ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
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Universidade da Amazônia
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as)
numa comparação internacional
Equipe Técnica
Pesquisadores
Dirk Jurgen Oesselmann (Coord.)
Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo.
Doutor em Educação pela Universidade de Hannover (1998). É professor titular
da Universidade da Amazônia – UNAMA.
Maria Lúcia Dias Gaspar Garcia (Coord.)
Assistente Social, Professora do Curso de Serviço Social da UNAMA.
Mestre em Serviço Social pela UFPA
Consultor
Gercilene Teixeira Costa
Antropóloga. Professora da Faculdade do Pará - FAP
Marcelo Nazaré Magno
Bacharel e Licenciado em História
Bolsistas de Iniciação Científica/Aperfeiçoamento - Unama e CNPq
Allan Kalil Abdon Martins
Fernanda do Socorro Santos Ferreira
Isabela Fonseca Cardoza
Itaneide Fernandes Silva
Marcyette Caldas Tojal
Maria José Araújo Campos
Mayla Neno Marques
Michelle dos Santos Oliveira
Simone Vilhena Ventura Novais
Suellen Adrienne Saraiva de Oliveira
Vera Lúcia Nascimento de Souza
Revisão de texto
Carol Gama
Normalização
Allan Kalil Abdon Martins
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ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
DIRK JÜRGEN OESSELMANN
MARIA LÚCIA GASPAR GARCIA
(Organizadores)
Allan Kalil Abdon Martins
Fernanda do Socorro Santos Ferreira
Isabela Fonseca Cardoza
Itaneide Fernandes Silva
Marcyette Caldas Tojal
Maria José Araújo Campos
Mayla Neno Marques
Michelle dos Santos Oliveira
Simone Vilhena Ventura Novais
Suellen Adrienne Saraiva de Oliveira
Vera Lúcia Nascimento de Souza
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de
educadores(as) numa comparação internacional
Belém
UNAMA
2010
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Universidade da Amazônia
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de
educadores(as) numa comparação internacional
© 2010, UNIVERSIDADE DA AMAZÔNIA
REITOR
Édson Raymundo Pinheiro de Souza Franco
VICE-REITOR
Antonio de Carvalho Vaz Pereira
PRÓ-REITOR DE ENSINO
Mário Francisco Guzzo
PRÓ-REITORA DE PESQUISA, PÓS-GRADUAÇÃO E EXTENSÃO
Núbia Maria de Vasconcellos Maciel
SUPERINTENDENTE DE PESQUISA
Ana Célia Bahia
SUPERINTENDÊNCIA DE EXTENSÃO – SUPEX
Vera Lúcia Pena Carneiro Soares
EXPEDIENTE
EDIÇÃO: Editora UNAMA
COORDENADOR: João Carlos Pereira
SUPERVISÃO: Helder Leite
REVISÃO: Jair Melo
NORMALIZAÇÃO: Maria Miranda
FORMATAÇÃO GRÁFICA: Elailson Santos
“Campus” Alcindo Cacela
Av. Alcindo Cacela, 287
66060-902 - Belém-Pará
Fone geral: (91) 4009-3000
Fax: (91) 3225-3909
“Campus” BR
Rod. BR-316, km3
67113-901 - Ananindeua-Pa
Fone: (91) 4009-9200
Fax: (91) 4009-9308
“Campus” Senador Lemos
“Campus” Quintino
Av. Senador Lemos, 2809
Trav. Quintino Bocaiúva, 1808
66120-901 - Belém-Pará
66035-190 - Belém-Pará
Fone: (91) 4009-7100
Fone: (91) 4009-3300
Fax: (91) 4009-7153
Fax: (91) 4009-3349
Catalogação na fonte
www.unama.br
O28e
Oesselmann, Dirk
Encontro transculturais: sua importância para pensar e agir democrático de
educadores(as) numa comparação internacional / Dirk Oesselmann e Maria Lúcia Gaspar Garcia (Orgs.). – Belém: Unama, 2010.
276p.
ISBN 978-85- 7691-091-6
1. Cultura. 2. Educação 3. Transculturalidade. I. Garcia, Maria Lúcia Gaspar.
II. Martins, Alan Kalil. III. Ferreira, Fernanda do Socorro Santos. IV. Cordoza, Izabel
Fonseca. V. Silva, Itaneide Fernandes. VI. Tojal, Marcyette Caldas. VII. Campos,
Maria José Araújo. VIII. Marques, Mayla Neno. IX. Oliveira, Michelle dos Santos.
X. Novais, Simone Vilhena Ventura. XI. Oliveira Suellen Adrienne Saraiva de. XII.
Souza, Vera Lúcia Nascimento de. XIII.Título.
CDD 306
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LISTA DE FIGURAS
Figura 1 - Mapa da Reserva Indígena Anambé ................................................ 33
Figura 2 - Residência típica Anambé ............................................................... 35
Figura 3 - O rio como espaço de lazer e higienização .................................... 38
Figura 4 - Planta da Comunidade de Caruaru ................................................. 49
Figura 5 - Apresentação do grupo durante o Festival das Águas ................... 56
Figura 6 - Meninos em grupo se divertem a margem do rio ........................... 77
Figura 7 - Meninas reunidas aguardam o início do ensaio ........................... 83
Figura 8 - Localização da PIB no bairro de Nazaré – Belém/Pa ................... 105
Figura 9 - Classe de adolescentes da EBD-PIB .............................................. 110
Figura 10 - Localização da Casa da Juventude – CAJU .................................. 131
Figura 11 - Jovens em suas atividades litúrgicas – Momento de comunhão ... 150
Figura 12 - Jovens em suas atividades litúrgicas – Momento de
organização do altar da Igreja ...................................................................... 151
Figura 13 - Jovens do grupo (BRG) na Biblioteca Kilombo do Saber ............ 158
Figura 14 - Jovem em oração – Momento do Culto ....................................... 170
Figura 15 - Jovem pertencente ao grupo BRG ................................................ 174
Figura 16 - Quadrilha Junina “Flor do Paraíso” ........................................... 196
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Sumário
PREFÁCIO ............................................................................................................ 11
INTRODUÇÃO ...................................................................................................... 13
1 POR UMA PRIMEIRA PROBLEMATIZAÇÃO: CENÁRIOS, CONCEITOS E OPÇÕES ... 15
1.1 CENÁRIO GLOBALIZAÇÃO .............................................................................. 15
1.2 COMO ENTENDER “CULTURA”?. ..................................................................... 19
1.3 FORMAÇÃO DE IDENTIDADE ......................................................................... 21
1.4 DEFINIÇÕES “INTERCULTURALIDADE” E “TRANSCULTURALIDADE” ................ 23
1.5 AS JUVENTUDES NA AMAZÔNIA ..................................................................... 25
2 METODOLOGIA DO TRABALHO DE CAMPO .................................................... 27
2.1 PESQUISA DE CAMPO .................................................................................... 27
3 UNIVERSOS PESQUISADOS .............................................................................. 29
3.1 UNIVERSO INDÍGENA .................................................................................... 29
3.1.1 Grupo Indígena Anambé: Resistência Étnica e Identidade ..................... 29
3.1.1.1 Reserva indígena Anambé: localização e história ............................... 29
3.1.1.2 Influências regionais ............................................................................ 31
3.1.1.3 Os Anambé hoje: interagindo com o outro ........................................... 34
3.1.1.4 Equipamentos comunitários e vínculos institucionais ....................... 36
3.1.1.5 Adolescentes e jovens Anambé: cultura e perspectivas ...................... 36
3.1.2 Visões de Mundo e de Futuro: o olhar sobre o grupo pesquisado ........ 38
3.1.2.1 Relacionamento com a família ............................................................. 39
3.1.2.2 Cotidiano e preferências ....................................................................... 39
3.1.2.3 Religião .................................................................................................. 40
3.1.2.4 Política ................................................................................................... 40
3.1.2.5 Juventude ............................................................................................... 41
3.1.2.6 Relações de gênero ................................................................................ 41
3.1.2.7 Conflitos no grupo ................................................................................. 42
3.1.2.8 Sonhos e perspectivas em relação ao futuro ....................................... 42
3.1.3 O Pensar e Agir dos Educadores na Aldeia dos Anambé ........................ 43
3.2 UNIVERSO RIBEIRINHO ................................................................................. 46
3.2.1 O Rio e a Mata na Construção de Identidade de Jovens Ribeirinhos
na Comunidade de Caruaru, Mosqueiro (Pa). .......................................... 46
3.2.1.1 Considerações gerais sobre a área de estudo: a Ilha do Mosqueiro .... 46
3.2.1.2 A Comunidade de Caruaru ..................................................................... 47
3.2.1.3 Notas sobre o processo de constituição do grupo “Raízes do Caru-Aipim” .. 51
3.2.2 Apresentação e Discussão dos Resultados Quanti-qualitativos:
identificação e características pessoais ................................................ 58
3.2.2.1 Gênero e faixa etária ............................................................................. 58
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3.2.2.2 Estado civil, número de filhos, cor da pele e nível de escolaridade ... 59
3.2.2.3 Condições socioeconômicas dos integrantes: ocupação ...................... 2
3.2.2.4 Situação dos jovens quanto à moradia: local de domicílio e
número de moradores por domicilio ................................................... 62
3.2.2.5 Relacionamento com os familiares ...................................................... 63
3.2.2.6 Meio de transporte e meio de informação mais utilizado .................. 64
3.2.2.7 Formas de lazer e ocupação do tempo livre ......................................... 65
3.2.2.8 Hábitos e padrões alimentares ............................................................. 67
3.2.2.9 Religião e religiosidade entre os jovens de Caruaru ........................... 68
3.2.2.10 Participação política ........................................................................... 70
3.2.3 Organização dos Jovens em Torno do Grupo ............................................ 72
3.2.3.1 Formas de inserção e objetivos do grupo ............................................ 72
3.2.3.2 Frequência e participação .................................................................... 74
3.2.3.3 Pontos positivos e negativos no grupo ................................................ 74
3.2.3.4 Relacionamentos vivenciados no grupo .............................................. 76
3.2.3.5 Avaliação da participação .................................................................... 77
3.2.3.6 Conflitos no grupo ................................................................................. 79
3.2.4 Grupo Como Processo Educativo .............................................................. 82
3.2.4.1 Qualificação pessoal e profissional .................................................... 82
3.2.4.2 Desafios do grupo ................................................................................. 82
3.2.4.3 Relações de gênero no grupo ................................................................ 82
3.2.4.4 Perspectivas dos jovens em relação ao futuro .................................... 83
3.2.4.5 Significado de ser jovem ....................................................................... 85
3.2.4.6 Representações de juventude ribeirinha na comunidade de Caruaru ........ 87
3.2.4.7 Elementos de identificação entre os jovens ......................................... 89
3.2.5 Perfil dos Educadores e Personalidades do Processo Educativo .............. 92
3.2.5.1 Perfil dos educadores ........................................................................... 92
3.2.5.2 Relações familiares, cotidianos e preferências dos educadores ....... 93
3.2.5.3 Religiosidade e participação política dos educadores ....................... 93
3.2.5.4 Histórico do grupo, mudanças e transformações ................................ 94
3.2.5.5 Conflitos no grupo ................................................................................. 96
3.2.5.6 Relações de gênero no grupo ................................................................ 97
3.2.5.7 Grupo como Processo Educativo .......................................................... 97
3.2.5.8 Avaliação da prática educativa ............................................................ 99
3.2.5.9 Percepção dos educadores em relação à juventude ......................... 102
3.3 UNIVERSO CENTRO URBANO ...................................................................... 102
3.3.1 Encontros Transculturais: uma reflexão acerca do processo de
formação de identidade religiosa a partir dos adolescentes da
Primeira Igreja Batista - Bip ..................................................................... 102
3.3.1.1Contextualizando o universo Centro Urbano: a Cidade de Belém ...... 102
3.3.1.2 O espaço urbano de Belém .................................................................. 103
3.3.1.3 O espaço pesquisado: Primeira Igreja Batista - PIB .......................... 104
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3.3.1.4 Identidade religiosa e referências culturais da PIB .......................... 105
3.3.1.4.1 Sua história ........................................................................................ 106
3.3.1.4.2 Sua estrutura ..................................................................................... 106
3.3.1.4.3 Sua denominação .............................................................................. 107
3.3.1.4.4 Sua identidade religiosa .................................................................... 107
3.3.1.4.5 Breve histórico sobre a Escola Bíblica Dominical – EBD ..................... 108
3.3.1.5 Os Adolescentes da EBD ...................................................................... 109
3.3.1.5.1 Perfil Social ........................................................................................ 111
3.3.1.5.2 Gênero e idade ................................................................................... 112
3.3.1.5.3 Cor ..................................................................................................... 112
3.3.1.5.4 Grau de escolaridade ......................................................................... 113
3.3.1.5.5 Principais meios de comunicação, transporte e lazer ........................ 113
3.3.1.5.6 Família ............................................................................................... 114
3.3.1.5.7 Religião .............................................................................................. 115
3.3.1.5.8 Vida cotidiana dos adolescentes ....................................................... 115
3.3.1.5.9 Relações familiares dos adolescentes ................................................ 117
3.3.1.6 Os Adolescentes e sua inserção no grupo EBD .................................. 118
3.3.1.6.1 Relações no grupo ............................................................................. 120
3.3.1.6.2 Conflitos no grupo ............................................................................. 121
3.3.1.6.3 O grupo como processo educativo .................................................... 121
3.3.1.6.4 Relações de gênero no grupo ............................................................ 122
3.3.1.7 O Ponto de vista dos adolescentes ..................................................... 123
3.3.1.7.1 Religião .............................................................................................. 123
3.3.1.7.2 Política ............................................................................................... 125
3.3.1.7.3 Sonhos e perspectivas ........................................................................ 126
3.3.1.7.4 Percepções dos adolescentes sobre juventude .................................. 126
3.3.1.7.5 Elementos de identificação dos adolescentes da EBD ....................... 127
3.3.2 Um Breve Olhar Acerca da Construção de Identidade de Jovens
Católicos da Casa da Juventude / Caju .................................................... 129
3.3.2.1 A Casa da Juventude / Caju ................................................................. 129
3.3.2.2 O entorno da Caju ............................................................................... 130
3.3.2.3 Breve histórico da Casa da Juventude – Caju ..................................... 130
3.3.2.4 Sua estrutura ........................................................................................ 133
3.3.2.5 A Justificativa ....................................................................................... 134
3.3.2.6 Os objetivos ......................................................................................... 134
3.3.2.7 A filosofia ............................................................................................. 135
3.3.2.8 O Grupo de Liturgia da Casa da Juventude ......................................... 136
3.3.2.8.1 Perfil social do grupo de liturgia ....................................................... 137
3.3.2.8.2 Gênero, idade e cor ............................................................................ 138
3.3.2.8.3 Grau de escolaridade ......................................................................... 139
3.3.2.8.4 Principais meios de comunicação, transporte e lazer ........................ 139
3.3.2.8.5 Família ............................................................................................... 140
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ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
3.3.2.8.6 Lugar de moradia .............................................................................. 140
3.3.2.8.7 Religião .............................................................................................. 140
3.3.2.8.8 Entrevistas .......................................................................................... 141
3.3.2.8.9 Cotidiano e preferências .................................................................... 142
3.3.2.8.10 Relacionamento com a família ........................................................ 143
3.3.2.8.11 Inserção no grupo de liturgia .......................................................... 145
3.3.2.8.12 Relacionamento no grupo ............................................................... 146
3.3.2.8.13 Conflitos no grupo ........................................................................... 147
3.3.2.8.14 O grupo enquanto processo educativo .......................................... 147
3.3.2.8.15 Relações de gênero no grupo ......................................................... 148
3.3.2.9 Os pontos de vista dos Jovens ........................................................... 148
3.3.2.9.1 Juventude e religião ........................................................................... 148
3.3.2.9.2 Política ............................................................................................... 152
3.3.2.9.3 Sonhos e perspectivas em relação ao futuro ..................................... 153
3.3.2.9.4 Percepções sobre juventude ............................................................... 153
3.3.2.10 Formação de Identidade dos Jovens do Grupo de Liturgia .............. 155
3.3.2.10.1 Grupo de liturgia: juventude e identidade ....................................... 156
3.4 UNIVERSO URBANO - PERIFERIA ................................................................. 158
3.4.1 Hip-Hop - Manifestação Cultural, Periferia e Vida ................................. 158
3.4.1.1 O Grupo Bancada Revolucionária Gospel – BRG ............................... 158
3.4.1.2 Aspectos observados pela pesquisa .................................................. 161
3.4.1.2.1 Em relação à raça/cor ........................................................................ 161
3.4.1.2.2 Relações de gênero no grupo ............................................................ 162
3.4.1.2.3 Objetivo do grupo ............................................................................. 163
3.4.1.2.4 Relações vivenciadas ......................................................................... 164
3.4.1.2.5 Conflitos familiares ............................................................................ 164
3.4.1.2.6 Conflitos no grupo ............................................................................. 166
3.4.1.2.7 Lideranças .......................................................................................... 166
3.4.1.2.8 Motivação para entrar no grupo ....................................................... 167
3.4.1.2.9 Mudanças decorrentes da participação no grupo ............................ 169
3.4.1.2.10 Política ............................................................................................. 169
3.4.1.2.11 Religião ............................................................................................ 169
3.4.1.2.12 Trabalho e educação ....................................................................... 172
3.4.1.2.13 Periferia e identidade ...................................................................... 172
3.4.1.2.14 Juventude: sonhos e desafios .......................................................... 172
3.4.1.2.15 Fragmentos de Histórias de Vida: personalidades e trajetórias ......... 174
3.4.1.2.15.1 Pastor Ênfase: o educador e líder espiritual .............................. 175
3.4.1.2.15.2 Rick Hei: das gangues ao hip-hop ............................................... 182
3.4.2 Quadrilha Junina “Flor do Paraiso”: a Expressão do Folclore
por meio da Dança e Música no Urbano Periférico de Belém .............. 188
3.4.2.1 Contextualizando o Universo Urbano Periférico de Belém ................ 188
3.4.2.1.1 Periferia: construção das relações sociais e identidade ............... 188
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Universidade da Amazônia
3.4.2.1.2 O processo de urbanização da cidade de Belém: fragmentos históricos .......... 189
3.4.2.1.3 Periferia e exclusão socioambiental .................................................. 191
3.4.2.2 A quadrilha junina ............................................................................. 194
3.4.2.3 A quadrilha junina “Flor do Paraíso” .................................................. 195
3.4.2.4 Percepções gerais sobre a quadrilha junina “Flor do Paraíso” ............ 198
3.4.2.4.1 Par de brincantes da flor do paraíso ................................................. 198
3.4.2.4.2 Quanto ao gênero e idade ................................................................ 199
3.4.2.4.3 Grau de escolaridade ......................................................................... 200
3.4.2.4.4 Meios de comunicação mais utilizados ............................................. 200
3.4.2.4.5 Lazer preferido ................................................................................... 201
3.4.2.4.6 Moradia ............................................................................................. 201
3.4.2.4.7 Família ............................................................................................... 202
3.4.2.5 Algumas percepções sobre os jovens ................................................. 202
3.4.2.5.1 Relação familiar ................................................................................. 202
3.4.2.5.2 Religiosidade ..................................................................................... 203
3.4.2.5.3 Política ............................................................................................... 205
3.4.2.5.4 Inserção no grupo .............................................................................. 205
3.4.2.5.5 Conflitos internos ............................................................................... 206
3.4.2.5.6 Processo educativo ............................................................................ 208
3.4.2.5.7 Sonhos e perspectivas em relação ao futuro ..................................... 209
3.4.2.5.8 Juventude ........................................................................................... 210
3.4.2.5.9 Folclore .............................................................................................. 212
3.4.2.6 Outras percepções sobre a quadrilha junina “Flor do Paraíso” ....... 213
3.4.2.6.1 Considerações sobre os educadores da quadrilha “Flor do Paraíso” ......... 214
3.4.2.6.2 A história de vida da Vó ..................................................................... 219
4 UMA LEITURA COMPARATIVA DOS UNIVERSOS PESQUISADOS ................... 223
4.1 CULTURA E RELIGIÃO: espaços de criação social ...................................... 249
APROXIMAÇÕES CONCLUSIVAS ........................................................................ 253
REFERÊNCIAS .................................................................................................... 267
SOBRE OS AUTORES .......................................................................................... 273
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ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
P REFÁCIO
O
estudo realizado por Dirk Oesselmann, Maria Lúcia Garcia e um amplo
grupo de pesquisa elegeu um foco de investigação de grande complexidade e atualidade. Ao considerar a Educação no âmbito das relações
culturais, esse estudo desenvolveu metodologias para investigá-la por meio de
manifestações de diferentes valores, crenças, opiniões, posições sociais e habilidades, inaugurando no campo processual do transculturalismo uma pedagogia da transversalidade que materializa a afirmação de Delors (2000, p. 16):
Tudo nos leva, pois, a dar novo valor, dimensão ética e
cultural da Educação e, deste modo, a dar efetivamente a
cada um os meios de compreender o outro na sua
especificidade, de compreender o mundo, na sua marcha
caótica para uma certa unidade.
O desafio enfrentado pelo grupo de compor o saber local, marcado pela
cultura plural e diversa da Amazônia com a cultura científica presente nas
obrigações e nos rigores de um projeto apresentado em uma Universidade,
coloca-nos diante de universos que nos apresentam os elementos simbólicos
da rua, dos índios, da periferia e do centro mais urbanizado. Isso demonstra as
possibilidades da quebra de fronteiras entre tais territórios pela inauguração
de um espaço de comunicação democrática, transubstanciado pelas interações construídas entre sujeitos que pesquisam e sujeitos pesquisados.
A fala dos sujeitos. A fala das universidades. A fala das ruas – urbana,
suburbana. Todos verbalizando direitos, denunciando, expressando seus habitus, organizando a festa e dançando na “quadrilha”, no Hip-hop. Esta pesquisa em
si comprova a possibilidade do encontro da cultura acadêmico-científica com a
cultura popular, situadas em um mundo globalizado e transnacionalizado.
Este grupo de pesquisa, identificado no cotidiano da academia como
“Transculturais”, espelha uma “alma democrática e multicuturalista” na sua
própria composição: Oesselmann, Garcia, Martins, Ferreira, Cardoza, Campos,
Tojal, Marques, Oliveira, Azevedo, Novaes, Saraiva, Silva e Souza. E ao buscar a
11
Universidade da Amazônia
compreensão dos diferentes processos formativos de identidade e sociabilidade nas “tribos” urbanas e suburbanas da Amazônia, em parceria com a Universidade de Hannover, este grupo nos chama atenção para a necessidade de enfrentarmos a cultura autista dos currículos formais - fechados no status que a
tradição da cientificidade lhes assegura.
Pesquisas como estas evidenciam os poros, os fluxos, a respiração e os
sopros de fecundidade da cultura viva que escorre entre os Anambé; os jovens
do Hip-hop; na quadrilha do Satélite; nas atividades religosas da PIB, da Caju
etc. Certamente pavimentarão os caminhos para uma educação democrática,
que parta do respeito ao tempo-espaço das diferenças, da diversidade e do
sentido plural que nos imprimem os grupos estudados.
Seja na Ilha do Mosqueiro (Caruaru); seja em junho no Satélite na festa
junina da Flor do Paraíso; seja na Região do Baixo Rio Tocantins na Comunidade Anambé; seja na Nação de Resistência Periférica com o seu Hip-hop por meio
da Bancada Revolucionária (BRG), cantando gospel: os jovens no mundo sempre serão um sinal de resistência cultural e da construção de novos processos
de busca de identidade.
Os leitores deste livro devem refletir transversalmente sobre os universos culturais analisados, com o intuito de encontrar, em alguma das referências destacadas, o seu “rosto” neste espelho ontológico de identidades que mundializa nossos espíritos e nos intima a ressignificar pedagogias de caráter
participativo e democrático.
Prof. Dr. Carlos Jorge Paixão
(Coordenador do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Educação – UNAMA)
12
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
I
NTRODUÇÃO
O
presente trabalho é o resultado de uma pesquisa, durante os anos de
2002 a 2004, denominada “ENCONTROS TRANSCULTURAIS: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores (as) numa comparação internacional”, desenvolvida pelo Núcleo de Pesquisa e Educação
da Universidade da Amazônia - UNAMA sob a coordenação do Prof. Dr. Dirk
Jürgen Oesselmann e da Profª. Ms. Maria Lúcia Gaspar Garcia, com aprovação
e apoio financeiro da Fundação Instituto para Desenvolvimento da Amazônia –
FIDESA, e Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq.
O tema da pesquisa surgiu, provocado pelo contexto de um crescente
movimento de migração, que tanto provoca a busca incessante de novas possibilidades de subsistência quanto aumenta a mobilidade e a comunicação de
pessoas na era da globalização. Tal dinâmica suscitou, em nível mundial, inúmeros conflitos étnicos, religiosos, culturais e sociais, nos quais populações
se opõem às influências culturais uniformizantes das hegemonias globais, com
o propósito de assegurar a sua própria identidade (OESSELMANN, 2001).
Nesse sentido, esta pesquisa analisou, em uma perspectiva internacional, as experiências regionais de formação de identidades e de busca de projetos coletivos em quatro diferentes universos da região Amazônica: I) populações indígenas em contato com instituições e serviços urbanos; II) populações
ribeirinhas em contato com instituições e serviços urbanos; III) periferia urbana entre identidades sociais rurais e influências urbanas; IV) centro urbano em
meio a influências externas à região.
A proposta fora analisar encontros transculturais, tomando o pressuposto de que devam existir “princípios geradores” (BOURDIEU, 1996) comuns a
essas experiências, por um lado, oriundos da constituição humana; pelo outro,
relacionados a tendências sociais, culturais e econômicas globais. Segundo a
análise de Bourdieu (1996), em toda a diversidade contextual existem elementos constitutivos que indicam formas, lógicas ou dinâmicas, de como as múltiplas forças compõem os determinados campos sociais.
Este trabalho está dividido em quatro partes. A primeira, intitulada
“POR UMA PRIMEIRA PROBLEMATIZAÇÃO”, aborda os cenários nos quais se
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encontra inserido o projeto e nos quais surge a problemática da pesquisa; e
também discorre sobre as categorias de análise, enfocadas durante a pesquisa.
A segunda parte, denominada “METODOLOGIA DO TRABALHO DE CAMPO”, demarca o percurso metodológico e os instrumentais utilizados na pesquisa realizada junto aos grupos de jovens.
Por conseguinte, a terceira parte, “UNIVERSOS PESQUISADOS”, apresenta as análises sobre cada grupo, subdividida em: a) GRUPO INDIGENA ANAMBÉ:
resistência étnica e identidade – estudo realizado junto ao universo indígena,
representado pela população indígena Anambé, da região de Mocajuba - Baixo
Tocantins paraense, de autoria de Neliza Maria Trindade Azevedo; b) ENCONTROS TRANSCULTURAIS: o rio e a mata na construção da identidade de jovens
ribeirinhos na comunidade de Caruaru, Mosqueiro (Pa) – estudo desenvolvido
com os jovens inseridos em um grupo de danças folclóricas, na comunidade de
Caruaru, na Ilha de Mosqueiro (PA), de autoria de Allan Kalil Abdon Martins e
Fernanda do Socorro Santos Ferreira; c) ENCONTROS TRANSCULTURAIS: uma
reflexão acerca do processo de formação de identidade religiosa a partir dos
adolescentes da PIB – trabalho produzido com os adolescentes da Escola Bíblica
Dominical – EBD da Primeira Igreja Batista do Pará – PIB, de autoria de Itaneide
Fernandes Silva; Maria José Araújo Campos e Mayla Neno Marques; d) ENCONTROS TRANSCULTURAIS: um breve olhar acerca da construção de identidade religiosa de jovens católicos, realizado junto aos jovens do Grupo de Liturgia da
Casa da Juventude – CAJU, de autoria de Suellem Adrienne Saraiva de Oliveira e
Vera Lúcia Nascimento de Souza; e) HIP-HOP: manifestação cultural, periferia e
vida – estudo desenvolvido com os jovens do grupo de Hip-hop, denominado
Bancada Revolucionária Gospel – BRG, de autoria de Isabela Fonseca Cardoza e
Michele dos Santos Oliveira; f) QUARILHA JUNINA “FLOR DO PARAÍSO”: a expressão do folclore através da dança e da música no universo urbano periférico
de Belém – trabalho realizado junto ao grupo de jovens da Quadrilha Flor do
Paraíso, do bairro do Satélite, de autoria de Marcyette Caldas Tojal e Simone
Vilhena Ventura Novais.
A quarta parte, “ANÁLISE COMPARATIVA DOS GRUPOS”, discute, de modo
comparativo, contradições, potencialidades, aprendizagens e conflitos inerentes aos grupos estudados. Apresenta, também, a análise dos processos de polarização sócio-cultural e religiosa, e formação transcultural de identidade.
Ressalta-se que os textos elencados nos capítulos mencionados deste
relatório foram apresentados conforme versão entregue pelos bolsistas e colaboradores do projeto de pesquisa, e contaram com a coordenação/organização
dos professores Dirk Jürgen Oesselmann e Maria Lúcia Gaspar Garcia.
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ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
1
POR UMA PRIMEIRA
PROBLEMATIZAÇÃO: CENÁRIOS,
CONCEITOS E OPÇÕES
1.1 CENÁRIO GLOBALIZAÇÃO
Este cenário é demasiadamente discutido em todas as partes do mundo, em um contexto tematizado pela maioria dos estudos nas áreas das ciências humanas. No entanto, a discussão é marcada por generalizações que, ora
condenam a globalização por causa das incertezas individuais e pelas crescentes injustiças sociais, ora glorificam-na pelas “inesgotáveis” possibilidades e
oportunidades tecnológicas. Mesmo que essas diversas análises indiquem, sem
dúvida, campos e tendências de problemas que surgiram ou se agravaram na
era da globalização; deve-se constatar que os julgamentos gerais não ajudam
no aprofundamento dos processos existentes, de alta complexidade e diversidade. Somente a partir do momento que a análise acolhe as relações de construção da realidade em sua dinâmica de multidimensionalidade e multicausalidade, é possível perceber potenciais de mudança gradativa. Ao contrário de se
entregar numa letargia diante de uma globalização “onipotente”, ela deixa de
ser um demônio ou um deus, e passa a ser vista como um fenômeno historicamente construído.
Para afinar a percepção em relação ao cenário global, busca-se inicialmente a distinção de Beck (1997, p. 26-30), um dos sociólogos que mais contribui
nessa discussão. No seu entender, há três formas de conceber o cenário global:
a) Globalização (“Globalisierung”) – que descreve o processo historicamente
construído de interligações e conexões em constante transformação, no qual
o ser humano deve se entender como parte da dinâmica de criação e construção.
b) Globalidade (“Globalität”) – aponta para a situação existente de um mundo
interconectado não só pelas tecnologias, mídias e mercados, mas também
pelas ideias e princípios (por exemplo, o referencial universal dos Direitos
Humanos) fundamentadas nas aproximações humanas existentes.
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c) Globalismo (“Globalismus”) – indica a visão ideológica, por que concebe o
mercado econômico mundial como o motor “natural” e a medida imprescindível do processo de globalização.
Com base nessa análise, observa-se que Beck não se priva de um julgamento político-ético, e identifica, com maior clareza, o campo do problema,
confirmando uma tendência ideológica; no caso, o globalismo, que atualmente
domina o processo de globalização ao instituir politicamente a primazia do
poder econômico, principalmente do capital. Do mesmo modo, o autor distingue dessa ideologia o processo histórico-cultural da globalização e a factualidade das redes da globalidade, desmistificando a conclusão de que o mercado
é algo como um motor natural nesse cenário. O processo de globalização, de
fato, oferece, da mesma forma, possibilidades de interconexões solidárias, redes de controle social e estruturas democráticas.
O aspecto chave, ora abordado, trata da capacidade do ser humano
como ser cultural e ator histórico-social. Ao contrário das possibilidades de
aproximação e interconexão, há uma tendência de se entregar simplesmente à
rede global. Diante de uma complexidade, devido a uma anonimidade nas relações globais, o ser humano precisa redescobrir o seu potencial de (re-)criar e
(re-)construir o seu ambiente vital. É nesse contexto que se situa a discussão
sobre a formação de identidade e a expressão cultural. Ambas expressam o
processo de tomada de posição do ser humano, como indivíduo e grupo, em
relação ao seu contexto de vida.
Portanto, a partir deste Projeto de Pesquisa, busca-se entender essas
dimensões, considerando uma perspectiva pedagógica, na qual o ser humano
torna-se sujeito consciente e liberta-se de imposições culturais e sociais de
massificação que o colocam numa postura de mero receptor, consequentemente, de ideologias, como o globalismo.
A percepção teórica soa simples em face dos conflitos e das lutas, no
campo globalizado, em virtude dos processos de busca de uma identidade cultural. Barber (1997) descreve esse processo por meio de duas tendências opostas e concomitantes: uma homogeneização e um tribalismo, expresso entre os
polos simbolizados “McWorld” e “Dschihad”.
A homogeneização é uma forma de dominação econômica, explícita na
massificação cultural, chamada pelo autor de uma “monocultura americana”. É
articulada, sutilmente, por exemplo, pelas modas ditadas; e levada para as
regiões mais afastadas por intermédio das redes de consumo; para as casas
mais humildes, pela mídia televisiva. Segundo o autor, a diversidade de culturas nacionais está em processo de redução a um “parque temático homogêneo
e global à la Disneyland” (BARBER , 1996, p. 4).
Em contrapartida, o tribalismo é percebido como contrarreação a essa
massificação uniformizada, explícito na formação de particularismos culturais. Em meio a inúmeras formas de expressão, essa tendência pode culminar
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ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
numa postura fechada e radicalizada perante outros grupos culturais. As suas
referências culturais são vistas como absolutas e buscam a sua legitimação, às
vezes, em fundamentos religiosos (fundamentalismo), idealizadas como melhores ante os demais.
Outros autores confirmam que essas tendências podem ser observadas
com mais expressividade no mundo atual mas enfatizam, também, que a globalização não está reduzida a elas. Talvez, seria mais correto entender tal processo como dois polos que exercem uma influência significativa à conjuntura das
relações globais. Dessa forma, a dominação de uma cultura – no momento, a
norte-americana – pode recorrer, na era da globalidade, a uma rede de divulgação e distribuição sempre mais ampla e diversificada para difundir os seus
preceitos. É pertinente sublinhar que, nesse contexto, as expressões culturais
são canais importantes para aprofundar suas influências de poder político na
procura de um consentimento para a sua posição de primazia, já que transmitem, muitas vezes de forma sutil e despercebida, referências de valores ideológicos. A interligação entre poder político, econômico e cultural fica evidente,
sobretudo, na análise da mídia, cujo controle, no Brasil, é concentrado nas
mãos de algumas oligarquias. A busca do consenso ideológico é uma tentativa
de homogeneizar culturalmente os povos, os indivíduos.
É óbvio, no entanto, que a homogeneização não ocorre de uma forma
absoluta por, principalmente, três razões:
a) As estruturas da globalidade não alcançam todos da mesma maneira, o
acesso à mídia ou aos bens de consumo cultural é restrito, tanto por questões materiais, quanto por interesses diversificados.
b) As influências das culturas dominantes frequentemente não são adequadas
às circunstâncias locais, sejam elas originadas em contextos políticos, econômicos ou sociais, em heranças históricas ou em condições geográficas
em cujas adaptações as expressões culturais de cada região justamente se
fundamentam.
c) Indivíduos ou grupos formam a sua identidade entre adaptação e diferenciação; guardam, portanto, nesse processo, uma tendência de se revoltar emocionalmente contra tudo aquilo que lhe for imposto, com uma necessidade
de libertação referente ao que é mainstream para delinear, de fato, os seus
próprios caminhos.
Pelas mesmas razões, o Dschihad, a radicalização em particularismos
regionais com referenciais fundamentalistas, é uma reação extrema, que não
pode ser generalizada. Observa-se que os formadores culturais, baseando-se
em um determinado ponto, tendem a exercer da mesma maneira uma força de
imposição cultural, o que provoca, assim, uma reação à reação.
Diante disso, o mundo não pode ser dividido em adeptos de McDonalds
e fundamentalistas. Volta-se à constatação de que as interconexões e as dinâ-
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Universidade da Amazônia
micas, logo, as formas de exercícios de poder e das reações, são múltiplas e
complexas, em que há indícios, tendências e potenciais; mas não causalidades
lineares ou estruturas estáticas. O que pode então ser identificado como elemento marcante no cenário global?
