SERGIO SCHLESINGER PUBLICAÇÃO LENHA NOVA PARA A VELHA FORNALHA – A FEBRE DOS AGROCOMBUSTÍVEIS FASE (Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional) Rua das Palmeiras, 90 – Botafogo CEP 22270-070 – Rio de Janeiro – RJ Tel.: (21) 2536-7350 Fax: (21) 2536-7379 www.fase.org.br CAPA: ARTE SOBRE FOTO DE CESAR GUILLOTEL / CG TEXTURES APOIO SERGIO SCHLESINGER LENHA NO VA P ARA NOV PARA A VELHA FORNALHA A FEBRE DOS AGROCOMBUSTÍVEIS SERGIO SCHLESINGER 1ª EDIÇÃO RIO DE JANEIRO, BRASIL, 2008 Lenha nova para a velha fornalha A febre dos agrocombustíveis TEXTO Sergio Schlesinger PUBLICAÇÃO FASE – Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional APOIO FDCL TNI – Transnational Institute Fundação Heinrich Böll PROJETO GRÁFICO Mais Programação Visual www.maisprogramacao.com.br FOTOLITO E IMPRESSÃO WalPrint Gráfica e Editora TIRAGEM 1.500 exemplares Lenha nova para velha fornalha: a febre dos agrocumbustíveis / Sergio Schlesinger – Rio de Janeiro : FASE, 2008. 108p. ISBN 978-85-86471-37-7 1. Agrocumbustível – Brasil 2. Bioenergia – Brasil 3. Agrocombustível – agricultura familiar 4. Agronegócio 5. Biodiesel 6. Etanol 7. Soja 8.Cana de açúcar 9. Celulose 10. Monocultivo 11.Impactos ambientais 12. Impactos Sociais I. Sergio Schlesinger Esta publicação foi realizada com o apoio financeiro da Comunidade Européia. As opiniões aqui expressas são do autor e não representam a opinião oficial da Comunidade Européia. A publicação foi elaborada no marco do projeto de cooperação “Handel-Entwicklung-Menschenrechte” da Fundação Heinrich Böll (fhb), do Forshungs und Dokumentationszentrum Chile Lateinamerika (FDCL) e do Transnational Institute (TNI). Mais informações em: http://www.handel-entwicklung-menschenrechte.org SUMÁRIO INTRODUÇÃO 5 CANA-DE-AÇÚCAR 9 SOJA E BIODIESEL 37 PAPEL, CELULOSE E CARVÃO VEGETAL 61 SÍNTESE E CONCLUSÕES 89 INTRODUÇÃO O esgotamento das reservas mundiais de petróleo, tantas vezes anunciado, parece estar de fato próximo, desta vez. O ritmo do aumento do consumo é hoje muito superior ao da descoberta de novas reservas. E este consumo ganhou forte impulso com o rápido crescimento econômico dos países mais populosos do mundo, a China e a Índia. O mundo queima hoje dez vezes mais petróleo do que há cinqüenta anos. A escalada dos preços do petróleo decorrente deste panorama parece ser irreversível. Ao mesmo tempo, o mundo se dá conta, finalmente, de que o aquecimento global já é uma realidade, e que a queima de combustíveis fósseis contribui decisivamente para isto. O conjunto destes fatores vem estimulando, a partir da entrada do século 21, a pesquisa e a produção de combustíveis alternativos aos derivados do petróleo, baseados em diversos produtos agrícolas em sua maioria utilizados tradicionalmente como alimentos. Buscando combater o vício do consumo do petróleo, o modelo econômico vigente busca, assim, preservar seu vício supremo: o do crescimento econômico sem limites, à custa dos recursos naturais disponíveis. O uso de combustíveis produzidos a partir de vegetais não é, em si, uma novidade. Nos Estados Unidos, o modelo T, primeiro automóvel produzido pela Ford, podia utilizar, já em 1866, etanol à base do milho. O francês Rudolf Diesel demonstrou, em 1900, numa exposição em Paris, que o óleo de amendoim podia ser utilizado, alternativamente, para fazer funcionar os motores diesel. O Brasil já produz, desde 1978, automóveis movidos exclusivamente a álcool. Em 1986, no auge do Proálcool, 76% da frota de automóveis era equipada com motores a álcool produzido a partir da cana-de-açúcar. As mais recentes elevações dos preços do petróleo – e a impressão de que elas vieram para ficar – estimularam programas de produção de agrocombustíveis em 5 LENHA NOVA PARA A VELHA FORNALHA – A FEBRE DOS AGROCOMBUSTÍVEIS todo o mundo. Os volumes globais de combustíveis necessários ao atendimento destes programas fazem prever transformações radicais na agricultura mundial. A utilização do milho, da cana, da soja, do trigo, da palma e de muitos outros vegetais como combustíveis está provocando a elevação dos preços de diversos alimentos. É discutível a longevidade do aumento de preços de produtos agrícolas, já que a queda de seus preços relativos (frente aos produtos industrializados) é uma tendência histórica. Mas é indiscutível o efeito perverso destes aumentos neste momento: mais de dois bilhões e meio de pessoas no mundo vivem com renda inferior a dois dólares por dia. Dentre os programas de substituição de combustíveis fósseis por biomassa destaca-se, por suas dimensões, o dos Estados Unidos, de substituição de parte da gasolina pelo etanol produzido a partir do milho. Com mais de um quarto da frota automobilística mundial, os EUA planejam substituir 20% da gasolina automobilística consumida no país pelo etanol, até 2017. Em direção a esta meta, a produção norte-americana de etanol deverá aumentar 110%, somente entre meados de 2007 e o final de 2009. Estima-se que o país já destina, em 2008, dez por cento de todo o milho produzido no mundo para sua produção de etanol. Dado que o território norte-americano já não conta com áreas de expansão agrícola em quantidade expressiva, o aumento da produção do milho naquele país vem se dando à custa da redução da área plantada com outras culturas, como a da soja e a do algodão. Com isto, o programa já vem afetando os preços não só da soja, do milho e do algodão, mas também os de outros produtos. Como milho e soja são os principais componentes da ração animal, os preços das carnes, assim como o do leite e seus derivados, vêm também apresentando altas sucessivas. O crescimento da economia chinesa, da mesma forma, vem incrementando a procura por estes componentes da ração animal, à medida que influencia os hábitos de consumo alimentar tradicionais. Com sérios problemas ambientais, a China trocou há alguns anos a condição de exportadora pela de importadora de soja. O país exportou em 2007, menos da metade do volume de milho exportado em 2001. Em poucos anos, deverá passar também à condição de importador do produto. Além disso, não só a China, mas vários outros países vêm desenvolvendo programas que visam substituir os combustíveis à base do petróleo por outros, à base de vegetais, mesmo que seu próprio território não ofereça as condições necessárias para a produção doméstica. À semelhança do que se passa com o etanol, a adoção do biodiesel vem provocando a elevação dos preços internacionais de diversas oleaginosas, como o óleo de soja, o dendê, o girassol e outras. Os grandes mercados consumidores de hoje vêem o Brasil como o país que reúne o maior potencial para “alimentar o mundo”, da ração animal ao alimento humano, passando agora também pelos agrocombustíveis. Os países da Europa, a China, o Japão, já tendo consumido grande parte de suas reservas naturais, encaram 6 INTRODUÇÃO o Brasil como o grande celeiro, onde estes recursos essenciais podem ser obtidos a baixo custo, em troca de produtos industriais de alto valor, ganhos no setor financeiro, sobre a propriedade intelectual e outros. A possibilidade de que a expansão destes cultivos venha causar problemas sociais e ambientais vem sendo objeto de preocupação. O debate dos efeitos sobre a disponibilidade de alimentos e a elevação de seus preços já ocupa lugar de destaque nos meios de comunicação. Sobre a questão ambiental, em particular, os países potencialmente importadores do Brasil já buscam certificar-se de que não estarão comprando uma produção que se faça à custa da destruição de florestas. A preocupação, como sempre, é focalizada apenas na Floresta Amazônica. A ameaça de destruição de vegetação nativa, no entanto, não se limita à Amazônia, nem ao Brasil. Na Malásia, por exemplo, a maior parte da floresta original já foi destruída nos anos recentes, em grande parte devido ao crescimento da demanda mundial pelo óleo de dendê, e já estão em andamento, naquele país, projetos de expansão da produção e exportação do biodiesel. Conseqüências para o Brasil O governo brasileiro enxerga nesta onda uma grande oportunidade de aumentar expressivamente as exportações do país, a começar pelo etanol. Enquanto busca, internamente, concentrar o controle da distribuição e das exportações nas mãos da Petrobras, inscreve a venda do etanol como item prioritário na agenda de viagens internacionais do Presidente da República. A produção do biodiesel, ao contrário, deverá estar por muitos anos voltada prioritariamente para o mercado doméstico. O governo brasileiro tem por objetivo substituir por óleos vegetais, a partir de 2008, parte do óleo diesel consumido no Brasil. Embora o Programa Nacional de Produção e Uso de Biodiesel busque privilegiar a produção da agricultura familiar, a participação da soja cultivada em grandes propriedades na produção do biodiesel vem predominando amplamente. Os combustíveis automotivos derivados do petróleo não são, no entanto, os únicos a serem substituídos por fontes renováveis. No caso da siderurgia, o carvão vegetal – proveniente de florestas nativas ou artificiais – também vem sendo utilizado amplamente como fonte de energia. Os planos de expansão das usinas siderúrgicas no Brasil prevêem elevados investimentos, com expressivo acréscimo no volume de aço produzido. O carvão vegetal, que é igualmente utilizado em outros setores produtivos, é também, importante item da pauta de exportações brasileiras. O território brasileiro é hoje ocupado por diversos monocultivos. Três deles, que figuram dentre os que ocupam as maiores superfícies, estão relacionados à produção de agrocombustíveis e são aqui analisados: a soja, a cana-de-açúcar e as florestas artificiais, onde se destaca o plantio de eucaliptos. Somados, eles 7 LENHA NOVA PARA A VELHA FORNALHA – A FEBRE DOS AGROCOMBUSTÍVEIS ocupam hoje no Brasil uma área equivalente à da Itália e da Holanda, juntas (cerca de 33 milhões de hectares). Por si só, a observação dos movimentos de expansão destas culturas não permite revelar todos os impactos daí resultantes. A produção agropecuária brasileira, em seu conjunto, cresce em ritmo acelerado. Somente entre 2002 e 2007, as vendas externas do agronegócio brasileiro cresceram 135,5% (de US$ 24,8 bilhões para US$ 58,4 bilhões), segundo o Ministério da Agricultura. E a escalada de crescimento continua. Entre janeiro e maio de 2008, as exportações do agronegócio totalizaram US$ 27,2 bilhões, 25,3% acima do valor exportado no mesmo período de 2007.1 A expansão da cana-de-açúcar nos últimos anos vem se dando em áreas próximas aos grandes centros consumidores, onde, por um lado, a terra é relativamente mais cara, mas, por outro, a elevada margem de lucro é compensadora. No estado de São Paulo, observa-se forte redução nas áreas plantadas com milho e soja e naquelas dedicadas à pecuária bovina. No entanto, no mesmo período, a produção brasileira de milho, soja e carne bovina, como um todo, apresentam também forte crescimento. Pretendemos, com este estudo, produzir uma análise do efeito conjugado do crescimento destas culturas sobre o território nacional, dedicando especial atenção aos deslocamentos provocados pela expansão destas culturas e aos efeitos deste processo sobre os agricultores familiares e o meio ambiente. 1 8 Exportação de agrícolas até maio cresceu 25,3%, divulga Mapa. Agência Estado, 09/06/08. 1 CANA-DE-AÇÚCAR Tradicionalmente utilizada no mundo para a produção de açúcar, a cana-de-açúcar apresenta, historicamente, taxas de expansão mundial de produção e consumo próximas à do crescimento da população mundial. O Brasil, desde a década de 1970, está utilizando o etanol da cana-de-açúcar como combustível automotivo. Recentemente, o País voltou a ser um grande consumidor de álcool combustível, devido à adoção da tecnologia flex-fuel nos motores dos automóveis, que permite a mistura de gasolina e álcool em qualquer proporção. O etanol obtido a partir da cana-de-açúcar é considerado atualmente o mais promissor dos substitutos da gasolina automotiva. Essa é a principal razão das elevadas taxas de expansão da produção brasileira de cana, cujas características e perspectivas analisamos aqui. GRÁFICO 1 Evolução do preço médio do barril do petróleo 2002 a 2008 – US$ nominais Fonte: AIEA 9 LENHA NOVA PARA A VELHA FORNALHA – A FEBRE DOS AGROCOMBUSTÍVEIS À semelhança do que vem ocorrendo com outros alimentos, o consumo mundial de açúcar vem se ampliando de forma mais acelerada nos últimos anos, em função das elevadas taxas de crescimento econômico apresentadas por países asiáticos, particularmente China e Índia. A comercialização do açúcar proveniente da cana plantada no Brasil beneficiou-se também de decisão tomada pela Organização Mundial do Comércio (OMC), no sentido do corte dos subsídios ao açúcar, a partir de ação promovida pelo Brasil, Austrália e Tailândia contra a União Européia (UE). Com a derrota na OMC, a UE será obrigada, até 2009, a reduzir fortemente o preço garantido através de subsídios aos agricultores europeus que produzem açúcar a partir da beterraba. Com isto, o Brasil pretende elevar consideravelmente suas exportações para a Europa e outras regiões tradicionalmente supridas pela produção européia. No Brasil, que já é o maior exportador mundial dos derivados da cana, estes fatos têm resultado em aumento expressivo na expansão do plantio e beneficiamento. Tradicionalmente em mãos do empresariado brasileiro, estas atividades contam agora também com forte impulso do ingresso do capital estrangeiro. A expansão acelerada destas atividades vem despertando, por outro lado, preocupações no Brasil e no mundo, por diversas razões. A primeira delas é o impacto que o crescimento do plantio de agrocombustíveis pode, seguramente, estar causando sobre os preços dos alimentos. As possíveis conseqüências sobre a agricultura familiar e o meio ambiente, decorrentes da expansão territorial do cultivo, assim como as condições de trabalho degradantes dos cortadores de cana, são também questões que vêm mobilizando a opinião pública nacional, com reflexos no plano internacional, à medida que o álcool da cana começa a se tornar importante artigo de exportação. O governo brasileiro vem afirmando repetidamente que a expansão dos canaviais não afetará a Amazônia ou o Pantanal, e que a produção de alimentos também não será prejudicada. Ao mesmo tempo, diversas obras de infra-estrutura, como os alcooldutos, já contam com projetos em andamento. É preciso, no entanto, levar em conta outros impactos indiretos decorrentes desta nova onda da cana-de-açúcar. Nos anos recentes, em todo o País, a valorização da terra vem produzindo importantes efeitos sobre as atividades rurais. Outros cultivos, assim como a criação de gado, parecem deslocar-se justamente para aquelas regiões que o governo afirma que não serão ocupadas pela cana-de-açúcar. Buscamos apresentar neste capítulo os principais efeitos sociais e ambientais do atual ciclo de expansão da cana-de-açúcar no Brasil. Produção O Brasil é o maior produtor mundial de cana-de-açúcar – cerca de 30% do total colhido em todo o mundo – e seus derivados, seguido por Índia, China, Tailândia e México (Gráfico 2). Segundo estimativas da FAO divulgadas em maio de 2008, a produção mundial de açúcar na safra 2007/2008 deverá atingir 168 milhões de 10 CANA-DE-AÇÚCAR toneladas, com crescimento de cerca de 1,1%, ante a produção de 166,1 milhões de toneladas verificada em 2006/2007. O consumo global foi estimado em 158,2 milhões de toneladas em 2008. (FAO, 2008) Três quartos da produção mundial de açúcar se dão a partir da cana-de-açúcar, em zonas tropicais localizadas no hemisfério Sul. Os cinco principais países produtores de açúcar, que também são os maiores consumidores do produto, foram responsáveis por cerca de 59% da produção mundial na safra 2006/2007. Nesta, o Brasil produziu 29,7 milhões de toneladas de açúcar. Em segundo lugar vem a Índia, com produção de 25 milhões, seguida da China, com 10 milhões, como ilustra o Gráfico 2. (Guarani, 2007) GRÁFICO 2 Principais produtores de açúcar Cana-de-açúcar (safra 2006/2007) Fonte: F. O. Licht Estes números sobre a produção em 2007 significaram um excesso de oferta no mercado internacional, resultante da recomposição da safra nos países tradicionalmente grandes produtores, como Índia e Austrália. Após duas safras prejudicadas por problemas climáticos, estes países recuperaram, no ano de 2007, índices de produção e produtividade observados historicamente. A produção mundial de etanol tem crescido, nos últimos anos, mais rapidamente do que a de açúcar. Desde 2000, cresce à taxa média de 10,5% ao ano, o que resultou em uma produção de cerca de 53 bilhões de litros em 2007. No mesmo período, a produção de açúcar cresceu apenas 3% ao ano. 11 LENHA NOVA PARA A VELHA FORNALHA – A FEBRE DOS AGROCOMBUSTÍVEIS Os preços internacionais do açúcar, relativamente altos em relação aos vigentes no período anterior, também incentivaram estes países à retomada de seus níveis tradicionais de produção. Como resultado do forte aumento da oferta, os preços internacionais do açúcar tiveram redução de 42,1% em 2007.1 Em abril de 2008, acompanhando a alta generalizada dos preços dos alimentos em todo o mundo, o preço do açúcar no mercado mundial já havia subido 29%, em relação ao mesmo mês de 2007. (FAO, 2008) GRÁFICO 3 Preços internacionais do açúcar 2005 a abr/2008 Fonte: FAO (2008) Com relação ao álcool, diferentemente do que o mercado esperava, os preços nos Estados Unidos não decolaram junto com os da gasolina. Ao contrário, recuaram. O que parecia ser uma grande oportunidade de exportação para as usinas brasileiras não aconteceu. Em maio de 2008, o preço internacional estava abaixo dos custos de produção. A explicação, certamente, se encontra no aumento da produção de cana-de-açúcar nos maiores produtores, simultaneamente à do etanol do milho norte-americano.2 A produção brasileira O setor de açúcar e álcool movimenta R$ 40 bilhões por ano no Brasil e gera um milhão de empregos diretos, de acordo com o Ministério da Agricultura. O setor é responsável por 2,35% do PIB total do País e por 26,5% do PIB da agricultura no Brasil. Segundo o DIEESE, é também um dos setores que mais empregam no País, com mais de 3,6 milhões de empregos diretos e indiretos (DIEESE, 2007). 1 Guarani. Comportamento do Mercado de Açúcar e Etanol no 1T08. 16/04/08. 2 Álcool não acompanha alta do petróleo e prejudica exportação. Gazeta Mercantil, 3/6/2008. 12 CANA-DE-AÇÚCAR Na safra brasileira de 2006/2007, encerrada em novembro de 2007, foram colhidas 501,5 milhões de toneladas (CONAB, 2008). A estimativa para a safra de 2007/2008 é de 558 a 580 milhões de toneladas, representando aumento de 11,3% a 15,6%. Deste total, cerca de 90% deverão ser produzidos na região Centro-Sul (regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste)e os 10% restantes nas regiões Norte e Nordeste. A área ocupada com a cultura da cana para a safra 2007/2008 é de 7 milhões de hectares, 23% superior à da safra anterior. A estimativa é da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento), em seu primeiro levantamento anual sobre a cana-deaçúcar, realizado em novembro de 2007 (CONAB, 2007). O Ministério da Agricultura estima que a área plantada alcance 13 milhões de hectares em 2015. GRÁFICO 4 Produção brasileira de cana-de-açúcar, açúcar e álcool Fontes: Unica e Conab (2008). (*) Projeções da Conab. Distribuição territorial da produção A produção canavieira está presente em 22 estados. A região Sudeste é aquela que concentra a maior parte da produção nacional (58%). O estado de São Paulo, que deverá colher cerca de 319 milhões de toneladas na safra 2007/2008, é o maior produtor brasileiro, respondendo por 58,5% do total da produção. O segundo maior é o Paraná, com produção prevista de 46,2 milhões de toneladas, seguido de Minas Gerais (41 milhões de toneladas). A pesquisa da Conab detectou também que os estados que mais incorporaram áreas ao cultivo de cana-de-açúcar foram: Bahia (52%), Ceará (40%), Mato Grosso do Sul (26,8%), Paraná (26,6%) e Minas Gerais (21%). Puxada pelo estado do Paraná, a região Sul é aquela que deverá apresentar maior índice de crescimento da produção, com 34%, seguida da região Centro-Oeste (22,1%). 13 LENHA NOVA PARA A VELHA FORNALHA – A FEBRE DOS AGROCOMBUSTÍVEIS As informações do levantamento da Conab demonstram que a produção de álcool é a maior motivadora desta expansão. O volume previsto é o maior da história do país: 26 a 27 bilhões de litros, um aumento de 15 a 20% em relação ao ano anterior. Já o açúcar deverá ter sua produção elevada em 8 a 12%, alcançando cerca de 34 milhões de toneladas. Do total da cana-de-açúcar processada neste período, a Conab estima que cerca de 53% serão destinados à produção de álcool e 43% à de açúcar. TABELA 1 Brasil – principais estados produtores de cana-de-açúcar Safras 2006/2007 e 2007/2008 Estado ÁREA (milhões ha) Safra 06/07 Safra07/08 SP PR MG AL GO PE MT MS Demais Total 3.288,2 436,0 420,0 402,7 234,9 369,6 209,7 160,0 642,1 6.163,2 3.679,5 552,0 580,2 412,0 281,8 371,5 225,5 202,8 658,3 6.963,6 PRODUÇÃO (milhões t) Var. % 11,90 26,60 21,00 2,30 20,00 0,50 7,50 26,80 2,5 13,00 Safra 06/07 Safra07/08 284,8 34,1 33,5 25,1 18,7 18,9 14,0 12,7 32,7 474,8 319,0 46,2 40,9 27,1 23,1 21,1 15,6 16,7 40,2 549.9 Var. % 12,00 35,30 21,80 7,90 23,60 11,80 11,30 32,00 2,3 15,80 Fonte: CONAB (2007). Obs. Dados extraídos do 3º Levantamento sobre a cana, em novembro de 2007. No ano de 2008, embora tenha noticiado que o total da área prevista é de 7,6 milhões de hectares, a Conab não informou dados por estado, em seu primeiro levantamento, de abril de 2008. Mercado Interno Além de maior produtor, o Brasil é também um dos maiores consumidores mundiais de açúcar, tendo consumido em 2007 11,4 milhões de toneladas. Segundo a Guarani (2007), o consumo no Brasil cresce principalmente em virtude do aumento da produção de alimentos industrializados com alto teor de açúcar. Os fabricantes de alimentos, sobretudo os de refrigerantes, chocolates e sorvetes, são responsáveis por aproximadamente 55% do consumo doméstico de açúcar. Quanto ao álcool, foram consumidos em 2007, no Brasil, cerca de 9,2 bilhões de litros, aumentando o consumo em cerca de 50% em relação ao ano de 2006. 3 A legislação brasileira estabelece que o percentual de sua mistura à gasolina deve 3 14 Agência Brasil. Consumo de álcool combustível aumentou 49,39% em 2007. 22/02/2008. CANA-DE-AÇÚCAR variar entre 20% e 25%. O governo utiliza-se desta margem de variação para estabilizar os preços do açúcar e do álcool no mercado doméstico. Mais recentemente, em 2003, a introdução de veículos com motores flexíveis aumentou consideravelmente o consumo doméstico de etanol. O etanol é usado como aditivo de combustível automotivo no Brasil desde os anos 1930. Durante a primeira crise internacional do petróleo, em meados da década de 1970, o governo promoveu a produção de veículos que usavam etanol hidratado como combustível, implantando o Proálcool. Como resultado, o número de veículos a etanol produzidos cresceu significativamente e teve seu pico em 1988, quando representava 90% das vendas internas de veículos. A demanda por veículos movidos a etanol, entretanto, caiu bastante posteriormente, devido à significativa redução dos preços do petróleo e à redução e subseqüente eliminação dos subsídios do governo aos produtores de etanol. Segundo a ANFAVEA, as vendas de veículos flexíveis cresceram de 48 mil, em 2003, para mais de 2 milhões de unidades durante o ano de 2007, representando mais de 86% de todas as vendas de veículos leves naquele ano. 4 Em abril de 2008, a Agência Nacional do Petróleo (ANP) informou que, pela primeira vez em mais de 20 anos, o consumo de álcool combustível foi superior ao da gasolina no Brasil, fechando o primeiro bimestre de 2008 com crescimento de 56%, em relação a igual período de 2007, enquanto o consumo de gasolina cresceu apenas 2,9%.5 Além disso, a maior parte da frota automotiva brasileira atual é ainda composta de veículos movidos exclusivamente a gasolina, sugerindo um espaço significativo para o aumento na proporção de veículos flexíveis no processo de renovação da frota. Espera-se, portanto, que o aumento na produção de veículos flexíveis impulsionará ainda mais, nos próximos anos, a demanda por etanol hidratado no Brasil. A cana de açúcar na matriz energética brasileira A cana-de-açúcar, que nos últimos anos já se destacava pelo seu crescimento expressivo na matriz energética brasileira, alcançou em 2007 um patamar inédito. Segundo os dados preliminares do Balanço Energético Nacional, divulgados em abril de 2008 pela EPE, a participação dos produtos derivados da cana (entre os quais o etanol e o bagaço) na composição das fontes primárias de energia utilizadas no país chegou a 16%, ocupando a segunda posição entre os energéticos mais demandados – atrás apenas do petróleo e derivados, com 36,7%, e superando a energia hidráulica, com 14,7%. (EPE, 2008) 4 Vanessa Stelzer. Montadoras vendem 2 milhões de veículos flex em 2007. Reuters, 07/01/08. 5 Nielmar de Oliveira. Consumo de álcool supera o de gasolina pela primeira vez em 20 anos. Agência Brasil, 10/04/08. 15 LENHA NOVA PARA A VELHA FORNALHA – A FEBRE DOS AGROCOMBUSTÍVEIS GRÁFICO 5 Matriz energética do Brasil – 2007 Fonte: EPE (2008). Comércio internacional Açúcar O comércio internacional de açúcar movimentou, em 2007, 46,7 milhões de toneladas, equivalentes a cerca de 41% da produção mundial. O Brasil respondeu, neste período, por cerca de 39% do comércio mundial. União Européia (18%) e Austrália (9%) são respectivamente, segundo e terceiro maiores exportadores mundiais. O mercado internacional do açúcar é fortemente controlado e protegido em diversos países por meio de subsídios e barreiras às importações. Destacam-se as proteções postas em prática pelos Estados Unidos e pela União Européia. Esta última encontra-se sob pressão dos países exportadores no sentido de reduzir as restrições às importações de açúcar. Em 2003, a OMC estabeleceu, por solicitação da Austrália, Brasil e Tailândia, um painel de arbitragem contra a União Européia, alegando estar a UE excedendo os limites para os subsídios à exportação de açúcar, estabelecidos em acordos internacionais e regras gerais de comércio. O resultado do painel foi favorável aos países demandantes. Em junho de 2005, a União Européia anunciou planos para redução dos preços do açúcar pagos aos produtores em aproximadamente 40,6%, ao longo de um período de dois anos, e da produção, em mais de um terço, até 2012. 16 CANA-DE-AÇÚCAR A medida reduziria os preços pagos aos produtores de 650 para aproximadamente 386 euros por tonelada. Como conseqüência, as exportações européias poderiam cair cerca de 5 milhões de toneladas de açúcar por ano, ou algo próximo a 10% de todo o açúcar comercializado globalmente (Guarani, 2007). A expectativa da indústria brasileira de açúcar é de que, com o fim do subsídio europeu, o Brasil ganhe 50% dos mercados que se abrirão. Etanol O mercado internacional do etanol vem crescendo em ritmo forte nos últimos anos, devido, sobretudo, à elevação dos preços do petróleo. A produção de etanol é extremamente concentrada em um reduzido número de países. Em 2007, Estados Unidos e Brasil responderam por 88% de todo o etanol produzido no mundo. A China e a União Européia têm elevado sua produção e já apresentam níveis expressivos, como mostra o Gráfico 6. GRÁFICO 6 Etanol – principais países produtores em 2007 Fonte: RFA (2008). As exportações brasileiras têm a seu favor o fato de que a matéria-prima é a cana-de-açúcar, resultando em custo bastante inferior ao do etanol produzido pelos Estados Unidos, a partir do milho. Da mesma forma que o açúcar, as exportações de etanol também enfrentam barreiras tarifárias e não-tarifárias, como mostra a Tabela 2. Por essa razão, o governo brasileiro vem trabalhando para tornar o comércio internacional de biocombustíveis, e do etanol em particular, mais um dos grandes temas das principais negociações comerciais em que se encontra envolvido, assim como nos acordos bilaterais. 17 LENHA NOVA PARA A VELHA FORNALHA – A FEBRE DOS AGROCOMBUSTÍVEIS TABELA 2 Tarifas de importação aplicadas ao etanol nos principais países PAÍS TARIFA EUA Brasil Argentina Tailândia Índia Canadá União Européia 2,5% + US$ 0,54/ galão 20% 20% 30% 186% US$ 0,19/galão US$ 0,87/galão Fonte: RFA (2007) A produção mundial de cana-de-açúcar tem sido fortemente estimulada pelas perspectivas de crescente utilização do etanol em diversos países. A União Européia, por exemplo, estabeleceu que, até 2020, todos os combustíveis deverão ser compostos por 10% de matéria-prima renovável. GRÁFICO 7 Custos de produção do etanol Fonte: Cambridge Energy Research Associates No Japão, a mistura de 3% é opcional. Na China, a de 10% é obrigatória em nove províncias. Na Índia, a mistura de 5% já é obrigatória desde 2006. Em janeiro de 2007, os Estados Unidos anunciaram a meta de substituir 20% da gasolina automotiva por etanol, até 2017. Desde 2004, as importações norte-americanas de etanol vêm aumentando consideravelmente. 