FUNDAÇÃO UNIVERSIDADE FEDERAL DE CIÊNCIAS DA SAÚDE DE PORTO ALEGRE PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HEPATOLOGIA SABRINA ALVES FERNANDES DAHLEM AVALIAÇÃO NUTRICIONAL DO CIRRÓTICO Porto Alegre 2008 SABRINA ALVES FERNANDES DAHLEM AVALIAÇÃO NUTRICIONAL DO CIRRÓTICO Dissertação apresentada ao Curso de Pós-Graduação em Hepatologia da Fundação Universidade Federal de Ciências da Saúde Porto Alegre, como requisito para obtenção do grau de Mestre em Hepatologia. Orientador Prof. Dr.Cláudio Augusto Marroni Porto Alegre 2008 Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) D131a Dahlem, Sabrina Alves Fernandes Avaliação nutricional do cirrótico / Sabrina Alves Fernandes Dahlem. - Porto Alegre, 2008. 75 f. : il. Dissertação (Mestrado) – Programa de Pós-Graduação em Hepatologia da Fundação Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre, 2008. Orientação Prof. Dr.Cláudio Augusto Marroni 1. Hepatologia. 2. Fibrose. 3. Cirrose hepática. 4. Antropometria. 5. Dinamômetro de força muscular. 6. Impedância elétrica. I Título. 2. Marroni, Cláudio Augusto. CDD 612.35 CDU 612.3:616.36-004 Eleonora Liberato Petzhold CRB 10/1801 Dedico este trabalho para as três pessoas mais importantes da minha vida: Marcelo, Maria Luiza e Germano. Ao Marcelo, pelo amor, carinho e compreensão, sendo meu referencial de determinação e caráter. À Maria Luiza, por sua inteligência, meiguice e seu sorriso de “boneca”, sendo compreensiva na privação de momentos especiais. Ao Germano, planejado e concebido durante a execução deste trabalho, pelo fortalecimento de amor, união e da felicidade que trouxe à família. Agradecimentos Ao Prof. Dr. Cláudio Augusto Marroni por aceitar a tarefa de orientador e por estimular a realização deste trabalho. Muito obrigada pela paciência e compreensão que, muitas vezes, foram de “pai” e por acreditar que a nutrição faz diferença na Hepatologia. Ao Prof. Dr. Angelo Alves de Mattos, por sua conduta e seriedade com o Programa de Pós-Graduação, que possibilita a ampliação do conhecimento constantemente. Ao Prof. Dr. Paulo Roberto Ott Fontes, pela coordenação atuante e efetiva nas conquistas do Programa de Pós-Graduação em Hepatologia. À Dra. Maria Cristina G. Barbosa Silva, pelos ensinamentos norteadores deste trabalho. Ao Dr. Antonio Piccoli, pela atenção e ensinamentos sobre bioimpedância. À minha mãe, Lili Rolim Alves, cujo nome representa a mulher grandiosa que é. Obrigada pela oportunidade dada uma educação diferenciada, além da incansável paciência com os meus “tesouros”. Aos meus sogros, José Carlos e Heloísa Dahlem, pelo auxílio oferecido e pela compreensão das minhas ausências em momentos especiais. Aos professores do Programa de Pós-Graduação em Hepatopogia, meu reconhecimento e consideração. Aos meus colegas do Programa de Pós-Graduação em Hepatologia, Alexandro Alves, Mauricio Fraga, Lyzandro Nader, Lísia Hoppe, Caroline Marroni, Juliana Duarte, Nelson Kretzmann, Leonora Piccoli, Dário Brum e Eleonora Fortes, meu carinho pelo auxílio e compreensão quase familiar. Aos residentes de Gastroenterologia da Fundação Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre, Adriana Machado, Marioni Froeming, Daniela Camacho e Mariana Almeida, pelo auxílio e “dicas” para a realização deste trabalho. Às nutricionistas, Ester Zoche e Andressa Michels, pelo auxílio na coleta de dados. Às técnicas em educação, Luciani Spencer e Pricila Zazyki do Programa de Pós-Graduação em Hepatologia, por todo auxilio e motivação. À nutricionista e professora da UFCSPA, Catarina Bertaso Andreatta Gottschall, pela atenção, preocupação e auxilio no desenvolvimento do trabalho. Às amigas, Ana Carolina Andretti e Mariana Toscani, pelas contribuições e incentivo para a concentração do trabalho. À família Herter, pelo exemplo de determinação e ética no desenvolvimento de pesquisa. A todos que de diferentes formas contribuíram para a efetivação deste trabalho meu reconhecimento e trabalho. RESUMO Introdução: A desnutrição protéico-calórica é fator significante para determinar as condições clínicas que influenciam diretamente na qualidade de vida dos pacientes hepatopatas. Os resultados de métodos tradicionalmente empregados para a avaliação do estado nutricional podem ser mal interpretados na avaliação de pacientes cirróticos devido às alterações metabólicas e corporais. Portanto, é de suma importância identificar o método de avaliação nutricional que melhor se aplica a essa população, a fim de corrigir seu estado nutricional. Objetivos: Comparar resultados obtidos de diferentes métodos de avaliação nutricional em pacientes cirróticos. Pacientes e métodos: Foram avaliados prospectivamente e de forma seqüencial, cirróticos em acompanhamento ambulatorial em um hospital de Porto Alegre, RS, Brasil. Foram realizadas a avaliação antropométrica, a avaliação subjetiva global, a Força do Aperto de Mão através da dinamometria e a bioimpedância elétrica. Após esclarecimentos sobre a natureza e os objetivos do estudo, pacientes que concordaram em participar dele assinaram o termo de consentimento informado, aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Santa Casa de Porto Alegre e Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre. Resultados: Foram avaliados 129 pacientes cirróticos, nos quais as etiologias mais prevalentes foram: vírus da hepatite C, álcool e vírus da hepatite C associado ao álcool. Através da avaliação antropométrica, identificamos uma variação de 5,4% a 15% da população estudada como desnutridos, através dos parâmetros de IMC, PCT, CB e CMB. O gênero masculino apresentou maior grau de desnutrição por esse método. Na análise pelo método da Avaliação Subjetiva Global, observou-se que apenas 20,2% dos pacientes foram classificados como desnutridos, não apresentando diferença estatisticamente significativa da antropometria. Na avaliação com a Força do Aperto de Mão não dominante, encontramos um número de desnutridos representando 68,2% da população, sendo estes em grande número Child-Pugh A e B. A bioimpedância elétrica, classificou 34,1% de desnutridos e foi o único método que apresentou relação estatísticamente significatiiva com Child Pugh C. A utilização da bioimpedância elétrica para classificação do estado nutricional de pacientes cirróticos pode ser feita através do ângulo de fase, o qual é representado pela relação entre valores de Resistência e Reatância, dados estes, fornecidos pelo método. Além do Child Pugh, o ângulo de fase apresentou associação estatísticamente significatica com a faixa etária e gênero dos pacientes. Analisamos a associação entre os métodos de dinamometria e bioimpedância elétrica, cujos resultados apresentaram maior número de desnutridos, sendo utilizado o escore Child Pugh. Foi determinado o ponto de corte de 5,44º do ângulo de fase, cujo parâmetro denominamos BIA cirrose. Os pacientes que apresentam ângulo de fase ≤ 5,44º são classificados como desnutridos e os que apresentem ≥ 5,44º são denominados nutridos. Conclusão: A avaliação do estado nutricional dos cirróticos e sua comparação entre os diferentes métodos demonstra discrepâncias acentuadas, variando de 5,4% a 68,2% o percentual de desnutridos. Palavras-chave Cirrose. Avaliação Nutricional. Antropometria. Avaliação Subjetiva Global, Dinamometria. Bioimpedância elétrica. ABSTRACT Introduction: The protein-caloric malnutrition is a significant factor for determining the clinical conditions that influence directly in the quality of life of patients with liver diseases. The results of methods traditionally employed for the evaluation of the nutritional state may be misinterpreted in the evaluation of cirrhotic patients due to corporal and metabolic alterations. However, it is of great importance to identify the nutritional evaluation method that is better applied to this population in order to correct its nutritional state. Objectives: To compare results obtained from different nutritional evaluation methods in cirrhotic patients. Patients and methods: Cirrhotic patients were evaluated prospectively and in a sequential manner, in ambulatory accompaniment at a hospital in Porto Alegre, RS, Brazil. The anthropometrical evaluation, the subjective global assessment, the Handgrip Strength assessment through dynamometry and the electrical bioimpedance were carried out. After clarifications on the nature and objectives of the study, the patients that agreed in participating, signed an informed consent document, approved by the Committee of Ethics in Research from Santa Casa of Porto Alegre and the Federal University of Medical Sciences of Porto Alegre. Results: 129 cirrhotic patients were evaluated, considering that the most prevalent etiologies were: the hepatitis C virus, alcohol and hepatitis C virus associated with alcohol. Through the anthropometrical evaluation, it was identified a variation from 5,4% to 15% of the studied population in malnourishment, through the parameters of IMC, PCT, CB and CMB. Males presented a higher degree of malnutrition through this method. In the analysis by the Subjective Global Assessment method, we observed that only 20,2% of the patients were classified as in malnourishment, not presenting statistically significant difference through anthropometry. In the Handgrip Strength assessment, representing 68,2% of the population, the method related to Child-Pugh A and B. The electrical bioimpedance classified 34,1% of the malnourished ones and was the method that most significant association with ChildPugh C. The use of electrical bioimpedance to classified the nutritional status of cirrhotic patients can be done through the phase angle. Whith is represented by the relation among values of Resistance and Reactance, provided by the method. Besides Child Pugh, there was a significant association between the phase angle, age and sex. We analyzed the association between the dynamometry and electrical bioimpedance methods, which results presented a larger number of malnourished patients, with the utilization of Child Pugh score. It was determined the cut-off point of 5,44º from the phase angle, which parameter we denominated BIA cirrhosis. The patients that presented phase angle ≤ 5,44º were classified as malnourished and the ones that presented ≥ 5,44º were denominated as nourished. Conclusion: The evaluation of the nutritional state of the cirrhotic patients, as well as the comparison among different methods demonstrated elevated discrepancies, varying the percentage of malnourished ones from 5,4% to 68,2%. Key words: Cirrhosis. Nutritional Evaluation. Anthropometry. Subjective Global Assessment, Dynamometry. Electrical Bioimpedance. LISTA DE FIGURAS Figura 1 - Modelos multicompartimentados de composição corporal 23 Figura 2 - Princípios