ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional 1 Universidade da Amazônia ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa comparação internacional Equipe Técnica Pesquisadores Dirk Jurgen Oesselmann (Coord.) Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo. Doutor em Educação pela Universidade de Hannover (1998). É professor titular da Universidade da Amazônia – UNAMA. Maria Lúcia Dias Gaspar Garcia (Coord.) Assistente Social, Professora do Curso de Serviço Social da UNAMA. Mestre em Serviço Social pela UFPA Consultor Gercilene Teixeira Costa Antropóloga. Professora da Faculdade do Pará - FAP Marcelo Nazaré Magno Bacharel e Licenciado em História Bolsistas de Iniciação Científica/Aperfeiçoamento - Unama e CNPq Allan Kalil Abdon Martins Fernanda do Socorro Santos Ferreira Isabela Fonseca Cardoza Itaneide Fernandes Silva Marcyette Caldas Tojal Maria José Araújo Campos Mayla Neno Marques Michelle dos Santos Oliveira Simone Vilhena Ventura Novais Suellen Adrienne Saraiva de Oliveira Vera Lúcia Nascimento de Souza Revisão de texto Carol Gama Normalização Allan Kalil Abdon Martins 2 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional DIRK JÜRGEN OESSELMANN MARIA LÚCIA GASPAR GARCIA (Organizadores) Allan Kalil Abdon Martins Fernanda do Socorro Santos Ferreira Isabela Fonseca Cardoza Itaneide Fernandes Silva Marcyette Caldas Tojal Maria José Araújo Campos Mayla Neno Marques Michelle dos Santos Oliveira Simone Vilhena Ventura Novais Suellen Adrienne Saraiva de Oliveira Vera Lúcia Nascimento de Souza ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa comparação internacional Belém UNAMA 2010 3 Universidade da Amazônia ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa comparação internacional © 2010, UNIVERSIDADE DA AMAZÔNIA REITOR Édson Raymundo Pinheiro de Souza Franco VICE-REITOR Antonio de Carvalho Vaz Pereira PRÓ-REITOR DE ENSINO Mário Francisco Guzzo PRÓ-REITORA DE PESQUISA, PÓS-GRADUAÇÃO E EXTENSÃO Núbia Maria de Vasconcellos Maciel SUPERINTENDENTE DE PESQUISA Ana Célia Bahia SUPERINTENDÊNCIA DE EXTENSÃO – SUPEX Vera Lúcia Pena Carneiro Soares EXPEDIENTE EDIÇÃO: Editora UNAMA COORDENADOR: João Carlos Pereira SUPERVISÃO: Helder Leite REVISÃO: Jair Melo NORMALIZAÇÃO: Maria Miranda FORMATAÇÃO GRÁFICA: Elailson Santos “Campus” Alcindo Cacela Av. Alcindo Cacela, 287 66060-902 - Belém-Pará Fone geral: (91) 4009-3000 Fax: (91) 3225-3909 “Campus” BR Rod. BR-316, km3 67113-901 - Ananindeua-Pa Fone: (91) 4009-9200 Fax: (91) 4009-9308 “Campus” Senador Lemos “Campus” Quintino Av. Senador Lemos, 2809 Trav. Quintino Bocaiúva, 1808 66120-901 - Belém-Pará 66035-190 - Belém-Pará Fone: (91) 4009-7100 Fone: (91) 4009-3300 Fax: (91) 4009-7153 Fax: (91) 4009-3349 Catalogação na fonte www.unama.br O28e Oesselmann, Dirk Encontro transculturais: sua importância para pensar e agir democrático de educadores(as) numa comparação internacional / Dirk Oesselmann e Maria Lúcia Gaspar Garcia (Orgs.). – Belém: Unama, 2010. 276p. ISBN 978-85- 7691-091-6 1. Cultura. 2. Educação 3. Transculturalidade. I. Garcia, Maria Lúcia Gaspar. II. Martins, Alan Kalil. III. Ferreira, Fernanda do Socorro Santos. IV. Cordoza, Izabel Fonseca. V. Silva, Itaneide Fernandes. VI. Tojal, Marcyette Caldas. VII. Campos, Maria José Araújo. VIII. Marques, Mayla Neno. IX. Oliveira, Michelle dos Santos. X. Novais, Simone Vilhena Ventura. XI. Oliveira Suellen Adrienne Saraiva de. XII. Souza, Vera Lúcia Nascimento de. XIII.Título. CDD 306 4 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional LISTA DE FIGURAS Figura 1 - Mapa da Reserva Indígena Anambé ................................................ 33 Figura 2 - Residência típica Anambé ............................................................... 35 Figura 3 - O rio como espaço de lazer e higienização .................................... 38 Figura 4 - Planta da Comunidade de Caruaru ................................................. 49 Figura 5 - Apresentação do grupo durante o Festival das Águas ................... 56 Figura 6 - Meninos em grupo se divertem a margem do rio ........................... 77 Figura 7 - Meninas reunidas aguardam o início do ensaio ........................... 83 Figura 8 - Localização da PIB no bairro de Nazaré – Belém/Pa ................... 105 Figura 9 - Classe de adolescentes da EBD-PIB .............................................. 110 Figura 10 - Localização da Casa da Juventude – CAJU .................................. 131 Figura 11 - Jovens em suas atividades litúrgicas – Momento de comunhão ... 150 Figura 12 - Jovens em suas atividades litúrgicas – Momento de organização do altar da Igreja ...................................................................... 151 Figura 13 - Jovens do grupo (BRG) na Biblioteca Kilombo do Saber ............ 158 Figura 14 - Jovem em oração – Momento do Culto ....................................... 170 Figura 15 - Jovem pertencente ao grupo BRG ................................................ 174 Figura 16 - Quadrilha Junina “Flor do Paraíso” ........................................... 196 5 Universidade da Amazônia Sumário PREFÁCIO ............................................................................................................ 11 INTRODUÇÃO ...................................................................................................... 13 1 POR UMA PRIMEIRA PROBLEMATIZAÇÃO: CENÁRIOS, CONCEITOS E OPÇÕES ... 15 1.1 CENÁRIO GLOBALIZAÇÃO .............................................................................. 15 1.2 COMO ENTENDER “CULTURA”?. ..................................................................... 19 1.3 FORMAÇÃO DE IDENTIDADE ......................................................................... 21 1.4 DEFINIÇÕES “INTERCULTURALIDADE” E “TRANSCULTURALIDADE” ................ 23 1.5 AS JUVENTUDES NA AMAZÔNIA ..................................................................... 25 2 METODOLOGIA DO TRABALHO DE CAMPO .................................................... 27 2.1 PESQUISA DE CAMPO .................................................................................... 27 3 UNIVERSOS PESQUISADOS .............................................................................. 29 3.1 UNIVERSO INDÍGENA .................................................................................... 29 3.1.1 Grupo Indígena Anambé: Resistência Étnica e Identidade ..................... 29 3.1.1.1 Reserva indígena Anambé: localização e história ............................... 29 3.1.1.2 Influências regionais ............................................................................ 31 3.1.1.3 Os Anambé hoje: interagindo com o outro ........................................... 34 3.1.1.4 Equipamentos comunitários e vínculos institucionais ....................... 36 3.1.1.5 Adolescentes e jovens Anambé: cultura e perspectivas ...................... 36 3.1.2 Visões de Mundo e de Futuro: o olhar sobre o grupo pesquisado ........ 38 3.1.2.1 Relacionamento com a família ............................................................. 39 3.1.2.2 Cotidiano e preferências ....................................................................... 39 3.1.2.3 Religião .................................................................................................. 40 3.1.2.4 Política ................................................................................................... 40 3.1.2.5 Juventude ............................................................................................... 41 3.1.2.6 Relações de gênero ................................................................................ 41 3.1.2.7 Conflitos no grupo ................................................................................. 42 3.1.2.8 Sonhos e perspectivas em relação ao futuro ....................................... 42 3.1.3 O Pensar e Agir dos Educadores na Aldeia dos Anambé ........................ 43 3.2 UNIVERSO RIBEIRINHO ................................................................................. 46 3.2.1 O Rio e a Mata na Construção de Identidade de Jovens Ribeirinhos na Comunidade de Caruaru, Mosqueiro (Pa). .......................................... 46 3.2.1.1 Considerações gerais sobre a área de estudo: a Ilha do Mosqueiro .... 46 3.2.1.2 A Comunidade de Caruaru ..................................................................... 47 3.2.1.3 Notas sobre o processo de constituição do grupo “Raízes do Caru-Aipim” .. 51 3.2.2 Apresentação e Discussão dos Resultados Quanti-qualitativos: identificação e características pessoais ................................................ 58 3.2.2.1 Gênero e faixa etária ............................................................................. 58 6 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional 3.2.2.2 Estado civil, número de filhos, cor da pele e nível de escolaridade ... 59 3.2.2.3 Condições socioeconômicas dos integrantes: ocupação ...................... 2 3.2.2.4 Situação dos jovens quanto à moradia: local de domicílio e número de moradores por domicilio ................................................... 62 3.2.2.5 Relacionamento com os familiares ...................................................... 63 3.2.2.6 Meio de transporte e meio de informação mais utilizado .................. 64 3.2.2.7 Formas de lazer e ocupação do tempo livre ......................................... 65 3.2.2.8 Hábitos e padrões alimentares ............................................................. 67 3.2.2.9 Religião e religiosidade entre os jovens de Caruaru ........................... 68 3.2.2.10 Participação política ........................................................................... 70 3.2.3 Organização dos Jovens em Torno do Grupo ............................................ 72 3.2.3.1 Formas de inserção e objetivos do grupo ............................................ 72 3.2.3.2 Frequência e participação .................................................................... 74 3.2.3.3 Pontos positivos e negativos no grupo ................................................ 74 3.2.3.4 Relacionamentos vivenciados no grupo .............................................. 76 3.2.3.5 Avaliação da participação .................................................................... 77 3.2.3.6 Conflitos no grupo ................................................................................. 79 3.2.4 Grupo Como Processo Educativo .............................................................. 82 3.2.4.1 Qualificação pessoal e profissional .................................................... 82 3.2.4.2 Desafios do grupo ................................................................................. 82 3.2.4.3 Relações de gênero no grupo ................................................................ 82 3.2.4.4 Perspectivas dos jovens em relação ao futuro .................................... 83 3.2.4.5 Significado de ser jovem ....................................................................... 85 3.2.4.6 Representações de juventude ribeirinha na comunidade de Caruaru ........ 87 3.2.4.7 Elementos de identificação entre os jovens ......................................... 89 3.2.5 Perfil dos Educadores e Personalidades do Processo Educativo .............. 92 3.2.5.1 Perfil dos educadores ........................................................................... 92 3.2.5.2 Relações familiares, cotidianos e preferências dos educadores ....... 93 3.2.5.3 Religiosidade e participação política dos educadores ....................... 93 3.2.5.4 Histórico do grupo, mudanças e transformações ................................ 94 3.2.5.5 Conflitos no grupo ................................................................................. 96 3.2.5.6 Relações de gênero no grupo ................................................................ 97 3.2.5.7 Grupo como Processo Educativo .......................................................... 97 3.2.5.8 Avaliação da prática educativa ............................................................ 99 3.2.5.9 Percepção dos educadores em relação à juventude ......................... 102 3.3 UNIVERSO CENTRO URBANO ...................................................................... 102 3.3.1 Encontros Transculturais: uma reflexão acerca do processo de formação de identidade religiosa a partir dos adolescentes da Primeira Igreja Batista - Bip ..................................................................... 102 3.3.1.1Contextualizando o universo Centro Urbano: a Cidade de Belém ...... 102 3.3.1.2 O espaço urbano de Belém .................................................................. 103 3.3.1.3 O espaço pesquisado: Primeira Igreja Batista - PIB .......................... 104 7 Universidade da Amazônia 3.3.1.4 Identidade religiosa e referências culturais da PIB .......................... 105 3.3.1.4.1 Sua história ........................................................................................ 106 3.3.1.4.2 Sua estrutura ..................................................................................... 106 3.3.1.4.3 Sua denominação .............................................................................. 107 3.3.1.4.4 Sua identidade religiosa .................................................................... 107 3.3.1.4.5 Breve histórico sobre a Escola Bíblica Dominical – EBD ..................... 108 3.3.1.5 Os Adolescentes da EBD ...................................................................... 109 3.3.1.5.1 Perfil Social ........................................................................................ 111 3.3.1.5.2 Gênero e idade ................................................................................... 112 3.3.1.5.3 Cor ..................................................................................................... 112 3.3.1.5.4 Grau de escolaridade ......................................................................... 113 3.3.1.5.5 Principais meios de comunicação, transporte e lazer ........................ 113 3.3.1.5.6 Família ............................................................................................... 114 3.3.1.5.7 Religião .............................................................................................. 115 3.3.1.5.8 Vida cotidiana dos adolescentes ....................................................... 115 3.3.1.5.9 Relações familiares dos adolescentes ................................................ 117 3.3.1.6 Os Adolescentes e sua inserção no grupo EBD .................................. 118 3.3.1.6.1 Relações no grupo ............................................................................. 120 3.3.1.6.2 Conflitos no grupo ............................................................................. 121 3.3.1.6.3 O grupo como processo educativo .................................................... 121 3.3.1.6.4 Relações de gênero no grupo ............................................................ 122 3.3.1.7 O Ponto de vista dos adolescentes ..................................................... 123 3.3.1.7.1 Religião .............................................................................................. 123 3.3.1.7.2 Política ............................................................................................... 125 3.3.1.7.3 Sonhos e perspectivas ........................................................................ 126 3.3.1.7.4 Percepções dos adolescentes sobre juventude .................................. 126 3.3.1.7.5 Elementos de identificação dos adolescentes da EBD ....................... 127 3.3.2 Um Breve Olhar Acerca da Construção de Identidade de Jovens Católicos da Casa da Juventude / Caju .................................................... 129 3.3.2.1 A Casa da Juventude / Caju ................................................................. 129 3.3.2.2 O entorno da Caju ............................................................................... 130 3.3.2.3 Breve histórico da Casa da Juventude – Caju ..................................... 130 3.3.2.4 Sua estrutura ........................................................................................ 133 3.3.2.5 A Justificativa ....................................................................................... 134 3.3.2.6 Os objetivos ......................................................................................... 134 3.3.2.7 A filosofia ............................................................................................. 135 3.3.2.8 O Grupo de Liturgia da Casa da Juventude ......................................... 136 3.3.2.8.1 Perfil social do grupo de liturgia ....................................................... 137 3.3.2.8.2 Gênero, idade e cor ............................................................................ 138 3.3.2.8.3 Grau de escolaridade ......................................................................... 139 3.3.2.8.4 Principais meios de comunicação, transporte e lazer ........................ 139 3.3.2.8.5 Família ............................................................................................... 140 8 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional 3.3.2.8.6 Lugar de moradia .............................................................................. 140 3.3.2.8.7 Religião .............................................................................................. 140 3.3.2.8.8 Entrevistas .......................................................................................... 141 3.3.2.8.9 Cotidiano e preferências .................................................................... 142 3.3.2.8.10 Relacionamento com a família ........................................................ 143 3.3.2.8.11 Inserção no grupo de liturgia .......................................................... 145 3.3.2.8.12 Relacionamento no grupo ............................................................... 146 3.3.2.8.13 Conflitos no grupo ........................................................................... 147 3.3.2.8.14 O grupo enquanto processo educativo .......................................... 147 3.3.2.8.15 Relações de gênero no grupo ......................................................... 148 3.3.2.9 Os pontos de vista dos Jovens ........................................................... 148 3.3.2.9.1 Juventude e religião ........................................................................... 148 3.3.2.9.2 Política ............................................................................................... 152 3.3.2.9.3 Sonhos e perspectivas em relação ao futuro ..................................... 153 3.3.2.9.4 Percepções sobre juventude ............................................................... 153 3.3.2.10 Formação de Identidade dos Jovens do Grupo de Liturgia .............. 155 3.3.2.10.1 Grupo de liturgia: juventude e identidade ....................................... 156 3.4 UNIVERSO URBANO - PERIFERIA ................................................................. 158 3.4.1 Hip-Hop - Manifestação Cultural, Periferia e Vida ................................. 158 3.4.1.1 O Grupo Bancada Revolucionária Gospel – BRG ............................... 158 3.4.1.2 Aspectos observados pela pesquisa .................................................. 161 3.4.1.2.1 Em relação à raça/cor ........................................................................ 161 3.4.1.2.2 Relações de gênero no grupo ............................................................ 162 3.4.1.2.3 Objetivo do grupo ............................................................................. 163 3.4.1.2.4 Relações vivenciadas ......................................................................... 164 3.4.1.2.5 Conflitos familiares ............................................................................ 164 3.4.1.2.6 Conflitos no grupo ............................................................................. 166 3.4.1.2.7 Lideranças .......................................................................................... 166 3.4.1.2.8 Motivação para entrar no grupo ....................................................... 167 3.4.1.2.9 Mudanças decorrentes da participação no grupo ............................ 169 3.4.1.2.10 Política ............................................................................................. 169 3.4.1.2.11 Religião ............................................................................................ 169 3.4.1.2.12 Trabalho e educação ....................................................................... 172 3.4.1.2.13 Periferia e identidade ...................................................................... 172 3.4.1.2.14 Juventude: sonhos e desafios .......................................................... 172 3.4.1.2.15 Fragmentos de Histórias de Vida: personalidades e trajetórias ......... 174 3.4.1.2.15.1 Pastor Ênfase: o educador e líder espiritual .............................. 175 3.4.1.2.15.2 Rick Hei: das gangues ao hip-hop ............................................... 182 3.4.2 Quadrilha Junina “Flor do Paraiso”: a Expressão do Folclore por meio da Dança e Música no Urbano Periférico de Belém .............. 188 3.4.2.1 Contextualizando o Universo Urbano Periférico de Belém ................ 188 3.4.2.1.1 Periferia: construção das relações sociais e identidade ............... 188 9 Universidade da Amazônia 3.4.2.1.2 O processo de urbanização da cidade de Belém: fragmentos históricos .......... 189 3.4.2.1.3 Periferia e exclusão socioambiental .................................................. 191 3.4.2.2 A quadrilha junina ............................................................................. 194 3.4.2.3 A quadrilha junina “Flor do Paraíso” .................................................. 195 3.4.2.4 Percepções gerais sobre a quadrilha junina “Flor do Paraíso” ............ 198 3.4.2.4.1 Par de brincantes da flor do paraíso ................................................. 198 3.4.2.4.2 Quanto ao gênero e idade ................................................................ 199 3.4.2.4.3 Grau de escolaridade ......................................................................... 200 3.4.2.4.4 Meios de comunicação mais utilizados ............................................. 200 3.4.2.4.5 Lazer preferido ................................................................................... 201 3.4.2.4.6 Moradia ............................................................................................. 201 3.4.2.4.7 Família ............................................................................................... 202 3.4.2.5 Algumas percepções sobre os jovens ................................................. 202 3.4.2.5.1 Relação familiar ................................................................................. 202 3.4.2.5.2 Religiosidade ..................................................................................... 203 3.4.2.5.3 Política ............................................................................................... 205 3.4.2.5.4 Inserção no grupo .............................................................................. 205 3.4.2.5.5 Conflitos internos ............................................................................... 206 3.4.2.5.6 Processo educativo ............................................................................ 208 3.4.2.5.7 Sonhos e perspectivas em relação ao futuro ..................................... 209 3.4.2.5.8 Juventude ........................................................................................... 210 3.4.2.5.9 Folclore .............................................................................................. 212 3.4.2.6 Outras percepções sobre a quadrilha junina “Flor do Paraíso” ....... 213 3.4.2.6.1 Considerações sobre os educadores da quadrilha “Flor do Paraíso” ......... 214 3.4.2.6.2 A história de vida da Vó ..................................................................... 219 4 UMA LEITURA COMPARATIVA DOS UNIVERSOS PESQUISADOS ................... 223 4.1 CULTURA E RELIGIÃO: espaços de criação social ...................................... 249 APROXIMAÇÕES CONCLUSIVAS ........................................................................ 253 REFERÊNCIAS .................................................................................................... 267 SOBRE OS AUTORES .......................................................................................... 273 10 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional P REFÁCIO O estudo realizado por Dirk Oesselmann, Maria Lúcia Garcia e um amplo grupo de pesquisa elegeu um foco de investigação de grande complexidade e atualidade. Ao considerar a Educação no âmbito das relações culturais, esse estudo desenvolveu metodologias para investigá-la por meio de manifestações de diferentes valores, crenças, opiniões, posições sociais e habilidades, inaugurando no campo processual do transculturalismo uma pedagogia da transversalidade que materializa a afirmação de Delors (2000, p. 16): Tudo nos leva, pois, a dar novo valor, dimensão ética e cultural da Educação e, deste modo, a dar efetivamente a cada um os meios de compreender o outro na sua especificidade, de compreender o mundo, na sua marcha caótica para uma certa unidade. O desafio enfrentado pelo grupo de compor o saber local, marcado pela cultura plural e diversa da Amazônia com a cultura científica presente nas obrigações e nos rigores de um projeto apresentado em uma Universidade, coloca-nos diante de universos que nos apresentam os elementos simbólicos da rua, dos índios, da periferia e do centro mais urbanizado. Isso demonstra as possibilidades da quebra de fronteiras entre tais territórios pela inauguração de um espaço de comunicação democrática, transubstanciado pelas interações construídas entre sujeitos que pesquisam e sujeitos pesquisados. A fala dos sujeitos. A fala das universidades. A fala das ruas – urbana, suburbana. Todos verbalizando direitos, denunciando, expressando seus habitus, organizando a festa e dançando na “quadrilha”, no Hip-hop. Esta pesquisa em si comprova a possibilidade do encontro da cultura acadêmico-científica com a cultura popular, situadas em um mundo globalizado e transnacionalizado. Este grupo de pesquisa, identificado no cotidiano da academia como “Transculturais”, espelha uma “alma democrática e multicuturalista” na sua própria composição: Oesselmann, Garcia, Martins, Ferreira, Cardoza, Campos, Tojal, Marques, Oliveira, Azevedo, Novaes, Saraiva, Silva e Souza. E ao buscar a 11 Universidade da Amazônia compreensão dos diferentes processos formativos de identidade e sociabilidade nas “tribos” urbanas e suburbanas da Amazônia, em parceria com a Universidade de Hannover, este grupo nos chama atenção para a necessidade de enfrentarmos a cultura autista dos currículos formais - fechados no status que a tradição da cientificidade lhes assegura. Pesquisas como estas evidenciam os poros, os fluxos, a respiração e os sopros de fecundidade da cultura viva que escorre entre os Anambé; os jovens do Hip-hop; na quadrilha do Satélite; nas atividades religosas da PIB, da Caju etc. Certamente pavimentarão os caminhos para uma educação democrática, que parta do respeito ao tempo-espaço das diferenças, da diversidade e do sentido plural que nos imprimem os grupos estudados. Seja na Ilha do Mosqueiro (Caruaru); seja em junho no Satélite na festa junina da Flor do Paraíso; seja na Região do Baixo Rio Tocantins na Comunidade Anambé; seja na Nação de Resistência Periférica com o seu Hip-hop por meio da Bancada Revolucionária (BRG), cantando gospel: os jovens no mundo sempre serão um sinal de resistência cultural e da construção de novos processos de busca de identidade. Os leitores deste livro devem refletir transversalmente sobre os universos culturais analisados, com o intuito de encontrar, em alguma das referências destacadas, o seu “rosto” neste espelho ontológico de identidades que mundializa nossos espíritos e nos intima a ressignificar pedagogias de caráter participativo e democrático. Prof. Dr. Carlos Jorge Paixão (Coordenador do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Educação – UNAMA) 12 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional I NTRODUÇÃO O presente trabalho é o resultado de uma pesquisa, durante os anos de 2002 a 2004, denominada “ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores (as) numa comparação internacional”, desenvolvida pelo Núcleo de Pesquisa e Educação da Universidade da Amazônia - UNAMA sob a coordenação do Prof. Dr. Dirk Jürgen Oesselmann e da Profª. Ms. Maria Lúcia Gaspar Garcia, com aprovação e apoio financeiro da Fundação Instituto para Desenvolvimento da Amazônia – FIDESA, e Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq. O tema da pesquisa surgiu, provocado pelo contexto de um crescente movimento de migração, que tanto provoca a busca incessante de novas possibilidades de subsistência quanto aumenta a mobilidade e a comunicação de pessoas na era da globalização. Tal dinâmica suscitou, em nível mundial, inúmeros conflitos étnicos, religiosos, culturais e sociais, nos quais populações se opõem às influências culturais uniformizantes das hegemonias globais, com o propósito de assegurar a sua própria identidade (OESSELMANN, 2001). Nesse sentido, esta pesquisa analisou, em uma perspectiva internacional, as experiências regionais de formação de identidades e de busca de projetos coletivos em quatro diferentes universos da região Amazônica: I) populações indígenas em contato com instituições e serviços urbanos; II) populações ribeirinhas em contato com instituições e serviços urbanos; III) periferia urbana entre identidades sociais rurais e influências urbanas; IV) centro urbano em meio a influências externas à região. A proposta fora analisar encontros transculturais, tomando o pressuposto de que devam existir “princípios geradores” (BOURDIEU, 1996) comuns a essas experiências, por um lado, oriundos da constituição humana; pelo outro, relacionados a tendências sociais, culturais e econômicas globais. Segundo a análise de Bourdieu (1996), em toda a diversidade contextual existem elementos constitutivos que indicam formas, lógicas ou dinâmicas, de como as múltiplas forças compõem os determinados campos sociais. Este trabalho está dividido em quatro partes. A primeira, intitulada “POR UMA PRIMEIRA PROBLEMATIZAÇÃO”, aborda os cenários nos quais se 13 Universidade da Amazônia encontra inserido o projeto e nos quais surge a problemática da pesquisa; e também discorre sobre as categorias de análise, enfocadas durante a pesquisa. A segunda parte, denominada “METODOLOGIA DO TRABALHO DE CAMPO”, demarca o percurso metodológico e os instrumentais utilizados na pesquisa realizada junto aos grupos de jovens. Por conseguinte, a terceira parte, “UNIVERSOS PESQUISADOS”, apresenta as análises sobre cada grupo, subdividida em: a) GRUPO INDIGENA ANAMBÉ: resistência étnica e identidade – estudo realizado junto ao universo indígena, representado pela população indígena Anambé, da região de Mocajuba - Baixo Tocantins paraense, de autoria de Neliza Maria Trindade Azevedo; b) ENCONTROS TRANSCULTURAIS: o rio e a mata na construção da identidade de jovens ribeirinhos na comunidade de Caruaru, Mosqueiro (Pa) – estudo desenvolvido com os jovens inseridos em um grupo de danças folclóricas, na comunidade de Caruaru, na Ilha de Mosqueiro (PA), de autoria de Allan Kalil Abdon Martins e Fernanda do Socorro Santos Ferreira; c) ENCONTROS TRANSCULTURAIS: uma reflexão acerca do processo de formação de identidade religiosa a partir dos adolescentes da PIB – trabalho produzido com os adolescentes da Escola Bíblica Dominical – EBD da Primeira Igreja Batista do Pará – PIB, de autoria de Itaneide Fernandes Silva; Maria José Araújo Campos e Mayla Neno Marques; d) ENCONTROS TRANSCULTURAIS: um breve olhar acerca da construção de identidade religiosa de jovens católicos, realizado junto aos jovens do Grupo de Liturgia da Casa da Juventude – CAJU, de autoria de Suellem Adrienne Saraiva de Oliveira e Vera Lúcia Nascimento de Souza; e) HIP-HOP: manifestação cultural, periferia e vida – estudo desenvolvido com os jovens do grupo de Hip-hop, denominado Bancada Revolucionária Gospel – BRG, de autoria de Isabela Fonseca Cardoza e Michele dos Santos Oliveira; f) QUARILHA JUNINA “FLOR DO PARAÍSO”: a expressão do folclore através da dança e da música no universo urbano periférico de Belém – trabalho realizado junto ao grupo de jovens da Quadrilha Flor do Paraíso, do bairro do Satélite, de autoria de Marcyette Caldas Tojal e Simone Vilhena Ventura Novais. A quarta parte, “ANÁLISE COMPARATIVA DOS GRUPOS”, discute, de modo comparativo, contradições, potencialidades, aprendizagens e conflitos inerentes aos grupos estudados. Apresenta, também, a análise dos processos de polarização sócio-cultural e religiosa, e formação transcultural de identidade. Ressalta-se que os textos elencados nos capítulos mencionados deste relatório foram apresentados conforme versão entregue pelos bolsistas e colaboradores do projeto de pesquisa, e contaram com a coordenação/organização dos professores Dirk Jürgen Oesselmann e Maria Lúcia Gaspar Garcia. 14 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional 1 POR UMA PRIMEIRA PROBLEMATIZAÇÃO: CENÁRIOS, CONCEITOS E OPÇÕES 1.1 CENÁRIO GLOBALIZAÇÃO Este cenário é demasiadamente discutido em todas as partes do mundo, em um contexto tematizado pela maioria dos estudos nas áreas das ciências humanas. No entanto, a discussão é marcada por generalizações que, ora condenam a globalização por causa das incertezas individuais e pelas crescentes injustiças sociais, ora glorificam-na pelas “inesgotáveis” possibilidades e oportunidades tecnológicas. Mesmo que essas diversas análises indiquem, sem dúvida, campos e tendências de problemas que surgiram ou se agravaram na era da globalização; deve-se constatar que os julgamentos gerais não ajudam no aprofundamento dos processos existentes, de alta complexidade e diversidade. Somente a partir do momento que a análise acolhe as relações de construção da realidade em sua dinâmica de multidimensionalidade e multicausalidade, é possível perceber potenciais de mudança gradativa. Ao contrário de se entregar numa letargia diante de uma globalização “onipotente”, ela deixa de ser um demônio ou um deus, e passa a ser vista como um fenômeno historicamente construído. Para afinar a percepção em relação ao cenário global, busca-se inicialmente a distinção de Beck (1997, p. 26-30), um dos sociólogos que mais contribui nessa discussão. No seu entender, há três formas de conceber o cenário global: a) Globalização (“Globalisierung”) – que descreve o processo historicamente construído de interligações e conexões em constante transformação, no qual o ser humano deve se entender como parte da dinâmica de criação e construção. b) Globalidade (“Globalität”) – aponta para a situação existente de um mundo interconectado não só pelas tecnologias, mídias e mercados, mas também pelas ideias e princípios (por exemplo, o referencial universal dos Direitos Humanos) fundamentadas nas aproximações humanas existentes. 15 Universidade da Amazônia c) Globalismo (“Globalismus”) – indica a visão ideológica, por que concebe o mercado econômico mundial como o motor “natural” e a medida imprescindível do processo de globalização. Com base nessa análise, observa-se que Beck não se priva de um julgamento político-ético, e identifica, com maior clareza, o campo do problema, confirmando uma tendência ideológica; no caso, o globalismo, que atualmente domina o processo de globalização ao instituir politicamente a primazia do poder econômico, principalmente do capital. Do mesmo modo, o autor distingue dessa ideologia o processo histórico-cultural da globalização e a factualidade das redes da globalidade, desmistificando a conclusão de que o mercado é algo como um motor natural nesse cenário. O processo de globalização, de fato, oferece, da mesma forma, possibilidades de interconexões solidárias, redes de controle social e estruturas democráticas. O aspecto chave, ora abordado, trata da capacidade do ser humano como ser cultural e ator histórico-social. Ao contrário das possibilidades de aproximação e interconexão, há uma tendência de se entregar simplesmente à rede global. Diante de uma complexidade, devido a uma anonimidade nas relações globais, o ser humano precisa redescobrir o seu potencial de (re-)criar e (re-)construir o seu ambiente vital. É nesse contexto que se situa a discussão sobre a formação de identidade e a expressão cultural. Ambas expressam o processo de tomada de posição do ser humano, como indivíduo e grupo, em relação ao seu contexto de vida. Portanto, a partir deste Projeto de Pesquisa, busca-se entender essas dimensões, considerando uma perspectiva pedagógica, na qual o ser humano torna-se sujeito consciente e liberta-se de imposições culturais e sociais de massificação que o colocam numa postura de mero receptor, consequentemente, de ideologias, como o globalismo. A percepção teórica soa simples em face dos conflitos e das lutas, no campo globalizado, em virtude dos processos de busca de uma identidade cultural. Barber (1997) descreve esse processo por meio de duas tendências opostas e concomitantes: uma homogeneização e um tribalismo, expresso entre os polos simbolizados “McWorld” e “Dschihad”. A homogeneização é uma forma de dominação econômica, explícita na massificação cultural, chamada pelo autor de uma “monocultura americana”. É articulada, sutilmente, por exemplo, pelas modas ditadas; e levada para as regiões mais afastadas por intermédio das redes de consumo; para as casas mais humildes, pela mídia televisiva. Segundo o autor, a diversidade de culturas nacionais está em processo de redução a um “parque temático homogêneo e global à la Disneyland” (BARBER , 1996, p. 4). Em contrapartida, o tribalismo é percebido como contrarreação a essa massificação uniformizada, explícito na formação de particularismos culturais. Em meio a inúmeras formas de expressão, essa tendência pode culminar 16 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional numa postura fechada e radicalizada perante outros grupos culturais. As suas referências culturais são vistas como absolutas e buscam a sua legitimação, às vezes, em fundamentos religiosos (fundamentalismo), idealizadas como melhores ante os demais. Outros autores confirmam que essas tendências podem ser observadas com mais expressividade no mundo atual mas enfatizam, também, que a globalização não está reduzida a elas. Talvez, seria mais correto entender tal processo como dois polos que exercem uma influência significativa à conjuntura das relações globais. Dessa forma, a dominação de uma cultura – no momento, a norte-americana – pode recorrer, na era da globalidade, a uma rede de divulgação e distribuição sempre mais ampla e diversificada para difundir os seus preceitos. É pertinente sublinhar que, nesse contexto, as expressões culturais são canais importantes para aprofundar suas influências de poder político na procura de um consentimento para a sua posição de primazia, já que transmitem, muitas vezes de forma sutil e despercebida, referências de valores ideológicos. A interligação entre poder político, econômico e cultural fica evidente, sobretudo, na análise da mídia, cujo controle, no Brasil, é concentrado nas mãos de algumas oligarquias. A busca do consenso ideológico é uma tentativa de homogeneizar culturalmente os povos, os indivíduos. É óbvio, no entanto, que a homogeneização não ocorre de uma forma absoluta por, principalmente, três razões: a) As estruturas da globalidade não alcançam todos da mesma maneira, o acesso à mídia ou aos bens de consumo cultural é restrito, tanto por questões materiais, quanto por interesses diversificados. b) As influências das culturas dominantes frequentemente não são adequadas às circunstâncias locais, sejam elas originadas em contextos políticos, econômicos ou sociais, em heranças históricas ou em condições geográficas em cujas adaptações as expressões culturais de cada região justamente se fundamentam. c) Indivíduos ou grupos formam a sua identidade entre adaptação e diferenciação; guardam, portanto, nesse processo, uma tendência de se revoltar emocionalmente contra tudo aquilo que lhe for imposto, com uma necessidade de libertação referente ao que é mainstream para delinear, de fato, os seus próprios caminhos. Pelas mesmas razões, o Dschihad, a radicalização em particularismos regionais com referenciais fundamentalistas, é uma reação extrema, que não pode ser generalizada. Observa-se que os formadores culturais, baseando-se em um determinado ponto, tendem a exercer da mesma maneira uma força de imposição cultural, o que provoca, assim, uma reação à reação. Diante disso, o mundo não pode ser dividido em adeptos de McDonalds e fundamentalistas. Volta-se à constatação de que as interconexões e as dinâ- 17 Universidade da Amazônia micas, logo, as formas de exercícios de poder e das reações, são múltiplas e complexas, em que há indícios, tendências e potenciais; mas não causalidades lineares ou estruturas estáticas. O que pode então ser identificado como elemento marcante no cenário global? 1. A globalização é formada por comunicações e relações múltiplas e complexas em constante processo de mudança. As causalidades e conseqüências de ações e reações formam uma rede de apresentação e compreensão difícil. 2. Condenações ou glorificações sumárias generalizantes da globalização refletem uma certa incapacidade de lidar com um cenário complexo. 3. O “globalismo”, a propagação ideológica de um mercado como único regulador das relações globais, encontra na “globalidade” as estruturas de interconexões tecnológicas e humanas, condições favoráveis para a sua dominação mundial. Reforça-se, nessa ideologia, a divisão entre o econômico e o social, e prevalece a visão de que a economia e o consumo de bens são isentos de uma responsabilidade social. 4. A globalização determina o cenário mundial, por conseguinte, dilui os limites dos espaços políticos e econômicos (CASTELLS, 2002), acelera as mudanças sociais e provoca um processo de heterogenização, no qual os indivíduos se fragmentam socialmente e encontram os seus referenciais em múltiplos sistemas, grupos e espaços (APPADUREI, 1990). 5. Paralelamente à formação de redes ilimitadas, favorece a idéia de uma “sociedade mundial” (STICHWEH, 2000), o local ganha uma importância de uma vivência concreta, necessária ao ser humano. 6. A dominação do mercado capitalista reforçou relações e estruturas de exploração de regiões e populações socialmente mais vulneráveis por aqueles que detêm o capital. A concentração de renda aumenta, mesmo com a maior produção de bens. 7. Do mesmo modo, a globalização provoca uma maior aproximação e articulação de pessoas, grupos e povos na busca de garantia de mais dignidade e justiça: discussão sobre os direitos humanos, cúpulas mundiais, ONU, Fórum Social Mundial, rede entre organizações não-governamentais. Sendo assim, toda a discussão sobre cultura está inserida nesse cenário global. Logo, deve ser contextualizada em relações complexas e múltiplas. Pesquisar e pensar expressões e relações culturais segue o esforço de entender melhor as interconexões humanas; apontar para conflitos implícitos e explícitos; elaborar formas para lidar com esses conflitos com o objetivo de participar pedagogicamente da construção do melhor mundo possível1. 1 18 Sugestões bibliográficas para a discussão pedagógica: referências nacionais – Paulo Freire, Moacir Gadotti; internacionais – Jacques Delours e Edgar Morim. ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional 1.2 COMO ENTENDER “CULTURA”? Nesse cenário de globalização, é necessário apresentar a conceituação de cultura. Em geral, quaisquer criações humanas podem ser definidas como “cultura”: criar, construir, projetar, se expressar ou comunicar, enfim, tudo aquilo em que o ser humano se distingue do animal, formando o seu mundo vital conforme a sua maneira. É válido alertar que o uso do conceito de “cultura” suscita, frequentemente, pressupostos subentendidos, como ao acoplar cultura aos mais considerados valores em uma determinada conjuntura histórica. Pode-se até considerar que, em diversas afirmações, “cultura” torna-se uma posse daqueles que se destacam em uma dada sociedade ou que se adequam a uma específica tradição: este ou aquele tem ou não tem cultura. Cultura também coincide com a percepção de civilização, às vezes, pensada mais como nação ou povo; outras vezes, como determinados comportamentos e valores considerados “civilizados” ou “cultos”. Já essas conotações na definição de cultura apontam para uma diferenciação significativa na compreensão, subentendendo-se “cultura” como formações nacional-institucionais, étnico-raciais ou comportamentalvalorativas. Elias (1977, p.3-23) problematiza tais conotações ao alertar que cultura e civilização são processos em constante mudança, sem permitir restrições preestabelecidas, como as fronteiras nacionais, por exemplo. Constata-se aqui que “cultura”, em todo caso, acompanha a criação humana: 1) em seu ambiente vital (geográfico, climático, estacional) numa tensão de adaptação, por um lado; e de transformação, pelo outro, e 2) em sua história (relações sociais e econômicas, tradições e normas) num constante processo de busca para a garantia do seu espaço de vida. Entender “Cultura” como processo e movimento se expressa na seguinte citacão de Baumann (1999, p.26): Cultura [...] não se pode entender como uma copiadora. Ela ocorre muito mais como um concerto, ou melhor, como uma “jam session” improvisada espontaneamente entre diferentes músicos. Ela existe somente durante a apresentação, ela não para nem se repete, sem mudar o seu sentido. A seguir, desenham-se alguns elementos básicos que identificam a dimensão da cultura na construção das relações humanas: 1. Sistema de orientação - formas explícitas de expressão, comportamentos, comunicações; - predisposição implícita de normas e valores, códigos subentendidos, referenciais morais, religiosas e ideais. 19 Universidade da Amazônia Na dimensão histórico-social, cultura não é apenas o ato de construção humana na atualidade, mas o produto de um processo socialmente e historicamente construído; ou seja, carrega em si o que caracteriza e une um grupo em formas de inter-relações humanas, desde os gestos comportamentais até os valores subentendidos na interpretação do dia-a-dia e do mundo (hermenêutica do cotidiano). Portanto, encontra-se o que foi gerado no processo histórico de criação como sistema de orientação normativo-social, religioso-ético. Culturas expressam também a diversidade de agrupamentos de pessoas em diferentes sistemas referenciais e formas de comunicação. No entanto, esses grupos culturais fluem e se comunicam entre si, não tendo fronteiras estáticas de uma para a outra. A percepção de um grupo cultural depende dos critérios de diferenciação e identificação. Pode-se considerar, por exemplo, a periferia como um grupo cultural por demonstrar referenciais e expressões comuns, o que não exclui que existam também outros grupos culturais dentro da periferia ou por ela perpassando. Bourdieu (1996) aborda adequadamente essa dinâmica de relações múltiplas entre grupos e referenciais (“habitus”) em sua concepção de campos sociais. Toda a complexidade do movimento de construção cultural fica evidente ao se considerar ainda as duas dimensões que acompanham os níveis acima descritos, com a devida distinção do que é explícito e expresso para fora daquilo que é implícito, subentendido e, muitas vezes, inconsciente. 2. Identificação subjetiva - sensações de segurança e pertence; - gostos e prioridades; - “jeito”: maneiras de ser pessoa, de estabelecer relações e de formar grupos / comunidades. Na dimensão individual, a cultura possibilita uma identificação subjetiva de cada pessoa, uma localização simbólica nas relações sociais difusas e complexas, algo que aponta para uma “identidade” cultural. A pessoa se liga a um determinado grupo como “seu” (pertence), assume as suas regras e formas de se relacionar, ao mesmo tempo em que se insere com o seu jeito na formação do grupo cultural. Cada um precisa que a identidade cultural se concretize num grupo social para ter um lócus de segurança que lhe possibilite agir socialmente. Quando encontra o seu ponto de partida para ser um ator social, desenvolve, então, a sua criação cultural. 3. Relação e comunicação social entre Eu e o Outro: - identificar, diferenciar, negar; - compreender, ignorar, rejeitar; - integrar, separar, dividir; 20 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional Portanto, na dimensão das relações interpessoais, a cultura estabelece formas e qualidades de se relacionar e de se comunicar com o outro, estabelece também o movimento de construir um projeto de sociedade em base do fato de expressões culturalmente diferenciadas. A identificação cultural ocorre na distinção de si mesmo de um “outro”, ou seja, a construção do eu cultural acontece em diferenciação do outro. Consequentemente, é um movimento que oferece diferentes possibilidades de relações e comunicações, desde a aproximação até a negação. Como processo de construção sócio-histórico, a cultura é um movimento ambíguo, que reflete as tendências tanto destrutivas como solidárias das relações humanas. Assim, pesquisar cultura é, para nós, o ponto de partida para compreender melhor os conflitos na atual conjuntura e os potenciais, para recriar as relações de forma mais respeitosa e digna. Nesse contexto, o olhar da pesquisa é necessariamente um olhar ético na perspectiva normativa de uma justiça global (BOURN, 2001; The Development Education Journal, 2000; Osler; Vincent, 2002, entre outros), no qual os pesquisadores, ao mesmo instante em que se colocam como atores culturais nessa mesma história em transformação que precisa ser direcionada; colocam-se também como pedagogos, que veem na educação uma forma de dialogar sobre caminhos mais adequados para relações respeitosas entre os seres humanos. 1.3 FORMAÇÃO DE IDENTIDADE Aprofunda-se aqui o olhar sobre a formação de identidade cultural com base em uma reflexão sobre identidade pessoal e social. Para tanto, é válido pontuar que identidade pessoal tem o seu sentido original oriundo da ideia de poder existir, ser e estar no mundo, coerente e adequado, que finda por corresponder a nossa personalidade, idêntica a ela. Em contrapartida, a sociedade marca e moldura as identidades que dela fazem parte. Falar sobre identidade, então, é tratar de questões a respeito da formação interna da personalidade individual e grupal – distinguindo os variados instantes e elementos inerentes a processo –, e, também, da identificação externa de alguém ou de um grupo em diferenciação a outros (pessoas e/ou grupos). Em ambas as dimensões, o contexto social é o referencial decisivo para a formação de identidade. Nele, as pessoas são qualificadas em diversas categorias, como: papéis, status, capital social, por meio do momento histórico; da tradição; da religião; das circunstâncias geográficas e condições sociais. O ser humano forma a sua identidade dentro e em relação às molduras externas; é, portanto, um produto desse contexto em seu comportamento, em suas prioridades, em suas opções, em seu pensamento e até em seu gosto. É tudo aquilo que aprende e sabe, mas também que acha certo e errado, como se orienta e como reage. 21 Universidade da Amazônia O ser humano, no entanto, não é apenas produto, mas também produtor, pois a influência do contexto não é consequência direta e necessária; a relação entre pessoa e seu ambiente de vida não é estática nem linear. Por isso, a formação de identidade pessoal trata da recepção interna dessas marcas externas por cada um. A pessoa é, sem dúvida, parte indissolúvel do seu contexto, e, ao mesmo tempo, parte criativa que modifica, constrói e produz as suas relações que compõe o seu ambiente social. Marx parte exatamente dessa bidimensionalidade da pessoa como ser histórico: produto e produtor. Contudo, ele avança na discussão, ao conceber um nível avaliativo desse processo de construção histórica das relações sociais, considerando a percepção de que a identidade é como um discurso que pretende dar sentido à realidade social. Portanto, sendo apenas um reflexo do contexto real, não precisa necessariamente corresponder de fato a ele. Assim, podem se formar identidades “alienadas”, produtos de ideologias, ou seja, discursos formulados sobre e não em concordância com a realidade. E, sem se aprofundar mais nessa discussão, se aceita aqui o desafio de que a formação de identidade não é algo mecânico, sempre coerente com a vivência real, mas algo que se insere num processo de (tentativas de) coerção por discursos e sistemas de orientação concorrentes, o que gera um campo de tensões e conflitos pelo poder. A identidade torna-se, em meio a esse campo de tensões, para cada pessoa, uma busca constante e crítica de encontrar uma coerência com o seu contexto, desmistificando os discursos ideológicos. Entende-se, numa primeira dimensão, a formação de identidade cultural como motor da criação humana. Em forma de percepção mais refinada, reflexão mais consciente ou sensação de coerência, a identidade evoca uma maior segurança de si e do seu lugar, e representa no ser humano, principalmente, uma tomada de posição, fazendo dele um ator social, em que a pessoa ou o grupo torna-se gradativamente sujeito consciente de ação nas relações sociais. Ressalta-se que é sujeito consciente não como resultado ao fim de um processo, mas como perspectiva de um processo em si, no qual a pessoa ou grupo busca pensar e agir em coerência consigo, ciente de seus princípios. Desse modo, a identidade cultural representa algo como um enraizamento, um conscientemente reflexivo e um pertence emocional em relação ao processo cultural de construção sócio-histórica no qual está inserida. Esperase, em vista disso, descrever essa dimensão de subjetivação como surgimento de uma predisposição criativa do ator social, com o entendimento de sensação que “alimenta” esse ator, com o fortalecimento de uma base de ação. Sem dúvida, a formação de identidade cultural é um processo de tensões, visto que a tomada de posição como sujeito, conforme apontado acima, sempre ocorre dentro de um conjunto de relações com “outros”, nas quais cada ator busca a sua auto-afirmação e a ampliação do seu domínio de ação. A construção social envolve sempre exercícios de poder entre diversos atores sociais, disputa- 22 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional dos por meio de ideologia e coerção. Nessa perspectiva, a análise sobre processos de formação cultural deve considerar os possíveis cenários de campos de conflito com diversos interesses, princípios e sistemas de orientações que favorecem uns e exploram outros, que desenvolvem uns ou inibem outros, que elevam uns, respeitam alguns e desvalorizam outros. Agrupamento e exclusão, pertence e sem-chão, acolhida e desrespeito, inclusão e dominação; todos são polos de um mesmo processo de busca, movimento e mudança. O olhar desta pesquisa é a compreensão das relações complexas nas quais jovens se agrupam, buscam e formam a sua identidade cultural, posicionando-se no seu contexto social como atores. O foco específico dirige-se ao conflito entre diversos sistemas de referências culturais nas quais são embutidas tensões sociais, ideologias e tradições. Pretende-se verificar, ao mesmo tempo, como o contexto global se reflete nas relações locais, quais os indícios de homogeneização e dominação cultural, por um lado, e de afirmação da diversidade cultural regional, pelo outro. A pesquisa é a tentativa de compreender os jovens nas relações cotidianas em sua complexidade para poder enriquecer a discussão teórica e a preparação prática de lideranças pedagógicas. 1.4 DEFINIÇÕES “INTERCULTURALIDADE” E “TRANSCULTURALIDADE” Conceitos têm que ajudar na percepção e compreensão das relações humanas existentes, a sua dinâmica e o seu movimento, a sua origem e a sua evolução. Portanto, essa aproximação dos conceitos da “inter-” e “transculturalidade” volta-se a sua relevância em redesenhar a realidade, lendo-as no horizonte das discussões teóricas. A dificuldade de limitar e identificar com clareza agrupamentos culturais, acima expostos, obriga-nos a conceber conceitos que reflitam a dinâmica da realidade. A constante e a problemática interligação entre grupos e expressões culturalmente diferentes chegou a tematizar o desafio da “interculturalidade”, com foco nas relações entre culturas, que deixam transparecer uma formação cultural relativamente homogênica e estável. A “interculturalidade”, por conseguinte, observa o encontro de identidades já mais definidas e tematiza desafios como: a) lidar com o diferente; b) respeitar o outro; c) traçar formas de convivência em base de princípios comuns; d) propor um processo de aprendizagem mútuo, sem discriminação e/ou dominação de uma ou outra cultura. Os estudos, as reflexões e as propostas têm uma relevância significativa, sobretudo em situações de migração de grupos culturais numéricos em sociedades com uma tradição cultural definida em séculos de história. A abor- 23 Universidade da Amazônia dagem intercultural abrange desde relações cotidianas, como bairro e escola, até estruturas de sociedades em mudança. A conceituação “transculturalidade” não pode ser concebida em contradição ao ponto de vista da “interculturalidade”, mas indica que a discussão deve ser ampliada e diferenciada com o surgimento de culturas híbridas em contextos de múltiplas influências, interconexões e misturas. “Trans” desenha o significado de um movimento que se estabelece entre algo identificável, porém, passa, ao mesmo tempo, acima/sobre esses pontos ou momentos, concebendo-os em outro estado e configuração. Sendo assim, nos múltiplos encontros entre pessoas de diferentes origens, nas influências constantes das mídias; as formações culturais não permanecem estáticas, cada uma em sua identidade, pois se transformam e se transfiguram mutuamente até o ponto que dificilmente se pode delimitar com clareza um determinado grupo cultural. A “transculturalidade” dirige o seu olhar para desafios como: a) as múltiplas influências como, por exemplo, da mídia, da propaganda ideológica, dos modismos, u.a. b) as biografias e as histórias de vida, configurando uma identidade pessoal como mistura de culturas, algo “acima” de culturas claramente identificáveis; c) surgimento de culturas híbridas em contextos de tensões sociais e conflito cultural e religioso; d) transformações de características culturais de uma região, de uma tradição e suas implicações na mudança e construção histórica do contexto social. Com base nessas digressões, decidiu-se focalizar, durante a pesquisa, agrupamentos juvenis formais e não-formais sob um olhar transcultural. Nesse sentido, entende-se o jovem a partir do pressuposto de que é próprio desse período do ciclo de desenvolvimento do ser humano, que ele esteja em busca de se afirmar como sujeito; logo, está mais propício a perceber, receber e “experimentar” a variedade das influências externas para encontrar o seu rumo de vida. De forma consciente ou inconsciente, explícita ou implícita, o jovem vive mais a sua autonomia de ser ele mesmo, entre uma certa libertação e revolta, contra tudo que foi dito e imposto anteriormente, e contra as atrações do novo que promete. O grupo, ora entendido como referencial maior nessa busca desenvolvida pelos jovens – isto é, nesse período do ciclo de desenvolvimento do ser humano –, não corresponde tanto aos sistemas éticos ou políticos; mas sim, freqüentemente, à própria vivência em grupo, na qual se estabelece o seu horizonte, as suas regras de conduta, as suas crenças e as suas perspectivas. Igualmente, o grupo, seja ele espontâneo ou não, representa um ar de propriedade juvenil e de independência em relação aos demais espaços (como, 24 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional a vivência em família ou na escola), do mesmo modo que oferece um círculo de proteção e força contra as tensões externas, o que afirma o grupo jovem enquanto próprio ator social nos campos sociais. Tudo isso permite que os agrupamentos de jovens se caracterizem como período e espaço privilegiado de formação de identidades culturais. Além da percepção das influências externas da mídia de massa, dos modismos e das padronizações sociais, um recorte específico da pesquisa em seu interesse pedagógico são as lideranças que surgem dentro do grupo ou que trabalham com o grupo jovem. Como se relacionam e orientam os jovens em meio de tensões externas e internas, em meio de revolta, questionamentos, buscas e atrações de modas? Como são aceitos, ao se compactuarem ou se impuserem em relação aos seus pares? Como se pode, então, descrever a identidade cultural das lideranças? E como elas lidam com os conflitos culturais, religiosos e sociais, nos quais se encontram inseridas?. 1.5 AS JUVENTUDES NA AMAZÔNIA A discussão apresentada acima não é nova nem restrita a um ou outro lugar. Mas os contextos, nos quais ocorrem a compreensão e a percepção dos jovens, são diferentes e, frequentemente, obrigam o repensar das teorias, de interpretações, análises e conclusões pedagógicas. Somente dessa forma a percepção dos pesquisadores consegue se inserir na multiplicidade e complexidade dos momentos e espaços da convivência global e local, bem como, pode se aproximar da dinâmica da realidade. O olhar para um local e sua especificidade capacita entender mais sobre o fenômeno em sua composição global, aprendendo o universal a partir das diferenciações e diversidades. Sendo assim, apresenta-se esta pesquisa para uma discussão em nível internacional sobre agrupamentos de jovens no contexto específico da Amazônia Oriental brasileira, sendo que nessa contextualização ampla encontram-se delineamentos e marcas importantes, tais como as: - - geográficas: clima tropical; predominância exuberante das matas e dos rios; distâncias e tempos enormes para os seres humanos; históricas: raiz indígena; colonialização e genocídio da população nativa; imposição de culturas europeias e, mais tarde, norte-americanas; migração de populações, principalmente do Nordeste brasileiro, mistura de etnias e; políticas: avanço da fronteira agrícola; exploração das riquezas; grandes projetos nacionais; interesse internacional em relação à importância geopolítica e à biodiversidade, água e floresta. 25 Universidade da Amazônia Ao refinar a percepção contextual da Amazônia brasileira, são percebidas diversas realidades ou universos que caracterizam atualmente essa ampla região. E, ao considerar que é exatamente essa diversidade que compõe um cenário de tensões e conflitos, e também de potencialidades e propriedades; situa-se a pesquisa em quatro universos, mas na linha de fronteira cultural entre eles. Dentro desses universos, selecionamos seis grupos de jovens, muito diferentes entre si, para ter uma visão dessa diversidade e, ao mesmo tempo, da sua composição como cenário conjugado. As características dos grupos com a sua dinâmica de formação de identidade cultural apresentam uma grande variedade, no entanto, cruzam-se como composição amazônica. Inicialmente, tenta-se perceber e entender os grupos em suas particularidades e, apenas num segundo momento, traçar um olhar conjugado e comparativo, com o máximo cuidado de restringir o potencial do quadro de diversidade. 26 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional 2 METODOLOGIA DO TRABALHO DE CAMPO 2.1 PESQUISA DE CAMPO O projeto de pesquisa em sua estrutura metodológica caracterizou-se em três fases: I) Fase pré-campo; II) Pesquisa de campo; III) Fase pós-campo. Na fase pré-campo, com a participação da equipe de pesquisa e professores convidados, foram realizados ciclos de estudos, seminários e mesas-redondas, com temáticas pertinentes ao desenvolvimento da pesquisa: cultura, identidade, democracia, juventude, religiosidade, diversidade cultural e definição da metodologia de pesquisa, assim como, o levantamento de dados secundários sobre os universos e grupos pesquisados. Já, na fase da pesquisa de campo, demarcada pela interação com os grupos, realizou-se a aplicação dos instrumentais e das técnicas de pesquisa: a observação e a realização de grupos focais. Por fim, na fase pós-campo, se procedeu à sistematização da análise dos dados levantados e à elaboração do relatório da pesquisa. A pesquisa de campo foi desenvolvida a partir de abordagem quantitativa e qualitativa, com enfoque na realidade cotidiana dos jovens. A investigação teve início em maio de 2003, quando foram realizados contatos preliminares com agrupamentos formais e informais de jovens, buscando apresentar a pesquisa e obter o consentimento desses grupos para a realização do estudo em questão. Salienta-se que este processo foi demorado em virtude das dificuldades de aceitação da pesquisa entre os grupos selecionados, como os urbanos étnicos (Comunidades Judaica e Libanesa) e os religiosos (Quadrangular), que acabaram não participando da pesquisa de campo; e também em razão de outras dificuldades, relacionadas às expectativas de alguns grupos no que diz respeito a algum tipo de benefício ou intervenção (Hip-hop ou Ribeirinho). A segunda etapa caracterizou-se pela interação com os grupos, a descrição e a caracterização dos universos por meio da utilização de um instrumento de coleta, no caso, um roteiro de observação contendo os seguintes tópicos: processo de construção histórica do grupo; perfil dos atores sociais; dinâmica de organização; convivência; caracterização da comunidade e, nela, locais de frequentação e de interação social estabelecida pelos jovens. 27 Universidade da Amazônia Desse modo, à medida do possível, optou-se por método etnográfico e observação participante, principalmente, porque a observação participante se configura como um instrumento importante, visto que, no ato da participação das atividades do grupo (tais como: reuniões e eventos culturais), realiza-se a devida coleta de dados e de informações válidas no subsídio da pesquisa e na obtenção de apoio de “indivíduos-chave” inseridos nos universos pesquisados. Vale ressaltar que durante essa fase, por se tratar de uma pesquisa de caráter etnográfico, foram realizados levantamentos quantitativos (formulários) e qualitativos (entrevistas e grupo focal) junto aos jovens e educadores, assim como o acompanhamento das atividades internas e externas dos grupos, a fim de construir o perfil e a dinâmica de cada grupo. A pesquisa trabalhou com uma amostra aleatória, no cômputo dos universos aplicou-se ao todo 134 (cento e trinta e quatro) formulários, com a presença dos pesquisadores (bolsistas e colaboradores) para a garantia do preenchimento correto e fidedigno das respostas. As perguntas foram construídas conforme temas (idade, sexo, escolaridade, raça, meios de comunicação, meios de transportes, entre outros) com o objetivo de se construir um perfil social do grupo. Obteve-se a análise desses dados a partir de ferramentas estatísticas. Foram realizadas 104 (cento e quatro) entrevistas, sendo 79 (setetenta e nove) com adolescentes e jovens, e 25 (vinte e cinco) com educadores, com base em um roteiro semi-estruturado com perguntas fechadas (idade, sexo, escolaridade) e perguntas abertas (percepções sobre religião, política, juventude). A sistematização dos dados coletados em campo deu-se a partir de três quadros comuns, previamente elaborados pela equipe do projeto, fundamentados nos seguintes tópicos: perfil social; vida cotidiana; relações familiares; religião e juventude; política e juventude; inserção no grupo; relações no grupo; conflitos no grupo; o grupo como processo educativo; relações de gênero no grupo; sonhos e perspectiva em relação ao futuro. Como parte integrante da pesquisa de campo, foram organizados grupos focais com jovens inseridos nos grupos pesquisados a fim de aprofundar alguns temas da pesquisa. A técnica foi escolhida em virtude de possibilitar um contato maior com os sujeitos da pesquisa, o que privilegia a interação entre os participantes em que cada um expõe os seus diferentes pontos de vista, contradições, divergências e consensos. Os temas do roteiro do grupo focal foram escolhidos, tomando por base questões chaves, já levantados durante as entrevistas, com o propósito de aprofundar as percepções dos adolescentes em relação a temas como: relacionamento familiar, momentos de lazer, juventude, política, religião, entre outros. Essa etapa foi realizada com o concurso da equipe de pesquisa (bolsistas e coordenadores). Após a fase de campo, procedeu-se à sistematização dos dados tratados quanti-qualitativamente, que deram origem assim ao presente trabalho. 28 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional 3 UNIVERSOS PESQUISADOS 3.1 UNIVERSO INDÍGENA 3.1.1 Grupo Indígena Anambé: Resistência Étnica e Identidade 3.1.1.1 Reserva Indígena Anambé: localização e história O Estado do Pará possui 39 reservas indígenas, de diferentes etnias, inclusive os índios não aldeados, que vivem nos diversos municípios próximos às aldeias. Os índios Anambé, etnia pertencente à família tupi-guarani, estão localizados na Reserva Indígena Anambé, em uma área de aproximadamente oito mil cento e cinquenta hectares (8.150 ha), no município de Moju, região do baixo Tocantins, no Estado do Pará. Estão sob a jurisdição da Fundação Nacional do Índio – FUNAI em sua Regional Marabá – 2ª DR. A área de habitação dos Anambé localiza-se no alto Rio Cairari, afluente do Rio Moju. Para se chegar à referida aldeia é necessário utilizar transporte rodoviário e fluvial, com aproximadamente 12 horas de viagem. O melhor acesso à aldeia é através do município de Mocajuba, cidade próxima à aldeia, o que ocasiona um maior vínculo dos índios com os municípios, assim como com os equipamentos sociais e instituições situadas no local. A atual população do grupo é de 133 pessoas (AZEVEDO, 2004). Uma das maiores desses últimos tempos, pois o referido grupo passou por períodos de depopulação considerável, chegando a ser dado como extinto (ARNAUD, 1948). Conforme relatório do Antropólogo Arnaud (1948), pesquisador do Museu Paraense Emílio Goeldi - MPEG, designado para realizar investigação sobre os índios localizados à margem do Rio Cairari, o grupo Anambé era conhecido como Turiwara. No período de sua primeira investigação, apenas identificou o grupo, observou o modo de vida, constatando que não se diferenciava da população regional. O antropólogo informa que devido ao difícil acesso à área, não foi possível maior identificação do grupo. Constatou também a depopulação do grupo, que na época somavam 32 pessoas; o extrativismo como forma de economia de subsistência, além de contato com os regionais. 29 Universidade da Amazônia Em 1968, o pesquisador retornou à área para realizar um levantamento etnográfico e avaliar a situação de contato desses índios com os regionais. Durante esse levantamento, observou considerável redução do grupo. Conforme informa a seguir: Somam agora 19 pessoas, sendo 11 homens (6 acima de 15 anos, 5 abaixo) e 8 mulheres (7 acima de 15 anos, e 1 abaixo). Dos indivíduos que havíamos registrado em nossa primeira viagem sobrevivem apenas 4 homens e 5 mulheres (ARNAUD, 1969, p. 2). Não é muito fácil sistematizar o histórico do grupo Anambé devido à ausência de informações mais concretas e até de memória do próprio grupo. Além disso, foram muitos os contatos com grupos de etnias diferenciadas, muitas vezes se misturando, convivendo no mesmo espaço físico. Fatos que levaram os antropólogos e agentes do extinto Serviço de Proteção ao Índio - S.P.I.2, a confundirem a identidade étnica. Nesse sentido, Arnaud (1969) situa historicamente o grupo Anambé e, por meio do seu relatório, foi possível esquematizar cronologicamente seus dados para melhor entender os diversos contatos e a forma como ocorreram no âmbito desse grupo indígena,pois, conforme relato do antropólogo, “as fontes históricas assinalam a presença, nos meados do século XIX, na região situada ao sul do Estado do Pará [...], de grupos Tupi sob a denominação de Turiwára, Amanajé, Tembé e Anambé” (ARNAUD, 1969). Arnaud (1969) ainda informa que os referidos índios das quatro etnias migraram do Estado do Maranhão para o Pará, sendo que os Turiwara estavam sob o comando de um regatão3, que os utilizava para trabalho extrativista e de caça. Os Anambé habitavam as cabeceiras do rio Pacajá e Grande do Portel. Arnaud (1969) descreve que, em 1852, surgiu no distrito de Baião: um tuchaua acompanhado de outros índios Anambé pedindo proteção e mostrando-se dispostos a aldear-se. Suponha-se ser essa tribu ser de seissentas pessoas (ARNAUD, 1969, p. 8). Outras informações relevantes constam no relatório: a instalação, em 1817, da Missão Nossa Senhora de Assunção que reuniu índios Tembé e Turiwara (no entanto, não há maiores informações dos objetivos e procedimentos 2 3 30 O Serviço de Proteção ao Índio – SPI foi criado em 20 de julho de 1910 com o objetivo de solucionar os conflitos de posse da terra entre populações tribais e integrantes das frentes pioneiras de ocupação. Foi extinto em 1967, dando lugar a atual Fundação Nacional do Índio FUNAI. Regatão – comerciante que percorre de barco as localidades situadas às margens dos rios para realizar negócios com os moradores, relacionados à venda, compra ou troca de produtos diversos. ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional dessa frente missionária); e a redução do grupo a 46 pessoas, em 1874, sendo que, em 1875, morreram 34 de varíola, e os demais sobreviventes tiveram de juntar-se a outro grupo indígena do Tocantins. Nesse período de redução, Nimuendaju (apud Arnaud, 1969, p. 8) os dá como extintos, mas possivelmente estavam habitando outra aldeia, junto aos índios Tembé. E, em 1943, Nimuendaju visitou os índios do Cairari, identificouos como Amanayé e que os próprios se chamavam de Turiwara. No ano de 1972 novamente ocorreu a instalação de missionários na área, a Missão Santa Fidélis que reunia índios Amanayé, pois devido às rivalidades com outros grupos indígenas não poderiam ficar juntos dos Anambé. Os Anambé demonstravam pacificidade e mantinham contato com a população das cidades próximas, dentre elas Baião e Mocajuba. No referido relatório, Arnaud (1969) já reconhece os Amanayé por Anambé ao explicar que foi dessa forma que os índios se identificaram, mas que devido a pouca e complicada história geográfica do grupo, não pode ter certeza desse grupo remanescente. Confirma que em 1969 encontrou um grupo muito pequeno e motiva o desgaste demográfico e a evasão dos índios em muito ocasionada por casamentos e adoção de crianças pelos moradores de Mocajuba. Isso permitiu ao pesquisador concluir que o contato com os regionais foi permanente e definitivo, com interferência no modo de vida dos Anambé, o que findou por refletir na identidade cultural dessa etnia indígena. 3.1.1.2 Influências Regionais Os Anambé receberam influência de vários grupos e participaram dos momentos de expansão territorial e exploração de recursos naturais na área do Baixo Tocantins. Os índios eram utilizados como mão-de-obra nos processos de extrativismo, a exemplo dos castanhais existentes na região. A área do baixo Tocantins foi utilizada, e ainda é, para o escoamento de madeiras nobres. Em seu relatório, Arnaud (1969) informa que os índios eram utilizados nessa atividade como guia da floresta e que os patrões comandavam as ações dos índios, informando no que poderiam trabalhar. Quando detectados por Arnaud (1969), os Anambé estavam misturados a outras culturas, não existiam mais os rituais culturais nem adornos corpóreos. Inclusive, na ocasião, o Pajé Yapã Anambé negou para o pesquisador que exercia essa função no grupo. Talvez motivado pelo contato com a igreja católica e com os missionários existentes na região, que exerciam grande poder sobre os índios, conforme a História. Percebe-se, portanto, intensas influências sobre a cultura indígena, que findou por ocasionar descaso e vergonha por parte dos índios e fez com que eles negassem a si mesmos, como explicita Merã “[...] nós não fala mais a gíria do índio. Porque tinha vergonha. Os branco dizia que parecia papagaio’’ (AZEVEDO, 2004). 31 Universidade da Amazônia O fato de os padres conduzirem os índios para batizá-los na igreja católica, comprovado pela análise dos índios constados no Livro de Registro de Nascimento da FUNAI, confirma claramente esta influência. Durante o período de 1920 a 1930, predominavam nomes indígenas; os registrados nos anos de 1950 a 1960 apresentam alguns nomes de não-índios, como Maria e José (vários); já nos registros realizados no intervalo de 1970 a 1990 são predominantes os nomes de não-índios, inclusive nomes bíblicos, a exemplo de Raabe. Todavia, a partir de 1999, observa-se que o grupo passou a nomear os filhos novamente com nomes indígenas, geralmente com significado de frutas e plantas regionais, como Pequiã (Piquiá) Anambé. Conforme informação do líder Pedro Anambé, esse movimento passou a acontecer por influência de funcionários, a exemplo da auxiliar de enfermagem, que trabalhava na área e orientava os índios a manterem sua cultura. Essas breves informações dos variados contatos que os Anambé tiveram com outros grupos conferem que foram incididas modificações no modo de vida dos índios e a considerável depopulação do grupo. É possível fazer uma retrospectiva dos fatores que determinaram a atual conjuntura do referido grupo, pois: I) conviveram com diversas etnias indígenas, entre essas, índios antropófagos; II) sofreram contaminação de doenças virais na tribo o que levou à morte numerosos índios; III) os conflitos com posseiros e madeireiros foram constantes e também levaram à morte muitos índios; IV) a ação dos missionários nas várias tentativas de conversão religiosa: foram realizados casamentos com os regionais, que os levaram, muitas vezes, a morar fora da aldeia. Em 1984, houve a demarcação da Reserva Indígena Anambé pela equipe da 2ª DR/FUNAI, homologada em 29 de outubro de 1991, por meio do Decreto nº 304, publicado no Diário Oficial da União – DOU, datado de 26 de dezembro de 1991. 32 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional FIGURA 1: Mapa da Reserva Indígena Anambé Fonte: Povos Indígenas do Brasil – 1985. Antes da efetivação da demarcação da reserva, a FUNAI trabalhou no sentido de integrar os índios na aldeia, buscando-os em áreas adjacentes e cidades vizinhas, onde estavam morando, para efetivar medidas de assistência direcionadas ao grupo. O Grupo Anambé possui resquícios de fatores históricos que instabilizaram sua cultura abruptamente. Seus valores, costumes e tradições foram perdidos, e restaram apenas os índios mais antigos como referência da etnia e da memória do grupo. Os vários contatos e tentativas de mudanças de sua área, assim como a convivência com os caboclos das cidades próximas à aldeia, fizeram com que esse grupo sofresse com diversas consequências ocasionadas por guerras, doenças e invasões de suas terras, conforme explicitado anteriormente. 33 Universidade da Amazônia Atualmente, os Anambé constituem-se em 133 pessoas, vivendo às margens do Cairari em uma área limitada para suas condições de sobrevivência, pois o rio não é piscoso e a caça é rara. Não falam a sua língua originária; não realizam rituais religiosos ou festejos de acordo com sua cultura. Apresentam considerável nível de aculturação, fato que ainda está em processo devido ao fato de ainda viverem em seu habitat natural, suas casas ainda serem construídas em palha com chão elevado, dentro da aldeia, e pela constante relação com a terra por intermédio da agricultura. A terra para índio é um dos referenciais de identidade. Suas condições objetivas ainda demonstram suas características indígenas, porém as subjetivas parecem adormecidas. Urge a necessidade de reação a este processo de descaracterização, caso contrário, da identidade indígena Anambé restarão apenas os nomes ou sobrenomes. Mesmo porque, apesar da intensa interação cultural, o grupo Anambé demonstra resistência diante da diversidade e das influências culturais quando busca manter a sua forma de viver, demonstrada historicamente, em especial, pela luta constante em permanecer na sua área, fato que significa a ocupação do território e pertencimento. 3.1.1.3 Os Anambé hoje: interagindo com o outro Observa-se que atualmente os Anambé possuem o modo de vida semelhante aos ribeirinhos, pois perderam a maioria dos elementos culturais indígenas, internos e externos, como crenças, rituais, adornos e pinturas corpóreas. Os não-índios são aceitos com facilidade no grupo por meio dos casamentos e em situações de articulação política e de assistência ao grupo. Em relação à religião, o catolicismo ainda está presente pelo batismo. O grupo mantém contato também com uma comunidade pentecostal, pois existe uma vila evangélica próxima à aldeia, localizada às margens do Rio Cairari, que alguns índios frequentam, com pouca assiduidade. O xamanismo deixou de existir desde a morte do índio Yapã Anambé, pajé do grupo, mas, apesar desse fato, ainda consultam um umbandista4 da cidade em casos de doenças. As casas são construídas em tábuas de madeira e palha, chão elevado, de poucos cômodos. As coberturas, na maioria, são de cavaco e palha, poucas em telhas de barro, conforme se observa na figura a seguir: 4 34 Umbandista – indivíduo pertencente à Umbanda, religião sincrética que integra os cultos afro-brasileiros, praticada em terreiros, através de pai ou mãe-de-santo que incorporam entidades místicas e realizam ações de aconselhamento e cura de doenças do corpo e do espírito. ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional FIGURA 2: Residência típica Anambé Fonte: Registro de campo/ 2004. A alimentação dos Anambé é proveniente da colheita de frutos, da caça, da pesca e de produtos adquiridos em Mocajuba, cidade próxima à aldeia, que para lá se dirigem quando há comercialização da produção de farinha de mandioca, na sede de Mocajuba. Fora isso, a aquisição de produtos alimentícios e de uso pessoal é realizada por meio de vendedores ambulantes, que possuem permissão para adentrar a reserva indígena, duas vezes por semana. O trabalho na aldeia configura-se principalmente com base na agricultura, como plantação/colheita com o beneficiamento da mandioca (Manihot esculenta), além do milho (Zea mays), do arroz (Oryza sativa) e da banana (Musa paradisiaca L.), em menor escala. Essa produção é comercializada na cidade de Mocajuba. A renda oriunda da comercialização é dividida entre as famílias que participaram das etapas da produção, inclusive crianças e adolescentes. A casa de farinha, local onde as famílias processam a mandioca, possui um forno grande para torrar a farinha, além de outros instrumentos utilizados nessa produção. Trata-se de um espaço utilizado por todos. Em horários diferenciados, as famílias levam a produção de sua roça para realizar o processamento e torragem. Observa-se ainda que alguns índios possuem vínculos trabalhistas com as instituições que os atendem, como a Fundação Nacional de Saúde - FUNASA 35 Universidade da Amazônia e Secretaria Municipal de Educação de Moju, atuando como agentes de saúde indígena, ajudantes de obras e professores. 