O POSITIVISMO DE COMTE Maria Célia Simon Mestra em Filosofia e Doutoranda em Filosofia de Edu cação e professora de Filosofia na Universidade de Santa Úrsula. “A fé positiva expõe diretamente as leis efetivas dos diver sos fenômenos observáveis, quer interiores, quer exterio res, isto é, as suas relações constantes de sucessão e seme lhança que nos permitem prevê-los, uns em função dos outros. Afasta, como radicalmente inacessível e profunda mente inútil, toda a investigação sobre as causas... pri meiras ou finais, de qualquer acontecimento. Nas suas con cepções teóricas, explica sempre como e nunca por quê. . . O dogma fundamental da religião universal consiste, por tanto, na existência constatada de uma ordem imutável, à qual todos os gêneros de acontecimentos estão sujeitos.” A. Comte A palavra positivismo tem um sentido muito amplo, podendo designar seja uma teoria que exclua toda e qualquer negação, toda e qualquer contradição e afirme apenas o positivo, o idêntico, seja uma doutrina que considere como objeto do conhecimento positivo somente os dados do sentido (como o antigo ceticismo ou algumas das tendências da ilustração). Em seu sentido mais estrito, entretanto, e de acordo com seu significado mais propriamente histórico, a palavra designa a doutrina e a escola fundadas por Augusto Comte, no século XIX. Seu posi63 tivismo compreende não só uma teoria da ciência, mas também, e simultaneamente, uma determinada concepção da história e uma pro posta de reforma da sociedade e da religião. É desse positivismo que vamos tratar aqui. A. Comte (1798-1857) nasceu em Montpellier, França, de uma família católica e monarquista, mas muito cedo vai para Paris — em 1814, como aluno da Escola Politécnica — cidade na qual permanecerá a maior parte de sua vida. Foi em Paris que ocorreram os dois encontros que iriam determinar as duas grandes etapas da sua obra. Em 1817, um ano depois de sair da Escola Politécnica, da qual foi expulso, Comte conheceu H. de Saint-Simon (1760-1825), de quem tornou-se secretário e colaborador até 1824, quando ocorreu a ruptura definitiva entre os dois pensadores. Mas foi certamente influenciado por Saint-Simon e, pode-se dizer, é com pouca origina lidade que Comte concebeu a criação de uma ciência social e de uma política científica. Em outubro de 1844, aos 47 anos, Comte experimentou o segundo encontro fundamental de sua vida, o encontro com a mulher que viria exercer sobre seus sentimentos, sobre seu pensamento e sobre o estilo de sua obra uma extraordinária influência: Clotilde de Vaux. Comte se apaixonou por ela, amando-a platonicamente até sua morte precoce, dois anos mais tarde, e todo o restante de sua vida e de sua obra levariam a marca desse amor, melhor dizendo, dessa vene ração, que tomou um sentido messiânico e religioso. Se esses dois encontros — com Saint-Simon e Clotilde de Vaux — efetivamente marcaram a vida e a obra de Comte, todavia, outras influências também significativas não podem deixar de ser mencionadas. Condorcet em sua obra Esboço de um quadro histórico dos progres sos do espírito humano. Por exemplo, a idéia de que o progresso é uma lei da história da humanidade que, na medida em que adquire mais conhecimentos e em que aperfeiçoa seus meios técnicos, adquire também mais riquezas, mais felicidade e mais segurança. Reforçando e legitimando tais idéias aparece a crença na eficácia das ciências da natureza e de uma possível ciência da sociedade. Mas, a rigor, o pensamento de Comte só se torna efetivamente compreensível sobre o pano de fundo da sociedade francesa da primeira metade do século XIX, profundamente abalada pelos con flitos resultantes do processo de transformações econômicas e políticas posteriores à Revolução de 1789: a era napoleônica, a derrubada de Carlos X, em 1830; as revoltas de Lyon e Paris, em 1832 e 1834; a revolta de Paris, em 1839; as duas revoltas de Paris em 1848 e o golpe de Louis Bonaparte. Nesse contexto, a filosofia de Comte se inscreve, consciente mente, na onda contra-revolucionária e ultraconservadora que se seguiu a 1789. Embora guardando algumas diferenças significativas, encontramos na sua obra algum parentesco com a tradição romântica, católica e conservadora, representada na França, especialmente por Bonald e de Maistre. Esta tradição propunha como remédio para o que era visto como desordem, anarquia e mudanças radicais resul tantes do avanço burguês, a volta à unidade espiritual vivida pela civilização católico-feudal. Ainda de acordo com esta tradição, somente esta unidade espiritual poderia dar sentido e direção a todas as atividades do gênero humano. Ainda como estudante da Escola Politécnica, onde adquiriu uma sólida formação matemática e científica, Comte tomou conhecimento de vários trabalhos de cientistas da época. A Mecânica Analítica do matemático Langrange (1736-1813), por exemplo, teria inspirado Comte a conceber os princípios das várias ciências dentro de uma perspectiva histórica. Embora Comte percebesse, desde o início, a decadência irrecupe rável da velha concepção religiosa do mundo, embora tivesse clareza que a unidade espiritual fornecida pelo catolicismo medieval (que, a seu tempo, tinha sido responsável pela direção moral e espiritual e pela “organicidade” da sociedade) estivesse definitivamente ultra passada, ele recuperou em sua religião da humanidade a própria idéia da necessidade de uma unidade espiritual para a sociedade, que lhe pudesse dar sentido e direção e que possibilitasse fazer face à anarquia mental do ideário democrático burguês. A influência mais marcante em sua formação foi, entretanto, Condorcet (1743-1794), ao qual Comte se referiria mais tarde como “meu imediato predecessor”. De fato, alguns dos pontos fundamentais da filosofia de Comte se inscrevem na perspectiva definida por Encontramos, ainda, na obra de Comte, conceitos próprios a esta corrente conservadora, conceitos intimamente relacionados com a ordem e a estabilidade social: a tradição, a autoridade, a coesão, o ajuste, a função, a norma, o ritual etc. 64 65 Se estas são as principais e mais notáveis influências na obra de Comte é preciso lembrar, ainda, que ele foi leitor dos chamados “ideólogos” franceses do século XVIII (como Destutt de Tracy, Cabanis e Volney, bem como de teóricos da economia política inglesa, como Adam Smith e de filósofos e historiadores como David Hume e William Robertson. Sua produção teórica foi intensa, incluindo os opúsculos da juventude, os seis volumes do Curso de filosofia positiva (de 1830 a 1848), os quatro volumes do Sistema de política positiva (de 1851 a 1854), o Catecismo positivista (1850), a Síntese subjetiva (1856) entre outros. Muito se discute, especialmente entre os seguidores de Comte, se o conjunto da sua obra apresentaria, ou não, um caráter unitário. Há os que afirmam que a obra de Comte estaria dividida em duas partes: uma “aceitável”, a parte filosófica, a reflexão sobre os métodos científicos, contida no Curso de filosofia positiva, e outra “desprezí vel”, a parte ético-religiosa, contida, basicamente, no Sistema de polí tica positiva. Há ainda autores que consideram que a obra de Comte apresentaria, além dessas duas fases, uma anterior representada pelos opúsculos de juventude. E, finalmente, há os que afirmam a unidade fundamental da obra, considerando que a feição política e religiosa de sua obra está em perfeito acordo com a parte mais propriamente “científica”. Na verdade, o próprio Comte afirmava o caráter unitário de sua obra e, se o tom, o vocabulário e até mesmo alguns conceitos que se distinguem nos vários momentos da sua obra, para melhor compreendê-la é necessário considerá-la em bloco. Embora em um primeiro momento as questões de cunho filosófico e de metodologia das ciências não sejam tratadas de forma explicitamente “religiosa”, esta perspectiva está subjacente à sua proposta de estabelecer uma escala enciclopédica das ciências, assim como a de erguer, a partir desta escala, o “conhecimento positivo” que iria, finalmente, reformar moral e intelectualmente a sociedade. Após essas considerações iniciais, que visaram situar um pouco a obra de Comte, vejamos os três fatores básicos que caracterizam o seu sistema. Em primeiro lugar, uma filosofia da história que se propõe a fundamentar porque a filosofia positiva é a que deve imperar defini tivamente no futuro do desenvolvimento da humanidade. 