O POSITIVISMO DE COMTE
Maria Célia Simon
Mestra em Filosofia e Doutoranda em Filosofia de Edu­
cação e professora de Filosofia na Universidade de Santa
Úrsula.
“A fé positiva expõe diretamente as leis efetivas dos diver­
sos fenômenos observáveis, quer interiores, quer exterio­
res, isto é, as suas relações constantes de sucessão e seme­
lhança que nos permitem prevê-los, uns em função dos
outros. Afasta, como radicalmente inacessível e profunda­
mente inútil, toda a investigação sobre as causas... pri­
meiras ou finais, de qualquer acontecimento. Nas suas con­
cepções teóricas, explica sempre como e nunca por quê. . .
O dogma fundamental da religião universal consiste, por­
tanto, na existência constatada de uma ordem imutável, à
qual todos os gêneros de acontecimentos estão sujeitos.”
A. Comte
A palavra positivismo tem um sentido muito amplo, podendo
designar seja uma teoria que exclua toda e qualquer negação, toda e
qualquer contradição e afirme apenas o positivo, o idêntico, seja
uma doutrina que considere como objeto do conhecimento positivo
somente os dados do sentido (como o antigo ceticismo ou algumas
das tendências da ilustração).
Em seu sentido mais estrito, entretanto, e de acordo com seu
significado mais propriamente histórico, a palavra designa a doutrina
e a escola fundadas por Augusto Comte, no século XIX. Seu posi63
tivismo compreende não só uma teoria da ciência, mas também, e
simultaneamente, uma determinada concepção da história e uma pro­
posta de reforma da sociedade e da religião. É desse positivismo que
vamos tratar aqui.
A. Comte (1798-1857) nasceu em Montpellier, França, de uma
família católica e monarquista, mas muito cedo vai para Paris —
em 1814, como aluno da Escola Politécnica — cidade na qual
permanecerá a maior parte de sua vida. Foi em Paris que ocorreram
os dois encontros que iriam determinar as duas grandes etapas da
sua obra. Em 1817, um ano depois de sair da Escola Politécnica,
da qual foi expulso, Comte conheceu H. de Saint-Simon (1760-1825),
de quem tornou-se secretário e colaborador até 1824, quando ocorreu
a ruptura definitiva entre os dois pensadores. Mas foi certamente
influenciado por Saint-Simon e, pode-se dizer, é com pouca origina­
lidade que Comte concebeu a criação de uma ciência social e de
uma política científica.
Em outubro de 1844, aos 47 anos, Comte experimentou o
segundo encontro fundamental de sua vida, o encontro com a mulher
que viria exercer sobre seus sentimentos, sobre seu pensamento e sobre
o estilo de sua obra uma extraordinária influência: Clotilde de Vaux.
Comte se apaixonou por ela, amando-a platonicamente até sua morte
precoce, dois anos mais tarde, e todo o restante de sua vida e de
sua obra levariam a marca desse amor, melhor dizendo, dessa vene­
ração, que tomou um sentido messiânico e religioso.
Se esses dois encontros — com Saint-Simon e Clotilde de
Vaux — efetivamente marcaram a vida e a obra de Comte, todavia,
outras influências também significativas não podem deixar de ser
mencionadas.
Condorcet em sua obra Esboço de um quadro histórico dos progres­
sos do espírito humano. Por exemplo, a idéia de que o progresso
é uma lei da história da humanidade que, na medida em que adquire
mais conhecimentos e em que aperfeiçoa seus meios técnicos, adquire
também mais riquezas, mais felicidade e mais segurança. Reforçando
e legitimando tais idéias aparece a crença na eficácia das ciências
da natureza e de uma possível ciência da sociedade.
Mas, a rigor, o pensamento de Comte só se torna efetivamente
compreensível sobre o pano de fundo da sociedade francesa da
primeira metade do século XIX, profundamente abalada pelos con­
flitos resultantes do processo de transformações econômicas e políticas
posteriores à Revolução de 1789: a era napoleônica, a derrubada de
Carlos X, em 1830; as revoltas de Lyon e Paris, em 1832 e 1834;
a revolta de Paris, em 1839; as duas revoltas de Paris em 1848 e o
golpe de Louis Bonaparte.
Nesse contexto, a filosofia de Comte se inscreve, consciente­
mente, na onda contra-revolucionária e ultraconservadora que se
seguiu a 1789. Embora guardando algumas diferenças significativas,
encontramos na sua obra algum parentesco com a tradição romântica,
católica e conservadora, representada na França, especialmente por
Bonald e de Maistre. Esta tradição propunha como remédio para
o que era visto como desordem, anarquia e mudanças radicais resul­
tantes do avanço burguês, a volta à unidade espiritual vivida pela
civilização católico-feudal. Ainda de acordo com esta tradição,
somente esta unidade espiritual poderia dar sentido e direção a todas
as atividades do gênero humano.
Ainda como estudante da Escola Politécnica, onde adquiriu uma
sólida formação matemática e científica, Comte tomou conhecimento
de vários trabalhos de cientistas da época. A Mecânica Analítica do
matemático Langrange (1736-1813), por exemplo, teria inspirado
Comte a conceber os princípios das várias ciências dentro de uma
perspectiva histórica.
Embora Comte percebesse, desde o início, a decadência irrecupe­
rável da velha concepção religiosa do mundo, embora tivesse clareza
que a unidade espiritual fornecida pelo catolicismo medieval (que,
a seu tempo, tinha sido responsável pela direção moral e espiritual
e pela “organicidade” da sociedade) estivesse definitivamente ultra­
passada, ele recuperou em sua religião da humanidade a própria
idéia da necessidade de uma unidade espiritual para a sociedade, que
lhe pudesse dar sentido e direção e que possibilitasse fazer face à
anarquia mental do ideário democrático burguês.
A influência mais marcante em sua formação foi, entretanto,
Condorcet (1743-1794), ao qual Comte se referiria mais tarde como
“meu imediato predecessor”. De fato, alguns dos pontos fundamentais
da filosofia de Comte se inscrevem na perspectiva definida por
Encontramos, ainda, na obra de Comte, conceitos próprios a
esta corrente conservadora, conceitos intimamente relacionados com
a ordem e a estabilidade social: a tradição, a autoridade, a coesão,
o ajuste, a função, a norma, o ritual etc.
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Se estas são as principais e mais notáveis influências na obra
de Comte é preciso lembrar, ainda, que ele foi leitor dos chamados
“ideólogos” franceses do século XVIII (como Destutt de Tracy,
Cabanis e Volney, bem como de teóricos da economia política inglesa,
como Adam Smith e de filósofos e historiadores como David Hume
e William Robertson.
Sua produção teórica foi intensa, incluindo os opúsculos da
juventude, os seis volumes do Curso de filosofia positiva (de 1830
a 1848), os quatro volumes do Sistema de política positiva (de 1851
a 1854), o Catecismo positivista (1850), a Síntese subjetiva (1856)
entre outros.
Muito se discute, especialmente entre os seguidores de Comte,
se o conjunto da sua obra apresentaria, ou não, um caráter unitário.
Há os que afirmam que a obra de Comte estaria dividida em duas
partes: uma “aceitável”, a parte filosófica, a reflexão sobre os métodos
científicos, contida no Curso de filosofia positiva, e outra “desprezí­
vel”, a parte ético-religiosa, contida, basicamente, no Sistema de polí­
tica positiva. Há ainda autores que consideram que a obra de Comte
apresentaria, além dessas duas fases, uma anterior representada pelos
opúsculos de juventude. E, finalmente, há os que afirmam a unidade
fundamental da obra, considerando que a feição política e religiosa
de sua obra está em perfeito acordo com a parte mais propriamente
“científica”.
