Pró-Reitoria de Pós-Graduação e Pesquisa Lato Sensu em Literatura Brasileira Trabalho de Conclusão de Curso NOS LONGES DA NOITE: MEMÓRIA, INFÂNCIA E POESIA EM MANUEL BANDEIRA Autor: Rafael Vespasiano Ferreira de Lima Orientador: Profª. Dra. Eva Aparecida Pereira Seabra da Cruz Brasília - DF 2013 RAFAEL VESPASIANO FERREIRA DE LIMA NOS LONGES DA NOITE: MEMÓRIA, INFÂNCIA E POESIA EM MANUEL BANDEIRA Monografia apresentada ao Programa de PósGraduação Lato Sensu em Literatura Brasileira da Universidade Católica de Brasília, como requisito parcial para obtenção do título de Especialista em Literatura Brasileira. Orientador: Profª. Dra. Eva Aparecida Pereira Seabra da Cruz Brasília 2013 Monografia de autoria de Rafael Vespasiano Ferreira de Lima, intitulada “NOS LONGES DA NOITE: MEMÓRIA, INFÂNCIA E POESIA EM MANUEL BANDEIRA”, apresentada como requisito parcial para obtenção do certificado de Especialista em Literatura Brasileira da Universidade Católica de Brasília, em 12 de dezembro de 2013, defendida e/ou aprovada pela banca examinadora abaixo assinada: ______________________________________________________ Profª. Dra. Eva Aparecida Pereira Seabra da Cruz Orientadora Programa de Pós-Graduação Latu Sensu em Literatura Brasileira - UCB ________________________________________________________ Prof. Msc. Lívila Pereira Maciel Programa de Pós-Graduação Latu Sensu em Literatura Brasileira - UCB ______________________________________________________ Prof. Msc. Robson André da Silva Programa de Pós-Graduação Latu Sensu em Literatura Brasileira - UCB Para Geovanna, minha mãe, porque sem ela nada do que alcancei até aqui seria possível; Pedro, meu pai; meus irmãos Diogo, Pedrinho e Lara; e Yvone, minha colega-amiga, pelo convite para iniciar essa caminhada acadêmica e pelo incentivo para finalizá-la. AGRADECIMENTO Agradeço a minha orientadora, Eva Pereira, pelo auxílio e paciência comigo na elaboração e finalização deste projeto; e a todos os professores desta Instituição de ensino que me proporcionaram uma nova visão de mundo. Agradeço também a meus amigos de infância de Alagoas, que me ajudam diariamente, mesmo sem o saber, na trajetória da minha vida; ao Dr. Darci por nortear os rumos da minha vida; a Dra. Gláucia pelo constante incentivo profissional; a Dra. Adriana por me alegrar em momentos difíceis da minha existência; e a Cacau, pela força e por acreditar em mim. (...) Assim vai o Galope do Tempo no seu corcel alado Quando lhe encontrei não acreditei, pois você não existia Como pode a ciência tentar explicar tamanha bruxaria Esse pequeno invasor na noite do ventre, vir a tona um dia. Mas parece que hoje é apenas o ontem de amanhã Então foi agora nem faz uma hora Adão mordeu a maçã Sinto raiva do tempo, mas adoro esse vento que ele insiste em soprar. (...) Aí vai o Galope do Tempo no seu corcel alado Sua trilha, caminho, nosso rumo e destino, seu significado Vamos tentando encontrar algo que justifique esse estranho legado Com vida pulsando entre as patas e cascos desse corcel alado. Marcelo Nova RESUMO LIMA, Rafael Vespasiano Ferreira de. Nos longes da noite: memória, infância e poesia e Manuel Bandeira. 2013. 53 folhas. Monografia. Literatura Brasileira. Universidade Católica de Brasília, Brasília/DF, 2013. Este trabalho propõe uma leitura de alguns poemas de Manuel Bandeira pelo viés da memória, com ênfase para a presença da infância do eu-lírico, e tendo como referência as concepções de memória voluntária e memória involuntária proposta por Marcel Proust. Além disso, o trabalho procura investigar as relações entre a reconstituição do tempo perdido e o fazer literário no poeta brasileiro. Palavras-chave: Manuel Bandeira, memória, infância, poesia. ABSTRACT LIMA, Rafael Vespasiano Ferreira de. Nos longes da noite: memória, infância e poesia e Manuel Bandeira. 2013. 53 folhas. Monografia. Literatura Brasileira. Universidade Católica de Brasília, Brasília/DF, 2013. This work presents a reading of some poems by Manuel Bandeira that involves remembrance, especially of the poet’s childhood, and based on the concepts of involuntary and voluntary memories proposed by the novelist Marcel Proust. This essay also investigates the relationships between the possibility of reconstitution of the lost (past) time and the artistic work (making) in the Brazilian poet. Keywords: Manuel Bandeira, memory, childhood, poetry. SUMÁRIO Introdução________________________________________________________________9 Capítulo I – Meu bico é bem pequenino ________________________________________10 Capítulo II – O Jardim Submerso______________________________________________18 Capítulo III – Há que tempo que não te vejo!_____________________________________23 Capítulo IV – Poesia dos Naufrágios ___________________________________________37 Considerações Finais________________________________________________________49 Referências Bibliográficas____________________________________________________50 9 I - Introdução O presente trabalho procura demonstrar a originalidade poética de Bandeira, estudando determinados poemas do escritor, por um viés que caracteriza parte de sua produção lírica: a memória da infância sendo expressa pelo próprio fazer poético. Para isso, serão utilizadas e estudadas as concepções de “memória voluntária” e “involuntária”, concebidas por Marcel Proust, em seu romance Em busca do tempo perdido. Além disso, serão apresentadas as proximidades de concepção do fazer literário em relação aos elementos memória e infância nos dois escritores. O trabalho inicia-se pela apresentação do poeta e de determinadas características de sua poesia, a partir da leitura de alguns estudos de sua fortuna crítica. A seguir, será feita a discussão sobre as concepções de memória em Proust, com destaque para as diferenças entre “memória voluntária” e “memória involuntária” e a participação das mesmas na formação dos indivíduos, desde a infância, e a possibilidade da reconstituição do tempo perdido. Em um terceiro momento, na busca de evidenciar as características da memória da infância e sua transformação em objeto e fazer literário em Manuel Bandeira, serão realizadas leituras, análises e interpretações de poemas selecionados e divididos em dois blocos: o primeiro, onde a memória da infância se confunde com a recordação do espaço, Recife, no caso de Bandeira; o segundo, onde a recordação faz parte da tomada de consciência por parte do processo de formação do homem e do escritor, numa perspectiva meta-literária. 10 CAPÍTULO I – Meu bico é bem pequenino Manuel Bandeira (1886-1968) é um caso particular na moderna poesia brasileira. Com produção poética anterior à Semana de Arte Moderna de 1922, admirado pelos vanguardistas, não participou diretamente da Semana de 22, mas teve o seu poema “Os Sapos” – publicado no livro Carnaval, em 1919 – lido, na ocasião, pelo poeta Ronald de Carvalho. Sua trajetória literária percorre a maior parte do século XX, tendo publicado seus livros durante vários momentos do Modernismo brasileiro. Sua poesia é de extrema originalidade e popularidade até os dias de hoje. Um dos aspectos importantes da biografia de Manuel Bandeira, e que será explorado pelo poeta em sua obra, diz respeito a certa condição de exilado em uma cidade diferente e de nostalgia em relação à terra de origem. Nascido no Recife, a 19 de abril de 1886, o poeta residiu, ainda na infância e na primeira juventude, em várias cidades: transferiu-se com a família para o Rio de Janeiro em 1890; em 1892, volta com a família para Pernambuco; em 1896, a família muda-se mais uma vez para o Rio; entre 1903 e 1908, o jovem Bandeira parte para São Paulo e se matricula na Escola Politécnica, com o intuito de estudar arquitetura, desenvolve, porém, a doença que marcará toda sua vida, a tuberculose, abandona os estudos e volta para o Rio de Janeiro, mudando de residência várias vezes, e visitando esporadicamente a região serrana, em busca de local apropriado para tratar a doença: Campanha, Teresópolis, Maranguape, Uruquê, Quixeramobim. Em 1913, embarca para a Europa a fim de tratamento médico no sanatório de Clavadel, na Suíça. Em 1914, retorna ao país natal e passa a residir novamente no Rio de Janeiro fixando moradia na cidade, onde viveu o resto de sua vida até 13 de outubro de 1968, data de seu falecimento. Pode-se afirmar também que essa peregrinação por várias cidades é comparável às muitas incursões do poeta pela história da literatura brasileira e universal. A variedade de temas e de formas poéticas na poesia de Bandeira está presente desde as primeiras obras, quando já se nota a inquietação do poeta, indeciso entre o simbolismo e o parnasianismo, marcado pela herança romântica, e sempre pronto a incorporar as conquistas modernistas a seu repertório. É o que observam seus muitos estudiosos. José Aderaldo Castello, por exemplo, entende que: as quatro primeiras composições de A cinza das horas são ponto de partida: “Epígrafe” sugere o lado confessional de aceitação do destino; o lamento em “Desencanto”; e a aspiração à maneira de exprimir-se está implícita nos sonetos “A Camões” e a “Antônio Nobre”, poeta este de remarcada simplicidade. Nessa fase preparatória, prevalece a sensibilidade romântica, mas a forma cultivada fica entre parnasiana e aceitação dos versos libertado e livre dos simbolistas. (CASTELLO, 2004, p. 129). Para o crítico Massaud Moisés (2004, p. 91), Manuel Bandeira iniciou sua produção poética ainda ligada à estética simbolista, sobretudo na sua vertente penumbrista, e a algumas características do Parnasianismo, como é possível perceber em seus três primeiros livros: A cinza das horas, 1917; Carnaval, 1919; e O ritmo dissoluto, 1924. Neste último, já se esboça 11 maior desprendimento das tradições parnasianas e simbolistas rumo ao modernismo evidente do livro seguinte, publicado em 1930, Libertinagem. Já Péricles Eugênio da Silva Ramos prefere apontar a adesão de Bandeira ao modernismo, desde o início, pois “uniu-se logo aos renovadores de São Paulo em cujas publicações de vanguarda, como Klaxon, Terra Roxa e Revista de Antropofagia, publicou poemas” (RAMOS, 2001, p. 93). Quando se realizou a Semana de Arte Moderna, em 1922, Bandeira já publicara dois livros e já era, portanto, conhecido pelos novos de São Paulo, “que o tomavam como um ‘São João Batista da nova poesia’, principalmente pelo que havia de inconformação em ‘Os Sapos’” (Ibid., p. 93). Luiz Costa Lima resume a situação de Manuel Bandeira na poesia brasileira, considerando-o um “poeta de transição”, um “elo” entre a “mentação romântica” e “a então inovadora” estética modernista. (COSTA LIMA, 1968, p. 25). Contudo, afirma o crítico, o poeta pernambucano se afasta da “linguagem pré-modernista”. E isso só foi possível graças à técnica do uso da linguagem coloquial e corriqueira. (Ibid., p. 26-27). Pode-se afirmar, então, que Manuel Bandeira é um poeta modernista – graças à linguagem poética coloquial, ao fato de os temas dos poemas serem retirados do cotidiano, ao uso, pelo escritor, do prosaísmo poético, técnica modernista, graças também ao registro da cultura popular brasileira, tão comum entre os artistas modernistas – que não rompe radicalmente com a tradição literária. Mas, para Costa Lima, o que faz do escritor pernambucano “poeta transicional”, mais do que a adesão às práticas e estilo modernista sem a perda de contato com a tradição, se mostra ao considerarmos o papel da ironia. Ela é o sintoma mais certo da tensão própria do autor: concentrado na busca de exprimir sua emoção pessoal perante as coisas e, ao mesmo tempo, necessitando controlá-la. Bandeira, poeta de transição porque foco de tensão entre o afluxo para a intimidade, própria do romantismo, e a projeção inversa para o escavar na realidade externa, característica do modernismo. (Ibid., p. 27). Essa tensão poética, que se revela na tensão da forma, condensada na ironia é o que faz de Bandeira um poeta de transição – não apenas na relação com a história literária, mas, sobretudo, no embate com a linguagem e com as formas literárias. Para Alfredo Bosi, Bandeira é “um dos melhores poetas do verso livre em português, e, a partir de Ritmo Dissoluto, talvez o mais feliz incorporador de motivos e termos prosaicos à literatura brasileira” (BOSI, 2003, p. 361). Ao mesmo tempo, a poesia bandeiriana nunca ficou completamente imune às tradições poéticas, ora de esfera romântica, ora de esfera neoclássica. Já ocorrem, por exemplo, em determinados poemas de O ritmo dissoluto, “o uso de formas não regulares (característica que vai de encontro às formas regulares do parnasianismo e do simbolismo), e aparecem algumas formas do polimetrismo.”