Viagens
PARA LER AS VIAGENS NA MINHA TERRA
na minha
Terra
1
A lmeida G arrett
Começando
pelos problemas
Desde o início, é preciso admitir: não é fácil ler as Viagens na Minha Terra.
O vocabulário — do português lusitano e do século XIX —, muitas vezes, dificulta a
fluidez da leitura; o mesmo se pode dizer a respeito da estrutura geral da obra, que não
corresponde ao que esperamos de um romance.
Em vez de deixar essas dificuldades de lado, talvez seja fértil começar por elas: afinal,
as Viagens na Minha Terra são um romance? Acreditamos que não — ao menos podemos
afirmar com certeza que não são um romance tradicional, nos modelos franceses ou
ingleses. Certamente há motivos para que Garret tenha escolhido criar uma obra que não
correspondia aos modelos com os quais ele próprio tomara contato. Comecemos por eles.
Primeiramente, “o realismo do romance não está no tipo de vida que ele apresenta,
mas no modo como o faz; o romance, mais do que qualquer outra forma literária, levanta
de forma aguda o problema da correspondência entre a obra literária e a realidade que
imita”1. Essas observações, referentes a proposições do crítico literário Ian Watt, são úteis
para nós, porque as Viagens chamam a atenção exatamente por esses dois motivos: nessa
obra de Garret, o modo de narrar chama a atenção — convocando o leitor à participação,
indo e voltando no tempo, aludindo a diferentes lugares de Portugal, inserindo em capítulos do livro a história de Carlos
e Joaninha, e as cartas dele a ela — propondo exatamente um debate a respeito dos limites entre realidade e ficção.
Esses limites, aliás, sempre fizeram parte das investigações dos teóricos do romance como forma. A mesma professora Sandra
Guardini Vasconcelos, explicando as diferentes teorias a respeito dessa forma literária, lembra que “nos seus estágios iniciais,
o romance apresentava-se como uma forma ambígua, uma ficção factual que negava sua ficcionalidade e produzia em seus leitores
um sentimento de ambivalência quanto a seu possível conteúdo de verdade”. Isso quer dizer que uma das questões fundamentais
do romance diz respeito à impressão de realidade — chama-se a esse efeito, nos estudos de literatura, de verossimilhança —
que ele contém, apesar de ser uma obra de ficção.
Finalmente, a mesma pesquisadora e professora de literatura inglesa da USP lembra que essa impressão de verdade não tem
origem no caráter documental dos lugares, por exemplo, mas deriva diretamente da organização interna dos elementos da
obra: é exatamente nesse aspecto que verificaremos a força das Viagens na Minha Terra, de Almeida Garret.
Aquilo que se convencionou chamar de romance no século XIX, de forma geral, é a narrativa de passagens da vida de um
herói problemático que, à cata de ascensão social, tem de abrir mão de alguns valores, todos relacionados com a integridade
pessoal. O trabalho, o acúmulo de capital, a iniciativa pessoal e o enriquecimento a todo custo são, portanto, temas constantes
dos romances românticos burgueses. O dilema do herói burguês é tentar equilibrar, de um lado, as conquistas materiais que
alcança e, de outro, os valores que procura preservar. Sempre é difícil obter esse equilíbrio, e a degradação moral do sujeito, que
perde ou abandona os valores à medida que ascende socialmente, parece inevitável.
No romance, ainda segundo Sandra Guardini Vasconcelos, “as mais altas realizações individuais são, cada uma, sedimentação
formal de uma experiência sócio-histórica, plasmada em obra de arte”. É claro que essas realizações individuais estão diretamente
associadas à ascensão da classe burguesa ao poder e à difusão das ideologias por ela propostas, especialmente a da ascensão social.
Simplificando: na Idade Média, de forma geral, o homem nascia circunscrito a determinadas ocupações, que desempenharia
ao longo de toda a vida; com a evolução do Capitalismo, cada vez mais se abre aos homens — ao menos no plano das ideias — a
possibilidade de ascender socialmente por meio do trabalho assalariado.
Em comparação com outros países do chamado centro econômico da Europa — especialmente a Inglaterra e a França —,
Portugal destoa bastante: desde a época dos Grandes Descobrimentos, não se formou nesse país uma burguesia forte — exatamente
porque as matérias-primas oriundas das colônias, especialmente do Brasil, sustentaram as classes dominantes mais atrasadas,
ainda ligadas ao modo de produção feudal. Da mesma forma, a Igreja Católica ganhou força nesse país e preservou instituições
medievais, ao contrário do que ocorreu naqueles, em que a burguesia se fortaleceu, atenuou o poder econômico e o domínio
ideológico da Igreja e investiu no desenvolvimento de novas tecnologias — originando, finalmente, a indústria e, por consequência,
a população urbana de operários, contexto que exigia novas instituições político-administrativas. Em poucas palavras, até a fuga
da família real para o Brasil, em 1808, as classes dominantes de Portugal estenderam tanto quanto foi possível a estrutura quase
feudal do país, cumprindo sempre o papel que fora, no século XVI, inovador, mas que, frente às Revoluções Francesa e Industrial,
acabaria se mostrando rigorosamente atrasado. Enquanto nas nações centrais da Europa (centrais do ponto de vista econômico) a
burguesia se fortalecia por meio do desenvolvimento tecnológico, Portugal relegava-se ao papel de middle man, isto é, de entreposto,
de intermediário comercial, entre as matérias-primas oriundas da colônia e as fábricas nascentes sobretudo na Inglaterra.
Autor: Carlos Rogerio Duarte Barreiros, professor de Literatura, Artes Visuais e Língua Portuguesa do CPV Vestibulares há dezoito anos, doze deles dedicados
à preparação ao vestibular, sempre no CPV. Também é escritor, crítico literário e pesquisador de Literatura, doutorando na USP.
1Trecho
da obra Dez lições sobre o romance inglês do século XVIII, da professora Sandra Guardini Vasconcelos da USP, publicada pela Editora Boitempo.
Viagens na minha terra
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na minha
Terra
Essa situação intermediária — de atraso frente às nações
centrais da Europa e de metrópole frente às colônias que ainda
sustentava2 — sofreu grave abalo com a perda do Brasil.
De forma geral, a história portuguesa do século XIX
resume-se a uma grande crise, a partir especialmente de
1820, em que se alternam no poder, de um lado, setores mais
progressistas, inspirados no liberalismo e na urgência de
modernização do país, e, de outro, setores mais conservadores,
cuja finalidade era a restituição do poder à Monarquia e aos
setores ainda tradicionalmente ligados aos privilégios feudais.
Garret assevera, por meio da trajetória de Carlos, que os
progressistas liberais portugueses, apesar de desbancarem
a Igreja de seu lugar de supremacia, acabam acomodados
e cooptados (agregados) às velhas estruturas de extração
feudal — tornando-se barões, alvos de crítica direta de
Garret nas Viagens.
Acreditamos, portanto, que a forma literária indecisa das
Viagens é correspondente às turbulências experimentadas
por Portugal na primeira metade do século XIX — e foge
à estrutura do romance tradicional, já que não há burguesia
portuguesa nos termos em que havia na França e na Inglaterra.