66 Em segundo lugar, uma fundamentação e uma classificação das ciências assentadas na filosofia positiva. Enquanto tal, o positivismo de Comte assinala o fim de uma problemática das mais fundamentais do pensamento moderno, qual seja a questão do conhecimento, a teoria do conhecimento. Como aponta Habermans, em seu lugar o positivismo propõe e instala uma teoria da ciência1. Em outras pala vras, o positivismo inaugurado por Comte confirma o enunciado básico do cientificismo do século XIX, segundo o qual o conhecimento define-se, implicitamente, pelas realizações da própria ciência. É neste sentido que se pode falar que se trata de uma “perversão” cientificista da razão. Em terceiro lugar, finalmente, uma sociologia, ou uma doutrina da sociedade, que, ao determinar a sua estrutura essencial, permite a proposta de realização de uma reforma prática da sociedade como um todo e, finalmente, uma reforma religiosa, a criação da religião da humanidade. 2 Vejamos, inicialmente, os dois primeiros aspectos apontados acima, isto é, o positivismo compreendido como uma certa filosofia da história e como proposta de fundamentação e classificação das ciências. Os dois aspectos, a rigor, não podem ser vistos sepa radamente. Embora reivindicando “ter descoberto uma grande lei funda mental”, Comte, de fato, adota a concepção de Condorcet e SaintSimon, segundo a qual o espírito dos indivíduos, assim como a espécie humana, descrevem um movimento histórico que atravessa um estágio teológico e um estágio metafísico, antes de chegar ao estágio definitivo do espírito positivo. Em suas palavras: Estudando, assim, o desenvolvimento total da inteligência humana em suas diversas esferas de atividade, desde seu primeiro vôo mais simples até nossos dias, creio ter descoberto uma grande lei funda mental, a que se sujeita por uma necessidade invariável... Essa lei consiste em que cada uma de nossas concepções principais, cada ramo de nossos conhecimentos, passa sucessivamente por três estados his tóricos diferentes: estado teológico ou fictício, estado metafísico ou abstrato, estado científico ou positivo2. 1. HABERMAS, Jürgen. Conhecimento e interesse, Rio de Janeiro, Zahar, 1982, p. 89. 2. COMTE, Auguste. Cours de philosophie positive, Paris, J. B. Balliere et Fils, 1869, 6 vol., l.a lição, p. 15. 67 No estado teológico-militar, de acordo com Comte, o espírito humano explica os fenômenos como tendo sido produzidos pela ação de seres sobrenaturais, isto é, são as divindades que fornecem o quadro de compreensão dos fenômenos que ocorrem a seu redor. Dentro desse estado, o espírito humano passa por uma fase fetichista — no qual é atribuída aos seres naturais vida espiritual semelhante à dos homens — a politeísta — na qual os seres naturais são despidos da “espiritualidade humana”, e sua animação é atribuída a seres de um mundo superior — e uma fase monoteísta — na qual todas as divindades são reduzidas a uma só, e que já significa uma transição para o espírito metafísico3. Neste estado as relações sociais, tanto as particulares quanto as gerais, são militares, e a sociedade tem por fim único a conquista. A escravatura dos produtores é a instituição principal. No estado metafísico-legislador, tal como no teológico, o espírito humano procura “... explicar a natureza íntima dos seres, a origem e o destino de todas as coisas, o modo essencial de produção de todos os fenômenos”4. Mas, agora, diz Comte, não são mais os agentes sobrenaturais que fornecem o quadro de compreensão dos fenômenos. Em um primeiro momento, o estado metafísico concebe forças ocultas para explicar a realidade, e fala-se de uma força física, de uma força química, de uma força vital. Em um segundo momento, todas forças são reunidas em uma só, a “natureza”, que fornece a unidade expli cativa, tal como o deus único da fase teológica monoteísta. O estado metafísico é um estado de transição e, na perspectiva de Comte, sua principal característica é a de dissolução do estado teológico. “A metafísica não é, no fundo, mais do que uma espécie de teologia gradualmente inervada por simplificações dissol ventes...”5. É este estado, também, que substitui a imaginação, própria do estado teológico, pela argumentação que se exerce contra o domínio das idéias teológicas, trazendo à luz suas contradições e destruindo a afirmação da subordinação do homem e da natureza ao sobrenatural; por ser um tempo de transição, abre-se aí o espaço para que a observação própria do estado positivo progressivamente se imponha e rompa os limites a ela impostos. 3. COMTE, Auguste. Discurso sobre o espírito positivo (Os pensadores.) São Paulo, Abril Cultural, 1978, pp. 44-45. 4. Ibid., p. 47. 5. Ibid., p. 47, 68 Do ponto de vista das relações sociais a conquista antes domi nante começa a ceder espaço para a indústria e questões abstratas como soberania popular, sufrágio universal, liberdade, pacto social etc., tornam-se pontos de discussão. “A indústria é inicialmente conduzida e protegida como meio militar. Mais tarde, a sua impor tância aumenta e a guerra acaba por ser concebida,... como meio de favorecer a indústria...”6. Mas, diz Comte, finalmente chega o tempo em que o espírito humano “renuncia de vez às pesquisas absolutas que só convinham à sua infância” e atinge o terceiro estado, o científico-industrial. Nele todas as idéias teóricas particulares se tornam positivas e a imaginação e a argumentação são substituídas pela “... verdadeira observação, única base possível dos conhecimentos verdadeiramente acessíveis sabiamente adaptados a nossas necessidades reais”. E acrescenta: “Numa palavra, a revolução fundamental, que caracte riza a virilidade de nossa inteligência, consiste essencialmente em substituir em toda parte a inacessível determinação das causas propriamente ditas pela simples pesquisa das leis, isto e, relações constantes que existem entre os fenômenos observados”7. Do ponto de vista das relações sociais, todas as relações parti culares se estabelecem, pouco a pouco, sobre bases industriais e a atividade da produção torna-se o único e permanente objetivo. É essa idade instaurada pelo positivismo idade “pacífica e industrial”, idade em que a ciência, com a descoberta das leis naturais se empenha em realizar a total submissão da natureza ao homem: saber para prever, prever para poder. Isto é, segundo Comte, o conhecimento entre os fenômenos torna possível determinar vimento. A previsibilidade científica permite técnica e assim o estado positivo corresponde da exploração da natureza pelo homem. das relações constantes o seu futuro desenvol o desenvolvimento da à indústria, no sentido Pode-se notar que a lei dos três estados de Comte revela o caráter de sua utopia, isto é, a sociedade capitalista idealizada à qual ele procura conferir as virtudes de uma sociedade orgânica, 6. COMTE, Auguste. Opuscules de philosophie sociale, Paris, Leroux, 1883, p. 149. 