1. A globalização é formada por comunicações e relações múltiplas e complexas em constante processo de mudança. As causalidades e conseqüências
de ações e reações formam uma rede de apresentação e compreensão difícil.
2. Condenações ou glorificações sumárias generalizantes da globalização refletem uma certa incapacidade de lidar com um cenário complexo.
3. O “globalismo”, a propagação ideológica de um mercado como único regulador das relações globais, encontra na “globalidade” as estruturas de interconexões tecnológicas e humanas, condições favoráveis para a sua dominação mundial. Reforça-se, nessa ideologia, a divisão entre o econômico
e o social, e prevalece a visão de que a economia e o consumo de bens são
isentos de uma responsabilidade social.
4. A globalização determina o cenário mundial, por conseguinte, dilui os limites dos espaços políticos e econômicos (CASTELLS, 2002), acelera as mudanças sociais e provoca um processo de heterogenização, no qual os indivíduos se fragmentam socialmente e encontram os seus referenciais em múltiplos sistemas, grupos e espaços (APPADUREI, 1990).
5. Paralelamente à formação de redes ilimitadas, favorece a idéia de uma
“sociedade mundial” (STICHWEH, 2000), o local ganha uma importância de
uma vivência concreta, necessária ao ser humano.
6. A dominação do mercado capitalista reforçou relações e estruturas de exploração de regiões e populações socialmente mais vulneráveis por aqueles que detêm o capital. A concentração de renda aumenta, mesmo com a
maior produção de bens.
7. Do mesmo modo, a globalização provoca uma maior aproximação e articulação de pessoas, grupos e povos na busca de garantia de mais dignidade e
justiça: discussão sobre os direitos humanos, cúpulas mundiais, ONU, Fórum Social Mundial, rede entre organizações não-governamentais.
Sendo assim, toda a discussão sobre cultura está inserida nesse cenário global. Logo, deve ser contextualizada em relações complexas e múltiplas.
Pesquisar e pensar expressões e relações culturais segue o esforço de entender
melhor as interconexões humanas; apontar para conflitos implícitos e explícitos; elaborar formas para lidar com esses conflitos com o objetivo de participar pedagogicamente da construção do melhor mundo possível1.
1
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Sugestões bibliográficas para a discussão pedagógica: referências nacionais – Paulo Freire, Moacir Gadotti; internacionais – Jacques Delours e Edgar Morim.
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
1.2 COMO ENTENDER “CULTURA”?
Nesse cenário de globalização, é necessário apresentar a conceituação
de cultura. Em geral, quaisquer criações humanas podem ser definidas como
“cultura”: criar, construir, projetar, se expressar ou comunicar, enfim, tudo aquilo
em que o ser humano se distingue do animal, formando o seu mundo vital
conforme a sua maneira.
É válido alertar que o uso do conceito de “cultura” suscita, frequentemente, pressupostos subentendidos, como ao acoplar cultura aos mais considerados valores em uma determinada conjuntura histórica. Pode-se até considerar que, em diversas afirmações, “cultura” torna-se uma posse daqueles que
se destacam em uma dada sociedade ou que se adequam a uma específica
tradição: este ou aquele tem ou não tem cultura. Cultura também coincide com
a percepção de civilização, às vezes, pensada mais como nação ou povo; outras
vezes, como determinados comportamentos e valores considerados “civilizados” ou “cultos”. Já essas conotações na definição de cultura apontam para
uma diferenciação significativa na compreensão, subentendendo-se “cultura”
como formações nacional-institucionais, étnico-raciais ou comportamentalvalorativas. Elias (1977, p.3-23) problematiza tais conotações ao alertar que
cultura e civilização são processos em constante mudança, sem permitir restrições preestabelecidas, como as fronteiras nacionais, por exemplo. Constata-se
aqui que “cultura”, em todo caso, acompanha a criação humana: 1) em seu
ambiente vital (geográfico, climático, estacional) numa tensão de adaptação,
por um lado; e de transformação, pelo outro, e 2) em sua história (relações
sociais e econômicas, tradições e normas) num constante processo de busca
para a garantia do seu espaço de vida.
Entender “Cultura” como processo e movimento se expressa na seguinte
citacão de Baumann (1999, p.26):
Cultura [...] não se pode entender como uma copiadora. Ela
ocorre muito mais como um concerto, ou melhor, como uma
“jam session” improvisada espontaneamente entre
diferentes músicos. Ela existe somente durante a
apresentação, ela não para nem se repete, sem mudar o
seu sentido.
A seguir, desenham-se alguns elementos básicos que identificam a dimensão da cultura na construção das relações humanas:
1. Sistema de orientação
- formas explícitas de
expressão, comportamentos, comunicações;
- predisposição implícita de normas e valores, códigos
subentendidos, referenciais morais, religiosas e ideais.
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Na dimensão histórico-social, cultura não é apenas o ato de construção humana na atualidade, mas o produto de um processo socialmente e historicamente construído; ou seja, carrega em si o que caracteriza e une um grupo
em formas de inter-relações humanas, desde os gestos comportamentais até os
valores subentendidos na interpretação do dia-a-dia e do mundo (hermenêutica do cotidiano). Portanto, encontra-se o que foi gerado no processo histórico
de criação como sistema de orientação normativo-social, religioso-ético.
Culturas expressam também a diversidade de agrupamentos de pessoas em diferentes sistemas referenciais e formas de comunicação. No entanto,
esses grupos culturais fluem e se comunicam entre si, não tendo fronteiras
estáticas de uma para a outra. A percepção de um grupo cultural depende dos
critérios de diferenciação e identificação. Pode-se considerar, por exemplo, a
periferia como um grupo cultural por demonstrar referenciais e expressões
comuns, o que não exclui que existam também outros grupos culturais dentro
da periferia ou por ela perpassando. Bourdieu (1996) aborda adequadamente
essa dinâmica de relações múltiplas entre grupos e referenciais (“habitus”) em
sua concepção de campos sociais.
Toda a complexidade do movimento de construção cultural fica evidente ao se considerar ainda as duas dimensões que acompanham os níveis acima
descritos, com a devida distinção do que é explícito e expresso para fora daquilo que é implícito, subentendido e, muitas vezes, inconsciente.
2. Identificação subjetiva - sensações de segurança e
pertence;
- gostos e prioridades;
- “jeito”: maneiras de ser pessoa, de estabelecer relações
e de formar grupos / comunidades.
Na dimensão individual, a cultura possibilita uma identificação subjetiva de cada pessoa, uma localização simbólica nas relações sociais difusas e
complexas, algo que aponta para uma “identidade” cultural. A pessoa se liga a
um determinado grupo como “seu” (pertence), assume as suas regras e formas
de se relacionar, ao mesmo tempo em que se insere com o seu jeito na formação
do grupo cultural. Cada um precisa que a identidade cultural se concretize num
grupo social para ter um lócus de segurança que lhe possibilite agir socialmente. Quando encontra o seu ponto de partida para ser um ator social, desenvolve,
então, a sua criação cultural.
3. Relação e comunicação social entre Eu e o Outro:
- identificar, diferenciar, negar;
- compreender, ignorar, rejeitar;
- integrar, separar, dividir;
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ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
Portanto, na dimensão das relações interpessoais, a cultura estabelece
formas e qualidades de se relacionar e de se comunicar com o outro, estabelece
também o movimento de construir um projeto de sociedade em base do fato de
expressões culturalmente diferenciadas. A identificação cultural ocorre na distinção de si mesmo de um “outro”, ou seja, a construção do eu cultural acontece
em diferenciação do outro. Consequentemente, é um movimento que oferece
diferentes possibilidades de relações e comunicações, desde a aproximação
até a negação.
Como processo de construção sócio-histórico, a cultura é um movimento ambíguo, que reflete as tendências tanto destrutivas como solidárias das
relações humanas. Assim, pesquisar cultura é, para nós, o ponto de partida
para compreender melhor os conflitos na atual conjuntura e os potenciais,
para recriar as relações de forma mais respeitosa e digna.
Nesse contexto, o olhar da pesquisa é necessariamente um olhar ético na
perspectiva normativa de uma justiça global (BOURN, 2001; The Development
Education Journal, 2000; Osler; Vincent, 2002, entre outros), no qual os pesquisadores, ao mesmo instante em que se colocam como atores culturais nessa mesma
história em transformação que precisa ser direcionada; colocam-se também como
pedagogos, que veem na educação uma forma de dialogar sobre caminhos mais
adequados para relações respeitosas entre os seres humanos.
1.3 FORMAÇÃO DE IDENTIDADE
Aprofunda-se aqui o olhar sobre a formação de identidade cultural
com base em uma reflexão sobre identidade pessoal e social. Para tanto, é
válido pontuar que identidade pessoal tem o seu sentido original oriundo da
ideia de poder existir, ser e estar no mundo, coerente e adequado, que finda por
corresponder a nossa personalidade, idêntica a ela. Em contrapartida, a sociedade marca e moldura as identidades que dela fazem parte. Falar sobre identidade, então, é tratar de questões a respeito da formação interna da personalidade individual e grupal – distinguindo os variados instantes e elementos inerentes a processo –, e, também, da identificação externa de alguém ou de um
grupo em diferenciação a outros (pessoas e/ou grupos).
Em ambas as dimensões, o contexto social é o referencial decisivo
para a formação de identidade. Nele, as pessoas são qualificadas em diversas categorias, como: papéis, status, capital social, por meio do momento histórico; da tradição; da religião; das circunstâncias geográficas e condições
sociais. O ser humano forma a sua identidade dentro e em relação às molduras externas; é, portanto, um produto desse contexto em seu comportamento,
em suas prioridades, em suas opções, em seu pensamento e até em seu gosto.
É tudo aquilo que aprende e sabe, mas também que acha certo e errado, como
se orienta e como reage.
21
Universidade da Amazônia
O ser humano, no entanto, não é apenas produto, mas também produtor, pois a influência do contexto não é consequência direta e necessária; a
relação entre pessoa e seu ambiente de vida não é estática nem linear. Por isso,
a formação de identidade pessoal trata da recepção interna dessas marcas
externas por cada um. A pessoa é, sem dúvida, parte indissolúvel do seu contexto, e, ao mesmo tempo, parte criativa que modifica, constrói e produz as suas
relações que compõe o seu ambiente social.
Marx parte exatamente dessa bidimensionalidade da pessoa como ser
histórico: produto e produtor. Contudo, ele avança na discussão, ao conceber
um nível avaliativo desse processo de construção histórica das relações sociais, considerando a percepção de que a identidade é como um discurso que
pretende dar sentido à realidade social. Portanto, sendo apenas um reflexo do
contexto real, não precisa necessariamente corresponder de fato a ele. Assim,
podem se formar identidades “alienadas”, produtos de ideologias, ou seja, discursos formulados sobre e não em concordância com a realidade.
E, sem se aprofundar mais nessa discussão, se aceita aqui o desafio de
que a formação de identidade não é algo mecânico, sempre coerente com a
vivência real, mas algo que se insere num processo de (tentativas de) coerção
por discursos e sistemas de orientação concorrentes, o que gera um campo de
tensões e conflitos pelo poder. A identidade torna-se, em meio a esse campo de
tensões, para cada pessoa, uma busca constante e crítica de encontrar uma
coerência com o seu contexto, desmistificando os discursos ideológicos.
Entende-se, numa primeira dimensão, a formação de identidade cultural como motor da criação humana. Em forma de percepção mais refinada,
reflexão mais consciente ou sensação de coerência, a identidade evoca uma
maior segurança de si e do seu lugar, e representa no ser humano, principalmente, uma tomada de posição, fazendo dele um ator social, em que a pessoa ou
o grupo torna-se gradativamente sujeito consciente de ação nas relações sociais. Ressalta-se que é sujeito consciente não como resultado ao fim de um
processo, mas como perspectiva de um processo em si, no qual a pessoa ou
grupo busca pensar e agir em coerência consigo, ciente de seus princípios.
Desse modo, a identidade cultural representa algo como um enraizamento, um conscientemente reflexivo e um pertence emocional em relação ao
processo cultural de construção sócio-histórica no qual está inserida. Esperase, em vista disso, descrever essa dimensão de subjetivação como surgimento
de uma predisposição criativa do ator social, com o entendimento de sensação
que “alimenta” esse ator, com o fortalecimento de uma base de ação.
Sem dúvida, a formação de identidade cultural é um processo de tensões,
visto que a tomada de posição como sujeito, conforme apontado acima, sempre
ocorre dentro de um conjunto de relações com “outros”, nas quais cada ator
busca a sua auto-afirmação e a ampliação do seu domínio de ação. A construção
social envolve sempre exercícios de poder entre diversos atores sociais, disputa-
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ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
dos por meio de ideologia e coerção. Nessa perspectiva, a análise sobre processos de formação cultural deve considerar os possíveis cenários de campos de
conflito com diversos interesses, princípios e sistemas de orientações que favorecem uns e exploram outros, que desenvolvem uns ou inibem outros, que elevam
uns, respeitam alguns e desvalorizam outros. Agrupamento e exclusão, pertence e
sem-chão, acolhida e desrespeito, inclusão e dominação; todos são polos de um
mesmo processo de busca, movimento e mudança.
O olhar desta pesquisa é a compreensão das relações complexas nas
quais jovens se agrupam, buscam e formam a sua identidade cultural, posicionando-se no seu contexto social como atores. O foco específico dirige-se ao
conflito entre diversos sistemas de referências culturais nas quais são embutidas tensões sociais, ideologias e tradições. Pretende-se verificar, ao mesmo
tempo, como o contexto global se reflete nas relações locais, quais os indícios
de homogeneização e dominação cultural, por um lado, e de afirmação da diversidade cultural regional, pelo outro. A pesquisa é a tentativa de compreender os jovens nas relações cotidianas em sua complexidade para poder enriquecer a discussão teórica e a preparação prática de lideranças pedagógicas.
1.4 DEFINIÇÕES “INTERCULTURALIDADE” E “TRANSCULTURALIDADE”
Conceitos têm que ajudar na percepção e compreensão das relações
humanas existentes, a sua dinâmica e o seu movimento, a sua origem e a sua
evolução. Portanto, essa aproximação dos conceitos da “inter-” e “transculturalidade” volta-se a sua relevância em redesenhar a realidade, lendo-as no
horizonte das discussões teóricas.
A dificuldade de limitar e identificar com clareza agrupamentos culturais, acima expostos, obriga-nos a conceber conceitos que reflitam a dinâmica
da realidade. A constante e a problemática interligação entre grupos e expressões culturalmente diferentes chegou a tematizar o desafio da “interculturalidade”, com foco nas relações entre culturas, que deixam transparecer uma
formação cultural relativamente homogênica e estável. A “interculturalidade”,
por conseguinte, observa o encontro de identidades já mais definidas e tematiza desafios como:
a) lidar com o diferente;
b) respeitar o outro;
c) traçar formas de convivência em base de princípios comuns;
d) propor um processo de aprendizagem mútuo, sem discriminação e/ou dominação de uma ou outra cultura.
Os estudos, as reflexões e as propostas têm uma relevância significativa, sobretudo em situações de migração de grupos culturais numéricos em
sociedades com uma tradição cultural definida em séculos de história. A abor-
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Universidade da Amazônia
dagem intercultural abrange desde relações cotidianas, como bairro e escola,
até estruturas de sociedades em mudança.
A conceituação “transculturalidade” não pode ser concebida em contradição ao ponto de vista da “interculturalidade”, mas indica que a discussão
deve ser ampliada e diferenciada com o surgimento de culturas híbridas em
contextos de múltiplas influências, interconexões e misturas. “Trans” desenha
o significado de um movimento que se estabelece entre algo identificável, porém, passa, ao mesmo tempo, acima/sobre esses pontos ou momentos, concebendo-os em outro estado e configuração. Sendo assim, nos múltiplos encontros entre pessoas de diferentes origens, nas influências constantes das mídias;
as formações culturais não permanecem estáticas, cada uma em sua identidade, pois se transformam e se transfiguram mutuamente até o ponto que dificilmente se pode delimitar com clareza um determinado grupo cultural.
A “transculturalidade” dirige o seu olhar para desafios como:
a) as múltiplas influências como, por exemplo, da mídia, da propaganda ideológica, dos modismos, u.a.
b) as biografias e as histórias de vida, configurando uma identidade pessoal
como mistura de culturas, algo “acima” de culturas claramente identificáveis;
c) surgimento de culturas híbridas em contextos de tensões sociais e conflito
cultural e religioso;
d) transformações de características culturais de uma região, de uma tradição
e suas implicações na mudança e construção histórica do contexto social.
Com base nessas digressões, decidiu-se focalizar, durante a pesquisa,
agrupamentos juvenis formais e não-formais sob um olhar transcultural.
Nesse sentido, entende-se o jovem a partir do pressuposto de que é
próprio desse período do ciclo de desenvolvimento do ser humano, que ele
esteja em busca de se afirmar como sujeito; logo, está mais propício a perceber,
receber e “experimentar” a variedade das influências externas para encontrar o
seu rumo de vida. De forma consciente ou inconsciente, explícita ou implícita, o
jovem vive mais a sua autonomia de ser ele mesmo, entre uma certa libertação
e revolta, contra tudo que foi dito e imposto anteriormente, e contra as atrações
do novo que promete.
O grupo, ora entendido como referencial maior nessa busca desenvolvida pelos jovens – isto é, nesse período do ciclo de desenvolvimento do ser
humano –, não corresponde tanto aos sistemas éticos ou políticos; mas sim,
freqüentemente, à própria vivência em grupo, na qual se estabelece o seu horizonte, as suas regras de conduta, as suas crenças e as suas perspectivas.
Igualmente, o grupo, seja ele espontâneo ou não, representa um ar de
propriedade juvenil e de independência em relação aos demais espaços (como,
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ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
a vivência em família ou na escola), do mesmo modo que oferece um círculo de
proteção e força contra as tensões externas, o que afirma o grupo jovem enquanto próprio ator social nos campos sociais. Tudo isso permite que os agrupamentos de jovens se caracterizem como período e espaço privilegiado de
formação de identidades culturais.
Além da percepção das influências externas da mídia de massa, dos
modismos e das padronizações sociais, um recorte específico da pesquisa em
seu interesse pedagógico são as lideranças que surgem dentro do grupo ou que
trabalham com o grupo jovem.
Como se relacionam e orientam os jovens em meio de tensões externas
e internas, em meio de revolta, questionamentos, buscas e atrações de modas?
Como são aceitos, ao se compactuarem ou se impuserem em relação aos seus
pares?
Como se pode, então, descrever a identidade cultural das lideranças? E
como elas lidam com os conflitos culturais, religiosos e sociais, nos quais se
encontram inseridas?.
1.5 AS JUVENTUDES NA AMAZÔNIA
A discussão apresentada acima não é nova nem restrita a um ou outro
lugar. Mas os contextos, nos quais ocorrem a compreensão e a percepção dos
jovens, são diferentes e, frequentemente, obrigam o repensar das teorias, de
interpretações, análises e conclusões pedagógicas. Somente dessa forma a percepção dos pesquisadores consegue se inserir na multiplicidade e complexidade dos momentos e espaços da convivência global e local, bem como, pode se
aproximar da dinâmica da realidade. O olhar para um local e sua especificidade capacita entender mais sobre o fenômeno em sua composição global, aprendendo o universal a partir das diferenciações e diversidades.
Sendo assim, apresenta-se esta pesquisa para uma discussão em nível
internacional sobre agrupamentos de jovens no contexto específico da Amazônia Oriental brasileira, sendo que nessa contextualização ampla encontram-se
delineamentos e marcas importantes, tais como as:
-
-
geográficas: clima tropical; predominância exuberante das matas e dos rios;
distâncias e tempos enormes para os seres humanos;
históricas: raiz indígena; colonialização e genocídio da população nativa;
imposição de culturas europeias e, mais tarde, norte-americanas; migração
de populações, principalmente do Nordeste brasileiro, mistura de etnias e;
políticas: avanço da fronteira agrícola; exploração das riquezas; grandes
projetos nacionais; interesse internacional em relação à importância geopolítica e à biodiversidade, água e floresta.
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Universidade da Amazônia
Ao refinar a percepção contextual da Amazônia brasileira, são percebidas diversas realidades ou universos que caracterizam atualmente essa ampla
região. E, ao considerar que é exatamente essa diversidade que compõe um
cenário de tensões e conflitos, e também de potencialidades e propriedades;
situa-se a pesquisa em quatro universos, mas na linha de fronteira cultural
entre eles. Dentro desses universos, selecionamos seis grupos de jovens, muito
diferentes entre si, para ter uma visão dessa diversidade e, ao mesmo tempo, da
sua composição como cenário conjugado. As características dos grupos com a
sua dinâmica de formação de identidade cultural apresentam uma grande variedade, no entanto, cruzam-se como composição amazônica. Inicialmente, tenta-se perceber e entender os grupos em suas particularidades e, apenas num
segundo momento, traçar um olhar conjugado e comparativo, com o máximo
cuidado de restringir o potencial do quadro de diversidade.
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ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
2
METODOLOGIA DO
TRABALHO DE CAMPO
2.1 PESQUISA DE CAMPO
O
projeto de pesquisa em sua estrutura metodológica caracterizou-se em
três fases: I) Fase pré-campo; II) Pesquisa de campo; III) Fase pós-campo.
Na fase pré-campo, com a participação da equipe de pesquisa e professores convidados, foram realizados ciclos de estudos, seminários e
mesas-redondas, com temáticas pertinentes ao desenvolvimento da pesquisa:
cultura, identidade, democracia, juventude, religiosidade, diversidade cultural
e definição da metodologia de pesquisa, assim como, o levantamento de dados
secundários sobre os universos e grupos pesquisados. Já, na fase da pesquisa
de campo, demarcada pela interação com os grupos, realizou-se a aplicação
dos instrumentais e das técnicas de pesquisa: a observação e a realização de
grupos focais. Por fim, na fase pós-campo, se procedeu à sistematização da
análise dos dados levantados e à elaboração do relatório da pesquisa.
A pesquisa de campo foi desenvolvida a partir de abordagem quantitativa e qualitativa, com enfoque na realidade cotidiana dos jovens. A investigação teve início em maio de 2003, quando foram realizados contatos preliminares com agrupamentos formais e informais de jovens, buscando apresentar a
pesquisa e obter o consentimento desses grupos para a realização do estudo
em questão. Salienta-se que este processo foi demorado em virtude das dificuldades de aceitação da pesquisa entre os grupos selecionados, como os urbanos étnicos (Comunidades Judaica e Libanesa) e os religiosos (Quadrangular),
que acabaram não participando da pesquisa de campo; e também em razão de
outras dificuldades, relacionadas às expectativas de alguns grupos no que diz
respeito a algum tipo de benefício ou intervenção (Hip-hop ou Ribeirinho).
A segunda etapa caracterizou-se pela interação com os grupos, a descrição e a caracterização dos universos por meio da utilização de um instrumento de coleta, no caso, um roteiro de observação contendo os seguintes
tópicos: processo de construção histórica do grupo; perfil dos atores sociais;
dinâmica de organização; convivência; caracterização da comunidade e, nela,
locais de frequentação e de interação social estabelecida pelos jovens.
27
Universidade da Amazônia
Desse modo, à medida do possível, optou-se por método etnográfico e
observação participante, principalmente, porque a observação participante se
configura como um instrumento importante, visto que, no ato da participação
das atividades do grupo (tais como: reuniões e eventos culturais), realiza-se a
devida coleta de dados e de informações válidas no subsídio da pesquisa e na
obtenção de apoio de “indivíduos-chave” inseridos nos universos pesquisados.
Vale ressaltar que durante essa fase, por se tratar de uma pesquisa de
caráter etnográfico, foram realizados levantamentos quantitativos (formulários) e qualitativos (entrevistas e grupo focal) junto aos jovens e educadores,
assim como o acompanhamento das atividades internas e externas dos grupos,
a fim de construir o perfil e a dinâmica de cada grupo.
A pesquisa trabalhou com uma amostra aleatória, no cômputo dos
universos aplicou-se ao todo 134 (cento e trinta e quatro) formulários, com a
presença dos pesquisadores (bolsistas e colaboradores) para a garantia do
preenchimento correto e fidedigno das respostas.
As perguntas foram construídas conforme temas (idade, sexo, escolaridade, raça, meios de comunicação, meios de transportes, entre outros) com o
objetivo de se construir um perfil social do grupo. Obteve-se a análise desses
dados a partir de ferramentas estatísticas.
Foram realizadas 104 (cento e quatro) entrevistas, sendo 79 (setetenta e
nove) com adolescentes e jovens, e 25 (vinte e cinco) com educadores, com base
em um roteiro semi-estruturado com perguntas fechadas (idade, sexo, escolaridade) e perguntas abertas (percepções sobre religião, política, juventude).
A sistematização dos dados coletados em campo deu-se a partir de três
quadros comuns, previamente elaborados pela equipe do projeto, fundamentados nos seguintes tópicos: perfil social; vida cotidiana; relações familiares;
religião e juventude; política e juventude; inserção no grupo; relações no grupo;
conflitos no grupo; o grupo como processo educativo; relações de gênero no
grupo; sonhos e perspectiva em relação ao futuro.
Como parte integrante da pesquisa de campo, foram organizados grupos focais com jovens inseridos nos grupos pesquisados a fim de aprofundar
alguns temas da pesquisa. A técnica foi escolhida em virtude de possibilitar um
contato maior com os sujeitos da pesquisa, o que privilegia a interação entre os
participantes em que cada um expõe os seus diferentes pontos de vista, contradições, divergências e consensos. Os temas do roteiro do grupo focal foram
escolhidos, tomando por base questões chaves, já levantados durante as entrevistas, com o propósito de aprofundar as percepções dos adolescentes em relação a temas como: relacionamento familiar, momentos de lazer, juventude, política, religião, entre outros. Essa etapa foi realizada com o concurso da equipe
de pesquisa (bolsistas e coordenadores).
Após a fase de campo, procedeu-se à sistematização dos dados tratados quanti-qualitativamente, que deram origem assim ao presente trabalho.
28
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
3 UNIVERSOS PESQUISADOS
3.1 UNIVERSO INDÍGENA
3.1.1 Grupo Indígena Anambé: Resistência Étnica e Identidade
3.1.1.1 Reserva Indígena Anambé: localização e história
O
Estado do Pará possui 39 reservas indígenas, de diferentes etnias, inclusive os índios não aldeados, que vivem nos diversos municípios
próximos às aldeias. Os índios Anambé, etnia pertencente à família
tupi-guarani, estão localizados na Reserva Indígena Anambé, em uma área de
aproximadamente oito mil cento e cinquenta hectares (8.150 ha), no município
de Moju, região do baixo Tocantins, no Estado do Pará. Estão sob a jurisdição
da Fundação Nacional do Índio – FUNAI em sua Regional Marabá – 2ª DR.
A área de habitação dos Anambé localiza-se no alto Rio Cairari, afluente do Rio Moju. Para se chegar à referida aldeia é necessário utilizar transporte
rodoviário e fluvial, com aproximadamente 12 horas de viagem. O melhor acesso à aldeia é através do município de Mocajuba, cidade próxima à aldeia, o que
ocasiona um maior vínculo dos índios com os municípios, assim como com os
equipamentos sociais e instituições situadas no local.
A atual população do grupo é de 133 pessoas (AZEVEDO, 2004). Uma
das maiores desses últimos tempos, pois o referido grupo passou por períodos
de depopulação considerável, chegando a ser dado como extinto (ARNAUD, 1948).
Conforme relatório do Antropólogo Arnaud (1948), pesquisador do
Museu Paraense Emílio Goeldi - MPEG, designado para realizar investigação
sobre os índios localizados à margem do Rio Cairari, o grupo Anambé era conhecido como Turiwara. No período de sua primeira investigação, apenas identificou o grupo, observou o modo de vida, constatando que não se diferenciava
da população regional. O antropólogo informa que devido ao difícil acesso à
área, não foi possível maior identificação do grupo. Constatou também a depopulação do grupo, que na época somavam 32 pessoas; o extrativismo como
forma de economia de subsistência, além de contato com os regionais.
29
Universidade da Amazônia
Em 1968, o pesquisador retornou à área para realizar um levantamento
etnográfico e avaliar a situação de contato desses índios com os regionais.
Durante esse levantamento, observou considerável redução do grupo. Conforme informa a seguir:
Somam agora 19 pessoas, sendo 11 homens (6 acima de 15
anos, 5 abaixo) e 8 mulheres (7 acima de 15 anos, e 1 abaixo).
Dos indivíduos que havíamos registrado em nossa primeira
viagem sobrevivem apenas 4 homens e 5 mulheres (ARNAUD,
1969, p. 2).
Não é muito fácil sistematizar o histórico do grupo Anambé devido à
ausência de informações mais concretas e até de memória do próprio grupo.
Além disso, foram muitos os contatos com grupos de etnias diferenciadas, muitas vezes se misturando, convivendo no mesmo espaço físico. Fatos que levaram os antropólogos e agentes do extinto Serviço de Proteção ao Índio - S.P.I.2, a
confundirem a identidade étnica.
Nesse sentido, Arnaud (1969) situa historicamente o grupo Anambé e,
por meio do seu relatório, foi possível esquematizar cronologicamente seus
dados para melhor entender os diversos contatos e a forma como ocorreram no
âmbito desse grupo indígena,pois, conforme relato do antropólogo, “as fontes
históricas assinalam a presença, nos meados do século XIX, na região situada
ao sul do Estado do Pará [...], de grupos Tupi sob a denominação de Turiwára,
Amanajé, Tembé e Anambé” (ARNAUD, 1969).
Arnaud (1969) ainda informa que os referidos índios das quatro etnias
migraram do Estado do Maranhão para o Pará, sendo que os Turiwara estavam sob
o comando de um regatão3, que os utilizava para trabalho extrativista e de caça.
Os Anambé habitavam as cabeceiras do rio Pacajá e Grande do Portel.
Arnaud (1969) descreve que, em 1852, surgiu no distrito de Baião:
um tuchaua acompanhado de outros índios Anambé
pedindo proteção e mostrando-se dispostos a aldear-se.
Suponha-se ser essa tribu ser de seissentas pessoas
(ARNAUD, 1969, p. 8).
Outras informações relevantes constam no relatório: a instalação, em
1817, da Missão Nossa Senhora de Assunção que reuniu índios Tembé e Turiwara (no entanto, não há maiores informações dos objetivos e procedimentos
2
3
30
O Serviço de Proteção ao Índio – SPI foi criado em 20 de julho de 1910 com o objetivo de solucionar os conflitos
de posse da terra entre populações tribais e integrantes das frentes pioneiras de ocupação. Foi extinto em 1967,
dando lugar a atual Fundação Nacional do Índio FUNAI.
Regatão – comerciante que percorre de barco as localidades situadas às margens dos rios para realizar negócios com
os moradores, relacionados à venda, compra ou troca de produtos diversos.
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
dessa frente missionária); e a redução do grupo a 46 pessoas, em 1874, sendo
que, em 1875, morreram 34 de varíola, e os demais sobreviventes tiveram de
juntar-se a outro grupo indígena do Tocantins.
Nesse período de redução, Nimuendaju (apud Arnaud, 1969, p. 8) os dá
como extintos, mas possivelmente estavam habitando outra aldeia, junto aos
índios Tembé. E, em 1943, Nimuendaju visitou os índios do Cairari, identificouos como Amanayé e que os próprios se chamavam de Turiwara.
No ano de 1972 novamente ocorreu a instalação de missionários na
área, a Missão Santa Fidélis que reunia índios Amanayé, pois devido às rivalidades com outros grupos indígenas não poderiam ficar juntos dos Anambé. Os
Anambé demonstravam pacificidade e mantinham contato com a população
das cidades próximas, dentre elas Baião e Mocajuba.
No referido relatório, Arnaud (1969) já reconhece os Amanayé por Anambé ao explicar que foi dessa forma que os índios se identificaram, mas que
devido a pouca e complicada história geográfica do grupo, não pode ter certeza
desse grupo remanescente. Confirma que em 1969 encontrou um grupo muito
pequeno e motiva o desgaste demográfico e a evasão dos índios em muito ocasionada por casamentos e adoção de crianças pelos moradores de Mocajuba.
Isso permitiu ao pesquisador concluir que o contato com os regionais foi permanente e definitivo, com interferência no modo de vida dos Anambé, o que
findou por refletir na identidade cultural dessa etnia indígena.
3.1.1.2 Influências Regionais
Os Anambé receberam influência de vários grupos e participaram dos
momentos de expansão territorial e exploração de recursos naturais na área do
Baixo Tocantins. Os índios eram utilizados como mão-de-obra nos processos de
extrativismo, a exemplo dos castanhais existentes na região.
A área do baixo Tocantins foi utilizada, e ainda é, para o escoamento de
madeiras nobres. Em seu relatório, Arnaud (1969) informa que os índios eram
utilizados nessa atividade como guia da floresta e que os patrões comandavam
as ações dos índios, informando no que poderiam trabalhar.
Quando detectados por Arnaud (1969), os Anambé estavam misturados
a outras culturas, não existiam mais os rituais culturais nem adornos corpóreos. Inclusive, na ocasião, o Pajé Yapã Anambé negou para o pesquisador que
exercia essa função no grupo. Talvez motivado pelo contato com a igreja católica e com os missionários existentes na região, que exerciam grande poder
sobre os índios, conforme a História. Percebe-se, portanto, intensas influências
sobre a cultura indígena, que findou por ocasionar descaso e vergonha por
parte dos índios e fez com que eles negassem a si mesmos, como explicita Merã
“[...] nós não fala mais a gíria do índio. Porque tinha vergonha. Os branco dizia
que parecia papagaio’’ (AZEVEDO, 2004).
31
Universidade da Amazônia
O fato de os padres conduzirem os índios para batizá-los na igreja
católica, comprovado pela análise dos índios constados no Livro de Registro de
Nascimento da FUNAI, confirma claramente esta influência. Durante o período
de 1920 a 1930, predominavam nomes indígenas; os registrados nos anos de
1950 a 1960 apresentam alguns nomes de não-índios, como Maria e José (vários); já nos registros realizados no intervalo de 1970 a 1990 são predominantes
os nomes de não-índios, inclusive nomes bíblicos, a exemplo de Raabe.
Todavia, a partir de 1999, observa-se que o grupo passou a nomear os
filhos novamente com nomes indígenas, geralmente com significado de frutas e
plantas regionais, como Pequiã (Piquiá) Anambé. Conforme informação do líder Pedro Anambé, esse movimento passou a acontecer por influência de funcionários, a exemplo da auxiliar de enfermagem, que trabalhava na área e orientava os índios a manterem sua cultura.
Essas breves informações dos variados contatos que os Anambé tiveram com outros grupos conferem que foram incididas modificações no modo de
vida dos índios e a considerável depopulação do grupo. É possível fazer uma
retrospectiva dos fatores que determinaram a atual conjuntura do referido
grupo, pois: I) conviveram com diversas etnias indígenas, entre essas, índios
antropófagos; II) sofreram contaminação de doenças virais na tribo o que levou
à morte numerosos índios; III) os conflitos com posseiros e madeireiros foram
constantes e também levaram à morte muitos índios; IV) a ação dos missionários nas várias tentativas de conversão religiosa: foram realizados casamentos
com os regionais, que os levaram, muitas vezes, a morar fora da aldeia.
Em 1984, houve a demarcação da Reserva Indígena Anambé pela equipe da
2ª DR/FUNAI, homologada em 29 de outubro de 1991, por meio do Decreto nº 304,
publicado no Diário Oficial da União – DOU, datado de 26 de dezembro de 1991.
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ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
FIGURA 1: Mapa da Reserva Indígena Anambé
Fonte: Povos Indígenas do Brasil – 1985.
Antes da efetivação da demarcação da reserva, a FUNAI trabalhou no
sentido de integrar os índios na aldeia, buscando-os em áreas adjacentes e
cidades vizinhas, onde estavam morando, para efetivar medidas de assistência
direcionadas ao grupo.
O Grupo Anambé possui resquícios de fatores históricos que instabilizaram sua cultura abruptamente. Seus valores, costumes e tradições foram
perdidos, e restaram apenas os índios mais antigos como referência da etnia
e da memória do grupo. Os vários contatos e tentativas de mudanças de sua
área, assim como a convivência com os caboclos das cidades próximas à
aldeia, fizeram com que esse grupo sofresse com diversas consequências ocasionadas por guerras, doenças e invasões de suas terras, conforme explicitado anteriormente.
