PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE CAMPINAS JOÃO BATISTA CESARIO PSICOPEDAGOGIA E INCLUSÃO SOCIAL: INTERVENÇÃO PSICOPEDAGÓGICA COM CRIANÇAS EM SITUAÇÃO DE RISCO PUC-CAMPINAS 2007 PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE CAMPINAS JOÃO BATISTA CESARIO PSICOPEDAGOGIA E INCLUSÃO SOCIAL: INTERVENÇÃO PSICOPEDAGÓGICA COM CRIANÇAS EM SITUAÇÃO DE RISCO Monografia de conclusão de curso apresentada à Faculdade de Educação da Pontifícia Universidade Católica de Campinas, como requisito parcial para a obtenção do título de Especialista em Educação e Psicopedagogia, sob orientação da professora Dra. Maria Regina Peres. PUC-CAMPINAS 2007 AGRADECIMENTOS A Deus, pelos dons que me concedeu generosa e gratuitamente. Ao grupo de professores(as) dedicados(as ) e generosos(as) do Curso de Especialização em Educação e Psicopedagogia da PUC-Campinas Às colegas da turma pelos ricos momentos de partilha, questionamento e construção coletiva do conhecimento e pelo testemunho de amor à educação que todas me deram ao longo desse ano. Aos companheiros Reginaldo Wagner Romão e Sérgio da Silva Sobral, auxiliares de biblioteca, pela alegria, amizade e prontidão pra ajudar na localização da bibliografia necessária. A psicopedagoga Lucimar Almeida Delman Lains, responsável pela instituição onde fiz estágio, pela solidariedade e o respeito pelo nosso trabalho. À Profª. Drª. Maria Regina Peres, Coordenadora do Curso de Especialização em Educação e Psicopedagogia da PUC-Campinas, que orientou este trabalho, pela integridade, respeito, dedicação à docência e amor pela psicopedagogia. “Gosto de ser gente porque, mesmo sabendo que as condições materiais, econômicas, sociais e políticas, culturais e ideológicas em que nos achamos geram quase sempre barreiras de difícil superação para o cumprimento de nossa tarefa histórica de mudar o mundo, sei também que os obstáculos não se eternizam” Paulo Freire, Pedagogia da autonomia, p. 54 “Já podaram seus momentos,desviaram seu destino Seu sorriso de menino, quantas vezes se escondeu Mas renova-se a esperança, nova aurora, cada dia E há que se cuidar do broto / Pra que a vida nos dê flor e fruto. / Coração de estudante / Há que se cuidar da vida / Há que se cuidar do mundo Pra que a vida nos dê flor e fruto.! ‘Coração de estudante’, Milton Nascimento “Ontem um menino que brincava me falou que hoje é semente do amanhã. Para não ter medo que este tempo vai passar Não se desespere não, nem pare de sonhar Nunca se entregue, nasça sempre com as manhãs Deixe a luz do sol brilhar no céu do seu olhar! Fé na vida Fé no homem, fé no que virá! nós podemos tudo,Nós podemos mais Vamos lá fazer o que será” ‘ Semente do Amanhã’, Gonzaguinha Sumário APRESENTAÇÃO................................................................................................ 07 1 – EDUCAÇÃO: ALGUNS ASPECTOS HISTÓRICOS 1.1 – Educação na antiguidade....................................................................... 10 1.1.1 – Educação na Grécia: Paidéia.............................................................. 11 1.1.2 – Educação em Roma: Humanitas......................................................... 16 1.1.3 – Influência Greco-Romana na história da educação............................. 19 1.2 – A educação no Brasil.............................................................................. 21 1.2.1 – A educação no período colonial brasileiro: Sistema Jesuítico de ensino................................................................ 24 1.2.2 – A educação brasileira no século XIX: formação das elites para a política e dos pobres para o trabalho............................... 29 1.2.3 – A educação brasileira no século XX: o desafio da universalização do ensino..................................................................... 39 1.2.4 – Indicadores de alfabetismo no Brasil.................................................... 47 2 – A PSICOPEDAGOGIA COMO PRÁTICA LIBERTADORA.............................. 57 2.1 – A origens da psicopedagogia.................................................................. 62 2.2 – A psicopedagogia no Brasil................................................................... 65 2.3 – Método e campos de atuação da prática psicopedagógica................... 68 2.4 – A psicopedagogia institucional................................................................ 70 2.5 – Impasses e desafios para a regulamentação da psicopedagogia como profissão....................................................................................... 74 3 – PSICOPEDAGOGIA E PERSPECTIVAS DE INCLUSÃO............................... 78 3.1 – Educação não-formal: algumas experiências......................................... 81 4 – CONSIDERAÇÕES FINAIS............................................................................. 85 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS...................................................................... 89 BIBLIOGRAFIA CONSULTADA............................................................................ 99 CESARIO, João Batista. Psicopedagogia e Inclusão Social: Intervenção psicopedagógica com crianças em situação de risco. Monografia (Especialização em Educação e Psicopedagogia) Pontifícia Universidade Católica de Campinas, Campinas, São Paulo, 2007, 101 pp. RESUMO No triste cenário da realidade educacional brasileira, marcado por problemas e limites de origens diversas, este trabalho se propõe investigar como a psicopedagogia, especialidade da área da educação, voltada para os processos de aprendizagem e suas dificuldades, pode ser um efetivo instrumento de inclusão, devolvendo a crianças, adolescentes, jovens e adultos, a auto-estima, a alegria e o gosto pelo aprender. A metodologia utilizada é a abordagem qualitativa enfocando a pesquisa bibliográfica. Percorrendo a historia da educação no Brasil e no mundo tentamos demonstrar como a exclusão sempre esteve presente no ensino, deixando de lado um número significativo de pessoas, privadas do conhecimento e do saber. O ensino de qualidade sempre foi privilegio de alguns, patrimônio de uma classe social, em detrimento da maioria da população. Investigando as origens, o método e a natureza da psicopedagogia, buscamos apresentá-la como instrumento válido, atual, urgente e necessário para superação do fracasso escolar, forma contemporânea de manter a lógica da exclusão, disfarçada sob o discurso da universalização do ensino e da educação para todos. Palavras-chave: fracasso escolar, educação não-formal, historia da educação, história da psicopedagogia. justiça social. APRESENTAÇÃO A formação em filosofia me possibilitou uma aproximação amorosa com a educação. Além das disciplinas que à época nos preparavam para o ensino de filosofia no segundo grau – didática, filosofia da educação, estrutura e funcionamento do ensino, entre outras – tive a oportunidade de realizar estágio durante um ano, acompanhando as aulas de filosofia, numa escola da cidade. Algum tempo depois de concluída a graduação fui lecionar numa escola estadual da periferia de Campinas, na condição de professor eventual. O choque foi inevitável. A escola que encontrei não se parecia nem de longe com aquela que conhecia, tampouco a prática educacional desenvolvida naquela instituição se parecia com a que eu aprendera a buscar na filosofia. Fracasso escolar, violência, falta de professores, carência de recursos pedagógicos eram alguns dos elementos que compunham a moldura daquele equipamento publico, destinado á educação de um grande número de crianças e adolescentes naquela região periférica da cidade. Salas abafadas, vidraças e carteiras quebradas completavam a configuração de um ambiente completamente inadequado para o ensino. Ao mesmo tempo aquela era a única escola pública que atendia toda a demanda por vagas de um bairro enorme e distante vários quilômetros do centro da cidade. 7 Foram aulas de história, geografia, língua portuguesa, língua inglesa e até de matemática e física as que me foram oferecidas. Na condição de professor eventual minha função era substituir os professores ausentes em suas disciplinas. Essa experiência me provocou uma profunda inquietação pedagógica, bem como, uma indignação ética com relação aos rumos da educação no Brasil. Precisei abandonar o magistério algum tempo depois, mas não abandonei o desejo de estudar a educação e tentar construir saídas. Encontrei na psicopedagogia o instrumento válido e urgente para o resgate de muitas crianças, adolescentes e jovens condenados à exclusão pelo fracasso escolar, em situações muito parecidas com a que vivenciei naquela escola e, infelizmente, ainda muito presentes. Inicialmente, percorrendo a trajetória da educação, tentarei revisitar alguns aspectos da antiguidade clássica, bem como da historia do Brasil identificando nesse percurso uma longa historia de exclusão, que tem segregado sistematicamente uma parcela considerável da população, apartada dos bens culturais, acessíveis apenas pela via da educação. Em seguida buscarei investigar as origens, o método e a abrangência da psicopedagogia como ciência dedicada à investigação do processo de aprendizagem e que propõe caminhos e alternativas concretos para as dificuldades que acompanham esse processo. 8 Por fim, buscarei apontar o ambiente da educação não-formal como um território propício para iniciar o árduo caminho da inclusão, através de um trabalho preventivo e cauteloso, de atenção e acompanhamento das crianças nos ricos momentos de sua experiência pré-escolarização formal, dotando-as já nessa fase inicial, de alguns instrumentos que serão válidos para toda a vida no âmbito da educação. Enfim, essa pesquisa aguçou-me o desejo de continuar investigando a historia da educação, especialmente na realidade brasileira, bem como me possibilitou uma maior apropriação das categorias e conceitos específicos da área da psicopedagogia, além de me propiciar o contato com teóricos da educação e suas valiosas produções, o que apenas aumentou minhas inquietações com relação à realidade do ensino e da formação das crianças, adolescentes e jovens especialmente. Essa pesquisa é uma tentativa de buscar caminhos que, sabemos, não existem prontos, mas devem construídos por cada geração. Oxalá sirva também de provocação a suscitar outras tentativas, ampliando os horizontes da discussão e lançando novas perspectivas, apenas ensejadas nesse trabalho ou ainda aludidas de forma parcial e insuficiente. Aqueles (as) que amam a educação e fazem da arte do ensino o seu labor cotidiano hão de encontrar relevância e pertinência nessa tentativa. 9 1 – EDUCAÇÃO: ALGUNS ASPECTOS HISTÓRICOS 1.1 – Educação na antiguidade O Egito é reconhecido unanimemente como o berço comum da cultura e da civilização humanas. Os registros mais antigos no campo da educação, da instrução e do ensino são do Egito e remontam ao período arcaico (século XXVII a.C). São ensinamentos que “contêm preceitos morais e comportamentais rigorosamente harmonizados com as estruturas e as conveniências sociais [...] em forma de conselhos dirigidos do pai para o filho e do mestre escriba para o discípulo” (MANACORDA, 2002, p.11). Egito, Mesopotâmia, Babilônia, Pérsia, Índia, China e outros povos antigos são chamados de civilizações fluviais por se terem organizado às margens de grandes rios que as alimentavam. Apesar das grandes diferenças entre essas civilizações há alguns traços comuns, como governos despóticos e teocráticos em que o poder absoluto do rei era exercido com base em sua suposta origem divina; a administração burocrática do Estado controlava a produção agrícola, arrecadava impostos, dirigia a construção de grandes templos, palácios e túmulos; suas economias eram organizadas segundo o ‘modo de produção asiático’1 calcado na agricultura, no qual os trabalhadores viviam em regime de servidão, ligados à terra e submetidos ao poder do rei, imperador ou faraó (ARANHA, 1996, p. 32). 1 Modo de produção é a maneira pela qual uma sociedade produz e distribui seus bens e serviços. O modo de produção se constitui no centro organizador da vida de uma sociedade, congregando as forças produtivas e as relações de produção. 10 A invenção da escrita é outro traço comum dessas civilizações, fato que não se dissocia do aparecimento do Estado, pois a manutenção da máquina estatal supõe uma classe especial de funcionários capazes de exercer funções administrativas e legais cujo registro é imprescindível (ARANHA, Id.). Os sinais utilizados para a escrita representavam, inicialmente, figuras e não sons. Eram assim os hieróglifos2 egípcios e a escrita cuneiforme3 da Mesopotâmia. Atribui-se aos fenícios a criação ou aperfeiçoamento do alfabeto por volta do ano 1500 a.C, assimilado posteriormente pelos gregos (séc. VIII a. C) que o transmitiram aos romanos. Nessas civilizações antigas não havia propostas propriamente pedagógicas, mas a preocupação com a educação estava presente nos livros sagrados “que ofereciam regras ideais de conduta e orientação para o enquadramento das pessoas nos rígidos sistemas religiosos e morais” (ARANHA, 1996, p.33). 1.1.1 – Educação na Grécia: Paidéia A civilização grega se desenvolveu posteriormente ao apogeu das grandes civilizações orientais, tendo alcançado o seu ponto mais alto no período clássico (séculos V e IV a.C). “A esplêndida produção nas artes, literatura e 2 3 Termo que significa ‘escrita sagrada’ Inscrições em forma de cunha 11 filosofia [dessa época] delineia definitivamente o que virá a ser a herança cultural do mundo ocidental” (ARANHA, 1996, p. 40). Se até o século VI a.C. predominava na Grécia uma concepção mítica do mundo, em que se atribuía ao sobrenatural grande influência sobre as ações humanas, no período clássico ocorreu a passagem para o pensamento racional e filosófico. Alguns autores chegam a falar de “milagre grego” para caracterizar esse salto qualitativo na cultura e civilização gregas (CAMBI, 1999, p. 71-74); outros preferem creditar esse avanço significativo a um processo que se desenvolveu lentamente no passado mítico, de tal forma que [...] o surgimento da filosofia na Grécia não é, na verdade, um salto realizado por um povo privilegiado, mas a culminância de um processo que se fez ao longo de milênios e para o qual concorreram as novidades introduzidas na época arcaica [séc. VIII a VI a.C] São elas: a escrita, a moeda, a lei e a pólis, e o aparecimento do filósofo. Essas transformações foram responsáveis por uma nova visão que o homem passa a ter do mundo e de si próprio (ARANHA, Id, p. 42). A virada cultural grega se realizou “em direção da laicização, da racionalização e da universalização” (CAMBI, 1999, Id.). A reflexão filosófica – radical, rigorosa e de conjunto4 – superou, sem eliminar, o universo míticoreligioso para “explicitar os fundamentos do pensar e do agir” humanos (ARANHA, 4 “A filosofia é radical porque sua reflexão busca as raízes da questão: do latim radix, radicis, raiz, e, no sentido derivado, fundamento, base [...] A filosofia é rigorosa porque [...] para justificar suas afirmações com argumentos, usa de uma linguagem rigorosa que define os conceitos, evitando a ambigüidade típica das expressões cotidianas [...] A reflexão filosófica é de conjunto por ser globalizante, ao examinar os problemas na perspectiva do todo, relacionando os seus diversos aspectos” (ARANHA, 2006, p. 21) 12 2006, p. 21), no ambiente da pólis5, a cidade-estado grega, em cujo centro, estava a ágora (praça pública), lugar do debate que “engendra a política” (ARANHA, 1996, p. 42). A filosofia é filha da cidade (pólis) e o homem livre era cidadão da pólis. À educação competia formar o cidadão para a vida na pólis. Nessa tarefa destacavam-se os sofistas6, mestres itinerantes que, no período clássico da cultura grega, ensinavam “a arte da persuasão, do convencimento, do discurso, que serão bem aproveitados na praça pública, sede da assembléia democrática” (ARANHA, Id. p. 43). Aos sofistas se atribui “a sistematização do ensino por terem formado um currículo de estudos” (ARANHA, Id.) composto pelas sete artes liberais: gramática, retórica, dialética, aritmética, geometria, astronomia e música. Criadores da educação intelectual os sofistas desenvolveram uma reflexão notadamente antropológica e interessada, sobretudo, nos assuntos de moral e política, com “uma atenção quase exclusiva para o homem e seus problemas, como também para suas técnicas, a partir do discurso” (CAMBI, 1999, 5 A pólis ou cidade-estado se desenvolveu a partir do séc VIII a.C.como uma comunidade limitada, independente e autônoma, cujos membros lhe deviam lealdade total. Segundo LUZURIAGA (1990, p. 39) “a pólis é o lugar da educação cívica e espiritual. Aí se adquirem a consciência cívica, o espírito democrático, a liberdade política própria da vida ateniense”. 6 Sofista vem de sophos (grego) e significa sábio ou professor de sabedoria. Em razão das divergências e críticas de Sócrates (c.469-399 a.C) e Platão (428-347 a.C) aos sofistas permaneceu na história uma imagem negativa e caricatural de seu trabalho. Sofista “pejorativamente passou a significar homem que emprega sofismas, ou seja, alguém que usa de raciocínios capciosos, má fé, com intenção de enganar [...] Recentemente tem sido atenuada essa avaliação depreciativa, tentando-se redimensionar a verdadeira importância da sofística” (ARANHA, 1996, p. 43). 