3.1.1.4 Equipamentos Comunitários e Vínculos Institucionais A aldeia possui uma escola, com administração da Secretaria Municipal de Educação do Município de Moju. Edificada em alvenaria, contendo duas salas de aula, cozinha, pátio e banheiros, possui três professores, dentre eles, o índio Raimundo Anambé, que ensina a língua tupi. Os demais assumem o programa do Ministério da Educação – MEC referente ao ensino fundamental (1ª e 2ª ciclos). Existe também uma enfermaria e uma farmácia que funcionam sob o gerenciamento da FUNASA. Nesse posto é realizado o atendimento de saúde por enfermeiros, técnicos de enfermagem e odontólogos. A FUNASA mantém na aldeia uma lancha e um automóvel para locomoção de funcionários e da comunidade Anambé. O motorista é um índio do Grupo Assurini. O Posto de Serviço da Fundação Nacional do Índio - FUNAI possui equipamento de radiofonia para comunicação com diversas aldeias e com a Administração Regional localizada no município de Marabá. Conta com um chefe de posto, morador da aldeia, que possui a atribuição de fiscalizar e mediar ações direcionadas ao grupo, assim como viabilizar as necessidades dos índios junto à FUNAI e demais órgãos governamentais e não-governamentais, com os quais possuem vínculos, além da constante proteção da terra indígena. No momento, está em implantação na aldeia o terminal do Sistema de Proteção da Amazônia - SIPAM, sob o comando da Aeronáutica, contendo os seguintes equipamentos: um telefone analógico; uma antena VSAT; um painel solar e baterias e um IDU (Indoor Unit). O objetivo desses equipamentos é manter comunicação e vigilância. Ressalta-se que telefone já está em funcionamento. Os sistemas de comunicação e algumas políticas públicas implementadas na aldeia proporcionam o contato constante com o diferente. Isso traz ao grupo Anambé inovações e também reflexões sobre o modo de vida e perspectivas para a juventude, num horizonte de possibilidades de melhoria para o grupo. Sendo assim, estabelecem-se motivações em relação à educação e à continuidade dos estudos para que os próprios índios assumam futuramente os postos de serviços implantados na aldeia. 3.1.1.5 Adolescentes e Jovens Anambé: cultura e perspectivas Conforme o Estatuto das Sociedades Indígenas (Lei nº 2.057/91), o índio é “o indivíduo que se considera como pertencente a uma sociedade ou comunidade indígena, e é por seus membros reconhecido como tal”. Entende-se então que essa identidade está assegurada no sentido de pertencer, e de participar 36 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional dentro de um contexto histórico de sociedades pré-colombianas. Profissionais da área da educação apontam a escola como meio de reconstrução cultural de alguns grupos com o subsídio de que: A história dos povos indígenas latino-americano é a história da luta pela terra. Esta luta lhes permitirá a valorização da sua língua e da sua cultura, valorização que dará origem a uma nova luta, a luta por educação, por uma educação na própria língua e que ensine aspecto da sua cultura. Neste sentido, a manutenção defesa da identidade de um povo passa pelo respeito à ocupação da terra [...] (PAREDES, 1996, p. 14). Caracterizar as fases do desenvolvimento humano nas sociedades indígenas exige uma leitura do significado das aprendizagens ocorridas nessas etapas, e não, necessariamente, pela idade. Adolescentes e jovens são identificados de forma diferenciada, considerando a cultura de cada grupo. É notório entre os índios o compromisso das famílias para com as crianças, adolescentes e jovens. O respaldo cultural é significativo para a identidade étnico de um grupo. Os referencias culturais têm o significado de proteção, conforme proferiu Loureiro (2003) no III Congresso Nacional de Etnopsiquiatria em Macapá, no qual apontou que a cultura representa o espelho da identidade. Conhecer o cotidiano da aldeia Anambé, observado por intermédio das crianças e adolescentes, proporcionou o olhar sobre sua forma de viver, e se pode verificar as relações existentes diante da dinâmica do dia-a-dia da aldeia, uma vez que para perceber as relações sociais existentes em um grupo indígena, assim como em qualquer outro grupo, torna-se necessário conviver, estar presente, pois, conforme Faleiros (2000), no cotidiano estão: [...] impregnadas de religião, valência e relevâncias grupais, que configuram as visões de mundo presentes na prática social. Trabalhar esse senso comum, reconstruir as hierarquias e classificações desse terreno onde os homens se movimentam e adquirem consciência de sua posição é desafio do assistente social (FALEIROS, 2000, p. 103). A escola dinamiza o dia, as crianças e adolescentes juntam-se próximo à casa da professora para acompanhá-la até o prédio. As que estudam no período da tarde ficam em casa, brincando, enquanto os adolescentes cuidam dos irmãos menores, da higiene da casa e do preparo do alimento. Na Reserva Indígena Anambé, o rio é usado para higiene em atividades como lavagem de roupas e louças. Essa tarefa é realizada por adolescentes do sexo feminino. O banho para higiene corporal acontece no final da tarde, mui- 37 Universidade da Amazônia tas vezes administrado pelas mães. Todavia, a ausência de tratamento da água do rio para consumo em alimentos e para a bebida está ocasionando um alto índice de verminose entre os índios, segundo a auxiliar de enfermagem da FUNASA. A figura abaixo demonstra a utilização do rio entre os Anambé: Normalmente, os adolescentes e jovens do sexo masculino ajudam os pais na produção da mandioca, em todas as etapas, seja acompanhando, fazendo capina, colheita, lavagem no rio até o processo de torragem da farinha. FIGURA 3: O rio como espaço de lazer e higienização Fonte: Registro de campo/ 2004 Para nossa apreensão dessa realidade, fica a característica própria do povo indígena, baseado na relação com a natureza, respeito com o outro, solidariedade, companheirismo. O grupo Anambé apresenta tais relações de convivência, configurada por meio de seu cotidiano. 3.1.2 Visões de Mundo e de Futuro: o olhar sobre o grupo pesquisado Foram identificados na aldeia vinte e nove jovens e adolescentes, na faixa etária de 12 anos incompletos a 20 anos. Foram realizadas entrevistas com quatorze deles, pois quatro recusaram-se e onze estavam distantes do centro da aldeia. Explicitar-se-ão os resultados da análise dos dados/entrevistas realizadas com os adolescentes e jovens, índios, com registro de nascimento na aldeia. A maioria dos entrevistados é do sexo feminino, na faixa etária de 12 a 19 anos, cursando o ensino fundamental, na escola da aldeia. 38 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional 3.1.2.1 Relacionamento com a família A família representa alicerce, segurança, bem-estar. Os entrevistados foram unânimes em dizer que não possuem conflitos familiares significativos que venham a interferir na sua relação familiar. Inclusive o conceito de felicidade, citado pela maioria dos jovens, perpassa pela boa relação familiar “Felicidade é ficar perto da família” (VIDA, 2004) e/ou “Felicidade – quando o pai e a mãe tá do lado da gente, quando tem brincadeira e quando a irmã da gente é pequena [...]” (SOL, 2004). O referencial de família é significativo, pautado na proteção e nos princípios do grupo. A convivência familiar demonstra pertencimento, e observouse, por meio das falas dos entrevistados, a apreensão da educação repassada pelos pais, assim como no sentido de vida deles mesmos. 3.1.2.2 Cotidiano e preferências Por conviverem no mesmo espaço geográfico diariamente, esses jovens possuem praticamente a mesma dinâmica cotidiana: estudam, trabalham na produção de mandioca e brincam no rio e no terreiro. As adolescentes que possuem filhos cuidam da casa e das crianças, enquanto os seus parceiros trabalham na roça com os demais familiares. “Estudo, cuido da casa, às vezes brinco com meus irmãos no rio e converso com parentes” (ESTRELA, 2004) e/ou “trabalho na roça, cuido dos filhos, da casa e estudo” (LUA, 2004). Assim, identifica-se a divisão de tarefas entre os Anambé, citada acima, pois todos são envolvidos na dinâmica da produção familiar e possuem ganhos financeiros com a venda da farinha de mandioca, inclusive os adolescentes: “Estudo, trabalho na roça e brinco em baixo da mangueira” (ESPERANÇA, 2004). O processo de socialização é latente no grupo, ao acompanhar os adultos e participar de todos os momentos e acontecimentos da comunidade, isto é, no lazer, na produção familiar e comunitária, a socialização do adolescente passa por um momento de educação informal: “[…] aprendo com o grupo fico espiando as lideranças nas reuniões da aldeia” (VIDA, 2004). Por meio da convivência no grupo, o adolescente adquire conhecimento, informações e preparação para enfrentar a vida futura com autonomia e segurança, além do incentivo por parte das lideranças em demonstrar aos jovens as formas de lidar com as situações cotidianas da aldeia, como de produção e/ou de economia, de família, de política, e de lidar com outros grupos com os quais mantém relacionamentos. No que diz respeito ao lazer, os jovens foram unânimes em citar o rio. As brincadeiras são realizadas após a aula e ao final da tarde. Além do rio, citaram também as constantes visitas às casas dos familiares e amigos no final de semana ou quando não estão ocupados com alguma atividade na comunidade. 39 Universidade da Amazônia A televisão é o meio de comunicação mais utilizado, mesmo tendo apenas uma na aldeia. Todos se reúnem para assistir a novelas, a jogos de futebol e a jornal: “[…] gosto das novela, vejo todo dia” (LUA, 2004). O rádio é mais acessível, visto que a maioria das casas o possui: “[…] gosto da rádio clube, do Coronel Virgolino” (SOL, 2004). Gostam das músicas de todos os tipos, alguns gostam de dançar o estilo brega. Os alimentos mais degustados pelo grupo são as carnes de caça, a exemplo da carne de veado, preferida pela maioria; de preguiça; de tatu; de paca; peixe e tracajá; além da carne bovina e galináceos. O contato com o outro se configura também pela inserção de diversas culturas por intermédio da mídia, transformando os referencias do grupo, inserindo-os no global por meio das vivências refletidas no meio de comunicação. Apesar desse fato, não se perceberam modificações aparentes no cotidiano dos entrevistados. Isso pode ser devido ao fato de viverem distante da cidade e da pouca convivência com outros grupos. 3.1.2.3 Religião Percebe-se que não existe, entre os jovens, a concepção do significado de religião, pois 80% informaram não possuir religião e outros 13% se autodeclaram evangélicos. Vale apontar que apesar de alguns serem batizados na igreja católica não a frequentam. Algumas falas, como: “[…] não sei, sou batizado na igreja católica” (CÉU, 2004) e/ou “[…] vou para a igreja na Vila Erlim, gosto da igreja porque o pastor fica cantando” (ALEGRIA, 2004), retratam que não existe, por parte dos entrevistados, um conceito formado sobre religião. A relação com as igrejas católica e evangélica é demonstrada de duas formas: com a primeira, pelo batizado, e limita-se a este ato; com a segunda, por meio da participação nos cultos que são realizados na Vila Erlim, localidade próxima à aldeia. Percebe-se a existência de um sistema de defesa do grupo em relação à aceitação de grupos religiosos dentro da aldeia, reflexo dos contatos conflituosos que ocorreram com os missionários das igrejas católicas e pentecostais; uma vez que na história do grupo, existem momentos de reação contra a igreja evangélica que pretendia edificar um prédio na aldeia, mas, naquele instante, não houve a aceitação por parte do grupo. 3.1.2.4 Política Em relação à política, a maioria dos entrevistados se referiu ao ato de votar: “[…] votar para prefeito de Mocajuba” (LUA, 2004) e/ou, “Votar para presidente” (ESTRELA, 2004), e ao fato de que política “[…] serve para ajudar as pessoas” (TERRA, 2004). Nesse sentido, entende-se que suas concepções sobre 40 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional política são restritas à gestão municipal, principalmente na figura de seu representante. Existe o significado de assistencialismo na fala “[…] serve para ajudar as pessoas” (TERRA, 2004), não concebendo a noção de direitos sociais e políticos como cidadãos. A condição de tutelado reflete até hoje nos grupos indígenas, sempre houve quem mediasse em seus interesses políticos, mesmo sendo lutadores convictos por seus direitos. A escola na aldeia representa a emancipação desses grupos. A educação representa um veículo para adquirir conhecimento e cidadania. Observa-se que esse movimento está em construção dentro da aldeia Anambé, e os entrevistados são inseridos nesse processo de acordo com o seu espaço e tempo, respeitando seus limites e singularidades. 3.1.2.5 Juventude No que diz respeito ao conceito de juventude, os entrevistados fizeram referência à idade e ao processo da maternidade e/ou paternidade, ou seja, a constituição de família. Respostas, como: “[…] ser novo na idade [...]” (SOL, 2004), ou “[…] quando não tem mulher e filho […]” (ESTRELA, 2004) e “[…] ter idade de 15, 16 anos, até 20 anos” (LUA, 2004), retratam a singularidade do grupo indígena, em que a idade não tem o significado de limites para definir a criança e o adolescente, o adulto e o velho. Sabe-se que existe diferença sobre essa concepção na área indígena. O conceito de juventude, adolescência, refere-se às fases de transição de papéis dentro do grupo: assumir responsabilidades com o sustento da família e constituir uma. Esses jovens desde criança são preparados para tal fase. Portanto, a maternidade e paternidade ocorrem geralmente a partir de 13 anos de idade. 3.1.2.6 Relações de gênero A percepção de diferenças entre gêneros perpassa pelas tarefas domésticas e comunitárias, ou seja, pelos papéis exercidos dentro da comunidade. As meninas fizeram a observação de que os meninos são mais liberados para sair de casa e andar pela aldeia, pois: “[…] as meninas cuidam da casa e os meninos trabalham na roça” (TERRA, 2004), ou “[…] as meninas são tratadas diferentes dos homens, no banho as mãe separa, não gosta de misturar” (ALEGRIA, 2004). A diferenciação entre gêneros é vista a partir das ações comuns aos homens e às mulheres dentro do grupo. Entretanto, percebe-se, por intermédio das falas das meninas, a necessidade de participar mais, de ter liberdade para sair. A construção dos sonhos e perspectivas passa a ser distante e muitas vezes imobilizada após a maternidade. 41 Universidade da Amazônia 3.1.2.7 Conflitos no grupo As situações de conflito no grupo são intercedidas pelas lideranças por meio de reunião na comunidade. Os fatos mais notórios entre os entrevistados são os causados em virtude de uso de bebida alcoólica na aldeia. Esses fatos foram descritos por todos os jovens e ficou evidente a não aceitação de situações como estas, conforme as suas falas: “[…] tem conflito quando ficam porre e se atiram” (TERRA, 2004), ou “o negativo, quanto tem intriga na comunidade por causa da bebida” (ESTRELA, 2004). Outros conflitos ocorridos são de ordem política, seja devido à inserção de profissionais na área e/ou situações de projeções de políticas sociais. O cacique e as demais lideranças resolvem-nos em reunião com a comunidade e/ ou conversam entre si. Percebe-se a constante preocupação entre os jovens em vivenciar a coesão do grupo em todos os momentos. Mantêm-se a expectativa e a confiança no diálogo entre as lideranças e comunidade para cultivar a compreensão e decisão diante de situações conflituosas que surgem na aldeia. 3.1.2.8 Sonhos e perspectivas em relação ao futuro A escola representa o aprendizado da leitura e da escrita para os entrevistados, porém eles têm a noção de que para alcançar objetivos profissionais precisam continuar os estudos fora da aldeia. Isso é considerado um grande desafio para os jovens. Os profissionais que trabalham na aldeia são referências para os jovens e adolescentes, assim como as lideranças do grupo: “[…] quero saber aplicar injeção [...], daqui a cinco anos quero fazer um roçado para fazer farinha” (CÉU, 2004), ou “[…] ser professora ou enfermeira [...] aprender a educar e aplicar injeção, preciso estudar mais, pensar em estar perto de ser professora” (VIDA, 2004). Os jovens retratam esse quadro quando falam de suas aspirações profissionais, como ser enfermeira e professora. Pensam em estudar, fazer cursos e ao mesmo tempo almejam ter um roçado, constituir família e morar na aldeia, conforme mencionado acima. Os jovens e adolescentes Anambé convivem na aldeia e absorvem as diversas informações sobre outras culturas. A educação formal e a informal contribuem para a ampliação da leitura sobre o outro e revelam necessidade de com ele conviver, o que gera a possibilidade de aprendizados e a criação de um sistema de defesa de sua identidade étnica. 42 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional 3.1.3 O Pensar e Agir dos Educadores na Aldeia dos Anambé Foram entrevistados nove educadores, sendo que dois não desenvolvem atualmente atividades na aldeia. A faixa etária dos entrevistados varia de 30 a 50 anos. Oriundos de diferentes cidades do Estado do Pará a exemplo de Tucuruí, Marabá, Belém, Santarém e Mocajuba. Além de três índios Anambé, nascidos na aldeia. Em relação ao grau de escolaridade dos educadores, aponta-se que é predominante o ensino médio, com formações diversificadas, condizentes com as áreas de ciências biológicas e humanas. A professora de nível superior é graduada em Letras e Artes. Os educadores índios possuem o nível fundamental incompleto e estudam na escola da aldeia. Todos informaram que possuem boa relação familiar. As dificuldades, particularmente em relação aos indígenas, referem-se à questão financeira e à falta de alimentação para os filhos. Por conviverem no mesmo espaço dos Anambé, os atrativos são similares como: o rio, o campo de futebol, conversa com colegas e com os índios nos postos de trabalho ou sob a mangueira à margem do rio. Diariamente e em horários livres frequentam esses espaços. A aldeia propicia esse movimento pela proximidade entre os espaços de lazer, os postos de serviços e as residências dos Anambé. As religiões católica e evangélica foram as referidas pelos entrevistados. Todavia, os educadores indígenas, apesar de terem se autodeclarado católicos, informaram frequentar a igreja evangélica. Sobre o significado de religião, apresentaram conceitos como: “[...] apoio, confirmação da infalibilidade do ser humano, portanto precisamos da religião” (EDUCADOR A, 2004) e “[...] momento de integração com Deus” (EDUCADOR B, 2004), ou “[...] a existência de Deus como ser supremo e criador” (EDUCADOR C, 2004). As lideranças Anambé concebem religião da seguinte forma “[...] conhecer como chegar a Deus” (EDUCADOR B, 2004) ou “[...] explica o bem e o mal” (EDUCADOR C, 2004). Sobre política, as informações são sobre política partidária e políticas públicas. Um dos entrevistados possui filiação política ao Partido da Social Democracia Brasileira – PSDB e os demais não têm relação partidária. Conceitualmente, entendem política como: o “espaço de discussão sobre problemas da sociedade” (EDUCADOR A, 2004) e uma maneira de “[...] brigar pela vaga de administrar o Município, País ou Estado. Lutar pelo direito do ser humano” (EDUCADOR C, 2004). Dessa forma, percebe-se a amplitude do conhecimento sobre a área política diante de uma visão ampliada de gestão e cidadania. Os educadores pertencentes à instituição de assistência possuem conhecimento da história dos Anambé por meio de livros e de informações de alguns índios em momentos de conversas, visto que estão a menos de dois anos trabalhando na aldeia. Mas, mesmo durante esse período, percebem alterações devido as suas intervenções profissionais no grupo. 43 Universidade da Amazônia Os educadores relatam ainda que, por meio de cursos e projetos novos nas áreas de educação, de saúde, e de produção, sendo esse o fator motivador para os Anambé no sentido de buscar novos rumos para a aldeia, o contato com outras instituições do governo está proporcionando melhorias de qualidade de vida. Ainda percebem que falta maior incentivo por parte dos índios no aspecto geral, mas entendem que esse processo obedece à singularidade do povo e de sua dinâmica social. Em relação aos conflitos, os entrevistados observam que eles ocorrem em virtude da diferenciação de concepção sobre o patrimônio e bens, tanto que os percebidos com maior frequência ocorrem nas relações matrimoniais entre índios e não-índios, mas alegam os entrevistados que esses conflitos são logo resolvidos por meio de reuniões e conversas entre o cacique, as lideranças e a comunidade. A aceitação do outro dentro do grupo perpassa pelos objetivos desses, pois devem atender ao princípio de melhoria para esse outro; caso contrário ele é afastado da aldeia, após decisão das lideranças e da comunidade. Os entrevistados objetivam realizar atividades com o intuito de contribuir no processo de melhoria do grupo, no entanto, alguns sentem dificuldades devido ao pouco tempo livre na aldeia e ao acesso a meios de comunicação para viabilizar novas experiências e inserção social. Os aspectos negativos observados pelos entrevistados referem-se ao processo de interação cultural, o que desencadeia o desinteresse em buscar a história e a cultura do povo Anambé. E para os professores, esse fato apresentase como um grande desafio, principalmente porque poucos índios ainda têm a memória dos cantos, das danças e dos artesanatos dos Anambé. Os entrevistados consideram que a ausência de referência da cultura indígena facilita a absorção de outras culturas entre os jovens. As lideranças do grupo Anambé apresentam a mesma preocupação em relação à juventude, conforme as falas: [...] o futuro assim em termo de convivência de um modo geral das danças da população Anambé, a gente é como acabei de falar para você [...] agora a pouco é que a gente tamo tentando mesmo organizar, pra vê se o jovem tenha também aquele interesse, porque nós já fica mais difícil, nós temos família [...] (EDUCADOR D, 2004). Eu penso em melhorar mais a nossa cultura que tá perdida né se dê um motivo pra levantar ao menos a metade simplesmente a história da dança, falar bem, primeiro a música depois a dança aí fazendo com eles pra cultivar a nossa cultura pra continuar [...] (EDUCADOR E, 2004). 44 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional Percebe-se que existe o interesse em revitalizar a memória cultural dos Anambé, adormecida em sua história de confrontos e conflitos, e que se necessita de maior motivação para inserir-se nessa jornada diante da diversidade cultural que vivenciam, resultado dos “conflitos dos signos”, conforme se observa: [...] a catequese e a pedagogia dos padres da igreja encarnaram a doutrina e foram agentes de uma imposição simbólica [...] foram levando símbolos religiosos, morais, culturais estranhos às populações indígenas ou ribeirinhas, inserindo no imaginário indígena novos elementos, novos conteúdos que passariam a compor, no processo de assimilação cultural, justapostas à base cultural indígena (LOUREIRO, 2001, p. 80). Outra dificuldade apresentada pelos entrevistados é a falta de capacitação para desenvolver atividades em uma aldeia indígena. O aprendizado é construído no dia a dia com o grupo. Ainda sentem a necessidade de ampliar suas práticas, principalmente em relação aos adolescentes e jovens. Os educadores índios direcionam seus ensinamentos em viver na aldeia por meio da caça, da pesca e da relação interpessoal no grupo. Acham que deveriam trabalhar os aspectos culturais indígenas. Os não-índios trabalham no direcionamento dos direitos sociais e na conscientização étnica do grupo. Percebem a timidez e a ausência de mobilização do povo como um entrave na busca de seus objetivos. Todavia, como citado anteriormente, esse movimento está em processo de mudança devido às intervenções profissionais na área junto aos líderes e aos mais jovens. O maior desafio apontado pelos entrevistados em relação à juventude é referente à continuação dos estudos fora da aldeia. Os educadores têm receios das interferências da cidade na formação desse jovem, visto que almejam a ele a continuidade do grupo e a revitalização cultural. Na condição de líderes, cada um, em sua área de atuação, faz o possível para orientar e instruir a comunidade para desenvolver estratégias que possam garantir o viver na aldeia e buscar seus objetivos. Os educadores índios, por intermédio da constante instrução e conscientização de seus direitos políticos e sociais, trabalham essas perspectivas de acordo com a singularidade e modo de vida indígena. Nesse sentido, um educador reflete “liderar jovens [...] tem que saber a diferença dos que têm família para os que não têm família, as orientações são diferentes. E tratar do futuro, mais dentro da aldeia” (EDUCADOR D, 2004). O processo de inserção de educadores não-índios na aldeia é realizado sem nenhuma preparação diferenciada para conviver com o grupo indígena. O interessante é que esse aprendizado é construído no cotidiano numa interação de respeito pelo diferente e de compromisso com o grupo, respaldando a prática educativa em ações democráticas e construção de perspectivas. E nessa 45 Universidade da Amazônia relação os índios têm muita influência, uma vez que devido ao fato de serem acessíveis ao outro, criam momentos de encontros de discussão e esclarecimento, de forma a conceber e abstrair informações, o que configura o processo de transculturalidade entre os grupos envolvidos. 3.2 UNIVERSO RIBEIRINHO 3.2.1 O Rio e a Mata na Construção de Identidade de Jovens Ribeirinhos na Comunidade de Caruaru, Mosqueiro (Pa) 3.2.1.1 Considerações Gerais sobre a Área de Estudo: a Ilha do Mosqueiro A Ilha de Mosqueiro encontra-se localizada no estuário amazônico. Faz parte da porção insular do município de Belém e caracteriza-se como a maior Ilha desse espaço, com cerca de 211.792.340,50 m2, sendo 54.325.315,275 m2 de área urbana e 157.472.374,852 m2 de área rural. Embora apresente uma área urbana menor, essa congrega a maior parte da população da Ilha, uma vez que na área rural reside pouco mais de 1000 habitantes do total de 27.777 habitantes. A principal forma de acesso à Ilha dá-se via terrestre pavimentada, realizada através das rodovias BR 316 e PA 291. Apresenta-se como um dos principais locais de refúgio da população belenense, em função, tanto da beleza natural que apresenta ao longo de suas 21 praias, quanto pela aproximação com a capital, cerca de 60 km. Administrativamente, a Ilha caracteriza-se como Distrito de Belém a partir de 1901, evolução histórica que se desenvolveu ao longo de sua ocupação. Primeiramente, Mosqueiro constitui-se como uma freguesia de Benfica, de acordo com a Lei 563 de 1868; posteriormente, atingiu a categoria de vila com base na Lei 324 de 1895 (BRANDÃO et al, 2002). Ainda no âmbito administrativo, a Ilha encontra-se inserida no Distrito Administrativo de Mosqueiro - DAMOS5, regionalização estabelecida pela Câmara Municipal de Belém e transformada em Lei em 1994 (CODEM, 2001). Geograficamente, Mosqueiro é limitada pelo rio Pará e pela Baía do Guajará (Norte); pela Baía de Santo Antônio (Oeste); pela Baía do Sol (Sul) e pelo Furo das Marinhas (Leste) (BRANDÃO et al, 2002). Economicamente, a Ilha apresenta uma heterogeneidade, com base no extrativismo (animal e vegetal), no comércio formal (bares, farmácias, materiais de construção e outros) e no comércio informal, sobretudo, no mês de julho, quando a Ilha serve de área de lazer e descanso para veranistas oriundos de Belém e seu entorno. Em relação ao primeiro, aponta-se que o extrativismo é proveniente de comunidades de base, rurais que compõem a área, cerca de seis. 5 46 Com a Lei nº 7.682, o município de Belém passa a ser administrado por oito regionais administrativas, a saber: DAMOS; DAOUT; DAICO; DABEN; DAENT; DASAC; DABEL e DAGUA. (CODEM, 2001). ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional Em relação ao comércio formal e ao informal, afirma-se que são concentrados na área urbana da Ilha. A ocupação da Ilha do Mosqueiro está relacionada à ocupação da Amazônia, em especial, à ocupação da cidade de Belém. Daí afirmar-se que a ocupação de Mosqueiro aconteceu concomitantemente à ocupação de Santa Maria de Belém do Grão Pará. Antes da presença dos colonizadores na região, Mosqueiro constituíase como reduto de índios Tupinambá, Tupinambarana e Morubira (Baía do Sol), por exemplo. Seu nome advém da técnica do moqueio, estabelecida pelos índios. A esse respeito aponta-se que: “em épocas remotas, índios utilizavam-na para moquear peixe que ali se apanhava com incalculável fartura” (MEIRA FILHO, 1978. p. 219). A técnica consistia em: costumavam os nativos conservar os animais putrecíveis por um processo primitivo, colocando a carne da caça ou o peixe sem as entranhas, em fumeiro próprio, de calor brando, sobre o moquém, espécie de grade ou trempe própria para essa curiosa operação. Sob o calor do fogo que sobe e atinge o produto a moquear, aos poucos, ele finda por tostar o material, conservando-o perfeito por longo tempo, sem qualquer perigo de putrefação (MEIRA FILHO, 1978. p. 31). Conforme se observa, a prática indígena de moquear o alimento proveniente da caça ou da pesca consistia em processo rudimentar de conservação dos alimentos. Acredita-se que essa prática fora muito utilizada pelos índios da ilha, originando-se, dessa forma, o nome da Ilha: Mosqueiro. Em relação ao nome, constata-se, com base em documentos oficiais, que a denominação Mosqueiro sofrera uma evolução, pois: “denominando de ilha de Caratatuba, também Barreiras, depois, Caratateua ou Caratatuba, a carta hidrográfica cita para a outra ilha, intermediária entre a “do Sol” e esta última, de “ponta da Musqueira” (MEIRA FILHO,1978. p. 32). Dessa forma, Meira Filho conclui ser procedente a hipótese de que o nome Mosqueiro advém da prática do moqueio, mosqueio, musqueira, musqueia e Mosqueiro, salientando-se, então, que a palavra sofrera um processo de transformação durante o tempo, algo muito presente na região amazônica, sobretudo, no período colonizador. 3.2.1.2 A Comunidade de Caruaru A comunidade de Caruaru caracteriza-se como uma comunidade ribeirinha de base rural, que integra a paisagem da Ilha de Mosqueiro. Seu nome 47 Universidade da Amazônia deriva do dialeto indígena “cariri”, no qual “caru” significa alimento e “aru aru” uma repetição que significa abundância (PASSOS, 2004). Logo, a expressão “Caruaru” pode ser entendida como terra de alimento em abundância, onde terra faz alusão à comunidade e alimento em abundância às espécies existentes no local, sobretudo, a mandioca. Caruaru encontra-se distante cerca de 45 minutos a barco motor da Vila de Mosqueiro. Apresenta-se como a unidade nucleadora desse espaço, visto que apresenta melhor infra-estrutura e maior número de moradores. (BRANDÃO et al, 2002). O trajeto inicia-se no Porto Pelé, localizado no final da Rua Siqueira Mendes, no bairro do Maracajá e completa-se da seguinte forma: igarapé Tamanduaquara, Pratiquara, rio Murubira, finalizando no igarapé Caruaru, no trapiche da comunidade. Ao desembarcar no trapiche, observam-se algumas casas, cerca de quatro; uma pequena taberna denominada “Porto Louco”, que se caracteriza como um dos principais pontos de encontro da juventude local, além de receber, nos finais de semana, moradores de comunidades vizinhas e da Vila de Mosqueiro em busca de lazer; uma placa que faz alusão à “Trilha Olhos D’Água”6 e um restaurante, com estrutura em formato de uma oca, denominado “Caxangá”, molusco na língua indígena. Territorialmente, Caruaru apresenta uma significativa área de terra com predominância de solos de terra firme. Segundo seus moradores, está dividida em duas áreas: Caruaru de baixo e Caruaru de cima (Tucumandeua), conforme se observa nesta planta elaborada por um dos moradores locais: 6 48 Trata-se de um empreendimento ecoturístico operado pela Prefeitura Municipal de Belém via Companhia de Turismo de Belém – Belemtur. A Trilha, nos seus 3.688 m, liga a comunidade de Caruaru à comunidade do Castanhal do Mari-Mari e possibilita aos visitantes apreciarem as belezas naturais existentes nas comunidades, assim como o modo de vida de seus moradores (PASSOS, 2004). ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional FIGURA 4: Planta da Comunidade de Caruaru Fonte: Humberto Araújo/ 2003 Na primeira área (Caruaru - de baixo), observa-se a igreja de Santa Rosa de Lima; o barracão da santa; o barracão comunitário; um campo de futebol; algumas casas e uma escola municipal, de nível fundamental (1ª a 4ª séries), com regime multisseriado, denominada “Maria Clemildes dos Santos”. A escola tem a estrutura composta de alvenaria e coberta com telhas de barro. Exterior a essa, há dois anexos em formato de oca, com cobertura de palha de inajá, onde funcionam duas salas de aula. Vale ressaltar que a concepção arquitetônica dos anexos proporciona uma contínua interação dos alunos com o meio ambiente, isto é, com o meio em que estão inseridos. Quanto à religiosidade dos moradores da comunidade de Caruaru, aponta-se que estão divididos entre evangélicos e católicos, com predominância destes. No que diz respeito ao aspecto religioso (catolicismo) das comunidades rurais observa-se o seguinte: O catolicismo praticado pela população rural é essencialmente popular, com ênfase na devoção aos santos e em poucos sacramentos e rituais ortodoxos. A maior parte das comunidades celebra um ou mais santos padroeiros, considerados guardiões da comunidade. Festas anuais 49 Universidade da Amazônia celebram seus santos padroeiros com ritual tradicional. Por constituir um foco comum de devoção, o santo padroeiro confere à comunidade sua identidade metafísica (LIMA, 1999. p. 23-24). Isso é observado na comunidade de Caruaru, pois anualmente, em agosto, é celebrada a festividade à Santa Rosa de Lima, santa de origem peruana, padroeira da comunidade. A festividade originou-se em 1945 quando um religioso, a convite de um morador local, benzeu o lugar onde deveria ser construída mais tarde uma capela. Segundo consta, por ser esse dia dedicado à Santa Rosa de Lima, o padre então propôs à comunidade que a capela fosse uma homenagem à Santa, iniciando-se, assim, o culto à Santa Rosa de Lima. Quanto ao campo de futebol, caracteriza-se como o principal local de lazer dos moradores de Caruaru, sobretudo, para os homens, tanto solteiros quanto casados, que disputam torneios de futebol com outros moradores de comunidades próximas, aos finais de semana. No que tange às mulheres, elas se incluem nessa atividade na busca de lazer, como torcedoras dos times que seus familares integram: seus pais, irmãos, tios, esposos e filhos. Na segunda área (Caruaru de Cima ou Tucumandeua), observam-se as áreas de produção e as casas de alguns moradores, condizentes com a lógica de comunidades ribeirinhas amazônicas num retrato do modo característico de moradia. Em sua grande maioria, cerca de 39 do total de 41 residências, são compostas de madeira e cobertas de telha de barro ou palha (PROGRAMA FAMÍLIA SAUDÁVEL, 2003). A comunidade não dispõe de energia elétrica nem de água tratada, recorrendo, dessa forma, a lamparinas a querosene, motores e poços. O principal meio de transporte é a canoa ou casco, como popularmente é chamado pelos moradores, e o barco a motor. Populacionalmente, a comunidade apresenta poucos moradores, sendo composta por 192 indivíduos, 95 do sexo masculino e 97 do sexo feminino. Em relação à faixa etária do sexo masculino, há um maior número de indivíduos, cerca de 26, com idade entre 20 e 39 anos, número que se aproxima quando se trata dos indivíduos do sexo feminino, 27 pessoas com idade entre 20 e 39 anos. Nesse sentido, observa-se que a faixa etária que compreende o intervalo de 20 a 39 anos praticamente assemelha-se (PROGRAMA FAMÍLIA SAUDÁVEL, 2003). No que diz respeito à economia, seus moradores estão inseridos em atividades voltadas ao extrativismo, como a pesca e a colheita de frutos. Predominantemente, afirma-se que a comunidade estabelece o agroextrativismo baseado na cultura da mandioca (Maninot esculenta). Passos (2004) estabelece que, inicialmente, no período de ocupação da área, a principal atividade consistia na exploração da borracha, lógica que se confirma em função da racionalidade que se estabeleceu no passado quando a Amazônia constitui-se como 50 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional principal fornecedora de borracha ao mercado mundial. Nessa área geográfica (Mosqueiro), ponto que marca esse momento, fora construída uma fábrica de beneficiamento de borracha, denominada “Fábrica Bittar”, localizada na ponta do Mosqueiro (Praia do Areião). Todavia, com o passar do tempo, a atividade de exploração da borracha declinou no território amazônico, o que forçou os moradores a executarem atividades com base em outras espécies presentes na região. Verifica-se, então, que os moradores da comunidade de Caruaru estabelecem atividades compreendidas no rio e na mata, sendo o primeiro lócus do peixe e do camarão, e o segundo, lócus da mandioca (Maninot esculenta), do milho (Zea-mays) e de outras espécies presentes na comunidade. A comunidade de Caruaru encontra-se geograficamente na porção rural de Mosqueiro. No entanto, esse fato não consiste no único elemento classificatório de tal lógica, visto que é possível se observar na comunidade outros elementos característicos a esses espaços, como o caráter da ocupação de seus indivíduos, o princípio da herança; a diferença ambiental; o tamanho da comunidade; assim como os princípios da homogeneidade, mobilidade, estratificação e interação social que serão trabalhados ao longo do texto, conforme a definição de Solari (1978). 3.2.1.3 Notas sobre o Processo de Constituição do Grupo “Raízes do Caru-Aipim” O Grupo de Danças Folclóricas “Raízes do Caru-aipim” iniciou suas atividades em 6 de julho de 2003 a partir da ideia de uma moradora da comunidade e de uma estudante do curso de mestrado em Sociologia, com o apoio do Instituto Ampliar, organização não-governamental com sede em Belém. Segundo suas idealizadoras, o grupo surgiu com o propósito de desenvolver uma atividade que pudesse envolver os jovens que haviam concluído a catequese, assim como aqueles que se encontravam possivelmente envolvidos em situações de vandalismo, brigas e vulneráveis ao consumo de álcool e psicotrópicos. No processo de planejamento do grupo, foi realizada a escolha da atividade a ser desenvolvida, mediante consulta realizada junto aos jovens. Nessa etapa, foram elencadas algumas atividades, especialmente esportivas, como o futebol e o karatê, e outras mais vinculadas à arte e à cultura, como a dança folclórica e a capoeira. Na consulta realizada, pode-se perceber um direcionamento por parte da coordenação para a atividade de dança, em função de atritos e brigas manifestados nos jogos de futebol realizados durante os finais de semana na comunidade. Realizada a escolha da atividade a ser desenvolvida, as articuladoras do grupo passaram à fase subsequente, que se constituiu na identificação de uma pessoa, no caso um coreógrafo, que pudesse contribuir no processo de formação do grupo, com elaboração das danças, ensaio dos passos e acompanhamento das atividades do grupo. 51 Universidade da Amazônia Nesse processo de identificação, chegou-se ao Moara, grupo de danças folclóricas, criado há 34 anos com o objetivo de realizar a divulgação da cultura e da arte paraense por meio das danças folclóricas. O grupo em questão já havia realizado, em parceria com o Instituo Ampliar, um trabalho com danças folclóricas junto a crianças da praia de Marahu, também em Mosqueiro. Segundo relato dos educadores, conforme o interesse demonstrado pelos jovens de Caruaru na semana subsequente ao primeiro ensaio, a partir do dia 13 de julho de 2003, integrou-se à atividade uma dançarina do grupo Moara com o objetivo de trabalhar junto às meninas os detalhes das coreografias. Na ocasião, o grupo contava com onze pares que haviam se inserido durante a semana nos ensaios realizados pelos jovens com auxílio da moradora da comunidade. Durante o terceiro ensaio, realizado em 20 de julho do mesmo ano, fizeram-se presentes integrantes do Instituto Ampliar, que se entusiasmaram com os trabalhos do grupo e fizeram a doação ao grupo de um curimbó7. A partir do quarto ensaio, realizado no dia 25 de julho, os coreógrafos do grupo incluíram ao repertório a dança do “Siriá”. Naquela ocasião, segundo informações da coordenação do grupo, outros jovens da comunidade demonstraram interesse em participar, porém não fora possível integrá-los devido ao estágio avançado em que se encontravam os ensaios para apresentação na Festividade de Santa Rosa de Lima. No ensaio realizado no dia 26 de julho, os coreógrafos começaram a definir a sequência de apresentação para a festividade, quando os jovens foram divididos em dois grupos, com o intuito de facilitar o aprendizado e melhorar a desenvoltura dos integrantes na hora da apresentação. Decorridos cinquenta e seis dias da realização do primeiro ensaio, durante a festividade da padroeira de Caruaru, realizada no dia 31 de agosto de 2003, o Grupo Folclórico “Raízes do Caru-aipim” realizou sua primeira apresentação pública com a execução das danças do “Maçariquinho”, “Siriá” e “Pescador”, utilizando figurinos cedidos pelo Grupo Moara, do qual também recebeu apoio na parte de musicalização. Na ocasião, estavam presentes o então presidente da Belemtur; o Agente Distrital de Mosqueiro; a coordenação da festividade de Santa Rosa de Lima; a coordenadora do grupo; os pais dos jovens integrantes e grande número de pessoas que prestigiavam a realização dos festejos. De acordo com o registro do grupo, em meados de setembro, receberam convite para apresentar-se no Festival do Açaí da comunidade de João Pilatos, localizada na zona insular do município de Ananindeua, realizado no dia 5 de outubro de 2003. 7 52 Instrumento percussivo de origem africana, construído a partir de um tronco de madeira escavada, recoberta por couro de animal (veado ou caititu) em uma das extremidades e cujo nome significa “tronco que produz som”. ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional Ainda nesse mês, mais precisamente no dia 23 de outubro, o Grupo “Raízes do Caru-aipim” realizou sua terceira apresentação oficial durante o lançamento do cartão de crédito do pequeno empreendedor de Mosqueiro – Solcard, do Banco do Povo8. Evento realizado na Casa de Festas “Nave do Som”, localizada na Vila de Mosqueiro, quando se fizeram presentes vários representantes do poder público municipal e pequenos empreendedores da Vila de Mosqueiro. Ainda no dia 31 de outubro de 2003, segundo registro da coordenação, o grupo realizou sua primeira apresentação na área continental do município de Belém durante a “Semana de Comemorações das Visagens dos Personagens do Folclore Paraense”9, realizado no Jardim Botânico “Bosque Rodrigues Alves”, com a participação de representantes dos poderes executivo e legislativo municipal, estudantes e público de um modo geral. Ainda nessa fase inicial de estruturação do grupo, marcada por sucessivas apresentações, inclusive fora dos limites geográficos geralmente acessados pelos jovens, no caso a Vila de Mosqueiro, torna-se pertinente destacar os seguintes elementos: I) a forte articulação da coordenação do grupo com agentes da esfera pública municipal, tanto executiva quanto legislativa, que estiveram presentes em vários ensaios, estimulando e apoiando a estruturação do grupo e II) os efeitos positivos gerados a partir do trabalho desenvolvido no grupo sobre o comportamento dos jovens nele inseridos. À proporção que o grupo avançava, novos obstáculos se interpunham a sua frente. Assim, em meados de novembro daquele ano, o grupo sofreria uma reestruturação interna, marcada por dois acontecimentos: o afastamento da mestranda e do coreógrafo das atividades do grupo; e a assunção de outro morador da comunidade ao cargo de coordenador geral do grupo. Em relação ao afastamento da mestranda e do coreógrafo, pode-se afirmar que ambos se processaram concomitantemente em meados de novembro de 2003. Nessa ocasião, ocorreu a conclusão da pesquisa de campo da mestranda, que não teve mais possibilidades de custear as despesas de transporte do coreógrafo até a Vila de Mosqueiro, conforme fora anteriormente acordado entre ela e a coordenação do grupo. O afastamento de ambos, ao que se percebe, procedeu-se de forma tranqüila, visto que continuaram a oferecer algum tipo de apoio ao grupo. Outro processo, um pouco mais controverso, trata das motivações que influenciaram a mudança na coordenação geral do grupo, também realizada durante o mês de novembro de 2003. Naquele momento, o novo coordenador, esposo da antiga coordenadora, assumiu o grupo. O que se captura no discurso da ex-coordenara é o fato de que a mudança ocorreu em virtude da necessidade 8 9 Instituição de microcrédito pertencente à administração direta da Prefeitura Municipal de Belém e ligada à Secretaria Municipal de Economia – SECON (FERNANDES, 2002). Mais conhecido como “Projeto Matinta Perera”, trata-se de uma tentativa de contraposição às comemorações norteamericanas do Halloween (Dia das Bruxas), celebrado no dia 31 de outubro (DIÁRIO VERMELHO, 2003). 53 Universidade da Amazônia de a coordenadora superar a sua condição hierárquica para estar mais próxima aos integrantes, percebendo seus problemas e dificuldades: [...] novembro eu senti a necessidade de tá entrando no grupo como dançarina, porque [...] tava acontecendo muitas fofocas em relação ao grupo, porque o grupo tava mudando [...] seu comportamento tava sendo diferente [...] tavam criticando o grupo que eles eram viciados e outras mais, então eu senti necessidade de tá dentro do grupo de tá participando junto com eles, entrosada dentro, não como coordenadora, como dançarina [...] eu conversei com o Bené ai ele disse “Não,[...] é legal isso. Então tu queres a gente te coloca como dançarina”. Ai o [...] meu esposo, começou a assumir a coordenação geral, então hoje nos somos assim, ele é o coordenador geral , eu participo como dançarina [...] (EDUCADOR). Sobre a motivação para ingresso no grupo, o novo coordenador aponta, entre outras, uma relativa à necessidade da constituição de uma liderança masculina no interior do grupo, que viria a suprir as dificuldades observadas por sua esposa - questão a ser retomada mais à frente durante a discussão dos resultados apontados no grupo. Um outro aspecto, também a ser considerado no processo de reestruturação vivenciado pelo grupo, diz respeito à própria comunidade de Caruaru que naquele período passava por intensas discussões em torno da figura da liderança responsável pela festividade de Santa Rosa de Lima. Devido à falta de prestação de contas e denúncias de desvio de dinheiro, o então vice-coordenador da festividade foi afastado dessa atividade e ingressou na coordenação do grupo, conforme apurado por Passos (2004) em seu estudo sobre participação na comunidade de Caruaru. Esse acontecimento, na visão da pesquisadora, trata da manifestação mais visível de um conflito entre lideranças, iniciado meses antes por ocasião da constituição do grupo folclórico, que culminou na formação de dois grupos no interior da comunidade: Quando iniciou esse grupo folclórico houve uma divergência, um racha entre as lideranças. Porque o Beto era vicepresidente da Associação, por ele discordar de algumas iniciativas que na vez da gente jovens, ele saiu da coordenação, passou a integrar o grupo folclórico, a coordenação. Então, é, foi como se existisse dois grupos opostos ali, um através do grupo folclórico, outro através da festividade, da coordenação da festividade [...] (EDUCADOR). 54 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional Começa a caracterizar-se assim um processo de mudança no grupo, em que se articulavam conflitos internos e externos, referentes à dinâmica de vida em comunidade e que ainda hoje se constituem como marcas do grupo. Nesse sentido, torna-se importante socializar um fragmento da entrevista realizada com o coreógrafo, que destaca os conflitos da comunidade e a necessidade de uma liderança mais enérgica que pudesse atuar na disciplina do grupo: [...] Houve uma fase é muito ruim lá na questão do presidente acho da comunidade ou líder comunitário, né, é.. alguns problemas que houveram lá, sérios dentro do grupo lá na comunidade que envolveram, né, ele. E ele decidiu entrar. Disse que ia entrar na coordenação do grupo; e como o Beto é ex-militar, né, ele tem toda aquela linha do quartel, né, aquela doutrina. Ele disse: “eu vou... não vou usar tudo o que eu aprendi no quartel, mas eu vou usar um pouco do meu conhecimento pra, pra... é... coordenar... dar uma direção pra esse grupo; né, pra ajeitar algumas coisas que tão erradas” [...] Ai, nos tínhamos um modelo de estatuto aqui no grupo, as regras, direitos e deveres dos componentes, peguei uma cópia dei pra Elisângela, ela refez algumas coisas, passamos pro Beto ler. Ai passa pro pessoal e quem tiver sugestão também, algumas sugestões, podem dar e vai entrar no estatuto. Desde essa época o Beto começou a coordenar mesmo o grupo lá. Ser, ter aquela parada mais enérgica, né (EDUCADOR). Com a constituição das mudanças internas, em novembro o grupo assumiu a sua atual estrutura organizativa, composta por doze dançarinos, quatro músicos, um coreógrafo e os dois coordenadores, aqui denominados de educadores. Um educador possui um papel mais interno, vinculado principalmente à regulação das relações no interior do grupo e residualmente na interface desse com outros grupos de interesse, entre os quais a comunidade local. O outro, um papel mais externo, no apoio ao coreógrafo na questão do repasse das coreografias e na função de uma espécie de relações públicas junto a pessoas e instituições que favoreçam os interesses do grupo. Segundo registro da coordenação, após esse processo de reestruturação interno, o grupo realizou, em dezembro de 2003, uma apresentação na Escola Municipal de Ensino Fundamental Remígio Fernandez, localizada no bairro do Maracajá em Mosqueiro, onde a maioria dos integrantes do grupo estuda. Esse momento configurou-se como um resgate, por meio de relatos dos componentes, da grande satisfação proporcionada, especialmente entre aqueles que lá estudam e que puderam apresentar-se aos seus colegas de classe e escola, recebendo o reforço positivo aos seus esforços, manifestado sob a forma de aplausos e comentários. 55 Universidade da Amazônia Durante o ano de 2004, o grupo intensifica sua participação em eventos oficiais e/ou não oficiais, grandes contribuintes para a visibilidade ao trabalho desenvolvido pelo grupo. Dentre esses eventos, destaca-se a apresentação realizada, no dia 20 de março de 2004, no Hotel Farol, localizado na praia homônima na Ilha de Mosqueiro, como parte programação do “I Festival das Águas”, evento promovido pela Associação Pró-turismo de Mosqueiro e Instituto Ampliar. Esse evento teve como o objetivo aproveitar o fenômeno conhecido como águas de março para promover a educação ambiental e o aquecimento da economia naquele distrito. Outra apresentação que merece destaque nesse período foi a exibição realizada durante o Festival do Camarão da Comunidade do Castanhal do MariMari, ocorrida em 28 de março de 2004, fruto de uma articulação entre a delegada distrital10 da comunidade e a Agência Distrital de Mosqueiro. Também é válido citar a exibição pública realizada no dia 29 de abril durante a abertura do “VII Festival do Cupuaçu”, evento realizado por intermédio de parceria entre a Agência Distrital e os empreendedores da Vila de Mosqueiro, com vistas à promoção do turismo naquela localidade. FIGURA 5: Apresentação do grupo durante o Festival das Águas (Mosqueiro) Fonte: Registro de campo/ 2004 10 Representante da comunidade no Conselho Distrital, fórum deliberativo do Congresso da Cidade de Belém, cujas atribuições, entre outras são: I) participar do processo de elaboração do orçamento público; II) contribuir com a fiscalização e controle do serviço público; III) estimular o processo de controle social e democratização do serviço público (BELÉM, 2003b). 56 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional Ainda durante o primeiro semestre de 2004, período de realização da pesquisa, porém, não acompanhada pela equipe, houve a exibição pública do grupo durante a inauguração das obras de mais uma fase da orla de Mosqueiro, ocorrida no mês de julho pela Prefeitura Municipal de Belém. Ao final da pesquisa de campo, o grupo responsável por esse universo teve a oportunidade de acompanhar os preparativos e festejos do primeiro aniversário do grupo, realizado na própria comunidade de Caruaru, organizado pela coordenação e jovens integrantes do grupo. O evento planejado para 200 convidados foi realizado no dia 10 de julho de 2004, em forma de almoço dançante com a apresentação dos grupos “Raízes do Caru-aipim” e grupo folclórico mirim “Brotos do Caru-aipim”, também da comunidade de Caruaru; além da formação de “rodas” de ritmos como carimbó e pagode. No evento, estavam presentes cerca de cinquenta convidados, com destaque para os membros da Agência Distrital de Mosqueiro, da Companhia de Turismo de Belém, integrantes do Grupo Moara e alguns familiares dos jovens integrantes do grupo. Entre os convidados, assinala-se ainda a comitiva formada por correligionários e assessores de uma vereadora pertencente ao Partido dos Trabalhadores - PT, grande incentivadora e apoiadora do grupo desde o seu surgimento, que ainda tem uma relação contínua com a comunidade, visto que durante a realização da pesquisa de campo, a equipe teve a oportunidade de visualizar cartazes e calendários da política, fixados em várias residências locais. Ainda sobre o processo de constituição do grupo torna-se importante destacar a constante interação dele com o poder político, especialmente em ano eleitoral, manifestado pelo contato constante dos coordenadores com o poder público municipal, representado pela Agência Distrital de Mosqueiro e Companhia de Turismo de Belém, que, segundo consta, possui como diretrizes básicas, o incentivo e fomento ao turismo e a cultura local (BELÉM, 2003). Destaca-se a ligação dos coordenadores do grupo folclórico com três vereadores, dois pertencentes à bancada do governo municipal e outro à base de oposição, na Câmara Legislativa. Por meio desse contato político, a coordenação busca auferir apoio ao processo de consolidação do grupo, seja por meio de convites para a participação em eventos (que contribuem para dar visibilidade ao trabalho desenvolvido) seja pela ajuda direta na aquisição de vestimentas, instrumentos e outros objetos necessários à estruturação do grupo (esse aspecto será melhor abordado no item “Participação política” do presente trabalho). Torna-se importante ressaltar que, após um ano de atividades, o grupo ainda possui uma dinâmica de contato cotidiano e permanente, marcada por ensaios semanais, realizados às terças, quintas e sábados ou todos os dias da semana (no caso da realização de apresentações consideradas importantes pelo grupo, por exemplo, aquelas realizadas em eventos e festividades fora da comunidade de Caruaru). 57 Universidade da Amazônia Em relação aos instrumentos tocados, o grupo possui dois curimbós, duas maracás11 e um agogô12.O repertório é composto por cinco danças criadas pelo coreógrafo do grupo Moara, a saber: Maçariquinho; Angola; Siriá; Belém meu bem; Pescador e Vaqueiro do Marajó; além da dança em fase de aprendizagem: Dança do boto e do Lundu. No que diz respeito ao significado e à representatividade do trabalho desenvolvido pelo grupo no contexto sociocultural amazônico, verifica-se a constante ocorrência de danças folclóricas em quase todas as regiões do Estado do Pará. Essa prática é responsável pela divulgação de informações históricas, de símbolos, de traços étnicos e religiosos: sínteses resultantes do processo de produção do espaço geográfico e formação cultural da Amazônia, desfechado a partir de meados do século XVIII (SILVA & SOARES, 2004). Originadas nas festividades organizadas pelos camponeses durante o período da colheita, as danças folclóricas são manifestações coreográficas que tinham por objetivo agradecer às divindades a proteção e fartura na colheita e também invocalas (FARO, 1986). Essas manifestações, subsidiadas pelo folclore, ganharam impulso e deslocaram-se da zona rural para o centro das cidades, onde absorvem novas influências urbanas e se reconfiguram, o que origina o chamado Parafolclórico - forma de execução dos ritmos locais que incorpora danças coreografadas e instrumentos não característicos da manifestação em sua forma original (SILVA, 2004). Igualmente, ainda que pese a distinção entre os grupos parafolcloricos, torna-se importante frisar que os trabalhos desenvolvidos por esses grupos revelam traços de uma cultura de fisionomia própria, marcada pelas peculiaridades de uma intensa relação entre o homem e a natureza. Tal manifestação tem como predomínio componentes indígenas mesclados a caracteres negros e europeus, cujo teor social e agente principal é o caboclo, tipo étnico resultante da miscigenação do índio com o branco europeu e, com uma força cultural originada na forma de articulação com a natureza (LOUREIRO, 2001). 3.2.2 Apresentação e Discussão dos Resultados Quanti-Qualitativos: Identificação e Características Pessoais 3.2.2.1 Gênero e faixa etária A partir da amostra estudada, percebeu-se um pequeno predomínio do sexo masculino (59,1%) no grupo, demarcado por uma diferença de dezenove pontos percentuais em relação ao sexo feminino (40,9%). Essa diferença pode ser entendida com base nos indicadores da composição do grupo, em que rapazes ocupam lugares de dançarinos e músicos, em 11 12 58 Espécie de chocalho de origem indígena. Instrumento de origem africana não usual em grupos de denominação folclórica. (SILVA, 2004). ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional oposição às meninas, que participam do grupo apenas como dançarinas. Outro elemento válido para essa explicação é a diferença existente entre os gêneros que residem na própria comunidade. No que tange à circulação e à interação social desempenhada por ambos os gêneros, as jovens do sexo feminino estão mais subordinadas ao domínio do lar e da família, por conseguinte, possuem menor autonomia e circulação do que comumente permitida aos rapazes, o que implica a “não-permissão” para sair de casa ou para o ingresso no grupo. Outro ponto a ser mencionado diz respeito às relações estabelecidas no contexto do grupo, uma vez que há maior identificação dos rapazes com os educadores do grupo e um maior potencial de conflito desses com as integrantes do grupo. Esse assunto será abordado no item 4.3.10 deste trabalho. Em relação às idades, foram definidos cinco grupos de faixas etárias: de 10 a 12; de 13 a 15; de 16 a 18; de 19 a 21 anos; igual ou superior a 22 anos. Esses dados refletem a participação em maior número de jovens na faixa de 13 a 15 anos, com representação de 27,3% na amostra. Em seguida, estão os jovens na faixa de 16 a 18 e, posteriormente, os com idade igual ou superior a 22 anos, ambos os grupos apresentaram resultados semelhantes, cerca de 23% da amostra. Vale apontar que o gradiente etário do grupo reflete a composição etária da própria comunidade, cuja maior parte da população se concentra nas faixas etárias de 10 a 19 e 20 a 39 anos, que correspondem juntos e em números absolutos a 102 pessoas do contingente de 192 existentes no local. Nesse sentido, diz-se que o grupo possui uma adesão bastante representativa dos jovens de Caruaru, o que reflete também uma perspectiva a mais de retenção do público juvenil na comunidade. Esse processo, contudo, precisa ser bem observado e comparado a outras áreas de igual conformação, que tem se constituído frequentemente em zona de repulsão da população juvenil, em face, sobretudo, da escassez de políticas públicas voltadas para os jovens no que tange à educação, à saúde, ao lazer e ao trabalho. 3.2.2.2 Estado civil, número de filhos, cor da pele e nível de escolaridade Concernente ao estado civil dos jovens abordados, observa-se que o grupo é formado em sua totalidade por jovens solteiros e sem filhos, correspondendo a 100% da amostra. Fato esse que merece destaque no contexto da análise geral do universo rural ribeirinho, em que a transição entre a fase juvenil e adulta geralmente costuma ocorrer de maneira precoce com a assunção plena dos papéis de caráter adulto, isto é, a inserção no mercado de trabalho e as responsabilidades pertinentes à constituição de uma família autônoma. Ressalta-se que a concepção de família aqui entendida refere-se ao “conjunto de pessoas relacionadas por laços de consanguinidade entre si e de afinidade, laços que são sacralizados e cujas pessoas envolvidas guardam entre si uma relação de solidariedade mecânica”. (GARCIA JR, 1983, p. 116). 59 Universidade da Amazônia Sobre a autodeclaração dos jovens quanto à cor, verifica-se uma semelhança de resultados entre aqueles que se autodeclararam brancos e os que se declararam negros, com representatividade, cada um, de 4,5% na amostra; outros 13,6% se declararam pardos e os mais de 77% se autodeclararam morenos. Esse último grupo, autodeclarado moreno, chama atenção, além da expressividade dos números, ao próprio termo de definição de raça, que revela dois processos inter-relacionados na história do Brasil. O primeiro diz respeito à mestiçagem, fenômeno biológico por meio do qual as raças branca, negra, indígena e amarela deram origem a atual população brasileira (MUNANGA, 1999); sendo que na região Amazônica esse processo assumiu uma conformação toda especial em virtude da presença inicialmente maciça de povos indígenas13, os quais, por meio de “contatos inter-étnicos” com brancos e negros, deram origem a uma população notadamente mestiça. O outro processo trata do branqueamento, modelo discriminatório de natureza racista, criado pelas elites a partir do qual muitos indivíduos passam a renegar sua ascendência negra na expectativa de serem mais bem aceitos pessoal e socialmente. Esse processo pode ser observado, por exemplo, durante o recenseamento populacional de 1980, quando os não-brancos, inquiridos sobre sua cor, responderam sob a forma de 136 cores diferentes (A FORMAÇÃO DA POPULAÇÃO BRASILEIRA, 2004). Quanto à escolaridade dos jovens, aponta-se que cerca de 69% dos integrantes estudam, dentre eles, dois cursam o primeiro ano do ensino médio e outros quatorze, o ensino fundamental. Dentro deste universo, verificou-se que alguns apresentam uma defasagem escolar, que varia entre três e oito anos. Entre aqueles que se encontram fora da escola e que representam aproximadamente 31% dos abordados, dois concluíram o ensino médio e outros cinco saíram da escola ainda durante o ensino fundamental: As mulheres, de um modo geral, apresentam um índice de escolaridade melhor se comparado aos dos rapazes, principalmente quando se considera o número de pessoas que concluíram o ensino médio e aqueles que se encontram fora da escola. Essa situação é compreendida pela necessidade de inserção dos jovens em ocupações como a lavoura, a pesca, a produção de tucupi e carvão; e da busca por uma colocação no mercado de trabalho, que, precocemente, empurra-os para fora da sala de aula. Sobre isso, enfatiza o depoimento abaixo: [...] que me fez parar de estudar foi por causa que quando eu saí aqui do colégio aqui do Caruaru [...] eu foi estudar no colégio Abelardo Leão Conduru lá no Carananduba. Ai eu morava na casa de uma tia minha, ali não tinha um serviço pra mim fazer, pra mim ficar dependendo deles, eu não podia ficar junto com eles, sem ter nada pra fazer. Aí foi por isso que eu abandonei o estudo (INGÁ, 23 anos). 13 60 Segundo Maués (1999), quando da chegada dos portugueses na América estimava—se a população indígena na Amazônia entre dois e quatro milhões de almas. ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional Esse depoimento, então, retrata que a falta de oportunidade no mercado de trabalho ocasionou o regresso do jovem para a comunidade de Caruaru, conseqüentemente, o rompimento das atividades escolares. Outros fatores observados que influenciaram na desistência escolar referem-se ao transporte e à dificuldade em mobilizar recursos financeiros para aquisição de merenda e material escolar. Essas questões conformam-se, quase sempre, por toda a família, uma vez que perpassaram o período escolar dos pais dos jovens ribeirinhos e, agora, fazem parte do cotidiano dessa nova geração, constituindo-se como obstáculos decisivos e, em alguns casos, conduzindo à evasão e ao abandono escolar ainda durante o ensino fundamental. Para tanto, torna-se oportuno socializar dois depoimentos que revelam as dificuldades dos jovens ribeirinhos para realizar seus estudos, ontem e hoje: [...] os meus pais contam que antes não tinham merenda, não tinha cadeira na sala de aula [...]. Agora não tem muita mordomia, mas em muitas coisas não tem [...] mordomia porque a gente passa dificuldade pra ir pra lá como eles passavam também [...] (BACURI, 19 anos). Com base nesse depoimento, nota-se que o acesso às escolas localizadas fora da comunidade caracteriza-se ainda hoje como uma dificuldade para a continuação dos estudos do jovem ribeirinho. O depoimento abaixo, por sua vez, expõe outro problema enfrentado pelos jovens no que tange ao acesso a merenda: Porque na época quando comecei estudar não tinha esse barco pra buscar os alunos. Aí eu e o meu primo, quer dizer era eu, mais meu primo e meu colega nós ia a remo todo dia, ia e vinha...aí chegava o fim de ano, quando nós não passava. Pôxa, o cara já fica meio triste [...] eu vou estudar mais esse ano, de novo [...] porque o cara se esforça muito [...] quando o cara tinha um dinheiro pra levar pra comprar merenda tava tudo bem. Aí quando o cara não tinha, passava [...] com fome e pro cara estudar com fome [...] não raciocina nada. Aí foi mais por isso que nós paremo de estudar [...] (CUPUAÇU, 17 anos). Observa-se assim que as dificuldades nesse universo estão interligadas ao transporte escolar e à questão da merenda, fundamentalmente. Contudo, apesar das dificuldades relatadas, os jovens entrevistados reconhecem que algumas melhorias foram obtidas na área da educação, que se consubstancia como uma possibilidade para a construção de um futuro melhor, qualificandoos para o mercado de trabalho, assim como, para a realização de aspirações que integram o imaginário desses jovens, como ter melhores condições de vida e poder ajudar aos pais. 61 Universidade da Amazônia 3.2.2.3 Condições socioeconômicas dos integrantes: ocupação Com base nos dados obtidos durante a aplicação dos formulários, verificou-se que a maioria dos jovens abordados, no momento, estavam desempregrados, o que em números absolutos representa 13 jovens. O segundo grupo, com 27% dos jovens, declarou não ter exercido nenhum tipo de ocupação ou ainda não ter ajudado a família em tarefas relacionadas à lavoura, à produção de farinha e de tucupi; 9% da amostra, correspondente a dois jovens, declararam desempenhar alguma atividade de modo informal e apenas uma jovem (no instante, contratada pela Secretaria Municipal de Saúde para a função de agente comunitário de saúde na comunidade14), o que corresponde a 4,5% dos jovens, declarou possuir algum tipo de vínculo profissional. Já a partir da leitura qualitativa dos dados, observou-se que a maioria dos jovens, mesmo aqueles que declararam não exercer qualquer ocupação, desempenha alguma atividade, geralmente circunscrita ao domínio da casa, do “quintal” e/ou do rio, por meio do desempenho de tarefas executadas por meninos e meninas. Constata-se, então, que o trabalho desenvolvido pelos jovens do sexo masculino se materializa na ajuda na lavoura, na produção da farinha, do tucupi e na pesca, ou ainda, na extração de carvão vegetal, conforme observado em campo. Quanto ao trabalho desenvolvido pelas jovens do sexo feminino, diz-se que elas se encontram no limite da casa, ou seja, estão inseridas, fundamentalmente, nas atividades domésticas, como: lavar roupa e louça, cozinhar, varrer a casa etc. Dessa forma, verifica-se que desde cedo, ainda na infância, os jovens ribeirinhos reproduzem a lógica rural de inserção e aprendizado dos ofícios da casa, da mata, do rio e da roça, de forma que, ainda durante a chamada adolescência, período no qual as meninas e meninos da cidade costumam deixar de lado brincadeiras com bonecas, carinhos e videogames, as moças e rapazes ribeirinhos já se encontram preparados para cuidar da casa, da roça e da família (BRANDÃO, 1983). Vale ressaltar que essa dinâmica é fruto do princípio da herança, pela qual o jovem reproduz os ofícios de seus pais. Nota-se ainda que as jovens, ao se casarem, absorvem também o ofício da roça, acumulando, dessa forma, duas atividades: a da casa e a do “quintal” (lavoura). 3.2.2.4 Situação dos jovens quanto à moradia: local de domicílio e número de moradores por domicílio Percebe-se, com base nos dados, que cerca de 95% dos integrantes do grupo residem na própria comunidade de Caruaru, o que corresponde em números absolutos a 21 pessoas. Outros 4,5% residem no bairro do Maracajá, na 14 Para efeito de contabilização, os vínculos contratuais da mesma foram contabilizados no item carteira assinada. 62 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional vila de Mosqueiro, que corresponde à sobrinha dos coordenadores do grupo que também participa do “Raízes do Caru-aipim”. Os dados em si indicam uma forte ligação dos integrantes e do próprio grupo com o local. A análise dos dados coletados revela que mais de 90% dos integrantes reside com os pais (em números absolutos, 20 jovens); 4,5% (1 integrante, em números absolutos) residem com parentes (pai adotivo e avó) e 4,5% ( também 1 integrante, em números absolutos) residem ora com a mãe ora com parentes, no caso, os coordenadores do grupo. Observa-se também que, embora haja na comunidade a presença de famílias com outras formas além da elementar (pai, mãe e filhos), essa estrutura ainda é a mais usual na comunidade. Há ainda a constatação do significativo número de integrantes que residem com seis a sete pessoas no mesmo domicílio (54,5%), assim como, aqueles que residem com cerca de oito ou mais indivíduos (40,9%), sendo que em alguns desses casos, verifica-se a existência de mais de uma família elementar em uma casa, o que origina formação de famílias extensas. 3.2.2.5 Relacionamento com os familiares Segundo Carvalho (apud ABREU; FROSCHNTENGARTEN,1999), a família compreende o espaço dos cuidados, da proteção, do aprendizado dos afetos, assim como um espaço de socialização e construção de identidades. Dessa forma, a família é ainda o campo privilegiado para se pensar a relação entre o indivíduo e a sociedade e, portanto, possui suas histórias, seus mitos e formulações discursivas que refletem a realidade vivida ou idealizada e que se constituem na marca da família, verdadeira herança a ser perpetuada (SARTI, 2004). Percebe-se através do discurso dos jovens entrevistados que, embora haja um número significativo de pessoas coabitando um único espaço, que, em si, pode-se constituir em potencial fonte de conflitos, as relações familiares são consideradas boas, concorrendo para uma visão positiva sobre a família entre os jovens abordados, conforme se pode apreender: [...] é boa. Eles me tratam bem e eu trato bem eles, porque, às vezes, tem família que só vive brigando, né, não tem contato com os filhos, minha relação é boa com meus pais (BACURI, 19 anos). Esse depoimento retrata que, pelo fato dos familiares tratarem bem a jovem, ela considera a sua relação com eles positiva, harmoniosa. Essa harmonia pode ser observada também na seguinte declaração: “Eu me sinto bem no meio deles, não sinto ameaçado de nada.” (CASTANHA, 16 anos). Vê-se, então, que os jovens da comunidade de Caruaru apresentam uma concepção favorável acerca da família em que se encontram inseridos. A esse respeito 63 Universidade da Amazônia vale afirmar que tal concepção é bastante presente nas comunidades ribeirinhas, uma vez que a família apresenta-se como o esteio para vencer os obstáculos que se apresentam, tanto endógena quanto exogenamente, à comunidade. De modo geral, observam-se ainda divergências ou conflitos de pequena monta envolvendo os jovens, seus pais e irmãos, mesmo que eles não sejam reconhecidos ou verbalizados. No caso dos jovens integrantes do “Raízes do Caru-aipim”, em todo o período de pesquisa, pode-se perceber apenas um conflito envolvendo uma família da qual faziam parte dois integrantes do grupo. Sobre esse fato, o depoimento de um dos jovens é revelador: Com o papai mais ou menos [...] ele bebe [...] a gente faz o que a gente quer, ele quer enfrescar com a mamãe, quer bater nela. Aí, por causo disso eu nem falo quase com ele (GUARANÁ, 18 anos). A fala do jovem retrata uma situação de conflito entre pai e filho. No entanto, é válido ressaltar que a negação de conflitos por parte dos jovens, de um modo geral, assenta-se na formulação discursiva que expressa uma realidade vivida, em que se articulam elementos objetivos e subjetivos da vida do indivíduo e do grupo familiar, levando à formação um imaginário baseado em representações positivas do que venha a ser família. 3.2.2.6 Meio de transporte e meio de informação mais utilizado Aqui, novamente, revela-se a forte influência do meio geográfico sobre a vida e circulação dos jovens de Caruaru. Percebe-se então que 95% dos abordados têm na canoa a remo ou no barco a motor o principal meio de transporte. Deve-se ainda destacar que o único indivíduo da amostra que apontou outro meio de transporte além da canoa/barco, no caso, a bicicleta, é justamente o único integrante do grupo que não reside na comunidade de Caruaru, e sim, no bairro do Maracajá na Vila de Mosqueiro, mas que, para chegar à comunidade onde se realizam os ensaios do grupo, utiliza-se da embarcação a motor destinada ao transporte dos alunos da comunidade. Quanto ao meio de informação mais utilizado, verifica-se que a maioria dos jovens abordados revelou ter como principal meio de informação o rádio, representando mais de 36% da amostra. Dos demais, 27,3% apontaram a televisão e 27,3% destacaram a conversa com outras pessoas como os principais meios de informações na comunidade. Por sua vez, a partir da leitura qualitativa fornecida pelas entrevistas semi-estruturadas com os jovens, visualiza-se que no meio ribeirinho o principal meio de informação é a conversa com outras pessoas, fato apontado por sete dos jovens entrevistados, seguido da televisão, apontada por seis e do rádio, por quatro dos entrevistados. 64 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional Na comunidade de Caruaru, observa-se que a regularidade de acesso aos meios de informação não depende exclusivamente de elementos como gosto pessoal, mas da própria disponibilidade de aparelhos de tv, baterias e geradores, bem como de recursos financeiros para manutenção desses objetos. Em relação aos programas televisivos e radiofônicos, constata-se uma clara preferência pelas novelas, seguida de telejornais e filmes. Em relação à rádio, a identificação é com as emissoras e programas que veiculam o gênero popular do “brega”, ritmo musical de grande veiculação e aceitação no Estado do Pará. Igualmente, no que se refere aos jovens abordados, torna-se importante realçar que ainda embora a televisão desperte interesse do público das várias faixas etárias existentes na comunidade, não se percebe, pelo menos entre os jovens de Caruaru, um conflito entre os signos locais da cultura amazônica e a cultura cosmopolita, difundida pela programação da televisão, por meio do qual o local transforma-se em “ruim” e “ultrapassado” em oposição ao “moderno” e “melhor” apresentado pela televisão (LOUREIRO, 2001). 3.2.2.7 Formas de lazer e ocupação do tempo livre A partir dos dados coletados, observa-se que o jogo de bola, a música e o encontro com os amigos se constituem como os prazeres cotidianos dos jovens de Caruaru, com preferência, respectivamente, de 36%, 31% e 18% dos abordados. Identifica-se ainda, a partir dos relatos dos entrevistados, que as partidas de futebol, realizadas nos campos São João e Três Corações, situados em Caruaru, configuram-se como um importante espaço socializador em uma comunidade com limitadas opções de lazer. É em torno do futebol que se aglutinam jogadores jovens ou adultos, casados e/ou solteiros, além de mulheres e crianças que, como espectadoras, também se divertem. Outras opções de entretenimento apontadas pelos jovens como formas de lazer e ocupação são: a frequentação ao trapiche, o bar “Porto Louco”, os passeios ao igarapé do Aracairu e as brincadeiras de taco e queimada. Durante a pesquisa de campo, foi observado que a frequentação ao trapiche e ao bar “Porto Louco” é realizada, fundamentalmente, pelos jovens do sexo masculino. Isso se dá em função de, no primeiro, haver a reunião de jovens para tomar banho no rio, e a disputa de corridas de natação de um lado a outro do igarapé; enquanto que no segundo, a frequentação ao bar é em decorrência da mesa de bilhar, lá existente, e do consumo de bebidas alcoólicas por esses jovens. Quanto aos passeios ao igarapé do Aracairu, alega-se ser realizado por ambos os jovens, ora com os amigos ora com os pais, sobremaneira, as meninas. Quanto às brincadeiras de taco ou queimada, fala-se que são desenvolvidas entre as jovens do sexo feminino. 65 Universidade da Amazônia No que concerne à confluência dos jovens a lugares mais afastados, são apontados os campos de futebol do Castanhal do Mari-Mari e do Itapiapanema, os balneários às proximidades de Caruaru, como o “Beleléu”, além de idas à Vila de Mosqueiro e a consequente frequentação a locais como o campo do “Pedreira Esporte Clube”, a Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó, o Mercado Municipal e o Trapiche de Mosqueiro. Verifica-se também a existência de festas realizadas durante os finais de semana em estabelecimentos localizados em Mosqueiro, como a “Quadra do Barulho”, a “Barraca da Vovó” e o “Point da Vila”, esse restrito aos rapazes. Chama-se atenção para uma diferenciação no âmbito da circulação e interação social entre os jovens da comunidade, que conforme será abordado mais adiante, encontra-se demarcada por elementos como o gênero e a idade. Ou seja, os meninos, de um modo geral, possuem maior liberdade de circulação em Caruaru, nas comunidades do entorno e na Vila de Mosqueiro, para a frequência às praças, praias e casas de festas. As meninas, por sua vez, possuem uma circulação mais restrita, dentro da comunidade, com algumas incursões pela cidade, quando da ida à escola, às apresentações ou durante as festividades religiosas. Percebe-se ainda que, para algumas meninas, é facultada a oportunidade de se associarem aos meninos e assim ampliarem a sua circulação, conforme se observa no relato seguinte: “Eu passeio assim com os meninos [...] pra Outeiro, pra praia em Mosqueiro, pras festas, quando tem, pra algum futebol, assim. (BACURI, 19 anos). Nesse relato, observa-se o depoimento de uma jovem que estabelece uma maior mobilidade no que concerne o seu deslocamento em relação às demais. Quanto ao deslocamento dos jovens do sexo masculino aponta-se que: Às vezes quando tem [...] aqui e quando teve lá na Três corações [...] Ás vezes é Castanhal, lá na Vila e pra ali [PORTO LOUCO]. Eu vou lá no campo do Parazinho (BURITI, 13 anos). Dessa forma, percebe-se que a frequentação a esses locais se dá de forma variada, sendo mais cotidiana em pontos localizados na própria comunidade. Ou ainda, em alguns casos, na ida por conta do trânsito para escola. No caso de festas e passeios, essa frequência ocorre de forma mais esparsa, em geral uma a duas vezes por mês, comumente aos finais de semana. Durante essas ocasiões, os jovens chegam a gastar entre U$ 0,34 e 17,2015, destinados ao pagamento de transporte, ingressos em casas de festa, assim como ao consumo de lanches e bebidas, entre as quais algumas alcoólicas, como a cerveja, aguardente e catuaba, bastante apreciadas e consumidas pelos jovens de Caruaru. 15 66 Conversão da moeda nacional realizada a partir dos valores do dólar no dia 15/09/04, isto é, U$ 1,00 = R$, 2,907. O Liberal, caderno Painel/Economia, p. 6. ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional Em relação à motivação dos jovens para frequentar tais locais, observa-se que, fundamentalmente, ocorre em função do gosto pessoal, de motivações religiosas, no caso das festividades de santos, e do prazer e da oportunidade de convívio com os amigos. 3.2.2.8 Hábitos e padrões alimentares Quanto aos hábitos e padrões alimentares, constata-se que a refeição preferida entre os jovens é o frango, em várias formas de apresentação (assado, cozido), acompanhado de arroz, feijão ou macarrão. São ainda citados pratos como a macarronada, a feijoada e o arroz com galinha. O peixe, presente no local, também aparece, contudo, apenas entre as preferências alimentares de dois dos entrevistados. É relevante destacar que a mandioca, produto típico do local, não é citada em nenhum momento, assim como o camarão. Considera-se que a questão alimentar reflete o conjunto de questões ligadas à estratégia de reprodução dos produtores no meio rural, assim como também representa os determinantes naturais e sociais da sua expropriação. (BRANDÃO, 1981). Destaca-se que os ingredientes necessários para a elaboração das refeições preferenciais, como o feijão e o trigo, não fazem parte do rol de produtos produzidos localmente. Nesse sentido, entende-se que fatores como o aumento da população, a pressão exercida pelo homem sobre os recursos naturais, as mudanças das relações entre o homem e a natureza e os imperativos de um mercado local ou regional fazem com que as condições necessárias para o acesso direto aos alimentos nas comunidades rurais sejam mais reduzidas, o que implica a aquisição, cada vez maior, de ingredientes fora dos limites da comunidade. Retoma-se, então, o sentido da própria pergunta constante no roteiro de entrevista: “Qual a sua comida preferida?”, que tinha por objetivo identificar as influências culturais existentes e atuantes sobre os jovens. A resposta de um dos jovens transcrita abaixo é bastante reveladora: Comida preferida é o que pintar (risos) porque todo dia assim não tem a comida preferida às vezes, às vezes tem uma comida assim pra cá às vezes tem uma comida boa [...] a gente vai assim levando (SERINGA, 19 anos). Sendo assim, com base no relato acima, confere-se que a alimentação diária dos jovens não corresponde ao gosto ou à vontade própria de cada, seja no campo ou na cidade. 