II Colóquio da Pós-Graduação em Letras
UNESP – Campus de Assis
ISSN: 2178-3683
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INTRODUÇÃO AO “SUPLEMENTO LITERÁRIO DA GAZETA DE NOTÍCIAS”:
EÇA DE QUEIRÓS E O PRIMEIRO NÚMERO DA PUBLICAÇÃO
Juliana Cristina Bonilha
(Doutoranda – UNESP/Assis – CAPES)
RESUMO: Conhecido por seus romances realistas que abordavam criticamente a sociedade de
seu tempo, Eça de Queirós também pode ser considerado notável por seus textos jornalísticos.
Apesar de morar na Europa, o escritor mantém um contato íntimo com a imprensa brasileira,
colaborando, durante anos, em um conhecidíssimo periódico carioca: a Gazeta de Notícias.
Neste periódico, atua, principalmente, na função de correspondente estrangeiro, tarefa que lhe
abre portas para um novo projeto: o Suplemento Literário, de 1892. De correspondente, o autor
de O primo Basílio passa a diretor e com este papel passa a selecionar as notícias europeias
que serão lidas pelos brasileiros. Além de coordenar todo o processo de edição, imprime sua
personalidade marcante nos editoriais deste informativo, sobretudo naquele que principia a
publicação, em janeiro de 1892.
PALAVRAS-CHAVE: Eça de Queirós; Suplemento Literário; Gazeta de Notícias; Europa;
século XIX.
1. Da modernização da imprensa ao Suplemento Literário da Gazeta de Notícias
(1892)
O processo de modernização da imprensa ocorrido durante o século XIX, no
Brasil, foi decisivo para o surgimento de alguns periódicos brasileiros e, ainda, para
que novos meios de informação ganhassem prestígio em face à sociedade.
De 1870 a 1872, surgem no país mais de vinte jornais com motivação política,
pois vivia-se, naquele momento a expectativa do ato da proclamação da República.
Indubitavelmente estes eram periódicos engajados politicamente e seu intuito era
exclusivamente o de conscientizar que este processo poderia mudar os rumos do país.
Neste mesmo momento surgem, ainda, inúmeras revistas ilustradas, cujo
advento foi facilitado devido ao avanço das técnicas da imprensa. Dentre as
publicações deste gênero, destacam-se A cigarra e A bruxa, comandadas por Olavo
Bilac e Julião Machado. Algumas revistas ilustradas, no entanto, eram ainda
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impressas no exterior, dentre elas A estação, que era publicado em Paris, e a revista
O novo mundo, impressa em Nova Iorque.
Se se pode dizer que havia neste período o aprimoramento da imprensa,
pode-se apontar, em 2 de agosto de 1875, no Rio de Janeiro, o surgimento de uma
publicação que traria novidades notáveis no campo jornalístico. A Gazeta de Notícias,
publicada na capital imperial brasileira trazia uma série de novidades que seriam seu
ponto-chave para a conquista de leitores, dentre elas a facilidade de aquisição, dada
por seu preço acessível, como registra Sodré: “A Gazeta de Notícias era, realmente,
jornal barato, popular, liberal, vendido a 40 réis o exemplar”. (1966, p. 257).
Esta novidade bem como as demais que são observadas no interior do
periódico, como a presença de ilustres escritores, a adoção da publicação de trechos
de romances, e o espaço, em geral dedicado à literatura, foram aos poucos
incorporadas nas colunas da Gazeta. Esta dedicação em explorar o conteúdo literário
teria partido, principalmente, da constatação de Ferreira de Araújo, diretor do
periódico, de que era necessário que o país tivesse um espaço jornalístico que se
dedicasse à literatura e não somente à política, como faziam os meios de
comunicação do gênero. Sobre o diretor Ferreira de Araújo, Sodré revela que era um
“homem de iniciativas, tendo reformado a imprensa do seu tempo, para dar espaço à
literatura e às grandes preocupações, com desprezo pelas misérias e mesquinharias
da política” (SODRÉ, 1993, p.257). A postura ideológica de Ferreira de Araújo focada
em dilatar a relevância da literatura em face aos demais acontecimentos, traduzia-se,
portanto, nas páginas da Gazeta, mesmo sendo este um momento de grandes
questionamentos sobre a política
Assim, pode-se dizer que o engajamento da Gazeta em relação à divulgação
da literatura em face à política, aliado à veiculação do periódico sob valor acessível
favoreceram seu processo de consolidação.