Na verdade, o próprio Comte afirmava o caráter unitário de
sua obra e, se o tom, o vocabulário e até mesmo alguns conceitos
que se distinguem nos vários momentos da sua obra, para melhor
compreendê-la é necessário considerá-la em bloco. Embora em um
primeiro momento as questões de cunho filosófico e de metodologia
das ciências não sejam tratadas de forma explicitamente “religiosa”,
esta perspectiva está subjacente à sua proposta de estabelecer uma
escala enciclopédica das ciências, assim como a de erguer, a partir
desta escala, o “conhecimento positivo” que iria, finalmente, reformar
moral e intelectualmente a sociedade.
Após essas considerações iniciais, que visaram situar um pouco
a obra de Comte, vejamos os três fatores básicos que caracterizam
o seu sistema.
Em primeiro lugar, uma filosofia da história que se propõe a
fundamentar porque a filosofia positiva é a que deve imperar defini­
tivamente no futuro do desenvolvimento da humanidade.
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Em segundo lugar, uma fundamentação e uma classificação das
ciências assentadas na filosofia positiva. Enquanto tal, o positivismo
de Comte assinala o fim de uma problemática das mais fundamentais
do pensamento moderno, qual seja a questão do conhecimento, a
teoria do conhecimento. Como aponta Habermans, em seu lugar o
positivismo propõe e instala uma teoria da ciência1. Em outras pala­
vras, o positivismo inaugurado por Comte confirma o enunciado
básico do cientificismo do século XIX, segundo o qual o conhecimento
define-se, implicitamente, pelas realizações da própria ciência. É neste
sentido que se pode falar que se trata de uma “perversão” cientificista
da razão.
Em terceiro lugar, finalmente, uma sociologia, ou uma doutrina
da sociedade, que, ao determinar a sua estrutura essencial, permite
a proposta de realização de uma reforma prática da sociedade como
um todo e, finalmente, uma reforma religiosa, a criação da religião
da humanidade.
2
Vejamos, inicialmente, os dois primeiros aspectos apontados
acima, isto é, o positivismo compreendido como uma certa filosofia
da história e como proposta de fundamentação e classificação
das ciências. Os dois aspectos, a rigor, não podem ser vistos sepa­
radamente.
Embora reivindicando “ter descoberto uma grande lei funda­
mental”, Comte, de fato, adota a concepção de Condorcet e SaintSimon, segundo a qual o espírito dos indivíduos, assim como a
espécie humana, descrevem um movimento histórico que atravessa
um estágio teológico e um estágio metafísico, antes de chegar ao
estágio definitivo do espírito positivo. Em suas palavras:
Estudando, assim, o desenvolvimento total da inteligência humana
em suas diversas esferas de atividade, desde seu primeiro vôo mais
simples até nossos dias, creio ter descoberto uma grande lei funda­
mental, a que se sujeita por uma necessidade invariável... Essa lei
consiste em que cada uma de nossas concepções principais, cada ramo
de nossos conhecimentos, passa sucessivamente por três estados his­
tóricos diferentes: estado teológico ou fictício, estado metafísico ou
abstrato, estado científico ou positivo2.
1. HABERMAS, Jürgen. Conhecimento e interesse, Rio de Janeiro, Zahar,
1982, p. 89.
2. COMTE, Auguste. Cours de philosophie positive, Paris, J. B. Balliere
et Fils, 1869, 6 vol., l.a lição, p. 15.
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No estado teológico-militar, de acordo com Comte, o espírito
humano explica os fenômenos como tendo sido produzidos pela ação
de seres sobrenaturais, isto é, são as divindades que fornecem o quadro
de compreensão dos fenômenos que ocorrem a seu redor. Dentro
desse estado, o espírito humano passa por uma fase fetichista —
no qual é atribuída aos seres naturais vida espiritual semelhante à
dos homens — a politeísta — na qual os seres naturais são
despidos da “espiritualidade humana”, e sua animação é atribuída
a seres de um mundo superior — e uma fase monoteísta — na qual
todas as divindades são reduzidas a uma só, e que já significa uma
transição para o espírito metafísico3. Neste estado as relações sociais,
tanto as particulares quanto as gerais, são militares, e a sociedade
tem por fim único a conquista. A escravatura dos produtores é a
instituição principal.
No estado metafísico-legislador, tal como no teológico, o espírito
humano procura “... explicar a natureza íntima dos seres, a origem
e o destino de todas as coisas, o modo essencial de produção de
todos os fenômenos”4. Mas, agora, diz Comte, não são mais os agentes
sobrenaturais que fornecem o quadro de compreensão dos fenômenos.
Em um primeiro momento, o estado metafísico concebe forças ocultas
para explicar a realidade, e fala-se de uma força física, de uma força
química, de uma força vital. Em um segundo momento, todas forças
são reunidas em uma só, a “natureza”, que fornece a unidade expli­
cativa, tal como o deus único da fase teológica monoteísta.
O estado metafísico é um estado de transição e, na perspectiva
de Comte, sua principal característica é a de dissolução do estado
teológico. “A metafísica não é, no fundo, mais do que uma
espécie de teologia gradualmente inervada por simplificações dissol­
ventes...”5. É este estado, também, que substitui a imaginação,
própria do estado teológico, pela argumentação que se exerce contra
o domínio das idéias teológicas, trazendo à luz suas contradições e
destruindo a afirmação da subordinação do homem e da natureza
ao sobrenatural; por ser um tempo de transição, abre-se aí o espaço
para que a observação própria do estado positivo progressivamente
se imponha e rompa os limites a ela impostos.
3. COMTE, Auguste. Discurso sobre o espírito positivo (Os pensadores.)
São Paulo, Abril Cultural, 1978, pp. 44-45.
4. Ibid., p. 47.
5. Ibid., p. 47,
68
Do ponto de vista das relações sociais a conquista antes domi­
nante começa a ceder espaço para a indústria e questões abstratas
como soberania popular, sufrágio universal, liberdade, pacto social
etc., tornam-se pontos de discussão. “A indústria é inicialmente
conduzida e protegida como meio militar. Mais tarde, a sua impor­
tância aumenta e a guerra acaba por ser concebida,... como meio
de favorecer a indústria...”6.
Mas, diz Comte, finalmente chega o tempo em que o espírito
humano “renuncia de vez às pesquisas absolutas que só convinham
à sua infância” e atinge o terceiro estado, o científico-industrial.
Nele todas as idéias teóricas particulares se tornam positivas e a
imaginação e a argumentação são substituídas pela “... verdadeira
observação, única base possível dos conhecimentos verdadeiramente
acessíveis sabiamente adaptados a nossas necessidades reais”. E
acrescenta: “Numa palavra, a revolução fundamental, que caracte­
riza a virilidade de nossa inteligência, consiste essencialmente em
substituir em toda parte a inacessível determinação das causas
propriamente ditas pela simples pesquisa das leis, isto e, relações
constantes que existem entre os fenômenos observados”7.
Do ponto de vista das relações sociais, todas as relações parti­
culares se estabelecem, pouco a pouco, sobre bases industriais e a
atividade da produção torna-se o único e permanente objetivo. É essa
idade instaurada pelo positivismo idade “pacífica e industrial”, idade
em que a ciência, com a descoberta das leis naturais se empenha
em realizar a total submissão da natureza ao homem: saber para
prever, prever para poder.
