UNIVERSIDADE DO EXTREMO SUL CATARINENSE – UNESC CURSO DE ARTES VISUAIS – BACHARELADO ELOÍSA DE SOUZA HONORATO ARTE – MODA – TENDÊNCIAS: DIÁLOGOS POSSÍVEIS CRICIÚMA, JUNHO DE 2009. 2 ELOÍSA DE SOUZA HONORATO ARTE – MODA – TENDÊNCIAS: DIÁLOGOS POSSÍVEIS Trabalho de Conclusão de Curso, apresentado para obtenção do grau de bacharel no curso de Artes Visuais da Universidade do Extremo Sul Catarinense, UNESC. Orientadora: Prof.ª Angélica Neumaier CRICIÚMA, JUNHO DE 2009. 3 ELOÍSA DE SOUZA HONORATO ARTE – MODA – TENDÊNCIAS: DIÁLOGOS POSSÍVEIS Trabalho de Conclusão de Curso aprovado pela Banca Examinadora para obtenção do Grau de bacharel, no Curso de Artes Visuais da Universidade do Extremo Sul Catarinense, UNESC, com Linha de Pesquisa em Processos e Poéticas. Criciúma, 30 de junho de 2009. BANCA EXAMINADORA Prof.ª Angélica Neumaier – Especialista - (UNESC) - Orientador Prof. Daniel Valentim - Especialista - (UNESC) Prof.ª Simone Dário - Especialista - (UDESC) 4 AGRADECIMENTOS Em determinados momentos de nossa vida, podemos perceber as pessoas mais próximas e importantes ao nosso lado. Percebemos que quando precisamos, elas estão ali, prontas para nos ajudar em qualquer coisa. Agradeço principalmente à minha mãe, por ter sido minha segunda orientadora, com todas as suas manias e regrinhas que só ela entende, e com toda a paciência que Deus lhe deu. Ao meu pai, por me levar para todos os lados, e sempre me dar uma mãozinha com suas ferramentas mil e uma utilidades. Ao Lucas, por conseguir me fazer esquecer por várias horas a pesquisa, e me fazer divertir sempre. Ao Guilherme, por todas as trocas de informações úteis e inúteis sobre todas as regrinhas de TCC, e por compartilhar de todas as minhas angústias, as quais eram as mesmas dele. À Giovana, pelos papos sobre moda, tendência, sapatos e tudo mais que me ajudou a construir esse trabalho. Agradeço também à minha professora Simone Dário, que mesmo sem saber, me ajudou muito com suas aulas de Pesquisa e Criação de Moda. À minha orientadora Angélica, por apoiar todos os passos que eu estive seguindo. À Mara Atelier, por ter produzido meus sapatos com tanto carinho, mesmo com o mínimo de tempo. Ao Jailson, por ter feito minhas bolsas da noite pro dia, mesmo sem tempo nem para dormir. À Mescla Etiquetas, por me fornecer restinhos de materiais para produzir meus produtos. A todos, que direta ou indiretamente me ajudaram e fizeram parte da minha pesquisa, o meu Muito Obrigada. 5 “Um artista nunca deve ser: prisioneiro de si mesmo, prisioneiro de um estilo, prisioneiro de uma reputação, prisioneiro de um sucesso etc. Não escreveram os Goncourt que os artistas japoneses da grande época mudavam de nome várias vezes ao longo da vida? Isso me agrada: eles queriam preservar a liberdade”. Henri Matisse. 6 RESUMO Essa pesquisa busca estudar e analisar as tendências de moda: sua evolução, como surgem, como funcionavam e como funcionam hoje, seus meios de difusão e suas relações com a arte. A arte é o eixo central da pesquisa que estuda a ligação dela com a moda no século XX, suas interações no passado e hoje e suas apropriações. Essa investigação se fundamenta em teóricos da sociologia e da arte, como: Caldas, Lipovestky e Coli. Este estudo permitiu verificar que a utilização da arte - seja ela por movimentos artísticos, artistas e sua vida, ou apenas obras de arte - como inspiração, traz uma bagagem muito grande de idéias e referências que podem desencadear toda uma coleção de moda. O campo de investigação se concentra na análise de obras de Henri Matisse, resultando numa produção artística de uma coleção de sapatos e bolsas. PALAVRAS-CHAVE: Tendências; Arte; Moda; Sapatos; Bolsas; Matisse. 7 SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO - O Primeiro Traço........................................................................8 2. METODOLOGIA - O fio da meada ........................................................................9 3. MODA E ARTE....................................................................................................12 3.1 Conceitos e Análises .....................................................................................12 3.2 Moda e Arte no século XX ............................................................................18 4. TENDÊNCIA........................................................................................................52 4.1 Evolução das tendências ...............................................................................52 4.2 De onde vêm as tendências? ........................................................................56 4.3 Classificações para as tendências:................................................................58 4.4 Estrutura do Mercado da Moda .....................................................................63 4.5 A Arte e as tendências...................................................................................66 5. SAPATOS ...........................................................................................................71 5.1 História do Sapato .........................................................................................71 5.2 A confecção de um Sapato...........................................................................79 5.2 Tipos de Sapatos ...........................................................................................79 6. BOLSAS ..............................................................................................................86 6.1 História das Bolsas ........................................................................................86 6.2 Tipos de Bolsas .............................................................................................89 7. PRODUÇÃO ARTÍSTICA - Costurando as Idéias ...............................................92 7.1 Henri Matisse.................................................................................................92 7.2 Processo de criação ......................................................................................97 7.2.1 Problema.................................................................................................97 7.2.2 Coleta de Dados......................................................................................97 7.2.3 Obras referência......................................................................................97 7.2.4 Pesquisa de Tendências .......................................................................102 7.2.5 Painel de Tendências............................................................................105 7.2.6 Desenvolvimento da Coleção................................................................105 7.2.7 Coleção .................................................................................................109 8. CONCLUSÃO - Pesponto final..........................................................................116 9. REFERÊNCIAS.................................................................................................118 8 1. INTRODUÇÃO O Primeiro Traço A moda faz parte da minha vida há um bom tempo. Fiz um curso Técnico em Design e nunca imaginei que a moda seria um dos caminhos que eu poderia seguir trabalhando, porém surgiu uma oportunidade de estagiar em uma grande marca de roupas da nossa região, e aceitei. Trabalhei durante três anos criando estampas, ilustrações, bordados e acessórios (cintos e bolsas), e sempre adorei esse trabalho. Nesse meio tempo decidi começar uma faculdade, porém, não tinha interesse em cursar Moda, pois acreditava que seria um curso muito voltado à confecção propriamente dita, e talvez não pudesse me trazer um aprofundamento maior de pesquisa de moda, de história e de criação. Decidi então ingressar no curso de Artes Visuais – Bacharelado, para obter diversas fontes de referência, criação em diversas áreas, diversos meios artísticos e muita teoria, nas quais acreditei que pudessem me ajudar a desenvolver melhor e mais originalmente meu trabalho relacionado à moda. Atualmente trabalho em uma outra empresa, também na área de moda, só que voltada para etiquetas, tags e acessórios para roupas, porém ali meu trabalho se aprofundou muito mais em moda, pois, realizo pesquisa de tendências, analiso tudo que está surgindo e ressurgindo, tanto em roupas como em materiais, cores, vitrines, e aplico tudo isso em criação, em temas, em desenhos. Em todas essas pesquisas, que faço constantemente, muitas dúvidas vêm à minha cabeça: de onde surgem essas tendências? Por que sempre têm obras de arte como imagens de referência? Quem decide as cores da estação? Como todos os grandes estilistas parecem estar interligados em um mesmo caminho, em uma idéia geral, em uma grande tendência? E a partir disso, resolvi fazer minha pesquisa de conclusão de curso, para buscar essas respostas, obter mais conhecimento e domínio sobre o que vem surgindo na moda, enriquecendo meu repertório, e também, quem sabe, tentar prever o que estará por vir nas próximas estações. Buscarei essas respostas, aprofundando-me melhor na história da moda, analisando coleções e suas inspirações, ícones, releases e campanhas. Pesquisando as tendências que já existiram, as tendências recentes, que acabam 9 sempre revisitando o passado. Aproximando-me dos caminhos que os grandes estilistas percorrem, e procurando identificar o elo que as tendências de moda têm com a arte e com a sociedade. Enfim, buscar perceber se estes fatores afetam, e de que forma, o inconsciente coletivo. Como a pesquisa de Bacharelado exige uma produção artística, decidi produzir uma coleção de acessórios (sapatos, bolsas) inspirada em obras de arte, do artista plástico Henri Matisse. A proposta é utilizar a obra como inspiração gráfica, de conceito, de estrutura, de cores, da mesma forma como as obras de arte são utilizadas como inspiração para tendências de moda. Por que acessórios? Os acessórios são os adereços de moda em que mais se pode criar livremente, tanto em materiais quanto em formas e estampas. Alguns deles considero obras de arte que usamos no próprio corpo, principalmente os sapatos, que são uma paixão pessoal em especial, cujos sempre tive vontade de criar, desenhar, e customizar. Unindo a criatividade, o conhecimento sobre a trajetória da moda e dos acessórios, a forma que a tendência influencia, e usando uma ou diversas obras de arte como inspiração, criarei uma coleção, com alguns protótipos dos produtos desenvolvidos. Deixando assim, uma coleção real, com capacidade para ser colocada em prática, isto é, ser produzida e vendida. Este trabalho está estruturado em cinco capítulos. No capítulo Moda e Arte, consta análises entre arte e moda, e suas conexões, a trajetória da moda e da arte no século XX, e dialoga principalmente com o sociólogo Gilles Lipovetsky e François Baudot. O capítulo intitulado Tendência relata a evolução das tendências de moda, as suas origens, suas classificações e seus meios de difusão, dialogando constantemente com o sociólogo Dário Caldas. Já no capítulo sobre Sapatos, mostro a história do sapato, seus componentes e tipo. No capítulo sobre Bolsas, também conto a história das bolsas e seus tipos. O último capítulo aborda a minha Coleção. Desde as inspirações, imagens referenciais, tendências, esboços e produto final. 10 2. METODOLOGIA O fio da meada A pesquisa de TCC intitulada: “ARTE – MODA – TENDÊNCIAS: Diálogos Possíveis”, se inscreve na linha de pesquisa Processos e Poéticas do Curso de Artes Visuais da UNESC. Como esta pesquisa será realizada e fundamentada nas áreas da arte e da moda, será qualitativa, pois nessas áreas fica difícil uma possível quantificação. Creswell (2007) define: A investigação qualitativa emprega diferentes alegações de conhecimento, estratégias de investigação e métodos de coleta e análise de dados [...]. Os procedimentos qualitativos se baseiam em dados e usam estratégias diversas de investigações. (p. 184). Será feito um levantamento bibliográfico, envolvendo as áreas da moda, da arte, e do comportamento. Objetivando ampliar os dados para a pesquisa e buscar uma delimitação significativa do tema. Sendo assim classifico-a como uma pesquisa bibliográfica e exploratória. A pesquisa bibliográfica diz respeito ao conjunto de conhecimentos humanos reunidos nas obras. Tem como finalidade fundamental conduzir o leitor a determinado assunto e proporcionar a produção, coleção, armazenamento, reprodução, utilização e comunicação das informações coletadas para o desempenho da pesquisa. (FACHIN, 2005, p. 125) Além de autores, buscarei informações em revistas e portais de moda, e também em cadernos de tendências. A pesquisa exploratória objetiva uma maior familiaridade com o problema, tornando-o mais explícito. Segundo Gil (2008), esse tipo de pesquisa: [...] tem como objetivo, proporcionar maior familiaridade com o problema, com vistas a torná-lo mais explícito, ou a construir hipóteses. Pode-se dizer que estas pesquisas têm como objetivo principal o aprimoramento de idéias ou a descoberta de intuições. Seu planejamento é, portanto, bastante flexível, de modo que possibilite a considerações dos mais variados aspectos relativos ao fato estudo. (p. 41). Após aprofundar-me no conhecimento da história da moda, encontrar os pontos em que as tendências se estabelecem na estrutura desta área pesquisarei a 11 história da arte para encontrar os elos de influência entre a moda e o movimento artístico da época. Definirei três obras de um determinado artista, e a partir delas, criarei uma coleção de acessórios femininos, que incluirá sapatos e bolsas. Assim como na definição de uma tendência, as obras de arte servirão como essência para a minha inspiração: desde o conceito, às cores, às formas, à estrutura, à textura, entre outros. Essa pesquisa também é uma pesquisa em arte, pois no final dela terá um produto, que será a coleção de acessórios. Segundo Cattani (2002) apud Leite (2008, p. 31) a pesquisa em arte é “aquela relacionada à criação das obras, que compreende todos os elementos do fazer, a técnica, a elaboração de formas, a reflexão, ou seja, todos os elementos de um pensamento visual estruturado”. Nas etapas de criação da minha coleção de acessórios, utilizarei diversos materiais, e apurarei os conceitos necessários para melhor produção da obra, que contempla uma das etapas obrigatórias do Trabalho de Conclusão de Curso em Artes Visuais – Bacharelado. Desta forma é que pretendo concluir minha pesquisa, buscando contribuir com a área da arte, e fortalecer os vínculos entre a arte e a moda, criando objetos de consumo, porém, com fundamentos artísticos. 12 3. MODA E ARTE A moda e a arte são dois meios de expressão e de reflexo da sociedade, que caminham paralelos, mas constantemente esses caminhos se cruzam, tanto a moda se utilizando da arte, quanto a arte se utilizando da moda. Criadores de moda são chamados para manifestações de arte contemporânea, ou artistas participam de desfiles e catálogos de moda. Tanto a moda quanto a arte acabam incitando uma reflexão sobre a aparência, sobre a imagem do indivíduo e a imagem do corpo, prolongação da arte do retrato e do auto-retrato, eterna análise sobre a apresentação e presentificação do outro e de si mesmo. A imagem de si e a imagem do corpo são e continuam a ser um campo de exploração maior da arte. A imagem do corpo atravessa uma parte significativa da produção artística contemporânea, seja de uma forma metafórica, metonímica ou concreta, e é bem mais vasta do que o que nos propõe o filtro da relação arte-moda. (CIDREIRA, 2005, p. 82). 3.1 Conceitos e Análises A palavra moda deriva do latim modus que significa1 maneira, trazendo o sentido de modo individual de fazer, ou o uso passageiro que regula a forma dos objetos materiais geralmente, os móveis e as vestimentas. Significando maneira de ser, modo de viver e de se vestir. Na língua inglesa, a palavra fashion (que significa moda) veio da palavra francesa façon, que também significa modo. Renata Pitombo Cidreira, em seu livro “Sentidos da Moda” (2005) faz análises de vários autores, e não necessariamente cria um conceito, mas define caminhos para um pensamento em moda e a palavra de origem modo: Se, por um lado, a moda é vista como uso, hábito ou estilo geralmente aceito, variável no tempo e resultante de determinado gosto, idéia ou capricho, ou das influências do meio; bem como fenômeno social ou cultural, mais ou menos coercitivo, que consiste na mudança periódica de estilo e cuja vitalidade provém da necessidade de conquistar ou manter por algum tempo, determinada posição social; modo significa maneira, feição, forma particular, jeito, sistema, prática, via, habilidade e em alguns casos, processo de aculturação. (p. 30-31). Palomino (2003) traça outro conceito: 1 Informação retirada do livro “Os sentidos da moda”, de Renata Pitombo Cidreira, 2005. 13 A moda é um sistema que acompanha o vestuário e o tempo, que integra o simples uso das roupas no dia-a-dia a um contexto maior, político, social, sociológico. [...] Moda não é só “estar na moda”. Moda é muito mais do que a roupa. (p. 14). E ainda no âmbito da moda, Silva (2005) conceitua a moda, fazendo certa ligação com a arte: O significado da moda não se resume somente a ser algo de consumível, é mais do que um mero produto entre muitos outros, pois a moda movimenta-se na linha que separa o Consumo da Arte. Muitos estilistas vêem-se como artistas ou muitas vezes cooperam com os profissionais das artes. Nesse contexto, enquadramos as encenações de moda contemporâneas, nomeadamente os desfiles e a fotografia de moda, que na maior parte das vezes muito pouco têm a ver com uma moda que seja “vestível”, assemelhando-se mais a espetáculos teatrais, nos quais em última instância são apresentadas obras de arte sob forma de peças de vestuário impossíveis de serem usadas no dia a dia. (p. 32). A arte é ainda mais difícil de conceituar do que a moda. Existem muitas exceções e caminhos, que acabam por anular antigos conceitos, ou deixam de englobar partes importantes. Um conceito de arte, dos mais antigos, permanece atual e consegue exprimir a arte da forma que tento abordar nessa pesquisa. Retirado do “Dicionário de Filosofia”: “Para Platão a arte compreende todas as atividades humanas ordenadas (inclusive a ciência) e distingue-se, no seu complexo, da natureza.” (ABBAGNANO, 2000. p. 81). Considerando a arte dessa forma, moda também é arte. Porém, essa afirmação não pode ser considerada certa por completo. Em muitos casos, a moda é realmente considerada arte, como no caso de peças de Alta Costura, de grandes estilistas, e que estão devidamente expostas em um espaço de arte, como um museu. Segundo Coli (2006): Para decidir o que é ou não arte, nossa cultura possui instrumentos específicos. Um deles, essencial, é o discurso sobre o objeto artístico, ao qual reconhecemos competência e autoridade. Esse discurso é o que proferem o crítico, o historiador da arte, o perito, o conservador de museu. [...] Nossa cultura também prevê locais específicos onde a arte pode manifestar-se, quer dizer, locais que também dão estatuto de arte a um objeto. Num museu, numa galeria, sei de antemão que encontrarei obras de arte [...] (p. 11). Em 1956 inclusive, foi criado um museu da vestimenta, em Paris, que posteriormente se tornou o museu da moda. Nele são expostas desde vestimentas de séculos atrás, até roupas dos grandes estilistas atuais. Após a criação desse 14 museu, surgiram infinitos outros que também abordam a moda, e inclusive, fazem exposições itinerantes pelo mundo todo. Em outros casos, a moda não pode ser considerada arte, tanto pela sua intenção enquanto criação, que pode ser puramente para fins comerciais, ou mesmo pela qualidade do objeto de moda criado. A moda é uma forma de expressão como tantas outras, e sua singularidade está na utilização de linhas e agulhas. Mudam os elementos, mas não há diferença alguma entre a moda e as artes “consagradas”[...] Vejo um Dior e um Dali e me sinto diante de coisas que se equivalem.