7. COMTE, Auguste. Discurso, loc. cit., p. 47-48. 8. HENRIQUES, Luiz Sérgio. “Comte e a decadência ideológica”, in Temas, São Paulo, Livraria Editora Ciências Humanas, n.° 5, 1979. 69 historicamente necessária, estágio final da evolução progressiva da humanidade em direção ao espírito positivo8. Progresso, como em Condorcet, que é uma lei necessária da história humana e, enquanto tal, legitimadora da ordem burguesa de seu tempo. 3 É preciso salientar, ainda, uma característica relevante da lei dos três estados porque ela nos facilita compreender sua ligação com a classificação das ciências realizada por Comte: o movimento no sentido de uma unificação que se opera no interior de cada estado. Assim, o estado teológico tende para a idéia de um ser sobrenatural único, tendência que se realiza na fase monoteísta; no estado meta físico, é a idéia de natureza que aparece como elemento unificador e, finalmente, no estado positivo, o método positivo cumprirá esse papel. Como lembra Habermas, “A teoria da ciência de Comte remete a regras metodológicas que, supostamente, têm todas elas cobertura (científica) por intermédio do designativo “positivo”; o “espírito positivo” enleia-se em condutas metodológicas que asseguram a comtificidade”9. O próprio Comte nos diz, no Curso de filosofia positiva: É pelas matemáticas que a filosofia positiva começou a formar-se, é dela que nos vem o método. Era por conseguinte, naturalmente, ine vitável que, quando a mesma maneira de proceder teve de se esten der a cada uma das outras ciências fundamentais, esforçou-se para introduzir o espírito matemático. Entretanto ( . . . ) cada ciência ao desenvolver-se acarreta, no método positivo geral, modificações de terminadas pelos fenômenos que lhe são próprios, donde resulta sua natureza especial. É somente então que ele se reveste de seu caráter definitivo, que não deve nunca ser confundido com o de nenhuma outra ciência fundamental 10. Ou seja, embora Comte se refira a um “método positivo geral”, cada ciência desenvolve especialmente tal ou qual de seus processos característicos. Assim, em certos campos é a observação propria mente dita (na astronomia), em outros a experimentação (na física), em outros a classificação (na química), a comparação (na fisiologia) e a filiação histórica (na física social). Em outras palavras, há uma 9. HABERMAS, Jürgen. Conhecimento, loc. cit., p. 94-95. 10. COMTE, Auguste. Cours, loc. cit., VI, p, 89. 70 indispensável unidade do método que irá se enriquecendo na medida em que se aplica às diversas ciências. De acordo com Comte não se pode separar método e doutrina e ele considera como metafísica — fase ultrapassada da história, por tanto — a possibilidade de se estudar uma teoria geral do método, fora de sua efetiva aplicação em cada uma das ciências positivas. Assim, quando ele fala da unidade do método, não está pensando em lhe atribuir um valor absoluto, abstraído da efetiva aplicação científica. Em suas palavras”... o vigor e a influência de um método medem-se pelo número e pela importância de suas aplicações: aqueles que nada mais produzem deixam logo, absolutamente, de ser em pregados”11. Se o elemento unificador do estado positivo não é pensado por Comte como um pólo anterior e exterior às ciências, como um absoluto, mas como tendo sentido apenas na aplicação prática nas ciências, como se exerce a sua função unificadora? O que importa, para finam a homogeneidade das do método é indispensável, basta ser homogênea. Uma mogêneas, fica estabelecido classificação. Comte, é estabelecer parâmetros que de ciências. Ele mesmo diz que a unidade mas não a unidade da doutrina. A esta vez que as ciências foram tornadas ho o critério racional que possibilita a sua A classificação das ciências por ordem lógica e cronológica tem em vista a comparação e a dependência entre elas. Isto é, Comte busca um determinado número de categorias ordenadas de tal forma que cada uma delas se fundamenta no conhecimento das leis fun damentais da categoria precedente, e se torna fundamento do estudo da seguinte. O ponto de partida são os fenômenos mais simples e mais gerais, e a complexidade crescente e a generalidade decrescente será a ordem à qual a classificação das ciências estará submetida. Comte se preocupa apenas com as ciências fundamentais que, de acordo com essa ordem, assim se classificam: astronomia, física, química, fisiologia vegetal e animal e física social12. A matemática, diz Comte, “é um berço e não um trono”, e deve ser considerada por si mesma, como a verdadeira base de toda a filosofia natural, uma espécie de lógica geral de todas as outras. 11. Ibid., p. 86. 12. Ibid., p. 88. 71 Todas essas ciências passam pelos três estados e quanto mais simples e abstrata é uma ciência tanto mais rapidamente entra no estado positivo. Primeiro, a matemática, por último, a física social, pela complexidade de seus problemas e pela sua concreção. Uma vez atingido o estado positivo, cada uma delas se constitui em base teórica da ciência subseqüente em função da dependência prévia dos fenômenos respectivos. Aliás, como diz Habermas, com essa última Comte renova o conceito enciclopédico das ciências, na medida em que a física social se beneficia de toda a metodologia utilizada pelas ciências anteriores (observação, experimentação, com paração) até o método que lhe é próprio, a filiação histórica. A física social era para Comte a própria história ou a própria filosofia da história. História evolutiva da humanidade, cuja herança cultural veio se acumulando como uma bola de neve. Não se deve esquecer, de qualquer forma, que a classificação das ciências funciona também como um critério “sociocrático”, onde Comte designa a cada cientista a sua tarefa específica, proibindo-lhe transgredir as fronteiras que separam uma disciplina da outra. A ordem das ciências segundo os graus de generalidade decrescente e com complexidade crescente serve tanto para preparar transições quanto para confinar cada ciência em seu próprio compartimento. Cada ciência ocupa-se apenas com certo número de fenômenos irredutíveis uns aos outros. Por isso mesmo Comte diz que não ha verá identidade entre elas, apenas homogeneidade, garantida pelo método. Nota-se a ausência da psicologia na classificação das ciências fundamentais. Na verdade, para Comte “... não há a nenhum título, lugar para esta psicologia ilusória, última transformação da teolo gia ...” e denuncia como estéril “este pretenso método psicológico” que é a introspecção. O espírito humano, diz ele, pode observar diretamente todos os fenômenos, exceto os seus próprios, pois por quem seria feita a observação? A insistência neste método fez com que a psicologia jamais conseguisse chegar a “... uma só proposição inteligível e solidamente estabelecida... A observação interior gera quase tantas opiniões divergentes quantos os indivíduos que julgam fazê-la”13. Por outro lado, na tradição das explicações materialistas, Comte reputava a psique como um conjunto de funções cerebrais a 13. Ibid., p. 34. 