Não se trata, é claro, de estabelecer uma correspondência
direta e grosseira (como se disséssemos que “o livro não tem
gênero definido porque Portugal não tem forma de governo
definida”), mas de verificar que o chão histórico em que a
obra é escrita deixará nela traços formais.
Notemos, por exemplo, que os ideais adotados pelos
defensores do liberalismo em Portugal são todos estrangeiros
— inspirados em teorias ou acontecimentos históricos ingleses,
franceses ou norte-americanos. A burguesia, em Portugal, não
só é fraca ou quase inexistente (comparada às burguesias fortes
de outros países), mas também é incapaz de formular projetos
para o país, a partir de suas especificidades. As tentativas de
introdução de ideários estrangeiros em Portugal — da mesma
maneira que ocorre no Brasil, aliás — soa sempre artificial,
porque não dialoga com a realidade nacional concreta.
Almeida Garret era escritor e homem público, tendo
participado de toda a vida política portuguesa da primeira
metade do século XIX. Certamente percebia o descompasso
entre as ideias estrangeiras e a realidade de seu país
(observaremos claramente essa percepção em trechos da
própria obra), inclusive no que dizia respeito às modas
literárias. Com efeito, como escrever um romance em
Portugal, se não havia burguesia como a inglesa ou francesa?
Como escrever um romance efetivamente português, a partir
das especificidades nacionais e populares — que poderiam
envergonhar o leitor português culto, porque soariam como
atraso se comparadas aos modelos estrangeiros? Como aventar
ideais de ascensão social e livre iniciativa em uma sociedade cujas
estruturas ainda guardavam muita semelhança com as de origem
feudal, em que esses valores podiam até circular entre as classes
dominantes, mas passavam longe da existência concreta da maioria
da população?
A forma incerta das Viagens certamente guarda traços das
estruturas socioeconômicas portuguesas, mas guarda algo ainda
maior: talvez a contradição de ser periferia do centro e centro
da periferia — e depois ver ruir essa condição que durou mais
de 300 anos — tenha deixado traços na cultura portuguesa que
Garret pretende flagrar viajando pela própria terra.
2A
3Esse
ideia de que Portugal é um país semiperiférico na Europa vale até
hoje e explica boa parte da crise pela qual o país está passando neste exato
momento, iniciada devido ao estouro da bolha imobiliária dos Estados
Unidos, em 2008, culminando na crise da dívida soberana europeia, em
2010. Essas afirmações foram extraídas da obra Portugal: Ensaio contra
a autoflagelação, de Boaventura de Sousa Santos, publicada pela editora
portuguesa Almedina em maio de 2011.
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Viagens na minha terra
O descompasso entre forma literária estrangeira
e realidade nacional portuguesa
Resumir as Viagens é muito simples. De forma geral, trata-se de
obra em que o narrador relata sua viagem de Lisboa a Santarém,
registrando impressões referentes ao trajeto e outras, que nada têm
diretamente com ele, mas que dialogam com a realidade portuguesa.
Além disso, há, entremeada nesses relatos, a partir do capítulo X,
a história de Carlos, Joaninha, a velha Francisca e Frei Dinis;
essa narrativa se relacionará à viagem de Garret.
A primeira afirmação, portanto, a respeito do texto é de que ele
contém duas histórias paralelas que se tocam num momento
específico — aquele, já próximo do final, em que o narrador lê e
transcreve para nós, leitores, a carta de Carlos a Joaninha. A
história de amor desses dois primos é bastante singela.
A parte novelesca das Viagens relata a história de uma estranha
família, cheia de mistérios e segredos que, aos poucos, vão sendo
revelados: Carlos, o protagonista, pressentindo que um sentimento
de culpa paira sobre a família, resolve partir para a Inglaterra,
deixando em Portugal a avó, que o criara, e sua prima, Joaninha.
As duas mulheres contam com a proteção da estranha figura de
Frei Dinis, um nobre que se despojara dos bens materiais para
tornar-se padre. Algum tempo mais tarde, Carlos, alistando-se
no exército liberal, regressa ao país, deixando na Inglaterra sua
noiva, a jovem Georgina. Acampado com o exército no Vale de
Santarém, próximo à casa da avó, o jovem reencontra a prima, e
os dois se apaixonam. Carlos sofre, dividido entre o novo amor e
o compromisso com Georgina. Ferido em combate, é levado para
o convento de Frei Dinis, onde é assistido por Georgina, que viera
a seu encontro. Quando se recupera, ao saber que era filho de Frei
Dinis, renuncia ao amor, à família e a todos os ideais para tornar-se
“barão”. Georgina volta para a Inglaterra e entra num convento;
Joaninha enlouquece e morre. A avó, também louca, é cuidada por
Frei Dinis, que continua a expiar a culpa de ter sido o causador de
todos os males àquela família3.
parágrafo de síntese da história de Carlos e Joaninha foi extraído da obra
A Literatura Portuguesa em Perspectiva: Romantismo e Realismo, Volume 03,
sob a direção de Massaud Moisés, com textos dos professores Carlos Alberto
Vecchi, Elenir Aguilera de Barros, Francisco Maciel Silveira e Raquel de Sousa
Ribeiro, todos da área de Literatura Portuguesa da Faculdade de Filosofia, Letras
e Ciências Humanas da USP.
Viagens
Carlos parece representar, no contexto da obra,
os setores progressistas da sociedade portuguesa que
acabaram por ocupar o lugar da Igreja, mas sem renovarlhe o papel. O liberal de antes tornou-se “barão” e agiota,
nas palavras do próprio Carlos:
Creio que me vou fazer homem político, falar muito
na pátria com que me não importa, ralhar dos ministros
que não sei quem são, palrar* dos meus serviços que
nunca fiz por vontade; e quem sabe? ... talvez darei por
fim em agiota, que é a única vida de emoções para quem
já não pode ter outras. A agiotagem — isto é, o empréstimo a juros — é
atividade econômica associada aos novos ares do
Capitalismo que chegam a Portugal, mas que mantêm
acomodadas suas classes privilegiadas. O antigo senhor
arrenda as terras extensas que possui e empresta dinheiro
a juros sem dedicar-se a uma ocupação produtiva,
como fizeram as burguesias dos países economicamente
centrais da Europa. Garret não é o primeiro escritor e
intelectual português — e certamente não será o último
— a perceber que as classes dominantes de seu país
padecem de uma inércia associada à aversão ao trabalho
que impede, em larga medida, a modernização do país.
O mais curioso é que, no século XX, nas décadas de 60
e 70, os setores economicamente mais progressistas das
elites portuguesas estarão, igualmente, associados aos
interesses dos capitais estrangeiros.
As alegorias são bastante evidentes: Joaninha é a
mocinha simples, do povo, que é abandonada pelo futuro
barão — a paixão dele por ela, da mesma maneira que a
por Georgina e suas irmãs, que representam a Inglaterra,
será passageira. Com efeito, Carlos troca toda sua
vida afetiva e amorosa — valores como a família, por
exemplo — pela atividade da agiotagem e pela pecha
de barão — ocupações de caráter material e financeiro.