13 p. 85). Ao exigirem remuneração por seu trabalho os sofistas valorizavam o papel e a figura do professor (educador) dando consistência profissional a essa função. Nesse período surgiu a noção de Paidéia, inicialmente relacionada à educação das crianças7, mas que se ampliou posteriormente para designar todo o processo de formação integral do cidadão, abrangendo cultura, tradição, literatura, civilização e educação a um só tempo. A Paidéia referia-se àquele ideal de “formação de uma humanidade superior, nutrida de cultura e de civilização, que atribui ao homem, sobretudo, uma identidade cultural e histórica” (CAMBI, 1999, p. 87). “Com o tempo o sentido [do conceito] se amplia para designar toda teoria sobre educação. São os gregos que, ao discutir os fins da Paidéia, esboçam as primeiras linhas conscientes da ação pedagógica”8 (ARANHA, 1996, p. 41). A educação na Grécia, de modo geral, foi constantemente centrada na formação humana integral, do corpo (preparo físico) e do espírito (domínio da razão no debate intelectual). A noção de Paidéia sintetizava aquilo que a cultura grega chamou “com pleno efeito de educação, dando à palavra o sentido de formação harmônica do homem para a vida na pólis, através do desenvolvimento de todo o corpo e de toda a consciência” (BRANDÃO, 1981, p. 38). 7 Os vocábulos gregos pais, paidós significam criança. “A palavra pedagogo [paidagogós, literalmente aquele que conduz a criança] designava na Grécia antiga, o escravo que conduzia a criança à escola. Essa denominação concreta (pedagogo/pedagogia) assumiu posteriormente conotações abstratas para indicar as teorias sobre a educação. Ao longo do tempo o conceito de pedagogia sofreu variações, do mesmo modo que os princípios e os fins da educação nem sempre permaneceram os mesmos” (ARANHA, 2006, p. 34) 8 14 Para os gregos, cuja sociedade estava ancorada na instituição escravista9, a educação era para os homens livres, aos quais se ensinava a teoria, “que é o saber do nobre para compreender e comandar, não para fazer, curar ou construir” (BRANDÃO, 1981, p. 42). Os pobres da Grécia (escravos e outros trabalhadores manuais) “expulsos do direito de saber que existe na Paidéia” (BRANDÃO, p. 39) aprendiam desde muito cedo seus ofícios nas oficinas, na lavoura e no pastoreio. Aos adolescentes livres a educação não era um direito, mas uma obrigação, verdadeiro dever que a pólis lhes impunha, porque o exercício da educação [...] modela não um homem abstrato [...], mas o cidadão maduro para o serviço à comunidade, projeto do político. A ‘obra de arte’ da Paidéia é a pessoa plenamente madura – como cidadão, como militar, como político – posta a serviço dos interesses da cidade-comunidade. Assim, o ideal da educação é reproduzir uma ordem social idealmente concebida como perfeita e necessária, através da transmissão, de geração a geração, das crenças, valores e habilidades que tornavam um homem tão mais perfeito quanto mais preparado para viver a cidade a que servia. E nada poderia haver de mais precioso, a um homem livre e educado, do que o próprio saber e a identidade de sábio que ele atribui ao homem. (BRANDÃO, p. 44) Segundo BRANDÃO (1981, p. 46-47) a educação grega – humanista e ética – visava sempre àquilo que o homem poderia vir a ser (cidadão político 9 No período clássico (séc. IV– a.C) “a escravidão aumentou consideravelmente em toda a Grécia [...], em Atenas, p. ex., todo cidadão tinha pelo menos um ou dois escravos para ajudá-lo nas tarefas domésticas [...]. À medida que a democracia se consolidava, o ideal de cidadão desvinculado dos trabalhos manuais [...] tomava corpo. A escravidão era indispensável para a manutenção deste ideal [...] A noção de democracia caminha de mãos dadas com a de escravidão, e a noção de cidadão, com a de escravo” (FLORENZANO, 1982, p. 46-47). 15 perfeito a serviço da pólis) e, nesse sentido, “os gregos ensinam o que hoje esquecemos”, por exemplo, que “a educação do homem existe por toda parte” como “resultado da ação de todo o meio sociocultural sobre os seus participantes. É o exercício de viver e conviver que educa”. 1.1.2 – Educação em Roma: Humanitas Se na pólis grega o ideal da educação, perseguido na abrangência do conceito de Paidéia, era a formação do cidadão perfeito, um verdadeiro herói da pólis, em Roma o modelo ideal da educação era o ancestral da família, depois o da comunidade (BRANDÃO, 1981, p. 50). A educação romana objetivava não tanto a formação intelectual, antes almejava a formação moral do homem virtuoso, cidadão, político. A finalidade expressa do processo educativo romano é a formação dos filhos para serem úteis à Pátria. Portanto, devem ser instruídos no que concerne aos costumes do Estado e das instituições dos antepassados [...] Devem aprender aquelas artes que são as mais necessárias para o Estado. É nisto que consiste a maior sabedoria e a máxima virtude. O ideal romano é pratico, pois orientase para a lei e a ordem, o dever ao Estado, às tradições ancestrais e à dignidade auto-suficiente (GILES,1987, p. 31). A educação da criança em Roma era uma tarefa eminentemente doméstica, na qual a mulher (mãe) “era valorizada como mater famílias, portanto, reconhecida como sujeito educativo” (CAMBI, 1999, p. 106), que participava ativamente da formação dos filhos. 16 [Em Roma] a mulher, a mãe ocupou, no lar, posição mais elevada que na Grécia, principalmente na educação dos filhos. Estes, com efeito, estavam a seu cuidado na primeira infância; e quando não os podiam atender pessoalmente, confiavam-nos a uma matrona parenta que vigiava estritamente a vida das crianças (LUZURIAGA, 1990, p. 59) De fato “a mãe romana foi educatrix [educadora] de seus filhos no sentido mais amplo da palavra” (CAMBI, Id.), cuidando de todos os aspectos do crescimento físico e moral das crianças, tanto na dimensão material quanto espiritual. A elas competia cuidar da criação, nutrição, instrução, sustento, etc. Enquanto as meninas eram educadas para desempenhar o papel de esposa e mãe, conforme “o ideal romano da mulher [...] fiel e operosa” (CAMBI, p. 107), os meninos ao completarem sete anos passavam a ser educados pelo pai, que devia, então, “formar sua consciência segundo os preceitos das crenças e valores da classe e da sociedade” (BRANDÃO, p. 50). Nessa idade os meninos acompanhavam o pai em festas e eventos importantes da sociedade, ouviam histórias gloriosas do passado e decoravam a Lei das Doze Tábuas10. Aprendiam a ler, escrever, contar e manejar as armas. Aos quinze anos o pai os levava ao foro, a praça central da cidade, local do comércio e das questões públicas para aprender o civismo11. Aos dezesseis anos os meninos eram introduzidos nas funções militares ou políticas (ARANHA, 1996, p. 64-65). 10 Primeiro código escrito do direito romano, gravado em tábuas de bronze entre 451 e 450 a.C. “O pai amoldava o filho, sendo o objetivo moral e não intelectual, prático e não literário, pois, enfim, trata-se de formar uma sociedade de soldados e aristocratas” (GILES, 1987, p. 33). 11 17 O pai ou pater famílias, numa compreensão de família que “não era nuclear como a nossa, composta por mãe, pai e filhos, mas extensa, incluindo os filhos casados, escravos e clientes [era] proprietário, juiz e chefe religioso” (ARANHA, 1996, p. 64) ao mesmo tempo. O poder do pater famílias incluía também a educação, o que o tornava, na verdade, o primeiro educador de toda a família, [...] cuja autoritas [autoridade], destinada a formar o futuro cidadão, é colocada no centro da vida familiar e por ele exercida com dureza, abarcando cada aspecto da vida do filho (desde a moral até os estudos, as letras, a vida social) (CAMBI, p. 106). A antiga Lei das Doze Tábuas [...] permite, entre outras coisas, que o pai mate os filhos anormais, prenda, flagele, condene aos trabalhos agrícolas forçados, venda ou mate filhos rebeldes, mesmo quando, já adultos, ocupam cargos públicos (MANACORDA, p. 74). Em Roma, por muito tempo, a família exerceu a função educativa, dispensando a educação pública e coletiva; contudo, na época da República (50927 a.C), a implementação do comércio, o enriquecimento de alguns cidadãos e a expansão imperialista romana propiciaram a emergência de grande complexidade na vida da sociedade, exigindo nova concepção da educação e novo modo de educar(ARANHA,1996, p. 65). Aos poucos foram criadas as escolas elementares, por volta do século IV a.C., para ensinar a escrever, ler e contar até os 12 anos. Nos séculos III e II a.C. surgiram as escolas dos gramáticos, responsáveis por uma espécie de ensino secundário, nas quais os adolescentes de 12 a 16 anos estudavam os 18 clássicos gregos, além de geografia, geometria, aritmética e astronomia. No século I a.C. surgiu a escola superior, voltada para um saber aristocrático, destinada a uma elite juvenil que ocuparia postos de destaque na sociedade, nas assembléias e tribunais (ARANHA, id.). No âmbito da educação a noção de humanitas, em Roma, correspondia à Paidéia na Grécia. Era o empenho educativo realizado visando tornar o homem profundamente homem, virtuoso, “como ser moral, político e literário” (ARANHA, p. 62). Humanitas não era educação nacional e local, antes “tratava-se [...] de ensino de tipo universal, humanístico [...] baseado em cultura alheia superior, a servir de inspiração” (LUZURIAGA, 1990, p. 62). Humanitas era a “cultura geral que transcende os interesses locais e nacionais” (GADOTTI, 2002, p. 42) ensinada aos adolescentes, sobretudo, no período secundário da formação ou na escola dos gramáticos. 1.1.3 – Influência Greco-Romana na História da Educação A cultura ocidental contemporânea tem suas raízes na antiguidade clássica, na cultura greco-romana. Com razão LUZURIAGA (1990, p.33) afirma que “principia, com a Grécia, nova era da história da humanidade, a era de nossa cultura ocidental [...], pois dela derivam, em grande parte, nossa educação e nossa pedagogia”. 19 No século III a.C., após dominar totalmente a península Itálica, Roma partiu para a conquista de outros territórios. Após vencer Cartago nas Guerras Púnicas os romanos dominaram o Mar Mediterrâneo e o transformaram “num imenso lago, o mare nostrum12, onde os navios circulavam com segurança, levando cargas preciosas de um lugar para outro do Império” (LORENZANO, 1982, p. 87). Em seguida Roma dominou a Grécia, o Egito, a Macedônia, a Gália, a Germânia, a Trácia, a Síria e a Palestina que, subjugadas militarmente, passaram a pagar pesados impostos ao império, além de fornecer numerosos escravos aos romanos. A Grécia, no entanto, vencida militarmente no campo de batalha venceu o imbatível império romano no campo da cultura, conquistando-lhe a mente, impondo-lhe costumes e valores e influenciando, através da educação, todos os setores da vida romana, de forma tal que “a conquista da Grécia leva, inexoravelmente, à helenização de Roma” (GILES,1987, p. 33). Não se sabe se com alegria ou tristeza Horácio (65 a.C – 8 a.C), o grande poeta latino, registrou em seus versos que “a Grécia vencida conquistou, por sua vez, o rude vencedor, e levou a civilização ao bárbaro Latium” (GILES, 1987, p. 61). A compreensão atual de educação, de pedagogia, dos métodos de ensino-aprendizagem deve muito à herança da antiguidade clássica (Grécia e Roma). A linguagem, as metodologias e os ambientes educacionais contemporâneos guardam marcas profundas desse patrimônio herdado. 12 Tradução literal: “o nosso mar” 20 Por exemplo, “a idéia ocidental de educação com base na difusão do saber deve muito aos sofistas” gregos (REALE & ANTISSERI, 1990, p. 75); a concepção de educação integral, contemplando todas as dimensões da vida, vem da Paidéia grega; a organização sistemática do ensino em níveis distintos (elementar, intermediário e superior) é herança romana (GILES, 1987, p. 35-37; GADOTTI, 2002, p. 42-44). Para BOSSA (2002, p. 19) “vivemos em um país em que a distribuição do conhecimento, como fonte de poder social, é feita privilegiando alguns e discriminando outros” e nisso se pode identificar mais um traço marcante da história da educação herdado da antiguidade clássica. Na Grécia somente os cidadãos livres, minoria da arquitetura social, tinham acesso à educação. Em Roma eram os patrícios, cidadãos romanos por direito de nascimento, os que desfrutavam os privilégios da educação clássica. Enfim, a história da educação é também uma história de exclusão, que se repete de tempos em tempos em novos contextos e com novos agentes históricos. 1. 2 – A Educação no Brasil Para se compreender os atuais impasses e dificuldades da educação brasileira é necessário reler a história do Brasil nos cinco séculos de seu percurso, destacando nela a trajetória da educação, com seus limites, condicionamentos e 21 possibilidades. Segundo MORAIS (1989, p. 91) a “história de nossa educação é a história de um malogro, [...] de uma vasta precariedade [...] conseqüência imediata das situações políticas e econômicas que tivemos e temos”. É certo que “os modelos de educação sempre seguiram os interesses e objetivos de cada sociedade, considerados os valores culturais de cada período histórico” (MARTINS, 2007). Na Grécia antiga, por exemplo, a educação almejava a formação do cidadão para a pólis; em Roma se buscava a construção do sujeito moral, o ideal do cidadão romano, identificado totalmente com os objetivos do império; em Esparta, sociedade beligerante, a educação visava preparar soldados para a guerra. No Brasil – conquistado militarmente, sob o véu de ‘descobrimento’, para servir aos interesses expansionistas da Coroa Portuguesa – não houve, desde o início, real interesse e empenho pela educação, pois se tratava de explorar maximamente a colônia em benefício da estabilidade econômica da metrópole (Portugal). E boa parte do que se fez em termos educativos no período colonial foi para ajudar nesse projeto. Para o Brasil não foram enviados empreendedores interessados em construir uma nação13, desenvolver-lhe as potencialidades e engrendrar-lhe uma cultura própria, mas exploradores ávidos por riquezas, especialmente ouro, prata, 13 Segundo MOURA (2000, p. 31) “o português trouxe consigo a noção de trabalho como algo desonroso. [...] Uma ética do trabalho, ao modo dos protestantes, inexistiu entre os habitantes da Península Ibérica. Foram antes sonhadores quixotescos de feitos heróicos que lhes trouxessem honraria, sem que precisassem erguer um machado”. 22 diamantes e outras14. Está claro que “o objetivo dos colonizadores era o lucro, e a função da população colonial era propiciar tais lucros às camadas dominantes metropolitanas” (RIBEIRO, 1988, p. 21). Não tendo encontrado o eldorado15 de imediato, os colonizadores lançaram-se à extração das matas costeiras de pau-brasil que logo se esgotaram. Em seguida a empresa colonial, movida pelo capitalismo-mercantil, foi obrigada a “empreender a colonização em termos de povoamento e cultivo da terra” (RIBEIRO, p. 21), tendo encontrado sua fortuna na indústria açucareira movida pela mão-de-obra escravizada. 14 Na famosa Carta de Pero Vaz de Caminha – documento inaugural da história do Brasil – em 1500, o autor confessa claramente a intencionalidade que presidiu o “achamento” do Brasil pelo Reino de Portugal. Segundo ele o Capitão-mor da expedição, desde os primeiros contatos com os nativos tratou logo de demandar pelas riquezas da terra: “Depois andou o Capitão para cima ao longo do rio, que corre sempre chegado à praia. [...] [Ali encontrou um velho índio que] falava enquanto o Capitão esteve com ele, perante nós todos, sem nunca ninguém o entender nem ele a nós quantas cousas lhe demandávamos acerca d’ouro que nós desejávamos saber se na terra havia” (CAMINHA, 2003, p.105). 15 Eldorado foi o sonho que alimentou as seguidas expedições dos conquistadores portugueses e espanhóis pelo interior desconhecido do continente americano, buscando um lugar mitológico onde haveria muito ouro. Na América espanhola esta busca foi acompanhada de violentas guerras de extermínio que dizimaram populações e culturas inteiras logo nos primeiros anos de colonização. No Brasil o ciclo da mineração, nos séculos XVII e XVIII produziu o mesmo horror e violência. Os bandeirantes – responsáveis pela expansão territorial do Brasil – somente nas três primeiras décadas do séc. XVII mataram ou escravizaram cerca de 500 mil índios, nas seguidas expedições ou bandeiras que realizaram pelos sertões. Além de conquistadores de território para o Brasil os bandeirantes foram grandes criminosos, celebrados na história nacional como heróis. (BUENO, 1997, p. 41.65-72). 