67 Universidade da Amazônia 3.2.2.9 Religião e religiosidade entre os jovens de Caruaru Segundo Wolf (1970), as sociedades de base rural fazem parte de uma ordem social mais vasta e com ela se relacionam por meio de suas coalizões. Do mesmo modo, participam de uma compreensão simbólica ou uma ideologia, que consiste em atos e ideias cerimoniais e crenças que preenchem diversas funções, algumas expressivas, como os casamentos, as festas religiosas, as festas da colheita, entre outras, que têm como objetivo ajudar os membros dessa sociedade a lidar com crises inevitáveis e irredutíveis da vida (a falência, a doença e a morte). Em Caruaru, um desses momentos pode ser identificado na festividade religiosa de Santa Rosa de Lima, realizada anualmente durante o último final de semana de agosto, frequentada por pessoas da comunidade e outras vindas de Belém, de comunidades insulares, como Icoaraci e Cotijuba, e de localidades da zona do Salgado. Esse evento é composto da realização de novenários e da procissão fluvial da Santa, iniciada na Porto Pelé, no bairro do Maracajá, com término na própria comunidade (PASSOS, 2004). A realização da festividade religiosa que envolve, em seus preparativos, a maior parte da comunidade de Caruaru, marca o equilíbrio entre os interesses das unidades familiares dentro da comunidade de Caruaru e as coalizões dessa com as demais comunidades e com a sociedade mais ampla. Ainda, observa-se que a ordem simbólica existente na comunidade influencia os próprios jovens entrevistados que, em sua maioria, 95,5% da amostra, se autodesignaram como católicos. Portanto, entende-se que a opção religiosa dos jovens expressa os processos de socialização, vivenciados na comunidade durante a realização das celebrações, realizadas na capela dedicada à padroeira, aos sábados e aos domingos, e na participação na festividade de Santa Rosa de Lima, conforme demonstra o relato abaixo: Aí, aí da igreja aí [...] Desde o ano passado, foi do ano passado que a gente começamos a frequentar aí, canta aí na igreja, que a gente, de vez em quando, quando tem as missa à gente tamu lá (INGÁ, 23 anos). Nesse sentido, é perceptível que os momentos de participação dos jovens se processam de forma esporádica devido à própria intermitência da realização das celebrações e missas na comunidade. Além do mais, os jovens possuem um papel secundário e acessório, conforme o seguinte depoimento: “Ah, era cantar, às vezes quando tinha missa a gente ficava lá no lugar certo pra nós e ajudava o padre” (MANGA, 13 anos). Observa-se ainda, a partir dos relatos, que os jovens de Caruaru apresentam uma pequena frequentação em grupos religiosos, dentro e fora da co- 68 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional munidade: “Eu já participei ano passado de um, aí a gente ensaiava, quando foi no dia do Círio a gente cantou lá na frente” (CASTANHA, 16 anos). O surgimento de grupos de jovens e a participação em atividades religiosas estão circunscritos a momentos e tarefas específicas, tais como: realização de missas: “[...] durou três meses o grupo [...] quando tinha missa a gente ficava lá no lugar certo pra nós e ajudava o padre” (MANGA, 13 anos). Nesse depoimento, assim como em outros colhidos durante a pesquisa de campo, verifica-se a participação dos jovens na execução dos rituais religiosos da comunidade e na chamada parte profana dos festejos de Santa Rosa de Lima, conforme relatam dois dos abordados quando inquiridos sobre sua participação na festividade: “[...] colaborando com as pessoas aí e carregando as grades de cerveja, ajudando a fazer um tapete que é feito aí”. (INGÁ, 23 anos); “[...] ajudá nos ajudava muito, eu ajudava muito assim [...] transporte de bebida, ajudava aí na Barraca da Santa, na limpeza, é isso só” (MANDIOCA, 19 anos). Tal participação residual contribui para não internalização da religião por parte dos jovens, aqui percebida na dificuldade que possuem em expressar significado da religião em suas vidas, conforme se observa no trecho a seguir: “Eu nunca tinha pensado nessa pergunta em religião” (BACURI, 19 anos). Sobre essa fala, constata-se que o entrevistado, obstante participar dos ritos religiosos existentes na comunidade, anteriormente à realização da pesquisa, ainda não havia se inquirido sobre o significado da prática religiosa em sua vida. Observa-se ainda que depoimentos como esse e o transcrito a seguir representam 60% das respostas colhidas durante a pesquisa: “Religião pra mim? Aí eu não sei te dizer” (CASTANHA, 16 anos). Ressalta-se ainda que 25% dos jovens entrevistados durante a pesquisa interpretam religião como o fato de acreditar e louvar a Deus; e outros 6,3% relacionam religião à frequentação de templos e à participação em rituais, como missas. No que se refere à relação entre juventude e religião, observa-se que mais de 37% dos jovens entrevistados não soube explicar a relação existente entre religião e juventude, assim como também é significativo o percentual daqueles que acreditam que religião e juventude não combinam, com 31% dos jovens abordados. Muito das vezes existe, por causa que os jovens que frequentam as suas, cada qual frequenta as suas religiões, mas tem muitos que não frequenta é religião nenhuma (INGÁ, 23 anos). Baseado no depoimento acima, é possível constatar que o jovem entrevistado relaciona juventude e religião a partir da participação ou não dos jovens em ritos religiosos. Destaca-se aqui que 18% dos entrevistados relataram não saber se existe relação entre juventude e religião, e outros 12% consi- 69 Universidade da Amazônia deram a importância da religião na vida dos jovens, muito embora esse valor não seja revertido na participação deles em suas igrejas, conforme se observa no trecho transcrito de uma entrevista: Não, na minha opinião eu acho que tem sim, mas na maioria dos jovens estão muito afastado da religião católica né, muitas das vezes a gente vê naquelas religião, de crente como dizem né, eu acho que tem a ver sim, com a religião (BACURI, 19 anos). Observa-se que o entrevistado relata o afastamento dos jovens das celebrações religiosas, especialmente as realizadas pela igreja católica. Fenômeno que segundo o entrevistado não acontece em outras religiões, como nas evangélicas. Portanto, entende-se que na comunidade de Caruaru o distanciamento dos jovens em relação à igreja e à vivência religiosa pode estar interligado à ausência, ou pouca participação, de líderes locais, no caso de lideranças religiosas, que resumem a sua participação na comunidade à organização e realização das festividades à padroeira. 3.2.2.10 Participação política De acordo com Léna (apud PASSOS, 1999), desde o período colonial, no Brasil assim como na Amazônia, o sistema político baseado na troca de favores constitui-se como um traço marcante de sua história social e política, exaltado por meio de uma relação pessoal em uma troca de fidelidade, seja ela econômica ou política. Em Caruaru, esses processos podem ser identificados na troca de favores presente especialmente na realização das festividades da padroeira local, abordados no estudo desenvolvido por Passos (2004) na comunidade de Caruaru. Nesse estudo, Passos (2004) relata que, na comunidade, a festividade de Santa Rosa de Lima, principalmente em anos de eleição, é cenário para inúmeros políticos que prestigiam a comunidade com promessas e presentes em troca de votos. Evidencia-se aí o objetivo de arrecadar donativos para a festa religiosa, por conseguinte, as lideranças comunitárias se atrelam aos políticos influentes na região para pleitear recursos. Em troca, os políticos ganham fidelidade nos votos dos moradores, pois esses ficam gratos por terem sido atendidos em um momento importante na vida comunitária. Esse tipo de mecanismo tende a atuar sobre a visão dos jovens de Caruaru perante a participação política, circunscrevendo-a, exclusivamente, à política partidária e ao processo eleitoral. Daí percebe-se que os jovens de Caruaru possuem uma visão de política pautada pelos princípios da represen- 70 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional tatividade, isto é, as deliberações não são tomadas pela coletividade, mas por pessoas eleitas especialmente para essa finalidade. Ocorre que em tempos de crise de legitimidade do sistema de representação, cuja raiz mais profunda encontra-se vinculada a determinados elementos (como: a falta de coerência entre o projeto/programa eleitoral e a prática dos eleitos), há a ausência do controle dos eleitores e/ou partidos sobre os eleitos (PONT, 2005). Logo, tornam-se comuns representações negativas ao processo eleitoral e à vida política, conforme retratado abaixo: É que eles só vêm pedir votos, pro pessoal aqui quando tá perto das eleições, aí eles conseguem convencer aí [...] depois o pessoal quando não veem que eles não tão fazendo nada do que eles cumpriram, aí eles ficam falando, reclamando porque eles votaram nessa pessoa aí (MANGA, 13 anos). É comum, também, esse tipo de referência ao caráter funcional do voto, a obrigatoriedade do ato, e às implicações do não votar: “Importante votá porque se não perde documento, vai perder documento né. Aí tem que votá, é obrigativo” (AÇAÍ, 16 anos). De um modo geral, a partir dos dados coletados, percebe-se que os jovens em Caruaru, como eles próprios dizem, não são muito ligados à política. Daí se perceber pouca internalização da questão política pelos jovens da comunidade, pois do total de jovens entrevistados, 20% votaram pela primeira vez nas últimas eleições (2004) e outros 30% votaram regularmente enquanto que 40% não votaram. No que tange à participação em grêmios estudantis, nenhum dos jovens abordados revelou participar e, em relação à filiação partidária, observa-se que apenas dois dos entrevistados, ambos do sexo masculino, são simpatizantes a partido político, um ao Partido do Movimento Democrático Brasileiro – PMDB e outro ao Partido dos Trabalhadores – PT. Nesse sentido, entende-se, a partir da formulação de D’Incao (1987) que os mecanismos de troca de favores existentes na comunidade fornecem as bases para a manutenção de valores tradicionais e para as diferentes formas de dominação e exploração dos indivíduos, especialmente nos anos eleitorais. O que pode se observar, a partir de depoimentos, é que os políticos e a própria política são relacionados a uma personalização de expressões, como “ajudar” e “tratar bem”, captada no discurso de dois jovens abordados durante a pesquisa. Essa situação compromete o exercício político e democrático dos jovens nas eleições e mesmo em outros espaços representativos da vida comunitária, como a comunidade católica e a festividade de Santa Rosa de Lima. 71 Universidade da Amazônia 3.2.3 Organização dos Jovens em torno do Grupo 3.2.3.1 Formas de inserção e objetivos do grupo A partir dos dados coletados, observa-se que aproximadamente 91% dos jovens que responderam o formulário, em números absolutos 20 jovens, ingressaram no grupo ainda nos primeiros três meses de atividade. Outros 4,5% ingressaram mais recentemente e um, equivalente a 4,5%, não quis se declarar a respeito do tema. O ingresso desses jovens no grupo ocorreu, na sua maioria, aproximadamente 40%, a partir de convite formulado pela idealizadora do grupo. Outros 27,3% ingressaram por interesse próprio e os demais, também 27,3%, por intermédio de amigos e colegas que já participavam do grupo. No que diz respeito à motivação para o ingresso no grupo, o motivo principal está vinculada à vontade de aprender e à alegria em dançar, representando mais de 31% dos entrevistados. Outros 25% vincularam a motivação ao desejo de participar de algum grupo. Os demais fatores propulsores, com representação de 6,3% das opiniões declaradas, cada, correspondem à influência dos pais, ao gosto próprio, ao convite realizado pela coordenadora e, por fim, à falta de opções em Caruaru. Assim, afirma-se que a questão da inserção e participação em grupos emerge a própria questão da formação da identidade, visto que o processo de constituição identitária, iniciado durante a infância no seio dos processos de socialização vivenciados em família, encontra na juventude o seu período crítico, principalmente porque é nesse momento que as referências positivas escasseiam e embaralham-se com as negativas, o que torna o processo de construção identitária complicado e difícil (SOARES, 2004). Nesse instante, além da família, adquirem especial importância na vida dos jovens os grupos, espécies de formações fraternas, de caráter horizontal (turmas, grupos, bandos ou gangues), que servem de ancoragem para novos polos de identificação e de formação do sujeito (KEHL, 2004). Quanto aos objetivos desse grupo, aponta-se que cerca de 31% dos jovens vinculam a criação do grupo à necessidade de divulgar a comunidade de Caruaru por meio da música, da dança e das lendas existentes na região. Destacam-se ainda aqueles que vinculam o surgimento do grupo à vontade de integrar os jovens à vida da comunidade ou, simplesmente, ao próprio fato de aprender a dançar – aqui visto como causa e não como um produto do processo em curso. Observa-se ainda que apenas 6,3% da amostra, 2 entrevistados, reconhecem os objetivos manifestados pela coordenação: afastar os jovens das drogas e da violência. A seguir são apresentados alguns depoimentos que traduzem a diversidade de opiniões dos jovens em torno dos reais objetivos de criação do grupo: 72 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional Pra mim é o mesmo que seja pra todos. Eu bem dizer vou falar por todos porque o objetivo nosso é amostra um pouco da cultura que existe no Pará, fazer as outras pessoas que não conhece [...] é amostra pras outras pessoas que venham visita aqui a nossa localidade e também pras outras pessoas que em Belém ou na vila em qualquer parte que a gente vá (INGÁ, 23 anos). Identifica-se aqui, a partir da fala do entrevistado, que o objetivo do grupo está relacionado à divulgação da cultura paraense e da própria comunidade de Caruaru. Já o depoimento a seguir expressa a internalização, por parte de um jovem, de outro objetivo para a criação do grupo, não divergente nem menos importante do que o primeiro, que é a busca para melhorar as condições de vida na comunidade: Eu acho que pra, pra melhoria aqui na nossa comunidade, por causa que antes do grupo, a gente, parece que a gente vivia tudo isolado aqui aí, depois que o grupo foi fundado, a gente condições de conhecer mais pessoas, de ter mais amizade, depois que foi fundado aqui acho que com certeza pra melhoria das pessoas aqui (GUARANÁ, 18 anos). Com base nesse depoimento, observa-se que os jovens de Caruaru percebem a situação de isolamento da comunidade e a sua própria em relação à sociedade mais abrangente, assim como consideram a superação desse fato uma condição importante para a melhoria das condições de vida. Por fim, um grupo menor de jovens internaliza e apresenta como objetivos aqueles apresentados pelos idealizadores do grupo: Porque os jovens já tavam se metendo droga, já tavam querendo fazer outras a [...] discutiu isso aí ela queria fazer esse negócio de droga, não teve esse tipo de negócio (MURUCI, 10 anos). em [...] queriam usar coisas que não deve, o grupo, pra não ter negócio, roubo, esse Nessa fala, percebe-se que há elementos presentes no discurso dos idealizadores do grupo, ou seja, o interesse em desenvolver um trabalho junto às jovens da comunidade que se encontravam em situação de vulnerabilidade social. Assim, é possível observar, a partir da análise dos dados, que não há, de modo geral, por parte dos entrevistados, uma internalização do discurso dos coordenadores no que diz respeito ao próprio sentido motivador para o surgimento do grupo. Segundo Leontiev (apud LOMONACO, 1999) a formação de grupos ocorre a partir da articulação entre necessidades e sentimentos dos indivíduos, isto é, aquilo que os mobiliza a agir, e que se traduzem por meio de 73 Universidade da Amazônia atividades comuns. Se essas atividades forem satisfatórias, concorrem para o alcance dos objetivos, o surgimento de novas atividades e o fortalecimento do grupo, caso contrário, o grupo tende a se desestruturar devido à inexistência de laços e objetivos comuns. 3.2.3.2 Frequência e participação A dinâmica de participação dos jovens nas atividades do grupo é analisada com o objetivo de verificação da assiduidade deles em tais atividades, sejam ensaios ou apresentações. Nesse caso, observou-se que um dos principais estímulos para frequência é o fato de as reuniões do grupo se constituírem como a opção de lazer mais próxima à realidade dos jovens de ambos os sexos e também de seus lares. Fora isso, ainda há a vigência de um Estatuto do Grupo, com a deteminação, em um dos artigos, de que o acúmulo de três faltas consecutivas é passível de punição por meio da suspensão do integrante. 3.2.3.3 Pontos positivos e negativos no grupo O principal atrativo para a participação dos jovens são as próprias apresentações que, dentro da realidade dos jovens de Caruaru, constituem-se como momentos ímpares para circulação e interação social desses jovens, conforme se observa no seguinte depoimento: O que eu acho bom no grupo é que a gente dança, saí por aí conhece outras pessoas [...] conhece outros lugares, isso que eu acho bom, porque antes a gente não tinha grupo só ficava aqui, ia lá pra Mosqueiro, pra praça, agora não, a gente tendo grupo a gente sai, é pelo menos uma animação pra gente (BACURI, 19 anos). Logo, evidenciam-se elementos até então distantes da realidade da maioria dos jovens de Caruaru, isto é, sair e conhecer novos lugares e pessoas. Outros elementos apontados como positivos correspondem à união existente entre os integrantes e a disciplina estabelecida pela coordenação do grupo: [...] é os dois que são positivos [...] porque eles são positivos, porque aonde nós estamos eles estão junto com a gente, eles nunca foram pessoas de deixarem a gente assim, a vocês vão dançar só vocês a gente vai ficar aqui, não. Eles são positivos porque as coisas que eles querem da gente eles chegam na hora e falam [...] (INGÁ, 23 anos). 74 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional Esse trecho revela a importância do trabalho conduzido pelos educadores, que estabelece marcos referenciais de confiança mútua e amizade na vida dos jovens. Observa-se também como ponto positivo o fato de as atividades realizadas em grupo ocuparem um espaço de tempo, que antes era livre devido à falta de oportunidades de lazer na comunidade: É a alegria, os ensaios, porque esse grupo tomou um espaço nosso que tava livre, a gente não fazia quase nada dia de semana, além do estudo, agora [...] depois que apareceu esse grupo tomou um espaço que tava livre e foi muito bom isso, pra mim foi muito bom (CASTANHA, 16 anos). Nesse sentido, diante da diversidade de aspectos abordados e da assertiva de Leontiev (apud LOMONACO, 1999), entende-se que os pontos positivos configuram-se como mobilizadores, ao ajudar a manter a articulação entre os indivíduos e, ao mesmo tempo, inspirar a realização de mais atividades que reúnam os jovens. Em contrapartida, aproximadamente 31% dos entrevistados apresentaram como ponto negativo as discussões manifestadas entre os integrantes do grupo. Outros 18% fizeram referência a não-aceitação de normas por parte de alguns integrantes do grupo: Porque muitas vezes quando o [...] fala uma coisa tem alguns que não querem [...] são cabeça dura, não entendem [...] não tentam entender aquilo que ele diz. Eu acho totalmente errado aquilo. Que tem algumas aí que acho que nem gostam muito do [...] e ficam lá, eu acho que, quando eles falam assim alguma coisa que elas não querem, elas não gostam mesmo e não entendem aquilo e não fazem...eu acho errado isso (CASTANHA, 16 anos). Identifica-se aqui a outra face do trabalho do educador, traduzida na resistência de alguns integrantes do grupo em aceitar as resoluções estabelecidas pela coordenação no que tange ao funcionamento do grupo. Observa-se ainda que esses acontecimentos não se reduzem a episódios isolados que envolvem unicamente a coordenação e os integrantes adversos às deliberações, mas vêm a abranger a maioria dos jovens, o que ocasiona os conflitos. Os jovens entrevistados consideram o fraco desempenho do grupo durante as apresentações como outro ponto negativo, visto que tem a capacidade de provocar conflitos entre os integrantes do grupo: “[...] é as meninas que na hora do ensaio em vez delas ensaiarem elas ficam inventando um monte de coisas, ai eu tô com dor de cabeça, eu tô com aquilo, aí isso que é negativo” (INGÁ, 23 anos). 75 Universidade da Amazônia Verifica-se, portanto, que a análise dos dados demostra como elementos negativos e fontes de conflito três elementos muito característicos no grupo: I) divergências e conflitos existentes entre os integrantes; II) rebeldia inerente aos jovens, manifestada por meio do questionamento e da negação das regras estabelecidas para o convívio em grupo; III) a exteriorização do problema, que, a partir do discurso dos jovens, passa a ser visto como um problema ou dificuldade do outro. 3.2.3.4 Relacionamentos vivenciados no grupo No que se refere à percepção dos jovens sobre as formas de relacionamentos vivenciados no interior do grupo, observa-se que 75% dos entrevistados, isto é, 12 jovens apontaram como principal elemento a constituição de amizade. Sobre esse elo, observa-se a que conformação dessas relações obedece o critério de gênero: Mais com homem, pouco, pouquinhas com mulheres [...] Não sei por que [...] eu acho que com o homem a gente sempre [...] se chega mais, se uni mais di que com a mulher, porque a mulher, é difícil um homem chegar com a mulher, fazer amizade com a mulher. A gente se sente é tímido (MANDIOCA, 19 anos). Nessa fala, o jovem entrevistado pondera sobre a sua dificuldade em se relacionar com as meninas do grupo. Esse problema também encontra assento na voz de outros jovens, como se observa no trecho a seguir: Eu se dou muito bem com os meus colegas né, com as minhas colegas de grupo eu não se dou muito bem [...] porque elas ficam perturbando mais [...] dão mais motivo pra gente briga com elas (AÇAí, 16 anos). Com base nos depoimentos apresentados, verifica-se a perspectiva de gênero permeadora das relações existentes no interior do grupo, assim como também a questão da identidade, entendida a partir do sentido de diferença, e a consciência da alteridade, que preside as relações entre os dois gêneros, seja no domínio público ou no privado. 76 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional FIGURA 6: Meninos em grupo se divertem à margem do rio Fonte: Registro de campo/ 2004 Tal distinção é reforaçada na figura anterior, em que os jovens do sexo masculino se reúnem no trapiche para realizar as formas de lazer preferidas: subir em árvores, atirar-se ao rio e nadar. 3.2.3.5 Avaliação da participação No que diz respeito à avaliação da participação no grupo, por parte do integrante, é importante frisar que o jovem teve de levar em consideração uma variedade de elementos: habilidades artísticas, relações interpessoais, participação, força de vontade e comprometimento para com o grupo, entre outros. Cerca de 72% consideraram a participação como “boa”, ao passo que 12% consideraram como “mais ou menos”; 6,3% consideram “insatisfatória” e os outros 6,3% relativizam a sua participação com base na atuação do outro. No que tange à percepção dos jovens em relação à avaliação dos integrantes e dos coordenadores do grupo, aproximadamente 37% dos entrevistados, em números absolutos seis jovens, afirmam sua avaliação como “boa”. Em segundo lugar, com 12,5%, encontram-se aqueles que consideram sua avaliação como “mais ou menos” e os que não possuem nenhuma percepção sobre o assunto. Em terceiro, estão, com resultados semelhantes, aqueles que consideram a avaliação como “ótima” e aqueles que a perceberam como “ruim”. 77 Universidade da Amazônia No trecho a seguir, a percepção de um entrevistado em relação à participação dos demais integrantes revela como elemento principal o compromisso do integrante em relação ao grupo. Eu não acho que eu tô, que eu danço bem, só que o, o que a pessoas que acha é a pessoa que tá de fora vendo os dançarinos dançar [...] no momento, mais quando, eu tô [...] dentro do grupo ensaiando ou então em uma apresentação eu levo a sério tudo aquilo [...] é um compromisso [...] (MANDIOCA, 19 anos). Já no depoimento a seguir, verifica-se a preocupação com a habilidade artística, isto é, com a execução correta das coreografias executadas pelo grupo: O que elas pensam que eu sou um bom dançarino. Mas eu não acho que sou um bom dançarino... Uma pessoa chegou comigo e disse, do grupo mesmo “Não, [...] tu é um bom dançarino”. Essa pessoa foi o [...]. Quando eu não tô em ensaio pra se apresentar, ele diz “Não, [...] tu vai que eu sei que tu é capaz de fazer bonito. Eu sei que tu dança bem” (CUPUAÇU, 17 anos) Observa-se assim que uma avaliação externa considerada “boa” determina um reforço positivo na autoestima dos jovens, da mesma forma que uma avaliação com conceito oposto pode significar conflitos e a evasão de jovens do grupo, tal como se observa no depoimento abaixo: Todo mundo falou pra mim que a minha participação não valia nada, então vou sair do grupo que o grupo vai ficar melhor sem a minha participação (PUPUNHA, 15 anos). Nesse caso, observa-se que o jovem entrevistado, após ter sua participação avaliada negativamente por parte dos integrantes e coordenadores, busca resolver tal problemática retirando-se do grupo. Em relação às aspirações dos jovens quanto à participação no grupo, comprova-se, a partir dos dados, que 19% dos jovens abordados apresentam o desejo de maior qualificação individual, uma vez que buscam melhorar o desempenho no grupo. Com resultado semelhante, observam-se aqueles que desejam uma maior mobilidade no grupo, ascendendo de dançarino a músico, ou de integrante a coreógrafo. Entre os abordados, destacam-se ainda aqueles que desejam uma melhoria nas apresentações do grupo com a incorporação de novas danças e a realização de mais apresentações; e os que desejam que sua participação no grupo continue da mesma forma, com 12,5% cada. 78 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional 3.2.3.6 Conflitos no grupo Cerca de 44% dos integrantes entrevistados não verificam a presença de opiniões diferentes no interior do grupo, diversamente de outros 44% que as observam manifestada ora positivamente, a partir de opiniões e sugestões que visam à melhoria do grupo, ora negativamente, com base nos conflitos que se manifestam entre os jovens. Ressalta-se aqui a intervenção dos educadores no uso de um discurso normatizador harmonizante para disciplinar as relações entre os integrantes, com o intuito de minimizar os efeitos das opiniões contrárias, conforme observado na fala de um educador: Existe isso. Existe, mas são poucas as pessoas, depois que foi lido o estatuto, que eles começaram a ler, a ter conhecimento das regras do grupo, dos deveres e dos direitos deles isso ai acho se acomodou, parou mais. Que ele não pode ir contra as regras, já que foi lido, foi perguntado, passou pra cada um se todo mundo aceitava, todo mundo assinou, então, aceitou, né. Se tem alguém de ideias contra, ainda não se manifestou (EDUCADOR). Entre as fontes potenciais de conflitos internos, destacam-se: I) questões internas, manifestadas pelas dificuldades de relacionamento, sejam entre integrantes de um modo geral do grupo, entre as integrantes do sexo feminino ou entre os coordenadores e os jovens, citadas por 6,3%, 18,8% e 12,5% dos jovens abordados, respectivamente; a não-aceitação das regras, abordada por aproximadamente 19% dos entrevistados; as fofocas com 12,5%, e as divergências de opiniões também com 12,5%; e a falta de recursos e materiais, correspondente a outros 12,5% da amostra; II) questões externas, apresentadas pelos conflitos da comunidade, que afetam o grupo com percentual de 12,5% da amostra. As dimensões da vida e dos conflitos internos podem ser percebidas por meio de depoimentos que refletem como se estabelecem relações e conflitos no interior do grupo: Existe das meninas, discussão delas, elas mesmo no intervalo das apresentações porque a gente dançar o Maçariquinho e vai dançar o Siriá e começaram as discussões de trocar de roupa, uma pega a roupa da outra e veste a saia que não é praquela vestir aí acontece às discussões delas (INGÁ, 23 anos). 79 Universidade da Amazônia No trecho, observa-se um tensionamento das relações entre as integrantes do grupo, este motivado pela infraestrutura insuficiente nele existente. Contudo, ressalta-se a existência de depoimentos por meio de divergências e conflitos também nas relações estabelecidas entre os integrantes do sexo masculino e do feminino, comprovada em vários depoimentos, como neste: “Porque elas ficam discutindo com a gente né. Aí a gente não gosta também né. Aí a gente fica discutindo com elas, a gente não se dá muito bem com elas.” (AÇAÍ, 16 anos). Já no depoimento a seguir, um jovem aborda os conflitos causados pela não-aceitação de regras, que motivam um tensionamento nas relações entre a coordenação e alguns integrantes. É porque [...] tem regras, eu pelo menos entendo [...] deixo levar, não ligo muito, ele proporcionou aquilo tá bom aquilo, mas como eu te falei, tem algumas pessoas que parecem que querem empatar assim e não querem deixar ele trabalhar assim [...] pra mim essas pessoas tão no grupo assim, mas não tão com aquele objetivo de crescer ali, deixar que aquilo ocorra tudo bem, acho que é alguém que quer empatar (CASTANHA, 16 anos). Outro jovem destaca que os próprios comentários realizados no intento de melhorar o desempenho de algum integrante causam conflitos: O conflito assim que eu digo é da gente chamar a atenção do, de quem tá dançando mais errado e eles não aceitarem, e dizer que a gente, já somu bonzão.Ele já que, já que dizer que a gente quer saber mais de que eles, e aí nunca aceitam o que gente fala (MANDIOCA, 19 anos). Igualmente são apontados conflitos isolados, provocados por fofocas envolvendo a vida de alguns dos integrantes do grupo: Porque umas pessoas começam “Ah, [...] não sei o quê, a [...] aquilo, a [...] aquilo outro”, eu não gosto daquele que fica falando pra mim, é por isso que eu aqui do sítio eu não gosto de ninguém (PUPUNHA, 15 anos) Observa-se, portanto, ainda que os conflitos vêm a ter impactos na qualidade do trabalho desenvolvido pelo grupo, conforme a fala desse jovem: Tem porque às vezes a gente sai por aí, ás vezes a roupa da pessoa não dá certo, como das meninas ali a [...] e a [...]. Aí a gente sai por aí às vezes a roupa num dá certo aí elas brigam e nem apresentam aí já o grupo fica por pedaço assim, apresenta, mas não é uma coisa boa (SERINGA, 19 anos). 80 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional No trecho citado, verifica-se a apreciação negativa de um dos jovens em relação aos conflitos que têm a capacidade de desestabilizar emocionalmente o grupo momentos antes de uma apresentação. Tal fato é reforçado pelo depoimento a seguir: Porque quando a gente vai se apresentar, como um dia a gente foi se apresentar lá pros turistas, aí sempre [...] briga, fica discussão pra lá, pra cá, quando a gente vai se apresentar, ai um erra de um lado, outro erra de outro, aí isso não presta as apresentações que a gente faz [...] (MURUCI, 10 anos). Para a resolução dos conflitos existentes, torna-se fundamental a presença dos educadores, mais especificamente a do coordenador geral, que tem o papel de acompanhar as atividades do grupo e de regular as relações entre os integrantes, da mesma forma que tem de garantir o mínimo de organicidade do grupo. O trabalho então desenvolvido apoia-se em anotações feitas em um caderno para o devido registro de frequências, advertências e suspensões pertinentes aos integrantes do grupo e no regimento/estatuto, espécie de código interno que delimita direitos e deveres dos integrantes do grupo. 3.2.4 Grupo como Processo Educativo 3.2.4.1 Qualificação pessoal e profissional No Grupo “Raízes do Caru-aipim” o processo educativo pode ser dividido em duas formas ou fases: I) uma mais sistemática, executada por meio de palestras; II) e outra de modo direto, manifestada no contato cotidiano entre jovens e educadores. No que diz respeito à primeira fase, é importante ressaltar que foram realizadas palestras com o objetivo de abordar questões pertinentes ao meio ambiente, durante o período de estruturação do grupo, por meio de uma parceria com a Companhia de Turismo do Município de Belém - Belemtur e o Instituto Ampliar que objetivava trabalhar a questão do meio ambiente. Dessa ação, participaram 75% dos jovens entrevistados. Fora ainda prevista a realização de novas palestras, com abordagem de temas como drogas, violência, sexualidade, dentre outros, mas devido às mudanças ocorridas no âmbito da presidência da Belemtur, não foram levadas adiante. Entretanto, as palestras realizadas, embora contribuíssem para a formação pessoal dos jovens, foram limitadas no que tange à geração de adicionalidades em outras áreas de formação, em especial, voltadas à qualificação para o mercado de trabalho. 81 Universidade da Amazônia Em relação à segunda fase, delimitada pela interação cotidiana entre educadores, verifica-se que foi responsável por incutir uma série de conhecimentos aos jovens. Observam-se, como aprendizados potencializados pela vida em grupo, a educação e o comportamento, citado por 25% dos jovens; a habilidade em relacionar-se com outro, destacada também por outros 25%; o desenvolvimento de habilidades artísticas (tocar e dançar), citado por 19% dos jovens entrevistados; e o aumento da autoestima, mencionado por 12,5%. Nesse sentido, infere-se que a participação no grupo, além de oportunizar aos jovens uma fonte de lazer e interação social, amplia e/ou potencializa o capital humano e social deles, aqui entendido como o conjunto de habilidades, conhecimentos, capacidades, e também como a rede de relações acionáveis na busca por melhores condições de vida, até então não acessíveis em virtude das diferenças de oportunidades de acesso aos capitais culturais, econômicos e políticos e de usufrutos deles. 3.2.4.2 Desafios do grupo Os principais desafios do grupo apontados pelos seus integrantes estão relacionados à própria estruturação do grupo, como a melhoria da qualidade das apresentações (18,8%); a aquisição de figurinos e instrumentos (12,5%); o aumento do repertório de danças (6,3%); a mudança do atual corpo musical (6,3%); a manutenção do grupo sem o apoio do Moara (6,3%); o próprio processo educativo que necessita incutir mais responsabilidade nos integrantes e nos coordenadores (6,3%); e a educação (6,3%). Além desses desafios, o grupo de pesquisa aponta, como fragilidades e principais desafios observados no grupo, a necessidade de formação de um grupo musical próprio, reunindo integrantes aptos a acompanhar o grupo nas suas diversas apresentações, e a falta de internalização da finalidade de surgimento do grupo (aspecto este abordado no item 4.3.2 deste relatório). 3.2.4.3 Relações de gênero no grupo Sobre a questão do gênero, a maioria dos jovens abordados tem dificuldade em identificar um tratamento diferenciado entre meninos e meninas, porém, como já citado anteriormente no corpo deste relatório, essa questão pode ser identificada no grupo a partir de duas dimensões: uma primeira, vinculada à existência de divergências envolvendo rapazes e moças no interior do grupo; e uma segunda, correspondente à constituição de subgrupos com base na afinidade por sexos, conforme se observa na figura a seguir: 82 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional FIGURA 7: Meninas reunidas aguardam o início do ensaio Fonte: Registro de campo/ 2004 Igualmente, outro elemento de diferenciação é a própria circulação e a interação social, conforme abordado em outro momento neste relatório. 3.2.4.4 Perspectivas dos jovens em relação ao futuro Nos depoimentos a seguir, são expressos alguns sonhos e algumas perspectivas que perpassam o imaginário dos jovens moradores de Caruaru: “[...] espero que daqui a quatro anos eu esteja aqui, mas esteja com um serviço” (BACURI, 19 anos). No trecho em questão, verifica-se o desejo de um dos jovens, em um futuro próximo, ingressar no mercado de trabalho e continuar residindo na comunidade de Caruaru. Outros jovens, por sua vez, demonstram, em seus relatos, projetos de concluir os estudos e a partir disso auferir condições de ajudar a família: “Eu tenho vários [...] me formar um dia e ser alguma coisa na minha vida que possa ajudar meus pais” (GRAVIOLA, 13 anos). Há ainda aqueles que em suas representações reportam-se, além do trabalho, ao desejo de ascender no contexto do grupo: “[...] penso de, teje arrumado emprego, no nível média baixa e, e ter mais, crescido mais um pouco no grupo” (MANDIOCA, 19 anos). 83 Universidade da Amazônia Observam-se ainda, em número menor, aqueles que vinculam as aspirações de qualificação e inserção no mercado de trabalho ao desejo futuro de contrair família: Eu penso no futuro de estudar pra mim ter formação pra mim conseguir um bom emprego pra mim, pra mim quando arrumar uma família eu ter da onde tirar o sustento, só pra mim eu acho que de todos os meus familiares” (INGÁ, 23 anos). A partir da análise dos dados, infere-se que mais de 50% dos jovens entrevistados demonstram grande interesse na conclusão dos estudos e na obtenção de um lugar no mercado de trabalho, seja em profissões liberais ou em empregos que proporcionem estabilidade e um bom salário. Essa vontade também é concebida como uma forma de se alcançar outros sonhos: ajudar a família, adquirir casa própria, viajar e conhecer novos lugares. No que concerne às ocupações pretendidas, destaca-se o interesse pela licenciatura, medicina e informática, citado por aproximadamente 25% dos abordados; pela carreira policial e pelo desejo de “servir à Pátria”, esse último manifestado por um dos jovens, provavelmente influenciado por um dos coordenadores que fora integrante do Exército Brasileiro. Dentre os demais sonhos aspirados, torna-se importante destacar que dos abordados, apenas um dos entrevistados, isto é, 6,3%, mencionou um sonho coletivo, no caso, o desejo de que a comunidade de Caruaru disponha de serviços, como luz elétrica e água encanada. Há ainda, entre os entrevistados, aqueles que mesclam, em seus sonhos, um nítido sombreamento entre o rural e o urbano, como o desejo de ser professor ao mesmo tempo que pretende ser “disk jóquei”. Durante a realização da pesquisa, procurou-se ainda conhecer as expectativas desses jovens em relação a um futuro próximo, em um intervalo de cinco anos. As citadas foram: a vontade de ingressar em um curso superior (25%); o desejo de trabalhar como professor (12,5%), concluir os estudos (12,5%) e ser independente (12,5%). Essas formulações expressam as ambiguidades características da situação de convivência entre dois universos culturais: o ribeirinho e o urbano, pois, ao mesmo tempo em que os jovens cultivam laços que os prendem à cultura do local, veem-se na cultura urbana da vila de Mosqueiro e nos personagens dos programas de televisão que povoam as suas memórias e se conformam como referencial para a elaboração de sonhos para o futuro. Tais ambiguidades, por sua vez, também presentificam-se nas formulações elaboradas pelos jovens em relação ao conceito de felicidade, visto que as mesmas concepções estão muito próximas aos jovens dos demais universos (centro urbano e periferia urbana) abordados nesta pesquisa. 84 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional Em relação aos jovens ribeirinhos, afirma-se que cerca de 18% dos entrevistados possuem uma definição bastante abstrata de felicidade, o que pode ser percebida entre os jovens que a formulam conceitualmente como “tudo”. Com resultado semelhante, enquadram-se jovens que vinculam felicidade a sensações como bem-estar e alegria. Aproximadamente 12% a vinculam à realização de todos os sonhos. São significativas ainda as referências de felicidade ao momento vivido, ao acontecimento de coisas boas, à saúde, à harmonia com vizinhos, parentes, amigos e ao acesso ao lazer. Esses dados representam as articulações com o sentimento de circunstancialidade juvenil e o desejo de serem, ao mesmo tempo, diferentes e iguais aos jovens da cidade. 3.2.4.5 Significado de ser jovem Uma temática emergente nos últimos anos, mas sobre a qual há pouco consenso, é a questão da juventude, entendida, por muitos, como condição de transitoriedade entre a infância e a vida adulta – como o que ainda não é ou como aquele que virá a ser – ou por aqueles estudos que a enfocam a partir da idéia de descontinuidade presente no mundo atual, uma tendência que, captada por vários pensadores sociais, acabou por relacionar à juventude vários sentidos atribuídos comumente à modernidade: grande interesse pela novidade, extravagância, irreverência, ousadia, rebeldia, exclusividade, diferença entre outros (GROPPO, 2000). Com o intuito de escapar a esse fosso conceitual comum, Groppo (2000), apoiado em concepções de uma modernidade racionalista, burocrarizante, secularizadora e desencantadora, aponta os impactos da modernização sobre as concepções e os projetos relacionados à juventude, com base no universalismo e o no particularismo. Segundo essa premissa, as sociedades regidas por critérios particularistas não criarão grupos etários homogêneos com funções sociais relevantes, pois, ao contrário, desenvolverão apenas grupos com mistura de idades (como a família e os grupos de parentesco). Por sua vez, as sociedades que possuem esferas sociais importantes, regidas por critérios universalistas, tendem a criar grupos homogêneos com importantes funções de integração social. Nesse sentido, entende-se que na comunidade de Caruaru, os princípios particularistas que regem a vida familiar se estendem às demais relações sociais, ocorrendo uma transição simples dos indivíduos da vida infantil para a maturidade social, isto é, os processos de socialização desses indivíduos ainda ocorrem amparados sobremaneira pelas famílias, não obstante a integração cada vez maior dos jovens ao sistema escolar, que, imbuído de critérios universalistas, intenta a instrução e a educação com vista ao pleno status na sociedade. Esses processos, por sua vez, possuem amplo aspecto sobre as concepções de juventude, formuladas pelos entrevistados, conforme observado nos dados coletados, quando aproximadamente 31% relacionam a juventude a uma 85 Universidade da Amazônia fase de “liberdade”, ligada a ideias de “curtir a vida” e “fazer o que se gosta”, exemplificado no seguinte depoimento: “Jovem pra mim é agora o que eu tô vivendo junto com os meus colegas, sair, se divertir essas coisas” (INGÁ, 23 anos). Percebe-se, então, uma grande influência dos chamados princípios universalistas, em que a juventude é concebida como uma fase de tranqüilidade e pouca responsabilidade: “[...] ser jovem é sair assim pra onde quer sem ter preocupação de nada” (MANGA, 13 anos). Outros 12,5% dos entrevistados destacam a juventude como um período de mudança ou transição que deve ser aproveitado ao máximo: Ser jovem pra mim é ser assim é se divertir, eu pelo menos tento o máximo me divertir, né, que eu sei que daqui a um tempo não vou mais estar assim jovem [...] (CASTANHA, 16 anos). Igualmente, apoiando-se em Castells (1999), as representações dos entrevistados sobre juventude são entendidas a partir de construções teóricas da “circunstancialidade” dos seus momentos de vida, e com base no entendimento de juventude como a fase da vida mais marcada por ambivalências e a convivência contraditória de elementos de emancipação e subordinação, sempre em choque e negociação (KEHL, 2004). Em relação ao papel da juventude, observa-se que a maioria dos entrevistados (25%) não soube responder essa questão. Entre aqueles que se manifestaram, cerca de 18% verbalizaram que o papel dos jovens é se manter afastado das drogas. Outros 12,5% apontaram o estudo que aparece como uma estratégia para a realização dos sonhos. Destaca-se ainda a percepção da participação da juventude na vida da comunidade e o desenvolvimento de ações coletivas, como o cuidado para com os idosos, os doentes e as pessoas que passam por privações, em especial a fome, responsável por outros aspectos da juventude, como a rebeldia e a inovação (OESSELMANN, 2001). Nesse contexto, com base nas percepções sobre juventude, são verificados, como principais dificuldades/desafios vivenciados pela juventude, as drogas, que, embora não façam parte do cotidiano dos jovens de Caruaru, constituem-se, assim como o álcool, na maior dificuldade, apontada por aproximadamente 44% dos jovens abordados. Logo, percebe-se a partir dos dados que as drogas são concebidas como maléficas em virtude dos efeitos nocivos relacionados à saúde: Pelo que eu vejo, pelo que eu sei, o jovem enfrenta uma dificuldade assim de droga, esse negócios que afetam muito e estragam a vida de muitos, que se perdem rápido e acabam até morrendo por causa disso, droga [...] (CASTANHA, 16 anos). 86 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional O jovem abordado reflete acerca dos efeitos das drogas sobre a saúde, o que, em determinados casos, segundo ele mesmo, pode levar ao risco de morte prematura. Outros jovens abordados avaliam, igualmente, de modo negativo os efeitos das drogas sobre o comportamento dos jovens: “[...] como a droga às vezes e jovens que se viciam na droga, eu não acho certo” (MILHO, 16 anos). Além do álcool e das drogas, constituem-se também como maiores dificuldades da juventude, segundo a concepção dos entrevistados, a conclusão dos estudos e a obtenção de trabalho, manifestadas por cerca de 18% da amostra. A partir dessas análises, verifica-se, na comunidade de Caruaru, a passagem dos jovens do universo particularista rural ribeirinho para o meio universalista, marcado por processos como a socialização secundária, realizada cada vez mais nas escolas, e o estabelecimento mais intenso de trocas com o meio urbano, que impõe a superação de desafios cada vez maiores e mais complexos, realizada nas mudanças dos padrões de comportamento, assim como nas representações que justificam esses comportamentos. 3.2.4.6 Representações de juventude ribeirinha na comunidade de Caruaru No que se refere às representações em torno do ser jovem no meio ribeirinho, percebe-se que são elaboradas a partir das dificuldades e oportunidades vivenciadas no cotidiano dos entrevistados, segundo se observa no relato abaixo: Os daqui têm muita dificuldade, têm que passar por um bocado de dificuldade [...] Os de lá não têm ônibus, não têm dificuldade pra vir os que têm dinheiro [...]. A dificuldade da gente aqui é que a gente quer ter um sonho na vida, mas só que tem que estudar [...] A gente tem que ir lá pra Mosqueiro, tem que remar ou então tem que acordar cedo [...] (BACURI, 19 anos). Nesse trecho, destacam-se as dificuldades como a carência de transporte e os reduzidos recursos financeiros para fazer frente às despesas necessárias à realização dos estudos na zona urbana. Outro tipo de representação encontra-se marcada, por exemplo, pela distinção em relação aos jovens moradores do núcleo urbano mais próximo, nesse caso a Vila de Mosqueiro: “[...] porque têm muitos jovens que sai por aí fazendo o que não deve e aqui não, a gente tem mais um pouco de respeito, com certeza isso tem” (MANGA, 13 anos). Nesse relato, o jovem abordado opõe a juventude urbana à do meio rural com base no conceito de respeito, que, segundo ele, é presente no meio ribeirinho e ausente no urbano. 87 Universidade da Amazônia No recorte a seguir, percebe-se outra forma de particularismo: a atribuição fornecida pelos jovens urbanos aos moradores da zona rural. Muitas das vezes é quem vai aqui da vila [...] chamam até de “sitioara” pra nós, eu pelo menos não me sinto humilhado, porque eu sou daqui, antes eu via muito isso [...] discriminação chamar de “sitioara”, muita gente até brigava lá por causa disso, mas eu pelo menos, agora o meu código de amizade lá, uns até dizem assim “Ah ´sitioara´ bora brincar, deixa disso”. Eu pelo menos não me sinto humilhado. Hoje quem fala pra mim isso é mais uma brincadeira [...] mas uma pessoa chegar [...] com uma ingnorância, “sitioara” [...] “tu é do sitio”, acho que talvez não fique gostando muito (CASTANHA, 16 anos). Por fim, percebe-se, no nincho das representações, a existência, entre os jovens, de clans positivos em relação ao meio que os circunda: Ser jovem ribeirinho pra mim é, eu acho bom, eu gosto de ser um jovem daqui, acho que tem muita gente daí, lá de Mosqueiro, da ilha que, que encarna na gente, mas só que a gente não liga não, é bom ser jovem daqui (GUARANÁ, 18 anos). Dessa forma, conforme o depoimento dos entrevistados e escritos de Tuan (1980), entende-se a comunidade de Caruaru a partir de sua significação particularizada, isto é, emergindo na memória e na representação dos jovens não como um espaço desconhecido, temido ou rejeitado, mas como o lugar, trecho da superfície terrestre, que adquire significado por meio das experiências cotidianas e aspirações pessoais, sendo de fundamental importância para a identidade humana. Para Melo (1990), o local de infância e/ou residência é lugar. Quem não pertence a esse lugar pode achá-lo desagradável e sem atrativos, mas é de tal forma rico em significados para aquele que o experiência, que chega ao ponto de se sentir agredido por qualquer expressão ou comentário depreciativo a respeito do seu lugar. Assim, o sentido de lugar envolve enraizamento, amizade e simbolismo. Entende-se que a migração cotidiana dos jovens de Caruaru, no sentido rural-urbano-rural, durante o trânsito para a escola, possibilita a construção de uma identidade defensiva, ancorada no local em oposição ao “outro” distante, desconhecido, ameaçador e que os relega à condição de categoria social inferior (CASTELLS, 1999). Igualmente, é importante não perder de vista que a migração, ainda que em caráter temporário, abre espaços à chamada “mobilidade simbólica”, que 88 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional permite desenvolver um sentimento de pertencente em relação a esta ou àquela cultura, isto é, a urbana. Uma relação ambígua que resulta na elaboração de novos sistemas culturais e identidades sociais entre os jovens ribeirinhos. 3.2.4.7 Elementos de identificação entre os jovens De acordo com Soares (2004), a formação de identidade para os jovens corresponde a um difícil e penoso esforço de ser ao mesmo tempo diferenteigual aos seus pares. Esse processo que, pela impossibilidade de ser vivenciado sozinho, ocorre devido a um “contexto relacional”, com funcionamento semelhante a uma espécie de espelho, do qual se constroem processos de interação social e individuação, responsáveis pela distinção e identificação sociocultural (CASTELLS, 1999). Sendo assim, diz-se que a construção da identidade trata de um processo social, interativo, o qual se dá no âmbito de uma cultura e de um determinado momento histórico, resultando na diferenciação de “capitais”: o capital econômico, o político e, em especial, o capital simbólico (BOURDIEU apud CRUZ, 2004). Nesse processo, insere-se uma sequência de referenciais, que servem como uma espécie de “matéria-prima” na construção identitária. Dinâmica tal explicitada por Castells (1999) por meio da distinção de três diferentes categorias de identidade: I) identidade de caráter legitimador ou identidade legitimadora, pela qual as instituições dominantes da sociedade buscam ampliar e racionalizar o poder sobre os atores sociais; II) identidade de resistência, resultado da ação consciente de atores sociais que se encontram desvalorizados e/ou estigmatizados e que se colocam contrários à lógica de dominação e; III) identidade de projeto, que corresponde a uma nova construção identitária realizada a partir de elementos culturais disponíveis na sociedade e que almeja a transformação da estrutura social (CASTELLS, 1999). Além desses tipos fundamentais, identifica-se, a partir da obra de autores como Claval (1999), o território como espaço vivido e fonte de representações simbólicas e as implicações de ambos sobre a identidade, isto é, como importante espaço de interação e socialização a partir do qual são construídas representações simbólicas e materiais. Para tanto, servem de base a formação de identidades e comunidades locais centradas no reconhecimento e defesa do território, e do modo próprio de ser, em oposição ao distante, desconhecido e imprevisível, naquilo que se entende como identidade defensiva e que ora exprime uma conciliação entre cultura e meio ambiente local. Por essas digressões, trabalhou-se fundamentalmente com quatro elementos de identificação observados nos comportamentos e no imaginário dos jovens moradores de Caruaru: ação do meio; ocupação; princípio da herança e relações de parentesco, que contribuem para a formação de uma identidade maior de caráter defensivo, segundo Castells (1999). 89 Universidade da Amazônia Em relação à ação do meio, o ambiente em que os jovens estão inseridos constitui-se como um ambiente característico de comunidades ribeirinhas da Amazônia (diferença ambiental), composto de mata e rio, os que se caracterizam como lócus da subsistência e de seres encantados como o boto e a Matinta-perera16. No que tange à mata, afirma-se que ela se caracteriza pela diversificada espécie de frutos que apresenta, como o jambo (Malaya apple), castanha-dopará (Bertholletia excelsa), o cupuaçu (Theobroma grandiforum), dentre outros; além de se caracterizar pela plantação de milho (Zea-mays) e de mandioca (Manihot esculenta), principal espécie cultivada na comunidade de Caruaru. Já em relação ao rio, é caracterizado pela travessia, pelo ir e vir dos jovens; por ser o local da pesca, atividade complementar ao cultivo; lócus do boto e o espaço de brincadeiras estabelecidas pelos jovens de Caruaru. Vale ressaltar que isso se dá em função do valor simbólico e cultural que ele tem para os jovens da comunidade. Quanto à ocupação, Solari (1979) estabelece que se constitui como principal elemento de identificação para se designar uma área como rural. Conforme demonstrado na parte que discute a Ilha de Mosqueiro, a comunidade de Caruaru encontra-se na porção rural da Ilha, constituindo-se inclusive como a maior parte da referida Ilha. Dessa forma, estabelece características psicossociais semelhantes entre os seus moradores, como por exemplo: o comportamento desempenhado pelos jovens, a fala e as crenças. Então, afirma-se que as ocupações desempenhadas pelos jovens – o cultivo da mandioca, a extração de tucupi, líquido extraído artesanalmente da mandioca, a produção de carvão vegetal e a pesca, caracterizam-se como elementos formadores de identidade para os jovens de Caruaru. O trabalho desenvolvido pelos jovens ocorre fundamentalmente com o cultivo da mandioca e com a pesca atividades voltadas para a subsistência, de acordo com o depoimento: “Trabalho em lavoura mais certo tipo de serviço assim, arrancar mandioca, vender tucupi e trabalhar pros outros assim de limpar terreno quintal é isso que eu vivo” (MANDIOCA, 19 anos). No trecho em questão, o jovem abordado faz referência às principais atividades desempenhadas por ele, tais como o plantio e os cuidados com a lavoura e a comercialização dos produtos dela extraídos. Assim de carvoeiro também [...] é de meia, divide, se dé, por exemplo, assim como eu disse pra senhora, assim se der setenta...aliás se dé dezessete sacas isso dá assim R$ 80,00 reais aí divede [...] às vezes a gente tira assim 17 sacas, porque dez da quarenta e aí dezessete dá aí uns R$ 80,00 [...] assim por semana. A gente tira assim, trabalhando 16 90 Lenda Amazônica que fala de uma velha vestida de preto, com os cabelos bastante assanhados caídos no rosto, que costuma sair ao escurecer, de preferência nas noites sem luar, em busca de tabaco e assustando as pessoas (ELIAS; MATHIAS, 2005). ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional como amanhã, aí nós vamos queimar terça e quarta, aí na segunda que vem aí já pode ensacar, e 4º feira assim já tá exportando [...]. Quando às vezes dá pouco, 40,00, 50,00 [...] (SERINGA, 19 anos ). As duas falas representam o tipo de ocupação desempenhada na comunidade de Caruaru. A segunda, que diz respeito à ocupação voltada à produção de carvão, aponta para o terceiro elemento de identificação dos jovens de Caruaru, o princípio da herança. Para Solari (1979), o princípio da herança está relacionado à ocupação, pois as ocupações desempenhadas pelos jovens constituem-se em atividades as quais os seus pais desempenham. Sendo assim, esses jovens, ao crescerem nesse ambiente (diferença ambiental), tendem a reproduzir a mesma lógica (ocupação) desempenhada pelos seus pais, estabelecendo, dessa forma, o princípio da herança. Um outro elemento considerado como norteador, da identidade dos jovens trata do parentesco, visto que a comunidade é formada, segundo relatos, a partir de parentes, ou, para melhor elucidação, de pessoas que de alguma forma procuram demonstrar sua descendência da família de Manoel Bartolomeu Fróes que, em 1893, conseguiu, por meio do Estado, a legitimação das terras de Caruaru (PASSOS, 2004). Essa lógica é percebida na comunidade de Caruaru, onde pertencer à família Fróes, seja essa ascendência advinda por parte da mãe ou do pai, implica um sentimento de pertencimento, de direito a um pedaço de terra na comunidade, proporcionando tranqüilidade e garantia de bem estar de geração em geração. Em relação aos jovens entrevistados, 86,4% possuem o sobrenome Fróes, 19 em números, o que indica que o grupo reúne em sua formação irmãos e primos de primeiro e segundo graus. A partir das relações estabelecidas, ocorre a ampliação da visão de família como ordem simbólica, em que a identificação não se manifesta apenas pela relação biológica, mas por elos emocionais sem os quais as relações se desfazem pela inexistência de sentido (SARTI, 2004). No caso dos jovens de Caruaru, as relações de parentesco reais e simbólicas aparecem expressas na própria forma de os jovens se relacionarem, o que acaba por gerar uma prevalência no caso da constituição, por exemplo, de casais, ou justamente o contrário, na busca do “outro”, do “distante”, para constituição do enlace amoroso, conforme se observa: “Por causa que tipo, eu respeito elas. É, mais elas são bastante amigas da gente aí, só acho que se tornaria muito difícil” (GUARANÁ, 18 anos). Nesse depoimento, o jovem entrevistado faz alusão ao sentimento de respeito que prescinde sua relação com as integrantes do grupo, o que, no seu entendimento, dificultaria o estabelecimento de relações sexuais, o fato novamente enfatizado nesse outro recorte: 91 Universidade da Amazônia É verdade isso porque às vezes a gente só fica, alguns da gente daqui que fica com as meninas daqui mesmo, mas a gente fica com as molecas de fora sei lá a gente tem uma amizade assim muito grande por elas uma consideração a gente mora aqui a gente fica sei lá e eu me sentiria assim meio chato chegar com uma delas e querer ficar com elas [...] (INGÁ, 23 anos). Percebe-se, portanto, a reconstituição do quarto e último elemento de identificação, o parentesco real ou simbólico existente entre os jovens de Caruaru. Tais elementos expressam uma forte vinculação tanto no sentido concreto, quanto simbólico, com o território, que se constitui num referencial positivo e defensivo em oposição às territorialidades e temporalidades urbanas da Vila de Mosqueiro, marcadas pela imprevisibilidade e complexidade. 3.2.5 Perfil dos Educadores e Personalidades do Processo Educativo 3.2.5.1 Perfil dos educadores No decurso da pesquisa foram realizadas entrevistas com quatro educadores do grupo, sendo três deles ligados diretamente (coordenadores e coreógrafo) e o outro, mais diretamente ligado ao histórico de constituição do grupo. Para tanto, nesse item se faz especial referência à análise do perfil dos educadores diretamente ligados ao processo de formação e consolidação do grupo. No que diz respeito ao gênero, um dos educadores é do sexo feminino e outros dois são do sexo masculino, todos com idade entre 28 e 30 anos. Em relação à naturalidade dos educadores, são oriundos de diferentes municípios e regiões do Estado: da própria comunidade de Caruaru; outro do município de Igarapé Açu, localizado na região nordeste do Estado, e outro do município de Cametá, região do baixo Tocantins, também no Estado do Pará. No que concerne ao estado civil dos educadores, todos são casados, com destaque para os coordenadores do grupo que são marido e mulher, com um casal de filhos, todos residentes na comunidade de Caruaru. Quanto à escolaridade dos entrevistados, dois abandonaram seus estudos durante o segundo ano do ensino médio e o outro, atualmente, cursa o ensino médio no supletivo em uma escola na cidade de Belém. No que se refere à ocupação e renda, um dos educadores desempenha a função de dona de casa e educadora no grupo, mas sem renda; outro entrevistado, além de educador do grupo, é responsável pelo transporte escolar dos alunos de Caruaru para a Vila de Mosqueiro, trabalhando em média oito horas por dia, com remuneração de U$ 206,4017 da Secretaria Municipal de Educação de 17 92 Conversão da moeda nacional realizada a partir dos valores do dólar no dia 15/09/04, isto é, U$ 1,00 = R$ 2,907. O Liberal, caderno Painel/Economia, p.6. ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional Belém – SEMEC, e possui uma renda complementar decorrente do frete do barco para o transporte de pessoas e mercadorias, que pode chegar a U$ 68,6018 mensais. E o terceiro educador trabalha como segurança em festas realizadas durante os finais de semana, além do trabalho de divulgação do folclore, com ritmo de trabalho intenso, porém de difícil quantificação. Sua renda não foi declarada durante a pesquisa. 3.2.5.2 Relações familiares, cotidianos e preferências dos educadores No que se refere à relação familiar, os educadores entrevistados a consideram boa, embora se observe no cotidiano a existência de pequenos conflitos. O casal de educadores costuma frequentar festas realizadas nas comunidades do entorno, na Praça da Matriz, nas praias do Areião e no Paraíso, em Mosqueiro, e na Ilha de Outeiro, outro distrito pertencente ao município de Belém. Na oportunidade, a família opta por lazer e divertimento para família, realizados em lugares mais calmos e considerados menos perigosos, chegando a gastar em média U$ 10,3219. 3.2.5.3 Religiosidade e participação política dos educadores No que tange à religiosidade, todos os educadores se autodeclararam católicos, sendo a religião considerada uma forma de segurança em momentos de dificuldade e transição, ao mesmo tempo em que é uma espécie de identificação surgida com o batismo e fortalecida ao longo da vida, não devendo ser questionada ou discutida. Consideram ainda que os jovens, em sua maioria, encontram-se afastados da religião, devendo todos, entretanto, possuir uma compreensão mínima de religião, seja ela católica, evangélica ou de outra denominação. Já no que diz respeito à política, verifica-se que, assim como os jovens de Caruaru, os educadores entrevistados também possuem uma visão funcional e negativa da política, geralmente relacionada ao jogo de interesses e ao desejo observado nos políticos de se apoderarem da coisa pública, sem oferecer retorno às demandas da população, conforme se observa no depoimento abaixo: [...] hoje em dia quer dizer até pra gente confiar num político hoje em dia é meio difícil, porque nem todos, uns pela frente falam uma coisa, por trás tá falando outra. Então, quando fala de política a pessoa fica com pé atrás. Mas pra mim política...eu não sei nem direito falar [...] um pouco confuso, porque pra mim a política hoje em dia é uma coisa que nós não podemos confiar (EDUCADOR). 18 19 Ibid., p. 6. Ibid.,p. 6. 93 Universidade da Amazônia Para o educador, a falta de coerência das propostas de campanha e a prática dos eleitos conduzem a uma desconfiança por parte da população perante os políticos e a própria política. Tal percepção é reforçada no trecho a seguir quando o entrevistado faz especial referências aos esquemas de clientelismo e a corrupção atualmente existente na política: Eu digo sempre que político e política são de conveniências. [...] Eu digo “Olha é difícil tu chegar num ambiente político, tu se candidatar e te eleger, e tu continuar com tuas ideias, tuas ideias forem aceitas, porque dentro do sistema, a maioria é corrompida”. Porque eu conheço, tenho o exemplo de amigos que foram criados junto comigo, e hoje nem olham pra mim, eu votei no cidadão, mas não olham pra mim [...] Por esse lado eu acho que a política corrompe qualquer cidadão [...] (EDUCADOR). Nesse sentido, diz-se que as representações dos educadores radicados em Caruaru provavelmente surgem como reflexos do clientelismo manifesto na comunidade durante a organização e a realização da festividade em homenagem à Santa Rosa de Lima, conforme abordado em outro item deste relatório. Por sua vez, aquelas manifestadas pelo educador residente na cidade de Belém surgem a partir da sua observação em relação à política em uma escala macro, isto é, em nível de município, Estado e País. 3.2.5.4 Histórico do grupo, mudanças e transformações De acordo com as notas sobre o processo de constituição do grupo, dois dos educadores entrevistados, uma das idealizadoras e o coreógrafo, encontram-se a ele ligados desde a sua criação em julho de 2003. Em relação às mudanças na forma de condução do trabalho, verifica-se que são poucas devido ao pouco tempo de existência do grupo, marcadas pela mudança na coordenação do grupo e pelo próprio comportamento dos jovens envolvidos, conforme exemplificado a seguir: [...] até hoje nosso objetivo é mudar a mentalidade dos jovens, dos nossos brincantes, porque nós não queremos os nossos jovens daqui da comunidade envolvidos em casos de drogas, em violência, entrar em brigas, em conflitos, daí desde o início, sempre, nossa tese foi essa, querer dar uma ocupação bem dizer dá uma ocupação pra eles, uma coisa melhor pra eles terem outra mentalidade e já ocorreu muita diferença, até os próprios pais chegaram com nós e falaram que o comportamento dos filhos mudaram totalmente, porque tinha núcleo de jovens do 94 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional grupo que não poderia freqüentar uma festa que, bem dizer, antes de terminar a festa formavam briga, às vezes, até acabava festa, hoje em dia não [...] um jovem desse, sai pra festa, brinca a noite toda, retorna pra casa, às vezes, sem arrumar uma confusão, isso [...]já é orgulho nosso, por tá formando esse pessoal, ter mudado um pouco a mentalidade deles (EDUCADOR). Nessa fala, o educador inicialmente reforça a preocupação dos idealizadores do grupo em também combater a ociosidade, a delinquência e o alcoolismo dos jovens de Caruaru, inserindo-os em um grupo de interesses, em um agrupamento com características próprias em busca de um bem ou direito (PASSOS, 2004). O surgimento do grupo possibilitou mudanças no comportamento dos jovens que, segundo a percepção do educador entrevistado, encontram-se menos agressivos. Além da redução da agressividade, outro elemento observado diz respeito à introversão dos jovens que, segundo os educadores, foi reduzida devido ao ingresso no grupo: [...] Eles estão mais comunicáveis, estão mais...acessíveis de a gente conversar, de a gente entrá dentro do assunto deles, do problema de cada um, a gente já sabe qual é o perfil de cada um, né, a questão pessoal também, foi muito colocado, muito conversado, isso [...] Eu já acho que eles já estão noutra fase, assim. Já conseguem conversar, já conseguem se comportar [...] principalmente os meninos [...] (EDUCADOR). Observa-se ainda no discurso dos educadores, como um elemento potencializado pelo grupo, a retomada do interesse pelo estudo, visto que alguns jovens, que se encontravam fora da escola, retomaram seus estudos após o ingresso no grupo: [...] Pôxa os meninos tavam sem estudar, parece que o [...] e... Como é o nome dele? O [...]. Eles saem 5 horas de canoa lá pra Vila, atrás de colégio. Acho que o grupo também teve essa influência grande, com eles. E eles começaram a se interessar, e...também botar na cabeça que aquilo ali, também o grupo não ser pro resto da vida deles, eles querem outra vida, né, eles querem sair da ilha, eles querem se realizar profissionalmente, né. A gente pergunta pra meninas o que elas querem ser. A gente vê elas indo estudando no barco que elas vão fazer prova, elas vão estudando. Eu acho que o interesse principalmente pelo estudo, mudou muito. (EDUCADOR). 95 Universidade da Amazônia Nesse sentido, considera-se que, de modo geral, o interesse pela participação escolar e pela conclusão dos estudos são considerados pelos entrevistados como desafios para os jovens de Caruaru. Entretanto, esse assunto não é recorrente na fala dos jovens entrevistados, visto que, quando abordados sobre a questão, fazem referências somente às mudanças no comportamento e à aquisição de novas habilidades, fatores potencializados pelo grupo. 3.2.5.5 Conflitos no grupo A análise dos dados revela ainda a presença de pessoas com ideias diferentes no grupo, o que é visto negativamente pelos educadores quando envolve divergências entre irmãos, primos ou vizinhos, por influenciar na dinâmica do grupo. Em contrapartida, os educadores visualizam essas diferenças também positivamente, quando se trata de sugestões com finalidade de aprimorar as coreografias executadas pelo grupo, que podem ou não ser acatadas pelo coreógrafo do grupo, conforme se observa no trecho a seguir: porque [...] eu dou direito pra eles me cobrarem, daí muitos deles colocam as opiniões deles, se a opiniões deles e se eu ver que bem dizer cabe alguma coisa pro grupo, aí a gente aceita, se não é criticado até por mim, como qualquer brincante. No grupo, nós somos um grupo aberto, tanto pra eles expressarem o que sentem como nós (EDUCADOR). Observa-se que sugestões que visem à melhoria do grupo, na visão dos educadores, não se constituem como fonte de conflito. No entanto, para eles, alguns dos jovens inseridos no grupo possuem dificuldade em aceitar críticas acerca do seu desempenho: O conflito, às vezes, não quer receber crítica do companheiro, às vezes se ele tá dançando errado o companheiro vai querer consertar ele e as vez ele não aceita, as vez que sempre se julgar melhor, se sabe um pouquinho pensa que sabe grande coisa, tem as vez que vamos cobrar em cima dele e ele acha que tá no direito, aí e o ponto que nós vamos explicar que não é bem assim, que a cada dia que passa a pessoa aprende mais, nunca a pessoa sabe de tudo e muitos não querem aceitar isso daí (EDUCADOR). Tais conflitos são resolvidos por meio do diálogo entre jovens e educadores e também pela aplicação do estatuto do grupo, documento criado a partir da adaptação de um modelo adotado pelo Grupo Moara que estabelece os direitos e deveres dos componentes, com o objetivo de regulamentar e disciplinar as relações entre os integrantes do grupo. 96 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional 3.2.5.6 Relações de gênero no grupo De acordo com o discurso dos educadores entrevistados, não existe tratamento diferenciado em relação ao gênero no grupo: Não, [...] o tratamento tanto pro homens quanto pras mulheres são os mesmos, né, agora existe o respeito né? Nós queremos o respeito, porque vocês tem aquele pouquinho de diferença, né, lá nós sempre colocamos sempre pros homens que tem que respeitar as mulher, né, mas o tratamento sempre é o mesmo, disciplina sempre é a mesma disciplina (EDUCADOR). Nesse depoimento, percebe-se que a coordenação, embora reconheça as diferenças entre os jovens, busca neles incutir valores como a disciplina e o respeito. Não, a gente não dá um tratamento diferenciado a gente coloca, a gente sempre coloca como estamos responsáveis pelo ensaio [...] no caso a gente coloca a [...], coloca a [...] também [...] sempre, a gente coloca ela pro ensaio, mas é assim os meninos não dão muito crédito pras meninas, eles sempre tem essa coisa, dizem que as meninos não mandam nada, ainda dizem assim não é que seja um tratamento diferenciado, mas eles acham que as meninas não tem a voz altiva o suficiente pra tá conduzindo o ensaio ou outra coisa (EDUCADOR). Contudo, observa-se que, conforme já abordado em outro momento do relatório, há, entre integrantes do grupo, uma percepção diferenciada em relação aos gêneros. Essa representação resulta em práticas diferenciadas no que tange às funções e aos papéis relacionados ao homem e à mulher. 3.2.5.7 Grupo como Processo Educativo Na sociedade, existem vários espaços de aprendizagem, cada um com a sua especificidade. A família educa de um jeito, a escola de outro, o grupo, a turma, a gangue, a galera etc. Em cada situação se estabelece uma maneira de ensino e de aprendizado, sendo estas marcadas não somente pelo lugar ou pelas pessoas, mas também por um momento da trajetória pessoal e da história da humanidade, pela sociedade na qual se vive, pelo espaço em que se aprende e pelas pessoas que estão encarregadas de ensinar (CHARLOT apud LOMONACO, 1999). 97 Universidade da Amazônia Sendo assim, afirma-se que um grupo constitui-se como um veículo ou iniciador de práticas sociais, realizadas tanto por meio das relações afetivas que se estabelecem entre os indivíduos, como pela realização das tarefas comuns e das obrigações definidas entre seus membros desde a constituição do grupo (WALLON apud LOMONACO, 1999). No grupo “Raízes do Caru-aipim”, esse processo se realiza a partir da mobilização interna de um discurso que evoca o combate à ociosidade, à delinquência e ao alcoolismo dos jovens de Caruaru, isto é, o seu “resgate” do universo das drogas e do vandalismo à inserção comunitária e social (CARDOZA, 2004), muito embora esse discurso não seja manifesto pelos educadores: [...] Prá nós é esse objetivo sabe. O grupo em si eles não sabem porque eles tão no grupo e o porque que eu fiz essa chamativa prá pra tá inserido no grupo. Porque eu não meto essa questão, vou te inserir prá ti mudar tua vida eu não coloco essas questões pra eles. Prá gente o objetivo é esse em mudar, é fazer que eles se sintam como uma pessoa fundamental na comunidade [...] que eles seja reconhecidos como pessoas, não como vândalos, não como brigão [...] como são chamados muitas vezes [...] (EDUCADOR). Dessa forma verifica-se que os objetivos do grupo não são mobilizados como meio de mobilização e incorporação de jovens no grupo, mas aparecem de forma subliminar no discurso dos educadores. Outrossim, destaca-se, no depoimento dos educadores entrevistados, a realização de atividades comuns com os ensaios que visam à qualificação das coreografias apresentadas pelo grupo e à realização de apresentações públicas, que materializa a visibilidade do grupo: Eu acho que é caso de aprender um pouco mais a dança e ao mesmo tempo como eles mesmo falam, mostrar um pouco da comunidade ao povo lá fora, mostrar que aqui na comunidade tem alguém que é capaz...acho que mostrar um pouco da cultura da nossa comunidade e um pouco do que os jovens sabem (EDUCADOR). Nesse caso, percebe-se que o interesse pela divulgação da comunidade constitui-se em prática educativa, devido a sua capacidade em aglutinar os jovens com vista à execução de tarefas comuns. Logo, entende-se que a articulação entre estes diferentes objetivos e interesses permite o exercício da regulação da capacidade de reflexão, a negociação de ideias e valores, o desenvolvimento de responsabilidades e o fortalecimento da autoestima dos atores envolvidos (LOMONACO, 1999). 98 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional 3.2.5.8 Avaliação da prática educativa O trabalho de um educador consiste numa contínua negociação junto a todos os participantes dos vários aspectos referentes ao funcionamento do grupo, como: articulação dos desejos para a construção de um espírito coletivo; organização e funcionamento; manutenção da coesão; realização de tarefas; construção de sentido e finalidade do grupo. Processo esse que se dá no cotidiano, permeado pelo papel do educador na função de articulador da prática educativa e como modelo que favoreça o desenvolvimento da autoestima de seus educandos (LOMONACO, 1999). Por conseguinte, infere-se que os educadores entrevistados, de modo geral, consideram a sua participação no grupo como importante, em virtude do comprometimento com o trabalho desenvolvido e os resultados obtidos junto aos jovens, que a eles retornam, ora positivamente, sob a forma de satisfação dos integrantes do grupo e de seus pais, ora negativamente, na forma de críticas manifestadas pelos integrantes da comunidade religiosa local: Algumas mães elas achavam assim que [...] somos, eles acham assim que nós somos o principal se a gente não existir e se a gente afastasse o grupo o grupo ia acabar [...] tem pessoas que criticam também, não dizem isso diretamente prá gente, mas dizem prós pais e até prós brincantes: “Os coordenadores de vocês só se preocupam com a parte profana, cadê a parte religiosa?” [...] mas a gente trabalha como um todo, nós também temos a nossa parte religiosa dentro do grupo (EDUCADOR). O depoimento citado demonstra que o desenvolvimento das atividades do grupo e os resultados alcançados são capturados de forma diferenciada pela comunidade, isto é, os pais dos jovens, principais beneficiários do projeto, tendem a assumir uma postura de incentivo e defesa em relação aos educadores, já outros, como a comunidade religiosa, assumem uma postura de crítica em relação à ênfase demasiada dos educadores, por considerarem as atividade desenvolvidas como profanas. Observa-se que, embora pesem as críticas, os educadores consideram o desenvolvimento dos trabalhos junto aos jovens como uma atividade prazerosa, mesmo sendo de difícil realização, em função do caráter essencialmente dinâmico e transitório da juventude: É um pouquinho complicado né porque eu acho que, jovem a pessoa tem que ter todo aquele cuidado, porque mesmo, um momento tá pensando uma coisa, depois pensa em outra, se você não souber levar os jovens, tanto ele pode ir 99 Universidade da Amazônia pra um lado bom, como pode ir pro outro, de drogas e de criminalidade. Então nós sempre temos que colocar na cabeça deles, mostrar o que é certo, o que é bom, ocupar sempre a mente deles eu acho com coisa boas pra eles não ficarem pensando besteiras (EDUCADOR). No trecho acima, reflete-se sobre a dificuldade do educador em trabalhar com os jovens, dificuldades essas relacionadas ao caráter essencialmente dinâmico de uma juventude em um período de constantes transformações, sejam positivas ou negativas, progressistas ou conservadoras. Verifica-se também que os educadores entrevistados manifestam o desejo do desenvolvimento de outros papéis em relação ao grupo, quando se pode estabelecer um relacionamento mais próximo com os integrantes, contribuindo mais efetivamente para a formação dos jovens. Percebe-se ainda, a partir do relato dos educadores entrevistados, certa relutância por parte deles em admitir o papel de liderança em relação ao grupo, possivelmente devido à visão colidente que possuem acerca do papel do líder, enxergando-o como um indivíduo possuidor de determinada liderança, autoridade e autoritarismo. Esse fato é comprovado no relato de dois de seus educadores: Eu não me considero uma liderança, mas eu sou imposta a isso. Mesmo que eu não me considere dentro do grupo ou fora do grupo, mas as pessoas me verem como se eu fosse uma liderança eu não me considero essa pessoa que eles coisa, mas, às vezes, eu tenho assumir, ser porque eles vem tudo pra cima de e eu tenho que decidir, eu tenho que resolver, aí fica dessa maneira (EDUCADOR). Eu acho que um amigo deles [...] que tá sempre ensinando um pouco a mais deles [...] sempre estamos dispostos a ensinar um pouquinho mais pra eles, digamos não me considero um líder, líder [...] é uma pessoa que tá acho que diretamente sempre impor, colocar o que tem ser feito ou o que deixa de ser feito, ser um pouco mais duro, eu acho que quando eu tenho que ser duro, eu sou duro, mas [...] meu termo com eles é mais termo de amizade (EDUCADOR). Nesse sentido, observa-se que os desafios do grupo estão relacionados especialmente à obtenção de uma maior aceitação e apoio interno, isto é, na própria comunidade de Caruaru, sem contar com a obtenção de apoio por parte do poder público, das instituições e das organizações para o custeio de transporte, de vestimentas e instrumentos, dentre outros. 100 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional 3.2.5.9 Percepção dos educadores em relação à juventude o trecho a seguir, observam-se as representações dos educadores em relação à questão da juventude como um momento, uma fase de difícil aprendizado, assim como de transição entre a subordinação característica da infância e a autonomia adulta. Eu acho que é aquela pessoa que tá aprendendo a viver [....] é uma pessoa [...] que tá nascendo [...] pra outra fase da vida [...] uma das fases mais difíceis que nós temos, porque é a fase [...] pra mim é a fase da aprendizagem, porque os jovens sabe como é, uma mudança da parte da vida dele, é uma mudança [...] de decisão, muitas vezes, às vez num momento principalmente pro homem, que vai ser uma idade de autoritarismo pra ele [...] completando os 18, sabe que vai ter aquela responsabilidade depois, acho que jovem é um desafio a cada dia que tem (EDUCADOR). Os educadores entrevistados apontam também a importância da educação, da saúde e do lazer como instrumentos para a constituição de uma juventude livre, responsável e sadia. O depoimento adiante reforça a necessidade de acesso a bens culturais, como a educação e o lazer como uma forma de valorização da juventude, especialmente a ribeirinha. Eu acho que ele (jovem) tem que ter o seu estudo, acima de tudo ele tem de ter o direito ao estudo, tem que ter direito ao seu divertimento e ele se... as pessoas darem um pouco mais de respeito, pra eles se sentir valorizado e mesmo eles morando numa comunidade ribeirinha eles tem o mesmo potencial do que o outro que mora na cidade. Então o jovem ribeirinho pra mim ele tem que ser uma pessoa livre, livre escolha e ele tem que ser consciente (EDUCADOR). Em relação às dificuldades vivenciadas pela juventude, verifica-se que os educadores residentes em Caruaru as vinculam às dificuldades de contato e relacionamento com a sociedade mais abrangente que não reconhece e valoriza a juventude. Por sua vez, os educadores residentes em Belém identificam como dificuldades a questão do transporte, que se constitui num grande desafio para a continuação dos estudos, portanto, para a ampliação dos capitais humano, cultural e econômico. No que diz respeito à juventude ribeirinha da Amazônia, de modo geral, os educadores entrevistados retomam a necessidade de implementação de políticas públicas nas áreas de educação e lazer como meio de superar as desigualdades e o preconceito ainda existentes em relação à comunidade e aos jovens ribeirinhos. 101 Universidade da Amazônia Portanto, percebe-se, a partir da análise dos dados, que as representações de juventude manifestadas pelos educadores possuem uma grande convergência nas percepções sobre juventude expressa pelos jovens, em que se articulam elementos como: I) a noção de transitoriedade do período juvenil; II) a noção de projeto da juventude como uma etapa de preparação para a assunção dos compromissos de uma vida social plena; III) a noção de crise e ruptura com os velhos paradigmas. 3.3 UNIVERSO CENTRO URBANO 3.3.1 Encontros Transculturais: uma reflexão acerca do processo de formação de identidade religiosa a partir dos adolescentes da Primeira Igreja Batista – PIB 3.3.1.1 Contextualizando o Universo Centro Urbano: a cidade de Belém Belém foi fundada em janeiro de 1616 pelos portugueses, que logo em seguida iniciaram o processo de colonização. Construíram o Forte do Presépio, marco histórico da fundação da cidade e abriram a primeira rua, Rua do Norte, hoje Siqueira Mendes, que segue do Forte do Castelo até a casa do capitão-mor Bento de Maciel Parente, onde hoje está localizada a Igreja do Carmo, na praça homônima, no bairro da Cidade Velha (CAPELOSSI & SEYNAEVE, 1992). Com a expansão urbanística, a cidade ficou dividida em dois bairros: o da Cidade e o da Campina, tendo como limite de separação o Igarapé de Piri. Nos bairros, a paisagem se assemelhava: ambos com ruas estreitas, tortuosas, sem calçamento, com poucas edificações, e com algumas igrejas e conventos que se sobressaiam do conjunto arquitetônico, predominantemente constituído por casas de um pavimento, de taipa de barrote revestido de tijuco, o que denunciava a espontaneidade do desenvolvimento urbano. Havia dúvidas se o local escolhido para instalar a cidade era realmente apropriado, uma vez que o sítio devia ter disposição e qualidade para que ali se pudesse, durante o tempo, formar um povoado. Por conta disso, o acerto da escolha onde Castelo Branco instalara o povoado foi logo questionado. Belém foi fundada num fragmento de terraço em um terreno disposto de sete ou oito metros acima do nível das águas. O terreno, ao sul, era, como ainda hoje, contornado ao sul por um rio, o Guamá; a oeste, por uma Baía, a do Guajará; e isolado nas outras planícies inundadas por um imenso igarapé, o do Piri. Dessa forma, o espaço seria inadequado, do ponto de vista da segurança militar, por estar situado entre pântanos, o que dificultaria a defesa, e também inapropriado para o futuro de um povoado, visto que ao lado do forte havia uma ladeira e depois dela um imenso mangue (MONTEIRO, 1999). A alta pluviosidade, decorrente do volume de água das chuvas que caem em Belém, as marés elevadas e as enchentes das marés se somavam às chuvas e 102 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional à baixa declividade (o baixo nível médio dos terrenos), o que levou as autoridades a acreditarem que aquele não seria o local adequado para se gerar uma Metrópole. Foi então que após menos de três anos da fundação de Belém, havia o ordenado de transferência do povoado para outro lugar. Para tanto, surgiram diversas sugestões: Icoaraci, chamada na época de Ponta do Mel; Colares, antigamente chamada Ilha do Sol; e Joanes, no Arquipélago do Marajó. Entretanto, todas as três tentativas foram fracassadas devido à resistência dos moradores em permanecer no local, principalmente pelo fato de o rei de Portugal só autorizar a transferência caso a população estivesse de acordo (MONTEIRO, 1999). Daí o povoado não deixou de crescer, hoje virou uma “metrópole”, e as condições adversas de seu sítio geraram contrapartidas para a cidade, pois provocaram o desenvolvimento de uma engenharia capaz de conviver com as complexidades da região. 