Eduardo Antonio Augusto da Costa PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CB Alianças Estratégicas entre Pequenas Empresas de Inovação Tecnológica: o caso das empresas Gavea Sensors e FiberSensing Dissertação apresentada como requisito parcial para obtenção do grau de Mestre pelo Programa de Pósgraduação em Engenharia Industrial do Departamento de Engenharia Industrial da PUC-Rio. Aprovada pela Comissão Examinadora abaixo assinada. Prof. Maria Ângela Campelo de Melo Orientadora Departamento de Engenharia Industrial – PUC-Rio Prof. Antônio José Junqueira Botelho Co-orientador Programa de Pós-Graduação em Metrologia, Qualidade e Inovação – PUC-Rio Prof. Teresia Diana Lewe van Aduard de Macedo-Soares Departamento de Administração – PUC-Rio Prof. Renata Lèbre La Rovere Instituto de Economia – UFRJ Prof. José Eugenio Leal Coordenador Setorial do Centro Técnico Científico – PUC-Rio Rio de Janeiro, 04 de setembro de 2006 Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução total ou parcial do trabalho sem autorização da universidade, do autor e da orientadora. Eduardo Antonio Augusto da Costa PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CB Formado pela PUC-Rio, em agosto de 2002, em Engenharia Produção Elétrica com ênfase em Telecomunicações. Em agosto 2002 ingressou na Diretoria de Marketing da Embratel, onde ocupou o cargo de Gerente de Produto até maio de 2003, quando retornou à PUC-Rio para fundar a Gavea Sensors, spin-off do Laboratório de Sensores a Fibra Óptica do Departamento de Engenharia Mecânica, onde foi estagiário durante o período de graduação. Atualmente ocupa o cargo de Diretor de Marketing e Desenvolvimento de Novos Negócios dessa empresa. Ficha Catalográfica Costa, Eduardo Antonio Augusto da Alianças estratégicas entre pequenas empresas de inovação tecnológica: o caso das empresas Gávea Sensors e Fibersensing / Eduardo Antonio Augusto da Costa ; orientadora: Maria Ângela Campelo de Melo ; coorientador: Antonio José Junqueira Botelho. – 2006. 97 f. ; 30 cm Dissertação (Mestrado em Engenharia Industrial)– Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2006. Inclui bibliografia 1. Engenharia Industrial – Teses. 2. Alianças estratégicas. 3. Pequenas empresas. 4. Inovação tecnológica. 5. Capital de risco. 6. Nova economia. 7. Visão da firma baseada em recursos. I. Melo, Maria Ângela Campelo de. II. Botelho, Antonio José Junqueira. III. Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Departamento de Engenharia Industrial. IV. Título. CDD: 658.5 Agradecimentos PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CB Agradeço a CAPES pelo apoio financeiro. Resumo Costa, Eduardo Antonio Augusto da; de Melo, Maria Ângela Campelo (Orientadora). Alianças Estratégicas entre Pequenas Empresas de Inovação Tecnológica: o caso das empresas Gavea Sensors e FiberSensing. Rio de Janeiro, 2006. 97p. Dissertação de Mestrado – Departamento de Engenharia Industrial. Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. No contexto da nova economia, um grupo particular de empresas vem se destacando - as Pequenas Empresas de Inovação Tecnológica. Essas empresas surgem em torno de novas idéias de produtos e serviços com base em conhecimentos específicos sobre uma determinada tecnologia e introduzem inovações tecnológicas na estrutura industrial, contribuindo para o crescimento PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CB econômico e a geração de novos postos de trabalho, em especial os de mão-deobra altamente qualificada. Recentemente, uma tendência emergente de formação de alianças estratégicas entre essas empresas tem configurado um novo comportamento estratégico. Entretanto, a literatura contemporânea sobre alianças estratégicas tem sido parcimoniosa na sua abordagem desse tema. O objetivo principal desta dissertação é verificar a suposição de que a principal vantagem competitiva que tais alianças estratégicas proporcionam a essas empresas é a redução da incerteza tecnológica e de mercado. Visa-se também contribuir para a literatura emergente sobre esse novo comportamento estratégico. Pretende-se ainda entender como diferentes tipos de financiamento podem impactar na forma dessas alianças e, por fim, adaptar um modelo conceitual de análise, derivado da Visão da Firma Baseada em Recursos, que auxilie a análise dessas alianças. O desenvolvimento do trabalho está baseado no estudo de caso da aliança estratégica formada entre a Gavea Sensors e a FiberSensing, duas pequenas empresas de mesma base tecnológica, uma situada no Brasil e outra em Portugal. Os resultados obtidos confirmaram a suposição e demonstraram que diferentes tipos de financiamento impactam na forma dessas alianças estratégicas. Por fim, são indicadas propostas de estudos futuros e de políticas públicas. Palavras-chave Alianças Estratégicas; Pequenas Empresas; Inovação Tecnológica; Capital de Risco; Nova Economia; Visão da Firma Baseada em Recursos. Abstract Costa, Eduardo Antonio Augusto da; de Melo, Maria Ângela Campelo (Advisor). Strategic Alliances between small technology-based firms: the case of Gavea Sensors and Fibersensing.. Rio de Janeiro, 2006. 97p. MSc. Dissertation – Departamento de Engenharia Industrial. Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. In the new economy context, a particular group of firms has been getting a lot of attention – The Small Technology-Based Firms. These firms emerge around new ideas of products and services based on specific knowledge about specific technology. They introduce technology innovation in the industrial structure, contributing for economic growth and employment creation of highly qualified PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CB workmanship. Recently, an emergent tendency of strategic alliance formation between these firms has been configuring a new strategic behavior. Nevertheless, contemporary literature about strategic alliances has been parsimonious about this subject. The main purpose of this dissertation is to verify the assumption that the main competitive advantage that these kind of strategic alliances provide to Small Technology-Based Firms is reduction of market and technology uncertainty. The impact of different types of firm-financing on these alliances was also investigated. In addition, a conceptual framework based on Resource-based Theory of the Firm, which aids the analysis of these alliances, was adapted. This work is based on the case study of the strategic alliance formed between two small firms, one in Brazil and the other in Portugal, based on the same technology: Gavea Sensors and FiberSensing. Results confirm the assumption mentioned above, and show that different types of financing have influence on the form these strategic alliances take. Finally, future studies and public policies were suggested. Keywords Strategic Alliances; Small Firms; Technology Innovation; Venture Capital; New Economy; Resource-based Theory of the Firm. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CB Sumário 1. Introdução 1.1. Objetivos 1.2. Relevância 1.3. Metodologia de Pesquisa 1.4. Limitações do Método 1.5. Organização do Trabalho 10 13 13 14 17 18 2. A Nova Economia 2.1. O Surgimento das PEMINTECs 2.2. Definição de PEMINTECs 2.3. Financiamento das PEMINTECs 2.3.1. Recursos próprios, de familiares e amigos 2.3.2. Investidores-Anjo 2.3.3. Capital de Risco 2.4. O Cenário Nacional 2.4.1. PEMINTECs no Brasil 2.4.2. Políticas Públicas 2.4.3. Financiamento 2.5. Considerações Finais 20 21 23 26 27 28 29 30 21 31 34 36 3. Alianças Estratégias 3.1. Estudos sobre alianças estratégicas 3.1.1. A primeira geração 3.1.2. A Segunda geração 3.1.3. A Terceira geração 3.2. Conceitos Centrais e Definições 3.3. Alianças Estratégicas em Condições de Incerteza Tecnológica 3.3.1. Referencial analítico 3.3.1.1. Visão da firma baseada em recursos 3.3.1.2. Modelo conceitual de análise 38 39 39 41 43 44 47 50 52 53 4. Aliança Estratégica entre Gavea Sensors e Fibersensing 4.1. Sensores a Fibra Óptica 4.1.2. Redes de Bragg em fibra 4.1.2.1. Princípios de funcionamento 4.1.2.2. Aplicações industriais 4.1.2.3. O mercado 4.1.2.4. O ambiente competitivo 4.2. A Gavea Sensors 4.2.1. Histórico 4.2.2. Financiamento 4.3. A Fibersensing 4.3.1. Histórico 4.3.2. Financiamento 56 56 57 58 60 62 64 67 67 69 70 70 72 PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CB 4.4. A Aliança Estratégica 4.4.1. Motivação 4.4.2. Contribuições da Gavea Sensors para a aliança estratégica 4.4.3. Contribuições da Fibersensing para a aliança estratégica 4.4.4. Potenciais fontes de conflito 4.4.5. Perspectivas futuras 72 73 74 75 76 76 5. Discussão dos Resultados 78 6. Conclusões e Recomendações 87 7. Referências bibliográficas 90 PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CB Lista de figuras Figura 1: Estágios de evolução da indústria e da tecnologia (Minshall, 1999, p.181) 24 Figura 2: Ciclo de vida da adoção de tecnologia (Geoffrey, 1996) 24 Figura 3: Desenvolvimento e financiamento de novos empreendimento 27 Figura 4: Modelo conceitual (Minshall, 1999) 54 Figura 5: Princípio de funcionamento de Redes de Bragg em fibra óptica 58 Figura 6: Modelo conceitual proposto 85 Lista de quadros Quadro 1: Terminologia (Minshall, 1999) 55 Quadro 2: Resumo da entrevista 77 Quadro 3: Terminologia do modelo conceitual proposto 85 Lista de gráficos Gráfico 1: Aplicações industriais de sensores a Rede de Bragg 61 Gráfico 2: Crescimento do mercado mundial de sensores: participação dos sensores a fibra óptica 63 Gráfico 3: Crescimento do mercado mundial de sensores a fibra óptica até 2008: Subdivisão por tecnologia de sensores a fibra óptica 63 PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CB Lista de abreviaturas ABVCAP - Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital ANP - Agência Nacional do Petróleo ANPROTEC - Associação Nacional de Entidades Promotoras de empreendimento Inovadores APL - Arranjo Produtivo Local BID - Banco Interamericano de Desenvolvimento BNDES - Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social CENPES - Centro de Pesquisas e Desenvolvimento Leopoldo Américo M. de Mello CNPq - Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico CRM - Customer Relationship Management CT-PETRO - Fundo Setorial de Petróleo e Gás Natural CT-ENERG - Fundo Setorial de Energia DVD - Digital Video Disc FAP - Fundo de Amparo à Pesquisa FINEP - Financiadora de Estudos e Projetos GSM - Global System for Mobile Communications HDTV - High-Definition television IAPMEI - Instituto de Apoio às Pequenas e Médias Empresas e ao Investimento INESC - Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores LSFO - Laboratório de Sensores a Fibra Óptica MEMS - MicroEletroMechanical Systems PC - Personal Computer PEMINTEC - Pequena Empresa de Inovação Tecnológica PITCE - Política Industrial, Tecnológica e de Comércio Exterior PLM - Product Lifecycle Management PME Capital - Sociedade Portuguesa de Capital de Risco, S.A. PUC-Rio - Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro P&D - Pesquisa e Desenvolvimento SEBRAE - Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas SLP - Sistema Local de Produção RBF - Rede de Bragg em fibra UOSE - Unidade de Optoeletrônica e Sistemas Eletrônicos VBR - Visão da Firma Baseada em Recursos 1 Introdução Até os anos de 1980, grandes e poderosas empresas eram responsáveis por concentrar as atividades econômicas, em virtude das condições que então imperavam: produção em massa, baixa competição estrangeira, existência de mercados oligopólicos, baixo custo de capital, longos ciclos de vida dos produtos e baixa demanda por novas tecnologias. O conceito da rivalidade dominava essas empresas, que tinham como objetivo principal da competição o aniquilamento dos concorrentes. No final daquela década, um fenômeno global expandiu e intensificou o fluxo de PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CA pessoas, bens, capital, idéias e culturas entre os países. Essa mudança radical, chamada globalização, reduziu a habilidade das grandes e poderosas empresas gerarem empregos e promoverem o crescimento econômico. Na verdade, a globalização é mais antiga do que isto. Segundo Troccoli (2003), desde a Idade Média, por exemplo, os bancos transacionais e as empresas comerciais têm desempenhado importantes papéis no comércio internacional. As duas guerras mundiais na primeira metade do século XX e a severa depressão mundial nos anos de 1970, que afetou profundamente o sistema monetário internacional, geraram ações nacionais (tarifas, cotas, licenças de importação) que dificultaram o comércio, empurrando a globalização para um segundo plano. À medida em que estas condições adversas se reverteram, a globalização ressurgiu sob nova forma, impulsionada pela tecnologia de informação, alterando as condições impostas ao ambiente empresarial no mundo capitalista. Novamente, porém, estas condições macroambientais vieram a ser afetadas, nos anos de 1990, por novo cenário econômico depressivo. A economia, agora caracterizada pela liberação dos mercados, aumento da competição e demanda por produtos não mais padronizados levou as grandes e poderosas empresas a reduzirem seus custos e concentrarem esforços no desenvolvimento das competências essenciais ao negócio. Reengenharia e downsizing foram algumas das ferramentas utilizadas para esses fins, assim como a formação de alianças com outras grandes empresas competidoras, como forma de adquirir recursos e 11 competências complementares. Era o início de um novo comportamento estratégico, neste trabalho denominado “primeira geração de alianças estratégicas”, tema sobre o qual existe ampla literatura. A reestruturação de grandes empresas e a crescente colaboração entre elas, por meio da formação de alianças estratégicas, não foram as únicas alterações no cenário econômico causadas pela globalização. Surgia, nesse momento, em países como os Estados Unidos, a Alemanha, a Inglaterra e a Itália, uma nova estrutura industrial formada por pequenas empresas, as quais, segundo muitos autores, dentre eles Audretsch et al. (2001), foram as principais responsáveis pela retomada do crescimento econômico, pela criação de novos postos de trabalho e absorção da mão-de-obra desempregada em decorrência da reestruturação das grandes empresas. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CA Nessa nova economia, um grupo particular de empresas vem-se destacando devido à crescente contribuição para o crescimento econômico e geração de empregos – as Pequenas Empresas de Inovação Tecnológica PEMINTECs. Essas organizações distinguem-se das demais por surgirem em torno de novas idéias de produtos e serviços com base em conhecimentos específicos sobre uma determinada tecnologia. Conseqüentemente, introduzem inovações tecnológicas na estrutura industrial, gerando valor econômico a partir do conhecimento científico. Entre os poucos consensos estabelecidos no intenso debate que procura entender o atual processo de globalização, encontra-se o fato de que inovação e conhecimento são os principais fatores que definem a competitividade e o desenvolvimento das empresas (Cassiolato e Lastres, 2000). As PEMINTECs, quase sempre Spin-offs1 de universidades, centros de pesquisa ou de laboratórios de grandes empresas, encontram-se na fase inicial de desenvolvimento da tecnologia e do mercado. A incerteza é uma característica inerente a essa fase, e o rápido crescimento um fator determinante para o sucesso. Em meio a incertezas e intenso dinamismo, a formação de alianças tem sido uma estratégia adotada por muitas dessas empresas. Tais relações de cooperação ajudam-nas a acessar recursos e compartilhar riscos. Alianças também 1 Spin-off - (a) Empresa oriunda de laboratório e resultante de pesquisa acadêmica ou industrial; (b) Empresa impulsionada por outra já estabelecida no mercado, para atuar na mesma área de negócio, mas com produto ou serviço diferente daquele que a empresa original comercializa. Definição retirada do site http://www.capitalderisco.gov.br/vcn/s_CR.asp em 04/12/2006. 12 proporcionam o desenvolvimento de competências e aptidões, além de permitir, adicionalmente, que empresas ganhem poder de mercado, acelerem a penetração em novos mercados e tecnologias e criem opções de investimentos futuros. Em face aos limitados recursos organizacionais das PEMINTECs, tais como produção, distribuição, marketing e vendas, a formação de alianças estratégicas com grandes empresas tem sido uma prática comum, amplamente estudada na literatura, e que neste trabalho será chamada de “segunda geração de alianças estratégicas”. Na medida em que as PEMINTECs têm acesso a recursos organizacionais, as grandes empresas com as quais estabelecem alianças beneficiam-se do acesso a novas tecnologias. Na maioria dos casos essa simbiose é apenas aparente, pois são as grandes empresas as mais aptas a se apropriar dos benefícios da relação, comprometendo seriamente, em muitos casos, o futuro de PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CA suas parceiras de pequeno porte. Recentemente, uma tendência emergente de formação de alianças estratégicas entre PEMINTECs de mesma base tecnológica tem configurado um novo comportamento estratégico, que neste trabalho será chamado de “terceira geração de alianças estratégicas”. Essas relações, diferentemente daquelas estudadas na “primeira geração de alianças estratégicas”, não têm como objetivo precípuo agregar recursos e competências complementares a fim de atingir uma significativa redução de custos. Também se diferenciam daquelas estudadas na “segunda geração de alianças estratégicas”, pois suas parceiras não dispõem dos recursos organizacionais oferecidos pelas grandes empresas. Este trabalho propõe que o objetivo das relações a serem estudas na “terceira geração de alianças estratégicas” seja a redução de incerteza tecnológica e de mercado. A fim de propiciar a compreensão desse novo comportamento estratégico, será estudada neste trabalho a aliança estratégica formada entre a Gavea Sensors e a Fiber Sensing, duas spin-off’s – a primeira, do Laboratório de Sensores a Fibra Óptica - LSFO do Departamento de Engenharia Mecânica da PUC-Rio, no Brasil, e a segunda, da Unidade de Optoeletrônica e Sistemas Eletrônicos - UOSE do INESC Porto, em Portugal, que adotaram a mesma tecnologia, Redes de Bragg em fibra óptica, para desenvolver soluções inovadoras de monitoramento. A semelhança entre as empresas não se limita à plataforma tecnológica adotada; também está presente na visão e objetivos, no modelo de negócios, na data de 13 fundação, no perfil dos empreendedores e na afinidade cultural dos países de origem. Essas semelhanças, somadas à complementaridade dos produtos e mercados-alvo, levaram as empresas a criar uma aliança estratégica que vai além da simples representação comercial. 1.1 Objetivos O objetivo principal desta dissertação consiste em verificar a suposição de que a principal vantagem competitiva das alianças estratégicas entre PEMINTECs de mesma base tecnológica é a redução da incerteza tecnológica e de mercado, bem como contribuir para a literatura emergente sobre esse novo comportamento PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CA estratégico. Como objetivo secundário, pretende-se entender como diferentes tipos de financiamento podem impactar na forma dessas alianças estratégicas. Também se deseja adaptar um modelo conceitual de análise, baseado na Visão da Firma Baseada em Recursos – VBR, que auxilie a avaliação de alianças estratégicas formadas entre PEMINTECs. A adaptação desse modelo deverá contribuir para o enriquecimento e aprimoramento de idéias a respeito da aplicação da VBR na análise de alianças estratégicas entre pequenas empresas. Pretende-se, ainda, indicar direções de estudos futuros e apresentar propostas a serem implementadas em políticas públicas, com vistas a estimular a formação e consolidação desse tipo de alianças. 1.2 Relevância Este trabalho apresenta-se relevante, tanto do ponto de vista acadêmico quanto do empresarial. Compreender melhor a emergente relação de cooperação que se vem estabelecendo entre PEMINTECs de mesma base tecnológica é de grande importância para se ampliar o conhecimento da literatura contemporânea de alianças estratégicas na nova economia. Do ponto de vista empresarial, este estudo pode auxiliar empreendedores e capitalistas de risco a refletir sobre o papel dessas alianças na estratégia de crescimento das respectivas empresas. 14 Considerando-se que o conhecimento é o componente central das novas estruturas econômicas, e a inovação constitui o veículo de transformação de conhecimento em riqueza e melhoria de qualidade de vida das sociedades, as PEMINTECs apresentam-se como agentes fundamentais desse processo. Apesar dos atuais esforços do Governo, nenhum apoio tem sido concentrado no estímulo à formação e à consolidação de alianças estratégicas, embora evidências indiquem que o estabelecimento de tais laços de cooperação possa gerar vantagens competitivas e acelerar o processo de inovação. Entender de que maneira alianças estratégicas entre essas empresas aumentam suas vantagens competitivas pode orientar as atuais iniciativas do Governo brasileiro, que busca, por meio de políticas articuladas de fomento ao desenvolvimento industrial, promover ações PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CA dirigidas de apoio à inovação nas micro e pequenas empresas. 1.3 Metodologia de Pesquisa A metodologia escolhida foi o estudo de caso, em nível exploratório, da aliança estratégica formada entre a Gavea Sensors e a FiberSensing, duas pequenas empresas de mesma base tecnológica. O estudo pode ser considerado exploratório, dado que tem como objetivo entender um pouco melhor os fenômenos ainda recentes, ou pouco estudados, da emergente tendência de formação de alianças estratégicas entre pequenas empresas de mesma base tecnológica. Justifica-se a utilização dessa metodologia, pois, segundo Yin (1989), o estudo de caso deve ser utilizado quando a pesquisa trata de eventos contemporâneos, que possibilitam realizar observações diretas e entrevistas. De acordo com Yin (1994), o método do estudo de caso permite uma investigação para manter a holística com as características significativas ligadas aos eventos da vida real, tais como: ciclo de vida individual, organização e processo de mudança, relações internacionais e maturidade das indústrias. A metodologia também se justifica por ser a pesquisa da forma ‘como’ (Yin, 1994), cujo objetivo principal é descrever e analisar a aliança estratégica das empresas estudadas, à luz do referencial teórico escolhido. 