[...] Agora pintores existem muitos, mas como Dalí, poucos. Na moda acontece o mesmo: existem milhões de estilistas, mas poucos que criem peças como obras de arte” (LOOF apud CIDREIRA, 2005, p. 80). No livro de Cidreira (2005), é feita uma associação da arte com o conhecimento, e é citado o autor Monclar Valverde (2000): [...] o autor recorre à etimologia da palavra conhecimento que o revela como co-nascimento, nascimento conjunto (apenas na língua francesa essa acepção se mantém evidente com a palavra connassaince). Conhecer seria, pois, nascer para algo, na medida e no momento em que aquilo nasce para mim – é um ato recíproco conjunto. Assim, se arte é conhecimento, é nesse sentido em que espectador e artista co-nascem num advento recíproco. O espectador sai transformado pela obra, renascendo como sujeito; e o artista, nasce para a obra, na medida em que se exercita para executá-la. (p. 84-85). Considerando a arte como conhecimento, podemos dizer que a arte é uma projeção do que nós somos, são nossos conhecimentos e experiências que refletem nas obras de arte, e nos causam sensações, e significados. Dando-nos o poder de definirmos para nós mesmos o que é ou não é arte. Sendo assim, a arte pode ser considerada como a expressão do homem, por um “fazer artístico”, com determinada técnica, que faz com que o espectador perante determinada obra de arte tenha um sentimento, sensação ou significação a partir dela. Coli (2006) complementa: A arte não isola, um a um, os elementos da casualidade ela não explica, mas tem o poder de nos “fazer sentir”. (p. 110). Arte e moda trabalham com os sentidos, com a estética, com o belo, esses são alguns dos motivos que trazem a intensa interação entre as duas linguagens, muitas vezes se fundindo e confundindo o espectador em saber o que é o que. 15 Os desdobramentos dessa sinergia podem ser múltiplos, mas talvez, o mais interessante seja o fato de que a relação entre moda e arte, e num outro nível de moda e vestimenta, provoca toda uma reflexão sobre a apresentação-representação do corpo, um “material” comum a ambos os universos e de longe, o mais íntimo de todos nós. (CIDREIRA, 2005, p. 82). As obras de arte, principalmente as mais antigas, sempre registraram a moda e o vestuário de sua época. Essa foi uma das primeiras interações entre moda e arte. Moura (2008) confirma: “Afrescos, pinturas, gravuras, colagens e esculturas nos informam sobre os costumes de uma época e assim declaram o papel de importância da moda e do design. As pinturas apontam muito bem isso.” (p.41). Esses registros sempre foram feitos devido a moda ser parte integrante da sociedade, e dos indivíduos que nela vivem. Dependendo da época, as obras podem refletir a classe social, e até a região das pessoas e/ou objetos retratados. Outro grande vínculo da Arte e da Moda, é a utilização da arte e de seus movimentos como pesquisa e referência para a criação de produtos de Moda. Existem coleções inspiradas em apenas uma obra de um artista, as quais desencadearam diversos conceitos, ou coleções inspiradas em um artista específico, ou em um conjunto de obras de um ou mais artistas. Também pode-se se inspirar em uma determinada exposição de arte, ou até mesmo na história de vida de um artista. As possibilidades são infinitas, e ricas de informação criativa. Há também a situação em que as roupas de determinados estilistas são consideradas arte, e são expostas em galerias e museus de arte conceituados. Um exemplo bem atual é a exposição de Yves Saint Laurent, que depois de sua morte, em junho de 2008, está sendo exposta em várias cidades do mundo, e agora em 2009, por ser o ano da França no Brasil, sendo mostrada por várias cidades do País. A exposição contém 50 figurinos feitos por Laurent, e também alguns croquis e vídeos do estilista. Uma outra interação entre arte e moda, são as roupas e acessórios criados por artistas. É transformar o vestuário como suporte da expressão artística. Um exemplo é Sonia Delaunay artista que criou a pintura abstrata chamada Simultaneísmo, juntamente com seu marido também artista, Robert Delaunay. Ela 16 abriu uma butique chamada Simultanée, onde desenvolvia tecidos e peças, aliando seu trabalho de composições geométricas que utilizava também em suas pinturas. Gustav Klimt também teve uma relação muito próxima com a moda. Por ser muito próximo de Emilie Flöge, que dirigia uma das mais elegantes butiques de Viena, teve um grande vínculo com a moda, inclusive criando padronagens e vestidos que eram vendidos nessa butique. As roupas desenhadas por Gustav Klimt, Giacomo Balla, Lucio Fontana, Alighiero Boetti, ou por Jana Sterback, só para citar alguns exemplos, são claramente identificáveis como “roupas de artista”; são, portanto, objetos concebidos de acordo com os parâmetros de obras de arte, desvinculados do processo de produção-comercialização-consumo no qual se insere uma peça de alta moda ou de prêt-à-porter. (GRANDI, 2008, p. 88-89). Por volta de 1906, Klimt fez diversas fotos de Flöge, com as peças que eram vendidas em sua butique. E segundo Brandstätter (2000) “Com isso, ele se torna talvez o primeiro fotógrafo de moda do mundo, ou pelo menos, a fotografar roupas ao ar livre, e não no interior de um ateliê”. (p. 13). Müller (2000) diz: “Os artistas se apropriam do vestuário como o prolongamento em três dimensões de suas pesquisas e para integrá-lo em sua visão da sociedade contemporânea.” (p. 11). No Brasil Hélio Oiticica criou os Parangolés e Lígia Clark os Vestíveis. Todas as duas criações eram obras de arte que utilizavam como meio de expressão a roupa. Segundo Moura (2008): Estes objetos tornaram-se referências marcantes, especialmente para as reflexões sobre a relação observador e obra, as questões do corpo e do objeto e a moda. Evidentemente, as propostas destes artistas não eram a de criação para a moda, mas eles questionavam e exploravam o universo de sensações humanas e rompiam com o distanciamento entre obra e público, entre artista e espectador. (p. 61). Nos Estados Unidos, essas peças criadas por artistas eram chamadas de Wearable Art, ou seja, a arte usável, vestível. Esse tipo de arte é desenvolvido a partir de criações que utilizam o corpo como suporte e a peça de roupa como obra de arte, geralmente única e exclusiva. Existem inclusive, galerias de arte especializadas em Wearable Art, além das exposições que são feitas em museus consagrados nacionais e internacionais. 17 Com o passar dos anos, a interação entre a arte e a moda foi ficando tão intensa, que fica até difícil dizer por que e onde devem ficar. Müller (2000) constata: Existe uma moda que faz “arte” e uma arte que fala da moda. Não se sabe mais quem pertence a quem: uma galeria de arte com uma instalação de Sylvie Fleury, invadida pelos cosméticos ou pelas sacolas de shopping, e a loja de departamentos Comme des Garçons em Tóquio com suas exposições de artistas [...] (p. 15). Grandi (2008) em seu artigo Arte e Moda: uma relação em evolução, também comenta o mesmo assunto: Desde o começo dos anos 1990, o cross over cada vez mais evidente entre arte e moda, duas áreas que, a exemplo de outros setores culturais e estético-criativos (literatura, música, arquitetura, fotografia, publicidade, cinema), mesclaram suas modalidades expressivas e comunicativas, perdendo, às vezes, a sua especificidade de linguagem, facilitou o fenômeno de sobreposição de um setor sobre o outro, tornando difícil distinguir o que pertencia a um setor e o que pertencia a outro. (p. 90). Para entender melhor a relação entre a arte e a moda, segue um estudo das duas linguagens no decorrer do século XX. 18 3.2 Moda e Arte no século XX A moda, no sentido moderno, começou a acontecer ao longo da segunda metade do século XIX. Antes disso, as roupas eram feitas por costureiros - que na verdade eram artesãos - de acordo com as definições que a cliente dava. Mas em Outono de 1857 – Inverno de 1858, Charles-Frédéric Worth criou sua própria casa de costura, onde ali, ele ditava o que as clientes deveriam usar. Foi o surgimento do criador de moda, e da chamada Alta Costura. Ele criava diversos modelos, e os apresentava em salões luxuosos para suas clientes. E a partir de lá, as clientes escolhiam os modelos, que eram fabricados exatamente nas suas medidas. Com a Alta Costura aparece a organização da moda tal como a conhecemos ainda hoje, pelo menos em suas grandes linhas: renovação sazonal, apresentação de coleções por manequins vivos, e sobretudo uma nova vocação, acompanhada de um novo status social do costureiro. (LIPOVETSKY, 1989. p. 79). Paris era a origem da moda e da arte ocidental na época, e continuou assim por muito tempo. Para pontuar a importância e o crescimento da cidade no fim do século, deve-se registrar a considerada maior maravilha da engenharia e da construção da época, que foi a Torre Eiffel, inaugurada em 1889, em uma exposição importante em Paris. Na época, a torre era a mais alta estrutura do mundo, podendo se fazer alusão à importância que a cidade tinha para os movimentos artístico culturais. Figura 1: Torre Eiffel, 1889, Paris. 19 Nessa mesma época, acontecia o movimento Art Nouveau, entre 1890 e a Primeira Guerra Mundial, e também o movimento Arts and Crafts. Todos os dois movimentos caminhavam em oposição ao industrialismo, e à esterelidade dos produtos que eram fabricados por máquinas. Liderado pelo escritor e projetista britânico William Morris (1837-96). Através da Europa e da América do Norte, o Movimento Artes e Ofícios do final do século XIX influenciou desde as artes decorativas de papéis de parede e tecidos até o projeto de livros. O grupo advogava um retorno à tradição artesanal da arte feita pelo povo e para o povo [...] (STRICKLAND, 1999. p. 90). O movimento Art Nouveau, era assim chamado em Paris, mas acontecia simultaneamente em outros países da Europa, cada um com um nome característico da região. Porém na Europa toda, era reconhecível pelo mesmo estilo, de formas torcidas, floridas e rebuscadas. Strickland (1999) afirma que o movimento Art Nouveau exerceu uma influência generalizada nas artes aplicadas, tais como o ferro forjado trabalhado, joalheria, vidro e tipografia. (p. 91). Figura 2: “The Peacock Skirt” - Aubrey Vincent Beardsley, 1892. Outro movimento que acontecia simultaneamente no final do século foi o Pós-Impressionismo, que também é de origem francesa, e tinha como participantes artistas como: Seurat, Gauguin, Cézanne, Toulouse-Lautrec e o holandês Van Gogh, que criou a maior parte de sua obra na França. Eles queriam que a arte fosse mais substancial do que o Impressionismo, não queriam simplesmente captar 20 um momento passageiro. Assim, esses artistas, cada um com sua postura, ou se concentraram em desenhos formais, com teorias de pontos e planos de cor, ou foram para um lado mais romântico, enfatizando a expressão de suas emoções e sensações através de cor e luz. Esses princípios atingidos nesse movimento, serviram de grande influência à arte do século XX, como o Cubismo, Fauvismo, até o Surrealismo. Figura 3: “A Noite Estrelada” – Van Gogh, 1889. O século XX foi o século das mudanças, das evoluções, das quebras de paradigmas, da velocidade, da comunicação, foi o século em olhamos para trás e conseguimos captar o espírito do tempo2 de cada década, e vemos como enxergamos o mundo de outra maneira atualmente, mas mesmo assim damos todo o valor para as antigas culturas, tanto que a moda não se cansa de reviver as décadas passadas. No início do século, se vivia a Belle Époque, os estilos predominantes, e as principais mudanças, aconteciam na França, mais especificamente em Paris. Moda e arte brotavam das ruas e casas, os principais artistas, mesmo que de outros países, iam para Paris, para morar, criar, e viver no circuito da arte. Ainda era época do auge da alta sociedade, da aristocracia, dos privilégios. Paris dita a moda: com a hegemonia da Alta Costura aparece uma moda hipercentralizada, inteiramente elaborada em Paris, ao mesmo tempo internacional, seguida por todas as mulheres up to date do mundo. Fenômeno que, de resto, não deixa de ter similitude com a arte moderna e seus pioneiros concentrados em Paris, estruturando um estilo expurgado dos caracteres nacionais. (LIPOVETSKY, 1989. p. 73). 2 Conceito melhor explicitado no capítulo 4. 21 As roupas ainda eram muito parecidas com as dos séculos passados, com a silhueta ainda semelhante com a do Renascimento, que é a divisão do corpo feminino em duas massas desiguais e distintas, separadas pelo estrangulamento da cintura pelo espartilho. O que mais se alterava era o tipo de tecido, as cores e a ornamentação dos vestidos. Figura 4: Ilustração de mulheres com espartilho, 1901. As mulheres tinham os seios fartos, anquinhas, e saias drapeadas. Mas surgiram também os shorts e as calças bufantes, para a prática de esportes, costume que se desenvolveu nessa época. Os esportes não apenas fizeram evoluir os trajes especializados, mas contribuíram, de maneira crucial, para mudar as linhas do vestuário feminino em geral, criando um novo ideal estético de feminilidade. (LIPOVETSKY, 1989. p. 77). Em 1908, chega Paul Poiret, que rompe com os conceitos, e liberta a mulher dos espartilhos. Coloca a cintura embaixo do busto, deixando uma saia longa e reta, até quase encostar-se ao chão. 22 Figura 5: Vestido de Noite de Paul Poiret, 1914. Figura 6: Vestido de Noite de Paul Poiret, 1914. Baudot (2008) comenta que Poiret: [...] por meio de mutações sucessivas e inúmeras ramificações, estará sempre subvertendo os usos do mundo de ontem. Dessa maneira, ele imporá não só seu arbítrio na evolução do vestuário como também a figura de um costureiro que intervém nos diferentes campos estéticos de sua época. (p. 40). O início do século XX marca o início da arte moderna. Segundo Strickland (1999), no século XX: a arte era agressivamente convulsiva, e um estilo se sobrepunha ao outro com a mesma rapidez que as bainhas subiam e desciam no mundo da moda. (p. 128). Um dos primeiros movimentos, que nem sequer chegou a ser nomeado de movimento na época, foi o Fauvismo. Durou de 1904 a 1908, mas foi o primeiro movimento de vanguarda do século XX, foi ele quem explodiu a arte moderna, e teve bastante influência no expressionismo alemão. 23 Figura 7: “O Risco Verde” (Retrato de Senhora Matisse) - Henri Matisse, 1905. Os principais pintores do movimento são Henri Matisse, que foi considerado o líder fauvista, Derain, Vlaminck, Dufy, Rouault e Braque, que começou fauvista, mas depois fundou junto com Picasso, o Cubismo. O Cubismo durou puramente de 1908 a 1914. O nome surgiu do desdém de Matisse, que ao ver uma paisagem de Braque, disse que não passavam de “cubinhos”. Os principais cubistas foram Pablo Picasso, Georges Braque, Juan Gris e Fernand Léger. A principal diferença entre o Fauvismo e o Cubismo era a forma de inspiração: um na cor e outro na forma, respectivamente. Os fauvistas se embriagavam com cores vibrantes exageradas, chocaram o mundo por aplicarem cores-sentimento nas obras, e não cores-realidade. O Cubismo dividia, recortava, e transformava suas obras em quase abstratas, trabalhava diretamente na forma. Figura 8: “Mademoiselles D’Avignon” - Picasso, 1907. 24 Todos os dois movimentos tiveram como fonte de inspiração a arte tribal não européia, que mudou os rumos da arte moderna. A arte que era considerada “menor” por ser feita por artistas “não-civilizados”, principalmente oriundos da África, trouxe claramente a cor para o fauvismo, e a forma para o Cubismo. Podese notar analisando as máscaras africanas. E essa influência se deu também na moda, com a utilização de estampas étnicas, que inclusive, Paul Poiret foi o pioneiro. Simultaneamente aos movimentos franceses, havia Modernismo também fora da França. Como o Futurismo na Itália (1909), o Construtivismo na Rússia (1914) e o Precisionismo nos Estados Unidos (1920). De 1914 a 1918 aconteceu a 1ª Guerra Mundial. Apenas quatro anos que causaram grandes mudanças na sociedade, obviamente influenciando a moda e a arte. As mulheres tiveram que tomar um lugar na sociedade que antes era dos homens. Surgindo assim, roupas mais práticas, adaptadas ao trabalho. Obrigadas a trabalhar, inclusive em linhas de montagem, mães, esposas e filhas exigem roupas que se adaptem a atividades inteiramente novas. [...] Da blusa das enfermeiras às calças das que estão empregadas nas fábricas de armamento, surge uma nova maneira de vestir, comportar-se. Quanto aos lutos que se multiplicam, às visitas aos feridos, tudo isso induz, durante a guerra, o uso dos tons sombrios e uma monocromia a que as mulheres jovens e abastadas não estavam habituadas. (BAUDOT, 2008. p. 60) Após a Primeira Guerra Mundial, as cicatrizes na sociedade permaneceram, e as mudanças no vestuário foram cada vez mais evoluindo. A silhueta feminina ficou muito menos sofisticada, sem franzidos nem enfeites. As formas sóbrias e limpas ficaram no topo. Cabelos curtos, elementos do vestuário masculino incluídos no feminino, os seios deixam de se destacar, a cintura desaparece, transferindo a atenção para os quadris, um novo ideal andrógino. Jean Patou e Gabrielle Chanel se encarregaram de difundir essa nova moda. 25 Figura 9: Mulher vestindo Chanel, anos 20. Lipovetsky (1989) cita em seu livro O Império do Efêmero a influência da arte moderna na transformação da moda nessa época pós-guerra: A silhueta da mulher dos anos 1920, reta e lisa, está em consonância direta com o espaço pictórico cubista feito de panos nítidos e angulares, de linhas verticais e horizontais, de cores uniformes e de contornos geométricos; faz eco ao universo tubular de Léger, ao despojamento estilístico empreendido por Picasso, Braque, Matisse, depois de Manet e Cézanne. Os volumes e curvas da mulher deram lugar a uma aparência depurada, dessofisticada, na continuidade do trabalho das vanguardas artísticas. (p. 78). E ele ainda complementa a afirmação: Não é um fenômeno anedótico que, desde a aurora do século XX, certos grandes costureiros admiram e frequentam os artistas modernos: Poiret é amigo de Picabia, Vlaminck, Derain e Dufy; Chanel é ligada a P. Reverdy, Max Jacob; Juan Gris realiza os trajes da Antigone de Cocteau, sendo os cenários de Picasso e a música de Hoenegger; as coleções de Schiaparelli são inspiradas pelo surrealismo. (p. 81). Um movimento oriundo originariamente de um grupo de refugiados da Guerra, foi o Dadaísmo, fundado em Zurique no ano de 1916. Foi um movimento que tinha o objetivo de não ter sentido, protestava contra a loucura da guerra. Cultivava o absurdo. 26 O Dadaísmo se expandiu de Zurique para outros países, como França, Alemanha e Estados Unidos. Dois anos depois, surgiu o Surrealismo, um movimento considerado filho do Dadaísmo. Um dos principais artistas, que juntamente com outros colegas lançou o Dadá e o Surrealismo, e também inspirou outros movimentos, como o pop e o conceitualismo, foi o francês Marcel Duchamp. Figura 10: “Fonte” - Marcel Duchamp, 1917. Outro movimento da mesma época foi o Expressionismo, que surgiu na Alemanha – mas teve sua versão também na Holanda – no final do século, com Edvard Munch e se consolidou do início do século, até 1930. O grupo achava que a arte devia expressar os sentimentos do artista e não as imagens do mundo real: utilizavam formas distorcidas, exageradas e cores impactantes. Os principais artistas do movimento são: Ernst Ludwig Kirchner, Emil Nolde, Paul Klee e Wassily Kandisnky, que é considerado o inventor da arte abstrata. Figura 11: “Improviso 31 (Batalha no Mar)” - Kandinsky, 1913. 