A crise do sujeito do romance do século XIX está nas
Viagens, mas com as especificidades portuguesas: o
dilema entre os valores e os bens materiais não está
fundado na lógica do trabalho, mas no desfrute de bens
herdados de Frei Dinis, isto é, os setores supostamente
renovadores guardam raízes nos mais tradicionais,
e acabam por repetir-lhes os comportamentos mais
viciosos.
A velha cega e semimorta, ao final da história,
sob os cuidados do Frei, representa os setores que não
puderam acompanhar a evolução dos acontecimentos em
Portugal e se viram atropelados pela chegada das ideias
liberais. Em suma, em Portugal, as coisas mudaram na
aparência — a Igreja não goza mais da supremacia de
que gozava —, mas seguem praticamente as mesmas
na essência — os barões ocuparam o lugar dos freis.
Ao dialogar com Frei Dinis, no último capítulo da obra,
perguntando a respeito de Carlos, depois de ler a carta
deste a Joaninha, Garret constata:
* palrar: articular sons desprovidos de sentido
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Terra
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— Mas Carlos?
— Carlos é barão: não lho disse já?
— Mas por ser barão?...
— Não sabe o que é ser barão?
— Oh! se sei! Tão poucos temos nós?
— Pois barão é o sucedâneo* dos...
— Dos frades... Ruim substituição!
— Vi um dos tais papéis liberais em que isso vinha: e é a única coisa
que leio dessas há muitos anos. Mas fizeram-mo ler.
— E que lhe pareceu?
— Bem escrito e com verdade. Tivemos culpa nós, é certo; mas os
liberais não tiveram menos.
— Errámos ambos.
— Errámos e sem remédio. A sociedade já não é o que foi, não pode
tornar a ser o que era; — mas muito menos ainda pode ser o que é.
O que há-de ser, não sei. Deus proverá.
Vamos nos concentrar, agora, nas questões referentes ao
descompasso que existe entre a realidade de Portugal e os modelos
literários que são utilizados por lá no século XIX — que ao final nos
levarão de volta à história de Carlos e Joaninha.
O trecho abaixo, extraído do capítulo V, contém uma espécie de
“receita para escrever uma obra de sucesso” — e pode nos servir bastante
para compreender a organização interna das Viagens de Garret:
Sim, leitor benévolo, e por esta ocasião te vou explicar como nós
hoje em dia fazemos a nossa literatura. Já me não importa guardar
segredo; depois desta desgraça não me importa já nada. Saberás, pois,
ó leitor, como nós outros fazemos o que te fazemos ler.
Trata-se de um romance, de um drama — cuidas que vamos estudar
a história, a natureza, os monumentos, as pinturas, os sepulcros, os
edifícios, as memórias da época? Não seja pateta, senhor leitor, nem
cuide que nós o somos. Desenhar caracteres e situações do vivo na
natureza, colori-los das cores verdadeiras da história... isso é trabalho
difícil, longo, delicado, exige um estudo, um talento, e sobretudo um tato!...
Não senhor: a coisa faz-se muito mais facilmente. Eu lhe explico.
Todo o drama e todo o romance precisa de:
uma ou duas damas,
um pai,
dois ou três filhos, de dezenove a trinta anos,
um criado velho,
um monstro, encarregado de fazer as maldades,
vários tratantes, e algumas pessoas capazes para intermédios.
Ora bem; vai-se aos figurinos franceses de Dumas, de Eug. Sue,
de Vítor Hugo, e recorta a gente, de cada um deles, as figuras que
precisa, gruda-as sobre uma folha de papel da cor da moda, verde,
pardo, azul — como fazem as raparigas inglesas aos seus álbuns e
scraapbooks, forma com elas os grupos e situações que lhe parece;
não importa que sejam mais ou menos disparatados. Depois vai-se
às crônicas, tiram-se um pouco de nomes e de palavrões velhos; com
os nomes crismam-se os figurões, com os palavrões iluminam-se...
(estilo de pintor pinta-monos). E aqui está como nós fazemos a nossa
literatura original!
Entender bem o fragmento acima pode nos fazer entender boa parte
das Viagens, por isso sejamos bastante detalhistas na investigação.
* sucedâneo: que substitui outro
Viagens na minha terra
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Viagens
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DIÁLOGO COM O LEITOR
e
na minha
COM OUTRAS OBRAS
O andamento das Viagens de Garret lembra bastante o das
Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. Isso
acontece, dentre outros motivos, porque ambos os narradores, cada
um à sua maneira, dialogam com seus leitores, convocando-os
a participar da composição da narrativa. Trata-se de um
procedimento democrático — o que soa avançado para o tempo.
Nas Memórias de Machado, esse procedimento é revertido quase
de imediato: depois de pedir a contribuição do leitor, o narrador
“puxa-lhe o tapete”, para mostrar sua superioridade evidente (“pago-te
com um piparote e adeus”, da mesma forma que faz com a Borboleta
Preta); nas Viagens de Garret, a frustração do narrador é partilhada
com o leitor — que também é agredido algumas vezes. De “leitor
benévolo” a “não seja pateta, leitor”, vai apenas um parágrafo.
O que interessa perceber é que a tentativa de compor uma narrativa
junto com o leitor é frustrada: o leitor é chamado de “pateta” porque
desconhece os verdadeiros procedimentos básicos para se escrever
um romance. Todos eles são emprestados aos modelos franceses,
apenas com certo verniz português. Também é importante notar
que Garret supunha poder contar com o leitor, mas percebe a seguir
que isso não é possível: o público que o lê está demasiadamente
contaminado daqueles modelos.
Podemos concluir que o primeiro problema das Viagens é a
impossibilidade de diálogo com o leitor, por mais que este seja
convocado a participar da construção da narrativa.
Além disso, as Viagens certamente foram influência para
Machado de Assis na redação das Memórias. No Prólogo da Quarta
Edição, Machado afirma que um amigo, leitor de suas Memórias,
assemelhou-as às Viagens. E depois afirma que a semelhança entre
Garret e o defunto-autor é a de que este viajou à roda da vida e de
que o português viajou pela sua terra.
No mais, Garret e Machado tiveram como modelos as obras:
Viagem à roda do meu quarto (1794), do francês Xavier de Maistre,
que é citada no início das Viagens; e Viagem sentimental através
da França e da Itália (1768), de Laurence Sterne.
Mas as semelhanças não param por aí: no mesmo Prólogo à
Quarta Edição das Memórias Póstumas, Machado alude à pergunta
que o historiador Capistrano de Abreu fez a respeito da obra: “As
Memórias póstumas de Brás Cubas são um romance?” — exatamente
a mesma pergunta que se pode fazer a respeito das Viagens na minha
terra, de Almeida Garret.