72 ser estudado pela ciência correspondente a este tipo de fenômeno, qual seja a fisiologia. Aliás, na lista de proibições de Comte, entram ainda a pretensa ciência dos economistas”, a astrofísica, as buscas sobre a estrutura da matéria, “as afirmações gratuitas de Darwin”, entre outras. E é bom lembrar a pitoresca crítica ao cálculo de probabilidades, um “... pretenso cálculo do acaso, que supõe implicitamente a ausência de toda lei real a respeito de certos acontecimentos, sobretudo quando o homem neles intervém”14. Que papel cumpre, então, a filosofia da história de Comte? Como dizíamos no início, o seu positivismo confirmando o enunciado fun damental do cientificismo do século XIX, segundo o qual o conheci mento define-se explicitamente pelas realizações da própria ciência, reduzirá a questão do conhecimento à questão da ciência, substituirá a teoria do conhecimento pela teoria da ciência. Dessa forma, o papel que a filosofia da história de Comte irá cumprir será o de legitimar a proposta desta teoria da ciência, afirmando como necessidade his tórica o advento definitivo do estado positivo e do único conheci mento legítimo, aquele proporcionado pelas ciências. Vamos tentar, explicitar melhor esta questão. Para isso será pre ciso voltar um pouco na história e recuperar o momento em que o conhecimento se torna uma questão — a questão do seu sentido, de suas condições de possibilidades — e são elaboradas as várias teo rias do conhecimento procurando encontrar respostas à questão bá sica do conhecimento. Estamos falando da época moderna, era do mundo como re presentação contemporânea de uma profunda transformação no que diz respeito à posição do homem no mundo. E isso não se dá por acaso. De fato é no início dessa era — séculos XVI e XVII — que se dá a aceleração do lento e complexo processo de transição do modo de produção feudal para o modo capitalista de produção. Desestrutura-se o sistema feudal, forjam-se as novas atividades eco nômicas que irão se dar, especialmente, na esfera da produção e da circulação das mercadorias manufaturadas. O homem agora é o da livre iniciativa que, liberto dos laços da religião que prendiam seus antepassados medievais, encontra nele 14. COMTE, Auguste. Discurso, loc. cit., p. 57. 73 mesmo o fundamento da verdade e da liberdade. O homem agora deve decidir o que pode ser conhecido por ele, o que é o conheci mento e o que é a certeza. Em outras palavras, modifica-se a própria base do relacionamento homem-mundo: o homem é subjectum, o fundamento de tudo o que existe quanto ao seu aparecer e a sua verdade. A sociedade, a cultura e a história passam a ser compreen didas como obra humana. Ora, essa situação é muito nova na história do pensamento ocidental. Para os gregos, por exemplo, o subjectum — hypokeimenon — designa aquilo que é subjacente, o dado primitivo, o permanente mente presente. O homem coloca-se em face do mundo, escuta e olha o que existe e sobretudo é olhado pelo que existe; mesmo no pensa mento pós-socrático, quando a busca da unidade aponta, sem dúvida, para a existência de um sujeito, jamais o ser desse sujeito toma a forma canônica que assume na época moderna. E o homem medieval? Ora para o homem medieval, a totalidade do que existe (creatum) só poderia corresponder a um plano da causa divina; tudo o que existe no mundo é visto como pertencendo a um grau determinado na ordem do que havia sido criado e corres ponderia, enquanto assim causado, à causa criadora. Não caberia ao homem questionar a ordenação do mundo, apenas interpretá-la. As certezas do homem medieval se originavam na fé. Com o advento da época moderna, desaparece esse ponto de apoio e o homem agora encontra em si mesmo o novo locus da verdade do conhecimento. Foi tarefa de Descartes elaborar o fun damento metafísico do conhecimento. O cogito é o subjectum de toda certeza, uma vez que em si mesmo e por si mesmo fundamenta todas as possibilidades de qualquer fenômeno. O que existe não é mais o que está presente, nem pertence à ordem da criação divina, mas o que se coloca em oposição ao sujeito, o que se coloca como objeto. Em outras palavras, aqui chegamos à característica fundamental da forma moderna de o homem conhecer o mundo: a relação de oposição, a exterioridade radical entre sujeito e objeto. Sujeito e objeto serão, a partir daí, tomados como duas entidades diferentes por natureza e intrinsecamente separadas. Oposto ao homem como sujeito, representado por ele o que existe no mundo, só tem sentido nessa relação. Ora, como se estabelece a relação entre duas entidades de na tureza intrinsicamente diferentes e separadas como o são sujeito e 74 objeto? Quais as condições de possibilidade do conhecimento? Qual o fundamento da verdade do conhecimento? São essas questões que vão nortear as várias teorias do conhecimento a partir de Descartes. Por outro lado, contemporâneas de uma ciência da natureza caracte rizada pelo experimento e por uma linguagem formalizada, as várias teorias do conhecimento buscaram, também, estabelecer e delimitar suas condições de possibilidade e suas justificativas lógico-psicológicas. Mas, em momento algum, a crítica do conhecimento reduziu-se à uma exclusiva teoria da ciência. É isso que fará o positivismo. É Habermas quem nos fala sobre o que significa a substituição feita pelo positivismo de uma teoria do conhecimento por uma teoria da ciência e a redução da filosofia, enquanto análise das possibilidades do conhecimento humano, à me todologia da ciência. Em primeiro lugar, aponta para o fato de que o sujeito cognos cente não mais se apresenta como sistema de referência. Isso ocorre na medida em que a teoria da ciência volta-se diretamente às “... ciências disponíveis como sistema de proposições e modos de proceder... como um complexo de regras com base nas quais as teorias são construídas e controladas”17. A teoria da ciência prescinde, assim, de colocar a pergunta pelo sujeito que conhece, uma vez que os sujeitos, que atuam de acordo com tais regras, perdem seu sentido para uma explicação que se limita à metodologia. Nesse sentido, o sujeito que conhece é irrelevante para a elucidação imanente do processo cognitivo. Em segundo lugar, Habermas nos mostra que essa restrição vai afirmar a autonomização da lógica e da matemática em termos de ciências formais, “... de modo que doravante sua problemática ba silar não mais será discutida em conjunto com o problema do conhecimento”17. Enquanto metodologia da pesquisa, a teoria da ciên cia pressupõe a inquestionável validade da lógica formal e da mate mática. Isto é, supõe sua autonomia, isolando-as de uma dimensão na qual a gênese de suas operações fundamentais possa ser adequa damente tematizada. 15. HEIDEGGER, Martin. l’époque des conceptions du monde, in Chemins que ne menent à nulle pari. 16. HABERMAS, Jürgen. Conhecimento, loc. cit., p. 90. 17. Ibid., p. 90-91. 