3.3.1.2 O Espaço Urbano de Belém Belém, capital do Estado do Pará, está localizada na embocadura de um braço do delta Amazônico, na baía do Guajará, cercada de ilhas que pertencem à parte insular do município de Belém, sendo recortada por vários canais, igarapés e rios. A cidade limita-se ao norte com a Baía do Guajará; ao sul com o rio Guamá e município de Acará; a leste com o município de Ananindeua, Santo Antônio do Tauá, Santa Bárbara do Pará e Marituba; a oeste com a Baía do Guajará e Baía do Marajó. Chamada por muitos de “Cidade das Mangueiras”, devido a seus túneis verdes de mangueiras nas ruas da cidade, Belém disputa com a cidade de Manaus, capital do Estado do Amazonas, o título de capital da Amazônia brasileira. O Pará e o Amazonas fazem parte dos setes estados da região Norte do Brasil e dos noves estados da Amazônia Legal. A capital paraense possui uma área aproximada de 506.488.306,120 m 2 ou 1.065 Km 2, desses: 242.812.198,422 m2 pertencem à área urbana e 263.676.107,698 m2 à área rural (CODEM, 2001). É identificada como a segunda metrópole da região Amazônica em relação ao nível populacional com 1.280.614 de habitantes (CENSO DEMOGRÁFICO, 2000) com uma estimativa populacional para 2003, segundo o IBGE (2002), de 1.342.202 habitantes. A cidade de Belém constitui a região continental do município de Belém e ocupa 170 Km2, que estão divididos em oito distritos administrativos (agrupamentos de bairros e/ou áreas limítrofes) e 78 bairros (CODEM, 2001). O cenário urbano de Belém compreende apenas 1/3 de seu território, que é complementado por ilhas pertencentes à parte insular do município, sendo que 39 delas estão identificadas e habitadas, como a Ilha das Onças, do Papagaio, Cumbu, Mosqueiro, Jutuba, Arapiranga (GOVERNO DO ESTADO DO PARÁ, 2004). Em relação ao espaço centro urbano da cidade, destaca-se que esta pesquisa de campo foi realizada na Primeira Igreja Batista do Pará - PIB, situa- 103 Universidade da Amazônia da no bairro de Nazaré (centro da cidade de Belém), na Avenida Assis de Vasconcelos (Praça da República). O nome desse bairro homenageia a Basílica de Nazaré que, inicialmente era uma singela capela fundada em meados do século XVIII, a partir de 1909 adquiriu uma forma arquitetônica suntuosa, seguindo os moldes da Basílica de São Paulo Extra Muros, em Roma. Hoje, a Basílica é consagrada como um dos símbolos mais importantes do Círio de Nossa Senhora de Nazaré, grande manifestação de fé religiosa católica do povo paraense (CAPELOSSI & SEYNAEVE, 1992). Rocque (apud RODRIGUEs 1996, p.136) destaca que o bairro de Nazaré, no início de sua fundação, era habitado por famílias de poder econômico elevado que construíam suas casas de campo na estrada de Nazaré, hoje Avenida Nazaré. Atualmente, o bairro, ainda, se constitui como um reduto de famílias com esse padrão, haja vista possuir características residências suntuosas, na sua maioria edificações verticais e comerciais, formadas por grandes conjuntos de lojas de artigos diversos, bancos estatais e privados, serviços públicos, hotéis, cinemas, teatro, igrejas, escolas, praças, museus, e também por o que Trindade (1999, p.147) chama de “signos da modernidade”: shoppings centers, condomínios de luxo e ruas como espaço privilegiado de automóveis. Todos esses elementos, associados aos equipamentos públicos que o espaço possui, como, água encanada, saneamento básico, energia, entre outros, proporcionam aos seus moradores uma grande comodidade e oferecem ótimos ambientes de lazer e excelentes oportunidades de serviços públicos e privados. 3.3.1.3 O Espaço Pesquisado: Primeira Igreja Batista - PIB A Primeira Igreja Batista de Belém e da Amazônia, possuidora de uma história centenária, localiza-se na Avenida Assis de Vasconcelos, 817, Nazaré, espaço de fácil acesso, visto que grande parte das linhas de ônibus urbano que percorrem a cidade de Belém tem como rota as ruas que a rodeiam. A Igreja está sediada em uma área bastante interligada aos demais bairros da capital e, por conta disso e também devido ao apelo da sua localização central e da facilidade do transporte ao acesso, constitui-se como um ponto aglutinador de migrantes oriundos do interior do Estado do Pará e do Brasil. A localização da PIB pode ser considerada privilegiada, uma vez que está situada em frente à Praça da República, antes Largo da Pólvora, ladeada por uma das principais avenidas da cidade, a Presidente Vargas, que têm, em toda a extensão e nas transversais, uma grande parcela de trabalhadores informais com bancas de produtos diversos. A Praça da República é uma das praças mais belas de Belém; palco de atrações, como a Feira de Artesanato, ocorrida aos finais de semana; “lócus” de intensas manifestações culturais, políticas, sociais e religiosas. Arquitetonicamente, compõem a sua bucólica paisagem coretos de ferro, mangueiras, jar- 104 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional dins, monumentos históricos e edificações como o Núcleo de Artes da Universidade Federal do Pará e o Bar do Parque; além de importantes teatros, como: o Teatro Waldemar Henrique, fundado em 1979, e o Teatro da Paz, inaugurado em 1878 (CAPELOSSI & SEYNAEVE, 1992). O Teatro da Paz tem presença marcante na Praça e é uma obra importante para a cidade. Construído em 1897, no período do ciclo da borracha, foi o primeiro teatro de ópera da região norte do Brasil, com um estilo neoclássico da escola de arquitetura européia, introduzida pelos franceses no inicío do século XIX. Atualmente é mais acessível à sociedade paraense em geral, sendo palco de grandes eventos como peças teatrais, recitais nacionais e internacionais e diversos programas culturais. FIGURA 8: Localização da PIB no bairro de Nazaré – Belém/Pa Fonte: www.pibpa.org.br 3.3.1.4 Identidade Religiosa e Referências Culturais da PIB Nessa pesquisa, parte-se da premissa de que a identidade, independentemente do seu caráter, que pode ser religioso ou se apresentar das mais variadas formas, é desenvolvida por um conjunto de atributos e referenciais cultu- 105 Universidade da Amazônia rais. Então é pela diversidade de atributos culturais que papéis sociais são constituídos, que se configura a ação social. Portanto, acredita-se que, a partir de uma instituição, os atributos sociais e culturais podem ser consolidados enquanto identidade em pessoas que compartilhem das ações sociais pertinentes à instituição inserida (CASTELLS, 1999). Nesse sentido, a PIB, na condição de instituição formadora de identidades por ter referenciais de princípios religiosos, tende a introjetar em seus adeptos os mesmos valores e atributos culturais de caráter religioso. Logo, configura-se como uma instituição formadora de identidade religiosa. Para a compreensão do processo de formação de identidade religiosa e dos referenciais culturais compartilhados pela PIB, faz-se necessária uma compreensão de sua história, sua estrutura e sua denominação, pois, a partir do esclarecimento do “como” e dos “motivos” da ação religiosa e social, torna-se mais fácil a compreensão do fato de como se dá a formação de identidade. 3.3.1.4.1 Sua história No Brasil, os batistas organizaram a primeira igreja em 15 de outubro de 1882 e, no Pará, foi fundada em 02 de fevereiro de 1897 pelo membro Eurico Alfredo Nelson (PEREIRA, 1982). A PIB é autônoma nas suas decisões, possui governo democrático e rege-se pela palavra de Deus em todas as questões, sejam elas doutrinárias, éticas, espirituais, sob a orientação do Espírito Santo. É uma instituição de caráter religioso e sem fins lucrativos, e adota os princípios batistas enunciados na Declaração Doutrinária votada na Convenção Batista Brasileira, à qual é filiada (ESTATUTO DA IGREJA, 1993). No documento intitulado “Nossa História: Pastores e Dirigentes”, consta a informação de que a PIB, no decorrer de seus 106 anos de existência, foi dirigida por 29 pastores e missionários, e 19 moderadores leigos. No momento da pesquisa, é gerida pelo Pastor Elias Teodoro, que assumiu o Ministério Pastoral no dia 21 de fevereiro de 1992 e tem como uma das marcas do seu pastorado o ministério de casais. 3.3.1.4.2 Sua estrutura O Estatuto da Igreja aponta que a PIB é constituída atualmente por uma Diretoria Estatutária composta por Presidente, Moderadores, Secretários e Tesoureiros. Além dessa estrutura organizacional, a PIB é formada por vários Ministérios, dentre os quais, destacam-se: Ministério da Família; Educação Religiosa; Música; Evangelismo e Missões; Juventude; Adolescentes; Ação Social; Oração e Intercessão; Visitação; Comunicação; Patrimônio e Finanças. 106 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional Dos Ministérios que compõem a PIB, neste relatório, faz-se referência ao Ministério de Educação Religiosa, responsável pela formação cristã de todos os membros da Igreja. Compõem esse Ministério a Escola Bíblica Dominical, Juventude, União dos Adolescentes, Mulher Cristã em Ação, Embaixadores do Rei, Mensageiras do Rei, Centro de Literatura Cristão, Esportes e Grupo de teatro. 3.3.1.4.3 Sua denominação Durante a pesquisa documental na Primeira Igreja Batista do Pará, teve-se contato com alguns textos escritos pelo Pastor Elias Teodoro, dos quais se destacam alguns aspectos sobre a denominação batista, informações que foram extraídas da Revista Diálogo e Ação (1990). O documento explica, de maneira sucinta, que os primeiros batistas surgiram no século XVI na Europa, mais precisamente na Inglaterra, tendo como líder mais antigo Thomas Hellwys; e que o nome batista significa “o que batiza”, João era “o batista” porque mergulhava convertidos nas águas, pelo arrependimento pessoal. Os batistas crêem que a fé surge antes do batismo, e não o batismo antes da fé, e têm muitas convicções em comum com outros cristãos, por exemplo: a crença em Deus como o criador de todas as coisas; em Jesus Cristo como Senhor e Salvador; na cruz e na ressurreição, no Pai, no Filho e no Espírito Santo e nos ensinamentos de Cristo. Aceitam também a maior parte das doutrinas seguidas pelos evangélicos, como: a autoridade das Escrituras, a doutrina de Deus, da Trindade, de Jesus Cristo, do Espírito Santo, entre outras (EM QUE CREEM OS BATISTAS, 2001). Vale ressaltar que a Educação Religiosa na PIB, pelo fato de ser padronizada e contínua quanto à faixa etária e ao grau de cognitividade, assume, segundo Berger (2003), um caráter de “socialização secundária” formal. A PIB adota como princípios doutrinários valores morais de preservação do corpo a partir de atividades voltadas à educação sexual, à prevenção do uso de substâncias químicas, além de prezar pelas atividades religiosas e missionárias. 3.3.1.4.4 Sua identidade religiosa Como citado anteriormente, os batistas organizaram a primeira igreja em solo brasileiro em 1882 e no Pará em 1897. Essa trajetória iniciou-se na Inglaterra e expandiu-se para a América do Norte que, por meio da Convenção Batista do Sul dos Estados Unidos, nomeou o Pastor Thomas Jefferson Bowen para desenvolver o trabalho missionário no Brasil (PEREIRA, 1982). Diante desse contexto, constata-se que as raízes históricas e identitárias da PIB podem ser encontradas na Europa e nos Estados Unidos. Desse modo, na tentativa de compreender o conceito de identidade que mais se aproxima da 107 Universidade da Amazônia PIB, essa pesquisa ancorou-se nos conceitos de identidades propostos por Castells (2001), tendo-os como referência geral. Segundo Castells (2001), ao se ter conhecimento de que a construção das identidades ocorre numa situação marcada por relações, podendo essas ser relações de poder, acredita-se que há três formas e origens de construção de identidades: a) identidade legitimadora; b) identidade de projeto e c) identidade de resistência. A identidade legitimadora é introjetada pelas instituições dominantes da sociedade no intuito de expandir e racionalizar sua dominação sobre os atores sociais. A identidade de projeto consiste na utilização de qualquer tipo de material cultural ao alcance para a construção de uma nova identidade que redefine sua posição social com o intuito de transformar toda uma estrutura social. Ao passo que a terceira forma de identidade, a identidade de resistência, é criada por atores sociais que se encontram em condições desvalorizadas e ou estigmatizadas pela lógica da dominação, construindo então mecanismos de defesa com base em princípios diferentes dos que permeiam as instituições sociais. Conforme Castells (2001), a identidade legitimadora origina um conjunto de organizações e instituições estruturadas e organizadas que reproduzem a identidade projetada nos atores sociais que, a partir de então, internalizam as fontes de dominação estrutural. Nessa perspectiva, acerca da identidade religiosa da PIB, acredita-se que o conceito mais próximo seja a identidade legitimadora, pois a PIB, é uma instituição religiosa estruturada e organizada que, na medida do possível, objetiva que seus membros internalizem e reproduzam de maneira espontânea suas doutrinas e princípios na busca de fortalecer a sua identidade religiosa, que, de forma direta ou direta, também sofre modificações por meio dos tempos e lugares. 3.3.1.4.5 Breve histórico sobre a Escola Bíblica Dominical – EBD Para Smith (1986, p. 11) “a organização que tem maior responsabilidade no programa de Educação Religiosa de uma igreja é a Escola Bíblica Dominical” e esta se constitui na organização mais antiga na história das igrejas, funcionando com regularidade. No que tange ao histórico na Escola Bíblica Dominical da Primeira Igreja Batista do Pará, os dados compilados de um documento intitulado “Informações históricas” (2004), escrito pelo Pastor Lucas Pereira Barbosa, Diretor de Educação Religiosa, revelam que no registro das atas da igreja, desde 1907, aparecem as primeiras informações quanto à organização da EBD na Igreja. Entretanto, desde a sua organização em 1897, o movimento de Escola Bíblica estava presente nas primeiras igrejas organizadas em solo brasileiro, haja vista que fazia parte da metodologia do trabalho implantado pelo modelo 108 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional de protestantismo de missão; como também, desde o início da história dos batistas no Brasil, havia a preocupação de ensinar aos seus membros os conhecimentos bíblicos e doutrinários (PEREIRA, 1982). O documento enfatiza que as primeiras classes de instrução bíblica no Brasil apareceram em conexão com os Huguenotes, na cidade de São Sebastião, no Rio de Janeiro, no século XVI. Os holandeses no norte do país criaram também escolas de instrução de religião. Vindos da Escócia para servirem como missionários no Brasil, Robert e Sara Kalley estabeleceram-se em Petrópolis e, em 19 de agosto de 1955, iniciaram uma classe de estudo bíblico. Os batistas, logo no início de sua obra, deram valor a esse modelo de escola, e em 1990 foi organizada a Casa Editora Batista. Em 1903 as lições da Escola Dominical foram publicadas por meio do Jornal Batista. As primeiras revistas publicadas foram a Infantil (1903), de Adultos (1907) e Amigo da Juventude (1909). Em 1907, foi organizada a Junta de Escolas Dominicais. O documento destaca que os primeiros manuais traduzidos pela missionária Catarina Smith servem de base até hoje. São eles: Evangelização, Alcançar Multidões com Ação da Igreja, Prover Liderança para a Igreja, Missões, Informar quanto ao trabalho da Denominacional. As primeiras atas apontam a organização de sete classes, divididas entre adultos (homens e mulheres), jovens (moças e rapazes), intermediários, crianças e oficiais. Atualmente, a EBD está dividida em quatro departamentos (adultos, jovens, adolescentes e infantis, integração), com 08 classes de adultos, 03 classes de jovens, 02 classes de adolescentes, 01 integração, 06 de crianças, 01 oficial e 02 classes alternativas (Ministérios do Silêncio e Raízes). 109 Universidade da Amazônia FIGURA 9: Classe de adolescentes da EBD – PIB Fonte: Registro de campo/ 2004. Barbosa (2004) revela que nesses livros de atas não está claro o perfil dos membros que participavam da EBD desde a sua formação na igreja, porém algumas informações apontam para grupos nordestinos que chegavam à cidade, famílias convertidas em Belém e outras oriundas do interior do Estado do Pará, Amazonas e Amapá. Eram famílias bem numerosas, compostas por adultos e crianças, na sua maioria, e jovens, que completavam o segundo grupo. Os integrantes das EBD chegavam ao grupo por meio dos laços familiares, dos empregados das famílias abastadas, dos vizinhos e dos amigos oriundos do modelo de trabalho existente na época. Ao longo dos anos, muitas mudanças ocorreram na EBD, dentre elas destacam-se aquelas ocorridas especificamente no grupo de adolescentes da EBD (idem). No início, eram chamados de Intermediários, com a faixa etária predominante de 13 a 15 anos. Com o passar do tempo, mais precisamente na década de 60, passou a ser denominado de classe dos Adolescentes, com a ampliação da faixa etária para 12 a 16 anos. Na década de 90, surgiu uma revista com proposta voltada especificamente a adolescentes do sexo feminino com assuntos específicos da fase. O modelo pedagógico continua o mesmo, separado por faixa etária, com lições modulares trimestrais, com uma grade de seis anos voltada para estudos bíblicos e, acoplada a ela, uma grade voltada para atualidades com enfoque em temáticas denominacionais e assuntos de interesse ao público alvo. As mudanças ocorridas no perfil dos integrantes acompanham a própria estrutura social, prevalecendo, no início, o perfil de adolescentes oriundos 110 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional de classes sociais menos favorecidas; posteriormente, de classe média, que atualmente compõem, em sua maioria, o grupo. As atividades foram ampliadas, passaram do simples estudo bíblico em classe para atividades externas como passeios, excursões, congressos, atividades recreativas, compartilhamento, esporte e lazer. Essas mudanças se devem à penetração do evangelho no seio das comunidades e bairros, onde predominam a presença de famílias bem estruturadas, com forte formação intelectual e ampliação do trabalho na cultura da cidade; bem como a presença de pessoas da igreja nos alto escalão da política, do Estado, das forças armadas, das universidades. Portanto, a igreja presente em todos os novéis das camadas sociais. O grupo de adolescentes e a própria igreja mantêm relacionamento saudável com outras igrejas da mesma fé e ordem dentro do estado, e de outras denominações. O relacionamento ocorre de forma direta em algumas associações comunitárias, clubes esportivos e recreativos, bem como entidades filantrópicas e outras de prestação de serviço à comunidade. No que concerne aos objetivos da EBD, Barbosa (2004) pontua que hoje em dia o principal objetivo da EBD é: ensinar a Revelação Bíblica que significa a manifestação do próprio Deus em Cristo, proporcionando ao adolescente o conhecimento sobre Deus e a reflexão profunda dos princípios bíblicos para a sua vida; alcançar o adolescente com ação da igreja visando à integração no programa da igreja; evangelizar, possibilitando aos adolescentes a oportunidade de conhecer o plano de salvação para sua vida; proporcioná-los ocasiões para cultuar a Deus diariamente; envolver o adolescente na obra missionária. É mister ressaltar que a EBD possui como característica primordial o fato de ter um formato de uma escola formal, onde os que nela ingressam são selecionados por faixas etárias com conhecimento acoplado de acordo com a idade. 3.3.1.5 Os Adolescentes da EBD 3.3.1.5.1 Perfil Social Os dados do perfil aqui apresentados referem-se à análise de 50 formulários aplicados aos adolescentes integrantes da Escola Bíblica Dominical EBD da Primeira Igreja Batista do Pará - PIB. Esse número de questionários aplicados é bastante significativo, pois representa mais da metade do grupo, haja vista que durante a pesquisa de campo constatou-se que a EBD possuía cerca de 80 adolescentes. Em relação à naturalidade dos adolescentes, verificou-se que 43,75% são naturais de Belém/PA; 25% do interior do estado; 25% dos demais estados do Brasil e 6,25% de outro país. Quanto à escolaridade dos entrevistados 31,25% encontram-se cursando o Ensino Fundamental; 62,5% o Ensino Médio; e 6,25% o Nível Superior. 111 Universidade da Amazônia 3.3.1.5.2 Gênero e idade Do universo de adolescentes que responderam aos formulários, 50, 54% pertencem ao sexo feminino, enquanto que 46% são do sexo masculino. Ao considerar os dados obtidos a partir da análise estatística dos formulários, verifica-se uma aproximação aos resultados obtidos no censo populacional do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, PNAD 2002), que aponta, na região norte do país, no universo de pessoas entre 0 e 19 anos, os números de que 46,3% são do sexo masculino e 53,7% são do sexo feminino. Assim, constata-se que há certa homogeneidade, com uma leve predominância do sexo feminino. No que se refere à idade, a média de idade dos entrevistados compreende entre 13 e 14 anos, sendo então observado que 24% têm 14; outros 24% têm 12 anos; 18%, 13 anos; 14%, 15 anos; 10%, 16 anos, 8%, 17 anos; e 2% têm11 anos. Nota-se, a partir dos dados, que, nas margens, existem poucos adolescentes que estão de passagem de uma a outra faixa etária e classe, considerando que a EBD é dividida em classes de acordo com a faixa etária, Os dados apresentados permitem que seja observada a existência de uma diversidade de faixa etária. Entretanto há uma predominância de mais da metade dos entrevistados inseridos na faixa etária compreendida de 12 a 15 anos. Os dados revelam, ainda, que todos os adolescentes são solteiros e não possuem filhos, o que corresponde a 100% da amostra selecionada. 3.3.1.5.3 Cor No que diz respeito à cor da pele dos adolescentes da EBD, os dados revelam que 44% se consideram morenos; 44%, brancos; 2%, amarelos; 4%, pardos; 2%, vermelho; 2%, branco amarelo; 2%, amarelo queimado; e outros 2% consideram-se vermelho. Os dados apontam certa variedade de percepção sobre a cor, mas observa-se um empate quanto ao número de adolescentes que se autodenominam morenos e brancos, o que corresponde a 88%. Nesse sentido, ressalta-se que a maioria dos adolescentes não sentiu dificuldade para definir a sua cor, que, por fim, correspondiam as suas aparências. A percepção dos jovens acerca de sua cor demonstra que a maioria se percebe pertencente à cor branca e morena. Tal percepção, dentro do contexto social amazônico, é significativa, uma vez que é uma região com um histórico de miscigenação significativo, a qual, a partir da combinação de raças distintas, favoreceu o surgimento de diversas cores e também a ideologia do branqueamento, imposta pelo europeu, apregoando a superioridade do branco, o que fez com que muitos indivíduos de descendência negra passassem por brancos nos recenseamentos, a fim de obter, em muitos casos, maior aceitação social (RETRATO DO BRASIL, 1984, p. 112). 112 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional Fatos como esses permitem supor que os números mostrados são exagerados para mais, em relação aos brancos, e para menos, em relação aos negros. A ideologia do branqueamento teve importância decisiva no processo de descaracterização (enquanto raça) e no esvaziamento da consciência étnica, que muitas vezes são identificadas pelo tom da pele. Logo, a autodeterminação “morena”, que não chega a ser branca, mas também não é negra, expressa bem esse surgimento de denominação referente à cor na região norte do Brasil (RETRATO DO BRASIL, 1984, p. 112). 3.3.1.5.4 Grau de escolaridade Os dados analisados revelam que os adolescentes estão em idade escolar e todos se encontram matriculados na rede de ensino: 52% no ensino fundamental incompleto, 30% no ensino médio incompleto, 16% no ensino fundamental completo e 2% no ensino médio completo. Verificou que o grau de escolaridade predominante é o Ensino Fundamental incompleto, o que está dentro da expectativa de escolaridade referente à faixa etária predominante. Os demais dados quantitativos também estão compatíveis com o esperado em relação à escolaridade, não apresentando defasagem ou atraso escolar. A relação entre idade, ocupação e estado civil do grupo de adolescente pesquisado indica que todos os adolescentes são solteiros, não possuem filhos e têm como única ocupação os estudos, sem ter que ajudar no sustento da família. 3.3.1.5.5 Principais meios de comunicação, transporte e lazer A análise dos formulários revela que 54% dos adolescentes utilizam a televisão como principal meio de comunicação, seguido da Internet com 16%, telefone 14% , jornal 4% , televisão e revista 4%, televisão e Internet 2%, televisão e telefone 2%, revista 2% , conversa com outras pessoas 2%. Dessa forma, percebeu-se, com informações fornecidas pelos adolescentes da EBD, que mais de três quartos dos pesquisados (84%) utilizam como principal meio de comunicação a televisão, a Internet e o telefone celular. Vale ressaltar que a utilização desses meios só é possível por intermédio de objetos que requerem um investimento financeiro significativo para a devida aquisição e manutenção, o que indica que se trata de um grupo composto por pessoas pertencentes a classes sociais favorecidas financeiramente. Quanto ao meio de transporte que mais utilizam, os dados analisados mostram que 52% dos adolescentes utilizam o carro da família, seguido de 48% que utilizam ônibus. A utilização do carro da família como principal meio de transporte reforça a idéia de que esse é um grupo social com um poder aquisitivo favorecido, haja vista que para a utilização de um carro particular é neces- 113 Universidade da Amazônia sário também um investimento financeiro significativo para a aquisição e manutenção do veículo, o que é inacessível a 90% dos habitantes de Belém, usuários de outros tipos de transportes como ônibus, bicicleta, entre outros (JORNAL DO POVO, 2004). Constata-se também que, nos momentos de lazer, a maioria dos jovens gosta de praticar esporte (20%) e de ler (20%); os demais gostam de assistir à televisão (16%), ouvir música (14%), encontrar com amigos (8%), jogar vídeogame (6%), tocar instrumentos musicais (8%), passear (4%), desenhar (2%) e usar a Internet (2%). Estudos sobre a motivação têm investigado os aspectos motivacionais que levam à prática do desenvolvimento motor e, ou subjetivo, seja em nível de competição ou apenas no lazer ou recreação de jovens. Logo, o entendimento da motivação no esporte e na música torna-se importante no momento em que se enfoca a motivação como um processo para despertar a ação ou sustentar a atividade, fenômeno muito comum na adolescência (FIORESI apud PAIM, 2003). Nesse contexto, os adolescentes da PIB estão de acordo com os demais jovens brasileiros independentemente do grupo sociocultural, uma vez que o contato com a música, a prática de esportes e a televisão são buscadas nos momentos de lazer pelos jovens, sendo a televisão um veículo de comunicação e lazer mais buscado pela maioria dos jovens. Segundo dados da UNICEF (2002), uma das principais atividades de lazer referidas pelos adolescentes é assistir à televisão (52%). No que se refere à leitura como atividade de lazer, evidencia-se a caracterização do grupo como escolado e favorecido culturalmente e socialmente, para que se faça uso dessa atividade de lazer, faz-se necessário investimento intelectual. 3.3.1.5.6 Família 52% dos adolescentes da EBD possuem apenas um irmão, seguido de 28% que possuem dois irmãos, de 16% com três irmãos, de 2% que têm seis irmãos e de 2% que não têm irmãos. A composição familiar então não pode ser considerada pequena, pois a maior parte dos adolescentes, 68%, pertence à família com composição familiar de 4 a 5 pessoas; seguido de 14% com composição de 1 a 3 pessoas; de 14% com composição de 6 a 7 pessoas e de 4% com composição acima de 7 pessoas. Com relação à família, 60% dos adolescentes moram com os pais, 26% residem com parentes e 14% moram somente com a mãe. Os dados revelam que a maior parte dos adolescentes da EBD pertence à famílias nucleares, que segundo Oliveira & Wagner (2000) é aquela composta por pai, mãe e filhos. Um outro dado que chama a atenção é que 26% destes adolescentes moram com parentes, o que sugere um forte movimento de migração do interior ou de outros 114 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional Estados para a cidade de Belém em busca de melhores condições de vida e de estudo. O dado que menciona moradia somente com a mãe, ou seja, 14% dos adolescentes, reforça a adesão ao novo padrão de estruturação familiar em que a família tradicional, composta pelo casal com filhos, caiu quase 5% na década de 1990 no Brasil, ao mesmo tempo em que aumentou a proporção de outros tipos de composição familiar: de mulheres sem cônjuge e com filhos (de 15,1% para 17,1%) e de casal sem filhos (de 12,9% para 13,6%) (IBGE, 2001). 3.3.1.5.7 Religião No que concerne à religião, os dados indicam que todos os adolescentes são evangélicos de denominação Batista. As informações obtidas reforçam o alto número de adolescentes que participaram de outros grupos na Igreja com 82%, enquanto que 18% nunca participaram de outros grupos. Chama a atenção o fato de que 68% dos adolescentes participaram de grupos religiosos, ou seja, a maioria dos adolescentes tem traçada uma trajetória dentro da Igreja, participando de atividades religiosas e educativas desde a infância, ao passo que 10% participaram de grupos de lazer/recreação, 2% participam de grupo de estudo, 2% participam de grupo juvenil. Atualmente, 56% dos adolescentes, além de frequentar a EBD, participam ainda de outros grupos da PIB, como indicam os seguintes números: 16% participam do grupo de música, 12% participam do grupo Embaixadores do Rei, 8% participam de grupo escolar, 6% participam de grupo esportivo, 6% participam do Mensageiras do Rei, 6% participam da União dos adolescentes, 2% participam de grupos de amigos e 44% não participam de nenhum outro grupo além da EBD. Segundo os dados, 50% dos adolescentes integram grupo de adolescentes há cerca de um ano, seguido de 18% com dois anos, 12% com três anos e 20% com cinco anos ou mais. Sendo assim, é mister ressaltar que os adolescentes da EBD, na sua maioria, possuem uma trajetória dentro da Igreja Batista, ou seja, participam de atividades religiosas e culturais de acordo com a faixa etária. Os dados acima demonstram a constância e permanência dos adolescentes no grupo da EBD, que reforça a idéia de que essa assume um caráter de educação continuada, comparada a uma escola formal. 3.3.1.5.8 Vida cotidiana dos adolescentes Segundo Mary Rangel (apud Trípoli, 1998, p.119) a informação é a dimensão da representação social que expressa a organização do conhecimento sobre o que é representado. Esse conhecimento se organiza no curso das vivên- 115 Universidade da Amazônia cias diárias, e assim o estudo está associado ao conhecimento vital, logo ao cultural e ao social. Mesmo os estudos estando ligados ao social e ao cultural, de forma geral, os adolescentes apresentam uma concepção de tempo livre como aquele fora da escola e das obrigações de estudante (TRIPOLI, 1998). Nesse sentido, observa-se que os adolescentes entrevistados realizam diversas atividades no dia a dia, como ir ao colégio, citado pela maioria, 31.25% assistem à televisão; 25% fazem cursos de língua estrangeira; 25% fazem aulas de música; 12,5% dos adolescentes apontaram que realizam tarefas do lar e os demais realizam atividades bem diversificadas, tais como: estudar em casa; escrever estórias no computador; sair com os amigos; ficar na Internet; ler, entre outros. Dessa forma, os dados acima indicam que o fator sócio-econômico dos adolescentes da EBD contribui para que tenham acesso a uma grande quantidade de atividades extra-escolares, como no caso do curso de línguas e música, que ajudam a ampliar seus conhecimentos, proporcionando melhores oportunidades de inclusão futura no mercado de trabalho. Quanto aos eventos e brincadeiras das quais mais participam, 37,5% apontaram atividades esportivas, 31,25% eventos da igreja, 25% aniversários e empatados com 12,5% aparecem casamentos, festas de confraternização, eventos do colégio e de música. Dentre as brincadeiras e eventos citados vale ressaltar que os adolescentes participam, interagindo na maioria das vezes com pessoas da mesma igreja de denominação batista. Segundo os dados das entrevistas realizadas com os adolescentes, 50% gostam de ler (revistas, jornais, livros e a bíblia) nos momentos livres, seguido de 25% que preferem assistir à televisão e 25% que gostam de ficar com os amigos. Dos demais, 18,75% navegam na Internet, e com 12,5%, cada, gostam de desenhar, de tocar instrumentos musicais, de ouvir música, de estudar, ou seja, vivenciam práticas de lazer próprias às da faixa etária na qual estão inseridos e condição socioeconômica correspondente. Quando perguntados durante a entrevista sobre o meio de comunicação mais utilizado, 75% responderam que utilizam a televisão; 50%, a Internet; 25% ,telefone celular; 25%, revistas; 25%, jornais; e 6,25% escutam rádio. Dos adolescentes entrevistado, 56,25% acessam esses veículos de comunicação diariamente. Quanto aos programas de televisão a que mais assistem, os tele-jornais aparecem como os preferidos, citado por 43,75% dos entrevistados. O segundo mais citado, com 37,5% de preferência, são as novelas; o terceiro, os filmes, com 25%; o quarto, com 18,75% das preferências, são os programas musicais; e no quinto lugar, com 12,5%, aparecem os programas esportivos, ao passo que, com 6,25%, cada, aparecem os programas de diversão e os desenhos animados. A Internet ocupa o segundo lugar entre os meios de comunicação mais utilizados pelos adolescentes da EBD. As salas de bate-papo são as preferidas por 25% dos adolescentes. Em segundo lugar, com 18,75%, predominam os e- 116 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional mail´s, 12,5% citam os sites de jogos e com resultado semelhante, com 6,25%, aparecem os sites de pesquisas, de música e de humor, respectivamente. Ir ao shopping é o principal entretenimento dos adolescentes, citado por 81,25% dos entrevistados, seguido de 43,75% que vão ao cinema, ao passo que 37,5% verbalizaram frequentar os diversos pontos turísticos da cidade. Um número significativo de adolescentes frequenta a Estação das Docas, com 31,25% dos entrevistados, seguido de outros 31,25% que frequentam locais de alimentação (sorveterias, pizzarias, churrascarias). Os demais, 12,5%, frequentam a Companhia Atlética. Nesse sentido, é importante enfatizar que é bastante elevado o número de adolescentes que frequentam o shopping, visto que eles apontaram que costumam frequentá-lo devido à facilidade de encontrar quase tudo em um mesmo lugar. A frequência maior nesse local é nos finais de semana, mencionado por 50% dos adolescentes, ao passo que 12,5% visitam-no mensalmente e 6,25% quando dispõem de recursos financeiros. A disponibilidade de tempo médio para essas atividades é de 12,5% com três horas e 6,25% de duas horas ou nos finais de semana. Desse modo, constata-se que a circulação dos adolescentes pelo espaço do centro urbano da cidade é influenciada pelo fator socioeconômico, que proporciona a eles frequentar shoppings, cinema, restaurantes e pontos turísticos da cidade, e também pela faixa etária na qual estão inseridos, haja vista que a frequência a tais lugares é feita, na maioria das vezes, com os familiares. Vale ressaltar ainda que entre os adolescentes entrevistados, 25% investem em média U$ 3,44 20 nos momentos de lazer; seguido de 12,5% que investem U$ 6,88 e 6,25% que investem U$ 2,41. A escolha desses ambientes ocorre, segundo 43,75%, por preferências pessoais, já 18,75% dos entrevistados verbalizaram que “gostam de lugares calmos” e 25% por diversos motivos, como “fome”, “amigos” entre outros. 3.3.1.5.9 Relações familiares dos adolescentes Segundo Trípoli (1998), os adolescentes, apesar de se mostrarem muitas vezes rebeldes, incompreendidos ou até indiferentes em relação à família (quando a ela se referem), costumam transmitir sentimentos como a importância de viver junto e solidariamente, inclusive chegam a considerar que seu sucesso depende do bom relacionamento estabelecido com os seus familiares. Quando perguntados sobre o relacionamento familiar, 50% dos adolescentes entrevistados revelam que consideram a relação familiar “boa”21, 12,5% consideram “tranquila”, 12,5% “normal”, 12,5% “excelente” e com resultado semelhante, isto 20 21 Os valores em Reais foram convertidos em Dólar (Cotação do dia 15/ 09/ 2004 era de U$ 1,00 = R$ 2,907). O Liberal, Caderno Painel / Economia, p.6. As frases ou palavras destacadas entre aspas são dos próprios adolescentes entrevistados. 117 Universidade da Amazônia é, com 6,25% aparecem os seguintes adjetivos “legal” e “difícil”. É importante destacar que a maioria dos entrevistados não se referiu a conflitos familiares, visto que os adolescentes consideram a família como uma das mais importantes instituições. No que se refere às dificuldades no relacionamento familiar, os jovens apontaram posicionamentos diversos, haja vista que 62% dos adolescentes acreditam não ter conflitos com a sua família, 25% apresentam dificuldades com parentes e 12.5% expressam conflitos com irmãos e pais, como observado nos relatos dos adolescentes a seguir: “É legal, assim, bem de família mesmo, todo mundo unido, legal!” (ADOLESCENTE B1, 17 anos); “É normal, é boa, é assim, todo mundo lá se ama, a gente se gosta muito” (ADOLESCENTE B4, 13 anos); “É assim difícil, porque morar com os tios é diferente do que morar com os pais, mas é bom, nada de mais” (ADOLESCENTE B16, 17 anos). De forma a corroborar ainda com esses relatos destaca-se um trecho do grupo focal realizado com os adolescentes. Eu sou muito implicante ainda mais quando eu sei que a pessoa pega corda aí que eu fico atazanando mesmo, meu pai ele é muito tranqüilo ele diz “menina para”, a mamãe chega “meninaaaaaa paraaaa”, não sei o que, na maior gritaria, então por causa disso que há o conflito porque enquanto um é bem agitado outro é bem calmo eu também sou muito elétrica não aceito os limites (GRUPO FOCAL COM ADOLESCENTES). Observa-se então, a partir dos relatos dos adolescentes, que há divergências ou pequenos conflitos envolvendo pais, irmãos e parentes, Entretanto, embora apresentem conflitos inerentes à própria faixa etária presente, caracterizam-se como um grupo à parte dos demais adolescentes, visto que a maioria apresenta uma relação familiar harmoniosa, o que os diferenciam significativamente de outros jovens. 3.3.1.6 Os Adolescentes e sua Inserção no Grupo – EBD No universo de adolescentes entrevistados, 75% verbalizaram que começaram a participar do grupo de adolescentes da EBD assim que completaram 12 ou 13 anos. Isso ocorre porque a EBD possui um caráter de escola formal, ou seja, as classes são divididas de acordo com a faixa etária. Desse modo, quando os adolescentes completam 12 anos, eles deixam de frequentar a classe anterior na qual estavam inseridos e passam para um novo grupo correspondente a sua idade. Verifica-se que esse processo acontece de maneira “natural”, uma vez que todos os membros da igreja conhecem o funcionamento e a dinâmica da EBD na Igreja Batista. Ressalta-se que os adolescentes, ao ingressarem em uma nova classe, recebem um certificado da classe anterior. 118 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional Vale mencionar também que, embora à maioria dos adolescentes da EBD tenha ingressado no grupo devido à faixa etária, há ainda cerca de 18,75% dos adolescentes que começaram a frequentar o grupo quando chegaram à Belém, oriundos de outros municípios e ou Estados. Os dados demonstram que 25% dos adolescentes entrevistados chegaram ao grupo por intermédio dos pais, o que significa que ao frequentarem a igreja para participar dos cultos e ou atividades destinadas ao grupo de senhores ou senhoras da igreja, aos pais também procuram inserir seus filhos em algumas das atividades religiosas oferecidas pela igreja. Outros entrevistados verbalizaram que ingressaram no grupo por intermédio da professora do grupo anterior, citado por 18,75% dos adolescentes. Logo, percebe-se que os professores encaminham os adolescentes para a nova classe informando-lhes a necessidade de interação com outro grupo da mesma faixa etária. Os demais 18,75% dos adolescentes verbalizaram que chegaram ao grupo da EBD “sozinhos”; enquanto que 12,5% informaram que ingressaram no grupo por “causa da idade”. Isso significa que os adolescentes têm conhecimento da dinâmica da EBD e, portanto, assim que completam 12 anos, procuram se inserir no grupo de adolescentes. Os entrevistados verbalizaram ainda, com 6,25% cada, que ingressaram no grupo da EBD por intermédio de parentes, irmãos ou da própria igreja. No que tange a motivação para o ingresso no grupo, aponta-se que, para os adolescentes da EBD, aprender sobre a palavra de Deus é a principal motivação em participar do grupo, citado por 37,5% dos adolescentes entrevistados. A segunda maior motivação, com 18,75%, ocorre por causa dos amigos, reafirmando os vínculos de amizade muito importantes nessa etapa da vida. E com resultado semelhante, 12,5% cada, os adolescentes se sentem motivados a participar devido à linguagem utilizada pelos professores, como também, porque já possuem a idade necessária para ingressar e permanecer no grupo, como nas entrevistas a seguir: “É pra aprender mais da Palavra e também pra ver meus amigos, só vejo uma vez na semana” (ADOLESCENTES B5, 13 anos); “É aprender mais sobre a Bíblia e também por causa dos meus problemas” (ADOLESCENTES B8, 15 anos); “Pra aprender a Palavra de Deus” (ADOLESCENTES B12, 13 anos). Sendo assim, a partir da análise dos dados, constata-se, com base na verbalização dos adolescentes, que há um grande consenso no que se refere à principal motivação em participar da EBD. Essa, no entanto, aparece como uma espécie de “porto seguro” para os adolescentes entrevistados, pois é nesse espaço da igreja que eles podem ter e construir amizades “edificantes”, que consistem em laços que não fogem aos padrões religiosos da denominação batista como no relato desse adolescente durante o grupo focal. Desse modo, percebe-se que a EBD aparece, ainda, como espaço de lazer onde eles ocupam parte do seu tempo livre com atividades que contribuem na formação religiosa, pessoal, social e moral. 119 Universidade da Amazônia No que se refere aos objetivos do grupo, 43,75% dos adolescentes afirmaram que é o estudar, o aprender a Bíblia e o conhecer a Palavra de Deus. Ensinar os adolescentes dentro dos parâmetros bíblicos aparece com 6,25% das citações. Com relação à frequência nas atividades da EBD, ela corresponde a algo em torno a 81,25%, aos domingos. Quando perguntados sobre os aspectos positivos do grupo, há diversas opiniões sobre o assunto. Os adolescentes entrevistados verbalizaram que o positivo do grupo é “aprender a palavra de Deus”, “estudar a Bíblia”; “ter contato com as pessoas”, “as programações são legais”; “as explicações dos professores são boas”; “animação”, “todos saem satisfeitos” da EBD. No que se refere aos aspectos negativos do grupo, 25% dos entrevistados apontam que não há nada de negativo no grupo, entretanto, 12,5% revelam que os pontos negativos do grupo são as “fofocas”; ao passo que 6,25%, cada, verbalizaram que o negativo do grupo é que alguns adolescentes têm “preguiça” de ir aos domingos para a EBD e se integrar no grupo é difícil. 3.3.1.6.1 Relações no grupo Segundo Fierro (1995), é na fase da adolescência que os espaços passíveis de intercâmbios se expandem enquanto que se debilita muito a referência à família. Logo, se estabelecem laços mais estreitos com os grupos de companheiros, que tipicamente se iniciam com indivíduos do mesmo sexo e, posteriormente, fundem-se com grupos de sexo oposto formando grupos mistos, constituídos por um magote indissolúvel e homogêneo, em que não existem situações de privilégios, salvo os líderes do grupo. A ideia do conforto em participar de um grupo homogêneo e indissolúvel é percebida nos adolescentes da Escola Bíblica Dominical da PIB, haja vista que 68,75% dos entrevistados revelaram que vivenciam relacionamentos de amizades no grupo e se consideram participativos, posto que, do ponto de vista deles, consideram-se assíduos aos encontros e às atividades proporcionadas pela igreja. Ainda que a maioria verbalize que vivencia relacionamentos de amizades, 25% verbalizam que não conseguem interagir com o grupo na sua totalidade, pois sentem dificuldade de relacionamento com os adolescentes do grupo. A maior parte dos adolescentes avalia a sua participação no grupo como “boa”, citado por 56,25% dos entrevistados, porque, segundo eles, participam frequentemente do grupo. Há ainda, 18,75% que se consideram “ativos”, “presentes”, “distantes” e até mesmo “ridículos” em relação à participação. A porcentagem de adolescentes que responderam que não têm ideia do que as outras pessoas pensam sobre a sua participação no grupo da EBD é de 37,5%. Outros 12,5% acreditam que as pessoas pensam que eles participam apenas para se “mostrar” ou “aparecer”. Os demais, com 6,25% cada, acreditam que as pessoas pensam que a sua participação é “boa” e “não faz diferença”. 120 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional Entre os adolescentes entrevistados, 37,5% gostariam de participar mais das atividades oferecidas para a sua faixa etária na Escola Bíblica Dominical, enquanto 43,75% gostariam que a sua participação fosse “legal”, “mais presente”, “normal”, “espontânea”, o que demonstra o fato de os adolescentes sentirem necessidade de participar com mais intensidade das atividades do grupo e possuir ambição de serem mais participativos na EBD. 3.3.1.6.2 Conflitos no grupo Segundo 62,5% dos adolescentes, no grupo da EBD participam pessoas diferentes, com ideias também diferentes, na Escola Bíblica Dominical. Verbalizam 62,5% da amostra que há espaços para diferença no grupo, o que significa que os adolescentes percebem-se diferentes um dos outros, porém procuram respeitar as diferenças (opiniões, pensamentos) e o espaço de cada um. A porcentagem de adolescentes que dizem que o grupo trata igual o diferente é de 12,5%, como também, os que pronunciaram que o grupo entende e respeita cada um nas suas diferenças. Quando perguntados sobre conflitos no grupo, uma porcentagem de 50% dos entrevistados verbalizou que há conflitos no grupo. Os outros 50% expuseram que não há conflitos ou não sabem informar. Para os que consideram a existência de conflitos, os motivos são em virtude de “falsidade” entre eles, “fofocas”, formação de “panelinhas” (pequenos grupos que se unem por afinidades), “inveja”, “namoros”, “superioridade”, “liderança”, “amizades” e “ciúmes”, sendo que tais conflitos, segundo os adolescentes, acontecem principalmente nas atividades externas do grupo. Nesse sentido, Fierro (1995) destaca que esses conflitos surgem devido à desagregação do grupo, ocasionada quando se consolidam relações amorosas, pois à medida que se estabelece uma relação com um companheiro, reduzem-se as com os demais; ou por outros motivos diversos que ameacem a estabilidade das relações existentes em um grupo coeso e importante para seus componentes. Vale ressaltar que 31,25% dos adolescentes apontam que a resolução dos conflitos ocorre por meio do diálogo, existindo também 6,25% que contaram nas entrevistas que os conflitos ou problemas ocasionados por alguma adversidade são resolvidos pelo professor da Escola Bíblica. 3.3.1.6.3 O grupo como processo educativo De acordo com Aberastury & Knobel (1981), a busca da identidade na adolescência recorre como um comportamento defensivo à busca de uniformidade, o que proporciona segurança e estima pessoal. Surge, então, o espírito grupal, em que há um processo de super identificação em massa e todos se 121 Universidade da Amazônia identificam com cada um. Dessa maneira, o fenômeno grupal adquire uma importância transcendental, já que se transfere ao grupo grande parte da dependência que anteriormente era mantida no meio familiar. A influência familiar se destaca como elemento de identificação grupal, haja vista que a maioria dos adolescentes nasceu em um lar batista, apresentando uma história de vida em comum, em que todos pertencem à mesma religião e prezam pelos mesmos valores morais, éticos e religiosos. O grupo de adolescentes da EBD se caracteriza como um grupo fixo, com atividades semanais e com período de permanência em média de cinco anos. A permanência num grupo na fase da juventude tem um papel fundamental para a identificação do jovem pois proporciona a ele tanto a formação de ideologias quanto o conforto, por ter pessoas que estão na mesma situação, por perto. Consequentemente, as lideranças espontâneas no grupo, os ciúmes das amizades, os namoros, grupos fixos fechados aos demais são percebidos como uma possibilidade de desarmonia do grupo, pois podem excluir direta ou indiretamente membros do grupo, sendo então encarados como conflitos internos. Nesse contexto, 18,75% dos adolescentes entrevistados verbalizaram que o grupo ajuda a “fortalecer na palavra”, ou seja, sentem-se mais seguros com a fé; 12,5% disseram que ajuda a enfrentar o dia-a dia; como também, 12,5% acreditam que o grupo contribui para o desenvolvimento pessoal (vencer timidez, ficar mais extrovertidos) e mental. Em relação aos desafios do grupo da EBD, os adolescentes consideram que o desafio é “evangelizar”, entender, praticar e refletir sobre o que é ensinado no grupo, vivenciando-os no seu dia a dia e evitando que os adolescentes saiam da Igreja. A maior parte dos adolescentes já participou de atividades de formação pessoal, dentre elas: retiros com 68,7% de participação, como também de outras atividades, como palestras educativas, festivais de canção, coral de adolescente, oficinas e feira de arte, as quais 43,7% dos entrevistados freqüentam anualmente. Sobre isso, Aberastury & Knobel (1981) afirmam que a necessidade de intelectualizar e fantasiar acontece como uma forma típica do pensamento do adolescente e é considerada também como uma forma de defesa. A exigência que a realidade impõe de renunciar ao corpo, ao papel da infância e aos pais, assim como à bissexualidade, que acompanha a identidade infantil, pode ser vivenciada pelo adolescente como fracasso ou impotência frente à realidade externa, obrigando-o a recorrer ao pensamento para compensar as perdas ocorridas dentro de si e que não podem ser evitadas. 3.3.1.6.4 Relações de gênero no grupo Ainda que os seres humanos tenham particularidades de comportamento determinadas por diferenças orgânicas e biológicas, é o processo de 122 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional aprendizagem que condiciona a expressão particular de cada indivíduo. Cada cultura o faz por intermédio do governo, das escolas, da família, dos meios de comunicação e da religião, que fazem a diferenciação dos sexos por funções, direitos e deveres distintos (BATISTA & OLIVEIRA, 2004). Nesse sentido, no que tange à relação de gênero, um grupo menor dos adolescentes sente a diferenciação de gêneros e afirma que as meninas recebem tratamento diferenciado. Contudo, 75% dos adolescentes do grupo da EBD acreditam não haver diferença no tratamento entre homens e mulheres. 3.3.1.7 O Ponto de Vista dos Adolescentes 3.3.1.7.1 Religião Para Zagury (1996), o Brasil continua sendo um “país de fé”, em que a maior parte dos adolescentes e jovens possui alguma religião e acredita em um Deus. Entretanto, a autora enfatiza que alguns se consideram pouco religiosos e não vivem a religião, isto é, não seguem os princípios e doutrinas de uma religião e frequentam a igreja esporadicamente. Há ainda outros que acreditam ser nada religiosos. Nesse sentido, Rosa (2003, p. 80) explica que, na adolescência e juventude, a religião do indivíduo passa a ter um significado diferente das demais faixas etárias. A experiência de muitos jovens constitui-se como um problema para muitas famílias e certas comunidades religiosas. É que muitas vezes, a religião do jovem e do adolescente é caracterizada por certo grau de rebeldia velada ou mesmo ostensiva. Todavia, essa rebeldia em certos casos significa uma luta espiritual deles mesmos, no sentido de buscar sua identidade psicológica tanto na dimensão pessoal quanto na espiritual. Segundo o mesmo autor, nessa fase, a religião deixa de ser algo meramente imposto pela cultura a que o indivíduo pertence ou pela própria família; e passa a ser uma experiência estritamente pessoal que representa a opção de cada um. É na adolescência que se torna possível a inclusão de outro na dimensão subjetiva do indivíduo, além de se tornar possível também a conversão religiosa, que é uma das experiências mais decisivas na adolescência ou juventude. “Deus, o grande Outro”, torna-se, portanto, parte da experiência desse grupo não mais como valor cultural, mas, sobretudo, como o ser-fundamento do próprio ser, que dá sentido e direção à vida. Logo, quando perguntados sobre o que é religião, os adolescentes da EBD-PIB não se prenderam a conceitos propriamente ditos ou a literatura disponível; e sim manifestaram uma grande variedade de expressões, conceituando religião a partir daquilo vivenciado e experimentado por eles. Do ponto de vista dos adolescentes, religião “é uma das coisas mais importantes na vida”. (ADOLESCENTE B1, 17 anos) e/ou “que todos devem ter e buscar na religião o 123 Universidade da Amazônia sentido da vida” (ADOLESCENTE B16, 17 anos); assim como, “é servir e ter intimidade com Deus” (ADOLESCENTE B4, 13 anos), ou ainda “é acreditar em Deus e viver de acordo com as normas” (ADOLESCENTE B12, 13 anos). Desse modo, percebe-se, pois, que a religião, para os adolescentes, exerce uma função muito importante, sendo uma instituição necessária em suas vidas, haja vista que a maior parte deles nasceu em um lar batista e desde criança tiveram um aprendizado constante sobre a religião à qual pertencem. Observou-se, durante a pesquisa de campo, que a maioria dos adolescentes participa de outros grupos espontaneamente, entretanto, um número pequeno revelou que participa por “imposição” familiar. Os adolescentes entrevistados revelaram que a principal motivação em participar do grupo de adolescentes da EBD são “os amigos”, citado por 25% dos adolescentes entrevistados, e com resultado semelhante, ou seja, com 12,5% cada, aparecem vários concordando em alguns pontos, tais como: “gostam da lição da EBD”, simplesmente “gosta da EBD”, porque “aprende sobre a palavra de Deus” e por causa das atividades direcionadas aos adolescentes. Há ainda, também empatados, com 6,25% cada, as seguintes motivações: acha “legal”, “interessante”, por causa da atividade missionária e por causa da família. Com relação à regularidade das reuniões e encontros do grupo, 56,25% dos adolescentes verbalizaram que frequentam o grupo todos os domingos; 18,75% frequentam-no aos sábados e domingos, e 6,25% cada, frequentam-no duas a três vezes no mês ou sempre que não têm nenhum outro compromisso. Quando indagados sobre o significado do grupo na sua vida, 18,75% dos adolescentes da EBD responderam que o grupo ajuda a conhecer profundamente a bíblia, contribuindo para um aprendizado maior sobre Deus e para o fortalecimento da fé. Outros adolescentes reconhecem que o grupo possui um significado muito grande, visto que as pessoas que dele participam pertencem à mesma religião. A seguir, algumas percepções dos adolescentes, referentes ao significado do grupo em sua vida. Porque eu sei que eu posso aprender a palavra de Deus, só eu e a Bíblia, mais eu acho muito importante eu ver e conviver com as pessoas e também tão buscando o crescimento, [...] às vezes eu passo dificuldades e quando eu recebo a benção, é eu posso mostrar pra eles que Deus me ajudou, e assim a recíproca também é verdadeira, então eles fazem a mesma coisa, eu acho que é importante isso, a gente conviver com as pessoas que estão no mesmo meio, que são batistas também, que entendem a religião, que são da mesma religião (ADOLESCENTE B15, 14 anos). 124 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional 3.3.1.7.2 Política Segundo Zagury (1996, p. 226-228), nos anos 60 e 70, sobreviveu, no Brasil e no mundo, uma geração de jovens que se preocupava com a sociedade, o que gerou uma juventude politizada. Nesse contexto, os jovens tinham como maior interesse a política e então discutiam problemas sociais, faziam leitura de autores como Marx e Engels, que traziam em seu bojo o idealismo político, ainda que a palavra de ordem no momento fosse o racionalismo científico. Todavia, o autor menciona o desinteresse pela política de muitos adolescentes e jovens da atualidade, e acredita que tal abandono em relação aos assuntos políticos é ocasionado por uma situação de descrédito político grave, gerado pela constante sucessão de escândalos financeiros, envolvendo lideres públicos em esquemas de corrupção, de falta de ética, de impunidade e de outros, fomentando assim a miséria social. O desinteresse político também é fruto de um forte esquema individualista que a sociedade capitalista vem conduzindo, levando o “eu”, o indivíduo, à satisfação do ego que se sobrepõe ao social, à comunidade e à humanidade. Há ainda o fato de que muitos jovens não possuem uma visão e uma definição maior de política devido à ausência de formação de consciência crítica e política. Para tanto, deveriam ser incluídas nos currículos das escolas disciplinas que desenvolvessem a consciência política para que essa voltasse a ocupar o espaço que lhe foi cruelmente roubado no período da ditadura militar (ZAGURY, 1996). Nesse sentido, percebe-se uma relação entre os dados citados pelo autor e o percebido nas falas dos adolescentes da EBD, visto que, quando perguntados se existe relação entre juventude e política, 43,75%, conscientemente ou inconscientemente, não souberam dar nenhuma informação a respeito. Um número menor, 18,75%, de adolescentes verbalizou que há relação entre essas duas categorias, conforme os relatos abaixo: Eu acho que, às vezes, tem um pouco de relação, por exemplo, esses governantes, esses vereadores, esses prefeitos que são mais velhos, com mais experiência, eu acho que eles são as melhores pessoas pra governar e eu acho que político, ser uma pessoa muito jovem, eu acho que não ia dar muito certo, sabe (ADOLESCENTE B2, 12 anos). Quando perguntados se eram filiados a algum partido político, 43,75% informaram que não são filiados a nenhum partido político, seguidos de 18,75% que revelaram que são simpatizantes dos mesmos partidos políticos que os pais. No cômputo geral, os adolescentes verbalizaram diversas percepções sobre o conceito de política, como no relato a seguir: 125 Universidade da Amazônia Política, todo mundo precisa, que pelo fato de ser político deputado não sei o que, pensa que o cara é ladrão. Só que eu acho que política é muito boa, as pessoas estão trabalhando para a gente conseguir melhorias da nossa cidade, cultura, educação, saúde só que muitas das vezes não dá certo isso. Política pra mim é isso, eles estão representando o povão, mas eles têm que dizer o trabalho deles (ADOLESCENTE B4, 13 anos). 3.3.1.7.3 Sonhos e perspectivas Segundo Robert Havighurst (apud FERREIRA, 1978), a introdução dos jovens às funções de pais e esposos é fundamental para a continuação da sociedade e para a felicidade do indivíduo, variando o método de cumprimento dessa tarefa de uma cultura para a outra. No grupo de adolescentes da PIB, esse fato tem se manifestado de forma intensa: 31,2% dos adolescentes da EBD gostariam de constituir uma família; 81,2% gostariam de ter uma formação profissional; 6,25% apontam que desejam ser felizes e 12,5% gostariam de levar a palavra de Deus para as pessoas que não a conhecem. Para a realização desses sonhos, 50% dos entrevistados disseram que estão estudando para alcançálos, assim como buscam seus projetos de vida. Trípoli (1998) analisou as representações de um estudo realizado e identificou que o conhecimento é socialmente necessário, pois segundo Rangel (apud TRÍPOLI, 1998, p.119), “a informação é a dimensão da representação social que expressa a organização do conhecimento sobre o que é representado”, estando assim o conhecimento associado à cultura vivenciada diariamente. Pela necessidade do conhecimento, a maior parte dos adolescentes, ou seja, 43,7% da amostra, acredita que daqui a cinco anos estarão na Universidade, 12,5% disseram que gostariam de estar formados e 12,5% gostariam de estar inseridos no mercado de trabalho. Quando perguntados sobre o que é felicidade, 12,5% concordam que é estar em paz consigo e com os outros. Os demais, com 6,25% cada, verbalizaram que felicidade “é ser alegre”, “é ter cristo como Salvador”, “é ter Jesus no coração”, “é fazer o que a gente gosta”, “é viver sempre na palavra de Deus”, “é estar bem com os amigos, a família e e os estudos”. De maneira geral, percebe-se que, para os adolescentes entrevistados a felicidade tem relação com um bem estar geral, sendo notório o “estar bem” principalmente com Deus e a igreja. 3.3.1.7.4 Percepções dos adolescentes sobre juventude Para Venturi e Abramo (2000, p.01), basicamente duas idéias costumam estar presentes nas concepções de juventude modernas: a primeira está em considerá-la uma fase de passagem no ciclo da vida, situada entre o período 126 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional de dependência, que caracterizaria a infância, e a posterior autonomia adulta. A segunda é a atribuição dos jovens a uma predisposição natural para a rebeldia, como se fossem portadores de uma essência revolucionária. Os adolescentes entrevistados estão condizentes com a primeira concepção citada pelos autores acima, pois verbalizaram que ser jovem é uma etapa da vida, citado por 18,75%. A definição de que é um momento de transformação cercado de problemas, alegrias e desafios aparecem em segundo lugar, com 12,5% nas percepções dos entrevistados. Para os adolescentes, ser jovem “é curtir a vida e ter liberdade”; “é uma coisa boa”, conforme se observa nos relatos a seguir: “É uma etapa, a gente tem etapas na vida, é uma etapa da vida” (ADOLESCENTE B 5, 13 anos); “É ser uma pessoa comum, com um pouco mais de dificuldade na vida dela, na própria vida profissional, é uma idade que você começa a crescer” (ADOLESCENTE B 6, 16 anos); “Um momento de transformação, muitas cabeças estão rodando, tem que tá sempre sabendo o que quer realmente, não se pode deixar levar por qualquer vento” (ADOLESCENTE B 7, 15 anos). No entanto, não há uma exclusão da segunda concepção, pois os adolescentes a veem como uma oportunidade de mudar o Brasil, e se preocupam com o futuro do País, considerando o jovem importante, visto que, sem eles, as universidades não existiriam, o que não tornaria possível mudar o mundo e pensar no seu futuro e de sua família. Uma sociedade difícil, hostil e inexorável, às vezes, diante da onda de crescimento, lúcida e ativa que impõe aos jovens o fato de alguém que quer agir sobre o mundo modificado sobre a ação de suas próprias transformações, evidencia a distorção da juventude difícil. Essa tendência se caracteriza pela necessidade do jovem de começar a fazer parte do mundo adulto, tendo então as raízes de seus conflitos nas dificuldades em ingressar neste mundo (ABERASTURY & KNOBEL, 1981). Dessa forma, na maneira de viver a juventude, escolher o que é certo ou errado, preservar-se, namoro, consequências da atividade sexual e o diálogo com os pais; os adolescentes acreditam que as maiores dificuldades enfrentadas na vivência são as drogas, citada por 37,5%. O mercado de trabalho aparece em segundo lugar, com 12,5%; influências dos amigos e diálogo com os pais também aparecem com 12,5%, cada. A maioria não sabe informar quais são os desafios dos jovens. Dos que verbalizaram, apontam as drogas, as doenças, vencer na vida, continuar no caminho do bem, ter caráter, aceitar a palavra de Deus e vencer as dificuldades. Ser jovem na Amazônia significa melhorar o Estado e não destruir as coisas. 3.3.1.7.5 Elementos de identificação dos adolescentes da EBD Os atores sociais, no caso os adolescentes da EBD, a que se faz referência neste relatório, são, pois, também, aqueles próprios das sociedades moder- 127 Universidade da Amazônia nas marcadas pelo cenário da globalização (CASTELLS, 1999). Nesse sentido, conforme observadas as falas dos adolescentes, o período da adolescência é profundamente marcado por conflitos inerentes à própria faixa etária na busca da construção de sua identidade pessoal e social. E é também um período marcado, ainda, por um forte processo da formação de grupos que se tornam espaços sociais de interação, aprendizagem e conflitos. No que tange à ideia de identidade, Cardoso de Oliveira (1976) afirma que pode ser entendida por meio de duas dimensões: pessoal e social, haja vista que uma é o reflexo da outra. Assim sendo, Goffman (apud CARDOSO DE OLIVEIRA, 1976, p.8) observou que “a identidade social e pessoal são parte, em primeiro lugar, dos interesses e definições de outras pessoas em relação ao indivíduo cuja identidade está em questão”. Nesse sentido, partindo da bidimensionalidade da identidade, apontada por Cardoso de Oliveira (1976), o que implica um confronto do “eu” diante do “outro”; entende-se, por meio da análise dos dados qualitativos, que os adolescentes, a partir do momento que se percebem diferentes de outros que não pertencem à mesma religião, revelam refletir a identidade cultural religiosa da PIB e como essa é repassada e assumida pelo grupo social da igreja. De certa forma, isso reflete uma estreita relação com o que o autor chama de “identidade contrastiva”, que implica a afirmação do “eu” diante do “outro” no instante em que o grupo se afirma por meio da diferenciação e da busca de afirmação dessa diferença diante de outros grupos religiosos. A partir dessas análises, são identificados principalmente três elementos identitários norteadores no processo de construção de identidade observado nos adolescentes da EBD: o espaço físico de cunho social religioso; a relação familiar e o processo grupal que contribuem para o processo de formação de identidade. No que se refere ao espaço físico de cunho social religioso, acredita-se que esse ambiente caracteriza-se como um lócus formador de identidade religioso significativo, em razão de a maior parte dos adolescentes ter nascido em um lar batista, onde a relação familiar assume um importante papel na construção da identidade e de socialização primária (BEGER, 2003; BOCK, 1995), apresentando uma história de vida em comum, em que todos pertencem à mesma religião, prezam pelos mesmos valores morais, éticos e religiosos. Por conseguinte, acredita-se que o processo de construção de identidade na adolescência é ao mesmo tempo pessoal e social, conforme apontou Cardoso de Oliveira (1976), pois ambos expressam o processo de tomada de decisão do adolescente através da interação com o grupo e o meio social em que está inserido. 128 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional 3.3.2 Um Breve Olhar Acerca da Construção de Identidade de Jovens Católicos da Casa da Juventude / Caju 3.3.2.1 A Casa da Juventude / Caju Na busca de compreender e analisar a formação de identidade em meio à diversidade cultural a partir de grupos de jovens, selecionou-se o universo centro urbano, visto que a vida urbana traz em si elementos que permitem compreender a formação de identidade. Um aspecto fundamental que evidencia possíveis princípios geradores de identidades no espaço urbano são as redes de relações sociais, o processo grupal, a religiosidade entre outros. Dessa forma, a pesquisa toma como referência, no que diz respeito ao espaço urbano, o bairro do Marco, também conhecido, como Marco da Légua22, localizado na Zona Norte de Belém, tendo sua área envolvida pela poligonal com início na interseção da Travessa Curuzu com a Avenida Visconde de Inhaúma até a Avenida Dr. Freitas, dobrando por essa e seguindo até a Avenida João Paulo II, a partir da qual recebe o nome de Avenida Perimetral. O bairro do Marco possui, atualmente, uma área de 4.892.405,297m2, com uma população com aproximadamente de 63.823 habitantes (IBGE, 2000). Estão registrados, nas esquinas de cada artéria do bairro do Marco, os nomes das principais batalhas e dos heróis da guerra do Paraguai, quer pelas grandes figuras militantes - Duque de Caxias, Almirante Barroso, Marquês de Herval, Visconde de Inhaúma –, quer pelas batalhas decisivas - Itororó, Lomas, Angustura, Mercedes, Curuzu, Humaitá, Vileta, Chaco. Algumas dessas denominações já foram substituídas com o passar do tempo. Assim, torna-se necessário fazer uma breve contextualização do referido bairro. Segundo Cruz (1970), no dia 29 de março de 1628, a Câmara de Belém tomou posse da sua primeira légua patrimonial: O Governador e Capitão-General do Estado do Maranhão e Grão-Pará, Francisco Coelho de Carvalho, em nome de sua Majestade o Rei de Portugal, foi que concedeu, por carta de doação e sesmaria, essa légua de terra à câmara Municipal de Belém (CRUZ, 1970, p. 35). Mas só no século XVIII se procedeu à medição e fez-se a demarcação respectiva. Fincou-se então, no lugar, um marco de madeira. Atualmente, observa-se que o tempo incumbiu-se de “encobrir” o monumento que marcou a posse do Marco da légua, porém a tradição fixou o local onde se realizou a cerimônia. 22[ Marco da Légua significa a implantação do marco da posse da primeira légua patrimonial de Belém. Assinalava o término da extensão da propriedade da terra que lhe fora mandada dar, por vontade Régia (CRUZ, 1970, p. 31). 129 Universidade da Amazônia Dessa forma, é de extrema relevância destacar o entorno do objeto de estudo deste relatório, ou seja, o bairro onde está localizada a Casa da Juventude, visto que possui uma conotação importante histórica, bem como uma abordagem descritiva acerca do contexto que abriga a CAJU. 3.3.2.2 O entorno da Caju Em decorrência da Casa da Juventude estar em reforma, a pesquisa de campo foi realizada na Igreja de Santa Cruz, localizada na Avenida Almirante Barroso, no bairro do Marco. Dentro do traçado urbanístico da cidade, esse bairro é considerado central, com características comerciais e residenciais, na sua maioria composto por casarões e algumas construções verticais. Quanto à Avenida em que está localizada a Igreja de Santa Cruz é considerada o maior corredor de tráfego de veículos de Belém. Por ela transitam diariamente centenas de veículos e a maioria das linhas de ônibus urbanos, interurbanos e interestaduais, e possui, também, uma grande ciclovia que interliga o centro urbano da cidade aos bairros mais afastados e municípios vizinhos, além de ser o corredor de entrada e saída da cidade, dando acesso à rodovia BR-316. No entorno da Igreja existem pequenos comércios, escolas, hospitais, laboratório, bancos, farmácias, postos de gasolina, escritórios, departamento de Polícia Federal, Unidade de Receita Federal, cartório, entre outros. Nas proximidades, também está localizado o Jardim Botânico Bosque Rodrigues Alves, com 150 mil m2 de área verde, constituindo-se como um resquício de floresta primária, em meio ao espaço urbano da cidade de Belém, além de ser um espaço que abriga espécies da fauna e flora amazônica, administrado pela Prefeitura Municipal de Belém por intermédio da Secretaria Municipal de Meio Ambiente – SEMMA, o Bosque “representa um importante logradouro público com um legado de mais de dois séculos” (CONTENTE 2004). 3.3.2.3 Breve Histórico da Casa da Juventude – CAJU23 Segundo o documento “Ação no Mundo”24 (1995) da Casa da Juventude, a Comunidade é uma entidade ligada à Igreja Católica, fundada em 02 de Fevereiro de 1959, pelo Padre Raul Tavares de Souza, cujo objetivo, a princípio, era intervir na realidade sofrida e desigual, evidente na sociedade paraense. De acordo com o padre Raul, um dos seus principais objetivos, na época da fundação da comunidade, “[...] era a preocupação dos pais com que chamavam de juventude transviada, que nada mais era do que aquilo que há hoje em dia com outros jovens [...]” (EDUCADOR). Pensou-se, então, em ajudar 23 24 A Casa da Juventude – CAJU localiza-se na Avenida Almirante Barroso nº 883, situada no Bairro do Marco. Ação no Mundo – “é principalmente uma abertura para uma melhor identificação de nossa vocação dentro da igreja e de uma garantia de que viveremos com verdade o chamado de nossa comunidade”. Documento estudado e aprovado no II Concílio da Casa da Juventude (1995). 130 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional esses pais, bem como seus filhos, abrindo um espaço onde eles pudessem se “encontrar” à medida que lhes eram oferecidos trabalhos que desenvolvessem o espírito de liderança nessa juventude, com o intuito de enquadrá-los em padrões e normas sociais. Dessa forma, Padre Raul iniciou seu trabalho evangelizador com a juventude da classe estudantil, em sua maioria formada por jovens oriundos do interior do Estado do Pará que migravam para a capital para estudar, criando um espaço para abrigá-los e evangelizá-los, com a atuação, inicialmente, de um grupo de oito pessoas advindo dos grêmios estudantis de Belém. Ao atuar em colégios secundaristas, o grupo de jovens orientados pelo Padre Raul criou diversos projetos atrativos, tais como: feiras de ciências; festivais de músicas; simpósios sobre a Amazônia; simpósios de conscientização de realidades regionais; semanas estudantis; exposição de artes, entre outros. Entretanto, de acordo com o padre, o objetivo da casa não era abrigar pessoas, ao contrário, era um centro de encontro. Contudo, nessa mesma época os internatos de Belém fecharam, e por um pedido, o padre acabou aceitando alguns jovens interioranos, que com o encerramento dos internatos não tinham onde ficar. Enquanto isso, os jovens externos, que participavam da Juventude estudantil católica – JEC, também se reuniam no local, que antes era localizado na Rua São Jerônimo, atual Avenida Governador José Malcher. LEGENDA Casa da Juventude – CAJU na Avenida Almirante Barroso. FIGURA 10: Localização da Casa da Juventude - CAJU Fonte: CODEM / 2004 131 Universidade da Amazônia Segundo Souza (2002), a igreja Católica no Brasil, ao longo da primeira metade do século XX, dedicava seus trabalhos com jovens quase que exclusivamente aos colégios onde estudavam os filhos das classes média e alta, exercendo em nome do Estado, a função supletiva de qualificar as elites dirigentes do país. A partir dos anos 60, por meio da Ação Católica Especializada - ACE, os jovens eram despertados para assumir um compromisso de trabalho social no seu meio. De acordo com o histórico da Casa, a CAJU alcançou grande popularidade na juventude estudantil, atuando de maneira intensa na capital por intermédio dos grêmios estudantis. Com uma forte ligação com a Juventude Estudantil Católica – JEC/Pará, a CAJU definira como objetivo maior, na época, a formação de lideranças cristãs atuantes em todos os setores da sociedade. Ainda com base no documento, por volta de 1966, em virtude da repressão política e do desentendimento de um lado entre as equipes dirigentes e de outro a hierarquia católica, essa experiência chegava ao fim. Na época, a Casa da Juventude atuava nas dimensões: religiosa-social, que visava ao acolhimento de pessoas desabrigadas e dos jovens oriundos dos interiores; religiosa-política, estimulada pelo turbulento contexto da sociedade vigente, procurando formar lideranças jovens com voz ativa; e religiosa-cultural, voltada para a atuação dos grêmios estudantis, com estímulo às artes, ao conhecimento e à cultura. Nessa época, a CAJU encontrava-se em plena atividade, espelhando nas suas ações “o grito seco da juventude oprimida”, que exigia seus direitos e liberdade de expressão. Nesse instante, a comunidade foi marcada pela atuação política do Estado e sofreu um golpe: o seu fundador e orientador espiritual foi deportado para o Chile devido ao contexto ditatorial que a sociedade vivia na época Entretanto, no seu retorno, Padre Raul congregou novos jovens, retornou as atividades da Casa, desta feita com uma dimensão nova, que classificou de Religiosa – Cultural – Social (HISTÓRICO DA CASA, 2002). O Padre trazia um lema consigo: “para que a juventude evangelize a juventude”. A partir de 1988, a CAJU passou a desenvolver diversos trabalhos de evangelização junto à comunidade de Belém. No decorrer do desenvolvimento desses trabalhos, integrou novos membros, dessa vez mais maduros e comprometidos com a obra, servindo com seriedade a Igreja. A partir daí, estabeleceu-se uma nova estrutura organizacional e catequética, com o intuito de melhorar o desenvolvimento da atividade evangelizadora e social da Comunidade (AÇÃO NO MUNDO, 1995). O mesmo documento relata que, para compor essa nova estrutura, a CAJU, desde então, passou a ser formada por “membros compromissados” 25, que assumem um compromisso anual de serviço e formação com a Casa, e também, de pessoas “não compromissadas”, mas que servem ou recebem formação de maneira não obrigatória na Casa. Conforme os dados coletados du25 Para que um jovem da Casa da Juventude torne-se um membro compromissado é necessário que ele sirva a Casa espontaneamente durante um ano, prestando serviço à comunidade e participando das formações catequéticas da CAJU. 132 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional rante a pesquisa de campo (2004), a CAJU conta com aproximadamente 165 membros compromissados e 150 não compromissados. Segundo os jovens do grupo de liturgia, para servir a Casa, apesar do trabalho árduo, todos os seus membros, ou seja, os recursos humanos da CAJU, servem gratuitamente, sem salário ou benefícios, a exemplo do próprio Cristo. Ao longo de sua trajetória, como entidade sem fins lucrativos, a CAJU vem se mantendo, primordialmente, por intermédio dos seguintes recursos financeiros: dízimo de membros compromissados e membros da comunidade, doações de amigos e incentivadores; patrocínio de empresas para os eventos, pedágios; venda de alimentos, rifas; promoções; vendas de artigos religiosos; entre outros. Apesar das diversas mudanças, o objetivo maior da CAJU permaneceu: [...] anunciar Jesus Cristo e seus ensinamentos a todos os homens é denunciar tudo o que vai de encontro ao plano divino de paz, igualdade e amor, interferindo, modificando e transformando a sociedade de hoje, em uma sociedade mais solidária e justa (AÇÃO NO MUNDO, 1995). Nos seus 45 anos (2004) de existência, percebe-se, nas falas dos entrevistados, jovens e educadores, que as obras e ações da Casa beneficiaram, direta e indiretamente, milhares de pessoas e famílias da comunidade paraense. 3.3.2.4 Sua Estrutura De acordo com os jovens e os coordenadores entrevistados, a estrutura da Casa da Juventude está dividida em Organizacional e Catequética. A Estrutura Organizacional é subdividida em Coordenações e Conselho. Há a coordenação geral, com um coordenador, um vice-coordenador, tesouraria e secretaria e sub-coordenações (Administração; Artes e Dança; Assistência Social; Comunicação; Dizímo; Encontros; Fest Cristo; Formação; Infraestrutura; Intercessão; Lanchonete; Liturgia; Livraria; Manutenção e Música). A Estrutura Catequética é subdividida, de acordo com idade e grau de responsabilidade perante a Casa, em 08 (oito) grupos de formação e catequese: - Cajuzinho: grupo iniciante de crianças e adolescentes que recebem formação, servindo nos grupos da Casa; - Aspirantes: grupo de jovens que ingressam na Casa para execução das atividades; - Estagiários: grupo intermediário, entre aspirantes e militante, com maior responsabilidade de serviços e formação. - Militantes: membros que passaram por aspirantes e estagiários, responsáveis pelo planejamento, decisão e coordenação das atividades da Casa; 133 Universidade da Amazônia - Pais: (catequese adulto) membros pais, casados ou não, recebem formação doutrinal, humana e familiar, bem como executam algumas atividades; - Grupos de Crisma (catequese crismal); - Primeira Eucaristia; - Grupos de Formação: abertos à comunidade para os interessados em assumir compromisso com a Casa. Percebe-se, portanto, que a Casa da Juventude possui uma estrutura que abriga todas as pessoas, independentemente de idade, pois se observa que há uma preparação catequética para as crianças, que podem inserir-se no “cajuzinho”. Assim, verifica-se que a maioria das crianças que se inserem na CAJU, geralmente, são influenciadas por uma herança familiar católica, para que, futuramente, possam desenvolver atividades dentro de uma vida voltada para a religião católica e, assim, se inserirem ao grupo dos militantes, por exemplo. 3.3.2.5 A Justificativa Segundo o documento Ação no Mundo (1995), as atividades evangelizadoras e assistenciais da CAJU, anualmente, beneficiam cerca de dez mil pessoas. Essas atividades podem ser classificadas em religiosas, catequéticas, evangelizadoras e sociais. As atividades catequéticas são um dos pontos fortes da CAJU, com a promoção de atividades de catequese doutrinal, espiritual, humana e social de membros e não-membros da comunidade. Quanto às atividades evangelizadoras, são desenvolvidas de forma intensa e realizadas anualmente com os seguintes eventos: Páscoa Jovem, Renascer e Fest Cristo. As atividades de assistência social tornam-se uma das maiores prioridades da CAJU, agindo e interferindo na realidade social local. Várias atividades são realizadas, com o objetivo de profissionalizar e dar assistência material e espiritual às diversas famílias e pessoas de Belém. Realiza-se um grande evento anual chamado Ação Social, no qual se presta assistência médica, orientação espiritual, faz-se doação de cestas básicas, doação de sangue; ministram-se palestras; entre outros. 3.3.2.6 Os objetivos O documento Ação no mundo (1995) destaca também, entre outros, que a CAJU objetiva a realização da reforma e a ampliação de sua Sede; a criação e viabilização de novas atividades socioassistenciais, profissionalizantes e evangelizadoras. Diante do intenso trabalho evangelizador e social realizado pela CAJU, com a preocupação acerca da situação desumana de marginalização, miséria e desigualdade na sociedade, tem-se por objetivo também a realização 134 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional de atividades profissionalizantes, para promoção de melhores condições de vida dos menos favorecidos. Outros projetos são almejados como: alfabetização de jovens e adultos; cursos de informática; cursos de línguas estrangeiras; oficinas de trabalhos manuais; oficina de reciclagem de papel; atividades artísticas; entre outras. Além desses projetos, os membros da CAJU pensam em investir na ampliação de outros já existentes para que alcancem, cada vez mais um número maior de pessoas, resgatando os conceitos de dignidade e possibilidade de uma vida melhor. 3.3.2.7 A Filosofia Por meio do documento Ação no Mundo (1995), a comunidade Casa da Juventude procura definir suas práticas e sua espiritualidade na sociedade de Belém. Para isso, organiza-se com base no “Método”, responsável pela união da reflexão à ação, e que desenvolve a consciência crítica com vistas à ação transformadora, a partir do próprio viver. Segundo o grupo, é a metodologia do verjulgar-agir-avaliar-celebrar, um método que tem como pressuposto inicial a observação da realidade seguida de uma reflexão sobre ela mesma, para por fim, partir para uma ação mais consciente e eficiente no mundo, avaliando e festejando os resultados alcançados. Os cinco momentos do método são distintos, mas não separados. Para os membros da CAJU, é uma revisão de vida, que visa à transformação radical das pessoas e da sociedade, ou seja, a transformação pessoal e coletiva. Dessa forma, torna-se necessário explicitar o significado de cada momento do método para uma melhor compreensão. O “ver” significa olhar a realidade que se conhece pelos fatos, nos lugares aonde vamos ¯ família, escola, trabalho e outros, apreciando suas causas e consequências por meio das interrogações como: “Por que aconteceu?”, “Quais as pessoas envolvidas?”, “Quais as consequências?”