18 CANA-DE-AÇÚCAR Exportações As exportações brasileiras de açúcar, segundo a Secretaria de Comércio Exterior – (SECEX) totalizaram 19,4 milhões de toneladas em 2007. Comparadas a 2006, houve alta de 2,6%, quando somaram 18,87 milhões de toneladas. Em relação ao ano de 2000, as exportações de 2007 foram quase três vezes maiores. Em função da forte queda do preço internacional, o valor total destas exportações em 2007 reduziu-se em 17,3%, atingindo US$ 5,1 bilhões. O Brasil tornou-se também, nos últimos anos, um grande exportador mundial de álcool combustível. Segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil – CNA, as vendas externas cresceram mais de seis vezes entre 2005 e 2007. Em 2007, o Brasil exportou 3,5 bilhões de litros de álcool (mais 3,3%, relativamente a 2006), resultando em faturamento de US$ 1,478 bilhões (menos 7,9%, em relação a 2006). Mesmo com a queda do preço, o valor das exportações do etanol praticamente dobrou em relação a 2005, quando foi de US$ 765 milhões. Os principais compradores são Estados Unidos (1,8 bilhões de litros), Japão, Holanda e Suécia. As perspectivas são de que o Brasil deverá triplicar suas exportações de álcool no prazo de quatro a cinco anos. De acordo com a Guarani (2007), apesar da sobretaxa aplicada ao álcool brasileiro, as exportações para os Estados Unidos cresceram 577,7% somente em 2006, em relação ao ano de 2005, saltando de 260,7 milhões para 2 bilhões de litros de etanol. Em 2008, segundo previsões da Unica, as exportações de etanol do Brasil devem chegar a 4,5 bilhões de litros.6 TABELA 3 Exportações brasileiras de etanol – 1998 a 2007 ANO Milhões de US$ FOB Litros (bilhões) Preço médio (US$/m3) 1998 36 0,118 301,21 1999 66 0,407 161,70 2000 35 0,227 153,07 2001 92 0,346 266,57 2002 169 0,759 222,86 2003 158 0,757 208,56 2004 498 2,408 206,68 2005 766 2,592 295,31 2006 1.60 3,428 468,20 2007 1.47 3,541 415,14 Fonte: MDIC. 6 Flávia Oliveira. Exportações podem alcançar meta este ano. O Globo, 16/05/08. 19 LENHA NOVA PARA A VELHA FORNALHA – A FEBRE DOS AGROCOMBUSTÍVEIS Parte desse volume foi exportada diretamente e parte através do Caribe, pelo acordo CBI (Caribbean Basin Initiative), que permite que até 7,0% da demanda norte-americana de álcool possam entrar no país sem a sobretaxa de US$ 0,54 por galão, cobrada aos países que estão fora do acordo com os Estados Unidos. Mesmo pagando uma taxa de 2,5% mais US$ 0,54 por galão (que equivale a 3,785 litros), o álcool brasileiro chegou ao mercado norte-americano por US$ 1,75 o galão, mais barato do que os US$ 1,90 do etanol local, produzido a partir do milho e fortemente subsidiado. Com sede nas Bermudas, a Infinity Bio-Energy, fundada em 2006, realizou, até abril de 2008, oito aquisições de usinas, com capacidade de moagem de 14,5 milhões de toneladas. Quatro delas já se encontravam em operação, duas estão em construção e outras duas em fase de projeto. A Infinity é uma destas empresas que buscam beneficiar-se do acordo CBI, através de parcerias com empresas sediadas no Panamá e na República Dominicana, para desidratação e elaboração final do etanol brasileiro.7 Os novos investimentos e a presença do capital estrangeiro As notícias sobre novos investimentos na produção de cana-de-açúcar e na construção de novas usinas se sucedem em ritmo acelerado, típico do mercado financeiro. Segundo o jornal Valor Econômico, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) prevê investimentos da ordem de R$ 100 bilhões em todos os elos da cadeia ligada à produção de álcool no país, entre 2007 e 2011.8 Do total estimado, R$ 24 bilhões referem-se exclusivamente a projetos de novas usinas de cana e de geração de energia a partir do bagaço. Deste total, o BNDES pode financiar R$ 6,4 bilhões. 9 O Programa de Aceleração do Crescimento, do Governo Federal, prevê investimentos de R$ 16,2 bilhões para a expansão da produção de álcool, incluída a participação da Petrobras. Deste valor, R$ 12,1 bilhões serão investidos em novas usinas, com elevada concentração na região Sudeste: R$ 8,5 bilhões, ou 70% do total, e nenhum recurso para as regiões Norte e Nordeste. Os demais R$ 4,1 bilhões serão destinados a obras de infra-estrutura de transporte do álcool. Já está previsto um alcoolduto, ligando Senador Canedo-GO a São Sebastião-SP. Um segundo alcoolduto, em fase de estudos, deverá ser construído entre Cuiabá-MT e o Porto de Paranaguá-PR. 7 Infinity Bio-Energy. Visão Global. Abril de 2008. www.seminarios.redetribuna.com.br/seminarios2008. 8 BNDES prevê R$ 100 bilhões em investimentos à produção de álcool. Valor Online, 16/04/07. www.valoronline.com.br. 9 Inovar e investir para sustentar o crescimento. Palestra de Luciano Coutinho, presidente do BNDES, maio de 2008. www.desenvolvimento.gov.br. Acessado em 09/06/08. 20 CANA-DE-AÇÚCAR FIGURA 1 Novas Usinas de Etanol Fonte: Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão O Brasil possuía, em abril de 2008, 370 unidades produtoras de açúcar e álcool. As expectativas são de que, até 2014, sua produção de cana-de-açúcar irá aumentar de 475, em 2007, para 700 milhões de toneladas em 2014. Isto exigirá investimento em 114 novas usinas – hoje, há no Brasil 43 unidades em construção. TABELA 4 As maiores empresas do açúcar e do álcool no Brasil – 2006 Ranking Empresa / Sede 9 52 76 81 109 112 118 126 135 145 Copersucar / São Paulo-SP Cosan / Piracicaba-SP Usina Nova América / Tarumã-SP Usina Caeté / Maceió-AL Usina Coruripe / Coruripe-AL Santa Elisa / Sertãozinho-SP Usina da Pedra / Serrana-SP Usina Bonfim / Guariba-SP USAÇÚCAR / Maringá-PR LDC Bioenergia / São Paulo-SP Valor das vendas (em R$ milhões) 5 1 1 1 643,10 544,40 230,40 150,00 795,90 771,80 720,60 702,80 677,20 626,50 Fonte: Exame. 21 LENHA NOVA PARA A VELHA FORNALHA – A FEBRE DOS AGROCOMBUSTÍVEIS As expectativas são também provocadas pela possibilidade de expansão do consumo de álcool no Brasil e em diversos outros países, sobretudo nos Estados Unidos, onde, nos próximos dez anos, a demanda por etanol pode atingir 132 bilhões de litros por ano. Este volume representa cerca de três vezes a atual produção mundial de etanol. Pelos cálculos do BNDES, a produção brasileira de álcool terá de passar dos atuais 17,5 para 24 bilhões de litros em 2011, somente para atender a demanda interna. Para o mercado externo, a previsão é de que as exportações se multipliquem por três entre 2007 e 2012, quando devem atingir cerca de 9 bilhões de litros. A Petrobras também investirá pesadamente na produção e comercialização do etanol. Pretende fechar contrato com o Japão, que em 2010 estará substituindo pelo etanol 3% da gasolina consumida. A empresa participará também de projetos de construção de usinas de álcool e de alcooldutos. Além disso, terá participação entre 10 e 20% no capital de cinco novas usinas, que deverão produzir um total de um bilhão de litros de etanol por ano.10 A indústria do açúcar e do álcool no Brasil encontra-se atualmente, em sua quase totalidade, em mãos de empresas de capital nacional. Segundo estimativas da consultoria Datagro, o capital estrangeiro detinha, em agosto de 2006, apenas 5,7% do capital das indústrias do setor. No mesmo mês de 2007, este percentual mais que dobrou, atingindo 12%.11 As promessas de lucros que a produção do etanol a partir da cana-de-açúcar vêm representando atualmente têm atraído volume extraordinário de capital estrangeiro. Assim, entre 2000 e a metade de 2007, foram investidos 2,2 bilhões de dólares na produção de álcool. Segundo o anuário da revista Exame, há duas formas distintas de atuação do capital estrangeiro: “de um lado estão consórcios de empresários e fundos de investimento internacionais, interessados em aplicar recursos num negócio promissor, mas sem envolvimento direto na operação; de outro estão empresas que já atuam no setor sucroalcooleiro lá fora e tradings que participam ou querem participar mais ativamente do comércio internacional de álcool”. Do primeiro grupo, o melhor exemplo é o megainvestidor húngaro George Soros, dono de uma fortuna estimada em 8,5 bilhões de dólares. Ele se tornou um dos sócios da Adecoagro, que comprou a Usina Monte Alegre, em Minas Gerais, em 2006, e está construindo uma nova usina no Mato Grosso do Sul. Com sócios como o ex-presidente do Banco Mundial, James Wolfensohn, e os fundadores da Sun Microsystems, Vinod Khosla, e da America Online, Steve Case, a Brenco investirá US$ 2,2 bilhões na construção de dez usinas. Pelo lado das empresas, o interesse de grupos estrangeiros foi despertado antes mesmo da explosão da demanda interna de etanol, graças ao sucesso dos 10 Petrobras: Brasil será Arábia Saudita do etanol. O Globo, 24/06/07. 11 Setor sucroalcooleiro tem o dobro de estrangeiros. Folha de São Paulo, 25/09/2007. 22 CANA-DE-AÇÚCAR carros com motores flex. Os primeiros foram os franceses Tereos e Louis Dreyfus, em 2000. Controlador das usinas Luciânia, em Minas Gerais, Cresciumal e São Carlos, em São Paulo, o grupo Louis Dreyfus fechou, em fevereiro de 2007, a compra de quatro usinas do grupo pernambucano Tavares de Melo, além de iniciar a construção de uma quinta unidade em Mato Grosso do Sul, através da Louis Dreyfus Commodities Bioenergia (LDC). O Tereos, por sua vez, tem 6,3% de participação na Cosan, índice que poderá elevar-se ainda este ano, além de 47,5% na Franco-Brasileira de Açúcar (FBA) e 100% na Açúcar Guarani. A Cosan, por sua vez, adquiriu, em 2008, 100% dos ativos da Esso, por US$ 826 milhões. Depois dos pioneiros franceses, multiplicou-se o número de grupos estrangeiros interessados em aproveitar o potencial desse mercado. Entre eles estão nomes de grandes multinacionais do setor do agronegócio, como a americana Cargill. Em junho de 2006, a companhia adquiriu por R$ 75 milhões o controle acionário da Central Energética do Vale do Sapucaí (Cevasa), usina localizada em Patrocínio Paulista, no interior de São Paulo. QU ADRO 1 QUADRO De onde vem o dinheiro Quem são os principais investidores estrangeiros Grupo Perfil Negócios com Etanol Adecoagro Atua nos setores de leite, carne, grãos, açúcar e etanol. Tem como principal sócio o investidor húngaro George Soros Fundo de investimentos capitaneado pelo ex-presidente da Petrobras Henri Philip Reichstul De origem americana, é um dos maiores produtores de grãos e alimentos do mundo Uniu-se ao grupo Santa Elisa para criar a Companhia Nacional de Açúcar e Álcool (CNAA) Sediado em Lille, na França, é um dos maiores produtores de açúcar da Europa Tem uma usina em Minas Gerais e está construindo outra em Mato Grosso do Sul. Planeja Investir 1,6 bilhão de reais até 2015 Tem 2 bilhões de dólares para investir em usinas de álcool na Região Centro-Oeste Comprou 63% da Cevasa, usina do empresário Maurílio Biagi Filho, em Patrocínio Paulista (SP) Planeja investir 2 bilhões de reais na construção de quatro usinas Em Goiás e Minas Gerais Detém 100% da Açúcar Guarani, 47,5% da Franco Brasileira de Açúcar (FBA) e 6.3% da Cosan Brenco Cargill Global Foods Grupo Tereos Fonte: Revista Exame, junho de 2007. www.portalexame.abril.com.br. Outros grupos interessados em entrar no mercado brasileiro são o Pacific Ethanol, que tem como sócio o bilionário Bill Gates, fundador da Microsoft, o alemão NordZucker SudZucker, que atua no setor de açúcar na Europa, e a indiana BHL, dona de usinas em seu país. Segundo a Datagro, “da lista das dez maiores empresas do setor no Brasil, quatro já possuem participação do capital estrangeiro: Cosan, Bonfim, LDC Bioenergia e Guarani. Uma quinta, a Santa Elisa, fez recentemente parceria com a americana 23 LENHA NOVA PARA A VELHA FORNALHA – A FEBRE DOS AGROCOMBUSTÍVEIS Global Foods para constituir a Companhia Nacional de Açúcar e Álcool, cujo plano é investir R$ 2 bilhões na construção de quatro usinas em Goiás e Minas Gerais”. 12 A consultoria KPMG informa que, das nove fusões e aquisições do setor em 2007, seis envolviam grupos estrangeiros. Em todo o ano de 2006, também foram nove negócios, dos quais seis foram realizados por empresas do exterior. Em meio à euforia, Benedito Rosa do Espírito Santo, pesquisador do Ipea – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, adverte que o nascente mercado externo ainda é “instável” e sofrerá “mudanças espetaculares” no médio prazo com o domínio da tecnologia de fabricação de etanol a partir de celulose. “Se houver uma crise no meio do caminho, vamos ter excedentes enormes e um modelo de alto grau de vulnerabilidade”, afirma o pesquisador.13 Novas aplicações para a cana-de-açúcar Verificamos, durante a realização deste estudo, que as estimativas sobre a expansão do cultivo de cana-de-açúcar não levam em consideração outras possíveis aplicações além do açúcar e do etanol. No entanto, o fim da era – ou simplesmente o aumento dos preços – do petróleo vai exigir a criação de alternativas a uma grande variedade de bens. Hoje, praticamente todo o polietileno produzido no mundo tem como matéria-prima a nafta, um derivado do petróleo.14 Nesta direção, segundo o jornal O Estado de São Paulo, a Dow Chemical vai criar uma subsidiária com a Crystalsev (trading brasileira de álcool e açúcar) para a construção do primeiro pólo alcoolquímico integrado do mundo. A matéria-prima básica será a cana. O projeto, localizado na região Centro-Sul, começará a ser construído em 2008 e entrará em operação em 2011, com o objetivo de produzir anualmente 350 mil toneladas de polietileno, uma das principais resinas usadas na indústria de transformação de plástico. Serão necessários, para isto, 8 milhões de toneladas de cana para a produção de 700 milhões de litros de álcool. Esta não é a primeira iniciativa do setor. Em junho de 2006, a Braskem, maior empresa petroquímica da América Latina, anunciou projeto similar.15 A expansão territorial As estimativas sobre a área a ser plantada com cana-de-açúcar nos próximos anos são as mais variadas. Segundo o Instituto de Economia Agrícola (IEA) – órgão vinculado à Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo –, o Brasil poderá ter na safra de 2015/16 uma área de cana de 12,2 milhões de hectares, com 12 Altamiro Borges. O etanol e a invasão estrangeira. ADITAL, 27/06/07. Disponível em www.adital.com.br. 13 Ipea vê exagero no apetite por etanol e recomenda foco no mercado doméstico. Valor Econômico, 08/06/07. 14 Agnaldo Brito. Dow Chemical e Crystalsev farão plástico a partir de cana. O Estado de São Paulo, 20/07/07. 15 EUA e Brasil esperam produzir álcool a partir da cana-de-açúcar. Jornal Última Hora, 19/07/07. 24 CANA-DE-AÇÚCAR processamento de 902,8 milhões de toneladas de cana e uma produção de 26 bilhões de litros de álcool.16 O número relativo à área plantada é próximo ao dobro da área plantada na safra 2007/2008. Segundo o BNDES, o Brasil pode contribuir decisivamente para uma meta de 10% de substituição da gasolina no cenário mundial (220 bilhões de litros). Para o país conquistar 50% desse mercado, terá que multiplicar por sete sua produção de etanol, chegando a algo em torno de 110 bilhões de litros. Em cálculo simplificado, que considera os atuais níveis de produtividade e os de rendimentos na fabricação do etanol, Horacio Carvalho estima que os canaviais teriam que ocupar 28 milhões de hectares (Carvalho, 2007). Esta área equivale, aproximadamente à soma daquelas ocupadas pela soja e pela própria cana, no Brasil, em 2007. FIGURA 2 Localização das usinas de álcool e açúcar no Brasil Fonte: Núcleo Interdisciplinar de Planejamento Estratégico (Nipe) Para Benedito Rosa do Espírito Santo, pesquisador do Ipea, a participação da área de cana, quando comparada às 18 principais culturas plantadas no país, crescerá de 12,7%, em 2007, para 17% em 2013/14. Em seus cálculos, a participação da área destinada à produção de etanol tende a subir de 6,6% para 10,2% do total da área plantada, neste mesmo período. 16 Produção de cana poderá superar 900 milhões de toneladas em 2015/16. JornalCana, outubro de 2006. www.jornalcana.com.br. 25 LENHA NOVA PARA A VELHA FORNALHA – A FEBRE DOS AGROCOMBUSTÍVEIS O Correio Braziliense descreve também o avanço da cana em toda a região Centro-Oeste,17 onde áreas de pastagem, plantações de soja, milho e algodão cedem espaço à cana-de-açúcar. Senador Canedo (GO), a 18 km de Goiânia, é um símbolo dessa acelerada expansão. Embora não produza um litro de álcool, é importante pólo de distribuição de combustíveis. Com o anúncio de que a Petrobras destinará US$ 750 milhões à construção de um alcoolduto ligando a cidade a Paulínia (SP), Canedo vive a expectativa de se transformar em um dos maiores entrepostos do mundo. Em 2012, a capacidade de transporte do alcoolduto será de 8 bilhões de litros. Alguns municípios e estados já se defendem da expansão da cana Na ausência de qualquer planejamento territorial ou estudo de impactos por parte do governo federal, alguns municípios situados nas áreas de expansão da cana-deaçúcar vêm produzindo legislação própria, de modo a regulamentar e restringir os impactos negativos desta expansão. A euforia em Senador Canhedo contrasta, assim, com a preocupação em Rio Verde, município do estado de Goiás. Segundo seu prefeito, Paulo Roberto Cunha, onde a cana está o emprego “é mais difícil e menor”. Recentemente, como informa o Correio Braziliense, o governo do município regulamentou a atividade, determinando que somente dez por cento de sua área agricultável poderão ser ocupados pela cana-de-açúcar. A preocupação é de manter no município cultivos já existentes, como o milho, o algodão e a soja, cuja ração movimenta o complexo industrial da Perdigão, gerando mais empregos e impostos na região. Em Sacramento, no Triângulo Mineiro, legislação aprovada em 2006 pela Câmara de Vereadores limita a área plantada com cana a 20% da superfície total do município. Estabelece também distância mínima dos mananciais, normas de licenciamento, além de proibir queimadas a menos de dez quilômetros da cidade e a menos de cinco quilômetros dos povoados, dentre outros dispositivos.18 No Mato Grosso do Sul, há também restrições ao plantio de cana na bacia do rio Paraguai, impostas pelo governo do Estado. O governo do estado de São Paulo, por sua vez, suspendeu por 120 dias o recebimento de pedidos de instalação ou ampliação de usinas de açúcar e álcool. O governo observou uma expansão exagerada de pedidos para a instalação de novas usinas e decidiu avaliar melhor os efeitos desse crescimento. A decisão também tem outro objetivo: avaliar se as licenças estão sendo usadas para serem vendidas a 17 Luciano Pires. Cana muda eixo da economia no Centro-Oeste. Correio Braziliense, 29/04/07. 18 Lei limita a 20% a área a ser plantada de cana-de-açúcar no município. O Estado do Triângulo, 09/07/06. 26 CANA-DE-AÇÚCAR grupos internacionais ou se têm mesmo o objetivo de se transformarem em investimento. O grande receio do governo de São Paulo é o de que a cana-de-açúcar acabe se tornando uma cultura quase exclusiva em São Paulo.19 Os Estados de Goiás e do Paraná também pretendem aumentar os controles sobre a expansão da cana-de-açúcar. No caso do Paraná, o governo anunciou que criará uma zona agrícola para a cana, para impedir a sua expansão sobre áreas de outras culturas e de florestas. Cana-de-açúcar na Amazônia? A acelerada expansão do plantio da cana-de-açúcar no Brasil, assim como a perspectiva de que o etanol venha a se tornar uma das mais importantes commodities do mercado internacional, vêm gerando grandes preocupações na sociedade civil, no Brasil e em outros países, sobretudo na Europa. A Amazônia encontra-se no centro destas preocupações. Certamente por estas razões, o presidente Lula, em viagem a Bruxelas no mês de julho de 2007, afirmou que “se a Amazônia fosse importante para plantar canade-açúcar, os portugueses que introduziram a cana-de-açúcar no Brasil, há tantos séculos, já o teriam feito na Amazônia”, em pronunciamento realizado na Conferência Internacional sobre Biocombustíveis. Lula declarou que o plantio da cana localiza-se em regiões muito distantes da Amazônia, que não possuiria áreas apropriadas para tal. No mesmo dia, o jornalista Altino Machado demonstrou o erro do Presidente da República: “Mal assessorado, Lula gera constrangimento com declarações desencontradas quando repete frases de assessores da Casa Civil. Na Amazônia, já existem usinas de porte expressivo em Presidente Figueiredo (AM), Ulianópolis (PA), Arraias (TO), além de meia dúzia no Mato Grosso. De acordo com o último levantamento oficial da Conab, de maio deste ano, na safra passada houve mais de 19 milhões de toneladas de produção de cana-de-açúcar na Amazônia Legal, entre Mato Grosso, Tocantins, Maranhão, Amazonas e Pará”.20 Além disso, ainda segundo Altino Machado, três novas usinas encontravam-se, nesta mesma ocasião, em fase de implantação ou com planos para tal: a Álcool Verde, no Acre, já está em operação. Há também a promessa de mais duas usinas na região: uma na BR-364, na saída de Rio Branco para Porto Velho (RO), e outra no município de Capixaba, no Acre, na BR-317, batizada como Estrada do Pacífico.21 19 Guilherme Barros. SP suspende pedidos para a instalação de usinas de álcool. Folha de São Paulo, 16/05/08. 20 Altino Machado. Lula erra em Bruxelas ao negar cana-de-açúcar na Amazônia. Amigos da Terra Amazônia, 06/07/07. www.amazônia.org.br. 21 Blog de Altino Machado, 20/07/07. www.altino.blogspot.com. 27 LENHA NOVA PARA A VELHA FORNALHA – A FEBRE DOS AGROCOMBUSTÍVEIS Na véspera, o jornal Diário do Pará havia noticiado que, numa única operação de repressão ao trabalho escravo no país, o Ministério do Trabalho encontrou 1.108 trabalhadores em condições degradantes de trabalho em uma fazenda de propriedade da empresa Pagrisa (Pará Pastoril e Agrícola S.A.), em Ulianópolis. Os trabalhadores dormiam em alojamentos superlotados e trabalhavam na colheita de cana-de-açúcar.22 O fato é que o levantamento da safra de cana-de-açúcar brasileira para o período 2007/08 (Conab, 2007) mostra que a produção de cana na Amazônia Legal aumentou de 17,6 para 19,3 milhões de toneladas entre 2006 e 2007. No Mato Grosso, por exemplo, foi registrada expansão da área plantada de 10%, enquanto no Tocantins esse aumento foi de 13% e no Amazonas, de 8%. Impactos ambientais A repercussão deste noticiário, assim como a percepção do governo e do próprio empresariado do setor de que a conquista de novos mercados para o etanol exigirá certificação ambiental, provocaram reação quase imediata do governo. No dia 17 de julho de 2007, o Ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, anunciou que o governo brasileiro iria proibir o plantio de cana-de-açúcar na Amazônia e no Pantanal. O ministro informou ainda que será proibido o plantio da cana em regiões consideradas inadequadas pelo governo por razões ambientais ou onde isto possa significar pressão sobre áreas dedicadas à produção de alimentos. As outras áreas podem ser regiões específicas do Cerrado e do Pampa Gaúcho.23 Foi informado pelo ministro, na mesma ocasião, que o governo vai efetuar um zoneamento ecológico-econômico (ZEE), que estará pronto em julho de 2008 e indicará as áreas onde será permitido cultivar cana e aquelas onde haverá a concessão de incentivos ao plantio, como um adicional de crédito rural oficial e isenções fiscais. “O mapa vai dizer onde será permitido plantar e as áreas com incentivos onde teremos plantio, como áreas de pastagens degradadas”, disse. O ZEE levará em conta as condições de clima e solo em cada microrregião do país.24 O ministro afirmou ainda que haverá áreas de restrição também na Mata Atlântica e em reservas indígenas, dentre outras. As áreas a serem incentivadas serão as de pastagens, degradadas ou não. E, para este último caso, o cultivo será permitido também na Amazônia e no Pantanal. As medidas deverão beneficiar, igualmente, produtores e exportadores. “Haverá uma certificação socioambiental do Inmetro 22 Recorde: fiscalização resgata 1.108 “semi-escravos” de fazenda em Ulianópolis. Diário do Pará, 03/07/07. 23 Eliane Oliveira e Luiza Damé. Governo reage a pressões e decide proibir plantio de cana na Amazônia e no Pantanal. O Globo, 18/07/07. 24 Mauro Zanatta. Governo vai proibir o plantio de cana na Amazônia e no Pantanal. Valor Econômico, 18/07/07. 28 CANA-DE-AÇÚCAR para todo o processo, desde as lavouras até a qualidade do álcool”, afirmou Stephanes. As medidas não incluirão as plantas já em atividade. Com este objetivo, o governo lançou o Programa Brasileiro de Certificação de Biocombustíveis, que visa apoiar as exportações de agrocombustíveis, através de um processo de certificação, voluntário e internacionalmente reconhecido, que demonstre aspectos da qualidade do produto, como conteúdo energético e de impurezas, além dos aspectos de sustentabilidade ambiental e social da produção. Uma visita à pagina da Embrapa-Cana na internet, no entanto, causa-nos preocupação em relação aos parâmetros sobre os quais o governo poderia trabalhar para elaborar um zoneamento que levasse em conta os efetivos impactos ambientais até aqui observados no Brasil. Nela consta, sob o título “Impacto ambiental da cana-de-açúcar”, o seguinte: “Com exceção de alguns estudos da Embrapa Monitoramento por Satélite, são poucos os trabalhos de pesquisa que tenham realizado de forma circunstanciada e abrangente a avaliação do impacto ambiental (AIA) da localização atual do cultivo da cana-de-açúcar. Desconhece-se a existência no Brasil de outros trabalhos de avaliação do impacto ambiental da evolução espaçotemporal do uso das terras em regiões canavieiras, cobrindo – por exemplo – a evolução dos últimos 30 anos. No tocante à AIA das técnicas e tecnologias empregadas nos sistemas de produção de açúcar e álcool – onde se insere, por exemplo, o caso da queimada da palha da cana-de-açúcar, – três subsistemas foram profundamente alterados, através da implantação do Programa PROALCOOL, em São Paulo e devem ser simultaneamente considerados: o do cultivo da cana (subsistema agrícola), o da sua transformação em açúcar e álcool (subsistema industrial) e enfim o subsistema de transportes. As conseqüências dessas mudanças sobre o meio ambiente e a sócio-economia das regiões atingidas direta ou indiretamente, apesar de sua magnitude e importância para o país, ainda são globalmente desconhecidas. Avaliação do impacto ambiental do sistema de produção da cana-de-açúcar não foi realizada de forma completa, ainda que em caráter piloto, em nenhum lugar de S. Paulo ou no Brasil e ao que saiba-se.”25 Mas, onde quer que seja, a expansão do cultivo da cana-de-açúcar tende a consolidar o modelo econômico dominante na agricultura brasileira. Este é fundado em grandes áreas de monoculturas, na artificialização das atividades, através dos cultivos transgênicos, fertilizantes de origem industrial, uso intensivo de agrotóxicos e de herbicidas, da automação, da mecanização pesada e da aviação agrícola (Carvalho, 2007). A utilização deste modelo está associada a uma longa lista de 25 Disponível em www.cana.cnpm.embrapa.br. Acessado em 11/10/07. 29 LENHA NOVA PARA A VELHA FORNALHA – A FEBRE DOS AGROCOMBUSTÍVEIS conseqüências danosas ao meio ambiente, dentre as quais destacamos: contaminação das águas e do solo por agrotóxicos e herbicidas, compactação dos solos pela motomecanização pesada, destruição de áreas com vegetação nativa, contaminação de nascentes e rios, poluição da atmosfera pela queima de canaviais e destruição da biodiversidade. Como descrevem Laschefski e Assis (2006), as queimadas em canaviais, que se dão em aproximadamente 80% das áreas plantadas, representam o problema ambiental mais visível do setor sucroalcooleiro nacional. Estas queimadas visam facilitar o corte manual, reduzir custos de transporte e compensar perdas de até 20% na safra. As emissões de gases de efeito estufa daí decorrentes (dióxido e monóxido de carbono, metano, entre outros) em associação com elementos particulados e aerossóis, exercem grande pressão sobre o clima e podem contaminar regiões distantes das áreas de cultivo. Em conseqüência, as queimadas nos canaviais, além de representarem grave impacto ambiental, estão ocasionando problemas de saúde na população residente nos municípios circunvizinhos às regiões canavieiras. Impactos sobre a agricultura familiar A valorização das terras no Brasil e, em especial, nas principais áreas de expansão da cana-de-açúcar, já está ocasionando o deslocamento não só de atividades agrícolas e pecuárias de grande porte, mas também daquelas desenvolvidas pela agricultura familiar. Conforme Benedito Rosa26, “isso pode impactar a produção de uma área de 250 mil hectares no Triângulo Mineiro, sul do Maranhão, sudeste do Piauí, norte de Tocantins e nordeste do Pará”, diz. De acordo com ele, Goiás poderá passar de 300 mil para 800 mil hectares de cana. “Hoje, a área de cana já corresponde a 160% da área de milho em Goiás”. Em São Paulo, a diferença chega a 300%. “No interior paulista, o hectare de terra que custava R$ 4,7 mil em 2001 passou a valer R$ 10,2 mil”, em 2007, diz. A febre da produção de etanol da cana-de-açúcar é apontada como a principal responsável pela expressiva valorização das terras que ocorreu, sobretudo em 2007, em diversas regiões do País. O jornal O Globo27 informa que, de julho de 2006 a junho de 2007, a valorização média das terras do Brasil foi de 11,64%. As regiões que tiveram maior valorização foram justamente aquelas em que a expansão da cana-de-açúcar vem ocorrendo com maior intensidade: Sudeste (17%), CentroOeste (12,2%) e Sul (11,64%). Em Araraquara, interior paulista, o plantio de grãos e a criação de gado vão sendo substituídos pela cana, fazendo o preço da terra subir 70%, neste 26 Ipea vê exagero no apetite por etanol e recomenda foco no mercado doméstico. Valor Econômico, 08/06/07. 27 Aguinaldo Novo. Produção de etanol faz preço da terra ter valorização histórica no Brasil. O Globo, 07/06/07. 30 CANA-DE-AÇÚCAR mesmo período. A expansão da área plantada com cana em São Paulo, com a conseqüente valorização das terras, pressiona as demais lavouras e áreas de pastagens para novas fronteiras. Segundo o IEA-SP (Instituto de Economia Agrícola), este crescimento foi de 54%, somente entre 2002 e 2008. 