A chamada intertextualidade entre as obras da lista oficial de obras
literárias da Fuvest e da Unicamp é sempre explorada. Acreditamos
que a seguinte semelhança entre as Viagens de Garret e as Memórias
de Machado é fundamental: ambas são obras cuja forma literária foge,
em alguma medida, aos modelos franceses e ingleses do século XIX,
exatamente porque seus autores tinham a percepção de que esses
modelos não correspondiam à realidade do Brasil — que era escravista
— e de Portugal — que era uma nação semiperiférica, de burguesia
fraca. Note ainda que os modelos de Garret e Machado são autores
franceses e ingleses do século XVIII — não porque os autores das
Viagens e das Memórias fossem atrasados, mas porque, conscientes
do atraso em que suas nações estavam metidas, procuravam acentuar
esse atraso pelos modelos que adotavam, escritores dos primórdios
do Capitalismo industrial e do romance como forma.
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Viagens na minha terra
Terra
A REJEIÇÃO AOS MODELOS ESTRANGEIROS
A linguagem de Garret, ao formular a “receita de
um romance”, é irônica — porque sugere procedimentos
rigorosamente opostos aos que se espera que sejam adotados
por um escritor consciente da relevância de sua obra dos
impactos que ela terá no público — e jocosa — porque
aquela ironia se transforma rigorosamente em humor, se
a entendermos bem.
Garret afirma que nenhum escritor de romances se
preocupa em “Desenhar caracteres e situações do vivo
na natureza, colori-los das cores verdadeiras da história”
porque “isso é trabalho difícil, longo, delicado, exige um
estudo, um talento, e sobretudo um tato”.
De forma bem simples, Garret desconstrói o modelo
idealizado de escritor, para afirmar que a literatura
portuguesa está forrada de modelos literários estrangeiros
que não correspondem à realidade nacional. Sugere a
utilização dos “figurinos franceses de Dumas, de Eugène
Sue, de Vítor Hugo”, todos escritores franceses, para
grudá-los sobre “uma folha de papel da cor da moda, verde,
pardo, azul — como fazem as raparigas inglesas aos seus
álbuns e scraapbooks”.
O que Garret está propondo, ironicamente, é que os
modelos e as modas utilizados pelos escritores portugueses
provenham da literatura da França e da Inglaterra. Mas “não
importa que sejam mais ou menos disparatados”, porque o
escritor português adaptará essas imagens ao vocabulário
português: “vai-se às crônicas” — que eram textos a
respeito da história nacional — “tiram-se uns poucos de
nomes e de palavrões velhos; com os nomes crismam-se
os figurões, com os palavrões iluminam-se... (estilo de
pintor pinta-monos). E aqui está como nós fazemos a nossa
literatura original!”.
Os significados das palavras desse trecho guardam
pequenos detalhes que vale a pena investigar.
O primeiro é que crismar, além de significar
“sacramentar”, significa também, em Portugal, “bater,
espancar”; pinta-monos é o pintor de mau gosto, que faz
obras ruins. Assim, Garret deixa sugerido que a combinação
das figuras estrangeiras com o vocabulário histórico e
arcaico português resulta em literatura de má qualidade
— e falsamente “original”.
Desse trecho é preciso reter, portanto, que Garret
rejeita a associação gratuita dos modelos estrangeiros
à literatura portuguesa. Para produzir literatura
portuguesa “original”, é preciso partir das imagens
rigorosamente portuguesas — mas todas elas estão
degradadas. Com efeito, o leitor das Viagens na Minha
Terra percebe que, a cada prédio, monumento ou lugar
histórico visitado pelo autor, aumenta a decepção dele
com o descaso dos portugueses pela sua própria história.
Aliás, de maneira geral, podemos sintetizar desta forma
as viagens feitas por Garret em sua própria terra: uma
decepção atrás da outra, porque a história e a cultura do
povo português não são valorizadas e estão abandonadas.
Viagens
na minha
A CULTURA PORTUGUESA
COMO CULTURA POPULAR
Já vimos que Garret rejeita a utilização gratuita dos
modelos franceses e ingleses para a produção de literatura
em Portugal. Mas qual é a alternativa que ele apresenta?
De certa maneira, a primeira proposta de Garret está na
forma instável de narrativa das próprias Viagens, como já
vimos. Assim, a própria obra que temos diante dos olhos
destoa dos modelos tradicionais de romance — não contém
a narrativa linear de um herói problemático à cata de
ascensão social, mas um relato entremeado de digressões
a respeito de um narrador em busca da identidade de seu
país — que é, de certa forma, também a sua.
Mas Garret também propõe como alternativa a
valorização da cultura popular portuguesa, como se
pode verificar abaixo, no trecho em que, diante da Porta
de Atamarma, o monumento que celebra a entrada, em
15 de março de 1147, de D. Afonso Henriques (fundador
do Reino de Portugal e seu primeiro rei) em Santarém e a
expulsão dos árabes dessa cidade, o narrador se surpreende
(Capítulo XXXVI):
Por aqui entrou D. Afonso Henriques; por aqui foi
aquela destemida surpresa que lhe entregou Santarém, e
acabou para sempre com o domínio dos árabes nesta terra.
Os ilustrados munícipes santarenos têm tido por vezes o
nobre e generoso pensamento de demolir esta porta! O arco
do triunfo de Afonso Henriques, o mais nobre monumento
de Portugal!
A ideia é digna da época.
Já conhecemos o estilo que caracteriza o fragmento
acima: no primeiro parágrafo, a apresentação de um
monumento histórico português; no segundo, a ironia
implacável: Garret chama de ilustrados os munícipes
ignorantes que pretendem demolir aquele monumento;
chega a comparar a Porta de Atamarma ao Arco do Triunfo
— monumento construído por Napoleão Bonaparte em
Paris para comemorar suas vitórias militares — não para
revelar a grandiosidade da porta, mas para explorar ainda
mais a incultura dos portugueses que sequer conseguem
vislumbrar seus próprios monumentos porque preferem as
construções estrangeiras às nacionais. No último parágrafo,
uma frase lapidar:
a ideia de demolir tal monumento é digna de uma época
em que não se valorizam os monumentos associados à
memória popular.
Expliquemos essa afirmação. Nos parágrafos seguintes,
Garret afirma que faltam documentos oficiais que confirmem
que Dom Afonso Henriques e seus homens tenham passado
por ali. A memória popular, contudo, escolheu aquele lugar
para sua celebração — a ponto de haver, no mesmo lugar,
uma capelinha de Nossa Senhora da Vitória. Garret sugere:
Deixa estar a Virgem da Vitória sobre o arco de
Afonso Henriques. Prostremo-nos e adoremos, como
bons portugueses, o símbolo da fé cristã e da fé patriótica
levantado pelas mãos ensanguentadas do triunfador!
Terra
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Ao contrário do que pode parecer numa primeira análise, Garret
não cai, nesse trecho, em contradição: a prostração que ele sugere
ao “símbolo da fé cristã” está diretamente associada à “fé patriótica”.
Garret sabe que a influência da Igreja Católica na cultura portuguesa
está inevitavelmente ligada à identidade nacional e popular, como
verificaremos a seguir. No Capítulo XIII, o próprio Garret avalia sua
obra literária publicada até então, afirmando “já me disseram que
eu tinha gênio de frade, que não podia fazer conto, drama, romance
sem lhe meter meu fradinho” e conclui:
Pois, senhores, não sei que lhes faça; a culpa não é minha. Desde
mil cento e tantos que começou Portugal, até mil oitocentos e trinta
e tantos que uns dizem que ele se restaurou, outros que o levou a
breca, não sei que se passasse ou pudesse passar nesta terra coisa
alguma pública ou particular, em que o frade não entrasse.