. (RAMOS, 2001, p. 95). Carnaval, segunda obra lírica publicada por Manuel Bandeira, em 1919, é para o crítico Castañon Guimarães, um livro que apresenta poemas de tom melancólico e marcado pela angústia. “Carnaval apresenta aspectos subjetivos em seus poemas, que singularizam essa festa popular, de maneira diferente de como geralmente a vemos.” (CASTAÑON 12 GUIMARÂES, 2008, p. 99). O poeta apresenta ao leitor poemas que tratam de um carnaval marcado pela melancolia, diferentemente do senso comum, que concebe uma festa da alegria e da celebração da vida no presente. Para Massaud Moisés, apesar da permanência do tom da obra inaugural de Bandeira, nessa segunda coletânea já se percebe o repúdio à métrica parnasiana, no poema “Os Sapos”, e se evidencia também: a presença de versos heterométricos, ou livres, aprendidos nos poetas europeus do Simbolismo, que anunciam a incursão do poeta no universo de vanguarda. Acrescente-se-lhe ainda o pendor para o coloquialismo, provavelmente herdado de Antônio Nobre, e que será constante em sua trajetória. Compreende-se, assim, que Mário de Andrade tenha divisado no poeta as condições de precursor do Modernismo, ou seja, de ‘S. João Batista da Nova Poesia.’ (MOISÉS, 2004, p. 92). Para Castañon Guimarães, O ritmo dissoluto, a terceira obra do poeta, publicada num único volume com as duas anteriores, e constituindo um conjunto antecessor de sua atuação propriamente modernista, “tem a ver não com uma suposta dimensão de comportamento, mas com a ampla liberdade buscada então pelos poemas, em todos os planos por que este é composto” (CASTAÑON GUIMARÃES, 2008, p. 102), especialmente em relação ao verso. E além do mais, o abandono, de modo parcial ou completo, do verso metrificado se junta ao abandono da rima, fazendo com que haja a convivência de poemas construídos segundo as formas tradicionais e de poemas com formas mais livres. Nele estão presentes muitos dos elementos que serão desenvolvidos por outros poetas modernistas e que constituirão a marca de Bandeira, confirmando-se como uma obra de transição que já “aprofunda o coloquialismo, o prosaísmo, incorporando com frequência maior elementos de origem popular.” (Ibid., p. 105). Libertinagem, obra publicada em 1930, é considerada por muitos como um divisor de águas na poesia bandeiriana. Com este livro, Bandeira é, segundo Giovanni Pontiero, “completamente integrado ao espírito do movimento modernista no Brasil” (PONTIERO, 1986, p. 106). Os poemas de Libertinagem, em sua maioria, foram compostos entre 1924 e 1930, quando o poeta “torna-se mais envolvido na busca modernista do mundo real – um mundo de experiência tangível e vital – e uma busca prática da felicidade.” [grifos do autor] (Ibid., p. 114), através do uso poético do humor, da coloquialidade e da ironia, e provocam “uma nova forma de catarse, que extrai de um espírito de conformismo, mais do que de fuga” (Ibid., p. 114), uma nova maneira de encarar o mundo e a vida. A partir dessa incorporação do prosaísmo, Bandeira “prefere ignorar os cânones de versificação aceitos e dispensar qualquer regra estabelecida de rima, sintaxe ou pontuação, sua poesia chega a contar mais e mais com as imagens.” (Ibid., p. 119). Além disso, o poeta passou a apresentar, em seus poemas, as festas populares, as cirandas, as brincadeiras, o folclore, e o cotidiano mais imediato, conferindo-se universalidade ao particular e corriqueiro. Por isso, Libertinagem é, para José Aderaldo Castello (CASTELO, 2004, p. 130), o livro-síntese da poética de Manuel Bandeira e revela como em outras obras do poeta, 13 a aspiração tão claramente confessada numa forma simples e espontânea (...) ao mesmo tempo melancólica e resignada, confirmando o que havia sido e antecipadamente reconfirmando o que seria até o fim, não obstante certos momentos de ‘revolta’. Esta seria sempre um misto de desafogo interior com impulsos de libertinagem, cuja expressão literária era favorecida pela revolução modernista. (Ibid., p. 132). É interessante notar que a importância da contribuição de Bandeira para a evolução da poesia brasileira está relacionada com a capacidade do poeta de incorporar as tradições anteriores ao Modernismo, ou seja, às estéticas parnasiana e simbolista, “retroagindo ao conhecimento amplo da poesia em língua portuguesa até aos ‘cancioneiros’” (Ibid., p. 137), incluindo-se aí o uso de formas clássicas como a ode e o soneto, a preferência pela redondilha menor ou maior e pelas sextilhas, só que remodeladas e reaproveitadas de acordo com as formas livres da estética modernista. Castello ainda assevera que no caso de Manuel Bandeira, tem especial destaque a revalorização das tradições românticas poéticas brasileiras. Assim, na poesia bandeiriana, pesou consideravelmente seu compromisso de aceitação–reação com relação à herança romântica. É de fato Manuel Bandeira o primeiro a reconhecer identidade com a tradição romântica já profundamente harmonizada com a nossa sensibilidade. Foi o que de resto impregnou o Modernismo de uma maneira geral, gerando preocupação critica de reações diversas. E em Manuel Bandeira, há referências diretas à presença romântica. (Ibid., p. 137). Para Davi Arrigucci Jr. (ARRIGUCCI Jr., 2000, p 11), em Libertinagem, 1930, e Estrela da manhã, 1936, estão contidos os poemas em que o estilo maduro de Bandeira se definiu, tendo sido identificada essa atitude artística com a de uma “profunda humildade”. Essa humildade irá se traduzir em uma lírica marcada pela simplicidade que “dá forma ao complexo” e onde reside “o alto mistério de sua arte” (Ibid., p. 13). O prosaísmo de Bandeira seria uma das maneiras encontradas pelo poeta para seguir o caminho aberto por Baudelaire, tão fundamental para a lírica moderna, onde, ainda na raiz da modernidade, acentuando a atitude libertária dos românticos, que romperam a separação clássica dos níveis de estilo, pela mistura do sublime ao grotesco, do elevado ao abjeto, e deram início à exploração lírica do mundo prosaico. (Ibid., p. 25). A maturidade e as conquistas poéticas obtidas com a publicação de Libertinagem se confirmarão nas obras posteriores. Em 1936, Manuel Bandeira publica Estrela da manhã, que dá prosseguimento ao uso do coloquialismo e à exploração das novidades modernistas. Nesta obra, porém, “os elementos do cotidiano continuam presentes, mas associados a uma dimensão menos documental, menos realista; aqui eles se ligam a uma fantasia mais ativa, que tende a se libertar desse contrato com a realidade” (CASTAÑON GUIMARÃES, 2008, p. 132), o que pode ser entendido como uma tentativa de manifestação do sentimento religioso, 14 para críticos como José Aderaldo Castello, ou da busca atormentada do amor, como entendem Gilda de Melo e Souza & Antonio Candido, quando interpretam a imagem que dá título ao volume, “a fugidia estrela da manhã”, como aquela que “envia ao poeta apenas o reflexo de seu brilho” (CANDIDO & SOUZA, 1993, p. 15). A partir de Lira dos cinquent´anos, de 1940, os temas da morte e do desencanto, presentes desde o primeiro livro, retornam com uma força ainda maior, mas agora se admitindo a presença constante da “Indesejada das Gentes” no cotidiano do poeta e sua inevitabilidade para qualquer pessoa. Além disso, o tema da infância retorna de modo definitivo e serve como contraponto, por sua carga de ternura e simplicidade, à permanente ameaça da morte (CASTELLO, 2004, p. 134). Os livros Belo Belo, de 1948, Opus 10, de 1952, e Estrela da tarde, de 1960 (além dos versos de circunstância reunidos no volume Mafuá do Malungo, também de 1948), completam a obra poética de Manuel Bandeira e dão continuidade ao que vinha se afirmando nos livros de sua fase madura, a partir de Libertinagem, com o tema da morte e seu contraponto no tempo feliz da infância ainda muito presentes. Estrela da tarde, de 1960, é a última obra poética publicada por Manuel Bandeira, composta por poemas inéditos. O seu título sugere para Castañon Guimarães (2008, p. 15152), o fim de uma vida e de uma obra. Este não foi, contudo, o último livro do escritor. Bandeira publicou em 1966 o livro Estrela da vida inteira, o qual é a reunião de sua poesia completa, incluindo os versos de circunstância e os poemas traduzidos. No que diz respeito à prosa, note-se que, se entendemos a literatura como ficção e fantasia, Manuel Bandeira foi essencialmente poeta. Em sentido geral, porém, o escritor pernambucano foi um crítico literário e historiador da literatura profícuo e influente, um cronista muito atuante e um tradutor competente, tendo sido responsável por antologias de poetas românticos e parnasianos fundamentais para a compreensão da literatura brasileira e ocidental. No âmbito deste trabalho, interessa-nos também sua autobiografia literária, publicada em 1954, e intitulada Itinerário de Pasárgada. Nessa obra, Bandeira passa a limpo sua vida, sem abandonar o estilo humilde e simples, marcado pelo prosaísmo poético, e abordando os temas corriqueiros do cotidiano como acontece em sua poesia. Outro aspecto a ser destacado é o fato de que, como percebe Arrigucci Jr., o Itinerário é a obra na qual Manuel Bandeira “se entrega a essa reflexão crítica sobre o próprio ofício, que é, aliás, uma das marcas da tradição moderna: a incorporação da própria crítica, (...), no interior do projeto de construção da obra.” (ARRIGUCCI Jr., 2009, p. 124). Ou, em outras palavras, nessa autobiografia literária, o fazer poético é estudado e “se mostra à visão do fazedor, iluminada em teoria, mas numa chave modesta e simples, que não destoa do estilo humilde do poeta.” (Ibid., p. 124). O título da obra de Bandeira apresenta uma palavra, Pasárgada, que sugere cogitações poéticas e expressivas e que, em conjunto com o resto do título da autobiografia, pode ser lida como uma travessia rumo à poesia, ou seja, o livro é “como uma narrativa confessional que tende à ficção: rumo a uma terra de sonho, espaço de uma utopia pessoal, cidade do desejo, onde o impossível por fim se pode perfazer.” (Ibid., p. 126). Percorrer esse trajeto rumo ao 15 mundo poético bandeiriano é “acompanhar os movimentos do desejo do poeta enquanto formador desse universo particular, de um cosmo próprio, em cuja raiz se acha a emoção poética.” (Ibid., p. 127). O poeta, no Itinerário de Pasárgada, fornece as chaves para a entrada nesse universo, explicitando o modo como se dá, no seu caso, a inspiração poética, e reforçando que se deve sempre examinar o alumbramento, como o poeta nomeia o momento da criação literária, em relação ao problema da linguagem poética, “enquanto produto de uma lenta aprendizagem”. Davi Arrigucci Jr. argumenta que para o poeta, a revelação simbólica da poesia, a inspiração repentina, se dá no chão do mais ‘humilde cotidiano’, de onde o poético, como um sublime oculto, pode ser desentranhado, ou seja, re-velado, por força da depuração e condensação da linguagem, na forma simples e natural do poema. Por essa via, se poderá tentar, por fim, desvendar o sentido último e mais geral de todo o itinerário bandeiriano. [grifos do autor]. (Ibid., p. 128-29). Bandeira faz coincidir a inspiração poética com uma “manifestação epifânica”, como se fosse uma “sacralização do instante” (Ibid., p. 131). Sua linguagem poética, porém, evita toda a elevação, buscando na humildade as palavras mais simples. Por fim, a tensão que se percebe entre “espontaneidade e convenção, ou entre artesanato e alumbramento” (Ibid., p. 136), pode ser verificada em toda a obra do escritor. Outro elemento com presença constante na obra do escritor é a possibilidade de aproximação entre poesia e música, sendo a obra bandeiriana uma das que apresentam forte presença musical. Para Roger Bastide, o mundo exterior é apreendido na poesia bandeiriana “pelo ouvido, isto é, como um conjunto de músicas. Por conseguinte, pelo lado mais subjetivo que se possa encontrar.” (BASTIDE, 1997, p. 58). Segundo o crítico, “(...) [é] pelo som que o poeta retém o mundo exterior. (...).” E acrescenta: “Ele destaca esses sons de todo suporte material, dos objetos que lhes dão nascimento, para apreendê-los como vibrações puras e não como significações objetivas” (Ibid., p. 59). A entrega à subjetividade, em Bandeira, segundo Bastide, faz com que o poeta tenha que enfrentar – para não se submeter ao trágico – seus fantasmas, seus medos, aceitando, finalmente, “a desordem interior para dela tirar uma ordem nova. Criará, pode admitir-se, a ordem da desordem” (Ibid., p. 61). Daí ser também compreensível a variedade do ritmo em Bandeira; o exercício do alexandrino parnasiano que, aos poucos, vai dando lugar ao verso livre ou à mescla de ritmos e metros revela a história de uma luta interna, a tensão e a aceitação de um eu: ao mesmo tempo que se processa essa revolução interior, opera-se uma metamorfose em sua arte poética, uma dissolução da técnica parnasiana, a criação de novas formas de poesia. Esses dois movimentos são simultâneos e paralelos, não podem ser compreendidos um sem o outro. Seria um grande erro pensar que Manuel Bandeira passou do parnasianismo ao verso livre para seguir a moda do momento, para refletir a Europa. O verso livre é o resultado da aceitação de seu “eu” e de seu caos; mais exatamente, a descoberta de que esse caos não era propriamente um caos, mas uma ordem sutil, que não se podia exprimir pelos ritmos grosseiros e comuns, necessitando, por conseguinte, de novo instrumento musical (Ibid., p. 61). 