28 As regiões preferenciais são o Triângulo Mineiro, o sul de Goiás e o leste do Mato Grosso do Sul. Além delas, apresentam-se como áreas de grande expansão o Paraná, Tocantins, Maranhão, Pará e Bahia. O espaço que a cana-de-açúcar ocupa na região de Araraquara dobrou entre 2001 e 2007, chegando a algo em torno de 480 mil hectares, entre áreas novas e em produção, segundo levantamento preliminar feito pelo Escritório de Desenvolvimento Regional (EDR) Agrícola de Araraquara, da Secretaria da Agricultura do Estado de São Paulo. Muitas culturas típicas da região, como laranja e café, além da pecuária, cederam espaço para a cana. Alguns reflexos deste avanço rápido e contínuo já são sentidos no varejo. É o caso do preço do leite, que subiu cerca de 50% até meados de 2007, somente naquele ano. O consumidor já está pagando mais caro também por outros alimentos básicos, como arroz, feijão e milho. “A elevação do preço do leite ocorre porque está faltando pasto no Estado. Onde tinha vaca hoje tem um mar de cana e isso acontecerá também com outras culturas”, avalia Paulo Cavasin, do EDR.29 O avanço do plantio da cana-de-açúcar em São Paulo vem provocando também o aumento da concentração da produção nas mãos de usinas e grandes fornecedores, e eliminando pequenos produtores. Segundo estudo promovido por Pedro Ramos, professor e pesquisador da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), apenas 25% da cana moída pelas usinas é, hoje, proveniente de fornecedores independentes. Os demais 75% são produzidos pelas próprias usinas.30 No conjunto dos produtores independentes, os pequenos também perderam espaço. Na safra 1995/96, 27,6% dos fornecedores de cana às usinas produziam até 4.000 toneladas. Na safra 2005/06, este percentual recuou 18%. Já os fornecedores com volume superior a 10 mil toneladas tiveram sua participação aumentada de 53,2% para 64,9%, no mesmo período. O que se pode prever também é que a crescente mecanização vai acelerar ainda mais este processo de concentração. Com os anúncios de investimentos em novas usinas em todo o País, cerca de 90 projetos, os plantadores de cana estão migrando de suas regiões de origem para acompanhar a expansão das usinas, de acordo com Manoel Ortolan, presidente da 28 Área agrícola ocupada pela cana-de-açúcar no Estado de São Paulo cresceu 54% desde 2002 e expansão ainda continua em SP. Folha de São Paulo, 01/06/08. 29 Fernanda Manécolo. Área de plantação de cana duplicou nos últimos sete anos. Tribuna Impressa de Araraquara, 16/07/07. 30 Mauro Zafalon. Pressionado a produzir mais, trabalhador atua cerca de 12 anos, como na época da escravidão. Folha de São Paulo, 01/05/07. 31 LENHA NOVA PARA A VELHA FORNALHA – A FEBRE DOS AGROCOMBUSTÍVEIS Organização dos Produtores de Cana da Região do Centro-Sul do Brasil (Orplana)31. “Há um movimento de migração de plantadores para o oeste paulista e para o CentroOeste, ainda desordenado.” A Orplana ainda não tem um mapeamento desse movimento, mas informa que boa parte dos fornecedores paulistas está comprando e arrendando terras em áreas ocupadas, sobretudo por pastagens. “O contingente de plantadores de cana está crescendo. Há muitos pequenos agricultores de grãos interessados no plantio da cana”, disse. As regiões próximas às usinas em operação ou em construção vêm apresentando grande valorização. Em um raio próximo a elas de 30 quilômetros, o preço da terra já é até quatro vezes superior àqueles verificados antes da chegada das usinas. Ainda segundo a Orplana, a prática mais comum na parceria entre proprietários de terras e usinas é a do arrendamento, que também contribuiu para a elevação do preço dos imóveis. Arrendando sua propriedade, o dono da terra não arca com qualquer custo no plantio e é remunerado segundo o que está previsto em contrato (ou, ainda, por produção por hectare ou sobre a colheita total). Em Goiás, há casos de um hectare ser arrendado por até R$ 30 mil. Já em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, os preços variam de R$ 10 mil a R$ 15 mil. O caso do Nordeste Segundo O Globo, na mesma matéria acima mencionada, as terras destinadas ao cultivo da cana no Nordeste, em especial na Zona da Mata alagoana, tiveram valorização de 84% mas, na média, a valorização das terras da região é bem menor: 8,6% entre meados de 2006 e de 2007. A produção de cana-de-açúcar na região praticamente não se alterou nos últimos dez anos: reduziu-se de 60,47 para 55,34 milhões de toneladas, entre 1990 e 2007. O Nordeste tem custo mais elevado de produção de cana, já que parte do plantio se dá em áreas íngremes, dificultando a mecanização e exigindo maior emprego de mão-de-obra. Com isso, o Nordeste, com 13% (Conab, 3º levantamento, 2007) da produção nacional de cana-de-açúcar, responde por 35% dos empregados na atividade. Muitos usineiros nordestinos passaram a produzir açúcar e álcool no Triângulo Mineiro, em São Paulo, em Goiás e no Mato Grosso. Segundo a Folha de São Paulo, a entressafra da cana-de-açúcar no Nordeste, que vai de março a setembro, significa desemprego e ameaça de fome para cem mil trabalhadores rurais de Pernambuco e Alagoas. O prefeito de São Luiz do Quitunde, em Alagoas, Cícero Cavalcante, afirma que, durante a entressafra, o desemprego no município é de 80%.32 31 Fornecedores de cana se preparam para expansão do setor. JornalCana, outubro de 2006. www.jornalcana.com.br. 32 Elvira Lobato. Nordeste vê à distância explosão do álcool. Folha de São Paulo, 08/07/07. 32 CANA-DE-AÇÚCAR Em Pernambuco, segundo a Comissão Pastoral da Terra, foram extintos, desde o início dos anos 1990, cerca de 200 mil postos de trabalho. Cerca de 120 mil pessoas, que moravam em sítios nas terras de usinas e de fornecedores de cana, onde plantavam mandioca, milho e frutas para sobrevivência, perderam seus locais de moradia e sua fonte de subsistência.33 Da mesma forma que em São Paulo, os fornecedores independentes de cana foram enfraquecidos pelo processo de concentração da produção pelas grandes usinas. Até o final dos anos 1990, metade da cana moída para a produção de açúcar e álcool no Nordeste vinha de fornecedores independentes. Esta participação, atualmente, é de cerca de 30%, ainda segundo a Folha de São Paulo. Arnoldo Campos, um dos principais gestores do programa do biodiesel no MDA, informa que o ministério está se preparando para entrar no debate do etanol para defender a entrada da agricultura familiar neste mercado. Para ele, a questão é mais complicada do que o programa de biodiesel por conta da logística do etanol, já que a cana é extremamente perecível e não pode ser armazenada como os grãos do biodiesel. “Mas estamos buscando soluções, como pequenos alambiques que poderiam pré-processar a matéria prima”, afirma Campos.34 Na prática, porém, segundo Almir Xavier, dirigente do MST em Pernambuco, a viabilidade da cana na pequena propriedade é mínima. “É uma cultura de manejo muito penoso, que acaba rendendo cerca de R$ 6 mil/ano a um assentado da Zona da Mata pernambucana”, explica. Em alguns casos, acabou se tornando a única opção do assentado, que, por outro lado, chega a passar três meses comendo apenas mandioca. “Ele não dá conta de plantar outras coisas, a cana exige muita dedicação. Isso acaba sendo péssimo para a sua segurança alimentar e nutricional, e para a qualidade de vida em geral”, afirma Xavier. A forte valorização das terras e a prática de arrendamento para a expansão do plantio de cana geram, deste modo, modificações profundas no modo de produção agrícola, na geração de empregos rurais, nos fluxos migratórios, na oferta de alimentos e na disponibilidade de terras para a reforma agrária. O trabalhador da cana-de-açúcar As condições de trabalho no setor do açúcar e do álcool no Brasil são especialmente precárias, mesmo que se tome em consideração apenas aquelas relativas aos trabalhadores rurais brasileiros em sua totalidade. A precariedade dificulta inclusive a 33 Alagoas: sem trabalho durante a entressafra da cana, famílias não têm o que comer. Folha de São Paulo, 08/07/07. 34 Verena Glass. FAO defende etanol mas não tem fórmula de sustentabilidade. Agência Carta Maior, 09/07/07. 33 LENHA NOVA PARA A VELHA FORNALHA – A FEBRE DOS AGROCOMBUSTÍVEIS obtenção de informações sobre o verdadeiro número de trabalhadores no setor. Segundo as fontes utilizadas pelo DIEESE, este número girava, em 2007, entre 780 mil (estimativa da CONTAG) e um milhão de trabalhadores (estimativa da Unica), no cultivo e na colheita da cana-de-açúcar (DIEESE, 2007). Já o IBGE, com base nas Pesquisas Nacionais por Amostra de Domicílios – PNAD – informa que o número de empregos diretos existentes na produção de canade-açúcar em 2005 era de 519 mil, com crescimento de 25% em relação a 2000, enquanto a produção crescia aproximadamente 40%. Em 1992, segundo a mesma fonte, este número era de 647 mil trabalhadores. Estima-se que, atualmente, cerca de 25% das propriedades brasileiras de cana mecanizaram a colheita. O corte mecânico reduz o número de empregados e, igualmente, o poder de barganha dos sindicatos que mobilizavam os trabalhadores através de greves. (DIEESE, 2007) Em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo – sede de quase 30% da produção canavieira do país –, há tratores monitorados por satélite, máquinas de adubagem com controle eletrônico e colheitadeiras de precisão. Ali, a colheita é mecanizada em 50% das propriedades. A macro-região de Ribeirão Preto foi, historicamente, o foco mais acentuado das lutas dos assalariados rurais pela melhoria de suas condições de vida e trabalho. O estado que mais rapidamente introduziu a mecanização no corte de cana foi São Paulo. A mecanização foi uma resposta do setor produtivo à pressão dos trabalhadores assalariados volantes e da sociedade contra a prática da queima de cana para a realização da colheita manual. Em 2007, segundo levantamento do IEA-SP, o índice era de 40,7% do total da área plantada (Fredo et al, 2008). Este índice é de cerca de 39% em Goiás, 18% em Minas Gerais, 31% no Mato Grosso do Sul, 80% no Mato Grosso, 11% no Paraná, 3% no Rio de Janeiro e no Espírito Santo e próximo a zero nos estados do Nordeste (DIEESE, 2007). A mecanização, embora considerada inexorável, faz-se de maneira lenta. O ritmo de introdução do corte mecanizado depende de variáveis como desenvolvimento de novas variedades de cana, disponibilidade de capitais, possibilidade de irrigação e redução da disponibilidade de força de trabalho barata. Nas regiões onde a atividade é manual, o novo ciclo da cana-de-açúcar, marcado pela elevada produtividade, obriga os trabalhadores a colherem diariamente até 15 toneladas de cana. Na média, a exigência de corte por trabalhador passou de 6 toneladas diárias, na década de 1980, para 10 toneladas, atualmente. Segundo Maria Aparecida de Moraes Silva, da UNESP (Universidade Estadual Paulista), este esforço adicional encurta o ciclo de trabalho na atividade, levando os trabalhadores do setor a retroceder a padrões de vida útil de trabalho inferiores àqueles verificados anteriormente à abolição da escravatura. Este tempo, que era de 15 anos nas décadas de 1980 e 1990, passou a ser de 12 anos a partir de 2000. 34 CANA-DE-AÇÚCAR Segundo o historiador Jacob Gorender, o ciclo de vida útil dos escravos na agricultura era de 10 a 12 anos até 1850, antes da proibição do tráfico de escravos.35 O descumprimento das leis trabalhistas e de acordos e convenções coletivas de trabalho marcam as relações de trabalho do setor. Estudo sobre as condições de trabalho em usinas na Paraíba, mencionado pelo DIEESE (2007), concluiu que os trabalhadores sofrem perdas enormes, devido, entre outras práticas, ao rebaixamento da diária; à redução da base salarial convencionada; à elevação da tarefa convencionada por meio da classificação irregular da cana; erros ou fraudes na medição e na conversão e o não pagamento de verbas salariais, como repouso semanal remunerado, férias e 13º salário. “As perdas para os trabalhadores durante uma safra, na Paraíba, são estimadas em 1,92 milhão de salários mínimos não pagos (US$ 877,84 milhões). Para cada dia trabalhado, o trabalhador perde dois. Só em verbas salariais, a estimativa é que a perda chegue a cerca de 60% dos salários. Os erros ou fraudes na medição rebaixam 21% da remuneração. O estudo aponta uma série de ações sindicais para combater a situação: elevar o controle dos trabalhadores sobre sua produção e simplificar os cálculos; formar delegados de base; realizar campanha de fiscalização; fazer denúncias e pressões sobre os órgãos oficiais.” (DIEESE, 2007) Outro estudo, recentemente realizado pela UNESP e mencionado pela Folha de São Paulo, mostra que a expansão da cana está levando para São Paulo um número crescente de trabalhadores de estados da região Nordeste, como o Maranhão e o Piauí. Em 2000, a cana em São Paulo atraiu apenas 100 cortadores do Maranhão. Na safra 2006/07, este número, somente no município de Timbiras-MA, foi de 7.000 trabalhadores. O estudo mostra também relações de causa e efeito entre a expansão da cana no Centro-Sul, a redução da pecuária nesta mesma região e os movimentos migratórios dos trabalhadores rurais. Com a expansão da cana e a valorização das terras no Centro-Sul, a pecuária dessa região está indo para as regiões Norte e Nordeste, inclusive para o Maranhão. Neste estado, a formação de novos pastos ocorre em áreas de babaçu, que dá sustento às famílias da região. Sem essa cultura regional, eles se vêem obrigados, para sobreviver, a se deslocar para o corte da cana em São Paulo. No Piauí, outro estado alvo desta mesma pesquisa, os agricultores familiares são expulsos pelo cultivo da soja, produto que também se deslocou da principal área de expansão da cana, em busca de preços menores da terra. Esta dinâmica do deslocamento de populações, dos cultivos e da pecuária bovina no território brasileiro é analisada mais adiante, no capítulo Síntese e conclusões. 35 Mauro Zafalon. Cortadores de cana têm vida útil de escravo em SP. Folha de São Paulo, 29/04/07. 35 LENHA NOVA PARA A VELHA FORNALHA – A FEBRE DOS AGROCOMBUSTÍVEIS Bibliografia CNA. Agropecuária Brasileira: balanço de 2006 e perspectivas para 2007. Disponível em www.cna.org.br. CARVALHO, H. Impactos econômicos, sociais e ambientais devido à expansão da oferta do etanol no Brasil. Curitiba, julho de 2007. Disponível em www.landaction.org. CONAB. Acompanhamento da safra brasileira. Cana-de-açúcar. Safra 2007/2008. Primeiro Levantamento. Maio de 2007. Brasília, CONAB, 2007. Terceiro Levantamento. Novembro de 2007. DIEESE. Desempenho do setor sucroalcooleiro brasileiro e os trabalhadores. Estudos e Pesquisas, ano 3, n° 3. DIEESE, 2007. EPE. BEN 2008. Balanço Preliminar, informe à imprensa. Maio de 2008. FAO. Food Outlook. Global Market Analysis. Maio de 2008. FREDO, C. et al. Índice de Mecanização na Colheita da Cana-de-Açúcar no Estado de São Paulo e nas Regiões Produtoras Paulistas, Junho de 2007. IEA-SP. Análise e Indicadores do Agronegócio, v. 3, nº 3, março de 2008. GUARANI. Visão geral dos setores de açúcar e etanol. Açúcar Guarani S.A., 2007. Disponível em www.cvm.gov.br/dados/ofeanal/RJ-2007-06441. LASCHEFSKI, K. e ASSIS, W. Mais cana para o bioetanol, mais eucalipto para a biomassa e o carvão vegetal. GT Energia do FBOMS, mimeo, agosto de 2006. MAPA. Balanço nacional da cana-de-açúcar e agro-energia. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Brasília, 2007. MME. Oferta de biocombustíveis líquidos. Ministério das Minas e Energia/EPE, Brasília, 2007. RFA. Ethanol Industry Outlook. Renewable Fuels Association, 2008. Disponível em www.ethanolrfa.org/objects/pdf/outlook/RFA_Outlook_2008.pdf RODRIGUES, D. e ORTIZ, L. Em direção à sustentabilidade da produção de etanol de cana-de-açúcar no Brasil. Amigos da Terra Brasil e Instituto Vitae Civilis. Fevereiro de 2007. Disponível em www.vitaecivilis.org.br. UNICA, 2008. Estatísticas da produção. Disponível em www.portalunica.com.br. VALDES, C. Ethanol demand driving the expansion of Brazil’s sugar industry. USDA, 2007. Disponível em www.ers.usda.gov. 36 2 SOJA E BIODIESEL A FASE produziu em 2006 uma série de estudos sobre a soja, analisando a produção brasileira e global e estudando a expansão do plantio em diversas localidades do Brasil.1 Por isso, limitamo-nos aqui a apresentar os fatos mais recentes sobre o setor, tais como: uma atualização dos dados sobre a produção, consumo e comercialização do complexo soja no Brasil e no mundo; informações sobre a aceleração do processo de concentração de terras, no que diz respeito às áreas de produção da soja no país; e, em particular, os novos fatos decorrentes da crescente utilização de óleos vegetais como combustíveis, no Brasil e em outros países. Produção O Brasil teve uma produção recorde de soja na safra 2006-07: 58,4 milhões de toneladas (Conab, 2008), 6,1% a mais do que no ano anterior. Este volume correspondeu a cerca de 25% da produção mundial, que foi da ordem de 236 milhões de toneladas. Nesta mesma safra, a área plantada no Brasil foi de 20,7 milhões de hectares, cerca de 9% inferior à do ano anterior. O crescimento da produção, em paralelo à redução da área plantada, se explica pelas melhores condições climáticas no último período, sobretudo na região Sul, onde a quantidade produzida teve aumento de 25,7% (Conab, 2008). Para a safra 2007-08, as estimativas da Conab publicadas em maio de 2008 eram de aumento da área plantada: 21,2 milhões de hectares, com expansão de 2,6%. As previsões apontam possibilidade de aumento da área plantada em todas 1 Sergio Schlesinger: O grão que cresceu demais. Maio de 2006. Sergio Schlesinger e Silvia Noronha: O Brasil está nu! O avanço da monocultura da soja, o grão que cresceu demais. Dezembro de 2006. 37 LENHA NOVA PARA A VELHA FORNALHA – A FEBRE DOS AGROCOMBUSTÍVEIS as regiões do Brasil. A maior variação positiva se dará na região Norte (20,4%). Nas regiões Nordeste e Centro-Oeste, a expansão prevista é bem menor, respectivamente, 7,9% e 5,6%. Para as demais regiões, o cálculo é de redução da área: Sudeste (-4,7%) e Sul (-1,3%). Em termos estaduais, Roraima (172,7%) é onde a Conab prevê o maior aumento da área plantada. Na região Norte, encontra-se também a segunda maior expansão do país: 21,9% no Pará. A previsão de Blairo Maggi, maior sojicultor individual do mundo e governador do Estado, é de que a safra do Mato Grosso vai crescer 26% na próxima colheita, somando 20 milhões de toneladas (contra 15,3 milhões em 2007).2 Já a Conab prevê uma produção de 17,7 milhões de toneladas (+15,52%). De toda forma, Mato Grosso, seguirá sendo o estado que mais produz soja no Brasil. Quanto ao volume, é esperada uma produção de 59,5 milhões de toneladas (+1,9%). Ainda segundo a Conab, o crescimento da área plantada e do volume colhido é conseqüência, principalmente, dos bons preços de mercado, negociados em patamares bem mais elevados que em safras anteriores. As estimativas da Conab para a área plantada e para a produção por região são apresentadas na Tabela 1. TABELA 1 Soja: Área plantada e produção na safra 2007/08 Estimativas Região Norte Nordeste Área Mil Var. hectares % Produção Milhões de Var. toneladas % 494,3 20,4 1.415,4 31,1 1.570,1 7,9 4.397,9 13,7 Centro-Oeste 9.615,7 5,6 29.072,5 9,7 Sudeste 1.400,4 (4,7) 3.947,3 (1,5) 8.138,7 (1,3) 20.669,6 (9,9) 21.219,1 2,6 59.502,6 1,9 Sul Total Fonte: Conab. Acompanhamento da safra brasileira de grãos 2007/2008 – Oitavo levantamento – Maio/2008. De fato, em fevereiro de 2008, foi atingido o recorde de US$ 567 a tonelada (US$ 34 por saca de 60 kg) na Bolsa de Chicago. Segundo o Observatório do Agronegócio, baseado em notícia do Correio do Povo, esta é a maior cotação da história do pregão, fundado em 1982.3 2 Brasil conquistará a liderança da soja. SBCTA, fev. 2007. Disponível em www.sbcta.org.br. 3 Observatório do Agronegócio. Valor da soja atinge pico histórico. Disponível em www.observatoriodoagronegocio, 21/02/08. 38 SOJA E BIODIESEL Exportações O volume das exportações do complexo soja em 2007 foi de 38,5 milhões de toneladas, 2,9% menor que o de 2006. A elevação dos preços no mercado internacional, no entanto, fez com que o valor destas exportações aumentasse cerca de 21,6%: US$ 11,323 bilhões, contra US$ 9,308 bilhões em 2006, representando 7,1% do total das exportações do Brasil. A soja continua sendo o principal produto de exportação do agronegócio brasileiro, com 19,5% do total exportado em 2007. Para 2008, a Abiove (Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais) previa, em fevereiro de 2008, um volume de exportações da ordem de 42,4 milhões de toneladas (aumento de 10,1%), com receitas em torno de US$ 16,477 bilhões de dólares (+45,5%).4 TABELA 2 Brasil – Exportações do complexo soja em 2007 2007 Volume (1000 toneladas) Valor (US$/tonelada) Valor (US$ milhões) 23.734 12.474 2.343 38.551 283 237 707 6.709 2.957 1.656 11.323 Soja em Grão Farelo de Soja Óleo de Soja Total Fonte: MAPA (2008) e Abiove. GRÁFICO 1 Participação dos principais setores nas exportações do agronegócio em 2007 Fonte: MAPA (2008) 4 Abiove. Exportações do complexo soja. Disponível em www.abiove.com.br. Acessado em 06/03/08. 39 LENHA NOVA PARA A VELHA FORNALHA – A FEBRE DOS AGROCOMBUSTÍVEIS Segundo previsões feitas pelo Fapri (Food and Agricultural Policy Research Institute, dos Estados Unidos) em 2007, já na safra 2008-2009 as exportações brasileiras de soja ficarão acima das norte-americanas, transformando o País no maior exportador mundial. Ainda segundo esta fonte, a participação brasileira passará de 40% do total exportado de soja para 59,5% em 2016-2017, enquanto os Estados Unidos cairão dos atuais 41,3% para 29,4%. Por outro lado, as projeções de longo prazo divulgadas em janeiro de 2008 pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) indicam que em dez anos as exportações de soja do Brasil serão quase o triplo das vendas americanas. De acordo com o Relatório de Projeções Agrícolas do USDA, as vendas de soja do Brasil deverão passar de 42,4 milhões de toneladas (na atual safra 2007/08, segundo as projeções da Abiove) para 62,9 milhões de toneladas em 2017/18. O volume é maior que o total da atual safra 2007/08. Já as exportações norte-americanas deverão recuar de 26,5 para 22,5 milhões de toneladas no período. De acordo com o governo dos Estados Unidos, a produção de soja do país deverá se estabilizar nos próximos anos, em favor da produção de milho, que deverá crescer. Ao mesmo tempo, haverá maior demanda interna por soja por conta do crescimento da produção de biodiesel. Na Argentina, as exportações deverão atingir 9,1 milhões de toneladas em 2008/09 para depois se estabilizarem em torno de 8,5 milhões. O país é mais voltado à exportação de farelo e óleo de soja do que de grão. Ainda segundo o USDA, a China, maior importador mundial de soja, deverá aumentar suas compras dos atuais 33,5 para 36,2 milhões de toneladas em 2008/09, chegando a 2017/18 com aquisições de 58,3 milhões de toneladas. A União Européia, segundo maior importador, deverá manter suas compras entre 14 e 15,5 milhões de toneladas, no mesmo período. Produção e consumo no mundo Apesar dos Estados Unidos seguirem sendo o maior produtor mundial de soja, as maiores taxas de expansão da produção continuam sendo as do Brasil e Argentina. No ano de 2007 elas foram, respectivamente, de 6,1%% e 16,5%, A produção norteamericana também teve aumento: 4,1%. O consumo de soja na China segue sendo o maior responsável pelo aumento do consumo mundial. Segundo o USDA, além da crescente demanda naquele país, a queda da oferta de rações à base de algodão e peixe impulsionou o consumo de farelo de soja, resultando em aumento de 18,5% do consumo e 9,7% das importações chinesas de grãos de soja em 2006. Sozinha, a China respondeu por 44% das importações mundiais de soja, e por praticamente todo o aumento destas importações.5 5 40 USDA. Oil crops yearbook, summary. Março de 2007. SOJA E BIODIESEL Quanto aos preços mundiais, grão, farelo e óleo de soja sofreram aumentos de 2006 para 2007. Segundo a Abiove, estas elevações foram de 25,4% para os dois primeiros e 41% para o último. Em 2008, no entanto, os preços da soja no mercado internacional alcançaram seu maior nível dos últimos dez anos. No caso do óleo de soja, trata-se de um recorde histórico: US$ 900 a tonelada, em fevereiro de 2008, contra US$ 720, na média de 2007. Quanto ao grão e ao farelo, a expansão da área plantada com milho nos Estados Unidos, em função dos subsídios concedidos pelo governo americano à produção do etanol, vem causando expressiva redução da área plantada com soja naquele país. Esta redução é tida como o principal fator a contribuir para a elevação dos preços internacionais dos produtos do complexo soja. Os preços do óleo de soja contam ainda com outro fator de peso para sua elevação. O interesse mundial pela utilização dos óleos de colza, soja, dendê e outros, também comestíveis, para a produção de biodiesel vem crescendo, em resposta à forte elevação dos preços do petróleo. Particularmente, a União Européia ampliou sua produção e consumo de combustíveis fabricados a partir de sementes oleaginosas. Como resultado, o preço do óleo de colza vem sofrendo sucessivos aumentos desde 2005, e foi fator determinante na elevação dos preços do óleo de soja e outros de origem vegetal. TABELA 3 Soja – Principais produtores de 2002/03 a 2007/08 Milhares de toneladas 2002/03 2003/04 2004/05 2005/06 2006/07 2007/08* EUA 75.010 66.778 85.013 83.368 86.770 70.360 Brasil 52.000 51.000 53.000 55.027 58.376** 61.000 Argentina 35.500 33.000 39.000 40.500 47.200 47.000 China 16.510 15.394 17.400 16.350 15.970 14.300 Índia 4.000 6.800 5.850 6.300 7.690 9.300 Paraguai 4.500 3.911 4.050 3.640 6.200 7.000 Canadá 2.336 2.263 3.042 3.161 3.460 2.700 Outros Total 6.933 7.385 8.391 11.374 11.604 8.190 196.789 186.531 215.746 216.559 237.270 219.850 Fonte: USDA. World Agricultural Production. Janeiro, 2008 * Previsão ** Fonte: Conab (2008) 41 LENHA NOVA PARA A VELHA FORNALHA – A FEBRE DOS AGROCOMBUSTÍVEIS GRÁFICO 2 Distribuição da produção mundial de soja – 2007/08 e 2016/17 Fonte: MAPA/FAPRI e USDA De acordo com estimativas da FAPRI (2007), a produção mundial de soja alcançará 280 milhões de toneladas na safra 2016/17 (mais 27% sobre a safra 2005/06). Esta produção deve tornar-se ainda mais concentrada: Brasil, Estados Unidos e Argentina passarão a responder por 85% da produção mundial. O Brasil responderá por 33% e os Estados Unidos por 30% (ver Gráfico 2). Ainda de acordo com a FAPRI, a área plantada com soja no mundo deve aumentar de 93,4 milhões de hectares em 2006/07 para 106,3 milhões de hectares em 2016/17. O aumento da produção, em toneladas, será da ordem de 60 milhões, em relação a 2006/07. Mais concentração de terras no Mato Grosso A expansão da agricultura no Mato Grosso – maior produtor nacional de soja – vem sendo marcada por um movimento que se acentuou nos últimos três anos de crise no setor: o de concentração crescente da terra nas mãos dos grandes grupos agropecuários, que arrendam áreas pertencentes a produtores de médio porte. A previsão da Associação dos Produtores de Soja de Mato Grosso (Aprosoja) é que isso deverá ocorrer em ritmo acelerado, com contratos de arrendamento de terras por período igual ou superior a dez anos. 42 SOJA E BIODIESEL Segundo Marcelo Duarte, diretor-executivo da Aprosoja, a saída de produtores de médio porte da atividade se deve à sua menor capacidade de suportar as crises provocadas por baixas no preço do produto e pela desvalorização do dólar, agravadas por problemas de logística, como o do transporte. Ele acredita que, apesar do alto nível de endividamento agrícola no estado – próximo de R$ 10 bilhões em 2007 – a área plantada de soja não será reduzida. “Isto porque os grandes grupos agropecuários, que têm vantagens logísticas e de aquisição de insumos, por movimentarem grandes volumes, vão continuar arrendando áreas dos produtores de menor porte, que estão endividados e não vislumbram recuperação diante do atual nível de rentabilidade oferecido pela cultura de grãos”, diz. O produtor de soja e presidente do Sindicato Rural de Primavera do Leste, José Nardes, foi um dos que arrendaram por dez anos duas de suas três terras, cada uma com cerca de 2 mil hectares, para um grande produtor da região. Segundo ele, isso aconteceu com seus vizinhos e com a grande maioria dos produtores de médio porte do município, considerado um dos maiores produtores de grãos do estado. “Além das dívidas contraídas, a renda do produtor caiu pela metade”, lamenta Nardes.6 O Programa Nacional do Biodiesel O Programa Nacional de Produção e Uso do Biodiesel, além de buscar uma alternativa aos combustíveis fósseis, foi lançado com o objetivo de incentivar a agricultura familiar como fornecedora de matérias-primas. O governo lançou um selo social e garantiu desoneração tributária para as usinas que comprarem estas matériasprimas dos pequenos produtores. No aspecto da balança comercial, o programa visa reduzir o dispêndio de divisas com o óleo diesel, que respondia em 2007 por 56% do consumo nacional de combustíveis líquidos. (Vieira, 2007) O consumo interno de óleo diesel no Brasil foi, em 2007 da ordem de 42 bilhões de litros por ano, sendo 80% utilizados em transportes, 16% consumidos pela agricultura e 4% pela indústria e outros setores. Para atendimento da demanda nacional, abastecendo uma frota de 2,3 milhões de caminhões, ônibus e picapes, o Brasil importa de 6% a 8% do diesel consumido internamente – 2,5 a 3,4 bilhões de litros por ano. A mistura de biodiesel na proporção de 2% (B2), obrigatória a partir do início de 2008, requereu a oferta anual de 840 milhões de litros para abastecer o mercado interno (Rodrigues, 2007). A produção necessária à mistura B3 – correspondente a 3% de biodiesel, volume a ser adicionado ao óleo diesel na segunda fase do Programa, a partir de julho de 2008 – é da ordem de 1,68 milhões de litros/ano. 6 Área avança, mas com concentração. Gazeta Mercantil, 15/06/07. Disponível em www.truman.com.br. 43 LENHA NOVA PARA A VELHA FORNALHA – A FEBRE DOS AGROCOMBUSTÍVEIS O Ministério do Desenvolvimento Agrário instituiu e regulamentou a concessão de um certificado, o Selo Combustível Social, que confere ao produtor de biodiesel o reconhecimento das condições requeridas para desfrutar dos incentivos fiscais. Para obter o certificado, o produtor deve adquirir no mínimo 50% de matériasprimas oleaginosas produzidas por agricultores familiares na Região Nordeste e no Semi-Árido, no mínimo 30%, nas Regiões Sul e Sudeste e, no mínimo, 10% nas Regiões Norte e Centro-Oeste. Para obtenção do selo, o produtor de biodiesel deve, assim, celebrar previamente os contratos com os respectivos produtores de matérias-primas. Para assegurar a efetiva presença da agricultura familiar, a regulamentação prevê também a participação contratual de uma organização de trabalhadores rurais, como a CONTAG, a FETRAF ou a ANPA (Bermann, 2007). Com isso, o governo busca zelar pela transparência das informações constantes dos contratos, ao contrário do que sucede em outros segmentos da cadeia produtiva de alimentos, onde prevalece a produção sob o modelo de integração. Segundo o ministro do Desenvolvimento Agrário, Guilherme Cassel, o selo combustível social permitiu a organização das comunidades: “Já temos 540 mil hectares plantados pela agricultura familiar, com 97 mil famílias na produção de biodiesel, das quais mais de 50% no Nordeste. Com os leilões e as metas deste ano (2008), chegaremos a 200 mil famílias. Mas é preciso produzir sementes, garantir crédito, implementos, adaptar o seguro agrícola e dar assistência técnica. O Pronaf (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar) firmou mais de 70 mil contratos, com mais de R$ 100 milhões em financiamentos. Essas pessoas nunca tiveram uma relação formal de trabalho. Trabalhavam como bóias frias. Pela primeira vez, o Estado brasileiro oferece um programa envolvendo organizações sociais e empresas privadas. Isso prende a pessoa na terra.”7 Há isenção ou redução de impostos federais incidentes sobre os combustíveis, variável por região e por categoria de produtor, como ilustra a Tabela 4. Atualmente, o incentivo máximo – redução de 100% dos impostos federais incidentes sobre combustíveis – é conferido à produção de biodiesel fabricado nas regiões Norte, Nordeste e no Semi-Árido, desde que as matérias-primas sejam fornecidas, em ambos os casos, por agricultores familiares. Para estas mesmas regiões, a redução máxima é de 32% dos tributos federais se os agricultores não forem familiares. 