Para evitar isto não há senão usar da receita que vem formulada
no capítulo V desta obra.
Faça-o quem gostar; eu não, que não quero nem sei.
O recado de Garret é bem claro: para fazer uma obra de feição
tipicamente portuguesa é necessário passar pela Igreja Católica,
que em Portugal deixou traços de cultura muito mais marcantes do
que em outros países — especialmente aqueles em que a burguesia
se fortaleceu. Quando afirma que, para evitar a presença de frades,
basta usar a receita de obra sugerida no Capítulo V, confirma a nossa
hipótese: a utilização de imagens estrangeiras com vocabulário
arcaico português resulta em obras de qualidade discutível.
Finalmente, ao afirmar que não quer nem sabe usar aquela receita,
Garret reafirma que está à cata de traços portugueses que possam
dar os lineamentos formais de sua obra. Esses traços estão no povo,
como se observará a seguir. Retomemos as observações sobre a Porta
de Atamarma e a fidedignidade das histórias populares a respeito
desse monumento histórico:
Mas seria ele ou não que levantou essa capelinha? Os documentos
faltam, os escritores contemporâneos guardam silêncio; a história
deve ser rigorosa e verdadeira...
Deve: e os grandes factos importantes que fazem época e são balizas
da história de uma nação, também eu os rejeitarei sem dó quando lhes
faltarem essas autênticas indispensáveis. Agora as circunstâncias,
para assim dizer, episódicas de um grande feito sabido e provado,
quem as conservará, se não forem os poetas, as tradições, e o grande
poeta de todos, o grande guardador de tradições, o povo?
Eis aí outra proposição fundamental das Viagens: o povo é
o grande poeta das tradições, que estabelece as circunstâncias
episódicas dos feitos históricos. Em outras palavras, Garret está
sugerindo que as linhas gerais e os fatos relevantes da história devem
mesmo ser traçados segundo documentação segura; mas que os
episódios — isto é, os pequenos eventos, tributários dos grandes,
dispensam documentação e abrem as portas à imaginação popular.
É nela, portanto, que estão guardados, para Garret, os fundamentos
da genuína literatura portuguesa. É ela que está ameaçada pela
chegada da literatura de mercado — dos autores Dumas, Eugène
Sue e Vítor Hugo — e das ideologias burguesas.
Garret é categórico no seu prognóstico a respeito dos rumos
que Portugal tomará caso continue dando privilégio aos barões
e ao “regime da matéria”, isto é, a lógica de mercado, já no
Capítulo XLII:
Viagens na minha terra
CPV
Viagens
6
na minha
Mais dez anos de barões e de regime da matéria, e
infalivelmente nos foge deste corpo agonizante de Portugal
o derradeiro suspiro do espírito.
Creio isto firmemente.
Mas ainda espero melhor todavia, porque o povo, o povo
está são: os corruptos somos nós os que cuidamos saber e
ignoramos tudo.
Nós, que somos a prosa vil da Nação, nós não entendemos
a poesia do povo; nós, que só compreendemos o tangível
dos sentidos, nós somos estranhos às aspirações sublimes
do senso íntimo que despreza as nossas teorias presunçosas,
porque todas vêm de uma acanhada análise que procede
curta e mesquinha dos dados materiais, insignificantes e
imperfeitos; — enquanto ele, aquele senso íntimo do povo,
vem da Razão divina, e procede da síntese transcendente,
superior e inspirada pelas grandes e eternas verdades, que
se não demonstram porque se sentem.
E eu que escrevo isto serei eu demagogo? Não sou.
Serei fanático, jesuíta, hipócrita? Não sou.
Que sou eu então?
Quem não entender o que eu sou, não vale a pena que
lho diga...
Perdoa-me, leitor amigo, uma reflexão última no fim
deste capítulo já tão secante, e prometo não reflectir nunca
mais.
Jesus Cristo, que foi o modelo da paciência, da tolerância,
o verdadeiro e único fundador da liberdade e da igualdade
entre os homens, Jesus Cristo sofreu com resignação e
humildade quantas injustiças, quantos insultos Lhe fizeram a
Ele e à Sua missão divina; perdoou ao matador, à adúltera,
ao blasfemo, ao ímpio. Mas quando viu os barões a agiotar
dentro do templo, não se pôde conter, pegou num azorrague
e zurziu-os sem dor.
Há diversas observações importantes a fazer a respeito
do fragmento acima.
A primeira delas diz respeito à história de Carlos e
Joaninha, que pode ser retomada agora: Carlos é o barão
mergulhado no “regime da matéria”, na ocupação financeira
que lhe garante o ócio nobilitante e improdutivo, em
adulteração dos ideais liberais que o inspiraram na juventude.
Garret liga a recriminação ao barão e ao empréstimo indevido
das ideias estrangeiras no último parágrafo, afirmando que
Cristo “verdadeiro e único fundador da liberdade e da
igualdade” — em alusão clara aos ideais da Revolução
Francesa — atacou violentamente os agiotas do templo. De
um lado, a cultura popular portuguesa, associada às histórias
e memórias do povo, à crença dos santos canonizados por
ele (chamados de santos canonizados in partibus) e aos
espaços rurais portugueses abandonados pelos próprios
portugueses, ignorantes de sua própria cultura; de outro,
as classes dominantes de extração nobre que se inspiram
pelos ideais liberais estrangeiros e que se apropriam deles
para perpetuar as estruturas econômicas atrasadas, com um
verniz modernizante.
CPV
Viagens na minha terra
Terra
Além disso, note a clareza da proposta de Almeida Garret: é
somente a arte que parte do povo português que pode fugir aos
modelos estrangeiros. O trecho anterior afirma claramente que
o “senso íntimo do povo vem da Razão divina” e que “procede
da síntese transcendente, superior e inspirada pelas grandes e
eternas verdades, que se não demonstram porque se sentem”.
Trata-se de um ponto de vista essencialmente romântico: emana
do povo, para além das formulações racionais — e burguesas —,
o espírito nacional — daí a utilização de termos como “divina”,
“transcendente” e “eternas verdades”.
A essa legitimidade do pensamento popular opõe-se o
racionalismo exagerado daqueles a que Garret chama de “nós”.
Certamente nem todos os portugueses estão incluídos nessa primeira
pessoa do plural: Garret parece referir-se às classes privilegiadas,
que se arrogam de deter a nacionalidade em seu sangue, mas que
estão desligadas do verdadeiro Portugal, porque seus interesses
pertencem apenas ao plano material. Mais uma vez, Garret parece
aludir à introdução apressada da lógica de mercado em seu país,
devido às premências históricas — a perda do Brasil e o atraso
frente às outras nações europeias, principalmente. As classes
dominantes são “a prosa vil da Nação”, que só compreendem
as coisas tangíveis — isto é, materiais — e as teorias que delas
derivam, em oposição à “poesia do povo”. Garret não usou os
termos “prosa” e “poesia” à toa: ele conhecia bem as teorias
literárias clássicas, que julgavam menor, pelo seu hibridismo, o
romance, que é exatamente um texto em prosa.