16 A forte presença da subjetividade do eu lírico e a aceitação do próprio universo que apresenta uma “ordem sutil” não significa uma transposição mecânica do que se passa no interior do poeta para o poema. Na verdade, o poema será o resultado da relação entre a descoberta desse universo e a tentativa de ordenação desse caos. O eu lírico não é o poeta pura e simplesmente, não se confundindo, ao menos totalmente, com o “eu biográfico” do poeta. De acordo com os estudos de Gilda de Mello e Souza & Antonio Candido, o que ocorre na poesia de Bandeira é, que especialmente nos poemas em que a memória se apresenta como recurso caracterizador do texto, aparece um “Eu unificador” (SOUZA & CANDIDO, 1993, p. 3), que atua como um “mediador” entre o presente e o passado do poema e do poeta. Dessa maneira, mesmo de forma oblíqua e incompleta, a despersonalização, tão característica da poesia moderna, é posta em questão, mas não é abandonada. A “voz lírica deste Eu (...) nos acompanha a cada passo, dando a cada verso o seu timbre e sua vida” (Ibid., p. 3), distanciando-se, aos poucos, do “eu confidente” dos românticos. Tem-se assim um eu lírico, à maneira de Proust, no seu romance Em busca do tempo perdido – objeto de estudo no próximo capítulo deste trabalho –, com características de “personagem”, o que reflete os anseios e reminiscências do eu poético como personagem, o que o distancia do meramente “biográfico” ou “confidente”. Para os críticos, uma possibilidade de leitura dos poemas bandeirianos deve incluir o fantasioso e o imaginário, além do próprio processo de criação literária, como uma reorganização progressiva dos espaços poéticos, a partir de uma concepção tradicional, até chegar a uma concepção nova, segundo a qual os objetos perdem o caráter óbvio que tinham inicialmente. Este critério se justifica ante a evidente fixação do poeta com os espaços vividos e imaginados: o quarto, a sala, a casa, o jardim, a cidade, a rua; depois, os ambientes de sonho, as paragens remotas, as vastidões da fantasia. (Ibid., p. 6). O eu poético bandeiriano é visto, por conseguinte, como um mediador, um “unificador” dos dois polos da arte, “isto é, o que adere estritamente ao real e o que procura subvertê-lo por meio de uma deformação voluntária”, fundindo, unificando, os opostos “como manifestações da sua integridade fundamental”. (Ibid., p. 3). Dessa forma, os dois polos poéticos (realidade e fantasia) são “unificados” pelo “Eu” (“que mostra a vida e o mundo”) e funde-os (os dois polos poéticos) em uma “integridade primordial”, ora pelo viés realista, ora por meio “de uma deformação voluntária”, uma “subversão” do real, que se aproxima da “fantasia”. O “Eu unificador” da poesia bandeiriana reúne real e a fantasia e também, visando à reconstituição da experiência vivida, os tempos passado e presente, trazendo à tona as reminiscências do seu eu lírico, ao nível da experiência diária, colorindo-se de uma ternura cálida, dando força comunicativa a um verso que nem sempre é fácil, mas que tranquiliza o leitor pela humanidade fraterna com que organiza a desordem e o tumulto das paixões, conferindo-lhes uma generalidade que transcende a condição biográfica. (Ibid., p. 4). 17 Poucos poetas terão conseguido, como Manuel Bandeira, aproximar-se do leitor, fornecendo-lhe informações até biográficas, “que, entretanto, não parecem bisbilhotice, mas fatos poeticamente expressivos. O seu feitiço consiste, sob este ponto de vista, em legitimar sua matéria (...)” com “as casas onde morou, o seu quarto, os seus pais, os seus avós, a sua ama, (...)”. (Ibid., p. 5). A palavra “universo”, usada por Davi Arrigucci Jr. para descrever o espaço e o tempo – real, imaginário e poético – onde o poeta circula, será a mesma que outra estudiosa do escritor pernambucano escolhe para falar de sua obra. Yudith Rosenbaum chama a atenção para esse “universo bandeiriano” (ROSENBAUM, 1993, p. 68), um verdadeiro cosmo particular onde habitam as pessoas e acontecimentos da “mitologia pessoal” do poeta. “Universo” resume também o mundo particular que o escritor francês Marcel Proust retrata em sua obra Em busca do tempo perdido, objeto de estudo do próximo capítulo. Em ambos, a mesma sensação de “ausência” dos seres e das coisas queridas, e a mesma busca de ressurreição de toda uma vida, especialmente a vivida na infância, por meio da literatura. 18 CAPÍTULO II – O JARDIM SUBMERSO O tema do tempo perdido e a relação entre memória e infância na poesia de Manuel Bandeira podem ser lidos numa perspectiva intertextual com a obra de Marcel Proust (18711922), Em busca do tempo perdido. Os vários volumes do romance proustiano foram escritos entre os anos de 1908 e 1922, ano da morte do escritor. E foram publicados na França entre os anos 1913 e 1928. As obras proustianas publicadas postumamente foram Albertine disparue, em 1926 e Le temps retrouvé, no ano seguinte, os dois romances lançados em dois volumes cada. Já Manuel Bandeira (1886-1968) publicou sua primeira coletânea de versos, A cinza das horas, em 1917 e não parou de produzir até perto de sua morte. Em seu estudo sobre a recepção de Marcel Proust no Brasil, Hermenegildo de Sá Cavalcante (1986) afirma que a década de 20 do século XX foi um “tempo heroico” para a Literatura Brasileira - cujo ápice foi a Semana de Arte Moderna de 1922 - porém o Brasil, em termos literários até aquela data não havia sofrido nenhuma verdadeira renovação artística. Já na Europa, as novidades literárias e inovações artísticas nunca cessaram. Em 1919, chega ao Brasil um livro incompreendido, discutido, igualmente aceito e rejeitado com paixão, ganhava o Prêmio Goncourt: A l´ombre des jeunes filles em fleurs, de Marcel Proust, fazia com que a literatura desse uma nova e violenta guinada, entrasse realmente – e com quase vinte anos de atraso, no século XX (...). (CAVALCANTE, 1986, p. 21). Segundo o estudioso, “o primeiro a ler Proust em nosso país teria sido um médico, oficialmente, mas também um escritor residente na quase vila de Maceió (...).” (Ibid., p. 22) e que foi de fundamental importância para a divulgação de Proust entre nós. Trata-se do poeta Jorge de Lima. A leitura de Jorge de Lima – este sim, o primeiro escritor brasileiro não apenas a ler Proust, mas também o primeiro a falar sobre ele e a publicar sobre ele um ensaio, em 1923, no qual anunciava ter descoberto o que outros só descobririam muito depois, no Brasil: que Marcel Proust era a revolução, o novo, o inédito. (Ibid., p. 22). As primeiras traduções para o Português, no Brasil, da obra Em busca do tempo perdido, surgiram apenas em 1948. O primeiro volume traduzido, também por um poeta, Mário Quintana, foi No caminho de Swann. Em 1951, Quintana traduz À sombra das raparigas em flor; em 1953, traduz O caminho de Guermantes; e, em 1954, é publicada a tradução de Sodoma e Gomorra, também realizada por Mário Quintana. Em seguida, Manuel Bandeira, em colaboração com Lourdes de Souza Alencar, realizou a tradução de A prisioneira. No mesmo ano de 1956, foram feitas as traduções dos dois últimos volumes - A fugitiva e O tempo redescoberto – realizadas, respectivamente, por Carlos Drummond de Andrade e Lúcia Miguel Pereira. 19 O contato de Manuel Bandeira não se dá apenas pela tradução do quinto volume de Em busca do tempo perdido. É importante notar ao ler as missivas trocadas entre Manuel Bandeira e Mário de Andrade, que se apresenta uma carta significativa para nossos propósitos de relacionar certas características de estilo entre Bandeira e o romancista francês Marcel Proust. Uma missiva de Manuel Bandeira endereçada a Mário, datada de 13 de outubro de 1930. Nela, Bandeira afirma textualmente, “Estou enterrado até a cabeça no Proust. Desta embreei (era terceira vez que investia!).” (ANDRADE & BANDEIRA, 2001, p. 464). Mostra o interesse de Manuel Bandeira em ler e compreender ao máximo o estilo do romance proustiano. A nota 65 (sessenta e cinco) do organizador Marcos Antonio de Moraes também é muito significativa para compreendermos o interesse de Bandeira em Proust e seu universo literário. A nota apresenta o seguinte: Em 9 de Janeiro de 1930, MB [Manuel Bandeira] escrevia a Jorge de Lima: ‘A respeito de Proust nada sei senão o pouco que tenho lido em alguns críticos. Confesso o meu aleijão: ainda não pude meter o dente no Proust. (...). Mas agora tenho de tomar providências sérias porque não é mais possível continuar desconhecendo Proust. Vou ‘estudar’ Proust. (...). (Ibid., p. 465). O que só reforça a leitura que se fazia de Em busca do tempo perdido, no Brasil, no início do século XX, pois a carta de Bandeira endereçada a Jorge de Lima foi escrita para a pessoa e poeta que primeiro leu Proust no Brasil. Só para corroborar o escrito até aqui, tem-se outra carta de Manuel Bandeira, agora escrita para Mário de Andrade, datada de 24 de novembro de 1930. Nessa nova missiva, Bandeira é categórico: Estou uma fera no Proust. Puxa que é bom que é danado! Nunca me senti tão confortado nas minhas dores de corno. O bicho era especialista no assunto. Já li 11 (onze) volumes e falta só Albertine disparue e Le temps retrouvé. (Ibid., p. 470). A relação entre a obra proustiana e a poesia de Bandeira nos interessa pelo viés das conexões estabelecidas pelo autor francês entre memória, infância e fazer poético. Em busca do tempo perdido, que pode ser lido como um romance de formação, narra, na primeira pessoa, a história de Marcel, um escritor que no final da sua vida transforma as lembranças das muitas experiências que teve, incluindo a infância, em matéria poética. Portanto, os três elementos apontados são o eixo estruturante de toda a narrativa. Dessa forma, pode-se afirmar que a originalidade Marcel Proust é “a recriação de um mundo morto, reproduzido indisfarçadamente como um passado que se reconquista pela memória e pela imaginação.” (LINS, 1968, p. 120). A imaginação, as percepções e sensações de Marcel, na narrativa, são expressas sobre o passado ou o futuro, em pouquíssimos momentos no presente. Proust acaba por realizar um 20 processo de reconstituição e reconstrução do pretérito, por meio da memória, em suas duas vertentes: a “memória voluntária” e a “memória involuntária”, pois elas atuam sempre concomitantemente e nunca agem de maneira independente uma da outra. No romance proustiano, “tudo se reduz a termos de um tempo pretérito que está sendo reencontrado e salvo do aniquilamento pelas potências recriadoras da memória.” (Ibid., p. 121). A “memória voluntária” é a memória da inteligência, da razão e da consciência organiza as reminiscências que são rememoradas pela “memória involuntária”, a partir de impressões, sensações, experiências e percepções. A “memória involuntária” é “um elemento de singular efeito, na forma de outra espécie de memória, diversa da utilizada comumente em literatura, (...), para distinguir-se da memória da inteligência.” (Ibid., p. 121). Os esquecimentos ou o fato de não lembrarmos detalhadamente de uma pessoa ou de um acontecimento, serve no romance proustiano, por meio da “memória involuntária”, para fazer a realidade pretérita ressurgir “pura e íntegra”, “num momento privilegiado”. (Ibid., p. 122). Uma passagem do primeiro volume de Em busca do tempo perdido - no caminho de Swann -, evidencia a rememoração a partir de sensações, característica da “memória involuntária”: E de súbito a lembrança me apareceu. Aquele gosto era o do pedaço de madalena que nos domingos de manhã em Combray (pois nos domingos eu não saía antes da hora da missa) minha tia Léonie me oferecia, depois de o ter mergulhado em seu chá da Índia ou de Tília, quando ia cumprimentá-la em seu quarto. O simples fato de ver a madalena não me havia evocado coisa alguma antes que a provasse; (PROUST, 2006, p. 73). É evidente a caracterização de uma memória marcada pela apreensão inconsciente de sensações e impressões, no caso da citação acima, é pelo sentido da visão que se dá uma parte do início do rememorar, mas é principalmente pelo gosto, pelo paladar, que o Narrador inicia uma série de rememorações. Nas páginas seguintes, é perceptível um fluxo de rememorações marcadas pelo inconsciente, ou seja, por lembranças que vêm à tona e surgem num contínuo involuntário na memória do Narrador, estas reminiscências são apreendidas por meio de sensações e impressões dos sentidos. Na sequência deste desenrolar, em certo momento, contudo, o Narrador se vale da memória da inteligência, da “memória voluntária”, numa passagem como esta: (...) esquecido do passeio ou da obrigação, ali parado diante da torre, horas e horas, imóvel, procurando lembrar-me, sentindo, no fundo de mim, terras reconquistadas ao esquecimento, que vão secando e delineando seu perfil; e nesse instante, e mais ansiosamente do que há ainda pouco quando lhe pedia que me informasse, continuo a procurar o caminho, dobro uma rua... mas em meu coração... (Ibid., p. 97). Neste trecho, o Narrador “procura” lembrar, deliberadamente, fatos pretéritos. Na passagem acima, a “lembrança” passa a ser “reconquistada” a partir da memória racional e da 21 inteligência, a memória voluntária é utilizada na busca de recuperar determinadas reminiscências, que são “retiradas” do “esquecimento”. Portanto, a rememoração