de método de BIA 27 Figura 3 - Colocação dos eletrodos 36 LISTA DE TABELAS Tabela 1 - Caracterização da amostra dos pacientes cirróticos 39 Tabela 2 - Análise descritiva dos dados antropométricos conforme gênero 40 Tabela 3 - Avaliação de FAM conforme faixa etária e gênero 41 Tabela 4 - Avaliação do ângulo de fase conforme faixa etária e gênero 42 Tabela 5 - Associação da etiologia da doença com a desnutrição avaliada por FAM e BIA 44 Tabela 6 - Associação entre os valores medidos de FAM e ângulo de fase com o gênero, faixa etária e Child Pugh dos pacientes 45 LISTA DE GRÁFICOS Gráfico 1 – Avaliação do percentual de indivíduos desnutridos conforme diferentes métodos de avaliação nutricional 43 Gráfico 2 - Associação entre os métodos de avaliação nutricional e o Child Pugh 46 Gráfico 3 - Curva Receiver Operator Characteristic (ROC) para determinar o ponto de corte para desnutrição para o Ângulo de Fase e FAM considerando o Child-Pug 47 Gráfico 4 - Concordância entre BIA e BIA Cirrose 48 LISTA DE SIGLAS AF – Ângulo de fase ANOVA - Análise de variância ASG – Avaliação subjetiva global BIA - Bioimpedância elétrica BIVA – Vetor de impedância CB – Circunferência do braço CMB – Circunferência muscular do braço CP – Circunferência do pulso DPC - Desnutrição protéico-calórica FAM - Força do aperto de mão não dominante FAO - Food and Agricultural Organization ESPEN - European Support Parenteral and Enteral Nutrition IMC – Índice de massa corporal MCLG – Massa corporal livre de gordura MG – Massa de gordura MLG – Massa livre de gordura MCM- Massa corporal magra PEPI - Programs for epidemiologists PCT - Prega cutânea tricipital R – Resistência ROC – Receiver operator characteristic SPSS - Statistical Package for the Social Sciences UFCSPA – Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre Xc – Reatância SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO 17 1.1 Cirrose 19 1.2 Desnutrição e Cirrose 19 1.3 Obesidade e Cirrose 21 1.4 Repercussões do tratamento do cirrótico sobre o estado nutricional 21 1.5 Avaliação Nutricional 22 1.5.1 Avaliação Antropométrica 24 1.5.2 Avaliação Subjetiva Global 25 1.5.3 Avaliação da Força do Aperto de Mão não dominante 26 1.5.4 Avaliação Bioelétrica 27 2 OBJETIVOS DO ESTUDO 30 2.1 Objetivo geral 30 2.2 Objetivos específicos 30 3 PACIENTES E MÉTODOS 31 3.1 Delineamento do estudo 31 3.2 Fatores em estudo 31 3.3 Desfecho de interesse 31 3.4 População em estudo e fluxograma 31 3.4.1 População em estudo 31 3.4.1.1 Critérios de Inclusão 31 3.4.1.2 Critérios de Exclusão 32 3.4.2 Fluxograma 33 3.4.2.1 Avaliação Clínica 33 3.4.2.2 Avaliação Nutricional Antropométrica 34 3.4.2.3 Avaliação Subjetiva Global 34 3.4.2.4 Avaliação por Força do Aperto de Mão 35 3.4.2.5 Avaliação por Bioimpedância Elétrica 35 3.5 Cálculo do tamanho da amostra 37 3.6 Análise estatística 37 3.7 Considerações Éticas 38 4 RESULTADOS 39 5 DISCUSSÃO 49 16 6 CONCLUSÕES 55 REFERÊNCIAS 56 ANEXOS 63 ANEXO A – Termo de Consentimento livre e esclarecido 64 ANEXO B - Avaliação subjetiva global 66 ANEXO C – Parâmetros de referência para diagnóstico nutricional 68 ANEXO D - Dinamômetro 70 ANEXO E - Bioimpedância elétrica 71 17 1 INTRODUÇÃO A prevalência de desnutrição protéico calórica (DPC) em pacientes cirróticos é reconhecida e pode variar de 10% a 100% dependendo da etiologia.1 A DPC é um fator significante na determinação das condições clínicas e da qualidade de vida dos pacientes cirróticos, principalmente naqueles em lista de espera para o transplante hepático, além de estar associada diretamente com a sua morbimortalidade.2, 3 A avaliação nutricional dos pacientes cirróticos é uma situação que ainda não está devidamente sistematizada e coerente no que se refere à comparação entre os diversos métodos usados rotineiramente nesta avaliação. Inúmeras técnicas têm sido utilizadas para avaliar o estado nutricional de doentes, porém resultados de métodos tradicionalmente empregados podem estar comprometidos na sua sensibilidade e/ou especificidade frente às alterações corporais e metabólicas de pacientes especiais como os cirróticos, que apresentam modificação nas suas proporções de água corporal, pela ascite, edema e desnutrição.4 Os métodos de avaliação tradicionalmente utilizados, como antropometria e avaliação subjetiva global (ASG), são caracterizados como técnicas simples, de baixo custo e de fácil manejo. No entanto, apresentam baixa sensibilidade e especificidade, como no caso da ASG, que sua acurácia é dependente da experiência do observador e se baseia em uma análise parcialmente subjetiva, cujos componentes são a história clínica, exame físico e a avaliação corporal através da antropometria.5 A mensuraçãoda Força do Aperto de Mão não dominante (FAM) por meio da dinamometria determina a quantidade de massa muscular dos indivíduos. Essa técnica tornou-se promissora por ser de baixo custo, fácil interpretação e reprodutibilidade, sem comprometer o resultado final.6 Avaliações mais complexas, valorizando a composição corporal, têm dividido o corpo humano em dois compartimentos, o da gordura e o da massa livre de gordura. Nesses dois compartimentos, parte-se do princípio de que ambos são compostos de água e células em proporções constantes em todos os indivíduos. Entretanto, não temos essas mesmas características em pacientes com doenças crônicas, incluindo os hepatopatas.7 18 Técnicas sofisticadas são capazes de compartimentalizar e classificar o estado nutricional de pacientes com as mais variadas doenças, inclusive cirróticos. Essas técnicas são de difícil acesso devido ao custo elevado8, 9 e ainda não podem ser classificadas como padrão áureo, pois há poucas observações sobre elas na literatura.10 O método de Bioimpedância Elétrica (BIA) emergiu do conhecimento dos princípios da composição corporal, na tentativa de descrever o comportamento de tecidos biológicos humanos atrai atenção como método não invasivo, portátil, reprodutível, que utiliza a corrente elétrica através de condutores corporais como a água e as células, como elementos de resistência, capaz de estimar a composição corporal de indivíduos. O seu uso, entretanto, requer estudos mais aprofundados e extensos para que a sua validação ocorra na prática clínica. 8, 9, 11 Kyle e col.12, 13 realizaram metanálise do uso de BIA e verificaram a ocorrência de erros na medição da massa livre de gordura e da quantidade total de água, quando utilizada em pacientes com alterações hídricas e eletrolíticas. Devemos lembrar que o organismo, mesmo em um indivíduo dito saudável, não é uniforme, e a condutividade não é constante. A composição corporal é, na maioria dos casos, de indivíduos sadios e de 73% de água livre, 29% extracelular e 44% intracelular, aproximadamente. A dificuldade de padronização na utilização de BIA é a de determinar em que população pode haver o beneficio do seu uso, uma vez que os resultados obtidos decorrem da composição corporal que deve estar em harmonia, dentro dos padrões “normais”, o que não é muito claro em termos biológicos.14 A BIA fornece dados da composição corporal e dela derivam dois dados que nos permitem diagnosticar desordens metabólicas e comprometimentos diversos, associados às variáveis fisiológicas, caracterizando-se como um preditor da integridade da membrana celular e distribuição de água entre os meios intra e extracelular, os quais estão representados pela resistência (R) e reatância (Xc).15 As relações entre resistência e reatância têm como derivação o ângulo de fase (AF), que reflete diferente condutividade elétrica de tecidos celulares os quais foram afetados em vários segmentos corporais, seja por doença, por estado nutricional e/ou estado de hidratação.16 19 O método BIA, com suas qualidades e imperfeições, pode ser adaptado às necessidades clínicas da população alvo. A avaliação nutricional precoce dos pacientes com hepatopatia crônica, identificando as suas carências e aplicando-lhes medidas capazes de corrigi-las e equilibrá-las, pode melhorar o seu prognóstico, aumentando sua sobrevida e mantendo, na medida do possível, suas atividades diárias, garantindo-lhes melhor qualidade de vida, principalmente naqueles em lista de espera para transplante hepático.17 1.1 Cirrose A necrose dos hepatócitos ocasiona colapso no parênquima hepático e sua substituição por tecido fibroso, com a conseqüente desorganização e contração em torno dos vasos sangüíneos e a dificuldade do livre fluxo do sangue portal através do fígado. Este desarranjo do parênquima constitui a cirrose. As causas mais comuns da cirrose são o alcoolismo, as hepatites por vírus (C e B), as doenças das vias biliares, as doenças metabólicas ou as intoxicações exógenas.18 Na cirrose, ocorrem alterações clínicas dependentes da disfunção do parênquima (hepatócitos) e da dificuldade do fluxo sangüíneo portal (hipertensão portal). Na primeira há déficit de síntese de proteínas como a albumina e, na última, o retorno do sangue mesentérico do intestino e do baço para o fígado fica dificultado e a pressão capilar na parede intestinal aumenta com formação de edema e dificuldade de absorção. 18 1.2 Desnutrição e Cirrose A DPC é síndrome conceituada como de perda progressiva tanto da massa corporal magra (protéica) quanto do tecido adiposo (calórica). As alterações significativas no metabolismo das proteínas, carboidratos e lipídios surgem concomitantemente ao consumo dos compartimentos muscular e lipídico para suprir uma maior demanda energética sintetizada pelo fígado doente, induzindo a anormalidades morfológicas e funcionais em diversos órgãos e sistemas. Em um indivíduo normal, a perda ponderal pode chegar a 10% sem comprometer suas funções orgânicas, entretanto a perda de 40% pode ser incompatível com a sobrevivência.19 20 A DPC é evento comum em pacientes com hepatopatia crônica, presente em 20% dos pacientes com cirrose compensada e em mais de 60% daqueles com disfunção hepática grave.20, 21 A desnutrição em pacientes cirróticos com doença avançada é comum, pode ser moderada a grave4, 22, 23, e o grau de comprometimento nutricional é fator significante, pois pode desempenhar papel importante na patogênese das complicações e causar impacto negativo no prognóstico.24 Vários fatores estão presentes no desenvolvimento da desnutrição nos pacientes hepatopatas, como a inadequada ingestão oral, proveniente de situações como a anorexia, disgeusia, saciedade precoce, náuseas e vômitos associados à hepatopatia, o uso de drogas e dos seus efeitos adversos.4, 22, 23, 25 A ingestão deficitária das dietas restritivas, não são atrativas ao paladar comprometido desses doentes. Devemos considerar, ainda, como fatores contribuintes para o desenvolvimento da desnutrição, a má absorção e a dificiente digestão intestinais, mais acentuadas em pacientes com doença envolvendo a via biliar com coletase, em quem a esteatorréia é comum. 