Isto é, segundo Comte, o conhecimento
entre os fenômenos torna possível determinar
vimento. A previsibilidade científica permite
técnica e assim o estado positivo corresponde
da exploração da natureza pelo homem.
das relações constantes
o seu futuro desenvol­
o desenvolvimento da
à indústria, no sentido
Pode-se notar que a lei dos três estados de Comte revela o
caráter de sua utopia, isto é, a sociedade capitalista idealizada à
qual ele procura conferir as virtudes de uma sociedade orgânica,
6. COMTE, Auguste. Opuscules de philosophie sociale, Paris, Leroux, 1883,
p. 149.
7. COMTE, Auguste. Discurso, loc. cit., p. 47-48.
8. HENRIQUES, Luiz Sérgio. “Comte e a decadência ideológica”, in Temas,
São Paulo, Livraria Editora Ciências Humanas, n.° 5, 1979.
69
historicamente necessária, estágio final da evolução progressiva da
humanidade em direção ao espírito positivo8. Progresso, como em
Condorcet, que é uma lei necessária da história humana e, enquanto
tal, legitimadora da ordem burguesa de seu tempo.
3
É preciso salientar, ainda, uma característica relevante da lei
dos três estados porque ela nos facilita compreender sua ligação com
a classificação das ciências realizada por Comte: o movimento no
sentido de uma unificação que se opera no interior de cada estado.
Assim, o estado teológico tende para a idéia de um ser sobrenatural
único, tendência que se realiza na fase monoteísta; no estado meta­
físico, é a idéia de natureza que aparece como elemento unificador
e, finalmente, no estado positivo, o método positivo cumprirá esse
papel.
Como lembra Habermas, “A teoria da ciência de Comte remete
a regras metodológicas que, supostamente, têm todas elas cobertura
(científica) por intermédio do designativo “positivo”; o “espírito
positivo” enleia-se em condutas metodológicas que asseguram a
comtificidade”9.
O próprio Comte nos diz, no Curso de filosofia positiva:
É pelas matemáticas que a filosofia positiva começou a formar-se,
é dela que nos vem o método. Era por conseguinte, naturalmente, ine­
vitável que, quando a mesma maneira de proceder teve de se esten­
der a cada uma das outras ciências fundamentais, esforçou-se para
introduzir o espírito matemático. Entretanto ( . . . ) cada ciência ao
desenvolver-se acarreta, no método positivo geral, modificações de­
terminadas pelos fenômenos que lhe são próprios, donde resulta sua
natureza especial. É somente então que ele se reveste de seu caráter
definitivo, que não deve nunca ser confundido com o de nenhuma
outra ciência fundamental 10.
Ou seja, embora Comte se refira a um “método positivo geral”,
cada ciência desenvolve especialmente tal ou qual de seus processos
característicos. Assim, em certos campos é a observação propria­
mente dita (na astronomia), em outros a experimentação (na física),
em outros a classificação (na química), a comparação (na fisiologia)
e a filiação histórica (na física social). Em outras palavras, há uma
9. HABERMAS, Jürgen. Conhecimento, loc. cit., p. 94-95.
10. COMTE, Auguste. Cours, loc. cit., VI, p, 89.
70
indispensável unidade do método que irá se enriquecendo na medida
em que se aplica às diversas ciências.
De acordo com Comte não se pode separar método e doutrina
e ele considera como metafísica — fase ultrapassada da história, por­
tanto — a possibilidade de se estudar uma teoria geral do método,
fora de sua efetiva aplicação em cada uma das ciências positivas.
Assim, quando ele fala da unidade do método, não está pensando
em lhe atribuir um valor absoluto, abstraído da efetiva aplicação
científica. Em suas palavras”... o vigor e a influência de um método
medem-se pelo número e pela importância de suas aplicações: aqueles
que nada mais produzem deixam logo, absolutamente, de ser em­
pregados”11.
Se o elemento unificador do estado positivo não é pensado por
Comte como um pólo anterior e exterior às ciências, como um
absoluto, mas como tendo sentido apenas na aplicação prática nas
ciências, como se exerce a sua função unificadora?
O que importa, para
finam a homogeneidade das
do método é indispensável,
basta ser homogênea. Uma
mogêneas, fica estabelecido
classificação.
Comte, é estabelecer parâmetros que de
ciências. Ele mesmo diz que a unidade
mas não a unidade da doutrina. A esta
vez que as ciências foram tornadas ho­
o critério racional que possibilita a sua
A classificação das ciências por ordem lógica e cronológica tem
em vista a comparação e a dependência entre elas. Isto é, Comte
busca um determinado número de categorias ordenadas de tal forma
que cada uma delas se fundamenta no conhecimento das leis fun­
damentais da categoria precedente, e se torna fundamento do estudo
da seguinte. O ponto de partida são os fenômenos mais simples e
mais gerais, e a complexidade crescente e a generalidade decrescente
será a ordem à qual a classificação das ciências estará submetida.
Comte se preocupa apenas com as ciências fundamentais que,
de acordo com essa ordem, assim se classificam: astronomia, física,
química, fisiologia vegetal e animal e física social12. A matemática,
diz Comte, “é um berço e não um trono”, e deve ser considerada
por si mesma, como a verdadeira base de toda a filosofia natural,
uma espécie de lógica geral de todas as outras.
11. Ibid., p. 86.
12. Ibid., p. 88.
71
Todas essas ciências passam pelos três estados e quanto mais
simples e abstrata é uma ciência tanto mais rapidamente entra no
estado positivo. Primeiro, a matemática, por último, a física social,
pela complexidade de seus problemas e pela sua concreção.
Uma vez atingido o estado positivo, cada uma delas se constitui
em base teórica da ciência subseqüente em função da dependência
prévia dos fenômenos respectivos. Aliás, como diz Habermas, com
essa última Comte renova o conceito enciclopédico das ciências, na
medida em que a física social se beneficia de toda a metodologia
utilizada pelas ciências anteriores (observação, experimentação, com­
paração) até o método que lhe é próprio, a filiação histórica. A
física social era para Comte a própria história ou a própria filosofia
da história. História evolutiva da humanidade, cuja herança cultural
veio se acumulando como uma bola de neve.
Não se deve esquecer, de qualquer forma, que a classificação das
ciências funciona também como um critério “sociocrático”, onde
Comte designa a cada cientista a sua tarefa específica, proibindo-lhe
transgredir as fronteiras que separam uma disciplina da outra. A
ordem das ciências segundo os graus de generalidade decrescente
e com complexidade crescente serve tanto para preparar transições
quanto para confinar cada ciência em seu próprio compartimento.
Cada ciência ocupa-se apenas com certo número de fenômenos
irredutíveis uns aos outros. Por isso mesmo Comte diz que não ha­
verá identidade entre elas, apenas homogeneidade, garantida pelo
método.
Nota-se a ausência da psicologia na classificação das ciências
fundamentais. Na verdade, para Comte “... não há a nenhum título,
lugar para esta psicologia ilusória, última transformação da teolo­
gia ...” e denuncia como estéril “este pretenso método psicológico”
que é a introspecção. O espírito humano, diz ele, pode observar
diretamente todos os fenômenos, exceto os seus próprios, pois por
quem seria feita a observação? A insistência neste método fez com
que a psicologia jamais conseguisse chegar a “... uma só proposição
inteligível e solidamente estabelecida... A observação interior gera
quase tantas opiniões divergentes quantos os indivíduos que julgam
fazê-la”13. Por outro lado, na tradição das explicações materialistas,
Comte reputava a psique como um conjunto de funções cerebrais a
13. Ibid., p. 34.
72
ser estudado pela ciência correspondente a este tipo de fenômeno,
qual seja a fisiologia.