em Proust se dá por dois processos, o da “memória voluntária”, ligada mais ao consciente, a inteligência e ao racional e a “memória involuntária” que se inicia com a experiência de certas sensações e impressões pelo Narrador, os dois processos mnemônicos ocorrem interdependentes. Efetivando-se dois processos de rememoração, dois modos de reminiscências, ou como estas são levantadas por aqueles dois processos já referidos, “um, o da “memória involuntária”, quando sonhava e elaborava; o outro, o da “memória voluntária”, quando escrevia e compunha.” (LINS, 1968, p. 125). As sensações e impressões levam o Narrador proustiano a descobrir, pela “memória involuntária” “um mundo mágico de seres e objetos” (Ibid., p. 125); e por outro processo, o da “memória voluntária”, a memória da inteligência ordena aquele mundo e lhe dá forma (poética). Shattuck propõe que “inteligência e intuição trabalhando juntas, controlando-se e encorajando-se mutuamente. A Busca mostra um homem tentando encontrar sua mente - a mente total. Ela sempre parece ter duas partes opostas.” (SHATTUCK, 1985, p. 122). Isso configura um processo em que a parte da consciência (“memória voluntária”) e a parte do subconsciente (“memória involuntária”), buscam realizar o processo de rememoração de impressões e aspectos do passado que são caros ao narrador, ao eu. O processo narrativo de Proust é baseado na observação, nas percepções sensoriais, tanto visuais, quanto auditivas, olfativas, palatáveis e táteis. Desse modo, o Narrador proustiano guarda na memória seres e objetos, num procedimento de renovação e contemplação, que resulta em uma “sensação completa” (LINS, 1968, p. 117), ou seja, uma lembrança fixada pelo duplo processo de rememoração. Já ao analisarmos outro aspecto da obra proustiana: a infância, a qual se constitui numa fase da vida que “representa não apenas a totalidade da experiência, mas também o domínio onde a criança permanece em estreita proximidade com a sensação direta, sob a forma de impressões.” (SHATTUCK, 1985, p. 110). Impressões, tão caras na obra proustiana, que constituem a infância do Narrador e transformam esse período da vida em uma fase da existência do Eu, que este a elege como a época privilegiada de toda sua vida, quando ao fim do romance, o Narrador já adulto e formado como escritor, rememora a infância e expressa as suas lembranças literariamente. O capítulo inicial da Busca, de cinquenta páginas, “move-se através de três estágios distintos.” (Ibid., p. 123). O primeiro representa uma mente não identificada, que transita entre as fronteiras do sono e da vigília. A consciência “é salva desse colapso” (Ibid., p. 123) este marcado pela doença, pela infância, pela inocência edênica, impressões que constituem um emaranhado, um caos identitário -, do qual o Eu é salvo pela memória. É então que se inicia o segundo estágio do capítulo inicial de Em busca do tempo perdido, “uma criança, em Combray, está esperando ansiosamente pelo beijo de boa-noite de sua mãe. Mas essa vívida marca de consciência não pode se expandir além de um limite perigoso. Ela fica bloqueada até que o encanto se quebra (...)” (Ibid., p. 124), justamente, no 22 terceiro estágio do capítulo inicial da obra proustiana: através do incidente da “Madeleine”, todo um segmento do passado do Narrador volta à mente consciente “e dá ao protagonista uma identidade segura, o início de uma vida e uma história para continuar.” (Ibid., p. 124). Ou seja, a “memória involuntária” é que torna o eu apto para lembrar-se dos fatos e das sensações passadas da sua existência pregressa. O que a rememoração faz constituir, desse modo, a identidade do Narrador. Ele ao se descobrir como escritor/artista, ao fim da obra, tem sua identidade formada e o Eu descobre o que tanto procurou (nessa busca demasiadamente longa, que tanto lhe angustiou), encontra assim o Narrador a sua real vocação, atividade a ser desenvolvida em sua vida: a arte de contar histórias, que é organizada racionalmente pela “memória voluntária”. Ou seja, Marcel descobre-se como escritor. Proust era um ser contemplativo e por isso mesmo tendia à solidão. A convicção de Proust “de que o sofrimento e a mágoa são, afinal, salutares, e fornecem uma forma de conhecimento espiritual.” (Ibid., p. 141); e as teorias proustianas sobre a “memória involuntária” e a “memória voluntária”, fizeram Proust “voltar-se para o seu próprio passado e encorajaram-no a vê-lo com maior alívio, com percepção de profundidade no tempo.” (Ibid., p. 141). Marcel Proust tornou-se o escritor de sua própria vida e também de um livro que ao realizar poeticamente o rememorar de toda sua existência, destaca a “aurora da vida”, a infância como fase de descobertas e consolidação das primeiras impressões e percepções da realidade e de status privilegiado. As lembranças da infância juntam-se às demais, percebidas pela “memória involuntária” e organizadas pela “memória voluntária”. E, por fim, ao expressar todo esse material mnemônico por meio do fazer poético, em forma de literatura – romance -, Marcel Proust forma-se escritor. Tudo isso reforça o interesse de Manuel Bandeira pela obra proustiana e que se fez reverberar na produção poética do escritor brasileiro, no que se refere aos seus poemas em que os dois processos de rememoração, o da “memória voluntária” e o da “memória involuntária”, são utilizados para trazer à tona as reminiscências da infância do eu lírico. O eu poético bandeiriano ao expressar literariamente, poeticamente as reminiscências da sua infância, consegue reconstruir e recuperar sua infância, o que acarreta um apaziguamento à melancolia do eu lírico adulto, pois o fazer poético ao expor as lembranças da infância do eu em forma de arte, em forma literária, faz o eu lírico se sentir reconfortado e recuperar o tempo interrompido, perdido (infância), como veremos nos capítulos seguintes. 23 CAPÍTULO III – Há que tempo não te vejo! O poema “Recife” faz parte da coletânea Estrela da tarde, publicada originalmente no ano de 1960, e pode ser lido como exemplo de certo desapontamento do eu lírico diante da cidade no presente e a consequente tentativa de reconstituição do passado e da infância. Diz o poema: Recife “Há que tempo que não te vejo! Não foi por querer, não pude, Nesse ponto a vida me foi madrasta, Recife. Mas não houve dia em não te sentisse dentro de mim: Nos ossos, nos olhos, nos ouvidos, no sangue, na carne, Recife. Não como és hoje, Mas como eras na minha infância, Quando as crianças brincavam no meio da rua (Não havia ainda automóveis) E os adultos conversavam de cadeira nas calçadas (Continuavas província, Recife). Eras um Recife sem arranha-céus, sem comunistas, Sem Arrais, e com arroz, Muito arroz, De água e sal, Recife. Um Recife ainda do tempo em que o meu avô materno Alforriava espontaneamente 24 A moça preta Tomásia, sua escrava, Que depois foi a nossa cozinheira Até morrer, Recife. Ainda existirá a velha casa senhorial do Monteiro? Meu sonho era acabar morando e morrendo Na velha casa do Monteiro. Já que não pode ser, Quero na hora da morte, estar lúcido Para te mandar a ti o meu último pensamento, Recife. Ah Recife, Recife, non possidebis ossa mea! Nem os ossos nem o busto, Que me adianta um busto depois de eu morto? Depois de morto não me interesará senão, se possível, Um cantinho no céu, "Se o não sonharam", como disse o meu querido João de Deus, Recife.” (BANDEIRA, 1993, p. 249-50). Todas as sete estrofes do poema terminam pontuadas por ponto final e expressam uma ideia, sintetizada no último verso de cada uma delas e condensada na palavra “Recife”, que também dá título ao poema. Este verso final é, quanto ao som, uma espécie de bordão, e dando unidade sonora ao texto. A esse recurso harmônico, soma-se outro recurso poético, a repetição de palavras como uma quase anáfora: “Recife” é repetida também no princípio de quase todas as estrofes, embora nem sempre na mesma posição. Os versos são livres e brancos, ainda que alguns sons no final dos mesmos se repitam, mas não de forma regular. Basta ver a rima toante entre o par morrENdO/pensamENtO, aproximado também a MontEirO. Ou os pares infância/província e arroz e Arrais, aproximados sonoramente e colocados ora em confronto, ora em combinação. Assim, ao mesmo tempo em que temos a presença do prosaísmo poético, recursos próprios do ritmo e da poesia também estão presentes. O uso repetitivo da palavra “Recife” (o vocábulo aparece 12 vezes, incluindo o título) confirma o tom evocativo, de rememoração, além de dar um caráter íntimo ao local, a ponto de o eu lírico se dirigir diretamente à cidade onde morou. A predominância do uso do 25 vocativo e da segunda pessoa dá a medida da importância de Recife para o poeta. Do mesmo modo, a repetição da palavra promove uma espécie de sortilégio, como se o nome fosse capaz de trazer a infância e o local distantes para o tempo e o espaço atuais do poeta. O eu poético trata carinhosamente sua terra natal, utilizando o pronome “tu” e derivados: “Há que tempo que não te vejo!” e os verbos na segunda pessoa. A memória no poema em análise apresenta-se ao nível da consciência do eu poético, caracterizando, assim, o recurso da “memória voluntária”, segundo o que propõe Marcel Proust. Nesse poema, o “eu” rememora os fatos de sua infância, em Recife, de maneira consciente e voluntária. Ele (eu lírico) “busca” lembrar-se dos fatos vividos na terra natal: “Um Recife ainda do tempo em que meu avô materno/Alforriava espontaneamente/A moça preta Tomásia, sua escrava,/Que depois foi nossa cozinheira/Até morrer,/Recife”, sem que essa recordação tenha sido provocada por uma experiência dos sentidos, mesmo que seja no campo sensorial – o eu lírico tem consciência disso – que se manifesta a saudade da cidade querida: “Mas não houve dia em que te não sentisse dentro de mim:/Nos ossos, nos olhos, nos ouvidos, no sangue, na carne,/Recife”. Dessa forma, a memória guarda lembranças tão carinhosas que o “Recife” se faz presente na “ausência”, para usar a definição dada pela estudiosa Yudith Rosenbaum (1993, p. 45). O eu lírico, porém, faz uma ressalva na terceira estrofe: o “Recife” que recorda não é o do presente: “Não como és hoje,/Mas como eras na minha infância”, antes das mudanças operadas pela urbanização, pela modernidade do século XX e mesmo pelos movimentos históricos: “Quando as crianças brincavam no meio da rua/ (Não havia ainda automóveis)/ E os adultos conversavam de cadeira nas calçadas/(Continuavas província,/Recife)//Eras um Recife sem arranha-céus, sem comunistas”. Um “Recife”, como se vê na quinta estrofe, ainda escravocrata e patriarcal. Apesar do “atraso”, esse é o “Recife” que o “eu” guarda em suas mais caras reminiscências, em sua memória afetiva e poética. Por isso, além da memória relacionada ao tempo – o tempo longínquo – da infância, temos a memória relacionada ao espaço distante; distância essa que é provocada pela migração do poeta para o sul do país e por sua dificuldade em retornar à cidade natal. “Recife” pode ser lido também como um intertexto em relação a outro poema bandeiriano, “Minha Terra”, de 1948, publicado no livro Belo Belo. Assim como em “Minha Terra”, em “Recife”, o eu lírico refere-se (e prefere) ao Recife do passado, aquele sem as evoluções e as modernidades que surgiram no início do século XX. O que importa para o “eu” são as lembranças das experiências vivenciadas na infância e que ele rememora poeticamente, guardando, na memória, as mais caras e queridas recordações do tempo perdido (infância), vivida em sua terra natal, Recife. O poema, para Yudith Rosenbaum, “denuncia novamente as saudades de uma província longínqua e que, ausente do cenário citadino atual, mobiliza o poeta a seu encalço.” (Ibid., p. 145). No poema estudado, tem-se o tema literário do “tempo perdido”, tão bem expresso nos romances de Marcel Proust. Bandeira também faz uso desse tema, com o intuito de mostrar a infância como um tempo que não volta mais (ou volta, mas sob outras formas), que ficou no passado. E tal tema possui certo tom de incompletude, de interrupção de uma fase da vida (infância), que é mais querida pelo “eu” do que o presente (fase adulta da existência). 26 O poema “Minha Terra” foi publicado originalmente no livro Belo Belo, de 1948, fazendo parte de um momento do escritor, no qual sua estética e estilo já estão plenamente formados e consolidados, tanto no uso da linguagem coloquial, quanto no tratamento dos temas cotidianos. O poema “Minha Terra” mostra um eu lírico reticente com as modernidades do século XX, preferindo a sua terra natal como era antigamente, mais presa às tradições e ao “atraso” histórico, em oposição aos avanços do século que transcorriam no momento da feitura do poema. O poema segue assim: Minha Terra “Saí menino de minha terra. Passei trinta anos longe dela. De vez em quando me diziam: Sua terra está completamente mudada, Tem avenidas, arranha-céus... É hoje uma bonita cidade! Meu coração ficava pequenino. Revi afinal o meu Recife. Está de fato completamente mudado. Tem avenidas, arranha-céus. É hoje uma cidade bonita. Diabo leve quem pôs bonita a minha terra!” (BANDEIRA, 1993, p. 201). O poema possui duas estrofes bem marcadas, uma de seis e outra de quatro versos. Além delas, estão intercaladas, duas estrofes de apenas um verso, como se fossem destacadas das estrofes maiores, o que chama a atenção do leitor para elas. Quanto ao metro, há também uma grande variedade, desde octossílabos até alexandrinos, o que faz com que possam ser classificados como livres. No geral, os versos são brancos. No poema, a expressão “Minha terra” é repetida duas vezes, uma no primeiro verso e outra no último, além de se tratar do próprio título da poesia e da referência sugerida pelo vocábulo “dela”, no segundo verso da primeira estrofe. 