27 Na época da Guerra, os expressionistas retratavam a dor, a morte, o horror que rondava por todos os lados. Segundo Strickland (1999): A maior contribuição dos expressionistas foi a revivescência das artes gráficas, principalmente a xilografia. Em drásticos contrastes preto-ebranco, formas cruas e linhas quebradas, as xilogravuras expressavam perfeitamente as doenças da alma, tema importante da arte expressionista. (p. 142) Os expressionistas holandeses eram liderados pelo pintor Piet Mondrian, e tentavam eliminar a emoção na arte. O grupo que durou de 1917 a 1931, também era chamado de De Stijl, que significa “O Estilo”, e continha artistas e arquitetos que defendiam uma arte severa, de pura geometria. Figura 12: “Composição em Vermelho, Amarelo e Azul” - Mondrian - 1921. Outro movimento importante, que influenciou bastante na criação de moda e design e iniciou em 1925, com a exposição parisiense de Artes Decorativas, é o chamado Art Decó. Contrário ao Art Nouveau, o Art Déco tinha um padrão decorativo onde as linhas retas ou circulares estilizadas, as formas geométricas e o design abstrato eram predominantes. “Nesse sentido, é possível afirmar que o estilo "clean e puro" art déco dirige-se ao moderno e às vanguardas do começo do século XX, beneficiando-se de suas contribuições”.3 3 www.itaucultural.org.br 28 Figura 13: O Cristo redentor é a maior estátua Art Déco no mundo, construída entre 1922-1931. Analisando os movimentos artísticos da época, e o âmbito socio-cultural, percebe-se a aura estética que se vivia no início do século, principalmente após a 1ª Guerra Mundial. Rupturas, mudanças profundas, reviravoltas e revoluções de pensamento se retratavam nitidamente em todos os movimentos e nas criações dos estilistas. Os anos 1930 continuaram com essa aura. A crise de 1929 nos Estados Unidos e a Guerra Civil Espanhola (1936-39) mantiveram a contenção e a escassez nos materiais para as vestimentas. A euforia dos Années Folles (Anos Loucos), com sua fome de mudanças e seus progressos, tropeça na crise de 1929. Ela se abate primeiramente sobre a Bolsa de Nova York, que leva os milionários a se atirar do alto dos arranha-céus, depois ganha a Europa, para onde carrega o desemprego, a inflação e os regimes totalitários que emergem de toda essa desordem. (BAUDOT, 2008. p. 64). Mas acontecem algumas mudanças significativas na moda, como a influência das atrizes de Hollywood na forma de se vestir das mulheres, e a descoberta da vida ao ar livre, dos banhos de sol. Os trajes de banho se tornam populares. A cintura volta para o lugar, e os cabelos crescem novamente. 29 Baudot (2008) ressalta: Durante os anos 30, a forma do corpo volta ao lugar. Remodelada segundo os cânones neoclássicos, a plástica feminina recorre a partir daí ao sutiã e a um tipo de cinta ou espartilho flexível. [...] O amor blasé dos anos 20 impunha o pijama às mulheres livres. O ano de 1930 vê a volta da camisola e daqueles deshabillés vaporosos que fizeram o encanto das noites hollywoodianas. (p. 98). Figura 14: Katharine Hepburn - Atriz da década de 30. Em 1936, são instauradas na França as primeiras férias pagas, que levam multidões a procurarem lugares à beira-mar, e a difundirem a moda dirigida à “vida ao ar livre”. Figura 15: Trajes de banho - década de 30. O período entre 1920 e 1940, chamado de entre-guerras é o único período em que a moda foi dominada pelas mulheres. As principais estilistas da época foram Madeleine Vionnet, – com sua técnica inovadora de construção de vestidos 30 com corte enviesado – Gabrielle Chanel – com sua personalidade forte, estabelecendo um novo código de roupas para a mulher – e Elsa Schiaparelli – trazendo para a Alta Costura seu humor e todo tipo de acessórios que prenunciam a moda contemporânea. A estilista Schiaparelli lança a cor rosa shocking, e cria muitas peças inspiradas no surrealismo, como o chapéu sapato, e o vestido lagosta. Figura 16: “Chapéu-sapato”- Elsa Schiaparelli, inverno 1937-38. O Surrealismo vivia seus anos de glória, com Salvador Dalí, René Magritte, Marc Chagall, entre outros. Eles pintavam imagens ilógicas, perturbadoras, muitas vezes com uma claridade impressionante. Figura 17: “Autoretrato blando com bacón frito”- Salvador Dalí – 1941. 31 Dalí ia além da arte, e se portava como um gênio, ou louco. Criou peças de vestir, objetos, todos com características bem particulares. Dalí tinha um comportamento completamente surrealista, como por exemplo, dar aulas com o pé enfiado num balde de leite, ou com uma lagosta cozida na cabeça. Já no final da década de 30, mais especificamente em 1939, começa a 2ª Guerra Mundial. Estagnando a Alta Costura em Paris, e deslocando os artistas para outros países, nos quais se juntavam para formar novas comunidades e influências. Em 1940, normas imperativas regulam o vestuário: é proibido mais de quatro metros de tecidos para um mantô e um metro para chemisier, era feita apenas exceção para as grávidas. Nenhum cinto de couro podia ter mais de quatro centímetros de largura. Nos Estados Unidos, desde o final do século, já existia uma forma de readyto-wear (pronto para vestir). Só que era muito mais confecção tradicional do que se tornou tempos depois. Já em 1944, Tina Leser, Anne Klein e Claire McCardell formam um grupo de mulheres talentosas que criam novos fundamentos do traje esportivo, transformando o ready-to-wear em uma forma elegante de se vestir. Figura 18: Conjunto esporte de tweed com capa. Outono-Inverno 1940. Paris passou cinco anos ocupada pela Guerra. Muitos consideravam que a indústria da moda da França, que era a mais importante do mundo, não voltaria a ser como era. Mas ela conseguiu se reerguer. Entre 1945 e 1946, foi feita uma exposição no Museu do Louvre, chamada de Le Théâtre de la Mode, que significa O teatro da Moda. 32 Com a economia nacional arruinada, não se tinha materiais para produzir roupas e acessórios dignos de exposição. Então foi feita uma exposição de roupas, porém em bonecas. Utilizando o mínimo de tecidos, couro e matérias-primas. Minúsculos chapéus, caseados de botão que funcionavam, sapatos de couro feitos especialmente para os pés das bonecas, encantaram Paris. A platéia ficara maravilhada percebendo os mínimos detalhes em cada peça. Figura 19: Foto da exposição Théâtre de la Mode, 1945-46. Essa exposição arrecadou uma grande soma em dinheiro, e além de levantar a economia da moda, reafirmou a capital como a capital do luxo da moda. Principalmente com a exposição viajando pelos países da Europa, e depois chegando aos Estados Unidos. Nos Estados Unidos, alguns estilistas começaram em ascenção, tanto pelo tempo em que Paris ficou “desaparecida” da moda, quanto pelas técnicas de readyto-wear. Como Blass, Cashin, McCardel, James Norell. Na arte não foi diferente. Pela primeira vez o centro dos acontecimentos do mundo da arte estava nas terras americanas. Surgindo o movimento Expressionismo Abstrato - em torno do fim dos anos 1940 e começo dos anos 1950 - que enfatizava a energia, a ação e o movimento. Quando os surrealistas chegaram à América do Norte, durante a Segunda Guerra Mundial, a nova geração de pintores americanos descobriu com eles a arte da anarquia. Mas enquanto o Dadá e o Surrealismo se revoltavam contra a lógica, os artistas americanos levaram o “automatismo” um passo além, confiando no instinto para dar formato a obras-de-arte que não eram apenas irracionais mas, em sua essência, eventualidades não premeditadas. (STRICKLAND, 1999. p. 158). 33 O movimento era liderado pelos artistas Arshile Groky, Hans Hoffmann e Jackson Pollock. Eles se libertaram da necessidade de pintar imagens reconhecíveis, e do abstracionismo geométrico. Strickland (1999) complementa: “As telas resultantes de Pollock e amigos, altamente improvisadas, não só roubaram da Europa a posição de Guardiã da Chama Cultural, mas expandiram a própria definição no que se pensava ser “arte”.” (p. 158). Figura 20: Lavender Mist: Number 1 - Jackson Pollock - 1950. Apesar da força do expressionismo abstrato, surgem na mesma época artistas que caminhavam na direção oposta, criando o movimento Expressionismo Figurativo. Francis Bacon (inglês) era um deles, que pintava figuras distorcidas, humanos monstruosos, em meio a carnes pútrefas, grande influenciado principalmente pela guerra. E no México, Frida Kahlo fazia seus infinitos autoretratos com temas nunca antes abordados, como aborto, menstruação e nascimento. Figura 21: Cabeza I - Francis Bacon, 1949. 34 A arte permaneceu descentralizada de Paris. Mas a Alta Costura voltou com tudo, principalmente após 1947, quando Christian Dior cria o new look, com cinturas apertadas, saias amplas e chapéus grandes. Era uma moda feminina, que acentuava todas as curvas do corpo das mulheres. Foi um grande sucesso, e as criações de Dior foram copiadas por todo mundo, mantendo essa mulher feminina o padrão do vestuário dos anos 1950. Nos anos 50 houve uma divisão curiosa na moda. De repente parecia que existiam duas espécies diferentes de mulheres. Uma parte era mundana, sofisticada e usava roupas elegantes, com cortes adultos; a outra era composta de “adolescentes” ou “garotas” que podiam ter de 13 a 30 anos, e usavam suéteres e saias largas, jeans e bermudas. (LURIE, 1997. p. 92). Figura 22: Variações do New Look de Dior, 1947. Durante toda a década de 1950, se estabeleceu tanto na arte quanto na moda uma divisão de pensamentos. Havia os que queriam que tudo permanecesse igual e os que esperavam que tudo mudasse. O ready-to-wear americano, se tornou o prét-à-porter francês. Roupas prontas para vestir. A chamada Moda dos Cem Anos4, dominada pela Alta Costura chega ao fim. Não que a importância da Alta Costura tenha diminuído, mas o 4 Expressão utilizada pelo sociólogo Gilles Lipovetsky. 35 surgimento das modas de rua, do estilo jovem, acabou causando uma inversão de papéis, sendo a rua quem dita as tendências. Os estilistas do prét-à-porter vão buscar referências nos movimentos jovens, e difundindo seus estilos pelo mundo inteiro. O estilo dos estudantes de arte era o anti-luxo: calças curtas, malhas simples, sapatos baixos, óculos escuros. Entre os jovens americanos, surge o grupo que passa a ser chamado de geração beat, jovens com hábitos de liberdade, que curtiam drogas, sexo livre, e andavam livres pelo mundo. Embalados pelo rock and roll com seu ídolo Elvis Presley e suas danças provocantes. A televisão torna-se meio de comunicação de massa. O cinema difundia novos estilos de vida. James Dean, Marlon Brando, com suas camisetas e jeans, Audrey Hepburn e Julliete Gréco trazendo a beleza jovem, girlish. E Marilyn Monroe e Brigitte Bardot se tornam símbolos de beleza. Como as pin-ups que surgiram nessa mesma época. Figura 23: Lauren Bacall, Humphrey Bogart e Marilyn Monroe, 1953. A Alta-Costura conta com jovens estilistas, que fazem seu estilo crescer e evoluir. Pierre Cardin, Gabrielle Chanel, que volta com toda força e Yves Saint Laurent, com apenas 21 anos se torna diretor da maison Dior, e lança a linha trapézio, um início para o que veio a se tornar a moda dos anos 1960. 36 O ano de 1960 marca o começo da Arte Contemporânea, com a exposição de obras do novo movimento Hard Edge. Seguindo o expressionismo abstrato, porém eliminando o lado expressivo, ao invés de abstração espontânea, se sugeria uma abstração calculada, impessoal. Strickland (1999) complementa: Os quadros são precisos e frios, como se feitos à máquina. O movimento intensificou a propensão modernista a ver a obra-de-arte como um objeto independente e não como uma visão da realidade ou do psiquismo do pintor. (p. 170). Figura 24: “Sinistra Dobra”, Noland, 1964. Outro movimento, importantíssimo para as décadas seguintes, foi a Pop Art, que surgiu nos Estados Unidos. Roy Lichtenstein com seus quadros derivados de seus quadrinhos, Andy Warhol com seus silk-screen em produção de massa, sobre temas de prateleiras de supermercados ou com ícones de celebridades, e também o artista Claes Oldenburg e James Rosenquist. A fonte de criação para os artistas ligados a esse movimento era o dia-adia das grandes cidades norte-americanas, pois sua proposta era romper qualquer barreira entre a arte e a vida comum, enfim, a vida que a tecnologia industrial criou nos grandes centros urbanos. (PROENÇA, 1994. p. 170). Figura 25: “Turquoise Marilyn” - Andy Warhol, 1962. 37 E na sequência da criação da Pop Art, surgiu a Op Art. Que consistia na combinação de cores e motivos abstratos, para a produção de ilusões óticas e de movimentos pulsantes. Op Art vem do termo Optical Art, que significa arte óptica. Proença (1994) define: “Trata-se de uma arte que, da mesma forma que a vida contemporânea, está em constante alteração.” (p. 167). Moura (2008) ressalta a importância desse movimento: Este movimento foi significativo tanto para a publicidade como para o cinema, a televisão, o design e a moda. Disseminado a partir da exposição The Responsive Eye, realizada no MOMA (Museum of Modern Art, New York), em 1965, influenciou e serviu de referências para várias coleções de moda e também para padronagens de tecidos. (p. 49). Figura 26: “Arrest 1” - Bridget Riley, 1965. E em reação ao Expressionismo Abstrato e à arte pop, surge o movimento Minimalista. Eles pretendiam eliminar a personalização e o consumismo. Utilizavam formas mecânicas, frias. Geralmente usavam materiais pré-fabricados, em formas geométricas simples, como caixas de metal e tijolos. Strickland (1999) resume: “Para esses escultores, a forma mínima garante a intensidade máxima. Eliminando as “distrações” do detalhe, da imagem, da narrativa – isto é, tudo -, eles pretendem forçar a atenção total do espectador para o que sobrou.” (p. 177). 38 Figura 27: “Sem título” - Donald Judd, 1969. A partir de 1960, a mudança na moda foi total. Não existiam mais regras gerais para todos, havia a possibilidade de várias modas, vários estilos. Motivados pelo mercado jovem. Segundo Lipovetsky (1989): Além da cultura hedonista, o surgimento da “cultura juvenil” foi um elemento essencial no devir estilístico do prêt-à-porter. Cultura juvenil 5 certamente ligada ao baby-boom e ao poder de compra dos jovens, mas aparecendo, mais em profundidade, como uma manifestação ampliada da dinâmica democrática-individualista. Essa nova cultura é que foi a fonte do fenômeno “estilo” dos anos 1960, menos preocupado com a perfeição, mais à espreita da espontaneidade criativa de originalidade, de impacto imediato. Acompanhando a consagração democrática da juventude, o próprio prêt-à-porter engajou-se em um processo de rejuvenescimento democrático dos protótipos de moda. (p. 115). Era a primeira vez que a moda jovem não vinha dos estilos dos mais velhos, e sim uma moda totalmente nova, que inclusive, chocava as gerações mais antigas. Como por exemplo, a criação da minissaia, difundida por Mary-Quant e por André Courréges. Courréges, que por sinal, fez em 1965 uma coleção pensando nos anos 2000, futurista, mutante. Lipovestky comenta: Com suas botas de saltos baixos, seu branco puro, suas preferências a colegiais de meias soquetes, seu dinamismo de geômetra, o estilo Courréges registra na moda a ascensão irresistível dos valores propriamente juvenis, teenagers. (1989. p. 111). 5 Termo referente ao fenômeno de alta natalidade após a Segunda Guerra Mundial. Pessoas nascidas nesse período são chamadas de baby-boomers. 39 Figura 28: Bolero com Zíper - André Courrèges, 1968. Paco Rabanne também inovou bastante em suas coleções, adicionando metal em suas peças, e até criou um vestido efêmero, feito de papel e fios de náilon. Todos com uma visão futurista, tecnológica, visões de uma maneira que só poderia se ter naquela época. Figura 29: Vestido com capuz - Paco Rabanne, 1967. 40 Yves Saint Laurent foi um estilista precursor, considerado o “pequeno príncipe da costura”. Com coleções inovadoras, e que, se olhando agora, permanecem sem ficar ultrapassadas. Laurent se utilizou muito da arte como inspiração, utilizou pintores como Henri Matisse como referência e criou coleções completas, como a coleção Mondrian em 1965, e depois com a coleção Pop Art, por exemplo. Figura 30: Coleção Pop Art - Yves Saint Laurent, 1966. Londres virou um trajeto necessário a todos os jovens. A implantação de butiques com roupas especialmente para os jovens difundia a onda rock and roll que acontecia na época. Uma das manias da época foi o vestido tubinho com botas de cano longo, e as calças compridas para as mulheres foram totalmente difundidas pelo mundo todo. Os Beatles foram uma grande influência, primeiramente na Inglaterra, e depois no mundo todo, a maioria dos jovens dançava e curtia o som rock and roll. Op-Art, Pop-Art, música Rock, os Beatles – no domínio das artes predominavam as experiências novas, a rotura com o que era considerado obsoleto e a procura do novo e espetacular. Também nesse domínio, o conceito resumia-se a três termos: rápido, reprodutível e consumível. (SILVA, 2005. p. 42). Ao final da década de 60, novos fenômenos vão surgindo, como o movimento feminista, a pílula anticoncepcional começa a ser difundida, os 41 homossexuais começam a exprimir sua diferença, é difundido o amor livre. Em 1969 acontece o grande show de rock chamado Woodstock, reunindo cerca de 500 mil pessoas em três dias, e ficou caracterizado pelo amor, música, sexo e drogas. Foi a consolidação da antimoda. Os jovens queriam se vestir para exprimir suas idéias, seus valores. Foi se eliminando o estilo Pop das roupas para dar lugar à cultura Hippie. Uma revolução que foi além das roupas, e sim totalmente cultural, mudando os estilos de vida dos jovens da época. As roupas antes reservadas às classes trabalhadoras começam a fazer parte das roupas desses jovens, como os blue-jeans americanos. As diferenças no vestuário feminino e masculino são suprimidas, os jovens casais dividem tudo. Suas roupas, muitas vezes surradas, compradas já usadas, ou roupas feitas à mão, por eles mesmos. Os cabelos tanto podem ser curtos para as mulheres ou compridos para os homens. Tudo é livre. É proibido proibir. Na Itália, Elio Fiorucci abre sua butique, e como comenta Baudot (2008): “ele reúne numa pequena, mas importante loja, no centro febril da cidade, tudo aquilo que vai contra os princípios tradicionais do bom gosto.” (p. 229). A moda dos anos 1970 conhece uma aceleração, antes nunca vista. Toda a forma de se relacionar com as roupas, com a aparência, com o chique, muda completamente. A moda colocava-se como meio de expressão de opinião. O movimento hippie foi o mais característico da época, com o vestuário ecologicamente consciente e anti-conformista. Algodões estampados com flores, anáguas com rendas, chapéus de palha adornados com flores, cabelos compridos, calças boca-de-sino. Figura 31: Movimento Flower Power, anos 70. 42 A mulher lutava incessantemente por seus direitos. Acontece a grande queima de sutiãs, símbolo do movimento feminista. As mulheres ganham o direito de aborto. E também começam a assumir cargos anteriormente ocupados somente por homens. Surgindo assim as roupas formais com corte masculinizado e visual unissex. Milão, na Itália, se torna o segundo pólo da moda internacional, apenas abaixo de Paris. Criando salões especializados em prêt-à-porter masculinos e femininos. Os principais estilistas eram Giorgio Armani, Gianfranco Ferré, Gianni Versace, e ainda na década de 60 surgem as marcas Gucci, Missoni, entre outras. Em Londres, em meados de 1974, surge a butique Sex, de Vivienne Westwood, onde vendia roupas em materiais ousados como o plástico e o vinil, roupas voltadas para os jovens. Simultaneamente surge o movimento punk, com suas músicas e atitudes agressivas. Eles alertavam a sociedade para os problemas existentes, adotando uma posição de protesto ofensiva. Eram contra o sistema da moda, usavam roupas rasgadas, presas com alfinetes, calças justas xadrez, casacos de couro, tachas pontudas, frases anarquistas, maquiagens escuras. Todo esse tipo de roupa e acessório se encontrava na butique de Vivienne Westwood adepta ao movimento punk, que inclusive ajudou a criá-lo, juntamente com seu namorado (Malcom McLaren), empresário da principal banda de punk-rock da época: o Sex Pistols. Figura 32: Sid Vicious, 1978. 