Aliás, na lista de proibições de Comte, entram ainda a pretensa
ciência dos economistas”, a astrofísica, as buscas sobre a estrutura
da matéria, “as afirmações gratuitas de Darwin”, entre outras. E é
bom lembrar a pitoresca crítica ao cálculo de probabilidades, um
“... pretenso cálculo do acaso, que supõe implicitamente a ausência
de toda lei real a respeito de certos acontecimentos, sobretudo quando
o homem neles intervém”14.
Que papel cumpre, então, a filosofia da história de Comte? Como
dizíamos no início, o seu positivismo confirmando o enunciado fun­
damental do cientificismo do século XIX, segundo o qual o conheci­
mento define-se explicitamente pelas realizações da própria ciência,
reduzirá a questão do conhecimento à questão da ciência, substituirá
a teoria do conhecimento pela teoria da ciência. Dessa forma, o papel
que a filosofia da história de Comte irá cumprir será o de legitimar
a proposta desta teoria da ciência, afirmando como necessidade his­
tórica o advento definitivo do estado positivo e do único conheci­
mento legítimo, aquele proporcionado pelas ciências.
Vamos tentar, explicitar melhor esta questão. Para isso será pre­
ciso voltar um pouco na história e recuperar o momento em que o
conhecimento se torna uma questão — a questão do seu sentido,
de suas condições de possibilidades — e são elaboradas as várias teo­
rias do conhecimento procurando encontrar respostas à questão bá­
sica do conhecimento.
Estamos falando da época moderna, era do mundo como re­
presentação contemporânea de uma profunda transformação no que
diz respeito à posição do homem no mundo. E isso não se dá por
acaso. De fato é no início dessa era — séculos XVI e XVII —
que se dá a aceleração do lento e complexo processo de transição
do modo de produção feudal para o modo capitalista de produção.
Desestrutura-se o sistema feudal, forjam-se as novas atividades eco­
nômicas que irão se dar, especialmente, na esfera da produção e da
circulação das mercadorias manufaturadas.
O homem agora é o da livre iniciativa que, liberto dos laços
da religião que prendiam seus antepassados medievais, encontra nele
14. COMTE, Auguste. Discurso, loc. cit., p. 57.
73
mesmo o fundamento da verdade e da liberdade. O homem agora
deve decidir o que pode ser conhecido por ele, o que é o conheci­
mento e o que é a certeza. Em outras palavras, modifica-se a própria
base do relacionamento homem-mundo: o homem é subjectum, o
fundamento de tudo o que existe quanto ao seu aparecer e a sua
verdade. A sociedade, a cultura e a história passam a ser compreen­
didas como obra humana.
Ora, essa situação é muito nova na história do pensamento
ocidental. Para os gregos, por exemplo, o subjectum — hypokeimenon
— designa aquilo que é subjacente, o dado primitivo, o permanente­
mente presente. O homem coloca-se em face do mundo, escuta e olha
o que existe e sobretudo é olhado pelo que existe; mesmo no pensa­
mento pós-socrático, quando a busca da unidade aponta, sem dúvida,
para a existência de um sujeito, jamais o ser desse sujeito toma a
forma canônica que assume na época moderna.
E o homem medieval? Ora para o homem medieval, a totalidade
do que existe (creatum) só poderia corresponder a um plano da
causa divina; tudo o que existe no mundo é visto como pertencendo
a um grau determinado na ordem do que havia sido criado e corres­
ponderia, enquanto assim causado, à causa criadora. Não caberia ao
homem questionar a ordenação do mundo, apenas interpretá-la. As
certezas do homem medieval se originavam na fé.
Com o advento da época moderna, desaparece esse ponto de
apoio e o homem agora encontra em si mesmo o novo locus da
verdade do conhecimento. Foi tarefa de Descartes elaborar o fun­
damento metafísico do conhecimento. O cogito é o subjectum de toda
certeza, uma vez que em si mesmo e por si mesmo fundamenta
todas as possibilidades de qualquer fenômeno.
O que existe não é mais o que está presente, nem pertence à
ordem da criação divina, mas o que se coloca em oposição ao sujeito,
o que se coloca como objeto. Em outras palavras, aqui chegamos
à característica fundamental da forma moderna de o homem conhecer
o mundo: a relação de oposição, a exterioridade radical entre sujeito
e objeto. Sujeito e objeto serão, a partir daí, tomados como duas
entidades diferentes por natureza e intrinsecamente separadas. Oposto
ao homem como sujeito, representado por ele o que existe no mundo,
só tem sentido nessa relação.
Ora, como se estabelece a relação entre duas entidades de na­
tureza intrinsicamente diferentes e separadas como o são sujeito e
74
objeto? Quais as condições de possibilidade do conhecimento? Qual
o fundamento da verdade do conhecimento? São essas questões que
vão nortear as várias teorias do conhecimento a partir de Descartes.
Por outro lado, contemporâneas de uma ciência da natureza caracte­
rizada pelo experimento e por uma linguagem formalizada, as várias
teorias do conhecimento buscaram, também, estabelecer e delimitar
suas condições de possibilidade e suas justificativas lógico-psicológicas.
Mas, em momento algum, a crítica do conhecimento reduziu-se à
uma exclusiva teoria da ciência.
É isso que fará o positivismo. É Habermas quem nos fala sobre
o que significa a substituição feita pelo positivismo de uma teoria
do conhecimento por uma teoria da ciência e a redução da filosofia,
enquanto análise das possibilidades do conhecimento humano, à me­
todologia da ciência.
Em primeiro lugar, aponta para o fato de que o sujeito cognos­
cente não mais se apresenta como sistema de referência. Isso ocorre
na medida em que a teoria da ciência volta-se diretamente às
“... ciências disponíveis como sistema de proposições e modos de
proceder... como um complexo de regras com base nas quais as
teorias são construídas e controladas”17. A teoria da ciência prescinde,
assim, de colocar a pergunta pelo sujeito que conhece, uma vez que
os sujeitos, que atuam de acordo com tais regras, perdem seu sentido
para uma explicação que se limita à metodologia. Nesse sentido, o
sujeito que conhece é irrelevante para a elucidação imanente do
processo cognitivo.
Em segundo lugar, Habermas nos mostra que essa restrição vai
afirmar a autonomização da lógica e da matemática em termos de
ciências formais, “... de modo que doravante sua problemática ba­
silar não mais será discutida em conjunto com o problema do
conhecimento”17. Enquanto metodologia da pesquisa, a teoria da ciên­
cia pressupõe a inquestionável validade da lógica formal e da mate­
mática. Isto é, supõe sua autonomia, isolando-as de uma dimensão
na qual a gênese de suas operações fundamentais possa ser adequa­
damente tematizada.
15. HEIDEGGER, Martin. l’époque des conceptions du monde, in Chemins
que ne menent à nulle pari.
16. HABERMAS, Jürgen. Conhecimento, loc. cit., p. 90.
17. Ibid., p. 90-91.
75
Em terceiro lugar, Habermas aponta a substituição da questão
do sentido do conhecimento pela questão tipicamente positivista do
sentido dos “fatos”. Não se admite outra realidade que não sejam os
fatos e a investigar outra coisa que não sejam as relações entre os
fatos. Em outras palavras, em nome de um conhecimento exato,
“objetivo”, essa teoria consagra a idéia ingênua de que o conhecimento
descreve a realidade. Tal concepção corresponde à teoria da cópia
da verdade. Não há corte em relação ao dado mas uma continui­
dade entre o dado e o conhecimento científico18.