75 Em terceiro lugar, Habermas aponta a substituição da questão do sentido do conhecimento pela questão tipicamente positivista do sentido dos “fatos”. Não se admite outra realidade que não sejam os fatos e a investigar outra coisa que não sejam as relações entre os fatos. Em outras palavras, em nome de um conhecimento exato, “objetivo”, essa teoria consagra a idéia ingênua de que o conhecimento descreve a realidade. Tal concepção corresponde à teoria da cópia da verdade. Não há corte em relação ao dado mas uma continui dade entre o dado e o conhecimento científico18. Uma vez delimitado o campo do conhecimento, aquele estabele cido pela ciência, Habermas aponta ainda os critérios de cientificidade, estabelecidos pelo positivismo, que seriam basicamente três: Em primeiro lugar, a exigência da certeza do conhecimento, que implica simultaneamente a certeza empírica da evidência sensível e a certeza metódica de um procedimento obrigatoriamente unitário. Vejamos mais de perto esta questão. A partir dos parâmetros das escolas empiristas, Comte vai exigir que dado conhecimento deve certificar-se de sua validade junto à certeza sensível de uma obser vação sistemática. Para Comte, a observação é “... a única base possível dos conhecimentos realmente acessíveis, sabiamente adapta dos a nossas necessidades reais”19. Isto é, é a experiência sensível que determina o acesso ao mundo dos fatos, e uma ciência que faz asserções sobre o real é sempre uma ciência experimental. Todavia, para Comte, o verdadeiro espírito positivo está tão afas tado do empirismo — que, a seu ver, permanece apenas em uma “estéril acumulação de fatos” — quanto do misticismo — que se limi taria a uma interpretação sobrenatural dos fatos. Nesse sentido, Comte vai estabelecer uma segunda exigência tão importante quanto a certeza do conhecimento, que é certeza metódica. Como vimos anteriormente, o método para Comte é de extrema relevância. Embora recusando a metafísica e recusando, portanto, a unidade e a coerência da tota lidade estabelecida por ela, Comte não vai prescindir da idéia de unidade, que será dada, agora, pelo método positivo. O método possui, dessa forma, precedência frente à coisa a ser investigada, na medida em que, somente com as formas científicas do conhecimento, a coisa pode ser conhecida. 18. Ibid., p. 99. 19. COMTE, Auguste. Discurso, loc. cit., p. 48. 76 Se o primeiro critério da cientificidade tinha claras inspirações empiristas, o segundo vai revelar a filiação de Comte à tradição racionalista. Trata-se da importância atribuída à teoria, sem a qual nenhum enunciado sobre os fatos pode aceder à cientificidade. Se é verdade, diz Comte, que todos os conhecimentos reais repousam sobre fatos observados, é também verdade que, para entregar-se à obser vação, nosso espírito precisa de uma teoria qualquer. Se, ao contemplar os fenômenos, não os relacionássemos imediata mente a alguns princípios, não somente nos seria impossível combinar essas observações isoladas e, por conseguinte, extrair delas alguns re sultados, mas seríamos mesmo inteiramente incapazes de retê-las; e, na maioria das vezes, os fatos ficariam despercebidos sob nossos olhos.20 Para Comte, só existe ciência quando se conhecem os fenômenos por suas relações constantes de concomitância e de sucessão — leis — advindo daí a possibilidade de previsão sem a qual não existe propriamente ciência. Em suas palavras: Nas leis dos fenômenos consiste realmente a ciência, à qual os fatos propriamente ditos, em que pese a sua exatidão e o seu número, não fornecem mais do que os materiais indispensáveis. Ora, considerando a destinação constante dessas leis, pode-se dizer... que a verdadeira ciência longe de ser formada por simples observações, tende sempre a dispensar... a observação direta, substituindo-a por essa previsão racional que constitui... o principal caráter do espírito positivo... Assim, o verdadeiro espírito positivo consiste sobretudo em ver para prever, em estudar o que é, a fim de concluir disso o que será, segundo o dogma geral da invariabilidade das leis naturais.21 Finalmente, uma terceira exigência, que se coloca como uma conseqüência das duas anteriores: a utilidade de conhecimento, que se traduz na previsão e controle dos fenômenos para a construção da sociedade positiva. “O destino necessário de todas as nossas espe culações sadias deverá conduzir ao aperfeiçoamento contínuo de nossa verdadeira condição individual ou coletiva em lugar da vã satisfação de uma curiosidade estéril”22. Desses critérios de cientificidade: a observação, o método, a teoria e a utilidade, Comte deduz que nosso conhecimento é, em princípio, incompleto e relativo, pois corresponde “à natureza relativa 20. COMTE, Auguste. Cours, loc. cit., VI, p. 5. 21. COMTE, Auguste. Discurso, loc. cit., p. 50 (grifos do autor). 22. Ibid., p. 62. 77 do espírito positivo”, relatividade que se opõe às propostas metafísicas de um absoluto. O saber positivo é relativo na medida em que não pode pretender conhecer o ente em sua essência, nem pode chegar, seja à origem das coisas, seja às suas causas finais. Ao contrário, deve permanecer relativo à nossa situação23, reconhecendo apenas o sensível, o fenomenal e o útil. possibilidade é reduzida à metodologia da ciência, que, juntamente com a teoria — (cujos pressupostos não são colocados em questão) e a utilidade (cuja finalidade não merece qualquer indagação) são exigências de sua cientificidade. Como lembra Habermas, Comte não entende a relatividade do conhecimento como uma questão relativa à constituição de um campo de possíveis objetivações da realidade. Ao contrário, “ele afirma, muito mais, a antinomia abstrata entre ciência e metafísica. O antigo positivismo agarra-se de forma particularmente acrítica à separação-de-mundo traçada pela metafísica: num lado a esfera do ente pro priamente dito, imutável e necessário, e noutro os fenômenos mutáveis e contingentes”24. Sem dúvida, a base da argumentação de Comte tem seu fundamento na observação de que com a gênese das modernas ciências experimentais, os conceitos substanciais da metafísica clás sica foram substituídos por relações conceituais e “... teorias que deviam fornecer a cópia de ente em sua plenitude foram substituídas por outras que explanam regularidades empíricas em termos essen cialmente causais”25. Vejamos agora, o terceiro fator básico do pensamento de Comte, qual seja, uma sociologia ou uma doutrina da sociedade que, ao determinar a sua estrutura essencial permite a realização de uma reforma prática da sociedade e finalmente uma reforma religiosa, a religião da Humanidade. Entretanto, a crítica de Comte à metafísica não levou a uma dis cussão sobre os conteúdos das propostas da filosofia clássica. Como diz Habermas, Comte recusou a abordar as questões postas pela me tafísica: elas não foram refletidas, mas sim liquidadas. Constatando a carência de sentido nas proposições metafísicas, o positivismo espera simplesmente que elas se desvaneçam por conta própria. São essas, então, as principais características da teoria da ciência de Comte. Se as antigas teorias do conhecimento não se esgotavam no conhecimento científico, o positivismo, ao contrário, reduziu o sentido do conhecimento ao âmbito estrito da ciência. Ou seja, a questão dos pressupostos do conhecimento científico, suas possibi lidades e limites passaram a ser vistas como metafísicas, etapa já superada historicamente pelo “espírito positivo” que de tudo pode dar conta. Dentro desse ponto de vista, o sujeito passou a ser irrele vante para a elucidação do processo cognitivo; o sentido do conheci mento é dado pela leitura racional da verdade dos fatos; sua 23. Ibid., p. 49. 