XXII CONFAEB Arte/Educação: Corpos em Trânsito 29 de outubro à 02 de novembro de 2012 Instituto de Artes / Universidade Estadual Paulista __________________________________________________________________ ARTICULAÇÃO ENTRE TEORIA E PRÁTICA NA FORMAÇÃO DE ARTE/EDUCADORES Maria Lívia de Castro Andrade Instituto Ayrton Senna [email protected] http://lattes.cnpq.br/2889191594505200 Mônica Pellegrini Instituto Ayrton Senna [email protected] Paulo Emílio de Castro Andrade Instituto Ayrton Senna [email protected] http://lattes.cnpq.br/0251826651383758 Simone André Instituto Ayrton Senna [email protected] RESUMO: O presente trabalho descreve e analisa resultados de três experiências de formação de arte/educadores em Educação para o Desenvolvimento Humano pela Arte, realizadas pelo Programa Educação pela Arte, do Instituto Ayrton Senna. A primeira é a Formação Continuada de arte/educadores de ONGs parceiras do Programa. As duas outras referemse a cursos EaD de formação de arte/educadores de escolas, ONGs, centros culturais e museus. Entre os resultados dessas formações destacam-se a ampliação do volume e tempo de estudo pelos profissionais, a articulação entre referências conceituais e as práticas junto aos educandos, a efetivação de planejamento e avaliação das ações; o aumento do diálogo entre os arte/educadores; ganho na qualidade do trabalho dos educandos em termos artísticos; e intensificação do foco no desenvolvimento humano dos educandos. PALAVRAS CHAVE: Educação para o Desenvolvimento Humano pela Arte; articulação teoria x prática; análise de resultados. ABSTRACT: This article describes and analyses results of three different experiences focused on art/educators training on Education for the Human Development through Arts, developed by Instituto Ayrton Senna’s Education through Arts Program. The first experience described is the continuous training given to art/educators of 21 partners NGOs. The other two experiences are about online courses developed to art/educators that work in schools, NGOs, cultural centers and museums. The main results of these trainings are: increase of the volume and time of study by the professionals; the integration between theory and practical work developed in classroom; the effectiveness of planning and evaluation of the __________________________________________________________________ Federação de Arte Educadores do Brasil / FAEB Site: http://xxiiconfaeb2012.blogspot.com.br/ -e-mail: [email protected] XXII CONFAEB Arte/Educação: Corpos em Trânsito 29 de outubro à 02 de novembro de 2012 Instituto de Artes / Universidade Estadual Paulista __________________________________________________________________ activities; the increase of dialogue between the professionals; the increase of the quality of the activities, artistically; and the intense focus on the human development within the students. KEY WORDS: Education for the Human Development through Art; theory versus practical work; analysis of results. 1 O Programa Educação pela Arte e a formação de arte/educadores O Instituto Ayrton Senna (IAS) iniciou sua atuação no campo do Ensino de Arte em 1999, por meio do Programa Educação pela Arte. Desde então, o Programa atua com foco na produção de conhecimentos e no fortalecimento de práticas de ensino de arte de organizações não-governamentais parceiras e na formação de arte/educadores dessas organizações e de outras instituições educacionais, como escolas, museus e centros culturais. O presente trabalho descreve e analisa as principais iniciativas de formação de arte/educadores realizadas pelo Programa Educação pela Arte, a saber: a Formação Continuada de 21 ONGs que atuam com ensino de arte e os cursos de EaD Ensino de Arte na Contemporaneidade: desafios para a cultura e a educação e Educação para o Desenvolvimento Humano pela Arte. Em todas estas experiências de formação, o IAS provocou os arte/educadores a refletir, dialogar e experimentar novas formas de pensar e realizar seu trabalho junto aos educandos. A proposta era que a participação em tais iniciativas repercutisse mais concretamente nas vivências profissionais e nas práticas dos arte/educadores em sala de aula, a partir do estudo das concepções norteadoras e referências da Educação para o Desenvolvimento Humano pela Arte. A seguir, serão apresentadas cada uma dessas iniciativas de formação, para que seja possível, na sequência, apontar as principais repercussões de tais formações no trabalho desenvolvido por arte/educadores brasileiros. 