23, 26 A desnutrição é fator relevante na determinação da evolução da doença hepática uma vez que afeta o armazenamento de nutrientes, contribui para a hipoalbuminemia decorrente da síntese hepática defeituosa e intensifica o desequilíbrio hidroeletrolítico determinado pelas alterações renais caraterísticas deste estado de doença.23, 26, 27, 28 21 1.3 Obesidade e Cirrose A obesidade é um problema relativamente comum em pacientes cirróticos. Nos Estados Unidos muitos que realizaram transplante de fígado, entre 1988 a 1996, apresentavam sobrepeso com Índice de Massa Corporal (IMC) > 25kg/m2, tendo impacto negativo no pós-transplante imediato e na sobrevida. 29 O diagnóstico de obesidade ocorreu com maior freqüência em mulheres com cirrose criptogênica, diabéticas e com creatitina sérica elevadas. A obesidade mórbida (IMC > 40kg/m2) ou severa (IMC > 35kg/m2) nesses pacientes está associada com a diminuição da sobrevida em 5 anos 30 e com maior risco de complicações operatórias como infecção de parede, diabetes mellitus, hipertensão arterial sistêmica, infecção e insuficiência respiratórias.29 Devemos lembrar que a classificação de obesidade em cirróticos, baseada no IMC, pode não ser correta, uma vez que o peso corporal como base para o cálculo pode estar superestimado, pois esses pacientes podem ter seu peso real mascarado pelo líquido extracelular, como ascite e edema. 29 1.4 Repercussões do tratamento do cirrótico sobre o estado nutricional O paciente cirrótico pode apresentar uma situação nutricional bastante comprometida e de difícil manejo, o que torna a terapêutica mais complexa e de difícil aplicação. A ascite é um grande complicador na definição do peso real do cirrótico, pois mascara o peso corpóreo e atua com efeito compressivo abdominal, contribuindo para a saciedade precoce e, dependendo da hipertensão portal, está associada com hemorragia digestiva, encefalopatia porto-sistêmica e sepse, que representam complicações e fatores comprometedores da ingestão calórica diária e de macro e micronutrientes.23, 24, 28, 30 Inúmeras vezes, por complicações da própria doença, são prescritas medidas terapêuticas para controle, quando a dieta se torna qualitativamente deficiente, nos casos da restrição severa de proteínas de alto valor biológico, de sódio, de fluídos, de gorduras e de hidratos de carbono.22, 23, 29, 31 22 Observa-se, freqüentemente, perda ponderal, náuseas e anorexia como manifestações comuns nas hepatopatias crônicas que podem estar associadas ao surgimento da DPC 4, 22, 23 . Não há estudos representativos da DPC em indivíduos com cirrose, entretanto em cirróticos alcoólicos, a prevalência varia entre 34% a 82%, podendo chegar a 100% nos pacientes hospitalizados. Em cirróticos não-alcoólicos a prevalência varia entre 27% e 87%.25 A terapia medicamentosa utilizada no tratamento das complicações da cirrose, como neomicina, lactulose e diuréticos, pode ocasionar complicações como diarréia e atrofia das vilosidades do trato gastrintestinal, originando má absorção de folatos, zinco, potássio, magnésio e vitaminas lipossolúveis. Nos pacientes hospitalizados, há outros complicadores, como o jejum prolongado e repetido, para realização de procedimentos diagnósticos e terapêuticos e as alterações neuro-psiquiátricas da encefalopatia porto-sistêmica.4, 22, 23 Uma situação bastante significativa, do ponto de vista de perda nutricional, é a realização de paracentese terapêutica de caráter descompressivo, na qual se pode espoliar de 50 a 100g de proteínas em cada procedimento. O efeito é parcialmente minimizado pela reposição terapêutica de albumina, concomitante.32 1.5 Avaliação Nutricional A avaliação do estado nutricional nos pacientes cirróticos representa um desafio para a equipe multidisciplinar, pela presença de alterações decorrentes da própria doença, que aumentam a limitação dos métodos usuais utilizados e requerem uma atenção redobrada do profissional nutricionista, que deve utilizar o maior número possível de parâmetros para sustentar a confiabilidade dos resultados. A avaliação do estado nutricional tem como objetivo identificar os distúrbios nutricionais, possibilitando uma intervenção terapêutica para auxiliar na recuperação e/ou manutenção do estado de saúde do paciente. Essa avaliação deve ser realizada periodicamente e pode se tornar um indicador de sobrevida do doente com hepatopatia crônica.2 Um dos componentes da avaliação nutricional é a verificação da composição corporal, que quantifica os principais componentes estruturais do corpo humano. O tamanho e a forma corporais são determinados pela carga genética e formam a base 23 sobre a qual são dispostos, em proporções variadas, os três maiores componentes estruturais do corpo humano: osso, músculo e gordura. Esses componentes são também as maiores causas da variação da massa corporal.33 Segundo Ellis,34 os modelos de composição corporal estão dispostos da seguinte forma: Modelo básico em 2 compartimentos Figura 1 – Modelos multicompartimentados de composição corporal Fonte: Ellis, K. J. Human body composition: in vivo methods. Physiological Reviews, Bethesda, v. 80, n.2,p.649-690, apr.2000 Conforme descrição de Heryward e Stolarczyc35, a composição corporal compreende a Massa de Gordura (MG), que se refere a todos os lipídios extraídos do tecido adiposo e outros tecidos do corpo, e a Massa Livre de Gordura (MLG) ou Massa Corporal Livre de Gordura (MCLG), que são todos os tecidos e resíduos livres de lipídeos, incluindo água, músculos, ossos, tecidos conjuntivos e órgão internos. Outro compartimento corporal é a Massa Corporal Magra (MCM) composta de lipídeos essenciais (fosfolipídios), necessários para a formação da membrana celular (~ 10% dos lipídeos corporais totais). Compartimentalizando as gorduras temos a Gordura Subcutânea, que se caracteriza como tecido adiposo acumulado sob a pele. A Gordura Visceral é o tecido acumulado dentro e ao redor dos órgãos das cavidades torácica (coração, pulmões) e abdominal (fígado, rins e outros). A Gordura Intra Abdominal é a gordura 24 visceral da cavidade abdominal, a Gordura Abdominal é a gordura subcutânea e visceral da região abdominal.35 Os padrões de referência de massa gorda, segundo Lohman36, estão dispostos conforme o gênero masculino e feminino, e, em percentuais dos níveis de gordura, o qual indica fator de risco para doenças associadas com a massa gorda como anorexia, câncer, cardiopatia ou obesidade. O padrão de normalidade de massa gorda para o gênero masculino é de 15% e o feminino é de 23%.36 Para o gênero masculino, valores entre 6-14% de gordura podem representar risco moderado quando associados a alguma doença; para o gênero feminino, temos valores maiores de 9-22%. Risco elevado para baixo percentual de gordura está determinado para o gênero masculino ≤ 5% e, para o feminino, ≤ 8%. O mesmo risco também ocorre com valores acima da média, quando associado às diferentes doenças, onde 16-24% representa médio risco para o gênero masculino, enquanto para o gênero feminino é de 24-31%. Existe também risco elevado quando se obtêm valores ≥ 25% para o gênero masculino e para o feminino ≥ 32% 61. A observação desses dados permite identificar que parâmetros isolados não caracterizam a condição nutricional dos cirróticos, pois sua estrutura corporal é modificada pela da doença. Portanto, é interessante empregar uma associação de métodos para melhorar a precisão e a acurácia da avaliação corporal e o diagnóstico nutricional, razão pela qual a avaliação deve consistir de métodos variados como o antropométrico, a dinamometria, a bioimpedância e avaliações clínica e bioquímica.37 1.5.1 Avaliação Antropométrica A avaliação antropométrica é a medida do tamanho corporal e de suas proporções de maneira estática. As medidas mais utilizadas na prática diária de avaliação nutricional nos indivíduos são o peso, a estatura, a prega cutânea tricipital (PCT), a circunferência do braço (CB) e a circunferência muscular do braço (CMB), o IMC e circunferência do pulso (CP). A análise e classificação do conjunto dos dados coletados deve ser comparada com parâmetros de referência.38, 39 O peso e a altura devem ser aferidos de acordo com técnicas padronizadas.35 A relação peso-altura foi proposta por Quetelet em 1853 e é 25 conhecida como índice de massa corporal (IMC) ou índice de Quetelet. Sua classificação mais difundida segue a proposta do comitê Organização Mundial da Saúde (FAO/OMS -1995).39 Os pacientes hepatopatas apresentam, na evolução da doença, alterações corpóreas significativas, principalmente quanto ao peso corporal pela presença de edema e ascite, razão pela qual o IMC não parece um método adequado para o diagnóstico nutricional, pois nos fornece um resultado alterado devido às distorções corporais do cirrótico.40, 41, 42 A medida da PCT estima indiretamente a massa de gordura, através da medida da espessura de duas camadas de pele e a gordura subcutânea adjacente, estimando assim a espessura do tecido adiposo subcutâneo. É um bom método de avaliação de cirróticos, embora alguns estudos tenham encontrado uma baixa prevalência de desnutridos, quando comparado a outros métodos.3, 43 Para determinar a quantidade de massa muscular, o parâmetro antropométrico utilizado é a CMB.44 A CMB é derivada da CB e a da PCT. Sua classificação é feita em percentis.38 1.5.2 Avaliação Subjetiva Global Durante anos a ASG tem sido amplamente utilizada nas diferentes populações. É um método clínico com questões de fácil reprodutibilidade sobre a história, sinais, sintomas e condições físicas do indivíduo focadas no aspecto nutricional.8 A história clínica avalia elementos como perda de peso nos últimos seis meses, modificação quantitativa da dieta, presença de sintomas gastrointestinais, avaliação da capacidade funcional e alterações metabólicas. No exame físico, são avaliados dados como perda de gordura subcutânea, perda de massa muscular e presença de líquido no espaço extracelular. Após análise de todos esses aspectos, cada item é numerado, é feito o somatório destes pontos e obtido um escore que fornece o diagnóstico nutricional. De posse deste dado, o paciente é classificado em categoria A (bem nutrido), B (moderadamente nutrido ou suspeita de risco nutricional), ou C (gravemente mal nutrido). 1, 10, 55 Detsky e col.55 demonstraram uma boa concordância (kappa=0,72) quando os autores avaliando pacientes hospitalizados, observaram um índice de 26 acerto de > 90% por pacientes entre dois observadores diferentes.49, 56 A ASG tem se mostrado um método de credibilidade no diagnóstico nutricional de complicações no pós-operatório de cirurgias gerais, transplante hepático e com pacientes em diálise.57 Alguns estudiosos não são adeptos deste método clínico por ser constituído de itens qualitativos. Nos pacientes com cirrose, é difícil precisar a alteração ponderal, pois podem ter aumento pela ascite e retenção hídrica. 