33
Universidade da Amazônia
Atualmente, os Anambé constituem-se em 133 pessoas, vivendo às margens do Cairari em uma área limitada para suas condições de sobrevivência,
pois o rio não é piscoso e a caça é rara. Não falam a sua língua originária; não
realizam rituais religiosos ou festejos de acordo com sua cultura. Apresentam
considerável nível de aculturação, fato que ainda está em processo devido ao
fato de ainda viverem em seu habitat natural, suas casas ainda serem construídas em palha com chão elevado, dentro da aldeia, e pela constante relação
com a terra por intermédio da agricultura. A terra para índio é um dos referenciais de identidade.
Suas condições objetivas ainda demonstram suas características indígenas, porém as subjetivas parecem adormecidas. Urge a necessidade de reação a este processo de descaracterização, caso contrário, da identidade indígena Anambé restarão apenas os nomes ou sobrenomes. Mesmo porque, apesar
da intensa interação cultural, o grupo Anambé demonstra resistência diante da
diversidade e das influências culturais quando busca manter a sua forma de
viver, demonstrada historicamente, em especial, pela luta constante em permanecer na sua área, fato que significa a ocupação do território e pertencimento.
3.1.1.3 Os Anambé hoje: interagindo com o outro
Observa-se que atualmente os Anambé possuem o modo de vida semelhante aos ribeirinhos, pois perderam a maioria dos elementos culturais indígenas, internos e externos, como crenças, rituais, adornos e pinturas corpóreas. Os não-índios são aceitos com facilidade no grupo por meio dos casamentos e em situações de articulação política e de assistência ao grupo.
Em relação à religião, o catolicismo ainda está presente pelo batismo.
O grupo mantém contato também com uma comunidade pentecostal, pois existe
uma vila evangélica próxima à aldeia, localizada às margens do Rio Cairari,
que alguns índios frequentam, com pouca assiduidade. O xamanismo deixou de
existir desde a morte do índio Yapã Anambé, pajé do grupo, mas, apesar desse
fato, ainda consultam um umbandista4 da cidade em casos de doenças.
As casas são construídas em tábuas de madeira e palha, chão elevado,
de poucos cômodos. As coberturas, na maioria, são de cavaco e palha, poucas
em telhas de barro, conforme se observa na figura a seguir:
4
34
Umbandista – indivíduo pertencente à Umbanda, religião sincrética que integra os cultos afro-brasileiros, praticada
em terreiros, através de pai ou mãe-de-santo que incorporam entidades místicas e realizam ações de aconselhamento
e cura de doenças do corpo e do espírito.
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
FIGURA 2: Residência típica Anambé
Fonte: Registro de campo/ 2004.
A alimentação dos Anambé é proveniente da colheita de frutos, da caça,
da pesca e de produtos adquiridos em Mocajuba, cidade próxima à aldeia, que
para lá se dirigem quando há comercialização da produção de farinha de mandioca, na sede de Mocajuba. Fora isso, a aquisição de produtos alimentícios e
de uso pessoal é realizada por meio de vendedores ambulantes, que possuem
permissão para adentrar a reserva indígena, duas vezes por semana.
O trabalho na aldeia configura-se principalmente com base na agricultura, como plantação/colheita com o beneficiamento da mandioca (Manihot esculenta), além do milho (Zea mays), do arroz (Oryza sativa) e da banana (Musa
paradisiaca L.), em menor escala. Essa produção é comercializada na cidade de
Mocajuba. A renda oriunda da comercialização é dividida entre as famílias que
participaram das etapas da produção, inclusive crianças e adolescentes.
A casa de farinha, local onde as famílias processam a mandioca, possui um forno grande para torrar a farinha, além de outros instrumentos utilizados nessa produção. Trata-se de um espaço utilizado por todos. Em horários
diferenciados, as famílias levam a produção de sua roça para realizar o processamento e torragem.
Observa-se ainda que alguns índios possuem vínculos trabalhistas com
as instituições que os atendem, como a Fundação Nacional de Saúde - FUNASA
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Universidade da Amazônia
e Secretaria Municipal de Educação de Moju, atuando como agentes de saúde
indígena, ajudantes de obras e professores.
3.1.1.4 Equipamentos Comunitários e Vínculos Institucionais
A aldeia possui uma escola, com administração da Secretaria Municipal de Educação do Município de Moju. Edificada em alvenaria, contendo duas
salas de aula, cozinha, pátio e banheiros, possui três professores, dentre eles,
o índio Raimundo Anambé, que ensina a língua tupi. Os demais assumem o
programa do Ministério da Educação – MEC referente ao ensino fundamental
(1ª e 2ª ciclos).
Existe também uma enfermaria e uma farmácia que funcionam sob o
gerenciamento da FUNASA. Nesse posto é realizado o atendimento de saúde por
enfermeiros, técnicos de enfermagem e odontólogos. A FUNASA mantém na aldeia uma lancha e um automóvel para locomoção de funcionários e da comunidade Anambé. O motorista é um índio do Grupo Assurini.
O Posto de Serviço da Fundação Nacional do Índio - FUNAI possui equipamento de radiofonia para comunicação com diversas aldeias e com a Administração Regional localizada no município de Marabá. Conta com um chefe de
posto, morador da aldeia, que possui a atribuição de fiscalizar e mediar ações
direcionadas ao grupo, assim como viabilizar as necessidades dos índios junto
à FUNAI e demais órgãos governamentais e não-governamentais, com os quais
possuem vínculos, além da constante proteção da terra indígena.
No momento, está em implantação na aldeia o terminal do Sistema de
Proteção da Amazônia - SIPAM, sob o comando da Aeronáutica, contendo os seguintes equipamentos: um telefone analógico; uma antena VSAT; um painel solar
e baterias e um IDU (Indoor Unit). O objetivo desses equipamentos é manter
comunicação e vigilância. Ressalta-se que telefone já está em funcionamento.
Os sistemas de comunicação e algumas políticas públicas implementadas na aldeia proporcionam o contato constante com o diferente. Isso traz ao
grupo Anambé inovações e também reflexões sobre o modo de vida e perspectivas para a juventude, num horizonte de possibilidades de melhoria para o
grupo. Sendo assim, estabelecem-se motivações em relação à educação e à
continuidade dos estudos para que os próprios índios assumam futuramente
os postos de serviços implantados na aldeia.
3.1.1.5 Adolescentes e Jovens Anambé: cultura e perspectivas
Conforme o Estatuto das Sociedades Indígenas (Lei nº 2.057/91), o índio
é “o indivíduo que se considera como pertencente a uma sociedade ou comunidade indígena, e é por seus membros reconhecido como tal”. Entende-se então
que essa identidade está assegurada no sentido de pertencer, e de participar
36
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
dentro de um contexto histórico de sociedades pré-colombianas. Profissionais
da área da educação apontam a escola como meio de reconstrução cultural de
alguns grupos com o subsídio de que:
A história dos povos indígenas latino-americano é a
história da luta pela terra. Esta luta lhes permitirá a
valorização da sua língua e da sua cultura, valorização
que dará origem a uma nova luta, a luta por educação, por
uma educação na própria língua e que ensine aspecto da
sua cultura. Neste sentido, a manutenção defesa da
identidade de um povo passa pelo respeito à ocupação
da terra [...] (PAREDES, 1996, p. 14).
Caracterizar as fases do desenvolvimento humano nas sociedades indígenas exige uma leitura do significado das aprendizagens ocorridas nessas
etapas, e não, necessariamente, pela idade. Adolescentes e jovens são identificados de forma diferenciada, considerando a cultura de cada grupo. É notório
entre os índios o compromisso das famílias para com as crianças, adolescentes
e jovens. O respaldo cultural é significativo para a identidade étnico de um
grupo. Os referencias culturais têm o significado de proteção, conforme proferiu Loureiro (2003) no III Congresso Nacional de Etnopsiquiatria em Macapá,
no qual apontou que a cultura representa o espelho da identidade.
Conhecer o cotidiano da aldeia Anambé, observado por intermédio das
crianças e adolescentes, proporcionou o olhar sobre sua forma de viver, e se
pode verificar as relações existentes diante da dinâmica do dia-a-dia da aldeia,
uma vez que para perceber as relações sociais existentes em um grupo indígena,
assim como em qualquer outro grupo, torna-se necessário conviver, estar presente, pois, conforme Faleiros (2000), no cotidiano estão:
[...] impregnadas de religião, valência e relevâncias grupais,
que configuram as visões de mundo presentes na prática
social. Trabalhar esse senso comum, reconstruir as
hierarquias e classificações desse terreno onde os homens
se movimentam e adquirem consciência de sua posição é
desafio do assistente social (FALEIROS, 2000, p. 103).
A escola dinamiza o dia, as crianças e adolescentes juntam-se próximo
à casa da professora para acompanhá-la até o prédio. As que estudam no período da tarde ficam em casa, brincando, enquanto os adolescentes cuidam dos
irmãos menores, da higiene da casa e do preparo do alimento.
Na Reserva Indígena Anambé, o rio é usado para higiene em atividades
como lavagem de roupas e louças. Essa tarefa é realizada por adolescentes do
sexo feminino. O banho para higiene corporal acontece no final da tarde, mui-
37
Universidade da Amazônia
tas vezes administrado pelas mães. Todavia, a ausência de tratamento da água
do rio para consumo em alimentos e para a bebida está ocasionando um alto
índice de verminose entre os índios, segundo a auxiliar de enfermagem da FUNASA. A figura abaixo demonstra a utilização do rio entre os Anambé:
Normalmente, os adolescentes e jovens do
sexo masculino ajudam
os pais na produção da
mandioca, em todas as
etapas, seja acompanhando, fazendo capina,
colheita, lavagem no rio
até o processo de torragem da farinha.
FIGURA 3: O rio como espaço de lazer e higienização
Fonte: Registro de campo/ 2004
Para nossa apreensão dessa realidade, fica a característica própria do
povo indígena, baseado na relação com a natureza, respeito com o outro, solidariedade, companheirismo. O grupo Anambé apresenta tais relações de convivência, configurada por meio de seu cotidiano.
3.1.2 Visões de Mundo e de Futuro: o olhar sobre o grupo pesquisado
Foram identificados na aldeia vinte e nove jovens e adolescentes, na
faixa etária de 12 anos incompletos a 20 anos. Foram realizadas entrevistas
com quatorze deles, pois quatro recusaram-se e onze estavam distantes do
centro da aldeia.
Explicitar-se-ão os resultados da análise dos dados/entrevistas realizadas com os adolescentes e jovens, índios, com registro de nascimento na
aldeia. A maioria dos entrevistados é do sexo feminino, na faixa etária de 12 a
19 anos, cursando o ensino fundamental, na escola da aldeia.
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ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
3.1.2.1 Relacionamento com a família
A família representa alicerce, segurança, bem-estar. Os entrevistados
foram unânimes em dizer que não possuem conflitos familiares significativos
que venham a interferir na sua relação familiar. Inclusive o conceito de felicidade, citado pela maioria dos jovens, perpassa pela boa relação familiar “Felicidade é ficar perto da família” (VIDA, 2004) e/ou “Felicidade – quando o pai e a
mãe tá do lado da gente, quando tem brincadeira e quando a irmã da gente é
pequena [...]” (SOL, 2004).
O referencial de família é significativo, pautado na proteção e nos princípios do grupo. A convivência familiar demonstra pertencimento, e observouse, por meio das falas dos entrevistados, a apreensão da educação repassada
pelos pais, assim como no sentido de vida deles mesmos.
3.1.2.2 Cotidiano e preferências
Por conviverem no mesmo espaço geográfico diariamente, esses jovens
possuem praticamente a mesma dinâmica cotidiana: estudam, trabalham na
produção de mandioca e brincam no rio e no terreiro. As adolescentes que
possuem filhos cuidam da casa e das crianças, enquanto os seus parceiros
trabalham na roça com os demais familiares. “Estudo, cuido da casa, às vezes
brinco com meus irmãos no rio e converso com parentes” (ESTRELA, 2004) e/ou
“trabalho na roça, cuido dos filhos, da casa e estudo” (LUA, 2004).
Assim, identifica-se a divisão de tarefas entre os Anambé, citada acima,
pois todos são envolvidos na dinâmica da produção familiar e possuem ganhos
financeiros com a venda da farinha de mandioca, inclusive os adolescentes:
“Estudo, trabalho na roça e brinco em baixo da mangueira” (ESPERANÇA, 2004).
O processo de socialização é latente no grupo, ao acompanhar os adultos e participar de todos os momentos e acontecimentos da comunidade, isto é,
no lazer, na produção familiar e comunitária, a socialização do adolescente
passa por um momento de educação informal: “[…] aprendo com o grupo fico
espiando as lideranças nas reuniões da aldeia” (VIDA, 2004).
Por meio da convivência no grupo, o adolescente adquire conhecimento, informações e preparação para enfrentar a vida futura com autonomia e
segurança, além do incentivo por parte das lideranças em demonstrar aos jovens as formas de lidar com as situações cotidianas da aldeia, como de produção e/ou de economia, de família, de política, e de lidar com outros grupos com
os quais mantém relacionamentos.
No que diz respeito ao lazer, os jovens foram unânimes em citar o rio. As
brincadeiras são realizadas após a aula e ao final da tarde. Além do rio, citaram também as constantes visitas às casas dos familiares e amigos no final de
semana ou quando não estão ocupados com alguma atividade na comunidade.
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Universidade da Amazônia
A televisão é o meio de comunicação mais utilizado, mesmo tendo apenas uma na aldeia. Todos se reúnem para assistir a novelas, a jogos de futebol
e a jornal: “[…] gosto das novela, vejo todo dia” (LUA, 2004). O rádio é mais
acessível, visto que a maioria das casas o possui: “[…] gosto da rádio clube, do
Coronel Virgolino” (SOL, 2004). Gostam das músicas de todos os tipos, alguns
gostam de dançar o estilo brega.
Os alimentos mais degustados pelo grupo são as carnes de caça, a
exemplo da carne de veado, preferida pela maioria; de preguiça; de tatu; de
paca; peixe e tracajá; além da carne bovina e galináceos.
O contato com o outro se configura também pela inserção de diversas
culturas por intermédio da mídia, transformando os referencias do grupo, inserindo-os no global por meio das vivências refletidas no meio de comunicação.
Apesar desse fato, não se perceberam modificações aparentes no cotidiano dos
entrevistados. Isso pode ser devido ao fato de viverem distante da cidade e da
pouca convivência com outros grupos.
3.1.2.3 Religião
Percebe-se que não existe, entre os jovens, a concepção do significado
de religião, pois 80% informaram não possuir religião e outros 13% se autodeclaram evangélicos. Vale apontar que apesar de alguns serem batizados na
igreja católica não a frequentam.
Algumas falas, como: “[…] não sei, sou batizado na igreja católica”
(CÉU, 2004) e/ou “[…] vou para a igreja na Vila Erlim, gosto da igreja porque o
pastor fica cantando” (ALEGRIA, 2004), retratam que não existe, por parte dos
entrevistados, um conceito formado sobre religião. A relação com as igrejas
católica e evangélica é demonstrada de duas formas: com a primeira, pelo
batizado, e limita-se a este ato; com a segunda, por meio da participação nos
cultos que são realizados na Vila Erlim, localidade próxima à aldeia.
Percebe-se a existência de um sistema de defesa do grupo em relação à
aceitação de grupos religiosos dentro da aldeia, reflexo dos contatos conflituosos que ocorreram com os missionários das igrejas católicas e pentecostais;
uma vez que na história do grupo, existem momentos de reação contra a igreja
evangélica que pretendia edificar um prédio na aldeia, mas, naquele instante,
não houve a aceitação por parte do grupo.
3.1.2.4 Política
Em relação à política, a maioria dos entrevistados se referiu ao ato de
votar: “[…] votar para prefeito de Mocajuba” (LUA, 2004) e/ou, “Votar para presidente” (ESTRELA, 2004), e ao fato de que política “[…] serve para ajudar as
pessoas” (TERRA, 2004). Nesse sentido, entende-se que suas concepções sobre
40
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
política são restritas à gestão municipal, principalmente na figura de seu representante. Existe o significado de assistencialismo na fala “[…] serve para ajudar
as pessoas” (TERRA, 2004), não concebendo a noção de direitos sociais e políticos como cidadãos.
A condição de tutelado reflete até hoje nos grupos indígenas, sempre
houve quem mediasse em seus interesses políticos, mesmo sendo lutadores
convictos por seus direitos. A escola na aldeia representa a emancipação desses grupos. A educação representa um veículo para adquirir conhecimento e
cidadania. Observa-se que esse movimento está em construção dentro da aldeia Anambé, e os entrevistados são inseridos nesse processo de acordo com o
seu espaço e tempo, respeitando seus limites e singularidades.
3.1.2.5 Juventude
No que diz respeito ao conceito de juventude, os entrevistados fizeram
referência à idade e ao processo da maternidade e/ou paternidade, ou seja, a
constituição de família. Respostas, como: “[…] ser novo na idade [...]” (SOL,
2004), ou “[…] quando não tem mulher e filho […]” (ESTRELA, 2004) e “[…] ter
idade de 15, 16 anos, até 20 anos” (LUA, 2004), retratam a singularidade do
grupo indígena, em que a idade não tem o significado de limites para definir a
criança e o adolescente, o adulto e o velho.
Sabe-se que existe diferença sobre essa concepção na área indígena. O
conceito de juventude, adolescência, refere-se às fases de transição de papéis
dentro do grupo: assumir responsabilidades com o sustento da família e constituir uma. Esses jovens desde criança são preparados para tal fase. Portanto,
a maternidade e paternidade ocorrem geralmente a partir de 13 anos de idade.
3.1.2.6 Relações de gênero
A percepção de diferenças entre gêneros perpassa pelas tarefas domésticas e comunitárias, ou seja, pelos papéis exercidos dentro da comunidade. As
meninas fizeram a observação de que os meninos são mais liberados para sair
de casa e andar pela aldeia, pois: “[…] as meninas cuidam da casa e os meninos
trabalham na roça” (TERRA, 2004), ou “[…] as meninas são tratadas diferentes
dos homens, no banho as mãe separa, não gosta de misturar” (ALEGRIA, 2004).
A diferenciação entre gêneros é vista a partir das ações comuns aos
homens e às mulheres dentro do grupo. Entretanto, percebe-se, por intermédio
das falas das meninas, a necessidade de participar mais, de ter liberdade para
sair. A construção dos sonhos e perspectivas passa a ser distante e muitas
vezes imobilizada após a maternidade.
41
Universidade da Amazônia
3.1.2.7 Conflitos no grupo
As situações de conflito no grupo são intercedidas pelas lideranças
por meio de reunião na comunidade. Os fatos mais notórios entre os entrevistados são os causados em virtude de uso de bebida alcoólica na aldeia. Esses
fatos foram descritos por todos os jovens e ficou evidente a não aceitação de
situações como estas, conforme as suas falas: “[…] tem conflito quando ficam
porre e se atiram” (TERRA, 2004), ou “o negativo, quanto tem intriga na comunidade por causa da bebida” (ESTRELA, 2004).
Outros conflitos ocorridos são de ordem política, seja devido à inserção de profissionais na área e/ou situações de projeções de políticas sociais. O
cacique e as demais lideranças resolvem-nos em reunião com a comunidade e/
ou conversam entre si.
Percebe-se a constante preocupação entre os jovens em vivenciar a
coesão do grupo em todos os momentos. Mantêm-se a expectativa e a confiança
no diálogo entre as lideranças e comunidade para cultivar a compreensão e
decisão diante de situações conflituosas que surgem na aldeia.
3.1.2.8 Sonhos e perspectivas em relação ao futuro
A escola representa o aprendizado da leitura e da escrita para os entrevistados, porém eles têm a noção de que para alcançar objetivos profissionais
precisam continuar os estudos fora da aldeia. Isso é considerado um grande
desafio para os jovens.
Os profissionais que trabalham na aldeia são referências para os jovens e adolescentes, assim como as lideranças do grupo: “[…] quero saber
aplicar injeção [...], daqui a cinco anos quero fazer um roçado para fazer farinha” (CÉU, 2004), ou “[…] ser professora ou enfermeira [...] aprender a educar e
aplicar injeção, preciso estudar mais, pensar em estar perto de ser professora”
(VIDA, 2004). Os jovens retratam esse quadro quando falam de suas aspirações
profissionais, como ser enfermeira e professora. Pensam em estudar, fazer cursos e ao mesmo tempo almejam ter um roçado, constituir família e morar na
aldeia, conforme mencionado acima.
Os jovens e adolescentes Anambé convivem na aldeia e absorvem as
diversas informações sobre outras culturas. A educação formal e a informal
contribuem para a ampliação da leitura sobre o outro e revelam necessidade de
com ele conviver, o que gera a possibilidade de aprendizados e a criação de um
sistema de defesa de sua identidade étnica.
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ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
3.1.3 O Pensar e Agir dos Educadores na Aldeia dos Anambé
Foram entrevistados nove educadores, sendo que dois não desenvolvem atualmente atividades na aldeia. A faixa etária dos entrevistados varia de
30 a 50 anos. Oriundos de diferentes cidades do Estado do Pará a exemplo de
Tucuruí, Marabá, Belém, Santarém e Mocajuba. Além de três índios Anambé,
nascidos na aldeia.
Em relação ao grau de escolaridade dos educadores, aponta-se que é
predominante o ensino médio, com formações diversificadas, condizentes com
as áreas de ciências biológicas e humanas. A professora de nível superior é
graduada em Letras e Artes. Os educadores índios possuem o nível fundamental
incompleto e estudam na escola da aldeia.
Todos informaram que possuem boa relação familiar. As dificuldades,
particularmente em relação aos indígenas, referem-se à questão financeira e à
falta de alimentação para os filhos.
Por conviverem no mesmo espaço dos Anambé, os atrativos são similares como: o rio, o campo de futebol, conversa com colegas e com os índios nos
postos de trabalho ou sob a mangueira à margem do rio. Diariamente e em
horários livres frequentam esses espaços. A aldeia propicia esse movimento
pela proximidade entre os espaços de lazer, os postos de serviços e as residências dos Anambé.
As religiões católica e evangélica foram as referidas pelos entrevistados. Todavia, os educadores indígenas, apesar de terem se autodeclarado católicos, informaram frequentar a igreja evangélica. Sobre o significado de religião, apresentaram conceitos como: “[...] apoio, confirmação da infalibilidade
do ser humano, portanto precisamos da religião” (EDUCADOR A, 2004) e “[...]
momento de integração com Deus” (EDUCADOR B, 2004), ou “[...] a existência de
Deus como ser supremo e criador” (EDUCADOR C, 2004). As lideranças Anambé
concebem religião da seguinte forma “[...] conhecer como chegar a Deus” (EDUCADOR B, 2004) ou “[...] explica o bem e o mal” (EDUCADOR C, 2004).
Sobre política, as informações são sobre política partidária e políticas
públicas. Um dos entrevistados possui filiação política ao Partido da Social
Democracia Brasileira – PSDB e os demais não têm relação partidária. Conceitualmente, entendem política como: o “espaço de discussão sobre problemas da
sociedade” (EDUCADOR A, 2004) e uma maneira de “[...] brigar pela vaga de
administrar o Município, País ou Estado. Lutar pelo direito do ser humano”
(EDUCADOR C, 2004). Dessa forma, percebe-se a amplitude do conhecimento
sobre a área política diante de uma visão ampliada de gestão e cidadania.
Os educadores pertencentes à instituição de assistência possuem conhecimento da história dos Anambé por meio de livros e de informações de
alguns índios em momentos de conversas, visto que estão a menos de dois anos
trabalhando na aldeia. Mas, mesmo durante esse período, percebem alterações
devido as suas intervenções profissionais no grupo.
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Universidade da Amazônia
Os educadores relatam ainda que, por meio de cursos e projetos novos
nas áreas de educação, de saúde, e de produção, sendo esse o fator motivador
para os Anambé no sentido de buscar novos rumos para a aldeia, o contato com
outras instituições do governo está proporcionando melhorias de qualidade de
vida. Ainda percebem que falta maior incentivo por parte dos índios no aspecto
geral, mas entendem que esse processo obedece à singularidade do povo e de
sua dinâmica social.
Em relação aos conflitos, os entrevistados observam que eles ocorrem
em virtude da diferenciação de concepção sobre o patrimônio e bens, tanto que
os percebidos com maior frequência ocorrem nas relações matrimoniais entre
índios e não-índios, mas alegam os entrevistados que esses conflitos são logo
resolvidos por meio de reuniões e conversas entre o cacique, as lideranças e a
comunidade. A aceitação do outro dentro do grupo perpassa pelos objetivos
desses, pois devem atender ao princípio de melhoria para esse outro; caso contrário ele é afastado da aldeia, após decisão das lideranças e da comunidade.
Os entrevistados objetivam realizar atividades com o intuito de contribuir no processo de melhoria do grupo, no entanto, alguns sentem dificuldades
devido ao pouco tempo livre na aldeia e ao acesso a meios de comunicação
para viabilizar novas experiências e inserção social.
Os aspectos negativos observados pelos entrevistados referem-se ao
processo de interação cultural, o que desencadeia o desinteresse em buscar a
história e a cultura do povo Anambé. E para os professores, esse fato apresentase como um grande desafio, principalmente porque poucos índios ainda têm a
memória dos cantos, das danças e dos artesanatos dos Anambé. Os entrevistados consideram que a ausência de referência da cultura indígena facilita a
absorção de outras culturas entre os jovens.
As lideranças do grupo Anambé apresentam a mesma preocupação em
relação à juventude, conforme as falas:
[...] o futuro assim em termo de convivência de um modo
geral das danças da população Anambé, a gente é como
acabei de falar para você [...] agora a pouco é que a gente
tamo tentando mesmo organizar, pra vê se o jovem tenha
também aquele interesse, porque nós já fica mais difícil,
nós temos família [...] (EDUCADOR D, 2004).
Eu penso em melhorar mais a nossa cultura que tá perdida
né se dê um motivo pra levantar ao menos a metade
simplesmente a história da dança, falar bem, primeiro a
música depois a dança aí fazendo com eles pra cultivar a
nossa cultura pra continuar [...] (EDUCADOR E, 2004).
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ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
Percebe-se que existe o interesse em revitalizar a memória cultural dos
Anambé, adormecida em sua história de confrontos e conflitos, e que se necessita de maior motivação para inserir-se nessa jornada diante da diversidade
cultural que vivenciam, resultado dos “conflitos dos signos”, conforme se observa:
[...] a catequese e a pedagogia dos padres da igreja
encarnaram a doutrina e foram agentes de uma imposição
simbólica [...] foram levando símbolos religiosos, morais,
culturais estranhos às populações indígenas ou
ribeirinhas, inserindo no imaginário indígena novos
elementos, novos conteúdos que passariam a compor, no
processo de assimilação cultural, justapostas à base
cultural indígena (LOUREIRO, 2001, p. 80).
Outra dificuldade apresentada pelos entrevistados é a falta de capacitação para desenvolver atividades em uma aldeia indígena. O aprendizado é
construído no dia a dia com o grupo. Ainda sentem a necessidade de ampliar
suas práticas, principalmente em relação aos adolescentes e jovens.
Os educadores índios direcionam seus ensinamentos em viver na aldeia por meio da caça, da pesca e da relação interpessoal no grupo. Acham que
deveriam trabalhar os aspectos culturais indígenas. Os não-índios trabalham
no direcionamento dos direitos sociais e na conscientização étnica do grupo.
Percebem a timidez e a ausência de mobilização do povo como um entrave na
busca de seus objetivos. Todavia, como citado anteriormente, esse movimento
está em processo de mudança devido às intervenções profissionais na área
junto aos líderes e aos mais jovens.
O maior desafio apontado pelos entrevistados em relação à juventude
é referente à continuação dos estudos fora da aldeia. Os educadores têm receios das interferências da cidade na formação desse jovem, visto que almejam a
ele a continuidade do grupo e a revitalização cultural.
Na condição de líderes, cada um, em sua área de atuação, faz o possível
para orientar e instruir a comunidade para desenvolver estratégias que possam
garantir o viver na aldeia e buscar seus objetivos. Os educadores índios, por
intermédio da constante instrução e conscientização de seus direitos políticos e
sociais, trabalham essas perspectivas de acordo com a singularidade e modo de
vida indígena. Nesse sentido, um educador reflete “liderar jovens [...] tem que
saber a diferença dos que têm família para os que não têm família, as orientações
são diferentes. E tratar do futuro, mais dentro da aldeia” (EDUCADOR D, 2004).
O processo de inserção de educadores não-índios na aldeia é realizado
sem nenhuma preparação diferenciada para conviver com o grupo indígena. O
interessante é que esse aprendizado é construído no cotidiano numa interação
de respeito pelo diferente e de compromisso com o grupo, respaldando a prática educativa em ações democráticas e construção de perspectivas. E nessa
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Universidade da Amazônia
relação os índios têm muita influência, uma vez que devido ao fato de serem
acessíveis ao outro, criam momentos de encontros de discussão e esclarecimento, de forma a conceber e abstrair informações, o que configura o processo
de transculturalidade entre os grupos envolvidos.
3.2 UNIVERSO RIBEIRINHO
3.2.1 O Rio e a Mata na Construção de Identidade de Jovens Ribeirinhos na
Comunidade de Caruaru, Mosqueiro (Pa)
3.2.1.1 Considerações Gerais sobre a Área de Estudo: a Ilha do Mosqueiro
A Ilha de Mosqueiro encontra-se localizada no estuário amazônico. Faz
parte da porção insular do município de Belém e caracteriza-se como a maior Ilha
desse espaço, com cerca de 211.792.340,50 m2, sendo 54.325.315,275 m2 de área
urbana e 157.472.374,852 m2 de área rural. Embora apresente uma área urbana
menor, essa congrega a maior parte da população da Ilha, uma vez que na área
rural reside pouco mais de 1000 habitantes do total de 27.777 habitantes.
A principal forma de acesso à Ilha dá-se via terrestre pavimentada,
realizada através das rodovias BR 316 e PA 291. Apresenta-se como um dos
principais locais de refúgio da população belenense, em função, tanto da beleza natural que apresenta ao longo de suas 21 praias, quanto pela aproximação
com a capital, cerca de 60 km.
Administrativamente, a Ilha caracteriza-se como Distrito de Belém a
partir de 1901, evolução histórica que se desenvolveu ao longo de sua ocupação. Primeiramente, Mosqueiro constitui-se como uma freguesia de Benfica, de
acordo com a Lei 563 de 1868; posteriormente, atingiu a categoria de vila com
base na Lei 324 de 1895 (BRANDÃO et al, 2002).
Ainda no âmbito administrativo, a Ilha encontra-se inserida no Distrito
Administrativo de Mosqueiro - DAMOS5, regionalização estabelecida pela Câmara Municipal de Belém e transformada em Lei em 1994 (CODEM, 2001).
Geograficamente, Mosqueiro é limitada pelo rio Pará e pela Baía do
Guajará (Norte); pela Baía de Santo Antônio (Oeste); pela Baía do Sol (Sul) e pelo
Furo das Marinhas (Leste) (BRANDÃO et al, 2002).
Economicamente, a Ilha apresenta uma heterogeneidade, com base no
extrativismo (animal e vegetal), no comércio formal (bares, farmácias, materiais de construção e outros) e no comércio informal, sobretudo, no mês de julho,
quando a Ilha serve de área de lazer e descanso para veranistas oriundos de
Belém e seu entorno. Em relação ao primeiro, aponta-se que o extrativismo é
proveniente de comunidades de base, rurais que compõem a área, cerca de seis.
5
46
Com a Lei nº 7.682, o município de Belém passa a ser administrado por oito regionais administrativas, a saber:
DAMOS; DAOUT; DAICO; DABEN; DAENT; DASAC; DABEL e DAGUA. (CODEM, 2001).
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
Em relação ao comércio formal e ao informal, afirma-se que são concentrados
na área urbana da Ilha.
A ocupação da Ilha do Mosqueiro está relacionada à ocupação da
Amazônia, em especial, à ocupação da cidade de Belém. Daí afirmar-se que a
ocupação de Mosqueiro aconteceu concomitantemente à ocupação de Santa
Maria de Belém do Grão Pará.
Antes da presença dos colonizadores na região, Mosqueiro constituíase como reduto de índios Tupinambá, Tupinambarana e Morubira (Baía do Sol),
por exemplo.
Seu nome advém da técnica do moqueio, estabelecida pelos índios. A
esse respeito aponta-se que: “em épocas remotas, índios utilizavam-na para
moquear peixe que ali se apanhava com incalculável fartura” (MEIRA FILHO,
1978. p. 219).
A técnica consistia em:
costumavam os nativos conservar os animais putrecíveis
por um processo primitivo, colocando a carne da caça ou o
peixe sem as entranhas, em fumeiro próprio, de calor
brando, sobre o moquém, espécie de grade ou trempe
própria para essa curiosa operação. Sob o calor do fogo
que sobe e atinge o produto a moquear, aos poucos, ele
finda por tostar o material, conservando-o perfeito por
longo tempo, sem qualquer perigo de putrefação (MEIRA
FILHO, 1978. p. 31).
Conforme se observa, a prática indígena de moquear o alimento proveniente da caça ou da pesca consistia em processo rudimentar de conservação
dos alimentos. Acredita-se que essa prática fora muito utilizada pelos índios da
ilha, originando-se, dessa forma, o nome da Ilha: Mosqueiro.
Em relação ao nome, constata-se, com base em documentos oficiais, que
a denominação Mosqueiro sofrera uma evolução, pois: “denominando de ilha de
Caratatuba, também Barreiras, depois, Caratateua ou Caratatuba, a carta hidrográfica cita para a outra ilha, intermediária entre a “do Sol” e esta última, de
“ponta da Musqueira” (MEIRA FILHO,1978. p. 32). Dessa forma, Meira Filho conclui ser procedente a hipótese de que o nome Mosqueiro advém da prática do
moqueio, mosqueio, musqueira, musqueia e Mosqueiro, salientando-se, então,
que a palavra sofrera um processo de transformação durante o tempo, algo muito
presente na região amazônica, sobretudo, no período colonizador.
3.2.1.2 A Comunidade de Caruaru
A comunidade de Caruaru caracteriza-se como uma comunidade ribeirinha de base rural, que integra a paisagem da Ilha de Mosqueiro. Seu nome
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deriva do dialeto indígena “cariri”, no qual “caru” significa alimento e “aru aru”
uma repetição que significa abundância (PASSOS, 2004). Logo, a expressão “Caruaru” pode ser entendida como terra de alimento em abundância, onde terra
faz alusão à comunidade e alimento em abundância às espécies existentes no
local, sobretudo, a mandioca.
Caruaru encontra-se distante cerca de 45 minutos a barco motor da
Vila de Mosqueiro. Apresenta-se como a unidade nucleadora desse espaço,
visto que apresenta melhor infra-estrutura e maior número de moradores. (BRANDÃO et al, 2002). O trajeto inicia-se no Porto Pelé, localizado no final da Rua
Siqueira Mendes, no bairro do Maracajá e completa-se da seguinte forma: igarapé Tamanduaquara, Pratiquara, rio Murubira, finalizando no igarapé Caruaru, no trapiche da comunidade.
Ao desembarcar no trapiche, observam-se algumas casas, cerca de quatro; uma pequena taberna denominada “Porto Louco”, que se caracteriza como
um dos principais pontos de encontro da juventude local, além de receber, nos
finais de semana, moradores de comunidades vizinhas e da Vila de Mosqueiro
em busca de lazer; uma placa que faz alusão à “Trilha Olhos D’Água”6 e um
restaurante, com estrutura em formato de uma oca, denominado “Caxangá”,
molusco na língua indígena.
Territorialmente, Caruaru apresenta uma significativa área de terra com
predominância de solos de terra firme. Segundo seus moradores, está dividida
em duas áreas: Caruaru de baixo e Caruaru de cima (Tucumandeua), conforme
se observa nesta planta elaborada por um dos moradores locais:
6
48
Trata-se de um empreendimento ecoturístico operado pela Prefeitura Municipal de Belém via Companhia de Turismo de Belém – Belemtur. A Trilha, nos seus 3.688 m, liga a comunidade de Caruaru à comunidade do Castanhal do
Mari-Mari e possibilita aos visitantes apreciarem as belezas naturais existentes nas comunidades, assim como o
modo de vida de seus moradores (PASSOS, 2004).