43 A butique sex era adepta a movimentos de rua, tanto que era toda grafitada por dentro. E em 1975, houve a primeira exposição de Arte Grafitti, no "Artist's Space", de Nova York, com apresentação de Peter Schjeldahl. Porém, a consagração da arte graffiti veio com a mostra "New York/New Wave" organizada por Diego Cortez, em 1981, no PS 1, um dos principais espaços de vanguarda de Nova York. Na Alemanha surge um novo movimento artístico, que atingiu o clímax em 1980, chamado Neo-Expressionismo. E a arte graffiti surgiu de artistas desse meio. Como Strickland (1999) explica, era chamado assim “porque reabilitou as distorções angulares e o forte conteúdo emocional do Expressionismo Alemão.” (p. 188). Esse movimento trouxe de volta para a arte traços que tinham sido eliminados por outros movimentos, como o conteúdo reconhecível, a referência histórica, a subjetividade e a crítica social. E marcou o renascimento da Europa como força artística reconhecida. Os artistas líderes foram os alemães Anselm Kiefer, Gerhard Richter, Sigmar Polke, Georg Baselitz e os italianos Francesco Clemente, Sandro Chia e Enzo Cucchi. Um dos artistas desse movimento que refletiu perfeitamente a época em que vivia foi Jean-Michel Basquiat. Ele foi intenso e violento, tanto na sua vida, na sua arte e morte, aos 28 anos, de overdose. Uma das primeiras marcas que ele deixou foi a pichação de muros no centro de Nova York. Ele fazia parte de um time conhecido como SAMO (same old shit) – que significa “sempre a mesma merda”. Eles faziam críticas à sociedade, ao consumismo, lembrando a crítica que o movimento punk fazia. Strickland (1999) ressalta: “Suas telas intensas, frenéticas, atulhadas de caracteres típicos do graffiti e das figuras de quadrinhos, fizeram dele um superstar do Neo-Expressionismo” (p. 189). 44 Figura 33: “Zydeco” - Jean-Michel Basquiat, 1984. Percebe-se assim, a influência que a rua estava tendo tanto na arte, quanto na moda, e nos estilos de vida das pessoas. O movimento rap também ajudou a difundir a cultura graffiti e a atitude de revolta. Nos anos 80, a MTV6 é inaugurada, fazendo com que a música cada vez mais influencie os jovens, principalmente no jeito de se vestir. O estilo punk se difunde pelo mundo todo. Os clipes de música vão levando os estilos de cabelos e de roupas dos músicos a todos que têm acesso. Surge também a moda dance, difundida principalmente pelo filme: Embalos de Sábado à Noite, com John Travolta. Onde o estilo de roupa, e o jeito de dançar eram peculiares. Roupas de lurex, ombros marcados por ombreiras enormes, cabelos gigantes, maquiagem em um look exagerado, que reflete a moda da época. 6 Music Television: Canal americano, de televisão fechada, com uma programação originalmente dedicada a videoclipes e informações sobre música do mundo inteiro. 45 Figura 34: John Travolta, no filme Embalos de Sábado a Noite, 1977. O uso da calça jeans foi generalizado pelo mundo todo, virando roupa básica, como o tênis all star, a camiseta branca e a jaqueta de couro. Havia uma oposição entre a moda da rua e a alta-moda, que pode ser personificada por Madonna e Princesa Diana, respectivamente. A moda se torna internacional, vinda de vários centros, de vários países, e grandes estilistas se estabelecem na mesma época, como Vivienne Westwood, John Galliano, Calvin Klein, Donna Karan, Azzedine Alaïa, Karl Lagerfeld, Jean Paul Gaultier e Ralph Lauren. Muitos, no topo até hoje. A descoberta dos benefícios da ginástica, o interesse pelo corpo perfeito, fez o fitness virar febre, e as malhas colantes, a lycra - que surgiu na mesma década os tênis, e os abrigos da marca Adidas fizeram sucesso pelo mundo todo. O final da década entra em algumas crises, e já não é mais aquela década feliz como quando começou. É descoberta a Aids e outras doenças sexualmente transmissíveis; acontece a quebra da bolsa de valores nos EUA, e uma crise econômica no mundo. Chegando aos anos 1990, a moda encerra mais um ciclo. Ela já não é mais tratada, observada e vivida como antes. Não existem mais inovações em forma, criações que chocam o mundo. E as tendências que já não eram mais únicas, se tornam uma profusão de imagens e sentidos. “Be Yourself” se torna o slogan de uma das marcas mais importantes do final do século, a Nike. E faz com que os jovens busquem sua originalidade, seu modo de viver. Baudot (2008) comenta uma diferença interessante dessa última década 46 do século com as outras passadas: “Ao velho temor de não estar suficientemente bem vestido, sucede depois de alguns anos, o de estar bem vestido demais”. (p. 318) Inclui-se na moda o estilo “minimalista”, expressão retirada do movimento Minimalismo dos anos 70. Era a simplicidade na roupa, levada ao extremo. O preto era absoluto nos desfiles e nas pessoas. No início da década de 90, Barneys, grande loja de moda em Nova York, apresentava para a sua abertura, em cinco andares num décor copiado de Jean-Michel Frank, justamente o pai do minimalismo nas artes decorativas dos anos 30, araras com roupas de todas as grifes famosas e todas uniformemente preta sobre um fundo bege. (BAUDOT, 2008. p. 318). Surge o fenômeno Top Model, que pode ser comparado com os das pin-ups dos anos 50. As modelos são consideradas e apresentadas como verdadeiras deusas. Figura 35: As top models, Peter Lindbergh,1990. Surge mais um movimento criado pelos jovens, inspirados nas músicas que ouviam que é o movimento grunge. A total despreocupação com o que se veste, roupas de baixa qualidade, camisa de flanela xadrez, jeans completamente rasgados, os tênis quanto mais velhos e sujos, melhores de usar. Cabelos 47 descuidados. O grande precursor do movimento foi Kurt Cobain, líder da bandafenômeno dos anos 90, o Nirvana. Mesmo depois da morte de Kurt, em 1994, seu estilo permaneceu em muitos jovens, e até hoje é revivido por grandes marcas e é visto em desfiles nas principais capitais de moda do mundo. Figura 36: Kurt Cobain, 1992. Os anos 1990 também vêem a invasão dos computadores na casa de todos. A internet acelera a globalização. O oriente abre as portas para a confecção internacional, caem as barreiras de comércio. A comunicação agilizada pela internet, é a grande facilitadora. A moda também vê os anos 60 e 70 sendo revividos, mas com cara de inovação. Os seios são valorizados, e a indústria das plásticas e implantes de silicone cresce rapidamente. A Alta Costura vira apenas conceito. A moda não se sustenta mais nesse nicho de mercado, e o prêt-à-porter das grandes marcas é quem dita as tendências. Paris ainda é a capital da moda, mas estilistas pós-modernos surgem de todos os cantos. Surge Yohji Yamamoto, Martin Margiela, Helmut Lang, Hussein Chalayan, Jil Sander, Tom Ford, Anna Sui, entre diversos outros. O marketing é a grande explosão da década. O investimento da moda em marketing é infinitamente maior. As grandes top models são vistas em todos os lados, nas ruas, na televisão, nas revistas e na internet. 48 A arte dos anos noventa vive um período muito diversificado nunca visto antes. A ligação que se vê entre quase todas surgidas na época, é a forte crítica política, a revolta contra os problemas que atingem o mundo. Instalações carregadas de textos exortam o expectador a refletir sobre temas como a epidemia de AIDS, os problemas ambientais, os sem-teto, racismo, sexo e violência. Os materiais e os formatos são tão variados quanto os temas e admitem formas alternativas, como a arte performática, gêneros híbridos, como a arte derivada da fotografia, e continua se multiplicando. (STRICKLAND, 1999. p. 190). Chamados de pós-modernos, os artistas faziam apropriações de imagens de obras de arte antigas, ou de meios de comunicação de massa, combinavam imagens pré-existentes com suas próprias imagens. Eram artistas da apropriação, que tentavam anexar a força dos artistas originais, ou reinterpretar a história. Criavam objetos, instalações, fotomontagens, esculturas, arte graffiti e utilizavam da mídia para exporem seus trabalhos. Alguns importantes artistas da década são: Robert Arneson – fundador da Funk Art -; Ashley Bickerton; Ross Bleckner; Christian Boltanski; Sophie Calle; Terry Winters; Chris Burden, entre infinitos outros. Strickland (1999) define perfeitamente: A arte nos anos noventa, assim como a vida nessa década, reflete o instável crepúsculo do século XX. Oferece mais perguntas do que respostas, mais desafios que certezas. [...] A arte dos anos noventa abrange do figurativo ao abstrato, do “engraçado” ao “sério”, do feito à mão ao fabricado por meios mecânicos. (p. 194). Figura 37: “Medusa's Head” - Chris Burden, 1990. 49 O século XXI vê na moda, o império do luxo. Mas não mais o luxo da Alta Costura, e sim dos nomes que ficaram através dessa forma de arte-moda. As antigas maisons se tornaram poderosas marcas, muitas vezes fazendo parte de conglomerados, que se tornam infinitamente mais poderosos. Grandes estilistas viram diretores de arte das grandes marcas, fazendo um trabalho realmente difícil, que é manter o luxo e o estilo de cada grande nome ao qual eles representam, e ao mesmo tempo, se manter no mercado, conseguindo vendas suficientes para manter todo um império. Alguns exemplos são Nicolas Ghesquiére para Balenciaga, Oliver Theyskens na Rochas, John Galliano para Dior, Karl Lagerfeld, e seu incrível trabalho, sempre inovador para Chanel, entre infinitos outros. Figura 38: Campanha Chanel – Primavera-Verão 2009. As inovações das grandes marcas agora, não são mais tanto na forma, e sim nos materiais aos quais eles utilizam. A tecnologia é utilizada a favor da moda, criando tecidos com propriedades antes nunca imaginadas. Como tecidos com propriedades hidratantes, com capacidade de mudança de cor, antibactericidas, com aspectos plastificados e com o toque macio como de uma seda, entre muitas outras inovações, que surgem a cada estação. 50 Nas ruas, se vê uma profusão de estilos, de cores, de marcas, de cabelos. As “tribos” que eram chamadas antes, agora são os “Supermercados de Estilo”. Os jovens são os maiores responsáveis pela criação dos infinitos estilos, e a cada dia surgem novos, e outros são ridicularizados e eliminados. A televisão, e principalmente a internet, que antes afastava, agora aproxima as pessoas, com os infinitos meios de comunicação nela existentes, são os principais “divulgadores” de novos estilos que estão por vir. Grandi (2008) faz um ótimo questionamento sobre a época em que vivemos: A opinião mais difundida é aquela que afirma que estamos atravessando um período sem um estilo próprio, por causa da proliferação incessante de microestilos, fads, tendências, correntes que se anulam e contradizem reciprocamente. Mas, atenção, essa ausência causada pela hipertrófica produção de estilos não se teria transformado por sua vez em um estilo, refletindo em todos os campos o espírito do nosso tempo? E não seria esse, talvez, o traço dominante que nos permite buscar possíveis recaídas estético-formais e de conteúdo, ou as influencias recíprocas entre os setores da arte e da moda? (p. 96). A internet também é agora uma grande difusora de arte. Tanto as consideradas maiores, quanto as menores, que são vendidas em sites de relacionamento, como flickr, orkut, myspace, entre outros. [...] a expansão da internet, o mundo em rede está influenciando decisivamente a vida cultural de nossa época. Nós temos que pensar essas características do nosso cotidiano por que um dos grandes obstáculos para entender a arte contemporânea é o fato de ter se tornado parecida demais com a vida. É como se, num processo de integração entre arte e vida, a arte tivesse doado tanto sangue para a estetização da vida que ela se desestetizou. (COCCHIARALE, 2006. p. 39). A arte está no seu estágio chamado de contemporâneo. Torna-se cada vez mais difícil definir o que é ou não arte, pois não há mais parâmetros que suportem as variações da arte contemporânea. A Bienal de Arte, tanto a de São Paulo, quanto a do Mercosul, a de Veneza, de qualquer lugar do mundo, trazem sempre uma infinidade de obras contemporâneas. Obras essas que se fazem a partir de infinitos meios: vídeo, instalação, som, ou até mesmo o nada. A cada nova exposição, se descobrem novas formas de expressão artística. Cocchiarale (2006) ressalta a dificuldade de reconhecimento e de definição da arte contemporânea: 51 A arte contemporânea, de modo inverso e na contramão dessa tendência, esparramou-se para além do campo especializado construído pelo modernismo e passou a buscar uma interface com quase todas as outras artes e, mais, com a própria vida, tornando-se uma coisa espraiada e contaminada por temas que não são da própria arte. Se a arte contemporânea dá medo é por ser abrangente demais e muito próxima da vida. (p. 16). A música também vive uma revolução. Uma música ou um vídeo gravado e colocado na internet em um dia, pode uma semana depois se tornar sucesso nacional, ou até mundial, aparecendo em todos os meios de comunicação, e divulgados de todas as formas. A globalização é definitivamente uma realidade. 52 4. TENDÊNCIA Tendência, termo derivado do latim tendentia, do verbo tendere, que significa “tender para”, “inclinar-se para” ou ser “atraído por”. Na sociedade contemporânea, tendência tem ligação com movimento, mudança, representação do futuro e evolução. Tendência é a própria configuração dessa fuga permanente em direção ao futuro que nos aguarda, para o qual tendemos por meio de uma atração irresistível. Tendência e progresso são duas noções inextricáveis. (CALDAS, 2006, p. 34). Utilizada principalmente na moda, mas também em diversas áreas como design de interiores, automobilística, arquitetura, indústria de beleza (cosméticos e perfumaria) a tendência serve para diminuir ou eliminar o grau de incerteza de como o mercado estará em seis meses, um ano ou mais a frente. A pesquisa de tendências é uma atividade que tem de lidar com as capacidades de percepção e de leitura de sinais da sociedade, quase sempre incipientes, tendo como limites os interesses e as possibilidades dos parceiros da indústria. (JOBIM; NEVES, 2008. p. 231-232). A partir dos anos 50, o culto à mudança na moda surgiu, e se consolidou após os anos 80, onde o imaginário da sociedade contemporânea valoriza e necessita da mudança constante, favorecendo assim o interesse pelas tendências. 4.1 Evolução das tendências Pensando décadas atrás, as tendências surgiam de formas diferentes: Antes de 1857, quem criava as vestimentas eram os próprios clientes da alta burguesia. A difusão dos detalhes e fenômenos, naquela época, era feita por meio de retratos pintados e de bonecas, enviados principalmente da França para os outros países da Europa. Também surgiram jornais especializados em moda, inclusive o primeiro surgiu no final do século XVIII. Além disso, o comércio era papel fundamental na difusão de tendências, como por exemplo, “lojas de novidades” que ofereciam tecidos, acessórios, etc. 53 De 1857 até 1950, quem ditava a moda, os tecidos, as formas e silhuetas era a alta-costura. Charles Frederich Worth foi quem abriu em Paris a primeira casa de Alta-Costura, criando assim a idéia de que os clientes deveriam ser vestidos por alguém que tinha o poder de decidir por eles. Durante 100 anos, a moda foi ditada pelos costureiros, os outros profissionais ligados à moda dependiam das informações do próprio costureiro para criarem seus sapatos, chapéus, e demais produtos. Isso se chamava trickle effetc, onde em uma pirâmide, em que a alta costura está no topo, acontece o efeito gotejamento, no qual as informações vão descendo a pirâmide, até chegarem à grande massa. A partir do século XX surgiram numerosas revistas de moda, que também começaram a fazer o papel de difusão de tendências. O cinema também foi um importante difusor de informações, principalmente a partir de 1930 com as grandes Divas7. A segunda guerra mundial intensificou o desenvolvimento da tecnologia da confecção, e trouxe a necessidade da roupa ready-to-wear, que é a prêt-à-porter (pronta para vestir). Assim as grandes maisons8 faziam suas criações, mas para produção em série. Surgiu então a necessidade de um profissional chamado estilista, que não necessariamente costurava, mas apenas criava as peças. Ele não assinava as próprias peças, e sim trabalhava para uma marca. De 1950 a 1960 surgem Consultores de Moda, birôs de estilo, salões profissionais, todos importantes meios de difusão de tendências. Em 1955, foi criado o Comitê de Coordenação das Indústrias da Moda (CCIM) que tinha o trabalho de fornecer aos diversos elos da cadeia têxtil, das fiações à imprensa, indicações precisas e coerentes sobre as tendências. Assim surgem os Cadernos de Tendências (guias contendo todas as informações para o desenvolvimento de uma coleção), e nasce a imprensa especializada em moda. Os Jovens surgiram na moda e o cinema e a música trouxeram muitas influências, do comportamento às vestimentas. A música servia como um 7 Mulheres famosas, geralmente atrizes, cantoras ou modelos, que são exemplo de beleza e elegância e servem de inspiração para diversas pessoas. 8 Casas, Ateliers e/ou Lojas dos grandes costureiros e das grandes marcas. 