1.5.3 Avaliação da Força do Aperto de Mão não dominante A avaliação da Força do Aperto de Mão se dá pela dinamometria, que refere-se a todo o tipo de processo que tem em vista a medição de forças, bem como a medição da distribuição de pressões18, classificando o estado nutricional dos indivíduos por gênero e faixa etária. O estudo da dinamometria parte do pressuposto de que, com a desnutrição protéico-calórica, ocorre diminuição da massa muscular, dificultando as funções motoras. 18, 45 Essas alterações na atividade muscular podem ser um indicador do estado nutricional e mensurado com a mão não dominante, sendo um dos métodos empregados para obter o estado nutricional do paciente, podendo identificar o quadro de desnutrição precocemente. 18,45 Em meados dos anos 90, a European Support Parenteral and Enteral Nutrition43 sugeriu o uso de FAM para pacientes com doença hepática crônica como um bom método para diagnosticar desnutrição. Estudos internacionais dessa mesma época refere-se ao método como ideal para pacientes com complicações cirúrgicas, uma vez que se trata de um método sensível e eficaz para diagnóstico de risco nutricional.46, 47, 48 Estudos nacionais com pacientes cirróticos demonstraram superioridade no método FAM, quando comparado com ASG, no diagnóstico de desnutrição, pois se trata de um método simples, de baixo custo, útil e não sobre influência das eventuais presenças de ascite e/ou edema.49, 50, 75 27 1.5.4 Avaliação Bioelétrica A BIA é um método rápido e não invasivo, de baixo custo e portátil, que é capaz de estimar os compartimentos corporais e distribuição de fluídos nos espaços intra e extracelulares. Sua análise baseia-se na medida da resistência total do corpo à passagem de uma corrente elétrica de baixa amplitude (800µA) e alta frequência (50KHz). Nessa avaliação constam dois parâmetros: a resistência corporal e a reatância. A R é a oposição oferecida pelo corpo à passagem da corrente elétrica, e inversamente relacionada à água e aos eletrólitos contidos nos tecidos corporais. A Xc é relacionada com a capacitância das propriedades da membrana celular e pode variar em decorrência de sua integridade, função e composição. 51 Uma corrente elétrica imperceptível é introduzida por eletrodos distais e captada por eletrodos proximais, gerando os vetores de R e Xc. Assim, após identificar os níveis de resistência e reatância do organismo à corrente elétrica, o analisador avalia a água corporal total e, assumindo uma hidratação constante, prediz a quantidade de massa magra, pois o método de BIA parte do pressuposto de que o formato do corpo humano assemelha-se a um cilindro com comprimento e área de secção transversal uniformes.52 Acreditando-se que o corpo humano seja uma espécie de cilindro perfeito, o fluxo de corrente através do corpo é diretamente proporcional ao comprimento do condutor e inversamente proporcional a sua secção transversal, como mostra desenho abaixo12: Cilindro Área de corte transversal (A) Corrente Comprimento (L) Figura 2 – Princípios do método de BIA Fonte: KYLE, U.G. et al. Bioelectrical impedance analysis – part I: review of principles and methods. Clinical Nutrition, Edinburgh, v. 23, n. 5, p. 1226-1243, Oct. 2004. 28 Tecidos que contenham mais água, eletrólitos como os do fluído cérebro-espinhal, sangue, músculos, são altos condutores elétricos. A gordura, os ossos e o ar que preenche alguns espaços do corpo, como o pulmão, são de alta resistência à corrente elétrica.35 A condutibilidade dos tecidos biológicos é praticamente iônica, ou seja, as cargas elétricas são transferidas pela ionização dos sais, bases, ácidos dissolvidos no fluído corporal. Portanto a condutibilidade biológica é diretamente proporcional à quantidade do volume do fluído corporal.53 Por este fato, no paciente que se encontra em estado de hiper-hidratação o valor da massa magra fica superestimado, apresentando alteração no resultado da avaliação corporal, sendo uma das limitações deste método.12, 13 O uso de BIA tem demonstrado eficiência na aferição dos compartimentos corporais em diversas situações clínicas como desnutrição, traumas, pré e pós-operatório, doenças hepáticas, insuficiência renal, gestação, e em crianças e atletas. Bioimpedância elétrica é método de avaliação da composição corporal altamente aceito pela comunidade científica, porém seus resultados podem ser afetados por fatores como a alimentação, o exercício físico e a ingestão de líquidos em períodos que antecedem a avaliação, estados de desidratação ou retenção hídrica, utilização de diuréticos e ciclo menstrual.12, 13 Alterações no formato do corpo, como distrofia, amputações ou obesidade, podem influenciar os resultados do exame. Nessas situações, pode ser mais aconselhável o uso de BIA de forma segmentar para obtenção de melhores resultados. Nos modelos básicos de bioimpedância, pressupõe-se que o formato do corpo seja cilíndrico, com uma relação entre o tronco e membros, nível de hidratação e até mesmo o percentual de gordura mais ou menos constantes. Essas características podem variar, no entanto, conforme a faixa etária, grupo étnico, forma do corpo ou condições clínicas. Dessa forma, não podemos dispor de equações "universais", utilizadas em todas as situações. 51, 54 Dentre as dificuldades do método, há maior limitação da precisão dos resultados em estudos longitudinais, mesmo com a utilização de equações adequadas, pois a BIA não consegue determinar variações de massa magra ou gordura corporal inferiores a 1,5 kg. Mesmo com exames seriados, corre-se o risco de não serem evidenciadas alterações inferiores a tais valores, ou as avaliações em um curto intervalo de tempo. 51, 54 29 Estudos mais recentes reportam que os valores do ângulo de fase (AF) apresentam boa correlação com os parâmetros nutricionais e com os índices de morbidade de pacientes submetidos à hemodiálise crônica, sugerindo que esses pacientes podem estar em risco de desnutrição, apesar de apresentarem valores de índice de massa corporal acima do limite de normalidade. Outros estudos detectaram reduzidos índices de massa celular e AF obtidos pela bioimpedância nos pacientes com sobrepeso e obesidade.12, 13 Os parâmetros da impedância (resistência e reatância) podem também ser aplicados como vetor de impedância (BIVA) ou quantificados geometricamente através do AF. A BIVA pode fornecer informações sobre a composição corporal e estado de hidratação, independente da situação clínica ou equação de regressão. O conhecimento dos valores do ângulo de fase em populações saudáveis poderá permitir sua melhor utilização na prática clínica. Estudos em pacientes com câncer, Vírus da Imunodeficiência Humana, nefropatas e pacientes cirúrgicos têm confirmado cada vez mais seu papel como importante marcador de mortalidade e morbidade. 12, 13, 51, 54 Levando em consideração as diversas observações relacionadas aos métodos de avaliação do estado nutricional e a sua disparidade na avaliação de cirróticos, decidimos estudar e comparar métodos capazes de auxiliar, na prática clínica com o diagnóstico nutricional dos hepatopatas, a validação de parâmetros de referência, comparar diferentes métodos e considerar o método mais sensível a ser utilizado nessa população. 30 2 OBJETIVOS DO ESTUDO 2.1 Objetivo geral Comparar quatro diferentes métodos de avaliação nutricional em cirróticos adultos ambulatoriais. 2. 2 Objetivos específicos a) Comparar FAM e BIA como métodos de avaliação do estado nutricional e seus percentuais no diagnóstico de desnutrição. b) Identificar, através da relação com o escore de Child-Pugh, a melhor forma de avaliação nutricional entre os métodos FAM e BIA. c) Sugerir novo parâmetro de referência para a classificação de estado nutricional dos cirróticos pelo método de BIA, através do ângulo de fase. 31 3 PACIENTES E MÉTODOS 3.1 Delineamento do estudo Realização de estudo transversal, prospectivo com pacientes cirróticos ambulatoriais. 3.2 Fatores em estudo Quatro diferentes métodos de avaliação nutricional. 3.3 Desfecho de interesse Estado nutricional de pacientes cirróticos. 3.4 População em estudo e fluxograma 3.4.1 População Estudada Foram incluídos 129 pacientes com cirrose em tratamento clínico, atendidos nos ambulatórios de gastroenterologia do Complexo Hospitalar da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre, disciplina de gastroenterologia da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA), Porto Alegre, RS, Brasil. 3.4.1.1 Critérios de Inclusão *Adultos (≥ 18 anos). *Ambos gêneros * Diagnóstico clínico e/ou histológico de cirrose; *Diversas etiologias de cirrose; 32 *Ascite comprovada por ecografia ou exame clínico; *Não estar participando de programas dietéticos para ganho de peso. *Apresentar condições psíquicas e cognitivas suficientes para participação em estudo científico. *Consentir em participar do estudo através do Termo de Consentimento Livre Esclarecido (anexo A). 3.4.1.2 Critérios de Exclusão *Apresentar condições físicas para avaliação antropométrica; *Paciente com alguma amputação, que interfira na simetria corporal; *Paciente em uso de alimentação enteral; *Paciente com insuficiência renal crônica; * Paciente com pancreatite crônica; *Paciente oncológicos em estadiamento avançado; *Paciente com diarréia crônica; *Paciente com HIV+ sintomático; *Doença intestinal com conduzem a má absorção; *Alterações neuromusculares nos membros superiores. 33 Os pacientes que atendiam aos critérios de inclusão, foram classificados por suas condições clínicas por meio do escore de Child-Pugh58. Para a realização do processo, foram incluídos pacientes Child-Pugh A, B e C. Através das evoluções médicas em prontuários, era realizada a verificação da veracidade dos critérios de inclusão e exclusão 3.4.2 Fluxograma A coleta de dados foi realizada de abril de 2007 a janeiro de 2008 e concretizou-se por meio de avaliação clínica, avaliação nutricional antropométrica, dinamometria, bioimpedância elétrica e questionário de Avaliação Subjetiva Global. Os pacientes foram convidados a participar do estudo durante sua consulta médica de rotina e esclarecidos quanto à natureza e o objetivo do trabalho. O termo de consentimento informado foi aplicado e os procedimentos foram realizados naquele mesmo dia, entre 7 e 10 horas da manhã, com a mesma duração para cada paciente. Todos os pacientes incluídos neste estudo concordaram em participar dele e assinaram o termo de consentimento informado, aprovado pelos Comitês de Ética em Pesquisa da Santa Casa e da UFCSPA, detalhado no Anexo A. 3.4.2.1 Avaliação Clínica A anamnese foi constituída de dados de identificação, idade, gênero, peso habitual, atividade sócioeconômica, história social (tabagismo e etilismo), história de doenças crônicas. Além da anamnese dados como etiologia da cirrose, estadiamento da doença, medicamentos utilizados e exames complementares laboratoriais, de imagem ou anátomo patológico foram coletados. 