15 Utilizaram-se duas ferramentas básicas neste estudo: análise documental e entrevistas. Para a primeira empregou-se um modelo conceitual baseado em um referencial teórico – Visão da Firma Baseada em Recursos, selecionado a partir do estudo do material bibliográfico levantado. Para a segunda, a técnica mais apropriada foi a de entrevista assistemática, em que não há um roteiro rígido predeterminado a ser aplicado, em face da complexidade e novidade do assunto. O ponto de partida para o desenvolvimento deste trabalho foi um levantamento bibliográfico sobre a evolução das PEMINTECs na nova economia. Procurou-se fazer uma revisão a mais ampla possível da literatura nacional e internacional pertinente, abrangendo pesquisas em páginas eletrônicas de órgãos governamentais como o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas SEBRAE, a Financiadora de Estudos e Projetos FINEP, o Conselho PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CA Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico CNPq e as Fundações de Amparo à Pesquisa FAPs regionais, bem como em jornais e revistas. Com base nesse estudo, buscou-se compreender os principais aspectos ligados aos fatores internos e externos dessas empresas, fundamentais para a análise da “terceira geração de alianças estratégicas”. Em seguida, foi realizada uma revisão da literatura nacional e internacional produzida por autores consagrados sobre alianças estratégicas. Essa revisão permitiu identificarem-se os principais conceitos e definições sobre alianças estratégicas e entender-se a importância dessas relações de colaboração em condições de incerteza tecnológica, ambiente característico das PEMINTECs. Esse estudo apontou a necessidade de um referencial analítico que levasse em conta a principal motivação para as alianças estratégicas entre PEMINTECs – o acesso a recursos complementares. O referencial analítico escolhido foi a VBR, que fundamentou a escolha de um modelo conceitual capaz de analisar a aliança estratégica sob uma perspectiva de desenvolvimento da capacidade organizacional em ambientes competitivos com alto nível de incerteza, guiados por tecnologias emergentes. A etapa seguinte foi o estudo da aliança estratégica formada entre a Gavea Sensors e a FiberSensing. Justifica-se a escolha dessas empresas pelo fato de se encontrarem em estágios iniciais de desenvolvimento da tecnologia e ainda pelo mercado em que atuam. Esses estágios, caracterizados pelo elevado nível de 16 incerteza, tornam essas PEMINTECs especialmente adequadas ao estudo da “terceira geração de alianças estratégicas”. A participação acionária do autor em uma das empresas também viabilizou entrevistas e facilitou o acesso a informações que enriqueceram este trabalho. O estudo da aliança estratégica entre a Gavea Sensors e a FiberSensing, buscou, por meio de consultas à Internet e análise documental de dados fornecidos pelas empresas, compreender os principais fatores internos e externos que atuam sobre cada uma delas. Do ponto de vista externo, esse levantamento permitiu compreender-se o princípio de funcionamento da tecnologia, seu potencial e limitações, seus mercados de aplicação, o ambiente competitivo e as principais oportunidades e ameaças que se apresentam. Do ponto de vista interno, o levantamento permitiu descrever a trajetória dessas empresas e identificar seus PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CA pontos fortes e fracos. Em seguida procedeu-se a entrevistas com pessoas-chave, diretamente envolvidas na gestão da aliança estratégica – Luiz Carlos Luiz Valente, Diretor Executivo da Gavea Sensors, e Pedro Alves Alves Antão, Diretor Executivo da FiberSensing. Com esse procedimento buscou-se entender a percepção individual de cada empreendedor a respeito das seguintes questões: motivação para formar a aliança; contribuição de cada empresa para essa aliança; perspectivas futuras dessa estratégia e potenciais fontes de conflito. Acreditou-se que tais percepções seriam suficientes para responder aos objetivos e contribuir para o melhor entendimento desse novo comportamento estratégico. Com base no levantamento teórico, elaborou-se a discussão dos resultados obtidos, o que permitiu compreender-se melhor a emergente relação de cooperação que vem sendo estabelecida entre PEMINTECs de mesma base tecnológica. Essa discussão também permitiu que o modelo conceitual inicialmente apresentado fosse adaptado para uma análise mais adequada da “terceira geração de alianças estratégicas”. Não obstante as limitações deste estudo, a etapa final da pesquisa confirmou a suposição inicialmente levantada pelo autor e expôs as demais constatações. Orientações para propostas de políticas públicas e considerações finais encerraram o trabalho, de forma a deixar aberto o espaço a estudos futuros. 17 1.4 Limitações do Método O método utilizado neste trabalho, apesar de bastante apropriado, apresenta algumas limitações. Por se tratar de um estudo de caso, os resultados esperados e as conclusões são específicos da aliança estratégica formada entre a Gavea Sensors e a FiberSensing, não cabendo, pois, a generalização para o universo de PEMINTECs. O método permite somente a generalização analítica, uma vez que a presente pesquisa visa a contribuir para o aprimoramento de idéias sobre um novo comportamento estratégico, ainda pouco estudado, bem como à adaptação de um modelo conceitual que permita comparar resultados empíricos. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CA A VBR considera as alianças estratégicas essencialmente o resultado da integração dos recursos das empresas aliadas. Esse referencial analítico tem apresentado um enfoque promissor para o estudo da competitividade, mas Day e Reibstein (1999) alertam que, para uma análise estratégica mais completa, os fatores internos e externos das empresas devem ser considerados de forma integrada. Nesse sentido, o modelo conceitual utilizado, que tem na simplicidade sua força, buscou considerar como o ambiente competitivo impacta as decisões estratégicas das empresas, atendendo parcialmente ao que Day e Reibstein (1999) consideram essencial para uma análise estratégica mais completa. Quanto às entrevistas, a intenção de captar a percepção pessoal dos executivos de cada empresa pode levar a um viés, influenciado pela vontade de apresentar apenas as percepções que valorizem prioritariamente a posição de suas respectivas empresas na aliança estratégica. O receio de fornecer informações estratégicas também é um agravante, podendo comprometer a veracidade das declarações prestadas nas entrevistas. A confrontação dessas declarações com os resultados obtidos no estudo do histórico dessas empresas e dos principais fatores que lhes são internos e externos manteve a confiabilidade da entrevista. 18 1.5 Organização do Trabalho A dissertação compõe-se de cinco capítulos. O segundo e o terceiro contêm a descrição do referencial teórico que orienta o desenvolvimento deste trabalho. O quarto trata exclusivamente das empresas escolhidas para estudo. O quinto apresenta a discussão dos resultados do estudo de caso e a adaptação do modelo conceitual para uma análise mais adequada de alianças estratégicas entre PEMINTECs de mesma base tecnológica. O sexto encerra o trabalho, explicitando as conclusões, as orientações para políticas públicas e as sugestões para estudos futuros. O Capítulo 2 dedica-se ao estudo das PEMINTECs. Inicialmente, PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CA descreve-se a evolução dessas empresas na nova economia e apresenta-se a visão de diversos autores sobre a importância dessas empresas na transformação do conhecimento científico em inovação tecnológica, processo fundamental para gerar riqueza e melhoria de qualidade de vida das sociedades. Em seguida, procura-se definir PEMINTEC e indicar suas principais características distintivas, como o porte, os estágios de evolução da tecnologia e do mercado, bem como a necessidade de capital que garanta o rápido crescimento. Por fim, contextualiza-se o cenário nacional em que se ambientam essas empresas e se tecem considerações finais sobre a importância de alianças estratégicas para a sustentação e rápido crescimento dessas organizações. O Capítulo 3 trata do assunto central deste trabalho – alianças estratégicas. O capítulo é introduzido com a apresentação das principais vantagens e desvantagens do uso de alianças estratégicas como forma de se adquirirem recursos e competências complementares, essenciais para manter as empresas competitivas. Ainda na introdução, os estudos sobre alianças estratégicas são divididos em três gerações, conforme o tipo de empresas envolvidas em tais laços de colaboração. A “terceira geração de alianças estratégicas”, objeto de interesse deste trabalho, aborda as alianças estratégicas entre PEMINETCs de mesma base tecnológica, assunto pouco estudado na literatura, apesar da importância dessas empresas para a nova economia. Em seguida, apresentam-se os conceitos centrais e definições de alianças estratégicas e a importância de tais laços de colaboração 19 em condições de incerteza tecnológica, características dos ambientes das PEMINTECs. Por fim, indicam-se as principais abordagens teóricas empregadas no estudo de alianças estratégicas e se propõe um modelo conceitual, baseado na VBR, adequado para o estudo da “terceira geração de alianças estratégicas”. O Capítulo 4 trata exclusivamente das empresas escolhidas para o estudo de caso. Inicialmente são apresentadas as principais características e princípios de funcionamento da tecnologia-base adotada pelas empresas – Redes de Bragg em fibra óptica. Em seguida, comentam-se as principais aplicações industriais da tecnologia e sua evolução no mercado global de sensores. A contextualização do ambiente externo é finalizada com a descrição do ambiente competitivo dessa emergente indústria, informação essa de grande importância para a melhor compreensão das motivações que levam tais PEMINTECs a formarem entre si PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CA alianças estratégicas. Por fim, o Capítulo apresenta o histórico, o tipo de financiamento das empresas e a percepção de seus principais executivos, em relação à aliança estratégica formada. No Capítulo 5, discutem-se os resultados obtidos no estudo realizado nas empresas selecionadas, à luz do modelo conceitual baseado na VBR. Com base nessa discussão e no referencial teórico apresentado nos capítulos iniciais, propõese uma adaptação do modelo conceitual, a fim de torná-lo mais adequado ao estudo de alianças estratégicas formadas entre PEMINTECs de mesma base tecnológica. Finalmente, no Capítulo 6, apresentam-se as conclusões e as considerações finais, às quais se acrescentam sugestões para estudos futuros e algumas propostas para políticas públicas, com vistas a estimular a formação e a consolidação de alianças estratégicas entre PEMINTECs de mesma base tecnológica. 2 A Nova Economia Durante as três primeiras décadas após a II Grande Guerra Mundial, os países da Europa Ocidental e da América do Norte, à medida que o modelo capitalista se desenvolvia, convergiam para uma economia dominada por grandes e poderosas empresas (Galbraith, 1956a). Assim, as décadas de 50 e 60 foram caracterizadas por uma forte e crescente centralização da atividade econômica, enquanto a produção em massa se consolidava como um paradigma. Por um lado, essa concentração tornava essas empresas muito eficientes e permitia altos ganhos em produtividade; por outro, gerava desemprego e impedia o crescimento PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CA econômico. Nesse contexto, caracterizado por mercados oligopólicos e baixa competição estrangeira, as políticas públicas concentravam suas atenções na seguinte questão: como a sociedade poderia beneficiar-se de grandes corporações, enquanto evitava (ou ao menos tentava minimizar) o custo imposto pela concentração do poder econômico? A resposta política surgiu com a adoção de medidas regulatórias, políticas antitrustes e com a estatização de diversas companhias. Apesar de cada país aplicar esses instrumentos de forma singular, o objetivo de todos era o mesmo – restringir o poder das grandes corporações (Audretsch e Thurik, 2001). Esse modelo econômico, denominado por Chandler (1977, 1990) de managed economy, perdia força ao passo que aumentava o fluxo de pessoas, bens, capital, idéias e cultura entre os países. Com isso, as grandes e poderosas empresas reduziam a capacidade de gerar empregos e promover o crescimento econômico. No final da década de 80, com a economia caracterizada pela liberação dos mercados, aumento da competição e demanda por produtos não mais padronizados, essas empresas tiveram de reduzir custos e a concentrar esforços no desenvolvimento de competências essenciais ao negócio. Reengenharia e downsizing foram algumas das ferramentas utilizadas para tais fins, assim como a formação de alianças estratégicas, como forma de adquirir recursos e competências complementares. Era o início de um novo 21 comportamento estratégico. Cooperação, interdependência e relações de longo prazo tornaram-se importantes instrumentos de competição no mercado globalizado. 2.1 O Surgimento das PEMINTECs A reestruturação de grandes empresas e a crescente colaboração entre elas por meio da formação de alianças estratégicas não foram as únicas alterações no cenário econômico causadas pela globalização. Surgia uma nova estrutura industrial formada por pequenas empresas, anteriormente vistas de forma negativa, ou marginal, uma vez que seu tamanho implicava uma baixa eficiência PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CA quanto ao uso de seus recursos. Audretsch e Thurik (2001) denominaram essa nova economia, formada por pequenas empresas, de entrepreneurial economy. A transição da managed economy para a entrepreneurial economy, entre meados de 1970 e o início da década de 90, foi identificada em diversos estudos (Brock e Evans, 1989; Loveman e Sengenberger, 1991; ACS e Audretsch, 1993; Thurik, 1999). Essa transição ocorreu não apenas em um, mas em vários países industrializados, como os Estados Unidos, a Alemanha, a Inglaterra e a Itália. Seria essa nova estrutura industrial, formada por pequenas empresas, responsável por diminuir o desemprego e promover o crescimento econômico? Muitos autores demonstraram que os países promotores dessa transição foram recompensados com altas taxas de crescimento (Audretsch et al., 2001; Thurik, 1996; Carree e Thurik, 1998, 1999; Audretsch e Thurik, 2000). Outros atribuíram às pequenas empresas a capacidade de absorverem a mão-de-obra desempregada devido aos processos de downsizing promovidos pelas grandes organizações (Audretsch, 1995; Konings, 1995; Robson e Gallangher, 1994; Hughes, 1993). De acordo com Davis et al. (1996) e Carre e Klomp (1996), são as pequenas empresas a locomotiva responsável pela criação de novos postos de trabalho. Nessa nova economia, um grupo particular de empresas vem-se destacando devido à crescente contribuição para o crescimento econômico e a geração de empregos - as Pequenas Empresas de Inovação Tecnológica - 22 PEMINTECs -, que se distinguem das demais por surgir em torno de novas idéias de produtos e serviços, com base em conhecimentos específicos sobre uma determinada tecnologia. Conseqüentemente, introduzem inovações tecnológicas na estrutura industrial, gerando valor econômico a partir do conhecimento científico. Gerar inovação tecnológica a partir de pequenas empresas nem sempre foi um consenso entre os estudiosos. Segundo Chandler (1977), Schumpeter (1942) e Galbraith (1956), apenas as grandes empresas tinham condições de promover inovação tecnológica. Esse conceito, largamente difundido durante as três primeiras décadas após a Segunda Grande Guerra Mundial, foi perdendo sustentação à medida que novos estudos demonstravam que pequenas empresas tinham mais condições de promover inovação tecnológica, pelo menos em alguns PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CA setores da indústria (Rothwell, 1989; Schere, 1991; Link e Bozeman, 1991). Audretsch e Thurik (2001) apontaram dois aspectos fundamentais da globalização para o surgimento das PEMINTECs: primeiro, o advento da mão-deobra altamente capacitada e de baixo custo, proveniente da Ásia e da Europa Central e Oriental; segundo, a revolução das telecomunicações e dos microprocessadores, que reduziram significativamente o custo de se transferir a produção padronizada de regiões de alto custo, como a Europa Ocidental e os Estados Unidos, para outras regiões ao redor do mundo. Esses dois aspectos tornaram as atividades econômicas baseadas na produção padronizada incompatíveis com as regiões de alto custo, onde a manutenção de postos de trabalho deveria agora estar associada a atividades baseadas no conhecimento, que, ao contrário dos fatores tradicionais de produção - terra, trabalho e capital não podem ser transferidas a baixo custo (Krugman, 1991; Lucas, 1993). Atividades baseadas no conhecimento estão associadas à inovação. Segundo Cohen e Klepper (1992), as grandes empresas não têm forte incentivo para tentar gerar inovação além das fronteiras impostas por suas trajetórias tecnológicas. Neste contexto, a oportunidade de gerar inovação mais radical do que incremental foi identificada por empreendedores tecnológicos, resultando na crescente criação das PEMINTECs. Mais recentemente, La Rovere (2001) constatou que tanto as pequenas quanto as grandes empresas têm vantagens para gerar inovações tecnológicas: 23 Enquanto as grandes empresas têm vantagens materiais para gerar e adotar inovações, devido à sua maior capacidade de P&D, as pequenas e médias empresas têm vantagens comportamentais relacionadas à sua maior flexibilidade e capacidade de adaptação a mudanças no mercado. Normalmente as empresas menores têm atividades diversificadas e estruturas flexíveis que favorecem respostas rápidas a mudanças no mercado. Além disso, estas empresas podem operar em nichos que apresentam uma alta taxa de inovação. Finalmente, o ambiente das pequenas empresas induz a uma maior motivação dos empregados em desenvolver a produtividade e a competitividade através de inovações. (La Rovere, 2001, p. 4) 2.2 Definição de PEMINTECs No Brasil e no mundo ainda não existe uma definição única para PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CA PEMINTECs. Neste trabalho será utilizada a definição adotada no Estatuto da Microempresa e Empresa de Pequeno Porte2 (Lei n.º 9.841/99), alterada pelo Decreto n.º 5.028, de 31 de março de 2004, que utiliza o critério da receita bruta anual, combinada com a proposta do SEBRAE para pequena empresa e as definições da FINEP para empresa de base tecnológica3 e inovação tecnológica4. A definição resultante é: Pequenas Empresas de Inovação Tecnológica são empresas industriais com menos de 100 empregados, ou empresas de serviço com menos de 50 empregados, em ambos os casos com faturamento anual inferior a R$2.133M, que estão comprometidas com o projeto, desenvolvimento e produção de novos produtos e/ou processos, bem como a agregação de novas funcionalidades ou características ao produto ou processo que implique melhorias incrementais e efetivo ganho de qualidade ou produtividade, resultando maior competitividade no mercado. Estas empresas usam tecnologias inovadoras, têm uma alta proporção de gastos com P&D e empregam uma alta proporção de pessoal técnico-científico e de engenharia. 2 Empresa de pequeno porte é a firma mercantil individual que, não enquadrada como microempresa, apresenta receita bruta anual superior a R$ 433.755,14 (quatrocentos e trinta e três mil, setecentos e cinqüenta e cinco reais e quatorze centavos) e igual ou inferior a R$ 2.133.222,00 (dois milhões, cento e trinta e três mil, duzentos e vinte e dois reais). Definição obtida no site https://www.planalto.gov.br/ccivil/_Ato20042006/2004/Decreto/D5028.htm#art1 em 04/12/06 3 Empresa de base tecnológica - organização que fundamenta sua atividade produtiva no desenvolvimento de novos produtos ou processos, baseado na aplicação sistemática de conhecimentos científicos e tecnológicos e utilização de técnicas avançadas ou pioneiras. As EBTs têm como principal insumo os conhecimentos e as informações técnico-científicas. Definição obtida no site http://www.capitalderisco.gov.br/vcn/e_CR.asp, em 04/12/06. 4 Inovação tecnológica - Incorporação de novo conhecimento no processo de produção e comercialização de bens e serviços. Definição obtida no site http://www.capitalderisco.gov.br/vcn/i_CR.asp em 04/12/06. 24 Assim, as principais características distintivas das PEMINTECs são o porte da empresa e os estágios de evolução da tecnologia e do mercado. Como apresentado na figura 1, as PEMINTECs encontram-se nos estágios iniciais de desenvolvimento da tecnologia. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CA Expansão do mercado Tecnologia Experiências Convergência Indústria Primeiras empresas Competição de entrada Padrão dominante Inovação incremental Substituição Concentração Empresas dominantes Declínio/ renovação Figura 1: Estágios de evolução da indústria e da tecnologia (Minshall, 1999, p.181) As PEMINTECs também se encontram na fase inicial de desenvolvimento do mercado, que na figura 2 é representado pelo ciclo de vida de adoção da tecnologia. Maioria inicial Inovadores Adeptos iniciais Maioria tardia Retardatários Figura 2: Ciclo de vida da adoção de tecnologia (Fonte: Geoffrey, 1996) 25 Uma característica inerente a essa fase é a incerteza, que Beije (1998) e Shepherd e Shanley (1998) classificaram em dois tipos distintos: incerteza tecnológica e incerteza de mercado. A primeira, relacionada à tecnologia específica e à organização interna da empresa, deve-se ao desconhecimento da trajetória tecnológica da resolução de problemas de engenharia a ser adotada ao longo do tempo, o que gera dúvidas sobre o funcionamento do novo produto, bem como sobre efeitos imprevistos da tecnologia, prazos de colocação do produto no mercado e garantia de qualidade do serviço. A incerteza de mercado, relacionada ao impacto que a inovação tecnológica causará no mercado existente, decorre do desconhecimento da velocidade com que a inovação irá disseminar-se, do padrão tecnológico pelo qual os clientes optarão, bem como das futuras mudanças nas PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CA necessidades desses clientes. A tecnologia de Redes de Bragg - a fibra óptica, por exemplo - surgiu no final da década de setenta; no entanto, apenas dez anos mais tarde os primeiros métodos para sua fabricação foram desenvolvidos. Somente a partir da segunda metade da década de noventa essa tecnologia despertou o interesse de empreendedores tecnológicos, devido ao potencial de sua vasta aplicação como elemento sensor. Atualmente, existem, em todo o mundo, cerca de trinta PEMINTECs que desenvolvem sensores baseados na tecnologia de Redes de Bragg em fibra óptica. Apesar disso, a falta de padronização de parâmetros ópticos e mecânicos dos sensores, o alto custo das unidades de medição, o conservadorismo e a aversão ao risco por parte de alguns mercados, bem como a falta de familiaridade dos potenciais usuários com a tecnologia, mantêm a corrida tecnológica dessas PEMINTECs pelo domínio do mercado. Adicionalmente, cabe destacar que muitas PEMINTECs têm sua localização definida por clusters5 regionais. De fato, a concentração de empresas de base tecnológica é identificada em diversos países, como por exemplo nos 5 ClUSTER (AGLOMERAÇÃO COMPETITIVA) - (a) Pólo consolidado pela interação entre empresas de determinado setor econômico que apresentam possibilidade de crescimento contínuo superior àquele das aglomerações econômicas comuns. O cluster apresenta alto potencial de beneficiamento através de maior atração de capital; redução do “lead time”, custos, e riscos; maior qualidade e flexibilidade de mão-de-obra; aumento do dinamismo empresarial e da qualidade de vida da região; (b) Aglomerado produtivo. Definição obtida no site http://www.capitalderisco.gov.br/vcn/c_CR.asp em 04/12/2006. 26 Estados Unidos, onde diversas empresas se concentram no Vale do Silício ou na Rota 128, onde é facilitado o acesso a universidades, centros de pesquisa e capitalistas de risco. O contato com outras empresas que desenvolvem tecnologias afins também permite a troca de conhecimentos, o que acelera o processo de inovação. No Brasil, a concentração física de PEMINTECs é incentivada pelo grande número de incubadoras tecnológicas, que fornecem instalações físicas, assessoria jurídica, financeira e de marketing, possibilitando redução de custos e acesso ao mercado. Em meio a essas incertezas e intenso dinamismo – ambiente chamado por Emery e Trist (1973) de campos turbulentos, onde a PEMINTEC que liderar a corrida irá possivelmente determinar o padrão tecnológico a ser adotado pelos clientes -, o rápido crescimento determina o sucesso ou o fracasso. Nesse PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CA contexto, a necessidade de recursos financeiros torna-se imperativa. As grandes empresas, por exemplo, além de recursos próprios, dispõem de acesso ao mercado financeiro; no entanto, os métodos de análise financeira tradicionalmente utilizados tornam extremamente difícil o financiamento do processo de inovação, caracterizado pela incerteza e por longos prazos de maturação. Os empréstimos a novas empresas, quando ocorrem, geralmente apresentam elevadas taxas de juros e prazos curtos. Assim, pagamento de juros, resgates e amortizações constituem encargos onerosos para essas empresas, que requerem aportes de capital significativos durante o estágio inicial de crescimento. Nessas condições, as PEMINTECs são forçadas a buscar outras formas de financiamento que permitam sua sustentação e rápido crescimento. 2.3 Financiamento das PEMINTECs A literatura especializada apresenta vários estudos sobre os diversos meios de se financiar a inovação tecnológica em novas pequenas empresas. Uma questão fundamental, comum a esses estudos, é a relação entre o tipo de financiamento e a fase de desenvolvimento dessas empresas. Segundo Van Osnabrugge e Robinson (2000), o desenvolvimento das PEMINTECs envolve quatro etapas básicas, como apresentado na figura 3. A primeira, correspondente à criação da empresa, é 27 chamada seed stage. Nela, a concepção do negócio encontra-se em desenvolvimento, devendo ainda submeter-se a aprovação. Já na segunda - a startup -, em que o empreendimento tem aproximadamente um ano de vida, os produtos estão em desenvolvimento, e se concretizam as primeiras vendas. Na terceira, a early stage, que ocorre em até cinco anos, a firma expande-se e produz, mas ainda não gera lucro. Na quarta etapa, established, a empresa já está consolidada, busca novos produtos e mercados, abertura de filiais e fusões. Em países em que o mercado de capitais é bastante evoluído, a quarta etapa também significa a abertura de capital da empresa, em aproximadamente um ano. Recursos próprios, de familiares e amigos Nível de investimento assumido pelo investidor PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CA Elevado Investidores anjo Capitalistas de Risco Outras empresas Mercado de capitais Bancos comerciais Baixo Seed Start-up Early growth Established Estágio de desenvolvimento Figura 3: Desenvolvimento e financiamento de novos empreendimento (Fonte: Van Osnabrugge e Robinson, 2000) 2.3.1 Recursos próprios, de familiares e amigos Convencer uma instituição financeira a investir em uma idéia que por muitas vezes, sequer está descrita em um plano de negócios, certamente não é uma tarefa simples. Geralmente, os recursos financeiros para a criação da empresa são obtidos com familiares, amigos e, na maioria das vezes, pertencem ao próprio empreendedor. 28 Um estudo feito por Bhide (1992), com 100 empresas da Inc. 500, de 1989, lista das quinhentas empresas privadas que apresentaram a maior taxa de crescimento nos Estados Unidos, mostrou que mais de 80% dessas empresas foram inicialmente financiadas com recursos dos próprios empreendedores - em média, U$10 mil. Além disso, mais de 80% dessas empresas só captaram recursos depois do quinto ano de operação. Segundo Tauber (1998), outra fonte de financiamento inicial das PEMINTECs são os recursos de familiares e amigos do empreendedor, que geralmente investem mais pela afinidade com ele do que pela idéia do negócio. À medida que o empreendimento obtém sucesso, o empreendedor deve decidir, mais cedo ou mais tarde, como deverá continuar a financiá-lo. Se possível, continuará a receber recursos de familiares e amigos; no entanto, em muitos casos, para PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CA alcançar sucesso, é necessário um rápido crescimento, geralmente associado a investimentos de maior monta e apoio estratégico, que familiares e amigos não podem oferecer. Assim, torna-se fundamental buscar, de modo mais profissional, um financiamento que possua outros valores agregados. 2.3.2 Investidores-Anjo A posse de recursos financeiros, associada à motivação para investir, os contatos estratégicos e a experiência em iniciar e gerenciar empreendimentos de risco tornam os investidores-anjo uma excelente opção para a PEMINTEC que busca recursos financeiros e apoio estratégico, na fase final de concepção do negócio e início das atividades. O termo angel surgiu na Broadway, no início de 1900, para se referir aos indivíduos que faziam investimentos de risco em produções teatrais. Hoje, esse termo refere-se a investidores individuais, dispostos a investir tempo e dinheiro em negócios de risco em troca de participação na empresa. O financiamento externo inicial das PEMINTECs provém geralmente dos anjos - não do capital de risco, como muitos acreditam. Nos Estados Unidos, estima-se que a indústria de capital de risco investiu cerca de U$5 bilhões, em 1998, em mil empresas na fase early stage, enquanto os anjos investiram 29 aproximadamente U$15 bilhões em sessenta mil empresas na mesma fase de desenvolvimento. Na Inglaterra estima-se que, entre as empresas que receberam investimentos, 5% os obtiveram de anjos, enquanto apenas 1% recebeu recursos de capital de risco (Van Osnabrugge, 1998). 2.3.3 Capital de Risco Capital de risco – tradução utilizada para o termo venture capital – é uma forma de financiamento em troca de participação acionária em empresas ou empreendimentos com alto potencial de crescimento, com vistas à sua revenda e conseqüente realização de expressivos ganhos de capital a médio e longo prazo. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CA A indústria de capital de risco norte-americana vem sendo vista, por todo o mundo, como o motor propulsor da economia. Livros e cursos de empreendedorismo enfatizam a importância do capital de risco e ensinam como aproximar-se de capitalistas de risco, como negociar, o que apresentar etc. Não há dúvida de que empreendimentos que receberam capital de risco no momento de sua criação cresceram exponencialmente. A Compaq, que captou inicialmente U$20 milhões, atingiu um total de vendas superior a U$100 milhões no primeiro ano. Certas setores da indústrias, em especial o de biotecnologia e o de supercomputadores, necessitam de investimentos em P&D da ordem de dezenas de milhões de dólares, mesmo antes que possam emitir a primeira fatura. No processo de financiamento de PEMINTECs, anjos e capitalistas de risco competem entre si e se complementam ao mesmo tempo. Os anjos investem recursos financeiros e tornam-se conselheiros das empresas no estágio inicial, quando elas ainda não precisam de recursos muito significativos. À medida que o empreendimento se desenvolve com sucesso, os anjos continuam investindo, especialmente se o capital necessário continuar a ser pequeno. No entanto, se a necessidade de recursos financeiros aumentar drasticamente, o capitalista de risco possivelmente se interessará em investir. Assim, nesse cenário, o anjo prepara a empresa para receber investimento do capitalista de risco. Em certas ocasiões, em especial na etapa early stage, os anjos podem competir com os capitalistas de risco. Em estudo feito por Feear e Wetzel (1990), 30 quando o investimento é superior a U$ 200 mil, anjos que dispõem de elevadas quantias ou estão reunidos em grupo costumam interessar-se pelo negócio, da mesma forma que os capitalistas de risco. No entanto, essa etapa geralmente exige rodadas adicionais de investimento, principalmente quando se trata de negócios que conseguem atingir suas metas. Nesse caso, o anjo ou o grupo encontra dificuldade de acompanhar o investimento, principalmente se o volume de capital requerido for muito significativo. Um caso típico de empresa que passou por todas as fases de investimento é a Amazon.com. Fundada em 1994, foi inicialmente financiada com empréstimos e recursos do próprio fundador, Jeff Bezos. Logo após, a família investiu U$ 250 mil e, em seguida, dois grupos de anjos investiram aproximadamente U$1 milhão. Em 1996, ainda ocorreu um pequeno investimento da família, seguido de um PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CA aporte de U$ 8 milhões de capital de risco, levando à abertura de capital no ano seguinte. Em 1998, a empresa havia atingido um valor de mercado de aproximadamente U$2,1 bilhões e empregava mais de 350 pessoas (Tauber, 1998). 2.4 O Cenário Nacional Depois da estagnação do crescimento econômico nacional durante toda a década de oitenta, até meados da de noventa, o Brasil entrou em uma nova fase de crescimento, começando com o Plano Real em 1994, que possibilitou o controle da inflação. Apesar disso, sustentar esse crescimento não tem sido fácil. Entre 2001 e 2003, os salários diminuíram, e o crescimento econômico foi pouco expressivo: apenas 2,2% ao ano, em média. Já em 2004, as exportações garantiram um crescimento econômico expressivo, bem como a redução da inflação. De acordo com o World Bank, em 2004 o Produto Interno Bruto brasileiro atingiu U$606 bilhões, logo atrás da Coréia do Sul, do México e da Austrália. Com a valorização da moeda, existe a expectativa de que, em 2006, o PIB do Brasil seja superior ao desses países. Apesar das indicações de crescimento da economia, as altas taxas de juros e o crédito limitado inibem o empréstimo e o financiamento de investimentos de risco no país. No entanto, a 31 amplitude do mercado nacional e o considerável nível de investimento em P&D, associado ao crescente número de patentes depositadas, evidenciam as muitas oportunidades para novos negócios. 2.4.1 PEMINTECs no Brasil A existência de muitas oportunidades de novos negócios, associada ao apoio de entidades governamentais como SEBRAE, a FINEP, o CNPq e as FAPs regionais, reflete a crescente criação de novas PEMINTECs. O crescimento do número de incubadoras de empresas espalhadas pelo país é outro fator que contribui para esse fenômeno. Em 1995 existiam 27 incubadoras de empresas em PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CA operação, espalhadas pelo Brasil; em 2005, esse número passou a 339, do qual aproximadamente 50% são de incubadoras tecnológicas. Segundo a Associação Nacional de Entidades Promotoras de Empreendimentos Inovadores - ANPROTEC, que anualmente divulga relatório sobre as atividades de incubadoras nacionais, em 2005 existiam no Brasil 2.327 empresas incubadas, que faturaram em média R$320 mil e geraram um total de 12.395 postos de trabalho. No mesmo ano, 1.678 empresas já haviam sido graduadas pelas incubadoras e faturaram em média R$1,5 milhão, além de gerarem um total de 12.270 postos de trabalho. Convém assinalar a existência de empresas de inovação tecnológica que não passaram por incubadoras; no entanto, esse universo é pouco conhecido. 2.4.2 Políticas Públicas Após algumas décadas sem definição de políticas articuladas de fomento ao desenvolvimento industrial, em 15 de março de 1985 foi criado o Ministério de Ciência e Tecnologia, responsável pela formulação e implementação da Política Nacional de Ciência e Tecnologia. Uma de suas ações tem sido atuar fortemente na construção e consolidação das bases legais sobre inovação tecnológica, em especial no processo de implementação da Lei de Inovação e sua regulamentação, 32 que envolveu amplo debate interno ao governo e com a sociedade, bem como no âmbito do Congresso Nacional. A Lei de Inovação – Lei n.º 10.973, de 02 de dezembro de 2004, regulamentada pelo Decreto n.º 5.563 de 11 de outubro de 2005, que na presente data ainda encontra-se em trâmite no Congresso Nacional, estabelece medidas de incentivo à inovação e à pesquisa científica e tecnológica no ambiente produtivo, com vistas ao alcance da autonomia tecnológica e ao desenvolvimento industrial do País. O marco regulatório desta Lei está organizado em torno de três vertentes: Vertente I - constituição de ambiente propício às parcerias estratégicas entre as universidades, institutos tecnológicos e empresas; PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CA Vertente II - estímulo à participação de instituições de ciência e tecnologia no processo de inovação; Vertente III - incentivo à inovação na empresa. Os dispositivos legais explicitados nessa última vertente buscam estimular uma contribuição maior do setor produtivo em relação à alocação de recurso financeiros na promoção da inovação, com vistas a atender às empresas nacionais envolvidas em atividades de pesquisa e desenvolvimento. Para tal fim, a Lei prevê a concessão de recursos financeiros, humanos, materiais ou de infra-estrutura, por parte da União, das instituições de ciência e tecnologia e das agências de fomento. Mediante contratos ou convênios específicos, tais recursos serão ajustados entre as partes, considerando ainda as prioridades da política industrial e tecnológica nacional. O apoio à realização de atividades de pesquisa e desenvolvimento que envolvam risco tecnológico, para solução de problema técnico específico ou obtenção de produto ou processo inovador também está contemplado, assim como a implementação, pelas agências de fomento, de programas com ações dirigidas especialmente à promoção da inovação nas micro e pequenas empresas. Fortalecendo o novo marco legal para o apoio ao desenvolvimento tecnológico e inovação nas empresas brasileiras, e por determinação da Lei de Inovação, foi editado o capítulo III da Lei n.º 11.196, de 21 de novembro de 2005, 33 conhecida como Lei do Bem, recentemente regulamentada pelo Decreto n.º 5.768, de 7 de junho de 2006. Nesse Capítulo, os artigos 17 a 26 aperfeiçoam e consolidam os incentivos fiscais que as empresas podem usufruir de forma automática, desde que realizem pesquisa tecnológica e desenvolvimento de inovação tecnológica. Os benefícios do Capítulo III da Lei do Bem baseiam-se em incentivos fiscais, tais como: • deduções do Imposto de Renda e da Contribuição sobre o Lucro Líquido – CSLL - sobre dispêndios efetuados em atividades de P&D; • redução do Imposto sobre Produtos Industrializados – IPI - na compra de PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CA máquinas e equipamentos para P&D; • depreciação acelerada desses bens; • amortização acelerada de bens intangíveis; • redução do Imposto de Renda retido na fonte incidente sobre remessa ao exterior resultante de contratos de transferência de tecnologia; • isenção do Imposto de Renda retido na fonte nas remessas efetuadas para o exterior destinadas ao registro e manutenção de marcas, patentes e cultivares; • ou subvenções econômicas em virtude da contratação de pesquisadores, titulados como mestres ou doutores, empregados em empresas para realizar atividades de pesquisa, desenvolvimento e inovação tecnológica. Estas Leis vêm também ao encontro da atual Política Industrial, Tecnológica e de Comércio Exterior - PITCE do Governo Federal, na medida em que essa propõe, entre outros objetivos, o de melhorar a eficiência do setor produtivo do país, de forma a capacitá-lo tecnologicamente para a competição externa, assim como a necessária ampliação de suas exportações, mediante a inserção competitiva de bens e serviços com base em padrões internacionais de qualidade, maior conteúdo tecnológico e, portanto, com maior valor agregado. As recentes políticas públicas refletem a intenção do governo de dar ao país uma nova vertente, de caráter tecnológico, em face do grande esforço empreendido nas últimas décadas para a formação de recursos humanos na área 34 do conhecimento científico, assim como para a instauração de uma infra-estrutura de laboratórios, equipamentos e sistemas de informação em universidades e centros de pesquisa. Essa ação de sucesso acarretou níveis expressivos da produção do conhecimento científico, que, neste momento, deve ser transformado em valor econômico, a partir da introdução de inovações tecnológicas na estrutura industrial. As PEMINTECs são fortes candidatas a preencher a lacuna do desenvolvimento tecnológico, aproveitando parte dos recursos humanos e da infra-estrutura existente nas entidades de ensino e pesquisa para alavancar a inovação e desenvolver novas tecnologias, apoiadas pelas recentes políticas públicas. Além dessas políticas públicas, os recursos financeiros são imperativos para as PEMINTECs, como mencionado em 2.3. Na avaliação de Odilon PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CA Marcuzzo, presidente da FINEP , Não basta financiar a transformação de uma idéia em produto, é preciso fornecer dinheiro a baixo custo para que as empresas possam abrir o mercado para esse produto, um gasto mil vezes maior... o uso de recursos públicos na inovação é fundamental, uma vez que trata-se de um investimento com riscos inerentes. Em um país de juros tão elevados quanto o nosso, a disponibilização de recursos de baixo custo torna-se ainda mais fundamental para amenizar esses riscos e incentivar a inovação na indústria. (Marcuzzo, Jornal do Comércio, 06-02-2006) 2.4.3 Financiamento No Brasil, assim como na maioria dos países, os recursos iniciais para se desenvolver um empreendimento provêm, em grande parte, como já foi afirmado, de amigos e familiares do empreendedor e de investidores-anjo. Na última década, a valorização da importância do investidor-anjo levou ao crescente aumento de suas atividades, embora a atuação deste ainda seja muito pequena, se comparada à que se verifica em países desenvolvidos. Em 2004, esse crescimento sofreu uma descontinuidade - o número de investimentos efetuados por anjos em empresas incubadas diminuiu 10% -, o que deverá repetir-se nos próximos anos. Para Botelho (2005), essa desaceleração decorre do surgimento de novos instrumentos 35 públicos de financiamento de PEMINTECs, que vêm afastando os empreendedores dos investidores-anjo. Esses recursos são mais atrativos para os empreendedores, por custarem menos e não implicarem redução do controle da empresa. Em uma pesquisa realizada recentemente, Arrais (2006) identificou que os principais barreiras enfrentadas pelos investidores anjos no Brasil estão presentes nas fases de negociação, desenvolvimento do negócio e saída do investidor. De fato, apoiar processos de incubação e pré-incubação de empresas com recursos a fundo perdido tem sido um instrumento de financiamento de empresas emergentes adotado pelo governo brasileiro. Esses recursos, oriundos dos Fundos Setoriais de Ciência e Tecnologia,6 têm foco específico no desenvolvimento de produtos e processos inovadores com vistas à aplicação comercial e/ou social. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CA A criação de um fundo de capital-semente para empresas emergentes é outra iniciativa do governo. O Ministério da Ciência e Tecnologia, lançou, em 14 de dezembro de 2005, um novo programa que vai investir cerca de R$ 300 milhões em empresas nascentes de base tecnológica. Batizado de Inovar Semente, o novo programa da FINEP irá apoiar, nos próximos seis anos, cerca de 340 empreendimentos inovadores, com aportes que variam entre R$ 500 mil e R$ 1 milhão. A meta é criar 24 fundos de capital-semente em todo o Brasil, cada um com um montante inicial de R$12 milhões. Na composição, a FINEP entra com 40% dos recursos; outros 40% serão aplicados por agentes institucionais locais e 20% provirão de investidores privados, aos quais será restituído o dinheiro aportado, caso o empreendimento não obtenha êxito. Os recursos destinar-se-ão a empresas nascentes, inclusive àquelas ainda em incubadoras ou em laboratórios de pesquisa. As atuais iniciativas no sentido de o governo financiar a fase inicial das PEMINTECs estão alinhadas a esforços anteriores de promoção da indústria nacional de capital de risco. Há seis anos, quando a FINEP criou o Projeto Inovar, venture capital ainda era um tema pouco conhecido no Brasil. Nas décadas de 80 6 Os Fundos Setoriais de Ciência e Tecnologia, criados a partir de 1999, são instrumentos de financiamento de projetos de pesquisa, desenvolvimento e inovação no País. Há 16 Fundos Setoriais relativos a setores específicos e dois transversais. Desses, um é voltado à interação universidade-empresa (FVA – Fundo Verde-Amarelo), que entre outras ações também financia o Estudo de Viabilidade Técnico-econômica - EVTE de empreendimentos inicialmente desenvolvidos em laboratórios universitários, com vistas à criação de empresas. 36 e 90, ações isoladas do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social - BNDES e de grupos pioneiros, como as administradoras de fundos, esbarravam na falta de um ambiente institucional propício ao desenvolvimento do setor. De lá pra cá, o Projeto Inovar construiu uma rede que envolve investidores, gestores de fundos, empreendedores e importantes instituições, como o Banco Interamericano de Desenvolvimento - BID, o SEBRAE e a Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital - ABVCAP. Essas iniciativas resumem a intenção do Governo de financiar a inovação tecnológica em pequenas empresas voltadas para esse fim, uma vez que a indústria de capital de risco brasileira ainda é incipiente e continua dominada por fundos de private equity. A tendência mundial do mercado de capital de risco é afastar-se do investimento nas fases early-stage e start-up e concentrar esforços PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CA em empresas mais estabilizadas. De acordo com Botelho (2005), essa tendência é mais acentuada no Brasil, onde a maioria dos investimentos é feita por fundos de private equity em empresas estabilizadas e em outros estágios avançados. Falta suporte para a indústria de capital de risco, e o crescente, mas ainda pequeno, mercado de capitais existente não facilita a saída desses investidores. Além disso, o funcionamento da indústria de capital de risco ainda é um assunto pouco conhecido dos empreendedores, o que dificulta o acesso a esse meio e aumenta o custo de busca por novos empreendimentos. Esses fatores, aliados às altas taxas de juros praticadas no Brasil, afastam os fundos de private equity de empreendimentos que se encontram na fase inicial de desenvolvimento. 2.5 Considerações Finais Apesar da existência de muitas oportunidades de novos negócios, do apoio de diversas entidades privadas e governamentais, da criação de políticas públicas de apoio às PEMINTECs e do surgimento de uma indústria de capital de risco voltada para a fase inicial dessas empresas, o apoio deveria ser concentrado, de acordo com La Rovere (2001), no estímulo à formação e consolidação de redes, promovendo clusters e alianças estratégicas. Segundo a mesma autora, “Na medida em que no novo paradigma tecnológico, o conhecimento é fundamental 37 para a competitividade, as firmas pequenas podem incrementar sua competitividade estabelecendo laços de cooperação com outras firmas e instituições” (Idem, ibidem, p.35). De fato, nem sempre os recursos financeiros são suficientes para as PEMINTECs alcançarem os recursos complementares necessários a sua sustentação e crescimento. Muitas vezes esses recursos encontram-se além das fronteiras regionais e até mesmo nacionais. Neste sentido, as alianças estratégicas assumem um papel fundamental para as PEMINTECs, capacitando-as a responderem aos desafios impostos pela globalização e a PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CA conquistarem novos mercados. 3 Alianças Estratégicas Mais do que nunca, alianças estratégicas entre empresas têm mudado o modo de condução dos negócios, particularmente no mercado global e em setores de alta tecnologia. Tais relações de cooperação ajudam as empresas a conservar recursos e compartilhar riscos (Hamel et al., 1989; Ohmae, 1989). Alianças também criam oportunidades para empresas ganharem novas competências ( Hagedoorn, 1993; Hamel et al., 1989; Hennart, 1991) e poder de mercado (Hagedoorn, 1993), bem como aceleram o acesso a novos mercados e novas tecnologias, criando, com isso, oportunidades futuras de investimento (Kogut, PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CA 1991). Apesar dos potenciais benefícios, a colaboração e o relacionamento com outras empresas podem mostrar-se complexos e até mesmo perigosos. Por exemplo, o custo do relacionamento pode ser muito elevado (Hennart, 1991; Williamson, 1991). Além disso, alianças podem induzir organizações a deixar de desenvolver competências internas essenciais ao negócio (Hamel et al., 1989; Teece, 1987), permitindo assim que essas competências e detalhes da tecnologia sejam facilmente absorvidos. Pode, enfim, ocorrer redução da rentabilidade, obrigando à divisão dos lucros (Shan, 1990). Devido ao conjunto de vantagens e desvantagens, a literatura contemporânea sobre o assunto vem crescendo significativamente. Características das alianças estratégicas, como motivação, objetivo, tipo, forma, estrutura e desempenho, têm sido intensamente estudadas, em especial nas relações estabelecidas entre grandes empresas e, mais recentemente, também nas alianças formadas entre grandes e pequenas empresas. Apesar da valiosa (ainda que incipiente) contribuição de alguns autores como Minshall (1999, 2003) e Eisenhardt (1996) para o entendimento da importância das alianças estratégicas no processo de inovação tecnológica, a literatura tem sido parcimoniosa em abordálas quando formadas entre pequenas empresas, em especial as PEMINTECs, agentes de grande importância no processo de inovação. 39 3.1 Estudos sobre alianças estratégicas Em face do grande volume de material existente na literatura que busca compreender, sob vários aspectos, as alianças estratégicas, serão esses estudos assim denominados nesta dissertação: primeira geração, os relativos a alianças entre grandes empresas; segunda geração, os referentes às relações estabelecidas entre grandes e pequenas empresas, em especial as PEMINTECs; finalmente, terceira geração, os concernentes às alianças estratégicas entre PEMINTECs, que serão introduzidos neste trabalho com o objetivo de contribuir para o entendimento dessa tendência emergente. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CA 3.1.1 A primeira geração Nas três primeiras décadas após a II Grande Guerra Mundial, predominava a rivalidade entre as grandes e poderosas empresas dos países desenvolvidos da América do Norte e da Europa Ocidental, motivada pela baixa competição estrangeira, em consonância com os longos ciclos de vida dos produtos, baixo custo de capital e baixa demanda por novas tecnologias. Apoiadas no conceito então vigente de que o principal objetivo da competição seria aniquilar o concorrente, essas empresas acreditavam que o desenvolvimento interno de todas as competências necessárias constituísse uma vantagem competitiva. No final da década de 80, a globalização reduziu a habilidade de as grandes empresas continuarem auto-suficientes. Com a liberação dos mercados, o aumento da competição levou-as a enxugar suas estruturas na busca da redução de custos. Conseqüentemente, passaram a concentrar esforços no desenvolvimento das competências essenciais ao negócio. Nesse contexto, a formação de alianças estratégicas, como meio de aquisição de recursos e competências complementares, tornou-se uma prática entre as empresas. Era o início de um novo comportamento estratégico. Cooperação, interdependência e relações de longo prazo tornaram-se importantes instrumentos de competição no mercado globalizado. Assim, o 40 conceito de competição se transformou em colaboração. Segundo Minshall (1999, p.160), Over the past ten years there has been a surge in interest in the role that the strategic partnerships can play in business development. ‘Strategic alliances’ have moved from being viewed by economists and business strategists as ‘[…] anomalies, worthy only of footnote’ (Gomes-Casseres, 1996: 3), to being an essential business tool; mastery of which is regarded as being ‘critical to winning on a global basis’ (Jack Welch, CEO of GE, as quoted in Yoshino and Srinivasa-Rangan, 1995). Embora já existissem antes mesmo da globalização da economia, as alianças estratégicas deixaram de ser apenas instrumentos utilizados entre grandes empresas e pequenas firmas locais, para garantir acesso a mercados. As crescentes PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CA relações estabelecidas entre grandes empresas da mesma indústria levaram empresários e acadêmicos a concentrar esforços na compreensão desse novo comportamento estratégico. Surgia então a primeira geração de alianças estratégicas. De acordo com Tavares (2002), 69% das empresas líderes no Brasil possuem alianças estratégicas, a maioria formada entre parceiros que compartilham os mesmos objetivos no relacionamento e que possuem produtos iguais ou similares. Essas empresas buscam, em suas antigas concorrentes, agregar os recursos e competências complementares às suas, a fim de atingir uma significativa redução de custos para oferecer aos consumidores os produtos e serviços desejados, a baixo preço e com alta qualidade. Apesar dos benefícios, diferenças culturais, desconfiança, expectativas divergentes e gestão deficiente são alguns dos motivos que levam a maioria das alianças estratégicas formadas por grandes empresas a terminar prematuramente ou permanecer abaixo da real potencialidade. Uma pesquisa promovida pela KPMG (1999), com cerca de cinqüenta empresas de diversos setores do mundo, indicou que 65% das alianças estratégicas encerraram-se prematuramente. Spekman et al. (1996) e Dacin et al. (1997) também identificaram em suas pesquisas uma taxa de fracasso de 60%. Brouthers et al. (1997) e Bleeke e Ernst (1993), menos pessimistas em suas análises, apontaram uma taxa de fracasso de 50%. 41 Essa estatística compromete o sucesso das alianças estratégicas formadas entre grandes empresas, uma vez que a literatura internacional que postula tais alianças indica que, para potencializar resultados e criar valor, é necessário desenvolvimento em longo prazo (Doz & Hamel, 2000). Nesse sentido, os estudos sobre a primeira geração de alianças estratégicas têm sido orientados para o desenvolvimento de modelos e ferramentas de gestão que permitam prolongar o prazo médio de duração de tais parcerias. Em paralelo, outras linhas de pesquisa buscam compreender as redes de relacionamento estratégicas em virtude do aumento das alianças que envolvem três ou mais empresas. 3.1.2 PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CA A segunda geração A formação de alianças estratégicas entre grandes empresas não foi a única alteração no comportamento estratégico imposto pela globalização. Com a liberação dos mercados, o aumento da competição e a retomada do crescimento, surgiu um mercado consumidor mais exigente, ávido por novos produtos, cujo desenvolvimento está diretamente associado à inovação tecnológica. Vale sublinhar que, como mencionado no Capítulo 2, as pequenas empresas, em especial as PEMINTECs, dispõem de boas condições para desenvolver projetos que representem inovação tecnológica. Conseqüentemente, as grandes empresas identificaram nessas pequenas organizações a oportunidade de diversificar os próprios portfolios, mantendo-se, assim, competitivas. Surgia um novo comportamento estratégico que buscava acompanhar a transição da managed economy para a entrepreneurial economy. O crescente estudo de alianças estratégicas formadas entre grandes empresas e PEMINTECs caracteriza, assim, o que neste trabalho se denomina a segunda geração. Alianças estratégicas entre grandes empresas são muito comuns, mas, desde a década de 80, têm predominado as formadas entre grandes e pequenas empresas (Alster, 1986). Nos Estados Unidos, por exemplo, as alianças estratégicas entre PEMINTECs de biotecnologia e grandes empresas farmacêuticas cresceram 341% entre 1993 e 1995 (Alvarez e Barney, 2001). 42 Taxas de crescimento similares podem ser encontradas nas indústrias de telecomunicações, eletrônica e de óleo e gás. Grandes empresas em aliança com PEMINTECs ganham acesso a novas tecnologias e a profissionais talentosos, que trabalham no ‘estado-da-arte’. Além disso, ao desenvolver alianças com diversas PEMINTECs, as empresas de maior porte adquirem mais capacidade de gerenciar a incerteza tecnológica inerente ao processo de inovação. Com tais vantagens é cada vez mais comum identificar esse tipo de parceria. Sob o ponto de vista das PEMINTECs, alianças com grandes empresas garantem acesso a recursos organizacionais, como produção, distribuição, marketing e canais de vendas, fundamentais para a comercialização da tecnologia. Sozinhas, aquelas empresas não teriam condições de desenvolver tais recursos. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CA Convém registrar que, em alguns casos, as grandes empresas também contribuem financeiramente para levar a tecnologia ao mercado. Apesar das aparentes vantagens mútuas, são sempre as grandes empresas as mais aptas a se apropriar dos benefícios da relação, antes mesmo que as PEMINTECs consigam beneficiar-se dos recursos organizacionais de suas parceiras maiores. Isso, eventualmente, poderá comprometer de forma grave o futuro das PEMINTECs. Quando ocorre essa apropriação, a aliança deixa de ser interessante para a grande empresa que, em muitos casos, abusa de sua posição superior na parceria. Assim, mesmo que a tecnologia em questão tenha um mercado potencial e as alianças criem valor econômico, a maior parte desse valor é apropriado pelas grandes empresas (Alvarez e Barney, 2001). Um estudo feito por Alvarez e Barney (2001), com 128 alianças estratégicas formadas entre PEMINTECs e grandes empresas, reportou uma insatisfação de 80% dos empreendedores, que alegavam ser injustamente explorados por suas respectivas parceiras de grande porte. 43 3.1.3 A terceira geração Atualmente, tem-se observado uma tendência emergente de formação de alianças estratégicas entre PEMINTECs. Apesar das evidências, nenhum trabalho que busque compreender tal tipo de colaboração foi identificado na vasta pesquisa bibliográfica empreendida por este autor na literatura nacional e internacional. A compreensão das relações estabelecidas entre essas empresas concentra-se no estudo de clusters, APLs7, SLPs8 (Amato, 2000; Redesist) e redes de relacionamento9 (Aldrich, 1999; Barnir e Smith, 2002; Birley, 1985; Butler e Hansen, 1991; Larson e Starr, 1992). Segundo Lechner e Dowling (2003), redes de relacionamento, baseadas PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CA em atividades interorganizacionais, têm-se mostrado um modelo organizacional alternativo eficiente para garantir o crescimento das PEMINTECs. A experiência obtida na gerência dessas redes de relacionamento, na fase de criação das PEMINTECs, permite que estas entrem em alianças estratégicas futuras com uma visão muito mais clara daquilo que pretendem, sabendo em que concentrar recursos e esforços. Assim como ocorre entre as grandes empresas, as PEMINTECs têm formado entre si alianças estratégicas com o objetivo de criar vantagens competitivas. Apesar de adotarem a mesma estratégia, não buscam apenas agregar os recursos e competências complementares a fim de atingir uma significativa redução de custos para oferecer aos consumidores produtos e serviços a baixo preço e com alta qualidade. Essas alianças também se diferenciam daquelas formadas entre PEMINTECs e grandes empresas, pois os recursos organizacionais, como produção, distribuição, marketing e canais de venda, geralmente não inexistente em ambas. 7 ARRANJO PRODUTIVO LOCAL: aglomerado de empresas de um determinado segmento de atividade, que concentra também um conjunto de organizações e instituições provedoras de insumos e serviços que aumentam a eficiência coletiva e a integração entre os agentes. 8 SISTEMA LOCAL DE PRODUÇÃO: arranjo produtivo que se caracteriza pela existência de fortes relações interfirmas, interdependência e um sistema próprio de governança que coordena as ações dos atores envolvidos. 9 REDES DE RELACIONAMENTO: grupo de entidades (empresas, pessoas e associações) em torno de atividades em comum. Para uma empresa, uma rede consiste de todos os relacionamentos com outras entidades que influenciam de alguma maneira seu funcionamento. 44 Para tentar compreender as alianças estratégicas entre PEMINTECs, primeiramente será apresentada uma revisão da literatura, apontando a definição e os conceitos centrais que servirão de fundamento para o estudo de alianças estratégicas em condições de incerteza tecnológica, ambiente comum às PEMINTECs. Em seguida indicar-se-á o referencial de análise que servirá de base a este estudo. Por fim, apresenta-se um modelo conceitual calcado na Visão da Firma Baseada em Recursos, a partir do qual se procederá à análise da aliança estratégica formada entre a Gavea Sensors e a Fiber Sensing, duas PEMINTECs. 3.2 Conceitos Centrais e Definições PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CA Aliança é um arranjo voluntário que consiste na troca, no compartilhamento ou no co-desenvolvimento de produtos, tecnologias, processos ou serviços (Gulati, 1998) entre empresas concorrentes diretas. A aliança é dita estratégica quando estabelecida com vistas à manutenção ou criação de vantagem competitiva (Macedo-Soares, 2002). De acordo com as motivações e objetivos, alianças estratégicas podem assumir uma ampla variedade de tipos, formas e estruturas. Quanto às motivações para a realização de alianças estratégicas, Barney (1996) aponta sete fatores determinantes da tomada de decisão: 1.º) Economia de escala. Compartilhando de forma coordenada a produção das empresas, é possível aumentar-se a quantidade produzida, com redução do custo unitário de cada produto e aumento da margem; 2.º) Aprendizado com os concorrentes. Por meio da aliança, as empresas podem assimilar competências e habilidades de seus competidores, que, por sua vez, terão interesse em cooperar, pois a empresa aliada será mais competitiva no mercado referente à aliança; 3.º) Gerenciamento de riscos e compartilhamento de custos. Consiste na divisão dos custos entre as empresas aliadas; 4.º) Redução dos custos de entrada em novos mercados. Esta redução torna-se possível com a troca de alguns recursos entre as empresas aliadas, como 45 conhecimento do mercado local, acesso a redes de distribuição e conhecimento político; 5.º) Redução do custo de entrada em novos setores ou em novos segmentos do setor. Esta redução é obtida por meio do compartilhamento de competências entre as empresas aliadas; 6.º) Gerenciamento das incertezas. Com as alianças é possível reduzir a chance de fracasso de entrada em um mercado desconhecido ou de um determinado investimento; 7.º) Facilidade de formação de conluio tácito. As alianças facilitam a troca de informações, normalmente dificultada pelas restrições legais na comunicação entre empresas concorrentes na mesma indústria. A escolha de parceiros não ocorre de forma aleatória, mas sim, como PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CA sugerem Hitt et al., (apud Fensterseifer e Wilk, 2003), segundo padrões bem definidos. Empresas em mercados emergentes são mais propensas a selecionar parceiros com base em compartilhamento de ativos financeiros, capacitações técnicas, ativos intangíveis e expertises. Empresas em mercados desenvolvidos, por sua vez, mostram-se mais interessadas em alavancar sua base de recursos, enfatizando fatores como competências únicas e conhecimento de mercados específicos. Nos dois casos, as firmas buscam recursos complementares (Harrison et al., 2001). Tavares (2002) apresenta uma lista dos cinco fatores considerados mais importantes na escolha de parceiros para novas alianças estratégicas: 1.º) compartilhamento de riscos; 2.º) busca de recursos físicos, financeiros, humanos; 3.º) busca de competências e conhecimento complementar; 4.º) busca de informações ou relações sociais proporcionadas pelos relacionamentos existentes ou pela própria rede de relacionamentos e 5.º) experiência estabelecida anteriormente. Quanto ao número de parceiros, as alianças podem-se classificar como bilaterais – formadas entre duas empresas – ou multilaterais, constituídas por três ou mais empresas (Doz & Hamel, 2000). No que concerne aos objetivos dos parceiros, segundo Barney (1996) as alianças também podem-se classificar em simétricas, assimétricas ou mistas. Simétricas quando os parceiros buscam os mesmos objetivos; assimétricas quando 46 os objetivos são distintos, e mistas quando coexistem empresas voltadas para o mesmo objetivo e outras com objetivos distintos. Quanto à estrutura de capital das alianças, Barney (1996) propõe duas tipologias: • Equity Alliance (aliança com participação acionária): neste caso, as empresas aliadas trocam ações entre si. Alianças do tipo equity incluem joint-ventures10, trocas cruzadas de ações, fusões e aquisições. • Non-Equity Alliance (alianças sem troca de participação acionária): Neste caso, envolvem apenas a cooperação operacional. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CA A duração das alianças é outro ponto fundamental a ser considerado. Segundo Doz & Hamel (2000), as alianças necessitam desenvolver-se em longo prazo para potencializar seus resultados e criar valor. Para isso é necessário capacidade de aprender e de se flexibilizar frente às mudanças e incertezas do cenário competitivo. Duysters et al. (1999), baseados no levantamento de dezesseis autores, listaram os principais motivos de insucesso ou de encerramento prematuro das alianças: 1) objetivos e metas divergentes e falta de estratégia clara que dê fundamentação à aliança; 2) problemas entre os sócios; 3) relacionamento entre empresa forte e fraca e entre empresas fracas; 4) culturas (nacionais e organizacionais) incompatíveis; 5) falta de confiança no compartilhamento de informação entre as partes; 6) Interesse nos mesmos mercados; 7) problemas de relacionamento entre as pessoas participantes; 8) falta de compromisso de uma das partes; 9) fracasso no atingimento dos objetivos estabelecidos e pressão de tempo; 10 JOINT-VENTURES são formas de aliança que envolvem a criação conjunta de uma companhia distinta e legalmente formalizada, na qual os parceiros provêem recursos necessários até que o empreendimento esteja apto a operar de maneira independente. 