singular para a expansão internacional de pequenas e médias empresas, em virtude das suas próprias deficiências estruturais. No que tange aos objetivos específicos, embora sem o suporte de uma amostragem mais expressiva, foi possível coletar dados de 71 PMEs filiadas à Associação Empresarial de Blumenau, nas quais seus proprietários são descendentes de imigrantes europeus. Analisandose os dados descritivos do grau de internacionalização destas empresas, pode-se afirmar que o comportamento exportador da amostra é semelhante ao padrão descrito pelas pesquisas sobre internacionalização de PMEs, exceto no caso da frequência exportadora que apresentou valores bem acima das faixas comumente observadas. Em outras palavras, os resultados obtidos fortalecem a tese de que as PMEs tendem a concentrar suas exportações em poucos países, costumam utilizar modos de entrada menos dispendiosos e apresentam baixa participação das vendas externas nas suas receitas totais, mas refutam a tendência de as PMEs apresentarem baixa frequência exportadora. Outras análises descritivas também merecem destaque. A constatação da Argentina e da Alemanha como os dois principais mercados de destino da amostra, abre espaço para a aplicação do discutido conceito de distância psíquica, percebido nesta tese como uma questão ainda válida e atual. Tem-se, neste particular, a relevância de fatores como a proximidade 104 geográfica, o idioma, as questões culturais compartilhadas e os vínculos sociais, a escolha de mercados estrangeiros. Em síntese, os resultados obtidos sugerem que a expansão internacional de empresas de menor porte tende a ser dependente de recursos externos e de relacionamentos com outros atores. As dificuldades que as PMEs enfrentam em mercados estrangeiros podem ser reduzidas, senão superadas, pelos efeitos sinérgicos de relações de confiança e de cooperação com empresas estrangeiras. Nesse contexto, destaca-se o papel crucial do gestor na articulação da empresa junto a uma rede de relacionamentos que tenha afinidade com seus interesses comerciais. Para finalizar serão feitas algumas considerações sobre as limitações da pesquisa e sugestões de aprofundamento de estudos. Como toda pesquisa científica, esta tese possui limitações metodológicas e conceituais, as quais podem assumir diferentes proporções em função dos riscos e das dificuldades, particularmente encontradas no seu desenvolvimento. Uma das principais limitações reside na representatividade da amostra, visto que participaram do survey empresas pertencentes ao quadro de associados da Associação Empresarial de Blumenau. Apesar de o Estado de Santa Catarina ter tradição na atividade exportadora, o que o qualifica para o estudo sobre o processo de internacionalização de empresas, não se está seguro que seja representativo da heterogeneidade das PMEs no Brasil, no tocante a sua forma de inserção nos mercados, a sua disponibilidade de recursos e ao seu ciclo de vida. Sem dúvida, isto impõe limites à generalização dos resultados deste estudo, a esse amplo segmento de empresas. Da mesma forma, o tamanho da amostra não assegura a representatividade dos dados coletados diante do total de empresas que compõem a população de referência. Além disso, o fato de se trabalhar com uma amostra não probabilística impossibilita o cálculo do erro de amostragem. Outra limitação é o fato de as lideranças das empresas terem sido as responsáveis pelo preenchimento do questionário de pesquisa. Reconhece-se que a percepção do empresário sobre as ações de sua empresa, no que tange à internacionalização, é influenciada por vieses subjetivos que, muitas vezes, distorcem os fatos. A vasta literatura sobre negócios internacionais passou a incluir, recentemente, aspectos sociológicos entre os fatores que influenciam o processo de internacionalização de empresas, basicamente em função da emergência dos temas “Networks” e “Empreendedorismo 105 Internacional”, como novos campos de estudos. Embora as principais publicações venham enfatizando a importância das relações sociais no contexto dos negócios internacionais, percebe-se que são estudos predominantemente extensivos e transversais, prejudicando uma análise mais qualitativa sobre o conteúdo dessas relações. Uma das dificuldades enfrentadas no desenvolvimento desta tese foi exatamente esse distanciamento com o que de fato ocorre no “interior” desses relacionamentos, tornando necessário que o pesquisador busque uma maior familiaridade com o que de fato ocorre na esfera do cotidiano dessas empresas. Uma proposta futura de pesquisa neste campo seria a utilização do método etnográfico em pesquisas sobre internacionalização com ênfase em redes de relacionamento. Esta abordagem metodológica poderá favorecer maior familiaridade do pesquisador com a realidade da empresa, possibilitando a interpretação de como o sistema de significados culturais está organizado e de como ele influencia as decisões de internacionalização, sobretudo a escolha de parceiros internacionais. Esta necessidade foi constatada durante alguns contatos pessoais com empresários que participaram do survey. Uma rápida