34 3.4.2.2 Avaliação Nutricional Antropométrica 3.4.2.2.1 Peso, Altura e Índice de Massa Corporal (IMC) O peso e a altura foram aferidos de acordo com técnicas padronizadas.35 A mensuração do peso foi verificada na balança Filizola com escala de 100g. Após a balança e a escala estarem equilibradas, o paciente, com roupas leves e descalço, era pesado. Verificamos a altura com estadiômetro fixo na parede, com o paciente em posição ereta e descalço. O IMC foi calculado através da fórmula proposta por Quetelet*, onde IMC= Peso/altura2. Para a classificação do estado nutricional, utilizaram-se os parâmetros de referência propostos pela FAO/OMS 1995, conforme Anexo C. 3.4.2.2.2 Prega Cutânea Triciptal (PCT), Circunferência do Braço (CB) e Circunferência Muscular do Braço (CMB) A PCT foi medida verticalmente no ponto médio do braço, entre o acrômio e o olécrano na face posterior do braço não dominante, utilizando um plicômetro da marca Cescorf e classificada conforme os parâmetros de referência no Anexo C. Além da PCT, foi calculada a CB59, medida com fita métrica no ponto médio do braço, entre o acrômio e o olécrano no braço não dominante.60 De posse desses dois dados, calculamos a CMB. O diagnóstico nutricional através da CMB se deu, através da fórmula proposta por Blackburn e Thorton44, onde CMB= CB(cm) – 0,314 x PCT(mm) e classificada por Frisancho38, conforme descrito no Anexo C. 3.4.2.3 Avaliação Subjetiva Global (ASG) Na ASG, os pacientes foram questionados quanto a mudanças do peso habitual nos últimos seis meses, alterações dos hábitos alimentares, presença de sinais e sintomas gastrointestinais e distúrbios da capacidade funcional. Foi realizado, ainda, um exame físico, objetivando identificar mudanças na composição subcutânea: perda de gordura, massa muscular e presença de líquido extravascular. Cada item foi pontuado de acordo com a intensidade de alteração e um escore que 35 classifica a desnutrição foi obtido, de acordo com ele, os pacientes normais têm pontuação baixa até dezessete, pacientes com pontuação de 18 até 21 classificamse em leve ou moderadamente desnutridos e os gravemente desnutridos apresentam pontuação ≥ 22 podendo atingir níveis de até 35 pontos, como descrito no anexo C. 3.4.2.4 Avaliação por Força do Aperto de Mão (FAM) Para avaliar por meio do método FAM, os pacientes comprimem um dinamômetro de empunhadura com a mão não dominante, a fim de gerar tanta força quanta fosse possível. O paciente fica sentado em uma cadeira sem apoio para os braços e com os pés planos sobre o chão. O avaliador ajusta a alça do dinamômetro para se acomodar na mão do paciente. Quando o dinamômetro é comprimido, a segunda falange repousa sobre a alça ajustável. Uma vez que o dinamômetro foi ajustado para a posição correta, o paciente comprime a alça o mais forte possível. A mão segurando o dinamômetro deve ser mantida longe do corpo e da cadeira, enquanto o teste é realizado. Foi utilizado um dinamômetro de empunhadura com alça ajustável, dinamômetro mecânico da marca Baseline®, modelo Smedley Spring, fabricado no estado de New York, EUA, conforme mostra o anexo D. Foram realizadas três avaliações, com um intervalo de, pelo menos, 30 segundos entre elas. O ponteiro retornou ao zero depois de cada tentativa. Foi registrado o resultado do paciente aproximando do quilograma mais próximo. O resultado de maior valor das três avaliações foi utilizado como resultado-critério, e, posteriormente, classificado o estado nutricional conjuntamente com a idade e gênero do paciente, conforme exemplificado na tabela do Anexo C. 3.4.2.5 Avaliação por Bioimpedância Elétrica (BIA) O paciente esteve em decúbito dorsal, em posição confortável e relaxado, sem calçados, meias, relógio, pulseiras e colares. As pernas devem estar afastadas, as mãos abertas e apoiadas na maca. Um eletrodo distal é colocado na base do dedo médio do pé direito e o eletrodo proximal um pouco acima da linha da articulação do tornozelo, entre os maléolos medial e lateral. Outro conjunto de 36 eletrodos, da marca Skintak®, é distribuído da seguinte maneira: um eletrodo distal na base do dedo médio da mão direita e o eletrodo proximal um pouco acima da linha da articulação do punho direito, coincidindo com processo estilóide, como ilustrado abaixo: Figura 3 – Colocação dos eletrodos O aparelho utilizado para o exame é Biodynamics modelo 450, cuja intensidade da corrente elétrica é de 800µA e freqüência de 50 kHz. Sua bateria é de níquel-cádmio, recarregável, interna, com autonomia para aproximadamente 100 testes com carga total. Voltagem nominal: 8.4 Volts, capacidade nominal de 600mA/hora. Seu visor é de cristal líquido, composto de quarenta colunas e duas linhas. Sua impressora é termosensível, embutida e suas dimensões são de 8,3 cm de altura, 21,6 cm de comprimento e 31,8 cm de largura, o peso é de dois quilos, aproximadamente, conforme anexo E. As características para definição do exame são: amplitude de resistência de 200-1500 Ohms, o que gera resolução de resistência de 0,1 Ohm e precisão de 0,1%. A amplitude é de 0-300 Ohms, a resolução de 0,1 Ohm e a 37 precisão de reatância de 0,2%. O aparelho é composto também por uma amplitude de 0-20°, resolução de 0,1° e precisão do ângulo de fase de 0-2°. O AF deriva de dois segmentos da composição corporal, o qual é calculado utilizando a seguinte equação: AF = arcotangente (Xc/R) x 180/3,1416, proposta por Barbosa e col.54. Através do resultado do AF foi possível classificar o paciente conforme seu estado nutricional. Os pacientes foram classificados conforme dois parâmetros de referência: o primeiro, denominado BIA, foi embasado nos parâmetros de referência do estudo de Barbosa e col.54, que validou pontos de corte para o método, conforme idade e gênero de uma população de doentes, com variadas patologias, internados em um hospital americano. O segundo, BIA Cirrose, denominação dada pela autora deste trabalho, está relacionado à população de cirróticos incluída no estudo e tem como ponto de corte o valor de 5,44º. 3.5 Cálculo do tamanho da amostra O cálculo do tamanho da amostra fundamenta-se no estudo de Gottschall. 62 O número de pacientes necessários para identificar uma diferença de pelo menos 20% de confiabilidade entre as técnicas, com um nível de significância de 0,05 e poder de 90%, é de, no mínimo, 129 pacientes, os quais se submeterão às quatro técnicas. O cálculo foi realizado no programa PEPI (Programs for Epidemiologists) versão 4.0. 3.6 Análise estatística Foi realizada análise descritiva, através de médias e desvio padrão para variáveis contínuas de distribuição simétrica ou mediana e amplitude interquartílica para variáveis contínuas de distribuição assimétrica e freqüência absoluta e relativa para variáveis categóricas. Na comparação do estado nutricional entre as técnicas, foi utilizado o teste qui-quadrado de McNemar. 38 Para avaliar a concordância entre as classificações de BIA, foi aplicado o coeficiente de concordância Kappa. Para avaliar a associação entre os valores de referência de FAM e BIA com gravidade, etiologia da doença e características demográficas, foram utilizados os testes t-student ou Análise de Variância (ANOVA) one way para variáveis contínuas de distribuição simétrica e os testes Mann-Whitney ou KruskalWallis para variáveis contínuas de distribuição assimétrica. Para as comparações múltiplas, foram aplicados os testes de Tukey (distribuição simétrica) ou de MannWhitney (distribuição assimétrica). Para avaliar a associação entre as variáveis categóricas, o teste quiquadrado de Pearson foi aplicado. Considerou-se o nível de significância de 5% e as análises foram realizadas no programa SPSS (Statistical Package for the Social Sciences) versão 13.0. 3.7 Considerações Éticas Antes da inclusão, o paciente foi informado da natureza e do objetivo do estudo. Os procedimentos foram explicados a cada paciente. Uma cópia do documento de consentimento livre e esclarecido-Anexo A-, aprovado pelos comitês de ética da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre e do Complexo Hospitalar Santa Casa de Porto Alegre, foi lido e assinado pelo paciente, pelo pesquisador e, quando necessário, por uma testemunha. Uma cópia desse documento foi arquivada e outra, entregue ao paciente. A versão final do projeto e o documento de consentimento livre e esclarecido foram revisados pelos comitês de ética da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre e do Complexo Hospitalar Santa Casa de Porto Alegre, com aprovação no Comitê de Ética da UFCSPA como Projeto 33/6, em 9/11/06, Ofício 321/6; e Parecer 265/6. No Comitê de Ética do Complexo Hospitalar Santa Casa de Porto Alegre, teve aprovação em 12/06/06, com Protocolo número 1337/06, Parecer número 216/06. 39 4. RESULTADOS Foram avaliados 129 pacientes, com média de idade de 55 anos (± 11,4 anos com variação entre 20 a 78 anos), sendo 70 (54,3%) do gênero masculino e 59 (45,7%) do gênero feminino. As características clínicas dos pacientes cirróticos incluídos no estudo estão descritas na Tabela 1. Tabela 1 – Caracterização da amostra dos pacientes cirróticos Amostra Características Faixa etária (anos) total 20-39 40-49 50-59 ≥60 (n=129) (n=12) (n=25) (n=35) (n=57) 55,1 31,4 45,5 53,8 65,2 (11,4) (5,81) (2,58) (2,94) (4,35) Masculino 70 (54,3) 8 (66,7) 15 (60,0) 21 (60,0) 26 (45,6) Feminino 59 (45,7) 4 (33,3) 10 (40,0) 14 (40,0) 31 (54,4) A 91 (70,5) 11 (91,7) 15 (60,0) 23 (65,7) 42 (73,7) B 28 (21,7) 1 (8,3) 6 (24,0) 7 (20,0) 14 (24,6) C 10 (7,8) 0 (0,0) 4 (16,0) 5 (14,3) 1 (1,8) Álcool 33 (25,6) 1 (8,3) 8 (32,0) 9 (25,7) 15 (26,3) Vírus B 4 (3,1) 0 (0,0) 1 (4,0) 2 (5,7) 1 (1,8) Vírus C 56 (43,4) 1 (8,3) 11 (44,0) 18 (51,4) 26 (45,6) Vírus B + álcool 1 (0,8) 0 (0,0) 0 (0,0) 0 (0,0) 1 (1,8) Vírus C + álcool 11 (8,5) 1 (8,3) 1 (4,0) 3 (8,6) 6 (10,5) Criptogênica 5 (3,9) 2 (16,7) 0 (0,0) 1 (2,9) 2 (3,5) Auto-imune 5 (3,9) 2 (16,7) 1 (4,0) 1 (2,9) 1 (1,8) 14 (10,9) 5 (41,7) 3 (12,0) 1 (2,9) 5 (8,8) Idade (anos) – Média (DP) Gênero – n(%) Child – n(%) Etiologia – n(%) Outras 40 Na avaliação antropométrica, Tabela 2, observa-se que o peso, a altura, CMB, encontrados na população do gênero masculino são superiores aos do gênero feminino (p≤ 0,001), porém quando analisamos o PCT, o gênero feminino apresenta valores superiores ao masculino (< 0,001) . Por outro lado, não houve diferença entre os gêneros, quando analisados os parâmetros de IMC e a CB. Tabela 2 – Análise descritiva dos dados antropométricos conforme gênero Gênero Amostra Masculino Feminino total (n=70) (n=59) Média (DP) Média (DP) Média (DP) Peso (kg) 74,4 (14,9) 78,5 (15,6) 69,6 (12,6) 0,001 Altura (cm) 164 (9,19) 170 (6,49) 157 (7,00) <0,001 IMC 27,6 (5,16) 27,1 (4,73) 28,2 (5,61) 0,229 PCT 18,4 (9,24) 14,7 (7,93) 22,8 (8,80) <0,001 CB 30,4 (4,47) 30,1 (4,43) 30,7 (4,54) 0,478 CMB 24,6 (3,31) 25,4 (3,37) 23,5 (2,95) 0,001 Variáveis P* (n=129) *valor obtido pelo teste t-student para amostras independentes Na análise pelo método da Avaliação Subjetiva Global (ASG), apenas 20,2% dos pacientes analisados foram classificados como desnutridos, não apresentando diferença estatisticamente significativa da antropometria, como observado no Gráfico 1. Na avaliação da FAM, através da dinamometria, foram encontrados valores de ordem decrescente conforme o aumento da faixa etária nos pacientes do gênero masculino sendo verificada tendência semelhante no gênero feminino nas faixas etárias acima de 40-49 anos, conforme apresenta a Tabela 3. 