54 aglutinador de jovens que seguiam o mesmo estilo. Assim foram criando-se vários estilos jovens, as “tribos” como foram denominados alguns anos mais tarde. O conceito das “tribos” é o de usar a moda para sinalizar que se pertence a um grupo, demarcando seu território. É a partir daí que a moda das ruas passa a influenciar os estilistas, cumprindo o caminho inverso: das calçadas para as passarelas. (PALOMINO, 2003, p. 44). Com essa nova situação, da moda de rua influenciar as passarelas, (efeito chamado de bubble up, ou borbulhamento, influências de moda vindo de baixo para cima na pirâmide) acontece o declínio da Alta-Costura, o número de maisons diminuiu consideravelmente, e somente as mais fortes, e algumas que resolveram aderir ao prêt-à-porter, continuaram no mercado. De 1960 até 1970, com a montagem do sistema industrial, houve a possibilidade de transportar as mudanças mais rapidamente para todos os nichos da moda. A transformação da moda na Europa foi radical. Segundo Baudot (2008), “A partir daí, nada mais de tendência unívoca, nem de uma moda única, mas um mosaico de proposições.” (p.186). Surgiram as butiques, que eram novos conceitos de lojas, com um espírito jovem e sofisticado da moda de vanguarda. E o estilista também virou criador, trazendo seu estilo pessoal para suas coleções, dando origem ao criador de moda. Muitas revoluções acontecem: as televisões começam a chegar às casas, há um crescimento econômico, surge a mini-saia, a pílula anticoncepcional, acontece a revolução estudantil, movimento feminista, e surge a antimoda: “Antigamente, não seguir a linha dominante da moda indicava que se era pobre. A partir dos anos 60, isso significa muito claramente que se é livre.” (BAUDOT, 2008, p. 188). Na década de 80 surgiu a moda contemporânea, e a moda de rua, trazendo a inversão da pirâmide, no já comentado efeito borbulhamento, onde as informações são buscadas na rua, e aplicadas nas altas modas, que depois vão descendo a pirâmide novamente, até a própria rua consumir o produto que ela inspirou. A moda estava na moda. Shopping era esporte, e moda competição. A velocidade de produção de novas tendências é diretamente proporcional a velocidade de sua difusão. Nessa época, existiam alguns vetores de moda, que indicavam tendências: 55 - Prêt-à-porter, seus criadores e marcas; - Alta-Costura: laboratório de novas idéias, sem compromisso com o mercado; - Indústria: com o peso maior nos fabricantes de corantes, fibras, fios e tecidos; - Capitais da Moda: Paris, Milão, Nova York, Londres, Tóquio; - Satélites de Moda: Salões profissionais, birôs de estilo e mídia; - Distribuição: Desde grandes magazines até o surgimento de novos conceitos de lojas, butiques; - Subculturas jovens e os movimentos da rua; - Elite Social: Artistas e novos ricos, que se dão em espetáculo nas páginas de revista, na “era das celebridades”; - O próprio indivíduo. De 1990 até hoje, as tendências vêm de todos os locais e acontecimentos, baseadas no âmbito social e cultural do momento. O indivíduo volta a ser importante para a prescrição de moda, como no período antes de 1857. Caldas diz: “A força do indivíduo na cultura contemporânea pode ser medida pela expressão inglesa trendsetter (aquele que aponta tendências)”. (2006, p. 60). As tendências hoje podem surgir de qualquer lugar, que esteja em evidência e tenha determinada importância no mundo contemporâneo: um festival de cinema, uma novela das oito, uma exposição de arte em um grande museu, um blog muito visitado, entre outros. Eduardo Motta, em seu artigo chamado Morte das Tendências analisa as tendências de hoje de determinada forma: Se as tendências formuladas no passado davam prioridade à técnica, à forma e ao material como informação estratégica e tratavam os sentidos abstratos como elementos adicionais, hoje, a situação foi invertida. São as questões que rondam a vida contemporânea – ecologia, convivência, subjetividade, etc – agrupados sob o termo “comportamento”, que oferecem o caldo básico da pesquisa. (MOTTA, 2008. p. 36). 56 4.2 De onde vêm as tendências? A resposta para essa pergunta, nos dias de hoje, não leva a nenhum lugar exato, porque leva a todos os lugares: quase tudo hoje em dia, pode se tornar um princípio de tendência. Um fenômeno social muito utilizado como ferramenta para difusão e antecipação de tendências é o espírito do tempo. Historicamente, o conceito de espírito do tempo surgiu na Alemanha, chamado de Zeitgeist. Era usado para expressar o entendimento de opiniões válidas num determinado tempo, gosto ou desejo. Hoje em dia, essa palavra adquire dois sentidos: coloquialmente, expressa o contemporâneo, o que é considerado “moderno”; e no uso culto, identifica o clima geral, intelectual, moral e cultural, predominante em uma determinada época. É assim que conseguimos identificar claramente a personalidade e o estilo de cada época. Muitos filósofos discutem sobre isso, alguns são a favor, outros contra. De qualquer forma, parece haver alguma coisa na idéia de Zeitgeist (espírito de época), ou pelo menos, na de contágio mental. Pensamos que estamos enveredando bravamente por um caminho sem precedentes, e de repente, olhamos em volta e descobrimos que estão no mesmo rumo toda sorte de pessoas de quem nunca sequer ouvíramos falar. (GEERTZ, 2001 apud CALDAS, 2006, p. 73). Olhando para trás, conseguimos ver claramente o espírito do tempo de cada época, em diversas manifestações. Como por exemplo, na arquitetura, do design de objetos e nas roupas. Outro exemplo: Na belle époque, as mulheres utilizavam espartilho, que transformava a silhueta em S, manifestando a sinuosidade que a arquitetura tinha nas estruturas de ferros retorcidos, e que os objetos art nouveau também expressavam. Ou o clima futurista dos anos 60 que foi expresso nas roupas de Pacco Rabbane, Pierre Cardin, André Courréges, nas poltronas e objetos de plástico, considerados os mais modernos, e na arquitetura de Brasília. A repetição de interpretações, inspirações, formas, cores, é que acaba formando o espírito do tempo. Caldas (2006) afirma: “Só há tendência quando há redundância” (p. 118) Formando assim, o que a semiótica chama de Gestalt, que Gomes Filho (2000) em seus estudos sobre percepção define: 57 Não vemos partes isoladas, mas relações. Isto é, uma parte na dependência de outra parte. Para nossa percepção, que é resultado de uma sensação global, as partes são inseparáveis do todo e são outra coisa que não elas mesmas, fora desse todo. (p. 19). Nos anos 80 e 90, a moda assumiu um papel central na vida das pessoas. Por isso que nos anos 90, a moda se tornou o principal pólo emissor de tendências, para os outros setores industriais, que priorizam a estética. Existem vetores que são forças que indicam tendências. Cada época tem sua gama de vetores, cada um com sua devida importância. Nas décadas passadas, esses vetores eram mais sólidos e nítidos, como por exemplo, nos anos 20, o design e a arquitetura. E um pouco tempo depois o automóvel, formando o grupo casa-objeto-roupa-carro, que são principais definidores do espírito do tempo de cada época. Hoje os vetores são muitos, e a cada dia surgem novos. O avanço acelerado da tecnologia, computadores, celulares, e todas as novas necessidades que são lançadas a cada dia trazem a mesma sensação que a moda nos traz: que o que compramos hoje, já está velho amanhã. O tratamento que o ser humano dá ao seu próprio corpo, também é uma ótima indicação ao espírito do tempo. Por exemplo, em 1980, houve um boom de cirurgias plásticas, academias, roupas de ginásticas, pois as pessoas começaram a cultuar o corpo, esculpi-lo da forma desejada, e não mais modificá-lo com as vestes. Existem duas principais vertentes da relação que o ser humano tem com seu corpo. Aqueles que cultuam e consomem todos os tipos de alimentos lights, diets, fazem diversos exercícios físicos e intervenções cirúrgicas; e aqueles adeptos ao fast food, comida rápida e de baixa qualidade, geralmente muito calórica, transformando muitos em pessoas obesas. Sendo em qualquer uma das vertentes, a alimentação é uma parte de cada vez mais importância. A culinária diversificada começou a ser muito valorizada, novos sabores, temperos. A visita a restaurantes virou rotina, a culinária experimental, para os amigos, para a família se tornou de grande importância, enfim, a culinária se tornou a nova moda. Os chefs alcançam status de verdadeiras estrelas, como os criadores de moda: as colunas sociais citam tanto o nome do estilista e do hair-stylist 58 oficiais da primeira-dama quanto o do chef encarregado dos cardápios do palácio. (CALDAS, 2006, p. 86). Todas as mudanças de comportamento do consumidor devem ser percebidas e analisadas. Pois a forma como ele enxerga a vida, o mundo, e o que ele consome podem mudar gradativamente, baseados em influências, ou em situações ambientais, acontecimentos mundiais, ou até em notícias de jornais. Essas mudanças alteram pouco a pouco o espírito do tempo da época, e as necessidades de consumo vão sendo alteradas, eliminadas e na maioria das vezes acrescentadas. As tendências de mercado são muito importantes para as empresas evitarem erros em produtos, prevendo e seguindo o que o consumidor vai precisar daqui a 2, 6, 12 ou 24 meses à frente. Os principais vetores que podem indicar mudanças e tendências para a moda são os vetores do lado sociocultural, como por exemplo: o cinema, as exposições de arte, os cd’s recém lançados, as celebridades, as novelas, o design, a arquitetura, a tecnologia, a internet e também a economia. Correntes socioculturais e a evolução dos valores, que desenham o “espírito do tempo”, são detectáveis, apreensíveis (às vezes nos estágios iniciais de sua formação) e por isso, “antecipáveis”, por meio dos sinais emitidos pelas diversas esferas da cultura. (CALDAS, 2006, p. 92). 4.3 Classificações para as tendências: Seguindo a metodologia de Dário Caldas, há várias classificações para as tendências. Segundo seu ciclo de vida, há tendências de fundo: que influenciam as pessoas por bastante tempo, e as tendências de ciclo curto, que são os fenômenos passageiros da moda. Toda tendência provoca o surgimento de uma contratendência. É o mesmo princípio de quando houve a antimoda nos anos 70. Como por exemplo, o movimento punk, que foi uma dessas antimodas, que representava a revolta de jovens que não conseguiam se colocar no mercado de trabalho. É fato que a grande força empregadora de mão-de-obra jovem da Londres de então, consistia na indústria de confecções. A resposta dos jovens que não conseguiam ingressar nessa indústria era mais ou menos esta: “Se eu não tenho futuro nesta indústria então esta indústria também não tem futuro comigo.” Pensando assim, passavam a usar roupas destruídas e sujas, em postura de desprezo à indústria da moda. Todavia, essa antimoda acaba gerando um novo padrão visual, capaz de ser adaptado e 59 adotado por outros grupos que não os punks originais, e até mesmo, insipirando criadores de moda. (TREPTOW, 2007, p. 30). Dessa relação entre tendência e contratendência, surgem duas regras para se observar: A Diacronia e a Sincronia. Diacronia: é a alternância entre os opostos por determinado tempo. É como se hoje a tendência fosse o colorido, e amanhã o preto e branco, se hoje o shape9 fosse volumoso, amanhã seria reto. Hoje saltos finos, amanhã saltos grossos. Uma regra simples, que já foi considerada a verdade do sistema da moda, mas que hoje trás muitas complicações e muitas alterações nos entremeios. Mas é uma pequena mostra, de que na moda, tudo que se é consumido em exagero, em pouco tempo cessa, e se busca um produto diferente, muitas vezes oposto ao que se consumia há pouco tempo atrás. Isso lembra a regra de Paul Poiret, que Ernér (2005) resume como: “uma vez ultrapassados os limites, não há mais fronteiras.” (p. 162) Qualquer exagero em termos de moda, é o sinal de seu fim. Sincronia: Já essa regra, que surgiu no atual período pós-moderno, dificulta a existência da Diacronia, pois é a coexistência dos contrários. É a tendência e a contratendência em um equilíbrio dinâmico. Por exemplo: como estar em voga uma tendência tecno, mas ao mesmo tempo existir uma tendência ecológico-natural. Isso indica a realidade do ser humano atual, individual, com seus próprios interesses e vontades. A cada tendência que surgir, existirá um público certo a seguir, a gama de opções é tão grande, que não há mais como delimitar certo ou errado. As variações de uma mesma moda dividem o mesmo espaço de tempo, e talvez algum acontecimento faça com que uma variação fique mais em evidência, ou desapareça, dando espaço a mais uma novidade. Para se chegar a algum caminho, para talvez definir que determinado objeto é tendência, se é tendência de fundo, se é passageiro, deve-se primeiro observar os sinais, os vetores que podem indicar uma tendência por vir. E para que uma tendência exista, ela depende da crença naquilo que se quer fazer crer. Pode-se entender analisando o processo que: Tendência é a mensagem, que é emitida pelo 9 Shape é uma palavra inglesa que significa forma, formato. No caso citado se refere à forma da roupa, à silhueta construída pela vestimenta. 60 vetor de tendências, que tenta “fazer crer” e quem recebe a informação é o consumidor aquele que crê ou não na mensagem: TENDÊNCIA (mensagem) » VETOR DE TENDÊNCIA (pólo emisssor) » CONSUMIDOR (pólo receptor). Os vetores de tendência emitem seus sinais por meio da comunicação, que além de textos escritos e falados, são também imagens criadas pela publicidade, vitrines de moda, design dos objetos, entre outras coisas. Porém de informação, o mundo está cheio, o que realmente importa nessa hora é a seleção. De quem está falando, sobre o que, e para quem se dirige a mensagem. Essas três perguntas devem fornecer pistas para o entendimento dos sinais e do fenômeno da tendência como processo comunicativo. Um sinal que sempre deve ser considerado em relação à tendência é a repetição da mesma mensagem, em diversas formas, de diversas fontes, a redundância de Dário Caldas sempre comenta. É como nos anúncios publicitários, em que a insistência é tão grande, que acabamos por assimilar sem nenhum esforço. Guillaume Ernér (2005) chama as mensagens que podem vir a se tornar tendências de “Profecias auto-realizadoras”, que conforme o autor: “Para que um objeto se torne tendência, basta que uma pessoa habilitada assim o decrete”. (p. 165) E também ressalta que: “Obviamente o fenômeno da profecia auto-realizadora pode-se aplicar a qualquer objeto. O profeta importa mais que a mensagem” (p. 167). Quando se encontra várias mensagens, possíveis vetores de tendências, e há redundância, há repetição de informações válidas, deve-se começar a criar “pontes de sentido” Caldas (2006) afirma que: Para a semiologia, o fenômeno da produção de sentido é explicado pelo postulado de que as coisas só assumem significado quando em relação umas às outras: o alto só é percebido como tal porque existe o baixo, da mesma forma que o preto não possui o mesmo valor se contraposto ao branco ou ao marrom. (p. 119). Esses vetores de tendência devem ser buscados a todo tempo, em todo lugar no mínimo interessante. Por exemplo, ter uma exposição chamada Seduced: 61 Art and Sex from Antiquity to Now, (Outubro de 2007 a Janeiro de 2008) no Barbican Art Gallery em Londres. Exposição que trata do sexo na Arte desde a antiguidade é um fator influenciável na sociedade. Poucos meses depois, se vê na revista Super Interessante um infográfico sobre monumentos e museus relacionados a sexo. E nesse infográfico se encontra a informação de que está sendo construído um Parque em homenagem ao Sexo na China, o Love Sex. Com essas três informações já conseguimos reunir diversas mensagens, que de forma diferente tratam da mesma coisa, influenciam o público e os criadores de alguma forma. É uma tendência em potencial. Cada evento, individualizado faz pouco sentido, mas quando unimos os três, constrói-se uma significação maior, com possibilidades de criação em cima disso. Logo se constata a influência desse tema nas coleções de Verão 2009 dos grandes estilistas do Eixo – Paris – Londres – Milão e Nova York. As tendências de fundo são mais profundas, baseadas nos valores da sociedade, são as informações que nos indicam o espírito do tempo. Perduram mais do que apenas uma estação, podem durar alguns anos. O interesse pelos anos 80 nos dias de hoje é um exemplo, que está acontecendo desde 2004, 2005, com lançamentos de livros sobre o assunto, revivals10 de filmes da época, a volta de elementos da música da época nas bandas atuais, e a cada tempo que passa mais coisas vão surgindo, hoje já vemos penteados e maquiagens que lembram a época, coisas que menos de 10 anos atrás eram consideradas “cúmulo da feiúra”. O segredo nessa área é conseguir sentir os pequenos sinais de uma grande mudança de comportamento social, que acarretará com toda certeza, uma mudança significativa nas tendências de moda. E deve-se olhar sempre para os meios culturais para perceber algum sintoma de mudança, como por exemplo: festivais de cinema, exposições de arte, filmes que estão sendo ainda filmados, modos diferentes de consumo, bandas novas, estilistas novos, e a tecnologia, que hoje é uma aliada da moda. Outro fator importante são os grandes acontecimentos mundiais que causam abalos, a exemplo a crise econômica mundial, ou o aquecimento global. Ernér (2005) complementa: “Os filmes ocupam muito os espíritos no universo da moda, porque fazem parte do imaginário moderno”. (p. 141) 10 Volta ao passado. Inspirações, releituras e interpretações de épocas passadas. 62 Giampaolo Proni defende o uso da semiótica para pesquisa de moda: Na comunicação de massa, devemos usar instrumentos científicos e técnicos que nos permitam levantar os dados culturais a ser sintetizados: analisam-se os textos da cultura em questão (televisão, jornais, obras de arte, etc.), as conversas cotidianas e as opiniões (por meio de técnicas de focus groups, questionários, observação participante, etc.), os comportamentos, os produtos consumidos. Com base nesses dados, a semiótica permite traçar “mapas interpretativos” que, para os diferentes sujeitos coletivos, podem delinear a forma dos valores e da cultura, de modo a formular previsões sobre o significado de uma mensagem para aquele sujeito (2008, p. 166). As tendências de ciclo curto são mais fáceis de monitorar, mas difíceis de controlar, pois vão embora à mesma velocidade em que chegam. Como uma simples cor de batom, que está sendo usada pelas celebridades no tapete vermelho, ou a estampa de oncinha que apareceu em vários editoriais de moda, e que está por todas as lojas. Esse tipo de tendência atinge muitas pessoas e muito rápido, e se for difundida por meios de comunicação de massa, já assina seu fim. É como há dois anos, a tendência ao mundo oriental, voltado para a Índia e China, aparecendo em desfiles de alta-costura e prêt-à-porter de grandes marcas, e hoje estar na novela das oito11. Todas as lojas de menor categoria vendem produtos em “estilo oriental”. E o consumidor que é conhecedor da moda, já não consome mais esse tipo de produto, pois já ficou “over”12 , de tanto ter sido explorado em todos os cantos. Volta aí a tal Lei de Poiret, ao extrapolar os limites, acabou-se o interesse pelos produtos. Para encontrar tendências de ciclo curto, basta olhar as peças de mais sucesso dos últimos desfiles, ou as celebridades nas ruas ou em tapete vermelho. Ali estarão diversas micro-tendências que serão seguidas por milhares de pessoas no mundo todo, por alguns meses, e depois descartadas, substituídas por um novo “item do momento”. Ernér (2005) confirma: “Uma celebridade que adota um objeto, autoriza milhares de desconhecidos a imitá-la” (p. 173). As grandes marcas se aproveitam muito disso. E hoje virou um negócio a aparição de celebridades. Uma celebridade estar usando um vestido de uma 11 12 Novela “Caminho das Índias”, veiculada na Rede Globo a partir do início de 2009. Na moda, over significa algo que já passou, que está fora de moda, caindo em desuso. 63 grande marca em um Oscar, e ganhar algum prêmio, ou aparecer bastante por algum outro motivo pode acarretar aumento na venda da marca de mais de 30%13. 4.4 Estrutura do Mercado da Moda Conhecer e considerar a estrutura dos mercados da moda, para compreender melhor as tendências, é fundamental. Pois o mercado primário, secundário e terciário são profundamente interligados. É no mercado primário que os produtores das matérias alimentadoras do sistema da moda, por exemplo: as fibras, os corantes, as peles, os metais e os fabricantes de tecido atuam. E é nesse ponto que tudo começa. É a fonte inicial da definição das cores, e texturas que serão usadas nas próximas estações. Essas definições são feitas a partir de estudos aprofundados de pesquisa de aceitação de cores, texturas, novos materiais, feitos por especialistas em mercado. Essas empresas são gigantescas e poderosas, e têm um grande poder na mão, e podem muitas vezes, adequarem seus estoques com as tendências. Por exemplo: Uma fábrica de corantes tem muito azul-turquesa estocado, e nota que segundo suas pesquisas de mercado e de futuras tendências, a cor azul-turquesa pode se encaixar e a partir disso, lança-se toda uma história em torno dessa cor, fundamentada com as pesquisas de tendência e de comportamentos futuros, e a cor se torna carro-chefe de determinada estação. O mercado secundário compreende as fábricas dos vestuários, que são incontáveis pelo mundo todo. Existem diversos ramos e diversos tamanhos de fábricas. Cada uma com sua devida importância, regional, nacional e internacional, como as das grandes grifes e dos costureiros. Os estilistas e costureiros de renome são quem lançam as tendências no âmbito do vestuário para as empresas de menor porte. Ainda hoje, quem lança tendência, são as marcas que desfilam nos principais centros de criação de moda, que são: Paris, Milão, Londres e Nova York. O mundo inteiro fica ligado nas semanas de moda, e muitos esperam estas semanas acontecerem para depois criarem seus produtos. 