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
FIGURA 4: Planta da Comunidade de Caruaru
Fonte: Humberto Araújo/ 2003
Na primeira área (Caruaru - de baixo), observa-se a igreja de Santa
Rosa de Lima; o barracão da santa; o barracão comunitário; um campo de
futebol; algumas casas e uma escola municipal, de nível fundamental (1ª a 4ª
séries), com regime multisseriado, denominada “Maria Clemildes dos Santos”.
A escola tem a estrutura composta de alvenaria e coberta com telhas de
barro. Exterior a essa, há dois anexos em formato de oca, com cobertura de
palha de inajá, onde funcionam duas salas de aula. Vale ressaltar que a concepção arquitetônica dos anexos proporciona uma contínua interação dos alunos com o meio ambiente, isto é, com o meio em que estão inseridos.
Quanto à religiosidade dos moradores da comunidade de Caruaru, aponta-se que estão divididos entre evangélicos e católicos, com predominância destes.
No que diz respeito ao aspecto religioso (catolicismo) das comunidades rurais observa-se o seguinte:
O catolicismo praticado pela população rural é
essencialmente popular, com ênfase na devoção aos santos
e em poucos sacramentos e rituais ortodoxos. A maior parte
das comunidades celebra um ou mais santos padroeiros,
considerados guardiões da comunidade. Festas anuais
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celebram seus santos padroeiros com ritual tradicional.
Por constituir um foco comum de devoção, o santo padroeiro
confere à comunidade sua identidade metafísica (LIMA,
1999. p. 23-24).
Isso é observado na comunidade de Caruaru, pois anualmente, em agosto, é celebrada a festividade à Santa Rosa de Lima, santa de origem peruana,
padroeira da comunidade. A festividade originou-se em 1945 quando um religioso, a convite de um morador local, benzeu o lugar onde deveria ser construída
mais tarde uma capela. Segundo consta, por ser esse dia dedicado à Santa Rosa
de Lima, o padre então propôs à comunidade que a capela fosse uma homenagem à Santa, iniciando-se, assim, o culto à Santa Rosa de Lima.
Quanto ao campo de futebol, caracteriza-se como o principal local de
lazer dos moradores de Caruaru, sobretudo, para os homens, tanto solteiros
quanto casados, que disputam torneios de futebol com outros moradores de
comunidades próximas, aos finais de semana. No que tange às mulheres, elas
se incluem nessa atividade na busca de lazer, como torcedoras dos times que
seus familares integram: seus pais, irmãos, tios, esposos e filhos.
Na segunda área (Caruaru de Cima ou Tucumandeua), observam-se as
áreas de produção e as casas de alguns moradores, condizentes com a lógica de
comunidades ribeirinhas amazônicas num retrato do modo característico de
moradia. Em sua grande maioria, cerca de 39 do total de 41 residências, são
compostas de madeira e cobertas de telha de barro ou palha (PROGRAMA FAMÍLIA SAUDÁVEL, 2003).
A comunidade não dispõe de energia elétrica nem de água tratada,
recorrendo, dessa forma, a lamparinas a querosene, motores e poços. O principal meio de transporte é a canoa ou casco, como popularmente é chamado
pelos moradores, e o barco a motor.
Populacionalmente, a comunidade apresenta poucos moradores, sendo
composta por 192 indivíduos, 95 do sexo masculino e 97 do sexo feminino. Em
relação à faixa etária do sexo masculino, há um maior número de indivíduos,
cerca de 26, com idade entre 20 e 39 anos, número que se aproxima quando se
trata dos indivíduos do sexo feminino, 27 pessoas com idade entre 20 e 39 anos.
Nesse sentido, observa-se que a faixa etária que compreende o intervalo de 20 a
39 anos praticamente assemelha-se (PROGRAMA FAMÍLIA SAUDÁVEL, 2003).
No que diz respeito à economia, seus moradores estão inseridos em
atividades voltadas ao extrativismo, como a pesca e a colheita de frutos. Predominantemente, afirma-se que a comunidade estabelece o agroextrativismo baseado na cultura da mandioca (Maninot esculenta). Passos (2004) estabelece
que, inicialmente, no período de ocupação da área, a principal atividade consistia na exploração da borracha, lógica que se confirma em função da racionalidade que se estabeleceu no passado quando a Amazônia constitui-se como
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ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
principal fornecedora de borracha ao mercado mundial. Nessa área geográfica
(Mosqueiro), ponto que marca esse momento, fora construída uma fábrica de
beneficiamento de borracha, denominada “Fábrica Bittar”, localizada na ponta
do Mosqueiro (Praia do Areião). Todavia, com o passar do tempo, a atividade de
exploração da borracha declinou no território amazônico, o que forçou os moradores a executarem atividades com base em outras espécies presentes na
região. Verifica-se, então, que os moradores da comunidade de Caruaru estabelecem atividades compreendidas no rio e na mata, sendo o primeiro lócus do
peixe e do camarão, e o segundo, lócus da mandioca (Maninot esculenta), do
milho (Zea-mays) e de outras espécies presentes na comunidade.
A comunidade de Caruaru encontra-se geograficamente na porção rural de Mosqueiro. No entanto, esse fato não consiste no único elemento classificatório de tal lógica, visto que é possível se observar na comunidade outros
elementos característicos a esses espaços, como o caráter da ocupação de seus
indivíduos, o princípio da herança; a diferença ambiental; o tamanho da comunidade; assim como os princípios da homogeneidade, mobilidade, estratificação e interação social que serão trabalhados ao longo do texto, conforme a
definição de Solari (1978).
3.2.1.3 Notas sobre o Processo de Constituição do Grupo “Raízes do Caru-Aipim”
O Grupo de Danças Folclóricas “Raízes do Caru-aipim” iniciou suas atividades em 6 de julho de 2003 a partir da ideia de uma moradora da comunidade e
de uma estudante do curso de mestrado em Sociologia, com o apoio do Instituto
Ampliar, organização não-governamental com sede em Belém. Segundo suas idealizadoras, o grupo surgiu com o propósito de desenvolver uma atividade que
pudesse envolver os jovens que haviam concluído a catequese, assim como aqueles que se encontravam possivelmente envolvidos em situações de vandalismo,
brigas e vulneráveis ao consumo de álcool e psicotrópicos.
No processo de planejamento do grupo, foi realizada a escolha da atividade a ser desenvolvida, mediante consulta realizada junto aos jovens. Nessa
etapa, foram elencadas algumas atividades, especialmente esportivas, como o
futebol e o karatê, e outras mais vinculadas à arte e à cultura, como a dança
folclórica e a capoeira. Na consulta realizada, pode-se perceber um direcionamento por parte da coordenação para a atividade de dança, em função de atritos e brigas manifestados nos jogos de futebol realizados durante os finais de
semana na comunidade.
Realizada a escolha da atividade a ser desenvolvida, as articuladoras
do grupo passaram à fase subsequente, que se constituiu na identificação de
uma pessoa, no caso um coreógrafo, que pudesse contribuir no processo de
formação do grupo, com elaboração das danças, ensaio dos passos e acompanhamento das atividades do grupo.
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Universidade da Amazônia
Nesse processo de identificação, chegou-se ao Moara, grupo de danças
folclóricas, criado há 34 anos com o objetivo de realizar a divulgação da cultura e da arte paraense por meio das danças folclóricas. O grupo em questão já
havia realizado, em parceria com o Instituo Ampliar, um trabalho com danças
folclóricas junto a crianças da praia de Marahu, também em Mosqueiro.
Segundo relato dos educadores, conforme o interesse demonstrado pelos jovens de Caruaru na semana subsequente ao primeiro ensaio, a partir do
dia 13 de julho de 2003, integrou-se à atividade uma dançarina do grupo Moara
com o objetivo de trabalhar junto às meninas os detalhes das coreografias. Na
ocasião, o grupo contava com onze pares que haviam se inserido durante a
semana nos ensaios realizados pelos jovens com auxílio da moradora da comunidade.
Durante o terceiro ensaio, realizado em 20 de julho do mesmo ano,
fizeram-se presentes integrantes do Instituto Ampliar, que se entusiasmaram
com os trabalhos do grupo e fizeram a doação ao grupo de um curimbó7.
A partir do quarto ensaio, realizado no dia 25 de julho, os coreógrafos
do grupo incluíram ao repertório a dança do “Siriá”. Naquela ocasião, segundo
informações da coordenação do grupo, outros jovens da comunidade demonstraram interesse em participar, porém não fora possível integrá-los devido ao
estágio avançado em que se encontravam os ensaios para apresentação na
Festividade de Santa Rosa de Lima.
No ensaio realizado no dia 26 de julho, os coreógrafos começaram a
definir a sequência de apresentação para a festividade, quando os jovens foram divididos em dois grupos, com o intuito de facilitar o aprendizado e melhorar a desenvoltura dos integrantes na hora da apresentação.
Decorridos cinquenta e seis dias da realização do primeiro ensaio, durante a festividade da padroeira de Caruaru, realizada no dia 31 de agosto de
2003, o Grupo Folclórico “Raízes do Caru-aipim” realizou sua primeira apresentação pública com a execução das danças do “Maçariquinho”, “Siriá” e “Pescador”, utilizando figurinos cedidos pelo Grupo Moara, do qual também recebeu
apoio na parte de musicalização. Na ocasião, estavam presentes o então presidente da Belemtur; o Agente Distrital de Mosqueiro; a coordenação da festividade
de Santa Rosa de Lima; a coordenadora do grupo; os pais dos jovens integrantes
e grande número de pessoas que prestigiavam a realização dos festejos.
De acordo com o registro do grupo, em meados de setembro, receberam
convite para apresentar-se no Festival do Açaí da comunidade de João Pilatos,
localizada na zona insular do município de Ananindeua, realizado no dia 5 de
outubro de 2003.
7
52
Instrumento percussivo de origem africana, construído a partir de um tronco de madeira escavada, recoberta por
couro de animal (veado ou caititu) em uma das extremidades e cujo nome significa “tronco que produz som”.
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
Ainda nesse mês, mais precisamente no dia 23 de outubro, o Grupo “Raízes do Caru-aipim” realizou sua terceira apresentação oficial durante o lançamento do cartão de crédito do pequeno empreendedor de Mosqueiro – Solcard, do
Banco do Povo8. Evento realizado na Casa de Festas “Nave do Som”, localizada na
Vila de Mosqueiro, quando se fizeram presentes vários representantes do poder
público municipal e pequenos empreendedores da Vila de Mosqueiro.
Ainda no dia 31 de outubro de 2003, segundo registro da coordenação,
o grupo realizou sua primeira apresentação na área continental do município
de Belém durante a “Semana de Comemorações das Visagens dos Personagens
do Folclore Paraense”9, realizado no Jardim Botânico “Bosque Rodrigues Alves”,
com a participação de representantes dos poderes executivo e legislativo municipal, estudantes e público de um modo geral.
Ainda nessa fase inicial de estruturação do grupo, marcada por sucessivas apresentações, inclusive fora dos limites geográficos geralmente acessados pelos jovens, no caso a Vila de Mosqueiro, torna-se pertinente destacar os
seguintes elementos: I) a forte articulação da coordenação do grupo com agentes da esfera pública municipal, tanto executiva quanto legislativa, que estiveram presentes em vários ensaios, estimulando e apoiando a estruturação do
grupo e II) os efeitos positivos gerados a partir do trabalho desenvolvido no
grupo sobre o comportamento dos jovens nele inseridos.
À proporção que o grupo avançava, novos obstáculos se interpunham a
sua frente. Assim, em meados de novembro daquele ano, o grupo sofreria uma
reestruturação interna, marcada por dois acontecimentos: o afastamento da
mestranda e do coreógrafo das atividades do grupo; e a assunção de outro
morador da comunidade ao cargo de coordenador geral do grupo.
Em relação ao afastamento da mestranda e do coreógrafo, pode-se afirmar que ambos se processaram concomitantemente em meados de novembro
de 2003. Nessa ocasião, ocorreu a conclusão da pesquisa de campo da mestranda, que não teve mais possibilidades de custear as despesas de transporte
do coreógrafo até a Vila de Mosqueiro, conforme fora anteriormente acordado
entre ela e a coordenação do grupo.
O afastamento de ambos, ao que se percebe, procedeu-se de forma
tranqüila, visto que continuaram a oferecer algum tipo de apoio ao grupo.
Outro processo, um pouco mais controverso, trata das motivações que
influenciaram a mudança na coordenação geral do grupo, também realizada
durante o mês de novembro de 2003. Naquele momento, o novo coordenador,
esposo da antiga coordenadora, assumiu o grupo. O que se captura no discurso
da ex-coordenara é o fato de que a mudança ocorreu em virtude da necessidade
8
9
Instituição de microcrédito pertencente à administração direta da Prefeitura Municipal de Belém e ligada à Secretaria Municipal de Economia – SECON (FERNANDES, 2002).
Mais conhecido como “Projeto Matinta Perera”, trata-se de uma tentativa de contraposição às comemorações norteamericanas do Halloween (Dia das Bruxas), celebrado no dia 31 de outubro (DIÁRIO VERMELHO, 2003).
53
Universidade da Amazônia
de a coordenadora superar a sua condição hierárquica para estar mais próxima aos integrantes, percebendo seus problemas e dificuldades:
[...] novembro eu senti a necessidade de tá entrando no
grupo como dançarina, porque [...] tava acontecendo muitas
fofocas em relação ao grupo, porque o grupo tava mudando
[...] seu comportamento tava sendo diferente [...] tavam
criticando o grupo que eles eram viciados e outras mais,
então eu senti necessidade de tá dentro do grupo de tá
participando junto com eles, entrosada dentro, não como
coordenadora, como dançarina [...] eu conversei com o Bené
ai ele disse “Não,[...] é legal isso. Então tu queres a gente
te coloca como dançarina”. Ai o [...] meu esposo, começou a
assumir a coordenação geral, então hoje nos somos assim,
ele é o coordenador geral , eu participo como dançarina
[...] (EDUCADOR).
Sobre a motivação para ingresso no grupo, o novo coordenador aponta,
entre outras, uma relativa à necessidade da constituição de uma liderança
masculina no interior do grupo, que viria a suprir as dificuldades observadas
por sua esposa - questão a ser retomada mais à frente durante a discussão dos
resultados apontados no grupo.
Um outro aspecto, também a ser considerado no processo de reestruturação vivenciado pelo grupo, diz respeito à própria comunidade de Caruaru que
naquele período passava por intensas discussões em torno da figura da liderança responsável pela festividade de Santa Rosa de Lima. Devido à falta de
prestação de contas e denúncias de desvio de dinheiro, o então vice-coordenador da festividade foi afastado dessa atividade e ingressou na coordenação do
grupo, conforme apurado por Passos (2004) em seu estudo sobre participação
na comunidade de Caruaru.
Esse acontecimento, na visão da pesquisadora, trata da manifestação
mais visível de um conflito entre lideranças, iniciado meses antes por ocasião
da constituição do grupo folclórico, que culminou na formação de dois grupos
no interior da comunidade:
Quando iniciou esse grupo folclórico houve uma divergência,
um racha entre as lideranças. Porque o Beto era vicepresidente da Associação, por ele discordar de algumas
iniciativas que na vez da gente jovens, ele saiu da
coordenação, passou a integrar o grupo folclórico, a
coordenação. Então, é, foi como se existisse dois grupos
opostos ali, um através do grupo folclórico, outro através da
festividade, da coordenação da festividade [...] (EDUCADOR).
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ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
Começa a caracterizar-se assim um processo de mudança no grupo, em
que se articulavam conflitos internos e externos, referentes à dinâmica de vida
em comunidade e que ainda hoje se constituem como marcas do grupo.
Nesse sentido, torna-se importante socializar um fragmento da entrevista realizada com o coreógrafo, que destaca os conflitos da comunidade e a necessidade de uma liderança mais enérgica que pudesse atuar na disciplina do grupo:
[...] Houve uma fase é muito ruim lá na questão do
presidente acho da comunidade ou líder comunitário, né,
é.. alguns problemas que houveram lá, sérios dentro do
grupo lá na comunidade que envolveram, né, ele. E ele
decidiu entrar. Disse que ia entrar na coordenação do grupo;
e como o Beto é ex-militar, né, ele tem toda aquela linha
do quartel, né, aquela doutrina. Ele disse: “eu vou... não
vou usar tudo o que eu aprendi no quartel, mas eu vou usar
um pouco do meu conhecimento pra, pra... é... coordenar...
dar uma direção pra esse grupo; né, pra ajeitar algumas
coisas que tão erradas” [...] Ai, nos tínhamos um modelo
de estatuto aqui no grupo, as regras, direitos e deveres
dos componentes, peguei uma cópia dei pra Elisângela,
ela refez algumas coisas, passamos pro Beto ler. Ai passa
pro pessoal e quem tiver sugestão também, algumas
sugestões, podem dar e vai entrar no estatuto. Desde essa
época o Beto começou a coordenar mesmo o grupo lá. Ser,
ter aquela parada mais enérgica, né (EDUCADOR).
Com a constituição das mudanças internas, em novembro o grupo
assumiu a sua atual estrutura organizativa, composta por doze dançarinos,
quatro músicos, um coreógrafo e os dois coordenadores, aqui denominados
de educadores. Um educador possui um papel mais interno, vinculado principalmente à regulação das relações no interior do grupo e residualmente na
interface desse com outros grupos de interesse, entre os quais a comunidade
local. O outro, um papel mais externo, no apoio ao coreógrafo na questão do
repasse das coreografias e na função de uma espécie de relações públicas
junto a pessoas e instituições que favoreçam os interesses do grupo.
Segundo registro da coordenação, após esse processo de reestruturação interno, o grupo realizou, em dezembro de 2003, uma apresentação na
Escola Municipal de Ensino Fundamental Remígio Fernandez, localizada no
bairro do Maracajá em Mosqueiro, onde a maioria dos integrantes do grupo
estuda. Esse momento configurou-se como um resgate, por meio de relatos dos
componentes, da grande satisfação proporcionada, especialmente entre aqueles que lá estudam e que puderam apresentar-se aos seus colegas de classe e
escola, recebendo o reforço positivo aos seus esforços, manifestado sob a forma de aplausos e comentários.
55
Universidade da Amazônia
Durante o ano de 2004, o grupo intensifica sua participação em eventos
oficiais e/ou não oficiais, grandes contribuintes para a visibilidade ao trabalho desenvolvido pelo grupo. Dentre esses eventos, destaca-se a apresentação
realizada, no dia 20 de março de 2004, no Hotel Farol, localizado na praia
homônima na Ilha de Mosqueiro, como parte programação do “I Festival das
Águas”, evento promovido pela Associação Pró-turismo de Mosqueiro e Instituto Ampliar. Esse evento teve como o objetivo aproveitar o fenômeno conhecido
como águas de março para promover a educação ambiental e o aquecimento da
economia naquele distrito.
Outra apresentação que merece destaque nesse período foi a exibição
realizada durante o Festival do Camarão da Comunidade do Castanhal do MariMari, ocorrida em 28 de março de 2004, fruto de uma articulação entre a delegada distrital10 da comunidade e a Agência Distrital de Mosqueiro. Também é
válido citar a exibição pública realizada no dia 29 de abril durante a abertura
do “VII Festival do Cupuaçu”, evento realizado por intermédio de parceria entre
a Agência Distrital e os empreendedores da Vila de Mosqueiro, com vistas à
promoção do turismo naquela localidade.
FIGURA 5: Apresentação do grupo durante o Festival das Águas (Mosqueiro)
Fonte: Registro de campo/ 2004
10
Representante da comunidade no Conselho Distrital, fórum deliberativo do Congresso da Cidade de Belém, cujas
atribuições, entre outras são: I) participar do processo de elaboração do orçamento público; II) contribuir com a
fiscalização e controle do serviço público; III) estimular o processo de controle social e democratização do serviço
público (BELÉM, 2003b).
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ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
Ainda durante o primeiro semestre de 2004, período de realização da
pesquisa, porém, não acompanhada pela equipe, houve a exibição pública do
grupo durante a inauguração das obras de mais uma fase da orla de Mosqueiro, ocorrida no mês de julho pela Prefeitura Municipal de Belém.
Ao final da pesquisa de campo, o grupo responsável por esse universo teve a oportunidade de acompanhar os preparativos e festejos do primeiro aniversário do grupo, realizado na própria comunidade de Caruaru, organizado pela coordenação e jovens integrantes do grupo. O evento planejado para 200 convidados foi realizado no dia 10 de julho de 2004, em forma
de almoço dançante com a apresentação dos grupos “Raízes do Caru-aipim”
e grupo folclórico mirim “Brotos do Caru-aipim”, também da comunidade de
Caruaru; além da formação de “rodas” de ritmos como carimbó e pagode. No
evento, estavam presentes cerca de cinquenta convidados, com destaque
para os membros da Agência Distrital de Mosqueiro, da Companhia de Turismo de Belém, integrantes do Grupo Moara e alguns familiares dos jovens
integrantes do grupo. Entre os convidados, assinala-se ainda a comitiva
formada por correligionários e assessores de uma vereadora pertencente
ao Partido dos Trabalhadores - PT, grande incentivadora e apoiadora do
grupo desde o seu surgimento, que ainda tem uma relação contínua com a
comunidade, visto que durante a realização da pesquisa de campo, a equipe
teve a oportunidade de visualizar cartazes e calendários da política, fixados em várias residências locais.
Ainda sobre o processo de constituição do grupo torna-se importante
destacar a constante interação dele com o poder político, especialmente em ano
eleitoral, manifestado pelo contato constante dos coordenadores com o poder
público municipal, representado pela Agência Distrital de Mosqueiro e Companhia de Turismo de Belém, que, segundo consta, possui como diretrizes básicas, o
incentivo e fomento ao turismo e a cultura local (BELÉM, 2003). Destaca-se a
ligação dos coordenadores do grupo folclórico com três vereadores, dois pertencentes à bancada do governo municipal e outro à base de oposição, na Câmara
Legislativa. Por meio desse contato político, a coordenação busca auferir apoio
ao processo de consolidação do grupo, seja por meio de convites para a participação em eventos (que contribuem para dar visibilidade ao trabalho desenvolvido) seja pela ajuda direta na aquisição de vestimentas, instrumentos e outros
objetos necessários à estruturação do grupo (esse aspecto será melhor abordado
no item “Participação política” do presente trabalho).
Torna-se importante ressaltar que, após um ano de atividades, o grupo
ainda possui uma dinâmica de contato cotidiano e permanente, marcada por
ensaios semanais, realizados às terças, quintas e sábados ou todos os dias da
semana (no caso da realização de apresentações consideradas importantes
pelo grupo, por exemplo, aquelas realizadas em eventos e festividades fora da
comunidade de Caruaru).
57
Universidade da Amazônia
Em relação aos instrumentos tocados, o grupo possui dois curimbós,
duas maracás11 e um agogô12.O repertório é composto por cinco danças criadas
pelo coreógrafo do grupo Moara, a saber: Maçariquinho; Angola; Siriá; Belém
meu bem; Pescador e Vaqueiro do Marajó; além da dança em fase de aprendizagem: Dança do boto e do Lundu.
No que diz respeito ao significado e à representatividade do trabalho
desenvolvido pelo grupo no contexto sociocultural amazônico, verifica-se a
constante ocorrência de danças folclóricas em quase todas as regiões do Estado do Pará. Essa prática é responsável pela divulgação de informações históricas, de símbolos, de traços étnicos e religiosos: sínteses resultantes do processo de produção do espaço geográfico e formação cultural da Amazônia, desfechado a partir de meados do século XVIII (SILVA & SOARES, 2004). Originadas
nas festividades organizadas pelos camponeses durante o período da colheita,
as danças folclóricas são manifestações coreográficas que tinham por objetivo agradecer às divindades a proteção e fartura na colheita e também invocalas (FARO, 1986). Essas manifestações, subsidiadas pelo folclore, ganharam
impulso e deslocaram-se da zona rural para o centro das cidades, onde absorvem novas influências urbanas e se reconfiguram, o que origina o chamado
Parafolclórico - forma de execução dos ritmos locais que incorpora danças
coreografadas e instrumentos não característicos da manifestação em sua forma original (SILVA, 2004).
Igualmente, ainda que pese a distinção entre os grupos parafolcloricos, torna-se importante frisar que os trabalhos desenvolvidos por esses grupos revelam traços de uma cultura de fisionomia própria, marcada pelas peculiaridades de uma intensa relação entre o homem e a natureza. Tal manifestação tem como predomínio componentes indígenas mesclados a caracteres negros e europeus, cujo teor social e agente principal é o caboclo, tipo étnico
resultante da miscigenação do índio com o branco europeu e, com uma força
cultural originada na forma de articulação com a natureza (LOUREIRO, 2001).
3.2.2 Apresentação e Discussão dos Resultados Quanti-Qualitativos: Identificação e Características Pessoais
3.2.2.1 Gênero e faixa etária
A partir da amostra estudada, percebeu-se um pequeno predomínio do
sexo masculino (59,1%) no grupo, demarcado por uma diferença de dezenove
pontos percentuais em relação ao sexo feminino (40,9%).
Essa diferença pode ser entendida com base nos indicadores da composição do grupo, em que rapazes ocupam lugares de dançarinos e músicos, em
11
12
58
Espécie de chocalho de origem indígena.
Instrumento de origem africana não usual em grupos de denominação folclórica. (SILVA, 2004).
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
oposição às meninas, que participam do grupo apenas como dançarinas. Outro
elemento válido para essa explicação é a diferença existente entre os gêneros
que residem na própria comunidade. No que tange à circulação e à interação
social desempenhada por ambos os gêneros, as jovens do sexo feminino estão
mais subordinadas ao domínio do lar e da família, por conseguinte, possuem
menor autonomia e circulação do que comumente permitida aos rapazes, o que
implica a “não-permissão” para sair de casa ou para o ingresso no grupo.
Outro ponto a ser mencionado diz respeito às relações estabelecidas
no contexto do grupo, uma vez que há maior identificação dos rapazes com os
educadores do grupo e um maior potencial de conflito desses com as integrantes do grupo. Esse assunto será abordado no item 4.3.10 deste trabalho.
Em relação às idades, foram definidos cinco grupos de faixas etárias: de
10 a 12; de 13 a 15; de 16 a 18; de 19 a 21 anos; igual ou superior a 22 anos. Esses
dados refletem a participação em maior número de jovens na faixa de 13 a 15 anos,
com representação de 27,3% na amostra. Em seguida, estão os jovens na faixa de 16
a 18 e, posteriormente, os com idade igual ou superior a 22 anos, ambos os grupos
apresentaram resultados semelhantes, cerca de 23% da amostra.
Vale apontar que o gradiente etário do grupo reflete a composição etária da própria comunidade, cuja maior parte da população se concentra nas
faixas etárias de 10 a 19 e 20 a 39 anos, que correspondem juntos e em números
absolutos a 102 pessoas do contingente de 192 existentes no local. Nesse sentido, diz-se que o grupo possui uma adesão bastante representativa dos jovens
de Caruaru, o que reflete também uma perspectiva a mais de retenção do público juvenil na comunidade. Esse processo, contudo, precisa ser bem observado
e comparado a outras áreas de igual conformação, que tem se constituído frequentemente em zona de repulsão da população juvenil, em face, sobretudo, da
escassez de políticas públicas voltadas para os jovens no que tange à educação, à saúde, ao lazer e ao trabalho.
3.2.2.2 Estado civil, número de filhos, cor da pele e nível de escolaridade
Concernente ao estado civil dos jovens abordados, observa-se que o
grupo é formado em sua totalidade por jovens solteiros e sem filhos, correspondendo a 100% da amostra. Fato esse que merece destaque no contexto da análise geral do universo rural ribeirinho, em que a transição entre a fase juvenil e
adulta geralmente costuma ocorrer de maneira precoce com a assunção plena
dos papéis de caráter adulto, isto é, a inserção no mercado de trabalho e as
responsabilidades pertinentes à constituição de uma família autônoma. Ressalta-se que a concepção de família aqui entendida refere-se ao “conjunto de
pessoas relacionadas por laços de consanguinidade entre si e de afinidade,
laços que são sacralizados e cujas pessoas envolvidas guardam entre si uma
relação de solidariedade mecânica”. (GARCIA JR, 1983, p. 116).
59
Universidade da Amazônia
Sobre a autodeclaração dos jovens quanto à cor, verifica-se uma semelhança de resultados entre aqueles que se autodeclararam brancos e os que se declararam negros, com representatividade, cada um, de 4,5% na amostra; outros 13,6% se
declararam pardos e os mais de 77% se autodeclararam morenos. Esse último grupo,
autodeclarado moreno, chama atenção, além da expressividade dos números, ao
próprio termo de definição de raça, que revela dois processos inter-relacionados na
história do Brasil. O primeiro diz respeito à mestiçagem, fenômeno biológico por
meio do qual as raças branca, negra, indígena e amarela deram origem a atual
população brasileira (MUNANGA, 1999); sendo que na região Amazônica esse processo assumiu uma conformação toda especial em virtude da presença inicialmente
maciça de povos indígenas13, os quais, por meio de “contatos inter-étnicos” com
brancos e negros, deram origem a uma população notadamente mestiça. O outro
processo trata do branqueamento, modelo discriminatório de natureza racista, criado pelas elites a partir do qual muitos indivíduos passam a renegar sua ascendência
negra na expectativa de serem mais bem aceitos pessoal e socialmente. Esse processo
pode ser observado, por exemplo, durante o recenseamento populacional de 1980,
quando os não-brancos, inquiridos sobre sua cor, responderam sob a forma de 136
cores diferentes (A FORMAÇÃO DA POPULAÇÃO BRASILEIRA, 2004).
Quanto à escolaridade dos jovens, aponta-se que cerca de 69% dos
integrantes estudam, dentre eles, dois cursam o primeiro ano do ensino médio
e outros quatorze, o ensino fundamental. Dentro deste universo, verificou-se
que alguns apresentam uma defasagem escolar, que varia entre três e oito anos.
Entre aqueles que se encontram fora da escola e que representam aproximadamente 31% dos abordados, dois concluíram o ensino médio e outros cinco saíram da escola ainda durante o ensino fundamental:
As mulheres, de um modo geral, apresentam um índice de escolaridade
melhor se comparado aos dos rapazes, principalmente quando se considera o
número de pessoas que concluíram o ensino médio e aqueles que se encontram
fora da escola.
Essa situação é compreendida pela necessidade de inserção dos jovens
em ocupações como a lavoura, a pesca, a produção de tucupi e carvão; e da
busca por uma colocação no mercado de trabalho, que, precocemente, empurra-os para fora da sala de aula. Sobre isso, enfatiza o depoimento abaixo:
[...] que me fez parar de estudar foi por causa que quando
eu saí aqui do colégio aqui do Caruaru [...] eu foi estudar
no colégio Abelardo Leão Conduru lá no Carananduba. Ai
eu morava na casa de uma tia minha, ali não tinha um
serviço pra mim fazer, pra mim ficar dependendo deles, eu
não podia ficar junto com eles, sem ter nada pra fazer. Aí
foi por isso que eu abandonei o estudo (INGÁ, 23 anos).
13
60
Segundo Maués (1999), quando da chegada dos portugueses na América estimava—se a população indígena na
Amazônia entre dois e quatro milhões de almas.
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
Esse depoimento, então, retrata que a falta de oportunidade no mercado de trabalho ocasionou o regresso do jovem para a comunidade de Caruaru,
conseqüentemente, o rompimento das atividades escolares.
Outros fatores observados que influenciaram na desistência escolar
referem-se ao transporte e à dificuldade em mobilizar recursos financeiros
para aquisição de merenda e material escolar. Essas questões conformam-se,
quase sempre, por toda a família, uma vez que perpassaram o período escolar
dos pais dos jovens ribeirinhos e, agora, fazem parte do cotidiano dessa nova
geração, constituindo-se como obstáculos decisivos e, em alguns casos, conduzindo à evasão e ao abandono escolar ainda durante o ensino fundamental.
Para tanto, torna-se oportuno socializar dois depoimentos que revelam as dificuldades dos jovens ribeirinhos para realizar seus estudos, ontem e hoje:
[...] os meus pais contam que antes não tinham merenda,
não tinha cadeira na sala de aula [...]. Agora não tem muita
mordomia, mas em muitas coisas não tem [...] mordomia
porque a gente passa dificuldade pra ir pra lá como eles
passavam também [...] (BACURI, 19 anos).
Com base nesse depoimento, nota-se que o acesso às escolas localizadas fora da comunidade caracteriza-se ainda hoje como uma dificuldade para
a continuação dos estudos do jovem ribeirinho.
O depoimento abaixo, por sua vez, expõe outro problema enfrentado pelos jovens no que tange ao acesso a merenda:
Porque na época quando comecei estudar não tinha esse barco
pra buscar os alunos. Aí eu e o meu primo, quer dizer era eu,
mais meu primo e meu colega nós ia a remo todo dia, ia e
vinha...aí chegava o fim de ano, quando nós não passava. Pôxa,
o cara já fica meio triste [...] eu vou estudar mais esse ano, de
novo [...] porque o cara se esforça muito [...] quando o cara
tinha um dinheiro pra levar pra comprar merenda tava tudo
bem. Aí quando o cara não tinha, passava [...] com fome e pro
cara estudar com fome [...] não raciocina nada. Aí foi mais por
isso que nós paremo de estudar [...] (CUPUAÇU, 17 anos).
Observa-se assim que as dificuldades nesse universo estão interligadas ao transporte escolar e à questão da merenda, fundamentalmente. Contudo, apesar das dificuldades relatadas, os jovens entrevistados reconhecem que
algumas melhorias foram obtidas na área da educação, que se consubstancia
como uma possibilidade para a construção de um futuro melhor, qualificandoos para o mercado de trabalho, assim como, para a realização de aspirações
que integram o imaginário desses jovens, como ter melhores condições de vida
e poder ajudar aos pais.
61
Universidade da Amazônia
3.2.2.3 Condições socioeconômicas dos integrantes: ocupação
Com base nos dados obtidos durante a aplicação dos formulários, verificou-se que a maioria dos jovens abordados, no momento, estavam desempregrados, o que em números absolutos representa 13 jovens. O segundo grupo,
com 27% dos jovens, declarou não ter exercido nenhum tipo de ocupação ou
ainda não ter ajudado a família em tarefas relacionadas à lavoura, à produção
de farinha e de tucupi; 9% da amostra, correspondente a dois jovens, declararam desempenhar alguma atividade de modo informal e apenas uma jovem (no
instante, contratada pela Secretaria Municipal de Saúde para a função de agente comunitário de saúde na comunidade14), o que corresponde a 4,5% dos jovens, declarou possuir algum tipo de vínculo profissional.
Já a partir da leitura qualitativa dos dados, observou-se que a maioria
dos jovens, mesmo aqueles que declararam não exercer qualquer ocupação,
desempenha alguma atividade, geralmente circunscrita ao domínio da casa, do
“quintal” e/ou do rio, por meio do desempenho de tarefas executadas por meninos e meninas.
Constata-se, então, que o trabalho desenvolvido pelos jovens do sexo
masculino se materializa na ajuda na lavoura, na produção da farinha, do
tucupi e na pesca, ou ainda, na extração de carvão vegetal, conforme observado
em campo. Quanto ao trabalho desenvolvido pelas jovens do sexo feminino,
diz-se que elas se encontram no limite da casa, ou seja, estão inseridas, fundamentalmente, nas atividades domésticas, como: lavar roupa e louça, cozinhar,
varrer a casa etc.
Dessa forma, verifica-se que desde cedo, ainda na infância, os jovens
ribeirinhos reproduzem a lógica rural de inserção e aprendizado dos ofícios da
casa, da mata, do rio e da roça, de forma que, ainda durante a chamada adolescência, período no qual as meninas e meninos da cidade costumam deixar de
lado brincadeiras com bonecas, carinhos e videogames, as moças e rapazes
ribeirinhos já se encontram preparados para cuidar da casa, da roça e da
família (BRANDÃO, 1983). Vale ressaltar que essa dinâmica é fruto do princípio
da herança, pela qual o jovem reproduz os ofícios de seus pais. Nota-se ainda
que as jovens, ao se casarem, absorvem também o ofício da roça, acumulando,
dessa forma, duas atividades: a da casa e a do “quintal” (lavoura).