23 1.2.1 – A educação no Período Colonial Brasileiro: Sistema Jesuítico de ensino Para MORAIS (1989, p. 91) “a estrutura social do Brasil – da colonização até hoje – se tem caracterizado pela alternância de diferentes submissões”. Assim é que no Regimento de 17.12.1548 – documento de Dom João III (1502-1557) que apontava algumas diretrizes básicas de Portugal em relação ao Brasil recém-descoberto – uma das determinações se referia “à conversão dos indígenas à fé católica pela catequese e pela instrução” (RIBEIRO, p. 19). Pois que a religião e a educação serviriam de instrumentos de submissão dos nativos aos propósitos da empresa colonizadora. Nesse período, infelizmente, “catequese e colonialismo andaram sempre juntos” (BUENO, 1997, p. 33). Naquele momento os jesuítas eram os únicos educadores disponíveis na colônia e empreenderam grande esforço para dar conta da tarefa da instrução dos indígenas, como determinavam os Regimentos, e ainda educar os filhos dos colonos. Pe. Manoel da Nóbrega (1517-1570), expoente do grupo de jesuítas enviados ao Brasil, concebeu o primeiro plano educacional brasileiro que propunha “Recolhimentos, nos quais se educassem os mamelucos, os órfãos e os filhos dos principais (caciques) da terra [além] dos filhos dos colonos brancos dos povoados [...] em regime de externato” (MATTOS, 1958, p. 84-85 apud RIBEIRO, 1988, p. 23). 24 O plano de Nóbrega propunha estudos elementares, como o aprendizado do português e da doutrina cristã, além de leitura, escrita, canto orfeônico e música instrumental. Em seguida havia o aprendizado profissional e agrícola de um lado e de gramática latina e envio para a Europa de outro. Não demorou e o plano educacional de Nóbrega já enfrentava sérias crises e resistências na própria Companhia de Jesus, sobretudo, quando esta organizou as Constituições internas e definiu a sua Ratio Studiorum16 que, de inspiração européia, contemplava cursos de humanidades, filosofia, teologia e posterior implementação dos estudos na Europa. Se de início, no projeto de instrução dos jesuítas, não havia “de modo explícito, a intenção de fazer com que o ensino profissional atendesse à população indígena e o outro [intelectual] à população branca exclusivamente” (RIBEIRO, p.23), não tardou muito para que os colégios jesuíticos se configurassem como “o instrumento de formação da elite colonial” (RIBEIRO, p. 25). Enquanto os descendentes dos colonizadores eram ‘instruídos’ e preparados para o trabalho intelectual, os indígenas, por sua vez, eram apenas ‘catequizados’ e talhados para o trabalho profissional. 16 “Conjunto de normas criado para regulamentar o ensino nos colégios jesuíticos. [...] Tinha por finalidade ordenar as atividades, funções e os métodos de avaliação nas escolas jesuíticas [...] O objetivo maior da educação jesuítica segundo a própria Companhia não era o de inovar, mas sim de cumprir as palavras de Cristo: ‘Docete omnes gentes, ensinai, instruí, mostrai a todos a verdade’. Esse foi um dos motivos pelos quais os jesuítas desempenharam na Europa, e também no chamado Novo Mundo, o papel de educadores, unido à veia missionária da Ordem” (TOLEDO, 2006). 25 A obra de catequese, [...] objetivo principal da presença da Companhia de Jesus no Brasil, acabou gradativamente cedendo lugar, em importância, à educação da elite [...] A educação dada pelos jesuítas [foi] transformada em educação de classe, com as características que tão bem distinguiam a aristocracia rural brasileira, que atravessou todo o período colonial e imperial e atingiu o período republicano [...] Esse tipo de educação veio a transformarse no símbolo da própria classe, distintivo desta, fim, portanto, almejado por todo aquele que procurava adquirir status [...] Símbolo de classe, esse tipo de educação livresca, acadêmica e aristocrática foi fator coadjuvante na construção das estruturas de poder na Colônia [...] A classe dirigente, aos poucos, foi tomando consciência do poder dessa educação na formação de seus representantes políticos junto ao poder público. Os primeiros representantes da Colônia junto às Cortes foram os filhos dos senhores de engenho educados no sistema jesuítico (ROMANELLI, 1991, p. 35-36). Como na antiguidade clássica aqui também se nutriu grande desprezo pelo trabalho manual, freqüentemente identificado como atividade de escravos, que eram a maioria da população na época, formada por indígenas e negros africanos e seus descentes. Segundo MOURA (2000, p. 33) “na psicologia ibérica, formadora de nossa própria, nos tempos da colonização há que se levar em conta que o ócio sempre contou mais que o negócio”. O privilegiamento do trabalho intelectual em detrimento do manual afastava os alunos dos assuntos e problemas relativos à realidade imediata, distinguia-os da maioria da população que era escrava e iletrada e alimentava a idéia de que o mundo civilizado estava ‘lá fora’ e servia de modelo. Os letrados acabavam por rejeitar não apenas esta maioria, e exercer sobre ela uma eficiente dominação, como também a própria realidade colonial, contribuindo para a manutenção deste traço de dominação externa e não para sua superação (RIBEIRO, p. 28). 26 Enquanto os propósitos da educação jesuítica correspondiam plenamente aos objetivos da empresa colonial os jesuítas gozaram de grande prestígio junto à Coroa Portuguesa e obtiveram largos benefícios, sobretudo através do chamado Padrão de Redízima, instituído a partir de 1564, que era a maneira como a Coroa subsidiava o trabalho da Companhia de Jesus: “10% de toda arrecadação dos dízimos reais (impostos), em todas as capitanias da colônia e seus povoados, ficavam para sempre vinculados à manutenção e sustento dos colégios jesuíticos” (RIBEIRO, p. 29). No século XVIII, sob influência do espírito iluminista17, o Marquês de Pombal18, poderoso ministro do monarca Dom José I (1750-1777), empreendeu grande esforço de renovação de Portugal que se encontrava em decadência, visando recuperar a economia, melhorar a eficiência administrativa e modernizar a cultura portuguesa. Entre outras medidas que “buscavam transformar Portugal numa metrópole capitalista” (RIBEIRO, p. 35) estava a ampliação da exploração da Colônia (Brasil) aumentando a arrecadação. “A política colonial portuguesa tinha como objetivo a conquista do capital necessário para sua passagem da etapa mercantil para a industrial” (SECO & AMARAL, 2006), o que nunca conseguiu. 17 Iluminismo foi o movimento filosófico surgido na França, no século XVII que defendia o predomínio da razão sobre os valores religiosos que, até então, norteavam a vida da sociedade medieval. Definindo-se como eminentemente críticos e racionalistas os pensadores iluministas depreciavam o passado e as tradições, seu compromisso era como o futuro e a ciência para eles era a juíza suprema de todos os valores (LARA, 1986, p. 69-70). 18 Sebastião de Carvalho e Melo 27 A Companhia de Jesus foi atingida diretamente pelas reformas pombalinas, pois “era detentora de um poder econômico que deveria ser devolvido ao governo [e] educava o cristão a serviço da ordem religiosa e não dos interesses do país” (RIBEIRO, p. 34), segundo as razões de estado invocadas por Pombal à época do conflito com os jesuístas. Ora, na administração pombalina houve “uma tentativa de atribuir à Companhia de Jesus todos os males da educação, na metrópole e na colônia, motivo pelo qual os jesuítas [foram] responsabilizados pela decadência cultural e educacional imperante na sociedade portuguesa” (MACIEL & SHIGUNOV, 2006, p.469). Em 1759 foram expulsos de Portugal e do Brasil, seus bens foram confiscados e seus colégios extintos. Em substituição ao modelo de educação dos jesuítas Pombal instituiu “as aulas régias ou avulsas de latim, grego, filosofia e retórica, [...] e criou a figura do ‘diretor geral dos estudos’ para nomear e fiscalizar a ação dos professores” (SECO & AMARAL, 2006). Na prática isso significou o surgimento de uma organização de ensino público propriamente dito, “não mais aquele financiado pelo Estado, mas que formava o indivíduo para a Igreja, e sim o financiado pelo e para o Estado” (RIBEIRO, p. 34), que formava o sujeito para o serviço do Estado. A reforma pombalina foi desastrosa para a educação brasileira, pois “destruiu uma organização educacional já consolidada e com resultados, ainda que discutíveis e contestáveis, e não implementou uma reforma que garantisse um novo sistema educacional” (MACIEL & SHIGUNOV, 2006, p. 475). 28 O que permaneceu, porém, como característica fundamental da educação em todo o período colonial no Brasil – antes, durante e depois de Pombal – foi a exclusão sistemática do acesso ao ensino de grande contingente da população formado por negros escravos, indígenas, homens livres e pobres e outros, permanecendo a educação reservada à uma elite que fez dela ornamento e signo de seu status. AZEVEDO (1963, p. 31 apud RIBEIRO, p. 36), analisando a cultura brasileira concluiu que, no período colonial, [...] já não era somente pela propriedade da terra e pelo número de escravos que se media a importância ou se avaliava a situação social dos colonos: os graus de bacharel e os de mestre em artes (dados pelos colégios) passaram a exercer o papel de escada ou de ascensor, na hierarquia social da Colônia, onde se constituiu uma pequena aristocracia de letrados, futuros teólogos, padres-mestres, juízes e magistrados 1.2.2 – A educação Brasileira no século XIX: Formação das elites para a política e dos pobres para o trabalho Ao se aproximar a data em que se completarão duzentos anos da vinda da família real portuguesa para o Brasil se desenvolve intenso debate entre historiadores brasileiros e portugueses acerca da importância e significado desse evento para a história do Brasil e de Portugal. Diversas obras têm sido publicadas 29 apresentando leituras e releituras daquele período, bem como apontando suas repercussões e conseqüências até os dias de hoje19. Com efeito, no início do século XIX Portugal era pressionado, política e economicamente, por dois poderosos inimigos que disputavam a hegemonia na Europa. A Coroa portuguesa se equilibrava diplomaticamente em meio ao conflito entre a França de Napoleão e a Inglaterra, único país com força suficiente naquele momento para opor resistência à maquina de guerra francesa. Em 1806 Napoleão Bonaparte decretou o Bloqueio Continental proibindo qualquer país europeu de comerciar com a Inglaterra. O objetivo dessa medida era isolar os ingleses e reservar o mercado europeu para os produtos franceses. No final de 1807 a Corte Portuguesa – acuada pelos ingleses e na iminência da invasão de seu território pelos franceses – fugiu para o Brasil, colônia que até então fora apenas e tão somente grande fornecedora de riquezas, especialmente minerais, para o tesouro da Coroa20. Segundo GOMES (2007) o deslocamento da família real para o Brasil significou, de fato, o nascimento do Brasil como país, pois sem a presença da corte portuguesa o inevitável processo de independência da colônia teria se 19 A este propósito conferir as obras de CARVALHO (2007), GOMES (2007), LIMA (2006), MAXWELL (2001). 20 Segundo FERNANDES (2002) “em 1800 Portugal já está sem força, pois acabara o dinheiro que vinha do Brasil, cujo apogeu foi entre 1750 e 1760, quando se estima que veio uma fortuna, de 2,5 milhões de toneladas de ouro e 1,5 milhões de quilates de diamantes, que ajudou a reconstruir Lisboa destruída pelo terremoto [em 1755] ao tempo de D. José I e do Marquês de Pombal [17501777]”. 30 pulverizado, fracionando o território brasileiro em pequenas repúblicas como ocorreu com a América espanhola. Desse modo, a independência brasileira se iniciou efetivamente com a vinda da família real, pois, “ao instalar no Brasil a sede da monarquia, e ao tomar medidas de grande impacto político e econômico [...] D. João aboliu efetivamente o regime colonial” (COTRIM, s.d.). À chegada da família real no Brasil, em 07 de março de 1808, seguiram-se diversas medidas emancipatórias e de modernização da colônia. Dom João VI, o príncipe-regente, através de sucessivos decretos autorizou a abertura dos portos brasileiros para as nações amigas, concedeu alvará de liberdade industrial que permitia a abertura da tecelagem e manufatura de metais e alimentos, fundou o Banco do Brasil, criou a Imprensa Régia e a Real Junta do Comércio, Agricultura, Fábricas e Navegação; elevou o Brasil a Reino Unido com Portugal e Algarves, mandou construir o primeiro teatro brasileiro, instituiu o Museu Real e a Biblioteca Nacional com um acervo 60 mil volumes trazidos de Portugal. Além disso, Dom João VI mandou vir da França um grupo de peritos que ficou conhecido na história como ‘missão francesa’, composto de pintores, escultores, gravadores e arquitetos , cuja ‘missão civilizatória’ no Brasil “daria à cidade [do Rio de Janeiro] um verniz de civilização” (BUENO, 1997, p. 92). Para tanto a equipe foi “incumbida de difundir, na vida primitiva da colônia, o gosto ao mesmo tempo pela arte e pela indústria” (MORAIS, 1989,p. 95). Enfim, a Corte 31 Portuguesa refugiada no Brasil, decididamente, “não queria viver na realidade estagnada e medievalesca que antes nos impusera” (MORAIS, Id)21. No campo educacional “são criados cursos, por ser preciso o preparo de pessoal mais diversificado” (RIBEIRO,1988,p.40) e especializado para os serviços do governo; contudo, “a enfase recaiu na criação de escolas de nível superior, descuidando-se dos demais níveis” (ARANHA, 2006, p. 126). É em razão da defesa militar que são criadas, em 1808, a Academia Real de Marinha e, em 1810, a Academia Real Militar [...] a fim de que atendesse à formação de oficiais e engenheiros civis e militares. Em 1808 é criado o curso de cirurgia (Bahia), que se instalou no Hospital Militar, e os cursos de cirurgia e anatomia, no Rio. No ano seguinte, nesta mesma cidade, organiza-se o de medicina. Todos esses visam atender à formação de médicos e cirurgiões para o Exército e a Marinha (RIBEIRO, 1988, p.40). A criação desses cursos superiores tinha “o propósito exclusivo de proporcionar educação para uma elite aristocrática e nobre de que se compunha a corte” (ROMANELLI, 1991, p. 38), prolongando a tradição de educação aristocrática do Brasil colônia. 21 Durante o período colonial “iniciativas importantes foram abortadas pela Coroa. [Por exemplo],o estabelecimento da primeira gráfica na cidade [do Rio de Janeiro] do empresário de Lisboa Antonio Isidoro da Fonseca, que chegou a publicar material para uso no comércio e obras de cunho literário e acadêmico, durou pouco, pois em 10 de maio de 1747 foi promulgada a ordem régia proibindo gráficas e publicação de ‘livro e papel avulso’ no Brasil. Igual destino tiveram as fábricas de tecidos, de linhas e galões finos, até com fios de ouro e prata, por meio do alvará de Dona Maria I de 5 de janeiro de 1785, mandando fechar todas as fábricas no Brasil. Na cidade do Rio de Janeiro foram fechadas 16 fábricas e seus teares enviados para Lisboa. Só foi permitida a permanência da industria naval por interesse da coroa na fabricação e nos consertos das embarcações reais” (CAVALCANTI, 2007). Fatos como esses provocaram um irreparável atraso no desenvolvimento econômico, político e cultural do Brasil, cujas conseqüências perduram até os dias atuais. 32 A proclamação da independência do Brasil em 1822 colocou a educação em evidência, ou ao menos a necessidade dela. Com o retorno da família real e toda a Corte para Portugal havia necessidade de formar quadros para o incipiente governo imperial. “A conquista da autonomia política, ou seja, o surgimento da nação brasileira, impunha exigências à organização educacional” (RIBEIRO, p. 45), no sentido da constituição de uma rede escolar articulada, com métodos, conteúdos e objetivos claramente delineados e “capaz de receber todos em idade escolar, distribuídos nos seus diferentes graus” (Ibd.). Bem por isso, em 1823, os membros da Assembléia Constituinte encarregada de elaborar uma Constituição para o Império “aludem à necessidade de se colocar em discussão o ensino no Brasil” (MORAIS, 1989, p. 98), e cultivam a idéia de um sistema nacional de educação em duplo aspecto: “graduação das escolas e distribuição racional por todo o território nacional” (RIBEIRO, p. 44). Segundo BUENO (1997, p.117) o perfil ideológico da maioria dos membros da Assembléia Constituinte de 1823 pode ser classificado como “liberal democrata”, pois queriam “instituir [no Brasil] uma monarquia constituinte que respeitasse os direitos individuais”. Dom Pedro I, no entanto, “queria poder de veto e controle total sobre o Legislativo”. As seguidas desavenças entre o imperador e os constituintes redundaram na destituição da Assembléia. Em 12 de novembro de 1823 Dom Pedro I “mandou o exército invadir o plenário, muitos deputados foram presos e exilados”. 