Uma vez delimitado o campo do conhecimento, aquele estabele­
cido pela ciência, Habermas aponta ainda os critérios de cientificidade, estabelecidos pelo positivismo, que seriam basicamente três:
Em primeiro lugar, a exigência da certeza do conhecimento, que
implica simultaneamente a certeza empírica da evidência sensível e
a certeza metódica de um procedimento obrigatoriamente unitário.
Vejamos mais de perto esta questão. A partir dos parâmetros
das escolas empiristas, Comte vai exigir que dado conhecimento deve
certificar-se de sua validade junto à certeza sensível de uma obser­
vação sistemática. Para Comte, a observação é “... a única base
possível dos conhecimentos realmente acessíveis, sabiamente adapta­
dos a nossas necessidades reais”19. Isto é, é a experiência sensível
que determina o acesso ao mundo dos fatos, e uma ciência que faz
asserções sobre o real é sempre uma ciência experimental.
Todavia, para Comte, o verdadeiro espírito positivo está tão afas­
tado do empirismo — que, a seu ver, permanece apenas em uma
“estéril acumulação de fatos” — quanto do misticismo — que se limi­
taria a uma interpretação sobrenatural dos fatos. Nesse sentido, Comte
vai estabelecer uma segunda exigência tão importante quanto a certeza
do conhecimento, que é certeza metódica. Como vimos anteriormente,
o método para Comte é de extrema relevância. Embora recusando
a metafísica e recusando, portanto, a unidade e a coerência da tota­
lidade estabelecida por ela, Comte não vai prescindir da idéia
de unidade, que será dada, agora, pelo método positivo. O método
possui, dessa forma, precedência frente à coisa a ser investigada, na
medida em que, somente com as formas científicas do conhecimento,
a coisa pode ser conhecida.
18. Ibid., p. 99.
19. COMTE, Auguste. Discurso, loc. cit., p. 48.
76
Se o primeiro critério da cientificidade tinha claras inspirações
empiristas, o segundo vai revelar a filiação de Comte à tradição racionalista. Trata-se da importância atribuída à teoria, sem a qual
nenhum enunciado sobre os fatos pode aceder à cientificidade. Se é
verdade, diz Comte, que todos os conhecimentos reais repousam sobre
fatos observados, é também verdade que, para entregar-se à obser­
vação, nosso espírito precisa de uma teoria qualquer.
Se, ao contemplar os fenômenos, não os relacionássemos imediata­
mente a alguns princípios, não somente nos seria impossível combinar
essas observações isoladas e, por conseguinte, extrair delas alguns re­
sultados, mas seríamos mesmo inteiramente incapazes de retê-las; e,
na maioria das vezes, os fatos ficariam despercebidos sob nossos
olhos.20
Para Comte, só existe ciência quando se conhecem os fenômenos
por suas relações constantes de concomitância e de sucessão — leis
— advindo daí a possibilidade de previsão sem a qual não existe
propriamente ciência. Em suas palavras:
Nas leis dos fenômenos consiste realmente a ciência, à qual os fatos
propriamente ditos, em que pese a sua exatidão e o seu número, não
fornecem mais do que os materiais indispensáveis. Ora, considerando
a destinação constante dessas leis, pode-se dizer... que a verdadeira
ciência longe de ser formada por simples observações, tende sempre
a dispensar... a observação direta, substituindo-a por essa previsão
racional que constitui... o principal caráter do espírito positivo...
Assim, o verdadeiro espírito positivo consiste sobretudo em ver para
prever, em estudar o que é, a fim de concluir disso o que será,
segundo o dogma geral da invariabilidade das leis naturais.21
Finalmente, uma terceira exigência, que se coloca como uma
conseqüência das duas anteriores: a utilidade de conhecimento, que
se traduz na previsão e controle dos fenômenos para a construção
da sociedade positiva. “O destino necessário de todas as nossas espe­
culações sadias deverá conduzir ao aperfeiçoamento contínuo de nossa
verdadeira condição individual ou coletiva em lugar da vã satisfação
de uma curiosidade estéril”22.
Desses critérios de cientificidade: a observação, o método, a
teoria e a utilidade, Comte deduz que nosso conhecimento é, em
princípio, incompleto e relativo, pois corresponde “à natureza relativa
20. COMTE, Auguste. Cours, loc. cit., VI, p. 5.
21. COMTE, Auguste. Discurso, loc. cit., p. 50 (grifos do autor).
22. Ibid., p. 62.
77
do espírito positivo”, relatividade que se opõe às propostas metafísicas
de um absoluto. O saber positivo é relativo na medida em que não
pode pretender conhecer o ente em sua essência, nem pode chegar,
seja à origem das coisas, seja às suas causas finais. Ao contrário,
deve permanecer relativo à nossa situação23, reconhecendo apenas o
sensível, o fenomenal e o útil.
possibilidade é reduzida à metodologia da ciência, que, juntamente
com a teoria — (cujos pressupostos não são colocados em questão)
e a utilidade (cuja finalidade não merece qualquer indagação) são
exigências de sua cientificidade.
Como lembra Habermas, Comte não entende a relatividade do
conhecimento como uma questão relativa à constituição de um campo
de possíveis objetivações da realidade. Ao contrário, “ele afirma,
muito mais, a antinomia abstrata entre ciência e metafísica. O antigo
positivismo agarra-se de forma particularmente acrítica à separação-de-mundo traçada pela metafísica: num lado a esfera do ente pro­
priamente dito, imutável e necessário, e noutro os fenômenos mutáveis
e contingentes”24. Sem dúvida, a base da argumentação de Comte
tem seu fundamento na observação de que com a gênese das modernas
ciências experimentais, os conceitos substanciais da metafísica clás­
sica foram substituídos por relações conceituais e “... teorias que
deviam fornecer a cópia de ente em sua plenitude foram substituídas
por outras que explanam regularidades empíricas em termos essen­
cialmente causais”25.
Vejamos agora, o terceiro fator básico do pensamento de Comte,
qual seja, uma sociologia ou uma doutrina da sociedade que, ao
determinar a sua estrutura essencial permite a realização de uma
reforma prática da sociedade e finalmente uma reforma religiosa, a
religião da Humanidade.
Entretanto, a crítica de Comte à metafísica não levou a uma dis­
cussão sobre os conteúdos das propostas da filosofia clássica. Como
diz Habermas, Comte recusou a abordar as questões postas pela me­
tafísica: elas não foram refletidas, mas sim liquidadas. Constatando
a carência de sentido nas proposições metafísicas, o positivismo
espera simplesmente que elas se desvaneçam por conta própria.