41 Os pacientes do gênero masculino com ≤ 60anos e as pacientes do gênero feminino de todas as faixas etárias apresentaram significativamente menor quantidade de força (kg), quando comparados aos pacientes homens com idade abaixo dos 50 anos. Quanto ao gênero, ambas às populações apresentavam menor força para os que se encontravam na faixa etária maior de 60 anos, conforme Tabela 3: Tabela 3 – Avaliação da FAM conforme faixa etária e gênero Faixa Homens cirróticos Mulheres Cirróticas etária Média -2DP (DP) 20 – 39 41,4 33,3 21,0 30,3 10,9 27,6 (11,2) 10,8 22,2 4,04 (9,08) 15,2 (7,53) ≥ 60 19,8 (4,5) (11,2) 50 – 59 -2DP (DP) (10,2) 40 – 49 Média 16,0 1,46 (7,27) 5,2 15,8 0,00 (8,34) No método FAM e nos valores do ângulo de fase, as faixas etárias dos pacientes do gênero masculino encontram-se em valores de ordem decrescente, o que não ocorre entre os pacientes do gênero feminino. Mulheres e pacientes com idade ≥ 60 anos apresentaram significativamente menor ângulo de fase, quando comparados aos homens (p=0,041) e indivíduos abaixo de 50 anos (p=0,001), como explicado na Tabela 4. Observamos que apenas pacientes do gênero masculino com ≥ 60anos e pacientes do sexo feminino com idades de 50-59 anos apresentaram 42 significativamente menor ângulo de fase, quando comparados aos demais pacientes, conforme Tabela 4. Tabela 4 – Avaliação do ângulo de fase conforme faixa etária e gênero Faixa Homens Mulheres etária cirróticos cirróticas Média -2DP (DP) 20 – 39 8,40 6,35 3,16 6,52 4,01 5,63 4,31 7,39 0,00 (4,32) 2,44 (2,04) ≥ 60 6,57 (1,13) (1,17) 50 – 59 -2DP (DP) (2,62) 40 – 49 Média 5,47 2,23 (1,62) 3,41 (1,11) 7,18 0,00 (4,73) Conforme Gráfico 1, não há diferenças estatísticas entre os diferentes métodos antropométricos, exceto o IMC que só foi semelhante à PCT. A ASG detectou um número significativamente maior de desnutridos do que o IMC sendo semelhante nos demais parâmetros antropométricos. Observou-se que o método FAM detectou o maior número de desnutridos na população estudada, apresentando diferença significativa, quando comparado aos demais métodos (P=0,001). O percentual de desnutridos pelo método de BIA, encontrado na análise deste estudo, apresenta diferença estatisticamente significativa (P=0,001), quando comparado com os percentuais dos demais métodos, exceto para ASG (p=0,013), sendo o segundo método capaz de detectar um número maior de desnutridos. 43 % de risco nutricional ou desnutrição 80 69,3 70 d 60 50 c 40 34,1 30 b 20 10 5,4 a 11,6 ab b 14,0 CMB CB 13,2 b 20,2 0 IMC PCT ASG BIA FAM Métodos diagnósticos Gráfico 1 – Avaliação do percentual de indivíduos desnutridos conforme diferentes métodos de avaliação nutricional a,b,c,d Letras iguais não diferem pelo teste qui-quadrado de McNemar Na Tabela 5, observou-se que 129 pacientes foram avaliados pelo método BIA, enquanto 127 pelo FAM, dois pacientes tiveram impossibilidade de realização deste último, um por artrite gotosa, e o outro por não apresentar a mínima força, e manisfestar dor ao tentar comprimir a empunhadura. Na Tabela 5, nota-se que o número de desnutridos avaliados por FAM é proporcional ao número de nutridos por BIA e o percentual de nutridos por FAM é similar ao percentual de desnutridos por BIA. A maior prevalência referente à etiologia da cirrose nos desnutridos, de acordo com FAM e BIA, é o vírus C, os índices são respectivamente, 42(47,7%) pacientes FAM e 22(50%) BIA. Como segunda causa, foi constatado o álcool, com 21(23,9%) FAM e apenas 7 (15,9%) BIA. 44 Tabela 5 – Associação da etiologia da doença com a desnutrição avaliada por FAM e BIA FAM (127) BIA(129) Desnutrido Nutrido Desnutrido Nutrido (n=88; 69,3%) (n=39; 30,7%) (n=44; 34,1%) (n=85; 65,9%) n (%) n (%) n (%) n (%) Vírus C 42 (47,7) 13 (33,3) 22 (50,0) 34 (40,0) Álcool 21 (23,9) 12 (30,8) 7 (15,9) 26 (30,6) Outras 11 (12,5) 2 (5,1) 7 (15,9) 7 (8,2) Vírus C + álcool 7 (8,0) 4 (10,3) 5 (11,4) 6 (7,1) Criptogênica 3 (3,4) 2 (5,1) 1 (2,3) 4 (4,7) Auto-imune 3 (3,4) 2 (5,1) 1 (2,3) 4 (4,7) Vírus B 1 (1,1) 3 (7,7) 0 (0,0) 4 (4,7) Vírus B + álcool 0 (0,0) 1 (2,6) 1 (2,3) 0 (0,0) Etiologia Através do ângulo de fase, pelo método BIA, foi constatada uma associação significativa com o Child Pugh (p=0,008). Indivíduos Child Pugh C apresentaram ângulo de fase significativamente menor que os indivíduos classificados Child Pugh A e B. Dessa forma, optou-se por agrupar pacientes clinicamente classificados como A e B, como mostra a Tabela 6. Além do Child Pugh, notou-se associação significativa entre ângulo de fase, faixa etária e gênero. FAM não apresentou relação significativa com Child Pugh, mantendo relação com faixa etária e gênero, como já estabelecido como parâmetro de referência. 45 Tabela 6 – Associação entre os valores medidos por FAM e ângulo de fase com o gênero, faixa etária e Child Pugh dos pacientes. FAM Variáveis N Ângulo de fase Média (DP) P Mediana p (P25 – P75) Gênero – n(%) Masculino 70 31,2 (10,8) <0,001* 6,21 (5,61- 0,041*** 6,89) Feminino 59 17,2 (8,19) 5,45 (4,976,65) Faixa etária – n(%) 20 – 39 12 34,2 (13,6)a 0,001** 7,29 (6,52- 0,001**** 8,11)a 40 – 49 24 29,1 (11,6)a 6,59 (5,547,09)b 50 – 59 35 24,6 (10,2)ab 5,96 (4,976,69)bc ≥60 56 21,3 (11,3)b 5,62 (4,956,35)c Child – n(%) A 91 24,7 (11,2) 0,510** 6,03 (5,34- 0,008**** 6,81)a B 27 26,6 (14,3) 5,78 (5,196,96)a C 9 21,3 (11,7) 4,32 (3,725,82)b * Teste t-student para amostras independentes; ** Análise de Variância (ANOVA) one-way; *** Teste de Mann-Whitney; **** Teste de Kruskal-Wallis; a,b,c Letras iguais não diferem pelo teste de Tukey (paramétrico) ou de Mann-Whitney (não paramétrico) 46 No Gráfico 2, foi analisada a associação entre os métodos de FAM e BIA, os quais apresentaram maior número de desnutridos respectivamente, com a classificação da doença através da classificação Child Pugh A, B e C. Ficou demonstrado que o método BIA é o que apresenta relação significativa entre o Child Pugh C e a desnutrição. Métodos Diagnósticos 93,2 100 84,1 90 % de desnutridos 80 70 60 A/B C 50 40 30 15,9 20 6,8 10 0 BIA FAM Gráfico 2 – Associação entre os métodos de avaliação nutricional e o Child Pugh FAM: p=1,000; BIA: p=0,031; No Gráfico 3, observa-se a curva ROC (Curva Receiver Operator Characteristic), a qual foi construída para determinar o melhor ponto de corte do ângulo de fase de pacientes cirróticos, servindo como um dos parâmetros de referência para avaliação nutricional com BIA neste estudo, considerando a classificação Child Pugh como padrão de referência para as condições clínicas do paciente com cirrose. A autora utilizou a Curva ROC (Curva Receiver Operator Characteristic) para identificar o ponto de corte para desnutrição através do ângulo 47 de fase. Sendo assim, os pacientes com valores inferiores a 5,44º foram classificados como desnutridos e valores iguais ou acima de 5,44º foram classificados como nutridos. Como observado no Gráfico 3, foi comparado entre os métodos de BIA e FAM, a sensibilidade e a especificidade, sendo encontrado 68,9% - 70,0% e 49,2% - 56% respectivamente. 1,0 Ângulo de Fase Dinamômetro Linha de referencia Sensibilidade 0,8 0,6 0,4 0,2 0,0 0,0 0,2 0,4 0,6 0,8 1,0 1 - Especificidade Gráfico 3 – Curva Receiver Operator Characteristic (ROC) para determinar o ponto de corte para desnutrição para o ângulo de fase e FAM considerando o Child Pugh dicotomizado em grupo 1=A ou B e grupo 2=C, como padrão de referência para estado clínico de cirrose. Ângulo de Fase Área sob a curva: 0,794; IC95%:0,64-0,95 Ponto de Corte: <5,44: desnutrido; ≥5,44: bem nutrido; sensibilidade: 68,9% e especificidade: 70,0% FAM Área sob a curva: 0,565; IC95%:0,38-0,75 Ponto de Corte: <23: desnutrido; ≥23: bem nutrido; sensibilidade: 49,2% e especificidade: 56% 48 Na comparação entre os valores encontrados de pacientes classificados como desnutridos, utilizando as duas denominações do método BIA, ou seja, desnutridos por BIA, denominação que utilizou os parâmetros de referência de Barbosa e col.90 e BIA Cirrose, denominação intitulada pela autora deste estudo, observa-se a concordância de 80,6% dos casos, como ilustrado no Gráfico 4, sendo estatisticamente significativa (Kappa=0,566, p<0,001). O Gráfico 4 ilustra a concordância de 70,5% dos casos de desnutrição entre os dois parâmetros de referência BIA e BIA Cirrose, que discordam em apenas 29,5%. Houve equivalência de 85,9% dos casos de nutridos, com discordância de 14,1%. Concordância: 80,6% Kappa=0,566; p<0,001 100 90 29,5 80 70 85,9 60 Nutrido 50 40 BIA Desnutrido 70,5 30 20 14,1 10 0 Desnutrido Nutrido BIA Cirrose Gráfico 4 – Concordância entre a BIA e BIA Cirrose 49 5. DISCUSSÃO A amostra de pacientes cirróticos adultos apresenta uma proporção semelhante de gênero masculino e feminino, o que não é habitual na literatura, na qual a predominância é de pacientes masculinos.63 Nas faixas etárias mais baixas há mais proporções de homens, e, na de mais de 60 anos, predominam as mulheres. 