33 Em 1824 Dom Pedro I outorgou, de forma autocrática, a nova Constituição do Império que permaneceria praticamente inalterada até a proclamação da república no final do século XIX. No texto publicado pelo imperador desapareceu a noção de sistema nacional de educação. O artigo 179 da Constituição se referia à educação da seguinte forma: A inviolabilidade dos direitos civis e políticos dos cidadãos brasileiros, que tem por base a liberdade, a segurança individual e a propriedade, é garantida pela Constituição do Império [entre outras maneiras pela] instrução primária gratuita a todos os cidadãos [...] [e] pela criação de Colégios e Universidades, onde serão ensinados os elementos das ciências, belas artes e artes (ALMEIDA & BARRETO, 1967, p. 192 apud RIBEIRO, 1988, p. 44). Para além do que estabelecia a lei, na prática “o novo império continuava uma velha sociedade escravocrata [na qual] não muita gente se encontrava em condição de estudar” (MORAIS, 1989, p.99). Aos escravos era proibida a educação; as mulheres – salvo raríssimas exceções – também não estudavam; os homens brancos e pobres não tinham acesso à educação formal: “restava, para um atendimento escolar, a elite branca e livre” (IDEM). MARCHESE (2006, p. 118) informa que “a população colonial brasileira no início do século XIX guardava as seguintes proporções: 28% de brancos, 27,8% de negros e mulatos livres, 38,5% de negros e mulatos escravizados, 5,7% de índios”. Esses números dão a dimensão da enorme parcela da população brasileira que naquele período não era alcançada pela educação. 34 O século XIX se iniciou marcado pela revolução industrial na Europa, sobretudo na Inglaterra, pela disseminação das idéias liberais e pelo processo de emancipação política das colônias da América. Aos poucos, o capitalismo inglês foi impondo suas regras para a economia mundial e forçando mudanças que favorecessem seu desenvolvimento. O Brasil, contudo, alheio à revolução industrial intensificou nesse período a exploração da mão-de-obra escravizada, investindo pesadamente no modelo agrário-comercial-exportador, ancorado, sobretudo, na cultura cafeeira22. Ora, o regime escravocrata que sustentava a economia das colônias era “um entrave ao crescimento dos mercados e à modernização dos métodos de produção” (MOURA, 2000, p. 35); bem por isso, a Inglaterra se empenhou tanto na defesa da abolição da escravatura e combateu com sua poderosa armada o tráfico negreiro. A lei Bill Aberdeen, de 8 de agosto de 1845, dava aos ingleses “pleno direito de apreender, julgar e punir toda embarcação negreira do país [Brasil] capturada em todos os mares pelos navios britânicos”(IDEM, p. 36). A pressão externa da Inglaterra aliada aos anseios abolicionistas de diversos grupos no Brasil introduziu definitivamente na agenda nacional a questão da abolição da escravatura, como condição para o avanço e a viabilidade do Brasil como nação independente e soberana no cenário político-econômico internacional. 22 “No período de quarenta anos compreendido entre a vinda da família real para o Brasil (1808) e o fim definitivo do tráfico [negreiro], em 1850, foram introduzidos mais de 1,4 milhão de cativos no Império, ou seja, cerca de 40% de todos os africanos desembarcados como escravos em três séculos da história do Brasil” (MARCHESE, 2006, p.121-122). 35 Depois de seguidas tentativas e vários tratados internacionais simplesmente ignorados ou burlados, a lei Eusébio de Queiroz, de 4 de setembro de 1850, encerrou definitivamente o tráfico humano para o Brasil (BUENO, 1997, p. 147). A essa lei seguiram-se outras23 que, protegendo os interesses econômicos dos senhores e da elite agrária e conservadora da época, visavam protelar a abolição total da escravatura – que só ocorreria em 1888 – através de medidas paliativas que retardassem o mais possível o inevitável desfecho. A esta altura a cultura do café fazia a fortuna da elite dirigente e era necessário garantir a oferta de braços para a lavoura. Em substituição à mão-deobra escravizada a elite econômica foi buscar nos imigrantes estrangeiros a força de trabalho necessária para garantir a continuidade de seu projeto e, ao mesmo tempo, começou a se interessar pela educação como “possibilidade de capacitar” os trabalhadores para os seus interesses na época (HOBSBAWM, 1979, p. 135 apud MOURA, p. 39), pois acreditava que, “educados os lavradores, haverá de sobra terras e braços” (LANNA, 1989, p. 63 apud TEIXEIRA, 2006,p. 13). A idéia de ‘educação para o trabalho’, amplamente discutida nesses anos por senhores de terras e escravos, dirigentes políticos e pessoas de algum modo vinculadas ao mundo cafeeiro de então, foi um dos pilares do compromisso estabelecido, procurando reajustar noções de trabalho existentes às exigências do tempo, de modo que quando não fosse mais possível manter os escravos assenzalados, os ritmos intensos de trabalho nas emergentes lavouras cafeeiras paulistas se mantivessem (MOURA, 2000, p. 37). 23 Lei do Ventre Livre de 28 de setembro de 1871 “segundo a qual seria livre qualquer filho de escrava nascido no Brasil” (BUENO, 1997, p. 151); Lei dos Sexagenários de 28 de setembro de 1884 que “concedia liberdade aos cativos maiores de 60 anos e estabelecia normas para a libertação gradual de todos os escravos, mediante indenização” (IDEM), a ser paga pelo Estado aos antigos senhores de escravos. 36 Do ponto de vista da elite tratava-se, nesse momento, de implementar uma ética do trabalho que mantivesse “a gente do povo [...] em lides exaustivas e intermináveis [...] até como uma maneira de conter o risco potencial de criminalidade e anarquia” (MOURA, p. 34) que, se supunha, os desocupados representavam, além de canalizar toda sua força de trabalho para os interesses da oligarquia agrária brasileira. Aos ex-escravos libertos somavam-se os imigrantes estrangeiros e os pobres em geral na categoria dos que deveriam ser educados para o trabalho. Enquanto isso, aos filhos dos barões de café, ricos proprietários de terras e escravos, se reservava a formação superior, sobretudo no bacharelado em direito, mas também na medicina, farmácia, engenharia civil ou militar e na carreira eclesiástica. “Como bacharéis em direito, facilmente chagariam à posse dos altos cargos políticos do país, os quais suas famílias, em boa parte, já dominavam” (IDEM, p. 42). Noutra via, “a educação voltada para a grande maioria da população brasileira, priorizava os interesses da lavoura”, pois, “tratava-se de formar ‘braços’ ou ‘operários’, não seres sociais” (IDEM, p. 43); por isso houve grande insistência na criação de fazendas-escola para recolher crianças e adolescentes órfãos, ingênuos24, libertos, filhos de imigrantes e outros. Na busca de formar trabalhadores pela educação “as crianças desvalidas, muitas vezes, descendentes 24 Filhos de escravas nascidos após a promulgação da Lei do Ventre Livre, em 1871. 37 da escravidão, eram o alvo principal, pois poderiam ser educadas desde cedo para atender às novas expectativas de trabalho” (TEIXEIRA, 2006, p. 22). Dessa maneira, à época da proclamação da República em 1889, a educação popular estava abandonada, resumindo-se à algumas escolas primárias e de formação profissional25, enquanto o ensino médio era como que um propedêutico para o acesso aos níveis superiores, reservado às elites. Nessa sociedade, de economia baseada no latifúndio e [até há pouco] na escravidão, e à qual, por isso, não interessava a educação popular,era para os ginásios e as escolas superiores que afluíam os rapazes do tempo com possibilidades de fazer os estudos [...] Esse contraste entre a quase ausência de educação popular e o desenvolvimento de formação de elites tinha de forçosamente estabelecer, como estabeleceu, uma enorme desigualdade entre a cultura da classe dirigida,de nível extremamente baixo, e a da classe dirigente, elevando sobre uma grande massa de analfabetos [...] uma pequena elite em que figuravam homens de cultura requintada (AZEVEDO, 1963, p. 572-574 apud ARANHA, 2002, p. 158). O século XIX, sem dúvida, foi um divisor de águas na história brasileira, pois em menos de cem anos ocorreram fatos cuja abrangência histórica superou de longe tudo que aconteceu nos primeiros três séculos do período colonial. O êxodo da família real para o Brasil nos primeiros anos desse século como que desencadeou uma série inigualável de eventos transformadores, como a abertura dos portos, a independência política, a primeira constituição, o surgimento do país como nação autônoma, a abolição da escravatura, a 25 ROMANELLI (1991, p. 40) informa que no ano de 1888 havia 250 mil alunos nas escolas primárias para uma população de aproximadamente 14 milhões de brasileiros. 38 proclamação da República, em que pese os limites e contradições presentes no contexto e circunstâncias que envolveram cada um desses fatos. A educação, contudo, permaneceu orientada pela mesma lógica de submissão desde o início da história colonial, prolongando-se inalterada essa lógica durante todo o século XIX, mesmo em face das grandes mudanças ocorridas. Como afirma MORAIS (1989, p. 91), houve apenas “alternância de diferentes submissões”, que mantiveram sempre uma elite com acesso restrito aos melhores bens educacionais, em detrimento da maioria da população, distanciada do ensino, ora escravizada, ora liberta, mas totalmente consumida pelo trabalho alienado para sustentar o projeto da elite. 1.2.3. – A educação brasileira no século XX: O desafio da universalização do ensino No início do século XX o Brasil vivia os primeiros anos da experiência republicana. Com o fim da monarquia em 1889 se iniciou o período da chamada Primeira Republica26, no qual a nova organização política brasileira se firmava com uma nova constituição, aprovada em 1891, e a criação de um governo representativo, federal e presidencial. A Revolução Federalista de 1893 no sul do país e a Revolta de Canudos no sertão baiano – duas guerras civis – ajudaram a 26 Também denominado de República Velha, República Oligárquica, República dos Coronéis e República do Café 39 sacudir este período histórico e a revelar as incongruências e contradições do novo regime político que se instalara no Brasil. Todos os velhos descaminhos da política e da economia brasileiras se materializaram plenamente nos dez primeiros anos da república. Escândalos financeiros, arrocho salarial, clientelismo, aumento dos impostos, regime oligárquico, coronelismo, repressão aos movimentos populares, desvio de verbas, impunidade, fraude eleitoral, fechamento do Congresso, estado de sítio, crimes políticos, confronto entre governos civis e governos militares [...] O Brasil ingressou no século XX da maneira mais turbulenta possível (BUENO, 1997, p. 161) A cultura do café, sobretudo nas regiões sul e sudeste do país, deu continuidade ao modelo agrário-exportador da economia brasileira, herdado da época do império. No entanto, um “traço evolutivo predominante [desse período] foi a lenta urbanização em função da passagem do regime escravocrata para o regime assalariado, conservando-se as elites agrárias no poder” (MONLEVADE, 2001, p. 36). Nessa época desenvolvia-se também uma incipiente industrialização. A Constituição de 1891 manteve a descentralização da educação primária estabelecida desde 1834 pelo Ato Adicional à Constituição do Império, que atribuíra às províncias a responsabilidade pelo ensino primário e secundário. “Essa descentralização conservava a precariedade do ensino primário nas diversas regiões do país, uma vez que a maioria delas era incapaz de arcar com essas despesas” (LOPES, 2006, p. 2). Se, de um lado, havia o anseio pela universalização da educação popular, próprio do espírito positivista da republica, de outro o modelo agro40 exportador da economia prescindia da universalização da alfabetização, pois “não interessava aos políticos a escolarização da população [...] eram exatamente os mais letrados que perturbavam a ordem” (MONLEVADE, Idem). Ora, a Primeira Republica “foi um período marcado por uma rica legislação educacional” (LOPES, 2006, p.1) que, na prática, não resultou na democratização do ensino; antes, ajudou a implementar o ensino superior, “prioridade das classes dirigentes” (Idem, p. 3), em detrimento da escola primária que “manteve-se, durante as primeiras décadas da República, nos mesmos moldes da velha escola de primeiras letras” (Idem, p. 2) da época imperial. A ampliação do ensino primário esbarrava na falta de professores e permaneceu apenas no anseio, enquanto aumentava a demanda pelo ensino secundário e superior. Entre 1891 e 1910 foram criadas 27 escolas superiores, saltando o número de estudantes do nível superior de aproximadamente 2.300 em 1880 para cerca de 20 mil no final da Primeira República, em 1930. Cresceu também nesse período o número “de escolas comunitárias, principalmente confessionais, primárias e secundárias, nas cidades maiores do interior do país” (MONLEVADE, 2001, p. 37) que visavam suprir a deficiência de escolarização pública. O abandono da escola elementar desde o período imperial, aliado à educação aristocrática voltada às elites, em prejuízo da grande maioria da população excluída do ensino, redundou em índices elevados de analfabetismo no 41 início do século XX. Em 1890 a taxa de analfabetismo da população brasileira chegava a 67,2% e trinta anos depois, em 1920, ainda era de 60,1% (ARANHA, 1996, p. 155). “Mais da metade da população de quinze anos e mais em 1920 havia sido totalmente excluída da escola” (RIBEIRO, 1988, p. 74). A história da educação no Brasil evoluiu sempre “através de rupturas marcantes” (BELLO,2001) nos diversos períodos que a constituem. Isso se confirmou particularmente na chamada Revolução de 193027 que marcou o encerramento da Primeira República. Nos anos anteriores a 1930 as oligarquias agrárias foram declinando paulatinamente em importância e poder “devido à existência de novas forças sociais, em decorrência das modificações na estrutura econômica”28 (RIBEIRO, p. 86). Ocorreu que o modo de produção agrárioexportador vigente desde a época da Colônia foi substituído pelo modelo urbanoindustrial capitalista29 na perspectiva desenvolvimentista. A Revolução de 1930 foi o marco referencial para a entrada do Brasil no mundo capitalista de produção. A acumulação de capital, do período anterior, permitiu com que o Brasil pudesse investir no mercado interno e na produção industrial. A nova realidade brasileira passou a exigir uma mão-de-obra especializada e para tal era preciso investir na educação (BELLO, 2001). 27 Getulio Vargas tomou o poder através de um golpe de estado em 31 de outubro daquele ano e colocou fim a uma série de conflitos que se arrastaram por alguns anos através da implantação de um regime ditatorial de governo (BUENO, 1997, p. 217) 28 A crise da Bolsa de Valores de Nova Iorque em 1929 atingiu a economia mundial, em razão da interdependência do sistema capitalista, provocando crise em diversos países, inclusive no Brasil cuja economia estava quase toda ancorada na produção e exportação de café. 29 Em 1907 existiam no Brasil 3258 industrias empregando cerca de 150 mil operários, em 1920 havia mais de 13 mil empreendimentos industriais ocupando cerca de 276 mil operários (RIBEIRO, 1988, p. 86). 42 Ao “novo modo de produção [...] correspondia uma nova sociedade, urbana e letrada” (MONLEVADE, 2001, p. 41), que exigia a ampliação do ensino, sobretudo, nas regiões mais industrializadas, buscando-se também a erradicação do analfabetismo através de políticas públicas e campanhas de escolarização. Ao movimento de 1930, que marcou o início da Segunda República, seguiram-se diversos fatos importantes e decisivos para a história da educação brasileira. Nesse mesmo ano foi criado o Ministério da Educação e Saúde; no ano seguinte o governo provisório publicou diversos decretos visando organizar o ensino secundário e as universidades brasileiras que ainda não existiam; em 1932 surgiu o Manifesto dos Pioneiros30 da Educação Nova; em 1934, a nova constituição afirmou a educação como direito de todos, responsabilidade da família e do Estado (BELLO, 2001). Nos quarenta anos que se seguiram ao movimento de 1930 foi se constituindo uma tentativa de Sistema Nacional de Educação Federal no Brasil através de diversas iniciativas em diferentes níveis de governo. 30 Texto elaborado por Fernando de Azevedo e assinado por 26 intelectuais, entre os quais Anísio Teixeira, Afrânio Peixoto e Cecília Meirelles que “consolidava a visão de um segmento da elite intelectual que, embora com diferentes posições ideológicas, vislumbrava a possibilidade de interferir na organização da sociedade brasileira do ponto de vista da educação. [...] O documento se tornou o marco inaugural do projeto de renovação educacional do país. Além de constatar a desorganização do aparelho escolar, propunha que o Estado organizasse um plano geral de educação e defendia a bandeira de uma escola única, pública, laica, obrigatória e gratuita” (BOMENY) para todos. 