13 Informação retirada do livro “Vítimas da Moda? Como a criamos, por que a seguimos”, de Guillaume Ernér. 64 O mercado terciário que é formado pelo conjunto de compradores e vendedores dos produtos de moda. Lojas Próprias, Multimarcas, Representantes de Marcas, entre outros profissionais dessa área. Todos esses mercados respeitam um calendário da moda, onde cada setor trabalha no prazo para que no final, as coleções sejam lançadas no tempo certo. Por exemplo: com dois anos de antecedência de uma determinada estação, são pensadas e determinadas as cores predominantes; um ano e meio de antecedência, é preciso considerar os fios e tecidos; um ano de antecedência, são criadas as formas, as peças da coleção e com seis meses de antecedência, as coleções são apresentadas e vendidas na loja. As Tendências de Moda se tornaram um negócio, uma informação valiosa, imprescindível, para privilegiados. A primeira agência especializada em tendências surgiu na França, em 1957. E até hoje existem muitas empresas que trabalham definindo e reunindo as determinadas tendências de cada estação, e vendem essas informações, através de cadernos de tendências, bureaux de estilo, sites de tendências, entre outras formas de divulgação. Jobim; Neves (2008. p. 236) definem: Cadernos de tendências designam vários materiais de informação, em suporte físico que nos permite obter informações em várias fases da concepção do produto de moda. As autoras supracitadas descrevem os tipos de cadernos de tendência: - Cadernos Conceituais: Abordam as idéias chave dos conceitos-base mais fundamentais recolhidos dos mais diversos indicadores de formação social, cultural, econômica, política, artes, etc. Ex: Cadernos Carlin, Cadernos Nelly Rody, Cadernos Promostyl; - Cadernos de Cor: Informa as novas gamas de cor propostas em cada estação em conformidade com os temas conceituais previamente lançados. Ex: Cadernos Cotton Incorporated, Pantone Preview, Catálogos Trevira; - Cadernos Têxteis: Informação de tendência conceitual e temática e em cada tema ou conceito são apresentados os pontos fortes de cor, materiais, construções, texturas, acabamentos e outras informações de performances têxteis, técnicas e estéticas. Ex: Cadernos Fisipe, Cadernos Mix; - Cadernos de Amostras: Composto por amostras de tecidos desenvolvidos especificamente para cada estação. Ex: Cadernos Albert&Roy, Cadernos Italtex; 65 - Cadernos de Moda: Completa de uma forma abrangente toda a informação existente nos outros cadernos, porém com a informação adicional das propostas das formas, silhuetas, e pormenores propostos para o vestuário. Ex: Cadernos da Anivec, Cadernos Infantimo, Caderno Bebissimo. Todos esses cadernos citados são internacionais, mas no Brasil existem vários tipos de cadernos, com esse tipo de informação, de diversas fontes. O Senac de São Paulo lança toda a estação um book de tendências parecidos com os os cadernos de moda, com temas, imagens fortes, painéis conceituais, cores, formas. Lançado juntamente ao evento Senac Moda Informação. Várias Consultoras de Moda também criam seus cadernos de Tendência, como por exemplo, a Renata Miranda. São informações bem esmiuçadas, bem detalhadas, praticamente deixando a coleção pré-pronta pro estilista. Por ser assim, esses cadernos já não fazem mais tanto sucesso, pois acaba “padronizando” coleções de diferentes marcas, seguindo para uma linha de pensamento só. Coleções parecidas por terem imagens textos referência iguais. Já as Feiras Profissionais, têm mais sucesso, pois além de lançarem novos produtos, também trazem informações de tendências para quem visita. Essas feiras geralmente são feitas com uma antecipação bem maior do que os cadernos, trazendo uma possibilidade de antecipação maior para o criador de moda. Existem várias feiras pelo mundo todo, alguns exemplos são: Expofil (Paris, França), Pitti Filati (Milão, Itália), Premiére Vision (Paris, França), Fenit (São Paulo, Brasil), Bread and Butter (Berlim, Alemanha e Barcelona, Espanha). Principalmente as Feiras Internacionais são grandes lançadoras de tendências, tanto conceitual quanto de matéria-prima, pois as informações são lançadas muito tempo antes da estação. Como por exemplo, a Premiére Vision, que acontece duas vezes no ano lança, por exemplo, em Setembro de 2009, o Verão de 2012, já com o preview do Inverno 2012. Revistas de Moda também são informações imprescindíveis para criadores de Moda. Existem vários tipos, como as revistas de negócios, que trazem informações das principais feiras do mundo, e das principais empresas de matériaprima para a moda em geral. Jones (2005) ressalta: “Para os criadores de moda, as revistas de negócios são mais importantes do que o “verniz” das publicações gerais”. (p. 53). Revistas trimestrais, como Internacional Textiles, trazem matérias 66 sobre tecidos novos no mercado. Collezione, Modain, Fashiontrend, Textille View, Viewpoint e View Colour são revistas com produção em cores e muitas reportagens sobre prognósticos de moda e desenvolvimento de tecidos. As revistas de informação de moda, que o grande público tem mais acesso, como por exemplo: Vogue, Elle, Harper’s Bazaar, entre outras, trazem informações dos grandes desfiles, e principalmente, trazem editoriais que traduzem as tendências em imagem. Possibilitando até, se fazer uma leitura de imagem a partir de um editorial, e dali conseguir retirar informações para criar uma coleção inteira. 4.5 A Arte e as tendências Como vimos anteriormente, as tendências de moda surgem de diversas fontes, se fixam e são divulgadas e proliferadas por inúmeros profissionais e consumidores. E a principal fonte de tendência, é o cenário socio-cultural mundial, e regional. O segredo está em como descobrir os princípios, os sintomas de mudanças que acontecerão no futuro. Esse cenário é praticamente o definidor do espírito do tempo de cada época. Analisando o espírito do tempo de diversas décadas, principalmente as do século XX, nota-se a influência da arte na sociedade. A cada movimento artístico, mudava também o design da época, a arquitetura, a comunicação, a visão de mundo que o ser humano tinha, e junto com tudo isso, mudava também as roupas, acessórios, hábitos, a moda. Com o passar dos anos, consegue-se perceber que em determinadas épocas, a arte era mais influenciada pelo meio, em outras, o meio era mais influenciado pela arte. Enfim, a importância da arte na caracterização do espírito do tempo é incalculável. Consequentemente, para a definição e complementação das tendências, era e ainda é imprescindível. A moda se utiliza das tendências para a pesquisa de referências e inspirações para a criação de coleções, que se adequem à estação proposta, e à expectativa do cliente, minimizando erros, baseados nas pesquisas de mercado que as tendências de moda garantem. Inúmeras vezes, essas referências e 67 inspirações são justamente obras de arte, como pinturas, esculturas, instalações, músicas, poesias, ou até a obra inteira de determinado artista. A arte é uma ótima referência para criação e inspiração de uma coleção, pois é rica em significação, cor, forma, luz, sentimento, sensação, e história. A partir da leitura de uma obra de arte, pode se criar todo um universo de possibilidades criativas, desde cartela de cores, ideais de formas, e abordagens do ser humano, até texturas, temas, sons que podem dar a vazão a uma grande coleção de moda. Moura (2008) ressalta: “A arte, seus princípios e sua linguagem são importantes para a criação, seja em qual esfera ocorrer, moda, design, etc.” (p. 48). Esse é um dos motivos, entre outros, dessa relação tão próxima entre a moda e a arte, a riqueza de informações e referências para criação de inúmeros ramos da moda. Desde Paul Poiret se tem registro da utilização de arte como referência para criação de moda. Como confirma Cidreira (2005): Paul Poiret, por sua vez, costumava associar a moda à pintura avant garde, e o surgimento d’art nouveau vai contribuir para aproximar os dois domínios; o fauvismo também vai influenciar bastante o trabalho de Poiret, através de referências como Picasso e Matisse. (p. 79). Outra clássica inspiração foi Yves Saint Laurent, em 1965, que criou o tubinho inspirado em Piet Mondrian. Evidentemente que Laurent não apenas teve contato, mas estudo formalmente a obra de Mondrian para desenvolver este vestido, assim demonstrando total integração entre dois universos que lidam com a produção de cultura: a moda e a arte. (MOURA, 2008, p. 57). 68 Figura 39: Vestido Mondrian - Yves Saint Laurent, 1965. Elsa Schiaparelli foi muito influenciada pelo Surrealismo, pois atuava muito próxima dos participantes do movimento. Criou sapatos, bolsas e vestidos com referências surrealistas, como o Chapéu-sapato; Vestido Lagosta e Monkey Shoes. Figura 40: Monkey Shoes - Elsa Schiaparelli, 1938. Ao mesmo tempo em que Schiaparelli criava peças com inspirações surrealistas, Dali criava peças de vestir, obras de arte vestíveis, muito provavelmente influenciado pelo contato com a estilista. Esta reciprocidade entre arte e moda encoraja costureiros a propor modelos oriundos de uma tela, do mesmo modo que alguns artistas não hesitam em reproduzir poses observadas em gravuras de moda. Para os 69 dois campos, um mesmo objetivo se afirma: a procura do Belo. (CIDREIRA, 2005, p. 79). Figura 41: Broche "Eye of Time"- Salvador Dalí, 1948. Além da utilização de um movimento, ou de um artista como fonte de inspiração de coleções de moda, também pode-se tomar como referência um período histórico-artístico. Como fez Christian Lacroix, na coleção outono-inverno 2006/2007, que se utilizou do Renascimento Italiano como fonte de pesquisa. E ele inclusive fez o desfile dessa coleção na Galeria Rafael, do Museu Victoria and Albert, em Londres, onde contém um grande acervo das pinturas de Rafael, um mestre renascentista. O público podia ver ao mesmo tempo as obras, e as interpretações de Lacroix. A arte é a menina-dos-olhos, ou melhor, a grande cartada que permite à moda voltar a campo pela entrada privilegiada dos grandes museus e das grandes galerias de arte, e entrar no jogo da grande simulação comunicativa que é a publicidade, com uma chance a mais: o acesso à alta cultura artística. (GRANDI, 2008, p. 91). Outro ponto em que a moda se apropria da arte para criar novos trabalhos, é nos editoriais de revistas. São fotografias de moda, muitas vezes consideradas artísticas, que utilizam roupas das últimas coleções dos estilistas, e trazem a arte como referência. Existem muitos editoriais com inspiração no movimento Surrealista, ou em obras específicas de artistas, como Andy Warhol, ou até mesmo podemos perceber pequenas sutilezas, que somente com bastante conhecimento na arte, é que se descobrem os pontos de ligação. Um dos meios de pesquisa de tendências são justamente esses editoriais das principais revistas, como Vogue, Harper’s Bazaar, i-D, Elle, entre outras. Faz- 70 se a leitura da imagem, e a partir dali consegue-se retirar informações preciosas, como alguma referência artística, que permite o crescimento de uma pesquisa, ou pode-se retirar informação de combinação de cores, ou até de comportamento. Figura 42: Editorial de moda inspirado em Frida Kahlo Dujour Magazine – Março/Abril de 2009. 71 5. SAPATOS Um par de sapatos novos pode não curar um coração despedaçado ou aliviar uma enxaqueca, mas atenua os sintomas e afasta a tristeza. Holly Brubach 5.1 História do Sapato Os primeiros registros de uso de sapatos vêm da pré-história, em torno de 10.000 anos antes de Cristo. Como nossos pés, comparados com as patas de outros animais, são frágeis, foi-se desenvolvendo formas de protegê-los dos solos irregulares e das alterações do clima. Os humanos daquela época começaram a enrolar peles de animais em volta dos pés, formando um tipo de bota precária, amarrando com tendões de animais ou fibras vegetais, basicamente como proteção. Simples função. Já o primeiro calçado com sola que surgiu foi a sandália. Os egípcios, cerca de 3500 a.C., imprimiam suas pegadas na areia molhada, e a partir dali, moldavam uma sola com papiros trançados, e prendiam no pé com tiras de couro. Foram no Egito também, que os sapatos se tornaram ornamentos, e símbolos de beleza e status. As mulheres adornavam suas sandálias com pedras preciosas e jóias, como também as imperatrizes romanas, que tinham até sandálias com solas de ouro fundido, com tiras incrustadas de pedras raras. Figura 43: Sandálias de trabalhador egípcio, 2000 a.C. Em todas as civilizações, foram se criando variações de sandálias: os japoneses usavam zoris, que eram sandálias entrelaçadas; os persas e os indianos 72 esculpiam as suas em madeira; os africanos faziam modelos de couro, de enfiar no pé, coloridas; os eslavos fizeram de feltro; os espanhóis de corda. Entre outros diversos materiais e técnicas que foram se descobrindo e aplicando nas construções de novos sapatos. A maioria dos sapatos revela sempre algo acerca do estatuto social de quem os usa, mas as sandálias têm sido, alternadamente, símbolos de prestígio ou pobreza, castidade ou coqueteria. O pobres e humildes da Idade Média usavam sandálias simples de madeira; os sacerdotes medievais e os frades fransciscanos calçavam-nas como sinal de despojamento e desprezo pelas coisas mundanas.(O’KEEFFE, 1996. p. 23-24). Com o tempo, os sapatos se tornaram símbolos de sensualidade, fetiche e status social. Começou a ser considerado como um acessório, e a importância maior era dada à estética do que à função do produto. Principalmente se tratando de mulheres. Na Roma antiga, o calçado indicava a posição social do indivíduo: cônsules usavam sapatos brancos e os senadores sapatos marrons, presos por quatro fitas pretas de couro. Mulheres calçavam sapatos brancos, vermelhos, verdes ou amarelos. E os calçados das legiões eram as botas de cano curto. Quando as legiões saíam pela Europa inteira, com seus calçados de couro, e entravam em combates, eram retirados pedaços das peles dos rostos dos inimigos que tinham sido derrotados, e essas peles eram acrescentadas em seus calçados, dando a possibilidade de eles literalmente pisarem nas cabeças de seus inimigos. Os soldados vitoriosos, quando voltavam da Guerra, substituíam os adornos de seus sapatos que eram de bronze, para prata ou ouro. Já na Idade Média, os ensinamentos cristãos pregavam a não exposição dos corpos, diferentemente dos povos mais antigos como os romanos, gregos e egípcios, que exibiam e exaltavam constantemente o corpo humano. Praticamente todas as partes do corpo deviam ser cobertas, inclusive os pés. Não mais eram usadas sandálias, e sim botas altas e baixas, e sapatilhas. A maioria dos calçados dessa época eram feitos de couro bovino, porém os de maior qualidade eram feitos de couro de cabra. Nessa mesma época, foi instaurada a numeração dos calçados, de origem inglesa, por volta de 1305. A medida era feita por grãos de cevada, colocados lado 73 a lado. Um sapato infantil, por exemplo, media treze grãos de cevada, passando a ser conhecido como tamanho 13. Também na Inglaterra, se tem o registro da primeira produção de sapatos em série do mundo. Em 1642, Thomas Pendleton fez quatro mil pares de sapatos e seis mil pares de botas para o exército. Já a história dos saltos é um pouco nebulosa. Os açougueiros egípcios, por exemplo, usavam saltos para manterem seus pés acima da carne e os cavaleiros mongóis tinham saltos nas botas para melhor se segurarem aos estribos. Mas o primeiro registro de saltos altos apenas por vaidade foi na data de 1533, quando Catarina de Médicis, que era pequena, e mandou fazer vários sapatos com saltos, para o seu casamento com o duque de Orleães em Paris. A invenção do salto, portanto, é atribuída a ela. A novidade se espalhou rapidamente pela cidade, e posteriormente para todos os outros países. Esses sapatos altos eram chamados de chapins, e na Veneza do século XVI, esses sapatos colocavam os pés femininos a alturas absurdas de até 70 cm, pois a altura determinava a posição social de quem usava. As senhoras que usavam chapins com grandes alturas chegavam a precisar de dois criados para carregá-las, por ficarem impossibilitadas de caminhar. [...] o chapim veneziano tornou-se um importante símbolo de posição social elevada e de grande riqueza. Era preciso dois criados para amparar as utilizadoras de tão ridículos e pouco práticos sapatos, mas eram com orgulho que elas os usavam – apesar do riso trocista dos turistas que acorriam a Veneza para ver estas estátuas vivas nos seus altíssimos pedestais. (O’KEEFFE, 1996. p. 348-349). Figura 44: Chapim Veneziano, de 1600. Figura 45: Chapim com 45 cm de altura, Veneza, final do século XV. 74 Dois séculos depois, descobriu-se que baixando a sola à frente, ficava mais fácil de andar com sapatos altos. Assim nasceu o salto como conhecemos agora. E para indicar a posição social elevada, era pintado de vermelho. Algumas mulheres que usavam saltos muito altos, e não conseguiam se equilibrar e andar muito bem neles, usavam bengala para ajudar como um terceiro apoio. Com a chegada da revolução industrial, no início do século XVIII, as máquinas começaram a produzir calçados em larga escala. Nas décadas de 1880 e 1890, as damas decentes deviam usar sapatos na cor escura. E até o ano de 1822, os dois pés do sapato eram iguais, e neste ano, sapateiros norte-americanos criaram o sapato torto, que se moldava no formato de cada pé, direito e esquerdo, deixando os calçados muito mais confortáveis. Figura 46: Sapato Inglês, de 1890. Em meados de 1900, os sapatos deixaram de ser fabricados por simples artesãos, e surgiu uma nova categoria na moda: o bottier, ou sapateiro, que podemos chamar também de designer de sapatos. Conhecido como o primeiro dos designers de sapatos das “celebridades”, André Perugia se revelou um prodígio. Com dezesseis anos de idade, abriu uma 75 sapataria, e seu nome ficou famoso, pelas novas formas de sapatos que ele inventava. Francês, tinha sua sapataria em Nice, e teve a oportunidade de expor suas peças numa vitrine do saguão de um hotel. Paul Poiret, que passou por lá, encantou-se. Convidou Perugia para ir com ele para Paris, para criar sapatos para as suas coleções. André foi, e abriu sua primeira butique, na Rue du FaubourgSaint-Honoré, em Paris. Entre as suas clientes contavam-se estrelas das Folies Bergères e atrizes de cinema que pretendiam sapatos capazes de reproduzir o esplendor dos palcos. Perugia não as desapontou. Transformou o turbante que era a imagem de marca de Josephine Baker numa sandália de pelica acolchoada e desenhou sapatos de salto alto de renda negra para a sereia dos ecrãs, Gloria Swanson. (O’KEEFFE, 1996. p. 48) Figura 47: Sandália “Turbante” André Perugia, 1928. Figura 48: Sandália “Máscara” André Perugia, 1929. Outro importante bottier foi Roger Vivier, também francês. É considerado o Fabergé14 do calçado. Abriu sua primeira butique em 1937, na Rue Royale em Paris. Em toda sua trajetória de trabalho, criou diversos tipos de saltos, aos quais nomeáva-os com os nomes das formas que pareciam: vírgula, rolo, bola, agulha, pirâmide ou caracol. Vivier dizia: “Os meus sapatos são esculturas. São tipicamente franceses, uma alquimia parisiense de moda”. (O’KEEFFE, 1996. p. 48). 