São essas, então, as principais características da teoria da ciência
de Comte. Se as antigas teorias do conhecimento não se esgotavam
no conhecimento científico, o positivismo, ao contrário, reduziu o
sentido do conhecimento ao âmbito estrito da ciência. Ou seja, a
questão dos pressupostos do conhecimento científico, suas possibi­
lidades e limites passaram a ser vistas como metafísicas, etapa já
superada historicamente pelo “espírito positivo” que de tudo pode
dar conta. Dentro desse ponto de vista, o sujeito passou a ser irrele­
vante para a elucidação do processo cognitivo; o sentido do conheci­
mento é dado pela leitura racional da verdade dos fatos; sua
23. Ibid., p. 49.
24. HABERMAS, Jürgen. Conhecimento, loc. cit., p. 98-99.
25. Ibid., p. 99.
78
4
Já vimos a importância que Comte
também sua preocupação permanente com
dade. Na verdade, a lei dos três estados e
das ciências, só podem ser corretamente
dessa preocupação básica. Este é também
mite compreender sua sociologia.
atribuía à teoria e, vimos
a reorganização da socie­
seu corolário, a classificação
compreendidas no contexto
o pano de fundo que per­
Ainda em 1822, Comte afirmava que ao longo da história toda
inovação importante ocorrida na ordem social, toda reorganização
política em qualquer sociedade havia sido precedida por uma pre­
paração conceituai, que a ela permaneceria condicionada. Em outras
palavras, toda mudança de ordem social estaria, necessariamente,
subordinada a um sistema teórico. No terceiro estado a que se refere
a lei, o positivo ou científico, a sociologia e a moral cumprirão esse
papel, isto é, serão apontadas como fontes necessárias para a im­
plantação de uma nova ordem social.
A sociologia de Comte completa a hierarquia das diversas ciên­
cias, utilizando-se de todos os métodos das ciências precedentes: a
observação, a experimentação, a classificação, a comparação, e acres­
centando mais um, o método histórico, de filiação histórica, mediante
o qual se observa a herança cultural das diversas gerações humanas.
É a dimensão social e sobretudo histórica, diz Comte, que dis­
tingue o homem dos animais. Não por acaso, é no método histórico
que ele fará repousar a singularidade da sociologia, muitas vezes por
ele tratada como a própria história ou como a filosofia da história.
Pela observação, mediante o método histórico pode-se observar a
linha evolutiva dominante da humanidade, prevendo-se o futuro,
Aliás, segundo a opinião de Comte, a “previsão” facilitará o controle
79
social, objetivo primeiro de sua doutrina, partindo do ponto de vista
de que a natureza humana possui uma base perene que, embora evolua
segundo leis históricas, permanece sempre a mesma.
Comte divide a Sociologia em duas partes: a estática e a di­
nâmica. A estática tem como preocupação a harmonia que prevalece
entre as diversas condições da existência: estuda a sociedade em
repouso. Estuda as leis de harmonia social, a sua hierarquia, ma­
nifestadas na coexistência e ordenação das classes e dos indivíduos.
A estática toma a sociedade como um todo global, onde fun­
cionam os diversos fatos sociais, independentes entre si. Os feitos
isolados não têm sentido. Os fatos sociais se organizam e se alteram
sempre de forma solidária, embora com velocidades desiguais. O
todo é harmonioso, carecendo de elementos conflitivos e antagônicos.
Em conformidade com leis sociais naturais, deve haver sempre har­
monia espontânea entre o todo e as partes.
É a estática que fala da família26 como a verdadeira célula social
— uma espécie de microssociedade que reproduz, em ponto menor,
os fatores da sociedade global. A família é vista como a escola da
vida social. A subordinação da mulher é natural e o sexo feminino
se encontra e se manterá em estado de infância perpétua. Para Comte
“a sociologia demonstrará que a igualdade dos sexos, de que tanto
se fala” é incompatível com toda a existência social”. Aquilo que no
estado teológico era determinado pela providência, agora encontrará
sua legitimação na ciência. Ainda na estática, Comte estuda a dife­
renciação social — vista por ele como natural — e que vai se tor­
nando mais complexa à medida em que a sociedade se desenvolve
e também a hierarquia social. Em última instância, o que estuda
a estática são os aspectos estáticos da sociedade, isto é, a ordem
social.
A dinâmica27, por sua vez, estuda o desenvolvimento ordenado
da sociedade, de acordo com leis sociais naturais, isto é, a sociedade
em movimento, o próprio desenvolvimento histórico da humanidade.
É na história que se processa a evolução humana, fazendo com que
o homem se torne cada vez mais humano, isto é, realize a sua na­
tureza humana, que nela se revela. O progresso da sociedade é ca­
racterizado dessa forma pela incessante especialização das funções
26. COMTE, Auguste. Cours, loc. cit., p. 294-296.
27. Ibíd., p. 190-191.
80
como todo desenvolvimento orgânico,
na evolução dos órgãos particulares.
para
maior
aperfeiçoamento
É com a ordem e o progresso que Comte enfrentará a sociedade
individualista e liberal. Com a concepção de que há um desenvol­
vimento histórico da sociedade, um progresso na evolução humana,
um progresso, entretanto, que em momento algum prescinde da ordem
ou carrega em si a possibilidade de alterar os elementos estáticos
da sociedade. Sem ordem não há progresso, que não é senão “o
desenvolvimento da própria ordem”28.
Ao afirmar a complementaridade de ordem e progresso, Comte
objetivava “libertar o Ocidente de uma democracia anárquica e de
uma aristocracia retrógrada”29. Os defensores da “democracia anár­
quica”, inspirados nas tendências críticas do iluminismo, falavam de
progresso, porém, com a “direção negativa que só podia convir ao
século XVIII”. O “atraso” dos conservadores, por seu lado, permitia
apenas a afirmação da ordem.
De acordo com Comte, as classes sociais tendiam a polarizar-se,
apoiando um grupo ou outro, e o resultado era, a seu ver, o conflito
de classes, a desordem e a anarquia. Em cada crise o partido con­
servador argumentava que o problema emanava da destruição da
ordem anterior, e, portanto, exigia sua imediata restauração. O par­
tido anárquico, ao contrário, considerava que os problemas advinham
do fato de que a ordem anterior não havia sido completamente des­
truída, e que a revolução deveria continuar.
A proposta de Comte será a de uma síntese das idéias de ordem
e progresso, visando a restaurar a unidade social. Em suas palavras:
Com efeito, nós, sociocratas, não somos nem democratas, nem aris­
tocratas. Aos nossos olhos, a massa respeitável desses dois partidos
opostos representa empiricamente, de um lado, a solidariedade, do
outro, a continuidade, entre as quais o positivismo estabelece profun­
damente uma subordinação necessária, que substitui enfim o anta­
gonismo deplorável que as separava30.
Adversário do sufrágio universal, soberania popular, da monar­
quia tanto absoluta quanto constitucional, das assembléias, afirmava
que a República seria o regime adequado ao pleno desenvolvimento
28. COMTE, Auguste. Catecismo Positivista. (Os Pensadores). São Paulo,
Abril, 1978, p. 236.
29. Ibid., p. 119.
30. Ibid., p. 119.
81
da humanidade. Sua proposta era a de uma nova
o conceito da autoridade, a ênfase na obediência
do dever por quem está no poder aflora como
da ditadura republicana, fundamentada em bases
para o estabelecimento da ordem social definitiva.
ordem social onde
e no cumprimento
essencial. Trata-se
científicas, garantia
O proletariado e a mulher eram vistos por Comte como os
mais capacitados agentes para compreender, aceitar e implantar o
positivismo, na medida em que ambos não estavam comprometidos
com os interesses da burguesia. Burguesia que, a seu ver, havia
chegado ao fim, nada mais tendo a fazer na história. O poder tem­
poral de sua república deveria ser exercido pelos produtores, tendo
mesmo chegado a falar nos “governadores proletários”.
Essa sociologia, proposta por Comte no Curso de filosofia po­
sitiva, como ele mesmo diz, está ainda no âmbito do método objetivo.
Embora priorizando no Curso o método objetivo, nessa obra, de
1836, ele já entrevia o acordo de duas lógicas, a objetiva e a sub­
jetiva. Nesse primeiro momento, Comte ainda não ligava a lógica
subjetiva aos sentimentos, mas a via como um complemento da
outra.