43 A União aumentou seus investimentos em educação superior [...] os governos estaduais ampliaram explosivamente as vagas nas escolas primárias e nos ginásios; e os municípios [...] começaram a assumir a educação infantil e a alfabetização de adultos, além de abrir escolas primárias e secundárias onde faltava a presença estadual ou onde sobravam recursos de transferências de impostos, gerados pelo crescimento das indústrias e pela circulação do comércio (MONLEVADE, 2001, p. 42). Nesse período, contudo – apesar dos limites e contradições sempre presentes – se viabilizou uma das promessas da República no tocante à universalização da educação, pois, “nos princípios republicanos a instrução foi um dos pilares para o progresso e a cidadania, como parte de um projeto civilizatório” (ANDREOTTI, 2006, p. 2). A partir de 1930 cresceu exponencialmente o número de matrículas, forçando a fundação de inúmeras escolas e a multiplicação de turnos, inclusive noturnos, o que acarretou perda de qualidade no ensino. Para atender a crescente demanda “não se construíram mais escolas e sim salas de aula” (MONLEVADE, p. 43), espaços precários e “cada vez menos equipados para o ensino” (Ibid.). Desde 1930 até os dias de hoje o Brasil já teve cinco novas Constituições (1934, 1937, 1946, 1967 e 1988), elaboradas e aprovadas por sucessivos governos que se alternaram entre períodos de regimes de força ditatorial (1930-1945 e 1964-1985) e períodos de normalidade democrática com eleições livres e diretas, além da realização de referendos e plebiscitos para consulta popular. 44 Nesse período a educação brasileira foi alvo de inúmeros projetos, reformas e leis de diretrizes e bases que procuraram responder às contradições inerentes à sociedade de classes, ampliando o acesso ao ensino e buscando garantir cidadania a todos os extratos sociais. Com efeito, adentrando o século XXI, a democratização do ensino é um fato, [...] a paisagem humana das salas de aula evoluiu das comportadas crianças das elites e classes médias para a população tipicamente brasileira, pobre, mestiça, com dificuldades de comprar caderno, lápis, e uniforme (MONLEVADE, 2001, p. 46). Ao mesmo tempo em que se ampliou a acesso ao ensino, as escolas públicas – tomadas pela presença hegemônica das classes populares – contraditoriamente, foram sofrendo um seguido processo de desqualificação “pelo aligeiramento do ensino e das exigências de aprendizagem” (MONLEVADE, 2001, p. 46) As elites e as classes médias passaram a freqüentar colégios privados caros e de boa qualidade, passaporte quase certo para o ensino superior em cursos de prestígio das universidades públicas federais e estaduais gratuitas. (IDEM, p. 47). De outro lado grandes contingentes de alunos matriculados nas séries iniciais do processo de ensino nas escolas públicas não conseguiam dar seguimento aos estudos. Reprovados ou evadidos da escola por razões diversas esses alunos deram origem ao analfabeto funcional, “alguém que assina o nome, se familiariza com letras e números, pega o ‘sabor’ da cultura letrada, mas não o hábito de ler e muito menos o saber científico” (Ibid.). E até mesmo muitos daqueles que cumpriram todo o processo educacional oferecido, se submetidos a 45 uma avaliação simples, se conclui que não aprenderam o que as escolas se propuseram a ensinar. As crianças e os jovens estão na escola, permanecem nela e recebem seus diplomas, mas não sabem o que deveriam saber ao deixar a escola. Descobriu-se que a escola não ensina, que os alunos não aprendem, que os professores não sabem, que nossos índices de desempenho estão entre os piores do mundo. O que mudou na educação nacional durante todo o século 20? ‘Nada’ pode ser a resposta. Apenas a contabilidade, o registro burocrático é diferente. Passamos da expulsão pura e simples para a evasão, desta para a retenção e, agora, temos os baixos índices de desempenho escolar. A escola continua cumprindo o seu papel histórico de selecionar, classificar, distinguir, hierarquizar. (BITTENCOURT, 2003). A constatação triste que se pode fazer é que, no início do século XXI, algumas características da sociedade colonial e imperial ainda persistem na realidade brasileira: uma elite usufrui os melhores bens educacionais e ocupa os melhores postos sociais, como resultado de um processo histórico de privilegiamento que lhe tem favorecido secularmente, inclusive na educação de qualidade que recebe31. Enquanto isso, às classes populares se apresenta uma oferta educacional desqualificada e excludente, privada de recursos e perspectivas, com professores descontentes e mal remunerados32, subsidiada através de políticas públicas de assistência social, tais como distribuição de merendas, uniformes e atendimentos de saúde. 31 A pesquisa Síntese dos Indicadores Sociais do IBGE com base nos dados da PNAD-2006, publicada em setembro de 2007, informa que os 20% mais ricos da população brasileira ocupam 54,3% das vagas no ensino superior publico e 64,2% dos lugares na rede particular de ensino superior, caracterizando a universidade do século XXI como um espaço privilegiado dos mais ricos. Esse quadro repete o que tem acontecido desde o início na história da educação brasileira (LAGE & SOARES, 2007). 32 TÓFOLI (2007) reporta que no Estado de São Paulo os professores da rede pública, em início de carreira, recebem salário 39% menor do que os do Estado do Acre, em igual situação. Quando se considera que o custo de vida do Acre é menor que o de São Paulo esta diferença chega a 60%. 46 1.2.4 – Indicadores de alfabetismo no Brasil CAMBI (1999, p. 513) avalia que “no século XX a escola sofre processos de profunda e radical transformação. Abre-se às massas. Nutre-se de ideologia. Afirma-se cada vez mais como central na sociedade”. Ora, ao final do século XX constatou-se que a universalização do ensino e a escolarização em massa não foram suficientes para garantir a todos, indistintamente, acesso à educação. Jacques DELORS (1998, p. 22), presidente da Comissão Internacional sobre Educação para o século XXI, apontava no seu relatório para a UNESCO33 que, às vésperas do início do milênio, havia no mundo 900 milhões de adultos analfabetos, 130 milhões de crianças não escolarizadas e mais de 100 milhões de crianças que abandonavam prematuramente a escola. No Brasil, a publicação da pesquisa INAF34 (IPM, 2006, p. 4)35 “para mensurar os níveis de alfabetismo funcional da população brasileira entre 15 e 64 anos de idade” apresenta alguns dados desafiadores em relação ao letramento (habilidades de leitura e escrita) e numeramento (habilidades de matemática). 33 Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura. INAF – Indicador de Alfabetismo Funcional, cujos dados foram recolhidos ao longo de cinco anos de pesquisas e levantamentos sobre leitura e escrita (2001, 2003, 2005) e habilidades matemáticas (2002 e 2004). 35 IPM – Instituto Paulo Montenegro, organização sem fins lucrativos, criada no ano 2000, vinculada ao IBOPE, que tem por objetivo desenvolver e executar projetos na área de Educação e “disseminar práticas educacionais inovadoras que contribuam para a melhoria da qualidade do sistema de ensino do país” (IPM, 2006, p. 34) 34 47 Uma vez que a tendência à universalização do acesso das crianças à escola leva à concreta redução do número de analfabetos absolutos [...] a questão que se põe é se o acesso e a freqüência à escola são suficientes para garantir a aquisição de habilidades necessárias à vida cotidiana dessas pessoas, de forma a torná-las aptas a realizarem suas atividades e se desenvolverem como cidadãos conscientes de seus direitos e deveres (IPM, 2006, p. 4). Segundo o INAF, analfabeto funcional é aquele que, “mesmo sabendo ler e escrever, não tem as habilidades de leitura, de escrita e de cálculo necessárias para viabilizar seu desenvolvimento pessoal e profissional” (Ibid.). De acordo com as pesquisas realizadas, que originaram o INAF, são identificáveis quatro níveis de letramento e numeramento na população brasileira, segundo o maior ou menor domínio das habilidades de leitura, escrita e matemática desenvolvidas ao longo da vida. Assim, no que concerne ao letramento (habilidades de leitura e escrita) o INAF (IPM, 2006, p. 4-5) apresenta os seguintes níveis e classificações: a) Analfabetismo: situação dos que são incapazes de realizar tarefas simples, que exijam decodificação de palavras ou frases. b) Alfabetismo rudimentar: condição que possibilita compreender informações explícitas em textos simples e curtos, como anúncios ou cartas breves. c) Alfabetismo básico: situação dos que são capazes de identificar e compreender informações em textos um pouco mais densos, podendo inclusive interagir ou interferir no conteúdo. d) Alfabetismo pleno: designa a capacidade de ler, compreender e identificar as informações contidas em textos longos, articulando as diversas partes de um 48 mesmo texto, estabelecendo comparações com outros textos, interferindo no conteúdo e sintetizando idéias. Quanto ao numeramento (habilidades matemáticas) os níveis e classificações apontados pelo INAF (Ibid.) são os seguintes: a) Analfabetismo: situação dos que são incapazes de realizar tarefas simples, elementares com números, como ler preços de produtos no supermercado ou tomar nota de um número de telefone. b) Alfabetismo rudimentar: condição que possibilita apenas ler números em situações ou contextos muito específicos como preços, horários, etc. c) Alfabetismo básico: situação dos que são capazes de ler números e trabalhar com operações matemáticas como adição, subtração e multiplicação, mesmo que usando calculadora, e que conseguem estabelecer relações de proporcionalidade entre os valores representados numericamente. d) Alfabetismo pleno: designa a capacidade de resolver problemas complexos que demandem elaboração e execução de operações diversas e articuladas entre si; agregando ainda habilidade para compreender e decodificar mapas, gráficos e outras representações matemáticas. Conforme a PNAD - Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios36, no ano de 2005 a população brasileira com idades entre 15 e 64 anos totalizava 36 Pesquisa realizada pelo IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, que investiga variadas características do Brasil, tais como população, educação, trabalho, rendimentos, habitação e outras. 49 122.708.812 pessoas, das quais 9% seriam classificadas como analfabetas em vista de suas habilidades em leitura, escrita e matemática. Segundo o INAF, desse contingente populacional seriam analfabetos cerca de 8% no quesito letramento e 2% no aspecto de numeramento; no nível de alfabetismo rudimentar estariam 30% dessa população no âmbito de letramento e 31% nos aspectos de numeramento; no nível de alfabetismo básico seriam classificados 36% quanto ao aspecto de letramento e 45% quanto ao de numeramento e no nível de alfabetismo pleno poderiam ser considerados tão somente 26% no âmbito de letramento e 22% em numeramento. Com um procedimento distinto de outros indicadores (ENEM37, SAEB38, Prova Brasil39) que se ocupam em pesquisar e retratar a população que freqüenta a escola, o INAF avalia todas as pessoas de 15 a 64 anos, quer estejam estudando ou não. Seus resultados demonstram, portanto, “as condições de alfabetismo de uma população que majoritariamente já integra a força de trabalho do país e é composta por consumidores, eleitores, chefes de família, etc” (IPM, 2006, p. 5). No período compreendido entre 2001 e 2005 a escolarização da população brasileira da faixa etária pesquisada pelo INAF aumentou 37 Exame Nacional do Ensino Médio. Sistema de Avaliação da Educação Básica. 39 Avalia alunos de 4ª e 8ª series do ensino fundamental da rede pública e urbana do Brasil. 38 50 positivamente. Enquanto diminuiu o número dos que têm quatro anos ou menos de estudo, aumentou significativamente a faixa dos que têm ensino médio ou mais. Isso possibilitou ao IBGE registrar “a mobilidade de quase 10 milhões de brasileiros para faixas mais elevadas de escolaridade apenas entre os anos 2002 e 2005” (IPM, 2006, p. 8). No entanto, o acentuado aumento quantitativo nos melhores níveis de alfabetismo não significou aumento qualitativo das habilidades em discussão, ou seja, o aumento da escolaridade da população brasileira no período pesquisado pelo INAF não garantiu melhora significativa em termos de alfabetismo funcional. “Embora venha crescendo a proporção de pessoas com maior nível de escolaridade [...] o desempenho médio em cada uma das faixas de escolaridade mostra uma tendência negativa” (IDEM, p. 10). Segundo a CEPAL – Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe40, “o Brasil ocupa a 9ª posição no ranking41 de paises com maior taxa de analfabetismo da América Latina e do Caribe” (SPITZ, 2007). Com uma taxa de 11,1% de analfabetismo – conforme os cálculos da CEPAL – o Brasil está acima da média de 9,5% da região, e “perde para Haiti, Nicarágua, Guatemala, Honduras, El Salvador, República Dominicana, Bolívia e Jamaica em número de pessoas que não sabem ler nem escrever” (Ibid.). 40 Uma das cinco comissões regionais das Nações Unidas, criada em 1948 pelo Conselho Econômico e Social da ONU. Sediada em Santiago do Chile a CEPAL tem como missão contribuir para o desenvolvimento da América Latina e do Caribe e reforçar as relações econômicas dos países da região entre si, bem como com as demais nações do mundo. 41 Classificação ou categorização 51 Conforme estudo preparado por um consultor da CEPAL a questão do alfabetismo envolve um custo econômico e social relevante a ser considerado nos aspectos políticos, econômicos, de cidadania e de inclusão social pelos países da região. Segundo seu relatório [...] a alfabetização se constitui em uma medida da capacidade dos sistemas educativos de garantir que as pessoas desenvolvam as competências básicas para ter possibilidades de se manter fora da pobreza e alcançar uma integração social adequada. A massificação da alfabetização pode ter um profundo impacto na promoção da igualdade de gêneros, na garantira da coesão social, na integração das minorias étnicas e culturais, na melhoria da saúde da população e no fomento da produtividade e do crescimento [econômico] [...] O incremento nos níveis de alfabetização, especialmente entre as mulheres mais pobres, pode contribuir para romper a reprodução da pobreza através das gerações, dado que, maiores habilidades de leitura e escrita das mães se vinculam com um aumento na probabilidade de que seus filhos freqüentem a escola e concluam a educação primária [...] A aquisição das habilidades da alfabetização se associa [...] com um aumento da valorização da educação e com melhores habilidades e capacidades dos pais para apoiar a aprendizagem de seus filhos. [...] A universalização da alfabetização também é crucial para a promoção dos direitos humanos e o exercício da cidadania. Quando as pessoas não contam com as habilidades básicas vinculadas ao manejo de textos escritos, sua capacidade para compreender e exigir seus direitos fica seriamente comprometida, o que se agrava quando se leva em conta que as populações em situação de exclusão social são as que apresentam as maiores carências em habilidades de alfabetização. A posse dessas habilidades é fundamental para o empoderamento e o exercício da cidadania, sobretudo nas sociedades em que a comunicação escrita é fundamental nos processos de diálogo e negociação entre diferentes grupos sociais. O analfabetismo constitui um sério entrave para a inclusão social e a cidadania, porquanto limita a capacidade para participar no diálogo político, bloqueia a expressão das demandas sociais e restringe as possibilidades das pessoas e das comunidades de influir nas decisões que são importantes em suas vidas. (VILLATORO, 2007, p. 34-36). 52 Tão grave quanto o analfabetismo são os níveis de alfabetismo parciais, rudimentar e básico, frutos da educação sem qualidade que inflaciona os índices de universalização do ensino, mas não resiste às avaliações freqüentemente realizadas no sistema educacional do país. Dados extraídos do ultimo SAEB42 realizado em 2005, revelaram que no Estado de São Paulo quase metade dos estudantes concluem o Ensino Médio com habilidades em escrita e leitura equivalentes aos conhecimentos esperados de um aluno que conclui a 8ª série do Ensino Fundamental (TAKAHASHI1, 2007). Os primeiros números de uma pesquisa realizada pelo Instituto Paulo Montenegro em Campinas, relativa aos indicadores de alfabetismo na cidade, informam que cerca de 43% das pessoas que concluíram o Ensino Superior apresentam dificuldades na compreensão de textos (ORMANESE, 2007). Por sua vez, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) realiza a cada três anos o exame do Programa de Avaliação Internacional de Estudantes (Pisa)43, considerado o mais importante do mundo no âmbito da educação. Com o objetivo de avaliar o desempenho dos alunos em leitura, matemática e ciência este exame reuniu cerca de 400 mil estudantes de 15 anos de 57 diferentes países, em sua ultima edição no ano de 2006, cujos 42 Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica que acompanha a evolução do desempenho dos alunos e dos diversos fatores incidentes na qualidade e na efetividade do ensino, envolvendo escolas publicas e privadas, professores, diretores e alunos das 4ª e 8ª séries do Ensino Fundamental e 3ª série do Ensino Médio. 