3.2.2.4 Situação dos jovens quanto à moradia: local de domicílio e número de
moradores por domicílio
Percebe-se, com base nos dados, que cerca de 95% dos integrantes do
grupo residem na própria comunidade de Caruaru, o que corresponde em números absolutos a 21 pessoas. Outros 4,5% residem no bairro do Maracajá, na
14
Para efeito de contabilização, os vínculos contratuais da mesma foram contabilizados no item carteira assinada.
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ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
vila de Mosqueiro, que corresponde à sobrinha dos coordenadores do grupo
que também participa do “Raízes do Caru-aipim”. Os dados em si indicam uma
forte ligação dos integrantes e do próprio grupo com o local.
A análise dos dados coletados revela que mais de 90% dos integrantes
reside com os pais (em números absolutos, 20 jovens); 4,5% (1 integrante, em
números absolutos) residem com parentes (pai adotivo e avó) e 4,5% ( também
1 integrante, em números absolutos) residem ora com a mãe ora com parentes,
no caso, os coordenadores do grupo.
Observa-se também que, embora haja na comunidade a presença de
famílias com outras formas além da elementar (pai, mãe e filhos), essa estrutura ainda é a mais usual na comunidade.
Há ainda a constatação do significativo número de integrantes que
residem com seis a sete pessoas no mesmo domicílio (54,5%), assim como,
aqueles que residem com cerca de oito ou mais indivíduos (40,9%), sendo que
em alguns desses casos, verifica-se a existência de mais de uma família elementar em uma casa, o que origina formação de famílias extensas.
3.2.2.5 Relacionamento com os familiares
Segundo Carvalho (apud ABREU; FROSCHNTENGARTEN,1999), a família
compreende o espaço dos cuidados, da proteção, do aprendizado dos afetos,
assim como um espaço de socialização e construção de identidades. Dessa
forma, a família é ainda o campo privilegiado para se pensar a relação entre o
indivíduo e a sociedade e, portanto, possui suas histórias, seus mitos e formulações discursivas que refletem a realidade vivida ou idealizada e que se constituem na marca da família, verdadeira herança a ser perpetuada (SARTI, 2004).
Percebe-se através do discurso dos jovens entrevistados que, embora
haja um número significativo de pessoas coabitando um único espaço, que, em
si, pode-se constituir em potencial fonte de conflitos, as relações familiares
são consideradas boas, concorrendo para uma visão positiva sobre a família
entre os jovens abordados, conforme se pode apreender:
[...] é boa. Eles me tratam bem e eu trato bem eles, porque,
às vezes, tem família que só vive brigando, né, não tem
contato com os filhos, minha relação é boa com meus pais
(BACURI, 19 anos).
Esse depoimento retrata que, pelo fato dos familiares tratarem bem a
jovem, ela considera a sua relação com eles positiva, harmoniosa.
Essa harmonia pode ser observada também na seguinte declaração: “Eu
me sinto bem no meio deles, não sinto ameaçado de nada.” (CASTANHA, 16 anos).
Vê-se, então, que os jovens da comunidade de Caruaru apresentam uma concepção favorável acerca da família em que se encontram inseridos. A esse respeito
63
Universidade da Amazônia
vale afirmar que tal concepção é bastante presente nas comunidades ribeirinhas,
uma vez que a família apresenta-se como o esteio para vencer os obstáculos que
se apresentam, tanto endógena quanto exogenamente, à comunidade.
De modo geral, observam-se ainda divergências ou conflitos de pequena monta envolvendo os jovens, seus pais e irmãos, mesmo que eles não sejam
reconhecidos ou verbalizados. No caso dos jovens integrantes do “Raízes do
Caru-aipim”, em todo o período de pesquisa, pode-se perceber apenas um conflito envolvendo uma família da qual faziam parte dois integrantes do grupo.
Sobre esse fato, o depoimento de um dos jovens é revelador:
Com o papai mais ou menos [...] ele bebe [...] a gente faz o
que a gente quer, ele quer enfrescar com a mamãe, quer
bater nela. Aí, por causo disso eu nem falo quase com ele
(GUARANÁ, 18 anos).
A fala do jovem retrata uma situação de conflito entre pai e filho. No
entanto, é válido ressaltar que a negação de conflitos por parte dos jovens, de
um modo geral, assenta-se na formulação discursiva que expressa uma realidade vivida, em que se articulam elementos objetivos e subjetivos da vida do
indivíduo e do grupo familiar, levando à formação um imaginário baseado em
representações positivas do que venha a ser família.
3.2.2.6 Meio de transporte e meio de informação mais utilizado
Aqui, novamente, revela-se a forte influência do meio geográfico sobre
a vida e circulação dos jovens de Caruaru. Percebe-se então que 95% dos abordados têm na canoa a remo ou no barco a motor o principal meio de transporte.
Deve-se ainda destacar que o único indivíduo da amostra que apontou
outro meio de transporte além da canoa/barco, no caso, a bicicleta, é justamente o único integrante do grupo que não reside na comunidade de Caruaru, e sim,
no bairro do Maracajá na Vila de Mosqueiro, mas que, para chegar à comunidade onde se realizam os ensaios do grupo, utiliza-se da embarcação a motor
destinada ao transporte dos alunos da comunidade.
Quanto ao meio de informação mais utilizado, verifica-se que a maioria dos jovens abordados revelou ter como principal meio de informação o
rádio, representando mais de 36% da amostra. Dos demais, 27,3% apontaram a
televisão e 27,3% destacaram a conversa com outras pessoas como os principais meios de informações na comunidade.
Por sua vez, a partir da leitura qualitativa fornecida pelas entrevistas
semi-estruturadas com os jovens, visualiza-se que no meio ribeirinho o principal meio de informação é a conversa com outras pessoas, fato apontado por
sete dos jovens entrevistados, seguido da televisão, apontada por seis e do
rádio, por quatro dos entrevistados.
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ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
Na comunidade de Caruaru, observa-se que a regularidade de acesso
aos meios de informação não depende exclusivamente de elementos como gosto pessoal, mas da própria disponibilidade de aparelhos de tv, baterias e geradores, bem como de recursos financeiros para manutenção desses objetos.
Em relação aos programas televisivos e radiofônicos, constata-se
uma clara preferência pelas novelas, seguida de telejornais e filmes. Em
relação à rádio, a identificação é com as emissoras e programas que veiculam o gênero popular do “brega”, ritmo musical de grande veiculação e aceitação no Estado do Pará.
Igualmente, no que se refere aos jovens abordados, torna-se importante realçar que ainda embora a televisão desperte interesse do público das várias faixas etárias existentes na comunidade, não se percebe, pelo menos entre
os jovens de Caruaru, um conflito entre os signos locais da cultura amazônica
e a cultura cosmopolita, difundida pela programação da televisão, por meio do
qual o local transforma-se em “ruim” e “ultrapassado” em oposição ao “moderno” e “melhor” apresentado pela televisão (LOUREIRO, 2001).
3.2.2.7 Formas de lazer e ocupação do tempo livre
A partir dos dados coletados, observa-se que o jogo de bola, a música e
o encontro com os amigos se constituem como os prazeres cotidianos dos jovens de Caruaru, com preferência, respectivamente, de 36%, 31% e 18% dos
abordados.
Identifica-se ainda, a partir dos relatos dos entrevistados, que as partidas de futebol, realizadas nos campos São João e Três Corações, situados em
Caruaru, configuram-se como um importante espaço socializador em uma comunidade com limitadas opções de lazer. É em torno do futebol que se aglutinam jogadores jovens ou adultos, casados e/ou solteiros, além de mulheres e
crianças que, como espectadoras, também se divertem.
Outras opções de entretenimento apontadas pelos jovens como formas
de lazer e ocupação são: a frequentação ao trapiche, o bar “Porto Louco”, os
passeios ao igarapé do Aracairu e as brincadeiras de taco e queimada.
Durante a pesquisa de campo, foi observado que a frequentação ao trapiche e ao bar “Porto Louco” é realizada, fundamentalmente, pelos jovens do sexo
masculino. Isso se dá em função de, no primeiro, haver a reunião de jovens para
tomar banho no rio, e a disputa de corridas de natação de um lado a outro do
igarapé; enquanto que no segundo, a frequentação ao bar é em decorrência da
mesa de bilhar, lá existente, e do consumo de bebidas alcoólicas por esses jovens.
Quanto aos passeios ao igarapé do Aracairu, alega-se ser realizado por
ambos os jovens, ora com os amigos ora com os pais, sobremaneira, as meninas. Quanto às brincadeiras de taco ou queimada, fala-se que são desenvolvidas entre as jovens do sexo feminino.
65
Universidade da Amazônia
No que concerne à confluência dos jovens a lugares mais afastados,
são apontados os campos de futebol do Castanhal do Mari-Mari e do Itapiapanema, os balneários às proximidades de Caruaru, como o “Beleléu”, além de
idas à Vila de Mosqueiro e a consequente frequentação a locais como o campo
do “Pedreira Esporte Clube”, a Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó, o Mercado
Municipal e o Trapiche de Mosqueiro. Verifica-se também a existência de festas
realizadas durante os finais de semana em estabelecimentos localizados em
Mosqueiro, como a “Quadra do Barulho”, a “Barraca da Vovó” e o “Point da
Vila”, esse restrito aos rapazes.
Chama-se atenção para uma diferenciação no âmbito da circulação e
interação social entre os jovens da comunidade, que conforme será abordado
mais adiante, encontra-se demarcada por elementos como o gênero e a idade.
Ou seja, os meninos, de um modo geral, possuem maior liberdade de circulação em Caruaru, nas comunidades do entorno e na Vila de Mosqueiro, para a
frequência às praças, praias e casas de festas.
As meninas, por sua vez, possuem uma circulação mais restrita, dentro
da comunidade, com algumas incursões pela cidade, quando da ida à escola,
às apresentações ou durante as festividades religiosas. Percebe-se ainda que,
para algumas meninas, é facultada a oportunidade de se associarem aos meninos e assim ampliarem a sua circulação, conforme se observa no relato seguinte: “Eu passeio assim com os meninos [...] pra Outeiro, pra praia em Mosqueiro,
pras festas, quando tem, pra algum futebol, assim. (BACURI, 19 anos). Nesse
relato, observa-se o depoimento de uma jovem que estabelece uma maior mobilidade no que concerne o seu deslocamento em relação às demais.
Quanto ao deslocamento dos jovens do sexo masculino aponta-se que:
Às vezes quando tem [...] aqui e quando teve lá na Três
corações [...] Ás vezes é Castanhal, lá na Vila e pra ali [PORTO
LOUCO]. Eu vou lá no campo do Parazinho (BURITI, 13 anos).
Dessa forma, percebe-se que a frequentação a esses locais se dá de
forma variada, sendo mais cotidiana em pontos localizados na própria comunidade. Ou ainda, em alguns casos, na ida por conta do trânsito para escola. No
caso de festas e passeios, essa frequência ocorre de forma mais esparsa, em
geral uma a duas vezes por mês, comumente aos finais de semana.
Durante essas ocasiões, os jovens chegam a gastar entre U$ 0,34 e
17,2015, destinados ao pagamento de transporte, ingressos em casas de festa,
assim como ao consumo de lanches e bebidas, entre as quais algumas alcoólicas, como a cerveja, aguardente e catuaba, bastante apreciadas e consumidas
pelos jovens de Caruaru.
15
66
Conversão da moeda nacional realizada a partir dos valores do dólar no dia 15/09/04, isto é, U$ 1,00 = R$, 2,907.
O Liberal, caderno Painel/Economia, p. 6.
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
Em relação à motivação dos jovens para frequentar tais locais, observa-se que, fundamentalmente, ocorre em função do gosto pessoal, de motivações religiosas, no caso das festividades de santos, e do prazer e da oportunidade de convívio com os amigos.
3.2.2.8 Hábitos e padrões alimentares
Quanto aos hábitos e padrões alimentares, constata-se que a refeição
preferida entre os jovens é o frango, em várias formas de apresentação (assado,
cozido), acompanhado de arroz, feijão ou macarrão. São ainda citados pratos
como a macarronada, a feijoada e o arroz com galinha. O peixe, presente no
local, também aparece, contudo, apenas entre as preferências alimentares de
dois dos entrevistados. É relevante destacar que a mandioca, produto típico do
local, não é citada em nenhum momento, assim como o camarão.
Considera-se que a questão alimentar reflete o conjunto de questões
ligadas à estratégia de reprodução dos produtores no meio rural, assim como
também representa os determinantes naturais e sociais da sua expropriação.
(BRANDÃO, 1981). Destaca-se que os ingredientes necessários para a elaboração das refeições preferenciais, como o feijão e o trigo, não fazem parte do rol
de produtos produzidos localmente.
Nesse sentido, entende-se que fatores como o aumento da população, a
pressão exercida pelo homem sobre os recursos naturais, as mudanças das
relações entre o homem e a natureza e os imperativos de um mercado local ou
regional fazem com que as condições necessárias para o acesso direto aos
alimentos nas comunidades rurais sejam mais reduzidas, o que implica a aquisição, cada vez maior, de ingredientes fora dos limites da comunidade.
Retoma-se, então, o sentido da própria pergunta constante no roteiro
de entrevista: “Qual a sua comida preferida?”, que tinha por objetivo identificar
as influências culturais existentes e atuantes sobre os jovens. A resposta de um
dos jovens transcrita abaixo é bastante reveladora:
Comida preferida é o que pintar (risos) porque todo dia
assim não tem a comida preferida às vezes, às vezes tem
uma comida assim pra cá às vezes tem uma comida boa [...]
a gente vai assim levando (SERINGA, 19 anos).
Sendo assim, com base no relato acima, confere-se que a alimentação
diária dos jovens não corresponde ao gosto ou à vontade própria de cada, seja
no campo ou na cidade.
67
Universidade da Amazônia
3.2.2.9 Religião e religiosidade entre os jovens de Caruaru
Segundo Wolf (1970), as sociedades de base rural fazem parte de uma
ordem social mais vasta e com ela se relacionam por meio de suas coalizões.
Do mesmo modo, participam de uma compreensão simbólica ou uma ideologia,
que consiste em atos e ideias cerimoniais e crenças que preenchem diversas
funções, algumas expressivas, como os casamentos, as festas religiosas, as
festas da colheita, entre outras, que têm como objetivo ajudar os membros
dessa sociedade a lidar com crises inevitáveis e irredutíveis da vida (a falência,
a doença e a morte).
Em Caruaru, um desses momentos pode ser identificado na festividade
religiosa de Santa Rosa de Lima, realizada anualmente durante o último final de
semana de agosto, frequentada por pessoas da comunidade e outras vindas de
Belém, de comunidades insulares, como Icoaraci e Cotijuba, e de localidades
da zona do Salgado. Esse evento é composto da realização de novenários e da
procissão fluvial da Santa, iniciada na Porto Pelé, no bairro do Maracajá, com
término na própria comunidade (PASSOS, 2004).
A realização da festividade religiosa que envolve, em seus preparativos, a maior parte da comunidade de Caruaru, marca o equilíbrio entre os
interesses das unidades familiares dentro da comunidade de Caruaru e as coalizões dessa com as demais comunidades e com a sociedade mais ampla. Ainda, observa-se que a ordem simbólica existente na comunidade influencia os
próprios jovens entrevistados que, em sua maioria, 95,5% da amostra, se autodesignaram como católicos.
Portanto, entende-se que a opção religiosa dos jovens expressa os processos de socialização, vivenciados na comunidade durante a realização das
celebrações, realizadas na capela dedicada à padroeira, aos sábados e aos
domingos, e na participação na festividade de Santa Rosa de Lima, conforme
demonstra o relato abaixo:
Aí, aí da igreja aí [...] Desde o ano passado, foi do ano
passado que a gente começamos a frequentar aí, canta aí
na igreja, que a gente, de vez em quando, quando tem as
missa à gente tamu lá (INGÁ, 23 anos).
Nesse sentido, é perceptível que os momentos de participação dos jovens se processam de forma esporádica devido à própria intermitência da realização das celebrações e missas na comunidade. Além do mais, os jovens
possuem um papel secundário e acessório, conforme o seguinte depoimento:
“Ah, era cantar, às vezes quando tinha missa a gente ficava lá no lugar certo pra
nós e ajudava o padre” (MANGA, 13 anos).
Observa-se ainda, a partir dos relatos, que os jovens de Caruaru apresentam uma pequena frequentação em grupos religiosos, dentro e fora da co-
68
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
munidade: “Eu já participei ano passado de um, aí a gente ensaiava, quando foi
no dia do Círio a gente cantou lá na frente” (CASTANHA, 16 anos).
O surgimento de grupos de jovens e a participação em atividades religiosas estão circunscritos a momentos e tarefas específicas, tais como: realização de missas: “[...] durou três meses o grupo [...] quando tinha missa a gente
ficava lá no lugar certo pra nós e ajudava o padre” (MANGA, 13 anos).
Nesse depoimento, assim como em outros colhidos durante a pesquisa
de campo, verifica-se a participação dos jovens na execução dos rituais religiosos da comunidade e na chamada parte profana dos festejos de Santa Rosa de
Lima, conforme relatam dois dos abordados quando inquiridos sobre sua participação na festividade: “[...] colaborando com as pessoas aí e carregando as
grades de cerveja, ajudando a fazer um tapete que é feito aí”. (INGÁ, 23 anos);
“[...] ajudá nos ajudava muito, eu ajudava muito assim [...] transporte de bebida, ajudava aí na Barraca da Santa, na limpeza, é isso só” (MANDIOCA, 19 anos).
Tal participação residual contribui para não internalização da religião
por parte dos jovens, aqui percebida na dificuldade que possuem em expressar
significado da religião em suas vidas, conforme se observa no trecho a seguir:
“Eu nunca tinha pensado nessa pergunta em religião” (BACURI, 19 anos).
Sobre essa fala, constata-se que o entrevistado, obstante participar
dos ritos religiosos existentes na comunidade, anteriormente à realização da
pesquisa, ainda não havia se inquirido sobre o significado da prática religiosa
em sua vida. Observa-se ainda que depoimentos como esse e o transcrito a
seguir representam 60% das respostas colhidas durante a pesquisa: “Religião
pra mim? Aí eu não sei te dizer” (CASTANHA, 16 anos).
Ressalta-se ainda que 25% dos jovens entrevistados durante a pesquisa interpretam religião como o fato de acreditar e louvar a Deus; e outros 6,3%
relacionam religião à frequentação de templos e à participação em rituais,
como missas.
No que se refere à relação entre juventude e religião, observa-se que
mais de 37% dos jovens entrevistados não soube explicar a relação existente
entre religião e juventude, assim como também é significativo o percentual
daqueles que acreditam que religião e juventude não combinam, com 31% dos
jovens abordados.
Muito das vezes existe, por causa que os jovens que
frequentam as suas, cada qual frequenta as suas religiões,
mas tem muitos que não frequenta é religião nenhuma
(INGÁ, 23 anos).
Baseado no depoimento acima, é possível constatar que o jovem
entrevistado relaciona juventude e religião a partir da participação ou não dos
jovens em ritos religiosos. Destaca-se aqui que 18% dos entrevistados relataram não saber se existe relação entre juventude e religião, e outros 12% consi-
69
Universidade da Amazônia
deram a importância da religião na vida dos jovens, muito embora esse valor
não seja revertido na participação deles em suas igrejas, conforme se observa
no trecho transcrito de uma entrevista:
Não, na minha opinião eu acho que tem sim, mas na maioria
dos jovens estão muito afastado da religião católica né,
muitas das vezes a gente vê naquelas religião, de crente
como dizem né, eu acho que tem a ver sim, com a religião
(BACURI, 19 anos).
Observa-se que o entrevistado relata o afastamento dos jovens das
celebrações religiosas, especialmente as realizadas pela igreja católica. Fenômeno que segundo o entrevistado não acontece em outras religiões, como nas
evangélicas.
Portanto, entende-se que na comunidade de Caruaru o distanciamento
dos jovens em relação à igreja e à vivência religiosa pode estar interligado à
ausência, ou pouca participação, de líderes locais, no caso de lideranças religiosas, que resumem a sua participação na comunidade à organização e realização das festividades à padroeira.
3.2.2.10
Participação política
De acordo com Léna (apud PASSOS, 1999), desde o período colonial, no
Brasil assim como na Amazônia, o sistema político baseado na troca de favores
constitui-se como um traço marcante de sua história social e política, exaltado
por meio de uma relação pessoal em uma troca de fidelidade, seja ela econômica ou política.
Em Caruaru, esses processos podem ser identificados na troca de favores
presente especialmente na realização das festividades da padroeira local, abordados no estudo desenvolvido por Passos (2004) na comunidade de Caruaru.
Nesse estudo, Passos (2004) relata que, na comunidade, a festividade
de Santa Rosa de Lima, principalmente em anos de eleição, é cenário para
inúmeros políticos que prestigiam a comunidade com promessas e presentes
em troca de votos. Evidencia-se aí o objetivo de arrecadar donativos para a
festa religiosa, por conseguinte, as lideranças comunitárias se atrelam aos
políticos influentes na região para pleitear recursos. Em troca, os políticos
ganham fidelidade nos votos dos moradores, pois esses ficam gratos por terem
sido atendidos em um momento importante na vida comunitária.
Esse tipo de mecanismo tende a atuar sobre a visão dos jovens de
Caruaru perante a participação política, circunscrevendo-a, exclusivamente, à
política partidária e ao processo eleitoral. Daí percebe-se que os jovens de
Caruaru possuem uma visão de política pautada pelos princípios da represen-
70
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
tatividade, isto é, as deliberações não são tomadas pela coletividade, mas por
pessoas eleitas especialmente para essa finalidade.
Ocorre que em tempos de crise de legitimidade do sistema de representação, cuja raiz mais profunda encontra-se vinculada a determinados elementos (como: a falta de coerência entre o projeto/programa eleitoral e a
prática dos eleitos), há a ausência do controle dos eleitores e/ou partidos
sobre os eleitos (PONT, 2005). Logo, tornam-se comuns representações negativas ao processo eleitoral e à vida política, conforme retratado abaixo:
É que eles só vêm pedir votos, pro pessoal aqui quando tá
perto das eleições, aí eles conseguem convencer aí [...]
depois o pessoal quando não veem que eles não tão
fazendo nada do que eles cumpriram, aí eles ficam falando,
reclamando porque eles votaram nessa pessoa aí (MANGA,
13 anos).
É comum, também, esse tipo de referência ao caráter funcional do voto,
a obrigatoriedade do ato, e às implicações do não votar: “Importante votá porque se não perde documento, vai perder documento né. Aí tem que votá, é obrigativo” (AÇAÍ, 16 anos).
De um modo geral, a partir dos dados coletados, percebe-se que os
jovens em Caruaru, como eles próprios dizem, não são muito ligados à política.
Daí se perceber pouca internalização da questão política pelos jovens da comunidade, pois do total de jovens entrevistados, 20% votaram pela primeira vez
nas últimas eleições (2004) e outros 30% votaram regularmente enquanto que
40% não votaram.
No que tange à participação em grêmios estudantis, nenhum dos jovens
abordados revelou participar e, em relação à filiação partidária, observa-se
que apenas dois dos entrevistados, ambos do sexo masculino, são simpatizantes a partido político, um ao Partido do Movimento Democrático Brasileiro –
PMDB e outro ao Partido dos Trabalhadores – PT.
Nesse sentido, entende-se, a partir da formulação de D’Incao (1987)
que os mecanismos de troca de favores existentes na comunidade fornecem
as bases para a manutenção de valores tradicionais e para as diferentes
formas de dominação e exploração dos indivíduos, especialmente nos anos
eleitorais. O que pode se observar, a partir de depoimentos, é que os políticos e a própria política são relacionados a uma personalização de expressões, como “ajudar” e “tratar bem”, captada no discurso de dois jovens
abordados durante a pesquisa. Essa situação compromete o exercício político e democrático dos jovens nas eleições e mesmo em outros espaços
representativos da vida comunitária, como a comunidade católica e a festividade de Santa Rosa de Lima.
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Universidade da Amazônia
3.2.3 Organização dos Jovens em torno do Grupo
3.2.3.1 Formas de inserção e objetivos do grupo
A partir dos dados coletados, observa-se que aproximadamente 91%
dos jovens que responderam o formulário, em números absolutos 20 jovens,
ingressaram no grupo ainda nos primeiros três meses de atividade. Outros
4,5% ingressaram mais recentemente e um, equivalente a 4,5%, não quis se
declarar a respeito do tema.
O ingresso desses jovens no grupo ocorreu, na sua maioria, aproximadamente 40%, a partir de convite formulado pela idealizadora do grupo. Outros
27,3% ingressaram por interesse próprio e os demais, também 27,3%, por intermédio de amigos e colegas que já participavam do grupo.
No que diz respeito à motivação para o ingresso no grupo, o motivo
principal está vinculada à vontade de aprender e à alegria em dançar, representando mais de 31% dos entrevistados. Outros 25% vincularam a motivação ao
desejo de participar de algum grupo. Os demais fatores propulsores, com representação de 6,3% das opiniões declaradas, cada, correspondem à influência
dos pais, ao gosto próprio, ao convite realizado pela coordenadora e, por fim, à
falta de opções em Caruaru.
Assim, afirma-se que a questão da inserção e participação em grupos
emerge a própria questão da formação da identidade, visto que o processo de
constituição identitária, iniciado durante a infância no seio dos processos de
socialização vivenciados em família, encontra na juventude o seu período crítico, principalmente porque é nesse momento que as referências positivas escasseiam e embaralham-se com as negativas, o que torna o processo de construção identitária complicado e difícil (SOARES, 2004). Nesse instante, além da
família, adquirem especial importância na vida dos jovens os grupos, espécies
de formações fraternas, de caráter horizontal (turmas, grupos, bandos ou gangues), que servem de ancoragem para novos polos de identificação e de formação do sujeito (KEHL, 2004).
Quanto aos objetivos desse grupo, aponta-se que cerca de 31% dos
jovens vinculam a criação do grupo à necessidade de divulgar a comunidade
de Caruaru por meio da música, da dança e das lendas existentes na região.
Destacam-se ainda aqueles que vinculam o surgimento do grupo à vontade de
integrar os jovens à vida da comunidade ou, simplesmente, ao próprio fato de
aprender a dançar – aqui visto como causa e não como um produto do processo em curso. Observa-se ainda que apenas 6,3% da amostra, 2 entrevistados,
reconhecem os objetivos manifestados pela coordenação: afastar os jovens
das drogas e da violência. A seguir são apresentados alguns depoimentos que
traduzem a diversidade de opiniões dos jovens em torno dos reais objetivos
de criação do grupo:
72
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
Pra mim é o mesmo que seja pra todos. Eu bem dizer vou
falar por todos porque o objetivo nosso é amostra um pouco
da cultura que existe no Pará, fazer as outras pessoas que
não conhece [...] é amostra pras outras pessoas que venham
visita aqui a nossa localidade e também pras outras
pessoas que em Belém ou na vila em qualquer parte que a
gente vá (INGÁ, 23 anos).
Identifica-se aqui, a partir da fala do entrevistado, que o objetivo do
grupo está relacionado à divulgação da cultura paraense e da própria comunidade de Caruaru. Já o depoimento a seguir expressa a internalização, por parte
de um jovem, de outro objetivo para a criação do grupo, não divergente nem
menos importante do que o primeiro, que é a busca para melhorar as condições
de vida na comunidade:
Eu acho que pra, pra melhoria aqui na nossa comunidade,
por causa que antes do grupo, a gente, parece que a gente
vivia tudo isolado aqui aí, depois que o grupo foi fundado,
a gente condições de conhecer mais pessoas, de ter mais
amizade, depois que foi fundado aqui acho que com certeza
pra melhoria das pessoas aqui (GUARANÁ, 18 anos).
Com base nesse depoimento, observa-se que os jovens de Caruaru percebem a situação de isolamento da comunidade e a sua própria em relação à
sociedade mais abrangente, assim como consideram a superação desse fato
uma condição importante para a melhoria das condições de vida. Por fim, um
grupo menor de jovens internaliza e apresenta como objetivos aqueles apresentados pelos idealizadores do grupo:
Porque os jovens já tavam se metendo
droga, já tavam querendo fazer outras
a [...] discutiu isso aí ela queria fazer
esse negócio de droga, não teve esse
tipo de negócio (MURUCI, 10 anos).
em [...] queriam usar
coisas que não deve,
o grupo, pra não ter
negócio, roubo, esse
Nessa fala, percebe-se que há elementos presentes no discurso dos idealizadores do grupo, ou seja, o interesse em desenvolver um trabalho junto às jovens
da comunidade que se encontravam em situação de vulnerabilidade social.
Assim, é possível observar, a partir da análise dos dados, que não há,
de modo geral, por parte dos entrevistados, uma internalização do discurso dos
coordenadores no que diz respeito ao próprio sentido motivador para o surgimento do grupo. Segundo Leontiev (apud LOMONACO, 1999) a formação de grupos ocorre a partir da articulação entre necessidades e sentimentos dos indivíduos, isto é, aquilo que os mobiliza a agir, e que se traduzem por meio de
73
Universidade da Amazônia
atividades comuns. Se essas atividades forem satisfatórias, concorrem para o
alcance dos objetivos, o surgimento de novas atividades e o fortalecimento do
grupo, caso contrário, o grupo tende a se desestruturar devido à inexistência de
laços e objetivos comuns.
3.2.3.2 Frequência e participação
A dinâmica de participação dos jovens nas atividades do grupo é analisada com o objetivo de verificação da assiduidade deles em tais atividades,
sejam ensaios ou apresentações. Nesse caso, observou-se que um dos principais estímulos para frequência é o fato de as reuniões do grupo se constituírem
como a opção de lazer mais próxima à realidade dos jovens de ambos os sexos
e também de seus lares. Fora isso, ainda há a vigência de um Estatuto do Grupo,
com a deteminação, em um dos artigos, de que o acúmulo de três faltas consecutivas é passível de punição por meio da suspensão do integrante.
3.2.3.3 Pontos positivos e negativos no grupo
O principal atrativo para a participação dos jovens são as próprias
apresentações que, dentro da realidade dos jovens de Caruaru, constituem-se
como momentos ímpares para circulação e interação social desses jovens,
conforme se observa no seguinte depoimento:
O que eu acho bom no grupo é que a gente dança, saí por aí
conhece outras pessoas [...] conhece outros lugares, isso
que eu acho bom, porque antes a gente não tinha grupo só
ficava aqui, ia lá pra Mosqueiro, pra praça, agora não, a
gente tendo grupo a gente sai, é pelo menos uma animação
pra gente (BACURI, 19 anos).
Logo, evidenciam-se elementos até então distantes da realidade da
maioria dos jovens de Caruaru, isto é, sair e conhecer novos lugares e pessoas.
Outros elementos apontados como positivos correspondem à união existente entre os integrantes e a disciplina estabelecida pela coordenação do grupo:
[...] é os dois que são positivos [...] porque eles são
positivos, porque aonde nós estamos eles estão junto com
a gente, eles nunca foram pessoas de deixarem a gente
assim, a vocês vão dançar só vocês a gente vai ficar aqui,
não. Eles são positivos porque as coisas que eles querem
da gente eles chegam na hora e falam [...] (INGÁ, 23 anos).
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ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
Esse trecho revela a importância do trabalho conduzido pelos educadores, que estabelece marcos referenciais de confiança mútua e amizade na
vida dos jovens.
Observa-se também como ponto positivo o fato de as atividades realizadas em grupo ocuparem um espaço de tempo, que antes era livre devido à
falta de oportunidades de lazer na comunidade:
É a alegria, os ensaios, porque esse grupo tomou um espaço
nosso que tava livre, a gente não fazia quase nada dia de
semana, além do estudo, agora [...] depois que apareceu
esse grupo tomou um espaço que tava livre e foi muito bom
isso, pra mim foi muito bom (CASTANHA, 16 anos).
Nesse sentido, diante da diversidade de aspectos abordados e da assertiva de Leontiev (apud LOMONACO, 1999), entende-se que os pontos positivos configuram-se como mobilizadores, ao ajudar a manter a articulação entre
os indivíduos e, ao mesmo tempo, inspirar a realização de mais atividades que
reúnam os jovens.
Em contrapartida, aproximadamente 31% dos entrevistados apresentaram como ponto negativo as discussões manifestadas entre os integrantes do
grupo. Outros 18% fizeram referência a não-aceitação de normas por parte de
alguns integrantes do grupo:
Porque muitas vezes quando o [...] fala uma coisa tem
alguns que não querem [...] são cabeça dura, não entendem
[...] não tentam entender aquilo que ele diz. Eu acho
totalmente errado aquilo. Que tem algumas aí que acho
que nem gostam muito do [...] e ficam lá, eu acho que,
quando eles falam assim alguma coisa que elas não
querem, elas não gostam mesmo e não entendem aquilo e
não fazem...eu acho errado isso (CASTANHA, 16 anos).
Identifica-se aqui a outra face do trabalho do educador, traduzida na
resistência de alguns integrantes do grupo em aceitar as resoluções estabelecidas pela coordenação no que tange ao funcionamento do grupo. Observa-se
ainda que esses acontecimentos não se reduzem a episódios isolados que envolvem unicamente a coordenação e os integrantes adversos às deliberações,
mas vêm a abranger a maioria dos jovens, o que ocasiona os conflitos.
Os jovens entrevistados consideram o fraco desempenho do grupo durante as apresentações como outro ponto negativo, visto que tem a capacidade
de provocar conflitos entre os integrantes do grupo: “[...] é as meninas que na
hora do ensaio em vez delas ensaiarem elas ficam inventando um monte de
coisas, ai eu tô com dor de cabeça, eu tô com aquilo, aí isso que é negativo”
(INGÁ, 23 anos).
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Universidade da Amazônia
Verifica-se, portanto, que a análise dos dados demostra como elementos negativos e fontes de conflito três elementos muito característicos no grupo:
I) divergências e conflitos existentes entre os integrantes; II) rebeldia inerente
aos jovens, manifestada por meio do questionamento e da negação das regras
estabelecidas para o convívio em grupo; III) a exteriorização do problema, que,
a partir do discurso dos jovens, passa a ser visto como um problema ou dificuldade do outro.
3.2.3.4 Relacionamentos vivenciados no grupo
No que se refere à percepção dos jovens sobre as formas de relacionamentos vivenciados no interior do grupo, observa-se que 75% dos entrevistados, isto é, 12 jovens apontaram como principal elemento a constituição de
amizade. Sobre esse elo, observa-se a que conformação dessas relações obedece o critério de gênero:
Mais com homem, pouco, pouquinhas com mulheres [...]
Não sei por que [...] eu acho que com o homem a gente
sempre [...] se chega mais, se uni mais di que com a mulher,
porque a mulher, é difícil um homem chegar com a mulher,
fazer amizade com a mulher. A gente se sente é tímido
(MANDIOCA, 19 anos).
Nessa fala, o jovem entrevistado pondera sobre a sua dificuldade em se
relacionar com as meninas do grupo. Esse problema também encontra assento
na voz de outros jovens, como se observa no trecho a seguir:
Eu se dou muito bem com os meus colegas né, com as
minhas colegas de grupo eu não se dou muito bem [...]
porque elas ficam perturbando mais [...] dão mais motivo
pra gente briga com elas (AÇAí, 16 anos).
Com base nos depoimentos apresentados, verifica-se a perspectiva de
gênero permeadora das relações existentes no interior do grupo, assim como
também a questão da identidade, entendida a partir do sentido de diferença, e
a consciência da alteridade, que preside as relações entre os dois gêneros, seja
no domínio público ou no privado.
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ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
FIGURA 6: Meninos em grupo se divertem à margem do rio
Fonte: Registro de campo/ 2004
Tal distinção é reforaçada na figura anterior, em que os jovens do sexo
masculino se reúnem no trapiche para realizar as formas de lazer preferidas:
subir em árvores, atirar-se ao rio e nadar.
3.2.3.5 Avaliação da participação
No que diz respeito à avaliação da participação no grupo, por parte do
integrante, é importante frisar que o jovem teve de levar em consideração uma
variedade de elementos: habilidades artísticas, relações interpessoais, participação, força de vontade e comprometimento para com o grupo, entre outros.
Cerca de 72% consideraram a participação como “boa”, ao passo que
12% consideraram como “mais ou menos”; 6,3% consideram “insatisfatória” e
os outros 6,3% relativizam a sua participação com base na atuação do outro.