1.1 A Formação Continuada das ONGs parceiras O Programa Educação pela Arte realizou, entre os anos 2002 e 2007, a Formação Continuada de 478 arte/educadores que atuavam em 21 organizações não-governamentais parceiras, repercutindo diretamente no trabalho de ensino de arte por eles realizado junto a cerca de 10.300 educandos. __________________________________________________________________ Federação de Arte Educadores do Brasil / FAEB Site: http://xxiiconfaeb2012.blogspot.com.br/ -e-mail: [email protected] XXII CONFAEB Arte/Educação: Corpos em Trânsito 29 de outubro à 02 de novembro de 2012 Instituto de Artes / Universidade Estadual Paulista __________________________________________________________________ Entre os conteúdos trabalhados ao longo da Formação Continuada estão as concepções que marcaram o ensino de arte no Brasil no século XX e a concepção contemporânea do ensino de arte; o ensino de arte numa proposta de educação para o desenvolvimento humano; o ensino de arte na perspectiva multicultural; as novas gerações e as culturas juvenis; o fazer artístico e a apreciação e interpretação da obra de arte: os contextos histórico, social, político e cultural; o fazer artístico e a apreciação e interpretação da obra de arte: um processo de conhecimento e transformação de si e do mundo; o ensino de arte e o Projeto Pedagógico da organização. O Programa adotou três estratégias, complementares, no processo de formação dos arte/educadores: Unidades Formativas à distância, encontros presenciais, chamados de Grupos de Trabalho, e visitas técnicas de acompanhamento das organizações. As Unidades Formativas focavam os conteúdos da formação e eram orientadas por um roteiro de trabalho, com textos e/ou livros para estudo; questões para reflexão individual e coletiva e propostas para a elaboração e realização de atividades artísticas junto aos educandos. A equipe de arte/educadores de cada organização fazia registros do processo vivenciado e os enviava à coordenação e aos consultores técnicos do Programa Educação pela Arte, do Instituto Ayrton Senna, que, por sua vez, elaborava um documento que consolidava as principais aprendizagens das organizações, apontando e analisando aspectos que permearam aquela unidade de formação. Esse documento contribuía, também, para que cada organização pudesse conhecer e compreender os processos vivenciados pelas demais instituições, possibilitando um novo ciclo de formação. As atividades de cada Unidade Formativa eram realizadas em cerca de três meses. Já os Grupos de Trabalho, possibilitavam o encontro presencial entre representantes de todas as organizações parceiras e os consultores e coordenadores do Programa Educação pela Arte. Neles, havia momentos para o aprofundamento conceitual e metodológico e para trocas de experiências entre os arte/educadores participantes. Na maioria das vezes os Grupos de Trabalho eram realizados anualmente e tinham a duração de 16 horas. __________________________________________________________________ Federação de Arte Educadores do Brasil / FAEB Site: http://xxiiconfaeb2012.blogspot.com.br/ -e-mail: [email protected] XXII CONFAEB Arte/Educação: Corpos em Trânsito 29 de outubro à 02 de novembro de 2012 Instituto de Artes / Universidade Estadual Paulista __________________________________________________________________ As visitas técnicas, por sua vez, eram espaços de diálogo conceitual e de compartilhamento de experiências entre a equipe de cada organização e a coordenação e os consultores do Programa Educação pela Arte, sendo que algumas das visitas incluíam a participação dos educandos. Esses momentos aconteciam no espaço de cada organização parceira, tendo, em geral, duração de oito horas. 1.2 O curso EaD Ensino de Arte na Contemporaneidade: desafio para a cultura e a educação Em 2008, o Programa iniciou investimentos em formação de arte/educadores de outros espaços educacionais, por meio de cursos de Educação a Distância. Neste ano, quatro instituições estabeleceram parceria para a realização de um curso a distância: o IAS, a DUO Informação e Cultura, a ONG Humbiumbi – Arte, Cultura e Educação e a UNESCO. O curso, intitulado “Ensino de arte na contemporaneidade: desafio para a cultura e a educação”1 atuou na formação de 160 arte/educadores de todos os estados brasileiros. O interesse por realizar esse curso vinha de uma perceptível demanda por formação, de profissionais que atuam com ensino de arte