43 Exame criado no ano 2000 pela ODCE, cujas provas são elaboradas com questões que envolvem soluções de situações do cotidiano. Os exames, traduzidos para as línguas dos paises que participam, são corrigidos por especialistas da própria OCDE. 53 resultados foram divulgados recentemente em Bruxelas na Bélgica (CAFARDO, 2007). No Brasil 9.295 alunos de escolas públicas e particulares participaram das provas do Pisa 2006, obtendo pontuação de 393 e 370 em leitura e matemática respectivamente, numa escala de desempenho que poderia variar de 0 a 800 pontos. A melhor nota, obtida pela Finlândia, foi de 707,9 pontos o que lhe garantiu a primeira colocação no exame de ciência e a segunda em leitura e matemática, como já havia acontecido nas edições anteriores dos anos 2000 e 2003. Esse tímido desempenho dos estudantes brasileiros no Pisa 2006 não possibilitou ao Brasil superar senão a 54ª posição em matemática, 49ª posição em leitura e 52º lugar em ciência no conjunto de 57 países avaliados. Esse desempenho faz com que o país não consiga passar do nível 1 da aprendizagem – numa escala que varia de 1 a 6, sendo 1 o pior – em nenhuma das três áreas. Isso quer dizer que os alunos conseguem apenas localizar informações explícitas e não são capazes de fazer comparações, estabelecer conexões ou interpretar textos. Em matemática eles não podem sequer resolver problemas simples (CAFARDO, 2007). Os índices de alfabetismo negativos de um lado, e os resultados insuficientes dos que estão na escola quando submetidos às avaliações de desempenho de outro, desvelam a situação preocupante da educação no país. A escolarização quase maciça que se buscou alcançar ao longo do século XX não se fez acompanhar de qualidade. Persistem os contingentes de analfabetos ao lado dos analfabetos funcionais e daqueles que, mesmo tendo passado pela 54 escolarização, não conseguiram desenvolver plenamente as habilidades de leitura, escrita e cálculo, ou – dito de outra forma – não aprenderam a arte de aprender, de relacionar conteúdos, contextos, histórias, valores com o conhecimento e com a própria vida. Segundo DELORS (1998, p. 90-91) mais importante que adquirir “um repertório de saberes codificados” é necessário “aprender a conhecer”, ou seja, adquirir “o domínio dos próprios instrumentos do conhecimento”, que permanecem válidos por toda a vida, possibilitando novos conhecimentos. Para ele a educação primária obtém sucesso quando consegue “transmitir às pessoas o impulso e as bases que façam com que continuem a aprender ao longo de toda a vida”. Esse é o aprendizado para o conhecimento que supõe, “antes de tudo, aprender a aprender, exercitando a atenção, a memória e o pensamento”. No ‘Relatório para a UNESCO sobre a Educação para o século XXI’ a Comissão responsável, diante do fantasma do fracasso escolar, da complexidade da relação ensino-aprendizagem e considerando os inúmeros desafios da exclusão ainda presente na educação, apontava a necessidade de “recorrer a meios suplementares e a métodos pedagógicos especiais a favor de públicos alvo e de estabelecimentos situados em zonas urbanas ou suburbanas desfavorecidas” (DELORS, p. 147). Segundo BOSSA (2002, p. 18) “a escola que surge com o objetivo de promover melhorias nas condições de vida da sociedade moderna acaba por 55 produzir na contemporaneidade a marginalização e o insucesso de milhares de jovens”. Bem por isso se configura urgente o desafio de um novo olhar sobre a escola e seus agentes, bem como sobre as relações que neste espaço são travadas entre sujeitos que ensinam e sujeitos que aprendem. A psicopedagogia, com a abordagem institucional preventiva, bem pode ser um instrumento atual, válido e decisivo para ajudar na reversão dessa incômoda situação da escola, especialmente a pública, que tem ajudado a produzir resultados tão alarmantes em termos de alfabetismo e de fracasso escolar, além de gerar professores cansados, estressados e desencantados com a profissão44. 44 Pesquisa recente mostrou que professores da rede estadual de São Paulo se aposentam mais cedo que professores de países desenvolvidos em função das condições precárias das escolas: classes superlotadas, jornada tripla de trabalho e outros problemas (TAKAHASHI2, 2007). 56 2 – A PSICOPEDAGOGIA COMO PRÁTICA LIBERTADORA O relatório da UNESCO em vista da educação desejada para o século XXI tinha como imperativo a luta contra o insucesso escolar que atinge todas as categorias sociais, sob a forma de “sucessivas repetências, abandono durante os estudos, marginalização para cursos que não oferecem reais perspectivas, e no fim de contas abandono da escola sem qualificações nem competências reconhecidas” (DELORS, p. 146-147). Ora, a psicopedagogia nasceu da necessidade de se compreender melhor o processo de aprendizagem em todo o seu alcance e ajudar na superação dos limites e dificuldades que atalham o desenvolvimento do aprendizado, trazendo conseqüências dolorosas para os que fracassam e que podem comprometer definitivamente o seu futuro. A psicopedagogia nasceu de uma falta e é essa falta, enquanto paradoxo, que a mobiliza no sentido de buscar as possíveis alternativas para compreender o sujeito da aprendizagem nos diferentes contextos socioculturais (RUBINSTEIN; CASTANHO; NOFFS, 2004, p. 231). De forma bastante resumida um consagrado dicionário da língua portuguesa define sumariamente a psicopedagogia como “aplicação da psicologia experimental à pedagogia” (FERREIRA, 1986, p. 1412). Na verdade, a compreensão da psicopedagogia – essa área de conhecimento relativamente nova no conjunto das ciências – requer uma elaboração teórica mais densa para abranger-lhe o significado, sem prejuízo de suas especificidades. 57 Em nível de senso comum é freqüente a definição da psicopedagogia tão somente pela junção dos conhecimentos advindos da psicologia e da pedagogia – como a simples decomposição do vocábulo faz supor: psico + pedagogia. Essa compreensão limita e reduz o conceito e não é suficiente para abarcar e definir toda a ação ou a prática psicopedagógica. Segundo BEAUCLAIR (2004) [...] a psicopedagogia é um campo de conhecimento que se propõe a integrar, de modo coerente, conhecimentos e princípios de diferentes ciências humanas com a meta de adquirir uma ampla compreensão sobre os variados processos inerentes ao aprender humano.[...] Interessa à psicopedagogia compreender como ocorrem os processos de aprendizagem e entender as possíveis dificuldades situadas neste movimento. Para tal, faz uso da integração e síntese de vários campos do conhecimento, tais como a psicologia, a psicanálise, a filosofia, a psicologia transpessoal, a pedagogia, a neurologia, entre outros. Para CASTANHO (2002, p. 30) o diferencial da psicopedagogia é ter se constituído, ao longo dos anos, como área de atuação interdisciplinar na abordagem dos processos de aprendizagem, pois [...] embora tributária tanto da psicologia como da pedagogia, [a psicopedagogia] tem ampliado o leque de disciplinas que lhe possibilitam entender os fenômenos de aprendizagem, renunciando a qualquer tipo de reducionismo, na compreensão e enfrentamento desses processos. BOSSA (2000, p. 21) afirma que o interesse da psicopedagogia pela aprendizagem humana surgiu da demanda apresentada pelos problemas de aprendizagem, colocados “num território pouco explorado, situado além dos limites 58 da psicologia e da própria pedagogia, e evoluiu devido à existência de recursos [...] para atender a essa demanda, constituindo-se, assim, numa prática”.45 ANDRADE (2004) apresenta “o ser humano em situação de aprendizagem” como “sujeito-objeto da psicopedagogia”, de forma tal que cabe a essa ciência nova esmiuçar todo o processo de aprendizagem, desvendar-lhe os mistérios, compreender-lhe as minúcias e, se necessário, criticar sua forma e contexto, elaborar diagnósticos e propor mudanças. A psicopedagogia estuda as características da aprendizagem humana: como se aprende, como essa aprendizagem varia evolutivamente e está condicionada por vários fatores, como se produzem as alterações na aprendizagem, como reconhecê-las, tratá-las e prevenilas (BOSSA, 2000, p. 21). Embora com um longo caminho já percorrido na história da educação e das dificuldades de aprendizagem a psicopedagogia não goza ainda de um patrimônio teórico consolidado, configurando-se, por enquanto, como uma área de saber em construção, “numa etapa intermediária, em que os conceitos compartilhados já transitam por novos caminhos de uma área específica das ciências humanas” (ANDRADE, 2004). Para alguns, a psicopedagogia estaria numa “fase de pré-saber”, ou ainda de “saber pré-científico” (IDEM). No entanto, considerando que a educação “não serve apenas para fornecer pessoas qualificadas ao mundo da economia: não se destina ao ser 45 A propósito das dificuldades de aprendizagem GARCIA (1998) apresenta um rico e detalhado histórico dos principais problemas envolvendo linguagem, leitura, escrita e matemática, bem como algumas características marcantes dessas dificuldades, além de algumas sugestões de intervenção. 59 humano enquanto agente econômico, mas enquanto fim último do desenvolvimento” (DELORS, 1998, p. 85) de seus talentos e aptidões, a psicopedagogia pode “integrar com propriedade as prerrogativas de educação para o terceiro milênio” (CASTANHO, 2002, p. 30), conforme os quatro pilares constantes do Relatório para a UNESCO. Para poder dar resposta ao conjunto das suas missões a educação deve organizar-se em torno de quatro aprendizagens fundamentais que, ao longo de toda a vida, serão de algum modo para cada individuo, os pilares do conhecimento: aprender a conhecer, isto é adquirir os instrumentos da compreensão; aprender a fazer para poder agir sobre o meio envolvente; aprender a viver juntos, a fim de participar e cooperar com os outros em todas as atividades humanas; finalmente aprender a ser, via essencial que integra as três precedentes. [...] Cada um dos ‘quatro pilares’ do conhecimento deve ser objeto de atenção igual por parte do ensino estruturado, a fim de que a educação apareça como uma experiência global a levar a cabo ao longo de toda a vida, no plano cognitivo como no prático, para o indivíduo enquanto pessoa e membro da sociedade (DELORS, 1998, p. 89-90). Para além dos limites da psicologia e da pedagogia – em alguns momentos prisioneiras de sua própria rigidez metodológica – a psicopedagogia, atuando nas fronteiras desses saberes, agregando ainda a contribuição de outras ciências e áreas de conhecimento afins, pode buscar uma compreensão global e criteriosa do processo de aprendizagem e de quantos nele estejam envolvidos: aqueles que ensinam, aqueles que aprendem, as instituições diversas, ect. Nesse sentido, a psicopedagogia assume um caráter libertador ao promover a superação de algumas situações de exclusão, ancoradas em visões parciais e mascaradas do processo de ensino-aprendizagem e de seus agentes. 60 A ação psicopedagógica supõe um engajamento, pois, no dizer de MELO (2000, p.46) [...] antes de ser uma prática, uma teoria, uma ciência, uma profissão, [a psicopedagogia] é um MOVIMENTO animado por um PROJETO, que visa a cumprir algumas REPARAÇÕES: 1) da exclusão da subjetividade no processo de conhecimento; 2) da intolerância às diferenças que se manifestam nesse processo (diferenças de idéias, de estilos cognitivos, de projetos, de desejos; 3) da exclusão do direito de pensar produzindo novos sentidos, isto é, permitindo-se teorizar. E, para fazer justiça, de um lado às incomensuráveis possibilidades de abertura e crescimento que a práxis psicopedagógica comporta, e de outro com o enorme contingente de vítimas de experiências de fracasso por conta de processos de ensino-aprendizagem mal conduzidos, frustrados, carentes de projetos consistentes, cumpre acrescentar no rol das REPARAÇÕES urgentes e necessárias aquela ‘da exclusão social’ para a ‘inclusão’ na cidadania plena, com direitos, autonomia e dignidade garantidos. Erradicar totalmente o analfabetismo e superar os indicadores de alfabetismo funcional significa, certamente, incluir na sociedade do conhecimento e da tecnologia grande parcela da população brasileira, secularmente alijada de expectativas e oportunidades, à qual se tem reservado tão somente as sobras do progresso e do desenvolvimento, na dinâmica perversa da economia de mercado guiada pelos preceitos neoliberais46. 46 Pesquisa DATAFOLHA, publicada recentemente, informa que no período de 2002 a 2007 cerca de 20 milhões de pessoas passaram das classes D e E para a classe C, em termos de poder de consumo. Esse movimento se deve, sobretudo, a um reforço de programas sociais de distribuição de renda, bem como a um tímido crescimento econômico (CANZIAN, 2007). As crianças, adolescentes e jovens das classes C, D e E são os que freqüentam a escola pública,no mais das 61 2.1 – As origens da psicopedagogia Os registros disponíveis na literatura específica permitem situar o nascimento da psicopedagogia na França, em torno da década de 1940, numa época em que “a Europa se mobilizava em estudar as possíveis influências de origem orgânica no comprometimento do sucesso escolar” (PERES, 1998, p. 41). Já ANDRADE (2004) informa que em 1920 teria sido instituído um centro de psicopedagogia na Europa, vinculado fundamentalmente ao pensamento psicanalítico de Lacan, no qual alguns profissionais “buscando uma aplicação dos pressupostos teóricos da psicanálise na educação infantil, iniciaram a prática que deu origem à psicopedagogia clínica”. BOSSA (2000, p. 36) afirma que “a preocupação com os problemas de aprendizagem [a psicopedagogia, portanto] teve origem na Europa, ainda no século XIX”. CASTANHO (2002), recuando ainda mais no tempo, julga ser possível localizar a gênese da psicopedagogia nas ultimas décadas do século XVIII [...] como ação resultante da integração de conhecimentos científicos e de esforços de médicos, filósofos, psicólogos e educadores [...] [que] tiveram, entre suas preocupações, a consideração pelo desenvolvimento infantil, pela promoção de uma escola popular para todos e pela aplicação de recursos científicos para a educação de crianças deficientes. vezes depauperada, sem recursos, palco de violência e agressividade (GALLACCI, 2007) e até sem professores em número suficiente para atender a demanda de alunos (REHDER, 2007). 62 Entretanto, foi na França que, a partir de 1946, os chamados ‘Centros Psicopedagógicos’ ganharam importância e se multiplicaram com rapidez até o início da década de 1960, congregando equipes de trabalho “compostas por médicos, psicólogos, pedagogos, psicanalistas e reeducadores de psicomotricidade e da escrita” (PERES, p. 41). Esse modelo de ‘psicopedagogia diagnóstica’ com viés clínico, ao final da década de 1960, “passou a ser veementemente questionada por educadores que [...] estavam se sentindo incomodados com a indiscriminada rotulação de alunos, sem a menor preocupação com o contexto sócioeducacional” (IDEM). Essa inquietação propiciou o surgimento da psicopedagogia institucional, ou seja, uma abordagem na qual “pedagogos e psicólogos convivem com professores e alunos em um trabalho integrado” (IDEM), bem como, amplia as possibilidades de “atuação psicopedagógica em empresas, hospitais, creches e organizações assistenciais” (BOSSA, 200, p. 89). Em seguida a psicopedagogia se espalhou pelo mundo, buscada especialmente por países preocupados com o insucesso escolar que vitimava muitos estudantes. A Argentina foi um dos lugares onde a psicopedagogia mais rapidamente cresceu e se desenvolveu adquirindo status de ciência, reconhecida e valorizada como tal no contexto da educação. 63 ANDRADE (2004) situa no final da década de 1940 o surgimento da psicopedagogia na Argentina, como uma disciplina nova quando da criação da Faculdade de Psicologia da Universidad del Salvador, em Buenos Aires. Segundo essa autora, no ano de 1956, na Argentina, “a psicopedagogia constitui-se como curso de graduação de três anos, para formar docentes capazes de atuar na psicologia aplicada à educação”. Estranhamente, na Argentina, a psicopedagogia “não chega à pósgraduação, especialização, mestrado ou doutorado no interior das universidades” (ANDRADE, 2004), cabendo a alguns institutos terciários oferecer tais cursos, sem autorização do ministério da educação local. Contudo, alguns dos autoresreferência, sobretudo para a psicopedagogia no Brasil, são argentinos que, no seu trabalho de elaboração teórica, expressam a maturidade e a profundidade de uma larga experiência consolidada ao longo de mais de meio século de história, plenamente situada e reconhecida naquele país. Na Argentina a práxis psicopedagógica se dá fundamentalmente nas áreas da educação e da saúde sendo que [...] a função do psicopedagogo na área educativa é co-operar para diminuir o fracasso escolar, seja este da instituição, seja do sujeito ou, o que é mais freqüente, de ambos [...] Quanto à área da saúde [...] sua função é reconhecer e atuar sobre as alterações da aprendizagem sistemática e/ou assistemática. Procura-se reconhecer as alterações da aprendizagem sistemática [...] busca-se descobrir como o sujeito aprende. Utilizam-se, no diagnóstico, testes para melhor conhecer o paciente e sua problemática (BOSSA, 2000, p. 42). 