No que tange à percepção dos jovens em relação à avaliação dos integrantes e dos coordenadores do grupo, aproximadamente 37% dos entrevistados, em números absolutos seis jovens, afirmam sua avaliação como “boa”. Em
segundo lugar, com 12,5%, encontram-se aqueles que consideram sua avaliação como “mais ou menos” e os que não possuem nenhuma percepção sobre o
assunto. Em terceiro, estão, com resultados semelhantes, aqueles que consideram a avaliação como “ótima” e aqueles que a perceberam como “ruim”.
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Universidade da Amazônia
No trecho a seguir, a percepção de um entrevistado em relação à participação dos demais integrantes revela como elemento principal o compromisso do integrante em relação ao grupo.
Eu não acho que eu tô, que eu danço bem, só que o, o que
a pessoas que acha é a pessoa que tá de fora vendo os
dançarinos dançar [...] no momento, mais quando, eu tô
[...] dentro do grupo ensaiando ou então em uma
apresentação eu levo a sério tudo aquilo [...] é um
compromisso [...] (MANDIOCA, 19 anos).
Já no depoimento a seguir, verifica-se a preocupação com a habilidade
artística, isto é, com a execução correta das coreografias executadas pelo grupo:
O que elas pensam que eu sou um bom dançarino. Mas eu
não acho que sou um bom dançarino... Uma pessoa chegou
comigo e disse, do grupo mesmo “Não, [...] tu é um bom
dançarino”. Essa pessoa foi o [...]. Quando eu não tô em
ensaio pra se apresentar, ele diz “Não, [...] tu vai que eu
sei que tu é capaz de fazer bonito. Eu sei que tu dança
bem” (CUPUAÇU, 17 anos)
Observa-se assim que uma avaliação externa considerada “boa” determina um reforço positivo na autoestima dos jovens, da mesma forma que uma
avaliação com conceito oposto pode significar conflitos e a evasão de jovens
do grupo, tal como se observa no depoimento abaixo:
Todo mundo falou pra mim que a minha participação não
valia nada, então vou sair do grupo que o grupo vai ficar
melhor sem a minha participação (PUPUNHA, 15 anos).
Nesse caso, observa-se que o jovem entrevistado, após ter sua participação avaliada negativamente por parte dos integrantes e coordenadores, busca resolver tal problemática retirando-se do grupo.
Em relação às aspirações dos jovens quanto à participação no grupo,
comprova-se, a partir dos dados, que 19% dos jovens abordados apresentam o
desejo de maior qualificação individual, uma vez que buscam melhorar o desempenho no grupo. Com resultado semelhante, observam-se aqueles que desejam uma maior mobilidade no grupo, ascendendo de dançarino a músico, ou de
integrante a coreógrafo.
Entre os abordados, destacam-se ainda aqueles que desejam uma melhoria nas apresentações do grupo com a incorporação de novas danças e a
realização de mais apresentações; e os que desejam que sua participação no
grupo continue da mesma forma, com 12,5% cada.
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ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
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3.2.3.6 Conflitos no grupo
Cerca de 44% dos integrantes entrevistados não verificam a presença
de opiniões diferentes no interior do grupo, diversamente de outros 44% que as
observam manifestada ora positivamente, a partir de opiniões e sugestões que
visam à melhoria do grupo, ora negativamente, com base nos conflitos que se
manifestam entre os jovens.
Ressalta-se aqui a intervenção dos educadores no uso de um discurso
normatizador harmonizante para disciplinar as relações entre os integrantes,
com o intuito de minimizar os efeitos das opiniões contrárias, conforme observado na fala de um educador:
Existe isso. Existe, mas são poucas as pessoas, depois que
foi lido o estatuto, que eles começaram a ler, a ter
conhecimento das regras do grupo, dos deveres e dos
direitos deles isso ai acho se acomodou, parou mais. Que
ele não pode ir contra as regras, já que foi lido, foi
perguntado, passou pra cada um se todo mundo aceitava,
todo mundo assinou, então, aceitou, né. Se tem alguém de
ideias contra, ainda não se manifestou (EDUCADOR).
Entre as fontes potenciais de conflitos internos, destacam-se: I)
questões internas, manifestadas pelas dificuldades de relacionamento, sejam
entre integrantes de um modo geral do grupo, entre as integrantes do sexo
feminino ou entre os coordenadores e os jovens, citadas por 6,3%, 18,8% e
12,5% dos jovens abordados, respectivamente; a não-aceitação das regras,
abordada por aproximadamente 19% dos entrevistados; as fofocas com 12,5%,
e as divergências de opiniões também com 12,5%; e a falta de recursos e materiais, correspondente a outros 12,5% da amostra; II) questões externas, apresentadas pelos conflitos da comunidade, que afetam o grupo com percentual de
12,5% da amostra.
As dimensões da vida e dos conflitos internos podem ser percebidas
por meio de depoimentos que refletem como se estabelecem relações e conflitos
no interior do grupo:
Existe das meninas, discussão delas, elas mesmo no
intervalo das apresentações porque a gente dançar o
Maçariquinho e vai dançar o Siriá e começaram as
discussões de trocar de roupa, uma pega a roupa da outra
e veste a saia que não é praquela vestir aí acontece às
discussões delas (INGÁ, 23 anos).
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Universidade da Amazônia
No trecho, observa-se um tensionamento das relações entre as integrantes do grupo, este motivado pela infraestrutura insuficiente nele existente. Contudo, ressalta-se a existência de depoimentos por meio de divergências e conflitos
também nas relações estabelecidas entre os integrantes do sexo masculino e do
feminino, comprovada em vários depoimentos, como neste: “Porque elas ficam
discutindo com a gente né. Aí a gente não gosta também né. Aí a gente fica discutindo com elas, a gente não se dá muito bem com elas.” (AÇAÍ, 16 anos).
Já no depoimento a seguir, um jovem aborda os conflitos causados pela
não-aceitação de regras, que motivam um tensionamento nas relações entre a
coordenação e alguns integrantes.
É porque [...] tem regras, eu pelo menos entendo [...] deixo
levar, não ligo muito, ele proporcionou aquilo tá bom
aquilo, mas como eu te falei, tem algumas pessoas que
parecem que querem empatar assim e não querem deixar
ele trabalhar assim [...] pra mim essas pessoas tão no grupo
assim, mas não tão com aquele objetivo de crescer ali,
deixar que aquilo ocorra tudo bem, acho que é alguém que
quer empatar (CASTANHA, 16 anos).
Outro jovem destaca que os próprios comentários realizados no intento de melhorar o desempenho de algum integrante causam conflitos:
O conflito assim que eu digo é da gente chamar a atenção
do, de quem tá dançando mais errado e eles não aceitarem,
e dizer que a gente, já somu bonzão.Ele já que, já que dizer
que a gente quer saber mais de que eles, e aí nunca aceitam
o que gente fala (MANDIOCA, 19 anos).
Igualmente são apontados conflitos isolados, provocados por fofocas
envolvendo a vida de alguns dos integrantes do grupo:
Porque umas pessoas começam “Ah, [...] não sei o quê, a
[...] aquilo, a [...] aquilo outro”, eu não gosto daquele que
fica falando pra mim, é por isso que eu aqui do sítio eu não
gosto de ninguém (PUPUNHA, 15 anos)
Observa-se, portanto, ainda que os conflitos vêm a ter impactos na
qualidade do trabalho desenvolvido pelo grupo, conforme a fala desse jovem:
Tem porque às vezes a gente sai por aí, ás vezes a roupa da
pessoa não dá certo, como das meninas ali a [...] e a [...]. Aí
a gente sai por aí às vezes a roupa num dá certo aí elas
brigam e nem apresentam aí já o grupo fica por pedaço assim,
apresenta, mas não é uma coisa boa (SERINGA, 19 anos).
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ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
No trecho citado, verifica-se a apreciação negativa de um dos jovens
em relação aos conflitos que têm a capacidade de desestabilizar emocionalmente o grupo momentos antes de uma apresentação. Tal fato é reforçado pelo
depoimento a seguir:
Porque quando a gente vai se apresentar, como um dia a
gente foi se apresentar lá pros turistas, aí sempre [...] briga,
fica discussão pra lá, pra cá, quando a gente vai se
apresentar, ai um erra de um lado, outro erra de outro, aí
isso não presta as apresentações que a gente faz [...]
(MURUCI, 10 anos).
Para a resolução dos conflitos existentes, torna-se fundamental a presença dos educadores, mais especificamente a do coordenador geral, que tem o
papel de acompanhar as atividades do grupo e de regular as relações entre os
integrantes, da mesma forma que tem de garantir o mínimo de organicidade do
grupo. O trabalho então desenvolvido apoia-se em anotações feitas em um
caderno para o devido registro de frequências, advertências e suspensões pertinentes aos integrantes do grupo e no regimento/estatuto, espécie de código
interno que delimita direitos e deveres dos integrantes do grupo.
3.2.4 Grupo como Processo Educativo
3.2.4.1 Qualificação pessoal e profissional
No Grupo “Raízes do Caru-aipim” o processo educativo pode ser dividido em duas formas ou fases: I) uma mais sistemática, executada por meio de
palestras; II) e outra de modo direto, manifestada no contato cotidiano entre
jovens e educadores.
No que diz respeito à primeira fase, é importante ressaltar que foram
realizadas palestras com o objetivo de abordar questões pertinentes ao meio
ambiente, durante o período de estruturação do grupo, por meio de uma parceria com a Companhia de Turismo do Município de Belém - Belemtur e o Instituto
Ampliar que objetivava trabalhar a questão do meio ambiente. Dessa ação,
participaram 75% dos jovens entrevistados.
Fora ainda prevista a realização de novas palestras, com abordagem
de temas como drogas, violência, sexualidade, dentre outros, mas devido às
mudanças ocorridas no âmbito da presidência da Belemtur, não foram levadas
adiante. Entretanto, as palestras realizadas, embora contribuíssem para a formação pessoal dos jovens, foram limitadas no que tange à geração de adicionalidades em outras áreas de formação, em especial, voltadas à qualificação
para o mercado de trabalho.
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Universidade da Amazônia
Em relação à segunda fase, delimitada pela interação cotidiana entre
educadores, verifica-se que foi responsável por incutir uma série de conhecimentos aos jovens.
Observam-se, como aprendizados potencializados pela vida em grupo,
a educação e o comportamento, citado por 25% dos jovens; a habilidade em
relacionar-se com outro, destacada também por outros 25%; o desenvolvimento de habilidades artísticas (tocar e dançar), citado por 19% dos jovens entrevistados; e o aumento da autoestima, mencionado por 12,5%. Nesse sentido,
infere-se que a participação no grupo, além de oportunizar aos jovens uma
fonte de lazer e interação social, amplia e/ou potencializa o capital humano e
social deles, aqui entendido como o conjunto de habilidades, conhecimentos,
capacidades, e também como a rede de relações acionáveis na busca por melhores condições de vida, até então não acessíveis em virtude das diferenças de
oportunidades de acesso aos capitais culturais, econômicos e políticos e de
usufrutos deles.
3.2.4.2 Desafios do grupo
Os principais desafios do grupo apontados pelos seus integrantes estão relacionados à própria estruturação do grupo, como a melhoria da qualidade das apresentações (18,8%); a aquisição de figurinos e instrumentos (12,5%);
o aumento do repertório de danças (6,3%); a mudança do atual corpo musical
(6,3%); a manutenção do grupo sem o apoio do Moara (6,3%); o próprio processo educativo que necessita incutir mais responsabilidade nos integrantes e nos
coordenadores (6,3%); e a educação (6,3%).
Além desses desafios, o grupo de pesquisa aponta, como fragilidades e
principais desafios observados no grupo, a necessidade de formação de um
grupo musical próprio, reunindo integrantes aptos a acompanhar o grupo nas
suas diversas apresentações, e a falta de internalização da finalidade de surgimento do grupo (aspecto este abordado no item 4.3.2 deste relatório).
3.2.4.3 Relações de gênero no grupo
Sobre a questão do gênero, a maioria dos jovens abordados tem
dificuldade em identificar um tratamento diferenciado entre meninos e meninas, porém, como já citado anteriormente no corpo deste relatório, essa questão pode ser identificada no grupo a partir de duas dimensões: uma primeira,
vinculada à existência de divergências envolvendo rapazes e moças no interior
do grupo; e uma segunda, correspondente à constituição de subgrupos com
base na afinidade por sexos, conforme se observa na figura a seguir:
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ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
FIGURA 7: Meninas reunidas aguardam o início do ensaio
Fonte: Registro de campo/ 2004
Igualmente, outro elemento de diferenciação é a própria circulação e a
interação social, conforme abordado em outro momento neste relatório.
3.2.4.4 Perspectivas dos jovens em relação ao futuro
Nos depoimentos a seguir, são expressos alguns sonhos e algumas perspectivas que perpassam o imaginário dos jovens moradores de Caruaru: “[...]
espero que daqui a quatro anos eu esteja aqui, mas esteja com um serviço”
(BACURI, 19 anos).
No trecho em questão, verifica-se o desejo de um dos jovens, em um
futuro próximo, ingressar no mercado de trabalho e continuar residindo na
comunidade de Caruaru.
Outros jovens, por sua vez, demonstram, em seus relatos, projetos de
concluir os estudos e a partir disso auferir condições de ajudar a família: “Eu
tenho vários [...] me formar um dia e ser alguma coisa na minha vida que possa
ajudar meus pais” (GRAVIOLA, 13 anos).
Há ainda aqueles que em suas representações reportam-se, além do
trabalho, ao desejo de ascender no contexto do grupo: “[...] penso de, teje arrumado emprego, no nível média baixa e, e ter mais, crescido mais um pouco no
grupo” (MANDIOCA, 19 anos).
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Universidade da Amazônia
Observam-se ainda, em número menor, aqueles que vinculam as aspirações de qualificação e inserção no mercado de trabalho ao desejo futuro de
contrair família:
Eu penso no futuro de estudar pra mim ter formação pra mim
conseguir um bom emprego pra mim, pra mim quando arrumar
uma família eu ter da onde tirar o sustento, só pra mim eu
acho que de todos os meus familiares” (INGÁ, 23 anos).
A partir da análise dos dados, infere-se que mais de 50% dos jovens
entrevistados demonstram grande interesse na conclusão dos estudos e na
obtenção de um lugar no mercado de trabalho, seja em profissões liberais ou
em empregos que proporcionem estabilidade e um bom salário. Essa vontade
também é concebida como uma forma de se alcançar outros sonhos: ajudar a
família, adquirir casa própria, viajar e conhecer novos lugares.
No que concerne às ocupações pretendidas, destaca-se o interesse pela
licenciatura, medicina e informática, citado por aproximadamente 25% dos
abordados; pela carreira policial e pelo desejo de “servir à Pátria”, esse último
manifestado por um dos jovens, provavelmente influenciado por um dos coordenadores que fora integrante do Exército Brasileiro.
Dentre os demais sonhos aspirados, torna-se importante destacar que
dos abordados, apenas um dos entrevistados, isto é, 6,3%, mencionou um sonho coletivo, no caso, o desejo de que a comunidade de Caruaru disponha de
serviços, como luz elétrica e água encanada. Há ainda, entre os entrevistados,
aqueles que mesclam, em seus sonhos, um nítido sombreamento entre o rural e
o urbano, como o desejo de ser professor ao mesmo tempo que pretende ser
“disk jóquei”.
Durante a realização da pesquisa, procurou-se ainda conhecer as
expectativas desses jovens em relação a um futuro próximo, em um intervalo
de cinco anos. As citadas foram: a vontade de ingressar em um curso superior
(25%); o desejo de trabalhar como professor (12,5%), concluir os estudos
(12,5%) e ser independente (12,5%). Essas formulações expressam as ambiguidades características da situação de convivência entre dois universos culturais: o ribeirinho e o urbano, pois, ao mesmo tempo em que os jovens cultivam laços que os prendem à cultura do local, veem-se na cultura urbana da
vila de Mosqueiro e nos personagens dos programas de televisão que povoam
as suas memórias e se conformam como referencial para a elaboração de
sonhos para o futuro.
Tais ambiguidades, por sua vez, também presentificam-se nas formulações elaboradas pelos jovens em relação ao conceito de felicidade, visto que as
mesmas concepções estão muito próximas aos jovens dos demais universos
(centro urbano e periferia urbana) abordados nesta pesquisa.
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ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
Em relação aos jovens ribeirinhos, afirma-se que cerca de 18% dos
entrevistados possuem uma definição bastante abstrata de felicidade, o que
pode ser percebida entre os jovens que a formulam conceitualmente como “tudo”.
Com resultado semelhante, enquadram-se jovens que vinculam felicidade a
sensações como bem-estar e alegria. Aproximadamente 12% a vinculam à realização de todos os sonhos. São significativas ainda as referências de felicidade ao momento vivido, ao acontecimento de coisas boas, à saúde, à harmonia
com vizinhos, parentes, amigos e ao acesso ao lazer. Esses dados representam
as articulações com o sentimento de circunstancialidade juvenil e o desejo de
serem, ao mesmo tempo, diferentes e iguais aos jovens da cidade.
3.2.4.5 Significado de ser jovem
Uma temática emergente nos últimos anos, mas sobre a qual há pouco
consenso, é a questão da juventude, entendida, por muitos, como condição de
transitoriedade entre a infância e a vida adulta – como o que ainda não é ou
como aquele que virá a ser – ou por aqueles estudos que a enfocam a partir da
idéia de descontinuidade presente no mundo atual, uma tendência que, captada por vários pensadores sociais, acabou por relacionar à juventude vários
sentidos atribuídos comumente à modernidade: grande interesse pela novidade, extravagância, irreverência, ousadia, rebeldia, exclusividade, diferença entre outros (GROPPO, 2000).
Com o intuito de escapar a esse fosso conceitual comum, Groppo (2000),
apoiado em concepções de uma modernidade racionalista, burocrarizante, secularizadora e desencantadora, aponta os impactos da modernização sobre as
concepções e os projetos relacionados à juventude, com base no universalismo e
o no particularismo. Segundo essa premissa, as sociedades regidas por critérios
particularistas não criarão grupos etários homogêneos com funções sociais relevantes, pois, ao contrário, desenvolverão apenas grupos com mistura de idades
(como a família e os grupos de parentesco). Por sua vez, as sociedades que possuem esferas sociais importantes, regidas por critérios universalistas, tendem a
criar grupos homogêneos com importantes funções de integração social.
Nesse sentido, entende-se que na comunidade de Caruaru, os princípios
particularistas que regem a vida familiar se estendem às demais relações sociais, ocorrendo uma transição simples dos indivíduos da vida infantil para a
maturidade social, isto é, os processos de socialização desses indivíduos ainda
ocorrem amparados sobremaneira pelas famílias, não obstante a integração cada
vez maior dos jovens ao sistema escolar, que, imbuído de critérios universalistas,
intenta a instrução e a educação com vista ao pleno status na sociedade.
Esses processos, por sua vez, possuem amplo aspecto sobre as concepções de juventude, formuladas pelos entrevistados, conforme observado nos dados coletados, quando aproximadamente 31% relacionam a juventude a uma
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Universidade da Amazônia
fase de “liberdade”, ligada a ideias de “curtir a vida” e “fazer o que se gosta”,
exemplificado no seguinte depoimento: “Jovem pra mim é agora o que eu tô vivendo junto com os meus colegas, sair, se divertir essas coisas” (INGÁ, 23 anos).
Percebe-se, então, uma grande influência dos chamados princípios universalistas, em que a juventude é concebida como uma fase de tranqüilidade e
pouca responsabilidade: “[...] ser jovem é sair assim pra onde quer sem ter
preocupação de nada” (MANGA, 13 anos).
Outros 12,5% dos entrevistados destacam a juventude como um período de mudança ou transição que deve ser aproveitado ao máximo:
Ser jovem pra mim é ser assim é se divertir, eu pelo menos
tento o máximo me divertir, né, que eu sei que daqui a um
tempo não vou mais estar assim jovem [...] (CASTANHA, 16 anos).
Igualmente, apoiando-se em Castells (1999), as representações dos
entrevistados sobre juventude são entendidas a partir de construções teóricas
da “circunstancialidade” dos seus momentos de vida, e com base no entendimento de juventude como a fase da vida mais marcada por ambivalências e a
convivência contraditória de elementos de emancipação e subordinação, sempre em choque e negociação (KEHL, 2004).
Em relação ao papel da juventude, observa-se que a maioria dos entrevistados (25%) não soube responder essa questão. Entre aqueles que se manifestaram, cerca de 18% verbalizaram que o papel dos jovens é se manter afastado das drogas. Outros 12,5% apontaram o estudo que aparece como uma estratégia para a realização dos sonhos. Destaca-se ainda a percepção da participação da juventude na vida da comunidade e o desenvolvimento de ações coletivas, como o cuidado para com os idosos, os doentes e as pessoas que passam
por privações, em especial a fome, responsável por outros aspectos da juventude, como a rebeldia e a inovação (OESSELMANN, 2001).
Nesse contexto, com base nas percepções sobre juventude, são verificados, como principais dificuldades/desafios vivenciados pela juventude, as drogas, que, embora não façam parte do cotidiano dos jovens de Caruaru, constituem-se, assim como o álcool, na maior dificuldade, apontada por aproximadamente 44% dos jovens abordados. Logo, percebe-se a partir dos dados que as
drogas são concebidas como maléficas em virtude dos efeitos nocivos relacionados à saúde:
Pelo que eu vejo, pelo que eu sei, o jovem enfrenta uma
dificuldade assim de droga, esse negócios que afetam
muito e estragam a vida de muitos, que se perdem rápido
e acabam até morrendo por causa disso, droga [...]
(CASTANHA, 16 anos).
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O jovem abordado reflete acerca dos efeitos das drogas sobre a saúde,
o que, em determinados casos, segundo ele mesmo, pode levar ao risco de morte
prematura. Outros jovens abordados avaliam, igualmente, de modo negativo os
efeitos das drogas sobre o comportamento dos jovens: “[...] como a droga às
vezes e jovens que se viciam na droga, eu não acho certo” (MILHO, 16 anos).
Além do álcool e das drogas, constituem-se também como maiores dificuldades da juventude, segundo a concepção dos entrevistados, a conclusão dos
estudos e a obtenção de trabalho, manifestadas por cerca de 18% da amostra.
A partir dessas análises, verifica-se, na comunidade de Caruaru, a passagem dos jovens do universo particularista rural ribeirinho para o meio universalista, marcado por processos como a socialização secundária, realizada
cada vez mais nas escolas, e o estabelecimento mais intenso de trocas com o
meio urbano, que impõe a superação de desafios cada vez maiores e mais
complexos, realizada nas mudanças dos padrões de comportamento, assim
como nas representações que justificam esses comportamentos.
3.2.4.6 Representações de juventude ribeirinha na comunidade de Caruaru
No que se refere às representações em torno do ser jovem no meio
ribeirinho, percebe-se que são elaboradas a partir das dificuldades e oportunidades vivenciadas no cotidiano dos entrevistados, segundo se observa no relato abaixo:
Os daqui têm muita dificuldade, têm que passar por um
bocado de dificuldade [...] Os de lá não têm ônibus, não
têm dificuldade pra vir os que têm dinheiro [...]. A
dificuldade da gente aqui é que a gente quer ter um sonho
na vida, mas só que tem que estudar [...] A gente tem que ir
lá pra Mosqueiro, tem que remar ou então tem que acordar
cedo [...] (BACURI, 19 anos).
Nesse trecho, destacam-se as dificuldades como a carência de transporte e os reduzidos recursos financeiros para fazer frente às despesas necessárias à realização dos estudos na zona urbana.
Outro tipo de representação encontra-se marcada, por exemplo, pela
distinção em relação aos jovens moradores do núcleo urbano mais próximo,
nesse caso a Vila de Mosqueiro: “[...] porque têm muitos jovens que sai por aí
fazendo o que não deve e aqui não, a gente tem mais um pouco de respeito, com
certeza isso tem” (MANGA, 13 anos).
Nesse relato, o jovem abordado opõe a juventude urbana à do meio
rural com base no conceito de respeito, que, segundo ele, é presente no meio
ribeirinho e ausente no urbano.
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Universidade da Amazônia
No recorte a seguir, percebe-se outra forma de particularismo: a atribuição fornecida pelos jovens urbanos aos moradores da zona rural.
Muitas das vezes é quem vai aqui da vila [...] chamam até
de “sitioara” pra nós, eu pelo menos não me sinto
humilhado, porque eu sou daqui, antes eu via muito isso
[...] discriminação chamar de “sitioara”, muita gente até
brigava lá por causa disso, mas eu pelo menos, agora o
meu código de amizade lá, uns até dizem assim “Ah
´sitioara´ bora brincar, deixa disso”. Eu pelo menos não me
sinto humilhado. Hoje quem fala pra mim isso é mais uma
brincadeira [...] mas uma pessoa chegar [...] com uma
ingnorância, “sitioara” [...] “tu é do sitio”, acho que talvez
não fique gostando muito (CASTANHA, 16 anos).
Por fim, percebe-se, no nincho das representações, a existência,
entre os jovens, de clans positivos em relação ao meio que os circunda:
Ser jovem ribeirinho pra mim é, eu acho bom, eu gosto de ser
um jovem daqui, acho que tem muita gente daí, lá de Mosqueiro,
da ilha que, que encarna na gente, mas só que a gente não liga
não, é bom ser jovem daqui (GUARANÁ, 18 anos).
Dessa forma, conforme o depoimento dos entrevistados e escritos
de Tuan (1980), entende-se a comunidade de Caruaru a partir de sua significação particularizada, isto é, emergindo na memória e na representação dos jovens não como um espaço desconhecido, temido ou rejeitado, mas como o
lugar, trecho da superfície terrestre, que adquire significado por meio das experiências cotidianas e aspirações pessoais, sendo de fundamental importância
para a identidade humana.
Para Melo (1990), o local de infância e/ou residência é lugar.
Quem não pertence a esse lugar pode achá-lo desagradável e sem atrativos,
mas é de tal forma rico em significados para aquele que o experiência, que
chega ao ponto de se sentir agredido por qualquer expressão ou comentário
depreciativo a respeito do seu lugar. Assim, o sentido de lugar envolve enraizamento, amizade e simbolismo.
Entende-se que a migração cotidiana dos jovens de Caruaru, no
sentido rural-urbano-rural, durante o trânsito para a escola, possibilita a construção de uma identidade defensiva, ancorada no local em oposição ao “outro”
distante, desconhecido, ameaçador e que os relega à condição de categoria
social inferior (CASTELLS, 1999).
Igualmente, é importante não perder de vista que a migração, ainda
que em caráter temporário, abre espaços à chamada “mobilidade simbólica”, que
88
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
permite desenvolver um sentimento de pertencente em relação a esta ou àquela
cultura, isto é, a urbana. Uma relação ambígua que resulta na elaboração de
novos sistemas culturais e identidades sociais entre os jovens ribeirinhos.
3.2.4.7 Elementos de identificação entre os jovens
De acordo com Soares (2004), a formação de identidade para os jovens
corresponde a um difícil e penoso esforço de ser ao mesmo tempo diferenteigual aos seus pares. Esse processo que, pela impossibilidade de ser vivenciado sozinho, ocorre devido a um “contexto relacional”, com funcionamento semelhante a uma espécie de espelho, do qual se constroem processos de interação social e individuação, responsáveis pela distinção e identificação sociocultural (CASTELLS, 1999).
Sendo assim, diz-se que a construção da identidade trata de um processo
social, interativo, o qual se dá no âmbito de uma cultura e de um determinado
momento histórico, resultando na diferenciação de “capitais”: o capital econômico, o político e, em especial, o capital simbólico (BOURDIEU apud CRUZ, 2004).
Nesse processo, insere-se uma sequência de referenciais, que servem
como uma espécie de “matéria-prima” na construção identitária. Dinâmica tal
explicitada por Castells (1999) por meio da distinção de três diferentes categorias de identidade: I) identidade de caráter legitimador ou identidade legitimadora, pela qual as instituições dominantes da sociedade buscam ampliar e
racionalizar o poder sobre os atores sociais; II) identidade de resistência, resultado da ação consciente de atores sociais que se encontram desvalorizados
e/ou estigmatizados e que se colocam contrários à lógica de dominação e; III)
identidade de projeto, que corresponde a uma nova construção identitária realizada a partir de elementos culturais disponíveis na sociedade e que almeja a
transformação da estrutura social (CASTELLS, 1999).
Além desses tipos fundamentais, identifica-se, a partir da obra de autores como Claval (1999), o território como espaço vivido e fonte de representações simbólicas e as implicações de ambos sobre a identidade, isto é, como
importante espaço de interação e socialização a partir do qual são construídas
representações simbólicas e materiais. Para tanto, servem de base a formação
de identidades e comunidades locais centradas no reconhecimento e defesa do
território, e do modo próprio de ser, em oposição ao distante, desconhecido e
imprevisível, naquilo que se entende como identidade defensiva e que ora exprime uma conciliação entre cultura e meio ambiente local.
Por essas digressões, trabalhou-se fundamentalmente com quatro elementos de identificação observados nos comportamentos e no imaginário dos
jovens moradores de Caruaru: ação do meio; ocupação; princípio da herança e
relações de parentesco, que contribuem para a formação de uma identidade
maior de caráter defensivo, segundo Castells (1999).
89
Universidade da Amazônia
Em relação à ação do meio, o ambiente em que os jovens estão inseridos
constitui-se como um ambiente característico de comunidades ribeirinhas da Amazônia (diferença ambiental), composto de mata e rio, os que se caracterizam como
lócus da subsistência e de seres encantados como o boto e a Matinta-perera16.
No que tange à mata, afirma-se que ela se caracteriza pela diversificada espécie de frutos que apresenta, como o jambo (Malaya apple), castanha-dopará (Bertholletia excelsa), o cupuaçu (Theobroma grandiforum), dentre outros;
além de se caracterizar pela plantação de milho (Zea-mays) e de mandioca
(Manihot esculenta), principal espécie cultivada na comunidade de Caruaru.
Já em relação ao rio, é caracterizado pela travessia, pelo ir e vir dos
jovens; por ser o local da pesca, atividade complementar ao cultivo; lócus do
boto e o espaço de brincadeiras estabelecidas pelos jovens de Caruaru. Vale
ressaltar que isso se dá em função do valor simbólico e cultural que ele tem
para os jovens da comunidade.
Quanto à ocupação, Solari (1979) estabelece que se constitui como
principal elemento de identificação para se designar uma área como rural.
Conforme demonstrado na parte que discute a Ilha de Mosqueiro, a comunidade de Caruaru encontra-se na porção rural da Ilha, constituindo-se inclusive
como a maior parte da referida Ilha. Dessa forma, estabelece características
psicossociais semelhantes entre os seus moradores, como por exemplo: o comportamento desempenhado pelos jovens, a fala e as crenças.
Então, afirma-se que as ocupações desempenhadas pelos jovens – o
cultivo da mandioca, a extração de tucupi, líquido extraído artesanalmente da
mandioca, a produção de carvão vegetal e a pesca, caracterizam-se como elementos formadores de identidade para os jovens de Caruaru.
O trabalho desenvolvido pelos jovens ocorre fundamentalmente com o
cultivo da mandioca e com a pesca atividades voltadas para a subsistência, de
acordo com o depoimento: “Trabalho em lavoura mais certo tipo de serviço
assim, arrancar mandioca, vender tucupi e trabalhar pros outros assim de
limpar terreno quintal é isso que eu vivo” (MANDIOCA, 19 anos).
No trecho em questão, o jovem abordado faz referência às principais
atividades desempenhadas por ele, tais como o plantio e os cuidados com a
lavoura e a comercialização dos produtos dela extraídos.
Assim de carvoeiro também [...] é de meia, divide, se dé,
por exemplo, assim como eu disse pra senhora, assim se
der setenta...aliás se dé dezessete sacas isso dá assim R$
80,00 reais aí divede [...] às vezes a gente tira assim 17
sacas, porque dez da quarenta e aí dezessete dá aí uns R$
80,00 [...] assim por semana. A gente tira assim, trabalhando
16
90
Lenda Amazônica que fala de uma velha vestida de preto, com os cabelos bastante assanhados caídos no rosto, que
costuma sair ao escurecer, de preferência nas noites sem luar, em busca de tabaco e assustando as pessoas (ELIAS;
MATHIAS, 2005).
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
como amanhã, aí nós vamos queimar terça e quarta, aí na
segunda que vem aí já pode ensacar, e 4º feira assim já tá
exportando [...]. Quando às vezes dá pouco, 40,00, 50,00 [...]
(SERINGA, 19 anos ).
As duas falas representam o tipo de ocupação desempenhada na comunidade de Caruaru. A segunda, que diz respeito à ocupação voltada à produção
de carvão, aponta para o terceiro elemento de identificação dos jovens de Caruaru, o princípio da herança.
Para Solari (1979), o princípio da herança está relacionado à ocupação, pois as ocupações desempenhadas pelos jovens constituem-se em atividades as quais os seus pais desempenham. Sendo assim, esses jovens, ao crescerem nesse ambiente (diferença ambiental), tendem a reproduzir a mesma lógica
(ocupação) desempenhada pelos seus pais, estabelecendo, dessa forma, o princípio da herança.
Um outro elemento considerado como norteador, da identidade dos
jovens trata do parentesco, visto que a comunidade é formada, segundo relatos,
a partir de parentes, ou, para melhor elucidação, de pessoas que de alguma
forma procuram demonstrar sua descendência da família de Manoel Bartolomeu Fróes que, em 1893, conseguiu, por meio do Estado, a legitimação das
terras de Caruaru (PASSOS, 2004).
Essa lógica é percebida na comunidade de Caruaru, onde pertencer à
família Fróes, seja essa ascendência advinda por parte da mãe ou do pai, implica um sentimento de pertencimento, de direito a um pedaço de terra na comunidade, proporcionando tranqüilidade e garantia de bem estar de geração em
geração. Em relação aos jovens entrevistados, 86,4% possuem o sobrenome Fróes,
19 em números, o que indica que o grupo reúne em sua formação irmãos e primos
de primeiro e segundo graus. A partir das relações estabelecidas, ocorre a ampliação da visão de família como ordem simbólica, em que a identificação não se
manifesta apenas pela relação biológica, mas por elos emocionais sem os quais
as relações se desfazem pela inexistência de sentido (SARTI, 2004).
No caso dos jovens de Caruaru, as relações de parentesco reais e simbólicas aparecem expressas na própria forma de os jovens se relacionarem, o
que acaba por gerar uma prevalência no caso da constituição, por exemplo, de
casais, ou justamente o contrário, na busca do “outro”, do “distante”, para
constituição do enlace amoroso, conforme se observa: “Por causa que tipo, eu
respeito elas. É, mais elas são bastante amigas da gente aí, só acho que se
tornaria muito difícil” (GUARANÁ, 18 anos).
Nesse depoimento, o jovem entrevistado faz alusão ao sentimento de
respeito que prescinde sua relação com as integrantes do grupo, o que, no seu
entendimento, dificultaria o estabelecimento de relações sexuais, o fato novamente enfatizado nesse outro recorte:
91
Universidade da Amazônia
É verdade isso porque às vezes a gente só fica, alguns da
gente daqui que fica com as meninas daqui mesmo, mas a
gente fica com as molecas de fora sei lá a gente tem uma
amizade assim muito grande por elas uma consideração a
gente mora aqui a gente fica sei lá e eu me sentiria assim
meio chato chegar com uma delas e querer ficar com elas
[...] (INGÁ, 23 anos).
Percebe-se, portanto, a reconstituição do quarto e último elemento de
identificação, o parentesco real ou simbólico existente entre os jovens de Caruaru. Tais elementos expressam uma forte vinculação tanto no sentido concreto,
quanto simbólico, com o território, que se constitui num referencial positivo e
defensivo em oposição às territorialidades e temporalidades urbanas da Vila
de Mosqueiro, marcadas pela imprevisibilidade e complexidade.
3.2.5 Perfil dos Educadores e Personalidades do Processo Educativo
3.2.5.1 Perfil dos educadores
No decurso da pesquisa foram realizadas entrevistas com quatro educadores do grupo, sendo três deles ligados diretamente (coordenadores e coreógrafo) e o outro, mais diretamente ligado ao histórico de constituição do grupo. Para
tanto, nesse item se faz especial referência à análise do perfil dos educadores
diretamente ligados ao processo de formação e consolidação do grupo.