14 Fabergé vem dos “Ovos Fabergé”, que são obras-primas da joalheria. Os ovos, cuidadosamente elaborados com uma combinação de esmalte, metais e pedras preciosas, escondiam surpresas e miniaturas encomendados e oferecidos na Páscoa entre os membros da família imperial. Disputados por colecionadores em todo o mundo, os famosos ovos de páscoa criados pelo joalheiro russo são admirados pela perfeição e considerados expoentes da arte joalheira. 76 Fez sociedade com a maison Dior a partir de 1953, atingindo seu apogeu de elegância. Também participou de diversos desfiles como de Pierre Balmain, Guy Laroche, Nina Ricci e Yves Saint Laurent. Baudot (2008) ressalta: O lugar excepcional que o talento de Roger Vivier conferiu ao sapato de luxo faz desse grande artesão uma das estrelas da moda do século XX. (p. 152). Figura 49:Salto a “vírgula” Roger Vivier. Figura 50: Salto “choc” Roger Vivier. Figura 51: Salto“agulha” Roger Vivier. Na Itália, um dos mais importantes designers de calçados foi Salvatore Ferragamo. Fez seu primeiro sapato aos nove anos de idade. Seus pais não tinham dinheiro para comprar sapatos para suas irmãs fazerem sua primeira comunhão, então ele pediu materiais emprestados a um sapateiro, e produziu ele mesmo os sapatos. Com 14 anos, abriu uma loja na casa de seus pais, na pequena aldeia de Bonito. Já aos dezesseis, foi para os Estados Unidos em Hollywood, para criar sapatos para as celebridades. Adorava criar lindos sapatos, mas não entendia por que eles machucavam os pés de quem os usava. Estudou anatomia na Universidade da Califórnia do Sul, onde aprendeu sobre os pontos onde o peso do corpo exercia sobre o pé. Com diversas experiências, aperfeiçoou os desenhos dos seus sapatos, adicionando pontos para deixar eles mais confortáveis. O’Keeffe (1996) ressalta: “Pela primeira vez na história, os sapatos femininos conseguiam ser, ao mesmo tempo, elegantes e confortáveis.” (p. 376). Foi ele quem criou também a primeira palmilha compensada. Voltou para a Itália em 1927, e montou sua indústria em Florença, que era admirada por seu apuramento técnico e grande qualidade, segredos que 77 permitiram seu nome entrar no mundo da moda, e também a transformar a etiqueta “Made in Italy” sinônimo de qualidade e prestígio. Figura 52: Sapato de cocktail de veludo com decoração dourada Salvatore Ferragamo, 1955. O sapato, principalmente o feminino, se tornou símbolo de sensualidade, criatividade, ousadia e estilo da mulher. É um dos únicos componentes do guardaroupa feminino que não decepcionam suas donas. Sempre ficam bem. Os pés não engordam nem emagrecem. Sara Vass (apud O’Keeffe, 1996) diz: “Podemos não conseguir vestir as nossas calças favoritas se engordarmos alguns quilos, mas podemos calçar sempre os sapatos de que mais gostamos.” (p. 14). E o conforto, fica sempre em segundo plano. Os sapatos práticos impõem respeito, mas os saltos altos incitam à adoração. Na criação de sapatos, também se vê a influência da arte. Muitos sapatos foram criados como únicos, elevando até o sapato ao estatuto de obra de arte. Por exemplo, o sapato com a criação inspirada no Cubismo, e chamado de “Homenagem a Picasso” de André Perugia. Figura 53: “Homenagem a Picasso” - André Perugia, 1950. 78 Outro exemplo interessante também é uma criação de Perugia, que fez uma homenagem ao cubista Georges Braque. Figura 54: “Homenagem a Georges Braque” - André Perugia, 1931. A criatividade dos designers de sapato durante todo o passado, principalmente os do século XX, deixaram muitas referências para as criações de hoje, porém praticamente criaram tudo que se podia criar para adornar e estruturar os belos pares. Desde tipos de salto, formas de biqueira, decotes, entre outras partes estruturais do sapato. Hoje em dia, existem diversos designers de sapatos. E os mais originais e lançadores de tendência são Christian Louboutin, Manolo Blahnik, Marc Jacobs, Jimmy Choo entre infinitos outros. Figura 55: Peep-Toe de Christian Louboutin Verão 2010. Figura 56: Sandália Marc Jacobs Verão 2010. 79 5.2 A confecção de um Sapato Pode-se envolver mais de 100 operações para a construção de um sapato. Porém a primeira coisa a ser feita, e a mais importante é a fôrma do sapato, que é uma réplica do pé humano, feita em madeira ou plástico. Ela determina a curvatura que o sapato terá, e também a distribuição do peso do corpo sobre o pé. Para cada modelo, deve-se fazer um tipo de fôrma diferente, pois deve ser definido o formato da biqueira, a altura do salto, a altura da parte da frente, entre outros diversos componentes do sapato. Para entendermos melhor o sapato, a ilustração mostra as partes componentes mais importantes: Figura 57: Componentes do Sapato. Com a fôrma pronta, dependendo de como for o sapato, deve-se estudar o tamanho do decote, o tamanho do salto, a curva do enfranque, entre outras diversas considerações, para que o sapato tenha um acabamento perfeito, com qualidade estética e ergonômica. 5.2 Tipos de Sapatos Existem diversos tipos de sapatos, analisando quanto ao seu estilo, ao seu solado, e ao seu salto. 80 Alguns exemplos interessantes, quanto ao seu estilo são: - O sapato estilo boneca: Figura 58: Sapato boneca - Chanel, Verão 2009. - Sapato Chanel Figura 59: Sapato chanel – Manolo Blahnik, Verão 2010. - Sapato de amarrar Figura 60: Sapato de Amarrar - Burberry, Verão 2010. 81 - Sapato D’Orsay Figura 61: Sapato D’Orsay - Christian Louboutin, Verão 2010. - Gáspea e Talão Figura 62: Sapato Gáspea e Talão – Alexandra Neel, Verão 2010. - Peep Toe Figura 63: Sapato Peep-Toe – Miu Miu, Verão 2010. - Rasteira Figura 64: Rasteira - Dries Van Noten, Verão 2010. 82 - Salomé Figura 65: Sapato Salomé - Christian Louboutin, Verão 2010. - Sandálias Figura 66: Sandália – Pierre Hardy, Verão 2010. - Sapatilhas Figura 67: Sapatilha – Miu Miu, Verão 2009. 83 - Scarpin Figura 68: Sapato Scarpin – Manolo Blahnik, Verão 2010. - Mule Figura 69: Sapato Mule – Manolo Blahnik, Verão 2010. Quanto aos seus solados, podem ser chamados de: - Plataforma Figura 70: Sandália Plataforma – Brian Atwood, Verão 2010. 84 - Meia-Pata Figura 71: Sandália Meia-Pata – Marni, Verão 2010. - Rasteiros Figura 72: Sandália Rasteira – Christian Louboutin, Verão 2010. E alguns estilos de saltos são chamados: - Agulha Figura 73: Sapato de salto-agulha – Nina Ricci, Verão 2009. 85 - Anabela Figura 74: Sapato de salto anabela – Christian Louboutin, Verão 2010. - Cone Figura 75: Sapato de salto cone – Lanvin, Verão 2010. - Estaca Figura 76: Sapato de salto estaca – Mulberry, Verão 2010. - Triangulares Figura 77: Sapato de salto triangular – Balenciaga, Verão 2010. 86 6. BOLSAS 6.1 História das Bolsas As bolsas surgiram da necessidade do homem e da mulher carregar objetos. Porém não se tem registro na história da primeira bolsa que existiu. Mas sabe-se que é muito antigo, pois até as tribos indígenas bem antigas usavam um tipo de cabaça, para carregar sementes. Na Idade Média, as bolsas eram utilizadas para carregar uma série de objetos indispensáveis. As bolsas masculinas eram maiores que as femininas, e eram geralmente feitas de couro, com o objetivo de carregar documentos e papéis importantes. Já as femininas tinham o objetivo de armazenar rendas e materiais de costura. E eram confeccionadas em couro, pele e tecido, decoradas com borlas, sinos, franjas e intrincados bordados em fios de ouro e prata. Nessa época, raramente se encontrava dinheiro nas bolsas. Porém muitas bolsas eram montadas em armações de prata, bronze, aço ou ferro, e possuíam gravações rebuscadas. Algumas bolsas chegavam a ser mais caras do que o ouro da época. Essas bolsas geralmente eram presas ao cinto masculino, diminuindo a possibilidade de roubo. Existiam também pochetes, que eram pequenas e chatas, e presas bem rentes a cintura. Outro formato eram os sacos, que eram maiores e suspensos por longos cordões, chegando até abaixo dos joelhos. No século XV, uma cidade francesa, chamada Caen, ficou famosa pela alta qualidade dos sacos e pochetes que produzia. Muitas feitas em veludo, com ricas cores, com bordados elaborados e brasões. Durante o século XVI, aumentou tanto a procura por bolsas, que se desenvolveram diversas sociedades especializadas na confecção desse item por toda a Europa. Nessa época também surgiram os pockets, que eram tipos de bolsos criados especialmente para uso feminino. Eram sacos com fitas ou cordões, que eram amarrados sob as anáguas. No século XVII e nos seguintes, foram se adicionando diversos bolsos nas vestes masculinas, e nas femininas, os bolsos foram ficando maiores e mais profundos, pois desde aquela época, as mulheres já tinham o costume de 87 carregarem infinitas coisas em seus bolsos, como espelhos, sais de cheiro, leques, entre outras coisas. Os bolsos eram considerados tão importantes que faziam parte do testamento dos seus respectivos donos, à parentes e amigos. Figura 78: Pockets, 1750 e 1760. Para carregar dinheiro, foi criado um novo tipo de bolso, chamado pocketbook. Era usado por homens e mulheres, e era decorada com bordados e usava diferentes tipos de couro. Como esses bolsos começaram a ser utilizados para carregar infinitos objetos além do dinheiro, os volumes e saliências que ficavam aparentes atrapalhavam a silhueta feminina. No final do século XVIII, a silhueta feminina era marcada, e não havia mais espaço para bolsos. Então foi criado um novo modelo de bolsa: a retícula. Silva (2005) comenta: Ainda que muitas retículas fossem usadas presas na cintura, como as antigas bolsas medievais, de forma geral eram carregadas na mão, daí o termo atual de handbag ou bolsa de mão. A moda do século XIX ditava que as retículas deviam ser confeccionadas do mesmo material das roupas. (p. 52). Por volta de 1880, a princesa Alexandra, filha do rei da Dinamarca, tornou popular o uso de chatelaines. Eram pequenas e delicadas bolsas, criadas a partir de conceitos medievais, e eram utilizadas amarradas na cintura. Já que a silhueta feminina possuía cinturas minúsculas, os acessórios que chamavam atenção para essa região do corpo eram muito bem aceitos. 88 Figura 79: Bolsa Chatelaine, 1880. Ao final do século XIX, com a chegada da revolução industrial, os fabricantes produziam diversos tipos de sacolas, bolsas e carteiras, utilizando uma grande variedade de materiais, estilos e preços. As peles de animais eram as mais adoradas, como pele de bezerro, foca, leão-marinho, lagarto jacaré e crocodilo. Figura 80: Bolsa Alemã usada por vendedor, Sec XIX. No século XX, com a facilidade de locomoção pelos automóveis e a facilidade das viagens de trem, surgiram as bolsas de viagem. Feitas de couro, grandes, carregadas por alças. As bolsas se tornaram indispensáveis para as mulheres, e foram cada vez mais se tornando objetos de desejo. 89 Em 1929, Chanel cria uma bolsa para se usar a tiracolo. Em 1932 Louis Vuitton cria a bolsa “carteiro” inspirado mesmo na profissão. E ao longo de todo o século, até os dias de hoje, diversas técnicas e novos materiais vão sendo empregados nas bolsas, que hoje em dia existem de diversos tamanhos, desde minúsculas que mal cabem o dinheiro, à gigantes, as chamadas maxibolsas. Os formatos e os materiais são os mais variados, e são como os sapatos, grandes paixões femininas. 6.2 Tipos de Bolsas Existem diversos tipos de bolsas, de infinitos formatos e funções. Alguns tipos são: - Bolsa Baguete: Nome dado pelo formato, que se assemelha com as baguetes francesas que são carregadas embaixo do braço. Figura 81: Bolsa Baguete – Bottega Veneta, Inverno 2010. - Bolsa Envelope: Retangular, de vários tamanhos, com uma aba-fecho no mesmo formato de um envelope. Não possui alças. Figura 82: Bolsa Envelope – BCBG Max Azria, Inverno 2010. 90 - Bolsa Tiracolo: Com um formato semelhante ao de um saco, com alças, e são utilizadas presas ao ombro. Figura 83: Bolsa Tiracolo – Bottega Veneta, Inverno 2010. - Carteiras: Bolsa sem alças, de diversos tamanhos, podendo ser levada na mão, ou sob o braço. Figura 84: Carteira – Miu Miu, Verão 2010. - Duffle Bags: Saco cilíndrico e resistente, confeccionado em lona, originalmente usado por soldados para carregar seus equipamentos. Com vários ilhoses e um cordão por dentro deles, para fechar a abertura. Figura 85: Duffe Bag – Fatigues Army Navy & Surplus Gear Co. 91 - Frasqueira: Tipo de maleta, para se carregar utensílios de uso pessoal, como maquiagens e de higiene. Figura 86: Frasqueiras – Batiki. - Mala: Bolsa grande, para viagens longas ou curtas. Existem diversos modelos, de alças, rodinhas, com cantoneiras metálicas, para ser bem resistentes. Figura 87: Mala de Viagem – Chenson. -Pochette: Pequena bolsa de alça comprida amarrada na cintura, como um cinto. Figura 88: Pochete – Eastpak. 92 7. PRODUÇÃO ARTÍSTICA Costurando as Idéias Para criar uma coleção de moda, deve se partir de algum ponto, algum conceito, tema, imagem, algo que inspire à criação de produtos. Segundo Rech (2002 apud TREPTOW, 2007): “Coleção é um conjunto de produtos, com harmonia do ponto de vista estético ou comercial, cuja fabricação e entrega são previstas para determinadas épocas do ano” (p. 42). Decidi criar uma coleção de sapatos e bolsas. Comecei meu processo criativo escolhendo um artista: Henri Matisse. Pesquisei sobre sua vida, seu trabalho, sua trajetória artística, suas referências. A partir deste estudo fiz a escolha de três obras, que foram utilizadas como referência conceitual, imagética, e estrutural da minha coleção. 7.1 Henri Matisse [...] Tenho lá embaixo um maravilhoso jardim com muitas flores, que são para mim as melhores lições de composições de cores. As flores dão-me impressões de cores que permanecem marcadas de maneira indelével na minha retina como ferro em brasa. Assim quando me acho, um dia, com a paleta na mão, diante de uma composição e não sei senão de modo aproximado que cor utilizar em primeiro lugar, então essa lembrança pode surgir no meu foro íntimo e ajudar-me, dar-me um impulso. Matisse Henri Matisse, francês, começou sua vida artística aos 21 anos, por consequência de uma apendicite, que o fez ficar hospitalizado por algum tempo. Neste período de convalescência, Matisse ganhou de sua mãe um estojo de lápis de cor, com o qual começou a desenhar e pintar, e se apaixonou pelo mundo da arte. Matisse sempre admirou muito Cézanne, e utilizava-o como referência para seus trabalhos, assim como também se referenciava em Rodin, Van Gogh e Gauguin. Ele nunca escondeu que utilizava sempre, referências para criar suas obras, mesmo que fosse um pedaço de tecido. A fala de Matisse registrada na obra de Néret (2006, p. 15), já mostra: “Pela minha parte, jamais evitei a influência dos outros (...) Teria considerado isso como uma covardia e uma falta de sinceridade perante mim mesmo”. 93 Por volta de 1904, Matisse e alguns outros artistas seguiam pelo mesmo caminho em suas artes. Buscavam a cor de forma pura, a expressão por através delas. O grupo começou a ser chamado de fauves (“feras” em francês) por causa da utilização das cores fortes e intensas. Nasce ai o movimento denominado Fauvismo. A primeira exposição dos fauves aconteceu em 1905, no Salão de Outono, em Paris. Henri Matisse era considerado o “líder” dos fauvistas. O movimento foi curto, porém é considerado a base para todos os movimentos seguintes, de vanguarda do século XX. Henri Matisse e Pablo Picasso foram eternos rivais, amigos distantes, porém sempre presentes um na vida do outro. Não perdiam a chance de criticar um ao outro, e faziam questão de ressaltar os pontos negativos de cada um. Mas de qualquer forma, os dois foram muito importantes para o desenvolvimento de suas obras. Matisse foi quem apresentou a arte negra para Picasso, que retirou delas as máscaras africanas, que imperaram no Cubismo. Os dois tinham uma diferença primordial: Matisse era cor, e Picasso era forma. Matisse já dizia: “Eu sinto pela cor, é pois por meio dela que a minha tela será sempre organizada. Em todo caso, convém sempre que as sensações sejam condensadas e que os meios utilizados sejam levados ao máximo da expressão.” (NÉRET, 2006. p. 19) Henri tinha uma paixão por tapetes e tecidos, e sempre tinha pedaços trazidos de suas viagens para utilizar como referências para suas obras. A maior parte dos tecidos era do oriente, geralmente islâmicos. Matisse foi buscar à estética oriental até os mínimos pormenores: princípio da decoração contínua, superfícies guarnecidas integralmente e divididas em registros verticais e horizontais, combinações lineares ou viveiros de florzinhas, rosáceas, que ele emprega igualmente nas suas cerâmicas; ideias feitas sobre sobreposições dos objetos, das personagens, e dos efeitos de vista de cima para baixo; composição das formas essencialmente ornamental, tendência para o geometrismo e, por vezes, presença de entrelaçamentos vegetais (NÉRET, 2006. p. 69). O elemento decorativo que Matisse mais usava, geralmente inspirados nesses tecidos, era o arabesco. Em algumas obras se vê uma profusão de arabescos, decorando e se misturando com o personagem principal da obra. 94 Figura 89: “Natureza Morta, Camafeu Azul” – Matisse, 1909. Matisse foi considerado também um “pintor de janelas”, pois retratava em muitas de suas obras, janelas. Gostava do contraste de cores entre o ambiente interior e o exterior, que aparecia na janela. Uma das obras com janelas é A Mesa de Jantar Vermelha (1908), que era na verdade o quadro A Mesa de Jantar Azul, pois depois de pronto, Matisse trocou o Azul pelo vermelho, pois o contraste entre a paisagem da janela e o restante da tela não estava suficiente. Outra característica relevante foi a época em que Matisse fez vários estudos e obras de Mulheres observando peixes. Ele gostou da posição de que sua modelo ficou, enquanto descansava, e fez diversas obras com a modelo naquela postura, e muitas vezes ou com aquário com peixes ao lado dela, ou ela a observar o aquário. Um exemplo é a obra Mulher e Peixes Vermelhos, 1921. Figura 90: “Mulher e Peixes Vermelhos” – Matisse, 1921. 95 Com a chegada da Guerra, em 1914, se vê o impacto e a diferença nas obras de Matisse. Ele começa a utilizar a cor negra, e vai caminhando em direção ao abstracionismo. A obra mais chocante, e intrigante dessa época foi a PortaJanela em Collioure (1914). Figura 91: “Porta-Janela em Collioure” – Matisse, 1914. Diferentemente de todas as outras janelas que Matisse pintava que, abriam para um exterior luminoso, essa porta-janela se abre para um espaço tenebroso, que nossas mentes podem percorrer e imaginar o que pode ser visto por ali, no cenário em que se vivia na época da 1ªGuerra Mundial. A abstração nas suas obras foi seguindo por alguns anos, até que após a guerra, Matisse foi passar um tempo na cidade de Nice, umas longas férias, e lá, foi como um período de repouso em sua arte. Ele não se preocupava em quebrar paradigmas, trazer o novo e impactante para suas obras, ele simplesmente pintava para descansar, e inclusive foi muito criticado nessa época. Outro ponto marcante na obra de Matisse foi quando ele começou a pintar odaliscas, em fundos com vários arabescos, e objetos marroquinos. Ele se interessava pela dança. Tanto das odaliscas quanto das bailarinas. E com o interesse em dança, foi que começou a criar as suas obras com recortes de papel pintado com guache. Matisse, por toda a sua trajetória de arte, 96 sempre buscou a síntese em suas obras, e chegou ao auge com sua técnica de guaches recortados. Por motivo de doença, novamente, foi que Matisse teve que fazer essa mudança em suas obras. Passou por um bom tempo sem poder sair da cama, e desenhava deitado no teto e nas paredes, e também recortava os guaches prépintados com as cores desejadas. Matisse dizia que recortava diretamente na cor, e que isso lhe lembrava o golpe que os escultores faziam. Analisando suas obras em recorte, nota-se formas semelhantes, que se repetem em várias colagens, como por exemplo: estrelas de pontas múltiplas, folhas, algas de recortes profundos e formas geométricas. Uma de suas últimas obras foi a Tristeza do Rei (1952), que representa um sereno adeus de Matisse, pouco tempo antes de sua morte, em 1954. Néret (2006) comenta: Este quadro é o derradeiro grande esforço pictórico de Matisse realizado com papéis recortados e colados. É a derradeira saudação do artista – o artista representado pelo rei vestido de preto, com a guitarra na mão – ao mundo que o rodeia, aos temas que lhe são queridos. Matisse reuniu-os todos, até a bailarina, em volta de si, como para se fazer enterrar com eles, tal como um faraó do antigo Egito. (p. 239). Figura 92: “Tristeza do Rei” – Matisse, 1952. 