em escolas, museus e centros culturais. E a decisão de realizar um curso virtual refere-se, essencialmente, à possibilidade de colocar em diálogo arte/educadores que residem em todos os estados brasileiros, essencialmente em cidades do interior do País. Criava-se, naquele momento, um rico ambiente de formação, marcado por oportunidades de acesso a novos conhecimentos, compartilhamento de pontos de vista e experiência, elaboração de novas ideias e práticas em ensino de arte. O processo de seleção dos participantes do curso foi bastante desafiador, devido ao grande número de inscritos. Mais de 1.400 arte/educadores enviaram fichas de inscrição2, o que possibilitou que o grupo selecionado fosse marcado por uma interessante diversidade em termos de tempo de atuação em ensino de arte; de formação em linguagens artísticas diferentes; de tipos de instituição de ensino em 1 O curso “Ensino de arte na contemporaneidade: desafio para a cultura e a educação” foi patrocinado pela Petrobras, via Lei Rouanet. 2 Para participar do curso, era pré-requisito que os arte/educadores preenchessem uma ficha de inscrição e a encaminhassem por e-mail, acompanhada de uma declaração da instituição educacional em que atuavam. Nesta declaração, a instituição se comprometia em garantir tempo de estudo e participação dos arte/educadores nas ações propostas no curso. Tais instituições receberam, como doação do curso, um acervo com 15 títulos relacionados ao ensino de arte. __________________________________________________________________ Federação de Arte Educadores do Brasil / FAEB Site: http://xxiiconfaeb2012.blogspot.com.br/ -e-mail: [email protected] XXII CONFAEB Arte/Educação: Corpos em Trânsito 29 de outubro à 02 de novembro de 2012 Instituto de Artes / Universidade Estadual Paulista __________________________________________________________________ que trabalhavam3; e de localidades diferentes no país4. Privilegiou-se a participação de arte/educadores com formação superior, sendo que os que possuíam apenas graduação tinham prioridade em relação aos mestres e doutores, no caso de desempate. As atividades do curso foram realizadas na plataforma EAD|DUO5, que apresentava formato fechado. Ela possibilitava que os arte/educadores, professores e coordenadores participassem das “aulas”, compostas por textos de referência elaborados pelos professores e atividades de reflexão por eles propostas, e o “fórum”, que abrigava o diálogo entre os arte/educadores e professores, acerca dos conteúdos de cada módulo. Havia outros ambientes importantes, tais como a “midiateca”, em que eram postados textos e vídeos complementares para estudo, o “cafezinho”, espaço em que os participantes do curso dialogavam sobre questões diversas não vinculadas ao conteúdo, e o “message center”, em que os alunos encaminhavam questões diretamente aos professores ou coordenadores. O conteúdo do curso foi organizado em seis disciplinas, a saber: Educação para o Desenvolvimento Humano; o ensino de arte no Brasil e a concepção contemporânea de arte; o valor da arte na contemporaneidade e seus reflexos no ensino de arte; juventude e culturas juvenis; o fazer artístico no ensino de arte; e a apreciação e interpretação da obra de arte no ensino de arte. Tal conteúdo foi trabalhado ao longo dos quatro meses de duração do curso. 1.3 O curso EaD Educação para o Desenvolvimento Humano pela Arte Em 2010, o Programa realizou nova iniciativa de formação de arte/educadores: o curso Educação para o Desenvolvimento Humano pela Arte 6, junto a 80 profissionais que atuavam em uma diversidade de espaços educacionais 3 Do total dos selecionados, 57% atuavam em escolas públicas, 17% em ONGs, 9% em universidades, 8% em escolas particulares, 5% em secretarias de cultura e de educação e 4% em museus e centros culturais. 4 Houve a participação de arte/educadores de todos os estados brasileiros. Buscou-se equilibrar a quantidade de participantes de cada estado, proporcionalmente a dados populacionais das regiões do país. Garantiu-se a aprovação de, pelo menos, cinco arte/educadores de cada estado, exceto de Roraima, Tocantins, Amazonas e Acre, devido ao fato de não haver este número de candidatos que atendiam aos critérios da seleção. Parte significativa dos selecionados residem no interior do País, onde, em geral, não têm oportunidades de formação. 