A partir de 1845, contudo, a dimensão afetiva aparece com
clareza no conjunto de suas concepções, e o método subjetivo abre-se
sobre a procura de uma sistematização positiva dos sentimentos. Sem
dúvida, o encontro com Clotilde de Vaux, a paixão de Comte por
ela, sua morte prematura contribuíram para direcionar o seu pensa­
mento nesta direção, marcando o início do que alguns autores cha­
mam de “a segunda carreira de Comte”. Nessa “segunda carreira”
o primado do método subjetivo será definitivamente estabelecido, é
Arbousse-Bastide quem diz:
O benefício da síntese total, sempre recusado ao método objetivo, é
lhe expressamente reconhecido. O real pode ser abordado a partir
de fora pelo método objetivo e analítico, ou a partir de dentro pelo
método subjetivo e sintético. O primeiro método sem excluir o se­
gundo, não se prolonga neste, necessariamente; o segundo método,
não só inclui o primeiro, mas “regenera-o", isto é, restitui-lhe a fecun­
didade ao reintegrá-lo na totalidade do sujeito coletivo da humani­
dade. A noção de subjetividade em Comte, inclui, ao mesmo tempo,
a sistematização afetiva, o primado da ciência humana e a possibili­
dade de uma síntese total 31.
31. ARBOUSSE-BASTIDE, Paul. Auguste Comte, Lisboa, Edições 70, 1984,
p. 35.
82
Mas, se olharmos atentamente o desenrolar da obra de Comte,
veremos que, desde o início, a preocupação com a reconstrução direta
do poder espiritual foi uma constante. Se a primeira parte da obra
procurou construir a sociologia sobre uma base científica, inquestio­
nável e inabalável, de tal modo que ela pudesse determinar a orga­
nização da sociedade em moldes positivo-científicos, a segunda parte
tem como objetivo “construir a nova fé ocidental” e instituir o sa­
cerdócio definitivo. Para Comte, a ciência real deveria chegar à sã
filosofia capaz, em última instância, de fundar a verdadeira religião.
É assim que o Sistema de política positiva retoma as questões
da estática e dinâmica sociais, detendo-se, no quarto tomo, às apli­
cações da doutrina sociológica na perspectiva do pleno desenvolvi­
mento do estado positivo. É nesse contexto que Comte apresenta a
Moral, sétima e última ciência fundamental.
Mais uma vez, trata-se de uma questão que, embora apresentada
mais precisamente no Sistema, pode ser rastreada desde o início da
produção teórica de Comte. Ainda em 1826, em. suas considerações
sobre o poder espiritual, estão explícitas suas preocupações com a
crise moral do seu tempo e já apontado o caminho para a sua so­
lução: a fundação de um novo poder espiritual. Em 1848, no Dis­
curso sobre o conjunto do positivismo, o positivismo é apresentado
como o único capaz de sistematizar a moral universal, o objetivo da
filosofia e ponto de partida da política.
Mas, é no Sistema que Comte fará o anuncio oficial da moral
como sétima ciência fundamental. Nesta proposta não se trata de des­
tronar a sociologia, mas de complementá-la. A sociologia, objetiva e
analítica no Curso, subjetiva e sintética no Sistema, exige o comple­
mento da moral, ciência do homem individual. E, dessa forma, “a
psicologia, que fora banida na classificação das ciências, é assim reintroduzida sob o nome de moral, sob a forma de uma ciência do
individual, prelúdio à arte da educação”32.
A moral de Comte é geralmente conhecida por suas teses mais
popularizadas: exaltação do sentimento e do altruísmo (viver para
outrem) ou a dedicação dos fortes pelos fracos e a veneração dos
fracos pelos fortes, ou pela negação dos direitos a favor dos deveres,
ou ainda pela crítica à liberdade de consciência. Entretanto, há uma
32. Ibid., p. 37.
83
questão fundamental — a sistematização filosófica — que quase sem­
pre é esquecida, e o papel que aí desempenha a educação.
Paul Arbousse-Bastide, em sua detalhada análise do pensamento
educacional de Comte nos lembra que:
“A noção de educação apresenta-se em Comte sob formas diversas:
1 . Uma teoria da educação propriamente dita ou, se se quer, uma
pedagogia da criança e do adolescente;
2.
Um sistema de educação universal e integral, englobando toda a
duração da vida humana, verdadeira economia da vida mental
individual, desde a existência do feto até a morte;
3.
Uma doutrina do aperfeiçoamento fundada sobre uma antropo­
logia ou uma teoria da natureza humana;
4.
Uma introdução à vida subjetiva, isto é, uma meditação sobre a
morte considerada em sua função religiosa de participação no
grande ser” 33.
De fato, na medida em que a pretensão de Comte é a regene­
ração moral e intelectual da humanidade, a educação aparecerá como
um ponto de unidade no sistema. Foge aos limites deste trabalho
acompanhar os quatro aspectos levantados por Bastide. Nos limi­
taremos a lembrar que a proposta educacional de Comte é de uma
educação integral, orgânica e formativa, correspondente à totalidade
da natureza humana, ao encadeamento racional e à instauração de
uma ordem subjetiva — regeneradora da Humanidade.
É ainda Arbousse-Bastide quem nos lembra que, para Comte,
a educação moral é simultaneamente “o preâmbulo e o quadro geral
de toda moral e, por conseguinte, de toda a educação”34.
A moral natural deveria atuar na organização da nova sociedade,
tanto no aspecto político quanto no econômico. Com relação à po­
lítica, a moral positiva deveria despertar nos súditos sentimentos de
obediência e sujeição e, nos governantes, responsabilidade no exercício
da autoridade. Com relação à área econômica, a moral deveria tornar
os ricos perfeitos administradores de seus bens e os pobres depen­
dentes satisfeitos com sua posição social. Ambas as classes colabo­
rando para a prosperidade e grandeza da pátria e realização da
humanidade. Comte não admitia que a questão política ou a eco­
nômica fossem vistas separadamente da questão moral.
33. ARBOUSSE-BASTIDE, Paul. La doctrine de l’éducation universelle dans
la philosophie d’Auguste Comte, Paris, PUF, 2 vol., p. XII.
34. Ibid., p. 221.
84
Acompanhando a trajetória de Comte, podemos notar duas pers­
pectivas em relação à moral, que, embora não sejam opostas, não
se situam no mesmo plano.
Assim, nos Opúsculos, Comte apresenta a moral como uma
arte fundada na ciência política. Enquanto tal, seus princípios teriam
com base a observação (que, como vimos anteriormente, é a con­
dição de toda ciência) e seria relativa ao estado de civilização cor­
respondente. Em última Instância, seria uma aplicação de dados
teóricos e objetivos. Seria uma moral-aplicação.
No Curso e no Discurso, a noção de arte moral é deixada em
suspenso e a moral vai aparecer intimamente ligada à educação. A
moral será o resultado de uma educação científica e social, animada
e controlada pelo poder espiritual. A sua regra fundamental é o pri­
mado da sociabilidade e a prática do altruísmo. Seria a moral-educação.
Entre a moral-aplicação e a moral-educação há uma relação
de complementariedade, pois a educação, no positivismo, só poderá
efetivar-se tendo como ponto de partida a ciência da sociedade, fonte
única de toda a aplicação moral.
De qualquer forma, esse fato nos indica a importância que Comte
atribuía à educação, missão fundamental do poder espiritual: a trans­
missão, a conservação e o controle dos conhecimentos, das opiniões
e dos sentimentos apropriados para garantir a convergência necessária
ao desenvolvimento normal da sociedade.