Se, de um lado estavam as novidades aplicadas na Gazeta de Notícias para
que houvesse uma maior veiculação de conteúdos literários dentre os brasileiros, de
outro estava a difícil situação social e educacional do país. A educação era ainda
privilégio de uma pequena parcela da população, a aristocracia brasileira, formada por
fazendeiros, banqueiros e alguns profissionais liberais que conseguiam manter um
padrão de vida elevado. Era este pequeno estrato social que tinha acesso à educação
e à cultura.
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A formação dos estudantes brasileiros, por vezes, dava-se em colégio e
universidades europeias. Muitos aristocratas ainda preferiam enviar seus filhos à
Europa, para que lá estudassem e adquirissem experiência cultural. .
Vale ressaltar que a Europa neste momento era ainda considerada uma
referência em relação à educação e formação. Naquele continente, os estudantes não
só se graduavam, mas também mantinham o contato constante com as Letras e as
Belas Artes por meio das exposições artísticas, teatros, museus e salões literários. A
convivência em solo europeu proporcionava não só a educação, mas também
experiência moral, política e social diferenciadas em relação à formação brasileira.
Sob o ponto de vista da educação, a situação do Brasil era ainda precária,
principalmente ao se comparar à formação que se podia obter no exterior e à que era
obtida no país, e ao se observar que havia poucos colégios de credibilidade.
A Gazeta tinha, portanto, como leitores uma camada da população que ainda
se inspirava nos modelos sócio-educacionais europeus.
Sob o prisma da literatura brasileira, pode-se dizer que apesar de neste
momento já existir uma consciência da importância da valorização do nacional, da
presença de uma escola literária própria, os literatos brasileiros ainda eram
constantemente influenciados pelas leituras europeias e estes influxos traduziam-se
na elaboração de tendências literárias que inspiravam-se naqueles moldes, porém já
com características próprias.
Estes literatos, juntamente com escritores, bacharéis em direito, e até
médicos e cientistas brasileiros eram constantemente requisitados pelos periódicos
brasileiros.
Todas essas reflexões visam a dizer que a Gazeta de Notícias selecionava
seus escritores criteriosamente, buscando obter em suas páginas um resultado que
lhe cedesse credibilidade e respeito e, por vezes, eram estes estudantes formados no
exterior que ocupavam a redação do jornal. Os convites para atuar no periódico eram
enviados apenas àqueles escritores e profissionais cujos nomes tivessem relevância
na sociedade brasileira. Foi assim que a Gazeta, sob a direção de Ferreira de Araújo
foi gradativamente conquistando seu espaço dentre os maiores periódicos brasileiros.
Além de valorizar os escritores nacionais, a Gazeta valia-se, ainda, de
escritores europeus para atrair ainda mais leitores para suas páginas. É o caso de Eça
de Queirós, admirado dentre os brasileiros por seus romances realistas. Durante as
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últimas décadas do século XIX, o escritor de O primo Basílio, participa desta
publicação carioca atuando em diversão funções, dentre elas a de jornalista, de
correspondente estrangeiro e de diretor de um suplemento de literatura, o Suplemento
Literário.
2. Breves considerações a respeito do número inaugural do Suplemento
Literário (janeiro de 1892)
Maior representante da narrativa realista-naturalista portuguesa, Eça de
Queirós deixou um acervo de obras que se caracterizam, principalmente, pelo sentido
crítico às instituições burguesas e pelo retrato da sociedade portuguesa da época
relativa à segunda metade do século XIX e que são, portanto, fonte para estudiosos
tanto da área literária, como histórica.
Os romances realistas queirosianos apresentam, de certa forma, um
panorama histórico descrito criteriosamente, por meio do uso de adjetivos
minuciosamente escolhidos pelo escritor, a fim de fornecer ao leitor uma imagem
quase completa de Portugal, no século XIX.
Em seus textos jornalísticos, Eça procurava também manifestar sua opinião e
lançava críticas ferrenhas aos fatos que julgava dignos de questionamentos.
No Brasil, o escritor destinava seus textos, pertencentes ao gênero
jornalístico, ao periódico Gazeta de Notícias. Durante vários anos manteve-se na
tarefa de correspondente estrangeiro e de cronista, tendo uma grande aceitação do
público brasileiro.