5 A plataforma era de simples utilização, e, rapidamente, grande parte dos arte/educadores aprenderam a navegar por ela. Foi realizada uma semana de atividades de ambientação na plataforma e os alunos que apresentavam dificuldades contavam com o auxílio da equipe de monitoria. 6 O curso “Educação para o Desenvolvimento Humano pela Arte” foi realizado pelo IAS em parceria com a Santa Bárbara Engenharia. __________________________________________________________________ Federação de Arte Educadores do Brasil / FAEB Site: http://xxiiconfaeb2012.blogspot.com.br/ -e-mail: [email protected] XXII CONFAEB Arte/Educação: Corpos em Trânsito 29 de outubro à 02 de novembro de 2012 Instituto de Artes / Universidade Estadual Paulista __________________________________________________________________ de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Assim como na primeira experiência em EaD, buscava-se responder à ampla demanda por formação apresentada pelos profissionais que ensinam arte, e, junto a isso, relativizar a noção de território de um país continental como o Brasil, que, se por um lado, possibilita a existência e convivência de uma rica diversidade cultural, por outro, dificulta o acesso de uma parte expressiva da população a uma série de possibilidades de formação existentes em grandes cidades. A EaD, possibilita que profissionais que residem em diversos locais se encontrem e acessem, compartilhem e construam conhecimentos e experiências importantes para o trabalho que realizam cotidianamente. O curso teve a intenção de compartilhar com arte/educadores de escolas públicas, ONGs e espaços culturais brasileiros, as causas, os conceitos e as estratégias propostas pela Educação para o Desenvolvimento Humano pela Arte; de promover oportunidades de acesso, compartilhamento e produção de conhecimentos sobre o ensino de arte; e criar oportunidades para que os arte/educadores qualificassem suas propostas de ensino junto aos educandos das instituições em que atuam. Com duração de quatro meses, os arte/educadores se encontravam no ambiente virtual do IAS, que possibilitava uma diversidade de atividades, dentre as quais, o acesso a textos e vídeos para estudo, a vivência de propostas de reflexão individual, e o diálogo nos fóruns temáticos. Os professores apresentavam questões iniciais para orientar o diálogo nos fóruns temáticos. À medida que os arte/educadores apresentavam suas reflexões, em geral articulando referências conceituais trabalhadas nos textos com suas experiências de ensino de arte, os professores faziam uma “costura” entre elas. De tempos em tempos, elaboravam um documento que consolidava todo esse conhecimento estruturado coletivamente. O curso adotou, como conteúdo, as referências da proposta de Educação para o Desenvolvimento pela Arte. Em termos conceituais, esta proposta estrutura o ensino de arte a partir do conhecimento sensível do ser humano e do mundo (sensibilidade, percepção e criatividade); da vivência, identificação e incorporação de valores; e da visão multiculturalista. Esses três eixos conceituais fundamentam os processos de fazer artístico e de apreciação e interpretação de obras de arte __________________________________________________________________ Federação de Arte Educadores do Brasil / FAEB Site: http://xxiiconfaeb2012.blogspot.com.br/ -e-mail: [email protected] XXII CONFAEB Arte/Educação: Corpos em Trânsito 29 de outubro à 02 de novembro de 2012 Instituto de Artes / Universidade Estadual Paulista __________________________________________________________________ vivenciados pelos educandos, possibilitando que eles desenvolvam competências pessoais (entre elas, identidade e autonomia), relacionais (entre elas o protagonismo, a colaboração e a comunicação), cognitivas (entre elas o pensamento crítico e a resolução de problemas) e produtivas (entre elas a gestão de processos e gestão de informações). 2 Resultados comuns das iniciativas de formação de arte/educadores Pretende-se, nesta seção, analisar os principais resultados comuns observados a partir da realização, pelo Programa Educação pela Arte, dessas três experiências de formação de arte/educadores. Para tanto, serão adotados cinco eixos de análise, que, no seu conjunto, possibilitam o entendimento das repercussões que tais iniciativas geraram na atuação dos profissionais junto aos seus educandos. 