24. HABERMAS, Jürgen. Conhecimento, loc. cit., p. 98-99. 25. Ibid., p. 99. 78 4 Já vimos a importância que Comte também sua preocupação permanente com dade. Na verdade, a lei dos três estados e das ciências, só podem ser corretamente dessa preocupação básica. Este é também mite compreender sua sociologia. atribuía à teoria e, vimos a reorganização da socie seu corolário, a classificação compreendidas no contexto o pano de fundo que per Ainda em 1822, Comte afirmava que ao longo da história toda inovação importante ocorrida na ordem social, toda reorganização política em qualquer sociedade havia sido precedida por uma pre paração conceituai, que a ela permaneceria condicionada. Em outras palavras, toda mudança de ordem social estaria, necessariamente, subordinada a um sistema teórico. No terceiro estado a que se refere a lei, o positivo ou científico, a sociologia e a moral cumprirão esse papel, isto é, serão apontadas como fontes necessárias para a im plantação de uma nova ordem social. A sociologia de Comte completa a hierarquia das diversas ciên cias, utilizando-se de todos os métodos das ciências precedentes: a observação, a experimentação, a classificação, a comparação, e acres centando mais um, o método histórico, de filiação histórica, mediante o qual se observa a herança cultural das diversas gerações humanas. É a dimensão social e sobretudo histórica, diz Comte, que dis tingue o homem dos animais. Não por acaso, é no método histórico que ele fará repousar a singularidade da sociologia, muitas vezes por ele tratada como a própria história ou como a filosofia da história. Pela observação, mediante o método histórico pode-se observar a linha evolutiva dominante da humanidade, prevendo-se o futuro, Aliás, segundo a opinião de Comte, a “previsão” facilitará o controle 79 social, objetivo primeiro de sua doutrina, partindo do ponto de vista de que a natureza humana possui uma base perene que, embora evolua segundo leis históricas, permanece sempre a mesma. Comte divide a Sociologia em duas partes: a estática e a di nâmica. A estática tem como preocupação a harmonia que prevalece entre as diversas condições da existência: estuda a sociedade em repouso. Estuda as leis de harmonia social, a sua hierarquia, ma nifestadas na coexistência e ordenação das classes e dos indivíduos. A estática toma a sociedade como um todo global, onde fun cionam os diversos fatos sociais, independentes entre si. Os feitos isolados não têm sentido. Os fatos sociais se organizam e se alteram sempre de forma solidária, embora com velocidades desiguais. O todo é harmonioso, carecendo de elementos conflitivos e antagônicos. Em conformidade com leis sociais naturais, deve haver sempre har monia espontânea entre o todo e as partes. É a estática que fala da família26 como a verdadeira célula social — uma espécie de microssociedade que reproduz, em ponto menor, os fatores da sociedade global. A família é vista como a escola da vida social. A subordinação da mulher é natural e o sexo feminino se encontra e se manterá em estado de infância perpétua. Para Comte “a sociologia demonstrará que a igualdade dos sexos, de que tanto se fala” é incompatível com toda a existência social”. Aquilo que no estado teológico era determinado pela providência, agora encontrará sua legitimação na ciência. Ainda na estática, Comte estuda a dife renciação social — vista por ele como natural — e que vai se tor nando mais complexa à medida em que a sociedade se desenvolve e também a hierarquia social. Em última instância, o que estuda a estática são os aspectos estáticos da sociedade, isto é, a ordem social. A dinâmica27, por sua vez, estuda o desenvolvimento ordenado da sociedade, de acordo com leis sociais naturais, isto é, a sociedade em movimento, o próprio desenvolvimento histórico da humanidade. É na história que se processa a evolução humana, fazendo com que o homem se torne cada vez mais humano, isto é, realize a sua na tureza humana, que nela se revela. O progresso da sociedade é ca racterizado dessa forma pela incessante especialização das funções 26. COMTE, Auguste. Cours, loc. cit., p. 294-296. 27. Ibíd., p. 190-191. 80 como todo desenvolvimento orgânico, na evolução dos órgãos particulares. para maior aperfeiçoamento É com a ordem e o progresso que Comte enfrentará a sociedade individualista e liberal. Com a concepção de que há um desenvol vimento histórico da sociedade, um progresso na evolução humana, um progresso, entretanto, que em momento algum prescinde da ordem ou carrega em si a possibilidade de alterar os elementos estáticos da sociedade. Sem ordem não há progresso, que não é senão “o desenvolvimento da própria ordem”28. Ao afirmar a complementaridade de ordem e progresso, Comte objetivava “libertar o Ocidente de uma democracia anárquica e de uma aristocracia retrógrada”29. Os defensores da “democracia anár quica”, inspirados nas tendências críticas do iluminismo, falavam de progresso, porém, com a “direção negativa que só podia convir ao século XVIII”. O “atraso” dos conservadores, por seu lado, permitia apenas a afirmação da ordem. De acordo com Comte, as classes sociais tendiam a polarizar-se, apoiando um grupo ou outro, e o resultado era, a seu ver, o conflito de classes, a desordem e a anarquia. Em cada crise o partido con servador argumentava que o problema emanava da destruição da ordem anterior, e, portanto, exigia sua imediata restauração. O par tido anárquico, ao contrário, considerava que os problemas advinham do fato de que a ordem anterior não havia sido completamente des truída, e que a revolução deveria continuar. A proposta de Comte será a de uma síntese das idéias de ordem e progresso, visando a restaurar a unidade social. Em suas palavras: Com efeito, nós, sociocratas, não somos nem democratas, nem aris tocratas. Aos nossos olhos, a massa respeitável desses dois partidos opostos representa empiricamente, de um lado, a solidariedade, do outro, a continuidade, entre as quais o positivismo estabelece profun damente uma subordinação necessária, que substitui enfim o anta gonismo deplorável que as separava30. Adversário do sufrágio universal, soberania popular, da monar quia tanto absoluta quanto constitucional, das assembléias, afirmava que a República seria o regime adequado ao pleno desenvolvimento 28. COMTE, Auguste. Catecismo Positivista. (Os Pensadores). São Paulo, Abril, 1978, p. 236. 29. Ibid., p. 119. 30. Ibid., p. 119. 