Conclusões: a poesia do povo português só poderia assomar*
por meio da busca da cultura do povo — e é exatamente isso o que
Garret tenta fazer nas suas Viagens na Minha Terra.
Mas, ao redigir seu texto em prosa, Garret dá expressão à
degradação nacional com que se depara e que ataca ao longo de
todo o texto. A forma hesitante das Viagens é, portanto, a expressão
das hesitações da “prosa vil da nação”.
Finalmente: quem é Garret, em todo esse emaranhado de
interesses materiais das classes dominantes, memórias populares e
“fradinhos” que não lhe abandonam a obra? Ele próprio pergunta:
“E eu que escrevo isto serei eu demagogo? Não sou. Serei fanático,
jesuíta, hipócrita? Não sou. Que sou eu então? Quem não entender
o que eu sou, não vale a pena que lho diga...”.
Arriscamos responder a essa pergunta — da mesma forma que
arriscamos afirmar que as Viagens na Minha Terra e as Memórias
Póstumas de Brás Cubas não são romances, ao menos nos moldes
dos romances tradicionais. Talvez Almeida Garret queira dizer apenas
que é — da mesma maneira que sua obra — português, isto é: não
pode ser encaixado aos modelos oriundos dos países centrais porque
sua cultura, sua história, suas raízes, têm um traçado — portanto,
uma forma, uma forma literária, arriscamos dizer — diferente.
É nessa diferença que está, acreditamos, toda a riqueza formal e
temática das Viagens na Minha Terra, de Almeida Garret.
* assomar: sobressair-se, deixar-se ver, mostrar-se, aflorar.
Viagens
na minha
EXERCÍCIOS OBJETIVOS
Texto para as questões 01 a 03.
“Sim, leitor benévolo, e por esta ocasião te vou explicar como nós
hoje em dia fazemos a nossa literatura. Já me não importa guardar
segredo; depois desta desgraça, não me importa já nada. Saberás,
pois, ó leitor, como nós outros fazemos o que te fazemos ler”.
Trata-se de um romance, de um drama. Cuidas que vamos estudar
a História, a natureza, os monumentos, as pinturas, os sepulcros, os
edifícios, as memórias da época? Não seja pateta, senhor leitor, nem
cuide que nós o somos. Desenhar caracteres e situações do vivo
da natureza — colori-los das cores verdadeiras da História… Isso
é trabalho difícil — longo — delicado; exige um estudo, um talento,
e sobretudo um tacto!… Não, senhor, a coisa faz-se muito mais
facilmente. Eu lhe explico.
— Todo o drama e todo o romance precisa de: Uma ou duas
damas. Um pai. Dois ou três filhos de dezenove a trinta anos. Um
criado velho. Um monstro. encarregado de fazer as maldades. Vários
tratantes, e algumas pessoas capazes para intermédios.
Ora bem; vai-se aos figurinos franceses de Dumas, de Eugénio
Sue, de Vítor Hugo, e recorta a gente, de cada um deles, as figuras
que precisa, gruda-as sobre uma folha de papel da cor da moda, verde,
pardo, azul — como fazem as raparigas inglesas aos seus álbuns e
scrap-books; forma com elas os grupos e situações que lhe parece;
não importa que sejam mais ou menos disparatados. Depois vai-se às
crônicas, tiram-se uns poucos de nomes e palavrões velhos; com os
nomes crismam-se os figurões; com os palavrões iluminam-se… (estilo
de pintor pinta-monos). — E aqui está como nós fazemos a nossa
literatura original. “
Capítulo V – fragmento. in Almeida Garrett.
Obra Completa – I, Porto, Lello & Irmão, 1963, pp. 27-28.
01. O autor critica dois gêneros então em voga na prosa e no
teatro português. Que gêneros são esses?
a)
b)
c)
d)
e)
O drama na prosa e o romance no teatro.
A sátira realista na prosa e o drama no teatro.
O romance na prosa e a comédia no teatro.
O romance na prosa e o drama no teatro.
A sátira realista na prosa e a comédia no teatro.
I. O autor pretende enaltecer a imagem do escritor
português, destacando as principais características que
enriquecem a literatura portuguesa de sua época.
II. O autor critica a produção literária dos autores de seu
tempo, pois não os considera originais e os acusa de
recorrerem a fórmulas prontas de como escrever e a
elementos de outras literaturas.
III. O autor considera a recorrência de outras literaturas um
importante diálogo intertextual, imprescindível para a
composição de uma literatura originalmente nacional.
7
IV. O autor afirma que compor uma literatura originalmente
nacional é um trabalho árduo que requer entre outras
qualidades estudo e talento. Com isso, inferioriza a
imagem dos autores portugueses de sua época.
Está correto o que se lê em:
a)
b)
c)
d)
e)
I e II
I e III
II e IV
III e IV
I e IV
03. No trecho lido, o autor recorre à metalinguagem, pois além
de tecer comentários acerca da literatura, dirige-se a seus
leitores, pressupondo um tipo de leitor. Que tipo de leitor
Garrett tem em mente ao tecer seus comentários?
a) Um leitor bondoso e crítico, que aprecia a originalidade
das obras.
b) Um leitor “pateta”, ou seja, com baixos níveis de
conhecimento, pois desconhece originalidade literária.
c) Um leitor astuto, que julga o escritor um “pateta”, pois
se esforça para produzir uma obra original.
d) Um leitor com alto grau de criticidade e exigência, que
está atento à originalidade das obras.
e) Um leitor ingênuo e iludido, que se engana quanto à
originalidade das obras.
Excerto para as questões 04 e 05.
Para mais realçar a beleza do quadro, vê-se por entre um claro
das árvores a janela meia aberta de uma habitação antiga mas não
delapidada (…) Interessou-me aquela janela. Quem terá o bom gosto e
a fortuna de morar ali?
Parei e pus-me a namorar a janela. Encantava-me, tinha-me ali
como num feitiço. Pareceu-me entrever uma cortina branca… e um
vulto por detrás… Imaginação decerto! Se o vulto fosse feminino!… era
completo o romance.
Como há-de ser belo ver pôr o Sol daquela janela!…E ouvir cantar
os rouxinóis!…E ver raiar uma alvorada de Maio!…
02. A partir da leitura do trecho acima, considere as seguintes
proposições:
Terra
Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra (Capitulo X).
04. Considerando o trecho lido, assinale a alternativa correta.
a) A beleza e estética românticas baseiam-se na
racionalidade e nos conhecimentos acadêmicos do
sujeito.
b) Na estética romântica, a natureza é um modo de
representação do estado de espírito do sujeito.
c) A beleza, na estética romântica, baseia-se na busca de
uma arte erudita, que segue os moldes europeus.
d) A estética romântica não valoriza a beleza.
e) A natureza, na estética romântica, é depreciada.
Viagens na minha terra
CPV
Viagens
8
na minha
Terra
05. No trecho “Imaginação decerto! Se o vulto fosse feminino!…
era completo o romance.”, o autor faz referência a qual
característica do romantismo?