27 No poema, passado e presente estão em confronto; o presente da recordação se opõe ao passado da experiência, com o tempo cronológico bem marcado: trinta anos de separação e de notícias recebidas por conhecidos, indeterminados: “De vez em quando me diziam:/ “Sua terra está completamente mudada”. A mudança é completa: “Tem avenidas, arranha-céus.../ É hoje uma bonita cidade!”. A esse tempo presente de mudanças, grandeza e desenvolvimento da terra natal do poeta se opõe o sentimento do poeta: “Meu coração ficava pequenino”, o uso desse diminutivo “pequenino”. O poema, como um todo, apresenta quatro tempos: o primeiro refere-se a um passado remoto, de quando o eu lírico vivia em sua terra natal; o segundo, a um passado impreciso, que marca a mudança do eu lírico para outra cidade há mais de trinta anos; o terceiro, recente, quando o eu lírico revê a sua cidade e confirma as informações recebidas; e o quarto, o momento da enunciação, o “hoje” atual do poeta. Já o uso (repetição) do advérbio “completamente” confirma que “de fato” o Recife está “completamente mudado”. No último verso da terceira estrofe, “É hoje uma bonita cidade.”, o eu pela primeira vez no poema, reporta-se à sua querida terra, sem o uso explícito de um adjetivo possessivo “carinhoso”. Apenas afirma que “é uma bonita cidade” nos dias de hoje, mas sem maiores caracterizações e/ou elogios. Tanto que no quinto verso a pontuação final são as reticências e no sexto verso, o ponto de exclamação (porém foi “alguém” indeterminado que afirmou dessa forma); já no décimo e décimo-primeiro versos, o eu poético usa simplesmente o ponto final. Já o último verso do poema, “Diabo leve quem pôs bonita a minha terra!”, inicia-se com uma expressão coloquial depreciativa, “Diabo leve....”, aquele que tornou, “pôs” “bonita a minha terra!”, juntando os tempos passado e presente : “leve... pôs” O eu refere-se de novo ao Recife, à sua terra natal, “minha”, com o uso do ponto de exclamação e, o próprio adjetivo possessivo “minha”. Porém, a “terra” que o eu está se referindo é a “terra” do “passado remoto”, da sua infância, do primeiro verso do poema (“Saí menino...”) e trazida à consciência pela conversa. A terra querida para o eu, portanto, não existe mais, mantendo-se intocada apenas na memória. Assim, como afirma Rosembaum, “os versos finais denunciam a indignação e revolta do poeta com a perda do seu Recife infantil”. E prossegue: a ‘cidade bonita’ do presente não é capaz de consolar o eu lírico, identificado com um outro espaço geográfico, hoje ‘completamente mudado’, inexistente. Essa nova beleza parece ser externa ao sujeito, avessa à sua sensibilidade. Há mais do que rejeição ao progresso; há perda de um lugar simbólico onde o sujeito se reconhecia. (Ibid., p. 145). O poema “Evocação do Recife”, publicado no livro Libertinagem, de 1930, repete muitos dos temas dos textos analisados anteriormente, evidenciando a ocorrência das relações entre infância e memória desde o início da produção poética bandeiriana. Como afirmado anteriormente, Libertinagem é um marco na trajetória do escritor, inaugurando uma fase em que as inovações modernistas são incorporadas em sua poesia de modo definitivo. “Evocação 28 do Recife” é, talvez, o poema-síntese, do livro, pois nele aparecem vários temas e formas propostos pelo modernismo brasileiro: a linguagem oral, coloquial dos brasileiros sendo exploradas; os temas corriqueiros, do cotidiano nacional sendo abordados na poesia; as tradições populares e religiosas do Brasil tratadas poeticamente; os recursos gráficos, sonoros e imagísticos dando nova roupagem aos poemas: Evocação do Recife “Recife Não a Veneza americana Não a Mauritsstad dos armadores das Índias Ocidentais Não o Recife dos Mascates Nem mesmo o Recife que aprendi a amar depois — Recife das revoluções libertárias Mas o Recife sem história nem literatura Recife sem mais nada Recife da minha infância A rua da União onde eu brincava de chicote-queimado e partia as vidraças [da casa de dona Aninha Viegas Totônio Rodrigues era muito velho e botava o pincenê na ponta do nariz Depois do jantar as famílias tomavam a calçada com cadeiras, mexericos, [namoros, risadas A gente brincava no meio da rua Os meninos gritavam: Coelho sai! Não sai! A distância as vozes macias das meninas politonavam: Roseira dá-me uma rosa Craveiro dá-me um botão (Dessas rosas muita rosa 29 Terá morrido em botão...) De repente nos longes da noite um sino Uma pessoa grande dizia: Fogo em Santo Antônio! Outra contrariava: São José! Totônio Rodrigues achava sempre que era são José. Os homens punham o chapéu saíam fumando E eu tinha raiva de ser menino porque não podia ir ver o fogo. Rua da União... Como eram lindos os montes das ruas da minha infância Rua do Sol (Tenho medo que hoje se chame de dr. Fulano de Tal) Atrás de casa ficava a Rua da Saudade... ...onde se ia fumar escondido Do lado de lá era o cais da Rua da Aurora... ...onde se ia pescar escondido Capiberibe — Capibaribe Lá longe o sertãozinho de Caxangá Banheiros de palha Um dia eu vi uma moça nuinha no banho Fiquei parado o coração batendo Ela se riu Foi o meu primeiro alumbramento 30 Cheia! As cheias! Barro boi morto árvores destroços redemoinho sumiu E nos pegões da ponte do trem de ferro os caboclos destemidos em jangadas [de bananeiras Novenas Cavalhadas E eu me deitei no colo da menina e ela começou a passar a mão nos meus [cabelos Capiberibe — Capibaribe Rua da União onde todas as tardes passava a preta das bananas com o xale [vistoso de pano da Costa E o vendedor de roletes de cana O de amendoim que se chamava midubim e não era torrado era cozido Me lembro de todos os pregões: Ovos frescos e baratos Dez ovos por uma pataca Foi há muito tempo... A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros Vinha da boca do povo na língua errada do povo Língua certa do povo Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil Ao passo que nós O que fazemos É macaquear A sintaxe lusíada A vida com uma porção de coisas que eu não entendia bem Terras que não sabia onde ficavam 31 Recife... Rua da União... A casa de meu avô... Nunca pensei que ela acabasse! Tudo lá parecia impregnado de eternidade Recife... Meu avô morto. Recife morto, Recife bom, Recife brasileiro como a casa de meu avô.” (BANDEIRA, 1993, p. 133-36). O poema “Evocação do Recife” pode ser dividido, em sua tessitura lírica, em três blocos. O primeiro bloco seria, justamente, toda a primeira estrofe, na qual o eu lírico propõe diversas negações pelo Recife que está sendo expresso nessa primeira estrofe: “Recife/Não a Veneza americana/.../Não o Recife dos Mascates(...)”. Ao concluir a estrofe, o eu lírico ressalta que o Recife que ele quer cantar (relembrar) é o “Recife da minha infância.”. O segundo bloco do poema é uma espécie de longo desenvolvimento da primeira estrofe. Nele, o eu poético rememora aspectos, sensações, impressões, fatos e reminiscências de sua infância vivida no Recife: “A Rua da União onde eu brincava de chicote-queimado e partia as vidraças (...)”; esse longo bloco de rememorações vai até o verso, “Tudo lá parecia impregnado de eternidade”. Nesse verso é sugerido o fim de algo terno, feliz, que parecia eterno, inquebrantável. O terceiro bloco é formado pela última estrofe, na qual se revela, nos três últimos versos, ao eu poético o “Recife...”, marcado pela morte de um ente querido: “Meu avô morto.”. A partir de então a vida se revela cruel para o eu lírico, já que a capital pernambucana, outrora marcada pela felicidade constante e eterna da infância, é agora o Recife também da tristeza, da morte, é um “Recife morto”. A lembrança da morte do avô, portanto, impregna de tristeza e de sentimento de perda todo o poema e lembra ao poeta que a cidade de sua infância, e a própria infância, não existe mais. O poema tem um tom de tristeza e revolta, mas o rememorar as lembranças de infância, que toma conta de quase todos os versos do poema, se contrapõe àquela melancolia. O poema tem um total de 69 (sessenta e nove) versos livres. Quanto à estrofação, pode-se notar a grande variedade e a liberdade de execução. O poema apresenta 13 (treze) estrofes: a primeira é uma nona; a segunda estrofe é um terceto; a terceira e quarta estrofes são dísticos; a quinta estrofe é um monóstico; a estrofe seguinte é uma quadra; a sétima estrofe é outro monóstico; a oitava estrofe é uma sextilha; a nona estrofe é uma oitava; a décima estrofe é uma sextilha; a décima-primeira estrofe é uma sextilha também; a décima-segunda estrofe é uma sétima e a décima-terceira e última estrofe é irregular, com mais de 10 (dez) versos, distribuída em 15 versos também livres e irregulares. 32 Ainda quanto à estrofação, em relação ao poema, são estrofes “livres”; em relação ao metro, as estrofes são heterométricas; variando o metro entre 2 (duas) sílabas e versos bárbaros, com mais de 12 (doze) sílabas poéticas; as estrofes, quanto ao ritmo, são heterorrítmicas, sem esquema rítmico definido. Dada essa grande variedade, além de metro e estrofes serem livres, o ritmo, no poema, é “interior” ou “psicológico”, procedimento comum na poesia modernista. Quanto às rimas, os versos são brancos, em sua maioria. Como também, em sua maioria, os versos são livres. Mas atentemos para uma quadra regular no meio do poema. Trata-se de uma quadra popular, uma trova, de origem popular, enxertada, sem alterações no poema: Roseira dá-me uma rosa Craveiro dá-me um botão (Dessas rosas muita rosa Terá morrido em botão...) Nela, os quatro versos são redondilhas maiores (versos de sete sílabas), com rimas alternadas, no esquema ABAB, com a repetição da mesma palavra: rosa/rosa; botão/botão. Isso demonstra que, em Bandeira, é preciso estar sempre atento ao ritmo e à construção, pois, mesmo quando a maioria dos versos de um poema são livres e brancos, alguns trechos fogem a esse esquema, especialmente quando o poeta faz com que dialoguem as tradições clássicas e populares com as inovações modernistas. O poeta apresenta, inclusive, rimas evidentes em outros momentos, mesclando toantes e consoantes (nada/vidraças/risadas/jangadas; politonavam/ficavam; acabasse/eternidade) ou repete palavras inteiras no final dos versos (sai/ sai; São José/ São José; escondido/ escondido; avô/ avô), fazendo com que o leitor esteja sempre às voltas com elementos sonoros que retornam, se recuperam, se prolongam, ainda que sem a previsibilidade dos esquemas tradicionais. A palavra “Recife”, por exemplo, reaparece diversas vezes no poema, reforçando o caráter evocativo do texto, registrado no título. Um ponto que vale a pena observar na construção de “Evocação do Recife” é o que os críticos Gilda de Mello e Souza & Antonio Candido atentaram para o fato, de Manuel Bandeira, em sua obra poética como um todo, possui o ouvido mais afinado de toda moderna poesia brasileira. Ouvido para a musicalidade de um ritmo ou de um verso, para a escolha exata da sonoridade de uma palavra, para a transposição no plano verbal de uma atmosfera que parecia tipicamente musical, (...). Vindo da musicalidade obsessiva do Simbolismo, a sua evolução poética se processou no sentido do abandono gradativo do universo melódico por um novo espaço mais vizinho da música contemporânea, isto é, não mais fluido e sim anguloso e fragmentado, às vezes baseado no contraponto, jogando usualmente com as dissonâncias. (SOUZA & CANDIDO. In: BANDEIRA, Manuel, 1993, p. 910). 33 Manuel Bandeira é um exímio “auditivo”, portanto: utilizou um desses processos emprestados à música, quando, na “Evocação do Recife”, abemolou a palavra Capiberibe para conseguir uma variante de meio tom (‘Capiberibe, Capibaribe’). (Ibid., p. 10). Mas, vamos dar a palavra ao próprio escritor para justificar a musicalidade de “Evocação do Recife”: na “Evocação do Recife” as duas formas “Capiberibe-Capibaribe” têm dois motivos. O primeiro foi um episódio que se passou comigo na classe de geografia do Colégio Pedro II. Era nosso professor o próprio diretor do Colégio – José Veríssimo. (...) Certo dia perguntou à classe: ‘Qual é o maior rio de Pernambuco?’ Não quis eu que ninguém se me antecipasse na resposta e gritei imediatamente do fundo da sala: ‘Capibaribe!’. Capibaribe com a, como sempre tinha ouvido dizer no Recife. Fiquei perplexo quando Veríssimo comentou, para grande divertimento da turma: ‘Bem se vê que o senhor é um pernambucano!’ (...) e corrigiu: ‘Capiberibe’. Meti a viola no saco, mas na “Evocação” me desforrei do professor, intenção que ficaria para sempre desconhecida se eu não a revelasse aqui, Todavia, outra intenção pus na repetição. Intenção musical: Capiberibe a primeira vez com e, a segunda com a, me dava a impressão de um acidente, como se a palavra fosse uma frase melódica dita da segunda vez com bemol na terceira nota. (BANDEIRA, 2012, p. 65). Vale a pena ressaltar que muitos poemas de Bandeira foram musicados por grandes compositores e arranjadores da Música Popular Brasileira como Heitor Villa-Lobos, Camargo Guarnieri, Jaime Ovalle, Radamés Gnattalli, entre outros. Talvez a frase que explique melhor essa tradução de texto poético para a música seja a afirmação do próprio poeta: “Assim como certos poemas admitem pluralidade de sentido ou de interpretações, como que em qualquer texto literário há infinito número de melodias implícitas.” (Ibid., p. 99). Ou seja: em Bandeira, a música não aparece de modo tão simples como aparenta; seus poemas apresentam “um infinito número de melodias implícitas”. Sua complexidade e seu encanto residem neste “implícitas”, adjetivo carregado de significados se levamos em conta outros aspectos da poesia bandeiriana. Poema de evocação da infância e de Recife, que quer reconstituir, ainda que na forma de pequenos flashes, as brincadeiras, os aprendizados infantis, a atmosfera e o cotidiano de personagens caros ao poeta, “Evocação do Recife” apresenta muitas imagens. Antes, porém, de especificar o que lhe interessa recordar e celebrar na capital pernambucana, o poeta faz questão de esclarecer que a cidade de sua preferência é aquela onde viveu verdadeiramente a infância e “não” – palavra que inicia os três versos iniciais e se desdobra em “nem” e “sem mais nada” posteriormente, enfatizando a recusa – a celebrada nos livros de história e nos guias turísticos, nem aquela que veio a amar depois, “mas o Recife sem história nem literatura/ Recife sem mais nada/ Recife da minha infância”. Ganha destaque entre essas imagens, as recordações de ordem auditiva, com a colagem de cantigas infantis e de citações (e reflexões acerca) dos falares da língua brasileira, por meio de muitas vozes. Além disso, a distância no tempo é figurada na distância no espaço, distância traduzida no poema pelas vozes que vêm de longe, seja no sentido positivo (“À distância as 34 vozes macias das meninas politonavam” - cantigas), seja no sentido de trazer para o espaço uma inquietação, uma ameaça envolvida pelo mistério de um som aos poucos descoberto: De repente nos longes da noite um sino Note-se a representação concreta do acontecimento e sua difícil localização a partir do advérbio de tempo (“de repente”) e a reunião de espaço e tempo (“nos longes da noite” – imagem que resume o sentimento de ausência e exílio espaço-temporal em Bandeira) antes da solução do mistério (“um sino”), estrategicamente colocado em um verso separado e destacado visualmente no canto da página. Percebe-se, durante a leitura do poema, um “eu” que está escrevendo no presente da enunciação, já adulto, e que renega a Recife – como nos poemas analisados anteriormente, atingida pelos avanços da modernidade – e que rememora, de forma, terna e afetuosa, o Recife do passado, de sua infância, reconstituídos a cidade e a infância por meio de imagens visuais e auditivas. Reconstituindo o tempo passado, o espaço guardado na memória, o poeta reconstitui-se a si mesmo naquele tempo e reconhece que carrega dentro de si um ‘outro’ inabalável, embora já findo. É compreensível, de certa forma, que a infância – período realmente feliz do poeta (...) – seja evocada em decorrência de um sentimento de incompletude. (ROSENBAUM, 1993, p. 45). Em “Evocação do Recife”, apesar do eu lírico recuperar os momentos fundantes de sua personalidade (vividos em sua infância, no Recife), o “eu” “está, no presente, irremediavelmente órfão. Se o poema, dados os elementos estilísticos apontados, resgata a vivacidade da infância, o homem adulto fala do lugar da solidão.” (Ibid., p. 69). Para finalizar o estudo do poema “Evocação do Recife”, pode-se fazer referência aos aspectos semânticos e formais do mesmo, segundo a visão de Giovanni Pontiero. Para o crítico, trata-se do melhor exemplo para uma apreciação real da sua capacidade de elevar o lugarcomum a um mundo de ‘sublime’ reminiscência. Essa reconstrução vívida e movimentada dos ‘mitos heroicos’ da sua infância, paga tributo não só a todas as pessoas e lugares associados aos mais felizes e significativos anos de sua vida, mas também representa, uma síntese de todas as inflexões e técnicas que caracterizam o espírito e substância de Libertinagem (PONTIERO, 1986, p. 120). 35 O poema “Velha Chácara”, publicado originalmente no ano de 1940 e que faz parte do livro Lira dos cinquent´anos, retoma, em uma construção poética mais regular e com as imagens mais condensadas, o tema da infância revisitada pela memória do poeta. Velha Chácara “A casa era por aqui… Onde? Procuro-a e não acho. Ouço uma voz que esqueci: É a voz deste mesmo riacho. Ah quanto tempo passou! (Foram mais de cinqüenta anos.) Tantos que a morte levou! (E a vida… nos desenganos…) A usura fez tábua rasa Da velha chácara triste: Não existe mais a casa… - Mas o menino ainda existe.” (BANDEIRA, 1993, p. 187). A rememoração no poema “Velha Chácara” principia-se na primeira quadra, de forma involuntária, pois parte do subconsciente do eu lírico quando este escuta uma “voz” que esquecera, mas acaba por reconhecer como sendo a “voz” do “mesmo riacho” do passado, da infância. Portanto, nos termos proustianos, o processo mnemônico se dá, no poema, pelo recurso da “memória involuntária”. O poema apresenta versos em redondilha maior; rimas alternadas (ABAB ABAB CDC D); e uma estrofação peculiar: duas quadras são regulares, e uma terceira quadra que tem o último verso deslocado ou transformado em uma estrofe de um verso solitário (perfazendo duas estrofes, um terceto e um monóstico), desestruturando-se a rigidez da forma que se notava anteriormente, totalizando os doze versos do poema. Os dois primeiros versos da primeira quadra (“A casa era por aqui.../Onde? Procuro-a e não acho”), apresenta, no segundo verso, o recurso poético do ubi sunt, expressão latina que significa “onde estão?” e, no caso desses versos, refere-se à “casa” (chácara), à sua localização, que, no presente, é incerta. Essa incerteza continua aparentemente no terceiro verso, agora não em relação ao que se vê ou não se vê no espaço – a casa –, mas em relação à identidade da voz que o eu lírico escuta (“Ouço uma voz que esqueci”). A voz, porém, é reconhecível (“É a voz deste mesmo riacho”). Se o riacho permanece, mais adiante se verá que “não existe mais a casa...” (foi possivelmente demolida), perdeu-se com o passar do tempo, com a morte de seus habitantes, e por causa da “usura” que fez “tábua rasa” da “velha chácara triste”. A segunda estrofe explicita de forma mais evidente o tom de rememoração do poema. O primeiro e o segundo versos são sintomáticos: “Ah quanto tempo passou!/ (Foram mais de 36 cinquenta anos.)”; os dois versos indicando passagem do tempo – longo tempo – cronológico. O quarto verso dessa estrofe é uma digressão do eu lírico sobre a passagem do tempo, “(E a vida... nos desenganos...)”, uma espécie de conclusão e de preparação para a estrofe seguinte, com as reticências conferindo uma sugestão de desconsolo e incompletude ao poema. O penúltimo e o último versos (“Não existe mais a casa.../- Mas o menino ainda existe.”) apresentam o contraste (a conjunção adversativa “mas” anuncia a mudança, inclusive visual) entre existir e não existir, além da diferença de que, na primeira aparição está em ordem indireta e na segunda em ordem direta. A casa não existe mais no presente (“era por aqui” – indicando-se que a visita ao local foi feita pelo eu lírico), mas o menino sim, mesmo depois de já passados cinquenta anos. A memória do eu lírico guarda as lembranças da “chácara” da infância, e, ainda que esta não venha tão explicitada como no poema “Evocação do Recife”, pode ser recuperada pela escuta da “voz” esquecida do riacho – um duplo desse mesmo menino que “ainda existe”. Ou, como afirma Rosenbaum: “os referenciais desapareceram, mas a criança inteira é regatada” (ROSEMBAUM, 1993, p. 46). 37 CAPÍTULO IV – Poesia dos Naufrágios No poema “Cotovia”, que integra a coletânea de versos Opus 10, publicada em 1955, nota-se que o resgate não se restringe ao tempo vivido na infância, mas é a própria capacidade de se reconstituir como pessoa e de se constituir como artista que é afirmada. Ainda dentro da perspectiva do migrante no espaço e do adulto que quer recuperar a infância perdida, a “perdida alegria”, o poema apresenta um diálogo imaginário, fantasioso, entre o eu lírico e o pássaro que dá nome ao texto: Cotovia "— Alô, cotovia! Aonde voaste, Por onde andaste, Que saudades me deixaste? — Andei onde deu o vento. Onde foi meu pensamento Em sítios, que nunca viste, De um país que não existe . . . Voltei, te trouxe a alegria. — Muito contas, cotovia! E que outras terras distantes Visitaste? Dize ao triste. — Líbia ardente, Cítia fria, Europa, França, Bahia . . . — E esqueceste Pernambuco, Distraída? — Voei ao Recife, no Cais Pousei na Rua da Aurora. 38 — Aurora da minha vida Que os anos não trazem mais! — Os anos não, nem os dias, Que isso cabe às cotovias. Meu bico é bem pequenino Para o bem que é deste mundo: Se enche com uma gota de água. Mas sei torcer o destino, Sei no espaço de um segundo Limpar o pesar mais fundo. Voei ao Recife, e dos longes Das distâncias, aonde alcança Só a asa da cotovia, — Do mais remoto e perempto Dos teus dias de criança Te trouxe a extinta esperança, Trouxe a perdida alegria." (BANDEIRA, 1993, p. 213-14). Composto ao todo por 35 (trinta e cinco) versos, o poema se divide em sete estrofes. A primeira é um quarteto, a segunda é uma quintilha, a terceira é um terceto, a quarta é uma quadra, a quinta e a sexta estrofes são dois dísticos e a sétima e última estrofe é irregular, composta por 15 (quinze) versos. A primeira estrofe é heterométrica, formada por três versos pentassílabos e um eneassílabo (um quarteto); a segunda e a terceira estrofes são isométricas, marcadas por cinco versos de sete sílabas, ou seja, heptassílabos ou redondilhas maiores; na quarta estrofe ocorre uma quebra no ritmo do poema, em relação ao metro, pois se trata de uma quadra, na qual os três primeiros versos são redondilhas maiores e o quarto e último verso dessa estrofe é um trissílabo, destacando-se a pergunta “Distraída?”, uma adjetivação da cotovia como um ser que não está atento ao mundo. As quinta, sexta e sétima estrofes, dísticos, retomam a composição em redondilhas maiores. Quanto às rimas – cujo esquema em relação à posição é bastante irregular, de modo a poderem ser consideradas misturadas ou deslocadas –, predominam as consoantes: voASTE/andASTE/deixASTE; vENTO/pensamENTO; vISTE/exISTE/trISTE; 39 alegrIA/cotovIA. Além disso, na recuperação da rima durante o transcorrer da leitura do poema, as rimas toantes também estarão presentes cotovIA/frIA/BahIA/distraÍDA, quebrando a regularidade sonora. Nesse aspecto, chama a atenção o vocábulo “perempto”, que rima com “vento”, “pensamento” e “tempo”, e a combinação entre MuNDO/PernaMBUCO – uma rima toante e emparelhada – o que resulta num jogo bastante intrincado e complexo de sons. No poema, as vozes se alternam em perguntas e respostas, marcadas pelo travessão, o que evidencia quem está falando, ora o “eu”, ora a “cotovia”. No primeiro verso, já se apresenta a função apelativa da linguagem, na qual um “eu” se dirige a uma segunda pessoa (“Alô cotovia!”) e se constata a invocação do pássaro para a “conversa” com o eu lírico. Já no segundo verso, o “eu” questiona a “cotovia” “Por onde [tu] andaste?”, começando a série de interrogações que vai percorrer boa parte do poema, mas dilui a objetividade da pergunta na sugestão exclamativa do próximo verso: “Que tantas saudades me deixaste?”, condensando numa mesma expressão o espaço real da “viagem” do pássaro, seu retorno, e as “tantas” saudades – o que pressupõe a passagem de um tempo prolongado e a variedade dessa falta, como se verá mais adiante, referente não só à cotovia, mas também aos lugares que ela “visita”. Na segunda estrofe, a “cotovia” declara que voou por “sítios, que nunca viste,/De um país que não existe.../Voltei, te trouxe a alegria.” Mais uma informação é dada ao leitor: o “eu”, no presente da enunciação, é uma pessoa triste, conforme se nota pela referência às saudades – ao sentimento de falta e de ausência – da primeira estrofe. A cotovia é que traz a “alegria”, uma palavra com múltiplos sentidos no poema, “de volta” para o eu poético. Um desses sentidos diz respeito à espécie de pássaro escolhida por Bandeira para sua representação: a cotovia, ave migratória que se alimenta e transporta sementes, realizando a fertilização e a polinização de áreas diferentes durante sua migração – em grupos – e, na maioria das vezes, no período diurno, é um símbolo de fertilidade e vitalidade. Aqui se trata de uma cotovia solitária, o que – como na relação estabelecida entre voz do riacho do poema “Velha Chácara” – faz com que possa ser interpretada como um duplo do eu lírico. Elemento oriundo da natureza e da realidade, a cotovia, seu voo e seu canto, desperta no eu lírico a rememoração do tempo perdido, restituindo sua antiga alegria. Na segunda estrofe, porém, o “eu” permanece “triste”. Ele ainda não teve acesso às reminiscências da infância. Na terceira estrofe, o “eu” pergunta à cotovia “que outras terras distantes/Visitaste? Dize ao triste.” Na quarta estrofe, a cotovia enumera os locais que visitou e o eu poético a interrompe e pergunta: “-E esqueceste Pernambuco,/Distraída?”, outro dos vários encadeamentos presentes no poema. A palavra “distraída” é colocada em local estratégico no poema, entre a viagem geral e, quase exclusivamente espacial, e a viagem ao mundo do eu lírico, Pernambuco, que reúne realidade e rememoração, presente e passado. Além disso, essa mudança de espaço de visitação, do exterior para o interior do sujeito, é anunciada pela quebra no ritmo, os versos em redondilha sendo substituídos, nesse passo, por um verso trissílabo. 