. Pode ser realizado em grupos de tal modo a permitir um melhor entendimento sobre o fato. O “julgar” é analisar a realidade, segundo a Casa da Juventude, à luz da palavra de Cristo. O “agir”, visualizado no ver e analisado no julgar, implica dois passos: o planejamento e a execução; sendo que, ao planejar, os passos da execução são colocados no papel, é o projeto; e a execução é a prática em si, o fazer, o concretizar. O “avaliar” é rever os fatos acontecidos com o objetivo de corrigir os erros e aprimorar os acertos. O “celebrar”, segundo a CAJU, é o gesto de agradecer a Deus pela mudança praticada com a observação, o julgar, o agir e a avaliação. Assim, o compromisso dos membros da CAJU consiste na vivência livre e espontânea do seguimento Cristão, já que é uma comunidade católica. Os princípios básicos da comunidade são: vocação, espiritualidade, obediência e serviço. A vocação é a escolha do homem pela vida pautada nos valores cristãos. A espiritualidade consiste na crença na ação do Espírito Santo, na transformação ético-moral do homem. A obediência refere-se à observância das pro- 135 Universidade da Amazônia postas de mudança espiritual do homem. Por fim, o Serviço configura-se como a prática da moral cristã na sociedade. O jovem compromissado com a CAJU segue as seguintes práticas como filosofia de vida: participação na cerimônia da missa e da eucaristia; oração pessoal e diária; leitura da bíblia; oração diária do terço; reflexão diária da vida; busca frequente do sacramento da confissão; caridade constante. Tais atividades perpetuam a vida dos jovens em todos os seus momentos, seja no trabalho, na universidade ou em casa. Segundo eles, nos momentos difíceis do cotidiano, costumam orar, refletir e fazer leitura bíblica, sendo isso uma característica diferencial destes jovens, haja vista que tais atividades refletem nos seus testemunhos de vida, nos seus comportamentos, como se pode observar no relato abaixo: [...] é tentar ser diferente na escola, no trabalho, eu coloco isso no meu dia-a-dia, por exemplo, quantas vezes já aconteceram coisas no trabalho que tivessem me deixado chateada, mais se fosse em outra época com certeza eu tinha discutido, hoje eu tento me calar, rezo até uma Ave Maria para ficar mais calma. Hoje a gente tenta fazer coisas que antes não fazíamos [...] porque apesar da gente viver em comunidade, da gente conhecer Deus, nós somos pecadores [...] as pessoas de fora te cobram mais, por que ai de você se fizer ou falar alguma coisa de errado as pessoas logo falam “ isso é porque ela vive na Caju”. E isso é exercício para nós” (GRUPO FOCAL, JOVEM DO SEXO FEMININO). É importante acrescentar que, para os entrevistados, o Jovem Católico precisa assumir o compromisso com Deus, e não deixar ser manipulado por nada nem por ninguém, isto é, assumi-lo sem receios e complexos. E mais, a relação deles com Deus, estar na Igreja e defender valores e princípios, é a coisa mais importante em suas vidas. 4.3.2.8 O Grupo de Liturgia da Casa da Juventude De acordo com os relatos colhidos com a coordenação do grupo de Liturgia, acredita-se que foi criado em 1995, com o objetivo de mostrar aos jovens a importância da Liturgia da Igreja, suas origens, sua história. Segundo o documento “Ação no Mundo”, “a Liturgia é o ápice pelo qual tende a atividade da Igreja, e, ao mesmo tempo, a fonte de onde emana a sua força” (1995, p.16). Nesse sentido, o fundador da CAJU, o Padre Raul Tavares, acrescenta que a formação do grupo objetiva organizar a missa, a primeira comunhão, a crisma e a parte religiosa. 136 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional Desde a sua fundação até os dias atuais, conforme os entrevistados, ocorreram diversas mudanças no grupo, dentre as quais, pode-se apontar a mudança de coordenação e de membros. Sendo assim, o perfil dos integrantes se modifica à medida que novos membros aderem ao grupo, tornando-se ora mais dinâmico, ora mais orante; algumas atividades mudam, mas a essência do grupo continua a mesma, com a busca de uma maior vivência litúrgica. Quanto às atividades desenvolvidas pelo grupo, algumas permanecem, como a leitura bíblica, o estudo do catecismo, o estudo das partes das missas, o encontro de oração; tudo com o intuito de fazer com que os jovens conheçam a história da igreja e a missa parte por parte. Segundo Milner (1969, p. 801), o culto da Igreja Católica, a que se dá o nome de Liturgia, foi definido na Constituição da Sacra Liturgia, promulgada pelo Concílio Vaticano II, como: [...] o exercício do munos sacerdotal de Jesus Cristo, no qual, mediante sinais sensíveis, é significativa e, de modo peculiar a cada sinal, realizada a santificação do homem; e é exercido o culto integral pelo Corpo de Cristo, Cabeça e membros (MILNER, 1969). Desde a sua fundação, a motivação dos jovens em relação ao grupo de liturgia era o fato de se descobrir algo novo. A sua importância reside no fato de despertar o interesse do jovem pela oração e por uma vida voltada para Deus. Sobre isso, o Padre Raul Tavares (EDUCADOR, 2004), acrescenta que: O carisma nosso é trabalhar com a juventude onde quer que estejamos, certo? Temos um lema assim, a “Alegria da Ressurreição de Jesus”. Quer dizer, os jovens podem ser tristes, têm que ser jovens alegres, a missa, portanto, tem que ser alegre como Cristo nos deu alegria de ressuscitar, garantir pra nós a ressurreição (EDUCADOR, 2004). Os membros compromissados com a CAJU expressam que sempre buscam toda sua espiritualidade na vivência ativa de todos os sacramentos, principalmente na Eucaristia, com base de confirmação e renovação da vocação a que foram chamados. 3.3.2.8.1 Perfil social do grupo de liturgia Os dados do perfil aqui apresentados referem-se à análise de 12 formulários aplicados aos jovens que participam do Grupo de Liturgia, com os seguintes dados, de acordo com algumas variáveis: 137 Universidade da Amazônia 3.3.2.8.2 Gênero, idade e cor Do grupo de jovens que responderam os formulários, 75% são do sexo feminino, 25% do sexo masculino. Dessa forma, percebe-se que o sexo feminino predomina no grupo pesquisado, que segundo alguns jovens entrevistados, esse fato ocorre porque as mulheres criam laços mais profundos e mais comprometidos com a religião ou, ainda, porque são vistas como mais designadas e mais preparadas, conforme se observa: “[...] é porque os homens vêm a algumas reuniões depois somem e não vêm mais, já as mulheres criam laços e acabam ficando [...]” (GRUPO FOCAL, 2004). Diante dessa perspectiva. pode-se afirmar que gênero (MORAES, 2001) é um conceito que se refere a um sistema de papéis e de relações entre mulheres e homens, os quais não são determinados pela biologia, mas pelo contexto social, político e econômico. Assim, no contexto do grupo de liturgia anteriormente, podia se identificar uma divisão de tarefas por gêneros, em que os meninos carregavam as mesas, evidenciando a força do sexo masculino, e as meninas demonstravam sua sensibilidade ao arrumarem o altar. No entanto, foi relatado que na atualidade tais divisões estão mudando devido às peculiaridades de cada sujeito e habilidades pessoais. Quando perguntados sobre o limite de idade para inserção no grupo, os jovens responderam que era uma questão de identificação, pois, por exemplo, as pessoas mais velhas inseriam-se no grupo de pais, ao passo que os mais jovens, muitas vezes, inserem-se no cajuzinho. Diante disso, observa-se uma diversidade na faixa etária dos jovens do grupo de liturgia: 25% têm 20 anos; 26% têm 22 anos; 17% têm 21 anos; 8% têm 24 anos; 8% têm 27 anos; 8% têm 28 anos e 8% têm 19 anos. Os dados revelam, ainda, que todos os jovens são solteiros e não possuem filhos. Quanto à cor (autodesignação), os dados revelam que 50% se consideram morenos; 17%, brancos; 17%, pardos; 8% se consideram negros, e 8%, indígenas. Desse modo, observa-se que a metade dos jovens se consideram morenos, cor tal que é autodesignada por eles. Entretanto, pode se observar ainda que há uma diversidade quanto à cor designada por eles com relação aos outros. Segundo Munanga (1999): A mestiçagem, do ponto de vista populacionista, é um fenômeno universal da qual as populações ou conjuntos de populações só escapam por períodos limitados. É concebida como uma troca ou um fluxo de genes de intensidade e duração variáveis entre populações mais ou menos contrastadas biologicamente (MUNANGA, 1999, p.17). Dessa forma, a autodesignação como morenos refere-se a uma mestiçagem entre brancos, negros e índios, basicamente do caboclo da Amazônia. 138 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional 3.3.2.8.3 Grau de escolaridade Os dados revelam que 58% dos jovens estão no ensino superior incompleto; 8% no ensino médio incompleto, também 8% no ensino médio completo, e 26% no superior completo. É importante acrescentar que, 17% desses últimos, fazem pós-graduação. Logo, verifica-se maior concentração de jovens no ensino superior. Vale ressaltar que os entrevistados são privilegiados por estarem no referido grau de escolaridade. Entre outros fatores, a posição social (classe média alta) de grande parte desses jovens contribui para melhor formação profissional no sentido de que o acesso aos recursos adquiridos abre caminhos para o sucesso profissional, já que muitos possuem subsistência para arcar com os custos de um curso universitário; além disso, alguns dos jovens entrevistados cursam profissões elitizadas, tais como: Direito e Odontologia. 3.3.2.8.4 Principais meios de comunicação, transporte e lazer A análise dos formulários revelou que 33% dos jovens utilizam a televisão como principal meio de comunicação, seguido da Internet com 25%, telefone com 17%, rádio com 17% e revista com 8%. Observa-se, então, que os jovens se sentem atraídos pela televisão por considerarem-na como bom “passa-tempo”, e também, de certa forma, repassar informações sobre o mundo inteiro. Acrescenta-se a isso o fato de os grandes meios de comunicação, especialmente a televisão, trazerem para suas produções os desejos, o imaginário da população, o que permite uma aliança estreita entre o sistema de meios e os seus consumidores, garantindo uma audiência de milhões de pessoas. Por isso, ainda é um dos meios de comunicação mais acessados, não só por esses jovens, mas por grande parte da classe popular. Na era da globalização, a Internet vem ganhado espaço, principalmente daqueles que têm condições financeiras para a propriedade de um computador ou acesso à Internet no trabalho, apontando mais uma vez a classe econômica dos jovens entrevistados. Observa-se ainda, resultado semelhante nos percentuais, entre os itens que correspondem à Internet, telefone e rádio. Ao que se refere ao meio de locomoção utilizado pelos jovens, a maioria deles (58%) utiliza-se de transportes coletivos; entretanto uma parcela também significativa utiliza como meio de locomoção carro próprio e / ou da família (42%). Em relação a lazer, constata-se que 34% gostam de se encontrar com amigos, como também 34% gostam de ir ao cinema e outros 8%, cada, gostam de ouvir música, dançar, praticar esportes e todas as outras opções de lazer. Os dados demonstram que os momentos de lazer como cinema e conversa com amigos fazem parte da preferência da maioria dos entrevistados. Verifica-se ainda que tais hábitos fazem parte de um contexto urbano, no qual os jovens estão inseridos. 139 Universidade da Amazônia 3.3.2.8.5 Família Detectou-se que a composição familiar dos membros pesquisados é nuclear, ou seja, uma composição familiar de formação entre pais e filhos, sobre uma média de 50% do grupo pesquisado, seguido de outras variações como: 50% dos integrantes têm sua família composta por 1 a 3 pessoas, o que mostra uma composição familiar pequena, e 34% possui a família composta por 3 a 5 pessoas, seguidos de 8%, composta por 1 a 7 pessoas, e também de 8%, composta acima de 7 pessoas. Quanto à residência, 83% moram com os pais e 17% com parentes. A maior parte dos jovens, 58%, tem apenas um irmão, seguido de 34% que possuem dois irmãos e 8% que possuem três irmãos. Vale ressaltar que a maioria dos jovens reside com os pais, mesmo que alguns já tenham formações profissionais, sendo isso uma realidade atual da juventude contemporânea que está retardando a saída de casa. 3.3.2.8.6 Lugar de moradia Com relação aos bairros em que os jovens residem, os dados mostram que 43% moram próximos à sede da CAJU, no bairro do Marco; 8% no Guamá, 8% no Mangueirão, 8% na Marambaia, 8% no bairro de Nazaré, 17% em São Brás e 8% no Umarizal. Observa-se que uma parcela significante dos jovens reside em bairros centrais urbanos, assim os limites de atuação dessa juventude no espaço em que vivem (a casa, o bairro, a cidade, o país) decorrem da posição que eles ocupam, das possibilidades que neles são oferecidas, da maior ou menor mobilidade das estruturas sociais. 3.3.2.8.7 Religião Com relação à religião, os dados indicam que todos os jovens são católicos praticantes e frequentam a Casa da Juventude. Detectou-se, ainda durante a pesquisa, que 83% dos jovens entrevistados já participaram de outros grupos na CAJU, tais como: grupo de atividades religiosas e grupo de assistência social. No entanto, 17% dos jovens nunca participaram antes de nenhum outro grupo. No que se refere à participação dos jovens nos diversos grupos da Casa, observa-se, portanto, a dedicação deles com a religião e com a questão social, que, em alguns casos, já vem de uma história familiar católica, ou seja, tais jovens têm seus pais católicos envolvidos com a igreja e até inseridos na CAJU, como se pode perceber no relato a seguir: 140 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional [...] minha família graças a Deus está toda aqui [...] tenho uma irmã que já foi coordenadora desse grupo, tenho um irmão que está de licença da casa mais ele também faz parte deste grupo, meu sobrinho também foi daqui desse grupo só que agora ele está em outro e minha mãe que também está dentro de casa (GRUPO FOCAL, 2004). Vale ressaltar que atualmente 58% dos jovens entrevistados continuam participando de outros grupos, tanto dentro como fora da CAJU, tais como: grupo de assistência social, grupo de formação, captação de recursos da CAJU e Centros Acadêmicos da Unama. No entanto, 42% não participam de nenhum outro grupo a não ser o de Liturgia. Chama a atenção o fato de uma quantidade considerável de jovens que, além de desempenhar suas atividades no grupo de liturgia, apresentam-se envolvidos em outros grupos. Isso demonstra o interesse desses jovens em compreender/reconhecer os espaços coletivos, interagindo e trocando experiências com as pessoas que não fazem parte do seu grupo habitual de convivência. Os dados também revelam que 42% dos jovens chegaram ao grupo sozinho, 25% por intermédio de amigos, 17% por meio de familiares/parentes, 8% por intermédio do fundador, Padre Raul e 8% por meio de namorada. Percebe-se aqui que, apesar de os jovens terem sua história de vida e familiar voltadas para a religião católica, a família não é a principal causa de sua inserção no grupo; porém esse sentimento de motivação para a inserção na Casa da Juventude, mais especificamente ao grupo de Liturgia, pode ter sido gerado desde a infância pelas figuras de referências, os pais, e que hoje se manifesta nesses jovens. Quanto à permanência dos jovens no grupo de Liturgia, os dados apontam que 33% deles estão no grupo há um ano, seguido de 17% que frequentamno há dois anos, 17% com três anos, 8% participam do grupo há cerca de cinco anos e 25% entre dois meses a onze meses. Observa-se que alguns desses jovens estão inseridos somente no grupo de liturgia, e isso os leva à dedicação pelo trabalho desenvolvido no grupo. Percebe-se, também, que grande parte dos jovens que responderam aos formulários está engajado no grupo há pelo menos um ano. Dessa forma, acredita-se que o serviço da Liturgia seja realizado com seriedade de tais jovens, cujo serviço litúrgico, bem como as atividades de cunho assistencial, são vistos com responsabilidade, até mesmo porque um dos ensinamentos passados aos jovens tem como fundamento o compromisso. 3.3.2.8.8 Entrevistas Com 9 (nove) jovens do grupo de liturgia da Casa da Juventude realizouse entrevistas a fim de obter um perfil mais aprofundado. A partir da análise das entrevistas realizadas com os jovens do Grupo de Liturgia, constatou-se com relação ao sexo que 77.8% pertencem ao sexo 141 Universidade da Amazônia feminino e 22, 2% são do sexo masculino. Com relação à idade, percebeu-se que 66,6% têm idade entre 20 e 22 anos. Quanto ao grau de escolaridade, constata-se que todos estão na Universidade. Assim 22,2% cursam Direito e outros 11,1% cada, cursam Turismo, Administração de Agro-Negócio, Farmácia, Veterinária. Outros 33,4% já são formados e fazem pós-graduação. Percebe-se que os jovens entrevistados fazem parte de uma pequena parcela da população brasileira que tem acesso ao ensino superior, haja vista, que no Brasil o acesso às universidades ainda é para uma minoria, visto que, segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira - INEP (2003), somente 9% dos jovens de 18 a 24 anos estão nas universidades, sendo que, no Brasil, existem 1.391 instituições de ensino superior e dessas, somente 183 são públicas, limitando muito o acesso de jovens com poucas condições financeiras. No que se refere à naturalidade dos jovens, constata-se que 77,7% são naturais de Belém - Pa; e com resultado semelhante, 11,1% cada, são naturais de Altamira e Castanhal. Vale ressaltar que, quanto ao local de residência, os dados mostram que uma parte considerável desses jovens reside próxima a CAJU. Assim, 44,4% residem no bairro do Marco; 22,2% em São Brás; e 11,1%, cada, residem nos bairros do Mangueirão; Guamá e Umarizal. É importante acrescentar que o motivo de os jovens frequentarem a CAJU não se dá pela proximidade ou localização no bairro onde uma parcela significativa reside, o que tornaria mais fácil o acesso à comunidade, mas sim, segundo relato dos próprios jovens, em virtude da CAJU ter uma forma peculiar de trabalho religioso e social, pois 55,5% moram em bairros distintos e frequentam a casa assiduamente. 3.3.2.8.9 Cotidiano e preferências No que se refere ao dia a dia, 55,6% dos jovens verbalizaram que frequentam a faculdade, seguido de 22,2% que costumam estudar em casa, como também 22,2% participam de atividades na Casa da Juventude. Os jovens disseram ainda que no dia-a-dia fazem ginásticas, escutam música, leem livros, fazem curso de pintura e estágio, com 11,1% cada. Quando perguntado sobre o que costumam fazer quando não estão na universidade ou trabalhando, 22,2% revelaram que gostam de ficar em casa, 22,2% de sair à noite e outros 22,2% de ir para Casa da Juventude. E 11,1%, cada, apontaram que frequentam a academia, saem com os amigos, vão ao cinema, assistem DVD, acessam à Internet, leem e vão ao shopping. No que se refere aos eventos de que costumam participar, 66,6% dos jovens entrevistados disseram que gostam de ir a barezinhos, 55,5% ao cinema, 44,4% de ir para a Casa da Juventude, 33,3% para a pizzaria, 33,3% para shows, 22,2% shopping, e 22,2% a Casa das Onze Janelas. Os jovens entrevistados 142 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional verbalizaram que nos tempos livres costumam ficar com os amigos, com a família, ouvir música, acessar à Internet, ler, assistir a filme. Quando perguntados acerca dos locais da cidade de Belém que costumam frequentar, os jovens entrevistados verbalizaram que gostam de frequentar bares e boates. Quando frequentam esses locais, os jovens entrevistados costumam gastar entre U$ 3,45 e U$ 20,69 por local frequentado26. O critério utilizado para a escolha desses lugares é porque são frequentados pelos amigos em comum, citado por 33,3% dos entrevistados, seguidos de 22,2% que frequentam porque os ambientes e as músicas são agradáveis, como também porque tais ambientes oferecem música ao vivo, espaço para dançar e conversar, além da segurança. Com relação aos meios de comunicação, 66,6% dos jovens verbalizaram que utilizam a Internet, em segundo lugar, com 55,5% a televisão, com 44,4%, jornal, com 22,2% , cada, rádio, telefone e revista, além de 11,1% que utilizam livros. Dos entrevistados, 33,3% disseram que acessam esses meios de comunicação diariamente e 22,2% utilizam semanalmente ou raramente. Na televisão, assistir a filmes é um dos programas preferidos por 44,4% dos entrevistados, assim como as novelas e jornais que também aparecem com 44,4% das preferências; e 11,1% dos entrevistados gostam de assistir a desenhos animados. 3.3.2.8.10 Relacionamento com a família Os dados das entrevistas apontam que 66,6% dos jovens residem com os pais; 22,2% com a mãe e 11,1% moram com a irmã. No que se refere à composição familiar dos entrevistados, 33,3% pertencem à família composta de quatro pessoas; 22,2% de três pessoas e 11,1%, cada, por duas pessoas e/ou de cinco e sete pessoas. Quando perguntados acerca do relacionamento familiar, metade dos jovens verbalizou que consideram a relação familiar “boa”, citado por 55,5% dos entrevistados, enquanto 22,2% consideram a relação familiar “ótima” e 11,1%, cada, consideram os seguintes adjetivos, “fantástica” e “excelente”. Nesse sentido, 55,5% dos jovens entrevistados revelam que não sentem dificuldade de relacionamento com seus familiares, o que foi observado nos relatos: “Graças a Deus é ótima, super franca, super amiga, super madura mesmo, super tranquila, de amiga pra amiga, de amigo pra amigo” (JOVEM C2). Lá em casa é ótima, tem discussão como em qualquer outra família, mas na maioria das vezes é bem harmoniosa, a gente conversa bastante, a gente participa muito da vida 26 Os valores em reais foram convertidos em Dólar (Cotação do dia 15/ 09/ 2004 era de U$ 1,00 = R$ 2,907). O Liberal, Caderno Painel/Economia, p.6. 143 Universidade da Amazônia um do outro, e isso é bom, principalmente pra quem tá fazendo uma base de qualquer coisa, religiosa, profissional, isso conta muito, a base familiar (JOVEM C3). Entretanto, 33,3% revelaram que sentem dificuldade de relacionamento com os pais, como nos relatos abaixo: Eu tinha muito com a minha mãe, a gente é muito diferente, eu costumo dizer que eu sou muito parecida com meu pai, aí a gente briga porque a gente é muito parecido, muito cabeça dura, os dois, e a minha irmã já é parecida com a minha mãe, e hoje eu aprendi a lidar com a mamãe, de conhecer os limites dela, dizer, pôxa, ela é assim, mas não que ela não goste de mim (JOVEM C8). Segundo Mioto (1997): A família é uma instituição social historicamente condicionada e dialeticamente articulada com a sociedade na qual está inserida. Esta se depara com sérios desafios advindos tanto de suas demandas internas como do seu meio social (MIOTO, 1997, p. 128). Contudo, é inegável que, por mais estruturada que seja, uma família não tenha momentos contraditórios, acarretando conflitos com seus membros; já que muitas vezes as crianças crescem e tomam personalidades diferentes de seus pais; pois, apesar de estarem profundamente e exclusivamente identificadas aos pais, que lhe parecem ser na maioria das vezes poderosos e belos e em outros momentos se mostram perigosos, desagradáveis e até intolerantes, o contexto sócio-histórico que vivenciam também influenciará, inclusive, na própria identidade dos jovens, por mais traços que obtenham de seus pais. Os ensinamentos repassados por uma família católica, na maioria das vezes, se traduzem na harmonia familiar, em que os membros devem viver bem consigo, com o mundo e acima de tudo com Deus e Nossa Senhora. Assim, é provável que o maior percentual, quando perguntado sobre relacionamento familiar, se dê sob um relacionamento positivo; entretanto não se deve desconsiderar a subjetividade de cada subsistema formado por meio de relações entre pai-filha, pai-filho, mãe-pai, marido-esposa, irmão-irmã etc, além da própria individualidade de cada sujeito. A partir das entrevistas, vale refletir que a juventude, como fase da vida, envolve a construção de autonomia e individualização frente à família. Nesse processo, além da conquista de independência econômica, eles buscam um progressivo desligamento da autoridade dos pais, estabelecendo confronto 144 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional entre valores e ideais a partir de novas fontes de referência, até chegar a um modo próprio de ser e de enxergar o mundo. 3.3.2.8.11 Inserção no grupo de liturgia No que se refere ao grupo de jovens pesquisados, 66,6% participam do grupo acerca de um ano, destes, 44,4% começaram a participar do grupo por intermédio de amigos, seguido de 22,2% que chegaram ao grupo por iniciativa própria, como também, por 11,1% cada, que apontaram que chegaram ao grupo por intermédio da irmã e da coordenação do grupo. Os jovens entrevistados verbalizaram que frequentam o grupo aos domingos, citado por 66,6% dos entrevistados. Quando perguntados sobre a principal motivação em participar do grupo de liturgia, 44,4% verbalizaram que a motivação se deu por causa do serviço de liturgia da CAJU. Os demais, com 22,2% cada, revelaram que gostariam de conhecer um pouco mais sobre a igreja católica; acreditam que se sentiram chamados a estar perto de Deus, como também, pelo convite feito por amigos, conforme se observa no relato a seguir: [...] me motivou principalmente a questão do serviço. É, de tipo assim, retribuir um pouco daquilo que eu já tinha recebido muito da CAJU. Tipo assim, quando eu conheci a CAJU mudou a minha vida. Mudou pra melhor, eu fiz novas amizades, amizades sinceras, uma outra vida, né [...] eu comecei a ter um outro tipo de comportamento em várias coisas, a minha vida ficou preenchida. Então pra mim é fazer um serviço na CAJU, trabalhar em alguma coisa em prol da comunidade é um pouco assim, do mínimo que eu posso retribuir por tanta coisa boa que ela me traz e que ela me fez, que ela me traz, que ela me ensinou, entendeu? (JOVEM C2). No que se refere aos objetivos do grupo de liturgia, 33,3% dos entrevistados verbalizaram que o objetivo do grupo é fazer com que a celebração da missa “seja uma grande festa”; 33,3%, também, apontaram que o objetivo do grupo é evangelizar. Já 22,2% revelaram que o objetivo do grupo é “servir a Deus” e dar apoio durante a celebração da missa, enquanto que outros 22,2% acreditam que o objetivo do grupo é incentivar a evangelização. Quando questionados sobre os aspectos positivos do grupo, 22,2% apontaram ser o compromisso, seguido de 22,2%, cada, apontaram a sinceridade e a união dos membros do grupo de liturgia. Com 11,1% cada, aparecem os seguintes aspectos positivos: fidelidade, humildade, responsabilidade, harmonia, busca de espiritualidade, respeito, disponibilidade. Por isso, por meio das informações coletadas, observa-se que os jovens procuram destacar como pri- 145 Universidade da Amazônia mordial o compromisso e a sinceridade para o desenvolvimento de um bom trabalho no grupo. De acordo com os dados, os jovens explicitam que há a valorização da missão e o compromisso no grupo, pois os integrantes levam a sério suas responsabilidades. É importante enfatizar, segundo os entrevistados, os ganhos dos próprios jovens em termos de satisfação pessoal e oportunidades de crescimento, convivência e cooperação. No que concerne aos aspectos negativos, 44,4% do grupo apontou a falta de iniciativa de alguns membros do grupo. Outros aspectos negativos do grupo também foram destacados, como por exemplo, “fazer as coisas com má vontade”, “falso entendimento de que a liturgia é só aos domingos”, “divisão de tarefas”. Como se pode observar, alguns jovens explicitaram também aspectos negativos: pontuaram a falta de compromisso de alguns, ou seja, percebem a participação superficial de determinados jovens, como podemos constatar nos dados apresentados. Entretanto, os entrevistados expressam claramente que à medida que cresce a habilidade de comunicação e a confiança mútua entre o grupo, um ou vários participantes poderão mostrar-se capazes de colocar limite ao comportamento inadequado, com firmeza e assertividade, tentando contornar a situação por meio de diálogos, dinâmicas, entre outros. 3.3.2.8.12 Relacionamento no grupo Quando perguntados acerca dos tipos de relacionamento que vivenciam no grupo, 33,3% dos entrevistados responderam que vivenciam relacionamento de amizade, como também 33,3% verbalizaram que têm um bom relacionamento com as pessoas do grupo. Os demais revelaram vivenciar um relacionamento pautado pelo companheirismo, harmonia, fraternidade e/ou carinho. Com base nos dados colhidos por meio da entrevista, percebe-se que os jovens se relacionam bem. Eles expressam que há uma interação no grupo de acordo com o conjunto de ações, possibilitando-os a examinar e melhorar seus próprios comportamentos e, consequentemente, o comportamento dos outros. Com relação à avaliação da sua participação no grupo de liturgia, 33,3% verbalizaram que gostariam de participar mais; 22,2% revelaram que gostariam de ser mais dedicados; e os demais verbalizaram que gostariam de ser mais pontuais e assíduos. Quando questionados sobre o que as pessoas pensam da sua participação, os jovens responderam que as pessoas “ficam felizes com a sua participação”, que tem acrescentado no grupo”, “que é importante”, “que se mostra interessada” e “que faz para aparecer”. Os jovens revelaram o desejo de participarem de forma “mais presente”; serem “mais dedicado”, sem “falta à organização”, com o intuito de “se comprometer mais”, “ser mais ativo”, “normal”, “mais sereno”. Esses dados indicam que a maior parte dos jovens almejam assumir um compromisso com a 146 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional CAJU, visto que, para a realização desse, é necessário um comprometimento muito maior e não apenas fictício. 3.3.2.8.13 Conflitos no grupo Os jovens entrevistados revelaram que no grupo de liturgia participam pessoas diferentes com ideias diferentes, e que essas diferenças acrescentam no grupo, sendo tratadas com democracia. Outros 88,8% dos jovens revelaram que existe espaço para diferenças no grupo. Quando perguntados como o grupo ou os membros lidam com essas diferenças, 33,3% dos jovens entrevistados revelaram que lidam com as diferenças por meio do diálogo, do respeito, da maturidade, da melhor maneira possível; outros 11,1% verbalizaram que se não existisse a figura do coordenador do grupo haveria muitos conflitos. No que se refere aos conflitos no grupo, 55,5% revelaram que não há conflitos no grupo de liturgia e 22,2%, que nunca se percebeu nenhum tipo de conflito no grupo. Entretanto, 33,3% dos entrevistados apontaram que há conflitos em virtude das divergências de pensamentos e revelaram que os conflitos são resolvidos por meio do diálogo e da intervenção dos coordenadores do grupo, que direcionam as discussões e assim “tentam harmonizar as relações sociais do grupo” (JOVEM C3). Nesse sentido, pode-se afirmar que os jovens percebem de maneira sutil os conflitos, porém, em virtude de a CAJU ser um grupo religioso, todos buscam a harmonia entre os membros do grupo. 4.3.2.8.14 O grupo enquanto processo educativo Quando perguntados sobre a importância do grupo na sua formação profissional e pessoal, percebe-se que os jovens acreditam que o grupo de liturgia possui uma importância bastante positiva, uma vez que os jovens consideram-no como ajuda na formação moral, na questão do compromisso/responsabilidade, na harmonia, em ser mais compreensivo, em ouvir mais as pessoas, ter calma e/ou ajudar a refletir; além de fortalecer a espiritualidade, em ser um bom cristão e ainda conviver com as pessoas e lidar com as adversidades. O jovem faz parte de um todo maior, de uma coletividade, geralmente representada por grupos e organizações juvenis, formais ou informais, das mais diversas naturezas e atuações. Alguns trabalhando a própria temática juvenil, outros trabalhando uma série de outras temáticas condizentes com a sociedade e com o mundo, ou com o espaço onde vivem como um todo. O grupo de jovens da CAJU trabalham, além dos ensinamentos cristãos, as temáticas voltadas para a sociedade na sua totalidade, sob uma tentativa de resgate da humanidade, bem como da cidadania. Os entrevistados expressam que o grupo proporcionou a eles uma vida flexível e adaptativa ao contexto organizacional. Dessa forma, eles são capazes 147 Universidade da Amazônia de selecionar modos de vida e de trabalho de uma maneira mais integrada, dinâmica e participativa, especialmente na igreja, que os possibilita uma constante forma de aprendizado. A maioria dos jovens entrevistados, ou seja, 66,6%, participaram de formações religiosas na Casa da Juventude; 44,4%, de shows de bandas católicas e 22,2% já participaram de retiros. Constata-se que a maioria das atividades de formação pessoal ou profissional de que os jovens participaram são oferecidos pela própria Casa da Juventude. No que se refere aos desafios ao grupo de liturgia, os jovens entrevistados destacaram diversos desafios, dentre eles, 22,2% acreditam que o desafio é realizar as missas semanais; outros 22,2% verbalizaram que é digitar corretamente os folhetos da missa. Os demais jovens verbalizaram que o desafio perpassa por ser fiel ao compromisso que se assume, dedicar-se ao trabalho litúrgico durante a celebração da missa; e à organização, à estabilidade do grupo em ter um quadro fixo e chamar jovens para participarem do grupo e/ou organizar as celebrações da missa no horário. Observa-se que os jovens apontam como desafio a autenticidade no grupo. Cabe destacar, entretanto, que autenticidade é a condição básica para o processo de assumir integralmente a própria vida e destino. Segundo os entrevistados, a autorresponsabilidade leva à mudança de perspectiva frente às dificuldades. 4.3.2.8.15 Relações de gênero no grupo Os jovens entrevistados acreditam que não há diferenças no tratamento das pessoas inseridas no grupo, citado por 44,4% dos jovens. Entretanto destacam também que não há diferenças de tratamento enquanto pessoas, mas existem diferenças com relação aos serviços e funções, pois, normalmente as meninas do grupo realizam as tarefas mais leves e/ou “delicadas”, que não exigem esforço físico. Ao passo que os meninos do grupo realizam tarefas que exigem um pouco mais de força, como, por exemplo, carregar os materiais de liturgia. Mas, no geral, todos acabam realizando as mesmas tarefas, tais como: organização do altar, preparação do ofertório, acolhida, comentarista, entre outras. Apesar de algumas reclamações no que diz respeito às tarefas, como foi pontuado, o grupo procura assegurar um espaço de liberdade, de escolha mútua, de exercício do direito das pessoas envolvidas. 3.3.2.9 Os pontos de vista dos jovens 3.3.2.9.1 Juventude e religião Como afirma Yinger (apud BOTTOMORE, 1996) “a religião é um sistema de crenças e práticas por meio das quais um grupo de pessoas enfrenta os problemas essenciais da vida humana” (BOTTOMORE, 1996, p. 660). 148 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional A religião ao lado de outros recortes – de classe, de gênero, de raça ou cor, entre outros, pode ser vista como um dos aspectos que compõem a grande diversidade da juventude brasileira. Segundo o Censo 2000 do IBGE, 73% dos jovens de 15 a 24 anos no Brasil se declaravam católicos; 14,2% evangélicos, sendo 3,9% de denominações tradicionais e 10,2% de denominações pentecostais, o que tem implicado a diminuição crescente dos que se declaram católicos. Esses números não se diferenciam muito dos jovens brasileiros de outra faixa etária. Ao contrário, demonstra que os jovens que acompanham mudanças recentes tornam o campo religioso brasileiro mais diversificado e plural no sentido de que há uma grande diversidade de religiões. Quando perguntados sobre o conceito de religião, 22,2% dos jovens responderam que a religião é a “base de tudo”, outros verbalizaram que religião é uma “escolha de vida”, “estado de espírito”, “fortalecimento da fé”, “parte de si”. Como se observa no relato a seguir: Religião é um estado de espírito, você se sentir bem no local que você esteja, eu não uso muito esse termo de adoração, não, alguma coisa assim, eu acredito num ser superior, acredito em Deus, acredito que a nossa vida não pode tomar um rumo certo, agente não existiria se não fosse por ele, então você tá dentro de uma igreja, tá dentro de um local que você se sinta bem, você pode fazer o tipo de adoração como ocorre aqui na CAJU, num momento de oração, que é um momento que eu realmente me sinto muito bem porque é um momento que eu sinto a presença de Deus (JOVEM C6). Nesse sentido, constata-se, a partir das falas dos jovens entrevistados, que a questão da identidade religiosa é repassada principalmente pela família, haja vista que a maioria dos entrevistados nasceu em lares católicos. Apesar da influência familiar na escolha da religião em grande parte desses jovens, percebe-se que eles têm uma certa autonomia, ou seja, participam da CAJU não por imposição da família, e sim por escolha própria. 149 Universidade da Amazônia FIGURA 11: Jovens em suas atividades litúrgicas – momento de comunhão Fonte: Registro de campo / 2004 O serviço litúrgico aparece como a principal motivação em participar do grupo de liturgia da CAJU, citado por 55,5% dos entrevistados. Em segundo lugar, 22,2% verbalizaram que receberam um convite. Os demais disseram que a principal motivação foi porque o grupo de liturgia “é o melhor dentro da CAJU”, ou porque “sentia falta de Deus”, ou então para “exercitar a vida em comunidade” ou por meio de retiros promovidos pela CAJU. Foi porque eu me identifiquei muito com o trabalho, com o fato não de você tá preparando a missa, mas tudo que tá por fora, com as pessoas que você tem que lidar, você tem que lidar muito com os padres, com os ministros, com pessoas que não são mais leigas que já estão buscando uma vocação, já tem uma vocação, mas que tá direcionando, como por exemplo, os sacerdotes, seminaristas, lidando com essas pessoas, elas conversam muito sobre a nossa religião, eles tem uma visão muito ampla, eles conhecem bastante e repassam muita coisa, isso pra mim é muito bom (JOVEM C3). Ou ainda: Olha, eu na verdade eu me apaixonei pela liturgia numa páscoa jovem da caju, né, no momento da adoração do santíssimo sacramento foi assim, um impacto muito grande que eu senti naquele momento, e naquele instante eu vi que eu não podia ficar tão longe do senhor, não podia, não conseguiria mais me contentar em simplesmente ir a missa, 150 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional eu tava de olhos vendados e aquela voz no fundo falando que o senhor estava ali, que ele tinha ido pra me ver,e cada um de nós que estava ali, pra me abraçar, pra me colocar no colo e que eu entregasse, colocasse naquele momento nos pés do senhor todas as minhas necessidades, as minhas mágoas e angústias (JOVEM C5). Desse modo, motivados pelo serviço litúrgico, 77,7% dos jovens entrevistados participam semanalmente das atividades do grupo de liturgia, e esse possui um significado bastante positivo nas suas vidas. É importante acrescentar que os jovens apresentaram diversas concepções sobre o significado do grupo de liturgia, entre as quais destacam-se 22,2% que revelam: “o grupo faz parte da minha vida” (JOVEM C6); outros explicitam o fato de que: “me sinto uma pessoa mais forte” (JOVEM C9). Nesse contexto, percebe-se que os jovens acreditam que o grupo é responsável, direta ou indiretamente, pelas mudanças ocorridas em suas vidas, principalmente, mudanças de comportamento por buscarem uma vida mais responsável. FIGURA 12: Jovens em suas atividades litúrgicas – momento de organização do altar da igreja Fonte: Registro de campo / 2004 Os jovens do grupo de liturgia verbalizaram que existe relação entre juventude e religião. Deles, 22,2% revelaram que a relação entre juventude e religião objetiva orientar os jovens para o “caminho do bem”, ao passo que os demais, 11,1% cada, verbalizaram que a relação “contribui para a formação de adultos seguros e com a fé fortalecida”, como também orienta e “ocupa a cabeça” dos jovens, ajudando-os a ter um novo ponto de vista. 151 Universidade da Amazônia Observa-se que o Grupo de Liturgia, com sua dinâmica interna, não é simplesmente a soma de histórias individuais. No espaço e tempo que compartilham, os integrantes vão construindo uma história de significados comuns, de escolhas e realizações que visam a atender suas necessidades e intenções. Para isso, eles se articulam por objetivos comuns e pela ação que desenvolvem em conjunto para atingir tais objetivos. Segundo eles, toda essa experiência faz com que eles cresçam espiritualmente, profissionalmente, ou seja, como seres humanos. 3.3.2.9.2 Política De acordo com os dados do Tribunal Regional Eleitoral – TRE (2003), os jovens correspondem a 24,1% do eleitorado brasileiro. O aumento do número de eleitores jovens não significa, porém, credibilidade e interesse deles pelas questões políticas. Isso pode ser aplicado aos jovens do grupo de liturgia, visto que as faixas etárias dos jovens entrevistados são formadas por eleitorado juvenil, ou seja, a faixa etária predominante dos jovens do grupo se dá de 20 a 22 anos. Essa falta de interesse do jovem pela política foi comprovada no ano passado por uma pesquisa realizada pelo Instituto Akatu, em parceria com a empresa Indicador de opinião pública. A pesquisa teve como base de estudo do Fundo das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura – UNESCO, sobre a participação dos jovens nos processos políticos, em que o Brasil apresentou o menor índice de interesse pela política entre jovens dos 24 países pesquisados, o que se refere a uma amostra do interesse político da juventude brasileira. Com base nessas ideias introdutórias, vale ressaltar que, entre os jovens entrevistados, 33,3% não são simpatizantes, como também, 88,8% não participam de nenhum partido político. Outros 11,1% dos entrevistados acreditam que um dia poderão estar envolvidos com a política, e apenas 11,1% dos jovens do grupo de liturgia são filiados a um partido político, por motivação de amigos. Com relação ao conceito de política, os jovens destacaram diversas percepções. Eles acreditam que política “é um ato de democracia”; “são regras e ordenamentos necessários para governar uma região”; “é fundamental para que o Estado funcione”; “é uma ciência que serve par reger o Estado”. [...] política pra mim, é o momento de poder discutir o que está errado, o que não está, é você poder praticar atos que possam beneficiar as pessoas, acham assim, que quando você elege uma pessoa, você tá querendo que ela possa melhorar a tua vida de alguma forma, porque ela vai estar perto das pessoas que tem poder pra fazer isso, que você, digamos que eu tenha votado em uma pessoa porque eu sei que ela vai poder melhorar a minha vida, vai poder 152 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional melhorar a vida das pessoas, vai poder ajudar a arrumar emprego, então eu acho que é isso, política é você poder discutir abertamente as suas necessidades (JOVEM C6). Desse modo, percebe-se que os jovens apresentam percepções tanto positivas quanto negativas acerca do conceito de política, pois, apesar de a política ser o ramo das Ciências Sociais que trata da organização e do governo dos Estados, a maioria dos entrevistados está desacreditada de uma política verdadeiramente séria, sem jogo de interesses. Mas, contudo, eles acreditam que a juventude é um grupo chave em qualquer processo de transformação social. Seus potenciais críticos, criativos, inovadores e participativos, quando adequadamente desenvolvidos, podem ser a mola propulsora de muitas mudanças positivas na sociedade. 4.3.2.9.3 Sonhos e perspectivas em relação ao futuro Os seres humanos são livres e potencialmente autodirigidos; portanto, podem fazer projetos, planejar previamente as próprias ações, estabelecer objetivos a alcançar, prever os resultados de uma ação antes de empreendê-la. Podem fazer escolhas, transformar comportamentos, ou seja, definir como desejam viver. Sendo assim, dentre os sonhos e os projetos de vida verbalizados pelos jovens do grupo de liturgia, 55,5% desejam constituir o matrimônio e ter uma família; os demais, com 33,3% cada, gostariam de concluir uma faculdade, fazer pósgraduação e ter uma formação profissional. Para alcançar esses sonhos, a maioria dos jovens deseja concluir a faculdade e ter uma boa formação profissional, e, no que se refere à constituição de uma família e matrimônio, alguns jovens verbalizaram que estão aguardando um namorado e/ou conhecendo pessoas. Quando perguntados sobre o que é felicidade, 33,3% verbalizaram que é estar bem consigo, ao passo que os demais destacaram diversas percepções sobre o que é felicidade, tais como: “meta”, “estar em paz” e/ou “família”. Percebe-se que a maioria dos jovens entrevistados pretende construir sua família por meio do matrimônio, enquanto que os demais pensam muito na vida profissional, com o objetivo de incorporar novos conhecimentos em busca de perspectivas para o futuro. Nesse sentido, observa-se que esses jovens almejam, para si, viver com seriedade e responsabilidade, sempre pronunciando o matrimônio, o sucesso profissional, a felicidade em suas vidas. 3.3.2.9.4 Percepções sobre juventude Os jovens entrevistados acreditam que de alguma forma podem mudar o mundo e que o papel da juventude hoje se traduz a uma transformação social. Provavelmente frequentam a CAJU não apenas por possuírem uma tendência ao 153 Universidade da Amazônia catolicismo, mas também pela oportunidade de desenvolver trabalhos sociais, conhecendo as dificuldades do que é ser jovem no país em desenvolvimento como o Brasil e, principalmente, na região norte. Os jovens enfrentam a precariedade de recursos industriais, o que acarreta a falta de emprego, que ainda deve ser conciliada com a universidade sobre uma perspectiva de firmação profissional diante da sociedade; bem como os conflitos internos diante da dificuldade nessa fase de transição e de afirmação na fase adulta, que tornam a juventude não mais com cara de rebeldia ou libertinagem, mas sim surpreendente devido à combinação de traços conservadores com maturidade observada nessa parcela de jovens entrevistados. No que se refere ao significado de juventude, 33,3% dos jovens acreditam que juventude é ser feliz, seguido por 22,2% que apontam que é saber viver. Os demais verbalizam que é: “um aprendizado constante” (JOVEM C2), e/ou “é uma fase da sua vida” (JOVEM C8), ou ainda “juventude está dentro de você” (JOVEM C6). No que diz respeito ao papel da juventude no Brasil, 22,2% alegam que o “jovem é meio revolucionário, tem força de vontade” (JOVEM C9), seguido de outras variações, pois 11,1% dizem que é “ser um instrumento na sociedade” (JOVEM C8), “ser formador de uma consciência sadia” (JOVEM C9), ou ainda “estar atuante na sociedade, sendo um ser político” (JOVEM C2). Quanto às principais dificuldades enfrentadas pelos jovens, 33,3% verbalizam que são os porquês da vida, seguido de outras variações, tais como: “as tentações do mundo” (JOVEM C3) e/ou “as carências afetivas” (JOVEM C2), assim como, “os problemas de relacionamento na família” (JOVEM C9). Nesse caso, percebe-se que alguns jovens avaliam os problemas enfrentados pela juventude não apenas como os seus problemas, mas como os da juventude brasileira; assim, nota-se que eles próprios avaliam seus relacionamentos familiares como positivos, porém acreditam que esse é um dos principais conflitos enfrentados pela juventude em geral. No que diz respeito aos desafios da juventude, as respostas são diversas, tais como: “sair dessa alienação”, ‘ser santo”, “ser feliz’, “a juventude precisa passar por uma lavagem cerebral”, “lutar contra a mídia”, “vencer as barreiras”, “procurar ser um diferencial” e “respeitar os mais velhos”. Logo, percebe-se que as mudanças almejadas pelos jovens contemporâneos, tendo como referencial os jovens do grupo de Liturgia, são diferentes daquelas almejadas por seus pais, que lutavam contra a ditadura, na tentativa de revolucionar a política e sentindo-se sufocados pela família. Esses jovens estão mais à vontade com o as tradições em sua volta. Observa-se ainda que estão de “olho no futuro”, preocupados com que pode afetar sua felicidade de forma concreta, assim como o da sociedade em geral e ainda defendem que o trabalho, além de garantia de futuro, é também garantia de dignidade. 154 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional 3.3.2.10 Formação de Identidade dos Jovens do Grupo de Liturgia A questão sobre a identidade ganha cada vez mais espaço nas discussões sociais contemporâneas devido à preocupação com a fragmentação do sujeito moderno, que quebra a visão do sujeito unificado do iluminismo, fazendo surgir novas identidades que superam as velhas identidades, e estabelece um conflito na sociedade, o que muitos estudiosos chamam de crise de identidade. Segundo Hall (2001), essa crise de identidade é vista como parte de um processo maior de mudanças que desloca estruturas e processos centrais das sociedades modernas, abalando os quadros de referências que proporcionavam aos indivíduos uma “ancoragem estável no mundo social” (HALL, 2001 p.7). O mesmo autor afirma ainda que as identidades modernas estão sendo descentradas, ou seja, fragmentadas ou deslocadas, devido a: [...] um tipo diferente de mudança estrutural [que] está transformando as sociedades modernas no final do século XX. Isso está fragmentando as paisagens culturais de classe, gênero, sexualidade, etnia, raça e nacionalidade, que no passado nos tinham fornecido sólidas localizações como indivíduos sociais. Estas transformações estão também mudando nossas identidades pessoais, abalando a ideia que temos de nós próprios como sujeitos integrados. Esta perda de um sentido de si estável é chamada algumas vezes de deslocamento ou descentração do sujeito. Esse duplo deslocamento – descentração do sujeito tanto do seu lugar no mundo social e cultural quanto de si mesmos – constitui uma crise de identidade para o indivíduo (HALL, 2001. p. 9). Sabe-se que, muitas vezes, a noção de identidade é confundida com funções ou papéis desempenhados por um sujeito, faz-se necessário, portanto, distinguir a noção de identidade e de papéis assumidos. Por isso, entende-se identidade como fonte de significados e experiência de um povo, pois não existem povos que não tenham nomes, idiomas ou culturas ou alguma forma de distinção entre o “eu” e o “outro”, “nós” e o “eles” que não seja estabelecida. Assim, o autoconhecimento – invariavelmente uma construção, não importa o quanto possa parecer uma descoberta – nunca está totalmente dissociado da necessidade de ser reconhecido, de modos específicos, pelos outros (CALHOUN apud CASTELLS, 1999). Dessa forma, entende-se por identidade o processo de construção de significados com base em atributos culturais ou, ainda, diante de um conjunto de atributos culturais inter-relacionados, em que umas prevalecem sobre outras fontes de significados. Por conseguinte, um único sujeito pode ter identidades múltiplas, no entanto, essa pluralidade pode ser uma grande fonte de tensão. Quanto aos papéis, por exemplo, ser filha, mãe, estudante, jovem, trabalhadora, mulher, católica, entre outros, são definidos por normas intituladas 155 Universidade da Amazônia por instituições e organizações da sociedade e têm sua importância na influência que exerce nos papéis sociais, pois estão relacionados aos comportamentos humanos e dependem de negociações e articulações feitas entre o próprio sujeito e essas organizações e instituições. Contudo, esse processo muitas vezes acontece inconscientemente, já que o sujeito encontra-se, de certa forma, emaranhado no contexto social composto por suas regras, normas, leis e acaba não percebendo a ocorrência desse processo. Assim, o nascimento de um indivíduo em uma família católica apostólica romana pode levar como consequência à formação de identidade religiosa, pois esse sujeito, provavelmente, tem mais chances de ser Católico do que ateu, porém pode não ser a única assumida por ele. Os sujeitos nascem, então, diante de regras e normas impostas pela primeira instituição na qual são inseridos (a família), que os levará à inserção nas demais instituições e organizações. Ressalta-se que essas primeiras regras a serem cumpridas por qualquer um sofrem uma série de alterações no constante processo de mudança que é a vida. As identidades, segundo Castells (1999), são fontes mais importantes de significados que os papéis, pois esses organizam significados, enquanto aqueles organizam funções. O autor define significado como a identificação simbólica por parte de um sujeito, da finalidade da ação praticada pelo mesmo ao propor que na maioria dos sujeitos o significado organiza-se entorno de uma identidade primária que estrutura as demais, que é autossustentável ao longo do tempo e do espaço. 3.3.2.10.1 Grupo de liturgia: juventude e identidade Os jovens do Grupo de Liturgia da CAJU possuem, de uma certa forma, uma identidade religiosa, mais precisamente católica, porém assumem, no decorrer dos momentos experienciados subjetivamente por cada um deles, um papel de dentista, educadora, advogada, partidária ou não, casada ou não. Mas, acima de tudo, o que se identificou no decorrer desta pesquisa é que tais jovens têm reafirmado sua identidade de integrante da Casa da Juventude por que são assim reconhecidos por outros jovens de outras comunidades católicas ou não. Assumem também essa formação religiosa no decorrer de suas vidas, no seu cotidiano, ou seja, no trabalho, na escola, na universidade, entre outros. Dessa forma, o grupo não só assume sua participação ativa na CAJU, como também no grupo de liturgia, expondo “no peito” que são integrantes daquele grupo, por meio das camisas, por exemplo, que não são usadas somente nas missas, mas também em outras situações, como na ida à universidade. Essa postura pode ser assemelhada ao fato de que é como se esses jovens vestissem a camisa de seu “time predileto” e se orgulhassem disso, mostrando para as pessoas o espaço que sua comunidade vem conquistando por intermédio de cada um deles. Além disso, aparentam ser pessoas bastante simpáticas 156 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional e bem quistas pelos outros, e de serem facilmente taxadas se algum “escorregão” derem; mas isso não os impede de ser jovens com sentimento de liberdade e diversão, e a consciência da responsabilidade social de cada, um “doutrinamento” repassado pela própria comunidade católica com o intuito de formar “cidadãos melhores”, bem como uma sociedade mais justa. Mas, a importância da discussão em torno da construção da identidade ocorre a partir de quê? Para quê? E como ela acontece? Para Castells (1999), a construção das identidades vale-se da matériaprima fornecida pela história, geografia, biologia, instituições produtivas e reprodutivas, pela memória coletiva e por fantasias pessoais, pelos aparatos de poder e de cunho religioso. Tudo isso é processado pelos indivíduos e grupos sociais e sociedades, que reorganizam seu significado em função de tendências sociais e projetos culturais enraizados em sua estrutura social, e também na sua visão temporal e espacial. Portanto, quem constrói a identidade coletiva, e para quê essa identidade é construída, são em grande medida os determinantes do conteúdo simbólico dessa identidade e do seu significado para aqueles que com ela se identificam ou delas se excluem. Assim, pode parecer estranho que o termo sociedade civil não apresente uma conotação positiva de mudança social democrática; entretanto na concepção de Gramsci (apud CASTELLS, 1999), a sociedade civil é constituída por uma série de aparatos, como a igreja, instituição de grande poder desde as antigas eras até a atualidade, que por um lado prolongam a dinâmica do Estado e por outro estão profundamente arraigados às pessoas. Desse modo, percebe-se, nos integrantes do grupo de liturgia da CAJU, que tais jovens tentam expandir sua participação positiva, benevolente dentro da igreja, que se expande para a sociedade, com intuito de atrair novos fiéis, por compreenderem que essa é a melhor opção para um jovem. E, nesse caso, não se refere somente a sua comunidade, mas a sua religião, porque para eles foi e continua sendo a melhor escolha; visto que o jovem pode viver essa fase peculiar, com suas características próprias, com uma perspectiva futura melhor para si e para um mundo, diante de um contexto paradigmático contemporâneo, que tem como conseqüência a desigualdade. O jovem, devido ao seu âmago de rebeldia, por mais religioso que seja, sente-se como um agente que pode transformar e, precisamente, não conseguirá desenvolver pequenas atividades sociais transformadoras sozinho; logo, procurará se inserir em um determinado grupo com que possui mais afinidades. Provavelmente, isso deve acontecer da mesma forma com os jovens que se inserem ou se inseriram no grupo de liturgia da CAJU. Vale ressaltar que o homem não pensa isoladamente, mas por meio de categorias engendradas pela vida social. Então, entre uma das necessidades psicológicas do indivíduo, está a de assegurar mais firmemente possível o sentimento de identidade, que o leva a procurar integrar-se em grupos ideológicos 157 Universidade da Amazônia que se aproximam da sua própria ideologia. Assim, percebe-se que cada pessoa se situa num lugar concreto e real, que ela usufrui e modifica, onde se reconhece ou se perde, do qual se apropria pelo corpo e pela convivência. Aí se produzem as identificações e a identidade, pois é com ele e com as pessoas que nele transitam que o ser humano cria laços. É no lugar que cada pessoa pode ser e fazer, descobrir a si mesma e ao mundo. 3.4 UNIVERSO URBANO - PERIFERIA 3.4.1 Hip-Hop - Manifestação Cultural, Periferia e Vida 3.4.1.1 O Grupo Bancada Revolucionária Gospel – BRG O grupo pesquisado denomina-se Bancada Revolucionária Gospel (BRG) e possui seis anos de atuação, com participação de jovens, majoritariamente negros, moradores de bairros periféricos, provenientes da realidade violenta das gangues e de relações familiares conflituosas. O grupo tem como foco de atuação a manifestação cultural por intermédio do Hip-hop, que se configura como movimento sociorracial de suporte identitário, englobando formas de organizações políticas, sociais, religiosas e artísticoculturais. FIGURA 13: Jovens do grupo (BRG) na Biblioteca Kilombo do Saber Fonte: Registro de campo/2004 158 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional A Bancada Revolucionária Gospel, um grupo do movimento Hip-hop de Belém/PA, está localizada no bairro do Guamá, ocupação “Riacho Doce”. É formada por membros, inicialmente integrantes da NRP (Nação de Resistência Periférica), que por questões particulares de ideologias diferenciadas e por necessidade de um diálogo maior com a questão da religiosidade, resolveram fundar seu próprio grupo, voltado ao “Hip-hop Gospel”. Tal afirmação pode ser constatada, a partir das entrevistas, dos diálogos e do grupo focal realizado com os membros, que têm por significação: “estar dialogando com as questões espirituais, negar a utilização de palavras chulas nas letras cantadas de rap, negar a utilização de drogas e da violência”, e tomar o discurso da “palavra” e da conscientização como principal meio para a “mudança” da exclusão sociorracial, vivenciada pelos jovens da periferia, principalmente os jovens negros. No histórico de memórias do BRG, cedido à pesquisa pelo grupo, o educador e idealizador J.S. aponta que a Bancada foi fundada em junho de 1999, com o objetivo inicial de agregar jovens com conflito familiar e social, para, por meio da arte, da cultura, da educação popular, do pensamento revolucionário e da religiosidade, retirá-los da marginalização, da violência e das drogas; além de direcioná-los para práticas educativas de reflexão e atitude social conscientizadora. O grupo se mantém fundamentalmente por meio de doações e trabalhos artísticos realizados pelos jovens, como: shows e eventos. Os incentivos financeiros são poucos, principalmente das políticas públicas da região. Dessa forma, os jovens divulgam o trabalho na tentativa de ganhar visibilidade para cultura e arte praticadas com o intuito de resgatar outros jovens em situação de risco nas periferias. A cultura e a arte praticada pelo grupo vêm do movimento Hip-hop, com a composição de quatro elementos: GRAFITE, DJ, BREAK, e o RAP. As inspirações do pensamento revolucionário são feitas por intermédio de referenciais de líderes negros, como Martin Luter King e Zumbi dos Palmares, mas também por meio de líderes espirituais, como Jesus Cristo. O grupo tem como foco de discussões centrais a questão racial e de identidade negra, a criminalidade, as drogas, a minimização da violência, a exclusão social da periferia e a religiosidade - apontada com aspecto de cada membro seguir aquela religião que possui dentro de si. Nesse caso, a religião ganha uma espécie de caráter pessoal e subjetivo, sem se agregar à significação de uma religião abordada nos aspectos gerais, única para todos; pois cada jovem tem a liberdade de buscar formas de relacionar com os aspectos espirituais da maneira como melhor se identifica e entende. Tal questão foi, em termos gerais, assim abordada, principalmente no grupo focal realizado com os jovens; entretanto, é importante ressaltar que muitos membros da BRG intitularam-se evangélicos, quando indagados, sobre qual religião seguiam. 159 Universidade da Amazônia O grupo possui em média cerca de 34 jovens que se reunem na sua sede, na biblioteca Kilombo do Saber, espaço cedido pela prefeitura para a realização de reuniões, de discussões e de estudos. No mesmo local, posteriormente, é realizado um culto, em que os membros presentes fazem orações coordenadas pelo líder do grupo, mais conhecido como “Pastor Ênfase”, que, caracterizado pelo seu carisma, em meio às orações, sempre dá a palavra aos membros, pois não gosta de realizar sozinho os cultos como forma democrática de liderança. Essa atitude serve como ideal e exemplo a ser seguido pelos membros do grupo, pois os jovens desejam ser como ele e seguir seus ensinamentos, e sua maneira de liderar. A liderança do grupo afirma que é necessária uma preparação intelectual e espiritual dos jovens e que os shows e a fama serão consequências do trabalho, não uma prioridade. Aí, é enfocada a importância do posicionamento de contracultura exercido pelo grupo, que formula frequentemente críticas ao sistema capitalista e à cultura de massa, propondo-se a produção do Hip-hop como movimento engajado em causas sociais, políticas e raciais. A exposição e a comercialização crescente de imagens e sinais do Hip-hop relacionados a produtos da mídia mostram-se como um grande desafio para a identidade racial dos jovens negros. Esse fato designa a produção de uma cultura Hip-hop ligada a uma proposta sócio-racial e não ao comércio e à venda de imagens juvenis alienadas de um contexto social e político. Sendo assim, o movimento Hip-hop, proposto pelo grupo BRG, observa que a exposição exacerbada da imagem culmina como uma perda do conteúdo contestatório do próprio movimento. É importante ressaltar que as ações desenvolvidas pela BRG são oriundas do esforço de educar e conscientizar os jovens da periferia, definindo o caráter educacional e popular do grupo. Além do mais, o grupo apresenta um caráter missionário e religioso, pois tem por objetivo resgatar jovens em situação de risco, envolvidos com gangues de rua e drogas. As ações preventivas acontecem por meio do diálogo e de “cultos de rua”, culminados em um trabalho realizado com reuniões, palestras, ciclos de filmes, discussões e apresentações das expressões artísticas produzidas pela cultura Hip-hop. Os jovens cantam em eventos e também em esquinas de ruas da periferia na noite como a tentativa de resgatar e despertar o interesse de novos membros. O espaço de atuação do grupo situa-se em uma área periférica da cidade, bairro do Guamá - Ocupação Riacho Doce, constituído fundamentalmente por uma população de baixa renda. O bairro é bastante populoso, com muitos meios de sobrevivência informal, diversos bares, feira-livre, saneamento e coleta de lixo precária. As casas são muito próximas umas das outras, constituindo-se como verdadeiros becos desenhados no panorama urbano, caracterização muito própria à cultura da periferia, em que rua parece ser uma extensão da própria casa, e a privacidade é pouco estabelecida entre os moradores em virtude da proximidade entre as habitações. Os carros misturam-se aos pedestres e às bicicletas, principal meio de transporte utilizado, pois nos formulári- 160 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional os socioculturais, os jovens revelam que 50% utilizam a bicicleta como principal meio de transporte, enquanto os outros 50% utilizam o ônibus coletivo. A violência é frequente, e a presença de pessoas consumindo bebidas alcoólicas também, principalmente nos finais de semana. Os roubos são frequentes e presença de gangues também, o que oferece aos jovens pouca oportunidade e ocupação educativa. Há ainda “bocas de fumo” e comercialização de drogas, conforme relato dos moradores e membros do grupo. Dessa forma, a atuação da BRG e a biblioteca do grupo proporcionam um espaço potencializador da prática educativa e conscientizadora direcionada aos jovens da periferia; pois, ao se abordar a questão da moradia na periferia e o que representa para os jovens, eles apresentam dois discursos: o lado bom em um bairro periférico, referente à amizade, à simplicidade e à cumplicidade de solidariedade entre as pessoas, os vizinhos e os amigos; e lado ruim, relacionado à violência, ao tráfico de drogas, aos roubos, à insegurança permanente, à prostituição, à morte prematura de jovens e à falta de incentivos financeiros, de políticas públicas, de oportunidades de lazer e de educação qualificada. 3.4.1.2 Aspectos observados pela pesquisa Ao promover-se a análise etnográfica acerca das práticas e discursos assumidos pelo Grupo Bancada Revolucionária Gospel (BRG), colocou-se, diante dos dados e informações oferecidas pelos formulários socioculturais respondidos pelos seus integrantes (dados quantitativos) e pelas entrevistas realizadas (dados qualitativos), fontes que ofereceram certos parâmetros para o desenvolvimento deste estudo em relação ao grupo do universo urbano periférico do Hip-hop. Dessa forma, com o intuito de melhor subsidiar a abordagem, estar-se-á analisando, na aspereza desses dados quantitativos e qualitativos, os traços que ajudam a definir o perfil e a natureza processual do grupo, por meio de questões imbricadas e sobrepostas que se determinam mutuamente, por envolverem relações raciais, de gênero, sociais, culturais, política, religiosas, dentre outras. 3.4.1.2.1 Em relação à raça/cor Quanto à composição racial do grupo, a partir da autodeclaração dos seus integrantes, em resposta aos formulários socioculturais aplicados (dados quantitativos), aponta-se que 90% dos jovens se autodeclararam negros enquanto que 10% se autodeclararam morenos. A composição racial do grupo apresenta uma hegemonia do elemento negro, dado relevante e significativo de se levar em consideração, uma vez que essas pessoas assumiram tal identidade racial, partindo de uma autodeclaração. Nesse caso, ao se identificarem como negros, os entrevistados agiram 161 Universidade da Amazônia dentro de uma total e irrestrita liberdade de escolha, podendo lançar mão de um leque variado de designações comumente usadas, entre os quais figuram: mulato e moreno27, normalmente relacionadas à cor e não à raça, dentro de um jogo de designações montado pelo ideal do branqueamento. A identidade negra ou étnica desse grupo revela-se por meio de uma consciência crítica em relação à condição reservada aos negros na sociedade brasileira; portanto, essa identidade assume contornos políticos enquanto expressão de oposição e refutação do mito da democracia racial, que omite a enorme parcela negra da sua população sobre o véu da miscigenação. Sendo assim, são jovens que se autoidentificam e logo se autodeclaram como negros, levando em consideração que se assumir negro é um ato político, pois enseja um debate com as pessoas e com a própria sociedade, que, em via de regra, repudia ou rejeita essa identidade. De tal forma que ao se identificarem como negros, esses jovens passaram a construir um discurso e uma prática política sólida a partir das suas vivências de vida e do grupo, em que as práticas discriminatórias racistas são percebidas e denunciadas. A posição política do ser negro no discurso e prática do grupo passa por símbolos e referências assumidas pelo grupo, que vão da valorização do cabelo28 até aos ídolos cultuados29, chegando à construção de uma identidade relacionada à questão dos reflexos do grupo na individualidade de cada membro. 3.4.1.2.2 Relações de gênero no grupo No que diz respeito às relações de gênero dentro do grupo, percebe-se um desequilíbrio na sua formação, em que 65% dos membros do grupo são do sexo masculino e 35%, do sexo feminino (dados quantitativos). Esse desequilíbrio também ocorreu nas entrevistas realizadas (dados qualitativos), com 67% de entrevistados do sexo masculino e 33% do sexo feminino. O predomínio do gênero masculino, embora, seja visível, não é assumida no discurso dos membros do grupo, sendo ponto delicado e tencionado, pois questões religiosas encontram-se envolvidas. Nesse sentido, explica-se também que, dentro da cultura Hip-hop, base fundamentalmente na “cultura de rua”, os homens são a grande maioria, Sendo assim, por muito tempo e até os dias atuais, as mulheres encontram certo preconceito e, inclusive, uma rivalidade por estarem “invadindo” um espaço que outrora seria “eminentemente masculino”. Contudo, o grupo BRG, afirma já ter superado essa fase de preconceito com relação às figuras femininas, embora essa discussão ainda seja foco de “tensão”, muitas vezes encoberto no grupo, haja vista a grande maioria das 27 O percentual de 10% de morenos mostra um número bem pequeno de membros da BRG que não encontram condições para se identificarem como negros. 28 Sempre muito bem cuidado mediante traços e vigor do “black power”. 29 Zumbi, Martin Luther King e Jesus (tido como Negro e não como branco) são os mais valorizados na BRG. 162 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional mulheres presentes terem uma relação afetiva de esposas ou namorada dos membros masculinos. Além do mais, a figura feminina ainda estaria muito arraigada à significação da necessidade de “proteção” e “zelo” masculino, principalmente no que se refere ao discurso religioso colocado pelo grupo, pois se observa, em grande escala, a significação da mulher ligada à figura de mãe ou esposa, a quem os homens deveriam respeito e pudor. Tal fato constatou-se, principalmente, no que se referiu à inserção das mulheres no grupo, ocasionada em virtude laços familiares ou de afeto anteriormente estabelecidos com um membro do sexo oposto. Assim, verifica-se que as meninas/mulheres chegaram ao grupo via esposo/namorado ou família de algum membro (sobrinha). Portanto, não houve uma entrada “livre” das jovens do sexo feminino. Porém, com o amadurecimento do grupo, no fim da pesquisa já se poderia observar que as mulheres já começavam a se colocar de maneira mais incisiva no grupo, pois algumas delas decidiram raspar todo o cabelo como forma de protesto contra a prostituição e promiscuidade ligada à figura da mulher que a mídia reproduzia, ficando claro, que os questionamentos envolvendo gênero, geralmente constituíam barreiras nas relações grupais. 3.4.1.2.3 Objetivo do grupo O objetivo do grupo de Hip-hop pesquisado, colocado no discurso dos membros do grupo Bancada Revolucionária Gospel (BRG), seria em linhas gerais: retirar os jovens do mundo das drogas e das gangues; evangelizar; informar a periferia e lutar por igualdade sócio-racial. Esses objetivos são constatados, primeiramente, por meio da leitura dos dados qualitativos, em que 67% afirmaram o desestimular o consumo de drogas e o lutar para informar a periferia, como o principal objetivo do grupo; ao passo que 33% consideram como sendo a evangelização. É importante ressaltar que nas falas retiradas das entrevistas, esses objetivos aparecem aglutinados e não de forma separada, ou seja, ao mesmo tempo em que um jovem afirma que o objetivo é lutar contra a dependência de drogas, logo em seguida afirma a questão do conhecimento e evangelização como sendo fontes primordiais de objetivação do grupo BRG: A bancada tem como seus objetivos evangelísticos e revolucionários. Tanto o estilo revolucionário como evangelístico é buscar jovens para que eles possam a conhecer a Jesus Cristo, que conheçam aquele que morreu na cruz, a vida dele. Agora a gente tem o compromisso revolucionário que é estar reivindicando as condições da periferia, aquilo que é justo pra gente, como pobre, como preto, negro da periferia esse é o objetivo revolucionário da bancada RG (JOVEM, sexo masculino, 18 anos). 163 Universidade da Amazônia 3.4.1.2.4 Relações vivenciadas As relações vivenciadas no grupo reproduzem o discurso de “relações familiares”, pois nos dados qualitativos da pesquisa, 100 % dos jovens verbalizaram, em suas entrevistas, a caracterização do grupo como uma identificação e reconhecimento de família. Nesse caso, os valores, os papéis e as identidades familiares são reconstruídos no grupo e nas relações grupais; uma vez que os jovens atribuem ao grupo o vivenciar de uma família; reconhecem-se como “irmãos”; e muitas vezes reportam ao líder como uma figura paterna. Vale ressaltar, também, que o reconhecimento do outro como “irmão” não faz parte apenas de uma identificação familiar, mas também de um discurso de prática religiosa, que, em grande escala, é uma dos elementos identificadores do grupo BRG, que não é apenas um grupo de Hip-hop, mas também um grupo Gospel. No que diz respeito às relações familiares, 75% dos jovens consideraram que as relações familiares foram ou são conflituosas, porém afirmam que com a entrada no grupo esse quadro foi se modificando em virtude de os seus familiares já não os identificarem como marginais ou drogados. Dessa forma, os laços de confiança aumentaram e os jovens já podiam frequentar as casas de seus respectivos parentes, sem que para isso necessitassem temer possíveis situações de preconceito e aversão, pois não mais participavam de gangues de rua, afirmando, assim, o quanto era importante a conquista pela confiança e o reconhecimento familiar. Em relação às relações familiares, Castells (apud ABRAMOVAY, 1997) afirma que se caracterizam como uma tentativa de estabelecer novos laços familiares, que têm como propósito a criação de novas relações de convivência e de educação, em que as práticas reproduzidas representam formas de adequação à sociedade globalizada. Entretanto, isso não significa que as relações familiares primeiras estejam se extinguindo. Sobre esse segmento analisado, um jovem pontua que: Eu vejo todos como irmãos, porque eles não me deixam para o lado. Quando estou triste eles vão lá me dar uma palavra de amigos, me ajudam, me dão conselhos, não conselhos ruins, conselhos bons, que me tira a tristeza do coração para joga lá no chão (JOVEM, sexo masculino, 18 anos). 3.4.1.2.5 Conflitos familiares Como abordado anteriormente, nos dados qualitativos da pesquisa, os jovens apontam que, em 75%, as relações familiares foram ou são conflituosas, com ênfase ao fato de que, antes da inserção no grupo, a relação era conflituosa devido à delinquência e à marginalidade. Outros 12,5% identificaram a rela- 164 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional ção como boa, e os demais, 12,5%, afirmaram ser normal. Destaca-se que muitos conflitos são decorrentes da condição social de desestrutura vivenciada pela violência das drogas e, principalmente, devido a um histórico de alcoolismo por um dos pais. A ideia de que a família constitui um espaço protegido, no espaço urbano-periférico, é desmistificada, visto que ela própria está sujeita à criminalidade e à violência. Sobre isso, parte dos jovens entrevistados colocou que muitas vezes é no espaço familiar que os jovens se deparam com as situações de violência. A família é um espaço social bastante diversificado, pois abrange diferentes gerações e diferentes modos de pensar, logo, está suscetível a contradições e a diversas dificuldades, sem, no entanto, deixar de ser vista como um espaço de estruturação para os indivíduos. Daí a crítica dos jovens em relação à excessiva liberdade, à falta de limites, à falta de cobrança, mostrando como valores fundamentais a proteção e o conforto emocional. Parece estar em curso um novo processo de socialização, acarretando mudanças nos contextos existentes e trazendo, como consequência, jovens com personalidade mais complexa e menos seguros, porém mais capazes de adaptarem-se às mudanças (ABRAMOVAY, 1997, p.74). Se por um lado os jovens seguem o raciocínio dominante sobre as famílias consideradas ‘desestruturadas’, e exigem comportamentos e valores idealizados; por outro, demonstram-se desamparados e despreparados para enfrentar os problemas concretos de uma sociedade excludente, que não lhes oferece oportunidades de agir. A ‘desestruturação familiar’ é uma das principais razões da revolta dos jovens e da busca pela rua como opção. Na ausência da família como responsável pela formação moral, do certo e do errado, a rua passa a desenvolver esse papel educador, pois os jovens são criados com total liberdade, sem limites e orientações, o que contribui para o envolvimento no universo da criminalidade. Vale ressaltar que um dos focos de conflitos são as discriminações vivenciadas por esses jovens dentro da própria família, seja pelo seu envolvimento na criminalidade, gangue, seja pela sua raça/cor negra. Às vezes a gente entra nesse mundo porque a gente não tem conhecimento entendeu, a gente não tem uma estrutura dentro de casa, porque os meus pais eles bebiam, ele separou da mamãe, a mamãe ia trabalhar e eu cresci na rua, e eu conheci gente grande que me deu cola, me ensinou a roubar[...] (JOVEM, sexo feminino, 20 anos). 165 Universidade da Amazônia 3.4.1.2.6 Conflitos no grupo Os conflitos no grupo se dão, geralmente, pelas divergências de opiniões, idéias e ideais. Nas fontes qualitativas, 100% dos jovens verbalizaram que as relações no grupo ficavam mais tensas em razão da entrada de pessoas de religiões muito diferentes ou da resistência de algum membro em abandonar por completo o uso de drogas. Assim, devido ao fato do grupo possuir um número muito grande de integrantes, é comum haver pensamentos e ideias diferentes. No entanto, os jovens afirmam que todos os conflitos buscam ser resolvidos por meio do diálogo nas reuniões do grupo; e comparam o grupo a uma ‘família’, que possui conflitos, mas que sempre são solucionados por meio do diálogo e do respeito às diferenças. Outro foco de conflito que resiste, como já exposto anteriormente, são as relações de gênero, que aparecem de maneira sutil, porém presentes no grupo. Alguns participantes afirmam haver diferenciação entre as mulheres casadas e as solteiras, no sentido de que o relacionamento, o diálogo com as casadas é mais respeitoso e distanciado, enquanto que com as solteiras não; e afirmam que as próprias mulheres, às vezes, estabelecem essas diferenças na maneira de se comportar. Há também a cobrança dos homens em relação à falta de ‘ousadia’ das mulheres, perante as questões de gênero, cobrando que se “coloquem mais” e lutem por seus respectivos lugares. Nesse caso, ressalta-se que, à medida que os integrantes cobram, também reduzem os espaços para um discurso mais liberado. Relações ambíguas, que constituem foco de conflito e disputa de poder. Sobretudo, é importante pontuar que, no grupo BRG, ao longo da pesquisa, processos de construção e transformação, assim como de amadurecimento foram acompanhados, e a questão feminina certamente poderia ser apontada como um desses processos, visto que as figuras femininas agora passaram a se posicionar de maneira mais efetiva no grupo, observando-se uma evolução nas práticas de acordo com os estudos realizados. Hoje já tem uma igualdade, as minas já colocam, mas por quê? Porque as minas têm conquistado isso, não é o mano que vai lá, não, a mina que corre atrás pra conquistar esse espaço dela entendeu, então, se a mina hoje conquistou é porque ela mesma foi atrás, correu atrás entendeu (JOVEM, sexo feminino, 20 anos). 3.4.1.2.7 Lideranças As lideranças do movimento aparecem na forma de três educadores, sendo que a “principal’ liderança é a do idealizador do grupo, o qual será abordado mais especificamente no item “Fragmentos de História de Vida: per- 166 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional sonalidades e trajetórias – Pastor Ênfase”. Ao passo que as outras duas, representadas por uma figura masculina e outra feminina, são denominados líderes por serem referência e pela forte influência que exercem sobre os demais membros do grupo. Aí, a liderança feminina foi de suma importância para que as mulheres conquistassem espaços que antes não possuíam. Todos atuam de maneira carismática, segundo o conceito de Weber (apud MOTTA,1994, p. 29) em que “carisma” significa “graça divina”. O líder carismático se justifica pela ideia de que possui características extraordinárias para dirigir um grupo social. A dominação carismática é relativamente comum em movimentos religiosos e revolucionários”, em que os líderes representam, aos membros do grupo, exemplos a serem seguidos. Com enfoque democrático, considera-se que desenvolvem todas as características que, segundo Chiavenato (1929, p. 178), uma liderança democrática possui: 1) As diretrizes são debatidas e decididas pelo grupo, estimulado e assistido pelo líder; 2) O próprio grupo esboça as providências e as técnicas para atingir o alvo, solicitando aconselhamento técnico ao líder quando necessário, passando esse a sugerir duas ou mais alternativas para o grupo escolher. As tarefas ganham novas perspectivas com os debates; 3) A divisão das tarefas fica a critério do próprio grupo e cada membro tem liberdade de escolher os seus companheiros de trabalho; 4) O líder procura ser um membro normal do grupo, em espírito, sem encarregar-se muito de tarefas. 3.4.1.2.8 Motivação para entrar no grupo Os jovens apontaram a motivação para entrar no BRG o fato de o grupo ter como objetivo o repasse de informação e conscientização à periferia conforme as entrevistas realizadas, em que 50% colocaram o fato de verem o grupo como uma oportunidade para saírem do mundo das ruas e das drogas, e 50% apontaram como uma forma de buscar e repassar conhecimento, “informação”. Assim, o grupo passou a ser visto como uma possibilidade para os jovens sairem do mundo das gangues e das drogas. Eles se identificam com o grupo pela presença de histórias de vida comuns e do apoio emocional, ausente na família, isto é, o diálogo, a compreensão e a amizade. Foi sair do mundo das gangues, porque eu moro em um lugar que é beco contra beco [...] eu comecei a ficar considerado, depois comecei com drogas, assalto a mão armada, lojinha [...] agora esta tudo bem comigo aqui na BRG (JOVEM, sexo masculino, 18 anos). O grupo BRG apresenta o aspecto da “conversão” e do resgate de jovens em situação de risco, violência e drogadição. Com a inserção no grupo, os jovens resignificam, por meio da conscientização e da arte, as práticas da 167 Universidade da Amazônia marginalização para a cultura Hip-hop e para a questão da religiosidade. Essa motivação se dá, principalmente, pela potencialização da autoestima de cada jovem, que muitas vezes buscam nas gangues de rua e nas drogas uma maneira de ser visto e reconhecido; tornar-se importante e respeitado. Com o grupo, o reconhecimento se valida por meio da dança, da música, da pintura e da informação, que potencializa a utilidade e capacidade dos jovens. 