07. Considerando os excertos acima, leia atentamente às
proposições abaixo.
a)
b)
c)
d)
e)
À idealização da mulher.
À exaltação aos elementos da natureza.
Ao lirismo clássico.
Ao amor idealizado e platônico.
À retratação da realidade.
Excertos para as questões 06 a 08.
Excerto I
Estas minhas interessantes viagens hão-de ser uma obra-prima,
erudita, brilhante de pensamentos novos, uma coisa digna do século.
Preciso de o dizer ao leitor, para que ele esteja prevenido; não cuide
que são quaisquer dessas rabiscaduras da moda que, com o título
de Impressões de Viagem, ou outro que tal, fatigam as imprensas da
Europa sem nenhum proveito da ciência e do adiantamento da espécie.
Primeiro que tudo, a minha obra é um símbolo... é um mito, palavra
grega, e de moda germânica, que se mete hoje em tudo e com que se
explica tudo... quanto se não sabe explicar.
Assinale a alternativa que contém a(s) proposição(ões)
correta(s).
a) I e II.
c) III e IV.
e) II e IV.
Joaninha não era bela, talvez nem galante sequer no sentido
popular e expressivo que a palavra tem em português, mas era o tipo
da gentileza, o ideal da espiritualidade. Naquele rosto, naquele corpo
de dezesseis anos, havia, por dom natural e por uma admirável simetria
de proporções, toda a elegância nobre, todo o desembaraço modesto,
toda a flexibilidade graciosa que a arte, o uso e a conversação da
corte e da mais escolhida companhia vêm a dar a algumas raras e
privilegiadas criaturas no mundo.
Excerto II
Poucas mulheres são muito mais baixas, e ela parecia alta: tão
delicada, tão élancée era a forma airosa de seu corpo.
Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra.
06. Comparando os dois excertos extraídos de Viagens na
Minha Terra, é possível afirmar que a obra de Garrett é
considerada inovadora e original para a época devido:
CPV
a)
b)
c)
d)
e)
ao hibridismo de estilos e de linguagem.
à linguagem formal e ao estilo definido.
à linguagem poética e ao estilo definido.
ao hibridismo de linguagem e ao estilo definido.
ao hibridismo de estilo e à linguagem poética.
Viagens na minha terra
b) Apenas a II.
d) Apenas a IV.
08. O uso dos diminutivos em viagenzita e brochurinhas
conotam:
É um mito porque — porque... Já agora rasgo o véu, e declaro
abertamente ao benévolo leitor a profunda ideia que está oculta
debaixo desta ligeira aparência de uma viagenzita que parece feita a
brincar, e no fim de contas é uma coisa séria, grave, pensada como um
livro novo da feira de Leipzig, não das tais brochurinhas dos boulevards
de Paris.
Mas nesta foi a natureza que fez tudo, ou quase tudo, e a educação
nada ou quase nada.
I. O excerto II comprova o que o autor afirma no excerto
I, pois é uma crítica implícita ao romantismo.
II. O excerto II contradiz o que promete o autor no excerto
I, pois se no primeiro há uma crítica ao Romantismo,
no segundo ele se utiliza de uma de suas principais
características para compor a personagem.
III.Os excertos I e II se complementam, pois ambos
enaltecem o Romantismo como forma literária clássica
a ser seguida por novos e tradicionais autores.
IV. O excerto II contradiz o que promete o autor no excerto
I, pois se no primeiro ele enaltece estes modelos de
produção literária, no segundo ele os critica duramente.
a) Uma alusão afetiva tanto à obra produzida por si quanto
à viagem realizada.
b) Uma referência pejorativa aos romances parisienses e
às narrações de viagens sem propósitos.
c) Uma referência pejorativa aos romances parisienses e
uma alusão positiva às obras que narram viagens, ainda
que sem propósitos.
d) Um elogio às narrações de viagens, mesmo sem propósito
definido, e aos romances parisienses.
e) Uma crítica às narrações de viagens sem propósito e
uma alusão positiva aos romances parisienses.
Leia aos textos abaixo, extraídos de Viagens na Minha Terra
para responder às questões 09 e 10.
Texto I
Deixa estar a Virgem da Vitória sobre o arco de Afonso Henriques.
Prostremo-nos e adoremos, como bons portugueses, o símbolo da
fé cristã e da fé patriótica levantado pelas mãos ensanguentadas do
triunfador!
Texto II
Pois, senhores, não sei que lhes faça; a culpa não é minha. Desde
mil cento e tantos que começou Portugal, até mil oitocentos e trinta e
tantos que uns dizem que ele se restaurou, outros que o levou a breca,
não sei que se passasse ou pudesse passar nesta terra coisa alguma
pública ou particular, em que o frade não entrasse.
Para evitar isto não há senão usar da receita que vem formulada
no capítulo V desta obra.
Faça-o quem gostar; eu não, que não quero nem o sei.
Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra.
Viagens
na minha
Terra
9
09. Acerca dos excertos acima, é incorreto afirmar que:
a) a prostração ao “símbolo da fé cristã”, sugerida por
Garrett, está diretamente associada à “fé patriótica”.
b) a influência que a Igreja Católica exerce na cultura
portuguesa está atrelada à identidade nacional e popular.
c) no primeiro trecho, Garrett cai em contradição ao
relacionar a identidade nacional e popular às influências
da Igreja Católica.
d) para que se produza uma obra de feição tipicamente
portuguesa é necessário passar pela Igreja Católica,
pois esta deixou traços marcantes neste país mais que
em outros.
e) Garrett admite que desde o início, a Igreja Católica
exerce papel fundamental na história do país.
12. (PUC-SP/2013) Ainda assim, belas e amáveis leitoras,
entendamonos; o que eu vou contar não é um romance, não
tem aventuras enredadas, peripécias, situações e incidentes
raros; é uma história simples e singela, sinceramente
contada e sem pretensão.
10. Quando afirma que, para evitar a presença de frades, basta
usar a receita de obra sugerida no capítulo V, Garrett
confirma a seguinte hipótese:
a) A utilização de imagens nacionais com vocabulário
moderno português resulta em obras de qualidade
discutível.
b) A utilização de imagens estrangeiras com vocabulário
moderno português resulta em obras de excelente
qualidade.
c) A utilização de imagens nacionais com vocabulário
arcaico português resulta em obras de excelente
qualidade.
d) A utilização de imagens estrangeiras com vocabulário
moderno português resulta em obras de qualidade
discutível.
e) A utilização de imagens estrangeiras com vocabulário
arcaico português resulta em obras de qualidade
discutível.
11. (FUVEST-SP/Nov-2012) Em Viagens na Minha Terra,
assim como em:
a) Memórias de um Sargento de Milícias, embora se
situem ambas as obras no Romantismo, criticam-se os
exageros de idealização e de expressão que ocorrem
nessa escola literária.
b) A Cidade e as Serras, a preferência pelo mundo rural
português tem como contraponto a ojeriza às cidades
estrangeiras – Paris, em particular.
c) Vidas Secas, os discursos dos intelectuais são vistos
como a prosa vil da nação, ao passo que a sabedoria
popular procede da síntese transcendente, superior e
inspirada pelas grandes e eternas verdades.
d) Memórias Póstumas de Brás Cubas, a prática da
divagação e da digressão exerce sobre todos os valores
uma ação dissolvente, que culmina, em ambos os casos,
em puro niilismo.
e) O Cortiço, manifestam-se, respectivamente, tanto
o antibrasileirismo do escritor português quanto
oantilusitanismo do seu par brasileiro, assim como o
absolutismo do primeiro e o liberalismo do segundo.