7 44 Época Negócios. Entrevista Guilherme Cassel: biodiesel social e econômico. 05/06/ 08. SOJA E BIODIESEL TABELA 4 Tributacão sobre o Biodiesel Tributação Federal sobre o Biodiesel (4 situações) Escalonamento das Alíquotas do PIS e COFINS Biodiesel Coeficiente de Redução R$/m 3 Base Situação 1 Regime Especial Regra Geral 0,000 0,676 0,775 0,896 1,000 R$/m R$/m R$/m R$/m3 Aliq. % 3 Situação 2 Situação 3 Situação 4 Mamona, Agricultura Mamona, Palma Familiar Palma, N/NE N/NE e PRONAF e Semi-árido Semi-árido Agricultura Familiar 3 3 PIS/PASEP 120,14 6,15 38,90 27,03 12,49 0,00 COFlNS 553,19 28,32 179,10 124,47 57,53 0,00 TOTAL (1) 673,33 34,47 218,00* 151,50 70,03 0,00 Legislação Lei 11.116/05 Decreto 5.297/05 DIESEL (CIDE+ PIS/COFINS) 218,00 (1) O Biodiesel não sofre incidência da CIDE * Alíquota Efetiva ~ 13,6% Fonte: disponível em http://www.bndes.gov.br/conhecimento/seminario/Biodiesel_granol.pdf Elaboração: Abiove Obs.: Em maio de 2008, os benefícios fiscais à mamona e à palma adquiridas da agricultura familiar foram estendidos às demais matérias-primas. 8 Apesar disso, nas palavras de Arnoldo de Campos, coordenador do Programa no âmbito do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), “o governo não sabe do que é feito o biodiesel no País”. A Casa Civil informa também que “não existe um acompanhamento sistemático sobre o volume e as matérias-primas usadas na produção de biodiesel”. Segundo a assessoria do ministério, não é objetivo do governo fazer esse controle sobre a produção. Da mesma forma, a assessoria do Ministério das Minas e Energia informa que não produz levantamentos sobre as matériasprimas usadas pelas indústrias de óleo vegetal na mistura do biodiesel.9 O coordenador do Programa no MDA diz que a apuração da origem do biodiesel se torna ainda mais complicada, porque a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) não exige da empresa que vence os leilões e fornece os produtos para a distribuidora a informação detalhada da produção. A ANP apenas vistoria o óleo no final para saber se está dentro das especificações técnicas. 8 Leonardo Goy. Governo amplia desoneração a produtores de biodiesel. Petrobio-Biodiesel, 16/05/08. 9 Jeferson Ribeiro. Governo não sabe do que é feito biodiesel no Brasil. Invertia, 03/05/08. 45 LENHA NOVA PARA A VELHA FORNALHA – A FEBRE DOS AGROCOMBUSTÍVEIS “O que acontece muitas vezes é que a indústria de óleo vegetal faz uma mistura de óleo de soja com outras oleaginosas. Não há controle sobre o processo produtivo”, explica Campos. Para os primeiros anos do programa, foi adotado, para comercialização do biodiesel, o sistema de leilões reversos, promovidos pela Agência Nacional do Petróleo. Até abril de 2008, foram realizados nove leilões, através dos quais a Petrobras adquiriu cerca de um bilhão de litros de biodiesel, que começaram a ser entregues em 2006. Os leilões fixam um preço de referência e as empresas vencedoras são as que oferecem biodiesel ao menor preço. Verificando o resultado deste conjunto de leilões realizados, é possível apenas estimar, a partir do perfil e da localização das empresas fornecedoras, o predomínio do óleo de soja, com uma participação ao redor de 90% em relação ao total negociado. Em segundo lugar vem a mamona, cuja produção encontra-se extremamente concentrada na Bahia, que responderá em 2008 por 78% de sua produção no Brasil. Segundo informação da Conab de fevereiro de 2008, a área plantada teria sido ampliada de 155,6 mil para 170 mil hectares (+14,4%) entre 2006 e 2007, com uma reação eufórica frente ao biodiesel.10 No entanto, face aos preços obtidos nos primeiros leilões, o levantamento do mês seguinte (março) da mesma Conab já previa que a área plantada na Bahia teria aumento de apenas 1,7%, passando para 158,2 mil hectares. Segundo Arnoldo de Campos, do MDA, o perfil das indústrias produtoras de biodiesel que participam dos leilões é variado. Há empresas, geralmente de grande porte, do setor químico e de óleos vegetais, do setor de combustíveis, termelétricas e comercializadoras de gado (como a Bertin). O mercado do biodiesel em 2008 A produção de biodiesel no Brasil em 2007 somou 400 milhões de litros, de acordo com dados da Agência Nacional do Petróleo – ANP. O volume é 480% superior ao registrado em 2006, ou o equivalente a 48% do que o Brasil deve consumir em 2008 misturado ao diesel mineral.11 Por estado, o primeiro lugar ficou com Goiás, com 111 milhões de litros, seguido por Bahia (69 milhões de litros), Ceará (47 milhões de litros), Rio Grande do Sul (43 milhões de litros) e São Paulo (36 milhões de litros). Outros estados com produção significativa são: Piauí (30 milhões de litros), Maranhão (23 milhões de litros) e Tocantins (23 milhões de litros). 10 Patrícia Künzel. Biodiesel tem futuro incerto no Brasil. Gazeta do Povo-PR, 07/05/07. 11 Brasil produziu 399 milhões de litros de biodiesel em 2007. www.biocomb.com.br, 15/02/08. 46 SOJA E BIODIESEL Para Aluísio Sabino, da Casa do Consultor12, “o resultado é que fazer biodiesel hoje dá prejuízo. Estimuladas por amplos incentivos do governo, muitas empresas investiram no setor. Existem 49 usinas aprovadas pela ANP, com uma capacidade instalada de 2,5 bilhões de litros por ano – quase três vezes a cota necessária para suprir o ano de 2008. Outras 47 fábricas aguardam autorização da agência para serem implantadas. Quando todas as usinas estiverem em operação, a capacidade de produção alcançará 3,8 bilhões de litros por ano. “Houve uma explosão no setor que gerou uma febre de competição e acabou jogando os preços lá embaixo”, diz Jorio Dauster, presidente do conselho de administração da Brasil Ecodiesel, a maior empresa do setor, que possui seis usinas. Em leilão promovido pela ANP em novembro de 2007, a Petrobras adquiriu 380 milhões de litros de biodiesel pelo preço médio de R$ 1,86 por litro – embora o preço de referência fosse R$ 2,40. Este valor não cobre sequer o custo de produção, estimado em R$ 2 o litro do combustível feito com óleo de soja, considerado como a versão mais viável economicamente. Por que as empresas se comprometeram a entregar o produto com prejuízo? A explicação é que, uma vez que muitas usinas já estão construídas, há uma ânsia em fechar contratos com a Petrobras e garantir alguma remuneração para o investimento. Afinal, os leilões já realizados pela ANP garantiriam o abastecimento de biodiesel para todo o primeiro semestre de 2008 e não haveria outra grande oportunidade de venda tão cedo. “Não podemos ficar com as fábricas paradas por seis meses”, diz Dauster. Diante do cenário de matéria-prima nas alturas, o setor ficou dividido. “Algumas empresas acharam que era melhor apostar nesse início de programa, mesmo com o preço abaixo do custo. Outras entenderam que não dava para trabalhar no prejuízo”, diz Odacir Klein, ex-ministro dos Transportes e diretor da União Brasileira do Biodiesel (Ubrabio). O grupo Bertin foi um dos que preferiram ficar de fora inicialmente, mas vem participando ativamente em 2008. Quem vendeu o produto nos leilões, porém, lida com uma equação difícil. Por isso, existe a desconfiança de que algumas empresas não irão entregar o biodiesel leiloado, repetindo o que ocorreu ao longo de 2007. Nesse período, quando o mercado operou em fase de teste, apenas 400 milhões de litros, menos da metade do volume vendido, foram entregues. A produção de biodiesel em janeiro de 2008 foi de 51,78 milhões de litros, com déficit de 15 milhões de litros em relação ao consumo. Para suprir essa deficiência, as empresas envolvidas no processo se valeram dos estoques acumulados em 2007.13 12 Biodiesel: bom de marketing, ruim de lucro. www.casadoconsultor.zip.net. 13 Produção de biodiesel fica abaixo do consumo. BiodieselBr.com, 17/03/08. 47 LENHA NOVA PARA A VELHA FORNALHA – A FEBRE DOS AGROCOMBUSTÍVEIS De acordo com as informações divulgadas pela ANP, as empresas Binatural, Fiagril e Oleoplan, que assumiram compromissos de entrega de biodiesel a partir de janeiro de 2008, não informaram produção nos meses de dezembro e janeiro. A ADM e a Bertin também não produziram em dezembro e janeiro. A Biocapital informou produção nos meses de dezembro e janeiro, mas muito abaixo do volume mensal que deverá entregar. A Granol e a Brasil Ecodiesel precisariam aumentar sua produção em cerca de 30% para atender dentro dos prazos os compromissos assumidos nos leilões. A BSBios produziu no mês de janeiro mais que todo o biodiesel vendido nos leilões, a ser entregue até 30 de junho. Considerando a recente autorização para exportar biodiesel, é provável que a empresa, estabelecida em Passo Fundo-RS, tenha encontrado um caminho lucrativo para exportar seu biodiesel. Para diminuir o risco de faltar o produto, a agência reguladora incluiu penalidades para quem não fornecer o prometido, proibindo a participação em futuros leilões. “O objetivo dos primeiros leilões era estimular o mercado a produzir e, portanto, os contratos nem traziam cláusulas punitivas. Agora, não existe mais essa possibilidade”, diz Edson Silva, superintendente de abastecimento da ANP. Quando o programa brasileiro de biodiesel foi concebido, em 2005, o mercado das commodities agrícolas ia mal. Mas, desde então, suas perspectivas mudaram. O aumento de renda na China e na Índia elevou em 6,5% o consumo de óleos vegetais em 2007, e já se prevê novo crescimento da demanda, de 6%, em 2008. Além disso, o avanço dos agrocombustíveis também mexeu com o mercado de óleos vegetais. À medida que o biodiesel ganha peso na matriz energética mundial, sua conexão com o petróleo aumenta. “Isso significa que um preço mais alto do petróleo tem sido traduzido em maiores preços dos óleos vegetais”, diz James Fry, diretor da consultoria inglesa LMC, especializada no mercado de commodities agrícolas. Pressionado pelas empresas, o Conselho Nacional de Política Energética decidiu que a partir de 1º de julho de 2008 o uso de 3% de biodiesel é obrigatório no Brasil. A capacidade instalada excedente, de 1,6 bilhão de litros anuais, já faz o governo estudar também a antecipação, de 2013 para 2010, da meta de 5% de biodiesel. O governo atendeu também reivindicações das indústrias no sentido de introduzir uma série de mudanças nas regras dos leilões, com o objetivo de elevar os preços até então obtidos. Estas reivindicações foram atendidas, resultando em forte aumento dos preços do biodiesel adquirido, no oitavo e nono leilões, realizados em abril de 2008. O preço médio saltou de R$ 1,86, em novembro de 2007, para R$ 2,18, com elevação de 17,2%, em um intervalo de cinco meses. O anúncio destas novas regras contribuiu para estimular a produção de biodiesel em 2008. Em fevereiro a produção brasileira atingiu recorde de produção, com 75,9 milhões de litros produzidos, e no mês de março a produção foi de 61,8 milhões de litros. 48 SOJA E BIODIESEL O destaque produtivo ficou por conta da ADM, que estabeleceu um novo recorde de produção mensal. Sua usina, localizada em Rondonópolis-MT, produziu 11,7 milhões de litros, superando o recorde anterior, da Granol, de Anápolis-GO, de 10,5 milhões de litros, registrado em fevereiro deste mesmo ano (ver Gráfico 3). Os estoques formados pela ANP vêm garantindo, de qualquer forma, a mistura obrigatória, pois a produção de biodiesel no ano é maior que o consumo.14 GRÁFICO 3 Nono leilão de biodiesel: volume arrematado por empresa (abril de 2008) Fonte: ANP. Os preços e as vendas em alta trazem, uma vez mais, otimismo para o setor e algumas empresas anunciam novos investimentos, com base nesta perspectiva para os próximos anos. No segundo semestre de 2008, o setor deve comercializar mais de 660 milhões de litros, tornando o Brasil o terceiro maior produtor de biodiesel do mundo, atrás apenas de Alemanha e EUA. O governo deve ainda estimular o chamado mercado de BX, em que empresas utilizam o biodiesel em frotas próprias, em maiores proporções. A Vale do Rio Doce, por exemplo, mistura 20% de biodiesel ao diesel de suas locomotivas. “Essa pode ser uma nova fronteira para o biodiesel nacional, porque a exportação ainda vai demorar a acontecer”, diz Silva, da ANP. 14 ANP divulga produção de biodiesel em março. BiodieselBR.com, 20/05/08. 49 LENHA NOVA PARA A VELHA FORNALHA – A FEBRE DOS AGROCOMBUSTÍVEIS GRÁFICO 4 Volume total produzido pelas usinas de biodiesel do Brasil em 2008 (em m3) Fonte: www.biodiesel.com.br. Segundo o Ministério do Planejamento, o PAC – Programa de Aceleração do Crescimento, lançado em 2007 pelo Governo Federal, prevê, até 2010, investimentos de R$ 1,2 bilhões em novas usinas de produção de biodiesel, com a entrada em operação de 20 delas em 2007 e 26 em 2008.15 15 Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão. Programa de Aceleração do Crescimento, 2007-2010. Apresentação em Power-Point disponível em www.planejamento.gov.br 50 SOJA E BIODIESEL FIGURA 1 Novas usinas de biodiesel Fonte: Ministério do Planejamento, 2007. As pressões da indústria do biodiesel No que diz respeito aos leilões de compra realizados pela Petrobras, os produtores reivindicam que estes não mais sejam realizados a preços fixos. Em verdade, a intenção destes produtores é a de ter, a cada momento, a liberdade para optar pela venda do óleo de soja nos leilões ou no mercado internacional. O agronegócio da soja quer, assim, reajustes anuais, balizados pelo mercado internacional do óleo de soja. E este é um risco que as distribuidoras de combustíveis, acostumadas com o preço razoavelmente estável do diesel, não querem correr. A reivindicação explica-se, também, pelo fato de que o preço do óleo de soja na bolsa de Chicago já subiu de cerca de US$ 400 por tonelada, em 2005, para US$ 567 em abril de 2008. E esta tendência de alta pode permanecer por mais tempo. O site biodiesel.com.br publicou, em março de 2008, uma comparação entre o preço do barril de petróleo e o do óleo de soja: “Nos primeiros oito meses de 2006 o petróleo ficou na média de 65 dólares por barril enquanto o óleo de soja correspondia a 80 dólares – 23% mais caro que o barril de petróleo. Hoje o petróleo custa U$ 100 o barril e o óleo de soja U$ 238 (valores da Bolsa de Chicago). O óleo de soja vale hoje 138% mais que o petróleo. Nos últimos dezoito meses, enquanto o petróleo subiu 54%, o óleo de soja subiu 198%. Esse aumento é quase três vezes o do petróleo... O que realmente elevou o preço dos óleos vegetais para estes níveis foi a demanda por biodiesel no mundo inteiro, que reduziu todos os estoques disponíveis a níveis mínimos.”16 16 Petróleo X soja. www.biodiesel.com.br, 06/03/08. 51 LENHA NOVA PARA A VELHA FORNALHA – A FEBRE DOS AGROCOMBUSTÍVEIS Com isto, as empresas de processamento têm suas margens de lucro reduzidas ou mesmo anuladas. Segundo Tom Waslander, sócio da Brasilpar, com o preço do biodiesel próximo aos níveis praticados nos leilões, e o custo de óleo de soja a US$ 500/tonelada, o retorno anual é superior a 25%, o que é muito atrativo e explica o grande interesse do setor pelo Programa. Entretanto, mantido o preço do biodiesel, mas comprando óleo de soja a US$ 600/tonelada, a rentabilidade do projeto fica próxima de zero. Estas contas, certamente, contribuem para explicar o fato de que, até o mês de março de 2007, a Soyminas, de Minas Gerais – o primeiro produtor de biodiesel autorizado do país –, dois anos após sua inauguração, não havia cumprido um só contrato de fornecimento. Em 2008, a Soyminas interrompeu a produção de sua planta, localizada em Cássia (MG). A unidade operava com girassol, nabo forrageiro e soja. A empresa anunciou também que deve voltar-se para o mercado externo. “Temos muitos interessados em comprar biodiesel no exterior e o preço que pagam é muito melhor”, diz Valter Egídio, presidente do conselho de administração da companhia. A demanda é grande na Europa, mas tem crescido fortemente também o interesse do Japão pelo combustível, segundo ele. “Pretendemos participar dos próximos leilões, mas o foco vai ser fechar o melhor contrato”.17 Culturas alternativas A elevação do preço do óleo de soja na Bolsa de Chicago faz com que alguns setores do governo acreditem que, em médio prazo, outras culturas poderão substituir, gradativamente, o óleo de soja para a produção do biodiesel. O Ministério do Desenvolvimento Agrário estima que a participação da soja no mercado, hoje de 90%, será de 60% no final de 2008. A mamona virá em seguida, com 25%, e o restante estará dividido entre girassol, dendê e sebo bovino. “A instabilidade da soja está empurrando os produtores para outras culturas”, segundo Arnoldo Campos, Coordenador Geral de Agregação de Valor e Renda do MDA.18 Algumas alternativas, como a mamona e o pinhão manso, estão recebendo grande atenção do MDA. Em médio e longo prazos, estas culturas alternativas podem ser até mais vantajosas que a soja, já que apresentam um maior rendimento de óleo por hectare cultivado, são mais adequadas à agricultura familiar e não competem com aplicações para consumo humano. De toda forma, sejam quais forem as oleaginosas eleitas, o gargalo não se acha na produção. Mesmo que o Brasil dependesse só da soja, ainda haveria certo conforto. Considerando que o país produz 56 milhões de toneladas/ano dessa 17 Patrick Cruz e Mônica Scaramuzzo. Sem estímulo, produtores de biodiesel param as máquinas. www.biodiesel.com.br, 27/02/08. 18 Biodiesel: esse negócio vai emplacar? Disponível em www.biodiesel.com.br, 02/07/07. 52 SOJA E BIODIESEL oleaginosa, o potencial de óleo vegetal seria de cerca de 11 milhões de toneladas/ ano. O volume é cerca de oito vezes a necessidade de biodiesel em 2008. Isso sem contar o sebo bovino produzido no País, que, pelas contas do governo, poderia cobrir sozinho essa meta. As propostas do empresariado da soja para o biodiesel As empresas de processamento e comercialização da soja, através da Abiove 19, defendem a ampla utilização da soja na implementação do Programa Nacional do Biodiesel, argumentando que este responde por cerca de 90% da produção brasileira de óleos vegetais. Afirmam, ao mesmo tempo, que, gradativamente, o óleo de soja poderia ser substituído pelo de outras oleaginosas com maior teor de óleo e produtividade por hectare. São apresentadas (Abiove, 2007) duas possibilidades de utilização do óleo de soja no programa, sem que seja necessário o aumento da área plantada. A primeira delas é redirecionar parte das exportações de soja em grão para o processamento doméstico, gerando volume adicional de óleo de soja para o biodiesel e exportando o farelo de soja, ao invés da soja em grãos. Apresenta como vantagens desta opção: a redução da capacidade ociosa da indústria processadora, manutenção do ingresso de divisas, maior agregação de valor e geração de empregos. A segunda possibilidade seria o redirecionamento de parte do volume exportado de óleo de soja para a produção do biodiesel. As indústrias de esmagamento de óleos vegetais, como se pode ver, têm grande interesse no Programa Nacional do Biodiesel. Em outra publicação da entidade, pode-se constatar que sua capacidade ociosa em 2005 era de cerca de 10 milhões de toneladas, o equivalente a cerca de um quarto de sua capacidade total (Abiove, 2006). Por conta deste interesse, as empresas filiadas à Abiove vêm pressionando o governo a adotar um pacote de medidas fiscais que viabilizem suas aspirações. O lobby da indústria da soja Em maio de 2007, o Jornal do Comércio20 informava que a indústria de processamento de soja estava negociando com o Ministro da Fazenda, Guido Mantega, um pacote tributário destinado a modificar a taxação sobre as exportações do produto, bem como a sistemática de compensação de impostos, além de reduzir a alíquota do imposto incidente sobre o biodiesel da soja. 19 A Abiove – Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais – reúne onze grandes empresas do segmento, responsáveis, em 2006, por mais de 70% do volume de processamento da soja no Brasil. Dentre as maiores empresas do setor, somente a Caramuru Alimentos não é associada à ABIOVE. 20 Indústria da soja negocia pacote tributário. Jornal do Comércio, 03/05/07. 53 LENHA NOVA PARA A VELHA FORNALHA – A FEBRE DOS AGROCOMBUSTÍVEIS Em maio de 2008, exatamente um ano depois, o Ministério das Minas e Energia, através de decreto, determinou a extensão da isenção dos benefícios fiscais aos fabricantes de biodiesel que comprarem qualquer tipo de matéria-prima produzida pela agricultura familiar das regiões Norte e Nordeste e do Semi-Árido. A regra que vigorava anteriormente previa que a isenção só poderia ser aplicada para quem adquirisse mamona ou palma dos agricultores familiares. Segundo Carlo Lovatelli, presidente da Abiove, as medidas fiscais têm por objetivo estimular o processamento da soja no país, reduzindo a proporção de grãos exportados e aumentando a de farelo e óleo: “É uma aberração, mas estamos fazendo um trabalho muito forte em cima disso para ver se a gente muda essa relação; temos de rever com o governo a política tributária, de incentivo às exportações, já que se tributa valor agregado (óleo e farelo) e não se tributa matéria-prima, exatamente o contrário do que os outros fazem”. Outra medida visa agilizar o recebimento, por parte da indústria, dos créditos tributários relativos ao ICMS recolhido sobre o farelo e o óleo de soja. Em relação ao biodiesel, a reivindicação da indústria brasileira é de que o governo conceda isonomia tributária ao combustível feito a partir da soja, já que o produto elaborado com outras matérias-primas, como mamona e palma, tem isenção de impostos. Esta isonomia corresponderia à concessão à indústria da soja dos mesmos benefícios fiscais concedidos à agricultura familiar pelo Programa Nacional do Biodiesel. Para Nivaldo Rubens Trama, presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Biodiesel (ABIOdiesel), o biodiesel surge como opção para suprir uma baixa na demanda por óleo de soja. “Acredito que nos próximos dois anos as grandes esmagadoras migrarão parte de suas atividades para a produção de biodiesel a fim de aumentar o mix de opções na hora de comercializar seus produtos. Além disso, as matérias-primas que possuem grandes escalas, como a soja, serão o principal foco dessas empresas”.21 Outras propostas da Abiove A proposta da Abiove no sentido de aumentar a renda do produtor rural é o “desenvolvimento de mecanismos que levem à diversificação e agregação de valor à produção de grãos. Isto pode ser feito transformando o produtor de grãos (soja e milho), principalmente no Cerrado, em produtor de carnes (aves e suínos) para exportação. Enquanto, historicamente, uma tonelada de soja vale cerca de US$ 230 (e a tonelada de milho US$ 100), uma tonelada de carne de porco vale mais de US$ 1.500. Portanto, a possibilidade de agregar valor à produção de grãos através da produção de carnes para exportação levaria à geração dos recursos necessários para preservar 21 Biodiesel aguça o apetite de três multinacionais européias. Jornal DCI, 08/07/05. 54 SOJA E BIODIESEL o meio ambiente, fazendo a conservação através do uso sustentável”. Tais proposições são apresentadas em sua publicação Produção responsável no agronegócio da soja (Abiove, 2007). Ainda segundo a Abiove, esta seria a melhor maneira de reduzir a pressão sobre novas áreas para a agricultura. Ao mesmo tempo, a produção de carnes no Cerrado viabilizaria as atividades de pequenos e médios produtores em regime de integração com as grandes empresas de processamento de aves e suínos, “com fortes impactos na geração de empregos na região. Assim, seria possível reproduzir no Centro-Oeste o modelo de produção agrícola presente na região Sul do país”. A Abiove argumenta, no mesmo documento, que esta produção de carnes também significaria a redução do ciclo da monocultura da soja naquela região. Isso ocorreria em função do aumento da produção do milho (hoje inviável, segundo a Abiove, em função dos preços do frete para escoar a produção para o sul) para produção de ração animal, especialmente no estado do Mato Grosso. Este rodízio de culturas entre soja e milho, ao reduzir a propagação de pragas como a ferrugem asiática, reduziria igualmente a utilização de agroquímicos. A Abiove defende também o sistema de integração lavoura-pecuária, onde a produção de grãos se daria em áreas degradadas de pastagens, com o objetivo de recuperar a fertilidade do solo e aumentar a produtividade do pasto, num esquema semelhante ao da rotação de culturas: no verão, seriam plantados milho e soja. No inverno, com o pasto recuperado, bois alimentar-se-iam de forrageiras e pastagens. O Ministério da Agricultura também defende esta proposta. Afirma que, nos próximos anos, cerca de 30 milhões de hectares de pastagens com baixa produtividade deverão ser liberados para a agricultura através do sistema de integração lavoura-pecuária. Na verdade, o que se propõe é o mesmo modelo de produção integrada já vigente para a produção de frangos, porcos, fumo, soja e outros produtos agropecuários, através do qual o mencionado valor agregado é apropriado pelas grandes empresas do setor agroindustrial, em prejuízo da agricultura familiar. Para viabilizar tais propostas, a Abiove defende as posições brasileiras nas principais negociações comerciais em que o Brasil está envolvido: a retirada, por parte dos países desenvolvidos, das barreiras tarifárias, dos subsídios e das salvaguardas especiais à produção doméstica de carnes. Argumenta, neste sentido, que “há uma responsabilidade destes países com relação à monocultura da soja no Brasil”. O biodiesel e os movimentos sociais do campo Em abril de 2005, o Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) lançaram a Cooperbio, primeira cooperativa de biodiesel do País, no Rio Grande do Sul. Em agosto de 2006, a Cooperbio já contava com 1.500 associados, mas o plano é chegar a 20 mil. Localizada em 55 LENHA NOVA PARA A VELHA FORNALHA – A FEBRE DOS AGROCOMBUSTÍVEIS Palmeira das Missões, a cooperativa envolve cerca de 25 mil famílias de 62 municípios da região noroeste do estado. Sua capacidade de produção deve alcançar 400 mil litros de combustível por dia.22 Para Romário Rossetto, presidente da cooperativa, a saída para o biodiesel são os multióleos, e não a soja. A Cooperbio prioriza o uso de matérias-primas como a mamona, o pinhão-manso e o girassol. Além de serem naturais e seus plantios não degradarem o meio ambiente, pois não são monoculturas e estão livres de agrotóxicos, elas fornecem mais óleo do que a soja. Do esmagamento da soja se obtém apenas 18% de óleo, enquanto que da mamona, por exemplo, se obtém mais de 50%.23 Outro diferencial da Cooperbio apontado por Rossetto é que o projeto consiste em produzir energia e alimento, fazendo com que o agricultor participe de toda a cadeia produtiva e da venda. “Nós estamos trabalhando aqui a idéia de energia e alimentos, no caso do álcool e do biodiesel. Trabalhar, inclusive, o álcool com a produção de leite. Por exemplo, você pode tratar o bagaço da cana, aumentando a produtividade do leite. Então perfeitamente dá para trabalhar a produção de energia com alimento”, afirma. Para Rossetto, muitas empresas de agrocombustíveis estão sendo criadas apenas para estimular a monocultura de soja do agronegócio. “O capital imobilizado do agronegócio está todo voltado pra soja. Então eles estão tentando salvar seus investimentos”, argumenta.24 Como mencionam Abramovay e Magalhãess (2007), a possibilidade de oferecer aos agricultores familiares novas oportunidades de acesso a mercados, bem como as inéditas possibilidades de fortalecimento político do sindicalismo rural, são as duas hipóteses que explicam o engajamento de sindicatos, principalmente aqueles filiados à CONTAG, no programa. Nos movimentos sociais rurais existem, porém, fortes oposições. Para estes, é inaceitável o atual modelo de relacionamento com as empresas processadoras. Reivindicam, além de mudanças nesta sistemática, que o governo garanta as condições para que os agricultores familiares desenvolvam produção e industrialização próprias. Estes segmentos dos movimentos sociais, da mesma forma, vêm exercendo forte contestação ao selo combustível social. A Fetraf, o MST e o MPA rejeitam o modelo que estimula a integração entre agricultores familiares e grandes empresas privadas. Em 2007, em Curitiba, A Fetraf e o Sindipetro (Sindicato dos Trabalhadores da Petrobrás) lançaram um manifesto contra o selo. (Abramovay e Magalhães, 2007) 22 Suzane Durães. MPA lança primeira cooperativa de biodiesel no País. Abril de 2005. www.mpabrasil.org.br. 23 É importante assinalar que, ao contrário do bagaço da mamona, o da soja tem elevado valor comercial, por ser utilizado como ração animal. 