Mas, é no ano de 1892, que ganha um espaço amplo na publicação. Eça é
convidado por Ferreira de Araújo, diretor da Gazeta, a se tornar diretor de um
suplemento de literatura, uma espécie de informativo, o "Suplemento Literário da
Gazeta de Notícias", onde estariam presentes notícias sobre a Europa. Seria um
informativo especializado em destacar as notícias sócio-culturais, artísticas e literárias
europeias para o brasileiro. Dentre as tarefas do escritor de O primo Basílio estaria a
de escrever sobre a realidade europeia, dando um panorama geral sobre moda, livros,
cultura, arte e notícias de caráter científico.
Ressalta-se que as notícias teriam como público alvo os leitores brasileiros,
que por vezes eram motivados a viajar até o Velho Continente em busca das
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novidades, fossem científicas, como no caso dos médicos e pesquisadores, fossem de
ordem "mundana" (roupas e lugares da moda), fossem ainda acadêmicas (livros e
divulgações de trabalhos). O papel do até então correspondente estrangeiro Eça de
Queirós não se restringiria apenas à escritura deste Suplemento. O propósito era o de
gerenciar, dirigir a elaboração de textos que agradassem ao público. Eça seria além
de redator da coluna inicial de cada exemplar, o diretor do informativo e coordenaria,
portanto, algumas personalidades do período.
O intuito do periódico, inserido na terceira página do jornal Gazeta de Notícias
é por ele comentado em carta a Teixeira de Queirós (Bento Moreno) de 29 de
dezembro de 1891:
[...] Eu porém tenho agora, não um jornal, mas um suplemento
literário para a Gazeta de Notícias (do Rio de Janeiro) de que sou
Diretor, ou pelo menos o organizador. A Gazeta é, como V. sabe, um
dos primeiros jornais do Brasil. O suplemento comporta, e até
necessita, um resumo do movimento de Portugal - literário, científico,
social, mundano, etc. Se V. vir que esta necessidade do jornal
concorda com seu plano de trabalho - mande dizer e ao mesmo
tempo as condições. Em todo caso V. tem jornal - diga pois que
trabalho quer dar e em que período, e por enquanto. Com um grande
[jornal?] como a Gazeta é
necessário tratar assim as coisas
praticamente.
E eu por mim não tenho [senão que?] esfregar as mãos de alegria,
pela sua boa ideia de trabalhar para nós. (BERRINI, V.4, p. 943)
Todos esses interesses "mundanos", como diz o próprio Eça, que faziam
parte da sociedade brasileira do fim do século XIX seriam pesquisados e retratados
por Eça. E isso pode ser constatado por meio da observação das seções presentes
que constituem os exemplares: "A Europa em resumo", "Livros novos", "Bellas artes",
"Os teatros", entre outras.
Uma primeira abordagem sobre o primeiro número da publicação revela que
sua formação constitui-se de onze seções, com temas que abordam desde assuntos
corriqueiros, como científicos: "A Europa em resumo"; "Notas de um curioso"; "Livros
novos"; 'Sciencias", "Bellas artes", "Histórias singulares", "Os theatros"; "Pessoas e
casos"; "O dinheiro"; "A elegância e a moda" e "O Brasil na Europa".
Elaborando um panorama geral dos textos dentro de cada uma das seções,
isto é do total de artigos que integram as seções, notamos que na primeira delas: "A
Europa em resumo" temos um único texto, intitulado "O nosso supplemento". Em
"Notas de um curioso", são publicadas três novidades que envolvem a ciência da
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época, denominadas no exemplar de "Curiosidades científicas". "Livros novos", traz o
texto "Memoires du général Baron de Marbet". A seção "Sciencias" é formada por três
pequenos artigos sob o título "A medicina contada aos doentes". Em "Bellas artes" são
seis artigos sob o título "A música na Europa". "Histórias singulares" traz
"Quatrocentos contos de joias", único texto. "Os theatros" possui apenas um artigo,
sem título, mas com um breviário de assuntos a serem discorridos ("La Mer; A
convenção no theatro e o Sr. Francisque Sarcey; Les Sobards"). Em "Pessoas e
casos", podemos notar dois textos: "Emilio Castellar" e "As recepções no Vaticano".