O trecho acima integra a obra Viagens na Minha Terra,
de Almeida Garrett. Considerando a obra como um todo,
pode-se afirmar que a história a ser contada pelo narrador
é a:
a) da paixão de Joaninha dos olhos verdes por seu primo
Carlos, com quem casa e vive feliz.
b) da indecisão de Carlos, ante o amor de várias mulheres,
sua saída de Santarém e regresso à Inglaterra.
c) do sofrimento da menina dos rouxinóis pela perda do
amado e seu abandono ao destino inexorável, que a
leva ao enlouquecimento e à morte por desgosto.
d) do retorno de Carlos à Inglaterra, retomando sua
trajetória de homem público, e seu casamento com
Georgina.
e) do ingresso de Georgina no convento, decepcionada com
as incertezas amorosas de Carlos, por quem aguardou
muito tempo.
EXERCÍCIOS DISCURSIVOS
13. Considerando-se os aspectos que caracterizam o romance
tradicional, nos modelos franceses ou ingleses, não
podemos classificar Viagens na Minha Terra, de Almeida
Garrett, como tal. Com base nesta proposição, responda:
a) Em que sentido a obra não constitui um romance
tradicional? Que características justificam essa
afirmação?
b) Explique a(s) relação(ões) entre a forma literária adotada
por Garrett e o momento histórico e político por que
passava Portugal.
14. Considerando o contexto da obra Viagens na Minha Terra,
explique em que sentido Carlos, o protagonista, pode
representar os setores progressistas da sociedade portuguesa.
15. Apesar de se tratar de uma obra de ficção, as viagens
relatadas no livro foram de fato realizadas pelo autor. Assim,
percebemos na obra uma dinâmica entre realidade e ficção.
Reflita a este respeito e explique que efeitos isto pode criar.
Viagens na minha terra
CPV
Viagens
10
na minha
Terra
16. Leia atentamente o trecho abaixo:
21. Leia atentamente o trecho abaixo:
Ora bem; vai-se aos figurinos franceses de Dumas, de
Eugénio Sue, de Vítor Hugo, e recorta a gente, de cada um deles,
as figuras que precisa, gruda-as sobre uma folha de papel da cor
da moda, verde, pardo, azul — como fazem as raparigas inglesas
aos seus álbuns e scrap-books; forma com elas os grupos e
situações que lhe parece; não importa que sejam mais ou menos
disparatados. Depois vai-se às crônicas, tiram-se uns poucos de
nomes e palavrões velhos; com os nomes crismam-se os figurões;
com os palavrões iluminam-se… (estilo de pintor pinta-monos). —
E aqui está como nós fazemos a nossa literatura original.
Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra.
Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra.
Explique a ironia do trecho “E aqui está como nós fazemos
a nossa literatura original”, no final do texto transcrito.
17. Tomando como base as características da estética romântica
tradicional, pode-se afirmar que Viagens na Minha Terra
constitui-se como uma obra romântica? Apresente ao menos
dois argumentos que sustentem sua tese.
18. Há entre Viagens na Minha Terra, de Garrett e Memórias
Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, semelhanças
fundamentais que constituem relações intertextuais entre
essas obras. Cite duas destas semelhanças associandoas ao modelo literário adotado por seus respectivos
autores e explique de que forma tal modelo revela seus
posicionamentos políticos.
19. Garrett, ao formular a “receita de um romance”, desconstrói
o modelo idealizado de escritor e afirma que a literatura
portuguesa está repleta de modelos literários estrangeiros
que não retratam a realidade nacional.
A partir desta proposição, solucione as questões abaixo.
a) Fundamente e justifique esta análise, utilizando-se de
elementos do texto.
b) Sob o ponto de vista do autor, é possível produzir
uma literatura originalmente portuguesa? Apresente
argumentos que sustentem sua resposta.
20. Garrett, ao rejeitar os modelos franceses e ingleses de
produção literária, apresenta como alternativa a valorização
da cultura popular portuguesa. Como isso pode ser verificado
na obra? Apresente elementos estruturais e estilísticos que
ilustrem seu(s) apontamento(s).
CPV
Viagens na minha terra
Mas seria ele ou não que levantou essa capelinha? Os documentos
faltam, os escritores contemporâneos guardam silêncio; a história
deve ser rigorosa e verdadeira... Deve: e os grandes factos
importantes que fazem época e são balizas da história de uma
nação, também eu os rejeitarei sem dó quando lhes faltarem essas
autênticas indispensáveis. Agora as circunstâncias, para assim
dizer, episódicas de um grande feito sabido e provado, quem os
conservará, se não forem os poetas, as tradições, e o grande
poeta de todos, o grande guardador de tradições, o povo?
a) Sob o ponto de vista do autor, embora os fatos relevantes
da história devam ser traçados por documentação segura,
o “povo” assume papel fundamental no que diz respeito
aos episódios que constituem grandes eventos. Explique
esta proposição do autor e em que sentido isso ocorre.
b) Ainda sob a perspectiva de Garret, contraponha a
rigorosidade da história à tradição popular, destacando a
relevância de cada uma delas para a história de Portugal.
22. Leia o trecho abaixo e responda à questão subsequente.
Nós que somos a prosa vil da Nação, nós não entendemos
a poesia do povo; nós, que só compreendemos o tangível dos
sentidos, nós somos estranhos às aspirações sublimes do senso
íntimo que despreza as nossas teorias presunçosas, porque todas
vêm de uma acanhada análise que procede curta e mesquinha dos
dados materiais, insignificantes e imperfeitos (...)
Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra.
Ao usar de modo recorrente a primeira pessoa do plural,
Garrett faz referência às classes privilegiadas de Portugal
e as define como “a prosa vil da Nação”. Explique estas
alusões realizadas pelo autor, relacionando-as ao momento
histórico-político do país, bem como ao que julgavam as
teorias literárias.
23. (FUVEST-SP/Jan-2013) Embora seja, com frequência,
irônico a respeito do livro e de si mesmo, o narrador das
Viagens na Minha Terra não deixa de declarar ao leitor
que essa obra é “primeiro que tudo”, “um símbolo” , na
medida em que, diz ele, “uma profunda ideia (...) está
oculta debaixo desta ligeira aparência de uma viagenzita
que parece feita a brincar, e no fim de contas é uma coisa
séria, grave, pensada (...)”.
Tendo em vista essas declarações do narrador e considerando
a obra em seu contexto histórico e literário, responda ao que
se pede.
a) Do ponto de vista da história social e política de Portugal,
o que está simbolizado nessa viagem?
b) Considerada, agora, do ponto de vista da história literária,
o que essa obra de Garrett representa na evolução da
prosa portuguesa?
Explique resumidamente.
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