2.1 Ampliação de volume e tempo de estudo Nas três experiências de formação de arte/educadores relatadas, o Programa optou por incentivar que os arte/educadores ampliassem, continuamente, o tempo de dedicação e o volume de leituras sobre referências de arte, de ensino de arte e de outros campos que permeiam o trabalho junto aos educandos. Cada unidade formativa da Formação Continuada, por exemplo, apontava uma lista de referências bibliográficas que deveriam ser acessadas pelos arte/educadores participantes, como forma de preparação para a realização das atividades sugeridas às organizações parceiras. Em diversos momentos da formação, verificou-se que os participantes relacionavam suas práticas de ensino de arte com aspectos conceituais e metodológicos abordados pelos autores a que tiveram acesso. O curso EaD Ensino de Arte na Contemporaneidade realizou uma ação concreta de possibilitar o acesso dos profissionais a um acervo de títulos relevantes relacionados ao ensino de arte. Todas as 160 instituições de ensino a que os alunos do curso estavam vinculados receberam uma “caixa-biblioteca”, com 15 títulos de referência (entre livros e vídeos), que, durante o curso, ficaram com os arte/educadores para que pudessem estudar. Tratou-se de um investimento de recursos significativo que mostrou-se essencial para a formação dos profissionais. __________________________________________________________________ Federação de Arte Educadores do Brasil / FAEB Site: http://xxiiconfaeb2012.blogspot.com.br/ -e-mail: [email protected] XXII CONFAEB Arte/Educação: Corpos em Trânsito 29 de outubro à 02 de novembro de 2012 Instituto de Artes / Universidade Estadual Paulista __________________________________________________________________ Uma aluna do curso7, ao responder a ficha de avaliação, exclamou: “a caixabiblioteca é um verdadeiro tesouro para nós e para as instituições!”. O curso EaD Educação para o Desenvolvimento Humano pela Arte, por sua vez, optou pela disponibilização de textos de estudo, de autoria da equipe do Programa Educação pela Arte, do Instituto Ayrton Senna, que apresentavam as referências conceituais e metodológicas que seriam trabalhadas pelos professores nos fóruns de discussão. Optou-se, também, pela indicação de referências bibliográficas de autores com produção relevante no campo do ensino de arte. Considera-se necessário ressaltar que nas três experiências de formação foram feitas negociações com as instituições de ensino às quais os arte/educadores estavam vinculados, a fim de garantir tempo e condições de estudo. As diversas atividades desenvolvidas pressupunham um intenso volume de estudo, que refletiu diretamente na ampliação dos conhecimentos dos profissionais, e, principalmente, na superação, por muitos deles, de um grande desafio do ensino de arte: transpor as práticas intuitivas, dando lugar a um trabalho melhor fundamentado. 2.2 Articulação entre teoria e prática Uma das principais preocupações do Programa Educação pela Arte é a de aproximar as referências conceituais que adota das práticas cotidianas, ou seja, possibilitar que o trabalho junto aos educandos seja orientado pelos conceitos propostos pelo Programa. Tal preocupação se transforma em método de formação dos arte/educadores. Nas três experiências aqui relatadas, adotaram-se dois métodos principais de articulação entre teoria e prática. No primeiro, os arte/educadores eram convidados, continuamente, a refletir sobre suas práticas, registrando-as em forma de relato de experiência. Esse exercício de elaborar um relato era proposto como um duplo esforço: o de registrar as atividades realizadas junto aos educandos e o de analisar as escolhas metodológicas, os resultados alcançados e as questões/desafios observados, entre tantos outros aspectos. Tudo isso, a partir de leituras diversas, que contribuíam para ampliar e qualificar o olhar sobre os eixos de análise. Os 7 Optamos por não identificar os nomes dos arte/educadores cujas falas avaliativas foram inseridas no presente artigo. __________________________________________________________________ Federação de Arte Educadores do Brasil / FAEB Site: http://xxiiconfaeb2012.blogspot.com.br/ -e-mail: [email protected] XXII CONFAEB Arte/Educação: Corpos em Trânsito 29 de outubro à 02 de novembro de 2012 Instituto de Artes / Universidade Estadual Paulista __________________________________________________________________ professores das formações atuavam como mediadores desse processo, contribuindo para a identificação de experiências interessantes, para a articulação de tais experiências com referências conceituais e metodológicas, e para o compartilhamento entre os membros do grupo de arte/educadores. A fala a