Na seção "O dinheiro" há apenas um texto, sem título. "Elegância e moda", possui
quatro artigos, também sem título. Por fim, "O Brasil na Europa" traz três textos.
São, portanto, vinte e seis artigos, versando sobre temas como ciências,
cultura, economia, atualidades e assuntos variados. Logo abaixo, pode ser observado
um quadro em que foram organizadas todas as seções constantes neste exemplar em
sua ordem de aparição, bem como o número de artigos e o tema de cada um deles.
Todos foram classificados de acordo com os temas acima citados.
Seções
A Europa em resumo
Notas de um curioso
Livros novos
Sciencias
Bellas artes
Os theatros
Pessoas e casos
O dinheiro
A elegância e a moda
O Brasil na Europa
Historias singulares
Artigos
1
3
1
3
3
1
2
1
4
3
1
Temas
Atualidades
Ciências
Cultura
Ciências
Cultura
Cultura
Assuntos variados
Economia
Assuntos variados
Atualidades
Cultura
Nota-se que ao longo deste primeiro exemplar do Suplemento Literário da
Gazeta de Notícias, estão presentes vinte e seis artigos, cada um com sua temática
principal e certamente com assuntos que teriam validade ao serem lidos no Brasil, no
sentido em que eram propositalmente selecionados para públicos pré-determinados.
Eça procurava selecionar notícias que realmente informassem o público brasileiro, ou
seja, que fossem do interesse daqueles que naquele país estudavam, trabalhavam e
mesmo, viviam. No caso dos textos do exemplar inaugural, o nome das seções pode
revelar o leitor pretendido delas. Assim, enquanto “Sciencias” visava a um atento
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observador das ciências médicas ou mesmo das questões geográficas, “Elegância e
moda” destinava-se àqueles que se interessavam pelos modismos europeus da
época.
Primeiro número do Suplemento Literário – 18 de janeiro de 1892.
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Como dito anteriormente, Eça de Queirós não só dirigiu, mas também
escreveu alguns artigos dentro do Suplemento, embora deixasse seu estilo registrado
apenas na primeira seção de cada exemplar. Neste primeiro volume, o texto de autoria
de Eça é “A Europa em resumo”. Analisando os textos pertencentes a esta seção,
nota-se que o intuito do artigo inicial do periódico é de mostrar a que veio o
Suplemento, que se trata de um editorial. Ao ler este editorial, o leitor estava diante de
um texto-resumo que continha informações preciosas sobre o Suplemento Literário, as
quais se dirigiam principalmente aos letrados, aos estudiosos e aos desejosos de
cultura, daquele tempo. Veja-se a passagem retirada do referido texto:
Ora, foi para que o Brasil pudesse realizar ideal tão cômodo, que nós
criamos este Suplemento. Ele é o compte rendu desta famosa
representação que se dá no teatro da Europa, mandado cada
semana pelo paquete, para que o enredo e os actores possam ser
conhecidos sem o cansaço, a despesa, o tempo consumido em
atravessar as águas e vir ao teatro, que não é confortável, nem bem
ventilado, e está cheio de lazaretos. Melhor ainda! É a própria
representação condensada em meia folha de jornal, com uma
selecção cuidadosa dos seus episódios mais atraentes, dos seus
personagens mais característicos, das suas decorações mais vistosas
e ricas. Neste Suplemento vai o resumo de uma civilização. E toda
ela deste modo se goza no que tem de mais belo ou de mais fino,
sem a desconsolação de perpetuamente se surpreender a rude
fealdade do seu avesso. (QUEIRÓS, Supl. Lit. I, p. 1)
O texto original foi preservado a fim de que se notassem os vocábulos a
serem atualizados bem como a linguagem usada por Eça. É notável que se trata de
um texto denso, diferentemente dos textos jornalísticos da época. Faz-se mister
destacar que a estudiosa queirosiana Elza Miné esboçou alguns comentários acerca
do Suplemento Literário em seu livro Textos de imprensa I, no qual faz uma análise de
toda a obra jornalística de Eça de Queirós. No entanto, no que concerne ao periódico
em questão, seu trabalho se limita à atualização do primeiro texto de cada exemplar,
haja vista ser seu único objetivo o estudo de textos de autoria do referido autor. Como
em cada nova edição do Suplemento havia mais de cinco colaboradores, muitos textos
nele contidos ficaram isolados, sem receberem uma análise detalhada. Enfim, o que
se deseja enfocar é que o estudo desses exemplares pretende aprofundar as
pesquisas iniciais de Elza Mine, dando um enfoque maior aos demais textos, que
possuem valor histórico e também literário.