81 da humanidade. Sua proposta era a de uma nova o conceito da autoridade, a ênfase na obediência do dever por quem está no poder aflora como da ditadura republicana, fundamentada em bases para o estabelecimento da ordem social definitiva. ordem social onde e no cumprimento essencial. Trata-se científicas, garantia O proletariado e a mulher eram vistos por Comte como os mais capacitados agentes para compreender, aceitar e implantar o positivismo, na medida em que ambos não estavam comprometidos com os interesses da burguesia. Burguesia que, a seu ver, havia chegado ao fim, nada mais tendo a fazer na história. O poder tem poral de sua república deveria ser exercido pelos produtores, tendo mesmo chegado a falar nos “governadores proletários”. Essa sociologia, proposta por Comte no Curso de filosofia po sitiva, como ele mesmo diz, está ainda no âmbito do método objetivo. Embora priorizando no Curso o método objetivo, nessa obra, de 1836, ele já entrevia o acordo de duas lógicas, a objetiva e a sub jetiva. Nesse primeiro momento, Comte ainda não ligava a lógica subjetiva aos sentimentos, mas a via como um complemento da outra. A partir de 1845, contudo, a dimensão afetiva aparece com clareza no conjunto de suas concepções, e o método subjetivo abre-se sobre a procura de uma sistematização positiva dos sentimentos. Sem dúvida, o encontro com Clotilde de Vaux, a paixão de Comte por ela, sua morte prematura contribuíram para direcionar o seu pensa mento nesta direção, marcando o início do que alguns autores cha mam de “a segunda carreira de Comte”. Nessa “segunda carreira” o primado do método subjetivo será definitivamente estabelecido, é Arbousse-Bastide quem diz: O benefício da síntese total, sempre recusado ao método objetivo, é lhe expressamente reconhecido. O real pode ser abordado a partir de fora pelo método objetivo e analítico, ou a partir de dentro pelo método subjetivo e sintético. O primeiro método sem excluir o se gundo, não se prolonga neste, necessariamente; o segundo método, não só inclui o primeiro, mas “regenera-o", isto é, restitui-lhe a fecun didade ao reintegrá-lo na totalidade do sujeito coletivo da humani dade. A noção de subjetividade em Comte, inclui, ao mesmo tempo, a sistematização afetiva, o primado da ciência humana e a possibili dade de uma síntese total 31. 31. ARBOUSSE-BASTIDE, Paul. Auguste Comte, Lisboa, Edições 70, 1984, p. 35. 82 Mas, se olharmos atentamente o desenrolar da obra de Comte, veremos que, desde o início, a preocupação com a reconstrução direta do poder espiritual foi uma constante. Se a primeira parte da obra procurou construir a sociologia sobre uma base científica, inquestio nável e inabalável, de tal modo que ela pudesse determinar a orga nização da sociedade em moldes positivo-científicos, a segunda parte tem como objetivo “construir a nova fé ocidental” e instituir o sa cerdócio definitivo. Para Comte, a ciência real deveria chegar à sã filosofia capaz, em última instância, de fundar a verdadeira religião. É assim que o Sistema de política positiva retoma as questões da estática e dinâmica sociais, detendo-se, no quarto tomo, às apli cações da doutrina sociológica na perspectiva do pleno desenvolvi mento do estado positivo. É nesse contexto que Comte apresenta a Moral, sétima e última ciência fundamental. Mais uma vez, trata-se de uma questão que, embora apresentada mais precisamente no Sistema, pode ser rastreada desde o início da produção teórica de Comte. Ainda em 1826, em. suas considerações sobre o poder espiritual, estão explícitas suas preocupações com a crise moral do seu tempo e já apontado o caminho para a sua so lução: a fundação de um novo poder espiritual. Em 1848, no Dis curso sobre o conjunto do positivismo, o positivismo é apresentado como o único capaz de sistematizar a moral universal, o objetivo da filosofia e ponto de partida da política. Mas, é no Sistema que Comte fará o anuncio oficial da moral como sétima ciência fundamental. Nesta proposta não se trata de des tronar a sociologia, mas de complementá-la. A sociologia, objetiva e analítica no Curso, subjetiva e sintética no Sistema, exige o comple mento da moral, ciência do homem individual. E, dessa forma, “a psicologia, que fora banida na classificação das ciências, é assim reintroduzida sob o nome de moral, sob a forma de uma ciência do individual, prelúdio à arte da educação”32. A moral de Comte é geralmente conhecida por suas teses mais popularizadas: exaltação do sentimento e do altruísmo (viver para outrem) ou a dedicação dos fortes pelos fracos e a veneração dos fracos pelos fortes, ou pela negação dos direitos a favor dos deveres, ou ainda pela crítica à liberdade de consciência. Entretanto, há uma 32. Ibid., p. 37. 83 questão fundamental — a sistematização filosófica — que quase sem pre é esquecida, e o papel que aí desempenha a educação. Paul Arbousse-Bastide, em sua detalhada análise do pensamento educacional de Comte nos lembra que: “A noção de educação apresenta-se em Comte sob formas diversas: 1 . Uma teoria da educação propriamente dita ou, se se quer, uma pedagogia da criança e do adolescente; 2. Um sistema de educação universal e integral, englobando toda a duração da vida humana, verdadeira economia da vida mental individual, desde a existência do feto até a morte; 3. Uma doutrina do aperfeiçoamento fundada sobre uma antropo logia ou uma teoria da natureza humana; 4. Uma introdução à vida subjetiva, isto é, uma meditação sobre a morte considerada em sua função religiosa de participação no grande ser” 33. De fato, na medida em que a pretensão de Comte é a regene ração moral e intelectual da humanidade, a educação aparecerá como um ponto de unidade no sistema. Foge aos limites deste trabalho acompanhar os quatro aspectos levantados por Bastide. Nos limi taremos a lembrar que a proposta educacional de Comte é de uma educação integral, orgânica e formativa, correspondente à totalidade da natureza humana, ao encadeamento racional e à instauração de uma ordem subjetiva — regeneradora da Humanidade. É ainda Arbousse-Bastide quem nos lembra que, para Comte, a educação moral é simultaneamente “o preâmbulo e o quadro geral de toda moral e, por conseguinte, de toda a educação”34. A moral natural deveria atuar na organização da nova sociedade, tanto no aspecto político quanto no econômico. Com relação à po lítica, a moral positiva deveria despertar nos súditos sentimentos de obediência e sujeição e, nos governantes, responsabilidade no exercício da autoridade. Com relação à área econômica, a moral deveria tornar os ricos perfeitos administradores de seus bens e os pobres depen dentes satisfeitos com sua posição social. Ambas as classes colabo rando para a prosperidade e grandeza da pátria e realização da humanidade. Comte não admitia que a questão política ou a eco nômica fossem vistas separadamente da questão moral. 33. ARBOUSSE-BASTIDE, Paul. La doctrine de l’éducation universelle dans la philosophie d’Auguste Comte, Paris, PUF, 2 vol., p. XII. 34. Ibid., p. 221. 84 Acompanhando a trajetória de Comte, podemos notar duas pers pectivas em relação à moral, que, embora não sejam opostas, não se situam no mesmo plano. Assim, nos Opúsculos, Comte apresenta a moral como uma arte fundada na ciência política. Enquanto tal, seus princípios teriam com base a observação (que, como vimos anteriormente, é a con dição de toda ciência) e seria relativa ao estado de civilização cor respondente. Em última Instância, seria uma aplicação de dados teóricos e objetivos. Seria uma moral-aplicação. No Curso e no Discurso, a noção de arte moral é deixada em suspenso e a moral vai aparecer intimamente ligada à educação. A moral será o resultado de uma educação científica e social, animada e controlada pelo poder espiritual. A sua regra fundamental é o pri mado da sociabilidade e a prática do altruísmo. Seria a moral-educação. Entre a moral-aplicação e a moral-educação há uma relação de complementariedade, pois a educação, no positivismo, só poderá efetivar-se tendo como ponto de partida a ciência da sociedade, fonte única de toda a aplicação moral. De qualquer forma, esse fato nos indica a importância que Comte atribuía à educação, missão fundamental do poder espiritual: a trans missão, a conservação e o controle dos conhecimentos, das opiniões e dos sentimentos apropriados para garantir a convergência necessária ao desenvolvimento normal da sociedade. O estado positivo, para Comte, não mais requer o uso da força, e a unidade e o consenso devem ser alcançados mediante a edu cação. Por isso mesmo, a educação deve ser livre, isto é, inteiramente independente do poder temporal, do governo. Deve ser universal, facultativa a todos, independente de sua posição na sociedade. É tarefa do poder espiritual cuidar da educação do homem todo, não só durante o 1.