64 2.2 – A psicopedagogia no Brasil Para ANDRADE (2004), foi no contexto da onda de regimes militares que varreram a democracia da América Latina, sobretudo a partir de 1960, que “a psicopedagogia [ganhou] espaço no cenário brasileiro, trazida principalmente pelos exilados argentinos, enquanto prática gestada no silêncio e isolamento, na impossibilidade de expressão do pensamento, na fala ou na escrita”. Para ela, a psicopedagogia chegou ao Brasil “marcada pela clandestinidade” (IDEM) e, assim permaneceu, “organizando-se enquanto práxis, mas excluída da academia” (IDEM). Recuando no tempo, é possível identificar os inícios da psicopedagogia no Brasil na década de 1950, com o surgimento do chamado ‘Serviço de Orientação Psicopedagógica’ (SOPP), no então estado da Guanabara. Esse serviço “tinha como meta desenvolver a melhoria da relação professor-aluno e criar um clima mais receptivo para a aprendizagem, aproveitando para isso as experiências anteriores dos alunos” (PERES, 1998, p. 43). No entanto, prevaleceu no Brasil durante muitos anos uma “perspectiva patologizante” (BOSSA, 2000, p. 49) na abordagem dos problemas de aprendizagem, que tendia a atribuir a causa de tais problemas a fatores orgânicos, recaindo sobre o sujeito aprendente a ‘culpa’ pelo fracasso. 65 “Na década de 70 foi amplamente difundida a idéia de que tais problemas teriam como causa uma disfunção neurológica não-detectável em exame clínico [...] chamada disfunção cerebral mínima (DCM)” (IDEM, p. 48). Essa explicação mascarava a realidade e como que justificava o sistema de ensino, – que permanecia isento de responsabilidade diante dos fenômenos da evasão e repetência – além disso, “dissimulava a verdadeira natureza do problema e, ao mesmo tempo, legitimava as situações de desigualdade de oportunidades educacionais e seletividade escolar” (DORNELES, 1986, p. 44 apud BOSSA, 2000, p. 49). Na década de 1980, “começa a se configurar uma teoria sóciopolítica a respeito do fracasso escolar, e o problema da aprendizagem escolar passa a ser concebido como problema de ensinagem” (BOSSA, Id.). Essa perspectiva leva à consideração do ambiente escolar como um todo na avaliação e abordagem dos problemas de aprendizagem. Em 1957 foi criado o primeiro curso de psicopedagogia do Brasil, no Instituto de Pesquisas Educacionais da Secretaria de Educação e Cultura da Prefeitura do Rio de Janeiro, então Distrito Federal (RUBINSTEIN; CASTANHO, NOFFS, 2004, p. 233). Nos vinte anos seguintes surgiram várias iniciativas de formação em psicopedagogia até que, em 1979, o Instituto Sedes Sapientae criou o primeiro curso de especialização em psicopedagogia no Brasil – germe de muitas outras 66 iniciativas que se seguiram – num “nível de ensino que o estado exerce até hoje menor grau de regulamentação e controle” (ANDRADE, 2004), a especialização. [O Sedes Sapientae prescindiu] da autorização do estado abrindo mão da validação acadêmica dos certificados por ele emitidos em troca do exercício da liberdade de pensamento, expressão multidisciplinar e da formação de profissionais cuja ética não se pautasse em simples formalismo legal, mas que se comprometesse com os direitos da pessoa humana. (IDEM). Dessa forma, no início do século XXI é possível contabilizar mais de 120 cursos de especialização em psicopedagogia no Brasil, além de um curso de graduação no Centro Universitário La Salle, um curso superior de dois anos na Universidade Estácio de Sá do Rio de Janeiro, um curso de mestrado em psicopedagogia na Universidade de Santo Amaro-SP e um doutorado na área de Ciências Humanas com concentração em psicopedagogia na mesma universidade (IDEM)47. A criação da Associação de Psicopedagogos de São Paulo em 1980, transformada em Associação Brasileira de Psicopedagogia em 1988 tem contribuído enormemente com a articulação dessa área de conhecimento, na promoção de seminários, encontros e congressos, bem como na publicação de periódicos voltados sempre para a prática psicopedagógica, enfocando [...] a formação do psicopedagogo, a atuação psicopedagógica objetivando melhorias da qualidade de ensino nas escolas, a identidade profissional do psicopedagogo, o campo de estudo e atuação do psicopedagogo, o enfoque psicopedagógico 47 COSTA (2007) apresenta um elenco de algumas instituições onde são ministrados os cursos de especialização em psicopedagogia no Brasil, bem como as disciplinas que podem compor seu currículo, número de horas-aula necessárias e algumas considerações sobre o código de ética que rege o exercício da ação psicopedagógica. 67 2.3 – Método e campos de atuação da prática psicopedagógica Segundo ANDRADE (2004) a psicopedagogia ainda está buscando a “autonomia de uma disciplina” e delimitando cientificamente a aprendizagem humana como sua temática, o sujeito aprendente ou o sujeito em situação de aprendizagem como seu sujeito e a pesquisa de intervenção como seu método de investigação da realidade que lhe interessa – a aprendizagem humana com todos os seus matizes, alcances e limites. É consenso entre os autores apontar a psicopedagogia como uma área de conhecimento ou de atuação “interdisciplinar nos processos de aprendizagem” (CASTANHO, 2002, p. 30). Há quem afirme que a psicopedagogia constitui-se num modelo transdisciplinar de ação, que transita entre disciplinas diversas “sem abolir as fronteiras existentes” (RUBINSTEIN; CASTANHO; NOFFS, 2004, p. 231). Dada a sua natureza necessariamente multidisciplinar, a psicopedagogia é chamada a se realizar na convivência com o outro, com o diferente, com os vários códigos restritos das ciências. Assim sendo, é uma disciplina convocada a realizar um movimento reparatório com relação à impossibilidade de troca entre diferentes áreas do conhecimento, mas é também solicitada a reconhecer a singularidade daqueles a quem é chamada a cuidar. Aliás, reconhecer a singularidade daquele que aprende, é condição primeira para que se realize, quer como teoria quer como ‘prática’ (MELO, 2000, p. 46). 68 Segundo STROILI (2001, p. 14), a psicopedagogia – superando o modelo positivista que se concentrava tão somente nos aspectos orgânicos dos processos cognitivos, desconsiderando a afetividade e aspectos sócio-culturais dos sujeitos – “legitimou-se como área de atuação junto à aprendizagem humana, enfocando em sua ação a intersecção das dimensões afetiva e cognitiva nesse processo”. Bem por isso, a psicopedagogia [...] constitui-se campo de atuação cujo corpo de conhecimentos está sendo construído com vistas a encontrar soluções para os problemas de aprendizagem, numa aplicação que vai além da clínica, se quer também preventiva [...] área multidisciplinar, eminentemente prática, sem deixar de ser, simultaneamente, campo de investigação e de saber científico (SEVERINO, 1994 apud STROILI, 2001). No entanto, ainda persistem algumas dificuldades quanto à delimitação da identidade do profissional psicopedagogo, talvez, por conta do “caráter interdisciplinar [da psicopedagogia] e por ter sua origem fundamentada em uma prática, não em um conjunto conceitual, próprio de um pensamento gerador de modelos de prática” (STROILI,2001, p. 16). Além disso, há também a questão da disputa em torno do ‘capital epistemológico’ (a quem pertence esse saber?) e do ‘capital econômico e político’ (reserva de mercado profissional) (Ibid.). Para além desses conflitos, a práxis psicopedagógica no Brasil se desenvolveu basicamente em dois campos de atuação: como psicopedagogia clínica e como psicopedagogia institucional. No entanto, segundo PERES (1998, p. 43) “a tendência atual de formação e ação psicopedagógica [no Brasil] tem se 69 voltado mais para uma abordagem institucional preventiva”, uma vez que a maioria dos que procuram essa especialização são professores, educadores, pessoas envolvidas diretamente com a dinâmica da sala de aula e com os desafios cotidianos da relação ensino-aprendizagem. BOSSA (2000, p. 50) conclui que “muito embora a psicopedagogia tenha, no seu início, uma tradição clínica, existe atualmente um profundo compromisso com o aspecto preventivo e, portanto, com a Escola”. Mas existem também outras experiências de atuação psicopedagógica institucional “em empresas, hospitais, creches e organizações assistenciais” (IDEM, p. 89). 2.4 – A psicopedagogia institucional Embora a presença da psicopedagogia em diversas instituições esteja se tornando freqüente ultimamente, a escola ainda é a principal e mais importante instituição a reclamar a presença e a intervenção psicopedagógicas em seu cotidiano. Se o foco da psicopedagogia é o processo de aprendizagem em toda a sua extensão, a escola, por sua vez, e em diversas situações, tem sido “produtora de dificuldades de aprendizagem” (CARLBERG, 2000, p. 16). Aos sintomas apresentados pela escola na sua tarefa educativa CARLBERG (2000, Id.) chama ‘dispedagogia’, indicando com esse conceito “as 70 dificuldades encontradas pela escola na sua prática, referentes à metodologia de ensino, ou ao vínculo que estabelece com seus alunos”. Cabe à psicopedagogia ressignificar as relações no espaço institucional da escola, bem como o conhecimento aí produzido, pois “ninguém aprende e apreende sem afeto, sem desejo, sem curiosidade e sem vivenciar objetivamente o conteúdo em questão” (CASTRO, 2004, p. 111). A experiência relatada por MASINI (2004) se constitui numa referência para a atuação psicopedagógica na instituição escolar, pelo estilo de abordagem, pelos contatos com a realidade do lugar, pela maneira de envolver todos os agentes (professores e alunos) na experiência, pela maneira de desenvolver e aguçar o ‘olhar psicopedagógico’ sobre as múltiplas relações e conflitos que conviviam no interior daquelas instituições de ensino pesquisadas. Guiadas pela Teoria da Aprendizagem Significativa desenvolvida por David Ausubel, eminente psicólogo da educação, MASINI e suas companheiras pesquisadoras realizaram uma experiência de pesquisa participante em duas escolas da rede publica na periferia do município de São Paulo, no início da década de 1990. O trabalho, que durou três anos, propiciou ricas descobertas para a ação psicopedagógica institucional. Para CASTRO (2004, p. 109) a “base de todo o processo de aprendizagem” é a relação professor-aluno, que pode ser caracterizada como relação entre “ser que ensina e ser que aprende ou seres que ensinam-aprendem” 71 e que “deve ser constituída como relação de troca de conteúdos, de conhecimentos, de afeto”. O profissional psicopedagogo na instituição escolar tem, entre outras, a tarefa de ajudar na superação das lacunas e na solução dos conflitos presentes no processo de aprendizagem, considerando o aluno, sujeito aprendente, em todos os seus aspectos – cognitivo, afetivo-social e corporal – portador de significados, valores, hábitos e linguagem de uma cultura, e da mesma forma o professor, sujeito ensinante (MASINI, 2004). Segundo CARLBERG (2000, p. 17) ao psicopedagogo que atua no campo da psicopedagogia institucional escolar competem uma série de tarefas, entre as quais [...] administrar ansiedades e conflitos; trabalhar com grupos [...], identificar sintomas de dificuldades no processo ensino-aprendizagem; organizar projetos de prevenção, clarear papéis e tarefas nos grupos, ocupar um papel no grupo; criar estratégias para o exercício da autonomia (aqui entendida segundo a teoria de Piaget: cooperação e respeito mútuo); fazer a mediação entre os subgrupos envolvidos na relação ensino-aprendizagem (pais, professores, alunos, funcionários); transformar queixas em pensamentos; criar espaços de escuta; levantar hipóteses; observar, entrevistar e fazer devolutivas; utilizar-se de metodologia clínica, olhar clínico; estabelecer vínculo psicopedagógico; não fazer avaliação psicopedagógica clínica individual dentro da instituição escolar [...]; fazer acompanhamentos e orientações; compor a equipe técnica-pedagógica. A instituição escolar cumpre uma função social importante: “a de socializar os conhecimentos disponíveis, promover o desenvolvimento cognitivo e 72 a construção de regras de conduta, dentro de um projeto social mais amplo” (BOSSA, 2000, p. 90). Bem por isso a importância do trabalho psicopedagógico a ser desenvolvido na instituição escolar. “Pensar a escola, à luz da psicopedagogia, significa analisar um processo que inclui questões metodológicas, relacionais e socioculturais, englobando o ponto de vista de quem ensina e de quem aprende, abrangendo [...] a participação da família e da sociedade” (IDEM, p. 91). É certo que a psicopedagogia não consegue resolver todos os problemas que envolvem a delicada relação ensino-aprendizagem, tampouco tem respostas pra todas as questões que lhe são postas pelo ambiente institucional da escola, contudo, a prática psicopedagógica, com sua natureza interdisciplinar, pode contribuir grandemente no ambiente escolar, na solução de conflitos, no encaminhamento de demandas afetivo-intelectuais, na ressignificação dos papéis dos agentes envolvidos na educação e das práticas pedagógicas desenvolvidas na escola. E, sobretudo, a psicopedagogia pode atuar decisivamente na superação dos persistentes índices de fracasso escolar, que ainda trazem sofrimento e angústia para muitos no processo de aprendizagem. Segundo NOFFS (2002, p. 43) [...] a Psicopedagogia Institucional na escola tem como objetivo o estudo das modalidades de aprendizagem desencadeadas e possibilitadas pela instituição escola. Sua intenção é cuidar da prevenção e enfrentamento de conflitos envolvendo a escolarização. 73 No entanto, sem licença para adentrar a escola pública – por conta do imbróglio jurídico quanto à regulamentação da prática psicopedagógica como profissão – a psicopedagogia tem permanecido privilégio de alguns poucos, sobretudo da rede particular de ensino. [Em algumas escolas particulares] os alunos que não acompanham a classe são encaminhados às psicopedagogas, para diagnóstico e tratamento. Aceitando tal situação, esta [a psicopedagogia] reitera a posição da escola de que o problema [da aprendizagem] é do aprendiz. Assim não se cogita se cabe a essa instituição uma reavaliação de seus métodos e programas para análise de sua responsabilidade no processo educacional. Por outro lado, com isso, a psicopedagogia passa a desempenhar a função de professora particular (MASINI, 2002, p. 18-19). 2.5 – Impasses e desafios para a regulamentação da psicopedagogia como profissão Apesar dos vários anos de experiência de atuação e do testemunho de relevantes serviços prestados à educação brasileira a psicopedagogia ainda não conseguiu status de profissão regulamentar no Brasil. Há mais de uma década o Projeto de Lei nº 3.124/97 de 15/05/97 que dispõe sobre a regulamentação da profissão de psicopedagogo está ‘parado’ na Câmara Federal. Objeto de intensos debates na época da apreciação de seu mérito e legalidade (SCOZ, 2000; BOCK et al. 2001) esse projeto – de autoria do então 74 deputado federal Barbosa Neto com relatoria do deputado Mendes Ribeiro – foi aprovado em 03/09/97 pela Comissão de Trabalho, Administração e Serviço Público da Câmara Federal. Submetido a nova apreciação foi votado pela Comissão de Educação, Cultura e Desporto em 12/09/2001 e também ali obteve aprovação. Em seguida obteve voto favorável da Comissão de Constituição, Justiça e Redação da Câmara Federal. Desde então o Projeto de Lei 3.124/97 permanece aguardando inclusão na pauta para votação definitiva no plenário da Câmara. Pouco antes do Projeto de Lei relativo à profissionalização do psicopedagogo dar entrada na Câmara Federal o Conselho Regional de Psicologia da 6ª Região, através da Resolução 003/95 arrogou para os psicólogos “o direito exclusivo de atender os clientes que apresentam problemas de aprendizagem” (COSTA, 2007), alegando que “é de responsabilidade do psicólogo, intransferível, a realização do psicodiagnóstico, a intervenção, e ação preventiva pertinentes à orientação psicopedagógica” (IDEM). A Associação Brasileira de Psicopedagogia reagiu baseando-se na Constituição Federal de 1988 que, no capítulo relativo aos Direitos e Deveres Individuais e Coletivos aborda o exercício profissional afirmando que “é livre o exercício de qualquer trabalho, ofício ou profissão, atendidas as qualificações profissionais que a lei estabelecer” (Artigo 5º, item XIII) (COSTA, 2007). 