No que diz respeito ao gênero, um dos educadores é do sexo feminino e
outros dois são do sexo masculino, todos com idade entre 28 e 30 anos. Em
relação à naturalidade dos educadores, são oriundos de diferentes municípios
e regiões do Estado: da própria comunidade de Caruaru; outro do município de
Igarapé Açu, localizado na região nordeste do Estado, e outro do município de
Cametá, região do baixo Tocantins, também no Estado do Pará.
No que concerne ao estado civil dos educadores, todos são casados,
com destaque para os coordenadores do grupo que são marido e mulher, com
um casal de filhos, todos residentes na comunidade de Caruaru.
Quanto à escolaridade dos entrevistados, dois abandonaram seus estudos durante o segundo ano do ensino médio e o outro, atualmente, cursa o
ensino médio no supletivo em uma escola na cidade de Belém.
No que se refere à ocupação e renda, um dos educadores desempenha a
função de dona de casa e educadora no grupo, mas sem renda; outro entrevistado, além de educador do grupo, é responsável pelo transporte escolar dos alunos de Caruaru para a Vila de Mosqueiro, trabalhando em média oito horas por
dia, com remuneração de U$ 206,4017 da Secretaria Municipal de Educação de
17
92
Conversão da moeda nacional realizada a partir dos valores do dólar no dia 15/09/04, isto é, U$ 1,00 = R$ 2,907.
O Liberal, caderno Painel/Economia, p.6.
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
Belém – SEMEC, e possui uma renda complementar decorrente do frete do barco
para o transporte de pessoas e mercadorias, que pode chegar a U$ 68,6018
mensais. E o terceiro educador trabalha como segurança em festas realizadas
durante os finais de semana, além do trabalho de divulgação do folclore, com
ritmo de trabalho intenso, porém de difícil quantificação. Sua renda não foi
declarada durante a pesquisa.
3.2.5.2 Relações familiares, cotidianos e preferências dos educadores
No que se refere à relação familiar, os educadores entrevistados a consideram boa, embora se observe no cotidiano a existência de pequenos conflitos. O casal de educadores costuma frequentar festas realizadas nas comunidades do entorno, na Praça da Matriz, nas praias do Areião e no Paraíso, em
Mosqueiro, e na Ilha de Outeiro, outro distrito pertencente ao município de
Belém. Na oportunidade, a família opta por lazer e divertimento para família,
realizados em lugares mais calmos e considerados menos perigosos, chegando
a gastar em média U$ 10,3219.
3.2.5.3 Religiosidade e participação política dos educadores
No que tange à religiosidade, todos os educadores se autodeclararam
católicos, sendo a religião considerada uma forma de segurança em momentos
de dificuldade e transição, ao mesmo tempo em que é uma espécie de identificação surgida com o batismo e fortalecida ao longo da vida, não devendo ser
questionada ou discutida. Consideram ainda que os jovens, em sua maioria,
encontram-se afastados da religião, devendo todos, entretanto, possuir uma
compreensão mínima de religião, seja ela católica, evangélica ou de outra denominação.
Já no que diz respeito à política, verifica-se que, assim como os jovens de
Caruaru, os educadores entrevistados também possuem uma visão funcional e
negativa da política, geralmente relacionada ao jogo de interesses e ao desejo
observado nos políticos de se apoderarem da coisa pública, sem oferecer retorno
às demandas da população, conforme se observa no depoimento abaixo:
[...] hoje em dia quer dizer até pra gente confiar num político
hoje em dia é meio difícil, porque nem todos, uns pela
frente falam uma coisa, por trás tá falando outra. Então,
quando fala de política a pessoa fica com pé atrás. Mas
pra mim política...eu não sei nem direito falar [...] um pouco
confuso, porque pra mim a política hoje em dia é uma coisa
que nós não podemos confiar (EDUCADOR).
18
19
Ibid., p. 6.
Ibid.,p. 6.
93
Universidade da Amazônia
Para o educador, a falta de coerência das propostas de campanha e a
prática dos eleitos conduzem a uma desconfiança por parte da população perante os políticos e a própria política. Tal percepção é reforçada no trecho a
seguir quando o entrevistado faz especial referências aos esquemas de clientelismo e a corrupção atualmente existente na política:
Eu digo sempre que político e política são de conveniências.
[...] Eu digo “Olha é difícil tu chegar num ambiente político,
tu se candidatar e te eleger, e tu continuar com tuas ideias,
tuas ideias forem aceitas, porque dentro do sistema, a
maioria é corrompida”. Porque eu conheço, tenho o exemplo
de amigos que foram criados junto comigo, e hoje nem
olham pra mim, eu votei no cidadão, mas não olham pra
mim [...] Por esse lado eu acho que a política corrompe
qualquer cidadão [...] (EDUCADOR).
Nesse sentido, diz-se que as representações dos educadores radicados
em Caruaru provavelmente surgem como reflexos do clientelismo manifesto na
comunidade durante a organização e a realização da festividade em homenagem à Santa Rosa de Lima, conforme abordado em outro item deste relatório.
Por sua vez, aquelas manifestadas pelo educador residente na cidade de Belém
surgem a partir da sua observação em relação à política em uma escala macro,
isto é, em nível de município, Estado e País.
3.2.5.4 Histórico do grupo, mudanças e transformações
De acordo com as notas sobre o processo de constituição do grupo,
dois dos educadores entrevistados, uma das idealizadoras e o coreógrafo, encontram-se a ele ligados desde a sua criação em julho de 2003. Em relação às
mudanças na forma de condução do trabalho, verifica-se que são poucas devido ao pouco tempo de existência do grupo, marcadas pela mudança na coordenação do grupo e pelo próprio comportamento dos jovens envolvidos, conforme exemplificado a seguir:
[...] até hoje nosso objetivo é mudar a mentalidade dos
jovens, dos nossos brincantes, porque nós não queremos
os nossos jovens daqui da comunidade envolvidos em
casos de drogas, em violência, entrar em brigas, em
conflitos, daí desde o início, sempre, nossa tese foi essa,
querer dar uma ocupação bem dizer dá uma ocupação pra
eles, uma coisa melhor pra eles terem outra mentalidade
e já ocorreu muita diferença, até os próprios pais chegaram
com nós e falaram que o comportamento dos filhos
mudaram totalmente, porque tinha núcleo de jovens do
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ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
grupo que não poderia freqüentar uma festa que, bem dizer,
antes de terminar a festa formavam briga, às vezes, até
acabava festa, hoje em dia não [...] um jovem desse, sai pra
festa, brinca a noite toda, retorna pra casa, às vezes, sem
arrumar uma confusão, isso [...]já é orgulho nosso, por tá
formando esse pessoal, ter mudado um pouco a
mentalidade deles (EDUCADOR).
Nessa fala, o educador inicialmente reforça a preocupação dos idealizadores do grupo em também combater a ociosidade, a delinquência e o alcoolismo dos jovens de Caruaru, inserindo-os em um grupo de interesses, em um
agrupamento com características próprias em busca de um bem ou direito (PASSOS, 2004). O surgimento do grupo possibilitou mudanças no comportamento
dos jovens que, segundo a percepção do educador entrevistado, encontram-se
menos agressivos.
Além da redução da agressividade, outro elemento observado diz respeito à introversão dos jovens que, segundo os educadores, foi reduzida devido
ao ingresso no grupo:
[...] Eles estão mais comunicáveis, estão mais...acessíveis de
a gente conversar, de a gente entrá dentro do assunto deles,
do problema de cada um, a gente já sabe qual é o perfil de
cada um, né, a questão pessoal também, foi muito colocado,
muito conversado, isso [...] Eu já acho que eles já estão noutra
fase, assim. Já conseguem conversar, já conseguem se
comportar [...] principalmente os meninos [...] (EDUCADOR).
Observa-se ainda no discurso dos educadores, como um elemento potencializado pelo grupo, a retomada do interesse pelo estudo, visto que alguns
jovens, que se encontravam fora da escola, retomaram seus estudos após o
ingresso no grupo:
[...] Pôxa os meninos tavam sem estudar, parece que o [...]
e... Como é o nome dele? O [...]. Eles saem 5 horas de canoa
lá pra Vila, atrás de colégio. Acho que o grupo também teve
essa influência grande, com eles. E eles começaram a se
interessar, e...também botar na cabeça que aquilo ali,
também o grupo não ser pro resto da vida deles, eles
querem outra vida, né, eles querem sair da ilha, eles
querem se realizar profissionalmente, né. A gente pergunta
pra meninas o que elas querem ser. A gente vê elas indo
estudando no barco que elas vão fazer prova, elas vão
estudando. Eu acho que o interesse principalmente pelo
estudo, mudou muito. (EDUCADOR).
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Universidade da Amazônia
Nesse sentido, considera-se que, de modo geral, o interesse pela participação escolar e pela conclusão dos estudos são considerados pelos entrevistados como desafios para os jovens de Caruaru. Entretanto, esse assunto não é
recorrente na fala dos jovens entrevistados, visto que, quando abordados sobre a questão, fazem referências somente às mudanças no comportamento e à
aquisição de novas habilidades, fatores potencializados pelo grupo.
3.2.5.5 Conflitos no grupo
A análise dos dados revela ainda a presença de pessoas com ideias
diferentes no grupo, o que é visto negativamente pelos educadores quando
envolve divergências entre irmãos, primos ou vizinhos, por influenciar na dinâmica do grupo. Em contrapartida, os educadores visualizam essas diferenças
também positivamente, quando se trata de sugestões com finalidade de aprimorar as coreografias executadas pelo grupo, que podem ou não ser acatadas
pelo coreógrafo do grupo, conforme se observa no trecho a seguir:
porque [...] eu dou direito pra eles me cobrarem, daí muitos
deles colocam as opiniões deles, se a opiniões deles e se
eu ver que bem dizer cabe alguma coisa pro grupo, aí a
gente aceita, se não é criticado até por mim, como qualquer
brincante. No grupo, nós somos um grupo aberto, tanto pra
eles expressarem o que sentem como nós (EDUCADOR).
Observa-se que sugestões que visem à melhoria do grupo, na visão dos
educadores, não se constituem como fonte de conflito. No entanto, para eles,
alguns dos jovens inseridos no grupo possuem dificuldade em aceitar críticas
acerca do seu desempenho:
O conflito, às vezes, não quer receber crítica do companheiro,
às vezes se ele tá dançando errado o companheiro vai querer
consertar ele e as vez ele não aceita, as vez que sempre se
julgar melhor, se sabe um pouquinho pensa que sabe grande
coisa, tem as vez que vamos cobrar em cima dele e ele acha
que tá no direito, aí e o ponto que nós vamos explicar que
não é bem assim, que a cada dia que passa a pessoa
aprende mais, nunca a pessoa sabe de tudo e muitos não
querem aceitar isso daí (EDUCADOR).
Tais conflitos são resolvidos por meio do diálogo entre jovens e educadores e também pela aplicação do estatuto do grupo, documento criado a partir
da adaptação de um modelo adotado pelo Grupo Moara que estabelece os
direitos e deveres dos componentes, com o objetivo de regulamentar e disciplinar as relações entre os integrantes do grupo.
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ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
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3.2.5.6 Relações de gênero no grupo
De acordo com o discurso dos educadores entrevistados, não existe
tratamento diferenciado em relação ao gênero no grupo:
Não, [...] o tratamento tanto pro homens quanto pras
mulheres são os mesmos, né, agora existe o respeito né?
Nós queremos o respeito, porque vocês tem aquele
pouquinho de diferença, né, lá nós sempre colocamos
sempre pros homens que tem que respeitar as mulher, né,
mas o tratamento sempre é o mesmo, disciplina sempre é
a mesma disciplina (EDUCADOR).
Nesse depoimento, percebe-se que a coordenação, embora reconheça
as diferenças entre os jovens, busca neles incutir valores como a disciplina e o
respeito.
Não, a gente não dá um tratamento diferenciado a gente
coloca, a gente sempre coloca como estamos responsáveis
pelo ensaio [...] no caso a gente coloca a [...], coloca a [...]
também [...] sempre, a gente coloca ela pro ensaio, mas é
assim os meninos não dão muito crédito pras meninas,
eles sempre tem essa coisa, dizem que as meninos não
mandam nada, ainda dizem assim não é que seja um
tratamento diferenciado, mas eles acham que as meninas
não tem a voz altiva o suficiente pra tá conduzindo o ensaio
ou outra coisa (EDUCADOR).
Contudo, observa-se que, conforme já abordado em outro momento do
relatório, há, entre integrantes do grupo, uma percepção diferenciada em relação aos gêneros. Essa representação resulta em práticas diferenciadas no que
tange às funções e aos papéis relacionados ao homem e à mulher.
3.2.5.7 Grupo como Processo Educativo
Na sociedade, existem vários espaços de aprendizagem, cada um com a
sua especificidade. A família educa de um jeito, a escola de outro, o grupo, a
turma, a gangue, a galera etc. Em cada situação se estabelece uma maneira de
ensino e de aprendizado, sendo estas marcadas não somente pelo lugar ou
pelas pessoas, mas também por um momento da trajetória pessoal e da história da humanidade, pela sociedade na qual se vive, pelo espaço em que se
aprende e pelas pessoas que estão encarregadas de ensinar (CHARLOT apud
LOMONACO, 1999).
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Universidade da Amazônia
Sendo assim, afirma-se que um grupo constitui-se como um veículo ou
iniciador de práticas sociais, realizadas tanto por meio das relações afetivas
que se estabelecem entre os indivíduos, como pela realização das tarefas comuns e das obrigações definidas entre seus membros desde a constituição do
grupo (WALLON apud LOMONACO, 1999).
No grupo “Raízes do Caru-aipim”, esse processo se realiza a partir da
mobilização interna de um discurso que evoca o combate à ociosidade, à delinquência e ao alcoolismo dos jovens de Caruaru, isto é, o seu “resgate” do universo das drogas e do vandalismo à inserção comunitária e social (CARDOZA,
2004), muito embora esse discurso não seja manifesto pelos educadores:
[...] Prá nós é esse objetivo sabe. O grupo em si eles não
sabem porque eles tão no grupo e o porque que eu fiz essa
chamativa prá pra tá inserido no grupo. Porque eu não meto
essa questão, vou te inserir prá ti mudar tua vida eu não
coloco essas questões pra eles. Prá gente o objetivo é esse
em mudar, é fazer que eles se sintam como uma pessoa
fundamental na comunidade [...] que eles seja reconhecidos
como pessoas, não como vândalos, não como brigão [...]
como são chamados muitas vezes [...] (EDUCADOR).
Dessa forma verifica-se que os objetivos do grupo não são mobilizados
como meio de mobilização e incorporação de jovens no grupo, mas aparecem
de forma subliminar no discurso dos educadores.
Outrossim, destaca-se, no depoimento dos educadores entrevistados, a
realização de atividades comuns com os ensaios que visam à qualificação das
coreografias apresentadas pelo grupo e à realização de apresentações públicas, que materializa a visibilidade do grupo:
Eu acho que é caso de aprender um pouco mais a dança e
ao mesmo tempo como eles mesmo falam, mostrar um pouco
da comunidade ao povo lá fora, mostrar que aqui na
comunidade tem alguém que é capaz...acho que mostrar
um pouco da cultura da nossa comunidade e um pouco do
que os jovens sabem (EDUCADOR).
Nesse caso, percebe-se que o interesse pela divulgação da comunidade
constitui-se em prática educativa, devido a sua capacidade em aglutinar os
jovens com vista à execução de tarefas comuns.
Logo, entende-se que a articulação entre estes diferentes objetivos e
interesses permite o exercício da regulação da capacidade de reflexão, a negociação de ideias e valores, o desenvolvimento de responsabilidades e o fortalecimento da autoestima dos atores envolvidos (LOMONACO, 1999).
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3.2.5.8 Avaliação da prática educativa
O trabalho de um educador consiste numa contínua negociação junto a
todos os participantes dos vários aspectos referentes ao funcionamento do
grupo, como: articulação dos desejos para a construção de um espírito coletivo; organização e funcionamento; manutenção da coesão; realização de tarefas; construção de sentido e finalidade do grupo. Processo esse que se dá no
cotidiano, permeado pelo papel do educador na função de articulador da prática educativa e como modelo que favoreça o desenvolvimento da autoestima
de seus educandos (LOMONACO, 1999).
Por conseguinte, infere-se que os educadores entrevistados, de modo
geral, consideram a sua participação no grupo como importante, em virtude do
comprometimento com o trabalho desenvolvido e os resultados obtidos junto
aos jovens, que a eles retornam, ora positivamente, sob a forma de satisfação
dos integrantes do grupo e de seus pais, ora negativamente, na forma de críticas
manifestadas pelos integrantes da comunidade religiosa local:
Algumas mães elas achavam assim que [...] somos, eles
acham assim que nós somos o principal se a gente não
existir e se a gente afastasse o grupo o grupo ia acabar [...]
tem pessoas que criticam também, não dizem isso
diretamente prá gente, mas dizem prós pais e até prós
brincantes: “Os coordenadores de vocês só se preocupam
com a parte profana, cadê a parte religiosa?” [...] mas a
gente trabalha como um todo, nós também temos a nossa
parte religiosa dentro do grupo (EDUCADOR).
O depoimento citado demonstra que o desenvolvimento das atividades
do grupo e os resultados alcançados são capturados de forma diferenciada
pela comunidade, isto é, os pais dos jovens, principais beneficiários do projeto, tendem a assumir uma postura de incentivo e defesa em relação aos educadores, já outros, como a comunidade religiosa, assumem uma postura de crítica em relação à ênfase demasiada dos educadores, por considerarem as atividade desenvolvidas como profanas.
Observa-se que, embora pesem as críticas, os educadores consideram
o desenvolvimento dos trabalhos junto aos jovens como uma atividade prazerosa, mesmo sendo de difícil realização, em função do caráter essencialmente
dinâmico e transitório da juventude:
É um pouquinho complicado né porque eu acho que, jovem
a pessoa tem que ter todo aquele cuidado, porque mesmo,
um momento tá pensando uma coisa, depois pensa em
outra, se você não souber levar os jovens, tanto ele pode ir
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Universidade da Amazônia
pra um lado bom, como pode ir pro outro, de drogas e de
criminalidade. Então nós sempre temos que colocar na
cabeça deles, mostrar o que é certo, o que é bom, ocupar
sempre a mente deles eu acho com coisa boas pra eles
não ficarem pensando besteiras (EDUCADOR).
No trecho acima, reflete-se sobre a dificuldade do educador em trabalhar com os jovens, dificuldades essas relacionadas ao caráter essencialmente
dinâmico de uma juventude em um período de constantes transformações, sejam positivas ou negativas, progressistas ou conservadoras.
Verifica-se também que os educadores entrevistados manifestam o desejo do desenvolvimento de outros papéis em relação ao grupo, quando se pode
estabelecer um relacionamento mais próximo com os integrantes, contribuindo
mais efetivamente para a formação dos jovens.
Percebe-se ainda, a partir do relato dos educadores entrevistados, certa relutância por parte deles em admitir o papel de liderança em relação ao
grupo, possivelmente devido à visão colidente que possuem acerca do papel do
líder, enxergando-o como um indivíduo possuidor de determinada liderança,
autoridade e autoritarismo. Esse fato é comprovado no relato de dois de seus
educadores:
Eu não me considero uma liderança, mas eu sou imposta a
isso. Mesmo que eu não me considere dentro do grupo ou
fora do grupo, mas as pessoas me verem como se eu fosse
uma liderança eu não me considero essa pessoa que eles
coisa, mas, às vezes, eu tenho assumir, ser porque eles
vem tudo pra cima de e eu tenho que decidir, eu tenho que
resolver, aí fica dessa maneira (EDUCADOR).
Eu acho que um amigo deles [...] que tá sempre ensinando
um pouco a mais deles [...] sempre estamos dispostos a
ensinar um pouquinho mais pra eles, digamos não me
considero um líder, líder [...] é uma pessoa que tá acho que
diretamente sempre impor, colocar o que tem ser feito ou o
que deixa de ser feito, ser um pouco mais duro, eu acho
que quando eu tenho que ser duro, eu sou duro, mas [...]
meu termo com eles é mais termo de amizade (EDUCADOR).
Nesse sentido, observa-se que os desafios do grupo estão relacionados
especialmente à obtenção de uma maior aceitação e apoio interno, isto é, na
própria comunidade de Caruaru, sem contar com a obtenção de apoio por parte
do poder público, das instituições e das organizações para o custeio de transporte, de vestimentas e instrumentos, dentre outros.
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ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
3.2.5.9 Percepção dos educadores em relação à juventude
o trecho a seguir, observam-se as representações dos educadores em
relação à questão da juventude como um momento, uma fase de difícil aprendizado, assim como de transição entre a subordinação característica da infância
e a autonomia adulta.
Eu acho que é aquela pessoa que tá aprendendo a viver
[....] é uma pessoa [...] que tá nascendo [...] pra outra fase
da vida [...] uma das fases mais difíceis que nós temos,
porque é a fase [...] pra mim é a fase da aprendizagem,
porque os jovens sabe como é, uma mudança da parte da
vida dele, é uma mudança [...] de decisão, muitas vezes, às
vez num momento principalmente pro homem, que vai ser
uma idade de autoritarismo pra ele [...] completando os
18, sabe que vai ter aquela responsabilidade depois, acho
que jovem é um desafio a cada dia que tem (EDUCADOR).
Os educadores entrevistados apontam também a importância da educação, da saúde e do lazer como instrumentos para a constituição de uma
juventude livre, responsável e sadia. O depoimento adiante reforça a necessidade de acesso a bens culturais, como a educação e o lazer como uma forma de
valorização da juventude, especialmente a ribeirinha.
Eu acho que ele (jovem) tem que ter o seu estudo, acima de
tudo ele tem de ter o direito ao estudo, tem que ter direito
ao seu divertimento e ele se... as pessoas darem um pouco
mais de respeito, pra eles se sentir valorizado e mesmo
eles morando numa comunidade ribeirinha eles tem o
mesmo potencial do que o outro que mora na cidade. Então
o jovem ribeirinho pra mim ele tem que ser uma pessoa
livre, livre escolha e ele tem que ser consciente (EDUCADOR).
Em relação às dificuldades vivenciadas pela juventude, verifica-se que
os educadores residentes em Caruaru as vinculam às dificuldades de contato e
relacionamento com a sociedade mais abrangente que não reconhece e valoriza a juventude. Por sua vez, os educadores residentes em Belém identificam
como dificuldades a questão do transporte, que se constitui num grande desafio para a continuação dos estudos, portanto, para a ampliação dos capitais
humano, cultural e econômico.
No que diz respeito à juventude ribeirinha da Amazônia, de modo geral,
os educadores entrevistados retomam a necessidade de implementação de políticas públicas nas áreas de educação e lazer como meio de superar as desigualdades e o preconceito ainda existentes em relação à comunidade e aos
jovens ribeirinhos.
101
Universidade da Amazônia
Portanto, percebe-se, a partir da análise dos dados, que as representações de juventude manifestadas pelos educadores possuem uma grande convergência nas percepções sobre juventude expressa pelos jovens, em que se
articulam elementos como: I) a noção de transitoriedade do período juvenil; II)
a noção de projeto da juventude como uma etapa de preparação para a assunção dos compromissos de uma vida social plena; III) a noção de crise e ruptura
com os velhos paradigmas.
3.3 UNIVERSO CENTRO URBANO
3.3.1 Encontros Transculturais: uma reflexão acerca do processo de formação de
identidade religiosa a partir dos adolescentes da Primeira Igreja Batista – PIB
3.3.1.1 Contextualizando o Universo Centro Urbano: a cidade de Belém
Belém foi fundada em janeiro de 1616 pelos portugueses, que logo em
seguida iniciaram o processo de colonização. Construíram o Forte do Presépio,
marco histórico da fundação da cidade e abriram a primeira rua, Rua do Norte,
hoje Siqueira Mendes, que segue do Forte do Castelo até a casa do capitão-mor
Bento de Maciel Parente, onde hoje está localizada a Igreja do Carmo, na praça
homônima, no bairro da Cidade Velha (CAPELOSSI & SEYNAEVE, 1992).
Com a expansão urbanística, a cidade ficou dividida em dois bairros: o
da Cidade e o da Campina, tendo como limite de separação o Igarapé de Piri.
Nos bairros, a paisagem se assemelhava: ambos com ruas estreitas, tortuosas,
sem calçamento, com poucas edificações, e com algumas igrejas e conventos
que se sobressaiam do conjunto arquitetônico, predominantemente constituído por casas de um pavimento, de taipa de barrote revestido de tijuco, o que
denunciava a espontaneidade do desenvolvimento urbano.
Havia dúvidas se o local escolhido para instalar a cidade era realmente apropriado, uma vez que o sítio devia ter disposição e qualidade para que ali
se pudesse, durante o tempo, formar um povoado. Por conta disso, o acerto da
escolha onde Castelo Branco instalara o povoado foi logo questionado. Belém
foi fundada num fragmento de terraço em um terreno disposto de sete ou oito
metros acima do nível das águas. O terreno, ao sul, era, como ainda hoje, contornado ao sul por um rio, o Guamá; a oeste, por uma Baía, a do Guajará; e
isolado nas outras planícies inundadas por um imenso igarapé, o do Piri. Dessa
forma, o espaço seria inadequado, do ponto de vista da segurança militar, por
estar situado entre pântanos, o que dificultaria a defesa, e também inapropriado para o futuro de um povoado, visto que ao lado do forte havia uma ladeira e
depois dela um imenso mangue (MONTEIRO, 1999).
A alta pluviosidade, decorrente do volume de água das chuvas que caem
em Belém, as marés elevadas e as enchentes das marés se somavam às chuvas e
102
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
à baixa declividade (o baixo nível médio dos terrenos), o que levou as autoridades a acreditarem que aquele não seria o local adequado para se gerar uma
Metrópole. Foi então que após menos de três anos da fundação de Belém, havia o
ordenado de transferência do povoado para outro lugar. Para tanto, surgiram
diversas sugestões: Icoaraci, chamada na época de Ponta do Mel; Colares, antigamente chamada Ilha do Sol; e Joanes, no Arquipélago do Marajó. Entretanto,
todas as três tentativas foram fracassadas devido à resistência dos moradores
em permanecer no local, principalmente pelo fato de o rei de Portugal só autorizar a transferência caso a população estivesse de acordo (MONTEIRO, 1999).
Daí o povoado não deixou de crescer, hoje virou uma “metrópole”, e as
condições adversas de seu sítio geraram contrapartidas para a cidade, pois
provocaram o desenvolvimento de uma engenharia capaz de conviver com as
complexidades da região.
3.3.1.2 O Espaço Urbano de Belém
Belém, capital do Estado do Pará, está localizada na embocadura de um
braço do delta Amazônico, na baía do Guajará, cercada de ilhas que pertencem
à parte insular do município de Belém, sendo recortada por vários canais,
igarapés e rios. A cidade limita-se ao norte com a Baía do Guajará; ao sul com
o rio Guamá e município de Acará; a leste com o município de Ananindeua,
Santo Antônio do Tauá, Santa Bárbara do Pará e Marituba; a oeste com a Baía do
Guajará e Baía do Marajó. Chamada por muitos de “Cidade das Mangueiras”,
devido a seus túneis verdes de mangueiras nas ruas da cidade, Belém disputa
com a cidade de Manaus, capital do Estado do Amazonas, o título de capital da
Amazônia brasileira. O Pará e o Amazonas fazem parte dos setes estados da
região Norte do Brasil e dos noves estados da Amazônia Legal.
A capital paraense possui uma área aproximada de 506.488.306,120
m 2 ou 1.065 Km 2, desses: 242.812.198,422 m2 pertencem à área urbana e
263.676.107,698 m2 à área rural (CODEM, 2001). É identificada como a segunda
metrópole da região Amazônica em relação ao nível populacional com 1.280.614
de habitantes (CENSO DEMOGRÁFICO, 2000) com uma estimativa populacional
para 2003, segundo o IBGE (2002), de 1.342.202 habitantes.
A cidade de Belém constitui a região continental do município de Belém
e ocupa 170 Km2, que estão divididos em oito distritos administrativos (agrupamentos de bairros e/ou áreas limítrofes) e 78 bairros (CODEM, 2001). O cenário
urbano de Belém compreende apenas 1/3 de seu território, que é complementado por ilhas pertencentes à parte insular do município, sendo que 39 delas
estão identificadas e habitadas, como a Ilha das Onças, do Papagaio, Cumbu,
Mosqueiro, Jutuba, Arapiranga (GOVERNO DO ESTADO DO PARÁ, 2004).
Em relação ao espaço centro urbano da cidade, destaca-se que esta
pesquisa de campo foi realizada na Primeira Igreja Batista do Pará - PIB, situa-
103
Universidade da Amazônia
da no bairro de Nazaré (centro da cidade de Belém), na Avenida Assis de Vasconcelos (Praça da República).
O nome desse bairro homenageia a Basílica de Nazaré que, inicialmente
era uma singela capela fundada em meados do século XVIII, a partir de 1909
adquiriu uma forma arquitetônica suntuosa, seguindo os moldes da Basílica de
São Paulo Extra Muros, em Roma. Hoje, a Basílica é consagrada como um dos
símbolos mais importantes do Círio de Nossa Senhora de Nazaré, grande manifestação de fé religiosa católica do povo paraense (CAPELOSSI & SEYNAEVE, 1992).
Rocque (apud RODRIGUEs 1996, p.136) destaca que o bairro de Nazaré,
no início de sua fundação, era habitado por famílias de poder econômico elevado que construíam suas casas de campo na estrada de Nazaré, hoje Avenida
Nazaré. Atualmente, o bairro, ainda, se constitui como um reduto de famílias
com esse padrão, haja vista possuir características residências suntuosas, na
sua maioria edificações verticais e comerciais, formadas por grandes conjuntos de lojas de artigos diversos, bancos estatais e privados, serviços públicos,
hotéis, cinemas, teatro, igrejas, escolas, praças, museus, e também por o que
Trindade (1999, p.147) chama de “signos da modernidade”: shoppings centers,
condomínios de luxo e ruas como espaço privilegiado de automóveis. Todos
esses elementos, associados aos equipamentos públicos que o espaço possui,
como, água encanada, saneamento básico, energia, entre outros, proporcionam aos seus moradores uma grande comodidade e oferecem ótimos ambientes de lazer e excelentes oportunidades de serviços públicos e privados.
3.3.1.3 O Espaço Pesquisado: Primeira Igreja Batista - PIB
A Primeira Igreja Batista de Belém e da Amazônia, possuidora de uma
história centenária, localiza-se na Avenida Assis de Vasconcelos, 817, Nazaré,
espaço de fácil acesso, visto que grande parte das linhas de ônibus urbano que
percorrem a cidade de Belém tem como rota as ruas que a rodeiam. A Igreja está
sediada em uma área bastante interligada aos demais bairros da capital e, por
conta disso e também devido ao apelo da sua localização central e da facilidade do transporte ao acesso, constitui-se como um ponto aglutinador de migrantes oriundos do interior do Estado do Pará e do Brasil.
A localização da PIB pode ser considerada privilegiada, uma vez que
está situada em frente à Praça da República, antes Largo da Pólvora, ladeada
por uma das principais avenidas da cidade, a Presidente Vargas, que têm, em
toda a extensão e nas transversais, uma grande parcela de trabalhadores informais com bancas de produtos diversos.
A Praça da República é uma das praças mais belas de Belém; palco de
atrações, como a Feira de Artesanato, ocorrida aos finais de semana; “lócus” de
intensas manifestações culturais, políticas, sociais e religiosas. Arquitetonicamente, compõem a sua bucólica paisagem coretos de ferro, mangueiras, jar-
104
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
dins, monumentos históricos e edificações como o Núcleo de Artes da Universidade Federal do Pará e o Bar do Parque; além de importantes teatros, como: o
Teatro Waldemar Henrique, fundado em 1979, e o Teatro da Paz, inaugurado em
1878 (CAPELOSSI & SEYNAEVE, 1992).
O Teatro da Paz tem presença marcante na Praça e é uma obra importante para a cidade. Construído em 1897, no período do ciclo da borracha, foi o
primeiro teatro de ópera da região norte do Brasil, com um estilo neoclássico
da escola de arquitetura européia, introduzida pelos franceses no inicío do
século XIX. Atualmente é mais acessível à sociedade paraense em geral, sendo
palco de grandes eventos como peças teatrais, recitais nacionais e internacionais e diversos programas culturais.
FIGURA 8: Localização da PIB no bairro de Nazaré – Belém/Pa
Fonte: www.pibpa.org.br
3.3.1.4 Identidade Religiosa e Referências Culturais da PIB
Nessa pesquisa, parte-se da premissa de que a identidade, independentemente do seu caráter, que pode ser religioso ou se apresentar das mais variadas formas, é desenvolvida por um conjunto de atributos e referenciais cultu-
105
Universidade da Amazônia
rais. Então é pela diversidade de atributos culturais que papéis sociais são
constituídos, que se configura a ação social. Portanto, acredita-se que, a partir
de uma instituição, os atributos sociais e culturais podem ser consolidados
enquanto identidade em pessoas que compartilhem das ações sociais pertinentes à instituição inserida (CASTELLS, 1999).
Nesse sentido, a PIB, na condição de instituição formadora de identidades por ter referenciais de princípios religiosos, tende a introjetar em seus
adeptos os mesmos valores e atributos culturais de caráter religioso. Logo,
configura-se como uma instituição formadora de identidade religiosa.
Para a compreensão do processo de formação de identidade religiosa e dos referenciais culturais compartilhados pela PIB, faz-se necessária
uma compreensão de sua história, sua estrutura e sua denominação, pois, a
partir do esclarecimento do “como” e dos “motivos” da ação religiosa e
social, torna-se mais fácil a compreensão do fato de como se dá a formação
de identidade.
3.3.1.4.1 Sua história
No Brasil, os batistas organizaram a primeira igreja em 15 de outubro
de 1882 e, no Pará, foi fundada em 02 de fevereiro de 1897 pelo membro Eurico
Alfredo Nelson (PEREIRA, 1982).
A PIB é autônoma nas suas decisões, possui governo democrático e
rege-se pela palavra de Deus em todas as questões, sejam elas doutrinárias,
éticas, espirituais, sob a orientação do Espírito Santo. É uma instituição de
caráter religioso e sem fins lucrativos, e adota os princípios batistas enunciados na Declaração Doutrinária votada na Convenção Batista Brasileira, à qual
é filiada (ESTATUTO DA IGREJA, 1993).
No documento intitulado “Nossa História: Pastores e Dirigentes”, consta a informação de que a PIB, no decorrer de seus 106 anos de existência, foi
dirigida por 29 pastores e missionários, e 19 moderadores leigos. No momento
da pesquisa, é gerida pelo Pastor Elias Teodoro, que assumiu o Ministério Pastoral no dia 21 de fevereiro de 1992 e tem como uma das marcas do seu pastorado o ministério de casais.
3.3.1.4.2 Sua estrutura
O Estatuto da Igreja aponta que a PIB é constituída atualmente por uma
Diretoria Estatutária composta por Presidente, Moderadores, Secretários e Tesoureiros. Além dessa estrutura organizacional, a PIB é formada por vários
Ministérios, dentre os quais, destacam-se: Ministério da Família; Educação
Religiosa; Música; Evangelismo e Missões; Juventude; Adolescentes; Ação Social; Oração e Intercessão; Visitação; Comunicação; Patrimônio e Finanças.
106
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
Dos Ministérios que compõem a PIB, neste relatório, faz-se referência
ao Ministério de Educação Religiosa, responsável pela formação cristã de todos os membros da Igreja. Compõem esse Ministério a Escola Bíblica Dominical, Juventude, União dos Adolescentes, Mulher Cristã em Ação, Embaixadores
do Rei, Mensageiras do Rei, Centro de Literatura Cristão, Esportes e Grupo de
teatro.
3.3.1.4.3 Sua denominação
Durante a pesquisa documental na Primeira Igreja Batista do Pará,
teve-se contato com alguns textos escritos pelo Pastor Elias Teodoro, dos quais
se destacam alguns aspectos sobre a denominação batista, informações que
foram extraídas da Revista Diálogo e Ação (1990). O documento explica, de
maneira sucinta, que os primeiros batistas surgiram no século XVI na Europa,
mais precisamente na Inglaterra, tendo como líder mais antigo Thomas Hellwys; e que o nome batista significa “o que batiza”, João era “o batista” porque
mergulhava convertidos nas águas, pelo arrependimento pessoal.