° período da vida, mas por toda a existência. Comte entende a educação positiva como uma ação contínua sobre o homem total com o fim de torná-lo mais apto para o serviço da humanidade, ensinando-o a viver de acordo com princípio moral básico — viver para outrem. No final de sua obra, a educação identifica-se com a iniciação religiosa e o culto sociolátrico, e tem como objetivo adap35. ARBOUSSE-BASTIDE, Paul. Auguste Comte, loc. cit., p. 38. 36. COMTE, Auguste. Catecismo Positivista, loc. cit., p. 139. 85 tar o homem ao serviço permanente do Grande Ser, a humanidade. Não por acaso, a educação positiva, em princípio, é destinada aos “proletários”, que Comte diz ser a “educação testemunho”. A busca da síntese, que marcou toda a vida de Comte, só se efetivará, verdadeiramente, na religião da humanidade, que consiste em ordenar cada natureza individual e a religar todas as individua lidades36. Fortemente influenciado pelo modelo do catolicismo ro mano, com uma teoria dos sacramentos (Apresentação, iniciação, admissão, destinação, casamento, maturidade, retiro, transformação, incorporação), um culto à mulher, inspirado em Clotilde mas com características do culto à Virgem Maria, uma rígida centralização em Paris, em torno do Padre Comte. O objeto maior de veneração, o Grande Ser, a Humanidade, entre o qual e o homem há uma soli dariedade de destino pois, para sobreviver, cada um necessita do outro. Formula um novo calendário, cujos meses receberam nomes de grandes figuras da história do pensamento, como Moisés, Descartes etc. Como o católico, o calendário positivista tem também os seus dias santos, nos quais se deveriam comemorar obras de Dante, Shakespeare, Adam Smith, etc. O último estado, o positivo, só se realizará completamente quan do a religião universal positiva dominar o seu preâmbulo científico e completar a síntese final, a participação de todos no Grande Ser. Concordamos com a análise de Verdenal quando afirma que, em última instância, o positivo se configura como a fórmula filosófica que realiza a metamorfose da ciência em religião. Em suas palavras: ( . . . ) a ciência, desembaraçada de todo além teórico da especula ção, converte-se em religião despojada de perspectiva teológica e reduzida aos “fatos" da prática religiosa: os mitos sociais. O fenô meno do positivismo manifesta o eclipsar-se da filosofia sob a apa rência de uma transformação ideológica, onde a idéia de ciência vai aos poucos caindo na religião. À sua maneira, Comte liquida a filo sofia, ao mesmo tempo como instância de síntese teórica e como centro de crítica cultural: restaura a religião como o fecho de abó bada de um imobilismo histórico, para uso da sociedade ocidental do Século XIX37. 37. 86 VERDENAL, René. A filosofia positiva de Augusto Comte, in: A Filo sofia e a História, de 1780 a 1880, org. François Châtelet, Rio de Ja neiro, Zahar. 1974. ORIENTAÇÃO BIBLIOGRÁFICA Embora Comte tenha produzido uma obra consideravelmente extensa — desde os Opúsculos da Juventude, até os seis volumes do Curso de Filosofia Positiva, os quatro volumes do Sistema de Política Positiva, a Síntese subjetiva, o Catecismo Positivista, entre as principais — são poucas as traduções completas existentes em português, o que dificulta o acesso ao conjunto da obra do autor. Como vimos, se a obra de Comte apresenta uma unidade essen cial — a idéia de que a filosofia positivista deve determinar aplicações políticas e a fundação de uma nova religião — podemos por outro lado nela distinguir temas e preocupações diferenciadas. Não vamos, aqui, percorrer toda sua obra, mas apenas indicar onde esses temas e preocupações são tratados de forma mais significativa. Assim, é fundamentalmente no Cours de philosophie positive que Comte apresenta sua filosofia da história — a lei dos três estados — a metodologia e a classificação das ciências, a descrição do espírito positivo ou científico. E é fundamentalmente no Systeme de politique positive que ele elabora as propostas de sua sociologia, da moral e da religião positivas. A exposição detalhada da religião positiva pode ser encontrada, também, no Catéchisme positiviste. Dentre as obras de Comte são encontradas em português, entre outras, as seguintes: Discurso sobre o espírito positivo, trad. Renato B. R. Pereira e Ivan Lins, Porto Alegre, Globo, EDUSP, 1973. Também publicado em Comte, trad. José A. Grannotti, São Paulo, Abril 1978. Este discurso foi publicado originalmente (Col. Os Pensadores) como introdução de Traité philosophique d’astronomie populaire, e se constituiu em obra de divulgação do conjunto de sistema positivista de Comte. Opúsculos de filosofia social, trad. Ivan Lins e João T. de Souza. Porto Alegre, Globo, EDUSP, 1972. Princípios de filosofia positiva. São Paulo, Editorial Paulista, s/d. Catecismo positivista, trad. Miguel Abril, 1978. (Col. Os Pensadores). Lemos, in: Comte, São Paulo, 87 No volume dedicado a Comte, da coleção Os Pensadores, encontra mos ainda as duas primeiras lições do Curso de filosofia positiva e o preâmbulo geral e a primeira parte do Discurso preliminar sobre o conjunto do positivismo. Com apresentação geral de Comte, sua obra e pensamento, bem como uma seleção significativa de textos encontramos: MORAES FILHO, Evaristo (Org) (Col. Grandes Cientistas Sociais). Comte, São Paulo, Ática, 1978 ARBOUSSE-BASTIDE, Paul (Org.). Auguste Comte. Lisboa, Edi ções 70, 1984 (Col. Biblioteca Básica de Filosofia) tra. Joaquim J. Coelho Rosa. Sobre o positivismo comtiano selecionamos: MARCUSE, Herbert. Razão e Revolução: Hegel e o advento da teoria social. Trad. Marília Barroso. Rio de Janeiro, Saga, 1969. (Col. Idéias e fatos contemporâneos). HABERMAS, Jürgen e Conhecimento e Interesse. Int. e Trad. José N. Heek. Rio de Janeiro, Zahar, 1982. DEBATENDO O TEXTO: Quais as principais linhas de influências no pensamento de Comte? Qual o sentido da palavra positivismo para Comte? Fale da Lei dos três Estados e aponte os principais aspectos do espi rito científico ou positivo. O que foi e quais os critérios utilizados por Comte em sua classificação das ciências? Por que a sociologia ou física social foi colocada por Comte, como a última das ciências em sua classificação? O que significam, para Comte, a “teoria positiva da ordem” e a “teoria positiva do progresso”? Em que sentido a Moral positiva complementa a sociologia? Articule a religião positiva com a proposta de Comte de reforma moral e intelectual da humanidade. Por que Comte atribui à teoria uma importância fundamental? Escreva o caráter da utopia de Comte. 88