24 Raquel Casiraghi. Biodiesel não depende da soja, diz agricultor. Agência Chasque, agosto de 2006. www.mpabrasil.org.br. 56 SOJA E BIODIESEL Frei Sérgio Antônio Görgen, do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) propõe que as cooperativas fiquem responsáveis por outros estágios da cadeia produtiva e desenvolvam parcerias com empresas públicas. Apesar das críticas, ele considera que “está melhorando” o cenário para a agricultura familiar, com assistência técnica e linhas de crédito específicas – hoje existe o Pronaf Oleaginosas, o Pronaf Biodiesel e o Agroindústria.25 Para Georges Flexor, do Instituto Multidisciplinar da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (IM/UFRRJ), uma das coisas mais positivas da implementação do Programa é a perspectiva de novos cultivos e novas rotas tecnológicas: “O conjunto expressivo de participação de agricultores de forma distribuída pelo território e a redescoberta de matérias-primas como o pinhão manso e o dendê podem ser as grandes contribuições desse modelo”, defende. Ele sublinha que tecnicamente não há impedimentos para que as cooperativas abriguem cada vez mais etapas da cadeia produtiva do setor. “O problema é criar capacidade produtiva e organizativa, para produzir em larga escala e cumprir regras”, observa. A Via Campesina alerta sobre o aumento dramático dos preços dos alimentos. “Há mais de um ano, o trigo dobrou de preço e o milho está quase 50% mais caro do que no ano anterior. Os mecanismos de controle de preços estão sendo desmantelados em todo o mundo, expondo agricultores e consumidores à extrema volatilidade de preços”.26 O diesel H-Bio Em maio de 2006, a Petrobras anunciou a substituição, a partir de 2007, de pelo menos 10% do diesel importado pelo H-Bio, produzido a partir do óleo de soja. O novo diesel seria produzido inicialmente apenas nas refinarias da Petrobras de Minas Gerais e Paraná (Regap e Repar), mas deveria também ser processado em outras três refinarias a partir de 2009. A idéia era utilizar nesta primeira fase do projeto 9,6% do óleo de soja refinado exportado pelo País, percentual que deveria aumentar gradativamente, atingindo 15,5% em 2008-2009. Em agosto de 2007, porém, a Petrobras decidiu suspender a produção de H-Bio por causa da alta do preço do óleo de soja. A empresa explicou na ocasião que, com os preços do óleo de soja então vigentes, não valeria a pena usá-lo no processo de produção do diesel. A principal diferença entre o H-Bio e o biodiesel é que, no caso do biodiesel, o óleo, originado dos grãos de plantas como mamona, girassol, soja ou dendê é adicionado ao diesel nas distribuidoras, após passar por um processo químico em 25 Suspensão de selo, otimismo e críticas caracterizam programa. Jornal Alto Madeira – O Guaporé, 06/02/2008. 26 Crise de Preços e Agricultura Familiar. Via Campesina Internacional. 27/02/2008. 57 LENHA NOVA PARA A VELHA FORNALHA – A FEBRE DOS AGROCOMBUSTÍVEIS uma planta de transesterificação. Já no caso do H-Bio, o óleo vegetal entra no processo de refino do petróleo, juntamente com hidrogênio. O resultado desta mistura é um diesel equivalente ao comum, mas com quantidade reduzida de enxofre e, por isso, menos poluente.27 Em fevereiro de 2008, a Ministra-Chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, declarou que a introdução do biodiesel no Brasil deverá ser mais lenta que o esperado inicialmente. Sobre o H-Bio, afirmou que sua produção vai se dar em função do preço internacional da soja. Ela disse que o H-Bio vai funcionar como se fosse “um flex-fuel”. Quando houver excesso de oferta a Petrobras poderá comprar toda essa soja para fazer H-Bio e equilibrar oferta e demanda. A ministra afirmou ainda que a Petrobras está fazendo estudos para produzir H-Bio de girassol, mamona e pinhão manso. 28 Conclusões A crescente utilização de agrocombustíveis no Brasil e em outros países influenciará de diversas maneiras a produção de soja no país. Ainda que não seja necessário ampliar o plantio para a produção de biodiesel a partir do óleo de soja, outros fatores deverão determinar esta expansão. Atualmente, o fator determinante das expectativas de crescimento acelerado da produção de soja no Brasil e nos demais países da região é a redução da área plantada com esta oleaginosa nos Estados Unidos, maior produtor mundial, justamente em função dos elevados subsídios concedidos pelo governo daquele país à produção do etanol a partir do milho. Deve-se considerar também a existência, no horizonte, da possibilidade de que o biodiesel produzido no Brasil possa, assim como o etanol obtido a partir da cana-de-açúcar, vir a constituir-se em produto de exportação em escala expressiva. Algumas empresas já anunciaram que estão desenvolvendo negociações neste sentido com países da Europa. Quanto ao mercado interno do biodiesel, a continuidade da participação expressiva da soja em prazo mais longo dependerá ainda de diversos fatores. De um lado, o Ministério do Desenvolvimento Agrário trabalha pela diversificação das fontes de suprimento, privilegiando a participação da agricultura familiar no Programa Nacional do Bioiesel. De acordo com o MDA, em fevereiro de 2008, 28 indústrias já possuíam o Selo Combustível Social.29 Essas empresas podem vir a beneficiar, segundo o MDA, mais de 100 mil agricultores familiares. O Ministério avalia que, quando essas indústrias estiverem em 27 Kelly Lima. H-Bio substituirá diesel já em 2007. O Estado de São Paulo, 20/05/06. 28 Eduardo Magossi. Dilma: alta da soja limitará uso de biodiesel. Agência Estado, 16/02/08. 29 Biocamp é a nova empresa com Selo Combustível Social. MDA, 26/02/08, www.mda.gov.br/saf. 58 SOJA E BIODIESEL pleno funcionamento, poderão incluir na cadeia de produção mais de 200 mil famílias de pequenos agricultores. Atualmente, há cerca de 100 mil famílias envolvidas na produção de oleaginosas em todo o País, sendo a metade no Nordeste.30 Mas por outro lado, como vimos, o empresariado da soja apresenta ao governo brasileiro uma longa pauta de reivindicações, com o objetivo de aumentar as margens de lucro das empresas processadoras de óleo de soja. Caso este conjunto de medidas seja de fato implementado, é certo que o óleo de soja prevalecerá como matériaprima para a fabricação do biodiesel por longo tempo. Neste caso, podem-se prever os seguintes problemas: • Continuidade do aumento dos preços do óleo de soja, item importante da cesta básica do brasileiro, à semelhança do ocorrido recentemente com o álcool combustível, em função do aumento expressivo de suas exportações. • Maior controle dos preços dos produtos agrícolas e dos combustíveis pelas empresas transnacionais, a partir de sua vinculação com os preços do petróleo, bem como de seu domínio crescente sobre a cadeia produtiva destes bens. “O cerco se fecha quando se vê a produção de soja quase toda nas mãos das corporações estrangeiras. Há uma superprodução de óleo de soja no Brasil porque o principal produto da soja é exatamente a torta para alimentação animal, quase totalmente exportada para a Europa e USA. O que resta, o óleo, é um subproduto que hoje sobra nas refinarias. O remédio para desaguar esse estoque é impor à Petrobras misturar esse excedente como biodiesel ao diesel comum, o que garante que nosso enorme potencial energético continue nas mãos dos países imperialistas.” 31 30 Inaugurada a maior usina de biodiesel do país. Adital, 30/01/07. www.adital.com.br. 31 A experiência da produção em massa de biodiesel. Entrevista de Artur Augusto Alves, da Soyminas Biodiesel, a José Ricardo Prieto. www.anovademocracia.com.br 59 LENHA NOVA PARA A VELHA FORNALHA – A FEBRE DOS AGROCOMBUSTÍVEIS Bibliografia ABIOVE. Produção responsável no agronegócio da soja. Abril de 2007. Biodiesel no Brasil: a visão da indústria de óleos vegetais. Junho de 2006. ABRAMOVAY, R. e MAGALHÃES, R. O acesso dos agricultores familiares aos mercados de biodiesel: parcerias entre grandes empresas e movimentos sociais. Texto para discussão n° 6. São Paulo. FIPE, junho de 2007. BERMANN, C. (org.). As novas energias no Brasil: dilemas da inclusão social e programas de governo. Rio de Janeiro. FASE, 2007. CONAB. Acompanhamento da safra brasileira de grãos. Safra 2007/2008. Oitavo Levantamento. Maio de 2008. FAPRI. World Agricultural Outlook. Food and Agricultural Policy Research Institute. Disponível em www.fapri.org/outlook2007. MAPA. Balanço nacional da cana-de-açúcar e agro-energia. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Brasília, 2007. Projeções do agronegócio: mundial e Brasil. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Brasília, 2007. Balança Comercial do Agronegócio – 2007. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Brasília, 2008. RODRIGUES, R. Biodiesel no Brasil: diversificação energética e inclusão social com sustentabilidade, in O Futuro da Indústria: Biodiesel. Coletânea de artigos, série Política Industrial, Tecnológica e de Comércio Exterior – n. 14. Brasília, DF. MDIC, 2006. VIEIRA, J. A agroenergia e os novos desafios para a política agrícola no Brasil, in O Futuro da Indústria: Biodiesel. Coletânea de artigos, série Política Industrial, Tecnológica e de Comércio Exterior – n. 14. Brasília, DF. MDIC, 2006. 60 3 PAPEL, CELULOSE E CARVÃO VEGETAL Não faz muito tempo que a madeira deixou de ser a principal fonte primária de energia do Brasil. Somente na década de 1970 ela foi suplantada pelo petróleo, em seguida pela energia hidráulica e, mais recentemente, pelos produtos da canade-açúcar. Em 2007, segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), a lenha e o carvão vegetal responderam por 12,5% das fontes primárias de energia utilizadas no Brasil (EPE, 2008). Nos dias de hoje, ainda é expressivo o volume de energia produzido a partir da madeira. Segundo Brito (2007), 69% da madeira utilizada no Brasil em 2006 teve como destino a produção de energia. Esta madeira é proveniente de plantios de árvores em regime de monocultura e de florestas nativas. O monocultivo de árvores As florestas artificiais ocupam atualmente, no Brasil, a quarta posição em termos de área cultivada, atrás da soja, do milho e da cana-de-açúcar. No ano de 2007, cobriam 5,56 milhões de hectares, com acréscimo de 3,4% em relação a 2006. O Brasil era o sexto país do mundo em áreas plantadas com árvores em 2006, segundo a Bracelpa – Associação Brasileira de Celulose e Papel (ver Tabela 1). O País possui a maior superfície mundial de área plantada com eucalipto. A maior parte das florestas artificiais – cerca de 30% – destina-se à produção de papel e celulose. A utilização de carvão vegetal pelo setor siderúrgico é outro fator que tem estimulado a expansão do plantio, sendo responsável por 22,1% do consumo da madeira daí proveniente. As indústrias de móveis e painéis de madeira reconstituída também utilizam intensamente madeira proveniente de monocultivos de árvores (ver Gráfico 1). 61 LENHA NOVA PARA A VELHA FORNALHA – A FEBRE DOS AGROCOMBUSTÍVEIS TABELA 1 Área de Florestas Artificiais Plantadas no Mundo (mil hectares) Países Área total do país Área de florestas plantadas % Japão 37.780 10.000 26,47 Índia 328.726 32.600 9,92 9.191 800 8,70 China 959.696 45.000 4,69 Indonésia 205.000 9.000 4,39 Portugal Espanha 50.599 1.900 3,76 Chile 75.609 2.200 2,91 EUA 937.261 16.000 1,71 Brasil (2006) 851.488 5.500 0,65 1.700 0,20 Celulose e papel Fonte: FAO/BRACELPA GRÁFICO 1 Consumo de madeira industrial das florestas artificiais por segmento no Brasil em 2007 Fonte: Abraf (2008). 62 PAPEL, CELULOSE E CARVÃO VEGETAL Entre 1997 e 2007, a produção de madeira em tora para fins industriais cresceu 45%, atingindo 152,6 milhões de metros cúbicos em 2007. Segundo a Bracelpa, a produção brasileira de celulose atingiu 11,9 milhões de toneladas, com uma taxa de crescimento anual médio de 7,6%, a partir de 1970; a de papel cresceu à média de 5,8 % no mesmo período, atingindo 9 milhões de toneladas em 2007. Em 2007, as exportações de produtos florestais apresentaram acréscimo de 12,4% em relação a 2006, atingindo US$ 6,1 bilhões (Abraf, 2008). Os estados que possuem as maiores áreas plantadas são, nesta ordem, Minas Gerais, São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Bahia e Rio Grande do Sul. Segundo a Abraf, (Associação Brasileira dos Produtores de Florestas Plantadas), as florestas artificiais de pinus concentram-se nos estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, correspondendo a 79,2% do total de florestas plantadas com pinus no País. O plantio do eucalipto corresponde a 64% da área total de monocultivo de árvores no Brasil, com maior concentração em Minas Gerais, São Paulo e Bahia. Outras espécies, como acácia-negra, gmelina, pópulus, seringueira, teca e araucária, ocupam menos de 1% da área plantada com árvores no Brasil, ou 326 mil hectares. A velocidade do crescimento do eucalipto no Brasil, em função do clima, é a maior razão para sua expansão acelerada no País. Enquanto nos EUA e no Canadá este crescimento consome 70 anos e na Austrália, de onde o eucalipto é originário, demanda 30 anos, no Brasil, requer apenas sete anos. O Anuário Estatístico de 2008 da ABRAF aponta que, em 2007, a cadeia produtiva do setor de florestas artificiais (primário e transformação industrial) foi responsável por cerca de 665,5 mil empregos diretos e 1,8 milhões indiretos. Segundo o Ministério do Planejamento, os plantios existentes no Pará e no Amapá são voltados para a produção de celulose, em especial para o grupo Orsa. Os plantios realizados em Minas Gerais destinam-se tanto para a produção de carvão vegetal, usado em siderúrgicas, como para produção de celulose. Os plantios de São Paulo e dos estados sulinos são para produção de chapas de madeira e de celulose. No Espírito Santo, destinam-se à produção de celulose. E os plantios de Mato Grosso do Sul são utilizados, em sua maioria, por fábricas de celulose em São Paulo e siderúrgicas em Minas Gerais. Geografia da expansão Entre 2000 e 2007, a área plantada com eucalipto e pinus pelas associadas da Abraf cresceu 183%. De acordo com a entidade, a estimativa é de que, em 2020, a área total ocupada por florestas artificiais no Brasil chegue a 7 milhões de hectares. Os segmentos de atividades industriais consumidoras de produtos florestais, assim como o setor exportador, vêm crescendo de forma acelerada no Brasil. Destacam-se a siderurgia a carvão vegetal, papel, celulose e painéis de madeira reconstituída. 63 LENHA NOVA PARA A VELHA FORNALHA – A FEBRE DOS AGROCOMBUSTÍVEIS TABELA 2 Florestas artificiais de eucalipto e pinus no Brasil 2006 e 2007 (em hectares) Estado MG Pinus Eucalipto Total 2006 2007 2006 2007 2006 2007 152.000 144.248 1.083.744 1.105.961 1.235.744 1.250.209 SP 146.474 143.148 816.880 813.372 963.354 956.521 PR 686.453 701.578 121.908 123.070 808.361 824.648 SC 530.992 548.037 70.341 74.008 601.333 622.045 BA 54.820 41.221 540.172 550.127 594.992 591.348 RS 181.378 182.378 184.245 222.245 365.623 404.623 MS 28.500 20.697 119.319 207.687 147.819 228.384 ES 4.408 4.093 207.800 208.819 212.208 212.912 PA 149 101 115.806 126.286 115.955 126.387 106.802 MA 0 0 93.285 106.802 93.285 AP 20.480 9.000 58.473 58.874 78.963 67.874 GO 14.409 13.828 49.637 60.872 64.045 65.107 MT 7 7 46.146 51.279 46.153 57.158 Outros 4.189 0 41.392 57.151 45.582 46.186 TOTAL 1.824.269 3.407.204 3.549.148 3.751.867 5.373.417 5.560.203 Fonte: Abraf, STPC 2007. O setor de papel e celulose é responsável por 72% das áreas plantadas com eucalipto pelas empresas associadas à Abraf, seguido pelo setor siderúrgico, com 22%, e pelo moveleiro, com 5%. Destas áreas de plantio, 75% são de propriedade das indústrias, 10% arrendadas de terceiros e 15% áreas que estas empresas denominam “de fomento”. Trata-se do modelo de produção integrada, utilizado em diversas outras culturas no Brasil, onde as empresas garantem a compra futura da madeira de pequenos e médios produtores rurais. Além da produção destinada ao mercado externo, outros segmentos industriais domésticos vêm puxando esta expansão, ainda segundo a Abraf. O de painéis vem apresentando elevadas taxas de crescimento da produção nos últimos anos e não dá sinais de redução. Estão previstos investimentos em novas plantas nos estados de São Paulo, Minas Gerais, Paraná e Santa Catarina. A expansão das florestas artificiais A Abraf informa em seu anuário de 2008 que, como conseqüência deste aumento da demanda industrial, as empresas a ela associadas planejam investir no setor cerca de R$ 20 bilhões em projetos de expansão, no período 2008-2012. Esta expansão deverá ocorrer principalmente em estados onde a produção já é elevada, como Bahia, Minas Gerais e Paraná, além do Rio Grande do Sul. 64 PAPEL, CELULOSE E CARVÃO VEGETAL Os investimentos em suas unidades industriais, para estes próximos quatro anos, são estimados em R$ 11,9 bilhões. Os relativos ao plantio, em cerca de R$ 4 bilhões. O restante dos R$ 20 bilhões previstos será investido nas atividades de pesquisa e desenvolvimento, construção de estradas, colheita e transporte. Somente no período 2006-2007, os investimentos destas empresas foram da ordem de R$ 11 bilhões. A área adicional do monocultivo florestal realizado no Brasil durante o ano de 2007, segundo estimativa da Abraf, alcançou 600 a 700 mil hectares. As maiores expansões se deram nos estados de Mato Grosso do Sul (80 mil ha), Rio Grande do Sul (40 mil ha), Santa Catarina (21 mil ha) e Minas Gerais (15 mil ha). Do total, 112 mil hectares foram realizados em pequenas propriedades, em alguns casos financiados por programas como o Pronaf Floresta, o Proflora e outros programas públicos estaduais, representando aumento de 38,6% da área plantada nesta modalidade. (Abraf, 2008) O estado de São Paulo é o maior produtor de pastas celulósicas, com cerca de 30% do total do País. Segue-se o Espírito Santo, com 22%. Também na produção de papéis o estado de São Paulo lidera, com cerca de 45% do total. A região Sudeste concentra mais da metade da produção nacional de papéis. As regiões Sul e Sudeste, juntas, são responsáveis por mais de 90% do total produzido. Dentre as novas áreas de expansão, destaca-se o centro-sul do Rio Grande do Sul, onde está prevista a formação de um novo pólo produtor de celulose no País. Em 2007, foram concedidas licenças para projetos florestais que contemplavam em torno de 45 mil hectares. Para alimentar as unidades de celulose que Aracruz, Votorantim Celulose e Papel (VCP) e Stora Enso pretendem instalar no Rio Grande do Sul, essas companhias pretendem realizar plantios em cerca de 380 mil hectares até 2015. O investimento dessas empresas no estado deve chegar a cerca de US$ 4,5 bilhões. Calcula-se que ao fim deste período, a área plantada com florestas artificiais no Rio Grande do Sul pode atingir 900 mil hectares.1 Somados, os projetos das três empresas alcançam cerca de 300 mil hectares a serem tomados pela monocultura do eucalipto no estado, número que corresponde a quase 3% de sua superfície total.2 Novos empreendimentos estão sendo implantados também no Mato Grosso do Sul, com vistas ao atendimento de seu pólo siderúrgico. Na região Nordeste, destaca-se o centro-oeste do estado do Piauí, onde o governo do estado está implementando o Programa de Desenvolvimento Florestal do Vale do Parnaíba. 1 RS: licenciamento pode atingir 70 mil hectares de florestas cultivadas. Jornal do Comércio, 11/04/08. 2 Marco Aurélio Weissheimer. Monocultura do eucalipto tomará quase 3% do território do RS. Carta Maior, 08/12/06. 65 LENHA NOVA PARA A VELHA FORNALHA – A FEBRE DOS AGROCOMBUSTÍVEIS No Rio de Janeiro, o governo estadual sancionou, em julho de 2007, lei que altera o zoneamento ecológico-econômico em vigor até então, o que viabiliza a plantação de eucaliptos em larga escala. A lei reduziu de 30% para 20% o percentual de mata nativa a ser preservada nas grandes propriedades produtoras de eucaliptos. Para áreas inferiores a 50 hectares, este percentual é ainda menor: entre 12 e 15%. Observe-se que, no estado, a área de Mata Atlântica preservada cobre apenas 4,73% de sua superfície. O governo acredita ser possível atrair indústrias de celulose para o Rio de Janeiro, com investimentos de US$ 1 bilhão. TABELA 3 Indústria de papel e celulose no Brasil – principais investimentos – 2007 a 2012 2007 – em operação Localização Produto US$ milhão ES BA BA PR Celulose de mercado Celulose dissolução Celulose de mercado Papelcartão 200 400 1.350 1.090 3.040 Aracruz Bahia Pulp Suzano Klabin Total 2008-2009 – em Implantação Localização Produto US$ milhão MS MS Celulose de mercado Papel p/ imprimir e escrever 1.500 260 1.760 VCP International Paper Total 2010-2012 – em estudo Localização Aracruz* Veracel VCP Cenibra Stora Enso Total RS BA RS MG RS Produto Celulose Celulose Celulose Celulose Celulose de de de de de Mercado mercado mercado mercado mercado US$ milhão 1.800 1.500 1.500 680 1.500 6.980 * Projeto aprovado. Entrada em operação em agosto/2010 Fonte: Bracelpa (2008). Papel e celulose Os Estados Unidos e o Canadá são os maiores produtores mundiais de celulose. Juntos, responderam em 2007 por 40% da produção mundial. Em seguida, nesta ordem, estão a China, Finlândia, Suécia, Brasil e Japão. O mercado mundial de celulose tem como principais países exportadores Canadá, Estados Unidos, Suécia, Brasil, Chile e Finlândia. Juntos, eles controlam 70% das exportações mundiais (Montebello e Bacha, 2007). 66 PAPEL, CELULOSE E CARVÃO VEGETAL A produção brasileira de celulose alcançou, em 2007, 11,9 milhões de toneladas, com um crescimento de 6,6% sobre 2006, e a de papel l9 milhões de toneladas, com expansão de 2,8%. O resultado da produção de celulose em 2007 fez o Brasil assumir recentemente a condição de sexto maior produtor mundial, ultrapassando o Japão, que até 2005 ocupava esta posição (Bracelpa, 2008). TABELA 4 Maiores Produtores Mundiais de Celulose e Papel 2007 (Preliminar) Celulose País 1. EUA 2. Canadá 3. China 4. Finlândia 5. Suécia 6. Brasil 7. Japão 8. Rússia 9. Indonésia 10. Chile 11. Índia Total Mundo Papel mil toneladas 53.215 23.677 18.160 13.066 12.240 11.916 10.884 7.370 5.672 3.550 3.250 192.177 Pais mil toneladas 1. EUA 2. China 3. Japão 4. Alemanha 5. Canadá 6. Finlãndia 7. Suécia 8. Coréia do Sul 9. Itália 10. França 11. Brasil 12. Indonésia 84.073 65.000 31.106 22.655 18.170 14.151 12.066 10.703 10.009 10.006 8.966 8.862 381.551 Fonte: RISI De acordo com a Bracelpa, a produção nacional da fibra deve crescer 8,5%, para 12,8 milhões de toneladas em 2008. Com isso, o País passará a Suécia no ranking dos maiores produtores mundiais de celulose de todos os tipos e subirá da sexta para a quinta posição em termos de capacidade instalada. Em 2009, informa a Bracelpa, o Brasil já terá alcançado a Finlândia, hoje com produção de 13 milhões de toneladas/ano, e vai ser tornar o quarto maior produtor mundial. No segmento de celulose de eucalipto, a brasileira Aracruz segue como a maior empresa produtora mundial desse tipo de fibra.3 Em 2007, as exportações do setor de celulose e papel foram de US$ 4,7 bilhões, contra US$ 4,0 bilhões em 2006, com crescimento de 18%. Para 2008, a previsão é de que este valor seja de US$ 5,3 bilhões, com expansão de 12,1% sobre os resultados de 2007. Tradicionalmente, o principal destino da celulose brasileira é a Europa (54% em 2007). Já no caso do papel, o maior mercado é a América Latina (57%), como mostra o Gráfico a seguir. 3 Stella Fontes. Especial: 2008 deve ser o 4º ano seguido de alta no preço da celulose. Agência Estado, 17/12/07. 67 LENHA NOVA PARA A VELHA FORNALHA – A FEBRE DOS AGROCOMBUSTÍVEIS GRÁFICO 2 Destino das exportações brasileiras em 2007 Fonte: Bracelpa (2008) O setor de papel e celulose vem apresentando altas taxas de crescimento, resultantes de um programa de investimentos em constante aceleração. Segundo a Bracelpa, os volumes de produção e exportação de papel e celulose anteriormente previstos para 2012 foram atingidos já ao final de 2007. No período entre 2008 e 2012, deverão ser realizados investimentos da ordem de US$ 8,7 bilhões. O principal objetivo é atender a demanda crescente por celulose e carvão vegetal, tanto para o mercado interno quanto para o setor exportador. O setor brasileiro de celulose e papel é composto por 220 empresas localizadas em 450 municípios, em 17 estados. Em 2005, apenas cinco grupos respondiam por 73% da produção total da celulose no Brasil. Segundo Montebello e Bacha (2007), essa concentração deve-se, em grande parte, à origem do setor de celulose e papel no Brasil. Desde a sua concepção, o número de empresas participantes do mercado ficou sujeito à política de escala mínima do BNDES. Assim, a indústria de celulose já nasceu oligopolizada. 68 PAPEL, CELULOSE E CARVÃO VEGETAL TABELA 5 Evolução das Exportações de Produtos Florestais Brasileiros US$ milhões Produto 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 Celulose Papel Madeira Serrada1 Painéis Reconstituídos Compensados1 Carvão Outros TOTAL2 1.247 943 229 71 156 2 124 2.771 1.160 894 245 97 211 2 165 2.774 1.744 1.087 255 121 344 2 194 3.747 1.722 1.187 294 161 521 6 335 4.226 2.034 1.371 304 176 510 4 201 4.600 2.484 1.521 275 175 438 3 262 5.158 3.024 2.006 257 146 422 3 250 6.108 Fonte: SECEX, 2007. Adaptado pela STCP 1. Inclui apenas pinus. 2. Total das exportações do setor de Florestas Plantadas. TABELA 6 Maiores empresas de papel e celulose no Brasil – 2006 Empresa Klabin Suzano Votorantim – VCP Aracruz Duratex Ripasa International Paper Cenibra Veracel Santher Valor das vendas (em R$ milhões) 3 307,00 3 190,50 3 032,00 2 364,90 1 880,10 1 738,90 1 144,40 1 090,40 799,10 796,10 Fonte: PortalExame. As cinco maiores empresas brasileiras de produção de celulose são: Aracruz, Votorantim, Klabin, Suzano Bahia Sul e Cenibra. Destaque-se que a Aracruz, a Votorantim e a Suzano Bahia Sul exportaram, em 2006, 96%, 90%, e 76%, respectivamente, de sua produção. Nos últimos 15 anos, a Aracruz tem crescido aproximadamente 11% ao ano. Entre 2007 e 2017, pretende duplicar sua atual capacidade. Presença crescente do capital estrangeiro A participação do capital estrangeiro no setor de papel e celulose é crescente. Somente em 2006, o Banco Central registrou o ingresso de US$ 1,6 bilhões neste segmento. Em 2004, a participação do capital estrangeiro na produção brasileira de pastas celulósicas, representada pela japonesa Cenibra, pela finlandesa Norske Skog e pelas americanas International Paper e Rigesa, foi de 1,753 milhão de toneladas, 18,2% das 9,620 milhões de toneladas produzidas no país. 69 LENHA NOVA PARA A VELHA FORNALHA – A FEBRE DOS AGROCOMBUSTÍVEIS Em 2005, das dez maiores indústrias de celulose do país, quatro já tinham controle acionário estrangeiro. A maior delas, a Cenibra, é 100% japonesa, após o consórcio JBP adquirir a parte que pertencia à Companhia Vale do Rio Doce. A International Paper adquiriu a antiga Champion e hoje é dona dos papéis Chamex, Chamequinho, Chambril e HP. Já a norueguesa Norske Skog Pisa, maior fabricante mundial de papel de imprensa, é dona da única fábrica deste papel no país e produz cerca de um terço do consumo nacional.4 Em 2006, com a entrada em operação da Veracel em sua capacidade total, de 900 mil toneladas anuais, da qual participa a sueco-finlandesa Stora Enso, a parcela do capital estrangeiro na produção de celulose já se situava próxima a 20%: 2,203 milhões, de um total de 11,1 milhões de toneladas (produção brasileira em 2006). No setor de papel, as empresas americanas International Paper, Rigesa, Sonoco e Kimberly-Clark, a franco-americana Schweitzer-Mauduit, as finlandesas Norske Skog, Huhtamaki e Ahlstrom e a franco-inglesa Arjo Wiggins foram responsáveis por uma produção de 1,356 milhão de toneladas de papéis em 2004, o correspondente a 16,0% do total da produção nacional daquele ano, de 8,452 milhões de toneladas. (Valor Econômico, 2006). Florestas artificiais, problemas ambientais Como grande exportadora de papel e celulose, a indústria brasileira sofre pressões dos países importadores, onde a legislação, organizações de consumidores e ambientalistas exigem que sejam cumpridas normas ambientais vigentes em seu território. São exemplos, na década de 1990, as exigências relativas à adoção de práticas sustentáveis de manejo florestal e a extinção do uso de cloro elementar no processo de branqueamento. Segundo Laschefski e Assis (2006), o consumo elevado de água na produção de papel e celulose representa um dos impactos mais contundentes do setor, que utiliza em média 57 m³ de água para produzir uma tonelada de pasta celulósica. Assim, para atingir o montante transformado em 2005, foram gastos aproximadamente 577.191.063 m³ de água. Considerando que o padrão médio de consumo das residências e estabelecimentos comerciais do estado de São Paulo é da ordem de 168 m³/ano, o volume gasto pelas empresas produtoras de celulose seria suficiente para abastecer mais de 3 milhões e 400 mil domicílios, ou cerca de 11 milhões e 900 mil pessoas, em um mesmo período de tempo. Problemas com a água estão presentes também nas áreas de cultivo, juntamente com outros impactos ambientais, característicos das atividades fundadas na grande monocultura. O volume de água disponível tende a diminuir, em decorrência do alto consumo característico de espécies como as do eucalipto, durante a fase de crescimento. 