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3. O editorial: "A Europa em resumo", de Eça de Queirós
Uma das peculiaridades de Eça enquanto escritor, como se sabe, é o humor
empregado, especialmente, por meio da ironia, em seus romances. Esta marca
estilística também está presente na maior parte de seus textos jornalísticos. É válido
dizer que dentro do Suplemento seus textos sempre apareciam com linguagem e
forma diferentes das esperadas para um texto de imprensa. “A Europa em resumo”
revela um autor que justifica o aparecimento do periódico, mas que emprega grandes
metáforas e compõe quase que um conto para esboçar uma Europa que merece (ou
não) ser apreciada pelos leitores brasileiros. O trecho que se segue mostra a presença
da ironia no texto: “Aquele que vive misturado a esta representação da Europa, topa a
cada instante com o avesso sórdido das coisas belas”. (QUEIRÓS, Supl. Lit. I, p.1)
O texto inaugural do “Supplemento Litterario” – A Europa em resumo: “O
Nosso Suplemento” - traz essa marca estilística com evidência, como pode ser notado.
Pode ser percebido ainda que a estruturação e o tom usados em sua composição
fazem jus ao tipo de escrita de Eça. O tom irônico está presente durante o decorrer de
toda a exposição de ideias.
O tema desse texto é o surgimento do Suplemento Literário. Eça escreve
sobre o porquê da escrita do Suplemento, e quebra a estrutura de um texto puramente
informativo, pois opta por alegoria, uma imagem que faz referência à Europa. Como
um palco de um teatro, ela é o cenário para que as pessoas nele atuem. Sua
argumentação em torno dessa figura torna-se muito interessante quando se percebe
estar diante da figura de um jornalista-artista, ou seja, um autor que escreve com
efeitos de um escritor de romances.
Pode-se ressaltar que se o Suplemento todo aparenta ser de antemão uma
espécie de escrito voltado a uma elite cultural, nesse primeiro texto temos confirmada
essa questão, haja vista a citação de nomes de cidades tanto europeias, como
americanas e mesmo africanas (somente conhecidas por aqueles que tinham algum
conhecimento cultural) e ainda, as referências a escritores memoráveis e nobres como
Virgílio.
É, portanto, de suma importância considerarmos os textos de Eça publicados
no Suplemento como parte de um trabalho de verdadeiro valor, seja histórico, seja
literário ou mesmo cultural. São textos que merecem um maior cuidado e um maior
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conhecimento do público, pois são fontes ricas da marca estilística do escritor, de
fontes históricas e de inúmeras espécies de conhecimento e de questões que podem
surgir a partir de sua leitura. O trabalho com o corpus Suplemento Literário engloba
além de uma análise de seus textos, uma recuperação física, sendo, portanto, um
processo de redisponibilização desses textos a fim de se poder apreciar ou mesmo de
se criticar. Veja-se abaixo um pequeno trecho do artigo inicial com sua versão
atualizada, processo que tem sido feito com todos os números:
4. Considerações finais
O estudo de fontes históricas na área de Literatura vem sendo ampliado nas
últimas décadas, desde que se percebeu a relevância de alguns textos escritos por
autores consagrados e se reconheceu que a imprensa jornalística brasileira foi
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exercida por muitos literatos que ajudaram no desenvolvimento da literatura nacional.
Não são poucos os textos da Gazeta de Notícias que vem sendo cada vez mais
procurados com o intuito de agregar valores à literatura brasileira. A recuperação do
conteúdo do Suplemento Literário traz, portanto, a possibilidade de se entrar em
contato com a literatura e a cultura europeia do final do século XIX; o conhecimento
sobre a atuação de Eça de Queirós, autor canônico, como diretor na Gazeta de
Notícias; e, ainda, a facilidade de se observar e analisar as crônicas e artigos
presentes neste suplemento, por meio da disponibilização dos textos no formato
digital.
Neste artigo a proposta foi a de recriar o contexto de publicação do
Suplemento Literário e adentrar sucintamente no editorial da primeira edição,
publicada em de janeiro de 1892.
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