seguir, de arte/educador participante de um dos cursos EaD, evidencia esta questão: O curso é um instrumento importante para repensarmos nossa prática como professores, justamente em uma época de tantas mudanças como a atual. Permite também que possamos observar a prática de nossos colegas, a realidade de outros lugares do Brasil e pensarmos juntos novas soluções para velhos problemas. O contato e aprendizado com professores experientes também possibilita uma troca muito rica. A segunda opção metodológica das formações que contribuíam fortemente para que os arte/educadores articulassem as referências conceituais com suas práticas cotidianas de ensino de arte era a elaboração e compartilhamento de planos de aula. A partir das questões estudadas em textos de referência e dos diálogos entre os membros das equipes das organizações ou dos arte/educadores dos cursos de EaD, eles eram convidados a estruturar planos de aula, nas diversas linguagens artísticas, traduzindo seus conhecimentos em ações práticas. O compartilhamento de tais documentos gerava uma ampliação, pelo coletivo de profissionais, de visões sobre o ensino de arte e, principalmente, da diversidade de possibilidades de realizar trabalhos qualificados junto a crianças, adolescentes e jovens. 2.3 Planejamento e avaliação das ações Um dos focos de investimento do Programa Educação pela Arte refere-se ao fortalecimento dos processos de planejamento e avaliação do trabalho desenvolvido junto aos educandos. A dificuldade de implementar tais práticas é bastante presente no cotidiano de diversas instituições de ensino, o que, em muitos casos, acaba por fragilizar os resultados dos educandos no campo da arte e os processos de gestão dessas instituições. As iniciativas de formação de arte/educadores desenvolvidas pelo Programa incentivam que os profissionais permanentemente realizem e qualifiquem suas __________________________________________________________________ Federação de Arte Educadores do Brasil / FAEB Site: http://xxiiconfaeb2012.blogspot.com.br/ -e-mail: [email protected] XXII CONFAEB Arte/Educação: Corpos em Trânsito 29 de outubro à 02 de novembro de 2012 Instituto de Artes / Universidade Estadual Paulista __________________________________________________________________ práticas de planejamento e de avaliação. E é evidente o encantamento da maior parte deles ao verificarem as positivas repercussões que tais procedimentos podem gerar no trabalho junto aos educandos: aulas mais bem preparadas, ampliação dos conhecimentos que os educandos acessam, compartilham e produzem, foco mais bem definido no desenvolvimento de competências pelos educandos e não, apenas, de habilidades técnicas, entre tantos outros. 2.4 Diálogo entre os arte/educadores que atuam em diferentes instituições Um dos aspectos mais marcantes das formações relatadas no presente trabalho é a dimensão de aprendizagem que se dá a partir da troca entre os profissionais que atuam em diferentes instituições de ensino, localidades e nas diversas linguagens artísticas. As três iniciativas relatadas apontaram essa questão. A Formação Continuada era composta por arte/educadores de 21 organizações, localizadas em nove estados brasileiros. Em cada unidade formativa, a equipe do Programa produzia um documento que sistematizava as principais aprendizagens de cada uma delas, em relação ao eixo temático que estava sendo trabalhado. Tal documento era recebido com muita expectativa pelos participantes, que tinham a oportunidade de se ver e de ver toda a riqueza presente no trabalho de ensino de arte das demais organizações parceiras. Os cursos de EaD também possibilitaram uma intensa troca de conhecimentos e experiências entre os participantes. Um deles contou com a participação de 160 arte/educadores de todos os estados brasileiros. O outro atuou junto a 80 profissionais de três estados da região sudeste. Os fóruns de discussão se transformavam num amplo e profundo locus sistematizador de referências que repercutiam na aprendizagem coletiva. Para um dos arte/educadores, “o curso além de atualizar os profissionais no ensino da arte na contemporaneidade, possibilita um intercâmbio com arte/educadores do país inteiro e, pela sua formatação, faz com que reflitamos sobre a nossa prática. Isso é fundamental”. Interessante mencionar o espaço do “cafezinho virtual”, em que os participantes dialogavam sobre assuntos diversos, acabou promovendo aproximação entre eles, que compartilhavam visões