40 Na quinta estrofe, a cotovia inicia afirmando que: “-Voei ao Recife, no Cais,/Pousei da Rua da Aurora.”. Enfim, a ave revela que visitou a terra natal do eu poético, demonstrando não ser tão “distraída” assim como o “eu” expressara em seus interesses e perguntas. No dístico seguinte, de fundamental importância para compreensão do poema, o eu expressa: “Aurora da minha vida,”, que, no encadeamento com o verso seguinte, o pássaro complementa: “-Que os anos não trazem mais!”, com direito ao uso do ponto de exclamação, demonstrando e reforçando a inexorabilidade da passagem temporal. Esse dístico é uma citação literal de dois versos do poema “Meus oito anos”, de Casimiro de Abreu, e retoma o tema das saudades, também do poeta romântico, explicitado no quarto verso da primeira estrofe (pensese em “Ó que saudades que eu tenho”). Dessa forma, pela citação, já se abre ao leitor a perspectiva de que a poesia e a literatura é o que salva da tristeza, do naufrágio, o eu lírico, pois este também está envolvido com o fazer poético. No final do poema, o jogo de perguntas e respostas já não tem lugar. O que se vê é um entrelaçamento entre as afirmações do eu lírico e da cotovia – daí os muitos encadeamentos. Além disso, o conhecimento e a ação, prerrogativas da cotovia, se transferem para o eu lírico, capaz de “torcer o destino,/ (...) no espaço de um segundo/Limpar o pesar mais fundo”, de saber, de voar, como um pássaro (“Voei ao Recife, e dos longes/Das distâncias, aonde alcança a asa da cotovia”) e alcançar as distâncias do espaço e do tempo. Nesse sentido, mesmo que a última fala no poema (“Do mais remoto e perempto/Dos teus dias de criança/Te trouxe a extinta esperança,/Trouxe a perdida alegria”), seja proferida pela cotovia, tem-se a certeza de que o sujeito que faz a viagem ao tempo da infância é o eu lírico. Com as asas da cotovia, com a asa da memória/da lembrança e da imaginação, é possível ao “eu” reconstruir o seu passado e sua infância perdida e interrompida. A interrupção da “aurora da vida” do eu lírico se corrige pelas reminiscências que vêm à tona, no momento que o “eu” se salva do naufrágio, pelo “dialoguismo” fantasioso. Ou seja: pela fantasia, pela literatura, pela poesia, pela arte, pela escrita, é que o eu poético consegue reconstruir o seu passado, a infância interrompida. Na abordagem do tema da memória nas poesias de Bandeira, é perceptível a recorrência de um tópico importantíssimo para a compreensão dessa faceta do poeta, que a teórica Yudith Rosenbaum (1993, p. 41) denominou de “infância revisitada”. Percebe-se que essa questão do tempo perdido ou da infância interrompida, no poema “Elegia de Verão”, por exemplo, é abordada pelo uso do artifício da memória poética, como forma de abordar essa fase da vida que passou, mas persiste no “eu” do presente, no “eu” adulto. O poema “Elegia de Verão” foi publicado originalmente no livro Opus 10, lançado em 1952, num momento já consolidado da obra poética de Manuel Bandeira, tanto quanto ao seu estilo “aparentemente simples”, nas palavras de Davi Arrigucci Jr., quanto à estética modernista brasileira, do qual Bandeira é um dos maiores expoentes, desde a fase heroica do movimento. 41 Elegia de Verão “O sol é grande. Ó coisas Todas vãs, todas mudaves! (Como esse “mudaves”, Que hoje é “mudáveis” E já não rima com “aves”.) O sol é grande. Zinem as cigarras Em Laranjeiras. Zinem as cigarras: zino, zino, zino... Como se fossem as mesmas Que eu ouvi menino. Ó verões de antigamente! Quando o Largo do Boticário Ainda poderia ser tombado. Carambolas ácidas, quentes de mormaço; Água morna das caixas-d´água vermelha de ferrugem; Saibro cintilante... O sol é grande. Mas, ó cigarras que zinis, Não sois as mesmas que ouvi menino. Sois outras, não me interessais... Deem-me as cigarras que eu ouvi menino.” (BANDEIRA, 1993, p. 215). Quanto aos aspectos formais, ao analisarmos o poema, verifica-se o uso de reticências em três momentos: nos versos 8 (oito), 16 (dezesseis) e 19 (dezenove). No primeiro caso, serve para dar ideia de continuidade; no segundo uso, tem um tom sugestivo e, no terceiro caso do uso das reticências, a ideia é propor um tom evocativo, de recuperação de reminiscências do passado. Dos vinte versos, alguns são pontuados, outros têm o sentido completado pelo(s) verso(s) seguinte(s), no uso dos encadeamentos que o poeta faz recorrentemente no poema. Já 42 o esquema de rímico é misturado ou deslocado. Tem-se rimas consoantes (mudAVES/AVES, zINO/menINO) e toantes (LaranjEIRAS/mESMAS) e versos brancos impregnados de variada sonoridade. Quanto à estrofação do poema, “Elegia de Verão” é composto por cinco estrofes: as duas primeiras são quintilhas; a terceira estrofe é uma sextilha, a quarta é um terceto e a última é um monóstico, seguindo a característica bandeiriana já observada em outros poemas de descolamento do último verso para fins de ênfase. Em relação ao metro, as estrofes são heterométricas: a primeira estrofe apresenta os dois primeiros versos como redondilhas maiores e seguem os versos seguintes com as seguintes medidas: redondilha menor, duas redondilhas maiores; segunda estrofe: decassílabo, tetrassílabo, hendecassílabo, redondilha maior e hexassílabo; a sextilha apresenta: os três primeiros versos com medida de octossílabos, depois se apresenta um verso dodecassílabo, um verso bárbaro, de 15 (quinze) sílabas, e um pentassílabo; o quarteto final tem versos da seguinte medida: dodecassílabo (ou verso alexandrino), os três últimos versos do poema são decassílabos. O poema, como propõe o título é uma “elegia”, composição lírica que expressa tristeza e melancolia. No caso do poema em estudo, trata-se de uma tristeza de um “eu” adulto/maduro melancólico que, a partir da escuta do zinir das cigarras no presente e compará-lo com o som escutado na infância (o poeta utiliza a figura de harmonia “onomatopeia”, ao imitar o ruído das cigarras pela palavra repetida três vezes: “zino, zino, zino...”), toma consciência da ausência desse momento fundamental em sua vida. A poesia, no entanto, parece se confirmar como um espaço privilegiado do poeta para o apaziguamento da dor e a reconciliação com o mundo e com a vida. Daí as muitas citações de outros escritores nos poemas de Bandeira. Em “Elegia de verão”, a intertextualidade é feita com um famoso poema do poeta clássico português Sá de Miranda, já na primeira estrofe, e serve para marcar a tensão entre o passado (inclusive o da tradição literária) e o presente do eu lírico e os signos da mudança, representados pelo zinir das cigarras. Desse modo, como afirma Rosenbaum, os versos de Sá de Miranda tentam ser recuperados de modo a sobreporem-se à própria mutabilidade que anunciam. Mas a vanidade das coisas atinge a língua da poesia, que se transforma, impedindo antigas combinações: mutáveis já não rima com aves. Parece que o poeta continua transitando de forma mais íntima no passado, passado esse que é constantemente evocado e chamado a vencer a perenidade da vida e perpetuar, na poesia, valores findos. Porém o mais curioso é que Bandeira efetivamente rima “mudaves” com “aves”, o que o faz superar – no interior do poema a mutabilidade das palavras. Bandeira vence, simultaneamente, no tecido da linguagem, o presente e o passado. (Ibid., p. 49). A interrupção da “aurora da vida” como o próprio Bandeira define a infância em outro poema, é “revisitada” ou rememorada pelo eu lírico na fase adulta de sua vida e se transforma em matéria (tanto na forma quanto no conteúdo) da poesia. Por isso mesmo, apesar do paradoxo, “anunciar a perda é restituir no universo simbólico da poesia”, o que explica porque 43 “os opostos se inserem numa armação irônica, em que a mutabilidade dos fenômenos da existência (“Ó coisas/Todas vãs, todas mudaves!”) contrasta com a permanência do astro maior que inicia o poema – “O sol é grande””. (Ibid., p. 50). O tom grandiloquente, enfatizado pela citação erudita, se converte em prosaico pela situação e pelo uso, pouco erudito, da onomatopeia. Paralelo a isso, os tempos presente (no Largo do Boticário) se contrapõe ao tempo feliz da infância em Recife, sofrendo as cigarras de hoje uma diminuição de importância em relação às “cigarras que eu ouvi menino”, ainda que tenham sido elas as deflagradoras, de modo involuntário, das lembranças do poeta e, no limite, as responsáveis pela reconstituição do tempo perdido. O poeta ainda tenta na segunda estrofe, “fazer corresponder à grandeza imortal do Sol a permanência dos sons da infância”. E é pela rima que se procura “demarcar essa aproximação, articulando o som onomatopaico da cigarra ao substantivo “menino”” (Ibid., p. 50). Contudo a rima produzida entre “zino, zino, zino” e “menino” não produz uma “identificação”, o que se confirma na quarta estrofe: “Não sois as mesmas que eu ouvi menino./Sois outras, não me interessais...”. Assim, o eu lírico sente uma frustração gerada pelo passar implacável do tempo, o qual deixou para trás sua infância. Segundo ainda Yudith Rosenbaum, “inspirado pelo famoso soneto de Sá de Miranda (...)” Bandeira expressa “a perda das ilusões” que marca um “abismo entre um eu que envelhece e um mundo em permanente mutação.” (Ibid., p. 48). A elegia é um gênero lírico muito propício para abordar o tema da memória poética da infância, pois possui um tom “nostálgico” e “saudosista”. A elegia pode “configurar a dor da ausência”, transformada na ideia de “lamento e pranto”, mas também serve como “louvação, dado o caráter de oratória que teve entre os gregos.” De acordo com Yudith Rosenbaum, “Bandeira sabe das possibilidades expressivas da elegia, que pode conter tanto a meditação mais melancólica, quanto a exaltação do que é iluminado.” (Ibid., p. 51). No caso, do poema “Elegia de Verão”, ainda que o que predomine seja a melancolia, sabemos que a lembrança deflagrada pelo zinir das cigarras “ilumina” e “exalta” a infância do poeta. O último verso destacado da quadra final, “Deem-me as cigarras que eu ouvi menino”, com o verbo no imperativo e encerrado com ponto final contrasta com a pontuação “elástica e movimentada” das estrofes anteriores. Como lembra Rosenbaum, nas primeiras estrofes, as exclamações e reticências faziam o eu lírico meditar e rememorar a infância. No último verso, porém, o “eu”, “intima o outro indefinido (o tempo? o leitor?) para que faça retornar a cigarra [a antiga], metonímia da infância” (Ibid., p. 52). O poema “Infância”, publicado no livro Belo Belo, de 1948, também evoca “a criança pela apreensão do adulto consciente da perda dessa mesma infância” (Ibid., p. 53) e recupera, a partir da apresentação de muitas imagens, vários dos momentos importantes para o poeta em sua constante mudança de endereço nos primeiros anos de vida, não somente a cidade natal de “Evocação do Recife”, mas outros lugares. Desse modo, o que está em jogo aqui, ainda que a forma seja similar ao poema citado, é o próprio movimento de migração, de deslocamento 44 espacial, de mudança que leva ao naufrágio, a uma espécie de destroçar-se da experiência. Segue o poema: Infância “Corrida de ciclistas. Só me lembro de um bambual debruçado no rio. Três anos? Foi em Petrópolis. Procuro mais longe em minhas reminiscências. Quem me dera recordar a teta negra de minh’ama-de-leite... ... Meus olhos não conseguem romper os ruços definitivos do tempo. Ainda em Petrópolis... um pátio de hotel... brinquedos pelo chão... Depois a casa de São Paulo. Miguel Guimarães, alegre, míope e mefistofélico, Tirando reloginhos de plaquê da concha da minha orelha. O urubu ousado no muro do quintal. Fabrico uma trombeta de papel. Comando... O urubu obedece. Fujo, aterrado do meu primeiro gesto de magia. Depois... a praia de Santos... Corridas em círculos riscados na areia... Outra vez Miguel Guimarães, juiz de chegada, com seus presentinhos. A ratazana enorme apanhada na ratoeira. Outro bambual... O que inspirou a meu irmão o seu único poema: Eu ia por um caminho, Encontrei um maracatu. O qual vinha direitinho Pelas flechas de um bambu. As marés de equinócio. O jardim submerso... Meu tio Cláudio erguendo do chão uma ponta de mastro destroçado. Poesia dos naufrágios! Depois Petrópolis novamente. Eu, junto do tanque, de linha amarrada no incisivo de leite, sem coragem de [puxar. Véspera de Natal... Os chinelinhos atrás da porta... E a manhã seguinte, na cama, deslumbrado com os brinquedinhos trazidos [pela fada. E a chácara da Gávea? 