O estado positivo, para Comte, não mais requer o uso da força,
e a unidade e o consenso devem ser alcançados mediante a edu­
cação. Por isso mesmo, a educação deve ser livre, isto é, inteiramente
independente do poder temporal, do governo. Deve ser universal,
facultativa a todos, independente de sua posição na sociedade. É
tarefa do poder espiritual cuidar da educação do homem todo, não
só durante o 1.° período da vida, mas por toda a existência. Comte
entende a educação positiva como uma ação contínua sobre o homem
total com o fim de torná-lo mais apto para o serviço da humanidade,
ensinando-o a viver de acordo com princípio moral básico — viver
para outrem. No final de sua obra, a educação identifica-se com a
iniciação religiosa e o culto sociolátrico, e tem como objetivo adap35. ARBOUSSE-BASTIDE, Paul. Auguste Comte, loc. cit., p. 38.
36. COMTE, Auguste. Catecismo Positivista, loc. cit., p. 139.
85
tar o homem ao serviço permanente do Grande Ser, a humanidade.
Não por acaso, a educação positiva, em princípio, é destinada aos
“proletários”, que Comte diz ser a “educação testemunho”.
A busca da síntese, que marcou toda a vida de Comte, só se
efetivará, verdadeiramente, na religião da humanidade, que consiste
em ordenar cada natureza individual e a religar todas as individua­
lidades36. Fortemente influenciado pelo modelo do catolicismo ro­
mano, com uma teoria dos sacramentos (Apresentação, iniciação,
admissão, destinação, casamento, maturidade, retiro, transformação,
incorporação), um culto à mulher, inspirado em Clotilde mas com
características do culto à Virgem Maria, uma rígida centralização em
Paris, em torno do Padre Comte. O objeto maior de veneração, o
Grande Ser, a Humanidade, entre o qual e o homem há uma soli­
dariedade de destino pois, para sobreviver, cada um necessita do
outro.
Formula um novo calendário, cujos meses receberam nomes de
grandes figuras da história do pensamento, como Moisés, Descartes
etc. Como o católico, o calendário positivista tem também os seus
dias santos, nos quais se deveriam comemorar obras de Dante, Shakespeare, Adam Smith, etc.
O último estado, o positivo, só se realizará completamente quan­
do a religião universal positiva dominar o seu preâmbulo científico
e completar a síntese final, a participação de todos no Grande Ser.
Concordamos com a análise de Verdenal quando afirma que, em
última instância, o positivo se configura como a fórmula filosófica
que realiza a metamorfose da ciência em religião. Em suas palavras:
( . . . ) a ciência, desembaraçada de todo além teórico da especula­
ção, converte-se em religião despojada de perspectiva teológica e
reduzida aos “fatos" da prática religiosa: os mitos sociais. O fenô­
meno do positivismo manifesta o eclipsar-se da filosofia sob a apa­
rência de uma transformação ideológica, onde a idéia de ciência vai
aos poucos caindo na religião. À sua maneira, Comte liquida a filo­
sofia, ao mesmo tempo como instância de síntese teórica e como
centro de crítica cultural: restaura a religião como o fecho de abó­
bada de um imobilismo histórico, para uso da sociedade ocidental
do Século XIX37.
37.
86
VERDENAL, René. A filosofia positiva de Augusto Comte, in: A Filo­
sofia e a História, de 1780 a 1880, org. François Châtelet, Rio de Ja­
neiro, Zahar. 1974.
ORIENTAÇÃO BIBLIOGRÁFICA
Embora Comte tenha produzido uma obra consideravelmente
extensa — desde os Opúsculos da Juventude, até os seis volumes do
Curso de Filosofia Positiva, os quatro volumes do Sistema de Política
Positiva, a Síntese subjetiva, o Catecismo Positivista, entre as principais
— são poucas as traduções completas existentes em português, o
que dificulta o acesso ao conjunto da obra do autor.
Como vimos, se a obra de Comte apresenta uma unidade essen­
cial — a idéia de que a filosofia positivista deve determinar aplicações
políticas e a fundação de uma nova religião — podemos por outro
lado nela distinguir temas e preocupações diferenciadas. Não vamos,
aqui, percorrer toda sua obra, mas apenas indicar onde esses temas
e preocupações são tratados de forma mais significativa.
Assim, é fundamentalmente no Cours de philosophie positive que
Comte apresenta sua filosofia da história — a lei dos três estados —
a metodologia e a classificação das ciências, a descrição do espírito
positivo ou científico. E é fundamentalmente no Systeme de politique
positive que ele elabora as propostas de sua sociologia, da moral
e da religião positivas. A exposição detalhada da religião positiva
pode ser encontrada, também, no Catéchisme positiviste.
Dentre as obras de Comte são encontradas em português, entre
outras, as seguintes:
Discurso sobre o espírito positivo, trad. Renato B. R. Pereira e Ivan
Lins, Porto Alegre, Globo, EDUSP, 1973. Também publicado
em Comte, trad. José A. Grannotti, São Paulo, Abril 1978.
Este discurso foi publicado originalmente (Col. Os Pensadores)
como introdução de Traité philosophique d’astronomie populaire,
e se constituiu em obra de divulgação do conjunto de sistema
positivista de Comte.
Opúsculos de filosofia social, trad. Ivan Lins e João T. de Souza.
Porto Alegre, Globo, EDUSP, 1972.
Princípios de filosofia positiva. São Paulo, Editorial Paulista, s/d.
Catecismo positivista, trad. Miguel
Abril, 1978. (Col. Os Pensadores).
Lemos,
in:
Comte,
São Paulo,
87
No volume dedicado a Comte, da coleção Os Pensadores, encontra­
mos ainda as duas primeiras lições do Curso de filosofia positiva
e o preâmbulo geral e a primeira parte do Discurso preliminar
sobre o conjunto do positivismo.
Com apresentação geral de Comte, sua obra e pensamento, bem
como uma seleção significativa de textos encontramos:
MORAES FILHO, Evaristo (Org)
(Col. Grandes Cientistas Sociais).
Comte,
São
Paulo,
Ática,
1978
ARBOUSSE-BASTIDE, Paul (Org.). Auguste Comte. Lisboa, Edi­
ções 70, 1984 (Col. Biblioteca Básica de Filosofia) tra. Joaquim
J. Coelho Rosa.
Sobre o positivismo comtiano selecionamos:
MARCUSE, Herbert. Razão e Revolução: Hegel e o advento da teoria
social. Trad. Marília Barroso. Rio de Janeiro, Saga, 1969. (Col.
Idéias e fatos contemporâneos).
HABERMAS, Jürgen e Conhecimento e Interesse. Int. e Trad. José
N. Heek. Rio de Janeiro, Zahar, 1982.
DEBATENDO O TEXTO:
Quais as principais linhas de influências no pensamento de Comte?
Qual o sentido da palavra positivismo para Comte?
Fale da Lei dos três Estados e aponte os principais aspectos do espi­
rito científico ou positivo.
O que foi e quais os critérios utilizados por Comte em sua classificação
das ciências?
Por que a sociologia ou física social foi colocada por Comte, como
a última das ciências em sua classificação?
O que significam, para Comte, a “teoria positiva da ordem” e a “teoria
positiva do progresso”?
Em que sentido a Moral positiva complementa a sociologia?
Articule a religião positiva com a proposta de Comte de reforma
moral e intelectual da humanidade.
Por que Comte atribui à teoria uma importância fundamental?
Escreva o caráter da utopia de Comte.
88
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