47 10) falta de reconhecimento da evolução da aliança; 11) incentivos assimétricos; 12) alta complexidade; 13) aprendizado desigual; 14) aspectos financeiros. De forma geral, as empresas têm-se preocupado apenas com os retornos financeiros que as alianças podem proporcionar, retornos esses que nem sempre ocorrem no curto prazo. Existem outros benefícios intangíveis, tais como a transferência de tecnologia, o compartilhamento de riscos e o conhecimento de mercados, que muitas vezes não são devidamente reconhecidos na avaliação da aliança. Esses benefícios intangíveis podem contribuir para maiores retornos PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CA financeiros no longo prazo, o que nem sempre é avaliado de forma criteriosa na aliança, levando-a a ser encerrada antecipadamente. 3.3 Alianças Estratégicas em Condições de Incerteza Tecnológica Para empresas inseridas em ambientes de alto nível de incerteza tecnológica, alianças estratégicas podem viabilizar novas soluções de produtos e serviços, o que seria impossível, impraticável ou até mesmo indesejável, para cada empresa isoladamente (Minshall, 2003). Em alguns casos, um novo produto depende de um processo de desenvolvimento conjunto entre algumas empresas, devido à diversidade e complexidade de inovações tecnológicas envolvidas. Exemplos incluem a televisão de alta resolução - HDTV, o disco de vídeo digital DVD e a tecnologia GSM para aparelhos celulares. Outro exemplo mais recente é a tecnologia de Redes de Bragg em fibra óptica, que tem despertado a atenção das empresas para a importância de se estabelecer uma plataforma tecnológica que inclua diversos tipos de sensores, sistemas de leitura e software de gestão de dados. Atualmente, grande parte dessas empresas apresenta sensores cujas características ópticas e mecânicas estão baseadas em padrões próprios. O mesmo acontece com os sistemas de leitura que, em alguns casos são compatíveis apenas com sensores específicos. Ainda não 48 existe uma plataforma tecnológica definida para sensores e sistemas de leitura baseados na tecnologia de Redes de Bragg em fibra óptica, o que tem levado algumas empresas a formarem alianças estratégicas a fim de aumentar seus portfólios conjuntos, bem como a massa crítica para definir padrões mais apropriados para os produtos baseados nessa tecnologia. Como tem ocorrido com outras tecnologias, é muito provável que em cinco ou dez anos o padrão estabelecido por uma ou duas empresas seja aquele que será amplamente adotado pelo mercado, levando as demais a adotar o mesmo padrão ou sair do mercado. No início da década de 80, existiam no mercado mais de 200 tipos de PCs incompatíveis (Chposky & Leonis, apud Minshall 1999). Apenas cerca de cinco desses sistemas sobreviveram nos anos noventa. Como mencionado no Capítulo 2, a incerteza tecnológica caracteriza as PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CA fases iniciais de desenvolvimento de uma tecnologia. A indústria de sensores a fibra óptica encontra-se nesse estágio de desenvolvimento, marcado por consumidores adeptos iniciais e várias plataformas distintas competindo para se estabelecer como padrão dominante. Muitos estudos sobre o uso de alianças estratégicas em condições de alto nível de incerteza tecnológica têm focado a contribuição de cada empresa parceira para o aumento da capacidade de inovação (Granstrand et al., 1992; Osborn e Baughn, 1990; Bidault e Cummings, 1994). Essa habilidade baseia-se na aquisição, no desenvolvimento, no gerenciamento e na exploração de um recurso específico, a tecnologia (Granstrand et al., 1992). Segundo Minshall (2003), alianças estratégicas parecem ser um meio eficiente para promover a inovação, desde que sirvam de mecanismo que permita o acesso a diversos recursos tangíveis e intangíveis disponíveis em cada empresa e diminuam o risco associado à incerteza tecnológica. Bidault e Cummings (1994), enumeram os principais motivos para se formar uma aliança com o propósito de promover a inovação: • alianças constituem um caminho rápido e barato para desenvolver novos produtos e processos; 49 • cooperação em Pesquisa e Desenvolvimento permite que parceiros alcancem uma massa crítica de recursos humanos e financeiros necessários a grandes projetos; • o conhecimento de tecnologias emergentes e as habilidades de diferentes empresas podem promover o processo de inovação. Aparentemente são positivos os benefícios de uma aliança com o propósito de promover a inovação; no entanto, Bidault e Cummings (1994) alegam existir uma ‘tensão fundamental’ entre a dinâmica do processo de inovação e a lógica necessária ao sucesso de uma cooperação. O processo de inovação é ambíguo, não-linear e possui um elevado grau de incerteza. O risco apresenta-se, pois, como uma característica inerente a esse processo, muitas vezes desordenado e sujeito a PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CA constantes mudanças. Cooperação, ao contrário, deve ser um processo transparente e coordenado, com metas bem definidas entre as partes. Apesar dessa incompatibilidade, alianças estratégicas são comuns em condições de alto nível de incerteza tecnológica (Osborn e Hagedoorn, 1997). Uma das razões para o sucesso dessas alianças encontra-se na ligação entre o objetivo da aliança e sua estrutura financeira. Para Hagedoorn e Narula (1996), alianças do tipo non-equity proporcionam um ambiente mais apropriado para a inovação do que as do tipo equity. As primeiras são mais flexíveis, permitindo renegociações, o que é fundamental para o êxito de um processo sujeito a mudanças, como o de inovação. Além disso, também podem promover a troca de informações e o desenvolvimento de uma linguagem comum de maneira mais eficiente do que as joint ventures ou alianças com trocas cruzadas de ações. Já as alianças do tipo equity são mais sujeitas a questões de controle, como o acompanhamento de metas, criação de índices para acompanhamento do desempenho e tomada de ações corretivas. Para Minshall (2003), a habilidade de formar e gerenciar uma aliança do tipo non-equity é uma ferramenta estratégica e essencial para empresas que buscam competir em ambientes de alto nível de incerteza tecnológica permeado por tecnologias emergentes. Essa capacidade pode ser considerada como uma competência organizacional distintiva, que proporciona um mecanismo para acessar e reconfigurar recursos em resposta às condições de mudança. Essa 50 competência organizacional pode ser desenvolvida de maneira a permitir que a empresa aumente a fronteira de seus recursos acessíveis. 3.3.1 Referencial analítico A principal abordagem teórica para o entendimento de como surgem e funcionam alianças estratégicas tem sido a economia dos custos de transação (Hennart 1988, 1991; Pisano e Teece 1989; Shan 1990; Williamson 1991). De acordo com essa teoria, a decisão de ingressar em uma aliança baseia-se na minimização da soma dos custos de transação e produção. A economia dos custos de transação tem sido eficiente na avaliação de integrações verticais entre PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CA fornecedores e compradores em indústrias maduras, como a automobilística, ou ainda, no uso de equity, como mecanismo de governança (Hennart 1991, Osborn e Baughn 1990). No entanto, a lógica da minimização dos custos de transação não captura as diversas vantagens estratégicas das alianças, tais como aprendizado, criação de legitimidade e a rápida entrada em novos mercados (Eisenhardt e Schoonhoven, 1996). Como Ghosal e Moran (1995) observaram, essa teoria é mais relevante na eficiência estática e em situações de rotina, incompatíveis com as condições de incerteza e intenso dinamismo dos mercados atuais, em especial aqueles guiados por tecnologias emergentes, o que sugere uma diferente abordagem para dar início aos estudos da terceira geração de alianças estratégicas. Novos modelos e teorias têm sido propostos, como a dos jogos (Parkhe, 1993), o modelo de comportamento estratégico (Hagedoorn, 1993; Porter, 1985), o de tomada de decisão estratégica (Das & Teng, 1999, Tyler & Steensma, 1995, 1998), a teoria de troca social (Axelrod, 1984; Blau, 1964) e a da dependência de poder (Chisholm, 1989; Pfeffer & Salancik, 1978; Schmidt & Kochan, 1977; Van de Vem & Walker, 1984). Todos esses trabalhos têm provado ser úteis no entendimento das alianças estratégicas; no entanto, não consideram a importância dos recursos de cada empresa integrados aos fatores externos característicos do ambiente competitivo no qual estão inseridas as organizações. Segundo Day e Reibstein (1999), para uma análise estratégica mais completa, os fatores internos das empresas (forças e fraquezas) e os externos 51 (oportunidades e ameaças) devem ser considerados de forma integrada, em função das influências mútuas entre os fatores organizacionais e os macroambientais. É inegável a importância de se considerarem os fatores internos e os externos da empresa para uma análise estratégica mais completa; no entanto, uma ênfase considerável tem sido usualmente dada aos fatores externos, como a teoria do posicionamento, segundo a qual a estratégia competitiva visa estabelecer uma posição lucrativa e sustentável contra as forças que determinam a concorrência na indústria (Porter, 1990). Barney (1991), por exemplo, pondera que modelos estratégicos baseados unicamente na análise ambiental tecem considerações irreais acerca da homogeneidade das empresas. Segundo Das & Teng (2000), as alianças estratégicas são essencialmente o resultado da integração dos recursos das empresas aliadas. Na visão desses PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CA autores, a estratégia competitiva da empresa é mais influenciada pelo acúmulo de seus recursos do que pelo ambiente competitivo onde está inserida. Assim, a empresa deve dar mais atenção aos próprios recursos do que ao ambiente competitivo. Para Rumelt (1984), a posição competitiva de uma empresa é definida pelo conjunto singular de recursos e relacionamentos. Ao contrário das teorias que buscam avaliar a estratégia competitiva focando apenas os fatores externos, a Visão da firma Baseada em Recursos - VBR busca avaliar a estratégia competitiva a partir dos aspectos internos da empresa, ou melhor, a partir de seus recursos. Apesar de apresentar-se como um enfoque promissor para o estudo da competitividade, ainda são poucos os trabalhos que avaliam as alianças estratégicas com fundamento na VBR. Contribuindo para os estudos da primeira geração de alianças estratégicas, Das & Teng (2000) propuseram um modelo amplo, que busca cobrir os quatro principais aspectos das alianças estratégicas: a sinergia do conjunto de recursos das duas empresas, a formação, a preferência estrutural e o desempenho. Outros autores abordaram apenas aspectos específicos das alianças, como o conhecimento organizacional (Kogut, 1988) e os negócios internacionais (Blodgett, 1991; Lyles & Salk, 1997). Na literatura nacional, Fensterseifer e Wilk (2003) basearam-se na VBR para desenvolver um modelo dinâmico para análise de alianças, aplicado, como caso ilustrativo, a uma empresa do setor automotivo. 52 A VBR também tem contribuído para os estudos da segunda geração de alianças estratégicas. Eisenhardt e Schoonhoven (1996) combinam fatores estratégicos e sociais para prever a formação de alianças estratégicas na indústria de semicondutores. Minshall (1999, 2003) examina o papel das alianças estratégicas no desenvolvimento de um novo setor da indústria e no modelo de negócios de PEMINTECs de base universitária. Neste trabalho, a perspectiva da VBR servirá de base para o estudo da terceira geração de alianças estratégicas. Esse enfoque é particularmente apropriado ao presente estudo, pois as PEMINTECs buscam alianças essencialmente para acessar recursos valiosos de outras empresas. Nesse sentido, será apresentado, a seguir, um resumo dessa abordagem. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CA 3.3.1.1 Visão da firma baseada em recursos A Visão da firma Baseada em Recursos tem suas raízes nos estudos de Penrose (1959) e Selznick (1957) e, em sua forma moderna, vem sendo objeto de estudos de Wernerfeldt (1984), Rumelt (1984), Dierickx e Cool (1989), Barney (1991, 2001), Teece (1986), Grant (1991), Mahoney e Pandian (1992), Amit e Schoemaker (1993), Peteraf (1993), Teece, Pisano e Shuen (1997), Lockett e Thompson (2001) e Mahoney (2001), entre outros. Essa abordagem vem-se consolidando como um enfoque alternativo e promissor para o entendimento das organizações industriais e suas estratégias competitivas. De acordo com essa visão, cada empresa pode ser percebida como um grande conjunto de recursos cuja forma de utilização produtiva depende da capacidade de seus gestores em reconfigurá-los. Se tais recursos são raros, escassos, especializados, complementares e capazes de adicionar valor efetivo aos produtos e serviços, podem ser utilizados como fontes de vantagem competitiva, conduzindo as empresas que os utilizam a um desempenho superior. Esse é o princípio central da Visão da Firma Baseada em Recursos. Para a melhor compreensão dessa abordagem, dois aspectos fundamentais devem ser considerados: a definição de categorias e tipos de recursos e a distinção das condições que definem o seu valor estratégico, como apresentado a seguir: 53 Penrose (1959) e Barney (1991) sugerem três categorias principais de recursos: físicos, como instalações e equipamentos; humanos, constituídos pelos colaboradores da empresa; e organizacionais, formados pelas rotinas que coordenam os recursos humanos e físicos de modo produtivo. Grant (1991), por sua vez, propõe uma classificação em recursos tangíveis, os quais podem ser observados e avaliados com clareza, tais como recursos humanos, financeiros e equipamentos, e recursos intangíveis, os quais não podem ser diretamente observados, tais como o conhecimento, a cultura organizacional, a reputação da empresa, habilidades tecnológicas ou gerenciais não documentadas e os relacionamentos com fornecedores e clientes, entre outros. Peteraf (1993) busca sintetizar em quatro macrocondicionantes os fatores que distinguem o valor estratégico de cada recurso: a) a heterogeneidade, que PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CA envolve situações em que a presença de recursos estratégicos é limitada em quantidade e, ao mesmo tempo, escassa em relação à demanda; b) a imperfeita imobilidade, que significa que, apesar de um recurso poder ser negociado, é mais valioso na empresa em que atualmente é empregado do que em outra; c) o limite à competição ex-ante, que implica existir uma competição limitada por um recurso antes que este seja adquirido por uma empresa; e d) o limite à competição ex-post, que implica que, após uma empresa adquirir uma posição de vantagem por um conjunto de recursos heterogêneos em relação aos seus concorrentes, devem existir fatores que permitam a durabilidade dessa condição de heterogeneidade, de forma a preservar-se a posição superior adquirida. 3.3.1.2 Modelo conceitual de análise Para configurar o estudo de caso da aliança estratégica formada entre a Gavea Sensors e a FiberSensing, será utilizado um modelo conceitual, inicialmente proposto por Teece et al. (1992) e posteriormente desenvolvido por Minshall (1999) (figura 4 e quadro 1). Esse modelo, baseado na VBR, que tem na simplicidade sua força, busca analisar a aliança estratégica sob uma perspectiva de desenvolvimento da capacidade organizacional em ambientes competitivos com 54 alto grau de incerteza, guiados por tecnologias emergentes, o que torna especialmente adequado o estudo de alianças estratégicas entre PEMINTECs. Esse modelo proporciona uma linguagem apropriada à discussão do uso de alianças estratégicas em termos de recursos (tangíveis e intangíveis, essenciais e complementares), competências (a maneira como os recursos são configurados para adicionar valor) e aptidão organizacional (a maneira como as empresas aprendem a reconfigurar seus recursos). Embora fortemente baseado na VBR, o modelo também permite considerações de como o ambiente competitivo impacta a decisão estratégica da empresa, atendendo parcialmente ao que Day e Reibstein (1999) classificam como essencial a uma análise estratégica mais completa - a consideração de forma integrada dos fatores internos (forças e fraquezas) e dos fatores externos (oportunidades e ameaças) das empresas. Adicionalmente, o PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CA modelo permite considerações de como as experiências anteriores e dependências de trajetória impactam a decisão estratégica da empresa. Experiência anterior e dependência da trajetória Determinará Ambiente competitivo Recursos Os recursos tangíveis e intangíveis específicos Incerteza Restringir/ habilitar Dinamismo Oportunidades Desafios da empresa Competências A configuração dos recursos que formam habilidades especificas e distintivas. Aptidão Os processos que permitem à empresa reconfigurar os recursos Estratégia que garanta crescimento Desempenho da empresa Implementação da estratégia Pode mudar Figura 4: Modelo conceitual (Minshall, 1999) 55 Quadro 1: Terminologia (Minshall, 1999) Recursos essenciais Recursos complementares Competências PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CA Aptidão Ambiente competitivo Experiências anteriores e Dependência da trajetória O conjunto de recursos tangíveis e intangíveis específicos da empresa. Incluem o conhecimento da tecnologia, habilidades pessoais, marcas, patentes, nomes e contratos. Os recursos adicionais que podem ser adquiridos para combinação com os recursos essenciais a fim de formar competências. Compreendem vendas, distribuição, tecnologias complementares ou estrutura de produção. A maneira como os recursos essenciais e complementares são agrupados a fim de formar habilidades específicas e distintivas. Os processos e rotinas que permitem à empresa reconfigurar seus recursos. Incluem concentração, acúmulo, conservação, recuperação e complementação de recursos. A influência da pressão competitiva no ambiente externo irá influenciar a velocidade e a maneira como a empresa deverá reconfigurar os recursos. As atividades e investimentos anteriores da empresa, de certa forma, restringem seu comportamento. O esforço para reconfigurar e adaptar os recursos está naturalmente associado ao sucesso das atividades prévias. O primeiro passo para a aplicação deste modelo é a identificação dos recursos essenciais da empresa. Em seguida, deve ser feito um levantamento dos recursos complementares a serem buscados nas alianças estratégicas que, devidamente agrupados aos recursos essenciais, permitam a empresa formar habilidades específicas e distintivas. Estas, por sua vez, devem ser devidamente reconfiguradas, a partir de processos e rotinas que permitam a implementação da estratégia que garanta crescimento, levando-se sempre em consideração a maneira como o ambiente competitivo, as experiências anteriores e a dependência de trajetória impactam essa estratégia. 4 Aliança Estratégica entre Gavea Sensors e Fibersensing 4.1 Sensores a Fibra Óptica A fibra óptica é uma das principais revoluções dos tempos modernos. Sua aplicação mais conhecida situa-se no âmbito das telecomunicações, mas sua crescente utilização como elemento sensor vem despertando o interesse de alguns setores da indústria, dada a possibilidade de se medir praticamente qualquer grandeza física por meio de fibra óptica, tais como: baixo peso, tamanho reduzido, PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CA alta flexibilidade e resistência, imunidade eletromagnética, isolamento elétrico e transmissão de sinal a longas distâncias. Posição, pressão, aceleração, deslocamento, rotação, umidade, temperatura, deformação, corrente elétrica, tensão elétrica, campos eletromagnéticos, entre outras grandezas, também podem ser medidas com sensores a fibra óptica. Essas grandezas, porém, não são medidas diretamente, mas sim a intensidade, o comprimento de onda, a fase ou a polarização da luz transmitida pela fibra óptica, que varia de maneira conhecida com o mensurado. O modo de operação dos sensores a fibra óptica pode ser digital ou analógico, e a quantidade da grandeza medida é determinada de maneira absoluta, relativa ou incremental, dependendo do tipo de sensor. Sensores a fibra óptica podem ser classificados em dois grandes grupos: os extrínsecos e os intrínsecos. Nos sensores extrínsecos, a interação da luz com o mensurado não ocorre dentro da fibra óptica, que serve apenas como meio de transmissão da luz. Esses sensores são simples, baratos e oferecem um grande número de soluções já disponíveis no mercado. Muitos deles medem diretamente a intensidade de luz refletida do mensurado, sendo grande parte usada para detecção de presença de pessoas, vazamento de líquidos e alarmes contra incêndio. Nos sensores intrínsecos, a interação da luz com o mensurado ocorre no núcleo da fibra óptica. Esses sensores são mais complexos e caros, havendo ainda poucas soluções disponíveis no mercado. Eles medem diretamente o comprimento 57 de onda, a fase ou a polarização da luz transmitida pela fibra óptica, que varia de maneira conhecida com o mensurado. Esses sensores medem praticamente qualquer grandeza física. Apesar de ainda caros e com poucas soluções disponíveis no mercado, os sensores intrínsecos apresentam diversas vantagens em relação aos extrínsecos, entre as quais a garantia de medidas com grande exatidão e estabilidade, além da possibilidade de distribuição de medidas ao longo de uma única fibra óptica. Um dos principais motivos do recente sucesso dos sensores intrínsecos está no uso crescente de Redes de Bragg em fibras, como elemento sensor. 