63, 64 Quanto à classificação de Child-Pugh, de avaliação clínica, observamos que há progressão escalonada de pacientes Child-Pugh A e B em relação à idade, o que não se visualiza em pacientes Child-Pugh C. Contamos que os pacientes Child-Pugh C representam a minoria deste grupo de pacientes avaliados, o que pode dificultar a fidedignidade dos dados apresentados. Por outro lado, a característica de tais pacientes é que são pacientes ambulatoriais, portanto Child A e B em maior número, sendo menos frequente ChildPugh C nesta população. A etiologia da cirrose neste estudo foi, predominantemente, de pacientes portadores de vírus C, álcool e vírus C mais álcool, em proporção elevada, com peculiaridade regional, podendo diferir de outras localidades geográficas, o que pode mudar as características da etiologia. Além disso, é consenso que pacientes cirróticos apresentam características evolutivas de mau estado nutricional que se agrava conforme a história natural da doença. Inúmeros sintomas clínicos acometem o paciente com doença hepática crônica avançada como ascite, cujo efeito compressivo abdominal contribui para a saciedade precoce, a encefalopatia porto sistêmica, que altera o sensório, a palatabilidade e a ingestão. A hemorragia digestiva, que dificulta a adequada ingestão de nutrientes, favorece a desnutrição. Outros fatores que contribuem com o estado de desnutrição são anorexia, perda ponderal, náuseas e alterações metabólicas. 4, 22, 23, 25, 26, 27 A desnutrição pode ocasionar dano hepático pelas alterações metabólicas ou pela associação com infecções e agentes tóxicos que sensibilizam o fígado.4 Alberino e col.2 concluem que a desnutrição pode estar diretamente relacionada à má sobrevida dos hepatopatas crônicos, e a sua correção é um forte indicador de melhora da sua qualidade de vida, principalmente dos pacientes em 50 lista de espera para o transplante hepático. A detecção precoce da desnutrição do hepatopata crônico é um aspecto clínico de grande relevância e interfere positivamente na recuperação de pacientes.7, 65 A avaliação nutricional do cirrótico apresenta algumas dificuldades metodológicas pelas suas particularidades, e os estudos inseridos nesta linha de pesquisa sugerem não haver um padrão áureo para diagnosticar desnutrição nestes pacientes. Os cirróticos têm a sua condição clínica avaliada pela classificação de Child Pugh. Essa classificação valoriza elementos variados, no contexto laboratorial e clínico, entretanto, não especifica ou define o estado nutricional do paciente.66 Neste estudo, a gravidade clínica da cirrose foi avaliada pela classificação de Child-Pugh. Os métodos de avaliação nutricional utilizados na prática clínica, na caracterização de pacientes com as mais variadas condições e doenças são: a antropometria, a avaliação subjetiva global, a dinamometria, a bioimpedânia elétrica e exames mais sofisticados e de custo elevado, como a densitometria óssea e a tomografia computadorizada 7. Na tentativa de encontrar um método de menor custo, foi realizada a avaliação nutricional pela antropometria32, 62, 67, 68. Neste estudo, foram encontrados percentuais de desnutridos de 11,6% através do PCT e de 13,2% pelo CMB, dados discordantes de Abbott e col.69 e Alberino e col.2, que descrevem 54% de desnutridos no somatório dos dois métodos e reforçam os achados de Merli e col.70, que sugerem a CMB como um indicador de desnutrição grave em pacientes nos estágios iniciais da cirrose. Identifica-se a prevalência de sobrepeso na população estudada, quando analisado o IMC, podendo haver a forte relação com as condições clínicas do doente pela retenção hídrica e ascite. A antropometria demonstrou baixa sensibilidade para a detecção de desnutrição neste grupo, o que pode estar relacionado à elevada proporção de pacientes com a classificação clínica de ChildPugh A. 51 Utilizando o método ASG, encontrou-se o índice de 20,2% de desnutridos em uma população com as mesmas características de Gottschall e col.62 em seu estudo com cirróticos, onde aparece o índice de 38% de desnutridos classificados pela ASG. É importante, porém, lembrar que a ASG é um instrumento composto de variáveis quantitativas e qualitativas, sendo passível de interpretações variadas por se tratar de um método parcialmente subjetivo. Figueiredo e col.7, estudando 79 cirróticos, demonstraram que apenas um terço foram caracterizados como desnutridos pela ASG, sendo desconsiderados os que já apresentavam baixo grau de função hepática. Paradoxalmente, pesquisas concluem os benefícios do uso da ASG para evolução do estado nutricional de pacientes candidatos ao transplante hepático, enquanto outros estudos mostraram que a ASG detecta desnutrição em apenas 25% dos casos.7, 71, 72, 73 Foi observado que a ASG apresenta uma sensibilidade de 22% em pacientes com cirrose e subestima o estado nutricional desta população em 57%, superestimando em uma proporção de 6%.7 Ritter e Gazzola estabeleceram a ASG como boa opção para avaliação nutricional dos hepatopatas. As informações da história dos pacientes poderiam partir de seus familiares, porém sua aplicabilidade fica difícil quando há presença de ascite e restrição hídrica, por não estimar a perda de peso, a qual faz parte desta avaliação.74 Além disso, é importante salientar que a ASG detecta graus de comprometimento metabólico dos últimos seis meses, dificultando a avaliação do estágio inicial do mau estado nutricional. Coincidindo com a literatura, o método que apresentou a maior proporção de indivíduos desnutridos é FAM, com 69,3% dos casos. Além de não ser um método invasivo, é de fácil manejo e baixo custo.6, 62 Álvares-da-Silva e col.75 em sua discussão sobre qual o melhor método de avaliação nutricional, observam que a FAM apresenta capacidade de detecção de 100% dos casos de desnutrição sendo um método, segundo Norman e col.76 , que identifica precocemente a disfunção muscular encontrada em cirróticos, indicando o risco nutricional, antecedente ao estado comprometido de desnutrição. Na avaliação de cirróticos hospitalizados, identifica-se que FAM apresenta a melhor relação com a evolução do estado nutricional do cirrótico, pois no estudo, 89% de desnutridos classificavam-se em Child-Pugh B e C.77 52 Norman e col. apresentam correlação significativa entre o estado nutricional e a função muscular, conforme o grau de nutrição em pacientes alocados a participar do estudo, hospitalizados em uma instituição da Alemanha.76 Neste estudo demonstrou-se que FAM não apresenta relação estatisticamente significativa com a classificação Child-Pugh, aqui descrita como parâmetro para condição clínica do hepatopata crônico. Conhecendo as características clínicas de cada divisão do estadiamento da doença pelo método de Child-Pugh e sabendo que pacientes classificados como Child C são desnutridos por definição6 foi possível observar a maior concentração de desnutridos (93,2%), classificados por meio de FAM em Child A e B e apenas 6,8% em Child C, reforçando a não-relação com o Child-Pugh. O estudo utilizou os parâmetros de referência para FAM, validados por Álvares-da-Silva e col.49, com indivíduos ditos saudáveis, e observou-se discrepância, quando comparado aos valores encontrados na população de cirróticos, podendo ser este o fator que possa ter contribuído para superestimar a proporção de desnutridos cirróticos. Em um estudo com pacientes cirróticos, divididos em pacientes com e sem ascite, Pirlich e col.78 referem que a ascite não é um sinal clínico de maior impacto negativo para determinação da composição corporal. Os autores sugerem também que valores e equações específicos para cirróticos devam ser criados como parâmetro de referência para utilização da avaliação com a bioimpedância elétrica. Lee e Gallagher79 comparam BIA com demais métodos de custo elevado como densitometria, tomografia computadorizada, ressonância magnética, na tentativa de identificar um método de baixo custo, que seja efetivo para avaliar a composição corporal humana. Este estudo conclui que BIA apresenta pobre acurácia em avaliação individual ou em grupos, servindo para uma população específica, ou seja, indivíduos que não apresentem alterações corporais. Adicionando dados aos estudos com BIA, Lehnert e col.80 sugerem o uso do método de forma seriada, identificando e acompanhando a evolução do estado nutricional do cirrótico. Piccoli e col.81, 82, 83 descrevem que pacientes com alterações na composição corporal, como ascite e edema, devem ser avaliados por BIA de forma segmentada, podendo utilizar o ângulo de fase conjuntamente, analisando e classificando o doente através do método BIVA, o qual forma um gráfico das 53 condições clínicas do paciente, apresentando vetores com 50%, 75% e 95%, identificando sua resposta clínica frente ao tratamento que é empregado. A metanálise de Kyle e col 12,13 descreve que BIA não é um método apropriado para pacientes que apresentam larga alteração na composição geométrica corporal, exemplificando indivíduos com ascite. A mesma metanálise sugere que sejam realizados estudos com estes indivíduos, aplicando o uso de BIA de forma segmentar. A indicação do uso de BIA, aplicando-se a classificação do estado nutricional pelo ângulo de fase como valor de referência para o método, avalia a celularidade do indivíduo frente a sua doença. Schwenk e col84. hipotetizam o ângulo de fase como um marcador global para mal nutridos infectados por HIV, argumentam que o ângulo de fase reflete a integridade e vitalidade da membrana celular. Gupta e col.85 demonstram que o ângulo de fase é mais potente indicador de sobrevida que os parâmetros de avaliação nutricional tradicionais, como a albumina, pré-albumina e transferrina em pacientes com câncer avançado de pâncreas, e apresenta um ponto de corte para o ângulo de fase de 5,0º. Um estudo similar de pacientes com câncer de pulmão avançado estratificou-os em um ponto de corte, onde o ângulo de fase era 4,5 º 86. Estudos demonstraram a correlação do ângulo de fase como bom indicador prognóstico em situações clínicas graves.87, 88 Em estudo, também avaliando pacientes com hepatopatias crônicas, foi observado o ponto de corte de 5,4º para o ângulo de fase. Neste valor ou acima dele, considera-se o paciente dentro dos padrões de normalidade para bom estado nutricional, e pacientes abaixo deste valor são considerados desnutridos.15 Coincidentemente, nosso estudo encontrou como ponto de corte para caracterizar desnutrição um valor similar, de 5,44º, seguindo os mesmo parâmetros de classificação. Gupta e col.89 comparam BIA com ASG em pacientes com câncer colorretal e afirmam a importância do ângulo de fase no diagnóstico nutricional, cujo poder de corte do estudo foi de 5,7º. Norman e col.76 descrevem, no seu estudo de análise da utilização de BIA no diagnóstico nutricional, o ângulo de fase como um pobre indicador de sobrevida. Na sua análise, são descritas doenças de pacientes com câncer de pulmão, pâncreas e colorretal, e outras doenças como cirrose, doença pulmonar obstrutiva crônica, vírus da Imunodeficiência Humana e pacientes em hemodiálises. 