4 70 Lia Hama. O avanço dos estrangeiros. Portal Exame, 11/08/05. PAPEL, CELULOSE E CARVÃO VEGETAL “Além disso, em decorrência dos ciclos acelerados de crescimento dos plantios – entre 5 e 7 anos –, estabelece-se um regime de águas profundamente alterado em comparação com as condições naturais. Alguns moradores entrevistados em 2004 nos municípios de Curvelo e Felixlândia confirmaram a disponibilidade súbita de muita água após o corte raso de plantios próximos às veredas. Porém, em função das altas cargas de sólidos em suspensão e de agroquímicos oriundos dos solos descobertos nas áreas desmatadas, a água era inadequada para o uso doméstico. Assim, pode-se constatar que as plantações de eucalipto causam alterações significativas, incluindo áreas além dos seus limites.” (Laschefski e Assis, 2006) As plantações de eucalipto e pinus, desenvolvidas em grandes áreas de monocultivo, são altamente dependentes de agroquímicos. Como em qualquer outra monocultura, a contaminação dos solos e da água superficial e subterrânea não pode ser evitada, mesmo quando os produtos químicos são aplicados de forma controlada. A produção de papel e celulose gera também impactos indiretos, destacando-se o elevado consumo de energia. Segundo Célio Bermann (2004), o setor de papel e celulose foi responsável, no ano 2000, por 8% do consumo industrial e 3,5% do consumo total de energia do país. Carvão vegetal Os últimos dados divulgados pelo IBGE sobre a produção brasileira de carvão e lenha, em dezembro de 2007, dizem respeito ao ano de 2006. Neste, a produção de carvão da silvicultura aumentou 3,3%, alcançando 2,6 milhões de toneladas. O carvão oriundo do extrativismo apresentou declínio de 15,7% (2,5 milhões de t), revertendo a tendência de crescimento observada desde 1998. No total, a produção de carvão vegetal somou 5,1 milhões de toneladas, 6,9% menor que a de 2005. (IBGE, 2007) Em 2006, os principais estados produtores de carvão vegetal de florestas artificiais foram Minas Gerais (75,7%), Maranhão (9,8%), Bahia (3,1%), São Paulo (2,9%), e Mato Grosso do Sul (2,8%). Buritizeiro, em Minas Gerais, com 446,8 mil t, respondeu por 8,7% do total produzido no país. Para o carvão vegetal obtido com material lenhoso da extração vegetal, Mato Grosso do Sul (24,0%), Maranhão (19,0%), Bahia (14,5%), Goiás (11,4%), Minas Gerais (10,5%) e Pará (8,6%) são os maiores produtores nacionais. Foram produzidos 36 milhões de m³ de lenha de florestas artificiais e 45,2 36 milhões de m³ de lenha oriunda do extrativismo vegetal. No total, 81,2 milhões de m³ de lenha, ou 0,4% a mais que em 2005. Para lenha de florestas artificiais, os principais estados produtores foram o Rio Grande do Sul (37,1%), São Paulo (19,9%), Santa Catarina (13,7%), Paraná (13,6%) e Minas Gerais (7,2%). Os maiores municípios produtores de lenha foram os gaúchos Butiá (800 mil m³), Taquari (764 mil m³) e Santa Cruz do Sul (752,8 mil m³). 71 LENHA NOVA PARA A VELHA FORNALHA – A FEBRE DOS AGROCOMBUSTÍVEIS Na produção de lenha do extrativismo, destacaram-se Bahia (24,8%), Ceará (10,2%), Pará (8,6%), Maranhão (7,2%) e Paraná (6,2%). O maior produtor de lenha oriunda do extrativismo vegetal foi o município baiano de Euclides da Cunha (720 mil m³). O Balanço Energético Nacional de 2007 revela também que lenha e carvão vegetal foram responsáveis por cerca de 12,5% do total da oferta doméstica de energia (EPE, 2008). No consumo da madeira para geração de energia, destaca-se, em primeiro lugar, a produção de carvão vegetal para o setor siderúrgico, responsável por cerca de 45% de todo o consumo de carvão vegetal do País. (Brito, 2007) O segundo mais importante consumidor de madeira para energia no Brasil é o setor residencial. Neste, a madeira é usada para cocção de alimentos e, em menor escala, para aquecimento domiciliar. O volume anual de madeira usada para esta finalidade situa-se acima do consumo de madeira para serraria no País. Brito (2007) estima que, atualmente, pelo menos trinta milhões de pessoas dependam da madeira como fonte energética domiciliar no Brasil. O terceiro mais importante consumidor de madeira para energia é o setor industrial, excluída a siderurgia. Destacam-se os segmentos do cimento, químico, alimentos e bebidas, papel e celulose e cerâmicas. A maior demanda situa-se no ramo de alimentos e bebidas e no ramo cerâmico, representando mais de 60% do consumo (Brito, 2007). O setor agrícola é o quarto grande demandador de madeira para energia no País e, apesar da inexistência de um diagnóstico preciso sobre a distribuição desse consumo, acredita-se que a dependência concentra-se na secagem de grãos. De qualquer modo, trata-se de um volume de madeira bastante elevado, superior ao seu consumo para a produção de chapas e similares. Analisamos a seguir, em maior detalhe, a utilização do carvão vegetal pelo setor siderúrgico, já que este é seu maior consumidor, respondendo por cerca de 45% do consumo total de carvão vegetal no Brasil, em 2006. Carvão vegetal para a siderurgia No Brasil, muitas siderúrgicas empregam carvão vegetal, sendo que, para cada tonelada de ferro produzido, são consumidos mais de 600 quilos de carvão vegetal ou, aproximadamente, uma tonelada de árvores. O Instituto Brasileiro de Siderurgia (IBS) anunciou, em maio de 2008, que até o fim de 2015 as empresas do setor deverão investir cerca de US$ 13,2 bilhões, aumentando a capacidade instalada de produção de aço de 41 para 80,6 milhões de toneladas anuais, um crescimento de quase 100%. Estas estimativas baseiam-se principalmente nas expectativas em relação às vendas no mercado interno.5 5 72 Cirilo Junior. Siderúrgicas deverão dobrar capacidade de produção de aço até 2015. Folha Online, 15/05/08. PAPEL, CELULOSE E CARVÃO VEGETAL Os planos de expansão da indústria siderúrgica têm reflexos diretos sobre a produção de carvão vegetal, atualmente utilizado em cerca de um terço da produção de aço no Brasil. Além disso, há o fato de que cerca da metade do carvão vegetal queimado pelas indústrias siderúrgicas é hoje proveniente de matas nativas. Neste cenário, a Abraf estima que, em 2010, o volume adicional de carvão vegetal consumido seria de 34 milhões de metros cúbicos, que correspondem a três quartos da produção atual. “A grande maioria das usinas integradas utiliza o coque como redutor. A produção de ferro-gusa à base de carvão vegetal persiste em escala relevante apenas no Brasil. Na década de 60, o governo brasileiro impôs severas taxas de importação ao coque, o que levou algumas siderúrgicas a fundar empresas para a produção própria de carvão vegetal. A eliminação das restrições à importação de coque mineral a partir do final dos anos 80 desencadeou um processo de redução do uso de carvão vegetal em algumas das siderúrgicas que dependiam desse insumo, como a Belgo-Mineira. Entretanto, importantes siderúrgicas brasileiras, como a Acesita e a V&M Tubes ainda empregam carvão-vegetal, assim como produtores independentes de ferro-gusa.” (Oliveira, 2007) As denúncias e campanhas que vêm sendo desenvolvidas pela sociedade civil brasileira resultaram em duas iniciativas recentes, de grande porte, para que no futuro a siderurgia passe a utilizar apenas o carvão vegetal proveniente de florestas artificiais. (Abraf, 2008) A primeira é do Governo de Minas Gerais, em parceria com a iniciativa privada, que visa ampliar a atual área de florestas artificiais plantadas no estado de 1,2 para 1,8 milhões de hectares, promovendo um incremento de 50% em um período de oito anos. A segunda é a ação das mineradoras e siderúrgicas dos estados do Pará e do Maranhão, que estão investindo e incentivando o plantio de eucaliptos na região do pólo siderúrgico de Carajás, Destaca-se o projeto Vale Florestar Amazônia, da Vale do Rio Doce que, com orçamento de US$ 200 milhões até 2010, pretende promover o plantio de 150 mil hectares de eucalipto em áreas degradadas na região e recuperar 50 mil hectares de mata nativa. Segundo o IBGE (2007), o extrativismo do carvão caiu 15,7% em 2007, relativamente a 2006, revertendo a tendência de crescimento observada desde 1998. O aumento da demanda internacional por ferro e aço, no entanto, tem feito crescer a pressão pelo desmatamento, para obtenção de carvão vegetal. Esta pressão vem sendo exercida, principalmente, sobre a vegetação nativa de Mato Grosso do Sul (Cerrado e Pantanal), Minas Gerais, Piauí e Pará. A lista inclui também carvão vegetal obtido ilegalmente de florestas do Paraguai e da Bolívia. Alfredo Molinas, ministro do Meio Ambiente do Paraguai, afirma que contrabandistas brasileiros são os responsáveis por grande parte da devastação 73 LENHA NOVA PARA A VELHA FORNALHA – A FEBRE DOS AGROCOMBUSTÍVEIS das florestas paraguaias para produzir carvão vegetal. Segundo o ministro, compradores brasileiros oferecem mais pelo carvão vegetal do que o preço pago naquele país, induzindo os camponeses a abandonarem a produção agrícola para se dedicarem à exploração das florestas, mais lucrativa mas, em muitos casos, sem autorização do Serviço Florestal.6 No caso da Bolívia, a siderúrgica MMX, do empresário brasileiro Eike Batista, que está se instalando em Corumbá, teve sua operação proibida naquele país, para evitar o desmatamento. A empresa instalou-se então em Corumbá, e divulgou que havia comprado carvão vegetal proveniente justamente da Bolívia.7 Segundo informação do jornal O Globo de junho de 2008, o Ibama, em operação para combater o uso ilegal de carvão vegetal, aplicou R$ 414 milhões em multas a 60 siderúrgicas de Minas Gerais, Mato Grosso do Sul e Espírito Santo. Outros R$ 70 milhões devem ser pagos pelas carvoarias. Os fiscais identificaram um consumo de 800 mil metros cúbicos de carvão ilegal pelas siderúrgicas dos três estados somente em 2007, o que seria o suficiente para carregar 10 mil caminhões que, enfileirados, ocupariam 200 quilômetros de estrada. A Siderúrgica Alterosa S/A, com sede em Minas Gerais, foi a que recebeu mais autuações, por uso de carvão ilegal no Paraná e no Pará. O segundo lugar ficou com a Siderúrgica Mat Prima Ltda, por irregularidades em cinco estados. A lista também inclui a MMX Metálicos Corumbá Ltda, do empresário Eike Batista, e a Gerdau Aços Longos S/A. 8 Segundo Sonia Hess, professora da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, não existe no Brasil, na prática, sequer uma lei que impeça o uso de matas nativas para a produção de carvão vegetal. O Código Florestal Brasileiro estabelece que as empresas siderúrgicas e outras que consomem carvão vegetal, lenha ou outra matéria-prima vegetal, são obrigadas a manter florestas próprias para exploração racional ou formar, diretamente ou por intermédio de empreendimentos dos quais participem, florestas destinadas ao seu suprimento.9 O problema, afirma a professora Sonia, é que, em seu parágrafo único, o Código permite à autoridade competente fixar, para cada empresa, prazo de 5 a 10 anos para que obtenha esta condição de auto-suficiência. Assim, sem ferir a legislação ainda vigente no Brasil, as indústrias siderúrgicas e outros grandes consumidores podem derrubar árvores nativas por 10 anos, sem serem punidas. 6 Paraguai culpa brasileiros por destruição de florestas. Gazeta Mercantil, 26/10/05. 7 Ato público contra desmatamento no Pantanal e Cerrado. Coalizão Rios Vivos, 08/08/07. www.riosvivos.org.br 8 Bernardo Mello Franco. Ibama multa siderúrgicas e carvoarias em R$ 484 milhões por uso ilegal de carvão. O Globo, 12/06/08. 9 Sonia Hess. Carvão vegetal de matas nativas: é necessário e urgente proibir. Jornal da Ciência, 28/06/07. 74 PAPEL, CELULOSE E CARVÃO VEGETAL TABELA 7 Produção de Ferro Gusa independente a Carvão Vegetal por Estado/Região (t) Ano Minas Gerais % Carajás 1993 4.158.727 86,6 398.354 8,3 245.743 5,1 0 0,0 4.802.824 1994 4.543.995 83,4 623.083 11,5 279.761 5,1 0 0,0 5.446.839 1995 4.118.810 80,0 632.216 12,3 334.269 6,5 60.300 1,2 5.145.595 1996 3.344.009 76,7 694.194 15,9 255.593 5,9 65.592 1,5 4.359.388 1997 3.486.668 73,2 942.632 19,8 250.470 5,3 82.800 1,7 4.762.570 1998 3.407.145 68,7 1.218.483 24,6 242.977 4,9 91.500 1,8 4.960.105 1999 3.664.352 67,8 1.390.543 25,8 252.520 4,7 93.998 1,7 5.401.413 2000 4.039.932 65,7 1.652.000 26,9 372.925 6,1 80.520 1,3 6.145.377 2001 4.005.548 61,5 2.021.500 31,1 387.185 5,9 96.000 1,5 6.510.233 2002 4.043.163 59,8 2.245.000 33,2 375.727 5,6 96.000 1,4 6.759.890 2003 5.193.060 64,1 2.364.500 29,2 450.304 5,5 96.000 1,2 8.103.864 2004 6.302.964 62,5 3.102.750 30,7 499.358 5,0 180.000 1,8 10.085.170 2005 5.797.999 59,3 3.228.287 33,0 505.795 5,2 241.653 2,5 9.773.832 2006 5.353.664 56,5 3.452.400 36,5 376.755 4,0 282.800 3,0 9.455.716 % Espírito Santo % M. Grosso do Sul % TOTAIS Fonte: AMS. As condições de trabalho nas carvoarias No tocante às condições de trabalho, merece destaque a produção de carvão para o abastecimento da siderurgia. Os trabalhadores dos fornos de produção são permanentemente submetidos a condições adversas, como calor, fuligem, fumaça, ruídos, gases e outras. É comum a produção manual do carvão ou a contratação de terceiros para condução dessa atividade, ocasionado graves problemas de saúde, como o câncer por inalação de gases. As relações trabalhistas são, em geral, marcadas pela instabilidade e ausência de garantia dos direitos básicos, como jornada definida, repouso semanal, férias, seguro social e de acidentes e fundo de garantia. (Laschefski e Assis, 2006) Desse modo, na produção de ferro-gusa e aço estão presentes estruturas distintas de organização do trabalho. De um lado, as siderúrgicas certificadas, que obedecem aos padrões internacionais, assegurando-lhes o acesso aos mercados de exportação. De outro, as condições insalubres de trabalho em carvoarias rudimentares, com utilização predatória dos recursos naturais. Denúncias sobre estas condições de trabalho dos carvoeiros, assim como sobre a devastação ambiental característica da atividade, têm imposto a indústrias dos setores mineral e siderúrgico a inclusão de cláusulas sociais e ambientais em 75 LENHA NOVA PARA A VELHA FORNALHA – A FEBRE DOS AGROCOMBUSTÍVEIS contratos de fornecimento. O Governo Federal, através do Ibama e do Ministério do Trabalho, vem também exercendo com maior intensidade atividades de fiscalização, visando reduzir a ilegalidade dominante nestas atividades. A produção de ferro-gusa no Pólo Carajás O Pólo Siderúrgico de Carajás, região que compreende parte dos estados do Pará, Tocantins e Maranhão, é o maior produtor de minério de ferro do mundo. Concentra 14 indústrias siderúrgicas num raio de apenas 150 km, em paralelo à atividade de produção de carvão vegetal, em larga escala, para fins industriais. Segundo Marcelo Carneiro, professor da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), a implantação do Pólo está diretamente relacionada à implementação do Programa Grande Carajás (PGC) e à decisão, do governo federal e dos estados do Pará e Maranhão, de estimular a implantação de usinas de produção de ferro-gusa ao longo da Estrada de Ferro Carajás. A atração de empresas guseiras para a Amazônia Oriental no final dos anos oitenta está também relacionada à concessão de subsídios – do Programa Grande Carajás, da SUDAM e da SUDENE – e à existência de fontes abundantes de material lenhoso para produção de carvão vegetal, no oeste maranhense e no sudoeste paraense.10 Ainda segundo Marcelo Carneiro, a produção guseira de Carajás quase se multiplicou por dez nos últimos anos: passou de 384 mil toneladas em 1995 para 3,45 milhões de toneladas em 2006. Isto faz com que, atualmente, cerca de 11% da produção guseira total e mais de um terço da produção guseira independente (feita por empresas que não possuem aciarias) estejam localizados na Amazônia Oriental, concentrada nos municípios de Açailândia/MA e Marabá/PA. Atualmente, existem 19 altos-fornos nas siderúrgicas paraenses, com capacidade instalada para 2 milhões de toneladas de ferro-gusa por ano. Eles consomem cerca de 4,4 milhões de metros cúbicos anuais de carvão. Como estão programados para entrar em operação outros quatro altos-fornos, a demanda por carvão deverá subir para 5,8 milhões de metros cúbicos anuais. Além disso, outros 2,2 milhões de metros cúbicos de carvão são anualmente enviados para as siderúrgicas maranhenses. Existem ainda outros 25 mil pequenos fornos para a produção do carvão. Destes, 5 mil têm licenciamento precário, com 45 mil trabalhadores na ilegalidade, de acordo com dados do governo do Pará. Para a fabricação do ferro gusa, essas indústrias consomem de 12 a 14 milhões de metros cúbicos de lenha na produção do carvão vegetal. Há ainda na região 11 pólos madeireiros que consomem cerca de 3,3 milhões de metros cúbicos de madeira em toras, além de um ativo pólo de pecuária extensiva e de monocultura da soja. 10 Marcelo Carneiro. A evolução da atividade siderúrgica na Amazônia Oriental e as questões sociais e ambientais a serem enfrentadas. Jornal Pequeno, 15/06/07. www.jornalpequeno.com.br. 76 PAPEL, CELULOSE E CARVÃO VEGETAL Esse conjunto de atividades, principalmente a produção de carvão vegetal, exerce forte pressão sobre os recursos florestais há décadas, colocando a região entre as de maior taxa de desmatamento na Amazônia. Estima-se que 40% da região já tenham sido desmatados.11 Em janeiro de 2006, o Ibama multou siderúrgicas de Carajás, no Pará – com mais de 10 anos de funcionamento –, em mais de R$ 500 milhões e do Mato Grosso do Sul, em mais de R$ 23 milhões, devido ao uso ilegal de carvão proveniente de matas nativas. Em abril de 2007, cerca de 21 mil metros cúbicos de carvão vegetal – o equivalente a 350 caminhões carregados – foram apreendidos pelo Ibama nas dependências das siderúrgicas produtoras de ferro-gusa de Marabá (PA). A ação gerou mais de R$ 150 milhões em multas, relacionadas principalmente à aquisição de carvão sem origem comprovada. No total, oito produtoras de ferro-gusa foram inspecionadas pelo Ibama, das quais cinco tiveram carvão apreendido: Cosipar, Sidenorte, Simara, Sidepar e Usimar. A Cosipar foi também embargada novamente, por operar sem licença ambiental. No mês anterior, a empresa havia sido fechada, mas voltou à ativa depois de obter liminar na Justiça contra a decisão. O Ibama, no entanto, recorreu e conseguiu a suspensão da liminar. Durante a ação, que também fiscalizou carvoarias e serrarias localizadas no Pará, foram apreendidos 2,7 mil metros cúbicos de madeira e embargados 239 fornos, segundo a agência de notícias Repórter Brasil.12 A operação concentrou-se nos municípios de Dom Eliseu, Paragominas, Rondon do Pará e Ulianópolis. Nesses locais é produzida quase a totalidade do carvão vegetal utilizado nas siderúrgicas de Marabá e grande parte do carvão consumido pelas siderúrgicas de ferro-gusa do Maranhão. Outro resultado da operação foi a constatação de que siderúrgicas adquiriram carvão de empresas que fraudaram o sistema de controle de produção florestal. Anualmente, de acordo com levantamento do Ibama, as siderúrgicas do Pólo Carajás consomem aproximadamente sete milhões de metros cúbicos de carvão vegetal – algo que equivaleria a cerca de 100 mil hectares de área desmatada. O Ibama estima que 70 mil hectares seja a área desmatada para carvão sem origem comprovada. Estudos realizados em 2006 pelo historiador Maurílio de Abreu Monteiro, professor do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos da Universidade Federal do Pará (UFPA), mostram que o desmatamento não-autorizado fornece 57,5% da madeira que alimenta os fornos das carvoarias.13 11 Ribamar Ribeiro Junior. Distrito Florestal de Carajás: Engodo do Governo para satisfazer Guseiros e Madeireiros!!!, 17/05/07. www.rIbamarribeirojunior.blogspot.com. 12 André Campos. Carvão irregular gera R$ 150 milhões em multas a siderúrgicas. Repórter Brasil, 24/04/07. 13 Paula Scheidt. Desmatamento ilegal fornece quase 60% da matéria-prima de siderúrgicas. Carbono Brasil, 05/08/07. 77 LENHA NOVA PARA A VELHA FORNALHA – A FEBRE DOS AGROCOMBUSTÍVEIS Segundo Norberto Neves, coordenador da mencionada operação do Ibama, há um cenário generalizado de ilegalidades associadas às carvoarias paraenses – que, além de problemas ambientais, são freqüentemente relacionadas ao emprego de mão-de-obra escrava. Cerca de 80% estão irregulares e a maioria não tem licença de operação. Além disso, ele afirma que, mesmo entre as que têm licença para operar, há carvoarias que possuem mais fornos e um volume de produção maior do que o permitido pelo licenciamento ambiental. Em meados de 2007, a Vale do Rio Doce anunciou que irá interromper o fornecimento de minério de ferro para os produtores de ferro-gusa do Pará e do Maranhão que utilizarem carvão vegetal produzido em áreas que contribuam para o desmatamento da Amazônia. Nos contratos assinados pela empresa para o fornecimento de minério de ferro às siderúrgicas de Carajás, foram acrescentados itens que não só as obrigam a evitar o desmatamento, mas também a estabelecer cláusulas contratuais com os trabalhadores que evitem qualquer situação degradante que lembre a escravidão. Além da pressão da Vale, os produtores de ferro-gusa do Pará enfrentam uma ação por dumping ambiental movida pelos Estados Unidos na Organização Mundial do Comércio (OMC).14 O Distrito Florestal de Carajás Recentemente, o Ministério do Meio Ambiente iniciou estudos para a criação do Distrito Federal de Carajás. O Ministério promoveu também, ao longo de 2007, a realização de seminários e audiências públicas para apresentar e debater o projeto. O Distrito teria entre 25 e 30 milhões de hectares, dos quais 40% atualmente desmatados. As unidades de conservação e as terras indígenas, protegidas por lei, correspondem a 11% da área projetada (7 reservas indígenas e 1,5 milhão de hectares sob tutela da Vale do Rio Doce no entorno de Carajás). Outros 3 milhões de hectares constituem-se em assentamentos (em torno de 400). Para Tasso Azevedo, diretor do Serviço Florestal Brasileiro, “a principal atividade do Distrito Florestal terá de ser o reflorestamento e a recuperação de áreas com espécies e sistemas que permitam abastecer a indústria siderúrgica com uma fonte sustentável de carvão. A idéia é criar uma cadeia de produção que desloque quem hoje trabalha com o desmatamento para produzir carvão, para que essas mesmas pessoas passem a trabalhar com o plantio de florestas para produzir o carvão”.15 A idéia de que a agricultura familiar da região venha a se dedicar ao cultivo de eucaliptos, no entanto, não conta com o apoio dos movimentos sociais e representações sindicais dos trabalhadores rurais. A Fetraf e Fetagri já se manifestaram 14 João Domingos. Regra da Vale protege a Amazônia. O Estado de São Paulo, 22/07/07. 15 Ademir Braz. Distrito Florestal de Carajás: só para alguns. www.forumcarajas.org.br. 78 PAPEL, CELULOSE E CARVÃO VEGETAL contrariamente à idéia nas audiências públicas realizadas. Outros movimentos, como o MST, CPT, Movimento de Mulheres Camponesas, CIMI, Cepasp, Copserviços, SDDH, Fórum Carajás, optaram por não participar das audiências. Os representantes de agricultores assentados também se opõem à idéia de participar do plantio de eucaliptos para a produção do carvão vegetal. Para Edmilson Valentim, secretário-executivo do Fórum Carajás, não há garantias de que as siderúrgicas produzirão carvão de forma legal e sustentável, mais cara do que a exploração de florestas nativas. Além disso, a expansão de cultivos de eucaliptos agravaria a deterioração ambiental e social, expulsando os camponeses de suas terras.16 Do outro lado, os empresários querem modificar a legislação que exige preservar até 80% da mata das propriedades existentes na Amazônia Legal. Ricardo Nascimento, presidente do Sindicato da Indústria da Fundição do Estado do Maranhão, afirma que “as empresas locais só se sustentarão com uma redução para 50%” dessas florestas, porque a região apresenta muitos problemas agrários e desmatamento anterior. As cidades abrangidas pelo Distrito Florestal dependem quase inteiramente da produção de outros estados para obter alimentos como arroz, feijão, batata, farinha de mandioca e hortaliças. Como resultado, muitas das hortaliças comuns na mesa dos brasileiros são inacessíveis à população, em função dos elevados preços cobrados pelo comércio local e da má qualidade dos produtos, em razão do longo tempo decorrido desde a colheita, em regiões distantes. Mato Grosso do Sul A demanda no Mato Grosso do Sul para o consumo de madeira de reflorestamento, contando somente o parque industrial já instalado ou em vias de ativação, como é o caso da maior parte do pólo minero-siderúrgico de Corumbá, é suficiente para consumir quase cinco vezes a produção atual, conforme estimativa da Associação Sul-Matogrossense de Produtores e Consumidores de Florestas Plantadas.17 A produção atual de carvão no estado é de cerca de 2 milhões de metros cúbicos, sendo a maior parte, 1,3 milhão de metros cúbicos, consumida por Minas Gerais. Estes números revelam que, efetivamente, as siderúrgicas já instaladas em Mato Grosso do Sul e Minas Gerais estão promovendo intenso desmatamento das florestas de Mato Grosso do Sul. A siderúrgica Sideruna, por exemplo, inaugurada em abril de 2007 em Campo Grande-MS, utiliza carvão vegetal, com consumo equivalente a mais de mil toneladas ao dia de árvores provenientes de matas nativas. O Ministério Público Estadual 16 Mário Osava. Eucaliptos e siderurgia incendeiam a Amazônia Oriental. Terramerica, 02/08/07. www.tierramerica.info. 17 Sônia Hess. As siderúrgicas e as florestas. O Estado de MS, 24/04/07. 79 LENHA NOVA PARA A VELHA FORNALHA – A FEBRE DOS AGROCOMBUSTÍVEIS promoveu ação judicial para impedir que esta indústria funcionasse da forma predatória prevista. Após dois anos, no entanto, a siderúrgica já se encontrava em pleno funcionamento e o Judiciário ainda não havia formulado parecer sobre o processo. No Pantanal, um pólo mínero-siderúrgico em implantação em Corumbá prevê consumo de mais de dezoito mil toneladas/mês de árvores de florestas nativas do Brasil, Bolívia e Paraguai, convertidas em carvão vegetal. No empreendimento, destaca-se a MMX, siderúrgica em fase de construção, de Eike Batista, megaempresário brasileiro. Em julho de 2007, o Deputado Estadual Amarildo Cruz (PT), de Mato Grosso do Sul, apresentou Projeto de Lei que proíbe a produção, transporte e uso de carvão fabricado com lenha de matas nativas. A proposta também cria um fundo para reflorestamentos, abastecido com recursos de empresas que utilizam carvão mineral, gás natural ou derivados de petróleo como combustíveis.18 GRÁFICO 3 Produção de carvão vegetal utilizando florestas artificiais x florestas nativas – Brasil, 2000-2006 Fonte: AMS 18 Allison Ishy. Deputado apresenta Projeto de Lei que proíbe uso de carvão vegetal de florestas nativas. 02/07/07. www.riosvivos.org.br. 80 PAPEL, CELULOSE E CARVÃO VEGETAL Agricultura familiar Segundo a Bracelpa, ao final de 2007 existiam 305 mil hectares de árvores plantadas em cerca de dez mil pequenas e médias propriedades, através dos chamados programas de fomento florestal, promovidos por suas associadas. (Bracelpa, 2008) Além dos grandes maciços florestais pertencentes à iniciativa privada, o plantio de florestas vem ganhando espaço cada vez maior entre as alternativas de uso para pequenas e médias propriedades rurais, principalmente em função destes programas de fomento florestal, realizados por grandes indústrias de papel e celulose, siderurgia e painéis de madeira. Segundo Mendes (2005), o Programa Nacional de Florestas – PNF é atualmente o principal instrumento político para o setor de florestas plantadas. O Programa estabeleceu como meta para o período 2004-2007 plantar 500 mil hectares de florestas por ano, sendo 200 mil em pequenas e médias propriedades e 300 mil através de programas empresariais. Ainda conforme o autor, a busca por financiamentos florestais vem crescendo de forma significativa no Brasil. Os principais programas de alcance nacional para financiamento de florestas plantadas são: • BRDES-FINEM: para empreendimentos com valores superiores a R$ 10 milhões, com uma carteira de financiamentos de R$ 730 milhões, em 2005. • Propflora: para médios e grandes produtores rurais, com financiamentos de R$ 42,34 milhões (julho de 2004 a agosto de 2005); e • Pronaf Florestal: para pequenos produtores rurais, com financiamentos da ordem de R$ 8,23 milhões (julho de 2004 a agosto de 2005). A participação de pequenos e médios proprietários rurais no plantio de eucalipto e pinus é financiada pelo Banco do Brasil, através do programa BB Florestal, que opera dois destes fundos de recursos públicos, o Propflora e o Pronaf Florestal. O BB Florestal, segundo Mendes (2005), atende desde mini e pequenos produtores rurais da agricultura familiar até a agricultura empresarial, cooperativas, empresas de comercialização, exportadoras e processadoras de produtos florestais. Fomento florestal privado Nestes programas, as empresas fornecem tecnologia, mudas e assistência técnica aos produtores, enquanto estes se comprometem a vender-lhes a produção, reproduzindo os mecanismos praticados no Brasil em outras culturas. Um exemplo é o Programa Poupança Florestal, lançado pela Votorantim (VCP) em novembro de 2004 no Rio Grande do Sul. O programa está direcionado para o cultivo de eucaliptos nas propriedades rurais próximas às áreas de plantio da empresa. Conta com a parceria do Banco ABN AMRO Real, onde se inclui o financiamento com taxas de juros fixas (9% ao ano) e garantia de compra da madeira pela Votorantim. 