4.1.2 PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CA Redes de Bragg em fibra As Redes de Bragg em fibras são largamente utilizadas na indústria de telecomunicações. No entanto, é na área da monitoração que esses dispositivos têm encontrado uma gama de aplicações verdadeiramente notável: engenharia civil e naval, geotecnia, indústrias aeronáutica, petrolífera, química e automotiva, redes de energia, parques eólicos, medicina, dentre outras. O crescente interesse na aplicação dessa tecnologia como elemento sensor deve-se às vantagens da fibra óptica associadas à possibilidade de se medir com elevada exatidão, simultaneamente e em tempo real, diversas grandezas ao longo de uma única fibra. A grande capacidade de integração desses sensores em redes é outra característica importante em diversas aplicações. As primeiras pesquisas envolvendo Redes de Bragg em fibra ocorreram em Hartford, EUA, e Ottawa, Canadá, em meados dos anos 80. Contudo, os resultados dessas experiências foram mantidos confidenciais e só alguns anos mais tarde seriam tornados públicos. Desde então, vários laboratórios universitários e centros de pesquisa vêm desenvolvendo aplicações com sensores a rede de Bragg; no entanto, apenas no final dos anos 90 surgiram as primeiras empresas dedicadas ao desenvolvimento de soluções comerciais. 58 4.1.2.1 Princípios de funcionamento Uma rede de Bragg é essencialmente uma microestrutura de dimensões reduzidas (~ 1 cm), que pode ser inscrita no núcleo de uma fibra óptica (Ønúcleo ≈ 10 µm, Øfibra ≈ 125 µm) por métodos diversos, utilizando radiação UV. Essa microestrutura, também chamada rede de difração de Bragg, consiste numa pequena alteração periódica e localizada do índice de refração, que tem origem num mecanismo físico: a fotossensibilidade. Fibra óptica PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CA Rede de Bragg Luz inserida Fibra óptica Luz refletida Luz transmitida Figura 5: Princípio de funcionamento de Redes de Bragg em fibra óptica Fonte: Morikawa et al., 2005 Quando a luz proveniente de uma fonte de espectro largo (por exemplo, um LED- light emitter diode) é guiada pela fibra, tal como indicado na figura 5, e incide na rede de difração, ocorre espalhamento de luz nos planos consecutivos da rede. De uma forma simplificada, pode-se dizer que para cada rede há um determinado comprimento de onda para o qual é satisfeita uma condição de ressonância em que as ondas geradas em cada plano estão em fase, originando uma reflexão forte. Esse comprimento de onda é denominado comprimento de onda de Bragg, λB, e a dependência no período da rede de difração, ΛB, é dada por λB = 2nef ΛB, 59 em que nef é o índice de refração efetivo correspondente ao modo guiado pela fibra óptica. Ao depender desse índice associado ao modo guiado pela fibra, o comprimento de onda de Bragg, λB, será, também, função de todas as grandezas físicas que possam alterar esses parâmetros, interagindo na fibra óptica que contém a rede de difração de Bragg. Pode, assim, falar-se de sensores de Bragg em fibra óptica. Tal como a maioria dos sensores de fibra óptica, os sensores de Bragg são intrinsecamente sensíveis à temperatura, às deformações axial e transversal, à pressão e, em situações particulares, ao campo magnético. Mas por intermédio dessa sensibilidade, principalmente da deformação axial, os sensores de Bragg podem ser utilizados na medição de uma grande variedade de grandezas físicas. Esses sensores respondem então a um conjunto diverso de grandezas físicas, PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CA refletindo um sinal óptico com uma assinatura espectral bem definida, descrita por uma função aproximadamente Gaussiana, estreita e centrada no comprimento de onda de Bragg. A ação do parâmetro a medir traduz-se numa alteração dessa assinatura espectral evidenciada, a maior parte das vezes por uma variação do comprimento de onda de Bragg. De forma a alargar o mais possível o leque de aplicações dos sensores de Bragg, torna-se necessário desenvolver sistemas de interrogação capazes de medir esse desvio de comprimento de onda de forma eficiente, permitindo a integração dos sensores de Bragg a sistemas suficientemente fiáveis, robustos e baratos. Os sistemas habitualmente utilizados em laboratório para medir comprimento de onda, nomeadamente monocromadores e analisadores de espectros ópticos, não podem ser encarados como possíveis desmoduladores para os sensores de Bragg devido ao seu elevado preço e falta de robustez. Um sistema de interrogação adequado deve, em primeiro lugar, garantir a transdução da alteração de comprimento de onda num sinal de intensidade, ou outro, mais passível de ser medido pela instrumentação comum. Deve ainda obedecer a alguns requisitos básicos, entre os quais se destacam: alta sensibilidade, isto é, a capacidade de medir desvios de comprimento de onda com resolução elevada; associada a esta resolução, a capacidade de medir largas variações do mensurando; imunidade a flutuações de potência; baixo custo; facilidade de multiplexação; e também estabilidade quanto a perturbações externas, nomeadamente variações de 60 temperatura, em situações em que seja difícil proteger de modo adequado todo o sistema receptor. Ao longo da década de noventa, foram desenvolvidos inúmeros sistemas de interrogação baseados em outros tantos princípios físicos, sendo que os que maior sucesso alcançaram foram os baseados em filtragem espectral e varrimento com laser sintonizável. As redes de Bragg, enquanto sensores de fibra óptica, exibem um conjunto de vantagens comuns a esse tipo de sensores, o que as torna particularmente adequadas a um grande número de aplicações. No entanto, duas características adicionais fazem dessas redes sensores notáveis: a capacidade de multiplexação e a auto-referenciação. Ambas resultam do fato de a grandeza a medir atuar sobre o comprimento de onda ressonante da estrutura, o comprimento de onda de Bragg, que é um parâmetro absoluto. Quer isto dizer que a calibração inicial do sensor PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CA torna desnecessária toda e qualquer recalibração posterior, em claro contraste com o que acontece com o sensor equivalente de base elétrica, o strain gage. As medições podem, assim, ser sempre feitas tendo como referência a primeira medição (quando da fabricação do sensor ou de sua instalação), não sendo afetadas se o instrumento de medição for, por exemplo, desligado. A codificação dos sinais de telemetria em comprimento de onda garante ainda aos sensores de Bragg uma capacidade intrínseca de multiplexação, permitindo que inúmeros sensores possam ser integrados numa só fibra óptica e interrogados, recorrendo a um único equipamento, o que facilita a monitoração quasidistribuída de diferentes parâmetros (Ferreira et al., 2004). 4.1.2.2 Aplicações industriais As características das Redes de Bragg em fibras permitem que os sensores baseados nessa tecnologia encontrem aplicações em diversos setores da indústria, entre os quais se destacam o de petróleo e gás e infra-estrutura civil (gráfico 1). 61 Aplicações industriais de sensores a Rede de Bragg 4% 4% 4% 4% 26% 6% 9% 25% 18% Infra-estrutura civil Petróleo & Gás Aeroespacial Nuclear Medicina Processo Eletrico Automotivo Químico Gráfico 1: Aplicações industriais de sensores a Rede de Bragg PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CA Fonte: Informações cedidas pela Gavea Sensors O setor de petróleo e gás apresenta diversas oportunidades de aplicação para sensores a Redes de Bragg em fibra, seja no segmento de exploração e produção, transporte, armazenamento, refino ou distribuição. Em muitos casos, tecnologias convencionais são incapazes de atender aos anseios por medições mais precisas, em tempo real, em maior número de pontos, sob altas temperaturas e nos ambientes agressivos encontrados em aplicações das diversas áreas dessa indústria. Um dos grandes desafios tecnológicos do segmento de exploração e produção é o monitoramento de parâmetros no fundo do poço de petróleo. Essas informações são fundamentais para se manter a produção do reservatório no ponto ótimo de escoamento, o que significa, a longo prazo, mais volume recuperado com um menor número de intervenções para manutenção. O segmento de transporte também se beneficia dessa tecnologia, pois longos trechos de dutos podem ser monitorados em tempo real, prevendo vazamentos. No setor de infra-estrutura civil, sensores a rede de Bragg ganham destaque, pois as técnicas tradicionais existentes para inspeção e manutenção das grandes estruturas podem ser úteis em uma análise inicial, mas não são totalmente eficientes, pois exigem muito tempo, um forte investimento em recursos humanos e equipamentos, além de serem incapazes de oferecer medições precisas, tanto em tempo real, quanto em número elevado de pontos, principalmente quando 62 submetidas a altas temperaturas e ambientes agressivos. A tecnologia de redes de Bragg em fibra óptica permite um acompanhamento dos eventos em tempo real, possibilitando a medição de diversas variáveis em diferentes pontos e através de uma única fibra óptica. Essa característica possibilita o monitoramento em todas as fases importantes da implementação estrutural: durante a construção, permitindo que ajustes de diferentes parâmetros da estrutura sejam feitos em tempo real; durante os testes de carga, com o intuito de assegurar à estrutura a plena confiabilidade para a operação; e durante a vida útil da estrutura, permitindo vigilância constante e manutenção preditiva, o que reduz os custos relacionados à manutenção. 4.1.2.3 PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CA O mercado Segundo estudos da Intechno Consulting, 1999, o mercado global de sensores vem crescendo nos últimos cinco anos a uma taxa média anual equivalente a 4,5%, e estima-se que atinja uma dimensão de U$50 bilhões em 2008. Os países da Europa ocidental são responsáveis por 32% desse mercado, seguidos dos Estado Unidos, com 29%, e do Japão, com 20%. A indústria automotiva demanda 26%, seguida das indústrias de processo, com 18%, e de construção civil, com 11%. Dos diversos tipos de sensores, os mais utilizados são aqueles que medem temperatura, pressão, vazão, posição e presença, sendo cada um deles responsáveis por 9% do total de sensores fabricados. Adicionalmente, os sensores movimentam mercados com produtos complementares, como “hardware” e software de aquisição e condicionamento de sinais, redes de comunicação e equipamentos para automação e controle. A atual participação dos sensores a fibra óptica no mercado global de sensores ainda é muito pequena, mas apresenta uma taxa média de crescimento anual de aproximadamente 23,5%, de acordo com o levantamento da Intechno Consulting, 1999. Se as principais barreiras de entrada dos sensores a fibra óptica forem superadas (falta de padrões, preços ainda elevados e conservadorismo de algumas indústrias quanto à adoção de novas tecnologias), estima-se que em 2008 63 esse mercado represente cerca de 2,87% do mercado global de sensores, como apresentado no gráfico 2. Crescimento do mercado global de sensores até 2008: participação dos sensores a fibra óptica US$ Milhões 60000 Sensores a fibra óptica Sensores 50000 40000 30000 20000 10000 0 1998 2003 PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CA 2008 Gráfico 2: Crescimento do mercado mundial de sensores: participação dos sensores a fibra óptica. Fonte: Intechno Consulting (1999), Sensor Markets 2008 Sensores a Rede de Bragg representam uma parcela ainda menor do mercado global de sensores, mas a taxa média anual de crescimento, de aproximadamente 34%, indica uma alteração desse cenário nos próximos anos. Um levantamento feito pela Gavea Sensors estima que em 2008 esse mercado deverá atingir uma dimensão de U$416 milhões, como indicado no gráfico 3. Crescimento do mercado mundial de sensores a fibra óptica até 2008: Subdivisão por tecnologia de sensores a fibra óptica 1600,0 US $ Milhões 1400,0 Giroscópio óptico Redes de Bragg 1200,0 Redes longas Brilloin e Ramman 1000,0 Outros 800,0 600,0 400,0 200,0 0,0 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 Gráfico 3: Crescimento do mercado mundial de sensores a fibra óptica até 2008: Subdivisão por tecnologia de sensores a fibra óptica Fonte: Informações cedidas pela Gavea Sensors 64 Esse crescimento está diretamente associado às vantagens tecnológicas das Redes de Bragg e da fibra óptica, bem como à crescente redução do custo dos componentes optoeletrônicos, amplamente usados na indústria de telecomunicações. No entanto, para sustentar tal crescimento é necessário que algumas barreiras sejam superadas, tais como: falta de padrões, elevado custo das unidades de medição, incompatibilidade com equipamentos já existentes e falta de pessoal treinado para instalações em campo. 4.1.2.4 O ambiente competitivo O crescente interesse pela tecnologia de Redes de Bragg em fibra data do PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CA início da década de 90, quando esses dispositivos começaram a ser fabricados em larga escala para atender à indústria de telecomunicações. As pesquisas envolvendo aplicações desses dispositivos como elementos sensores já ocorrem há cerca de vinte anos, porém, limitações técnicas e econômicas só permitiram que os primeiros sensores chegassem ao mercado no final da década de 90. Foi também nessa época que surgiram as primeiras PEMINTECs interessadas em explorar o mercado emergente. A maior parte de spin-offs11 – em grande número originados de laboratórios de universidades, centros de pesquisa ou de empresas fabricantes de dispositivos para a indústria de telecomunicações – buscou financiamento na indústria de capital de risco. Atualmente existem cerca de trinta PEMINTECs concentradas em sua maioria nos Estados Unidos, no Canadá e em países da Europa Ocidental. O relativamente elevado número de empresas é característico de uma nova indústria. Na verdade, muitas dessas empresas possuem ainda um portfolio de produtos muito reduzido e/ou de baixa qualidade. Outras, ainda, oferecem apenas sensores e incorporam em suas soluções unidades de medição de uma empresa que praticamente monopoliza esse mercado. A maioria das empresas dedica-se exclusivamente a um segmento de mercado e suas atuações são 11 Spin-off é a divisão de uma empresa ou laboratório universitário ou de centro de pesquisa que se torna um negócio independente. Em geral, essas empresas recebem capital de risco que lhes permita crescer de maneira independente. A instituição da qual surgiu o spin-off costuma ficar com uma participação minoritária do empreendimento. 65 limitadas regionalmente. O histórico de instalações em campo ainda é reduzido e muito recente, mas seu crescimento tem despertado o interesse de grandes empresas. Os concorrentes das empresas que adotaram a rede de Bragg em fibra como elemento sensor podem ser divididos em três grupos, de acordo com a tecnologia-base: - sensores a rede de Bragg em fibra óptica; - outros sensores a fibra óptica (Fabry-Pérot, Brilloin, Ramman, etc.); - sensores baseados em outras tecnologias. Como mencionado anteriormente, a maioria das empresas que adotaram a PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CA Rede de Bragg em fibra como elemento sensor dedica-se exclusivamente a um segmento de mercado, estando suas atuações limitadas regionalmente, o que diminui o grau de competição entre elas. Adicionalmente, o alto nível de incerteza tecnológica (falta de padronização de parâmetros ópticos e mecânicos dos sensores e o elevado custo das unidades de medição) e de mercado (conservadorismo e aversão ao risco, além da falta de familiaridade dos potenciais usuários com a tecnologia) têm levado a uma crescente tendência de colaboração entre estas PEMINTECs. Muitas dessas empresas percebem, na colaboração com as concorrentes que utilizam a mesma tecnologia, uma oportunidade de acelerar o processo de desenvolvimento de produtos e mercados. Em relação às empresas que adotaram outras tecnologias de sensores a fibra óptica, a oferta ainda é muito limitada, e nenhuma delas oferece o alto nível de integração de diversos tipos de sensores como as Redes de Bragg. Apesar disso, vale destacar o potencial daquelas que adotara tecnologias que permitem medidas distribuídas ao longo da fibra, o que é impossível com Redes de Bragg. No entanto, esforços vêm sendo aplicados no desenvolvimento de novas unidades de medição capazes de garantir centenas de medidas semidistribuídas a baixo custo, com sensores a redes de Bragg. As concorrentes que trabalham com outras tecnologias, por sua vez, podem ser divididas, de acordo com a maturidade da tecnologia-base, em dois subgrupos de empresas: 66 - as de tecnologias convencionais (sensores elétricos, piezelétricos, capacitivos, etc.); - as de novas tecnologias – “MicroEletroMechanical Systems” (MEMS). Relativamente às primeiras, a oferta é extremamente vasta. Há, porém, algumas que merecem especial destaque, quer pela dimensão, quer pela diversidade de soluções que oferecem. Essas concorrentes só não dificultam a penetração dos sensores a Redes de Bragg nos nichos de mercado onde a aplicação de sensores convencionais é tecnicamente inviável. Já nos demais pontos do mercado, o uso de sensores a Redes de Bragg – por só se justificar economicamente em grandes estruturas que demandem em média mais que cinqüenta sensores – ainda fica de certa forma prejudicado pelas referidas PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CA concorrentes. Com a redução do custo das unidades de medição e o desenvolvimento de novos sensores, a substituição dos convencionais por sensores a Redes de Bragg será uma tendência natural do mercado, pelo menos em grande parte das aplicações. No que concerne às empresas de sensores baseados em novas tecnologias, podem-se destacar aquelas que utilizam MEMS para desenvolver sensores wireless. A facilidade de instalação e manutenção, bem como o grande potencial de integração em redes fazem desses sensores a grande aposta do mercado. Se as barreiras tecnológicas ainda existentes forem superadas, essas empresas serão, provavelmente, as maiores concorrentes daquelas baseadas em Redes de Bragg em fibra, quando a aplicação de sensores wireless for tecnicamente viável. Assim como os MEMS, novas tecnologias permitirão o desenvolvimento de novos sensores que eventualmente competirão com aqueles baseados em Redes de Bragg em fibra. Apesar disso, as barreiras tecnológicas e de mercado, comuns a quaisquer novas tecnologias, estenderão a competição com os sensores a Redes de Bragg, a médio e longo prazo. 67 4.2 A Gavea Sensors A Gavea Sensors – a primeira empresa brasileira a desenvolver soluções de monitoramento por sensores a fibra óptica, em especial os baseados em redes de Bragg em fibra – é uma spin-off do Laboratório de Sensores a Fibra Óptica (LSFO) do Departamento de Engenharia Mecânica, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), o que garante o compromisso permanente com a pesquisa e o desenvolvimento na busca de excelência tecnológica e padrões de competitividade compatíveis com as exigências dos mercados internacionais. Desenvolve, fabrica e comercializa sensores e unidades de medição baseados na tecnologia de redes de Bragg em fibra, assim como software para aquisição e PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CA gestão de dados. Seu principal mercado de atuação é a indústria de petróleo e gás. 4.2.1 Histórico Em alguns departamentos da PUC-Rio desenvolvem-se atividades relacionadas a fibras ópticas desde o final da década de 1980, incluindo projetos de pesquisa básica e aplicada. Em 1996, foi iniciou-se, no Departamento de Física da mesma Universidade, um projeto cujo objetivo era montar o primeiro sistema de fabricação de Redes de Bragg no Brasil. Em paralelo às atividades em fibras ópticas do Departamento de Física, o Departamento de Engenharia Mecânica (DEM/PUC-Rio) vinha construindo uma tradição de pesquisa em diversas frentes voltadas para a solução de problemas associados ao setor de petróleo e gás. Com essas duas competências, iniciaram-se, a partir de 1997, os primeiros esforços conjuntos dos dois departamentos para o desenvolvimento de sensores a fibra óptica, em especial os baseados em Redes de Bragg em fibra, para aplicações no setor de petróleo e gás. No ano seguinte, os pesquisadores Arthur Braga (engenheiro mecânico) e Luiz Valente (físico) criaram o Laboratório de Sensores a Fibra Óptica (LSFO) no Departamento de Engenharia Mecânica, com o apoio de projetos de pesquisa financiados pelo CNPq, Petrobras, ANP, e, em especial, pelo fundo CT-PETRO/Finep. 68 Em 2001, o CENPES/Petrobras procurou o LSFO, iniciando assim uma parceria para o desenvolvimento de uma família de sensores baseados em RBF, a serem aplicados em poços de petróleo. O primeiro deles destinava-se à medição de pressão e temperatura no fundo de poços de petrolíferos. O interesse da Petrobras era motivado pela ineficiência dos sensores convencionais e pelo altíssimo custo dos poucos sensores a fibra óptica oferecidos por algumas multinacionais. Em outubro do mesmo ano, realizou-se uma primeira instalação experimental do sensor em um poço-laboratório e, em 2002, ao se completar um ano e meio de projeto, foi instalado um protótipo de campo em um poço de produção da Petrobras, em Mossoró (RN). Como conseqüência do sucesso dessa instalação, uma nova etapa do projeto foi acertada entre as partes, prevendo a PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CA inclusão de pequenos aperfeiçoamentos, a fabricação de setenta unidades a serem utilizadas na qualificação do sensor e o início de outros projetos de desenvolvimento que incluíam medidores de vazão e de abertura de válvulas, além de um medidor de pH. Para a Petrobras, o desenvolvimento dessa tecnologia era tão importante quanto o desenvolvimento de um fornecedor local que atendesse a sua demanda, com preço, qualidade e prazo. Percebendo as oportunidades apresentadas por um novo mercado com enorme potencial de crescimento e considerando a capacitação adquirida nos últimos anos, bem como o forte relacionamento com os potenciais clientes, os doutores Arthur Braga e Luiz Valente decidiram investir na formação de uma empresa que viesse explorar comercialmente os resultados positivos obtidos nos projetos desenvolvidos no LSFO da PUC-Rio. Assim, no final de 2001, aqueles pesquisadores convidaram mais três sócios com competências em áreas distintas e submeteram o plano de negócios ao comitê de avaliação do Instituto Tecnológico Gênesis, da PUC-Rio. Em maio de 2003, os empreendedores se instalaram na incubadora da universidade e em julho do mesmo ano fundaram a Gavea Sensors. Durante os anos de 2003 e 2004, as atividades da empresa estiveram fortemente ligadas aos trabalhos no LSFO. Além dos sensores para fundo de poços de petróleo desenvolvidos para o CENPES/Petrobras, sensores para medição de deslocamento e vibração em cabos de linhas de transmissão foram 69 desenvolvidos para a Expansion, empresa de capital espanhol, concessionária de transmissão da Rede Básica Brasileira. Em 2005 a empresa, buscando divulgar a tecnologia, participou de feiras e eventos. Em paralelo, pesquisou fornecedores e formou parcerias, entre as quais se destacam a aliança estratégica formada com a Fiber Sensing e com a National Instruments, esta, americana, líder mundial em instrumentação virtual, cujos softwares e hardwares são empregados nas unidades de medição e softwares da Gavea Sensors. No final desse ano, a Gavea Sensors contava com dez colaboradores, entre sócios, empregados e estagiários. Em fevereiro de 2006 a Petrobras concedeu à Gavea Sensors licença para fabricação e comercialização dos sensores para fundo de poço. Nessa mesma data a empresa se graduou e se instalou em um galpão em São Cristóvão, com uma PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CA área de aproximadamente 1.100m2, onde atualmente prepara sua linha de produção. O número de colaboradores aumentou para dezoito, estando prevista, para até o final do ano, a contratação de mais um engenheiro e três técnicos. 