3.4.1.2.9 Mudanças decorrentes da participação no grupo São evidentes e diversificadas as transformações ocorridas na vida desses jovens após a inserção no grupo. Muitos apontam o interesse pelos estudos; valorização de sua raça/cor negra a partir do conhecimento de referências históricas do povo negro (Consciência Negra); outros apontam que passaram a exercer um comprometimento social com a comunidade e que agora conseguem ser reconhecidos pela luta contra a exclusão da população da periferia. Em geral, houve um processo de transição do universo da violência, da criminalidade e/ou das drogas para uma tomada de consciência social; assim como uma melhora no relacionamento familiar. Portanto, a mudança significativa se deu a partir da transmutação dos valores, pois no lugar das práticas ilegais das gangues e das drogas, ficou a capacidade do poder vivenciar a liberdade de expressão por meio da cultura Hip-hop, visto que quando um jovem canta o rap, dança o break ou grafita um muro, potencializa sua utilidade na condição de cidadão e sujeito engajado no compromisso da denúncia às mazelas da periferia. Dessa forma, o jovem deixa sua marca na sociedade não como transgressor, mas como representante da juventude engajada em uma causa. É importante ressaltar também que, mesmo saindo das gangues, os jovens não abandonam determinados aspectos presentes nas gangues, como: os codinomes, a busca pela liderança e o alcance do reconhecimento, porém canalizados para as práticas dos trabalhos exercidos pelo grupo. [...] eu não sei mais o que é ficar de recuperação, não sei o que é repetir de ano, eu ano passado fui eleito o melhor aluno do colégio Zacarias Assunção, do turno da manhã, mérito não meu, mérito que divido com todos meus irmãos aqui, porque eles que me mostraram que o grande lance é eu fazer por mim mesmo, correr atrás, estudar, sabe, batalhar por aquilo que eu acredito”. (JOVEM, sexo masculino, 18 anos). 168 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional 3.4.1.2.10 Política Os jovens apresentam-se como apartidários e possuem um descrédito muito grande em relação aos governantes, mas reconhecem a importância da política realizada com honestidade e responsabilidade, como sendo de suma importância para os menos favorecidos financeiramente, para a juventude da periferia. Assim, nos dados qualitativos das entrevistas realizadas, 16% afirmam ter apenas uma afinidade com partidos de esquerda, enquanto que a maioria, 84%, alega não ter partidos políticos. Os jovens também criticam a falta de compromisso dos políticos com o eleitorado e a forma corrupta como a política tem sido praticada. No entanto, conseguem relacionar política e democracia, e atribuem ao movimento Hip-hop a função de cobrar uma política mais honesta, voltada para a periferia. Por conta isso, trabalham com a conscientização dos jovens na hora de votar e enfatizam a importância da valorização do voto e de não vendê-lo em troca de favores, pois consideram as eleições como a oportunidade de “escolher candidatos e não eles se escolherem”. A política no grupo aparece em forma de denúncia à condição de marginalização social: [...] precisa da gente pra fazer uma parada na rua, vamos lá, subimos no palco e cantamos o nosso trabalho, mas sempre depois de cantar, dizemos: “Irmão, vote com prudência, escolha bem, escolha com calma seu candidato” (JOVEM, sexo masculino, 18 anos). 3.4.1.2.11 Religião A questão da religião/religiosidade é ponto central de identidade do grupo BRG, o elemento de distinção perante os demais grupos de Hip-hop. Configura-se também como destaque no que diz respeito as suas práticas, visto que o grupo se caracteriza como “Gospel”, que, segundo os jovens entrevistados, significa: abandonar a vida desregrada, as drogas, a violência e o desrespeito aos outros. Dessa forma, o grupo congrega muitos dos elementos de uma prática evangélica, principalmente por conservar a figura de pastor, a questão da missão e do “resgate”, que se realiza por intermédio da retirada dos jovens de uma vida sem limitações espirituais e sociais. Nas entrevistas realizadas, em relação às fontes qualitativas, 75% dos jovens do grupo Hip-hop se identificam com a religião evangélica; 17% afirmaram não ter religião e seguem a Cristo ou a “exemplos”; e 8% afirmaram ser apenas cristãos. Quanto aos dados quantitativos dos questionários sócio-culturais, as estimativas encontradas nas entrevistas retornam, visto que 90% desses se declararam evangélicos, 5% afirmam que apenas seguem “exemplos” e 5% não informaram. 169 Universidade da Amazônia FIGURA 14: Jovens em oração – Momento do Culto Fonte: Registro de campo/2004 Portanto, para que se compreenda melhor a questão da religião no grupo BRG, é preciso que se tenha em mente que nesse grupo há várias formas de atuação, e uma das mais importantes é a questão da evangelização de moradores das periferias. A conversão é tida pelo grupo como salvação não só da alma, mas também do corpo e da mente, pois leva o indivíduo a assumir uma postura ascética cristã, capaz de livrá-lo das mazelas sociais presentes no contexto dos bairros periféricos, tais como: consumo de drogas, envolvimento com gangues de rua, criminalidade, prostituição, relacionamentos familiares conturbados, conquistando uma autoestima capaz de fazer frente à discriminação racial. Esse ideal salvacionista relaciona-se a uma identidade negra, tendo por referência o líder negro norte-americano Martin Luther King, pastor da Igreja Batista, mas também nas referências da cultura Hip-hop. As formas de se expressar e vestir de muitos dos integrantes da BRG dão-se pos sinais e símbolos do Hip-hop, sendo um dos traços que confere identidade e unidade ao coletivo, e os torna alvo de críticas e discriminação dentro de algumas das congregações evangélicas das quais fazem parte alguns dos membros da BRG. Conforme, suas próprias percepções, eles afirmam que as pessoas de mais idade (adultos e idosos) não veem com bons olhos a forma como eles se trajam ou se expressam, sendo acusados de não estarem seguindo a conduta ascética do “crente” (esses mostram um recato e refinamento nas roupas e modos). A resposta a essas críticas é dada com argumentos de que não é roupa que faz alguém ser do mundo, mas a falta de uma conduta cristã. Além da privação das coisas tidas como do mundo (geralmente relacionadas ao desregramento); valorizam-se os estudos e o trabalho, o restante do tempo livre é dedicado aos louvores e pregações (BORDA, 2004). 170 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional 3.4.1.2.12 Trabalho e educação Na sociedade, cada vez mais, percebe-se a importância do estudo para inserção no mercado de trabalho. Ao se considerar que a sociedade atual é excludente e restritiva às oportunidades de educação e trabalho, os jovens periféricos e negros são evidentemente prejudicados, pois são excluídos do processo de inserção social por meio do ensino-aprendizagem formal, sendolhes vetados o direito e a oportunidade à educação de qualidade, que subsidie o ensino superior. Nas entrevistas realizadas: 58% dos jovens disseram cursar o ensino fundamental, enquanto que 42% cursam o ensino médio, apesar de que em suas idades, 67% correspondem a jovens que têm 18, 20 e 22 anos, e 33% correspondem a jovens que têm 17, 21, 23 e 25 anos, o que evidencia uma faixa etária de idade que corresponde a um atraso no nível educacional escolar formal. É importante ressaltar que, apesar do atraso no ensino formal, os jovens apresentam um desenvolvimento cognitivo e intelectual bastante desenvolvido no que se refere à politização e à conscientização sobre temáticas sociais, culturais e artísticas, devido à educação popular oferecida por meio das discussões e atividades promovidas pelo grupo. A dificuldade em completar os estudos bloqueia a oportunidade de um emprego aos jovens. No grupo pesquisado, constatou-se que a desmotivação e o descrédito em relação ao ensino também são fatores determinantes para repetência e atraso escolar, em virtude da falta de qualidade e exclusão social relativos ao ensino da rede pública. Os jovens verbalizam que o “negro e o pobre” são pouco valorizados, e, devido a essa condição excludente, qualquer ensino é oferecido; os professores têm frequência mínima em sala de aula e as condições estruturais são de péssima qualidade. Em uma conversa informal, um jovem afirma que: “a escola nunca me ensinou minha origem, hoje no grupo sei que sou negro, antes eu estava perdido, queria ser branco” (JOVEM, sexo masculino, 18 anos). Entretanto, apesar da pouca valorização, os jovens do grupo vislumbram, acima de tudo, a educação para uma qualidade de vida e um emprego, pois observam em grande escala o trabalho e a profissão como uma condição para inserção na sociedade. Os jovens sentem-se ‘convidados’ a entrar no mercado de trabalho cada vez mais cedo, sendo uma cobrança social, em virtude de muitas vezes terem assumido, muito cedo, uma responsabilidade familiar, com famílias muito numerosas, visto que no grupo os dados quantitativos dos formulários socioculturais revelaram que 30% dos jovens do grupo já têm filhos e 70% não. E 40% informaram que residem em média com oito pessoas ou mais. Nesse sentido, afirma-se que o trabalho para os jovens da BRG, assim como a profissão e um curso superior, é objetivo de vida, que buscam ser alcançados por meio da atuação no grupo. Os jovens apontam o estudo como algo muito importante, integrante dos seus sonhos e ao mesmo tempo de seus desafios, uma vez que desejam terminar o ensino médio, ingressar no ensino superi- 171 Universidade da Amazônia or, se profissionalizar e ter um emprego estável, para, assim, ajudar a comunidade da periferia e o trabalho do grupo BRG. Essa realização é vista como a possibilidade para se desfrutar de atividades de lazer e de cultura, de realizar o desejo de maior independência em relação aos pais e principalmente como meio para ajudar a própria família a adquirir uma qualidade de vida, que permita oportunidades e estabilização, visto que nos formulários socioculturais 44% dos jovens responderam que estão desempregados, 39% trabalham informalmente e somente 17% trabalham com carteira assinada. Quanto à ocupação, as entrevistas revelam que 34% se ocupam de trabalhos desenvolvidos pela BRG, 17% desenvolvem atividades domésticas, 25% trabalham informalmente e apenas 8%, cada, trabalham com carteira assinada e estão desempregados. Com relação à ocupação, acrescenta-se que os jovens, que disseram ocupados com atividades desenvolvidas pela BRG, também afirmaram, em conversas informais, que realizam trabalhos informais, e é praticamente a responsável principal pela fonte de renda. Esses jovens atuam como cabeleireiros, auxiliares de escritórios, cobradores de ônibus, lavadores de carros, manicures, pedreiros, cinegrafistas, vendedores ambulantes e voluntários. Assim, constata-se que no mercado informal é onde os jovens do grupo encontram possibilidades de trabalho, devido ao grau de escolarização, e, fundamentalmente, devido à exclusão sócio-racial. No grupo, 44% dos jovens que preencheram os formulários socioculturais, encontram-se no mercado informal. 3.4.1.2.13 Periferia e identidade A periferia é um espaço socialmente construído, que, no grupo BRG, exerce função de identificação de extrema relevância à medida que contextualiza a história de vida, a atuação e a cultura em que os jovens encontram-se inseridos. É nesse meio social que os jovens encontram compreensão para uma construção de realidade subjetiva e externa, visto que é na periferia que os jovens apontam as falhas pelas quais passaram e os sonhos que pretendem alcançar. Ou seja, foi das dificuldades enfrentadas nesse espaço de relações vivenciadas que o grupo BRG surgiu, tem sua atuação e exerce função central de atender os jovens em situação de risco, com envolvimento com drogas e violência incrustados no universo periférico. Sendo assim, os dados dos formulários socioculturais mostram que todos os jovens do grupo BRG residem em bairros periféricos de diferentes localizações da cidade, sendo que 70% desses estão no bairro do Guamá, bairro em que fica localizada a sede - biblioteca do grupo BRG. 3.4.1.2.14 Juventude: sonhos e desafios Em relação à juventude, o grupo critica os jovens que se deixam influenciar pela mídia, pelo modismo e pelo consumismo. Acreditam que o jovem 172 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional possa ser mais revolucionário, com ideais e possa lutar por igualdade social. Afirmam que o maior desafio dos jovens é a falta de oportunidades na educação, no trabalho, principalmente na periferia, e o distanciamento da política, pois não têm voz na política, e não lutam para isso. Nas entrevistas realizadas, no que se refere aos sonhos, 41% dos jovens disseram que sonham construir um mundo diferente, onde a periferia tivesse melhores condições de vida; ao passo que 25% sonham em proporcionar melhores condições de vida para suas famílias; 17%, voltar a estudar e conseguir um emprego fixo; e outros 17% sonham em gravar um CD e levar informação por meio da música e da arte, assim como levar “a palavra de Deus”, para as pessoas. Apesar de a maioria dos jovens enfrentar problemas familiares, é significativa a preocupação em possibilitar melhores condições de vida para a família, seja por reconhecimento, seja por quererem evitar que seus filhos passem pelas mesmas dificuldades que eles passaram; uma vez que os jovens do grupo, com famílias em situação de pobreza e baixa renda, têm histórico de pai ou mãe alcoólatra, ou usuário de drogas ilegais, e de violência familiar. De modo geral, os sonhos do grupo giram em torno de conseguir uma formação superior educacional; trabalhar; ajudar a periferia. Todos almejam um mundo mais igualitário, em que haja educação para todos. E pensam também em tornar o grupo conhecido pelos seus trabalhos com a comunidade e com a gravação de CD’s. O grupo demonstra compromisso social com o espaço urbano-periférico, pois não pensam em sair de lá para terem uma vida melhor, mas sim, em ajudar a periferia dando oportunidades de estudo, trabalho e lazer. Em relação a ser jovem, 25% dos entrevistados afirmam que ser jovem é ter liberdade para se expressar e não se deixar levar por aquilo que a mídia impõe; 17% disseram que ser jovem é ter acesso a muitas coisas da vida e do mundo; 16% acreditam que ser jovem é muitas vezes ser desinformado; 17% afirmaram ser um estado de espírito; e 25% declararam outros. Sobre a juventude um jovem verbaliza: Por mais que a gente seja mil (o grupo), só que a juventude que existe no mundo é muito maior do que esses mil, então no caso, eu vejo a gente como aquela estória do beija-flor tentando apagar o incêndio na floresta, quer dizer, um bichinho tão pequenininho, tentando enfrentar uma coisa tão grande, então, é a mesma coisa a gente aqui, a gente é simplesmente o beija-flor nesse imenso mar de jovens aí mesmo nesse problemão que é a vida de um jovem, é a cabeça de um jovem, mas a gente ta aí,esperando o leão, esperando a girafa, esperando o elefante se sensibilizar para que o grupo cresça e não fique só o beija-flor tentando apagar o fogo (JOVEM, sexo masculino, 18 anos). 173 Universidade da Amazônia FIGURA 15: Jovem pertencente ao Grupo BRG Fonte: Registro de campo/2004 3.4.1.2.15 Fragmentos de Histórias de Vida: personalidades eTrajetórias Neste item, optou-se por abrir um espaço, especialmente dedicado a duas personalidades que fazem parte do grupo pesquisado BRG. Dois “personagens urbanos”, duas histórias que se entrecortam e se completam na aproximação com a realidade da periferia. Histórias de vida que têm como palavras chaves centrais a transição, a reconstrução e a mudança. É a partir dessas histórias, que têm como fonte o relato oral, obtido por meio das entrevistas, a que se irá ater, pois é pela história oral e pelas sintetizações individuais que se possibilitam as construções culturais e as histórias das diferentes culturas, visto que: [...] as narrativas são mais do que documentos vivos, possibilitam a importância para o conhecimento de questões subjetivas: a emoção, os sonhos, as perspectivas, a memória e os discursos (CALDAS, 2001, P. 43). Dessa forma, é na oralidade que se baseia esse item, pois a objetividade dará lugar à reflexão comunicativa, à discussão e à aproximação do pesquisador com o sujeito pesquisado, visto que nessa relação, o enlace se dará por meio da argumentação e da utilização dos pontos biográficos mais importantes dos sujeitos pesquisados. 174 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional O fragmento será construído por duas histórias de vida. A primeira é do educador e líder da BRG, e a segunda é de um jovem membro do mesmo grupo. A opção por esses dois personagens justifica-se a partir da notoriedade e do destaque que alcançaram por meio do desenvolvimento do grupo, ressaltandose também o aspecto de transição e a reconstrução conscientizadora, que recorta a vida dos atores sociais que iremos abordar. Dessa maneira, por meio de uma análise interpretativa e antropológica, buscar-se-á construir um fio condutor, em que as práticas e transições desses indivíduos encontram-se relacionadas a discursos e ideais de vida de transformação, busca, e transposição de barreiras sociais estigmatizantes. 3.4.1.2.15.1 Pastor Ênfase: o educador e líder espiritual Estes fragmentos de história de vida integram-se à pesquisa enquanto análise de uma das principais lideranças da Bancada Revolucionária Gospel (BRG): O Pastor Ênfase ou J. S. S30, a fim de se traçar o perfil do líder espiritual e educador do grupo. O fio condutor da análise segue no sentido de se compreender como o histórico de vida de J.S.S. determinou certos traços da sua personalidade e do seu perfil de liderança, e de como isso foi decisivo para a formação e constituição da BRG. Nesse sentido, tratar-se-á de três momentos específicos em seu histórico de vida. O primeiro, com a apresentação da infância, atingida pela perda brusca do pai. O segundo, com a adolescência delinquente nas gangues. O terceiro sobre juventude, após a conversão ao protestantismo e a militância no movimento Hip-hop, iniciada após a fundação dos grupos JCA e da BRG. Na condução da análise, recorre-se-á aos dados coletados/fornecidos pelo estudo de campo e análise das entrevistas, tanto do líder J.S.S., quanto daqueles membros que possam oferecer outras informações relacionadas a este estudo de caso. Dessa forma, por meio de uma análise interpretativa antropológica, em que as práticas desses indivíduos encontram-se relacionadas a discursos e idéias, mais ou menos, sistematizadas e estruturadas de forma consciente, busca-se organizar e conduzir as abordagens e conclusões. O jovem de 29 anos, J.S.S., tornou-se o líder e educador de uma das mais expressivas organizações do movimento Hip-hop de Belém31. Isso decorre da sua capacidade de aglutinar e coordenar adolescentes e jovens, assegurando uma unidade e uma integração desses em torno de ideais compartilhados, vol30 Usar-se-á as iniciais a fim de manter-se preservado o entrevistado. Além do nome de registro, J.S.S também é conhecido como “DJ e MC Ênfase” e “pastor Israel”, dependendo da função ou papel que esteja assumindo ou desenvolvendo. Ao se apresentar no grupo de Rap JCA (que ajudou a fundar), é “DJ e MC Ênfase”; já ao presidir as reuniões e cerimônias religiosas, ele assume o título de “pastor Israel”. 31 A BRG é uma organização do movimento Hip-hop de Belém que conta com um quadro expressivo de militantes, atuando nas diferentes manifestações desse movimento (Rap, Break, Grafitte e DJ), tendo promovido eventos e atividades sócio-educadoras em escolas, a BRG vem ao longo dos anos assumindo um papel destacado na conversão e reabilitação de adolescentes e jovens infratores. Pelo número de membros e estrutura de organização é que se pode considerar a BRG uma das mais destacadas representações do movimento Hip-hop de Belém. 175 Universidade da Amazônia tados para a transformação da sociedade e para a vivência da cidadania, levando-os a lutarem pela garantia dos seus direitos. Muito do sucesso da BRG em se constituir como uma organização do movimento Hip-hop consolidada e atuante, decorre do perfil de liderança do seu dirigente. Na busca do melhor entendimento e compreensão acerca desse sujeito social, deve-se traçar o estudo desse perfil mediante o seu histórico de vida. Filho mais velho, primogênito de uma família numerosa, que pelas vicissitudes da vida, viu-se na condição de referência masculina para os irmãos, J.S.S. teve, ainda na infância, a sua liderança incentivada, quase que por uma sucessão hereditária, após a perda violenta do pai: [...] tive assim uns problemas no passado que raramente a gente comenta, a gente do “JCA” no caso, que a gente veio de classe média e tudo, nosso pai era militar e a própria polícia matou ele, é uma história que a gente não conta muito, e, as propriedades que tinha minha mãe vendeu pra gente ir pra Brasília, fomos pra Brasília, depois minha mãe resolveu voltar para Belém [...] aí a gente voltou pra cá, isso já sem mais, sem nada, então eram 7 filhos, todos pequenos e sem estrutura nenhuma, aí a gente passou a morar na casa do “Bife” ali, que é uma feira que é do Guamá, aí de manhã a gente saía pra pegar resto de comida, essas coisas todas, [...], então a gente passou esse tipo de vida, então tudo isso atrasou, pra estudar, falta de pai, esses problemas todos aí [...] (J.S.S.). A desestruturação material e emocional da família exerceu uma forte influência sobre o processo de formação da sua personalidade, atuando no sentido de enraizar valores humanos, um senso de responsabilidade e um sentimento de doação em prol do grupo familiar. [...] então a gente aprendeu a ter essa vida de irmão, talvez a perda de estabilidade que tínhamos quando nosso pai era vivo, nos ensinou isso, humildade e tal... companheirismo. Então pra mim primeiro lugar vem essa história de ser família, dar a vida um ao outro, se preocupar com aquele ser humano, e depois vem a visão que daí a gente pode tirar pra família, filhos, esposa, mãe, pai e deixar um exemplo pra rapaziada aí que não respeita mãe, nem pai (J.S.S.). A inserção nas gangues ou “galeras” (como identifica J.S.S. em depoimento mais abaixo) foi outro momento do seu histórico de vida, significativo para a formação do seu perfil de líder e educador. Esse agrupamento é uma das 176 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional formas mais comuns de agregação e organização de adolescentes e jovens, logo que passam a exercer maior independência com relação ao grupo familiar. Sem propósitos bem definidos, as gangues ou “galeras” são compostas majoritariamente pelo sexo masculino, havendo por parte dos seus membros uma necessidade de autoafirmação, conduzindo-os a uma identidade deles e do grupo por meio do contraste com outros agrupamentos da mesma natureza. A violência é, por conta disso, o meio quase sempre recorrente para tratar das rivalidades e disputas envolvendo esses agrupamentos, conforme se pode perceber: É, na minha época era galera, a gente chama de galera, e era aquela onda de fazer uma roda com a galera daqui, quem dançava mais e tal, e arrastava menina, e às vezes essa menina trazia problema de briga, né, e às vezes se encontrava galera com galera, e graças a Deus não tinha as arma de fogo, naquela época a gente não usava, né, agora que já veio surgir (J.S.S). As gangues estabelecem, entre os seus membros, uma rede de solidariedade e proteção, considerada vital para a manutenção do grupo, estabelecendo laços muito fortes sedimentados em um sentimento de irmandade nesse tipo de agrupamento e, ao mesmo tempo, de rivalidade, austeridade, violência e contravenção social em relação a outros grupos ou à própria sociedade. Isso tem contribuído, decididamente, para a escalada de violência entre esses jovens, conforme se observa no depoimento de F.R.S., hoje integrante da BRG. O que me levou a participar da gangue foi um irmão que eu gostava muito dele, que não era meu irmão de sangue, mas eu o considerava como um irmão, um “cara” que nunca me deixou de mão. E tinha uns moleques que “meteram porrada” nele, ele já se metia em gangue, e eu “me mordi” por causa dele e peguei um revolver invadi lá e dei uns tiros num moleque e ele ficou aleijado, de cadeira de rodas. Então me levou através daquilo que aconteceu com ele e me levou para as gangues, eu comecei a pinchar em muitos lugares, na cidade por aí, no centro. E eu passei a ficar considerado, depois comecei com esse negócio de drogas, assalto a mão armada, lojinha, mercadinho, farmácias, essas coisas (JOVEM, sexo masculino, 21 anos). Ainda, tomando por subsídio os dois depoimentos expressos anteriormente, nota-se que o envolvimento com gangues conduz a outras práticas contraventoras ou delinquentes, tais como: pichação, uso de drogas, assaltos, entre outros. Notadamente, a busca pela autoafirmação dos membros de uma gangue passa por essas práticas. Ser “considerado”, ou seja, desfrutar de uma posição de 177 Universidade da Amazônia destaque e liderança nesse tipo de agrupamento, inevitavelmente, leva a um desajuste social; nesse caso, quanto pior, melhor, quanto mais proezas no enfrentamento com os “inimigos”, desafiando a lei e a polícia, melhor. A compensação por essa conduta arriscada está no prestígio conquistado pelo indivíduo, o que se converte em vantagens, sobretudo, no mercado da paquera e do namoro. A conquista de pretendentes é facilitada se o indivíduo conta com uma posição de destaque. Caso se torne um membro “considerado” do agrupamento, fica em evidência perante a um número maior de possíveis candidatas à “paquera” ou “namoro”. Na adolescência, quando a descoberta da sexualidade aflora, ser bem sucedido na conquista é uma preocupação muito presente, conseguir desenvolver seus atributos faz toda a diferença para se obter o sucesso esperado. A inclinação de J.S.S. para a liderança, iniciada no núcleo familiar, foi estimulada, na adolescência, no agrupamento da gangue ou “galera”, em que o senso de responsabilidade expandiu-se em relação a outro tipo de agrupamento e relações. A etapa seguinte da formação do perfil de liderança e educador do jovem J.S.S. se deu dentro de uma instituição, denominada, Igreja Evangélica do Guamá. Essa fase da sua vida implicou uma ruptura brusca com a adolescência delinquente, embora, certos hábitos e traços tenham sido preservados, conforme se observa no depoimento: [...] na época eu ainda era meio do Black [...], tinha cabelo grande, tem uma identidade minha que ainda é assim, [...], ia pra igreja com bermuda, um meião, sempre fui assim, sem eu ter conhecido rap nem nada, [...], eu ia embora pra igreja, é isso foi me fazendo ficar conhecido na igreja, eu cheguei até a ser coordenador das regiões de Belém, como presidente de jovens, então eu tava sendo um dos presidentes, organizava os eventos e tal, estadual e de Belém também (J.S.S). Destoado da imagem normalmente atribuída aos membros da Igreja Evangélica, tidos como pessoas pacatas, comedidas e vestidas de forma discreta, J.S.S. se tornou na sua congregação uma referência para outros jovens, assumindo a liderança, condição com a qual já estava bem familiarizado. Nessa Igreja, J.S.S. viria a fundar, com a ajuda dos irmãos Sandrão e Anderson, o grupo de “street dance”32 JCA, segundo explicita logo abaixo: Aí, depois eu comecei a cantar na igreja, cantava músicas clássicas, músicas lentas e tal, aí meus irmão viram que eu tava levando a sério a igreja, já entraram, formaram um 32 O Termo designa a dança grupal, com passos desenvolvidos a partir dos ambientes das danceterias, club’s e logradores públicos, tais como a praça. A música utilizada na performance é eletrônica, geralmente derivadas do funk e do house. 178 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional grupo de teatro, depois que veio, não tinha nome ainda, foi um grupo de teatro, interno da igreja, depois veio o grupo de dança, porque eu vi que o teatro não tava surtindo tanto efeito, tinha aquela visão meio doida, meio aberta, aí criamos o street dance (J.S.S). A dança, a vestimenta, as gírias, os vulgos, enfim, a forma de se expressar, que define alguns traços da personalidade do J.S.S e de outros adolescentes, constituídos durante a sua vivência na gangue, tornaram-se impossíveis de serem suprimidos completamente pela vida religiosa-evangélica, causando resistência e oposição dos dirigentes da Igreja. Tal situação gerou uma tensão e conflitos incontornáveis, levando a saída do grupo da congregação, no dizer de J.S.S.: Olha, na verdade a igreja nunca deu apoio que precisava, então chamava a gente de demônio, satanás, que aquilo não era de Deus e tal, aí foi um dos objetivos pra gente sair. E a represália que a gente saiu é que o espaço nosso ficou menor, mas que ao contrário, fora ficou maior, as outras igrejas começaram a querer que fizesse uma apresentação por noite, ai passou a ter duas, depois quatro, até mais, então chegava, tipo estrela, fazia e ia embora porque não dava tempo pra permanecer, assistir culto, conversar com a rapaziada, então isso era o momento street dance, que a gente dançava e que pra mim foi a fase que nos fez ser “JCA” pra igreja, frequentava normal não tinha se desviado, mas parou de frequentar até por causa das apresentações viajo, voltamos a frequentar lá, até voltamos com cd gravado e aquela coisa, de respeito, são cantores, dá a melhor cadeira... (J.S.S.). Tal acontecimento ajudou a reafirmar os propósitos e identidade do grupo JCA, liderado por J.S.S. na sua maneira de se expressar e se relacionar com outros adolescentes e jovens. Tinha início uma busca por uma expressão cultural característica dos adolescentes e jovens ao mesmo tempo tinha uma pedagogia formadora de atitudes e valores construtivos. Dessa forma, o Hiphop surge no horizonte do JCA e de sua liderança. A importância pra mim, do Hip-hop, tirando a igreja, como eu falei ela me transformou em alguns aspectos, talvez porque eu não tinha encontrado o verdadeiro sentido de servir a Cristo, hoje, o Hip-hop, me ajudou a encontrar o verdadeiro sentido de servir a Cristo (J.S.S.). 179 Universidade da Amazônia Em outra declaração, J.S.S. faz a seguinte consideração acerca do potencial do Hip-hop para fazer os adolescentes e jovens se expressarem: Olha, o Hip-hop pra mim á a maneira que tem de expressar, porque todo jovem procura expor aquilo que ele tem dentro, então o Hip-hop me ensinou um pouquinho mais, me deu mais coragem de expressar o que eu tenho dentro, [...] (J.S.S.). A inserção no movimento Hip-hop veio por meio do contato com outros grupos de Rap e da NRP33 (Nação da Resistência Periférica). Nessa organização do movimento Hip-hop, a tônica era a questão sócio-racial da juventude e a busca de uma militância política, o que a colocava em contato com as entidades do movimento negro, outras organizações do movimento social e partidário de esquerda. Novos elementos passaram a se constituir no desenvolvimento da personalidade do J.S.S. e do seu perfil de liderança. Contudo, o forte sentido religiosoevangélico do grupo JCA tornou-o incompatível com a organização que reunia outros grupos de Hip-hop. Nesse momento, destaca-se a liderança de J.S.S. frente à necessidade de uma organização capaz de congregar as duas visões de mundo (religiosa e de Hip-hop). Nascia assim a BRG (Bancada Revolucionária Gospel), organização que aglutina grupos adolescentes e jovens evangélicos e de Hip-hop. A liderança de J.S.S iria conferir uma estruturação e organização à BRG muito próxima do modelo constituído pelas igrejas protestantes evangélicas. Na BRG, J.S.S assume não apenas o posto de líder político, mas também religioso, tornando-se mais tarde um pastor. Isso faria com que a sua liderança adquirisse uma conotação de sacerdócio, já que J.S.S. acredita ter assumido uma espécie de “missão”, que consiste em: conduzir seu grupo na superação das deficiências, dificuldade, zelando pelo seu bem estar e prosperidade. Olha, eu me vejo, com a rapaziada, uma pedra fundamental, que quando a gente olha pra uma liderança, como eu falei, ou pra um cantor, por exemplo, a gente é o único grupo ainda que tem um CD gravado, então a gente olha pra essas pessoas com esperança [...]. Então eu me vejo, tanto pro “JCA” quanto pro “BRG” como uma esperança, até minha própria família, vejo nos olhos da minha mãe a esperança, a solução dos problemas, pra trazer prosperidade a família, até porque eu poderia ter um futuro selado, certo, se fosse cantor de música clássica [...], mas eu optei, pelo Hip-hop, porque eu acreditei no Hip-hop (J.S.S.). 33 Essa foi a primeira organização do movimento Hip-hop de Belém, surgida no ano de 1998, no bairro da Terra Firme, a partir do grupo de Rap MBGC (Manos da Baixada de Grosso Calibre). 180 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional A prosperidade da “BRG”, do “JCA” e da própria família dependeria, portanto, da sua capacidade de liderança, capaz de tomar as decisões certas e servir de “exemplo”, sendo moralmente inatacável. Isso só seria humanamente possível, segundo o ponto de vista de J.S.S., por meio de um suporte religioso, pois, para J.S.S: [...] eu ser um homem bom só porque eu sou é uma coisa, agora eu ser um homem bom porque eu conheço a Deus é outra coisa, tem duas forças que agem na minha vida pra mim ser um homem bom, agora só eu ser um homem bom porque eu sou um cara que tá enquadrado na sociedade e tal, um bom cidadão, a qualquer momento eu posso cair, com mais facilidade do que um cara que tem Deus, crer, vai numa igreja, ouve os blá-blá-blá dos pastores que isso ajuda ele a ser duas vezes mais forte que um homem comum [...] (J.S.S). J.S.S. desenvolveu um senso de responsabilidade como líder político e religioso da BRG, acreditando depender a prosperidade da BRG, congregando um número cada vez maior de adolescentes e jovens em situação de risco, imprimindo-lhes uma disciplina e organização, mobilizando-lhes no sentido de tornar a BRG uma entidade bem estrutura. Como pastor, J.S.S. coloca-se como líder político e religioso devotado, preocupado em inspirar confiança e credibilidade aos que o seguem. Conforme o exposto, J.S.S. se prepara para um outro passo importante no seu histórico de liderança: assumir como pastor uma Igreja ou congregação, a qual pretende fazer prosperar, congregar um número maior de fiéis, reunir recursos financeiros e materiais maiores, para serem revertidos em proveito da própria comunidade. Esse é um ponto do qual ele pretende promover um projeto mais ambicioso: fazer da BRG uma nova Igreja Evangélica, com sete sedes submetidas a sua liderança, para que assim a corrupção não a desvirtue da proposta inicial. Há, nesse sentido, uma fusão entre o seu projeto de vida e o da organização que lidera. A liderança do J.S.S. à frente da BRG tem se mantido a salvo das disputas e questionamentos pela própria estrutura interna que se formou, em que as outras lideranças, ao assumir outros postos chaves na organização interna da BRG, são em grande parte pertencentes ao seu núcleo familiar, como no caso de dois outros irmãos, da esposa e da cunhada. Pessoas que de longa data tem o J.S.S. como liderança, e, talvez, por isso colaborem para a sua manutenção, suprindo até em alguns casos as possíveis lacunas ou deficiências dessa liderança. O Anjo Preto, como vice-líder do grupo BRG, possui certas atribuições que colaboram decididamente para a integração e coesão da BRG, qualidade identificada pelo próprio J.S.S. por superar as distâncias existentes entre os membros, dirimindo os focos de tensão e conflito existentes na BRG. 181 Universidade da Amazônia Eu ainda tenho uma dificuldade que eu sou o tipo de líder, [...], então eu não sou muito de tá conversando com os liderados, entendeu, só se eles me perguntarem alguma coisa, precisar de uma ajuda, alguma coisa, eu sou mais de atitude, de agir, entendeu, eu não sou muito de falar, entendeu, então a gente não tem uma relação muito próxima, já o anjo ele é um cara muito conselheiro que é o que eu tenho a visão, se caso acontecer algum problema, ele pegar a líder da “BRG” (J.S.S.). Outro fator a ser levado em consideração, para o melhor entendimento da forma como o J.S.S. tem sido bem sucedido em seu papel de liderança da BRG, seria sua idade mais avançada em relação ao restante dos outros membros. Contudo, não se pode deixar de considerar que tal liderança tem apresentado bons resultados também em razão do carisma inerente à pessoa do próprio líder. Talvez por se idealizar e por ser idealizado como pai ou irmão mais velho dos membros, J.S.S tem expressado uma dedicação e doação em prol do progresso e desenvolvimento da BRG incomparável a de qualquer outro membro, o que por si só já o torna o líder natural dessa organização. Acrescenta-se a isso, a franqueza e a objetividade dos seus discursos só expressos em ocasiões em que se faz necessário um direcionamento ou uma tomada de posição. Isso faz dele uma figura emblemática. Ao findar-se essa análise, expor-se-ão algumas aproximações conclusivas acerca do perfil da liderança do jovem J.S.S, que ao longo do seu histórico de vida tem acumulado experiências significativas que o ajudaram a construir sua índole e sua personalidade. Colocar-se a serviço do bem estar do grupo é algo que ele vem perseguindo desde a infância, o que tem se constituído em um verdadeiro ideal de vida, e ampliado o foco inicial do grupo familiar para a BRG, e, em seguida, para os demais adolescentes e jovens do bairro, de Belém, da Amazônia e do Brasil. A firmeza de caráter e personalidade, juntamente com a sua força de vontade, tem feito toda a diferença para que a BRG venha se constituindo e se estruturando enquanto uma organização, investindo na formação dos seus quadros. A institucionalização da BRG é o ponto de interseção de uma trajetória de vida trilhada entre a vida religiosa-evangélica e o Hip-hop. Isso longe de se constituir em um projeto individual é a aspiração de outros jovens da BRG que se veem representados pela liderança do J.S.S. Agora que está próximo de ingressar no estágio da vida adulta, J.S.S. tem se preparado para no futuro assumir outra frente: a candidatura a um cargo político. Ele sabe que isso depende de um trabalho sólido, por isso, vem buscando desenvolver uma maturidade política acompanhada de uma postura moral inabalável. Somente sendo um líder descente, que inspire confiança, é que J.S.S. acredita poder ser possível representar os interesses da sua comunidade. 182 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional A vida religiosa do líder J.S.S. é algo que não se encerra em si mesmo, ou seja, preocupada apenas com aspecto espiritual, mas que aponta para uma intervenção efetiva na sociedade, tomando por princípio a moralidade religiosa, combinada com a proposta transformadora do Hip-hop, por meio dos adolescentes e jovens. 3.4.1.2.15.2 Rick Hei: das gangues ao hip-hop Rick Hei, de iniciais E.V.C.S, 18 anos, estudante do ensino médio, morador da periferia de Belém, bairro do Guamá, é proveniente do universo das drogas e da marginalidade. Inicialmente conhecido com o codinome ou vulgo de “Rick Rei”, atualmente modificado para “Rick Hei”. Filho do meio de uma família de três irmãos, todos homens, teve o pai separado da mãe quando ainda criança, e uma trajetória de vida que demonstra a constituição de uma transição do universo de delinqüência e violência juvenil, das gangues, para a conscientização e engajamento oferecido pelo universo Hip-hop. Eu nasci aqui em Belém, [...] na Santa Casa e estou aqui em Belém, desde de que eu sou gente...eu sempre morei aqui no bairro do Guamá... se eu morei em outros bairros, eu não lembro [...] são histórias que não costumo buscar. Antes de entrar na BRG eu quase não parava em casa, vivia “tipo caçador de baladas” 34, ficava com os moleques da rua assim [...] (E.V.C.S). Rick Hei foi o primeiro codinome ou vulgo35 adquirido por E.V.C.S, sendo que o “Rick” configura-se como uma contração de seu nome de batismo, e o “Rei” foi adquirido quando iniciou sua relação com o universo das gangues de rua, em que exercia o papel de líder ou chefe de uma gangue. Observa-se, nesse caso, a relação entre a vontade do jovem em assumir um codinome e a importância que essa identificação exerce, pois a função significante do seu “novo nome” exerce papel fundamental na construção de sua identidade, que se encerra no universo urbano das gangues, com as relativas funções do “ser reconhecido”, ter visibilidade, alcançar o respeito e os préstimos dos outros, e, finalmente, sentir-se incluído no contexto social de um grupo, ou de uma gangue. Meu vulgo era “Rick Rei”, porque quem deu a idéia ora formar todo o barato fui eu. Esse “Rei” foi porque naquela época, eu tomava a frente dos meninos da rua da minha casa, eu consegui com uns caras que tem mais influência juntar com outra gangue. Na rua da minha casa tem uma rua maior e 34 35 Balada: termo utilizado para se referir às festas noturnas que reúnem os jovens. Vulgo: espécie de gíria utilizada pela linguagem dos membros de gangues e absorvida pelos adeptos do movimento Hip-hop, o termo significa codinome. 183 Universidade da Amazônia uma rua pequena, que tem só uma ponte. Ali atrás naquela época eu comecei a me envolver com gangue, com drogas, com marginalidade, naquele lugarzinho ali. Eu nunca cheguei a me envolver com drogas fortes, mas me envolvi com drogas, brigas, com marginalidade, uma série de coisas, época que eu cheguei a repetir a sexta série três vezes [...] tenho cicatrizes que estão até hoje por causa disso (E.V.C.S). O processo de saída do mundo das gangues de Rick teve relação direta com medo, mais precisamente, com o medo da morte, pois, em um momento ápice ou limite, Rick relata o quanto sentiu esse medo. Até que uma vez em uma briga com uma gangue rival, eu já tinha visto a morte várias vezes e nesse dia algo me tocou muito. [...] No meio do caminho um menino conseguiu me jogar no chão e ele era canhoto e ele tentou me acertar com um ‘terçado’ e eu sai... Eu me levantei caí e ele deu com o ‘terçado’ em minha perna. Chega deu pra ouvir quando bateu no meu osso. [...] Na hora a polícia veio aparecendo de longe e ele saiu correndo. [...] Eu fiquei só, até que meu primo que considero irmão me jogou em um quintal de uma casa e fiquei lá até o outro dia...desde aí eu comecei mais a me envolver com o Hip-hop, fiquei conhecendo mais os bailes e me afastei de toda aquela vida louca (E.V.C.S). No processo de saída das gangues, o medo parece ter desenvolvido o sentimento de temor que contextualizava a vida nas gangues, vida que parecia estar recortada por um estar constante em uma “corda bamba” entre o viver e o morrer. Sendo que, desse sentimento de medo, desencadeou-se o processo de transição, que se encerraria no engajamento e na identificação com o universo Hip-hop, no qual a violência seria canalizada pelas produções artísticas e pela busca incessante do conhecimento, do estudo e dos projetos sociais de resgate de outros jovens do mundo das drogas e da violência. Rick sublimou, canalizou, trocou intimamente de forma subjetiva e profunda um universo por outro; substituiu as ações violentas e autodestrutivas pelas ações de vida, de arte e de um crescimento na busca de um processo pedagógico e social, no qual tanto a sua vida, quanto à vida dos outros, passaram a exercer função fundamental e de grande valoração. Com a inserção no grupo, também passou a ter melhor relação com a família; despertou interesse pelos estudos, chegando até a ser eleito o “aluno do ano”, no colégio Zacarias Assunção. Adquiriu conhecimentos relacionados à questão histórica sócio-racial de nosso país, passando inclusive a se autodenominar negro; conscientizou-se politicamente e ‘abraçou’ o ideal de lutar por melhores condições de vida na periferia. 184 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional Desde que eu conheci esses ‘doidos’ aqui, eu não sei mais o que é ficar de recuperação, não sei o que é repetir de ano, eu ano passado fui eleito o melhor aluno do colégio Zacarias Assunção, do turno da manhã, mérito não meu, mérito que eu divido com todos meus irmãos aqui, porque eles que me mostraram que o grande lance é eu fazer por mim mesmo, correr atrás, estudar, sabe, batalhar por aquilo que eu acredito, foi esses ‘loucos que me mostraram exatamente o quê que eu devo fazer da minha vida, me informar, aí seguir a palavra de Deus, não preciso de mais nada na minha vida (E.V.C.S). Ou ainda: Dentro do Hip-hop eu descobri que eu sou negro, descobri muita coisa que a escola não me ensinou. Hoje no Pará existe um lance de desinformação, com relação à negritude do irmão, ele não sabe que é negro, ele não se identifica como negro, ele aceita ser chamado de moreno, mas nem aquele moreno que ele aceita ser chamado, ele não sabe o que é (E.V.C.S). O gostar de Rap, ou da música que embala o movimento Hip-hop, exerceu importância fundamental para a identificação com o grupo de Hip-hop BRG. E Rick começou a gostar de Rap a partir de um clipe a que assistiu na MTV (canal de televisão). Hoje, gosta de ouvir rap a qualquer hora. Seu contato com o grupo ocorreu a partir da amizade com um dos integrantes, com o qual estudou junto, que lhe apresentou um dos idealizadores do grupo. Eu comecei a sintonizar a MTV, uma vez eu estava na casa com meu primo, que é uma pessoa que gosto muito, em essa vida louca, ele sempre estava comigo. E ele estava escutando uma música e logo de cara eu não gostei, e aí eu estava vendo tv e vi o clip desta música que era “o diário de um detento”. E eu fiquei assim, besta de ver. E aí comecei a gostar de Hip-hop. Até que um bom tempo depois, e aí conheci o Ismael e foi o primeiro ano que agente estudou junto, na mesma sala e com uma semana ele me apresentou o cunhado dele “Sandrão”. Já existia o projeto da Bancada, embora não fosse algo forte como é hoje. Nós levamos um walkman pra curtir um dia [...] em uma esquina da rua [...] um dia o Sandro passou lá e cantamos no meio da rua, uma música, daí comecei uma amizade muito forte, tínhamos as mesmas idéias, gostávamos de brincar com tudo, agente era muito parecido. Nessa época eu não estava ainda 185 Universidade da Amazônia partindo pra começar aquele trabalho social como faço aqui na Bancada agora, eu estava ali pra formar um grupo de rap, cantar, ter uma experiência e tudo mais (E.V.C.S). A partir desse momento de identificação, Rick abandonou as gangues, formou o grupo de Rap Gospel “Fúria Negra”, e atualmente se dedica ao movimento Hip-hop - Rap, grafite e a militância. Tornou-se membro assíduo das ações socais e o Rick que era Rei, se tornou “Rick Hei”, ou seja, o “Rei” que antes significava alteza, majestade, devido a sua liderança em uma gangue, transformou-se em ‘Hei’, expressão que faz alusão à ritimização da música e da arte do Hip-hop. Vale ressaltar que, apesar de uma mudança gráfica e semântica, a pronúncia permaneceu a mesma, caracterizando o sentido ambíguo de seu vulgo, pois apesar de ter saído das gangues, não perdeu sua característica de líder, sendo assim reconhecido dentro da BRG. Ocupa-se com as atividades desenvolvidas pela Bancada e pelos estudos da escola. É professor das oficinas de grafite e também faz parte do grupo dos 7, responsável pelo trabalho espiritual, pelo ‘resgate’ dos jovens, ou melhor, por ajudar os jovens a sair do mundo das drogas, da marginalização, das gangues etc. Antes era Rick Rei, agora mudei esse Rei para Hei, Hei. Minha ocupação agora é desenvolver aqui o trabalho com a BRG, é minha vida espiritual, aqui tem muitos projetos para realizar em longo prazo, em esse processo eu quero estar os meninos da liderança, mas eu não quero tomar o lugar do “Jako” [...] eu quero mostrar o meu trabalho, o meu valor. Tem muita coisa que eu quero fazer aqui.[...] eu gosto do Hiphop como um todo. Eu quero estar falando mais do meu trabalho, tentando ajudar um pouco mais, da forma que eu puder tá ajudando eu vou lá e faço isso, ser Hip-hop, cantar um rap contribui pra alguma coisa, então eu vou lá e faço o rap também. O nosso objetivo estar mostrando um mundo bom, sem drogas, ter um esporte, um lazer, colocar alguma coisa que traga algum benefício para eles. Se o Hip-hop pode me ajudar a fazer isso, é por isso que eu estou aqui (E.V.C.S). Antes de fazer parte do grupo, já havia participado de uma igreja evangélica, porém somente com a Bancada encontrou a motivação para permanecer no trabalho social e espiritual. Sua decepção com a igreja que frequentava se deu pela impessoalidade das relações entre as pessoas, que apesar de frequentarem o mesmo espaço não se conheciam, não se relacionavam, não havia uma preocupação em fazer com que os novos participantes permanecessem no trabalho. Associou essa falta de acolhimento ao preconceito racial e acredita-se que os membros que ainda continuam a frequentar a igreja não se reconhecem como negros e por isso não percebem a discriminação existente. Para Rick, a 186 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional religião depende do ponto de vista de cada um, ou seja, é aquilo que a pessoa acredita que é certo, que é melhor para sua vida, e não o que lhe dizem que é certo. Religião é a pessoa estar bem consigo mesma, amar a Deus e ao seu próximo. Por isso costuma dizer que não tem religião, que segue a Cristo, porém, se houver necessidade de uma definição, se denomina evangélico. Eu tinha muita raiva eu achava que todas as igrejas, tinham esse caráter de não cuidar bem de seus membros então eu peguei o conselho do “Black”, ele saiu da igreja por causa disso, do preconceito racial [...]. Na verdade os outros negros não sabem que são negros de verdade não percebem que são também vítimas do mesmo preconceito de qualquer negro aqui, por isso eles estão lá até hoje. [...] isso seria a religião que a gente está buscando?, onde as pessoas se ajudam e identificam?. Não, é aquela religião que você segue, só pra dizer que segue. E então digamos que você me pergunte qual a minha religião eu vou dizer é a relação do que eu sigo, do que eu atuo. [...] Mas nesse ponto de vista eu sou evangélico, sigo a Cristo, eu quero a salvação pela fé, pelo amor (E.V.C.S). A partir de sua transição das gangues para o Hip-hop, Rick passou por um processo de conscientização, em que desenvolveu um posicionamento crítico político-social. Perante esse contexto, é possível afirmar que houve uma transformação de valores em sua vida, em que de jovem delinquente, líder de uma gangue, passou a ser um militante comprometido com as lutas sociais, e referência dentro um grupo gospel. O processo pelo qual Rick passou não anulou suas respectivas identificações anteriores, apagando aspectos anteriores da sua personalidade, mas resignificou, ou seja, o caráter de liderança de Rick, exercido anteriormente na prática da “gangue de rua”, agora era resignificado e canalizado para o grupo social, visto que o caráter de liderança exercido outrora na gangue, agora fora direcionado para sua atuação no grupo BRG. Rick se apresenta como um jovem que exerce posição de fundamental influência dentro do grupo para os outros jovens, que, em alguns discursos, verbalizam a mudança e a presença constante de Rick nas atividades exercidas pela BRG. Rick afirma “que o problema não é ter dinheiro, mas ter ocupação, lazer e educação de qualidade para a juventude da periferia”. Por isso, acrescenta em um diálogo informal que o que tem por objetivo não é “se mudar e sair do bairro onde mora, é lutar por melhores condições de vida na periferia, por oportunidades de lazer, educação e trabalho para população”. Rick observa no movimento Hip-hop a possibilidade de mudança da exclusão social em que se encontram inseridos os bairros periféricos. E assim como conseguiu mudar sua trajetória de vida, por meio do Hip-hop, da BRG, se dedica a mudar a história de outros jovens que se encontram em situações semelhantes pelas quais já passou. 187 Universidade da Amazônia Nós de bairros de periferias, não temos acesso à muita coisa de que deveríamos de ter acesso.O fato não é não ter dinheiro, é ter algo onde você possa se interessar por uma coisa, desenvolver um esporte, um lazer, algo que te deixe inserido por algum tempo, o barato é esse, é crescer naquilo que você quer fazer, uma educação que te prenda de verdade na frente do professor [...]. Agora a BRG é algo que eu tenho, um lazer com meus amigos, trabalho com o Hip-hop, que é algo que eu gosto muito. Os outros jovens que não tem isso, não tem mais nada. O que eles vão fazer? Vão ali buscar aquilo que está ao alcance deles, que é se divertindo de uma forma errada se envolvendo com brigas, com drogas, com uma série de coisas que vão levar ele pra cadeia. Ser Hip-hop é compromisso, é cantar o que eu vivo e o que o jovem da periferia vive, é a minha vida, é o que eu gosto, é o que eu faço, pretendo fazer até os meus cem anos. E se um dia eu não puder mais cantar, que os outros cantem, que os outros faça, e possam aprender e ensinar. 3.4.2 Quadrilha Junina “Flor do Paraíso”: a Expressão do Folclore por meio da Dança e da Música no Urbano Periférico de Belém 3.4.2.1 Contextualizando o Universo Urbano Periférico de Belém 3.4.2.1.1 Periferia: construção das relações sociais e identidade Segundo Ledrut (1971), a sociologia urbana considera que a cidade estabelece diferenciações, não só no que tange ao espaço-ambiental, mas também em relação ao social, que não se restringem a questões de grupos ou de classes. Sociologicamente, as partes como lares, vizinhanças e bairros assumem especial relevo na composição da coletividade urbana chamada cidade. Por sua vez, o bairro é assim entendido pela sociologia urbana como um fenômeno relacionado às coletividades urbanas complexas, que interpõem coletividades intermediárias entre as formas de agrupamento primárias (família e vizinhança) e a cidade. O bairro seria um agrupamento que se sobrepõe à vizinhança36, sendo mais amplo que esta, embora guarde uma característica comum em relação a este: ambos se formam a partir da aproximação espacial dos indivíduos. 36 A vizinhança, ou unidade de vizinhança, é um fenômeno generalizado. Depois do lar, é a primeira unidade coletiva local que encontramos. É o agrupamento de indivíduos, com residências próximas e que mantêm relações de auxílio mútuo e visitas. A vizinhança se define pela habitação/moradia. Torna-se mais forte quando residência e lugar de trabalho se associam. 188 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional Em certas circunstâncias, o bairro pode vir a assumir uma base sociológica profissional (comerciantes, etc.), étnica (judeus, negros etc.) ou social (operários, favelas etc.). Contudo, a participação coletiva dos moradores do bairro, organizada em associações, centros comunitários, dentre outros, é o que melhor define um bairro; além do mais, essas são as formas de o bairro ganhar personalidade e vida, ou seja, identidade. No Conjunto Satélite, tais fatores são observados e funcionam como elementos integrativos, já que os moradores frequentam a mesma igreja, a mesma praça, as mesmas escolas. Isso se dá em decorrência de o conjunto estar localizado em um bairro distante do centro urbano, no ambiente urbano periférico. Assim, toda essa aproximação entre as pessoas no conjunto Satélite cria ainda um sentimento de pertencimento favorável à construção da identidade, especificamente coletiva, e isso é claramente percebido no grupo de jovens que compõem a Quadrilha Junina “Flor do Paraíso”, visto que eles participam de muitas atividades em comum. Vale ressaltar que o Conjunto Satélite, apesar de pertencer à zona periférica da cidade e apresentar certa estrutura organizacional (com lojas, igrejas, farmácias, escolas, posto médico etc.), vivencia uma realidade bem diferente dos bairros periféricos que se encontram dentro da primeira légua patrimonial de Belém, como no caso do Guamá, que, por estar dentro da cidade, é mais assistido, além de dispor de acesso mais fácil a grandes redes de supermercados, farmácias, transportes, feiras equipadas e estruturadas, shopping centers, dentre outros. Portanto, ao considerar que a “sede” da Quadrilha Junina “Flor do Paraíso” fica localizada no Conjunto Satélite, parte integrante do Bairro do Coqueiro, tal bairro se constitui no campo social da pesquisa de campo do universo urbano periférico. E para que haja a compreensão quanto a sua origem e formação, é preciso que se tenha em mente a estruturação e o contexto de organização social excludente inserido no Município de Belém. 3.4.2.1.2 O processo de urbanização da cidade de Belém: fragmentos históricos A urbanização de Belém se acelerou no período em que a Amazônia viveu o “ciclo da borracha”, pois a cidade passou a exercer função de porto exportador do produto do extrativismo para os países industrializados. Diante desse fato, passou a ser alvo dos imigrantes nordestinos, pertencentes à massa excluída de trabalhadores, que vinham em busca de trabalho na Amazônia. Esse período tornou-se um marco no processo de urbanização de Belém. Sobre o assunto, Tupiassu (apud RODRIGUES, 1996, p.121) elucida que: Somente nas últimas décadas do século XIX é que o pungente ciclo econômico da borracha e as graves secas do Nordeste provocariam o que já foi denominado de 189 Universidade da Amazônia “transumância amazônica”, isto é, o deslocamento em massa de nordestinos para a Região Norte. Como principal porto de exportação do látex e centro importador intermediário dos bens consumidos no interior, Belém registrou forte expansão populacional. Se em torno de 1850 exibia cerca de 20.000 habitantes, passaria no final do século XIX a cerca de 100.000, ampliando sua área urbana graças à ocupação das matas existentes ao fundo. Antes desse período de crescimento populacional, Belém aparecia como a quinta cidade mais populosa do Brasil, ficando atrás do Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador e Recife. Após esse inchaço populacional, passou a ocupar a quarta posição. Conforme Rodrigues (1996), não se deve perder de vista que esse processo acelerado de crescimento populacional e, consequentemente, urbano estava estreitamente ligado ao sistema capitalista de produção. A cidade era vista como espaço de aglomeração de trabalhadores e concentração de meios de produção. Logo, o processo de urbanização de Belém passava a ter um caráter excludente, de segregação, antes não observado. O desenvolvimento acelerado e o crescimento populacional de Belém promoveram grandes modificações na infraestrutura da cidade. Ruas foram pavimentadas, arborizadas e foi instalada a estrada de ferro Belém-Bragança. Esses avanços fizeram com que houvesse a valorização de alguns espaços de Belém, provocando o deslocamento de uma grande quantidade de pessoas, que não mais podiam pagar os aluguéis que se tornavam mais altos, para áreas distantes do centro. Essas pessoas tiveram que seguir em direção do nordeste, passando a instalar-se em terrenos mais baixos e alagadiços, que não forneciam nenhum tipo de infraestrutura. A partir da década de 50 do século XX, esse deslocamento se intensificou e se estendeu em dois vetores geográficos. O primeiro em direção às “baixadas”, que originaram as favelas, percebidas por Ferreira (apud RODRIGUES, 1996, p.181) como um “conjunto de habitações populares toscamente construídas e desprovidas de recursos higiênicos”. E o segundo deslocamento em direção à Rodovia Augusto Montenegro (eixo Belém-Icoaraci), para a BR-316, para a Estrada do Coqueiro (eixo Belém-Ananindeua) e para lugares que ultrapassavam as marcas da Primeira Légua Patrimonial37, dando origem à periferia, que Trindade (1998, p.123) entende ser “o espaço produzido socialmente, onde se reproduz a força de trabalho de baixo poder aquisitivo, definindo ambientes segregados no conjunto do espaço urbano”. 37 Segundo Rodrigues (1996), convencionou-se a denominar Primeira Légua Patrimonial a área de terra de aproximadamente 4.110 hectares, circunscrita num arco de quadrante de raio igual a uma légua brasileira ou légua de sesmarias (6.600m), que tem como centro o ponto geográfico coincidente com o local onde a cidade se originou. 190 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional Na década de 60, no período marcado pelo governo militar, esse processo de deslocamento para as terras além da 1ª Légua se intensificou com a criação do primeiro conjunto habitacional, o NPI, localizado em São Braz, construído pela Companhia de Habitação do Pará - COHAB, que assentou uma grande quantidade da população que não tinha casa própria. Esses vetores de expansão horizontal foram estimulados a partir da localização dos novos empreendimentos industriais, tendo em vista a política dos incentivos fiscais do governo federal, e, principalmente, dos primeiros conjuntos habitacionais. A ideologia da casa própria dos governos militares foi responsável por atrair um significativo número de pessoas para essas áreas, alcançando definitivamente a chamada Segunda Légua Patrimonial. Relativamente aos recursos financeiros necessários, os conjuntos habitacionais construídos pela COHAB dependiam do Governo Federal e/ou Estadual. No entanto, não era ela a única empresa a construí-los em Belém, pois o Governo do Estado, por meio do Instituto da Previdência e Assistência dos Servidores do Estado do Pará - IPASEP, também veio a empreender conjuntos habitacionais, com recursos captados, em sua maior parte, do Banco Nacional de Habitação – BNH, para assentar os funcionários públicos do Estado que não possuíam casa própria. Dentre os conjuntos habitacionais construídos pelo IPASEP, em Belém, destaca-se os Conjuntos Cordeiro de Farias, Stélio Maroja e Nuneslândia (hoje, Satélite), localizados na Segunda Légua, na Rodovia Augusto Montenegro. Vale ressaltar que esses lugares onde foram assentados os conjuntos habitacionais, além de distantes, eram de difícil acesso, dispondo de poucos serviços e equipamentos urbanos, de tal forma a deixar patente a exclusão socioambiental da cidade. 3.4.2.1.3 Periferia e exclusão socioambiental Como se pode observar, a cidade de Belém se formou em um espaço geográfico com sérias limitações ao seu crescimento, haja vista, encontrar-se circunscrita entre a Baía do Guajará e o Lago do Piriá Jussara, com diminutas áreas salvas de alagamento, denominadas sítios altos, enquanto grande parte do seu território é formada por áreas de várzeas38, conhecidas como baixadas. Essas áreas estão sujeitas a constantes cheias e inundações. Até a segunda metade do século XX, a população concentrou-se nos sítios altos. Mas, ante ao crescimento demográfico acelerado decorrente dos projetos de integração do espaço amazônico, as áreas de baixada passaram a sofrer a ocupação por uma população de baixa renda. Souza, 1992 (apud RODRIGUES, 1996, p.163) considera que as baixadas são: 38 As áreas de várzeas das bacias hidrográficas de Belém são: a) Una; b) Armas e do Reduto; c) Comércio, Tamandaré e São José; d) de drenagem da Estrada Nova; e) Igarapé do Tuncunduba. 191 Universidade da Amazônia [...] espaços ocupados por famílias numerosas, de baixa renda, possuindo exiguidade de áreas públicas, tais como ruas e estiva estreitas e praças de diminutas dimensões, formando aglomerados carentes de infraestrutura e de equipamento urbanos. Enquanto isso, a população de alta renda concentrava-se nos sítios altos39, onde a especulação mobiliária eleva sobremaneira o valor da terra nessas áreas, fazendo com que haja uma concentração demográfica, sobretudo vertical. A valorização dessas áreas se deve também ao fato de elas terem recebido, ao longo do tempo, os investimentos em infraestrutura do Estado, concentrando grande parte dos serviços públicos. No entanto, a densidade demográfica das áreas de baixada é muito maior, pois a escassez de áreas destinadas à habitação concentra famílias numerosas em lotes pequenos, havendo casos de barracos construídos em espaços menores que 50,00 m² (RODRIGUES, 1996, p.181). Assim, as baixadas, por conta da densidade demográfica, carência de infraestruturas e de serviços públicos, surgem em meio a um processo de favelização. Para Campos Filho,1992 (apud RODRIGUES, 1996), esse processo comum nas cidades do Brasil é inerente ao modo de produção capitalista, pois: Nesse tipo de sociedade, a população e as atividades econômicas se distribuem no solo urbano obedecendo à ‘regra básica’ segundo a qual quem tem maior poder aquisitivo melhor se localiza na estrutura da cidade, seja em relação ao ambiente de trabalho, à oferta de serviços urbanos, comércio e especialmente cultura e lazer (RODRIGUES, 1996, p. 182). Portanto, a favela carece de investimentos governamentais na infraestrutura e na rede de serviços públicos. Por outro lado, ao longo do tempo, o Estado tem seguido um modelo de desenvolvimento que destina esses investimentos e serviços apenas aos centros, onde reside a população de alta renda; contribuindo, dessa forma, para o agravamento da desigualdade socioambiental. Campos Filho, 1992 (apud RODRIGUES, 1996, p.182) compreende que o processo de segregação espaço-ambiental da população de baixa renda, desenvolvido em Belém, a partir de 1950, divide-se em dois vetores: a ocupação das áreas alagáveis e a periferia geográfica. No primeiro caso, a população de baixa renda passou a ocupar as áreas de baixada, vivendo em condições deploráveis de vida, sujeitas a enchentes e inundações, onde proliferam doenças infectocontagiosas. No entanto, segundo Souza,1992 (apud RODRIGUES, 1996, p.167), esse processo significa também uma economia com transporte, em ra39 Segundo Souza, 1992 (apud RODRIGUES, 1996), essas áreas correspondem aos bairros do Comércio, de Nazaré, de Batista Campos, da Cidade Velha, do Reduto, do Umarizal, de São Braz e do Marco. 192 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional zão da proximidade do centro de negócios, em que a maioria trabalha nos mercados formal ou informal. No segundo caso, a população passa a ocupar áreas mais distantes do centro metropolitano, acompanhando o sentido da estrada de ferro Belém-Bragança. Esse é o caso do Conjunto Satélite. Pertencente à zona urbana periférica, atualmente dispõe de transporte urbano realizado por várias linhas de ônibus, que ligam o bairro a outros pontos da cidade. A situação econômica da região é caracterizada por população de média e baixa renda, havendo vários pontos comerciais e outras facilidades ao redor, tais como: padarias, oficinas de carro e bicicletas, mercadinhos, salões de beleza, locadoras, clubes sociais, lanchonetes, bares, depósitos de bebidas, escolas públicas e particulares, igrejas, farmácias, postos médicos e policiais, revistarias e outros, como no caso do antigo Clube, hoje casa de shows e raves “Parque dos Igarapés”, localizado entre as duas rodovias onde o conjunto se insere. Em seu entorno, não há supermercados e feiras de grande porte, não suprindo as necessidades da população local que se desloca para o centro da cidade ou localidades próximas para realizar sua compra de gêneros de primeira necessidade, incluindo vestuário. As habitações são construídas em alvenaria, mas foram observadas moradias constituídas por apenas um cômodo, abrigando grandes famílias em condições precárias. Apesar de o Conjunto Satélite estar situado em uma região considerada periférica e em seus arredores estarem presentes várias invasões, nele também há condomínios fechados, o que caracteriza um contraste social marcante. Nele estão presentes as questões da violência; dificuldades financeiras; baixo nível de escolaridade; famílias incompletas, compostas por apenas um dos provedores (geralmente a mãe); elevados índices de consumo de drogas e de gravidez precoce, decorrentes da falta de cultura, educação, noções de saúde, higiene; dentre outros fatores. Além do mais, o Conjunto Satélite, por se caracterizar como um bairro afastado do centro urbano de Belém, não oferece as mesmas oportunidades em relação a trabalho, lazer, escolarização, saúde. Isso se dá devido a uma série de fatores, entre eles, a falta de políticas públicas voltadas a esses espaços e à população presente, que só adquire certos benefícios em períodos de eleições. Tais fatores comungam para a exclusão social e ao mesmo tempo para a segregação de uma parcela da sociedade que vive, em parte, à margem da qualidade de vida. Mesmo com todos esses problemas, algumas famílias vizinhas, moradoras desse conjunto, se organizam todos os anos na tentativa de promover algum tipo de diversão com vista à satisfação pessoal e dos moradores do conjunto. Buscam, por meio do folclore popular, reunir o máximo de jovens possível para colocar a Quadrilha Junina “Flor do Paraíso” nas ruas, tornando assim vivo o folclore, que teve sua origem na Inglaterra e foi trazido para o Brasil pelos colonizadores, mas que recebeu influências do povo brasileiro, modificando a dança de acordo com a região em que se encontra (assunto este que será tratado a seguir). 193 Universidade da Amazônia 3.4.2.2 A Quadrilha Junina A quadrilha junina enquadra-se na formação artística caracterizada como manifestação popular e cultural, transmitida de forma oral e por meio da dança, repassada de geração a geração por intermédio da tradição e do folclore. Nesse sentido, Loureiro (2001) elucida que: [...] o folclore costuma ser definido como um amplo conjunto de tradições e crenças, de lendas, de conhecimentos, de visões do mundo, expressas em provérbios, canções, cantos, costumes, lendas, atividades artísticas representativos de uma época ou região (LOUREIRO, 2001, p. 40). Assim, percebe-se que a quadrilha recebe influências da região em que é dançada, ou seja, a quadrilha que se apresenta no Estado de São Paulo, por exemplo, não possui as mesmas características das quadrilhas do Pará. No Brasil, a quadrilha ganhou características diferentes. Estudiosos na área assinalam que essa manifestação folclórica surgiu na Inglaterra, por volta dos séculos XIII e XIV, onde era chamada de country dance e que mais tarde foi absorvida pela França com algumas modificações. Com a Guerra dos Cem Anos entre a França e Inglaterra, ocorreu a transferência cultural que levou a quadrilha aos palácios franceses. Neles recebeu a denominação contredance (uma dança em que os pares executam a coreografia, frente a frente ou, na linguagem francesa, vis-a-vis), e se tornou uma dança nobre, que se espalhou rapidamente por toda a Europa, fazendo-se muito conhecida nas cortes europeias, inclusive na portuguesa. No século XVIII, ela foi a grande dança protocolar de abertura dos bailes das cortes. À medida que a dança se popularizou, principalmente no Brasil e em Portugal, o nome “quadrilha” foi usado, conforme uma terminologia utilizada na Espanha e Itália, que identificava a contradança dançada por quatro pessoas. Dessa “quadrilha” derivou a “quadrilha geral”, com um número bem maior de pares, variando com o espaço oferecido para a dança. No Brasil, a quadrilha surgiu junto à colonização, principalmente nas regiões Sul e Centro-Oeste, onde foi muito forte a influência europeia, com fortes características das tradições e modos franceses, ingleses e portugueses. Posteriormente, suas variantes espalharam-se por todo o país, e adquiriu caracterizações e traços da cultura popular, definindo-se como quadrilha caipira, principalmente no interior paulista, em Minas, na Bahia e em Goiás, com extensão para todo o norte e nordeste do Brasil. Hoje, as quadrilhas são muito importantes em Belém, designando traço forte da cultura popular regional amazônica, uma vez que suas coreografias e vestimentas apresentam características amazônicas, tais como: raízes cheirosas (patchouli, priprioca), peneiras, abanos, tipitis (objeto de palha trançada, 194 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional utilizado para retirar o leite e tucupi da mandioca e separar a massa para fabricação da farinha), chapéus artesanais feitos de palha, cuias, além de letras de músicas feitas geralmente por compositores paraenses. Assim, a cultura popular pode atravessar a cultura de massa, tomando seus elementos e transfigurando esse cotidiano em arte. Em razão disso, a Prefeitura Municipal de Belém, por intermédio da Fundação Cultural do Município de Belém - FUMBEL e do Centro Cultural Tancredo Neves - CENTUR, vinculado à Secretaria de Cultura do Estado do Pará, vem realizando concursos anuais, que se demarcam como festivais muito concorridos e que movimentam toda a cidade. Para tanto, os grupos folclóricos da região investem um grande período do ano nos ensaios e apresentações com o objetivo de obter os primeiros lugares desses concursos, para tornar o nome do grupo folclórico mais conhecido e oportunizar apresentações em outras localidades ou mesmo em outros concursos fora do município. Por sua vez, o sentido da dança da quadrilha está ligado às coisas da região e aos sentimentos de alegria e amor. No entanto, também é a dança da conquista, que possui em sua estrutura a tradição de juntar namorados e casais, os quais carregam consigo a tarefa de repassar e preservar o valor do cultivo das tradições e da sabedoria artística popular. É considerada ainda como uma dança de rua com caráter de exposição e reconhecimento público dos dançantes. Além do estímulo que a dança provoca nos jovens, há uma outra conotação por trás, a oportunidade de eles saírem após os ensaios, uma vez que os momentos de lazer são limitados no Conjunto Satélite. Para esse fim, há apenas a praça como ponto de concentração, alguns barezinhos, a porta de suas casas e dos colegas, para os corriqueiros bate-papos, e acesso limitado a clubes existentes nas proximidades. Outro aspecto importante é que a dança tem por característica ser um evento noturno, visto que até os ensaios ocorrem principalmente à noite, em horário tardio já que muitos dos participantes trabalham e estudam. Sabe-se que a dança de quadrilha espalhou-se por todo território brasileiro assumindo características peculiares a cada região. Especificamente em Belém do Pará, sem poder realizar a pesquisa junto às 120 quadrilhas juninas registradas, escolheu-se a Quadrilha Junina “Flor do Paraíso”, por estar inserida nos objetivos do projeto maior e por se encontrar numa região urbana periférica, objeto do estudo em questão. 3.4.2.3 A Quadrilha Junina “Flor do Paraíso” Segundo relatos, a Quadrilha Junina “Flor do Paraíso” foi fundada no dia 05 de junho de 1980. Inicialmente, seu nome era “Quadrilha da Tia Dora e Compade Zeca” por serem os idealizadores e fundadores. A Quadrilha começou com uma brincadeira de rua para animar a vizinhança, pois os moradores, na 195 Universidade da Amazônia tentativa de promover diversão, mobilizavam-se para preencher a falta de lazer no Conjunto Satélite. No ano seguinte a sua criação, Tia Dora e sua família, formada por matriarcas40, decidiram mudar o nome para “Flor das Dez”, em decorrência de os ensaios serem realizados na Rua WE 10 do Conjunto Satélite. Entretanto, o referido nome também não satisfez ao grupo por muito tempo. Durante um dos ensaio, uma das dirigentes da quadrilha junina disse ao grupo que gostaria de mudar o nome. Foi então que um dos brincantes, chamado Edvan, sugeriu Quadrilha Junina “Flor do Paraíso”. Acatado e aprovado por todos, o nome permanece até os dias atuais. A “Flor do Paraíso” tem mais de 20 anos de existência e destaca-se entre as melhores quadrilhas da região por sua originalidade, criatividade, pois, de acordo com as transformações no cenário social, ela também tem sofrido evoluções e mudanças na coreografia, sofisticando-se conforme as exigências dos concursos, mas a quadrilha busca manter a tradição na utilização de tecidos e enfeites, que caracterizam a quadra junina, uma vez que prima pela manutenção da tradição. FIGURA 16: Quadrilha Junina “Flor do Paraíso” Fonte: Quadrilha “Flor do Paraíso” No início, a quadrilha se apresentava com cerca de 30 a 40 brincantes adultos, cujo perfil era marcado pela união, pelo respeito, pela disciplina e pela responsabilidade, conforme se observa no relato: “Bastava apitar, pronto!. Todos 40 De acordo com o dicionário Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, matriarca de matr (i) + arca S.f. a mulher, considerada como base ou chefe da família. 196 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional corriam porque sabiam que era hora de ensaiar. Naquela época eram obedientes, cumpridores de horários e das normas da quadrilha”. (EDUCADORA). Ao longo do tempo, muitas transformações ocorreram. Assim como seu nome mudou, também mudou o perfil da quadrilha, à medida que muitos brincantes deixaram de dançar, e os novos, agora mais jovens, com costumes, valores e hábitos diferentes, passaram a fazer parte da quadrilha, modificando sua dinâmica interna. Isso em virtude de os brincantes, cada vez mais jovens, não terem o mesmo respeito que os antigos brincantes tinham em relação à atividade. Sobre o assunto, uma das atuais educadoras do grupo, em seu depoimento, deixa transparecer claramente essas mudanças quando revela que: Hoje temos que ter tato para chamar atenção, muitos não aceitam. Mudou também a maneira de vestir, as moças vêm quase nuas, shorts curtos demais e tem que haver limites, muitos não gostam. Há o uso e abuso dos palavrões. São essas coisas que quando lembramos do começo da quadrilha, dos primeiros brincantes, percebemos que as mudanças foram radicais (EDUCADORA). Diante desse relato, compreende-se que os educadores ficam chocados e decepcionados com a perda de valores, hábitos e comportamentos por parte dos brincantes da Quadrilha Junina “Flor do Paraíso”. No entanto, esses comportamentos são trabalhados pelos coordenadores e isso em nada vem prejudicando as apresentações durante a quadra junina, o que a torna atualmente, bastante conhecida em virtude de, ao longo do tempo, ter se apresentado fora do seu bairro de origem e participado de concursos promovidos especialmente pela FUMBEL. Dentre diversos aspectos, a Quadrilha apresenta figuras marcantes. Sua fundadora, Tia Dora, continua contribuindo para a manutenção da Quadrilha Junina “Flor do Paraíso”. Já o Compadre Zeca, outro fundador, há anos não participa mais por residir distante do bairro. Outra figura muito importante é Dona Margarida (Vó), senhora de 84 anos, considerada a matriarca da família, mãe da Tia Dora, Neneca e avó da Mariana. É pessoa que todos os brincantes tratam com muito respeito e de quem tomam a bênção. Representa o esteio familiar. Pessoa de sabedoria popular e espiritual muito grande, ela é consultada em tudo, além de ser conselheira e benzedeira. É católica devota de Frei Daniel. Hoje, a quadrilha apresenta uma estrutura organizacional que conta com a participação de 5 educadores ou coordenadores, a saber: Sandra (Neneca) coordenadora geral, cuja função é de mostrar os limites, estabelecer diálogo aberto, organizar e planejar juntamente com os demais membros da coordenação os rumos que serão tomados para a apresentação da Quadrilha; Mariana (filha da fundadora da quadrilha, ex-brincante e também uma das coordenadoras do grupo) é a coreógrafa, que cria alguns passos novos a cada ano; Flávia, estilista que, anualmente, desenha as novas fantasias; Marcador Júnior, pessoa 197 Universidade da Amazônia que garante a disciplina no grupo e marca cada passo a ser tomado na dança de quadrilha durante as apresentações, é a pessoa que representa os laços da família fictícia com a família real e tem um uma função de suma importância, pois é ele quem orienta os casais, usando palavras portuguesas e afrancesadas. Esse grupo tem como principais objetivos apresentar o fortalecimento do folclore no Estado do Pará e conquistar a vitória no concurso da FUMBEL, o que faz com que eles ensaiem com garra e determinação, pois vencer o concurso é ganhar status e ser respeitado por todos os outros grupos de quadrilha. 3.4.2.4 Percepções Gerais sobre a Quadrilha Junina “Flor do Paraíso” Existem em Belém dois tipos de quadrilha junina: uma de caráter mais estilizado (profissional) e outra que atua de forma mais tradicional. O primeiro tipo, na maioria das vezes, possui um patrocinador influente e, consequentemente, tem maior poder aquisitivo, sendo comumente conhecidas como as quadrilhas do centro da cidade. Suas coreografias sofisticadas fogem do padrão tradicional das quadrilhas interioranas, que popularmente receberam o nome de “quadrilhas caipiras”. Já o segundo tipo de quadrilha é repassado de geração a geração, e atualmente são compostas por filhos, netos e, até mesmo, em alguns casos, bisnetos, de antigos brincantes. Essas são as quadrilhas que primam pelos hábitos e costumes, mas que evoluem de acordo com as transformações locais. Não possuem patrocinador e geralmente estão situadas na zona urbano-periférica. Durante o acompanhamento da quadrilha, foi realizada a aplicação de formulários com 14 jovens, representando 63% dos integrantes da quadrilha. Desse formulário foram extraídos aspectos objetivos sobre o perfil social, além de outras percepções sobre os jovens. 3.4.2.4.1 Par de brincantes da flor do paraíso É evidente que por questões logísticas não foi possível entrevistar todos os membros. Mas, no que tange ao quesito gênero, é importante ressaltar que, dependendo do momento e da necessidade, os papéis podem ser trocados de forma a compor o maior número de pares. Meninos podem fazer o papel de meninas e vice-versa, com total aceitação por parte do grupo (ver item: Quanto aos conflitos internos). De qualquer forma, observou-se que o grupo, na sua totalidade, é representado, na grande maioria, por meninas e/ou mulheres, pois a coordenação se faz presente em número de quatro. No entanto, há uma preocupação geral, por parte dos jovens brincantes da quadrilha e dos coordenadores, em enfatizar que há a comunhão da idéia de que todos devem receber tratamento igual, até mesmo os jovens pertencentes à família dirigente e de fundação da “Flor do Paraíso”. 198 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional 3.4.2.4.2 Quanto ao gênero e idade Segundo Heilborn (1998), apesar das evoluções e transformações ocorridas durante a trajetória humana numa sociedade completamente antagônica e contraditória, a questão do gênero tem sido alvo de muitas discussões não somente baseadas numa perspectiva histórica, que consequentemente fundamenta essa relação, mas também sob o olhar de uma sociedade em que os papéis sociais são definidos a partir dessa relação de gênero. Para tanto, o autor explicita que tal questão é marcada pela trajetória histórica das sociedades, apresentando um diversificado quadro situado no tempo e no espaço em que o indivíduo se insere. Nesse sentido, compreende-se que a constituição dos gêneros é colocada como propriedade distinta, ou seja, antes do capitalismo essa questão do gênero não era vista na sociedade. Somente após a Revolução Industrial, quando homens e mulheres passaram a desenvolver atividades semelhantes, essa hierarquia se acentuou. Após esse advento, o homem passou a ser questionado e, por intermédio da Declaração Universal dos Direitos do Homem, foi anunciado que todos eram iguais perante a lei. Então, o capital vai buscar uma diferenciação para promover a desigualdade, e essa diferença ele vai encontrar na natureza do homem e da mulher, ou seja, no sexo. Diante do exposto, à medida que as transformações e mudanças ocorreram no cenário social das diferentes civilizações, a ideologia apregoada aos sexos, que colocava o homem na condição de superioridade e a mulher na condição de inferioridade, muda a largos passos. Um bom exemplo é o grupo de jovens da Quadrilha Junina “Flor do Paraíso”. Nela não há preconceitos quanto aos sexos. Pelo contrário, apesar de a dança ser realizada em pares, as mulheres estão, em grande maioria, na coordenação. Além do mais, a direção é formada por mulheres, e apenas um homem faz parte dela. Desse ambiente emanam regras, respeito, disciplina, solidariedade, amizade, dentre outros valores por elas orientados, visando auxiliar na formação integral dos jovens. Assim sendo, por ser a quadrilha uma dança folclórica, caracterizada por um grupo de pessoas que se apresentam em pares, a pesquisa foi realizada com 14 jovens: 7 do sexo feminino e 7 do sexo masculino. A idade dos jovens brincantes na Quadrilha Junina “Flor do Paraíso” varia bastante, de 7 a 29 anos, mas a maioria é composta por jovens de 16 a 20 anos. É importante apontar que a pesquisa contemplou os 32 integrantes da Quadrilha Junina no ano de 2003, haja vista que, esse número não é permanente, modificando-se a cada ano. No entanto, essa variação é decorrente da falta de um número significativo de jovens que gostem de dançar nas quadrilhas, visto que muitos debandam e acabam se envolvendo em outros grupos de dança (balé, danças de salão, baile funk, entre outras). Outro aspecto que contribui para essa diversificação de faixa etária reside na ideia negativa que muitos 199 Universidade da Amazônia familiares constroem sobre dançar em quadrilhas, como: o gosto pela dança pode ser prejudicial aos estudos para ambos os sexos, namoros começarem muito cedo e cuminarem em casos de gravidez precoce; fatores esses que contribuem para que muitos jovens não cheguem até a “Flor do Paraíso”. Desse modo, as dificuldades enfrentadas, para se conseguir pelo menos um número mínimo exigido nos concursos da cidade de Belém, têm aumentado ano após ano. Assim, é possível inferir que esse tipo de manifestação mobiliza, em maior parcela, os jovens recém-saídos da adolescência, provavelmente em decorrência da maior autonomia e do menor nível de responsabilidades com o outro, características próprias dessa idade. Vale ressaltar que a escolha de jovens nessa faixa etária ocorre devido à necessidade de conhecer e estudar a realidade enfrentada por eles quanto a condições de moradia, distância dos centros urbanos, o que inviabiliza o acesso à educação e à alimentação de melhor qualidade, as oportunidades em fazer cursos paralelos, como os de língua estrangeira e informática. Além do mais, contempla a fase em que os jovens estão em formação de identidade, em busca de autoafirmação, por ser marcada por conflitos e, ainda, por caracterizar a transição entre o deixar de ser “criança” e passar a ser “adulto”. 