81 LENHA NOVA PARA A VELHA FORNALHA – A FEBRE DOS AGROCOMBUSTÍVEIS O Programa tem duração de dois ciclos de produção de eucalipto (14 anos) e é similar aos modelos de produção integrada, empregados na soja, no fumo e em outras culturas. O agricultor recebe adiantamentos para financiar o plantio desde o primeiro ano, com preço pré-estabelecido de compra. A Votorantim fornece as mudas de eucalipto e de mata nativa para reflorestamento, além de prestar assistência técnica. Auxiliada pela Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater), a empresa acompanha o produtor rural no cultivo e na manutenção das florestas de eucalipto nos dois primeiros anos. No começo de 2008, havia cerca de 650 produtores gaúchos inscritos no programa, o que corresponde a mais de onze mil hectares do Rio Grande do Sul cultivados sob este sistema. A expectativa é de ampliar a área em pelo menos 7,1 mil hectares por ano e totalizar cerca de 30 mil hectares neste ciclo. De acordo com Mendes (2005), os principais motivos que levam as empresas a adotar este tipo de estratégia são a redução de investimentos na compra de terras, menor custo da madeira, diversificação de fontes de matéria-prima e maior integração com proprietários rurais presentes nas proximidades das empresas. Para os produtores, o fomento florestal é uma alternativa à geração de renda tradicional em suas propriedades, que lhes permite utilizar áreas ociosas ou subutilizadas. Entretanto, uma análise mais detalhada realizada em 2004 pela Silviconsult Engenharia no estudo “Incentivos e Mecanismos Financeiros para o Manejo Florestal Sustentável na Região Sul do Brasil”, descrita por Mendes, mostra que os atuais modelos de fomento apresentam riscos para a sustentabilidade econômica, social e ambiental dos produtores rurais, principalmente dos pequenos, dentre os quais destacamos: • êxodo rural, devido ao interesse de “profissionais liberais” em comprar pequenas e médias propriedades para se beneficiarem do fomento para geração futura de renda, para fins de aposentadoria; • substituição de florestas nativas, normalmente em áreas de reserva legal, por plantações de pinus e eucaliptos, principalmente em pequenas propriedades; • adoção de sistemas de manejo propícios aos objetivos industriais do fomentador e não ao objetivo de melhoria efetiva da renda do produtor rural; • fomento restrito a propriedades que permitam plantios com área superior a 20 hectares, para minimização dos custos de plantio e colheita; • ação governamental como agente facilitador (assistência técnica, distribuição de mudas, outras) atendendo mais aos objetivos do fomentador do que do fomentado; • criar uma oferta muito superior à demanda no médio e longo prazos, tornando a atividade pouco ou nada rentável; 82 PAPEL, CELULOSE E CARVÃO VEGETAL • remuneração inadequada da “mão-de-obra” do produtor rural; • condição “oligopsônica” das indústrias, concentrando o fomento no entorno de suas unidades fabris e não oferecendo alternativas de comercialização ao fomentado; e • preferência dos fomentadores pelas modalidades de arrendamento, parceria, renda antecipada e vendas em detrimento da modalidade de doação. (Mendes, 2005) Para o deputado estadual Frei Sergio Görgen (PT-RS), ao apoiar as grandes papeleiras, o BNDES está financiando a maior anti-reforma agrária do país, principalmente porque no Rio Grande do Sul o setor tem ocupado cada vez mais terras reivindicadas pelos agricultores sem-terra. Já a prática do fomento, afirma o deputado, acaba sendo uma imposição aos pequenos agricultores nas regiões de eucalipto, porque não restam outras opções e o assédio acaba sendo muito grande por parte das empresas. “No início até parece um bom negócio, mas depois de alguns anos o sistema acaba sendo muito desvantajoso por um endividamento progressivo dos agricultores”, explica Frei Sergio. Ele também acredita que este tipo de prática é uma forma de burlar a legislação, que exige a produção de Estudos de Impacto Ambiental para áreas maiores de mil hectares de plantação contínua de eucaliptos. “A fragmentação da produção tem sido um instrumento para evitar a aplicação da lei”, conclui.19 Como mostram Laschefski e Assis (2006), a ocupação de pequenas e médias propriedades, circunvizinhas às áreas de plantios extensivos de grandes empresas, tem acarretado uma reconfiguração dos cultivos agrícolas e uma homogeneização da paisagem. Nesse sentido, a competição com outros produtos agrícolas e as transformações no espaço geográfico podem ser evidenciadas no relatório da Associação Brasileira de Produtores de Florestas Plantadas: “Os resultados econômicos gerados pelas atividades de florestas plantadas e as transformações industriais da madeira têm contribuído para alterar o perfil de algumas regiões do país. Como exemplo, empresas localizadas no estado do Rio Grande do Sul, que historicamente concentra sua atividade econômica em culturas agrícolas anuais, iniciaram um amplo programa de cultivo de eucalipto, como fonte de suprimento para fabricação de celulose e possível fortalecimento da indústria madeireira [...]. Em Minas Gerais [....] em casos localizados, áreas tradicionais de café estão sendo substituídas pelo eucalipto.” 19 Verena Glass. Deserto verde: BNDES financia R$ 619,3 mi para indústria de celulose no ES e RS. Agência Carta Maior, 08/12/06. 83 LENHA NOVA PARA A VELHA FORNALHA – A FEBRE DOS AGROCOMBUSTÍVEIS Os conflitos no Espírito Santo A monocultura do eucalipto no estado do Espírito Santo teve seu início na segunda metade dos anos 1960. Como mostram Daniela Meirelles e Marcelo Calazans (2006), grande parte do cultivo se fez sobre terras pertencentes à União e áreas comunais, tradicionalmente ocupadas por camponeses, indígenas e quilombolas, a maior parte sem registro formal de propriedade. Destaca-se, no estado, a presença da Aracruz Celulose, cuja sede está localizada a 70 km de sua capital, Vitória. Atualmente, a empresa é a maior produtora mundial de celulose branqueada de eucalipto, com capacidade para produzir 3 milhões de toneladas anuais, distribuídas pelas suas unidades de Barra do Riacho (ES) e Guaíba (RS). Um terceiro complexo fabril – a Veracel Celulose – opera no município de Eunápolis, no sul da Bahia, em parceria com a Stora Enso (cada uma com 50% do controle acionário). A Aracruz opera, também no Espírito Santo, um porto privativo especializado, Portocel, através do qual quase toda a produção da empresa é exportada. Desenvolve operações de plantio nos estados do Espírito Santo, Bahia, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, com aproximadamente 279 mil hectares de plantios de eucalipto. Seus maiores acionistas são a Votorantim, a norueguesa Lorentzen, o Grupo Safra (com 28% cada um) e o BNDES, com 12,5%. Em nota distribuída em agosto de 2007, durante o Congresso Nacional Extraordinário dos Jornalistas, o Sindicato dos Jornalistas narra que quilombolas e indígenas estão lutando para retomar terras que a Aracruz Celulose tomou à força, ou comprou a preços vis, em plena ditadura militar, há 40 anos. Dos quilombolas, a empresa tomou a maior parte dos 50 mil hectares que lhes pertenciam. Dos índios, a Aracruz tomou 40 mil hectares, dos quais o governo federal reconhece que 18.070 hectares são terras indígenas. A Aracruz também tomou terras dos pequenos agricultores, além de destruir 50 mil hectares da Mata Atlântica.20 Segundo levantamento da procuradoria da Funai (Fundação Nacional do Índio), nas décadas de 1950 e 1960 o governo do Espírito Santo expropriou as terras que eram ocupadas tradicionalmente pelos povos indígenas. A área foi repassada anos mais tarde à Aracruz, dando início ao plantio de eucaliptos.21 Edelvira Tureta, chefe do posto indígena da Funai no município de Caieiras Velhas, conta que havia núcleos familiares tupiniquins espalhados por toda a extensão da terra agora em poder da Aracruz Celulose. De acordo com dados do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), existiam ao menos 37 aldeamentos tupiniquins na região durante as primeiras quatro décadas do século 20. De todos 20 Ubervalter Coimbra. Jornalistas repudiam manipulação da notícia em favor da Aracruz. Século Diário, 06/08/07. 21 FUNAI diz que Aracruz invadiu área indígena. Gazeta do Povo, 28/08/06. 84 PAPEL, CELULOSE E CARVÃO VEGETAL eles, sobraram apenas quatro, que receberam, ao longo dos anos, grande parte do contingente de desalojados. No município de Aracruz, a questão indígena só passou a ter tratamento oficial em meados dos anos 1970, quando um posto da Funai foi criado e 6,5 mil hectares destinados aos índios do município. Após intensas discussões, no entanto, firmou-se um acordo alternativo com a Aracruz Celulose. Finalizada em 1983, a demarcação continha dois mil hectares a menos que o território originalmente pleiteado. Basicamente, esta incluía a área das aldeias remanescentes, sem espaço físico para a vida indígena tal como era ela em passado não muito distante.22 Na ocasião, os tupiniquins já não eram os únicos indígenas a lutar por terras em Aracruz. Em 1967, chegou ao município – após mais de vinte anos de caminhada – um grupo de algumas dezenas de índios guaranis originários do Paraguai. Passaram pelo Rio Grande do Sul, São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais antes de decidirem instalar-se definitivamente próximos a Caieiras Velhas. No município de Aracruz, uma área de 11.009 hectares, em mãos da Aracruz Celulose, vinha sendo reivindicada desde 1996 pelas comunidades Guarani e Tupiniquim da região. Os pareceres técnicos e antropológicos sobre a ocupação original, elaborados pela Funai, que comprovam o direito constitucional dos indígenas sobre a área, foram publicados no Diário Oficial em março de 2006, tendo sido contestados pela empresa junto ao Ministério da Justiça. No dia 27 de agosto de 2007, o ministro da Justiça, Tarso Genro, finalmente, assinou as portarias que declaram como terra indígena os 18.027 hectares reivindicados pelos dois povos. A região do Sapê do Norte, que engloba os municípios de São Mateus e Conceição da Barra, no norte do Espírito Santo, chegou a ser habitada por cerca de 12 mil famílias quilombolas, ou uma média de 60 mil afrodescendentes, até o final da década de 1960. No entanto, com a chegada da Aracruz Celulose, que se apropriou dessas áreas, este número reduziu-se para 1.200 famílias, que resistem até hoje em pequenas comunidades em meio aos eucaliptos da empresa. Em maio de 2007, o Incra publicou portaria, através da qual é reconhecida uma área de 9,5 mil hectares como território quilombola pertencente à Comunidade de Linharinho. Neste período, 82% desta área estavam ocupados por eucaliptos da Aracruz Celulose. Ainda na mesma região, havia também 48 famílias, vivendo numa área de apenas 147 hectares. A Comunidade de Linharinho foi a primeira a ser reconhecida como território quilombola no Espírito Santo, mas os estudos nas comunidades de São Domingos, São Jorge, Serraria e São Cristóvão já estão sendo concluídos, restando apenas a publicação da portaria pelo Incra. 22 André Campos. Próximos à cidade, índios buscam espaço para retomar velhos hábitos. Repórter Brasil, 30/04/07. 85 LENHA NOVA PARA A VELHA FORNALHA – A FEBRE DOS AGROCOMBUSTÍVEIS Em julho de 2007, cerca de 500 habitantes das comunidades quilombolas do Sapê do Norte ocuparam a área pertencente à Comunidade Quilombola de Linharinho, em Conceição da Barra, com o objetivo de pressionar para que se concretize a demarcação da área reconhecida pelo Incra como território quilombola. A proposta dos quilombolas, com a ocupação, é que se forme um grande acampamento na área, com mutirões de plantio de mudas de Mata Atlântica e árvores frutíferas, bem como construção de casas para as famílias.23 Eucaliptos no sul da Bahia No extremo sul do Estado da Bahia, o plantio de eucaliptos ocupa aproximadamente 700 mil hectares. Destes, a Veracel possui quase 147 mil, dos quais 73 mil são de monocultura de eucalipto. A empresa é também proprietária de uma indústria que produz anualmente 900 mil toneladas de celulose branqueada de eucalipto. Segundo estudo promovido pelo Cepedes – Centro de Estudos e Pesquisas para o Desenvolvimento do Extremo Sul da Bahia, em quinze anos, de 1970 a 1985, a Bahia perdeu 70% de suas matas nativas com a chegada das empresas de papel e celulose. De acordo com estudos recentes do Ministério do Meio Ambiente, o extremo sul da Bahia tem atualmente apenas 4% da Mata Atlântica original, em áreas de reserva. Nesta região, estima-se que mais da metade das terras agricultáveis estejam nas mãos das empresas do setor de papel e celulose. Ainda de acordo com o Cepedes, há na região cerca de 12 mil famílias acampadas nas estradas. A expulsão do campo dos quilombolas, pequenos agricultores e índios gerou um crescimento significativo das favelas e a desagregação de grupos e famílias. A expansão da monocultura do eucalipto na região expulsou dezenas de pequenos produtores e ocupou terras férteis para a agricultura. A cidade de Eunápolis é responsável pelo maior índice do êxodo rural dos últimos anos no país. O estudo mostra que cerca de 60% dos agricultores deixaram a zona rural, sendo que no Brasil o índice médio é de 28%. O aumento do êxodo coincide com a expansão da monocultura da região, que teve início nos anos 1990.24 A partir de estudos realizados nesta região, Claudia Santana e José Luís Caetano apontam que, naquela região, “a introdução da cultura do eucalipto vem trazendo sérios riscos para os recursos hídricos, o solo, a fauna e a flora locais, contribuindo também para a inviabilização da agricultura familiar. Foram ocupadas todas as terras agricultáveis, inclusive aquelas que seriam destinadas à reforma agrária, áreas indígenas e o entorno de unidades de conservação, com importantes reservas de Mata Atlântica.” (Caetano e Santos, 2004) 23 Rede Alerta contra o Deserto Verde. Comunidades quilombolas reocupam território em posse da Aracruz Celulose. 24/07/07. 24 ADITAL. Êxodo na Bahia. 27/10/06. www.adital.com.br. 86 PAPEL, CELULOSE E CARVÃO VEGETAL Da mesma forma que no Espírito Santo, comunidades indígenas como as dos Pataxós e Tupinambás, além de sem-terra e pescadores artesanais, vêm tendo seus modos de vida tradicionais inviabilizados, como resultado dos impactos gerados pela expansão dos monocultivos de eucalipto. No sul da Bahia atuam três das maiores empresas deste segmento: Bahia Sul, Aracruz e Veracel. Na região de Barra do Cahy, Ponto Zero do Descobrimento do Brasil, a Frente de Resistência e Luta Pataxó reivindica cerca de 30 mil hectares hoje cobertos pelo plantio de eucaliptos. Na aldeia Gaxuma, situada na parte leste desta mesma área, os índios informam que a Veracel está destruindo plantas nativas, coqueirais, alterando o relevo e atingindo fontes de água. Em Barra Velha, próxima à praia, os índios, por conta própria, embargaram alguns plantios, mas não conseguem resistir efetivamente aos avanços da Veracel. Em Prado, último município da região a introduzir o eucalipto, repetiu-se o movimento de migração da população original em direção à periferia da zona urbana. 87 LENHA NOVA PARA A VELHA FORNALHA – A FEBRE DOS AGROCOMBUSTÍVEIS Bibliografia ABRAF. Anuário Estatístico, 2008. www.abraf.com.br AMS. Anuário Estatístico, 2007. www.silviminas.com.br. BERMANN, C. Exportação brasileira de produtos intensivos em energia: implicações sociais e ambientais, em Exportando a nossa natureza. Produtos intensivos em energia: implicações sociais e ambientais. Rio de Janeiro. FASE, 2004. BRACELPA. Desempenho do setor em 2006 e projeção para 2007. Bracelpa, maio de 2007. www.Bracelpa.org.br. Setor de Celulose e Papel. São Paulo. Bracelpa, maio de 2008. BRITO, J. O uso energético da madeira. Revista de estudos avançados, n° 21 (59), ESALQ. Piracicaba, 2007. CNA. Agropecuária brasileira: uma visão geral. Junho de 2007. Disponível em www.cna.org.br. DORES, A. et al. 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Soja, cana-de-açúcar, milho e florestas artificiais são os segmentos que deverão apresentar maior aumento de área utilizada na próxima década. A média das projeções para os próximos dez anos indica que as florestas artificiais vão ocupar 15 milhões de hectares – aumento de 150% em 10 anos. A cana-de-açúcar ocupará 10,3 milhões de hectares – 50% a mais que a área atual – e os grãos, 63,8 milhões de hectares – 15,7 milhões de hectares a mais. Segundo a Cogo Consultoria, a nova expansão agrícola vai ocorrer, principalmente, entre o eixo norte de Mato Grosso, Maranhão, Piauí, Tocantins, Pará e o oeste da Bahia.1 As exportações do agronegócio brasileiro também devem atingir um novo recorde em 2008. Entre junho de 2007 e maio de 2008, elas totalizaram a marca histórica de US$ 64 bilhões, 18,3% acima do valor exportado entre junho de 2006 e maio de 2007. Além da elevação dos preços internacionais de uma série de produtos agropecuários exportados pelo Brasil, o volume exportado também cresce, em muitos casos de forma expressiva. A continuidade do aumento do consumo de carnes, sobretudo na Ásia, a elevação dos preços globais dos alimentos e o advento dos agrocombustíveis são os principais fatores de expansão das exportações agropecuárias do Brasil neste período. Observa-se que carnes, soja e os chamados produtos florestais foram os itens que mais impulsionaram este crescimento das exportações. No caso da soja, o principal motivo do aumento da receita com exportações é a elevação dos preços, 1 Segundo consultoria, Brasil será a ‘bola da vez’ do agronegócio mundial. Gazeta Mercantil, 08/09/07. 89 LENHA NOVA PARA A VELHA FORNALHA – A FEBRE DOS AGROCOMBUSTÍVEIS ocasionada pelas projeções de redução da safra norte-americana em quase 15 milhões de toneladas, devido ao aumento da área plantada com milho para a produção de etanol. O aumento do consumo interno de milho nos Estados Unidos e a conseqüente redução das suas exportações vêm também abrindo espaço para o milho brasileiro no mercado internacional. As exportações do produto vêm batendo recordes sucessivos de volume e valor. Entre janeiro e maio de 2008, os embarques totalizaram 2,57 milhões de toneladas, com crescimento de 8,1% sobre igual período de 2007. As vendas externas de etanol e produtos florestais seguem também crescendo em forte ritmo. A OCDE e a FAO prevêem que, até 2016, as exportações brasileiras de carnes deverão responder por quase 30% das exportações mundiais. Estes números demonstram que, ao lado do aumento do consumo mundial de carnes, a utilização crescente de combustíveis produzidos a partir de biomassa tem resultado em um impulso adicional às exportações agropecuárias do Brasil. Em seu último Agricultural Outlook, publicação anual da OCDE e FAO, contendo projeções para o período 2008-2017, estas instituições afirmam que, pela primeira vez, a crescente demanda de produtos agrícolas para a produção de combustíveis deve ocupar o centro das atenções. Estimam que, ao menos em médio prazo, os preços dos produtos agrícolas deverão permanecer acima dos níveis observados historicamente. O estudo prevê também que a produção brasileira de oleaginosas, entre as quais a soja, vai ter um crescimento médio anual de 3,9% nos próximos dez anos. Com isto, o Brasil deverá, até 2009, superar os Estados Unidos como o maior exportador mundial de oleaginosas. Todas estas informações e previsões deixam claro que o panorama do mercado agrícola internacional vai seguir estimulando o aumento da produção agropecuária brasileira voltada para o mercado externo. No mercado interno, as possibilidades de expansão do etanol e do biodiesel também seguirão sendo fatores de estímulo à expansão acelerada da produção. Uma parcela desta expansão produtiva pode certamente ser suprida por aumentos de produtividade. A expansão territorial dos diversos cultivos e da pecuária, no entanto, já é uma realidade. Em alguns estados do Sul e do Sudeste, como o de São Paulo, o crescimento de determinadas culturas se dá necessariamente em detrimento de outras, já que a disponibilidade de áreas apropriadas à atividade agropecuária se encontra em seus limites. Em outras regiões, como o Centro-Oeste, a cana-de-açúcar e o milho se expandem substituindo em parte algumas outras culturas, ou deslocando-as para outras regiões. Em seu conjunto, a produção agropecuária brasileira aponta para a continuidade da quebra sucessiva dos recordes de produção. Os produtos de exportação, como soja, algodão, milho, produtos florestais e carnes, seguem sua trajetória de 90 SÍNTESE E CONCLUSÕES expansão. Os programas de substituição de combustíveis fósseis em diversos países indicam também a ampliação do mercado de agrocombustíveis, do qual o Brasil pretende absorver uma grande fatia. Da mesma forma, o crescimento do consumo mundial de aço e a dependência de importações para a utilização de carvão mineral deverão fazer com que se amplie o consumo de carvão vegetal pela indústria siderúrgica no Brasil. Além disso, observa-se crescente deslocamento da produção de aço dos países desenvolvidos para aqueles em desenvolvimento. Como vimos, no caso do Brasil, as projeções do Instituto Brasileiro de Siderurgia apontam que a capacidade instalada para produção de aço deverá dobrar entre 2008 e 2015. Perspectivas de crescimento do consumo mundial de agrocombustíveis A Agência Internacional de Energia – AIE prevê que, até 2030, o mundo estará consumindo cerca de dez vezes mais agrocombustíveis do que nos dias de hoje. Com isto, a participação dos combustíveis de fontes renováveis no consumo dos veículos de transporte rodoviário, que é atualmente de 1%, passará a ser de 7% em 23 anos. A Agência prevê também que será o etanol, em escala muito superior à do biodiesel, o maior responsável por este salto. A produção brasileira de agrocombustíveis deve crescer mais rapidamente que a de outros países, de 316 mil barris equivalentes de óleo por dia em 2007 para 528 mil barris em 2012, chegando assim a um terço do total mundial.2 Para a OECD e a FAO, o cenário é o mesmo: em 2017, o Brasil responderá por 32% de todo o etanol produzido no mundo, atrás apenas dos EUA (OECD-FAO, 2008). O etanol produzido pelos Estados Unidos a partir do milho permite hoje uma mistura à gasolina inferior a 4%, considerado o consumo de combustíveis automotivos naquele país. A meta dos norte-americanos, reafirmada pelo presidente George W. Bush durante visita ao Brasil, é reduzir o consumo de combustíveis fósseis em 20% até 2017. Isso significa que, nos próximos dez anos, somente nos Estados Unidos, a demanda por etanol pode atingir 132 bilhões de litros por ano. A produção de biodiesel nos Estados Unidos também cresce de forma acelerada, quase toda a partir do óleo de soja, que responde por cerca de 90% do volume. Pesquisas para desenvolver a produção de biodiesel a partir de outras fontes também têm recebido recursos elevados, com destaque para algumas variedades de algas ricas em óleo (Food & Water Network, 2007). Após os Estados Unidos e o Brasil, a Europa é o terceiro maior produtor mundial de etanol, onde se destacam a produção da França, Espanha e Suécia. O etanol europeu é, em sua maior parte, produzido a partir do trigo e, em menor 2 Impacto de biocombustíveis ainda será pequeno. Valor Econômico, 10/07/07. 91 LENHA NOVA PARA A VELHA FORNALHA – A FEBRE DOS AGROCOMBUSTÍVEIS escala, da beterraba. A Europa é o maior produtor mundial de biodiesel, respondendo por mais de 90 por cento da produção global. A Alemanha é o país que apresenta maior produção, baseada principalmente no óleo de colza. França e Itália também já apresentam produção expressiva de biodiesel. No âmbito dos países membros da União Européia, um acordo prevê a meta de substituição de 10 por cento do óleo diesel por biodiesel até o ano de 2020. Atualmente, esta participação é de cerca de 1 por cento. A União Européia está também desenvolvendo um sistema de certificação, que visa assegurar que os agrocombustíveis produzidos internamente ou importados sejam obtidos através de processos sustentáveis, desde a etapa de plantio. Isto pressupõe também que os produtores devem reduzir as emissões de gases promotores do efeito estufa, causadas pela produção, transporte e uso dos combustíveis, em pelo menos dez por cento, entre 2011 e 2020, para viabilizar as metas de redução de emissões da União Européia. A China também já produz etanol em volume significativo, a partir da mandioca e da batata doce, principalmente. Mas diferentemente de outros países, o governo chinês estabeleceu restrições ao desenvolvimento da produção de etanol, em função de seus efeitos nos mercados de alimentos. A China optou por reservar suas áreas propícias à produção de grãos para as culturas alimentares, exclusivamente. A limitada disponibilidade de água no país contribuiu também, decisivamente para isto. Em todo o mundo, os programas de produção de etanol e biodiesel vão ganhando impulso. Por outro lado, é evidente que a maior parte dos países desenvolvidos não possui em seu território os recursos naturais necessários ao atendimento de suas metas de consumo. Nos Estados Unidos, por exemplo, segundo cálculos da AIE, seria necessário destinar 20% da terra arável ao cultivo do milho para que fosse alcançada a fatia de 5,75% de agrocombustíveis no país até 2010. O Japão, que pretende adicionar cinco por cento de etanol à gasolina de seus automóveis até 2010, vem buscando parcerias com o Brasil que assegurem o fornecimento não só de etanol, mas também de biodiesel. Da mesma forma que apoiou, através do Prodecer, a expansão da produção de soja no Centro-Oeste brasileiro, o governo japonês já mobiliza suas agências financeiras para apoiar projetos de produção de etanol e biodiesel no Brasil. O apoio se dará também na construção da infra-estrutura necessária ao escoamento da produção até os portos de exportação. As perspectivas para o Brasil O Brasil tem em seu mercado doméstico enorme potencial de consumo de agrocombustíveis, tanto para o etanol quanto para o biodiesel. O baixo custo de produção do etanol da cana-de-açúcar, em paralelo a aumentos sucessivos dos preços do petróleo, faz prever uma substituição acelerada da gasolina automotiva pelo álcool da cana-de-açúcar. Os atuais motores flexíveis viabilizam esta substituição. 92 SÍNTESE E CONCLUSÕES Esta tendência pode não se confirmar inteiramente, no entanto, já que a perspectiva – estimulada pela atitude do governo brasileiro – é de que o etanol se torne uma commodity no mercado internacional. Com isto, é provável que se dê o atrelamento dos preços do álcool combustível aos do petróleo. Da mesma forma, o forte aumento das exportações do álcool combustível pode tornar escasso o produto no mercado interno, forçando uma alta dos preços domésticos que desestimularia este processo de substituição. As áreas de expansão Ao longo deste estudo, apresentamos informações sobre a expansão mais recente dos cultivos da cana-de-açúcar, da soja e do eucalipto. Consolidamos aqui estes dados, por regiões do país e unidades da federação, de modo a permitir a visualização do efeito conjunto destas expansões sobre o território. Em seguida, agregamos informações sobre outras culturas importantes no Brasil, a fim de avaliar o efeito da expansão dos agrocombustíveis sobre a produção agropecuária brasileira. Cana-de-açúcar Segundo a CONAB, na safra 2007/2008, a área plantada com cana-de-açúcar em todo o país já atingiu 7 milhões de hectares, com expansão de 23%. Em termos territoriais, como vimos, a região Sudeste é, de longe, aquela que deverá responder pela maior extensão de terras. Os estados que mais incorporaram áreas ao cultivo de cana-de-açúcar foram Bahia, Ceará, Mato Grosso do Sul, Paraná e Minas Gerais. A região Sul é aquela que deverá apresentar maior índice de crescimento da produção, com 34%, seguida da região Centro-Oeste (22,1%). Soja As estimativas oficiais sobre a safra de soja no período 2007/2008 foram publicadas pela Conab em outubro de 2007. Elas prevêem crescimento entre 2,4 e 5,7% da área plantada no país, algo entre 500 mil e 1,2 milhões de hectares. Os estados que deverão apresentar maior expansão serão, nesta ordem, Mato Grosso, Bahia, Goiás e Mato Grosso do Sul. Consultorias especializadas apontam que as novas áreas para esta expansão estariam localizadas no Maranhão, Piauí e Tocantins. Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás e Bahia também devem ceder novas terras. Estimam também que o estado do Paraná será responsável por grande parcela do aumento da área plantada, com 1,5 milhões de hectares adicionais, relativamente à safra anterior, enquanto que, para este mesmo Estado, a Conab estima expansão de pouco mais de 100 mil hectares. O crescimento da área plantada com soja no Brasil deve-se, principalmente, ao fato de que, pela primeira vez em 10 anos, a área plantada com soja nos Estados 93 LENHA NOVA PARA A VELHA FORNALHA – A FEBRE DOS AGROCOMBUSTÍVEIS Unidos reduziu-se, de 30,6 milhões para 25,9 milhões de hectares, na safra 2007/08, em função da expansão da área de milho. Com isto, a expectativa é de que o preço internacional da soja deverá seguir em alta também em 2008. Monocultivo de árvores Por razões um tanto óbvias, os monocultivos de árvores não possuem a mesma mobilidade geográfica, em curto espaço de tempo, das demais culturas aqui analisadas. Além disso, sua localização está associada à das indústrias de papel e celulose, siderúrgicas e produtoras de ferro gusa, principalmente. Por isso, é esperado que, em médio prazo, as principais áreas de expansão permaneçam sendo aquelas mesmas que apresentaram crescimento expressivo nos anos recentes. Elas estão localizadas, em ordem de importância, nos estados de Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Bahia e Mato Grosso do Sul. Em menor grau, destacam-se ainda os cultivos em São Paulo, Paraná, Espírito Santo e Amapá. Destaca-se também o fato de que o Rio Grande do Sul tem a previsão de sediar o mais novo pólo de produção de celulose no Brasil. Novos empreendimentos estão sendo implantados também no Mato Grosso do Sul, no Piauí e no Rio de Janeiro. Além disso, a pressão para que o Pólo Siderúrgico de Carajás deixe de destruir florestas nativas para a produção de carvão vegetal faz crer que também no Pará o plantio de eucaliptos deverá seguir em trajetória de expansão. Agrocombustíveis e outras atividades agropecuárias De modo direto ou indireto, a ampliação do uso dos agrocombustíveis está estimulando o crescimento das três culturas até aqui analisadas. No caso da cana-de-açúcar, a relação é direta, ou seja, a maior parte do cultivo adicional é destinada à produção de etanol. No caso das florestas plantadas, a produção de carvão vegetal é apenas um componente a mais do aumento contínuo, em termos mundiais, do consumo de outros subprodutos, como papel, celulose e madeira. Quanto à soja, a utilização de seu óleo como combustível não requer, atualmente, a ampliação do cultivo. Mas alguns fatores decorrentes da utilização crescente dos agrocombustíveis em todo o mundo contribuem para a forte expansão do cultivo de soja no Brasil que se dá atualmente. A redução da área plantada com soja nos Estados Unidos, seu maior produtor mundial, decorre justamente de sua substituição pela cultura do milho destinada à produção de etanol. Pelas mesmas razões, a produção de milho no Brasil também vem crescendo de forma acelerada e disputando espaço com outras culturas. A utilização, em diversos países, de óleos vegetais em geral como combustíveis também pressiona a procura pelo óleo de soja, em substituição aos demais. Este conjunto de fatores vem fazendo disparar o preço do óleo de soja, estimulando o aumento da produção do grão no Brasil. 