97 7.2 Processo de criação 7.2.1 Problema O problema em questão seria: A criação de uma obra final. O que criar no âmbito da moda e da arte para expressar as características utilizadas em tendências de moda? A definição foi a criação de uma coleção de acessórios de moda, mais especificamente: sapatos e bolsas, pela liberdade de criação tanto em formas quanto em cores e materiais. O segundo problema seria: Qual o tema a ser utilizado para a criação dessa coleção? Foi definida a utilização de três obras do artista Henri Matisse, considerando sua trajetória de vida e seu contexto social. 7.2.2 Coleta de Dados Considerando a trajetória de Matisse. Selecionei alguns pontos que me tocaram mais, e que me abriram mais portas para a criação de produtos. Entre eles são: O título de Henri ser um “pintor de janelas”; a utilização de arabescos retirados de tecidos decorativos; a intensidade das cores, que como ele mesmo diz que nas suas obras a cor é mais importante, muitas vezes, do que a forma; a inserção do preto, na época a partir de 1914, com a 1ª guerra mundial, e o impacto que essa crise teve na sua produção; e também a técnica que começou a utilizar, de recortes de papel pintados com guache, utilizando a tesoura como “pincel”. Outro dado significativo para minha criação, foi a pesquisa de diversos sapatos e bolsas já existentes, inclusive nos últimos desfiles prêt-à-porter das capitais da moda (Paris, Milão, Londres e Nova York). 7.2.3 Obras referência Dentre os pontos coletados, foram retiradas três obras que serviram como referência de criação. E também palavras-chave: Cor, Absurdo, Inquietação, Compulsivo, Tecidos, Barroco, Arte Negra, Arabescos, Flores, Tapeçarias, Arte Islâmica, Peixes, Simplificação, Recortes, Azul e Verde. 98 Em cada obra selecionada, foi feita uma leitura de imagem, para poder retirar palavras, conceitos e inspirações para a criação da coleção. A leitura de uma imagem artística permite ao leitor o desenvolvimento do vocabulário visual e cultural, bem como o domínio artístico de forma significativa, tornando-o familiarizado com a arte. Feldman (1970) estabelece quatro etapas de leitura de uma imagem como meio de apreensão do objeto artístico: descrição, análise, interpretação e julgamento. Nesta pesquisa utilizarei as etapas de descrição que contextualiza a obra e o artista e análise que procura as relações de tamanho, proximidade, cor, forma, textura e volume, entre os elementos básicos da obra. A primeira obra selecionada foi: A mesa de jantar vermelha, de 1908. Óleo sobre tela, 180 x 220 cm. Figura 93: “A mesa de Jantar Vermelha ” – Matisse, 1908. Descrição e análise: - Antes era a Mesa de Jantar Azul, mas Matisse mudou para vermelho porque a harmonia azul não oferecia contraste suficiente com a paisagem primaveril visível através da janela; 99 - Obra vendida à Chtchukine, que possuía 37 obras importantes de Matisse. Ele tinha o “Salão Matisse” na sua mansão; - Decorações luxuriantes como de um tapete persa; - tapetes orientais; arte muçulmana; - princípio de decoração contínua; - tendência para o geometrismo; - linhas sinuosas e retas; - pequenos detalhes; - contrastes de cor fortes; - serenidade da mulher; - inquietação que o azul e o vermelho trazem; - cores predominantes: Vermelho, Verde, Azul e Amarelo. A segunda: Retrato de Yvonne Landsberg,1914. Óleo sobre tela, 145,5 x 85,5cm. Figura 94: “O Retrato de Yvonne Landsberg ” – Matisse, 1914. 100 Descrição e análise: - Guerra de 1914 faz o paraíso de Matisse estilhaçar; - Surgimento do negro como cor; - Mudou-se de Paris para Tolouse até fim de 1914; - Encontro com cubistas; oposições entre linhas retas e curvas; - Para Matisse, A geometria exprime a emoção, e tão-só é um meio de libertar a emoção; - Rosto como se perdesse a carne, só conservando a ossatura, como se fosse passado em raios-X; - Figura sentada, mas que aparece em suspensão num espaço vertical que ela enche por completo. - Luz contrastante com a sombra; - Contraste entre linhas retas e curvas; - tristeza; - olhar perdido; - androginia; - austeridade por ombros proeminentes; - profundidade, sobriedade, seriedade; - apreensão, mãos unidas; - pescoço longo; - cores predominantes: Preto, Branco e Amarelo Claro. E a última: Os animais do Mar...,1950. Guaches recortados, 295,5 x 154 cm. 101 Figura 95: “Os Animais do Mar...” – Matisse, 1950. Descrição e análise: -“Recortar na carne viva da cor lembra-me o golpe direto dos escultores” Matisse. - Máximo da abstração, com a nova técnica de recortes; - Teve que fazer uma operação que o impossibilitou de continuar a pintar por um tempo, tinha que trabalhar deitado, resolvendo assim recortar papéis já pintados; - Desenha na cor; - 1930 fez uma viagem ao Pacífico, mergulhava, nadava em volta das cores de corais; - Obra feita quatro anos antes de Matisse morrer; - Sobreposições e vazados; - Linhas retas e sinuosas; - Abstração; - Geometria; - Simplificação; - Cores intensas; - Algas, peixes, corais, corações, ondas; 102 - vazado como luz; - manuscrito, reticências, suavidade. 7.2.4 Pesquisa de Tendências Segundo a pesquisa de tendências do Portal Usefashion, existem quatro megatendências para o Verão 2010, baseados nos acontecimentos do mundo, e nos desfiles e feiras internacionais. Em uma dessas megatendências, chamada Fusão, a inspiração vem das artes de vanguarda do início do século XX que tinham como referência de criação as artes orientais e negras. Com o mundo em crise em ambas as frentes, econômica e ecológica, regiões como a África e o subcontinente indiano fornecem referências para a moda atual. Isto acontece tanto pelo esplêndido acervo de culturas antigas, quanto pela capacidade que elas têm de explicitar os desacertos históricos na conservação dos recursos naturais e na distribuição de 15 riquezas. (Portal Usefashion). Os olhos do mundo estão voltados para a África, entre outros motivos, pela realização da Copa do Mundo na África do Sul em 2010. Também há pouco tempo, teve uma exposição no museu Victoria & Albert, em Londres, chamada Image & Identity Artworks, que abordava o bicentenário da abolição da escravatura transatlântica. Outra evidência foi o filme premiado em Cannes, chamado Delwende, do diretor Pierre Yameogo, que faz uma narrativa sobre a condição das mulheres africanas. Percebe-se aí a redundância citada por Dário Caldas: em vários locais, informações semelhantes, que acabam por desencadear futuras tendências. Continuando no oriente, o museu Victoria & Albert, em seguida da exposição sobre a abolição da escravatura, abriu uma exposição sobre Ukiyo-e, que é um estilo tradicional de gravura japonesa, do período de 1603 a 1867. A influência da cultura oriental no ocidente vai além de uma estação, vem acontecendo a algum tempo, por causa do trânsito de imigrantes desses países, para os países ricos, que trazem além da “força de trabalho”: misturam as culturas. 15 Portal de informações de moda, fechado para assinantes. 103 Nos Estados Unidos, que recebem imigrantes do México, América do Sul e da Ásia, há um crescimento significativo do fluxo de indianos de alta escolaridade. Na Europa, o fluxo de imigrantes de ex-colônias, Índia para Inglaterra, Algéria para a França e Angola para Portugal continua a crescer. Além disso, China e Japão estendem sua influência política e econômica por todo o mundo. Assim, não é a toa que são estes os países que fornecem elementos para a moda atual. (Portal Usefashion). Em muitos desfiles internacionais de Verão 2010 percebeu-se essa influência oriental e étnica, como por exemplo: Junya Watanabe (Paris), Marc Jacobs (Nova York), Etro (Milão), Dries Van Noten (Paris), Tsumori Chisato (Paris), Vivienne Westwood (Paris) e Ralph Lauren (Nova York). Essa megatendência denominada Fusão, acabou por encaixar no tema já definido por mim, que são obras do artista plástico Henri Matisse. Pois além de ele ser um precursor dos movimentos de vanguarda do século XX, ele utilizava como inspiração para suas obras, a arte africana, tapetes e tecidos orientais, entre outras diversas influências. Observando os desfiles internacionais, pude retirar semelhanças entre eles, já analisando os detalhes, e as formas, principalmente dos sapatos e bolsas, que são os produtos que criei, para poder fazer uma coleção que “caiba” à estação de Verão 2010. Os sapatos mostraram oposições de estilos, determinado grupo de estilistas prezou pelo mínimo, linhas depuradas, mínimo de material, já no outro grupo os sapatos têm o máximo de enfeites e materiais. As alturas também são opostas, ou sapatos completamente altos, ou rasteiros. Muitos dos sapatos altos usam a MeiaPata. Se vê também o uso de materiais plásticos, elásticos e também materiais transparentes. A estampa animal aparece em várias marcas, incluindo o couro réptil. As bolsas que apareceram nos desfiles de Verão 2010, são geralmente realçadas com cores fortes, ou com a mistura das texturas de diferentes materiais. Materiais com estampas animais e o couro réptil aparecem constantemente. As alças de corrente estão bem difundidas, e os detalhes em metal. As bolsas pequenas estão voltando com força, deixando um pouco de lado a febre que foram as maxibolsas. 104 As cores predominantes são Vermelho Músculo, Vermelho Tomate, Laranja, Stone, Ouro Bruto, Preto, Azul Cobalto, Cinza Glacial, Amarelo Freesea e Branco. Figura 96: Cores predominantes do Verão 2010. 105 7.2.5 Painel de Tendências Após a coleta de dados e a definição de obras referência, montei um painel de tendências, para unir as informações em um local só, para facilitar e dar unidade à criação da coleção, e também para definir a cartela de cores. Figura 97: Painel de tendências. Esse painel contém as obras referência da coleção, imagens de desfiles de Nova York e Londres, imagens de materiais expostos em feiras de matéria-prima, em Paris, e imagens de sapatos de grandes marcas para a coleção de Verão 2010, e uma paleta de cores, para orientar a criação dos produtos. 7.2.6 Desenvolvimento da Coleção Um dos primeiros passos foi a busca de como produzir os protótipos das obras. Encontrando as pessoas que iriam produzir tanto os sapatos quanto as bolsas, tive que levar em consideração as limitações que eu teria na criação, para a produção ficar adequada. 106 Na questão dos sapatos, eu não poderia produzir um sapato desde o início. Utilizei como base calçados pré-prontos e com a técnica da customização, procurei adequá-los ao tema. Fiz alguns esboços com idéias de como meus sapatos seriam, e saí em busca de pares com o formato, ou com bases semelhantes, possíveis de serem alteradas. Após a seleção de sete pares de sapato, defini quatro para fazer a criação da coleção. Fiz esboços, imaginando materiais e cores, e a coleção de quatro sapatos ficou assim: Sapato Yvonne: Figura 98: Esboço nº1. Acervo da autora. 107 Sapato Peixes: Figura 99: Esboço nº2. Acervo da autora. Sapato Persa: Figura 100: Esboço nº3. Acervo da autora. 108 Sapato Geométrico: Figura 101: Esboço nº4. Acervo da autora. Para a criação de bolsas, desenhei livremente, pois não precisava de uma base pré-pronta. A partir dos conceitos e dos materiais e cores pré-definidos, desenhei duas bolsas, para serem produzidas. Bolsa Yvonne: Figura 102: Esboço nº5. Acervo da autora. 109 Bolsa Janela: Figura 103: Esboço nº6. Acervo da autora. 7.2.7 Coleção Três dos quatro sapatos têm uma semelhança entre si: têm as solas na cor azul. Matisse, sempre enfatizou que suas cores preferidas eram o verde e o azul. E, além disso, na obra A mesa de Jantar Vermelha, como já citei, foi repintada de vermelho por cima do azul. Simbolizando isso, coloquei o azul na parte de baixo dos calçados, e no forro de uma bolsa, para fazer referência à cor que ele manteve embaixo, escondida dos espectadores da obra. Sapato Yvonne: Mantive o sapato preto, e adicionei a cor bege, fazendo referência à obra Retrato de Yvonne Landsberg, que têm sua cor predominante preta, com luzes e cores esbranquiçadas e beges. As tiras presas na parte de trás do sapato, fazem alusão à alegoria que Matisse fez em torno no ombro da personagem do quadro. 110 Os ilhoses e a fivela dourada foram colocados tanto em referência aos tons de cores da obra, quanto pelas pesquisas e referências de outros sapatos feitos para coleções de Verão 2010, como mostra o painel de tendências. A base colocada abaixo da parte frontal do sapato foi feita propositalmente menor para dar a sensação de suspensão, sensação essa vinda também do retrato de Yvonne, que ao mesmo tempo em que parece estar sentada, parece estar de pé, parece em suspensão. Figura 104: Sapato Yvonne. Acervo da autora. 111 Sapato Peixes: Uma bota, transformada em um sapato fechado. Utilizo um tecido originalmente africano, pois Matisse teve muita influência de arte negra, principalmente dos tecidos. O tecido escolhido ainda tem as duas cores preferidas de Matisse que são o Verde e o Azul. A pele verde, com tons dourados é utilizada para remeter ao mar, à uma pele de peixe, já que Matisse fez referências ao mar em diversas obras, e também na obra Os animais do Mar... O laço e o brilho vinílico com textura de cobra foram postos por influências de tendências em sapatos da estação. Figura 105: Sapato Peixes. Acervo da autora. 112 Sapato Persa: Um tecido com inspirações orientais, flores e galhos, semelhantes aos adornos que Matisse usava em suas obras. Todo o sapato forrado com o mesmo tecido, pelo princípio de decoração contínua que Henri Matisse fazia. A base inferior menor, com a mesma intenção de suspensão que o outro sapato. O detalhe de argolas no salto, remete aos pequenos detalhes que Matisse fazia em suas obras, principalmente na Mesa de Jantar Vermelha. Figura 106: Sapato Persa. Acervo da autora. 113 Sapato Geométrico: O salto, deslocado de seu local de origem para a base do sapato, também dá a ilusão de suspensão. Os recortes de vinil são feitos inspirados na obra Os animais do mar... Recortes geométricos, deixando a luz passar pelos vazios, a sobreposição do vinil na sola, e o branco e o amarelo que são presentes na obra. Figura 107: Sapato Geométrico. Acervo da autora. 114 Bolsa Yvonne: Bolsa inspirada na obra de Yvonne Landsberg, criando um conjunto com o Sapato Yvonne. Os recortes de material preto e bege tentam seguir as linhas predominantes na obra. Os ilhoses e metais ouro velho para seguir a linha do sapato. Figura 108: Bolsa Yvonne. Acervo da autora. 115 Bolsa Janela: Bolsa grande, mini matelassê preto, detalhes de vinil com textura de cobra, e um detalhe em vinil vermelho, contrastando com o preto dos outros dois materiais, como se fosse uma janela, das que Matisse sempre retratou. A bolsa é forrada com um tecido africano de estampas nas quais predominam as cores bege e bordô. Figura 109: Bolsa Janela. Acervo da autora. 116 8. CONCLUSÃO Pesponto final A moda e a arte são necessárias e fundamentais para a vida do ser humano. Cada vez mais, a expressão de si mesmo se faz necessária a todos os indivíduos. Seja essa expressão feita por meios artísticos, ou por meio da própria roupa que se veste. As tendências tentam, por meio de pesquisas, prever o que os consumidores vão gostar e se identificar nos próximos meses ou anos, para produzir peças – seja ela de moda, design, ou arte – que venham a suprir as necessidades de expressão do consumidor. Os limites entre a vontade do indivíduo se diferenciar e se adequar ao meio são tênues. Antigamente, mesmo com todas as regras das vestimentas, cada classe social buscava a diferenciação umas das outras, por exemplo, de tempos em tempos, as classes mais altas modificavam detalhes e formas das suas roupas, para continuar no seu patamar de diferenciação das classes mais baixas, classes essas que copiavam e adaptavam as novidades dos aristocratas, para parecerem mais nobres, e assim ia seguindo o fluxo de novidades, transformando a moda em efêmera, e também criando o a situação de produtos “na moda” e “fora de moda”. Hoje em dia, ainda se vê as classes altas fazendo de tudo para se diferenciar das mais baixas, mas as técnicas e materiais estão tão difundidos no mundo globalizado, que agora, o valor se dá às coisas básicas, ou a peças exclusivas, que mesmo copiando, ninguém vai ter igual. Querendo ou não, todo indivíduo é influenciado pelas tendências de moda. Pessoas “antenadas”, sempre em busca de informações – não necessariamente de moda – que lê notícias, sabem o que está acontecendo no mundo, são influenciadas por tendências de moda e comportamento. Mesmo que afirmem o contrário, analisando todos os detalhes de sua vestimenta ou adornos como cabelo, maquiagem, ou até mesmo o tipo de alimentação que se está consumindo, consegue-se descobrir influências, mesmo que essa influência seja contrária à tendência. Já as pessoas que não têm o hábito de pesquisa constante, e apenas estão à mercê dos meios de comunicação de massa, também são influenciados 117 pelas tendências, mas por uma tendência mais massificada, que todo mundo já foi e está sendo “contaminado”, ou seja, se tornará passado em pouco tempo. Uma das minhas dúvidas nessa pesquisa era se a arte norteava as tendências de moda, e a resposta é não. Na verdade, a arte não influencia diretamente a moda, o que realmente faz a moda ser o que é, e de onde surgem as tendências e influências é o próprio meio em que vivemos, e todos os fatos e situações que acontecem. Sendo assim, se a arte estiver em evidência, se estiver fazendo algo relevante, ou até mesmo sendo relembrada por algum motivo – grandes exposições, por exemplo – ela será grande influenciadora nesse período e será parte integrante do espírito do tempo dessa época. Definitivamente, as tendências de moda hoje, não são mais como eram antes, não existe mais uniformização de estilo, de temas e muito menos de informação. Isso se consolidou principalmente a partir dos anos 90, quando houve a priorização da escolha individual. A diferença é tão grande, que hoje em dia se fala em “morte das tendências”, na abolição delas. Mas acredito que não seja exatamente isso, e sim uma mutação nessas informações de moda, que dão muito mais prioridade ao conceito, ao comportamento do ser humano, do que para simples formas e cores. O estudo, a pesquisa e a previsão de tendências são imprescindíveis para todos os tipos de mercado, desde o alimentício ao automobilístico. Hoje não se tem mais tempo de “errar” um produto e tentar na próxima, – a crise econômica mundial que o diga – quanto mais informação e referências aos indícios de mudança no comportamento das pessoas, melhor e mais adequado chegará o produto nas mãos dos consumidores. Também percebi na pesquisa que, a utilização da arte - seja ela por movimentos artísticos, artistas e sua vida, ou apenas obras de arte – como inspiração, traz uma bagagem muito grande de idéias e referências que podem desencadear toda uma coleção. 118 9. REFERÊNCIAS ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. 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