3.4.2.4.3 Grau de escolaridade Ao se analisar o dado referente à escolaridade, observa-se que 36% dos jovens apresentam ensino fundamental incompleto e, na mesma proporção, outros desses jovens apresentam ensino médio incompleto, em escala menor de 14%, alguns jovens já possuem ensino médio completo e outros, na mesma proporção, apresentam ensino superior incompleto. Ficou claro que muitos desses jovens, principalmente aqueles que permanecem no ensino fundamental incompleto, apresentam problemas de distorção de idade, geralmente em decorrência da necessidade de trabalhar cedo para complementar a renda familiar; repetência ou o simples descaso pelo estudo. Deve-se considerar também o contexto em que esses jovens estão inseridos e a realidade local vivenciada cotidianamente, uma vez que o reduzido número de escolas no bairro provoca filas enormes, para se conseguir uma vaga, dificultando o ingresso e a permanência de muitos jovens. 3.4.2.4.4 Meios de comunicação mais utilizados No que diz respeito ao meio de comunicação mais utilizado pelos jovens, os gostos foram bastante diversificados. Como esperado, a televisão surgiu em primeiro lugar com 39% das respostas apresentadas, seguida do rádio com 18%, já 14% das respostas destacaram as conversas, 11% apontaram revista e jornal e apenas 7% das respostas enfatizaram o telefone. 200 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional Nesse aspecto, os resultados não apresentaram quaisquer surpresas, visto que a televisão é o meio de comunicação mais utilizado em todo o Brasil. No entanto, é interessante destacar que apenas 11% das respostas apresentadas indicam a imprensa escrita para se informarem, demonstrando a pouca importância dada pelo público jovem à leitura, além de corroborar a análise sobre o grau de escolaridade. Diante do exposto, vale ressaltar que esse percentual de respostas que enfatizam a televisão como meio de comunicação mais destacado é pequeno se comparado à região brasileira como um todo. No entanto, esses jovens absorvem menos os efeitos que a mídia causa na vida das pessoas e, por essa razão, encontram-se ainda muito arraigados à tradição. 3.4.2.4.5 Lazer preferido Outro aspecto enfatizado e, por sinal, também diversificado foi a forma de lazer que os jovens buscam no seu cotidiano. Daí observou-se que parcela significativa dos jovens apontou tanto a TV quanto os amigos como forma de lazer, isto é, 54%; outros 20% apontaram o esporte como fonte de lazer do qual desfrutam quase que todos os dias; 17% das citações indicaram o ouvir música; enquanto que a Internet, a dança e o violoncelo alcançaram, cada um deles, 3% das citações. Constata-se que a maioria dos jovens brincantes aponta as relações de amizade como algo que dá prazer. Em muitos encontros, os pesquisadores observaram os grupinhos que brincavam, sorriam ou conversavam relaxadamente, nos momentos que antecediam aos ensaios. O envolvimento e as relações de amizade pareceram ser muito fortes, aspecto esse confirmado durante as entrevistas (ver item: Quanto à inserção no grupo). Estranhamente, a dança apareceu em último lugar com apenas 3% das respostas. Parece evidente que os jovens não associaram a participação no grupo de quadrilha a uma de suas atividade de lazer. 3.4.2.4.6 Moradia Nesse caso, a maioria dos jovens, ou seja, 71% dos entrevistados, mora com parentes e apenas 29% dos jovens residem com os pais. Muitos deles são provenientes de lares com pais separados. No entanto, não foi possível avançar mais nesse assunto porque os jovens não deram espaço de aprofundamento aos pesquisadores. Pode ser que tais sujeitos tenham ingressado na quadrilha junina por uma questão de rebeldia, mais autonomia, menos controle familiar, o que caracteriza uma fuga desse tipo de ambiente, fazendo da quadrilha junina uma família substituta. Por outro lado, apesar de o grupo vir resistindo às dificuldades, a cada ano vivencia situações de críticas por parte daqueles que se contrapõem ao 201 Universidade da Amazônia grupo, como é o caso de pais que radicalizam seus pontos de vista ao construir uma ideia negativa sobre quadrilhas juninas e proíbem seus filhos de participar da dança, especialmente meninas. Ocorrem também ciúmes, discussões e “xavecos” por parte de pessoas que talvez gostariam de estar no lugar da coordenação, à frente de um grupo folclórico que já permanece há décadas, haja vista que essa família vem exercendo total hegemonia sobre o grupo formado. 3.4.2.4.7 Família No que tange à composição familiar, observou-se que há um número bastante diversificado, que varia do não ter irmãos, como é o caso de dois sujeitos entrevistados, até aquele que tem cinco irmãos. É interessante registrar que a composição familiar de poucos membros sugere característica própria da economia dos tempos modernos, porque constitui minoria aqueles que têm três ou mais irmãos. Isso porque desde as últimas décadas, intensificaram-se campanhas educativas para diminuir o alto índice de natalidade. Além do mais, as informações coletadas expressam que há uma variação entre o número de irmãos de um jovem brincante a outro. 3.4.2.5 Algumas Percepções sobre os Jovens 3.4.2.5.1 Relação familiar As relações familiares foram construídas e edificadas desde o começo da civilização, ou seja, desde que o homem se fez homem. E é tida como um dos aparelhos ideológicos de Estado, pois segundo Althusser (1998): [...] os Aparelhos Ideológicos de Estado “funcionam” predominantemente através da ideologia, o que unifica a sua diversidade é este funcionamento mesmo, na medida em que a ideologia, na qual funcionam, está de fato sempre unificada, apesar da sua diversidade e contradições, sob a ideologia dominante [...] (ALTHUSSER, 1998, p. 70). Portanto, ela tem sua representatividade e legitimidade nas diferentes sociedades. De acordo com a literatura disponível, a família vem passando por inúmeras mudanças e transformações nos diferentes contextos sociais. Nesse sentido, a adolescência precisa ser compreendida na sua dinâmica, posto que implica uma série de mudanças nos aspectos sociais, psicológicos/mentais e biológicas. Desse modo, para Becker (1993, p.44), “o adolescente é um ser em desenvolvimento e em conflito”. Assim, além dos conflitos normais da idade, o adolescente convive com uma série de dificuldades, muitas vezes oriundas das 202 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional próprias relações familiares e das constantes transformações culturais. Entretanto, verificou-se, ao extrair dos dados coletados nos relatos dos sujeitos, uma característica importante: a família, pois, segundo eles, representa a base, o esteio, a estrutura da vida do ser humano. Em geral, os entrevistados consideram boa a relação com familiares. Apenas um dos sujeitos entrevistados se posicionou contrário aos demais, ao dizer que considera a relação familiar “mais ou menos” e pontuou que apresenta problemas com a avó e com os pais, mas não revelou detalhes sobre o fato Diante do exposto, Prado (1981) explicita que: [...] apesar dos conflitos, a família, no entanto, é a “única” em seu papel no desenvolvimento da sociabilidade, da afetividade e do bem estar físico dos indivíduos, sobretudo no período da infância e da adolescência (PRADO, 1981, p. 13). Cabe ressaltar que os jovens da Quadrilha Junina “Flor do Paraíso” foram criando vínculos fortes com a coordenação, que passou a ser vista e tida como uma espécie de família substituta, por favorecer aos sujeitos uma relação de afetividade, amizade, padrões de comportamento, regras de conduta, lições de vida, entre outros aspectos importantes que colaboram para formação integral deles. Muitas vezes, esses jovens não vivenciam na própria família uma relação tão saudável quanto a apresentada com as coordenadoras do grupo. Fora isso, os jovens contam com a presença marcante da “Vó” que apresenta toda uma experiência, vivência e trajetória de vida e com a qual os jovens têm grande sintonia e respeito; visto que o tratamento emanado dessa família é de carinho, respeito, compreensão e de aceitação do outro. Para eles, todos fazem parte da família e não diferem os jovens uns dos outros. 3.4.2.5.2 Religiosidade Para Zagury, (1999, p. 78) a adolescência é uma fase de questionamentos e de grande desenvolvimento intelectual. O jovem desenvolve a capacidade de raciocinar abstratamente, o que inclui analisar teorias, criticá-las, criar novas teses, levantar hipóteses, questionar, refletir, filosofar. Preocupa-se com o mundo, com os problemas sociais, com a relação do homem com o mundo e do homem com o homem. Segundo Jean Piaget, é por volta de 12 anos que o ser humano entra na fase das operações lógicas ou formais, quando alcança toda sua capacidade de abstração. A aquisição dessa nova capacidade leva à não aceitação passiva das teorias que lhes são apresentadas. É fácil compreender, portanto, que, como em relação com os demais assuntos, a religião passa também por fortes questionamentos. Ocorrem mudanças também nesse setor. Crianças que iam sempre à igreja e assistiam à missa junto com a família, podem apresentar resistência a 203 Universidade da Amazônia essas atividades. Outras, ao contrário, podem ligar-se de forma até radical à religião, criticando seus familiares pelo que consideram pouco apego religioso. Podem, ainda, demonstrar interesse por outras religiões, diferentes daquela adotada pela família. É uma busca pessoal, um período de contestação, de revisão e de profunda reflexão. Segundo Zagury (1999), ao final do processo, o jovem adotará a sua própria postura em relação ao assunto, fruto desses questionamentos. Poderá assumir o mesmo modelo religioso da família, tornar-se alheio à prática religiosa ou mais apegado a ela que sua família. Tudo isso é natural e faz parte do crescimento intelectual e afetivo. O bom disso é que a maioria dos jovens segue a orientação religiosa da família, evidentemente com variações pessoais. De modo geral, os princípios morais que regem a maior parte das religiões, quando transmitidos sem dogmatismos aos jovens, permanecem como norteadores de suas vidas. Para tanto, Zagury (1999) afirma que o Brasil continua sendo um “país de fé”, em que a maior parte dos adolescentes e jovens possuem alguma religião e acreditam em um Deus. Entretanto, outros se consideram pouco religiosos, não vivem a religião, isto é, não seguem os princípios e doutrinas de uma religião e frequentam a igreja esporadicamente. Há ainda outros que acreditam não ser nada religiosos. Tais aspectos foram observados na fala dos sujeitos entrevistados, dada a importância da religião na vida das pessoas de modo geral, à exceção de apenas um dos entrevistados que revelou não professar qualquer religião. Mas, no que tange aos demais, destacam-se expressões bastante enfáticas: “Religião é tudo. Sem ela não seríamos nada” (JOVEM SÃO JOÃO) e “Religião é encontrar e estar com Deus” (JOVEM SÃO MARÇAL) ou, ainda, “Para mim é o caminho que nos leva a Deus. Conhecer os seus ensinamentos é a base para caminharmos corretamente e nos ajuda a discernir o bem do mal” (JOVEM SÃO PEDRO). Por outro lado, questionados sobre a relação que fazem entre religião e juventude, as manifestações sugeriram um caráter de caminho a ser seguido ou busca desse caminho, por parte dos jovens em geral. É assim [...] eu vejo dessa forma. Quando a religião traz o jovem pra dentro da igreja, eu acho muito legal, pois o jovem está muito perdido, muito afastado das coisas boas, dos valores, dos pais, da família principalmente e só pensa em festas, drogas, sexo. E a religião tem esse poder de trazer o jovem para dentro dela, retira-lo das ruas, das coisas erradas (JOVEM SÃO BENEDITO). 204 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional Ou ainda: É que a religião nos ajuda a buscar sempre o melhor caminho, nos orienta para a vida, ensina coisas sobre o bem e o mal, sobre o amor, sobre a fraternidade. E hoje, a gente vê tanto jovem sem direção, perdido mesmo, matando, roubando, se viciando por falta também de formação cristã (JOVEM SÃO PAULO). Fica claro, por meio dos relatos acima expostos, que a religião exerce um poder muito grande sobre a vida das pessoas, especialmente dos jovens de hoje, que questionam situações e valores inculcados socialmente. A religião representa para eles a expressão do que pode vir a ser o certo, o caminho a ser seguido. Diante do exposto, percebe-se que os jovens da Quadrilha Junina “Flor do Paraíso” recebem influência da coordenação do grupo no que tange aos valores transmitidos, aos padrões de comportamento, às regras de boa conduta e convivência em grupo. 3.4.2.5.3 Política A esse respeito, os dados revelaram respostas diversas. Contudo, a grande maioria dos entrevistados não acredita na política, pois a veem como um mal, conforme pode observar na fala de alguns entrevistados: “É sujeira. Não consigo ver nas ações desses políticos a verdadeira essência da palavra política” ou “É um jogo de interesses pessoais muito grande e pessoas disputando o poder”. Apesar da opinião formada quanto à classe política brasileira, é claro que falta aos jovens entrevistados uma visão mais ampla do que é política e dos benefícios que dela podem decorrer, quando praticada com seriedade, responsabilidade e espírito público. Provavelmente, essa lacuna decorre da falta desse assunto no currículo escolar, em especial nos níveis fundamental e médio. Nesse sentido, observa-se que os jovens atribuem política apenas como partido e não, na maioria dos sujeitos, uma leitura crítica e reflexiva do real significado de política. 3.4.2.5.4 Inserção no grupo Percebeu-se que a maioria dos jovens chegou ao grupo por intermédio dos amigos, colegas, parentes que já participavam do grupo ou por contingência diversa: “Eu tinha colegas dançando. Aí primeiro eu vinha e ficava olhando. Depois estava faltando cavalheiro e então comecei a dançar e não parei mais” (JOVEM SÃO MARÇAL). Dentre os vários relatos, destacam-se as considerações tecidas por um jovem: “Dançar, tornar a quadrilha cada vez mais conhecida e ficar entre as dez primeiras colocadas no concurso da FUMBEL” (JOVEM SÃO PAULO). Por outras falas, parece ser esse um dos principais objetivos do grupo. 205 Universidade da Amazônia Os jovens enfatizaram alguns aspectos positivos, com destaque para a união dos seus componentes. Um dos entrevistados reforçou: “O grupo, apesar de alguns momentos de conflito, é muito unido” (JOVEM SÃO PEDRO). Outro jovem salientou: “As amizades, a oportunidade de aprendermos coisas novas. O grupo ensina muito” (JOVEM SÃO LAZARO). Quanto aos aspectos negativos, os jovens apontam as fofocas, as desavenças e intrigas. Negativos? Tem assim um certo grau de desunião. Começa assim entre as meninas bonitas que sempre rola um clima de atração por parte dos meninos. Todo mundo quer ficar ou namorar com essa menina. Aí rola aquela fofoca, rola briga, enfim isso tudo a quadrilha tem, não é só a nossa (JOVEM SÃO PEDRO). Paradoxalmente, a união destacada como ponto positivo é questionada em determinados momentos, especialmente por conta de eventuais relacionamentos amorosos. Nesses momentos, entra em cena a coordenação. 3.4.2.5.5 Conflitos internos Como anteriormente exposto, os jovens acreditam que os conflitos são gerados, em sua grande maioria, por fofocas e desavenças causadas pelos namoros entre os participantes. Em geral, são resolvidos por meio de conversa entre os coordenadores e brincantes. Entre os relatos, destaca-se: “A gente sempre faz uma reunião, aí a gente joga tudo que tem de conflito no meio de discussões e o que tem para ser tirado a limpo. Para isso é necessária muita conversa” (JOVEM SÃO FRANCISCO). Logo, constata-se que os conflitos surgem devido à desagregação do grupo, que pode se dar por causas diversas que ameacem a estabilidade das relações existentes em um grupo coeso e importante para seus componentes, ou quando se consolidam relações amorosas; pois, à medida que se estabelece uma relação com um companheiro, reduze-se a relação com os demais. Por outro lado, no que diz respeito às diferenças existentes no grupo, os entrevistados revelaram que lidam normalmente, com naturalidade. Não costumam discriminar ninguém. Há, entre eles, componentes homossexuais que fazem sem nenhum problema o papel de mulheres e os homens que fazem pares com eles, observam a situação sem problemas e sem discriminações. Diante disso, fica evidente que existe espaço para diferenças no grupo, uma vez que não são preconceituosos e consideram todos iguais. Quanto a esse aspecto, os jovens elucidaram: “Normalmente, lá todo mundo aceita a diferença de todo mundo. Se você é branco ou negro, se é homossexual, todo mundo se respeita” (JOVEM SÃO PEDRO). Outro ainda argumentou que: 206 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional Com certeza, nós não descriminamos ninguém aqui, mas tem-se o cuidado com as pessoas que ingressam na quadrilha para que não sejam de gangues, viciadas e outras coisas dessa natureza, apenas isso. No entanto, se elas tiverem um comportamento saudável, que não tragam seus problemas para dentro da quadrilha, que o propósito seja dançar sem prejudicar, acho que também não tem problema (JOVEM SÃO MATEUS). É interessante notar que os jovens fazem clara distinção entre preconceito e preocupação em conviver com pessoas cujo comportamento social possa ser prejudicial a eles. Até mesmo o sentimento de “machismo”, muito comum na região, não se faz presente, ou melhor, não foi observado ou mencionado pelos entrevistados e não condiz a discriminação dos rapazes homossexuais. Assim, conforme Zagury (1999), o homossexualismo sempre existiu e aparece na maior parte das culturas conhecidas. Atualmente, assiste-se a um movimento de revisão na forma de se abordar o problema. A luta hoje é para não discriminar, não perseguir – aceitar. Além do mais, são muito nebulosas as razões que levam ao homossexualismo. Há alguns séculos, por exemplo, na sociedade grega e persa, o homossexualismo era considerado normal e até valorizado. A mulher, segundo Zagury (1999, p. 241), era considerada inferior, por ser iletrada e inculta; cabia-lhe ficar lá pelos fundos da casa, criando filhos e cuidando do serviço doméstico, da comida e servindo ao homem. A mulher era para a reprodução e o cuidado com as crianças. Por isso era menosprezada. As trocas afetivas e intelectuais ocorriam entre os homens. Na Idade Média, o homossexualismo passou a ser desprezado e até perseguido. Tanto que, na Segunda Guerra Mundial, sob o comando de Hitler, os homossexuais, assim como judeus, ciganos, negros e comunistas eram mortos e condenados à degradação. Portanto, para Zagury (1999): O comportamento sexual do ser humano é diversificado e determinado pela interação complexa de vários fatores. Está ligado a elementos de personalidade, conformação biológica e à percepção do “eu” (self). Inclui a forma como a pessoa interioriza o que é ser homem ou ser mulher e reflete experiências do desenvolvimento com o sexo ao longo de toda a vida (ZAGURY, 1999, p. 230). Assim, percebe-se que a sexualidade se forma pela conjugação de três fatores importantes: a identidade de gênero, a identidade sexual e o comportamento sexual. Ressalta-se que a primeira é definida de forma bem simples, é a 207 Universidade da Amazônia percepção que a pessoa adquire, por meio de sua vivência diária, de que faz parte do gênero masculino ou feminino. O menino, após tantas experiências, começa a entender que ele é menino e que existem certos comportamentos que lhe são próprios e o mesmo ocorre com as meninas. A identidade de gênero está relacionada diretamente à cultura pessoal e social. Ao passo que a identidade sexual está relacionada à parte biológica, com características ligadas à formação física, genitália interna e externa, composição hormonal, gônadas e características sexuais secundárias, que surgem na puberdade. Esses elementos corporais contribuem para que a criança identifique seu sexo biológico. 3.4.2.5.6 Processo educativo A respeito do processo educativo, Freire (1998) ressalta, a priori, que o homem, uma vez inserido num contexto histórico cultural, de acordo com o tempo em que está situada sua ação e capacidade de refletir sobre suas condições no mundo, evoca sua consciência crítica; posicionando-se comprometidamente com a sua realidade, com intenção de nela se incluir e intervir, visto que o homem é um ser de relações. Quando trata do homem como um ser de relações, Freire (1997) o faz de acordo com a sua natureza inacabada, logo sujeito por vocação e objeto por distorção e que trava relações com a realidade. Esse homem retém conotações de pluralidade, de criticidade, de consequência e de temporalidade. A pluralidade nas relações do homem com o mundo se dá na proporção em que esse homem responde aos desafios desse mesmo mundo, com sua criatividade e não se limita a respostas padronizadas. Além do que, somente o homem é capaz de discernir, de separar, de distinguir uma coisa da outra, e de travar relações incorpóreas. Essas características das relações que o homem tem com e na sua realidade fazem dessas relações algo que transpõe a simples passividade. O homem cria e recria, integra-se em seu contexto, responde a desafios, auto-objetividando-se, discernindo; e; dessa forma; vai se lançando no domínio que lhe é exclusivo, o da história e da cultura. Assim, Freire (1997) dá ênfase à necessidade de uma educação que priorize as condições naturais do homem de ser sujeito e não objeto, sem deixar de cuidar das particularidades de nossa sociedade em transição, considerando suas mutações e contradições. Essa educação, por meio da conscientização crítica, deve ser tal a ponto de poder libertar o homem de seu anonimato, proporcionando a sua imersão dentro do processo histórico no qual está enraizado. Nesse contexto, a educação dos “sujeitos-sociais” deve preparar esse homem para o exercício pleno de sua condição humana, envolvendo a formação intelectual, artística e profissional; visto que deve pleitear a sua inclusão e qualificá-lo para um exercício de cidadania, imbuindo-o a participar ativamen- 208 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional te da vida social, política e econômica do país, num processo que deve partir de todos, para realmente efetivar-se como construção de uma sociedade mais justa e democrática. Dessa forma, retomando as contribuições dos jovens brincantes da quadrilha “Flor do Paraíso” por intermédio de seus relatos, percebe-se que, quanto à formação profissional na dança, os jovens acreditam não existir nenhuma chance. Dançam pelo prazer que isso proporciona, mas oportunidades de trabalho, profissionalismo, não há. Acham que o grupo é muito importante, pois contribui para a formação pessoal, porque lá aprendem a respeitar o outro, a conviver em grupo, a ser mais tolerantes, disciplinados e responsáveis, a ser determinados. Nele se constituem amizades duradouras. O texto abaixo exemplifica esse fato: Quanto ao profissional nenhuma, quanto pessoal várias. Uma delas que julgo importante é a troca de amizade, a união que se estabelece no grupo, o senso de justiça e o aprendizado que fica de muitas coisas, entre elas, aprender a ser tolerante e a respeitar as opiniões alheias (JOVEM SANTA LUZIA). Nesse sentido, o exposto leva a comungar com as ideias de Aberastury & Knobel (1981), quando argumentam que a busca da identidade na adolescência recorre como um comportamento defensivo à busca de uniformidade, proporcionando segurança e estima pessoal, emergindo assim o espírito grupal, em que há um processo de identificação massificada, em que todos se identificam com cada um. Dessa forma, o fenômeno grupal adquire uma importância transcendente já que se transfere ao grupo grande parte da dependência que anteriormente era mantida apenas no espaço familiar. 3.4.2.5.7 Sonhos e perspectivas em relação ao futuro Quanto ao futuro, os jovens têm sonhos muito heterogêneos. Dentre esses, no entanto, o que mais se destaca é o estudo, que vai favorecer a formação, o emprego ou o trabalho, que depende do nível de instrução dos sujeitos. Em seguida, vem a formação da família, ou seja, casar e ter filhos. Entretanto, eles sabem que para realizar tais sonhos precisam estudar, se especializar e trabalhar. Percebe-se que tais sonhos não são mera ilusão, mas fazem parte de uma construção de vida em que os sujeitos nascem, crescem, se desenvolvem e passam a conhecer coisas, praticar ações, comungar aprendizagens. Essa é uma condição inerente a todos os seres humanos, independe de raça, religião ou mesmo condição social e econômica. 209 Universidade da Amazônia 3.4.2.5.8 Juventude De acordo com os dados coletados, os jovens têm concepções diferentes quanto ao conceito de juventude. Uns dizem que “é transformação, é aprendizado, é ter duvidas, é conquista, é mudança, é revolta” (JOVEM SANTA IZABEL). Outros acreditam que “é uma coisa boa, é ser feliz, é ter alegria no coração, é ser capaz de vencer desafios, é desfrutar de coisas com liberdade, é curtir a vida” (JOVEM SANTA CECILIA) e/ou “É desfrutar das coisas da idade com liberdade, desde que esta liberdade não fira os direitos e deveres, nossos e dos outros, e que o jovem saiba usá-lo corretamente” (JOVEM SANTA TEREZINHA). Nesse sentido, para Venturi e Abramo (2000, p.1), existem duas ideias básicas que costumam estar presentes nas concepções modernas de juventude. A primeira está em considerá-la uma fase de passagem no ciclo da vida, situada entre o período de dependência, que caracterizaria a infância, e a posteriormente autonomia adulta. A segunda é a atribuição dos jovens a uma predisposição natural para a rebeldia, como se fossem portadores de uma essência revolucionária. No entanto, não dá para descartar a ideia que os jovens da Quadrilha Junina “Flor do Paraíso” fazem sobre juventude, a qual expressa liberdade e, de certa forma, independência. Mas, também, expressam claramente as duas ideias apontadas pelos autores: a primeira por ser a juventude uma fase do ciclo de vida humana; e a segunda por referendar uma predisposição à rebeldia, o que foi visto em alguns relatos dos jovens, especialmente ao se tratar questões polêmicas como religião, política e família, por exemplo. Quanto ao papel da juventude no Brasil, um dos jovens assim se colocou: Eu diria assim, que o jovem hoje em dia não tem espaço, a gente mostra um modo diferente de ver as coisas, de trabalhar um modo legal e os adultos discordam no geral. Nós temos uma maneira de ver e entender as coisas. Pensamos, refletimos, compreendemos muitas coisas ao nosso redor. Então, penso que o papel do jovem é estudar para conhecer mais e mudar algumas coisas que estão erradas. Resgatar e construir uma história, uma sociedade melhor para as gerações futuras. Mais humana (JOVEM SÃO MARÇAL). Diante de um mundo globalizado, marcado pelo individualismo e pela competitividade, percebem-se traços fortes de hostilidade e falta de humanização. Tal situação, muitas vezes, tem provocado nos jovens atitudes contrárias aos padrões de comportamento, aos valores e aos hábitos inculcados socialmente e, até mesmo, impostos para serem seguidos e vividos como “verdades absolutas”. Isso os leva a crer que muitas de suas ações são vistas como mera distorção da juventude “difícil” e “problemática” dos dias de hoje. Para Aberas- 210 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional tury e Knobel (1981), “tal tendência se caracteriza pela necessidade do jovem de começar a fazer parte do mundo adulto, tendo, então as raízes de seus conflitos nas dificuldades em ingressar neste mundo”. Além do mais, cabe salientar ainda sobre o conceito de ser jovem, que os entrevistados destacaram, em geral, aspectos belos e positivos dessa idade, também fortemente marcada pelas mudanças e transformações. No entanto, ao buscar apresentar o papel dessa mesma juventude no Brasil, os mesmos entrevistados destacaram características negativas, tais como preconceito; falta de recursos para o estudo; drogas; violência; diferença entre o que é ser jovem e ser adulto; o descrédito nos jovens; a falta de espaço para se expressarem e oportunidades de serem ouvidos; dentre outros. Talvez essa problemática tenha sua origem no próprio contexto social e cultural em que vivem. Tal realidade, ou seja, aquela das dificuldades vivenciadas pelos jovens, conduziu a relatos que destacaram a falta de mercado de trabalho, o preconceito contra o jovem, pela idade, pela condição econômica, pela falta de experiência. A questão da pouca idade é um fator. As pessoas acham que, por termos pouca idade, não sabemos das coisas. Às vezes somos mais maduros do que nossos pais. Outra dificuldade é que as pessoas não estão sabendo usar a liberdade que têm e hoje o número de prostituição infantil é muito grande, de jovens que dependem de drogas, as gangues. Acho que tudo isso é gerado pela desestrutura familiar. Devem ter outros fatores, mas eu considero esse o número um (JOVEM SÃO PEDRO). Quanto a ser jovem na Amazônia, um dos entrevistados explicitou em tom de questionamento/insatisfação, “Por que na Amazônia? Poderia ser em qualquer outro lugar, jovem é jovem, todos passam por essa fase. É normal ser jovem na Amazônia, essa pergunta é meio preconceituosa” (JOVEM SÃO PAULO). Enquanto em outros relatos, houve argumentos mais dispersos, em geral muito vagos: “Não sei. Depende do que as pessoas acham do conceito de Amazônia. Tem muita gente que acha que aqui só tem índio. Por isso eu acho que depende muito desse conceito” (JOVEM SANTA CECILIA). Outro jovem diz: “Ih! Agora pegou! Ser jovem na Amazônia? Acho que é ser discriminado em outros lugares, é ter menores chances de trabalho, de educação e de vida social. Sei lá! É mais ou menos isso” (JOVEM SÃO JOÃO). Evidentemente, quaisquer que sejam os questionamentos em relação à Amazônia, algumas pessoas têm sérias dificuldades em responder, por ser um assunto de grande complexidade em decorrência do contexto histórico-socialpolítico-geográfico não explorado nos diversos níveis de ensino, fazendo com que o homem amazônico não tenha plena consciência de sua condição. 211 Universidade da Amazônia 3.4.2.5.9 Folclore É importante notar a valorização e a necessidade de resgatar a tradição folclórica na região por meio da dança de quadrilha quando enfatizam que: “Folclore é cultura do povo, tradição” (JOVEM SÃO MARÇAL) ou, ainda, “Folclore é a arte de transmitir ao povo a tradição entre as danças e as artes” (JOVEM SÃO PEDRO). Além de: Pra mim são os dias de festas que acontecem no mundo inteiro em determinada época do ano, como as quadrilhas que se apresentam no mês de junho. Os bois, a marujada, o carimbó, o siriá, o lundu e outras danças típicas de uma determinada região (JOVEM SANTA IZABEL). Ou então: É uma cultura, uma coisa que infelizmente está sendo esquecida, As pessoas deveriam dar mais valor ao folclore. A gente vê que as próprias crianças nem se dão conta da importância que tem o folclore da sua região. E os mais velhos, por sua vez, nem repassam isso aos mais jovens. Por isso é que nas épocas juninas, por exemplo, a dificuldade em formar uma quadrilha grande é muito grande também. Eu vejo o que as meninas passam para conseguir jovens para sair na quadrilha. Muitos elas até bancam a roupa (JOVEM SANTA BARBARA). Percebe-se claramente que os jovens brincantes, ao enfatizarem que folclore representa tradição de um povo, comungam com as considerações de Loureiro (2001, p.40) quando define folclore como “um amplo conjunto de tradições e crenças, de lendas, de conhecimentos, de visões do mundo, expressas em provérbios, canções, cantos, costumes, lendas, atividades artísticas representativos de uma época ou região”. Portanto, percebe-se que para os jovens brincantes da Quadrilha Junina “Flor do Paraíso” existe uma relação positiva entre o folclore como expressão cultural deles mesmos, como se por meio da dança de quadrilha junina eles pudessem expressar um pouco de suas identidades culturais, uma vez que é algo que dá prazer. Durante a dança, eles se encontram, se realizam e gostam. É a inspiração do belo, do natural, do que é bom para o corpo e para o espírito. É ainda cultivar a tradição. Outro aspecto relevante em seus relatos reside nas considerações acerca de cultura, pois lutam, acreditam, primam para que essa não morra e, de certa forma, suas considerações estão articuladas com Laraia (2002): 212 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional O fato de que o homem vê o mundo através de sua cultura tem como consequência a propensão em considerar o seu modo de vida como o mais correto e mais natural. Tal tendência, denominada etnocentrismo, é responsável em seus casos extremos pela ocorrência de numerosos conflitos sociais (LARAIA, 2002, p. 72). 3.4.2.6 Outras Percepções sobre a Quadrilha Junina “Flor do Paraíso” Após a sistematização dos dados coletados, objetivando ampliar o conhecimento obtido por meio dos formulários de pesquisa sócio-cultural e entrevistas semi-estruturadas, foi conduzida uma discussão em grupo focal. Essa discussão, realizada em grupo de seis a dez pessoas e sempre em locais neutros, para possibilitar o afastamento, reduz as barreiras de comunicação. Após o estímulo inicial, o coordenador do grupo procura manter o debate dentro de um tema previamente estabelecido. Dados adicionais podem advir de entrevistas de grupos e de observações. Assim sendo, participaram do grupo focal 11 brincantes, sendo 6 meninas (uma delas ex-participante do grupo) e 5 meninos (também um deles exbrincante). O local da reunião foi a escola “Centro de Estudos Intelecto”, situada no próprio Conjunto Satélite. No entanto, a tentativa de entrada no grupo focal com o tema “família” não gerou uma conversa maior, abordada por poucos dos integrantes, destacando-se a presença dos dois ex-brincantes. No entanto, quando a Quadrilha Junina “Flor do Paraíso” passou a ser o foco da conversa, muitas colocações foram obtidas. Na fala dos integrantes da reunião, houve insistência no sentido de que a Quadrilha proporciona a união das pessoas de maneira muito forte. Enfatizaram a questão da motivação pela dança e pelas relações de amizade, que se estabelecem e permanecem mesmo após as apresentações. A Quadrilha, na opinião deles, cria vínculos fortes. Entretanto, eles fizeram questão de frisar que essa união não impede que os antigos brincantes recebam muito bem os novatos. Dentre os desafios enfrentados, eles destacaram a falta de patrocínio, que acarreta muitas dificuldades financeiras e também o preconceito que algumas pessoas manifestam com relação à quadrilha. Alguns pais não deixam os filhos participarem por medo de gravidez precoce, prejuízo nos estudos, baderna e outros motivos alegados. Entretanto, como também dito pelos coordenadores, os participantes do grupo alertaram que durante os ensaios e apresentações o controle é muito grande. Por outro lado, se depois dos eventos os jovens não vão direto para suas casas e se envolvem em situações comprometedoras, não há como imputar a culpa à quadrilha. No entanto, apesar desse preconceito, o grupo focal enfatizou que há jovens brincantes que participam da Quadrilha apenas para poder sair ou até mesmo fugir de casa, para ter algumas horas de simples lazer. 213 Universidade da Amazônia Em relação à postura da população local, os integrantes da reunião demonstraram também certa revolta pela falta de apoio, de espaço próprio para ensaios. Assim, a quadrilha ensaia na sua rua e isso, às vezes, gera conflito em decorrência do barulho. Contraditoriamente, essa mesma população apoia e aplaude as apresentações da “Flor do Paraíso” nas praças e eventos. O grupo focal manifestou um grande compromisso com a dança e o gosto pela Quadrilha, bem como com a valorização do folclore na região. Eles dançam também para ganhar nas competições, especialmente da FUMBEL, e oferecer o título à Vó. Além do mais, os jovens brincantes na quadrilha junina fazem uma relação positiva entre folclore como expressão cultural arraigada neles próprios, visto que é algo extremamente prazeroso, saudável, descontraente, e que gostam da dança, dos passos e de tudo que inspira. Portanto, o folclore expressa tradição de uma cultura que deve ser cultivada de geração em geração. 3.4.2.6.1 Considerações sobre os educadores da quadrilha “Flor do Paraíso” Durante as entrevistas realizadas com os educadores, no que se refere ao perfil social, podem-se destacar algumas considerações pertinentes. Quanto ao gênero, apresenta quatro educadores do sexo feminino e um do sexo masculino. No que tange à idade, varia entre 34 a 61 anos, sendo três dos educadores casados e dois solteiros. Quanto ao grau de escolaridade, há significativa variação: um estudou até a terceira série do fundamental, outro está cursando o segundo ano do ensino médio, enquanto três apresentam ensino médio completo. Todos moram com familiares com quem mantêm boas relações. No que tange à religião, todos se consideram católicos e praticantes, tanto que, ao questionar-se o que é religião, um dos educadores explicitou que: É minha vida, é meu chão e meu teto. É estar sempre com Deus, refletindo com ele, procurando fazer as coisas certas. É ter fé. É acreditar numa força que não vejo, mas sou convicta que ela existe e que sem ela a vida seria mais difícil e talvez para mim não tivesse sentido (EDUCADORA A). No entanto, sobre a relação entre religião e juventude, um comentário foi significativo: É difícil relacionar essa questão, até porque vendo pelo lado dos jovens, especificamente do sexo masculino, são mais afastados da religião. Vejo, por exemplo, na igreja. Há mais mulheres do que homens. As mulheres rezam mais. Pelo menos demonstram isso. Ou seja, o lado feminino é mais influenciável. Vejo também que de modo 214 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional geral os jovens estão ligados a outros valores, se assim posso dizer, que a religião, a busca de Deus em suas vidas está fadada a um segundo plano e, muitas vezes, para uma grande maioria nem existe. Percebo que não há neles a preocupação que os jovens de nossa geração tinham. Mesmo que isso fosse imposto, inculcado pela família, nós absorvemos de tal forma que acreditamos e buscamos a religião como um caminho que conduz, prepara e orienta para chegar a Deus (EDUCADORA A). Como anteriormente mencionado, a religião é um dos valores trabalhados pela coordenação, mas não se observou significativo impacto, pelo menos de forma explícita, no comportamento dos jovens do grupo. Quanto à relação entre política e juventude, as colocações foram as seguintes: Acho que há relação quando pessoas jovens [...] se candidatam. Eles chamam a atenção dos jovens, até porque nos seus discursos existem coisas peculiares aos jovens e eles se enveredam. Um exemplo típico está na Malhação (programa da Rede Globo) que tem agora um negócio de chapas e o garoto para atrair outros jovens para aderirem à sua campanha e votar em sua chapa distribui CD’s para seduzir a turma. Enquanto que as garotas que estão tentando fazer as coisas direitinho, os jovens não lhes dão a devida atenção. E é por isso que não entendo direito as questões políticas (EDUCADORA A). No dizer dos entrevistados, a política é vista apenas como a questão partidária. De qualquer forma, não há qualquer relação entre a política e a dinâmica do grupo, ou seja, questões políticas não interferem no processo de condução ou participação na quadrilha. Sobre os objetivos do grupo no começo de sua formação, as considerações deixadas pela fundadora foram: Na época, era só criar uma quadrilha pra animar a rua, pra garotada curtir, brincar, porque aqui no conjunto não tinha nada, nada mesmo. Foi então que tivemos a ideia de montar uma quadrilha. Você precisava ver a animação que era. Todo mundo envolvido, ensaiando. Era uma alegria e tanto. E a nossa festa marcou, tanto que a quadrilha já tem 24 anos (EDUCADORA B - FUNDADOURA). 215 Universidade da Amazônia Em relação aos atuais objetivos, são citados: união, amizade, relação familiar, mas principalmente, competir e ganhar nos concursos. Como disse um dos coordenadores: “É vencer sempre e principalmente na FUMBEL” (EDUCADORA A). Para outro é também importante legalizar a quadrilha, com a elaboração do estatuto, ata de fundação e obtenção do CNPJ. Outro aspecto abordado foi sobre as mudanças ocorridas ao longo do tempo. Dentre os posicionamentos, destaca-se: Ocorreram muitas mudanças mesmo, pois naquela época eles eram mais obedientes, cumpridores de horário, das normas da quadrilha. Hoje, temos que ter tato para poder chamar a atenção. Muitos não aceitam. Mudou também a maneira de vestir, as moças vêm quase nuas, shorts curtos demais e tem que haver limites, muitos não gostam. Há o uso e abuso de palavrões que me incomodam bastante. São essas coisas que quando lembramos do começo da quadrilha, dos primeiros brincantes, percebemos que as mudanças foram radicais (EDUCADORA A). No que tange às suas opiniões sobre as causas dessas mudanças, os educadores argumentaram que: As próprias mudanças e transformações ocorridas no tempo. As pessoas de hoje apresentam um comportamento e costumes diferentes. A formação de hoje é outra. Eles levam as coisas muito na brincadeira. Apesar de perceber o respeito que eles têm por mim, assim mesmo têm pessoas que dizem: Ah! O meu pai não me manda, porque aqui tenho que cumprir ordens, normas. E procuramos mostrar que isso é necessário (EDUCADORA C). E mais: A troca dos participantes que vão ficando mais velhos e vão naturalmente deixando de dançar assumindo outras responsabilidades. Isso é até compreensível porque não tem só a quadrilha na vida das pessoas. Vejo por mim: Brinquei vários anos e depois casei, passei a ter outras coisas a fazer e de lá para cá fiquei no cá, fiquei na coordenação (EDUCADORA A). 216 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional Quanto às inovações da quadrilha: [...] elas são resultado de nossa criatividade, de nossas ideias, porque nós criamos muitas coisas, não copiamos nada. Já tivemos a experiência de trazer pessoas de fora que, sem sabermos, traziam a coreografia de outras quadrilhas e quando íamos dançar outra quadrilha já tinha apresentado a mesma coreografia. Quanto ao traje, temos uma moça [...] que desenha exclusivamente para nós (EDUCADORA C). Como em todos os aspectos da vida em geral, a Quadrilha Junina “Flor do Paraíso”, depois de mais de 20 anos de existência, mesmo tendo sido mantida a base da coordenação, também teria que se modificar, não somente na sua estrutura ou coreografia, mas também no seu comportamento. Evidentemente, a maior competição dos dias de hoje afastou um pouco os mais velhos – os adultos - da quadrilha, atualmente composta, em sua maioria, por jovens, que levam para dentro dela sua própria realidade, muito diferente daquela de duas décadas atrás. Portanto, as mudanças estruturais reportadas não se comparam ao choque comportamental ora vivenciado entre coordenação e brincantes. Quanto à motivação dos jovens brincantes em participar da quadrilha, os educadores apresentaram opiniões diferentes. São várias coisas. Entre elas, existem pais que não deixam os filhos saírem à noite e o ingresso na quadrilha favorece isso. Muitos saem por lazer, por gostar de dançar. Outros por paquera. Tem gente que sai até casado da quadrilha, [...]. Eles se conheceram na quadrilha, namoraram e casaram. A Silvana, que ganhou bebê agora, conheceu o Alaor na quadrilha. Há dez anos que eles se conhecem e agora se casaram (EDUCADORA C). Ou ainda: É a FUMBEL, de modo geral. Mas para nós, aqui no conjunto, é para mostrar para as outras quadrilhas que indo participar do concurso da FUMBEL temos a oportunidade de sair no jornal. Há toda uma divulgação, a quadrilha vai ficando conhecida e também para trazer o título, um troféu para a Vó, nossa maior torcida (EDUCADORA A). Conforme pode ser observado, além das competições e do prazer pela dança, a participação na quadrilha está vinculada aos processos educativo e social dos jovens. Segundo afirmações deles mesmos, é importante para a for- 217 Universidade da Amazônia mação pessoal, desenvolvendo o respeito, a tolerância, a disciplina, a amizade e outros valores julgados importantes ao ser humano. A motivação por participar da quadrilha explica por que, em geral, os brincantes voltam em anos seguintes. Evidentemente, o processo de socialização vivido pelos jovens os satisfazem sobremaneira. No que tange às atividades desenvolvidas com o grupo de jovens brincantes, os educadores destacaram passeios, festas e, em especial, promoções para angariar fundos. É interessante notar que por trás de tais atividades, pode ser percebida a intenção da coordenação em manter vivo e permanente o grupo, garantindo a participação nas competições no ano seguinte, e no grupo não há discriminações e preconceitos de uns com os outros. Ficou claro nos relatos que o grupo aceita com naturalidade a participação de pessoas diferentes, “Sim, aceita, porque é um grupo democrático. Não excluímos ideia de ninguém” (EDUCADORA A). Outro educador destacou: Sim, com naturalidade, apesar de termos pessoas que são verdadeiros entraves, que discordam de tudo. Outras pessoas são tão negativas que acham sempre que não vão saber acertar. Mas penso que em qualquer tipo de grupo existem as divergências e as pessoas cricris (EDUCADORA C). Em razão disso, os educadores foram questionados como o grupo trabalha as diferenças de opinião. As considerações apresentadas indicam o efetivo exercício da discussão, participação e aceitação de forma muito natural. Quanto ao espaço para as diferenças, os sujeitos explicitaram que: “Existe. Nós até gostamos quando entram pessoas diferentes, com ideias diferentes, desde que não prejudiquem o grupo nem as normas da quadrilha” (EDUCADORA A). No que diz respeito às relações de poder dentro do grupo, os educadores lembraram o caso do marcador já mencionado, além de outras situações, criadas, em geral, pelos novatos, que exigiram a intervenção deles. Quanto às relações de gênero, ou seja, se meninas recebem tratamento diferenciado dos meninos, um dos educadores assim se posicionou: Não, a única aqui na Flor porque para casa e para (EDUCADORA diferença existente entre meninos e meninas do Paraíso é o banheiro. Portas diferentes, as meninas o banheiro é daqui de dentro da os meninos é fora, ao lado, na rua mesmo C). Em outro momento, os educadores foram suscitados a comentar sobre aspectos positivos no grupo; assim, os educadores apontaram a união, a disciplina nos ensaios, a vontade de dançar, a amizade entre os brincantes, o carinho, o respeito, o compromisso e determinação que todos assumem em vestir a cami- 218 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional sa da “Flor do Paraíso”. Já os aspectos negativos destacados foram poucos, resumindo-se à falta de recursos financeiros e às intrigas e às fofocas. Essas últimas são tratadas por meio do diálogo estimulado pelos coordenadores. Dessa forma, em tais situações, é inquestionável a liderança exercida pelos educadores, tendo sido construída ao longo dos anos de trabalho. Questionada sobre esse papel, uma das educadoras afirmou: Acho que sou líder por esse jeito de tomar a frente das coisas. Acredito que sou um pouco de tudo. Sou confidente, conselheira, líder, coordenadora, tia, irmã, amiga e, às vezes, até mãe (EDUCADORA C) Entretanto, no entendimento deles, essa liderança perpassa por saber ouvir e falar, pelas decisões participativas e coletivas, envolvendo todo o grupo. Em contrapartida, curiosamente, as opiniões apresentadas pelos educadores sobre folclore são muito parecidas com aquelas apresentadas pelos jovens entrevistados. Mesmo não apresentando uma clara definição sobre o termo, eles têm perfeito entendimento de que faz parte da cultura e da tradição. Em geral, os educadores adoram a quadrilha e dão muita importância a esse trabalho. Um deles citou: Sinceramente falando, às vezes, penso em desistir, mas é muito importante para mim, já estou acostumada. Gosto de fazer isso e faço com muito carinho. Traz muita dor de cabeça mais traz também muitas alegrias. Choramos muito e sorrimos ao mesmo tempo (EDUCADORA A). Foi com um sentimento de paixão, expresso por palavras, olhares e gestos, que eles participaram dessa pesquisa. Com esse enfoque e lembrando as diversas citações em relação à Vó, é mister explorar um pouco da história dessa mulher que ainda hoje mantém unida a família “Flor do Paraíso”. 3.4.2.6.2 A história de vida da Vó Por ser a Quadrilha Junina “Flor do Paraíso” coordenada por matriarcas e por ser a Dona Margarida, ou Vó como é conhecida, uma mulher marcante na família, espécie de esteio, de base, não seria correto deixá-la de fora sem coletar seus preciosos relatos. Para tanto, a técnica da história de vida foi escolhida, para que fosse obtida uma narração da sua própria experiência. Trata-se de um trabalho autobiográfico que a própria pessoa constrói quando estimulada pelo pesquisador, por meio de interrogações ou mesmo hipóteses inscritas em uma determinada problemática. 219 Universidade da Amazônia Tal procedimento foi realizado em várias etapas, devido à quantidade de informações a serem obtidas e em decorrência da idade, da saúde, considerando o cansaço que, às vezes, a Vó sentia, pedindo para parar e continuar no dia seguinte. Margarida Marques Araújo, 84 anos de idade, rege toda a família. Nascida no Município de Maracanã, região interiorana do Pará, aos três anos de idade veio morar definitivamente em Belém. Recebeu o apelido carinhoso de Vó, tendo também, ao longo de sua existência, conquistado o carinho, a admiração e o amor de muitas pessoas, inclusive de todos os jovens que dançaram e ainda permanecem dançando na Quadrilha Junina “Flor do Paraíso”. Quando perguntada até que série ela havia estudado, a resposta obtida foi surpreendente: “Naquele tempo, minha querida, a gente não estudava” (EDUCADORA B). No entanto, como poderá ser observado adiante, a vida foi sua escola e muito ela ensinou e continua ensinando. Quando questionada sobre o que a fez morar aqui em Belém, respondeu: Eu passava com minha mãe no interior (Que Deus a tenha) quando minha avó chegou lá. O meu pai devido já ter tido a primeira filha mulher, a segunda filha mulher e a terceira, meu pai disse que ia dar, fosse dar pra quem fosse, mas ia dar. E ela chegou e disse: Ah! Já que tu vai dar a tua filha, tu não queres a tua filha. Então eu vou levar pra mim e ele respondeu: Pode levar que é sua. Aí, eu fui (EDUCADORA B). E o seu papel na família: [...] eu naturalmente sou o esteio da casa e quando o esteio não está não resolve nada [...] a casa, a família só está de pé por minha causa. Se não fosse eu, hum! Eu trabalhei muito, a minha vida toda, pra poder criar meus filhos. Nunca deixei que lhes faltasse nada. Foram criados com sacrifício, mas tá aí o meu filho que você conhece. Chegou onde chegou por minha causa e hoje está muito bem. Estudou, se formou. A Neneca também e a Dora, que não quis. Por isso está passando pelo que está passando. Mas a vovó está aqui ainda e tenho fé em Deus, primeiramente, e o Frei Daniel que ainda vou viver bastante e ver todos muito bem (EDUCADORA B). Outro aspecto relevante observado durante as idas a campo, reside na devoção da Vó pelo Frei Daniel. A toda pessoa que chega a sua casa ela pede que beije uma das fitas coloridas, amarradas num quadro com a fotografia do Frei e, para muitos, pede que façam um pedido. Questionada como Frei Daniel entrou em sua vida e outros aspectos relativos à religiosidade, esclareceu: 220 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional Foi quando eu me dediquei com ela, com a mãe Nazaré [amiga do Frei Daniel]. Foi ela, graças a Deus, que me colocou do jeito que eu estou hoje em dia. E quando ele foi lá para a Colônia do Prata41, ela foi junto pra cuidar dele e cuidou até a morte. E eu também ia lá sempre. Alcancei muitas graças, até hoje. Sou católica. Deus me livre e guarde se não fosse a religião na minha vida. [A religião] Ah! É tudo! É a base. É o caminho para estarmos buscando Deus. Representa vida e saúde (EDUCADORA B). Devido às diversas idas a campo, um vínculo muito forte se estabeleceu entre as pesquisadoras e os membros da família, favorecendo um clima de confiança que facilitou a captura de informações que, provavelmente, não seriam ditas em outra situação. Por causa disso, houve conhecimento de que a Vó, católica fervorosa, durante muitos anos de sua existência dedicou-se à umbanda em razão de sua mediunidade. Houve então oportunidade de conhecer um cômodo da casa onde há um altar com imagens de muitos santos e, no chão, algumas imagens que representam os guias ou espíritos com os quais ela trabalhou. Assim, questionada sobre sua mediunidade, como começou a desenvolvêla, ela explicou o seguinte: Quando o meu filho estava com 16 anos, ele começou a namorar e queria sair de casa, eu fui procurar a minha amiga Nazaré que é a minha mãe de cabeça. Fui lá tomar um passe. Ela conversou comigo e me disse: Margarida tu é medium? Eu disse pra ela que não, que eu nunca seria medium. Aí ela se virou e me disse: Pois agora tu és, tu és médium, [...] foi ela quem me revelou e daí em diante eu começei a trabalhar. Trabalhei muito, agora, depois que enfartei, [...] meu filho me proibiu de muitas coisas [...] também em decorrência de minha idade, meus compannheiros, os guias, disseram que não era pra eu trabalhar mais (EDUCADORA B). Sobre os conflitos entre a umbanda e a religião católica, ela apontou: Quando eu comecei a trabalhar na umbanda e frequentava a igreja [...] ela [vizinha da frente] sabia e ela é membro da igreja até hoje. Ela falava pros padres e eles não permitiam que eu comungasse. Mas, assim mesmo, eu nunca deixei de frequentar a igreja. Assistia à missa e não participava de mais nada. Quando as entidades me afastaram e ela ficou sabendo, deve ter falado pros padres e hoje eu já comungo (EDUCADORA B). 41 Hospital destinado aos cuidados de pacientes portadores da hanseníase, localizado em Marituba. 221 Universidade da Amazônia É interessante ressaltar que a Vó nunca recebeu pagamento por seu trabalho religioso, fato confirmado por membros da família e amigos. Chegou a comentar que fazia de panelões de banho para ajudar as pessoas que ali chegavam em busca de auxílio. A Vó era também “benzedeira”, pois rezava crianças contra “mal-olhado”, “quebranto”, “ventre caído” e em adultos, moleza, dores no corpo, entre outros. Assim fazendo, comunga das palavras do Cristo: “Dai de graça, aquilo que de graça recebeu”. Durante seu relato, a Vó informou que, quando começou a quadrilha, ela estava sempre presente aos ensaios com uma varinha retirada de uma árvore e caminhava entre os brincantes para verificar se estavam dançando direitinho. Naquele que fosse apanhado na brincadeira, com passos errados, batia com a varinha dizendo: “Acerta o passo menino! Agora não é hora de brincar, mas de dançar. Quero ver você fazendo bonito na apresentação.” (EDUCADORA B). Em sua opinião, o que mais motiva os jovens, mesmo nos dias de hoje, é o gosto pela dança e pelas pessoas da quadrilha. Eles se sentem bem, são tratados de forma igual, sem qualquer discriminação. Ela, assim como todos os demais entrevistados, destaca a união dos integrantes da Quadrilha como um dos pontos mais positivos. Entende que os conflitos são pontos negativos que fazem parte da vida e são resolvidos, em geral, com muita conversa. Foi criada e criou seus filhos com honestidade, orientando-os de acordo com os valores, hábitos, tabus, padrões de comportamento de sua época. Atualmente, a Vó mora com sua filha e netos. Continua indo à igreja todos os domingos. É considerada a matriarca de toda a família, pois é a mãe, avó, amiga, companheira, conselheira, benzedeira e outras qualidades mais que fizeram dela uma pessoa muito querida no lar e por todos que as conhecem. Ainda hoje, a Vó é uma pessoa muito respeitada e influente na quadrilha. Como ela diz “Se eu não estiver na frente não sai.” (EDUCADORA B), sendo que o sentido desses termos vai desde a liderança maior por trás dos coordenadores até a oração para que tudo aconteça de acordo. 222 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional 4 UMA LEITURA COMPARATIVA DOS UNIVERSOS PESQUISADOS A pós um “mergulho” em cada um dos universos com o intuito de se redesenhar cenários, relações e movimentos de cada um dos grupos pesquisados, estar-se-á diante de um quadro complexo que demonstra diversidades e particularidades, ao mesmo tempo em que, a partir de uma leitura comparativa, indica elementos para refletir com mais profundidade processos educativos. 1. Partiu-se do pressuposto de que o encontro entre diferentes influências culturais detém um potencial latente de conflito, principalmente para jovens que estão numa fase de orientação e afirmação. Pretende-se traçar os contornos dos cenários sociais, culturais e religiosos a fim de verificar como os conflitos de fato se materializam no “mundo” dos jovens, de forma explícita, aberta, mas também implícita, escondida (Quadro I). 2. O próximo passo de análise (Quadro II) pretende retratar a maneira como os jovens se posicionam e lidam com esse pano de fundo de diversidade cultural-religioso e social: o que assumem para si; o que evitam; o que sentem como conflito; o que é “pacífico”; com que se identificam; o que criticam e; finalmente, ao que aspiram. 3. Com base nesse retrato, dirige-se o foco aos grupos nos quais os jovens pesquisados estão inseridos (Quadro III). Qual é a importância do grupo a partir da fala dos jovens e qual é a forma que o grupo articula e direciona os jovens? Pergunta-se também sobre a relação do grupo socialmente instituído com outros grupos de interesse e, finalmente, se é possível perceber tendências de participação social como acomodação ou revolta. 4. As análises dos primeiros três aspectos devem trazer subsídios para uma reflexão diferenciada sobre cultura como ato e movimento de criação do seu próprio espaço vital. A base empírica deve alimentar a pergunta: como e até que ponto jovens “entre culturas” encontram e desenvolvem a sua criação cultural, ou seja, se afirmam na construção de sua própria perspectiva de vida? 223 Universidade da Amazônia Cada item de análise é subsidiado com um quadro comparativo dos resultados mais significativos e oferece espaço para primeiras observações. Segue a cada quadro um texto que desenvolve reflexões apontadas às contribuições dessa pesquisa na discussão mais ampla pretendida. Os cenários não surpreendem. Pelo contrário, confirmam o diagnóstico geral que, a partir dos indicadores sociais, se faz do Brasil no mundo: o país com um dos maiores graus de segregação social. Os meios de sustentação disponíveis definem cada universo pesquisado como uma moldura, na qual os atores estabelecem as suas relações. Evidencia-se o potencial de conflito gerado pela divisão social que se manifesta violentamente em todos os cenários. No entanto, o quadro apresentado aprofunda a percepção dessa problemática por meio de um olhar diferenciado sobre as expressões culturaisreligiosas. Aqui se encontram as formas de como a população lida com o imperativo estrutural de condenação como pobre ou pertencente de privilégios. Sim, cultura e religião estão fortemente marcadas pela delimitação social, mas indicam, ao mesmo tempo, movimento. Confirma-se que o lugar social não é determinação total, as fronteiras não são insuperáveis. Enquanto a população vive, cria meios de sobreviver da melhor forma possível. Cultura e religião são expressões dessa movimentação de assimilar a si mesmo ao ambiente externo, bem como, vice-versa, assimilar o ambiente às suas necessidades; ajeitar-se assim como se afirmar dentro das circunstâncias. Observam-se processos muito diferentes de cunho mais destrutivo ou mais construtivo. Encontram-se posturas e reações de conformidade e acomodação, de resistência e revolta ou de criação e mudança. 224 42 GRUPO RAÍZES DO CARU-AIPIM Extrativismo e agricultura familiar: pesca, frutos, mandioca, criação de animais pequenos - comércio de mercadorias básicas na vila, a uma hora de viagem de barco serviços públicos precários e distantes - jovens ajudam desde cedo. Extrativismo: autosustento altamente difícil recursos naturais (caça, pesca, frutos) escassos nas áreas delimitadas da reserva distância e difícil comunicação dependência do apoio governamental - participação dos jovens nas atividades econômicas. RIBEIRINHO GRUPO INDÍGENA ANAMBÉ42 INDÍGENA PRIMEIRA IGREJA BATISTA (PIB) Famílias de nível de vida elevado, pertencentes a um grupo altamente restrito de classe média-alta. (IBGE 2001: 5a10 SM: 6,33% 10a20 SM: 3,15% - >20 SM: 1,84% da população residente de 10 anos ou mais) - sustento: autônomos (advogados, médicos e arquitetos) ou empregados de alto nível. - utilização de serviços particulares - na PIB, diversas famílias de outros estados - jovens somente estudam. CASA DA JUVENTUDE (CAJU) CENTRO URBANO Famílias de classe médiabaixa - sustento: empregos de baixo nível, muitas vezes sem formação. ajuda dos jovens, desde cedo, no sustento da família - serviço público precário. QUADRILHA FLOR DO PARAÍSO Famílias de classe baixa sustento: "bicos", poucos empregos com regularidade altos graus de criminalidade e comércio de drogas no bairro. - serviço público precário. BANCADA REVOLUCIONÁRIA GOSPEL PERIFERIA URBANA Confirma-se um quadro de uma clara segregação com divisão social de grupos populacionais, reforçado pela localização geográfica em área rural e urbano, centro e periferia. ANÁLISE TRANSVERSAL A pesquisa no universo indígena se caracterizou por extrema dificuldade devido aos trâmites burocráticos junto à FUNAI, que tardaram todo o planejamento. Mesmo com contatos anteriores da pesquisadora, percebemos que o período de permanência junto aos Anambé ficou restrito demais para poder aprofundar-se nesse contexto, tão complexo e tão diferente. Assim, não houve tempo suficiente para levantar os dados qualitativos e acompanhar os processos educativos. Decidimos, mesmo com essas deficiências, incluir o universo, porém, apenas com aqueles dados que podemos legitimar a partir da pesquisa. Portanto, a análise do universo indígena fica parcial e não permite maiores conclusões. Contexto socioeconômico ITENS UNIVERSO Quadro I: Cenário social, cultural e religioso dos grupos de jovens pesquisados sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional ENCONTROS TRANSCULTURAIS: 225 226 GRUPO INDÍGENA ANAMBÉ42 INDÍGENA Povo (Grupo) Contexto sociocultural Anambé como unidade cultural quase extinto, fase de recuperação, busca de afirmação de sua identidade somente duas idosas ainda incorporam a cultura anambé (língua, danças, histórias) - mistura étnica nas novas gerações. ITENS UNIVERSO continuação... "Comunidade" delimitada culturalmente identidade de ribeirinhos distinção entre os "sitioara" e os "da vila" - pontos de encontro: trapiche, campo, bar - duas famílias disputam entre si poder e referência, envolvendo alianças com setores do poder público - investimento externo na região como área turística GRUPO RAÍZES DO CARU-AIPIM RIBEIRINHO PRIMEIRA IGREJA BATISTA (PIB) Grupos de elite social, articulados em espaços particulares, entre eles escola, clube, igreja, hospital - "liberdade" de lazer, de comunicação e de transporte - investimento na formação referências socioculturais por: família, etnia, interesse, religião, baseados em sistemas universais. CAJU: visão geral e inculturação regional, mas distância social. PIB: dualismo moral religioso, distância cultural e social da população em geral. CASA DA JUVENTUDE (CAJU) CENTRO URBANO BANCADA REVOLUCIONÁRIA GOSPEL Cultura de "Rua e de Praça": comunicação e encontros prevalecimento de violência, medo, desconfiança - alto fluxo migratório identidades exclusivas = grupos se isolam, afirmando-se contra outros dominação por tráfico de drogas, intervenções policiais, gangues - festas de rua para extravasar insatisfações poucas alternativas. QUADRILHA FLOR DO PARAÍSO Cultura de "Rua e de Praça": comunicação, lazer, liberdades "um pouco da vida do interior": importância da vizinhança, tradição e hierarquia familiar - festas informais com alto grau de espontaneidade popular (Festa Junina, p.ex.) identidade de bairro de periferia formação de grupos culturais específicos, representando o bairro. PERIFERIA URBANA Dificilmente se pode delimitar diferentes culturas. Observa-se mais "hábitus culturais" como formas de expressão e afirmação, marcados pelo ambiente social (elite - periferia) e geográfico (rio/ mata). Referências locais (trapiche, rua, clube) e pessoais (família, grupo) definem a forma como cultura se configura e materializa no cotidiano. ANÁLISE TRANSVERSAL Universidade da Amazônia Igreja e religiosidade como referência central ética de querer ajudar e melhorar compromisso de pertencer a um grupo sistema religioso hierarquizado. 1. Insegurança social; 2. Manutenção do seu nível de vida; 3. Hierarquia religiosa. Identidade e valores marcados pelo rio e pela floresta - festa anual da Igreja Católica - além disso, referências difusas, pouco exercício de rituais religiosos. 1. Disputa de poder interno, acoplado a recursos externos; 2. Distância e limitação: serviços públicos, escola, eventos; 3. Discriminação externa; 4. Perspectivas limitadas. Sistema de valores diretamente ligado ao ambiente natural: água, mata e animais crenças e sistemas religiosos pouco evidenciados por falta de uma referência pessoal (pajé). 1. Precariedade da sobrevivência; 2. Dependência externa do governo; 3. Falta de referências internas; 4. Identidade cultural interna difusa; 5. Perspectivas difíceis para sobrevivência enquanto povo. Potencial de Conflitos ITENS CASA DA JUVENTUDE (CAJU) 1. Insegurança social. 2. Manutenção do nível de vida. 3. Diferenciação moral e vida social. 4. Distanciamento da cultura local. Igreja e religiosidade marcam a identidade religião como referencial e ritual universal salvação pela conversão individual diferenciação com o "mundo" missão religiosa. PRIMEIRA IGREJA BATISTA (PIB) CENTRO URBANO Contexto religioso RIBEIRINHO GRUPO RAÍZES DO CARU-AIPIM INDÍGENA GRUPO INDÍGENA ANAMBÉ UNIVERSO continuação... Principalmente grupos religiosos (neo-) pentecostais se firmam com a pretensão de ser a única alternativa, manifestação com postura de negação ao que é do "mundo". 1. Violência ameaça qualquer iniciativa; 2. Dominação de grupos com regras próprias; 3. Pobreza; 4. Precariedade geral de vida; 5. Falta de perspectivas. 1. Baixo nível de vida; 2. Serviços públicos precários; 3. Violência social; 4. Obstáculos para traçar perspectivas alternativas. BANCADA REVOLUCIONÁRIA GOSPEL Igreja Católica é o centro do bairro expressões religiosas diversificadas nas esquinas, nas ruas, nas casas (AfroBrasileiros, Pentecostais) religiosidade informal presente na vida do bairro. QUADRILHA FLOR DO PARAÍSO PERIFERIA URBANA Os potenciais de conflitos são marcados pela segregação social. Expressões culturais e religiosas não representam um campo de conflito explícito, mas reafirmam a divisão social. A dimensão religiosa está presente em todos os cenários, seja como instituição social, seja como referência éticaespiritual da população. As expressões religiosas são múltiplas e difusas. ANÁLISE TRANSVERSAL sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional ENCONTROS TRANSCULTURAIS: 227 Universidade da Amazônia Os diferentes cenários são complexos sem demonstrar contornos culturais e religiosos claros e devem ser compreendidos dessa forma para a nossa análise, com o devido respeito às particularidades e com conclusões cuidadosas. Expressões culturais e religiosas foram percebidas: a) De forma instituída que constituem atores sociais. Apresentam-se publicamente com caráter mais religioso (igrejas, centro de jovens etc), cultural (dança etc) ou social (gangues etc.), e demonstram geralmente delimitações claramente identificáveis em confessionalidade, objetivos, tradição, regras, área geográfica. Alguns grupos instituídos (desde igrejas até as gangues) definem-se em contraposição aos outros. Isso resulta, geralmente, em uma visão dualista que separa bons e maus, acompanhado de um comportamento de hostilidade e desconfiança diante dos que não pertencem ao seu próprio grupo. Viu-se atrás dessa tendência uma forte necessidade de autodefesa e autoafirmação. b) De forma mais difusa e espontânea, que foge à delimitação institucional clara, mas constitui a base de um potencial criativo alimenta-se de manifestações autênticas das vivências, das modas e das necessidades; ultrapassa facilmente convenções e pode ser dificilmente controlado ou encomendado. Mesmo com toda a diversidade do quadro observado, as expressões culturais e religiosas são centradas em referências que formam um conjunto que impulsiona o seu potencial. Fora e além das estruturas institucionais, as referências marcam, articulam, congregam e norteiam cultura e religião. Nos cenários da pesquisa, observaram-se diferentes tipos de referências: pessoas incorporam valores e tradições; interferem ativamente nas relações; localidades (praças, ruas, clubes, shoppings) e momentos (início da noite) abrigam e caracterizam movimentos e rotinas; lugares geográficos (rio, mata, áreas urbanas periféricas ou centrais) imprimem ritmos naturais e artificiais; atraem ou provocam; inspiram ou frustram. Verificou-se que a falta de uma pessoa de referência no Povo Anambé desarticula o potencial cultural, mesmo que as lideranças políticas do povo invistam na formação de identidade cultural. Portanto, referências pessoais podem ser instituídas como tais ou não; no entanto, dependem principalmente da recepção como algo autêntico e confiável, com resposta às necessidades dos que as procuram. A seguir, verifica-se o próximo quadro que visualiza mais detalhadamente esses cenários a partir de um olhar específico em relação aos jovens; ao perfil social e aos referenciais culturais e religiosos deles, as suas manifestações em situações de desafios e conflitos. 228 43 Predominância do sexo feminino na CAJU, mas não há diferenciação nas tarefas ou funções – no grupo, chega a 75% o número de jovens do sexo feminino. Jovens já em processo de amadurecimento – no grupo: entre 20 a 22 anos. Faixa ampla – enquanto solteiro, considera-se jovem – no grupo: predominância entre 13 a 15 anos, mas há meninos até 23 anos. Adolescência como fase de desenvolvimento é difícil de aplicar nesse povo indígena. Há uma passagem mais direta de criança para adulto. CASA DA JUVENTUDE (CAJU) Jovens encaminhados pelas famílias – grupos divididos por faixas etárias - 13 a 14 anos. Equilíbrio entre os participantes da igreja – no grupo teve uma maioria de meninas. PRIMEIRA IGREJA BATISTA (PIB) CENTRO URBANO Meninos ajudam na atividade agricular e têm mais liberdade, meninas permanecem no ambiente da casa – no grupo pesquisado: 59% meninos. GRUPO RAÍZES DO CARU-AIPIM RIBEIRINHO Divisão por sexo correspondente aos papéis socioeconô-micos: meninos ajudam na caça e na pesca; meninas, em casa. GRUPO INDÍGENA ANAMBÉ43 INDÍGENA Ampla faixa etária – no grupo, há jovens entre 7 e 29 anos, mas, predominantemente entre 16 e 20 anos. Equilíbrio – no grupo: composição de pares de sexo masculino e feminino. QUADRILHA FLOR DO PARAÍSO Ampla faixa etária – no grupo, há jovens a partir de 13 até 25 anos. Nas ruas, há uma maior frequência de meninos – no grupo: predominância masculina (67%), as meninas entraram como namoradas. BANCADA REVOLUCIONÁRIA GOSPEL PERIFERIA URBANA Ribeirinho e periferia agrupam jovens de várias faixas etárias, enquanto nos grupos do centro é mais estritamente dividido. No rural, a divisão de papéis marca também a participação dos jovens. No urbano, dependendo do espaço, há maioria de meninos ou meninas. ANÁLISE TRANSVERSAL 229 continua... A pesquisa no universo indígena se caracterizou por extrema dificuldade devido aos trâmites burocráticos junto à FUNAI, que tardaram todo o planejamento. Mesmo com contatos anteriores da pesquisadora, percebemos que o período de permanência junto aos Anambé ficou restrito demais para poder aprofundar-se nesse contexto, tão complexo e tão diferente. Assim, não houve tempo suficiente para levantar os dados qualitativos e acompanhar os processos educativos. Decidimos, mesmo com essas deficiências, incluir o universo, porém, apenas com aqueles dados que podemos legitimar a partir da pesquisa. Portanto, a análise do universo indígena fica parcial e não permite maiores conclusões. Idade Sexo PERFIL SOCIAL ITENS UNIVERSO Quadro II: OS GRUPOS DE JOVENS - PERFIL SOCIAL, REFERENCIAIS E CONFLITOS sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional ENCONTROS TRANSCULTURAIS: 230 Cotidiano e preferências Meios de comunicação Meios de transporte Escolaridade PERFIL SOCIAL ITENS UNIVERSO continuação... Rádio – TV: uma hora por dia. A pé – barco. Há escola somente até 4ª série do Ensino Fundamental – escola é o lugar de encontro; mas estudo tem pouca importância. GRUPO INDÍGENA ANAMBÉ43 INDÍGENA Passeio pelo bairro. Cursos extraescolares, igreja. Esportes, leitura, igreja. Esportes, música. Rádio – TV. TV – Internet –celular. TV– Internet –celular. Rádio – TV: uma a duas horas por dia. 79% estudam – 1/4 com defasagem escolar – muitos já trabalham. QUADRILHA FLOR DO PARAÍSO 93% ônibus –7% bicicleta. Todos estudam sem defasagem escolar – escola é a ocupação principal durante a semana. PRIMEIRA IGREJA BATISTA (PIB) Esportes, música. Rádio – TV 50% ônibus – 50% bicicleta. Poucos estudam, maioria abandonou a escola – 40% estão no trabalho informal e fazem “bicos”. BANCADA REVOLUCIONÁRIA GOSPEL PERIFERIA URBANA 58% ônibus – Carro da 42% carro família. próprio. Todos estudam ou finalizaram o nível superior – há um grande investimento nos estudos. CASA DA JUVENTUDE (CAJU) CENTRO URBANO Barco a remo (95%). 68% estudam, porém com defasagem de 3 a 8 anos –maioria ajuda em casa e na lavoura. GRUPO RAÍZES DO CARU-AIPIM RIBEIRINHO continua... A segregação social se perpetua. A escolaridade divide claramente interior e cidade, periferia e centro. Oportunidades e limitações se evidenciam nos transportes e nas comunicações. ANÁLISE TRANSVERSAL Universidade da Amazônia GRUPO INDÍGENA ANAMBÉ43 INDÍGENA Afirmam ser do povo Anambé. 78% são de Belém – 44% moram próximo. Todos são do “Caruaru” – um jovem mora na vila. Todos nasceram na reserva. QUADRILHA FLOR DO PARAÍSO BANCADA REVOLUCIONÁRIA GOSPEL PERIFERIA URBANA Importância grande – 87% boa relação / 13% conflitos – maioria com os pais, alguns com tios. Todos são de Belém – 93% moram no bairro. Trabalham a cultura amazônica na dança – têm uma Considerada básica – apenas um caso de conflitos – 72% moram com os pais, 28% formaram família própria. Todos são do Estado do Pará e moram no bairro. Diversos aspectos de identificação: ser evangélico, ser negro, ser da periferia. Hip-hop Em 84%, fortes conflitos, desde maus-tratos até abandono – 84% residem com mãe ou irmãos. 44% “branco” – 56% se 90% se 44% “moreno” autodenominam autodesignam – 12% não sabe “morenos”. “negros”. PRIMEIRA IGREJA BATISTA (PIB) 56% são de fora – residem em diversos bairros de Belém. São evangélicos Identificam-se com Tem uma batistas a comunidade relação (origem ribeirinha, mesmo positiva com a norteamericasendo região na) e têm Considerada a base de tudo – 78% acham a sua relação boa – 67% moram com os pais. Família é referência principal – 89% consideram relação boa – 91% residem com os pais. Povo e família formam unidade. Família Origem / identificação cultural 50% “morenos” – 50% “brancos”. 77% se autodenominam “morenos”. CASA DA JUVENTUDE (CAJU) CENTRO URBANO Não existem “índios” (puros) entre os jovens. GRUPO RAÍZES DO CARU-AIPIM RIBEIRINHO Cor / etnia / raça IDENTIFICAÇÕES E REFERÊNCIAS ITENS UNIVERSO continuação... continua... No centro, constata-se um maior movimento migratório. A igreja serve como ponto de referência. A referência da família é central. Observou-se uma tendência a idealizar e harmonizar as relações. Em quatro grupos, “moreno” aponta para uma mistura difusa; um grupo se designa conscientemente “negro”. ANÁLISE TRANSVERSAL sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional ENCONTROS TRANSCULTURAIS: 231 232 GRUPO INDÍGENA ANAMBÉ43 INDÍGENA Pesquisa não levantou dados. Pesquisa não levantou dados. Religião Visões IDENTIFICAÇÕES E REFERÊNCIAS ITENS UNIVERSO continuação... Contraposição entre Vila (urbano) e “Sítio” (comunidade) 96% se declaram “católicos”, mas a maioria não freqüenta a igreja – pouca referência explícita à religião. discriminados na vila – raízes na dança folclórica. GRUPO RAÍZES DO CARU-AIPIM RIBEIRINHO Compromisso claro em mundo complexo. amazônica, o que se expressa pontualmente nas litúrgicas. Todos “católicos” – voto de compromisso – principal referência na vida – ética e valores. CASA DA JUVENTUDE (CAJU) Visão dualista: os que são de Jesus diante daqueles que são do “mundo”. pouco referencial amazônico. Todos “evangélicos” – “porto seguro” – assiduidade de freqüentar igreja. PRIMEIRA IGREJA BATISTA (PIB) CENTRO URBANO Concorrência com outros grupos – distanciamento da violência. identificação com o próprio bairro. 92% “católicos” – participam de culto afrobrasileiro na casa da “vô”, alguns freqüentam igreja do bairro. QUADRILHA FLOR DO PARAÍSO Revolta política e mudança radical religiosa: libertação. inspirado em movimento norteamericano. Grupo “segue o exemplo de Jesus” - maioria se declara “evangélico” – alicerce para a vida. BANCADA REVOLUCIONÁRIA GOSPEL PERIFERIA URBANA continua... As visões são marcadas pelos referenciais em seus limites e em sua exclusividade. Em outros grupos (exceção Hip-hop), a representação do contexto amazônico é um referencial chave. Também para os jovens, a religião é um referencial importante: central para três grupos, mais difuso para os outros. ANÁLISE TRANSVERSAL Universidade da Amazônia GRUPO INDÍGENA ANAMBÉ43 INDÍGENA Pesquisa não levantou dados. Sustento.Distância. Percebidos no ambiente externo Envolvendo os próprios jovens CONFLITOS E DESAFIOS ITENS UNIVERSO continuação... Insegurança na cidade.Falta de oportunidade no local.Drogas, álcool. Brigas na comunidade. Violência e drogas. Políticas desacreditadas. GRUPO RAÍZES DO CARU-AIPIM RIBEIRINHO Violência e drogas. Necessidade de base religiosa. Pobreza. Distanciamento dos jovens “do mundo”. Perspectivas individuais. Necessidade de referenciais claras.Perspectivas próprias. PRIMEIRA IGREJA BATISTA (PIB) Pobreza e violência.Poucas perspectivas para o país.Sociedade sem valores. CASA DA JUVENTUDE (CAJU) CENTRO URBANO Disputa com outros grupos. Sexualidade, álcool. Falta de perspectivas. Violência, drogas. Pobreza. QUADRILHA FLOR DO PARAÍSO Libertação da gangue e das drogas. Família: drogação - mãe solteira. Violência, drogas. Corrupção. BANCADA REVOLUCIONÁRIA GOSPEL PERIFERIA URBANA continua... Os jovens sentem diretamente a presença do problema “violência e drogas”. Em segundo lugar: perspectivas. A percepção dos problemas centrais em torno de “violência e drogas” é comum em todos os grupos. ANÁLISE TRANSVERSAL sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional ENCONTROS TRANSCULTURAIS: 233 Universidade da Amazônia O perfil social dos jovens subsidia com seus detalhes o cenário mais amplo acima descrito: a influência do ambiente geográfico, a distinção entre rural e urbano, a delimitação social da periferia e do centro urbano. Evidenciamse as limitações e oportunidades, os papéis sócio-econômicos e a dinâmica das relações sociais em volta deles. Esses cenários constituem o “mundo” dos jovens, no qual se movimentam com naturalidade, assimilando e se adaptando a partir e por meio das relações mais próximas. O grupo familiar – de forma real e idealizada – é a referência mais direta e mais importante na fala dos jovens de todos os grupos. Além dele, no meio rural (indígena e ribeirinho), o local geográfico em si, acoplado à comunidade (povo) onde habita, representa a referência de identificação central. Similarmente, no grupo de quadrilha, o bairro periférico, com as suas relações de “família ampliada” e vizinhança, forma esse marco na construção de vida. Ao passo que nos lugares onde menos se encontra uma estabilidade e continuidade por causa dos fortes fluxos e trânsitos, a referência local se dissolve. Aqui, os elementos de identificação se acoplam a pessoas, grupos, momentos e lugares que aparentam ser mais estáveis. Indivíduos assumem a função de garantir um fio condutor na vida pessoal desses jovens – seja em relações diretas (líder do grupo Hip-hop/da gangue; vô da quadrilha; padre fundador da CAJU) ou como imagem idealizada (Jesus). Os jovens se veem como “seguidores” (Hip-hop, CAJU, PIB) desses membros. Instituições e tradições representam espaços importantes com regras determinadas, compromisso e regularidades (Hip-hop/ gangue; “Flor do Paraíso”; CAJU; PIB), mas somente se tornam pontos de referência quando aceitos pelos jovens. Nos grupos estudados, a fixação em referências não se choca com as vontades expressas de sair, de experimentar coisas novas, de se aventurar ou de fazer festa. O desejo de liberdade – assim pode-se intitular todas essas vontades – existe congruentemente à necessidade de um ponto de partida e de retorno das saídas e liberdades. Essa constatação vale para todos os níveis sociais, desde os ribeirinhos, que saem de canoa para as festas da vila, e voltam ao seu “sítio”, até os jovens privilegiados da CAJU, que, em meio a todas as oportunidades de lazer, fazem votos para um trabalho religioso. Portanto, a identificação se relaciona fortemente com aquilo que fornece sensação de estabilidade, continuidade e segurança para os jovens. Referências reais (pessoas, grupos e lugares) se misturam com idealizações e projeções daquilo desejado. Os valores e visões subjacentes, nem sempre conscientemente refletidos, às vezes, são expressos em imagens difusas ou versos decorados. Num ponto, porém, congruem: a necessidade e o desejo de estabilidade que garantem uma perspectiva de vida. Isso se confirma quando os jovens começam a falar sobre conflitos que os envolvem. Mesmo de formas diferentes, há um problema central a qual todos se referem nas entrevistas: a violência social explícita e ameaçadora em todos os lugares públicos que, na opinião dos jovens, está ligada à pobreza, à falta de oportunidades e às drogas. 