de mundo, interesses, ideias, referências. __________________________________________________________________ Federação de Arte Educadores do Brasil / FAEB Site: http://xxiiconfaeb2012.blogspot.com.br/ -e-mail: [email protected] XXII CONFAEB Arte/Educação: Corpos em Trânsito 29 de outubro à 02 de novembro de 2012 Instituto de Artes / Universidade Estadual Paulista __________________________________________________________________ 2.5 Foco no desenvolvimento humano das crianças, adolescentes e jovens O último eixo de análise de resultados das iniciativas de formação desenvolvidas pelo Programa Educação pela Arte é um dos mais importantes. Tratase de um esforço de reflexão e diálogo, junto aos arte/educadores, acerca da importância de definir um foco claro do ensino de arte: possibilitar que crianças, adolescentes e jovens desenvolvam competências pessoais, relacionais, cognitivas e produtivas por meio do fazer artístico e da apreciação e interpretação de obras de arte. As três iniciativas de formação apontam uma opção clara do Programa: não se trata de reduzir o ensino de arte ao ensino de técnicas diversas, tampouco de formar artistas. Mas, sim, de possibilitar que, por meio da experiência no campo da arte, as novas gerações possam desenvolver a sensibilidade, a percepção e a criatividade; vivenciem, identifiquem e incorporem valores; e adotem uma visão multicultural sobre o mundo. E, nesse processo, se desenvolvam como pessoas, cidadãos e futuros profissionais. Tal foco se traduz na definição do conteúdo, no método de trabalho e nos materiais de referência das formações. Todo o tempo, os participantes são convidados a olhar para os educandos tendo em vista o seu processo de desenvolvimento, nas suas várias dimensões. Conhecer o educando, reconhecê-lo como parte ativa do próprio desenvolvimento são aspectos essenciais para quem atua com educação. Promover oportunidades qualificadas em arte torna-se, nesse contexto, um compromisso com o desenvolvimento humano das novas gerações. 4 Referências ANDRÉ, Simone e GOMES DA COSTA, Antonio Carlos. Educação para o Desenvolvimento Humano. São Paulo: Saraiva: Instituto Ayrton Senna, 2004. BARBOSA, Ana Mae (org.). Arte/educação contemporânea: consonâncias internacionais. São Paulo: Cortez, 2005. BRASIL, SECRETARIA DE EDUCAÇÃO FUNDAMENTAL. Parâmetros Curriculares Nacionais : arte. Brasília: MEC, 1997. FUSARI, Maria Felisminda de Resente; FERRAZ, Maria Heloísa. Arte na educação escolar. 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VALENTE, J., PRADO, M e ALMEIDA, M. (Orgs.). Educação a Distância via internet. São Paulo: Avercamp, 2003. Maria Lívia de Castro Andrade Especialista em Pesquisa e Ensino no Campo das Artes Plásticas (Escola Guignard/UEMG); Graduada em Belas Artes e Artes Gráficas (Escola Guignard/UEMG). É consultora do Instituto Ayrton Senna, diretora do Centro Cultural Maria Lívia de Castro e coordenadora da ONG Humbiumbi - Arte, Cultura e Educação. Respondeu pela integração cultural e social das comunidades brasileira e angolana, em Angola, pela Construtora Norberto Odebrecht. Mônica Pellegrini Especialista em arte/educação (USP). Atuou desde 1992 como arte/educadora e coordenadora em diversas ONGs. Atualmente coordena o Programa Educação pela Arte, desenvolvido pelo Instituto Ayrton Senna, que atua com base na proposta de Educação para o Desenvolvimento Humano pela Arte, em parceria com quatorze ONGs, em oito estados brasileiros, que atendem diretamente cerca de 3.000 crianças e jovens. Paulo Emílio de Castro Andrade Mestre em Educação (UFMG); Graduado em Jornalismo (UNIBH). É consultor do Instituto Ayrton Senna, diretor do Centro Cultural Maria Lívia de Castro, diretor de metodologia e pesquisa da Associação Imagem Comunitária e coordenador de projetos da ONG Humbiumbi. Foi pesquisador do Observatório da Juventude da UFMG e coordenador da Oi Kabum! Escola de Arte e Tecnologia em BH. Simone André Psicóloga, educadora, atuou na área da infância e juventude como consultora de organizações governamentais (prefeituras, órgãos estaduais), não-governamentais e internacionais (Unicef, OIT). Atualmente, é Coordenadora da Área de Juventude do Instituto Ayrton Senna, membro da Cátedra Unesco de Educação e Desenvolvimento Humano e autora de publicações neste campo. __________________________________________________________________ Federação de Arte Educadores do Brasil / FAEB Site: http://xxiiconfaeb2012.blogspot.com.br/ -e-mail: [email protected]