45 E a casa da Rua Don’Ana? Boy, o primeiro cachorro. Não haveria outro nome depois (Em casa até as cadelas se chamavam Boy). Medo de gatunos... Para mim eram homens com cara de pau. A volta a Pernambuco! Descoberta dos casarões de telha-vã. Meu avô materno — um santo... Minha avó batalhadora. A casa da Rua da União. O pátio — núcleo de poesia. O banheiro — núcleo de poesia. O cambrone — núcleo de poesia (La fraicheur des latrines!). A alcova de musica — núcleo de mistério. Tapetinhos de pele de animais. Ninguém nunca ia lá... Silêncio... Obscuridade... O piano de armário, teclas amarelecidas, cordas desafinadas. Descoberta da rua! Os vendedores a domicílio. Ai mundo dos papagaios de papel, dos piões, da amarelinha! Uma noite a menina me tirou da roda de coelho-sai, me levou, imperiosa e [ofegante, para um desvão da casa de Dona Aninha [Viegas, levantou a sainha e disse mete. Depois meu avô... Descoberta da morte! Com dez anos vim para o Rio. Conhecia a vida em suas verdades essenciais. Estava maduro para o sofrimento E para a poesia!” (BANDEIRA, 1993, p. 208-209). A sensação de despedaçamento da experiência se manifesta pela forma, ela mesma, na aparência, destroçada, do poema: as estrofes são irregulares e misturadas quanto ao esquema rímico e rítmico, os versos são brancos na sua maioria, e mesmo quando há rima, o padrão não se sustenta (com exceção, obviamente do poeminha enxertado no texto). Note-se também que predominam frases nominais, ou trechos do que seriam frases, como se fossem flashs do vivido, para marcar mudança de lugar, de tempo, de tema para o aprendizado e a formação do menino. O tema da formação do homem e do artista, presente de modo menos contundente em “Evocação do Recife”, é muito forte aqui: na última estrofe, o eu poético declara que, quando de sua mudança para o Rio de Janeiro, aos 10 anos de idade, “estava maduro para o sofrimento/ e para a poesia”. A relação entre formação (aquisição da maturidade), sofrimento 46 e poesia, apontada nos últimos versos, confirma a impressão de que os três temas estiveram entrelaçados durante todo o poema, reunindo os elementos memória, infância e poesia numa mesma equação, similar à elaborada por Marcel Proust no romance Em busca do tempo perdido. O eu lírico maduro/adulto é um indivíduo que, no início do poema, começa por tentar relembrar sua infância, esperando retirar do caos (“Procuro mais longe em minhas reminiscências./ Quem me dera recordar a teta negra de minh’ama-de-leite... /Meus olhos não conseguem romper os ruços definitivos do tempo”) os lugares por onde passou e as casas onde ele morou até os dez anos, em idas e vindas por cidades diferentes. Após essa abertura onde reina a desordem e o estilhaçamento (o poema começa com uma imagem que não será explicada em nenhum momento – “corrida de ciclistas”), o poeta faz uso poético da “memória voluntária”, tal qual a conceituação e uso de Marcel Proust em sua obra máxima, realizando um verdadeiro tour de force para primeiro recuperar e depois ordenar as suas reminiscências. O poema de Bandeira ainda tem um quê proustiano, pois faz referências a várias residências que o eu lírico habitou, tal como ocorre no romance de Proust. A imagem do naufrágio e da destruição fica evidente na seguinte estrofe: “As marés de equinócio./O jardim submerso.../Meu tio Cláudio erguendo do chão uma ponta de mastro destroçado.//Poesia dos naufrágios!”. Neste último verso, destacado do restante da estrofe, tem-se a imagem central para a compreensão do poema enquanto figuração da equação memória, infância e fazer poético. Afinal, a imagem do tio “erguendo do chão uma ponta de mastro destroçado” pode ser comparável ao eu lírico tentando trazer à tona as reminiscências da infância “submersas” no esquecimento, o que possibilitará a conclusão de que aquela atitude do tio e a atividade do poeta produzem uma “poesia dos naufrágios”. E aqui os destroços salvos pela memória e pela poesia não dizem respeito apenas à experiência de vida do menino; os trechos de poemas (por exemplo, o verso de Rimbaud, em francês) e o primor da expressão e das imagens, lembram continuamente ao leitor que este é um poema sobre a vida e sobre a arte. As lembranças da infância do eu poético promovem três momentos de descobertas importantes para o menino, e essenciais para a formação do homem e do artista. Dito ao modo de Bandeira, o “eu” experimenta, pelo menos, três “alumbramentos”: a descoberta sexual, expressa em um verso único e enorme (“Uma noite a menina me tirou da roda de coelho-sai, me levou, imperiosa e ofegante, para um desvão da casa de Dona Aninha Viegas, levantou a sainha e disse mete.”); a descoberta da morte, em versos secos e frases nominais, com o uso de reticências como signo da incompreensão e da incompletude (“Depois meu avô... Descoberta da morte!”); e a descoberta da poesia e de seus núcleos, exercitada nas leituras e na própria predisposição à descoberta do mundo. Entre o menino da infância e o adulto da atualidade do poema, o fazer poético e a rememoração servem como ponte, como possibilidade de o poeta alcançar um reconhecimento de si mesmo na criança que ele foi e reequilibrar-se no ato integrador da recordação. Cenas e personagens serão revisitados na ânsia de serem trazidos novamente ao convívio do poeta. Movido fundamentalmente pela falta (impulso maior do desejo), Bandeira expõe-se ao leitor abrindo sua intimidade 47 ao olhar perscrutador. É também ao outro que o poeta estende uma ponte para o passado, mas é principalmente a si mesmo. Não são dois momentos distintos; o eu e o outro (testemunha dessa ‘peregrinação’) participam como parceiros de uma busca íntima, e o que é do poeta explode os limites da pura subjetividade. (Ibid., p. 54). Dessa forma, a memória da infância “guarda as aprendizagens mais essenciais” (Ibid., p. 56) para a formação do eu poético como ser humano, “constituindo-se em matriz de futuras experiências” e, podemos afirmar, de futuros poemas. A imagem dos naufrágios (e o seu uso para a adjetivação da poesia bandeiriana) comparece rapidamente em outro importante poema do escritor, “O Martelo”, que faz parte da coletânea de versos Lira dos cinquent´anos: O Martelo “As rodas rangem na curva dos trilhos Inexoravelmente. Mas eu salvei do meu naufrágio Os elementos mais cotidianos. O meu quarto resume o passado em todas as casas que habitei. Dentro da noite No cerne duro da cidade Me sinto protegido. Do jardim do convento Vem o pio da coruja. Doce como um arrulho de pomba. Sei que amanhã quando acordar Ouvirei o martelo do ferreiro Bater corajoso o seu cântico de certezas.” (BANDEIRA, 1993, p. 168). O poema situa o eu lírico “dentro da noite” e “no cerne duro da cidade”. Por isso, a relação do poeta com a realidade se dá por meio da audição: inicia-se o poema com um ruído (“as rodas rangem na curva dos trilhos”), que trazem um desconforto ao eu poético, sendo que o advérbio “inexoravelmente” amplia essa sensação. Os dois versos seguintes (“Mas eu salvei do meu naufrágio/Os elementos mais cotidianos”), a começar pelo uso da conjunção adversativa, apresenta-se como um contraponto: se o presente é incômodo, os elementos 48 essenciais estão salvos (“os elementos mais cotidianos”; o quarto, que “resume o passado em todas as casas que habitei”) e o eu se sente protegido, aconchegado, a ponto de suavizar, eufemizar, o pio da coruja (som tradicionalmente interpretado como agourento) e o som do martelo do ferreiro (que lembra o ruído dos trens do início do poema), signo não mais do desconforto, mas da certeza e do cântico, outra palavra para a poesia. Como em “cotovia”, o poeta “sabe”, tendo aprendido com a vida e com o exercício da literatura o que deve fazer para “salvar” da destruição e do aniquilamento pelo esquecimento o que lhe é mais caro. Como o ferreiro, o poeta também tem suas certezas e as elabora nos cânticos, no fazer literário, aproximando-se as duas tarefas, as duas oficinas, a do ferreiro e a do poeta. Por fim, vale ressaltar, que as imagens auditivas e as impressões que elas causam ao eu lírico são importantíssimas na tessitura do poema: primeiro, as “rodas rangem”, o que provoca ruído indesejado, desconfortável e confuso, ao que o poeta contrapõe sua capacidade de salvar os seus “elementos mais cotidianos”; depois, ouve-se “o pio da coruja”, que em vez de lhe causar tensão e horror, lhe traz suavidade e paz como um “doce” canto de outros pássaros; por último, vem “o martelo do ferreiro” que, ao contrário de lhe incomodar e trazer desconforto, traz-lhe coragem e a consciência de que as “certezas” são necessárias à vida e ao trabalho do poeta: O ruído, o barulho agressivo e incômodo, é que é considerado como música. Isso é possível, não apenas como uma imagem inusitada, mas em função da organização do poema, quando o par martelo/cântico fornece uma contraposição de certeza, de clareza, às situações que se vinham acumulando no poema. (CASTAÑON GUIMARÃES, 2008, p. 137). Se em “Infância”, o menino vê o tio Cláudio lidar com destroços, ensinando-lhe a fabricar uma espécie de “poesia dos naufrágios”, em “O Martelo”, o ferreiro, com seu cântico, lhe ensina a possibilidade da salvação pelo fazer poético. É o que, em outras palavras propõe Yudith Rosenbaum, ao afirmar que nos dois poemas, “Infância” e “O Martelo”: o eu lírico se recompõe das inexorabilidades da existência; em “O Martelo”, o que subsiste de mais vital concentra-se no espaço do quarto, enquanto no texto “Infância”, o verso ambíguo – “Poesia dos naufrágios” – permite duas leituras diversas: ou se trata da poesia que fala, tematiza o naufrágio, ou é pela poesia que o náufrago se salva, ao ancorar-se na palavra. Em ambos os casos, o dizer poético é a porta de acesso a um sentido submerso (‘o jardim submerso’) que pode emergir pela evocação. O poder mágico que habitava a infância se estende, agora, ao ato integrador da poesia, cuja magia está em recolher os destroços rumo a uma unidade. (ROSENBAUM, 1993, p. 62). 49 V- Considerações finais O presente trabalho procurou demonstrar a originalidade poética de Bandeira, estudando determinados poemas do escritor, por um viés que caracteriza parte de sua produção lírica: a memória da infância sendo expressa pelo próprio fazer poético. Para isso, foram utilizadas e estudadas as concepções de “memória voluntária” e “memória involuntária”, concebidas por Marcel Proust, em seu romance Em busca do tempo perdido e se apresentou as proximidades de concepção do fazer literário em relação aos elementos memória e infância nos dois escritores. O trabalho iniciou-se pela apresentação do poeta e de determinadas características de sua poesia, a partir da leitura de alguns estudos de sua fortuna crítica. A seguir, foi feita a discussão sobre as concepções de memória em Proust, com destaque para as diferenças entre “memória voluntária” e “memória involuntária” e a participação das mesmas na formação dos indivíduos, desde a infância, e a possibilidade da reconstituição do tempo perdido. Em um terceiro momento, na busca de evidenciar as características da memória da infância e sua transformação em objeto e fazer literário em Manuel Bandeira, foram realizadas leituras, análises e interpretações de poemas selecionados e divididos em dois blocos: o primeiro, onde a memória da infância se confunde com a recordação do espaço, Recife, no caso de Bandeira; o segundo, onde a recordação faz parte da tomada de consciência por parte do processo de formação do homem e do escritor, numa perspectiva meta-literária. Na busca de evidenciar as características da memória da infância e sua transformação em objeto e fazer literário em Manuel Bandeira, foi possível observar como o poeta, ao se expressar pelo fazer literário, ou seja, pela própria poesia, reconstrói e reconstitui sua infância interrompida, agora “reconquistada” e “revisitada”. 50 Referências Bibliográficas 1. Obras de Manuel Bandeira: ANDRADE, Mário & BANDEIRA, Manuel. Correspondência. Marcos Antonio de Moraes (Org.). São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo: Instituto de Estudos Brasileiros, Universidade de São Paulo, 2. ed., 2001. BANDEIRA, Manuel. Estrela da vida inteira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993. ______. Itinerário de Pasárgada. São Paulo: Global, 2012. 2. Obras sobre Manuel Bandeira: ARRIGUCCI JR., Davi. Humildade, paixão e morte: a poesia de Manuel Bandeira. São Paulo: Companhia das Letras, 2. ed, 2009. p. 123-37. ______. “A beleza: humilde e áspera”. In: O cacto e as ruínas: a poesia entre outras artes. 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