4.2.2 Financiamento A Gavea Sensors obteve seu primeiro financiamento no final de 2001, antes mesmo de ser constituída. Os empreendedores, em parceria com o Instituto Gênesis da PUC-Rio, submeteram à Finep, com êxito, na carteira CTPETRO/Inovação, o projeto de pré-incubação (Inovação – Fase I) de um empreendimento para comercialização de transdutores a fibra óptica desenvolvidos para o setor de petróleo e gás. Esse recurso, a fundo perdido, financiou a realização de um estudo de mercado e a formulação do plano de negócios da empresa. Durante 2003 e 2004, o LSFO, em parceria com a Gavea Sensors, obteve aprovação pela FINEP, dentro de carteiras do CT-PETRO e CT-ENERG, de quatro projetos de pesquisa. Esses recursos, a fundo perdido, destinaram-se ao desenvolvimento de diversos sensores para os mercados de petróleo e gás, infraestrutura civil e setor elétrico, que futuramente serão comercializados pela empresa. Em 2005, a Gavea Sensors recebeu aprovação pela FAPERJ de dois 70 projetos. Os recursos solicitados, também a fundo perdido, têm servido ao desenvolvimento final e à comercialização inicial de sensores para detecção de vazamento e discriminação de fluidos. Em 2006, a FINEP aprovou o projeto de graduação. Com os recursos daí advindos, também a fundo perdido, a empresa saiu da incubadora e atualmente estrutura sua linha de produção. Além dos recursos governamentais, a receita dos serviços prestados ao LSFO, que mantém uma carteira com diversos projetos no CENPES/Petrobras, e à Expansion também tem contribuído de maneira significativa para a sustentação da empresa nesta fase inicial. 4.3 PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CA A Fibersensing A FiberSensing é uma empresa portuguesa que surgiu da Unidade de Optoeletrônica e Sistemas Eletrônicos (UOSE) do Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores do Porto (INESC Porto). Desenvolve, fabrica e comercializa sensores e unidades de medição baseados na tecnologia de redes de Bragg em fibra, assim como software para aquisição e gestão de dados. Seu principal mercado alvo é a indústria de infra-estrutura civil. 4.3.1 Histórico A pesquisa em redes de Bragg em fibra óptica começou na UOSE em 1994 e sempre abrangeu diferentes aspectos da tecnologia: fenômeno da fotossensibilidade, técnicas de escrita, propriedades físicas, aplicação em comunicações ópticas e, fundamentalmente, aplicação como elementos sensores para a medição de diversas grandezas físicas. Ênfase particular foi também atribuída ao desenvolvimento de unidades de medição de sensores de Bragg. Como resultado de toda essa atividade de pesquisa e desenvolvimento, foram surgindo ao longo dos anos inúmeras publicações científicas do INESC Porto, em revistas internacionais, e efetuadas divulgações pelos pesquisadores da empresa nas mais importantes conferências da área dos sensores a fibra óptica. 71 A idéia de criar a Empresa surgiu em setembro de 2003, quando os pesquisadores Francisco Araújo e Luís Ferreira, apoiados pelo orientador José Luís Santos, identificaram a oportunidade de fornecer sistemas avançados de monitoramento de estruturas com sensores a fibra óptica, baseados em redes de Bragg em fibra. Sete meses após, em 23 de abril de 2004, a empresa havia sido constituída, na forma de sociedade anônima, tendo como acionistas o INESC Porto, os promotores individuais (Alberto Maia, Francisco Araújo, José Luís Santos, Luís Ferreira, Pedro Alves), a PME Capital e o Fundo de Sindicação PME-IAPMEI. Até fevereiro de 2005, a Empresa funcionou no edifício do INESC Porto com recursos humanos subcontratados, na maioria, pelo Instituto. Os objetivos então assumidos incluíram o desenvolvimento de vários protótipos pré-industriais PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CA de sensores a fibra óptica, unidades de medição e software de gestão de dados de monitoramento. A arquitetura das unidades de medição, bem como o software nelas utilizado, baseia-se nos produtos da National Instruments. Simultaneamente foram agregadas outras tarefas, como a submissão de três patentes nos Estados Unidos e a escolha e implementação de duas ferramentas de produtividade, o CRM12 e o PLM13. Em outubro de 2005, a Empresa mudou-se para novas instalações, na cidade do Porto, onde em maio de 2006 deu início às atividades de produção. Atualmente conta com vinte colaboradores, entre sócios e empregados, e três estagiários. 12 CRM – O Customer Relationship Management é uma ferramenta de gestão de relacionamento com clientes, constituido por um conjunto de procedimentos/processos organizados e integrados a um modelo de gestão de negócios. Seu objetivo principal é auxiliar as organizações a angariar e fidelizar clientes ou prospectos, fidelizar clientes atuais procurando atingir a sua satisfação total, através do melhor entendimento de suas necessidades e expectativas e formação de uma visão 360 graus dos ambientes de marketing. 13 PLM – O Product Lifecycle Management é uma ferramenta que permite às empresas compartilhar os processos comuns de negócios e o conhecimento comum sobre um produto, por meio da integração entre todas as fases do seu ciclo de vida, desde a sua concepção até a sua retirada do mercado. As empresas podem assim melhorar a sua infra-estrutura, colaborar através da cadeia de valor e reduzir de maneira significativa o tempo e os custos de desenvolvimento de produtos. 72 4.3.2 Financiamento Ao contrário da Gavea Sensors, a FiberSensing buscou financiamento na indústria de capital de risco. O investimento inicial (€1M), proveniente na sua maioria da PME Capital14, ocorreu no momento da fundação da empresa, assegurando-lhe o funcionamento durante os primeiros dez meses – fase de desenvolvimento. O segundo aporte (€1,6M), em junho de 2005, serviu para implementar a infra-estrutura de produção e atender à necessidade de capital de giro. No início de 2006, um novo aporte totalizou um montante de (€3,2M). Essas fontes de financiamento têm sido complementadas por meio dos diversos programas governamentais de apoio a empresas de base tecnológica, no que diz respeito tanto à contratação de recursos humanos qualificados, quanto ao suporte a PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CA atividades de P&D. 4.4 A Aliança Estratégica Atuar no mercado brasileiro já fazia parte do plano de negócios da FiberSensing. Em outubro de 2004, três sócios da empresa vieram ao Brasil para visitar alguns potenciais clientes, ocasião em que tomaram conhecimento da Gavea Sensors por intermédio da National Instruments, empresa da qual ambas as PEMINTECs são parceiras. O primeiro contato ocorreu no LSFO da PUC-Rio. Após as devidas apresentações, Luiz Valente e Pedro Alves, os respectivos diretores executivos, perceberam que algum tipo de colaboração poderia trazer benefícios a ambas as empresas. Após sucessivas conversas e reuniões, a primeira minuta de parceria foi apresentada em janeiro de 2005. Em março de 2006, surgiu a versão final, que, além da representação comercial, compreende: a partilha de informações sobre tecnologia, fornecedores e clientes; o desenvolvimento conjunto de produtos por meio de ferramenta específica (PLM), e a gestão integrada de clientes por CRM. 14 PME Capital – Sociedade Portuguesa de Capital de Risco, S.A. - http://www.pmecapital.pt/ 73 A seguir, apresenta-se o resultado das entrevistas com os respectivos diretores executivos: 4.4.1 Motivação Na opinião de Luiz Valente, a aliança poderia acelerar a penetração dos produtos no mercado de infra-estrutura civil, pois, além de ser esse o foco da FiberSensing, muitos deles estavam quase prontos para oferta a esse mercado. A possibilidade de novos contatos na Europa também pesou na decisão. Por fim, estar junto a uma empresa de mesma base tecnológica, financiada com capital de risco, confere uma visão mais ampla do negócio. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CA Segundo Pedro Alves, houveram três motivações fundamentais para a formação da aliança. Em primeiro lugar, os produtos das empresas são quase todos complementares, o que reduz o conflito de interesses. Além disso, o mercado principal da Gavea Sensors é petróleo e gás, ao passo que o da FiberSensing é infra-estrutura civil. Em segundo lugar, o portfolio conjunto das duas empresas pode ser considerado o mais completo em todo o mundo em sensores de Redes de Bragg em fibra. Nenhuma outra organização possui tantos sensores, sistemas de leitura e software quanto a FiberSensing e a Gavea Sensors juntas – o que lhes confere visibilidade global e ao mesmo tempo as fortalece. Salvo algumas aplicações específicas, a tecnologia é globalmente competitiva com a tradicional para sistemas superiores a 20-50 sensores. É necessário um conjunto de produtos mínimo de forma a conseguir atingir mais de 80% da necessidade do cliente para ser considerado como fornecedor principal. Em terceiro lugar, a afinidade cultural, em razão de as duas empresas terem em comum a língua materna, facilita a comunicação. 74 4.4.2 Contribuições da Gavea Sensors para a aliança estratégica Na opinião de Luiz Valente, existem duas contribuições fundamentais da Gavea Sensors para a aliança estratégica. Em primeiro lugar, todo o trabalho já realizado no setor de petróleo e, em particular, com a Petrobras; em segundo, a cultura metrológica, fundamental para a área de atuação das duas empresas. Pedro Alves também menciona as duas contribuições apontadas por Luiz Valente. Para ele, o fato de a trajetória da Gavea Sensors estar muito associada ao desenvolvimento de um produto para a Petrobras lhe garantiu mais experiência de instalação em campo. Essa dinâmica permite que os problemas de campo sejam trazidos para dentro da empresa, o que acelera o processo de desenvolvimento. No PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CA caso da FiberSensing, aquele pesquisador considera que os cientistas se preocupam em só entregar o produto ao mercado quando o avaliam como ‘muito bom’. Inúmeras vezes, porém, quando ainda é impossível chegar-se a esse nível, o mercado poderia ser atendido. Ele acrescenta que a experiência de campo confere à Gavea Sensors mais segurança em levar o produto ao mercado, mesmo antes de ser considerado bom pelos seus desenvolvedores. Os produtos destinados ao mercado global devem, sempre que possível, ser desenvolvidos com a participação de colaboradores de diversos países para que possam atender a necessidades de clientes em diferentes regiões. O fato de a Gavea Sensors ter surgido do laboratório de um departamento de engenharia mecânica permite o desenvolvimento de sensores complexos, envolvendo pressão e complexas peças mecânicas, que a FiberSensing levaria muito tempo para criar. Assim, no entendimento de Pedro Alves, com a participação da Gavea Sensors no desenvolvimento do software das unidades de medição da FiberSensing, os produtos passam a ter uma característica mais global. Por fim, a constituição de um representante brasileiro já se encontrava nos planos da FiberSensing. Embora a Gavea Sensors não possua uma estrutura de marketing e vendas abrangente, já conhece a tecnologia e é quem tem mais condições de prover assistência técnica. Além disso, se as duas empresas formarem em paralelo uma equipe de marketing e uma força de vendas com características em comum, o relacionamento entre elas será muito facilitado no futuro. 75 4.4.3 Contribuições da FiberSensing para a aliança estratégica Com relação aos benefícios decorrentes da participação da FiberSensing na aliança, Luiz Valente menciona o forte contato que a empresa parceira possui com a National Instruments e seus clientes, e a possibilidade de agregar como valor a cultura organizacional. A Gavea Sensors ainda não usufrui bem desses benefícios potenciais, como a utilização do comitê consultivo da FiberSensing. Mais uma vez Pedro Alves compartilha a mesma percepção de Luiz Valente ao acrescentar que, apesar de a FiberSensing ainda não possuir uma forte cultura organizacional, seu histórico profissional, associado às exigências dos acionistas (fundos de capital de risco) levaram-na a se planejar e informatizar PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CA grande parte dos processos. O retorno desse investimento não ocorre em curto prazo, porém, no futuro, dará à aliança uma vantagem competitiva. Atualmente a Gavea Sensors já compartilha software de desenvolvimento de produtos (PLM), que facilitam o desenvolvimento conjunto, e componentes/fornecedores, bem como o CRM, que proporciona uma gestão integrada das vendas. Na opinião de Pedro Alves, a FiberSensing já nasceu com uma visão mais global que a Gavea Sensors. O plano de negócios não faz sentido se a empresa não tiver uma presença global e neste sentido, o nome da Gavea Sensors também será levado para outros mercados. Para Pedro Alves, sua experiência anterior como consultor técnico e, posteriormente, como vendedor da National Instruments (empresa da qual a Gavea Sensors é ‘Alliance Member’), contribui com um bom conhecimento no processo de vendas, dado que muitos clientes são comuns. Por fim, o fato de a FiberSensing ter em sua estrutura societária uma forte participação de capital de risco lhe dá mais flexibilidade para aplicação de recursos – o que pode ser muito interessante, uma vez que parte do capital da Gavea Sensors provém de projetos de pesquisa governamentais e possui rubricas específicas. 76 4.4.4 Potenciais fontes de conflito Na opinião de Luiz Valente, as fontes de conflito mais claras são as diferentes visões em relação às unidades de medição dos sensores e potencialidade de surgimento de outros parceiros mais interessantes para a Gavea Sensors na área de petróleo na Europa. Na visão de Pedro Alves, as potenciais fontes de conflito estão associadas ao não-compartilhamento de informações sobre tecnologia, fornecedores e clientes, entre outras. A competição no desenvolvimento de produtos similares é outra fonte potencial de conflito e, por fim, o rateio indevido de resultados gerados em decorrência da parceria. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CA 4.4.5 Perspectivas futuras Quanto às perspectivas futuras, na visão de Luiz Valente, para que a aliança se fortaleça e se torne duradoura, é fundamental que cada uma das empresas venda produtos da outra no respectivo mercado e que as margens de lucro sejam interessantes não só para quem vende, como para quem fabrica e repassa o produto. Se essa dinâmica se confirmar, as empresas poderão ser vistas por investidores como um pacote mais interessante do que cada uma isoladamente. Ele acrescenta que, em caso de fusões ou aquisições, totais ou parciais, a divisão das empresas em unidades voltadas para mercados específicos, em especial o de petróleo, poderá facilitar o processo. Para Pedro Alves, as duas empresas têm uma grande capacidade de desenvolver novos produtos. Existem, tanto no Brasil quanto em Portugal, recursos governamentais a fundo perdido para a inovação tecnológica; além disso, a ligação de ambas as empresas com centros de pesquisa permite que esse processo seja otimizado. Pedro Alves acredita que existam todas as condições – estratégia, capacidade de desenvolvimento, mercado e acesso a ele – para se criar a médio prazo uma plataforma estável de sistemas de medição, baseados fundamentalmente na tecnologia de Redes de Bragg em fibra, mas não limitados a ela. É absolutamente imperativo manter-se a sintonia das duas empresas no mais 77 elevado nível e planejar cuidadosamente as parcerias e expansões. Só dessa forma será possível atingir-se o mercado com uma mensagem única e consolidada, e não sofrer retrocessos significativos. Segue no quadro 2 o resumo das entrevistas: Quadro 2: Resumo das entrevistas PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CA Percepção GS FS 1) Aceleração da penetração no mercado de infraestrutura civil; 2) Expansão do network no mercado internacional; 3) Ampliação da visão do negócio com a aproximação (a) da indústria de capital de risco; Motivação 4) Produtos e mercados complementares; 5) Criação do mais completo portfolio de produtos oferecido em todo o mundo; 6) Afinidade cultural; 1) Aprendizado nos trabalhos realizados para a Petrobras; 2) Cultura metrológica; (b) 3) Contribuição para o desenvolvimento do software Contribuições da com características globais; GS para a 4) Aceleração do desenvolvimento de produtos que aliança envolvam peças mecânicas complexas; 5) Representação comercial e assistência técnica mais capacitada; 1) Forte contato com a NI e seus clientes; 2) Cultura organizacional e informatização dos (c) processos; Contribuições da 3) Visibilidade internacional; FS para a aliança 4) Know How do processo de vendas; 5) Flexibilidade de aplicação de recursos financeiros; 1) Diferentes visões em relação às unidades de medição dos sensores; 2) Surgimento de outros potencias parceiros mais interessantes para a Gavea Sensors na área de petróleo na Europa; (d) Potenciais fontes 3) Não-compartilhamento de informações sobre de conflito tecnologia, fornecedores, clientes, entre outras; 4) Competição no desenvolvimento de produtos similares; 5) Rateio indevido de resultados decorrentes da parceria; 1) Valorização das empresas como um negócio único, acelerando o processo de fusões e aquisições, totais ou parciais; (e) Perspectivas 2) Desenvolvimento conjunto de produtos; futuras 3) Criação de uma plataforma estável de sistemas de medição, baseada fundamentalmente na tecnologia de Redes de Bragg em Fibra, mas não limitado a ela. x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x 5 Discussão dos Resultados Este Capítulo discute, à luz da VBR, os resultados obtidos no estudo de caso da aliança estratégica formada entre a Gavea Sensors e a FiberSensing. Verifica-se a suposição de que a vantagem competitiva que essas empresas buscam na formação desse tipo de aliança é a redução da incerteza, seja tecnológica, seja de mercado, além de se discutir como diferentes tipos de financiamento podem impactar na forma dessas alianças. Com base nessa discussão e na revisão da literatura, propõe-se uma adaptação do modelo conceitual de análise mais adequado para auxiliar a análise de alianças PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CA estratégicas formadas entre PEMINTECs de mesma base tecnológica. O estudo da indústria de sensores a Rede de Bragg em fibra óptica mostrou que o sucesso para a introdução e disseminação de uma nova tecnologia no mercado depende de diversos fatores, entre os quais se incluem o estágio de desenvolvimento da tecnologia e sua receptividade pelo mercado. O estágio de desenvolvimento da tecnologia está associado ao complexo balanço entre desempenho, qualidade e custo dos produtos. Já a receptividade do mercado à nova tecnologia vincula-se à oferta de uma solução completa de monitoramento, que inclui unidades de medição, software de aquisição e gestão de dados e um conjunto mínimo de sensores capaz de atender à necessidade mínima do cliente. Na perspectiva da VBR, a busca pelo complexo balanço entre desempenho, qualidade e custo dos produtos consiste na habilidade de coordenar e reconfigurar diversos recursos, dificilmente encontrados em uma única empresa. Entre eles, destaca-se o conhecimento técnico. A primeira intuição pode levar a acreditar que esse conhecimento seja o mesmo em todas as empresas, em especial entre aquelas de mesma base tecnológica; no entanto, estudiosos como Pavitt (1987) e Rosenberg (1976, 1985) demonstraram o contrário. O conhecimento técnico está associado à experiência anterior e à dependência da trajetória, que são únicas em cada empresa. Como observado por Pedro Alves, o fato de a Gavea Sensors ter surgido do laboratório de um departamento de engenharia mecânica permite que 79 complexos sensores envolvendo pressão e complexas peças mecânicas sejam desenvolvidos em menos tempo. A FiberSensing precisaria de muito tempo para desenvolver sensores com tais características. A experiência anterior da Gavea Sensors no desenvolvimento de produtos para a Petrobras também lhe garantiu mais conhecimento de instalação em campo. Essa dinâmica permite que problemas de campo sejam trazidos para dentro da Empresa, o que acelera o processo de desenvolvimento, aumenta o conhecimento de resolução de problemas de engenharia e reduz as dúvidas sobre funcionamento dos produtos e efeitos imprevistos. A complementação técnica é muito necessária em atividades que envolvem conhecimentos aprofundados e variados, como o desenvolvimento de uma solução completa de monitoramento com sensores a Redes de Bragg em fibra PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CA óptica, seja na redução do prazo para lançamento de produtos, seja pela incapacidade individual de domínio das várias técnicas. O compartilhamento do conhecimento técnico garante às empresas a redução da incerteza tecnológica, conduzindo-as a um desempenho superior. Assim como a busca pelo complexo balanço entre desempenho, qualidade e custo dos produtos, a oferta de uma solução completa de monitoramento com sensores a Rede de Bragg em fibra também consiste na habilidade de coordenar e reconfigurar diversos recursos dificilmente encontráveis em uma única empresa, entre os quais se destaca o portfolio de produtos. Esse recurso, ao contrário do conhecimento, pode ser similar, conforme a experiência anterior e a dependência de trajetória de cada empresa. A dependência de trajetória da Gavea Sensors levou-a a oferecer seus primeiros sensores ao mercado de petróleo, ao passo que a experiência anterior dos pesquisadores fundadores da FiberSensing levou a empresa a desenvolver seus primeiros produtos para o mercado de infra-estrutura civil. Como observado por Luiz Valente, a aliança estratégica pode acelerar a penetração da Gavea Sensors no mercado de infra-estrutura civil, pois, além de ser esse o foco da FiberSensing, muitos sensores já se encontram prontos para oferta ao mercado. Além desses sensores, a Gavea Sensors complementa seu portfolio com unidades de medição e software para aquisição e gestão de dados, fundamentais para uma solução completa de monitoramento. 