54 BIA, através do ângulo de fase, foi o único método que apresentou relação estatisticamente significativa com o Child-Pugh. Porém, devido à limitação deste estudo referente a baixo número de pacientes Child-Pugh C e com faixa etária de 20-39, não foi possível validar parâmetro de referência específico para esta população, estratificando-se-os por idade, gênero e Child-Pugh. Baseado nesses dados, foi encontrado neste estudo o total de 34,1% de desnutridos, através do método BIA, sendo utilizado como parâmetros de referência o estudo de Barbosa-Silva e col.90, que valida os valores de referência para o ângulo de fase, para população de pacientes de um hospital americano, estratificando-os por idade e gênero, concordando com os achados do nosso estudo, pelo qual obtivemos a classificação de desnutrição em 33,3%, através do método BIA Cirrose, utilizando o ângulo de fase de 5,44º e existindo concordância de 80,6% entre eles. Embora se afirme que não há padrão áureo para avaliação do estado nutricional de cirróticos, sugerem-se estudos futuros com BIA, uma vez que mostrou ser um método com baixa margem de erro, quando comparado aos demais métodos. Reforça-se que é o único método que apresentou relação significativa com Child-Pugh, faixa etária e gênero. Além de concordar com os valores de referência de estudos internacionais, é um desafio explorá-lo ainda mais, pois estudos futuros poderão trazer maiores informações para precisar a avaliação nutricional dos hepatopatas crônicos. 55 6. CONCLUSÃO - A avaliação do estado nutricional dos cirróticos e sua comparação entre os diferentes métodos demonstram discrepâncias acentuadas, variando de 5,4% a 68,2% o percentual de desnutridos. - Os métodos FAM e BIA mostram uma variação muito grande, com percentuais de desnutrição, respectivamente, de 68,2% a 34,1%. - Na comparação com o escore Child-Pugh, o único método que se mostrou estatisticamente significativo foi BIA. - A identificação do ângulo de fase de 5,44º é o novo parâmetro sugerido para classificação do estado nutricional do cirrótico, podendo ser chamado de BIA Cirrose. 56 REFERÊNCIAS 1 ASPEN Board of Directors and the clinical Guidelines Task Force. 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GED: gastroenterologia endoscopia digestiva, São Paulo, v. 18, p. s3-s8, 1999. Suplemento. 65 SHERLOCK S.; DOOLEY J. Diseases of the liver and biliary systems. 11tth ed. Oxford: Blackwell Science, 2002. 66 D’AMICO, G.; GARCIA-TSAO, G.; PAGLIARO, L. Natural history and prognostic indicators of survival cirrhosis: a systematic review of 118 studies. Journal of Hepatology, Amsterdan, v. 44, n. 1, p. 217-231, Jan. 2006. 61 67 McCULLOUGH, A. J. et al. Nutritional therapy and liver disease. Gastroenterology Clinics od North America, Philadelphia, v. 18, n. 3, p. 619-643, Sept. 1989. 68 OWEN, O. E. et al. A reappraisal of caloric requirements in healthy women. American Journal of Clinical Nutrition, Bethesda, v. 44, n. 1, p. 1-9, July 1986. 69 ABBOTT W. J. et al. Child-Pugh class, nutritional indicators and early liver transplant outcomes. Hepatogastroenterology, Sttutgart, v. 48, n. 39, p.823-827, May/Jun. 2001. 70 MERLI, M.; RIGGIO, O.; DALLY, L. 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Disponível em: <http://pubmedcentral.nih. gov/picrender.fcgi?artid=2483715&blobtype=pdf>. Acesso em 2 jul. 2008. 90 BARBOSA-SILVA, M. C. G. et al. Bioelectrical impedance analysis: population reference values for phase angle bay age and sex. American Journal of Clinical Nutrition, Bethesda, v. 82, n. 1, p. 49-52, Jul. 2005. Disponível em: <http://www.ajcn.org>. Acesso em 3 dez. 2007. 63 ANEXOS 64 ANEXO A – Termo de Consentimento Livre e Esclarecido CONVITE À PARTICIPAÇÃO DE UM ESTUDO SOBRE AVALIAÇÃO DE PESO Estamos realizando um trabalho de pesquisa sobre avaliação do peso corporal durante o tratamento clínico. Para isto, gostaríamos de contar com a sua colaboração durante alguns minutos para responder a algumas perguntas e permitir que possamos pesá-lo(a), medi-lo(a) para avaliarmos o valor de gordura que contém no seu corpo. Essas medidas serão feitas com um aparelho chamado Adipômetro, o qual é indolor, não causando qualquer incômodo. Posteriormente será utilizado um aparelho chamado Bioimpedância, que mede sua composição corporal de líquidos, gordura e quantidade de músculos. Para finalizar, o senhor(a) apertará com uma das mãos um aparelho chamado de Dinamômetro, com o qual vamos medir sua força. Gostaríamos de deixar claro que esta pesquisa ocorre independente mentede seu tratamento e em nada influenciará caso o(a) senhor(a) não participe ou venha a retirar seu consentimento posteriormente. Asseguramos que todas as informações prestadas pelo(a) senhor(a) são sigilosas e serão utilizadas somente para esta pesquisa. A divulgação das informações será anônima e em conjunto com as respostas de um grupo de pessoas. Caso o(a) senhor(a) concorde, poderá passar as informações obtidas a partir desta pesquisa para o seu médico e isso poderá auxiliá-lo na compreensão de seu caso. Este estudo foi submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa da Instituição que garantiu sua aprovação. A participação deste estudo não gera nenhum ônus, ou seja, é totalmente gratuito. 65 Se houver alguma pergunta a fazer antes de decidir, sinta-se à vontade para fazê-la, ou ainda, caso sinta necessidade, entre em contato com: Nut. Sabrina A. Fernandes Dahlem Telefone: (051) 9998.9171 Prof. Dr. Cláudio Augusto Marroni Telefone: (051) 3214.8000 Data: ____/____/200 Nome do entrevistado: _____________________________________ Assinatura: _____________________________________________ Nome do entrevistador: ____________________________________ Assinatura: ______________________________________________ 66 ANEXO B – Protocolo de Pesquisa Protocolo de Pesquisa em Hepatologia Prof.Dr. Cláudio Augusto Marroni Aluna Sabrina Alves Fernades Dahlem 1. Dados de identificação: Nome: Idade: DN: / / Sexo: Data: / / Profissão: Telefone para contato: 2. Etiologia e Child-Pugh: 3. Co-morbidades: 4. Medicamentos Utilizados: 5. Avaliação Antropométrica: Peso Atual: Peso Usual: Estatura: IMC: CB: DCT: 6. Avaliação Muscular: Força do Aperto de Mão: Músculo Adutor do Polegar: Perda de Peso: CMB: 67 7. Bioimpedância Elétrica: Bioresistência: Reactância: Ângulo de Fase: 8. Avaliação Nutricional Subjetiva Global: 1. Alteração no peso Perda total nos últimos 6 meses = #_________kg; %perda = #_________% Alteração nas últimas 2 semanas: ____aumento, ____ sem alteração, ____ diminuição. 2. Alteração na ingestão alimentar ____ sem alteração ____ alterada ____ duração = # ____ semanas. ____ tipo: ____ dieta sólida subótima; ____ dieta líquida completa; ____ líquidos hipocalóricos; ____ inanição. 3. Sintomas gastrointestinais (que persistam por > 2 semanas) ____ nenhum; ____ náuseas; ____ vômitos; ____ diarréia; ____ anorexia. 4. Capacidade funcional ____ sem disfunção (capacidade completa) ____ disfunção ____ duração = # ____ semanas. ____ tipo: ____ trabalho subótimo; ____ ambulatório; ____ acamado. 5. Doença e sua relação com as necessidades nutricionais Diagnóstico primário (especificar): _____________________________________________ Demanda metabólica (estresse): ____ sem estresse; ____ baixo estresse; ____ estresse moderado; ____ estresse elevado. B. Exame físico (para cada categoria, especificar: 0 = normal, 1+ = leve, 2+ = moderada, 3+ =grave). # ____ perda de gordura subcutânea (tríceps, tórax) # ____ perda muscular (quadríceps, deltóide) # ____ edema de tornozelo # ____ edema sacral # ____ ascite C. Avaliação Nutricional Subjetiva Global (selecione uma) ____ A = bem nutrido ____ B = moderadamente (ou suspeita de ser) desnutrido ____ C = gravemente desnutrido 68 ANEXO C - Parâmetros de referência para diagnóstico nutricional CLASSIFICAÇÃO DO IMC CLASSIFICAÇÃO VALOR DO IMC < 16 kg/m2 Magreza Severa grau III 2 16 – 16,9 kg/m Magreza Moderada grau II 17 – 18,4 kg/m2 Magreza Leve grau I 2 18,5 – 24,9 kg/m Eutrofia 25 kg/m2 Excesso de Peso > 25 – 29,9 kg/m2 Pré- Obesidade 2 30 – 34,9 kg/m Obesidade Leve ou Grau 1 35 – 39,9 kg/m2 Obesidade Moderada ou Grau 2 40 ou + kg/m2 Obesidade Grave ou Grau 3 Fonte: Organização Mundial de Saúde (OMS) 1995 Adequação da CB (%) = CB obtida (cm)/CB percentil 50 x 100 CB Desnutri. Grave <70% Desnutri. Desnutri. Moderada Leve 70-80% 80-90% Eutrofia 90-110% Sobrepeso Obesidade 110-120% >120% Fonte: Blackburn, G.L. & Thornton, P. A ., 1979 / FRISANCHO, A. R., 1981 Adequação da CMB(%)= CMB obtida (cm)/CMB percentil 50 x 100 Desnutrição Desnutrição Desnutrição Eutrofia grave moderada leve <70% 70 – 80% 80 – 90% 90% CMB Fonte: Blackburn, G.L. & Thornton, P. A ., 1979 / FRISANCHO, A. R., 1981 Adequação da PCT (%) = PCT obtida (mm)/PCT percentil 50 x 100 PCT Desnutri. Grave <70% Desnutri. Desnutri. Eutrofia Sobrepeso Obesidade Moderada Leve 70 – 80% 80 – 90% 90 – 110% 110 -120% >120% Fonte: Blackburn, G.L. & Thornton, P. A ., 1979 / FRISANCHO, A. R., 1981 % Gordura Corporal: = (dobra cutânea triciptal + dobra cutânea subescapular + dobra cutânea supra-íliaca + dobra cutânea abdominal x 0,153) + 5,783 Fonte: Faulkner, considera-se normal o percentual de gordura até 20% 69 CLASSIFICAÇÃO DO ÂNGULO DE FASE Ângulo de fase conforme faixa etária e gênero1 Faixa Homens Mulheres etária (n=832) (n=1135) P2 18-20 7.90±0.47 (6.97, 8.75) [17] 7.04±0.85 (5.90, 8.91) [20] <0.001 20-29 8.02±0.75 (6.83, 9.17) [178] 6.98±0.92 (5.64, 8.55) [171] <0.001 30-39 8.01±0.85 (6.64, 9.48) [178] 6.87±0.84 (5.57, 8.36) [242] <0.001 40-49 7.76±0.85 (6.53, 9.00) [121] 6.91±0.85 (5.57, 8.33) [165] <0.001 50-59 7.31±0.89 (6.12, 8.68) [106] 6.55±0.87 (5.48, 7.96) [205] <0.001 60-69 6.96±1.10 (5.40, 8.88) [111] 5.97±0.83 (4.69, 7.48) [180] <0.001 ≥70 6.19±0.97 (4.77, 8.01) [121] 5.64±1.02 (4.22, 7.04) [152] <0.001 Fonte: BARBOSA-SILVA, M. C. G. et al. Bioelectrical impedance analysis: population reference values for phase angle bay age and sex. American Journal of Clinical Nutrition, Bethesda, v. 82, n. 1, p. 49-52, Jul. 2005. Disponível em: <http://www.ajcn.org>. Acesso em 3 dez. 2007. 1 2 Todos os valores são Teste t ± SD; 5% e 95% no parênteses. n são os valores nos colchetes. CLASSIFICAÇÃO DE FAM Valores em kgf da força do aperto de mão não-dominate (média, 1 e 2 desvios-padrões) por idade e gênero Faixa etária Gênero masculino DP I (20-29) II (30-39) III (40-49) IV (50-59) V (60-69) 72,5 (12,6) 71,9 (15,2) 63,9 (12,9) 58,1 (15,5 49,9 (5,62) Gênero masculino decrescido 1 DP 59,9 56,7 51,0 42,6 44,3 Gênero masculino decrescido 2 DP 47,3 41,5 38,1 27,1 38,7 Gênero feminino DP 43,8 (10,8) 40,6 (6,62) 40,1 (7,64) 37,1 (6,65) 35,5 (4,27) Gênero feminino decrescido 1 DP 33,0 33,9 32,5 30,5 31,2 Kgf-quilogramaforça Fonte: Álvares da Silva, M.R. e Silveira, T.R. Non-dominant hand grip strength study in healthy individuals. Determination of reference values to be used in dynamometry. GED-Vol. 17, nº6-Nov/Dez, 1998,. Gênero feminino decrescido 2 DP 22,2 27,4 24,8 23,8 26,9 70 ANEXO D – Dinamômetro 71 ANEXO E – Bioimpedância elétrica