75 A Associação Brasileira de Psicopedagogia contestou veementemente a Resolução CRP 003/95, que teria exorbitado de suas funções, ultrapassando os limites de sua competência e “realizado tarefa que lhe é vedada legal e constitucionalmente”(IDEM). Esse debate entre as duas entidades representativas ainda continua sem que se tenha chegado a um consenso. “Nem o CRP conseguiu provar que a intervenção psicopedagógica é de exclusiva competência da Psicologia, nem a Psicopedagogia conseguiu a aprovação da mesma como profissão regulamentada” (COSTA, 2007). Certamente esse debate interminável terá também contribuído, em alguma medida, para a paralisação da tramitação do Projeto de Lei na Câmara Federal. Bem elaborado o Projeto de Lei 3.124/97 descreve com clareza as funções do psicopedagogo, estabelecendo um perfil riquíssimo desse profissional, cujo “saber diversificado oriundo de várias áreas do conhecimento humano” o torna competente para [...] realizar intervenção visando à solução dos problemas de aprendizagem tendo como enfoque o educando, a instituição de ensino pública ou privada; efetuar o diagnóstico e intervenção psicopedagógica, utilizando métodos, instrumentos e técnicas próprias da Psicopedagogia; intervir na prevenção de problemas de aprendizagem; pesquisar cientificamente o processo ensinoaprendizagem, assim como os problemas que dele decorrem; oferecer assessoria psicopedagógica aos trabalhos realizados em espaços institucionais; coordenar, orientar e supervisionar cursos de especialização em Psicopedagogia, em nível de pós-graduação, oferecidos por instituições credenciadas. (COSTA, 2007). Após uma década de tramitação do Projeto de Lei na Câmara sem nova discussão, apreciação ou votação definitiva parece faltar mesmo ‘vontade 76 política’ – pra utilizar o jargão comum na linguagem dos agentes políticos – pois a psicopedagogia parece reunir quase todos os elementos exigidos para que uma atividade postule o status de profissão: associação representativa de caráter nacional, código de ética elaborado e aprovado pela categoria, formação em nível de pós-graduação para todos os que a praticam, milhares de cidadãos exercendo a ação psicopedagógica em todo o território nacional e, mais importante, vasta produção científica discutindo, fundamentando e ampliando sua base teórica permanentemente, em incontáveis monografias, dissertações de mestrado e teses de doutorado realizadas em todo o Brasil. No Estado de São Paulo, no entanto, o Projeto de Lei n. 128/2000 do deputado estadual Claury Alves de Souza, aprovado em 04/09/2001, logrou estabelecer “a implantação de assistências psicopedagógica e psicológica em todos os estabelecimentos públicos de ensino do Estado de São Paulo” (NOFFS, 2002, p. 43). Contudo, decorridos alguns anos parece que ainda falta implementar de fato o que foi estabelecido em lei. Os relatos sobre experiências de disponibilização da psicopedagogia na rede publica de ensino referem-se a escolas municipais das cidades de São Sebastião, no litoral paulista (GAMBALE, 2007) e Ourinhos, no interior do Estado (RUBINSTEIN; CASTANHO; NOFFS, 2004, p. 235). A implementação da assistência psicopedagógica nas escolas publicas estaduais e municipais, poderia contribuir muito no processo de 77 aprendizagem de inúmeras crianças, adolescentes, jovens e mesmo adultos, desencantados tantas vezes com a aprendizagem, por conta de sofridas experiências de fracasso ou insucesso escolar. A regulamentação da profissão de psicopedagogo em nível nacional, bem como a popularização da psicopedagogia na escola pública poderia significar um salto de qualidade nos índices de alfabetismo, superando resultados tão negativos quanto se tem visto ultimamente nas seguidas avaliações do ensino no país. 3 – PSICOPEDAGOGIA E PERSPECTIVAS DE INCLUSÃO Percorrendo com olhar crítico a longa trajetória da história da educação, no Brasil e no mundo, algumas evidências se impõem. Uma delas se refere ao valor absolutamente imprescindível da educação na vida das pessoas e das nações. DELORS expressou bem esse valor e seu significado diante do desafio que o século XXI, iniciado há pouco, representa. Um dos principais papéis reservados à educação consiste, antes de mais, em dotar a humanidade da capacidade de dominar o seu próprio desenvolvimento. Ela [a educação] deve, de fato, fazer com que cada um tome o seu destino nas mãos e contribua para o progresso da sociedade em que vive, baseando o desenvolvimento na participação responsável dos indivíduos e das comunidades. (1998, p. 82). Isso significa dizer que a educação – ou a ausência dela – joga um papel decisivo nos rumos da história da humanidade e das pessoas individualmente consideradas. Isso se aprofunda quando outra evidência que 78 surge é a de que historicamente os melhores bens educacionais têm sido privilégio de alguns poucos em detrimento da maioria, excluída, impedida de acessar às potencialidades que a educação suscita. No Brasil, múltiplas são as causas de empobrecimento e miséria que afetam diretamente a vida de parcela considerável da população brasileira, agravadas, no âmbito da educação, pelo fantasma do fracasso ou insucesso escolar que constitui “uma pecha profundamente inquietante no plano moral, humano e social [...] gerador de situações de exclusão que marcam os jovens para toda a vida” (DELORS, 1998, p. 147). Qualquer analise que se faça da sociedade brasileira atual mostra que, ao lado de uma economia moderna, existem milhões de pessoas excluídas de seus benefícios, assim como dos serviços proporcionados pelo governo a seus cidadãos. Isto pode ser uma conseqüência de processos de exclusão, pelos quais setores, antes incluídos, foram expulsos e marginalizados por processos de mudança social, econômica ou política; ou de processos de inclusão limitada, pelos quais o acesso a emprego, renda e benefícios do desenvolvimento econômico fica restrito a determinados segmentos da sociedade. O resultado, em ambos os casos, é o mesmo. (SCHWARTZMAN, 2004, p. 31). Para SCHWARTZMAN (2004, p. 43), nesse contexto, a educação tem um papel “diferenciador e seletivo [que] se acentua pela grande heterogeneidade dos sistemas educacionais no país”. Isso permite que crianças, adolescentes e jovens que freqüentam os mesmos níveis de escolarização tenham um capital cultural bem diverso e manifestem apropriação dos conteúdos trabalhados na escola de distintas maneiras. 79 Haveria justiça do ponto de vista educacional se todos tivessem acesso aos mesmos recursos e desfrutassem dos mesmos benefícios educacionais, distribuídos eqüitativamente. No entanto, a qualidade da educação oferecida pelas escolas públicas que predominam nos níveis fundamental e médio, é extremamente variada, sendo que as melhores escolas são as particulares, só acessíveis a famílias de renda média e alta. A má qualidade da educação pública acentua seu papel como mecanismo de inclusão/exclusão social (Ibid.). A educação não é uma panacéia, no sentido de remediar todas os problemas, tampouco a psicopedagogia, desde seu campo de estudo e pesquisa, poderá transformar estruturas econômicas e políticas secularmente instaladas no país. Contudo, “o primeiro objetivo dos sistemas educativos deve ser reduzir a vulnerabilidade social dos jovens [crianças e adolescentes] oriundos de meios marginais e desfavorecidos, a fim de vencer o círculo vicioso da pobreza e da exclusão” (DELORS, 1998, p. 147). Essa tarefa a educação poderá desempenhar dotando crianças, adolescentes, jovens e adultos das competências requeridas para participação plena na sociedade: habilidades de letramento e numeramento, habilidades de pensamento lógico e ordenado, habilidades de cidadania, habilidades de alfabetismo no nível pleno, entre outras. Nesse sentido, a educação, uma espécie de “passaporte para a vida” segundo DELORS (1998, p. 82), torna-se instrumento absolutamente 80 imprescindível para garantir futuro e dignidade para todos. A psicopedagogia, por sua vez, ao oferecer recursos que auxiliam e interferem decisiva e positivamente no processo de aprendizagem assume um papel relevante e indispensável no resgate do futuro pela via da educação. O desenvolvimento da psicopedagogia, como área de conhecimento voltada especialmente para o processo de aprendizagem, visando otimizar suas potencialidades e retirar-lhe as amarras, significa um alento e uma esperança para quantos apostam na educação como instrumento de desenvolvimento humano e superação da exclusão. Esperança, sobretudo, para milhões de crianças, adolescentes e jovens que ainda aparecem abaixo das expectativas nos resultados das diversas avaliações e sondagens que são feitas periodicamente no sistema educacional brasileiro. 3.1- Educação não-formal: algumas experiências Outro espaço privilegiado de realização da educação como meio de resgate da cidadania é o da educação não-formal, voltado, sobretudo para crianças em fase pré-escolar, com idades até 6 anos, com possibilidades infinitas de experiências enriquecedoras e que podem ser decisivas no desenvolvimento futuro dessas crianças. 81 DELORS chama a atenção para a importância da educação para as crianças nessa fase pré-escolar, destacando a [...] iniciação à socialização que os centros e programas de educação pré-escolar facultam [pois,] verifica-se que as crianças que se beneficiam deste tipo de educação têm uma disposição mais favorável em relação à escola e correm menos riscos de a abandonar prematuramente do que as que não tiveram essa oportunidade. Uma escolarização iniciada cedo pode contribuir para a igualdade de oportunidades, ajudando a superar as dificuldades iniciais de pobreza, ou de meio social ou cultural desfavorecido. (1998, p. 129). Segundo GOHN (2001, p. 103) “um dos supostos básicos da educação não-formal é o de que a aprendizagem se dá por meio da prática social”, cujo objetivo principal é a cidadania, pensada em termos coletivos. Não se compreende a educação não-formal definindo-a simplesmente em contraposição à educação formal, como “algo que seria nãointencional, não-planejado, não-estruturado” (IDEM, p. 101). Tampouco se deve confundi-la com a educação informal, que “decorre de processos espontâneos ou naturais, ainda que seja carregada de valores e representações, como é o caso da educação familiar” (Ibid.). Na educação não-formal “existe a intencionalidade de dados sujeitos em criar ou buscar determinadas qualidades e/ou objetivos” (Ibid.), voltadas sempre para a cidadania, suscitando a criatividade humana. Abrangente a educação não-formal pode se desenvolver em seis diferentes dimensões, 82 propiciando aprendizagem política, aprendizagem de habilidades ou potencialidades para o trabalho, aprendizagem de práticas comunitárias, aprendizagem de conteúdos da própria escolarização formal, bem como pode promover educação para a mídia e educação para a vida, como arte do ‘bem viver’ (GOHN, 2001, p. 99). Bons exemplos de prática da educação não-formal são duas experiências desenvolvidas na Região Metropolitana de Campinas: uma em Paulínia e outra na própria cidade de Campinas, envolvendo a participação de psicopedagogos e de outros educadores, cujos resultados, extremamente positivos, ainda poderão ser muito estudados, debatidos e aprofundados pela psicopedagogia, pedagogia, psicologia e outras ciências afins da área educacional. Em Paulínia a experiência de educação não-formal desenvolveu-se no chamado ‘Projeto Sol’ até o início dessa década quando – apesar das avaliações positivas e dos resultados alcançados através de um trabalho preventivo que lá se desenvolvia – o poder publico local decidiu abandonar o projeto, por não ser exigência de nenhuma lei federal ou estadual (FERNANDES, 2001,p. 11). Outra experiência é a que se desenvolve no Jardim Monte Cristo, área de invasão ou ocupação, na periferia de Campinas, através de uma parceria entre a Prefeitura Municipal da cidade e a Fundação Douglas Andreani. Essa 83 parceria possibilitou a construção de uma creche naquela área, que oferece atividades diversas, no âmbito da educação não formal, para cerca de 600 crianças diariamente. Todo o trabalho é realizado por um grupo de educadores populares orientados por uma psicopedagoga, desenvolvendo atividades de cidadania e resgate da auto-estima, numa área bastante sofrida da cidade, cujos resultados positivos poderão servir de parâmetro para futuras experiências (PMC, 2003, 2005). Estes são alguns exemplos de projetos em nível de educação nãoformal, com a participação da psicopedagogia, propiciando cidadania e valorização da vida a um contingente populacional freqüentemente despojado de benefícios de qualquer natureza, cujas crianças vivem em situação de risco48 constante, e têm na instituição de ensino uma poderosa aliada na defesa de suas vidas. Experiências como estas põem em relevo o caráter interdisciplinar e preventivo da psicopedagogia, tornando-a popular e estendendo o alcance de sua ajuda para além do conforto das clínicas e das escolas particulares – onde serve apenas uma classe social – para incluir todos os seguimentos sociais em sua ação integradora (PERES, 1998, p. 45). 48 Segundo ABREU (2002, p. 5) a palavra risco vem do latim ‘resecare’, que quer dizer ‘cortar’, logo, situação de risco é aquela que corta os direitos e potencialidades das crianças e adolescentes. 84 4 – CONSIDERAÇÕES FINAIS Para compreender melhor a psicopedagogia e seu interesse pelo processo de aprendizagem fizemos um recuo histórico em busca das origens da educação na antiguidade clássica. Percorrendo essa trilha revisitamos alguns dos fatos marcantes da trajetória da história da educação no Brasil, nos 500 anos de sua história. Alguns fatos ganharam relevo, outros foram deixados para pesquisas posteriores. No entanto, todos propiciaram profundas reflexões e questionamentos. Ao longo da trajetória ficou evidente, entre outras descobertas, que a história da educação tem sido permeada por uma longa e continuada história de exclusão de alguns setores da sociedade (pobres, escravos, homens livres empobrecidos, crianças, jovens, adultos, outros) dos melhores bens educacionais significados pela cultura, conhecimento, cidadania, dignidade, escolarização, etc., enquanto uma elite usufruía a educação de melhor qualidade. Com a contemporânea universalização da educação a elite se refugiou no ensino privado e particular, abandonando as escolas publicas que, com pouca qualidade e parcos recursos disponíveis, se debate com a demanda pela formação das classes populares. 85 A psicopedagogia tem o método e a prática apropriados para ajudar na superação da exclusão, significada, sobretudo pelo fracasso escolar nos tempos atuais. Contudo, também a psicopedagogia parece acomodada na triste moldura educacional contemporânea. Falta-lhe uma inserção mais densa na realidade educacional, um discurso politicamente melhor articulado com as ciências sociais, as ciências políticas, a filosofia e outras áreas do saber que ajudam a compreender os mecanismos que regem a sociedade, identificar as suas contradições e propor alternativas mais contundentes e transformadoras. Os índices de alfabetismo apenas regulares de grande parcela da população, bem como o persistente percentual de analfabetos que ainda contabilizamos em pleno século XXI, desafia a escola, as universidades, as ciências e principalmente a psicopedagogia, interessada sobremaneira no processo de aprendizagem e nos seus limites. Nesse contexto desafiador parece faltar ainda à psicopedagogia uma abrangência maior que propicie uma prática mais decididamente engajada. As dificuldades de aprendizagem, objeto de estudo da psicopedagogia, tantas vezes assentam suas origens em territórios muito distantes da sala de aula ou do ambiente escolar, e mais ainda das clínicas de acompanhamento e orientação psicopedagógicas. Na arena da história vida e morte se enfrentam cotidianamente, escondidas nos discursos políticos, planos econômicos, projetos pedagógicos. 86 Nessa arena, estão as salas de aula, as escolas, as universidades, aqueles que aprendem, aqueles que ensinam, suas famílias, seus projetos de vida. O futuro dependerá sempre das escolhas político-existenciais realizadas na urgência do agora, mas com o coração e a mente plantados na utopia de um outro mundo possível, que algum dia chegará. Essa pesquisa propiciou descobrir a psicopedagogia como instrumento da utopia, para superação dos desníveis sociais a partir da superação dos fracassos escolares, da recuperação da auto-estima no processo de aprendizagem, do resgate da cidadania dos empobrecidos clientes do ensino público, da inclusão social dos marginalizados pela educação. Essa síntese requer mais estudo e esforço de pesquisa, pois me ajudou a perceber – como Sócrates, o filósofo da antiguidade – que tudo que sabemos é apenas uma parcela do muito que ainda não sabemos. A psicopedagogia está se firmando como ciência e isso demanda estudo aprofundado para consolidar sua base teórica. Essa monografia cumpre seu papel se provocar inquietação, indignação ética ou pelo menos desejo de pesquisar mais – ainda que seja pra contestar seu conteúdo e as idéias nela contidas. Concluímos com a esperança que logo mais, regulamentada como profissão, a psicopedagogia possa ganhar os rincões desse país, chegando naqueles grotões mais distantes do Brasil, ou mesmo nas periferias das grandes 87 cidades, geograficamente tão próximas dos grandes centros de produção de ciência e tecnologia, mas socialmente ainda muito distantes, sobretudo no acesso à educação. E que, popularizando-se a psicopedagogia contribua efetivamente com o resgate e a inclusão de muitos (as) que, excluídos pela educação, são considerados cidadãos ‘pela metade’. 88 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ABREU, Susane Rocha de. Crianças e adolescentes em situações de risco no Brasil. Rev Psiquiatr, São Paulo, vol. XXIV, n. 1, p. 5-6, março.2002. ALMEIDA, Fernando H. M; BARRETO, Carlos E. (orgs). Constituições. São Paulo: Saraiva,1967. ANDRADE, Márcia Siqueira de. Rumos e diretrizes dos cursos de psicopedagogia: análise crítica do surgimento da psicopedagogia na América-Latina. Cad. 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