234 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional Pouco se percebe conflitos que são caracterizados por diferenças culturais, como se esperava, a partir das hipóteses da pesquisa de campo. Não há choques de valores e sistemas de orientação nas colocações dos jovens. A influência dos meios de comunicação não é expressiva, pouco se fala dos programas de TV ou rádio. As imagens de mundos diferentes, os sons de estilos de músicas “modernas” são encarados e inseridos com naturalidade no cotidiano, quando interessam; mas, em geral, permanecem distantes em relação às influências diretas do ambiente dos jovens. No entanto, quando não há a retaguarda de referências no ambiente primário (como parcialmente no caso do Povo Anambé), os jovens são mais receptíveis a influências externas, “correm” ou “fogem” atrás de imagens geralmente inalcançáveis. A confirmação ampla desta afirmação, porém, ultrapassa o limite desta pesquisa. Um potencial de conflito encontra-se em relação ao exercício da religião, que constitui a base de identificação para diversos grupos, principalmente nos universos urbanos. Enquanto os jovens de dois grupos destacam a importância da religião de forma mais geral e indiferenciada; outros dois grupos demonstram uma postura mais determinada em relação aos “outros”, e transferem uma segurança de que a sua convicção pode “salvar” outras pessoas e melhorar o mundo. Nessa compreensão mais missionária, a identidade religiosa firma uma unidade interna e, paralelamente, provoca uma tendência de distanciamento em relação aos diferentes. Num dos grupos (PIB), isso se expressa no que diz respeito ao “mundo”, com o assumir de uma posição “acima” da cultura humana. Discurso religioso e linguagem ritual – mesmo sendo de origem cultural norteamericana – manifestam-se em expressões relativamente uniformes nas diferentes regiões. Na igreja, as pessoas sentem-se em casa pela semelhança dos rituais, das músicas e da linguagem, assim como do discurso. Portanto, esse lugar representa um ponto de inserção fácil para pessoas migrantes de outros lugares, como pode ser verificado no grupo dos jovens. O outro grupo evangélico (Hip-hop) tem uma característica muito particular, espontânea não-institucional e não se enquadra nesta análise. Há um conjunto de bases de identificação explícita, uma sobreposição entre diferentes referenciais culturais (Movimento Hip-hop, oriundo na América do Norte, Amazônia), sociais (periferia - rua, libertação de jovens das gangues), políticos (emancipação do negro, justiça social) e religiosas (seguidores de Jesus, conversão - mudança radical de vida). Esses referenciais têm, como ponto aglutinador, uma visão de vida em justiça. O conflito central gerado pela violência social marca profundamente a biografia desses jovens. A conversão religiosa, como afirmam, é a inspiração para um caminho concreto de mudança de vida pessoal: a libertação da gangue e das drogas. Nessa perspectiva, o grupo desenvolve uma dinâmica que demonstra, por um lado, um potencial de ação para libertar outros do círculo fatal das gangues e, pelo outro, uma sede de estudar e aprofundar temas de interesse. 235 236 GRUPO INDÍGENA ANAMBÉ44 INDÍGENA 44 Papel social dos jovens no grupo social e cultural. Não foi observada uma identidade e estrutura clara de grupo. Uma das poucas ofertas para jovens no local – prazer de dançar – possibilidade de sair: mais liberdade – apresentar-se publicamente. Dança folclórica – lugar de origem / ribeirinhos – casal de fundadores. GRUPO RAÍZES DO CARU-AIPIM RIBEIRINHO Evangélico – Igreja Batista – grupo jovem. Encontro de jovens – socialização na Igreja Batista – envolvimento familiar – fé religiosa. Encontro com outros jovens – busca religiosa – socialização na Igreja Católica – se comprometer com algo. PRIMEIRA IGREJA BATISTA (PIB) Casa da Juventude – Igreja Católica – liturgia. CASA DA JUVENTUDE (CAJU) CENTRO URBANO Prazer de dançar – estar junto com outros jovens – envolvimento na vizinhança – possibilidade de sair e de apresentar-se. Tradição da quadrilha mais antiga de Belém / família coordenadora – dança – bairro. QUADRILHA FLOR DO PARAÍSO Libertação das gangues: nova perspectiva de vida – apresentar-se e afirmar-se em público – mudança política. Movimento Hiphop – Evangélico – movimento negro – bairro – líder. BANCADA REVOLUCIONÁRIA GOSPEL PERIFERIA URBANA O grupo representa para os jovens um espaço central para constituir a sua vida social: o encontro com outros, a liberdade e a autoafirmação. Identificações não são unívocas, mas um conjunto de elementos: atividade – local – pessoas instituição – religião. ANÁLISE TRANSVERSAL continua... A pesquisa no universo indígena se caracterizou por extrema dificuldade devido aos trâmites burocráticos junto à FUNAI, que tardaram todo o planejamento. Mesmo com contatos anteriores da pesquisadora, percebemos que o período de permanência junto aos Anambé ficou restrito demais para poder aprofundar-se nesse contexto, tão complexo e tão diferente. Assim, não houve tempo suficiente para levantar os dados qualitativos e acompanhar os processos educativos. Decidimos, mesmo com essas deficiências, incluir o universo, porém, apenas com aqueles dados que podemos legitimar a partir da pesquisa. Portanto, a análise do universo indígena fica parcial e não permite maiores conclusões. Motivação Elementos identificadores de grupo a) DINÂMICA INTERNA ITENS UNIVERSO Quadro III: Os Grupos de Jovens - Dinâmica Interna, Articulação e Processos Educativos Universidade da Amazônia GRUPO INDÍGENA ANAMBÉ INDÍGENA Constituição: adesão, regularidade, fluxo na participação Instituição: fundação / regulamento / dependência institucional / apoio Agrupamento espontâneo por idade e papel social. a) DINÂMICA INTERNA ITENS UNIVERSO continuação... CAJU, fundada em 1959, com autonomia relativa à Igreja Católica – grupo de “Liturgia” é atividade interna desde 1995 – obedece regulamento geral – jovens passam por diferentes estágios dentro da CAJU. Integrantes da “Liturgia” fizeram oficialmente votos religiosos como expressão do seu compro Adesão por convite do casal de fundadores e de amigos – compromisso informal e confiança na responsabilidade de cada um – CASA DA JUVENTUDE (CAJU) Fundada há 24 anos por família, liderança como animação de rua – coordenação continua na mão das mulheres da família, passada de geração em geração. Adesão por proximidade à família fundadora, principalmente da vizinhança, mas também por amizade – compromisso Todos os jovens da igreja são encaminhados para os grupos – compromisso de credo religioso – divisão por idade – QUADRILHA FLOR DO PARAÍSO Todos os grupos demonstram uma alta estabilidade interna surpreendente para jovens. É um sinal da Grupo base em volta do líder – outras adesões em chamadas por ocasião das apresentações públicas – chegou a 80 participantes esporádicos, mas continua... Os grupos apresentam formas e graus diferentes de relações institucionais. A partir delas se estabelece boa parte da dinâmica interna: restrições e liberdades, mecanismos e possibilidades de decisão e participação. ANÁLISE TRANSVERSAL Surgiu da NRP (Nação de Resistência Periférica) por questões ideológicas e religiosas há 6 anos – mantém independência, mas se articula com outras instituições (igreja, prefeitura) em áreas pontuais. BANCADA REVOLUCIONÁRIA GOSPEL PERIFERIA URBANA Parte da Escola Bíblica Dominical (EBD) desde a fundação da PIB – atividade institucionalizada e regulamentada – coordenadores escolhidos pela direção da igreja. PRIMEIRA IGREJA BATISTA (PIB) CENTRO URBANO Grupo fundado por casal da comunidade – regulamento interno definido pelos fundadores e participantes – apoios externos esporádicos – colaboração de coreógrafo experiente. GRUPO RAÍZES DO CARU-AIPIM RIBEIRINHO sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional ENCONTROS TRANSCULTURAIS: 237 238 GRUPO INDÍGENA ANAMBÉ INDÍGENA Liderança / Coordenação O Conselho do Povo Anambé exerce influência direta também aos jovens. – Fora disso, o professor é uma figura referencial para eles. a) DINÂMICA INTERNA ITENS UNIVERSO continuação... Os coordenadores se veem como amigos e aconselhadores – os jovens aceitam a sua liderança, consideram-na necessária para organizar o grupo. vários encontros por semana – grupo estável: 90% participam desde o início há um ano. GRUPO RAÍZES DO CARU-AIPIM RIBEIRINHO O grupo escolhe a coordenação a cada ano a partir do critério principal da disponibilidade - função de organizar as atividades e articular com outros grupos misso - já participaram de outros grupos – grupo se constitui a cada ano novamente – encontro semanal – participação regular. CASA DA JUVENTUDE (CAJU) Coordendores indicados pela diretoria da igreja, tendo passado por cursos de formação – jovens não questionam coordenação nem forma escolarizada dos encontros como aulas. encontros dominicais – participação regular controlada. PRIMEIRA IGREJA BATISTA (PIB) CENTRO URBANO A família fundadora ocupa coordenação desde a existência do grupo, apenas mulheres, agora na terceira geração, zelando pela tradição – são chamadas como “vô” e “mãe” pelos jovens. informal – composição anual, porém com grupo de base participação intensa de fevereiro a junho; depois, encontros espontâneos. QUADRILHA FLOR DO PARAÍSO Prática democrática de votação, porém a coordenação continua desde o início na mão do idealizador, um líder carismático que estuda para ser pastor. Observase uma lealdade grupal, parecida como nas gangues. firmou-se como grupo menor (20) em estudos, discussões nos encontros semanais. BANCADA REVOLUCIONÁRIA GOSPEL PERIFERIA URBANA continua... Também no perfil e na escolha da coordenação, confima-se a diversidade entre os grupos. No entanto, em todos prevalece uma integração positiva e uma identificação jovem-liderança. importância que tem para a vida dos jovens. ANÁLISE TRANSVERSAL Universidade da Amazônia GRUPO INDÍGENA ANAMBÉ INDÍGENA Grupo sem O centro da centro próprio visível – encondinâmica grupal interna tros espontâneos e dispersão. a) DINÂMICA INTERNA ITENS UNIVERSO continuação... Oferta específica aglutina jovens antes dispersos com atividades e linguagem apropriadas. GRUPO RAÍZES DO CARU-AIPIM RIBEIRINHO O grupo se entende na responsabilidade de realizar semanalmente a liturgia central para os jovens da CAJU. CASA DA JUVENTUDE (CAJU) O grupo se insere na dinâmica escolar da EBD, sendo um lugar de estudo e aprendizagem. PRIMEIRA IGREJA BATISTA (PIB) CENTRO URBANO Grupo se forma em estruturas familiares em volta da figura central e carismática da “mãe”. QUADRILHA FLOR DO PARAÍSO Grupo reúne jovens a partir da sua história de vida: violência mudança – missão. BANCADA REVOLUCIONÁRIA GOSPEL PERIFERIA URBANA Verifica-se a importância de um centro referencial, que se compõe de personalidades ou instituições, de ações ou temas. ANÁLISE TRANSVERSAL sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional ENCONTROS TRANSCULTURAIS: 239 Universidade da Amazônia A importância chave do grupo de jovens45 como centro da socialização confirma-se nessas manifestações. O encontro e a coletividade com outros jovens é o espaço em que o jovem se afirma como pessoa, aprende a sociabilidade e erige a sua orientação em referenciais para a construção de suas perspectivas de vida. No entanto, “grupos” não existem na abstração. Eles são realidade e se constituem em contextos limitantes e potencializadores, estão em constante movimento por dentro e para fora. Tendo em vista os diferentes cenários (Quadro I e II), houve aproximação, inicialmente, aos movimentos internos dos grupos. O momento inicial de ingresso no grupo é um dado significativo, uma vez que nesse momento se molda a ligação emocional com o grupo, a relação com os outros e a posição pela qual o jovem se insere. As diferentes motivações e situações de adesão dos jovens a um grupo levam à distinção de três formas: - ingresso induzido: Geralmente, os jovens são colocados por ingerência externa do grupo social (família, vizinhança, igreja) do qual fazem parte. Mesmo que eles não se sintam pressionados ou forçados, têm pouca interferência na inserção no grupo. - opção ocasional: O grupo como oferta atrativa surgiu nas proximidades do jovem, que começou a envolver-se ocasionalmente e, às vezes, coincidencialmente nas atividades. Frequentemente, a aproximação foi facilitada ou reforçada por uma pessoa de confiança (amigo, vizinho). - escolha ciente: A inserção no grupo se dá por seleção própria do jovem, normalmente, a partir de uma opinião já formada. Pressupõe-se que o jovem passou por um processo de experiência, busca e aprofundamento até chegar a uma decisão de se aproximar de determinado grupo. A pesquisa demonstra que não existem exemplos “puros” de uma ou outra forma de inserção, mas sempre observam-se interferências externas, ocasiões e decisões. Deve se considerar também que os jovens encontram-se em diversos estágios de desenvolvimento e situações contextuais. No entanto, a análise aponta para graus diferenciados de participação dos jovens na adesão e, consequentemente, na própria dinâmica interna do grupo. Partiu-se do pressuposto de que uma maior postura participativa, ou seja, o jovem como “sujeito”, leva a uma maior competência de construir perspectivas em responsabilidade e gestão própria. Entende-se também que o jovem, como sujeito, é um horizonte de um desenvolvimento e amadurecimento. 45 Conhecida na Sociologia e Pedagogia como “Peer Group”. 240 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional O grupo somente se constitui e permanece articulado se houver uma composição interna, que une os jovens em sua diversidade num centro comum. Esse centro não é uniforme e estático, visto que abrange uma dimensão emocional pela qual os jovens sentem-se ligados ao grupo; e uma dimensão material, em que uma identidade grupal se manifesta concretamente. Na pesquisa de formatações tão diversas, encontraram-se mesmo assim alguns fatores centrais constituintes de grupo. Primeiro, jovens de todos os grupos frisam a importância da amizade, seja no que se refere ao convite para o grupo, seja em relação a momentos marcantes do grupo. É o encontro com outros jovens; é a vontade de ser amigo; é o desejo de se relacionar com alguém – tudo isso faz do grupo um espaço em que o jovem busca satisfazer uma necessidade existencial. E para isso, ele, jovem, precisa do outro jovem, um lugar e um momento que possibilite um encontro com esse outro. Segundo, observa-se a centralidade do movimento para o grupo. Ele atrai a liberdade alcançada a partir das atividades; atrai as oportunidades e mudanças e novidades. Os elementos da música e da dança que desenvolvem um papel importante em todos os grupos, expressam essa vontade. Também a religiosidade está ligada ao movimento interno e externo por representar a saudade e o desejo de relações ideais. Terceiro, identifica-se a importância de referenciais. Grupos que demonstram uma certa assiduidade e regularidade formam-se em volta de lideranças que incorporam um referencial para os jovens. O carisma dessas pessoas não surge apenas da fala convincente, mas de uma coerência entre discurso e atuação, de uma segurança e autoridade na orientação, assim como de uma sensibilidade para as necessidades dos jovens. Contudo, um grupo não se define apenas para dentro; ele se compõe da mesma forma em diferenciação ao que está em sua volta. As articulações externas posicionam o grupo num contexto maior, delimitam a sua ação e fazem dele um ator social coletivo. 241 242 Apoios Atividades Externas GRUPO INDÍGENA ANAMBÉ INDÍGENA Escola. Organização do lazer (sinuca, por exemplo). a) ARTICULAÇÕES ITENS UNIVERSO Coreógrafo conhecido – Órgãos públicos (Prefeitura) – grupo de amigos. Apresentações de dança em eventos públicos, representando a cultura amazônica e comunidade Caruaru. GRUPO RAÍZES DO CARU-AIPIM RIBEIRINHO CAJU – Paróquia Católica – famílias . Organiza missas jovens com o grupo de música – articula-se em atividades gerais da CAJU com os outros grupos. CASA DA JUVENTUDE (CAJU) Famílias – comunidades religiosas Não se posiciona como grupo em lugares externos, mas se articula em encontros maiores de jovens evangélicos. PRIMEIRA IGREJA BATISTA (PIB) CENTRO URBANO Grupo de amigos órgãos públicos (Prefeitura) – organizadores de eventos de rua. Concorre com outras quadrilhas nos festivais juninas – apresenta-se em festas de rua. QUADRILHA FLOR DO PARAÍSO Órgãos públicos (Prefeitura) – organizadores de eventos de rua. Apresentações de rua e em eventos maiores – oficinas nas expressões do Hip-hop – missão de rua. BANCADA REVOLUCIONÁRIA GOSPEL PERIFERIA URBANA continua... Todos os grupos fazem parte de uma rede de relações e instâncias. Os grupos do centro urbano agem mais para dentro da instituição, enquanto os outros ocupam prioritariamente os espaços públicos. ANÁLISE TRANSVERSAL Universidade da Amazônia Movimentos como ator social GRUPO INDÍGENA ANAMBÉ INDÍGENA Pesquisa não levantou dados a) ARTICULAÇÕES ITENS UNIVERSO continuação... A comunidade e principalmente os jovens da comunidade acompanham as atividades – grupo faz parte de uma estratégia de desenvolver uma área turística. GRUPO RAÍZES DO CARU-AIPIM RIBEIRINHO O grupo se insere nas atividades gerais da CAJU, sendo as liturgias o momento e o lugar central para unir todos da CAJU e congregar outros que se aproximam. CASA DA JUVENTUDE (CAJU) Cada jovem individualmente, e o grupo como tal, é importante para a comunidade na recrutação (convite e acolhida) de novos membros. PRIMEIRA IGREJA BATISTA (PIB) CENTRO URBANO O concurso não posiciona apenas o bairro diante de outros, mas reforça o potencial e a criatividade da cultura “popular” de bairros periféricos. QUADRILHA FLOR DO PARAÍSO O grupo manifesta o potencial do jovem, do negro e da rua, provoca politicamente e concebe isso como “missão” a seguir, principalmente para gangues. BANCADA REVOLUCIONÁRIA GOSPEL PERIFERIA URBANA Evidencia-se o potencial e a importância que os jovens articulados em grupo têm como atores sociais para dentro e fora das instituições. ANÁLISE TRANSVERSAL sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional ENCONTROS TRANSCULTURAIS: 243 Universidade da Amazônia Nas suas articulações externas, observam-se duas tendências entre os grupos pesquisados. Os dois grupos do centro urbano permanecem dentro de uma instituição, assumem uma função mais restrita a ela. Fora desses limites, funcionam mais para reforçar a própria instituição, à medida que ajudam a agregar outros jovens. Os outros grupos têm uma presença muito maior em espaços públicos, apresentando-se com o seu potencial cultural. Mesmo que, em pelo menos dois grupos, não possa ser encontrada uma consciência política aprofundada de relações, mecanismos e estruturas que compõem uma sociedade; há um despertar para formar-se como ator social, tanto no que diz respeito à participação de poder interagir em espaços públicos, quanto no que diz respeito à valorização de ser significativo em seu potencial para a construção de sociedade. Dirige-se a atenção da análise agora aos processos educativos, ou seja, formas intencionadas de trabalhar com os grupos, com um determinado propósito e com atividades (mais ou menos) planejadas. O movimento, os interesses, as motivações e os desejos dos jovens confluem num processo acompanhado, impulsionado e parcialmente dirigido. 244 GRUPO INDÍGENA ANAMBÉ INDÍGENA Objetivos Atividades educativas Desenvolver uma consciência própria sobre identidade e realidade do povo Anambé. Tematizar e refletir a própria situação como povo indígena na escola – inventar ofertas de lazer. c) PROCESSOS EDUCATIVOS ITENS UNIVERSO Os coordenadores apontam como objetivo principal afastar os jovens das drogas. Os jovens mencionam a divulgação da comunidade como principal objetivo. Refletir sobre cultura regional – trabalhar conflitos internos – empenhar-se para superar dificuldades – melhorar as apresentações. GRUPO RAÍZES DO CARU-AIPIM RIBEIRINHO Conhecer a importância da liturgia – criar liturgias jovens realizar momentos litúrgicas na CAJU para os jovens. Refletir sobre temas relevantes para as liturgias – criar formas envolventes para os jovens – realizar as liturgias. CASA DA JUVENTUDE (CAJU) Objetivos gerais da igreja: evangelização e envolvimento na obra missionária – formar os jovens na palavra de Deus e na doutrina da igreja. Estudar palavra de Deus e as doutrinas religiosas – aprender significados essenciais para a vida humana (fé, destino, ética). PRIMEIRA IGREJA BATISTA (PIB) CENTRO URBANO O objetivo inicial de “animar e ocupar os jovens” tornou-se “cultivar a tradição da quadrilha” – instruir os jovens em valores culturais e religiosos. Aperfeiçoar a apresentação de dança – trabalhar relações internas, inclusive afetivas – tematizar os valores centrais na cultura, religião. QUADRILHA FLOR DO PARAÍSO Evangelizar e tirar os jovens das gangues, do mundo da violência e das drogas. Afirmar-se e aprofundar-se em estudo, discussão e culto – analisar a realidade e desenvolver estratégias de mudá-la. BANCADA REVOLUCIONÁRIA GOSPEL PERIFERIA URBANA continua... Os grupos de caráter “missionário” formulam objetivos mais idealizados. Nos outros, encontram-se objetivos da práxis, porém dentro de uma perspectiva ética mais ampla. O impulso educativo vem principalmente da reflexão sobre a própria realidade e interligar esta com as atividades promovidas. ANÁLISE TRANSVERSAL sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional ENCONTROS TRANSCULTURAIS: 245 246 GRUPO INDÍGENA ANAMBÉ INDÍGENA Conflitos internos: diversidade de opinião, falhas na organização, integração com outros grupos, sobrecarga de alguns poucos – Conflitos Externos: decisões ainda hierárquicas. Alto grau de compromisso com as atividades e com a causa – aprofundamento emocional e Conflitos internos: relacionamento entre meninos e meninas, atraso, nãocumprimento das regras – Conflitos Externos: disputa com outra família pela liderança na comunidade, falta de recursos. Impacto na personalidade dos jovens: autoafirmação, segurança – relação positiva com o local ribeirinho: sentem A liderança do povo está ciente do problema e busca formas de trabalhar com os jovens. Potenciais / avanços / mudanças CASA DA JUVENTUDE (CAJU) Acompanhamento de jovens na fase de sua adolescência – desenvolvimento do conhecimento Conflitos internos: relacionamento entre meninos e meninas – Conflitos Externos: afastamento de eventos sociais considerados nãoadequados para crentes. PRIMEIRA IGREJA BATISTA (PIB) CENTRO URBANO Dispersão – não há atenção específica dirigida aos jovens. GRUPO RAÍZES DO CARU-AIPIM RIBEIRINHO Desafios / potencial de conflitos c) PROCESSOS EDUCATIVOS ITENS UNIVERSO continuação... Fortalecimento da autoafirmação, das apresentações em público, da capacidade de ter realizado Conflitos internos: relações e namoros, falta de compromisso de poucos que prejudicam os outros – Conflitos Externos: falta de recursos, brigas com outros grupos, atividades prejudicam rendimento escolar. QUADRILHA FLOR DO PARAÍSO Libertação pessoal de drogas, percepção e empenho por novas perspectivas de vida – visão Conflitos internos: papel das meninas como namoradas, recaídas nas drogas – Conflitos Externos: violência na família, na rua, nas gangues, ameaças, coerência entre discurso e prática, falta de recursos. BANCADA REVOLUCIONÁRIA GOSPEL PERIFERIA URBANA continua... O envolvimento no grupo tem desencadeado mudanças múltiplas no desenvolvimento de competências pessoais dos Os desafios internos são muito semelhantes em todos os grupos, próprios à idade jovem. Externamente, na medida em que se posicionam e se afirmam, veem-se envolvidos nos conflitos do seu contexto. ANÁLISE TRANSVERSAL Universidade da Amazônia GRUPO INDÍGENA ANAMBÉ INDÍGENA Perspectivas Necessidade de investimento educativo nos jovens. c) PROCESSOS EDUCATIVOS ITENS UNIVERSO continuação... cognitivo por discutir temas relevantes no horizonte da celebração religiosa – desenvolvimento de percepção mais complexa no exercício de debate. A CAJU é uma instituição estável na qual a liturgia recebe uma atenção especial. O grupo depende de uma liderança jovem e vai passar sempre por novas composições – talvez uma dinâmica positiva. O grupo tem se afirmado como elemento de uma estratégia de desenvolvimento turístico da área. Com isso, pode atrair outros apoios, mas ao mesmo tempo, corre o risco de negligenciar a própria atenção educativa para os jovens. CASA DA JUVENTUDE (CAJU) Todos os grupos demonstram uma estabilidade interna e externa suficiente para garantir uma perspectiva para os próximos tempos. O grupo está Há uma ciente do seu consciência potencial em sobre a importância da chamar a continuidade atenção pública. É dinâmico e cultural flexível para (tradição), o ampliar os seus que ajuda o espaços de grupo para atuação e superar sustentação fora “baixas”. Precisa, porém, de dependências ampliar a base institucionais e de sustentação. políticas. A manutenção institucional da EBD e do grupo jovem está fora de dúvida. - Há tendências entre as lideranças jovens de uma maior enculturação no contexto amazônico. ANÁLISE TRANSVERSAL jovens; assim como; na sua capacidade de posicionarse ativamente no contexto social. BANCADA REVOLUCIONÁRIA GOSPEL crítica algo significativo por aprofundada do contexto de vida empenho do grupo – relação – interligação de fé e práxis – positiva com sensação de tradição e responsabilidade bairro, e, ao mesmo tempo, por outros reflexão crítica jovens. de violências, relações e perspectivas. QUADRILHA FLOR DO PARAÍSO PERIFERIA URBANA e da vida espiritual – reflexões aprofundadas sobre problemas da realidade – movimentação de jovens em encontros amplos. PRIMEIRA IGREJA BATISTA (PIB) CENTRO URBANO a importância como representantes da comunidade Caruaru – maior capacidade de reflexão sobre si e sua realidade – consciência éticaambiental. GRUPO RAÍZES DO CARU-AIPIM RIBEIRINHO sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional ENCONTROS TRANSCULTURAIS: 247 Universidade da Amazônia Conflitos culturais - a atenção analítica – se vestem de múltiplas formas, umas em evidência, outras escondidas e silenciadas. Nos cenários concretos, aparecem geralmente apenas os atores primários “em palco” (famílias em disputa, relações afetivas, brigas entre grupos, alcoolismo, falta de recursos, etc.). Pouco é revelado sobre origens históricas e estruturais dos conflitos e desafios, sobre segundas intenções e emoções, sobre interesses e aspirações subjacentes. Os processos educativos permanecem amarrados e limitados a esses cenários; agem em e a partir de relações diretas concretas, fortalecendo e afirmando os jovens dentro desses contextos. No entanto, há indícios claros de que o trabalho nos grupos leva à percepção e à reflexão mais ampla do que é posto. O fundo cultural e religioso das atividades tematiza continuadamente questões de responsabilidade ética e valores principais; impulsiona a criação de visões da vida, do mundo e do ser humano em suas relações. Formula, a partir desse pano de fundo – às vezes, difuso e silencioso, às vezes, explícito e doutrinário –, um objetivo maior de um mundo melhor, encarando, em primeiro lugar, as violências sociais sentidas por todos. A possibilidade de fazer o mundo diferente é um horizonte necessário para um processo educativo de mudança pessoal e social e possibilita uma avaliação crítica de sua realidade atual. O forte cunho cultural do trabalho educativo nos quatro grupos do interior (indígenas e ribeirinhos) e da periferia (Quadrilha e Hip-hop) coloca no centro a busca e a valorização das próprias raízes. É uma tematização de si mesmo em sua realidade histórica, geográfica e social que olha as relações cotidianas de fora a fim de entender as próprias maneiras e jeitos de ser e perceber em elementos significantes do seu ambiente de vida. “Falar sobre a sua cultura é aprender o mundo afora”, como afirmou um dos coreógrafos, pois começa a distinguir e valorizar o que “é nosso em relação ao que é dos outros”. Por isso, a dança expressa muito mais do que uma sequência de passos e vestes típicos. É uma insistência de que “aquilo que somos tem valor”, é um ato profundo de autoafirmação. Evidentemente, mistura-se, aqui, o discurso, idealizado pelo coreógrafo, com a realidade; mas explicita, visivelmente, como os jovens se entregam e assumem a dança para si: os ribeirinhos, num jogo intenso dos corpos; na dança da quadrilha, 50 minutos de ritmo alucinante; ou dos giros acrobáticos do Hip-hop. É prazer, esforço e autoafirmação. A identificação cultural na área rural está diretamente ligada ao ambiente natural. Trabalhar com as suas raízes significa estabelecer uma relação positiva com lugar, valores e sistema de vida local. Nas apresentações de dança, os jovens assumem e representam tudo isso. Na área urbana, os pontos de identificação ficam mais difusos, mergulhados numa massa anônima e em fluxos de movimentação. A quadrilha e o Hip-hop resgatam, nesse cenário, uma mistura entre tradições importadas de outros lugares (quadrilha - Inglaterra, Hip-hop Estados Unidos), embasamentos amazônicos, movimento de rua e identidade social de periferia. O resultado é um ato de criação cultural própria, algo que é 248 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional do grupo e algo que compõe, ao mesmo tempo, o rosto do bairro. A cidade de Belém recebe a sua identidade cultural por essas criações, promove-se e se apresenta como um grande palco desses grupos. Principalmente nos eventos públicos e festivais, os jovens respiram esse ar de ser criadores importantes que se mostram na cidade e que mostram a cidade. Os grupos do centro urbano manifestam uma característica diferente. Prevalece uma identificação religiosa que tematiza valores essenciais e uma visão geral da vida. As doutrinas e a sua expressão ritual se baseiam num referencial universal que pouco se insere no contexto cultural da região. A estrutura básica da liturgia católica foi definida pelo centro da igreja em Roma; as aprendizagens e o culto da Igreja Batista obedecem a convenções doutrinárias gerais. Assim, a definição da identidade está sob uma influência de representar uma “verdade” que está numa tensão crítica e provocativa com a realidade. No entanto, os jovens entrevistados não são meros receptores, mas estão envolvidos em relações concretas, o que suscita reflexões e questões sobre as maneiras de como viver os preceitos num determinado momento e local. Existe, permanentemente, o desafio de enculturação. Também nos outros grupos, percebe-se o elemento religioso, fazendo intimamente parte do exercício cultural. Às vezes, de forma implícita, às vezes, explícita, representa um sistema de orientações básicas. Em todo caso, o referencial religioso busca uma legitimidade da ação cultural numa percepção geral de vida e ajuda a manter uma distância crítica necessária às relações sociais. No mesmo instante em que se constata o referencial cultural e religioso como impulsionadores de uma transgressão refletiva do seu espaço de vida, observam-se as suas amarras nas estruturas de segregação social. O interior e a periferia, como local de ação cultural e religiosa, permanecem no lugar socialmente interior ou periférico – sem serviços públicos de qualidade, com altos graus de violência etc. Pouco se questionam ou se modificam estruturas fundantes da sociedade: tanto as externas, que condenam a população à pobreza; quanto as internas, que pregam lealdade ao poder local, por exemplo,elas permancem quase intocáveis. Os grupos no centro urbano demonstram uma dinâmica mais dirigida por e a um determinado organismo social. A partir da instituição, posicionam-se na sociedade. A delimitação clara em relação ao contexto político-social-cultural indica também uma tendência a se defenderem como pertencentes a uma faixa social mais privilegiada, distanciando-se do restante da sociedade. 4.1 CULTURA E RELIGIÃO: ESPAÇOS DE CRIAÇÃO SOCIAL Não se detectaram conflitos culturais como se esperava, a partir das hipóteses da pesquisa. Os jovens se movimentam com facilidade e naturalidade nos contextos, assimilando influências de diversas culturas. O que interfere 249 Universidade da Amazônia com mais vigor são conflitos das relações diretas ou primárias, principalmente originados na violência social. O impacto generalizado dessa guerra social não-declarada ficou evidente, já que todos os grupos de lugares e classes sociais diferenciados encararam-na como problema central de fundo. Olhou-se para grupos de jovens com características e em contextos muito diferentes. Mergulhou-se nos processos educativos para perceber movimentos, mudanças e perspectivas. No horizonte inicial do desafio da democracia no cenário da globalização, desenhou-se o nosso pano avaliativo de análise e conclusão. A democracia como referencial básico declara a pessoa indiscriminadamente como o ponto principal para dirigir politicamente a sociedade, ou seja, a dinâmica fundante se baseia no indivíduo e grupo em sua responsabilidade de atores sociais. Além do reconhecimento de cada um em seu potencial, mas também com necessidades básicas, alimenta-se uma visão de uma sociedade em que o respeito pela diversidade e a participação de todos garante um processo de construção de relações sociais mais justas. Mesmo que representantes do mundo político e econômico se declarem em discursos a favor da democracia, um dos efeitos mais negativos da globalização é justamente a violação dos fundamentos desse ideal: a submissão das pessoas, de grupos sociais e populações inteiras a mecanismos econômicos excludentes, sustentados por poderes políticos. Exclusão social significa social - e politicamente a não-participação na partilha dos recursos naturais, no acesso às riquezas da terra e na decisão sobre o seu próprio futuro. Significa cultural - e religiosamente a condenação das pessoas a um estado de calar-se diante da dominação e suportar os efeitos negativos dela. Confirmou-se, em nossa pesquisa, a análise da segregação e exclusão social que se põe como um manto em todos os universos dos quais nos aproximamos. Entretanto, não se encontrou com clareza a relação da tipologia dominados e dominadores, mas sentiu-se a onipresença da condenação social da violência. No entanto, as nossas observações não permitiram uma conclusão linear da exclusão para uma apatia social, de que as pessoas se entregam simplesmente a seu destino. E é nesse sentido que a nossa atenção se dirigiu na pesquisa à dimensão da cultura e da religião. Nelas, o potencial das pessoas de mobilização e criação consegue ser explicitado, ultrapassando os limites sóciopolíticos e econômicos impostos. Sem querer nivelar diferenças e desconsiderar complexidades, a análise comparativa indica alguns elementos chaves que se destacaram como significativos em processos educativos para uma maior participação social: 1 A formação e a articulação em grupo se mostrou como plataforma de uma dinâmica mobilizadora dos jovens. Já nas primeiras aproximações aos universos de pesquisa, detectou-se uma diferença surpreendente de grupos bem-articulados 250 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional em relação a agrupamentos de indivíduos. A partir da nossa observação ainda sem confirmação empírico, os últimos eram vulneráveis, num grau mais alto, a influências externas, sem referencial próprio que estabelecesse um horizonte crítico de verificação. Positivamente falado, jovens em grupo geram em si uma dinâmica própria com relações minimamente regulamentadas que, por um lado, reforça uma postura de compromisso mútuo e disciplina e, pelo outro, serve de impulso a um potencial criador e mobilizador. 2 Complementar à articulação grupal é o processo educativo que desenha a dinâmica a partir de determinados objetivos. O mero efeito mobilizador de um grupo ainda não define a direção dos conteúdos e a forma das ações. A diferença entre os grupos está no contexto, mas também na maneira como se responde a esse contexto; como o grupo se movimenta, com o que se identifica, onde se situa, a que aspira. A criação direcionada de respostas é educação. É intervenção consciente em relações e contextos, formulando impulsos e criando ambientes a partir de um ideal. É a moldura conceitual e ideológica que posiciona o grupo de maneira mais criativa e/ou mais assimilativa, mais aberta e/ou mais afirmativa-missionária, mais compreensiva e/ou mais agressiva. É o centro de identificação, que desencadeia e reforça competências, estabelece referenciais e provoca reflexão sobre si mesmo. 3 Uma influência marcante representa o referencial cultural nos processos educativos. Nele, o objetivo dos processos educativos se relaciona com a própria identidade dos participantes do grupo, ou seja, o objetivo não é algo imposto externamente, mas se define a partir do próprio desenvolvimento. • Primeiro, evidenciaram-se o movimento e a criação espontânea nos processos de buscar empatias nas aproximações, nas formas de expressão, nas relações com os outros e com o ambiente de vida. Em diversos momentos, jovens e educadores citaram a imagem conhecida de “desenvolver raízes” de si mesmo em relação ao trabalho cultural. A partir dessa imagem, explicitou-se uma base afetiva e emocional de autoafirmação, segurança e força (“a raiz firma, equilibra e nutre”). • Segundo, tematizando a própria identidade cultural, pensa-se também no que difere de si mesmo. A partir das próprias identificações, surgiram reflexões sobre “outros”, sobre diferenças, sobre respeito, sobre nãoidentidade. Tem que se distanciar de si para poder olhar para si mesmo e refletir-se nos outros. Graus e conteúdos de reflexão muito diversos foram encontrados, no entanto, o exercício de pensar e perceber a realidade para além das fronteiras do seu contexto e da sua normalidade representa uma base importante de desenvolver uma consciência das relações sociais e de aprofundar um senso ético de respeito e ser respeitado. 251 Universidade da Amazônia 4 O trabalho educativo, cultural e, parcialmente, religioso gerou atividades não apenas internas, mas incluiu apresentações ao público. Sob os olhares de “outros”, os jovens se mostram e recebem reconhecimento, comunicam o seu trabalho com um certo orgulho, são, durante um momento, o centro da atenção. Mesmo com uma certa pressão e ansiedade, a dimensão pública é um aspecto importante do processo grupal, muito citado pelos jovens: cada jovem aprofunda a sua própria autoafirmação e autossegurança. Entre eles, desenvolvem posturas de disciplina e respeito no grupo; diante da esfera pública, firmam um compromisso maior com aquilo que representam culturalmente. 5 A religiosidade como dimensão afetiva dos jovens é presente em todos os grupos, no entanto, somente em três, a religião faz explicitamente parte do processo educativo. Como sistema de valores e orientações, tematiza questões básicas do ser humano, conduta e ética. Os jovens colocam-se num referencial de caráter universal que amplia o horizonte de reflexão e ação, ao mesmo tempo em que assegura uma identidade clara de direcionamentos. Dessa maneira, o trabalho educativo a partir da religião, chega a estimular nos jovens inovações e liberdades, assim como leva a direcioná-los em doutrinas, ou seja, afirmações consideradas verdadeiras que devem ser assimiladas e obedecidas. 6 Todos os jovens dos grupos com forte caráter religioso sentem-se em missão. Estão convencidos de que têm uma mensagem importante que tem que ser comunicada para outros. Querem mudar o mundo a partir dessa mensagem, baseando-se frequentemente em experiências de uma mudança pessoal de vida. O grau do fervor e o compromisso dos jovens sinalizam o envolvimento e a segurança, mas geram, também, conflitos à medida que perdem a capacidade de compreender e respeitar percepções e opiniões diferentes. O conflito tende a se agravar quando questões político-sociais se misturam e se sobrepõem. Portanto, constatou-se que, em todos os universos, os grupos tornaramse plataformas importantes para que os jovens se tornassem atores sociais. São espaços decisivos para desenvolver competências pessoais, assim como formas coletivas de participação social num contexto maior. Da mesma forma que a pesquisa demonstra os potenciais e aspectos significativos para o desenvolvimento dos jovens, ela pretende ser um espelho a fim de gerar uma reflexão autocrítica sobre os processos educativos. Indica ainda difícil tarefa educativa em meio à complexidade e a ambivalências entre indivíduo e coletivo, entre violentação e própria violência, entre perspectivas e limites, entre mudança e regressão, entre consciência e ideologia, entre segurança e exclusão. Dessa maneira, a educação continua a ser um desafio para o qual é preciso sensibilidade diante do existente, perceptividade diante dos potenciais de mudança; e visão do que se quer e do que se espera. 252 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional A PROXIMAÇÕES CONCLUSIVAS A Região Amazônica é caracterizada como o encontro de diversas culturas, etnias, grupos sociais e realidades sócio-econômicas; que se cristalizam como um desafio central num contexto de um crescente movimento de migração. Essa dinâmica culmina num espaço em que diversas influências culturais incidem sobre a formação da cultura local, tendo entre si processos de transição e transformação, o que caracteriza seu processo transcultural. O conceito da transculturalidade pressupõe que existem múltiplas formatações e configurações culturais. No entanto, as limitações que distinguem uma das outras não podem ser identificadas claramente (OESSELMANN, 2002). A pesquisa realizada com grupos de jovens no contexto amazônico visou compreender os processos de socialização e de construção de identidade em encontros transculturais. Partiu-se, então, da pluralidade de processos educativos existentes nos diferentes espaços, sejam eles estimulados ou espontâneos, de encontros, tais como: lazer, formação religiosa, informação, cultura, entre outros. Os adolescentes são atores-chave na compreensão desse processo, visto que na adolescência há um forte processo de agrupamento, em que todos se identificam com cada um, demonstrando toda sua potencialidade, criatividade, independência, segurança e estima pessoal na busca e construção de um estilo ou modelo próprio de vida. Sendo assim, revelam os elementos culturais, artísticos, políticos, religiosos e ideológicos que manifestam suas aspirações pessoais de vida, com o estabelecimento de intensas relações grupais e a consolidação de processos de identidade. Entende-se por adolescência a fase que compreende grande parte da segunda década de vida do indivíduo, a partir dos 12 anos. Acredita-se que nessa fase as mudanças corporais, ao nível físico, são relativamente universais, a exemplo disso temos a menarca nas meninas, pois não se conhece cultura em que esse fato não ocorra, podendo variar as datas, mas nunca deixa de acontecer (LEPRE, 2003; PALÁCIDOS, 1995). 253 Universidade da Amazônia Todavia, a adolescência muda seu conceito, não só no que diz respeito à cultura, mas também no que concerne à mudança no tempo e no espaço, sendo entendida por muitos autores como “moratória social”, por referir-se à expectativa da sociedade sobre o jovem no mundo (PALÁCIDOS, 1995). Percebe-se, então, que o entendimento sobre adolescência tem um caráter social significativo, uma vez que existem determinadas características do desenvolvimento que se diferenciam em grande escala quando há diferenças culturais, sendo que a construção da identidade é um dos fatores relacionados ao desenvolvimento, à cultura e à sociedade em que o indivíduo está inserido (LEPRE, 2003; PALÁCIDOS, 1995). Como afirma Becker (apud LEPRE, 2003): Então, um belo dia, a lagarta inicia a construção do seu casulo. Este ser que vivia em contato íntimo com a natureza e a vida exterior, se fecha dentro de uma “casca”, dentro de si mesmo. E dá início à transformação que levará a um outro ser, mais livre, mais bonito (segundo algumas estéticas) e dotado de asas que lhe permitirão voar. Se a lagarta pensa e sente, também o seu pensamento e o seu sentimento se transformarão. Serão agora o pensar e o sentir de uma borboleta. Ela vai ter um outro corpo, outro astral, outro tipo de relação com o mundo (BECKER, 1997, p.14). Logo, o adolescente tem em seu horizonte uma gama de possibilidades na sua relação com o mundo, onde vivencia conflitos afetivos, sociais e morais na busca de se afirmar como sujeito, e também por ter que fazer escolhas em uma sociedade, em cujo contexto transcultural as opções se multiplicam, formando então sua identidade (PALÁCIDOS, 1995). A identidade é também entendida como a criação de um sentimento interno da semelhança e continuidade, uma unidade da personalidade sentida pelo indivíduo e reconhecida por outro, é o “saber quem sou” (ABERASTURY, 1981). Tal processo de formação de identidade é, segundo Berger (2003), formada por processos sociais, resultados de diversas interações sociais, o que implica a formação e a conservação de novas identidades. Nesse sentido, o contexto do universo indígena Anambé, particularmente dos adolescentes e jovens, remete a uma leitura clara do processo de confronto e conflitos diante da diversidade de influências e vivências sociais. A resistência étnica está na continuidade de viver na reserva indígena e manter elementos contidos nesse universo enquanto cultura diferenciada. A influência de novos saberes, por meio dos sistemas de informações que lhes são acessíveis, cria um processo democrático, que permeia a necessidade de integrar e pertencer, porém sempre com o cuidado em manter seus vínculos e referenciais indígenas. 254 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional A realidade do grupo indígena Anambé possibilitou análise valiosa no sentido de pensar os grupos misturados dentro de um processo de transição cultural. Na apreensão dessa realidade fica a característica própria do povo indígena, baseada na relação com a natureza, respeito com o outro, solidariedade, companheirismo. Esse grupo apresenta tais relações de convivência, configurada por intermédio de seu cotidiano. Percebe-se que a identidade indígena é visível no grupo Anambé, mesmo diante do contexto amplo de mistura racial, em que foram perdidos alguns laços culturais, correspondendo a valores, crenças e símbolos. O viver do grupo na reserva indígena, mesmo delimitada, sustenta a identidade e a cultura, em virtude do modo de vida típico e diferenciado, fato que o caracteriza como índio. Os jovens e adolescentes concebem essa realidade por meio da aceitação do seu modo de vida. O amor que demonstram pela terra, pela aldeia e pela família permite essa leitura. O contato com o outro subsidia o olhar para frente, com perspectivas no âmbito profissional; contudo, anseiam por esse sonho, convivendo na aldeia, da sua forma, com a sua gente. O processo de autoafirmação dos índios Anambé traduz-se no pertencimento, o viver na reserva indígena. Existe a necessidade de interação com o outro para melhor apreensão das políticas públicas em que estão inseridos. A educação formal e informal contribui para a ampliação da leitura sobre o outro e da necessidade de conviver, criando concomitantemente um sistema de defesa da identidade étnica. Portanto, a elaboração dessa realidade contribuiu para a educação indígena na questão de direcionamento para suas ações educativas, que deverão ser norteadas pela realidade do grupo e suas necessidades emergentes em relação à cultura e à identidade. No que diz respeito aos adolescentes inseridos no espaço ribeirinho, isto é, no grupo de danças folclóricas “Raízes do Caru-aipim”, observou-se que a preocupação com a temática da juventude enfrenta um desafio de superar a lógica, que compreende os processos de socialização e formação identitários somente a partir de espaços formais, como a escola e o trabalho. Ignora-se, sobretudo, a pluralidade de processos educativos, vivenciados de forma espontânea ou estimulada e que se constituem enquanto espaços privilegiados de construção da subjetividade juvenil. Na pesquisa de campo, verificou-se tal preocupação na dinâmica de atuação dos coordenadores, um casal residente na comunidade, a fim de inserir os jovens do local em um grupo de características culturais próximas ao seu cotidiano. Dessa forma, afirma-se que tal prática se constitui num processo de socialização secundária, de caráter informal, cujo objetivo é se trabalhar pedagogicamente os jovens que se encontravam em situação de risco, ou seja, em contato com drogas, violência e alcoolismo. A formação do grupo, nesse caos, propiciou o “resgate” de alguns jovens dessa situação, muito embora esse discurso 255 Universidade da Amazônia não seja manifestado e, portanto, não esteja internalizado pela maioria dos integrantes do grupo. Contudo, é válido pontuar que o fato dos jovens estarem inseridos no grupo, permitiu-os o conhecimento de outras realidades e, consequentemente, a adequação de comportamentos como forma de inserção social. Quanto à dinâmica estabelecida no grupo, observou-se que se configura como uma extensão da uma família real existente na comunidade, e que se caracteriza como um grupo fixo e permanente com manifestação também de conflitos internos e externos, que se constituem nos principais desafios para a consolidação do grupo. Quanto aos jovens em si, percebeu-se que eles não têm internalizados os valores do que venha a ser política, religião e a própria juventude, o que representa uma lógica histórica estabelecida em comunidades rurais, uma vez que essas se encontram desprovidas de políticas públicas no que tange, sobretudo, ao acesso a uma educação de qualidade. Quanto aos elementos culturais, observou-se que os jovens apresentam um modo próprio de vida estritamente relacionado às condições ambientais e sociais em que vivem; e desempenham seu papel social no mundo, assim como também constroem seus referenciais simbólicos. Nesse sentido, foram identificados e elencados quatro elementos-chave no processo de constituição dos comportamentos e do imaginário dos jovens moradores de Caruaru: ação do meio; ocupação; princípio da herança e relações de parentesco. Aponta-se que os jovens estudados apresentam uma identidade social bem delineada, definida fundamentalmente a partir das relações materiais e simbólicas que estabelecem com o território. Assim, a identidade social é também uma identidade territorial defensiva que filtra as ameaças da experiência social urbana e do contato com o desconhecido e imprevisível. Quanto à transculturalidade buscada pelo projeto, observou-se sua ocorrência no momento em que os jovens apresentam características psicossociais marcadas por influências locais, como o rio e mata; estão inseridos na cultura amazônica ribeirinha de base rural, mas com aproximação, em seu cotidiano, de elementos padronizados da cultura urbana e de massa, como as gírias, o gosto pelo gênero musical popular “brega”, assim como também por representações simbólicas que articulam ambigüidades características da situação de convivência entre dois universos culturais: o ribeirinho (Caruaru) e o urbano (Vila de Mosqueiro), isto é, o desejo de serem, ao mesmo tempo, diferentes e iguais aos jovens da cidade. No que tange aos grupos religiosos, isto é, Primeira Igreja Batista - PIB e Casa da Juventude – CAJU, observou-se que dentro do contexto da transculturalidade amazônica na construção da identidade dos jovens, foi constatado em relação ao primeiro, ou seja, que os adolescentes da PIB, mesmo que inseridos na cultura da região amazônica, formam um grupo com comportamentos padronizados, institucionalizados, apresentando conflitos individuais inerentes ao estágio de desenvolvimento psicoemocional, comum 256 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional aos demais adolescentes. Esses conflitos abrangem desde problemas de relacionamento familiar, relações amorosas, à aceitação grupal dentro e/ou fora do grupo da EBD. Entretanto, esses jovens se diferenciam dos demais adolescentes na maneira de vivenciá-los, por adotarem comportamentos, costumes e valores de princípios religiosos. Percebeu-se também que a padronização e a institucionalização são vivenciadas no cotidiano das atividades de lazer dos adolescentes, haja vista que eles adotam padrões culturais tidos como universais, sendo predominantemente realizadas atividades com influências externas, da mídia de massa, dos modismos e das padronizações sociais: ir ao shopping, cinema, navegar na Internet, o que não são majoritariamente pertencentes à cultura tipicamente amazônida. Esse fato corrobora para o conceito de transculturalidade, visto que é perceptível um forte movimento de transformação e transfiguração da identidade cultural dos adolescentes da EBD em meio a influências internas e até externas da Região Amazônica. No contexto da diferenciação, vale ressaltar que os jovens que não vivenciam de maneira edificante os princípios bíblicos de preservação dos valores morais, éticos, religiosos e do corpo são identificados pelos adolescentes da PIB como “mundanos46” por muitas vezes esses buscarem apenas a própria satisfação, que pode ser momentânea, egoística, imoral e antiética. Assim, reforça-se a concepção de Aberastury & knobel (1981) de que o elemento sociocultural influi com determinismo específico nas manifestações da adolescência, dando-lhe características universais. Portanto, as ideologias precocemente adquiridas e mantidas sem modificações assumem um caráter defensivo, em que os adolescentes da PIB percebem-se diferentes dos demais, pois acreditam que seguem uma religião de maneira espontânea, norteadora de seus pensamentos e comportamentos nos diversos setores da vida, posto que, segundo os princípios religiosos adotados, devem sempre estar voltados às questões éticas e morais. Diante do exposto, verificou-se, apoiado em Oliveira (1976), que a identidade é construída social e pessoalmente, modificando-se constantemente no tempo e no espaço, ou seja, ela não é estática. Infere-se, então que a Escola Bíblica Dominical constitui-se como um espaço religioso privilegiado (culturalmente e socialmente) para o processo de formação e construção de identidade, e de socialização secundária do grupo de adolescentes pesquisado. Quanto aos adolescentes da CAJU, foram consideradas tanto as variáveis pessoais, quanto as variáveis coletivas, decorrentes da tarefa a que o grupo se propõe desenvolver e do contexto em que está inserido. Cada contexto constitui um espaço peculiar, com limites, normas e significados que, captados pelo grupo, poderão ou não ser explicitados e aceitos por esse. 46 Segundo os adolescentes entrevistados, “mundanos” são pessoas que utilizam drogas lícitas ou ilícitas e que não preservam o seu corpo, pois acreditam que o corpo é templo do Espírito Santo. 257 Universidade da Amazônia Até onde foi possível avançar na pesquisa, percebeu-se que os integrantes do grupo de liturgia estão sempre atentos aos momentos que o grupo está vivendo; percebendo suas carências, dificuldades e necessidades, comunicando aos coordenadores, para junto com eles, tomar atitudes para promover o amadurecimento do grupo. A meta da equipe é trabalhar com profundidade todas as atividades litúrgicas para que a celebração da missa seja realizada com sucesso. Contudo, quanto mais uma pessoa se enquadra nos padrões ideais do grupo mais será popular e, provavelmente, representará o tipo de pessoa que todos os membros restantes gostariam de ser. A interação é um pré-requisito necessário para o crescimento de sentimentos, tanto das normas quanto das simpatias e antipatias existentes no grupo, já que, diante do processo de avaliação da personalidade de cada sujeito, com o intuito de identificação, bem como de aproximação, que ocorre com aqueles membros que já tiveram uma forte identificação antecipatória com o Grupo de Liturgia. Observou-se, portanto, a presença mais forte de laços positivos, ou seja, os vínculos gratificantes de simpatia preponderam sobre os da antipatia, sendo que esse último vínculo pode estar recalcado no inconsciente coletivo do grupo. Dessa forma, a religião se faz presente no âmbito das boas relações, precisando ser observada como um fenômeno da “alma humana”, em que é natural se ouvir que o momento atual é de resgate do âmbito espiritual do ser humano. O ser humano não é apenas um corpo munido de uma mente pensante e de um conjunto de emoções, mas é, também, como se pode perceber, um ser espiritual (VICENTE, 2000). Naisbitt e Aburdene (apud VICENTE, 2000) afirmam que objetivo tanto da religião quanto da ciência é encontrar a verdade. Desde o Iluminismo os ocidentais têm cultuado a ciência quase como uma religião, reforçada pelo pensamento do filósofo Nietzsche, que tendia a um Deus que estava morto. Entretanto, hoje a tendência culmina ao renascimento religioso, pois a ciência juntamente com a tecnologia não respondem ao homem o significado da vida. É obvio, portanto, à medida que se observa a modernidade, observa-se também o papel terapêutico que algumas igrejas vêm realizando. Assim, associando esse fato ao declínio das religiões nas décadas de 60 e 70, está o valor que se dá atualmente à subjetividade, em que perguntas do tipo “quem sou eu?” ou “qual o significado da minha vida?” só podem ter respostas subjetivas. No entanto, parece não haver muitas aprovações para a vida introvertida e/ ou subjetiva, pois parece que a sociedade conduz os sujeitos na direção oposta, na tentativa de que encontre respostas para suas perguntas nas questões externas e na objetividade. Isso tende a acarretar maiores conflitos juntamente com aqueles que são “naturais”, pois as respostas estão dentro de cada um. No entanto, parece que a capacidade humana na resolução de conflitos está ligada ao outro como referencial do bom / ruim, certo / errado; então, 258 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional torna-se mais fácil a fé em um Deus que se tem como referencial de vida, e a busca na inserção de grupos religiosos. Segundo Hillman (apud VICENTE, 2000), quanto mais se penetra no mundo interior, mais se sente que os problemas pessoais adquirem uma dimensão humana, passando da individualidade para a universalidade. Assim, o momento religioso deve ser intensamente vivido quando transcende o ego e revela a verdade. Esse pensamento é que, aparentemente, se observa no grupo de Liturgia, bem como na Casa da Juventude, caso não seja uma mera alienação, neurose ou uma fuga de problemas ou conflitos pessoais. Para Yung (apud VICENTE, 2000, p. 94), [...] não é possível chegar à harmonia do ser sem tomar consciência dos valores espirituais e sem um retorno a eles. Ele considera a religião como uma das expressões mais antigas e universais da alma humana e que a ciência, qualquer que seja sua linha, uma vez que se ocupa da estrutura da personalidade humana, deve constatar que a religião é um assunto importante para muitos indivíduos, além de um fenômeno histórico ou sociológico. Percebe-se, ainda, que os jovens envolvidos nesta pesquisa sentem-se atraídos pelas missas, e, à medida do possível, tentam fazê-la mais atrativa, sendo uma das principais tarefas em se tratando desse grupo, justamente, com o intuito de cativar novos jovens para serem fiéis. Assim, os jovens pesquisados acabam devolvendo à religião o papel de integração social e espiritual da juventude. A Casa da Juventude torna-se um lugar onde os jovens podem fazer amizades. Assim, a igreja começa a oferecer aos jovens esse espaço com mais segurança, autoconhecimento e doutrina, transformando-o num lugar onde tais jovens podem praticar a fé espiritual, a sede de transformação social, não no sentido de transformação na estrutura da sociedade, enquanto sistemas sociais, mas com o intuito de ajudar a população excludente. Percebeu-se que os jovens do grupo de Liturgia vivenciam de acordo com a sociedade, um momento pós-moderno, em que não se utiliza apenas um determinado tipo de identidade, e sim, articula-se um tipo para cada momento vivenciado. Dessa forma, pode-se identificar prioritariamente dois tipos de identidade presente no grupo: a Legitimadora, a qual utilizam para propagar a doutrina católica, e de Projeto, que enfatiza a capacidade de reafirmar a identidade legitimadora, a qualquer momento histórico, sua posição na sociedade, buscando uma transformação social, mesclando o pós-modernismo com características tradicionais do catolicismo. Nas aproximações conclusivas acerca do universo urbano periférico, no que tange ao Hip-hop, optou-se por trabalhar com as conceituações acerca 259 Universidade da Amazônia das temáticas: identidades, transculturalidade e processo pedagógico presente no grupo pesquisado, Bancada Revolucionária Gospel. Sendo que se dividiu, em uma primeira perspectiva de discussão, a questão das identidades e transculturalidade, que será enfocada sob a óptica de autores que reproduzem uma visão de mundo e de homem, móvel e em constante transição muitas vezes antagônica no contexto das realidades culturais. Posteriormente, a perspectiva de análise que envolve o processo pedagógico e processo de transição pelo qual os jovens, pertencentes ao grupo, passaram e passam, o que vem, acima de tudo, assegurar a produção de projetos de vida conscientes e intelectuais obtidos por meio da construção educacional, revelados pela prática na atuação dos jovens, no grupo de Hip-hop BRG. Nesse grupo a discussão de maior importância gira em torno da questão relativa à produção de jovens como “autores de si”, constata no grupo, à medida que este jovem é lançado na busca do conhecimento (educação e arte), as práticas construídas ultrapassam as barreiras estigmatizadas do ensino e da educação formal, pois estes jovens do grupo BRG utilizam suas histórias, experiências e ancoram, sobre a aprendizagem, o sentido pedagógico do movimento Hip-hop. Identidades e transculturalidade: construção e reconhecimento grupal Para se falar sobre o tema “ identidade”, faz-se necessária uma explanação que tem como objetivo a construção do conceito ancorado sobre abordagem dos autores: Hall, Castells e Guareschi & Brusch. Dessa forma, destaca-se que não se tem como objetivo tratar de um sujeito uno, concreto, estático e imóvel em sua eterna essência unificada, pois o sujeito do qual se irá tratar é, conforme Hall (2001), um sujeito fragmentado; composto não de uma, mas de várias identidades, algumas vezes contraditórias... Correspondentes, as identidades que compunham as paisagens sociais “lá fora” e que asseguravam nossa conformidade subjetiva com as necessidades objetivas da cultura...processo de identificação, através do qual nos projetamos em nossas identidades culturais (HALL, 2001, p. 12). Na mesma linha de raciocínio, Guareschi & Brusch (2003, p.117), afirmam que a: subjetividade não é o ser, mas modos de ser [...] trata-se de uma produção tributária do social, da cultura, de qualquer elemento que de algum modo, possibilidades de um “si ”, de uma “consciência de si”, que é sempre provisória. 260 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional Dessa forma, ao abordar o jovem pertencente ao grupo Hip-hop, discutese sobre um sujeito recortado não de uma, mas de várias identidades, repletas de significações, simbolizações, maneiras de ser, estar e atuar na sociedade, em que estariam em jogo elementos de identificação grupal, social, individual e fundamentalmente cultural. Assim, acerca das temáticas: identidade e realidade transcultural, Guareschi & Brusch (2003) apontam que os Estudos Culturais vêm propor uma ressignificação, em que o sujeito se expressa na forma como alguém se determina, na composição de grupo, etnia, raça, gênero ou família. Interessandonos os modos de ser que nos compõem na relação com o outro. Nesste sentido, é pertinente afirmar que as identidades se produziriam e se construiriam, cerceadas por uma realidade, fundamentalmente pela transculturalidade, conceito que remete à transgressão das significações e simbolizações culturais. Logo, as mais diversas valorações culturais estariam em constante comunicação e transição. Sobre os quais, Guareschi & Brusch (apud FOUCAULT , 2000), afirmam que: [...] a produção de sentidos e discursos, objetivam determinados modos de ser e de se pensar, construídos culturalmente, não como um multiculturalismo, mas como um jogo de reflexos de um espelho, quando posto diante de outro. O resultado é um reflexo que remete a outro reflexo, sem nunca voltar a uma imagem essencial e primordial, nem tão pouco passível de tingir um fim [...] (FOUCAULT, 200, p. 99). Dessa forma, Sommerman (2002, p. 68) define, em relação à temática, que “o transcultural designa a abertura de todas as culturas para aquilo que as atravessa e as transcende. A percepção do que atravessa as culturas é, antes de mais nada, uma experiência que não pode ser reduzida a uma questão teórica”, visto que a transculturalidade é rica em ensinamentos da vida diária, dos conhecimentos espontâneos e das ações produzidas no mundo. Assim, Sommerman (2002) discorre ainda que o transcultural pode ser entendido como uma experiência, pois diz respeito, também, ao silêncio de diferentes experiências. O espaço entre o nível de percepção e os níveis de realidades, transitórias, abertas e fechadas, ao mesmo tempo, para tudo o que diz respeito a histórias das mais diversas culturas, a mudanças e a estados de ser dos povos, nações, comunidades e formações grupais. Nesse caso, os mais diversos discursos e representações se entrecortam e se transgridem nos mais diversos contextos, uma vez que o jovem da BRG apresenta um processo altamente dinâmico de construção de identidade com diversos elementos: ruptura, contestação e liberdade/libertação, e, ao mesmo tempo, inserção numa disciplina religiosa e organização grupal, com significado 261 Universidade da Amazônia de pertencimento e aceitação grupal. Isso resulta na busca por uma cultura própria, ou uma contracultura, no sentido da inquietação por um caminhar próprio, alimentado e aprofundado por diálogos e reflexões constantes, sendo alicerçado por uma base religiosa ou “referencial” e pelas experiências de vida que cruzaram fronteiras sociais, raciais e políticas. Entretanto, para uma análise mais sintetizada, é válido debruçar-se sobre a discussão das identidades ou identificações sobre as lógicas de atuação, que se justificam pela construção e reconhecimento do jovem na relação de pertencimento ao grupo. Dessa maneira, são destacadas as identidades: da “Cultura Hip-hop” e da religiosidade, como pontos centrais para análise e discussão. Segundo Borda (2004), o “ser evangélico” e o “ser da cultura de rua ou da cultura Hip-hop”, que outrora poderia parecer contraditório, congrega-se no grupo por meio do ideal do “resgate” ou salvacionismo, colocado no discurso e na prática dos membros por intermédio da retirada de jovens do universo das gangues de rua, consumo de drogas, álcool e violência. Define-se, por conseguinte, como o salvar, que acontece por meio da música, política e expressões artísticas manifestadas pela cultura Hip-hop, assim como pela evangelização. Desenvolvendo-se sobre essas duas égides, o chamado Hip-hop Gospel, que Borda (2004, p.6) denomina como o ascético desse movimento, é aquele que é conhecedor da bíblia, um estudioso da causa negra, o que lhe faz um militante e adorador, para isso se concentra em reservar seu tempo para adquirir conhecimentos, que servirão nas suas ações de evangelização por meio do Hip-hop. Sendo assim, a identidade do grupo BRG utiliza-se de uma ética religiosa que, embora recoberta em uma realidade instituinte de atuação, por dialogar com o já instituído, refazendo-o e recriando-o a sua maneira de observar e vivenciar o mundo, atua de maneira ascética, lembrando com clareza do ascetismo defendido por Weber, em que se aborda que a utilização do tempo deve ser canalizada para a vida engajada sob uma óptica social. Nesse sentido, afirma-se que, à medida que o jovem da BRG entra em contato com a negação dos valores relativos ao consumo do álcool, drogas e culto da violência, ele passa a canalizar sua atuação para os valores relativos àquilo que o grupo apresenta como de suma importância (evangelização e conscientização). Nesse momento, acontece um processo de transição subjetiva, em que os valores do grupo e suas respectivas identificações passam a reproduzir-se sobre cada membro engajado. Logo, considera-se que a identidade grupal é reproduzida na lógica de vida dos jovens, já que esses passam a atuar e congregar sobre os mesmos ideais fundamentados pelo grupo, embora identidades anteriores não sejam completamente abandonadas; visto que rompem com uma identificação anterior 262 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional em relação ao mundo das gangues, mas ainda utilizam elementos simbólicos relativos a esse mundo, como os codinomes ou “vulgos”. É importante esclarecer que a utilização simbólica de tais elementos constitui-se dentro de uma lógica diferente, que já não mais se encerra na marginalidade e na violência, e sim como uma forma se ser visto, ou conhecido artisticamente pelo codinome de significância efetiva a cada jovem. Nesse contexto, o “ser negro e da periferia” também se encontra como reflexo da identidade dos membros da BRG, uma vez que a luta contra a exclusão sócio-racial dos negros, pertencentes a um espaço marginal socialmente excluído, é vivenciado no cotidiano dos jovens não como meras rotulações, mas como referenciais incrustados nas vivências constituídas por uma cadência de biografias comuns retratadas pela violência familiar, envolvimento com drogas e falta de oportunidades e projetos pedagógicos como formas de apropriação do espaço público para gerar educação às comunidades carentes. Além do “ser negro”, aparece no grupo também o “ser revolucionário” no sentido da denúncia às mazelas da segregação social, da questão negra e da mudança do quadro caótico a que esse seguimento foi condenado. Identidade dos jovens do grupo que podem ser referenciadas por meio do conceito de identidade de “resistência” proposto por Castells (2001), em que a identidade de resistência corresponde àquela a qual os sujeitos, em condições desvalorizadas e estigmatizadas, constroem para fazer frente de sobrevivência a princípios diferentes dos que permeiam as instituições socais. Dessa forma, evidenciam-se as formas de ser jovem no grupo Hip-hop, concluem-se nas suas múltiplas maneiras de ser e se posicionar socialmente por meio de práticas, ideologias e ideais de vida. A inserção no grupo Bancada Revolucionária Gospel representa, acima de tudo, a construção de identidades militantes e evangelizadoras, que têm como objetivo a produção de mudança para a comunidade periférica por intermédio da educação, verbalizada pelo grupo como a proposta de “ informação para periferia” por meio da conscientização racial, social e política. Castells (2001) define esse tipo de evidência como as origens de resistências coletivas, representante de parcelas estigmatizadas da população, ou seja, significantes atores sociais que manifestam projetos de vida pertinentes contra a opressão produzida por sistemas sociais excludentes e manipuladores. Processo Pedagógico Grupal: a transição, conscientização e projeto De acordo com Diógenes (1998), o processo de transição pelo qual os jovens do movimento Hip-hop passam pode ser definido como uma “transmutação de valores por dentro”, em que o funk é substituído pelo rap, a coreografia do funk é substituída pelo break, as “pichações” pelo grafite, em que a violência e as práticas desregradas são substituídas por uma tomada de consciência. 263 Universidade da Amazônia Cardoza (2004) discute a origem e o caráter desse “resgate” realizado pelo Hip-hop do universo das drogas e da delinquência juvenil à inserção social e educação popular engajada com o compromisso a comunidade, visto que: As propostas pedagógicas que estão sendo construídas pelo Hip-hop no Brasil, caracterizam-se como não formal e/ou informal, rompem com a hierarquia de poder constituída na modernidade entre adultos como educadores e escola como poder formal de ensino, para colocar os jovens e adolescentes militantes do movimento como seres protagonistas de ações propositivas que contribuam para soluções dos problemas de nossa sociedade (MAGRO, 2002, p 10.). A violência, os roubos e os palavrões vão sendo substituídos, sublimados e redirecionados ao enfoque engajado da mudança da condição social, para “autores de si”, de seus processos educacionais, pela busca da instrução que ultrapassa os muros da escola e de um ensino formal burocratizado e por muitas vezes excludente. Barreiro (1980) afirma que a conscientização começa pela descoberta do significado e dos valores que envolvem a ideia de pessoa humana. E é importante, para começar a compreendê-la, saber como se interpreta essa pessoa, ou seja, como é o homem e como está em seu mundo, em seu meio. Dessa forma, esses jovens tornam-se de grande importância à valoração da mudança, do estudo, da arte e, principalmente, do outro, que já não é mais simplesmente aquele aquém das aspirações, mas aquele que faz parte do indíviduo, de que necessita para aprender, desenvolver e constituir. Assim, conclui-se o processo pedagógico do grupo, que se perpetua, principalmente, no que diz respeito à aprendizagem. Segundo Cardoza (2004), a educação a que o grupo se refere está relacionada ao conceito de cultura e contextualização da realidade de vida, feita e transmitida por intermédio de uma juventude atuante e disposta a repassá-la. Isso significa uma abordagem enquanto forma de ensino/aprendizagem, adquirida ao longo da vida dos cidadãos pela leitura, interpretação e assimilação dos fatos, eventos e acontecimentos que os indivíduos fazem de forma isolada ou em contato com seu universo social (MONTEIRO & SANTOS, 2001). Desse modo, os sujeitos pertencentes à BRG tornam-se em grande escala, “autores de si” e de seus processos educacionais. Portanto, propõe-se o entendimento de outros modos de ser jovem e adolescente; a transgressão do evidente para a possibilidade de se entrar em contato com o “diferente”, constatando-se a alternativa da construção de um olhar mais livre e desmistificado diante das diversidades culturais. Tais práticas devem estar em prol de uma educação efetivamente para todos os modos de ser e estar em uma sociedade, que é recoberta por um panorama que tem como construção fundamental o contexto transcultural das transgressões simbólicas da realidade. 264 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional De acordo com Sommerman (2002), a transculturalidade lançaria as diferentes facetas do ser humano, a fertilização de uma cultura em muitas outras culturas, mediante a decifração de sentidos, processos educacionais, simbólicos e transitórios; ao mesmo tempo em que uniria um sentido ser humano, poderia ultrapassá-lo e ir muito mais além desse. Por fim, a Quadrilha Junina “Flor do Paraíso” se destaca como um grupo que apresenta relevância social e cultural no que tange principalmente às relações familiares, tendo em vista a transmissão de valores, crenças e hábitos historicamente construídos. A religiosidade também perpassa como um fator marcante na vida dos jovens entrevistados e da própria coordenação da quadrilha junina, por ser vista por eles como a base de todos os valores construídos social e espiritualmente. É interessante destacar essa busca de identidade de jovens num bairro de periferia, com muitas dificuldades sociais, girando em torno de liberdade e exposição pública. No primeiro aspecto manifesta-se a vontade de sair do lugar e ao mesmo tempo da situação social, romper com as adversidades cotidianas, dançar, brincar, sentir prazer. O segundo aspecto tem a ver com a construção de autoestima, de ser alguém, de se manifestar publicamente e mostrar a sua capacidade. Nesse sentido, a identidade é uma forma de responder simbolicamente ao contexto social. Portanto, a expressão cultural do “folclore” é um meio positivo de construir a sua identidade. Positivo por agrupar os jovens como numa família substituta, unidos por um mesmo objetivo, mas ao mesmo tempo, por indicar valores éticos de respeito e consideração, de negação às drogas e à violência. Essas posturas positivas são automaticamente inerentes ao folclore, mas recebem o seu formato específico pela história e pela tradição, transmitido pela família inspiradora e incentivadora, assim como pela religião que perpassa, não de forma explícita, mas motivadora – orientadora do processo educativo. Outrossim, vale ressaltar que esse grupo de jovens se mantém unido enquanto dura a quadra junina, mas a cada ano ocorre um “entra e sai” de brincantes, alterando a sua composição, ou seja, alguns permanecem dançando ano após ano, e mantêm a unidade da quadrilha; mas não há como negar o processo de permanente renovação decorrente de certa rotatividade. No entanto, apesar de tal dispersão ao final das festas juninas, em geral, os brincantes se mantêm em permanente contato entre si e com a coordenação, reforçando o aspecto de socialização decorrente da família substituta. É claramente percebido que a Quadrilha apresenta vínculo familiar muito forte, especialmente por se tratar de um grupo que começou a dançar para alegrar a rua. Seus componentes, todos adultos, em grande maioria pertenciam a mesma família. Anos depois, os adultos brincantes foram saindo, pois muitos formaram suas famílias, dando lugar aos jovens, adolescentes e crianças, que passaram a “ilustrar” cada vez mais a “Flor do paraíso”. Entretanto, 265 Universidade da Amazônia são mantidos fortes laços de família, pois de uma geração a outra continuam dançando filhos, netos, bisnetos e assim por diante. A importância dada à família está presente tanto no discurso dos jovens brincantes quanto na coordenação do grupo. Para eles, a família é o começo, é a base, o alicerce de tudo, é o pilar de uma formação sólida e de uma educação para a vida. Dessa forma, nesse cenário, a cultura amazônica se tornou algo de referência para os jovens a qual propicia um meio de expressão e fortalecimento. Portanto, o grupo cria concretamente uma sensação de pertencimento. Mesmo que não ofereça aparentemente nenhuma vantagem material ou social, a participação na quadrilha representa um processo de exercício de poder e liderança dos atores num cenário de vulnerabilidade social da periferia. Nesse horizonte, os jovens enfrentam o mundo com uma postura mais afirmativa, com pontos de vista mais definidos de identificação, sobre as influências da mídia, assim como sobre as drogas e a violência. 266 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional REFERÊNCIAS A FORMAÇÃO da população Brasileira. 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Rio de Janeiro: Record, 1996 272 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional NOTA SOBRE OS AUTORES ALLAN KALIL ABDON MARTINS é Sociólogo e acadêmico de Direito. Pós-graduando Lato e Sensu em Psicologia jurídica e políticas públicas com ênfase em violência doméstica e familiar pela Faculdade de Belém - FABEL. Desde 2003 vem atuando em projetos de pesquisa, monitoria e extensão, tais como: Pelo indivíduo e pelo ambiente: travessias de saberes sobre o cuidar cotidiano de populações ribeirinhas, no estuário amazônico - PIPA II (2003); Encontros Transculturais – PET (2004); Monitor da disciplina Métodos e Técnicas de Pesquisa (2004); Diagnóstico da qualidade das relações sociais na comunidade escolar (2005) e Agenda Criança Amazônia (2006/2008) vinculados a Universidade da Amazônia – UNAMA, Fundação Instituto para o Desenvolvimento da Amazônia - FIDESA e Conselho Nacional de Pesquisa – CNPq. DIRK JURGEN OESSELMANN (ORG), graduado em Teologia. Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo. Doutor em Educação pela Universidade de Hannover (1998). É professor titular da Universidade da Amazônia – UNAMA. FERNANDA DO SOCORRO SANTOS FERREIRA, é Geógrafa e especialista em produção familiar rural e ciências sociais pela Universidade Federal do Pará (UFPA) e Museu Paraense Emílio Goeldi (MPGE). Foi bolsista de aperfeiçoamento da Fidesa e DTI do CNPq no âmbito do Projeto “Encontros Transculturais: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores/as numa comparação internacional”, atuando mais especificamente, sobre o universo ribeirinho da pesquisa. Desde 2005 reside na região do Baixo Amazonas (PA), onde atua como Assistente de Pesquisa I no Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia – IPAM. ISABELA FONSECA CARDOZA, Psicóloga graduada pela Universidade da Amazônia – UNAMA. ITANEIDE FERNANDES SILVA, graduada em Serviço Social pela Universidade da Amazônia - UNAMA no ano de 2002. Pesquisadora Júnior na pesquisa “Violência nas escolas” da UNESCO em 2003 e Pesquisadora de campo do Censo do Terceiro Setor do Pará em 2004. Bolsista de Apoio Técnico do CNPq do Projeto “Encontros Transculturais: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores/ as numa comparação internacional”, em 2003 e 2004, atuando mais especificamente, sobre o universo centro urbano da pesquisa. Desde 2006 reside na região do Baixo Amazonas (PA), onde atua como Assistente Social do Grupo Orsa/ Fundação Orsa. 273 Universidade da Amazônia MARIA JOSÉ ARAÚJO CAMPOS, é graduada em Pedagogia – Ciências da Educação pela Universidade da Amazônia – UNAMA. Bolsista de Iniciação Cientifica do projeto Encontros Transculturais em 2003. É pós-graduada em Docência do Ensino Superior pela Faculdade do Pará – FAP (2004) e em Educação Inclusiva pela Universidade do Estado do Pará – UEPA (2007). Atualmente atua como diretora na Escola Municipal de Belém “Nestor Nonato de Lima”. MARIA LÚCIA DIAS GASPAR GARCIA (ORG), Assistente Social, Mestre em Serviço Social/UFPE. Professora do Curso de Serviço Social da Universidade da Amazônia. De 1999 a 2007 atuou como coordenadora do Laboratório de Serviço Social da Unama. Teve atuação em pesquisas da UNESCO. Coordenadora do projeto de extensão e pesquisa Agenda Criança Amazônia. MARCYETTE CALDAS TOJAL, Pedagoga formada pela Universidade da Amazonia – UNAMA. Especialista em Gestão Empresarial pelo Instituto Brasileiro de Pesquisa e Extensão - IBPEX e Gestão Escolar pela Universidade Estadual do Pará – UEPA. Aluna concluinte do curso de Ciências Sociais com ênfase em Sociologia pela Universidade Federal do Pará - UFPA. Foi bolsista de aperfeiçoamento do projeto “Encotros Transculturais” na UNAMA em parceria com CNPq e FIDESA. Atualmente é Professora do curso de formação de professores da Universidade Estadual Vale do Acaraú - UVA. MAYLA NENO MARQUES, Psicóloga, com Pós-graduação em Terapia Familiar e Gestão com Pessoas, bolsista de Iniciação Científica do Projeto “Encontros Transculturais: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores/ as numa comparação internacional” no ano de 2004, atuando mais especificamente, sobre o universo centro urbano da pesquisa. Atualmente trabalha como Psicóloga Organizacional em empresa de grande porte realizando R&S, T&D e, participando, como voluntária e secretária, de projetos de Responsabilidade Social. Também atua como Psicóloga clínica. MICHELLE DOS SANTOS OLIVEIRA, Assistente Social graduada pela Universidade da Amazônia – UNAMA. NELIZA MARIA TRINDADE DE AZEVEDO, é Assistente Social; Especialista em Serviço Social e Produção de Conhecimento na Região Amazônica. Mestre em Serviço Social pela Universidade Federal do Pará - UFPa. SIMONE VILHENA VENTURA NOVAIS, é graduada em Pedagogia – Ciências da Educação (2004) pela Universidade da Amazônia – UNAMA. É especialista em Psicologia Educacional com ênfase em Psicopedagogia pela Universidade Estadual do Pará – UEPA (2007). Durante formação acadêmica atuou como bolsista no programa de Iniciação Cientifica vinculada ao projeto “Encontros Transculturais: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores 274 ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional numa comparação internacional”. Atualmente trabalha com Pedagogia Empresarial atuando em hospitais com projetos voltados para a humanização na área da saúde. SUELLEN ADRIENNE SARAIVA DE OLIVEIRA, Psicóloga graduada pela Universidade da Amazônia – UNAMA. VERA LÚCIA NASCIMENTO DE SOUZA, é formada em Serviço Social pela Universidade da Amazônia – UNAMA; Mestre em Serviço Social pela Universidade Federal do Pará – UFPa. Foi bolsista de aperfeiçoamento da FIDESA através do projeto “Encontros Transculturais: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa comparação internacional” com atuação específica na pesquisa sobre o universo centro-urbano. Atualmente trabalha na Secretaria Municipal de Trabalho e Cidadania (Ananindeua/Pa) como Assistente Social. 275 Universidade da Amazônia 276