80 Segundo Pedro Alves, o conjunto dos produtos da Gavea Sensors e da FiberSensing permite a criação do maior portfolio de produtos, em todo o mundo. A criação de um amplo portfolio de produtos é muito importante em estágios iniciais de desenvolvimento de mercados, seja para atender à necessidade mínima do cliente, acelerar a disseminação da tecnologia ou para determinar o padrão tecnológico a ser adotado pelos clientes. É muito provável que em cinco ou dez anos o padrão estabelecido por uma ou duas empresas seja aquele que o mercado adotará amplamente, conforme tem ocorrido com outras tecnologias, como o exemplo dado por Chposky & Leonis, apud Minshall (1999), segundo os quais após uma década, apenas cinco dos duzentos sistemas de PCs resistiram. O compartilhamento dos produtos em um único portfolio garante às empresas a redução da incerteza de mercado, deixando-as em uma posição competitiva PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CA superior. Vale lembrar que os recursos compartilhados entre a Gavea Sensors e a FiberSensing estão alinhados como o que Bidault e Cummings (1994) consideram os principais motivos para se formar uma aliança com o propósito de promover a inovação, visto na seção 3.3. Esses não são os únicos recursos compartilhados na aliança estratégica em estudo; no entanto, possuem um fator em comum, que para Peteraf (1993) lhes garante um valor estratégico superior, quando comparados aos demais recursos. Esse fator é a heterogeneidade, que envolve situações em que a presença de recursos estratégicos é limitada em quantidade e, ao mesmo tempo, escassa em relação à demanda. O acesso imediato a esses recursos específicos só poderia acontecer por meio de alianças estratégicas entre PEMINTECs de mesma base tecnológica, o que torna esse tipo de aliança especialmente adequado para reduzir a incerteza tecnológica e de mercado. Outros recursos, competências e aptidões, ao contrário dos discutidos até então, poderiam ser acessados por outros meios, em alguns casos, até mais interessantes. Essa possibilidade reduz o valor estratégico desses outros recursos; ainda assim, sua análise faz-se necessária, pois, se por um lado eles podem contribuir para aumentar a vantagem competitiva da aliança, por outro, podem gerar conflitos e afetar o desempenho da aliança. 81 Entre os recursos, competências e aptidões adicionais com os quais a Gavea Sensors pode contribuir para aumentar a vantagem competitiva da aliança, destaca-se a cultura metrológica. Esse conhecimento, associado à experiência anterior de fundadores da Gavea Sensors, fortalece a aliança, devido a sua grande importância para a indústria de sensores. Esse conhecimento pode levar as empresas a criar padrões metrológicos, tanto do ponto de vista óptico quanto mecânico, de sensores a Rede de Bragg em fibra, que futuramente poderão ser reconhecidos por laboratórios internacionais, contribuindo para que elas determinem o padrão tecnológico a ser adotado pelos clientes. Adicionalmente, a contribuição da Gavea Sensors para o desenvolvimento do software das unidades de medição da FiberSensing garante a essas empresas características globais, fundamentais para que o produto ultrapasse as barreiras regionais. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CA Entre os recursos, competências e aptidões adicionais com os quais a FiberSensing pode contribuir para aumentar a vantagem competitiva da aliança destacam-se aqueles associados à experiência anterior de Pedro Alves e os relacionados a uma importante dependência de trajetória da empresa – o financiamento. A experiência anterior de Pedro Alves como consultor técnico e posteriormente vendedor da National Instruments - empresa parceira da Gavea Sensors – contribui para a aliança com um bom conhecimento no processo de vendas e facilita o acesso a clientes, dado que muitos são comuns. O fato de a FiberSensing ter sido financiada com capital de risco conferiulhe uma visão mais global, pois o plano de negócios não faz sentido se a empresa não tiver uma presença global. Por esse motivo, a empresa desenvolveu um planejamento mais aprofundado e informatizou grande parte dos processos. Criou um comitê consultivo internacional e desenvolveu uma cultura organizacional, ainda que incipiente. O acesso a esse comitê, a ampliação da visão do negócio e a divulgação internacional da imagem da Gavea Sensors são algumas vantagens proporcionadas pelo tipo de financiamento da FiberSensing. A flexibilidade de aplicação de recursos financeiros de que a FiberSensing dispõe é outra vantagem que sua parceira pode usufruir. Nessa fase, a Gavea Sensors ainda depende de recursos associados a projetos gerenciados pelo laboratório de onde surgiu e de verbas governamentais de projetos de pesquisa, 82 que têm rubricas ‘amarradas’. Essa dependência gera crônicos problemas de fluxo de caixa, o que impede, ou atrasa, investimentos associados a planejamento de médio e longo prazo. Atualmente, a Gavea Sensors beneficia-se dos recursos financeiros disponibilizados pela FiberSensing de forma indireta, com o compartilhamento de softwares como o PLM e o CRM, e ainda o rateio de despesas relativas à participação em feiras e eventos internacionais. O retorno desse investimento não ocorre em curto prazo, porém, no futuro, o compartilhamento desses recursos dará à aliança uma vantagem competitiva. O acesso direto a recursos financeiros da FiberSensing poderá ocorrer no futuro. Segundo Luiz Valente, se as expectativas da aliança se confirmarem, as empresas deverão ser vistas por investidores como um único pacote, mais interessante do que cada uma isoladamente. Isso poderá motivar os investidores PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CA da FiberSensing a investir na Gavea Sensors, pois essa sinergia oferece condições para a aceleração do processo de fusões e aquisições, totais ou parciais, fundamentais para se garantir o retorno do investimento do capital de risco. Adicionalmente, considerando-se que a aliança é capaz de reduzir a incerteza tecnológica e de mercado, pode-se afirmar que tal investimento estaria reduzindo o risco dos atuais capitalistas de risco da FiberSensing. Dessa forma, tal investimento impactaria a forma da atual aliança, que passaria do tipo non-equity para o tipo equity, com trocas cruzadas de ações ou criação de joint-ventures. A forma da aliança é um assunto que requer especial atenção, pois, segundo Hagedoorn e Narula (1996), alianças do tipo non-equity proporcionam um ambiente mais apropriado para a inovação. Alianças do tipo equity são menos flexíveis, porque mais sujeitas a questões de controle, como o acompanhamento de metas, a criação de índices para acompanhamento de desempenho e tomada de ações corretivas. Apesar disso, a habilidade desenvolvida na gerência da atual aliança pode ser considerada uma aptidão organizacional distinta e essencial para o sucesso de futuras alianças, como, por exemplo, as do tipo equity. Por fim, a aliança estratégica prevê o compartilhamento mútuo da produção, da distribuição, do marketing, dos canais de venda e da assistência técnica. Segundo Pedro Alves, se as duas empresas formarem em paralelo uma equipe de marketing e vendas com características comuns, o relacionamento entre elas será muito facilitado no futuro. Ainda assim, devido às limitações das 83 PEMINTECs, o compartilhamento dessas competências organizacionais poderá não ser suficiente para atender à necessidade das empresas. Futuras alianças com grandes empresas certamente se farão necessárias, pois são essas organizações que contam com as melhores condições para disponibilizar tais recursos. Nesse sentido, a maior contribuição das alianças estratégicas entre PEMINTECs de mesma base tecnológica não é o compartilhamento de competências organizacionais, e sim a habilidade que as PEMINTECs desenvolvem na gerência dessas alianças. Tal habilidade pode ser considerada uma distinta aptidão organizacional, fundamental para que essas empresas, ao buscarem tais recursos em futuras alianças estratégicas com as de grande porte, tenham uma visão mais clara do que desejam, sabendo onde concentrar recursos e esforços, de maneira que não sejam exploradas por suas parceiras, como reportado PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CA em diversos estudos. Até o momento, a análise ainda limitada pelo curto espaço de tempo de existência da aliança estratégica formada entre a Gavea Sensors e a FiberSensing indica que a combinação dos recursos essenciais das duas empresas permite criar vantagens competitivas, podendo levar a aliança ao melhor desempenho da emergente indústria de sensores a Rede de Bragg em fibra óptica. Apesar disso, atingir essa vantagem depende da capacidade de seus gestores para reconfigurar esses recursos, o que, por sua vez, depende da habilidade em solucionar conflitos. As potenciais fontes de conflito apontadas por Pedro Alves são genéricas e estão associadas às principais causas de fracasso das alianças. A falta de confiança no compartilhamento de informações, a competição no desenvolvimento de produtos similares e a partilha indevida de resultados gerados na parceria é o que Cullent et al. (1995) chamam de opportunistic behavior. Impedir que tais conflitos interfiram no desempenho da aliança é obrigação de seus gestores. Luiz Valente aponta duas potenciais fontes de conflito. Uma é o surgimento, na Europa, de outros parceiros mais interessantes que a FiberSensing na área de petróleo. Esse tipo de parceria está relacionado ao acesso a competências organizacionais, como uma forte capacidade de vendas. Como discutido anteriormente, futuras alianças com grandes empresas podem ser necessárias, dada a possibilidade de obtenção de recursos. Também nesse caso, compete aos dirigentes da Gavea Sensors e da FiberSensing buscar soluções 84 alternativas ou reavaliar as condições comerciais inicialmente definidas, de maneira que futuras alianças coexistam com a atual, sem perdas significativas para as partes. A outra fonte de conflito apontada por Luiz Valente está associada às diferentes visões das empresas em relação às unidades de medição. Essa divergência de opiniões está diretamente vinculada à experiência anterior e à dependência de trajetória das empresas. Graças à experiência anterior com a Petrobras, pôde a Gavea Sensors aproximar-se do fornecedor de unidades de medição mais bem estabelecido no mercado mundial. Seus baixos preços e alta qualidade o distinguem dos demais. A FiberSensing, por suas vez, tem comportamento restrito ao investimento inicial, uma vez que a estratégia de crescimento por essa empresa adotada está fortemente baseada no PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CA desenvolvimento, na fabricação e na comercialização de unidades de medição. Além disso, a fornecedora das unidades de medição para a Gavea Sensors é considerada a principal concorrente da FiberSensing. Embora a habilidade dos dirigentes em solucionar conflitos possa ajudar na gerência da aliança, o tempo e a energia gastos nessa atividade tornam as alianças menos competitivas (Zaheer et al., 1998, p.146). Nesse aspecto, a compatibilidade quanto à visão e aos objetivos das duas empresas, a semelhança no perfil dos empreendedores, a afinidade cultural dos países de origem e a complementaridade dos produtos e mercados-alvo indicam que o tempo e a energia gastos na resolução de conflitos da aliança estratégica formada entre a Gavea Sensors e a FiberSening podem ser reduzidos, tornando-as mais competitivas. Com base na análise do estudo de caso da aliança estratégica formada entre a Gavea Sensors e a FiberSensing, propõe-se uma adaptação do modelo conceitual, como apresentado na figura 6 e quadro 3, a fim de torná-lo mais adequado à análise de futuras alianças estratégicas formadas entre PEMINTECs de mesma base tecnológica. 85 Experiência anterior e dependência da trajetória A Experiência anterior e dependência da trajetória B Determinará Determinará Recursos - A Os recursos tangíveis e intangíveis específicos da empresa Recursos - B Os recursos tangíveis e intangíveis específicos da empresa Recursos Compartilhados Competências - A A configuração dos recursos que formam habilidades especificas e distintivas. Competências - B A configuração dos recursos que formam habilidades especificas e distintivas. Os recursos tangíveis e intangíveis específicos das empresas aliadas Aptidão - A Os processos que permitem à empresa reconfigurar os recursos Aptidão - B Os processos que permitem à empresa reconfigurar os recursos Restringir/ habilitar Pode mudar Orientar Estratégia que garanta crescimento A Implementação da estratégia A PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CA Estratégia da aliança Restringir/ habilitar Estratégia que garanta crescimento B Ambiente competitivo Incerteza Oportunidades Desempenho da empresa A Orientar Dinamismo Pode mudar Implementação da estratégia B Desafios Desempenho da empresa B Figura 6: Modelo conceitual proposto Quadro 3: Terminologia do modelo conceitual proposto Recursos essenciais Recursos compartilhados Competências Aptidão Ambiente competitivo Experiências anteriores e Dependência da trajetória O conjunto de recursos tangíveis e intangíveis específicos da empresa. Incluem o conhecimento da tecnologia, habilidades pessoais, marcas, patentes, nomes e contratos. O conjunto de recursos tangíveis e intangíveis das empresas aliadas que podem ser combinados a fim de formar competências. Tais recursos devem levar as empresas a reduzir a incerteza tecnológica e de mercado. A maneira como os recursos compartilhados são agrupados a fim de formar habilidades específicas e distintivas. Os processos e rotinas que permitem à empresa reconfigurar seus recursos. Incluem concentração, acúmulo, conservação, recuperação e complementação de recursos. A influência da pressão competitiva no ambiente externo irá influenciar a velocidade e a maneira como a empresa deverá reconfigurar os recursos. As atividades e investimentos anteriores da empresa, de certa forma, restringem seu comportamento. O esforço para reconfigurar e adaptar os recursos está naturalmente associado ao sucesso das atividades prévias. 86 O primeiro passo para a aplicação deste modelo é a identificação dos recursos essenciais de cada empresa envolvida na aliança estratégica. O compartilhamento de tais recursos deverá reduzir a incerteza tecnológica e de mercado e definir a estratégia da aliança. Em seguida, deve ser analisado de que maneira o compartilhamento dos recursos essenciais das empresas permite cada uma formar habilidades específicas e distintivas. Estas, por sua vez, devem ser devidamente reconfiguradas, a partir de processos e rotinas que permitam a implementação da estratégia que garanta crescimento. Adicionalmente, deve ser considerado a maneira como o ambiente competitivo, as experiências anteriores, a dependência de trajetória e a estratégia da aliança impactam na estratégia PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CA individual de crescimento das empresas. 6 Conclusões e Recomendações O presente trabalho discutiu a tendência emergente de formação de alianças estratégicas entre PEMINTECs de mesma base tecnológica, sob a perspectiva da VBR. O referencial analítico escolhido para tratar o estudo de caso apresentou-se bastante adequado. Ao contrário das abordagens que buscam apenas os retornos financeiros de curto prazo, a VBR permite visualizar uma estrutura composta de um conjunto de conhecimentos, experiências e recursos estratégicos que podem multiplicar o potencial competitivo individual das firmas participantes PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CA da aliança. O objetivo principal do trabalho foi atingido. O estudo de caso da aliança estratégica formada entre a Gavea Sensors e a FiberSensing, duas PEMINTECs de mesma base tecnológica, permitiu verificar a suposição de que a principal vantagem competitiva proporcionada por esse tipo de aliança é a redução da incerteza tecnológica e de mercado, fundamental para se aumentar a vantagem competitiva dessas empresas. O objetivo secundário foi parcialmente atingido. O estudo de caso permitiu a compreensão de como diferentes tipos de financiamento podem impactar a forma desse tipo de aliança estratégica; no entanto, o atual estágio de desenvolvimento da aliança estudada não permitiu que se verificasse essa suposição. Segue assim, como sugestão para estudos futuros, seja verificada a suposição de que, se a valorização das empresas como um só negócio for superior à soma do valor individual de cada uma, elas deverão buscar uma aliança do tipo equity, pois, dessa forma, o investidor aumentará a possibilidade de reduzir o risco, antecipar sua saída e aumentar o lucro. O estudo de caso também fortaleceu o princípio central da VBR, confirmando que a combinação dos recursos essenciais das duas empresas depende da capacidade de seus gestores de reconfigurá-los. Se esses recursos são raros, escassos, especializados, complementares e capazes de adicionar valor efetivo aos produtos e serviços, eles podem ser utilizados como fontes de 88 vantagem competitiva, conduzindo as empresas que os empregam a um desempenho superior. O estudo complementou essa visão, revelando que a capacidade de seus gestores para reconfigurar tais recursos depende de sua habilidade em solucionar conflitos. Adicionalmente, o estudo de caso confirmou que a habilidade que essas empresas desenvolvem na gerência desse tipo de alianças estratégicas pode ser considerada uma aptidão organizacional distintiva, fundamental para competir em ambientes de alto nível de incerteza tecnológica, permeados por tecnologias emergentes. O estudo complementou essa visão, verificando que o desenvolvimento dessa aptidão, na fase inicial das empresas, permite que elas entrem em parcerias futuras com uma visão mais clara sobre o que desejam, sabendo onde concentrar recursos e esforços, diminuindo as chances de serem PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CA injustamente exploradas por suas parceiras, em especial as de grande porte, como relatado em diversos estudos. Por fim, contribuindo para o enriquecimento e aprimoramento de idéias a respeito da aplicação da VBR na análise de alianças estratégicas entre pequenas empresas, foi proposta uma adaptação do modelo conceitual de análise de alianças estratégicas, inicialmente apresentado por Teece et al. (1992). Essa adaptação buscou combinar o referencial teórico explicitado nos Capítulos 2 e 3 com os resultados obtidos no estudo de caso da aliança estratégica formada entre a Gavea Sensors e a FiberSensing. Apesar de se mostrar simples e robusto, o novo modelo conceitual é limitado por ter sido desenvolvido a partir do estudo de uma única aliança estratégica. Nesse sentido, segue como proposta para estudos futuros o teste desse modelo conceitual em outros estudos de caso, a fim de contribuir para seu refino e aprimoramento. Tendo em vista que o tipo de aliança estratégica estudada neste trabalho reduz a incerteza tecnológica e de mercado, contribuindo para aumentar a vantagem competitiva das PEMINTECs, futuras políticas públicas de apoio à inovação tecnológica deveriam concentrar-se no estímulo à formação e consolidação de tais alianças. O governo deveria apoiar o desenvolvimento de instrumentos facilitadores de busca, filtragem e seleção de PEMINTECs de mesma base tecnológica, que se beneficiariam de tal tipo de aliança. A exemplo da aliança estratégica formada entre a Gavea Sensors e a FiberSensing, o Governo 89 também deveria financiar o compartilhamento de ferramentas de produtividade, como o PLM e o CRM, além de outras, de acordo com as características de cada indústria, de forma a propiciar o aumento da competitividade das empresas nacionais. Devido à importância das PEMINTECs para a nova economia, futuras pesquisas deverão aprofundar os estudos sobre a “terceira geração de alianças estratégicas”, contribuindo ainda mais para a compreensão desse emergente PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CA comportamento estratégico. 7 Referências bibliográficas ACS, Z.J. e AUDRETSCH, D.B. (eds.) (1993). Small Firms and Entrepreneurship: An East-West Perspective. Cambridge University Press: Cambridge. ALBRECHT, C. (1994). Programando o futuro. O trem da linha norte. São Paulo: Makron Books. ALDRICH, H.E. (1999). Organizations Evolving, London: Sage. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0412229/CA ALSTER, N. (1986). “Eletronics Firms Find Strength in Numbers.” Electronic Business 15(5), 101-108. ALVAREZ, S.A.; and BARNEY, J.B. (2001). “How entrepreneurial firms can benefit from alliances with large partners” The academy of Management Executive 15(1): 139-148. AMATO NETO, J. 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