conversa já foi o suficiente para perceber o valor de questões históricas, de regras e de costumes compartilhados e de convenções que orientam a vida empresarial nos limites de uma região dotada de características sociais e econômicas singulares. A representatividade das PMEs na economia brasileira é notável, o que justifica envidar contínuos esforços de pesquisa, para compreender as particularidades do ambiente dos pequenos negócios. Não obstante a incontestável eficiência das grandes corporações, há algo de amistoso e humano na dimensão das PMEs que lhes confere um atrativo duradouro. As recompensas e os riscos inerentes ao contexto dos pequenos negócios continuarão ensejando uma das maiores expressões econômicas de uma nação – a força empreendedora dos seus cidadãos que cria e distribui riqueza. 106 REFERÊNCIAS AABY, N.; SLATER, S. Management influences on export performance: a review of the empirical literature 1978-1988. 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Somos uma equipe de pesquisadores e estamos investigando o processo de internacionalização de pequenas e médias empresas (PMEs). Esta pesquisa está sendo aplicada junto as empresas sediadas no Estado de Santa Catarina. A previsão de preenchimento deste questionário é de aproximadamente 15 minutos. Os resultados de nossa pesquisa serão analisados em conjunto e, desta forma, não haverá possibilidade de identificação dos respondentes. Posteriormente, serão divulgados em periódicos e eventos científicos. Gratos, desde já, pela sua colaboração! Dúvidas e mais esclarecimentos podem ser obtidos por meio de contatos com os coordenadores da pesquisa. Atenciosamente, Marco Antônio Seifriz (Universidade do Estado de Santa Catarina) [email protected] http://lattes.cnpq.br/4532127654397156 Sônia Maria Guedes Gondim (Universidade Federal da Bahia) [email protected] http://lattes.cnpq.br/9725833775313298 120 Programa de Doutorado em Administração DINTER UFBA – UDESC 1. Em que setor a sua empresa está prioritariamente inserida? Indústria Comércio Serviço Agropecuária 2. Quantos funcionários a sua empresa possui? Até 09 funcionários De 10 a 19 funcionários De 20 a 49 funcionários De 50 a 99 funcionários De 100 a 499 funcionários Acima de 500 funcionários 3. Qual o ano de fundação da sua empresa?______________________ 4. Considerando o período compreendido entre os anos de 2000 e 2009, sua empresa enquadra-se como: Não exportadora: nunca exportou durante o período em questão. Exportadora estreante: exportou pela primeira vez a partir de 2009. Exportadora desistente: já exportou durante o período em questão, mas não mais realizou vendas externas nos últimos 02 (dois) anos. Exportadora descontínua: exporta irregularmente durante o período em questão, chegando a ter ficado até 01 (um) ano sem realizar vendas externas neste período. Exportadora contínua: exporta continuamente durante o período em questão, não ficando sem realizar vendas externas por mais de 01 (um) ano. 5. Em que ano sua empresa começou a exportar?____________ 121 Programa de Doutorado em Administração DINTER UFBA – UDESC 6. Assinale os modos de entrada em mercados estrangeiros que a sua empresa utiliza. (múltipla escolha) Exportação indireta através de trading company, empresa comercial exportadora brasileira ou agente internacional. Exportação direta utilizando estrutura própria de comercialização externa. Acordos de joint ventures ou de transferência de tecnologia com empresas estrangeiras. Franchising internacional. Instalação de escritório comercial no exterior. Licenciamento de produção no exterior. Instalação/aquisição de unidade de distribuição no exterior. Instalação/aquisição de unidade de produção no exterior. Outro modo de entrada:______________________________ 7. Abaixo estão relacionados os principais motivos que levam uma empresa a iniciar na atividade exportadora. Indique o grau de relevância para cada uma das situações de acordo com a experiência da sua empresa. 0-nada relevante 1-pouco relevante 2-relevante 3-muito relevante ( ) Fomos procurados por uma trading local ou por empresas do exterior interessadas em fazer negócios. ( ) Nossa empresa já possuía uma boa escala de produção no mercado interno e o mercado externo seria uma opção natural de expansão das vendas. ( ) Buscávamos aumentar a nossa produtividade (absorção de novas tecnologias, aprimoramento de processos, atendimento a normas internacionais, etc.). ( ) Participávamos de programas vinculados a instituições e/ou órgãos governamentais de apoio às exportações, a partir dos quais surgiram oportunidades de negócios com o exterior. ( ) Tínhamos contatos no exterior (familiares e/ou círculos de amizade) que operavam no mercado. ( ) Tínhamos conhecimento prévio do mercado para o qual se iniciou a exportação (costumes, cultura, idioma, etc.). ( ) Buscávamos não depender unicamente do mercado interno. ( ) Os incentivos governamentais de apoio às exportações eram atraentes, à época. ( ) A política cambial era favorável às exportações, à época. ( ) Tínhamos o desejo de adquirir o status de “empresa exportadora”. ( ) Outro motivo: _______________________ 122 Programa de Doutorado em Administração DINTER UFBA – UDESC 8. Os proprietários e/ou funcionários realizam viagens internacionais de negócios a serviço da empresa? Sim. Não. 9. Quais são os motivos destas viagens internacionais? (múltipla escolha) Exposição dos nossos produtos/serviços em feiras no exterior. Participação em feiras no exterior como visitantes. Participação em rodadas de negócios no exterior. Visitas técnicas a empresas, institutos tecnológicos, universidades e/ou agências de fomento no exterior. Encontros com parceiros estrangeiros (clientes, distribuidores, fornecedores, licenciados e/ou sócios). Visitas ao nosso escritório comercial localizado no exterior. Visitas a nossa unidade de produção e/ou distribuição localizada no exterior. Outros motivos:___________________________ 10. Qual o número de países para os quais a sua empresa exporta?________ 11. Cite até dez dos principais países para os quais a sua empresa exporta, em termos de valor US$ FOB embarcado/ano? África do Sul Alemanha Argentina Áustria Bélgica Canadá Chile China Cingapura Colômbia Coréia do Sul Costa Rica Dinamarca Equador 123 Programa de Doutorado em Administração DINTER UFBA – UDESC Emirados Árabes Espanha Estados Unidos França Holanda Hong Kong Índia Indonésia Irlanda Itália Japão Malásia México Panamá Paquistão Paraguai Portugal Peru Reino Unido Rússia Suíça Suécia Tailândia Taiwan Turquia Uruguai Venezuela Vietnã Outros:________________________ 124 Programa de Doutorado em Administração DINTER UFBA – UDESC 12. Qual a participação percentual das vendas externas sobre o faturamento total da empresa? Até 10% Entre 11% a 20% Entre 21% a 30% Entre 31% a 40% Entre 41% e 50% Entre 51% e 60% Mais de 60% Dados sócios demográficos do respondente 13. Idade:___________ 14. Sexo: Masculino Feminino 15. Escolaridade completa: Ensino fundamental Ensino médio Ensino superior Pós-graduação 16. Relação contratual com a empresa: Sócio fundador Sócio não fundador Funcionário Outra relação:_______________ 17. O Senhor (a) possui algum laço de descendência com imigrantes europeus? Sim Não. 125 Programa de Doutorado em Administração DINTER UFBA – UDESC 18. A qual país esta descendência está predominantemente vinculada? Alemanha Áustria Bélgica Eslováquia Espanha França Holanda Hungria Itália Inglaterra Noruega Polônia Portugal Rússia Suécia Tchecoslováquia Outro:_____________________________ Atenção: A partir deste item, todas as demais questões referem-se ao país que o Senhor (a) possui laços de descendência. 19. O Senhor (a) mantém alguma relação de negócios com empresários e/ou membros de organizações desse país (governo, agências de fomento, universidades, associações de empresas, etc.)? Sim Não 126 Programa de Doutorado em Administração DINTER UFBA – UDESC 20. Que tipo de relação de negócios? (múltipla escolha) Exportação de produtos e/ou serviços. Importação de produtos. Contratação de serviços técnicos especializados. Cooperação tecnológica. Cooperação financeira. Captação de investimento externo. Contratação de serviços financeiros. Participação societária em empresa estrangeira. Participação de sócios estrangeiros na empresa. Outro tipo de relação: _____________________ 21. Os seus laços de descendência com esse país contribuíram de alguma forma para o estabelecimento destas relações de negócios? Sim Não 22. Indique o grau de relevância dos fatores que podem ter contribuído para o estabelecimento desses negócios. 0-nada relevante 1-pouco relevante 2-relevante 3-muito relevante ( ) Ter familiares que residem nesse país. ( ) Ter laços de amizade nesse país. ( ) Ter identificação com a cultura desse país. ( ) Ter facilidade com o idioma desse país. ( ) Ter identificação com a “imagem” que esse país possui junto à comunidade internacional. ( ) Ter confiança nas instituições desse país (questões legais, normativas, administrativas, políticas públicas, etc.). ( ) Ter confiança nas empresas desse país (qualidade, respeito a prazos, conduta ética, etc.). ( ) Ter morado nesse país. 127 Programa de Doutorado em Administração DINTER UFBA – UDESC 23. Os contatos decorrentes desses relacionamentos são realizados: Muito frequentemente (pelo menos uma vez por semana). Frequentemente (pelo menos uma vez por mês). Ocasionalmente (pelo menos uma vez por semestre) Raramente. 24. O Senhor (a) considera que seus laços de descendência com empresários ou membros de organizações desse país: Foram decisivos para a inserção internacional da empresa. Colaboraram, dentre outros fatores igualmente importantes, para a inserção internacional da empresa. Pouco colaboraram para a inserção internacional da empresa. Não colaboraram para a inserção internacional da empresa. _____________________________________________________________________ Temos interesse em investigar mais profundamente algumas empresas selecionadas a partir da avaliação das suas respostas neste questionário. O Senhor (a) gostaria de continuar contribuindo para a segunda etapa desta pesquisa? Sim Não Email para contato:________________________________ Telefone para contato:_____________________________