94 SÍNTESE E CONCLUSÕES Substituição de culturas Afinal, os agrocombustíveis estão ou não substituindo culturas alimentares? Buscamos agora respostas a esta pergunta, analisando os dados sobre as culturas em alguns estados onde ocupam parcelas expressivas da produção. Algumas conclusões são possíveis, apesar da insuficiência dos dados existentes, sobretudo no que diz respeito à produção pecuária brasileira. Os últimos dados oficiais, do IBGE, são relativos ao ano de 2005. Em abril de 2008, a Conab, através da publicação Perfi-l do Setor do Açúcar e do Álcool no Brasil, revelou dados de uma pesquisa pioneira sobre a área das lavouras erradicadas em decorrência da expansão dos canaviais. A publicação revela que, na safra 2007/08, na região Centro-Sul, onde a expansão ocorre com grande força, os novos canaviais ocuparam áreas de diversas lavouras pré-existentes, embora a maior parte delas (64,7%) refira-se a áreas antes dedicadas à pastagem de bovinos. TABELA 1 Participação das lavouras no total da expansão Estado/Região Lavoura substituida na expansão da safra 2007/08 (participação percentual) Milho Soja Café Laranja Pasto Áreas novas São Paulo Paraná Minas Gerais Mato Grosso do Sul Goiás Mato Grosso Rio de Janeiro Espírito Santo CENTRO-SUL 4,9 6,3 7,1 1,6 7,1 5,2 12,0 32,7 20,9 7,8 32,1 68,1 17,9 0,6 0,4 1,7 0,4 8,6 0,4 1,6 5,0 68,8 55,4 64,0 90,6 54,7 30,6 93,2 66,4 2,3 0,3 1,0 1,3 1,4 2,8 5,6 6,9 5,1 100,0 3,4 3,7 100,0 100,0 100.0 100,0 100,0 100.0 100,0 100,0 100,0 Alagoas Pernambuco Paraíba Rio Grande do Norte Bahia Maranhão Piauí Sergipe Ceará Amazonas Tocantins NORTE-NORDESTE 0,0 0,0 0,0 0,0 46,6 32,0 45,6 33,5 78,8 10,5 100,0 37,3 46.3 34.8 100,0 18,4 53,4 68,0 54,4 20,2 21,2 54,7 100,0 44,3 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100.0 0,0 0,0 100,0 100,0 BRASIL 4,9 16,9 0,4 4,7 64,7 2,4 Outros Total 6,0 100,0 Fonte: Conab(2008). 95 LENHA NOVA PARA A VELHA FORNALHA – A FEBRE DOS AGROCOMBUSTÍVEIS A cana em São Paulo Verificamos, ao longo deste estudo, que, na safra 2006/07, no estado de São Paulo, a área plantada com cana-de-açúcar foi ampliada em 362 mil hectares, enquanto a área de plantio de árvores crescia 17 mil hectares. Já a área plantada com soja sofreu redução de 118 mil hectares. Para o ano de 2008, a Conab previa para a soja, no estado, pequena oscilação, positiva ou negativa. De toda forma, no conjunto da produção brasileira de soja, a produção paulista já não ocupa posição expressiva. O Instituto de Economia Agrícola (IEA) e a Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (Cati), órgãos da Secretaria Estadual de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, publicaram, em setembro de 2007, os números da safra 2006/07. Foram analisadas as culturas do algodão, amendoim da seca, amendoim das águas, arroz, cana-de-açúcar, feijão da seca, feijão das águas, feijão de inverno, laranja, milho (de verão), milho safrinha e soja.3 O levantamento aponta que, além da cana-de-açúcar, a laranja (apenas +2%, cerca de 12 mil hectares) foi, dentre os produtos analisados, o único que apresentou aumento da área plantada. Quanto aos demais, passou-se o seguinte: • O milho sofreu redução de 11,3% na área de plantio e ficou com 678 mil hectares (-86 mil hectares) e 3,4 milhões de toneladas produzidas – volume 10% menor que a safra anterior. • A soja teve diminuída sua área em 28% e passou de 666 mil hectares, na safra 2005/06, para 478 mil na safra 2006/07 (segundo a Conab, seriam 538 mil hectares). A produção caiu 17% e atingiu 1,2 milhão de toneladas (1,4 milhões, para a Conab). • As safras de feijão da seca e das águas apresentaram redução O primeiro ficou em 45 mil hectares (13% menor) e produção em 65 mil toneladas (13% menor). Para o feijão das águas, a área totalizou 70 mil hectares, 4% menor, e a produção praticamente estável, em 124 mil toneladas. • A área e a produção do amendoim, tanto da safra da seca quanto das águas, apresentaram redução. Na primeira, a área ficou em 11 mil hectares (22% menor) e a produção em 20 mil toneladas (25% menor). Na das águas, são 60 mil hectares de área cultivada (redução de 8,5% em relação à safra anterior), com produção em 148 mil toneladas (18% menor). • O algodão teve sua área de plantio reduzida em 41%. Ocupou 32 mil hectares e gerou 67 mil toneladas (em caroço). 3 96 Agricultura paulista diminui a área plantada mas aumenta produtividade. Agência Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 13/09/07. SÍNTESE E CONCLUSÕES • O café teve área 2% menor em relação à safra anterior, perfazendo 229,7 mil hectares. No conjunto da produção, devido à bianualidade da cultura, a queda foi de 29%, com 201 mil toneladas. Quanto ao arroz, o levantamento de safra da Conab apontava para São Paulo uma redução de 15% da área plantada, ou cerca de 5,3 mil hectares. Para o sorgo, houve redução de 30% da área, equivalentes a 31,4 mil hectares. Para o trigo, redução de 13%, ou 9,3 mil hectares. (Conab, 2007) Somadas as variações positivas, quase integralmente por conta da cana, temos um aumento da área total plantada no estado de 391 mil hectares. A estes, correspondeu uma redução dos cultivos acima listados de cerca de 280 mil hectares. Além disso, o recente estudo da Conab (2008) sobre o perfil do setor do açúcar e do álcool aponta uma redução de 242 mil hectares nas áreas de pastagem. Pode-se supor, portanto, que a diferença (131 mil hectares) estaria, naquele período, em fase de preparo para a produção. Para Paulo Cavasin, engenheiro agrônomo do Escritório de Desenvolvimento Regional Agrícola de Araraquara, “Onde tinha vaca hoje tem um mar de cana e isso acontecerá também com outras culturas. O Estado perdeu grandes bacias leiteiras para a cana-de-açúcar. Os pecuaristas saíram de São Paulo e foram para outros estados, como Goiás e Paraná. Quem perdeu foram os consumidores. Em São Carlos existiam grandes produtores, hoje são poucos. Em Dourado, na década de 60, eram produzidos mais de 60 mil litros de leite por dia. A partir da cana, isso foi diminuindo, passou para 12 mil litros por dia e hoje, se a produção chegar a mil litros por dia, já é muito. Todas as grandes fazendas de leite, sem exceção, que produziam cerca de 10 mil litros por dia, migraram para a cana. A troca foi muito vantajosa para a cultura sucroalcooleira, porque a cana tomou o espaço de grandes pastos, terras planas, logisticamente bem posicionadas. Ninguém tira 10 mil litros de leite de uma “biboca”. Os pastos eram os melhores lugares da fazenda.”4 A última Pesquisa sobre a Produção da Pecuária Municipal, publicada pelo IBGE em dezembro de 2006, refere-se ao ano de 2005. Os números mostram que, enquanto o rebanho bovino brasileiro em seu conjunto aumentava em 1,3%, relativamente a 2004, o de diversos estados do Sul-Sudeste do Brasil se reduzia: São Paulo, Minas Gerais, Paraná e Rio Grande do Sul. Os dados sobre exportação de carne de boi proveniente do Estado de São Paulo também confirmam esta suposição. Até 2005, São Paulo respondia por 61% da carne de boi exportada. Segundo a Carlos Cogo Consultoria Agroeconômica, esta participação caiu para 49,9%, no acumulado de janeiro a agosto de 2007. 4 Fernanda Manécolo. Área de plantação de cana duplicou nos últimos sete anos. Tribuna Impressa de Araraquara, 16/07/7. 97 LENHA NOVA PARA A VELHA FORNALHA – A FEBRE DOS AGROCOMBUSTÍVEIS Outros estados Nos estados onde cresce a produção da cana e das florestas artificiais, a área plantada com diversas outras culturas também foi reduzida entre as safras 2005/06 e 2006/07. Mesmo levando em conta que em alguns casos, como o da soja, a retração se deu em função da redução de preços no período anterior, as informações sobre diversos outros produtos indicam estar de fato em curso a substituição de culturas alimentares, principalmente em função do crescimento acelerado da cana-de-açúcar. Os reflexos desta redução da produção sobre os preços se fizeram sentir mais fortemente no primeiro semestre de 2008. Nota-se também que esta substituição se dá com maior intensidade nas regiões Sul e Sudeste, como mostrado no caso de São Paulo. No Paraná, onde houve forte expansão do plantio de cana, e também onde se dá a maior parte da produção de trigo no Brasil, a redução da área plantada com trigo foi de quase um terço (-31%). No Rio Grande do Sul, a redução foi de 18%. Em Minas Gerais e no Espírito Santo, a área plantada com feijão reduziu-se em 14,4% e 11,5%, respectivamente, no ano de 2007. Nos estados das regiões Centro-Oeste, Norte e Nordeste, a redução da área plantada com grãos é menos acentuada do que nas regiões Sul e Sudeste. Isto se explica certamente pela maior disponibilidade de terras nestas regiões, ao contrário do que se passa em estados do Sul e Sudeste, como Rio Grande do Sul, Paraná, São Paulo e Minas Gerais. E porque, nestes últimos, as áreas disponíveis são mais caras, o que pode inviabilizar uma série de culturas. O diretor de Logística e Gestão Empresarial da Conab, Sílvio Porto, admitiu, em julho de 2007, ao divulgar o décimo levantamento da safra de grãos 2006/07, que há uma preocupação com a perda de espaço das culturas de milho e soja para a cana-de-açúcar nos estados do Paraná, Mato Grosso do Sul, São Paulo e Minas Gerais. 5 A questão do gado Segundo a Confederação Nacional de Agricultura, o rebanho bovino brasileiro era, em 2007, de cerca de 207 milhões de cabeças. As estimativas são de que este gado ocupava uma área de 220 milhões de hectares. Esta área equivale a mais de quatro vezes e meia a área total plantada com grãos no Brasil, em 2007 (47,87 milhões de hectares). O governo e as associações de produtores rurais afirmam, constantemente, que a agricultura, em geral, e a cana-de-açúcar, em particular, irão expandir-se sobre áreas de pastagem e terras degradadas. O gado bovino brasileiro, no entanto segue 5 98 Daniel Lima. Avanço do cultivo da cana-de-açúcar preocupa, admite diretor da Conab. Agência Brasil, 03/07/07. SÍNTESE E CONCLUSÕES crescendo de modo quase contínuo, fazendo do Brasil o maior exportador mundial de carne bovina, atualmente. O deslocamento da origem da carne brasileira exportada, já mencionado, é apenas o reflexo de outro movimento migratório mais importante, que é a busca de áreas produtivas pela pecuária que dificilmente serão ocupadas pelos grãos ou pela cana-de-açúcar, aliada à ramificação dos frigoríficos. Os pecuaristas estão indo para regiões onde a terra é mais barata e a cana-de-açúcar, assim como os grãos, ainda não chegaram, já que estas culturas possuem uma rentabilidade superior à da pecuária.6 TABELA 2 Brasil: rebanho bovino por região – 1995 e 2005 Cabeças Brasil Norte Centro-Oeste Sudeste Sul Nordeste 1995 2005 Variação % 161.227.938 19.183.092 55.061.299 37.168.199 26.641.412 23.173.936 207.156.696 41.489.002 71.984.504 38.943.898 27.770.006 26.969.286 28,5 116,3 30,7 4,8 4,2 3,4 Fonte: IBGE Impactos ambientais A expansão das monoculturas associadas à produção de agrocombustíveis, em paralelo à do gado bovino, vem provocando a destruição de biomas, especialmente da Floresta Amazônica, do Pantanal e do Cerrado. A degradação de áreas já utilizadas pela atividade agropecuária é também fator de preocupação, à medida que o crescimento do conjunto das atividades termina por impulsionar a ocupação de áreas adicionais. No capítulo relativo à cana-de-açúcar, mencionamos a iniciativa do governo federal no sentido de realizar estudos para promover um zoneamento econômicoecológico que restrinja as áreas destinadas à expansão do seu cultivo. Quanto à soja e às florestas plantadas, no entanto, nada se pode dizer. Os pronunciamentos oficiais não deixam claro se o zoneamento incluirá o conjunto das atividades agropecuárias ou somente a cana-de-açúcar, que ocupa no momento o centro das atenções. Em julho de 2007, foram iniciadas as atividades do projeto “Avaliação dos impactos ambientais, econômicos e sociais dos sistemas de produção de bovinos de corte no Cerrado, na Amazônia e no Pantanal”, coordenado pela Embrapa 6 SP perde participação na exportação para regiões CO e NO. www.carloscogo.br. Acessado em 25/11/07. 99 LENHA NOVA PARA A VELHA FORNALHA – A FEBRE DOS AGROCOMBUSTÍVEIS Cerrados. Uma forte razão para o lançamento do projeto é a crescente pressão exercida por importadores de carne bovina, em função dos problemas ambientais causados pela atividade pecuária no Brasil, que fazem antever problemas com as vendas externas do produto. O avanço das culturas destinadas à produção de combustíveis, mesmo que se dê em áreas hoje destinadas à pastagem ou degradadas, não pode ser considerado, no entanto, neutro. A contaminação das águas e do solo, por exemplo, são alguns dos efeitos nocivos adicionais a serem levados em conta. O caso da cana-de-açúcar é mais grave que os demais: apesar de ocupar cerca de dez por cento do total da área cultivada no Brasil, seu cultivo, segundo o Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Agrícola (Sindag), respondeu, em 2006, por 12,6% do faturamento total da indústria de agrotóxicos.7 Segundo José Roberto da Ros, vicepresidente do Sindag, a cana consumiu, em 2006, US$ 351 milhões em herbicidas, contra US$ 731,4 milhões da soja. A cana ocupava, neste período, 6 milhões de hectares e a soja, 20 milhões.8 Quanto à Amazônia, é possível que, com a elevação dos preços internacionais, a expansão da soja e do gado se dê em ritmo mais acelerado nos próximos períodos, invertendo a tendência à queda do desmatamento verificada nos últimos anos. Entre agosto de 2007 e abril de 2008, o Deter, do governo federal, detectou 5.850 km2 desflorestados. Entre agosto de 2006 e julho de 2007, o mesmo sistema havia computado 4.974 km2.9 Impactos sobre o emprego e a agricultura familiar Os três monocultivos energéticos aqui analisados já vêm produzindo impactos os mais diversos sobre a agricultura familiar, a renda do trabalhador rural e o emprego no campo. Estes fatos não são características exclusivas dos cultivos energéticos, mas suas razões são inseparáveis dos regimes de monocultivos e de produção integrada em que se baseiam. No estado de São Paulo, aquele em que a cana-de-açúcar se expandiu com maior vigor nos últimos anos e a agropecuária já ocupa a quase totalidade das terras disponíveis, o emprego rural vem decrescendo continuamente. José Marangoni Camargo, do Instituto de Economia da Unicamp, mostra em estudo recente que, 7 Segundo o Sindag, a soja é a principal consumidora de defensivos no Brasil, tendo sido responsável, em 2006, por 38,5% do valor total das vendas. Em segundo lugar, aparece a cana-de-açúcar (12,6%), seguida de algodão herbáceo (10,3%), milho (7,5%), café (4,9%) e citros (4,2%), o que perfaz, somente consideradas essas seis culturas, 78,0% do valor comercializado naquele ano. Considerando-se as vendas para tratamento de sementes de soja, algodão e milho, a participação desse conjunto de culturas passa para 81,7% do valor total comercializado. 8 Indústria de defensivos aposta na cana. Valor Econômico, 19/09/2007. 9 Afra Bazalina e Fábio Amato. Desmatamento aumenta e já supera o registrado em 2007. Folha de São Paulo, 03/06/08. 100 SÍNTESE E CONCLUSÕES entre 1970 e 2000, a agricultura paulista eliminou aproximadamente 700 mil postos de trabalho – equivalentes a 40% daqueles existentes no período –, e que este processo está ainda em curso. Seus maiores efeitos, segundo o autor, se dão a partir de 1990. De acordo com o estudo, um dos setores que mais apresentou transformações nesse aspecto foi o sucroalcooleiro. Nos últimos quinze anos, o nível de mecanização, sobretudo na etapa de colheita, aumentou muito. Uma colhedora realiza a tarefa de 100 trabalhadores. “Vale ressaltar que, atualmente, a cana ocupa metade da área cultivada do estado. Ou seja, qualquer mudança no processo produtivo desse segmento tende a produzir impactos importantes nos indicadores da agricultura como um todo”, analisa o autor.10 O estudo aponta ainda que há uma tendência ao declínio da mão-de-obra residente nas propriedades. Atualmente, cerca de 60% dos ocupados na agricultura paulista moram fora dos seus locais de trabalho. E, embora todas as regiões do Estado tenham registrado redução do nível de emprego no campo, algumas foram mais afetadas do que outras. “Nas localidades onde predomina a pecuária e a monocultura, o desemprego foi mais acentuado do que nas regiões onde as culturas são diversificadas”, afirma o autor. Observamos também, neste estudo, que o preço da terra, sobretudo nas regiões de expansão da cana-de-açúcar, vem subindo de maneira acelerada. Estes novos níveis dos preços têm levado agricultores familiares a vender ou arrendar suas terras, e a tentar encontrar novas atividades no campo ou na cidade. A escassez de postos de trabalho, relativamente ao contingente de agricultores deslocados, contribui para o aumento do desemprego nestas regiões. O encarecimento da terra dificulta também a aquisição, pelo Governo Federal, de terras destinadas à reforma agrária. Quanto ao Programa Nacional de Produção e Uso do Biodiesel, suas potencialidades de geração de emprego e renda no campo só poderão se concretizar caso prevaleça a posição do Ministério do Desenvolvimento Agrário, favorável a fontes diversificadas de óleos vegetais, produzidos pela agricultura familiar. Os resultados da análise promovida por aquele Ministério mostram que, com 6% de participação da agricultura familiar no mercado de biodiesel, haverá a geração de 269.691 empregos no campo, a um custo médio por emprego (família) de R$ 4.906,00. A renda com a atividade irá, no mínimo, dobrar. Estimando os impactos da apropriação total do mercado do biodiesel pelo agronegócio da soja, conclui que haverá a geração de apenas 46.375 empregos, a um custo médio quase dezesseis vezes maior: R$ 80.000,00 por emprego. 10 Manuel Alves Filho. Mecanização ceifa 700 mil empregos na agricultura nos últimos trinta anos em SP. Jornal da Unicamp, 10 a 16/09/08. 101 LENHA NOVA PARA A VELHA FORNALHA – A FEBRE DOS AGROCOMBUSTÍVEIS Algumas conclusões Em setembro de 2007, na abertura da Assembléia Geral das nações Unidas, em Nova Iorque, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva declarou que “a experiência brasileira de três décadas mostra que a produção de agrocombustíveis não afeta a segurança alimentar. O problema da fome no planeta não decorre da falta de alimentos, mas da falta de renda que golpeia quase um bilhão de homens, mulheres e crianças. É plenamente possível combinar biocombustíveis, preservação ambiental e produção de alimentos”.11 Certamente, a disponibilidade global de alimentos seria suficiente para prover comida a toda a humanidade. No entanto, a análise dos fatos recentes relacionados ao crescimento do cultivo dos agrocombustíveis demonstra que estes, sob diversos aspectos, contribuem, juntamente com outros fatores (alta do petróleo, mudanças climáticas, aumento do consumo de carnes, especulação), para comprometer a segurança alimentar de vários segmentos da população. Vivemos um novo paradigma, em que a atividade agrícola não é mais inteiramente dedicada à produção de alimentos. Até aqui, podemos visualizar os seguintes impactos negativos: • A elevação generalizada dos preços dos alimentos, em nível global, tem em sua origem, em boa parte, a utilização do milho, do trigo, de óleos vegetais e de alguns outros produtos agrícolas como combustíveis. Se é verdade, como afirma o presidente Lula, que o problema da fome está relacionado ao da renda, o aumento do preço dos alimentos é fatal para uma grande parcela da humanidade, que, vivendo com menos dois dólares diários, não pode esperar pelo dia em que os preços voltariam a seus níveis históricos. • É possível que, em médio prazo, os preços dos alimentos retornem aos níveis anteriores, pois a tendência observada historicamente é a de queda dos preços relativos dos produtos primários frente aos demais preços da economia. No entanto, a crescente utilização de produtos vegetais como combustíveis é um fato novo. Acrescente-se a ele os impactos sobre a produção agrícola que decorrem das mudanças climáticas, e temos como resultado um panorama de incertezas sobre o futuro dos preços dos alimentos. Pela primeira vez, parece haver uma relação direta entre os preços do petróleo e os dos alimentos. • A expansão das monoculturas voltadas à produção de agrocombustíveis reduz também a segurança alimentar da agricultura familiar à medida que provoca a valorização das terras. Com isto, o agricultor enfrenta dificuldades crescentes para produzir seus próprios alimentos. A segurança alimentar vê-se prejudicada, ainda, em regiões distantes ou isoladas dos grandes centros de 11 Marília Martins. Lula anuncia plano ambiental. O Globo, 26/09/07. 102 SÍNTESE E CONCLUSÕES produção de alimentos, já que estes têm seus preços aumentados pelos custos de transporte e sua qualidade deteriorada pelo tempo e pelas condições precárias de transporte. • As monoculturas, de modo geral, reduzem a disponibilidade de água, secando suas fontes, além de contaminarem com agrotóxicos o volume remanescente. Seus impactos sobre a produção de alimentos tradicionais não se limitam, portanto, às novas áreas ocupadas pelo monocultivo, mas atingem também os territórios circunvizinhos. • Além de causarem desemprego, as monoculturas alteram o padrão de circulação da renda local, já que se utilizam de insumos e equipamentos produzidos em centros distantes. As economias locais e regionais vêem-se, assim, duplamente empobrecidas. É por este motivo que já despontam em alguns estados e municípios iniciativas governamentais no sentido de frear o crescimento da cana-de-açúcar, para evitar o desemprego e o aumento dos preços dos alimentos. • O crescimento das monoculturas relacionadas à produção de agrocombustíveis está causando a destruição de biomas no Brasil, de forma indireta também. Neste particular, o deslocamento da criação do gado bovino para novas áreas de fronteira agropecuária é o principal fator de destruição de biomas como a Floresta Amazônica, o Cerrado e o Pantanal. Agrocombustíveis, aquecimento global, pastagens e áreas degradadas Sem dúvida, é necessário encontrar fontes alternativas de energia que venham a substituir os combustíveis derivados do petróleo. Mas a simples troca da gasolina pelo etanol e do óleo diesel pelo biodiesel, da maneira que vem se desenvolvendo, pode vir a causar mais problemas do que benefícios, seja do ponto de vista econômico, social ou ambiental. Mesmo para o enfrentamento do aquecimento global, os estudos mais recentes indicam que os agrocombustíveis, produzidos em regimes monoculturais, podem na verdade agravar o problema, ainda que isto não se dê à custa da destruição de florestas. Segundo pesquisa realizada por Paul J. Crutzen, Prêmio Nobel de Química, o óleo de canola produzido na Europa resultaria em liberação de 70% mais gases responsáveis pelo efeito estufa do que o óleo diesel. Já o etanol de cana gera “apenas” entre 50 e 90 por cento dos gases do efeito estufa que seriam emitidos pela gasolina. 12 12 Emma Graham-Harrison. Muitos biocombustíveis seriam mais nocivos que petróleo. Reuters/Brasil Online, 27/09/07. 103 LENHA NOVA PARA A VELHA FORNALHA – A FEBRE DOS AGROCOMBUSTÍVEIS A maior parte destas emissões tem origem justamente no fato de que a produção se dá em regime de monocultura, requerendo utilização intensiva de fertilizantes químicos, herbicidas e outros agrotóxicos. Devido a isto, ocorre a emissão do dióxido de nitrogênio (NO2), que é cerca de 300 vezes mais danoso do que o CO2, em termos de aquecimento global. Por essas razões, o estudo aponta que, da forma que vem sendo realizada a produção destes novos combustíveis, atualmente, o resultado final é altamente negativo. E sugere que se busquem plantas que não requeiram uso tão intensivo de agrotóxicos, bem como mudanças nos métodos de cultivo hoje empregados. Assim, a expansão dos monocultivos de agrocombustíveis sobre áreas degradadas, ou atualmente utilizadas para pastagem, também não parece ser uma solução inofensiva ou adequada para o combate ao aquecimento global. Além de contaminante, este sistema contribui para agravar uma série de problemas sociais, como descrito ao longo deste texto. Quem ganha? Os modelos produtivos baseados na monocultura e na produção integrada trazem benefícios para poucos: grandes latifundiários, alimentados por um processo de concentração da propriedade da terra e financiados com recursos públicos; grandes empresas nacionais e transnacionais de alimentos e de energia, além do capital estrangeiro, produtivo e especulativo, que começa a investir pesadamente na produção dos agrocombustíveis. Neste modelo, como no da produção e distribuição do petróleo, a renda é especialmente concentrada em um pequeno número de beneficiários. No curto prazo, as contas governamentais relativas ao balanço de pagamentos podem apresentar números positivos, como resultado da exportação crescente dos novos combustíveis. Em prazo mais longo, no entanto, tudo leva a crer que o Brasil não poderá seguir pagando a importação de bens cada vez mais sofisticados, que hoje integram sua pauta de importações, com as receitas de produtos primários: as análises da pauta de exportações do Brasil demonstram que estes produtos vêm assumindo participação crescente. Segundo Edgard Pereira, economista-chefe do Iedi (Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial), metade do valor adicionado (a riqueza gerada) pela indústria já depende hoje de setores que têm por base recursos naturais.13 Com isto, até mesmo a sustentabilidade das contas do setor externo brasileiro se encontra ameaçada. 13 Fernando Canzian. Economistas alertam para desindustrialização. Folha de São Paulo, 19/09/07. 104 SÍNTESE E CONCLUSÕES O que fazer? A produção de agrocombustíveis pela agricultura familiar, em um modelo no qual os agricultores possam ir além do plantio, participando da elaboração do combustível, parece ser hoje a melhor alternativa para a produção de combustíveis vegetais, em termos sociais e ambientais. É preciso considerar, no entanto, que o volume de combustíveis necessário para a substituição de todos os derivados do petróleo atualmente consumidos teria, ainda, um impacto extraordinário sobre os recursos naturais, como água e solos. É de se esperar que a tecnologia, através de aumentos de produtividade e inovações que incluam a utilização de novas fontes de obtenção de energia, possa apontar soluções que reduzam a atual pressão sobre os recursos naturais. Por outro lado, e enquanto estas soluções não vêm, é necessário introduzir novos padrões de consumo. Este debate não encontra muitos adeptos, já que contraria a lógica econômica vigente, em que é imperativo o crescimento ilimitado da produção e do consumo, independentemente dos benefícios ou prejuízos causados ao público consumidor, ou da capacidade da Terra de suportar tais padrões de consumo. 105 LENHA NOVA PARA A VELHA FORNALHA – A FEBRE DOS AGROCOMBUSTÍVEIS Bibliografia CONAB. Perfil do Setor do Açúcar e do Álcool no Brasil, Situação Observada em Novembro de 2007. Brasília. Conab, 2008. FOOD & WATER WATCH AND NETWORK FOR NEW ENERGY CHOICES. The rush to ethanol: not all biofuels are created equal. Analysis and Recommendations for U.S. Biofuels Policy. 2007. IEDI. Importações, câmbio e indústria: a marcha da desindustrialização no Brasil. Iedi, março de 2007. MINISTÉRIO DO DESENVOLVIMENTO AGRÁRIO. Relatório final do grupo de trabalho interministerial encarregado de apresentar estudos sobre a viabilidade de utilização de óleo vegetal – biodiesel como fonte alternativa de energia, anexo III. Brasília, dezembro de 2003. OECD-FAO. Agricultural Outlook 2007-2016. OECD-FAO, 2007. 2008-2017. OECD-FAO, 2008. 106 SIGLAS AIA – Avaliação do Impacto Ambiental ANP – Agência Nacional do Petróleo BEN – Balanço Energético Nacional BNDES – Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social CBI – Caribbean Basin Initiative CEVASA – Central Energética do Vale do Sapucaí CNA – Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil CNAA – Companhia Nacional de Açúcar e Álcool CONAB – Companhia Nacional de Abastecimento CONTAG – Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura DIEESE – Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos EDR – Escritório de Desenvolvimento Regional EPE – Empresa de Pesquisa Energética FAO – Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura FBA – Franco-Brasileira de Açúcar IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística IEA – Instituto de Economia Agrícola IEA – Instituto de Economia Agrícola IPEA – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada LDC – Louis Dreyfus Commodities Bioenergia MDIC – Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior NIPE – Núcleo Interdisciplinar de Planejamento Estratégico OMC – Organização Mundial do Comércio ORPLANA – Organização dos Produtores de Cana da Região do Centro-Sul do Brasil PAGRISA – Pará Pastoril e Agrícola S.A. PNAD – Pesquisas Nacionais por Amostra de Domicílios RFA – Associação dos Combustíveis Renováveis dos Estados Unidos SECEX – Secretaria de Comércio Exterior UE – União Européia UNESP – Universidade Estadual Paulista UNICAMP – Universidade Estadual de Campinas ZEE – Zoneamento Ecológico-Econômico 107 SERGIO SCHLESINGER PUBLICAÇÃO LENHA NOVA PARA A VELHA FORNALHA – A FEBRE DOS AGROCOMBUSTÍVEIS FASE (Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional) Rua das Palmeiras, 90 – Botafogo CEP 22270-070 – Rio de Janeiro – RJ Tel.: (21) 2536-7350 Fax: (21) 2536-7379 www.fase.org.br CAPA: ARTE SOBRE FOTO DE CESAR GUILLOTEL / CG TEXTURES APOIO SERGIO SCHLESINGER