Os batistas crêem que a fé surge antes do batismo, e não o batismo
antes da fé, e têm muitas convicções em comum com outros cristãos, por exemplo: a crença em Deus como o criador de todas as coisas; em Jesus Cristo como
Senhor e Salvador; na cruz e na ressurreição, no Pai, no Filho e no Espírito Santo
e nos ensinamentos de Cristo. Aceitam também a maior parte das doutrinas
seguidas pelos evangélicos, como: a autoridade das Escrituras, a doutrina de
Deus, da Trindade, de Jesus Cristo, do Espírito Santo, entre outras (EM QUE
CREEM OS BATISTAS, 2001).
Vale ressaltar que a Educação Religiosa na PIB, pelo fato de ser padronizada e contínua quanto à faixa etária e ao grau de cognitividade, assume,
segundo Berger (2003), um caráter de “socialização secundária” formal. A PIB
adota como princípios doutrinários valores morais de preservação do corpo a
partir de atividades voltadas à educação sexual, à prevenção do uso de substâncias químicas, além de prezar pelas atividades religiosas e missionárias.
3.3.1.4.4 Sua identidade religiosa
Como citado anteriormente, os batistas organizaram a primeira igreja
em solo brasileiro em 1882 e no Pará em 1897. Essa trajetória iniciou-se na
Inglaterra e expandiu-se para a América do Norte que, por meio da Convenção
Batista do Sul dos Estados Unidos, nomeou o Pastor Thomas Jefferson Bowen
para desenvolver o trabalho missionário no Brasil (PEREIRA, 1982).
Diante desse contexto, constata-se que as raízes históricas e identitárias da PIB podem ser encontradas na Europa e nos Estados Unidos. Desse modo,
na tentativa de compreender o conceito de identidade que mais se aproxima da
107
Universidade da Amazônia
PIB, essa pesquisa ancorou-se nos conceitos de identidades propostos por Castells (2001), tendo-os como referência geral.
Segundo Castells (2001), ao se ter conhecimento de que a construção
das identidades ocorre numa situação marcada por relações, podendo essas
ser relações de poder, acredita-se que há três formas e origens de construção de
identidades: a) identidade legitimadora; b) identidade de projeto e c) identidade de resistência.
A identidade legitimadora é introjetada pelas instituições dominantes da
sociedade no intuito de expandir e racionalizar sua dominação sobre os atores
sociais. A identidade de projeto consiste na utilização de qualquer tipo de material
cultural ao alcance para a construção de uma nova identidade que redefine sua
posição social com o intuito de transformar toda uma estrutura social. Ao passo
que a terceira forma de identidade, a identidade de resistência, é criada por atores
sociais que se encontram em condições desvalorizadas e ou estigmatizadas pela
lógica da dominação, construindo então mecanismos de defesa com base em princípios diferentes dos que permeiam as instituições sociais.
Conforme Castells (2001), a identidade legitimadora origina um conjunto de organizações e instituições estruturadas e organizadas que reproduzem a identidade projetada nos atores sociais que, a partir de então, internalizam as fontes de dominação estrutural.
Nessa perspectiva, acerca da identidade religiosa da PIB, acredita-se que o
conceito mais próximo seja a identidade legitimadora, pois a PIB, é uma instituição
religiosa estruturada e organizada que, na medida do possível, objetiva que seus
membros internalizem e reproduzam de maneira espontânea suas doutrinas e princípios na busca de fortalecer a sua identidade religiosa, que, de forma direta ou
direta, também sofre modificações por meio dos tempos e lugares.
3.3.1.4.5 Breve histórico sobre a Escola Bíblica Dominical – EBD
Para Smith (1986, p. 11) “a organização que tem maior responsabilidade no programa de Educação Religiosa de uma igreja é a Escola Bíblica Dominical” e esta se constitui na organização mais antiga na história das igrejas,
funcionando com regularidade.
No que tange ao histórico na Escola Bíblica Dominical da Primeira
Igreja Batista do Pará, os dados compilados de um documento intitulado
“Informações históricas” (2004), escrito pelo Pastor Lucas Pereira Barbosa,
Diretor de Educação Religiosa, revelam que no registro das atas da igreja,
desde 1907, aparecem as primeiras informações quanto à organização da
EBD na Igreja.
Entretanto, desde a sua organização em 1897, o movimento de Escola
Bíblica estava presente nas primeiras igrejas organizadas em solo brasileiro,
haja vista que fazia parte da metodologia do trabalho implantado pelo modelo
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ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
de protestantismo de missão; como também, desde o início da história dos
batistas no Brasil, havia a preocupação de ensinar aos seus membros os conhecimentos bíblicos e doutrinários (PEREIRA, 1982).
O documento enfatiza que as primeiras classes de instrução bíblica no
Brasil apareceram em conexão com os Huguenotes, na cidade de São Sebastião,
no Rio de Janeiro, no século XVI. Os holandeses no norte do país criaram também escolas de instrução de religião. Vindos da Escócia para servirem como
missionários no Brasil, Robert e Sara Kalley estabeleceram-se em Petrópolis e,
em 19 de agosto de 1955, iniciaram uma classe de estudo bíblico. Os batistas,
logo no início de sua obra, deram valor a esse modelo de escola, e em 1990 foi
organizada a Casa Editora Batista. Em 1903 as lições da Escola Dominical
foram publicadas por meio do Jornal Batista. As primeiras revistas publicadas
foram a Infantil (1903), de Adultos (1907) e Amigo da Juventude (1909). Em
1907, foi organizada a Junta de Escolas Dominicais.
O documento destaca que os primeiros manuais traduzidos pela missionária Catarina Smith servem de base até hoje. São eles: Evangelização, Alcançar Multidões com Ação da Igreja, Prover Liderança para a Igreja, Missões,
Informar quanto ao trabalho da Denominacional. As primeiras atas apontam a
organização de sete classes, divididas entre adultos (homens e mulheres), jovens (moças e rapazes), intermediários, crianças e oficiais. Atualmente, a EBD
está dividida em quatro departamentos (adultos, jovens, adolescentes e infantis, integração), com 08 classes de adultos, 03 classes de jovens, 02 classes de
adolescentes, 01 integração, 06 de crianças, 01 oficial e 02 classes alternativas
(Ministérios do Silêncio e Raízes).
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Universidade da Amazônia
FIGURA 9: Classe de adolescentes da EBD – PIB
Fonte: Registro de campo/ 2004.
Barbosa (2004) revela que nesses livros de atas não está claro o perfil
dos membros que participavam da EBD desde a sua formação na igreja, porém
algumas informações apontam para grupos nordestinos que chegavam à cidade, famílias convertidas em Belém e outras oriundas do interior do Estado do
Pará, Amazonas e Amapá. Eram famílias bem numerosas, compostas por adultos e crianças, na sua maioria, e jovens, que completavam o segundo grupo. Os
integrantes das EBD chegavam ao grupo por meio dos laços familiares, dos
empregados das famílias abastadas, dos vizinhos e dos amigos oriundos do
modelo de trabalho existente na época.
Ao longo dos anos, muitas mudanças ocorreram na EBD, dentre elas
destacam-se aquelas ocorridas especificamente no grupo de adolescentes da
EBD (idem). No início, eram chamados de Intermediários, com a faixa etária
predominante de 13 a 15 anos. Com o passar do tempo, mais precisamente na
década de 60, passou a ser denominado de classe dos Adolescentes, com a
ampliação da faixa etária para 12 a 16 anos. Na década de 90, surgiu uma
revista com proposta voltada especificamente a adolescentes do sexo feminino
com assuntos específicos da fase. O modelo pedagógico continua o mesmo,
separado por faixa etária, com lições modulares trimestrais, com uma grade de
seis anos voltada para estudos bíblicos e, acoplada a ela, uma grade voltada
para atualidades com enfoque em temáticas denominacionais e assuntos de
interesse ao público alvo.
As mudanças ocorridas no perfil dos integrantes acompanham a própria estrutura social, prevalecendo, no início, o perfil de adolescentes oriundos
110
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
de classes sociais menos favorecidas; posteriormente, de classe média, que
atualmente compõem, em sua maioria, o grupo. As atividades foram ampliadas,
passaram do simples estudo bíblico em classe para atividades externas como
passeios, excursões, congressos, atividades recreativas, compartilhamento,
esporte e lazer. Essas mudanças se devem à penetração do evangelho no seio
das comunidades e bairros, onde predominam a presença de famílias bem estruturadas, com forte formação intelectual e ampliação do trabalho na cultura
da cidade; bem como a presença de pessoas da igreja nos alto escalão da
política, do Estado, das forças armadas, das universidades. Portanto, a igreja
presente em todos os novéis das camadas sociais.
O grupo de adolescentes e a própria igreja mantêm relacionamento
saudável com outras igrejas da mesma fé e ordem dentro do estado, e de outras
denominações. O relacionamento ocorre de forma direta em algumas associações comunitárias, clubes esportivos e recreativos, bem como entidades filantrópicas e outras de prestação de serviço à comunidade.
No que concerne aos objetivos da EBD, Barbosa (2004) pontua que hoje
em dia o principal objetivo da EBD é: ensinar a Revelação Bíblica que significa
a manifestação do próprio Deus em Cristo, proporcionando ao adolescente o
conhecimento sobre Deus e a reflexão profunda dos princípios bíblicos para a
sua vida; alcançar o adolescente com ação da igreja visando à integração no
programa da igreja; evangelizar, possibilitando aos adolescentes a oportunidade de conhecer o plano de salvação para sua vida; proporcioná-los ocasiões
para cultuar a Deus diariamente; envolver o adolescente na obra missionária.
É mister ressaltar que a EBD possui como característica primordial o fato
de ter um formato de uma escola formal, onde os que nela ingressam são selecionados por faixas etárias com conhecimento acoplado de acordo com a idade.
3.3.1.5 Os Adolescentes da EBD
3.3.1.5.1 Perfil Social
Os dados do perfil aqui apresentados referem-se à análise de 50 formulários aplicados aos adolescentes integrantes da Escola Bíblica Dominical EBD da Primeira Igreja Batista do Pará - PIB. Esse número de questionários
aplicados é bastante significativo, pois representa mais da metade do grupo,
haja vista que durante a pesquisa de campo constatou-se que a EBD possuía
cerca de 80 adolescentes.
Em relação à naturalidade dos adolescentes, verificou-se que 43,75%
são naturais de Belém/PA; 25% do interior do estado; 25% dos demais estados
do Brasil e 6,25% de outro país. Quanto à escolaridade dos entrevistados 31,25%
encontram-se cursando o Ensino Fundamental; 62,5% o Ensino Médio; e 6,25%
o Nível Superior.
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Universidade da Amazônia
3.3.1.5.2 Gênero e idade
Do universo de adolescentes que responderam aos formulários, 50, 54%
pertencem ao sexo feminino, enquanto que 46% são do sexo masculino. Ao considerar os dados obtidos a partir da análise estatística dos formulários, verifica-se
uma aproximação aos resultados obtidos no censo populacional do Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, PNAD 2002), que aponta, na região
norte do país, no universo de pessoas entre 0 e 19 anos, os números de que 46,3%
são do sexo masculino e 53,7% são do sexo feminino. Assim, constata-se que há
certa homogeneidade, com uma leve predominância do sexo feminino.
No que se refere à idade, a média de idade dos entrevistados compreende entre 13 e 14 anos, sendo então observado que 24% têm 14; outros 24% têm
12 anos; 18%, 13 anos; 14%, 15 anos; 10%, 16 anos, 8%, 17 anos; e 2% têm11
anos. Nota-se, a partir dos dados, que, nas margens, existem poucos adolescentes que estão de passagem de uma a outra faixa etária e classe, considerando
que a EBD é dividida em classes de acordo com a faixa etária,
Os dados apresentados permitem que seja observada a existência de
uma diversidade de faixa etária. Entretanto há uma predominância de mais da
metade dos entrevistados inseridos na faixa etária compreendida de 12 a 15
anos. Os dados revelam, ainda, que todos os adolescentes são solteiros e não
possuem filhos, o que corresponde a 100% da amostra selecionada.
3.3.1.5.3 Cor
No que diz respeito à cor da pele dos adolescentes da EBD, os dados
revelam que 44% se consideram morenos; 44%, brancos; 2%, amarelos; 4%,
pardos; 2%, vermelho; 2%, branco amarelo; 2%, amarelo queimado; e outros 2%
consideram-se vermelho. Os dados apontam certa variedade de percepção sobre a cor, mas observa-se um empate quanto ao número de adolescentes que se
autodenominam morenos e brancos, o que corresponde a 88%.
Nesse sentido, ressalta-se que a maioria dos adolescentes não sentiu
dificuldade para definir a sua cor, que, por fim, correspondiam as suas aparências. A percepção dos jovens acerca de sua cor demonstra que a maioria se
percebe pertencente à cor branca e morena. Tal percepção, dentro do contexto
social amazônico, é significativa, uma vez que é uma região com um histórico
de miscigenação significativo, a qual, a partir da combinação de raças distintas, favoreceu o surgimento de diversas cores e também a ideologia do branqueamento, imposta pelo europeu, apregoando a superioridade do branco, o
que fez com que muitos indivíduos de descendência negra passassem por brancos nos recenseamentos, a fim de obter, em muitos casos, maior aceitação
social (RETRATO DO BRASIL, 1984, p. 112).
112
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
Fatos como esses permitem supor que os números mostrados são exagerados para mais, em relação aos brancos, e para menos, em relação aos
negros. A ideologia do branqueamento teve importância decisiva no processo
de descaracterização (enquanto raça) e no esvaziamento da consciência étnica,
que muitas vezes são identificadas pelo tom da pele. Logo, a autodeterminação
“morena”, que não chega a ser branca, mas também não é negra, expressa bem
esse surgimento de denominação referente à cor na região norte do Brasil (RETRATO DO BRASIL, 1984, p. 112).
3.3.1.5.4 Grau de escolaridade
Os dados analisados revelam que os adolescentes estão em idade escolar e todos se encontram matriculados na rede de ensino: 52% no ensino
fundamental incompleto, 30% no ensino médio incompleto, 16% no ensino fundamental completo e 2% no ensino médio completo.
Verificou que o grau de escolaridade predominante é o Ensino Fundamental incompleto, o que está dentro da expectativa de escolaridade referente
à faixa etária predominante. Os demais dados quantitativos também estão
compatíveis com o esperado em relação à escolaridade, não apresentando defasagem ou atraso escolar. A relação entre idade, ocupação e estado civil do
grupo de adolescente pesquisado indica que todos os adolescentes são solteiros, não possuem filhos e têm como única ocupação os estudos, sem ter que
ajudar no sustento da família.
3.3.1.5.5 Principais meios de comunicação, transporte e lazer
A análise dos formulários revela que 54% dos adolescentes utilizam a
televisão como principal meio de comunicação, seguido da Internet com 16%,
telefone 14% , jornal 4% , televisão e revista 4%, televisão e Internet 2%, televisão e telefone 2%, revista 2% , conversa com outras pessoas 2%.
Dessa forma, percebeu-se, com informações fornecidas pelos adolescentes da EBD, que mais de três quartos dos pesquisados (84%) utilizam como
principal meio de comunicação a televisão, a Internet e o telefone celular. Vale
ressaltar que a utilização desses meios só é possível por intermédio de objetos
que requerem um investimento financeiro significativo para a devida aquisição
e manutenção, o que indica que se trata de um grupo composto por pessoas
pertencentes a classes sociais favorecidas financeiramente.
Quanto ao meio de transporte que mais utilizam, os dados analisados
mostram que 52% dos adolescentes utilizam o carro da família, seguido de 48%
que utilizam ônibus. A utilização do carro da família como principal meio de
transporte reforça a idéia de que esse é um grupo social com um poder aquisitivo favorecido, haja vista que para a utilização de um carro particular é neces-
113
Universidade da Amazônia
sário também um investimento financeiro significativo para a aquisição e manutenção do veículo, o que é inacessível a 90% dos habitantes de Belém, usuários de outros tipos de transportes como ônibus, bicicleta, entre outros (JORNAL
DO POVO, 2004).
Constata-se também que, nos momentos de lazer, a maioria dos jovens gosta de praticar esporte (20%) e de ler (20%); os demais gostam de
assistir à televisão (16%), ouvir música (14%), encontrar com amigos (8%),
jogar vídeogame (6%), tocar instrumentos musicais (8%), passear (4%), desenhar (2%) e usar a Internet (2%).
Estudos sobre a motivação têm investigado os aspectos motivacionais
que levam à prática do desenvolvimento motor e, ou subjetivo, seja em nível de
competição ou apenas no lazer ou recreação de jovens. Logo, o entendimento da
motivação no esporte e na música torna-se importante no momento em que se
enfoca a motivação como um processo para despertar a ação ou sustentar a
atividade, fenômeno muito comum na adolescência (FIORESI apud PAIM, 2003).
Nesse contexto, os adolescentes da PIB estão de acordo com os demais
jovens brasileiros independentemente do grupo sociocultural, uma vez que o
contato com a música, a prática de esportes e a televisão são buscadas nos
momentos de lazer pelos jovens, sendo a televisão um veículo de comunicação
e lazer mais buscado pela maioria dos jovens. Segundo dados da UNICEF (2002),
uma das principais atividades de lazer referidas pelos adolescentes é assistir à
televisão (52%).
No que se refere à leitura como atividade de lazer, evidencia-se a caracterização do grupo como escolado e favorecido culturalmente e socialmente,
para que se faça uso dessa atividade de lazer, faz-se necessário investimento
intelectual.
3.3.1.5.6 Família
52% dos adolescentes da EBD possuem apenas um irmão, seguido de
28% que possuem dois irmãos, de 16% com três irmãos, de 2% que têm seis
irmãos e de 2% que não têm irmãos.
A composição familiar então não pode ser considerada pequena, pois a
maior parte dos adolescentes, 68%, pertence à família com composição familiar de 4 a 5 pessoas; seguido de 14% com composição de 1 a 3 pessoas; de 14%
com composição de 6 a 7 pessoas e de 4% com composição acima de 7 pessoas.
Com relação à família, 60% dos adolescentes moram com os pais, 26%
residem com parentes e 14% moram somente com a mãe. Os dados revelam que
a maior parte dos adolescentes da EBD pertence à famílias nucleares, que segundo Oliveira & Wagner (2000) é aquela composta por pai, mãe e filhos. Um
outro dado que chama a atenção é que 26% destes adolescentes moram com
parentes, o que sugere um forte movimento de migração do interior ou de outros
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ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
Estados para a cidade de Belém em busca de melhores condições de vida e de
estudo.
O dado que menciona moradia somente com a mãe, ou seja, 14% dos
adolescentes, reforça a adesão ao novo padrão de estruturação familiar em
que a família tradicional, composta pelo casal com filhos, caiu quase 5% na
década de 1990 no Brasil, ao mesmo tempo em que aumentou a proporção de
outros tipos de composição familiar: de mulheres sem cônjuge e com filhos (de
15,1% para 17,1%) e de casal sem filhos (de 12,9% para 13,6%) (IBGE, 2001).
3.3.1.5.7 Religião
No que concerne à religião, os dados indicam que todos os adolescentes são evangélicos de denominação Batista. As informações obtidas reforçam
o alto número de adolescentes que participaram de outros grupos na Igreja com
82%, enquanto que 18% nunca participaram de outros grupos. Chama a atenção
o fato de que 68% dos adolescentes participaram de grupos religiosos, ou seja,
a maioria dos adolescentes tem traçada uma trajetória dentro da Igreja, participando de atividades religiosas e educativas desde a infância, ao passo que
10% participaram de grupos de lazer/recreação, 2% participam de grupo de
estudo, 2% participam de grupo juvenil.
Atualmente, 56% dos adolescentes, além de frequentar a EBD, participam ainda de outros grupos da PIB, como indicam os seguintes números: 16%
participam do grupo de música, 12% participam do grupo Embaixadores do Rei,
8% participam de grupo escolar, 6% participam de grupo esportivo, 6% participam do Mensageiras do Rei, 6% participam da União dos adolescentes, 2%
participam de grupos de amigos e 44% não participam de nenhum outro grupo
além da EBD.
Segundo os dados, 50% dos adolescentes integram grupo de adolescentes há cerca de um ano, seguido de 18% com dois anos, 12% com três anos e 20%
com cinco anos ou mais.
Sendo assim, é mister ressaltar que os adolescentes da EBD, na sua
maioria, possuem uma trajetória dentro da Igreja Batista, ou seja, participam
de atividades religiosas e culturais de acordo com a faixa etária. Os dados
acima demonstram a constância e permanência dos adolescentes no grupo da
EBD, que reforça a idéia de que essa assume um caráter de educação continuada, comparada a uma escola formal.
3.3.1.5.8 Vida cotidiana dos adolescentes
Segundo Mary Rangel (apud Trípoli, 1998, p.119) a informação é a dimensão da representação social que expressa a organização do conhecimento
sobre o que é representado. Esse conhecimento se organiza no curso das vivên-
115
Universidade da Amazônia
cias diárias, e assim o estudo está associado ao conhecimento vital, logo ao
cultural e ao social. Mesmo os estudos estando ligados ao social e ao cultural,
de forma geral, os adolescentes apresentam uma concepção de tempo livre
como aquele fora da escola e das obrigações de estudante (TRIPOLI, 1998).
Nesse sentido, observa-se que os adolescentes entrevistados realizam
diversas atividades no dia a dia, como ir ao colégio, citado pela maioria, 31.25%
assistem à televisão; 25% fazem cursos de língua estrangeira; 25% fazem aulas
de música; 12,5% dos adolescentes apontaram que realizam tarefas do lar e os
demais realizam atividades bem diversificadas, tais como: estudar em casa;
escrever estórias no computador; sair com os amigos; ficar na Internet; ler,
entre outros.
Dessa forma, os dados acima indicam que o fator sócio-econômico dos
adolescentes da EBD contribui para que tenham acesso a uma grande quantidade de atividades extra-escolares, como no caso do curso de línguas e música,
que ajudam a ampliar seus conhecimentos, proporcionando melhores oportunidades de inclusão futura no mercado de trabalho.
Quanto aos eventos e brincadeiras das quais mais participam, 37,5%
apontaram atividades esportivas, 31,25% eventos da igreja, 25% aniversários e
empatados com 12,5% aparecem casamentos, festas de confraternização, eventos do colégio e de música. Dentre as brincadeiras e eventos citados vale ressaltar que os adolescentes participam, interagindo na maioria das vezes com pessoas da mesma igreja de denominação batista.
Segundo os dados das entrevistas realizadas com os adolescentes, 50%
gostam de ler (revistas, jornais, livros e a bíblia) nos momentos livres, seguido
de 25% que preferem assistir à televisão e 25% que gostam de ficar com os
amigos. Dos demais, 18,75% navegam na Internet, e com 12,5%, cada, gostam de
desenhar, de tocar instrumentos musicais, de ouvir música, de estudar, ou seja,
vivenciam práticas de lazer próprias às da faixa etária na qual estão inseridos
e condição socioeconômica correspondente.
Quando perguntados durante a entrevista sobre o meio de comunicação
mais utilizado, 75% responderam que utilizam a televisão; 50%, a Internet; 25%
,telefone celular; 25%, revistas; 25%, jornais; e 6,25% escutam rádio. Dos adolescentes entrevistado, 56,25% acessam esses veículos de comunicação diariamente. Quanto aos programas de televisão a que mais assistem, os tele-jornais aparecem como os preferidos, citado por 43,75% dos entrevistados. O segundo mais
citado, com 37,5% de preferência, são as novelas; o terceiro, os filmes, com 25%;
o quarto, com 18,75% das preferências, são os programas musicais; e no quinto
lugar, com 12,5%, aparecem os programas esportivos, ao passo que, com 6,25%,
cada, aparecem os programas de diversão e os desenhos animados.
A Internet ocupa o segundo lugar entre os meios de comunicação mais
utilizados pelos adolescentes da EBD. As salas de bate-papo são as preferidas
por 25% dos adolescentes. Em segundo lugar, com 18,75%, predominam os e-
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ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
mail´s, 12,5% citam os sites de jogos e com resultado semelhante, com 6,25%,
aparecem os sites de pesquisas, de música e de humor, respectivamente.
Ir ao shopping é o principal entretenimento dos adolescentes, citado
por 81,25% dos entrevistados, seguido de 43,75% que vão ao cinema, ao passo
que 37,5% verbalizaram frequentar os diversos pontos turísticos da cidade. Um
número significativo de adolescentes frequenta a Estação das Docas, com
31,25% dos entrevistados, seguido de outros 31,25% que frequentam locais de
alimentação (sorveterias, pizzarias, churrascarias). Os demais, 12,5%, frequentam a Companhia Atlética.
Nesse sentido, é importante enfatizar que é bastante elevado o número de
adolescentes que frequentam o shopping, visto que eles apontaram que costumam
frequentá-lo devido à facilidade de encontrar quase tudo em um mesmo lugar.
A frequência maior nesse local é nos finais de semana, mencionado por
50% dos adolescentes, ao passo que 12,5% visitam-no mensalmente e 6,25%
quando dispõem de recursos financeiros. A disponibilidade de tempo médio
para essas atividades é de 12,5% com três horas e 6,25% de duas horas ou nos
finais de semana.
Desse modo, constata-se que a circulação dos adolescentes pelo espaço do centro urbano da cidade é influenciada pelo fator socioeconômico, que
proporciona a eles frequentar shoppings, cinema, restaurantes e pontos turísticos da cidade, e também pela faixa etária na qual estão inseridos, haja vista
que a frequência a tais lugares é feita, na maioria das vezes, com os familiares.
Vale ressaltar ainda que entre os adolescentes entrevistados, 25% investem em média U$ 3,44 20 nos momentos de lazer; seguido de 12,5% que investem U$ 6,88 e 6,25% que investem U$ 2,41. A escolha desses ambientes ocorre,
segundo 43,75%, por preferências pessoais, já 18,75% dos entrevistados verbalizaram que “gostam de lugares calmos” e 25% por diversos motivos, como
“fome”, “amigos” entre outros.
3.3.1.5.9 Relações familiares dos adolescentes
Segundo Trípoli (1998), os adolescentes, apesar de se mostrarem muitas vezes rebeldes, incompreendidos ou até indiferentes em relação à família
(quando a ela se referem), costumam transmitir sentimentos como a importância de viver junto e solidariamente, inclusive chegam a considerar que seu
sucesso depende do bom relacionamento estabelecido com os seus familiares.
Quando perguntados sobre o relacionamento familiar, 50% dos adolescentes entrevistados revelam que consideram a relação familiar “boa”21, 12,5% consideram “tranquila”, 12,5% “normal”, 12,5% “excelente” e com resultado semelhante, isto
20
21
Os valores em Reais foram convertidos em Dólar (Cotação do dia 15/ 09/ 2004 era de U$ 1,00 = R$ 2,907). O Liberal,
Caderno Painel / Economia, p.6.
As frases ou palavras destacadas entre aspas são dos próprios adolescentes entrevistados.
117
Universidade da Amazônia
é, com 6,25% aparecem os seguintes adjetivos “legal” e “difícil”. É importante destacar
que a maioria dos entrevistados não se referiu a conflitos familiares, visto que os
adolescentes consideram a família como uma das mais importantes instituições.
No que se refere às dificuldades no relacionamento familiar, os jovens
apontaram posicionamentos diversos, haja vista que 62% dos adolescentes
acreditam não ter conflitos com a sua família, 25% apresentam dificuldades
com parentes e 12.5% expressam conflitos com irmãos e pais, como observado
nos relatos dos adolescentes a seguir: “É legal, assim, bem de família mesmo,
todo mundo unido, legal!” (ADOLESCENTE B1, 17 anos); “É normal, é boa, é assim,
todo mundo lá se ama, a gente se gosta muito” (ADOLESCENTE B4, 13 anos); “É
assim difícil, porque morar com os tios é diferente do que morar com os pais,
mas é bom, nada de mais” (ADOLESCENTE B16, 17 anos).
De forma a corroborar ainda com esses relatos destaca-se um trecho
do grupo focal realizado com os adolescentes.
Eu sou muito implicante ainda mais quando eu sei que a
pessoa pega corda aí que eu fico atazanando mesmo, meu
pai ele é muito tranqüilo ele diz “menina para”, a mamãe
chega “meninaaaaaa paraaaa”, não sei o que, na maior
gritaria, então por causa disso que há o conflito porque
enquanto um é bem agitado outro é bem calmo eu também
sou muito elétrica não aceito os limites (GRUPO FOCAL COM
ADOLESCENTES).
Observa-se então, a partir dos relatos dos adolescentes, que há divergências ou pequenos conflitos envolvendo pais, irmãos e parentes, Entretanto,
embora apresentem conflitos inerentes à própria faixa etária presente, caracterizam-se como um grupo à parte dos demais adolescentes, visto que a maioria
apresenta uma relação familiar harmoniosa, o que os diferenciam significativamente de outros jovens.
3.3.1.6 Os Adolescentes e sua Inserção no Grupo – EBD
No universo de adolescentes entrevistados, 75% verbalizaram que começaram a participar do grupo de adolescentes da EBD assim que completaram
12 ou 13 anos. Isso ocorre porque a EBD possui um caráter de escola formal, ou
seja, as classes são divididas de acordo com a faixa etária. Desse modo, quando os adolescentes completam 12 anos, eles deixam de frequentar a classe
anterior na qual estavam inseridos e passam para um novo grupo correspondente a sua idade. Verifica-se que esse processo acontece de maneira “natural”,
uma vez que todos os membros da igreja conhecem o funcionamento e a dinâmica da EBD na Igreja Batista. Ressalta-se que os adolescentes, ao ingressarem em
uma nova classe, recebem um certificado da classe anterior.
118
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
Vale mencionar também que, embora à maioria dos adolescentes da
EBD tenha ingressado no grupo devido à faixa etária, há ainda cerca de 18,75%
dos adolescentes que começaram a frequentar o grupo quando chegaram à
Belém, oriundos de outros municípios e ou Estados.
Os dados demonstram que 25% dos adolescentes entrevistados chegaram ao grupo por intermédio dos pais, o que significa que ao frequentarem a
igreja para participar dos cultos e ou atividades destinadas ao grupo de senhores ou senhoras da igreja, aos pais também procuram inserir seus filhos em
algumas das atividades religiosas oferecidas pela igreja. Outros entrevistados
verbalizaram que ingressaram no grupo por intermédio da professora do grupo
anterior, citado por 18,75% dos adolescentes. Logo, percebe-se que os professores encaminham os adolescentes para a nova classe informando-lhes a necessidade de interação com outro grupo da mesma faixa etária.
Os demais 18,75% dos adolescentes verbalizaram que chegaram ao
grupo da EBD “sozinhos”; enquanto que 12,5% informaram que ingressaram no
grupo por “causa da idade”. Isso significa que os adolescentes têm conhecimento da dinâmica da EBD e, portanto, assim que completam 12 anos, procuram se
inserir no grupo de adolescentes. Os entrevistados verbalizaram ainda, com
6,25% cada, que ingressaram no grupo da EBD por intermédio de parentes,
irmãos ou da própria igreja.
No que tange a motivação para o ingresso no grupo, aponta-se que, para
os adolescentes da EBD, aprender sobre a palavra de Deus é a principal motivação em participar do grupo, citado por 37,5% dos adolescentes entrevistados. A
segunda maior motivação, com 18,75%, ocorre por causa dos amigos, reafirmando os vínculos de amizade muito importantes nessa etapa da vida. E com resultado semelhante, 12,5% cada, os adolescentes se sentem motivados a participar
devido à linguagem utilizada pelos professores, como também, porque já possuem a idade necessária para ingressar e permanecer no grupo, como nas entrevistas a seguir: “É pra aprender mais da Palavra e também pra ver meus amigos, só
vejo uma vez na semana” (ADOLESCENTES B5, 13 anos); “É aprender mais sobre a
Bíblia e também por causa dos meus problemas” (ADOLESCENTES B8, 15 anos);
“Pra aprender a Palavra de Deus” (ADOLESCENTES B12, 13 anos).
Sendo assim, a partir da análise dos dados, constata-se, com base na
verbalização dos adolescentes, que há um grande consenso no que se refere à
principal motivação em participar da EBD. Essa, no entanto, aparece como uma
espécie de “porto seguro” para os adolescentes entrevistados, pois é nesse
espaço da igreja que eles podem ter e construir amizades “edificantes”, que
consistem em laços que não fogem aos padrões religiosos da denominação
batista como no relato desse adolescente durante o grupo focal.
Desse modo, percebe-se que a EBD aparece, ainda, como espaço de
lazer onde eles ocupam parte do seu tempo livre com atividades que contribuem
na formação religiosa, pessoal, social e moral.
119
Universidade da Amazônia
No que se refere aos objetivos do grupo, 43,75% dos adolescentes afirmaram que é o estudar, o aprender a Bíblia e o conhecer a Palavra de Deus.
Ensinar os adolescentes dentro dos parâmetros bíblicos aparece com 6,25%
das citações. Com relação à frequência nas atividades da EBD, ela corresponde
a algo em torno a 81,25%, aos domingos.
Quando perguntados sobre os aspectos positivos do grupo, há diversas
opiniões sobre o assunto. Os adolescentes entrevistados verbalizaram que o
positivo do grupo é “aprender a palavra de Deus”, “estudar a Bíblia”; “ter contato com as pessoas”, “as programações são legais”; “as explicações dos professores são boas”; “animação”, “todos saem satisfeitos” da EBD. No que se refere
aos aspectos negativos do grupo, 25% dos entrevistados apontam que não há
nada de negativo no grupo, entretanto, 12,5% revelam que os pontos negativos
do grupo são as “fofocas”; ao passo que 6,25%, cada, verbalizaram que o negativo do grupo é que alguns adolescentes têm “preguiça” de ir aos domingos para
a EBD e se integrar no grupo é difícil.
3.3.1.6.1 Relações no grupo
Segundo Fierro (1995), é na fase da adolescência que os espaços passíveis de intercâmbios se expandem enquanto que se debilita muito a referência
à família. Logo, se estabelecem laços mais estreitos com os grupos de companheiros, que tipicamente se iniciam com indivíduos do mesmo sexo e, posteriormente, fundem-se com grupos de sexo oposto formando grupos mistos, constituídos por um magote indissolúvel e homogêneo, em que não existem situações
de privilégios, salvo os líderes do grupo.
A ideia do conforto em participar de um grupo homogêneo e indissolúvel é
percebida nos adolescentes da Escola Bíblica Dominical da PIB, haja vista que
68,75% dos entrevistados revelaram que vivenciam relacionamentos de amizades
no grupo e se consideram participativos, posto que, do ponto de vista deles, consideram-se assíduos aos encontros e às atividades proporcionadas pela igreja.
Ainda que a maioria verbalize que vivencia relacionamentos de amizades, 25% verbalizam que não conseguem interagir com o grupo na sua totalidade, pois sentem dificuldade de relacionamento com os adolescentes do grupo.
A maior parte dos adolescentes avalia a sua participação no grupo
como “boa”, citado por 56,25% dos entrevistados, porque, segundo eles, participam frequentemente do grupo. Há ainda, 18,75% que se consideram “ativos”,
“presentes”, “distantes” e até mesmo “ridículos” em relação à participação.
A porcentagem de adolescentes que responderam que não têm ideia do
que as outras pessoas pensam sobre a sua participação no grupo da EBD é de
37,5%. Outros 12,5% acreditam que as pessoas pensam que eles participam apenas para se “mostrar” ou “aparecer”. Os demais, com 6,25% cada, acreditam que
as pessoas pensam que a sua participação é “boa” e “não faz diferença”.
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ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
Entre os adolescentes entrevistados, 37,5% gostariam de participar mais
das atividades oferecidas para a sua faixa etária na Escola Bíblica Dominical,
enquanto 43,75% gostariam que a sua participação fosse “legal”, “mais presente”, “normal”, “espontânea”, o que demonstra o fato de os adolescentes sentirem
necessidade de participar com mais intensidade das atividades do grupo e
possuir ambição de serem mais participativos na EBD.
3.3.1.6.2 Conflitos no grupo
Segundo 62,5% dos adolescentes, no grupo da EBD participam pessoas
diferentes, com ideias também diferentes, na Escola Bíblica Dominical. Verbalizam 62,5% da amostra que há espaços para diferença no grupo, o que significa
que os adolescentes percebem-se diferentes um dos outros, porém procuram
respeitar as diferenças (opiniões, pensamentos) e o espaço de cada um. A porcentagem de adolescentes que dizem que o grupo trata igual o diferente é de
12,5%, como também, os que pronunciaram que o grupo entende e respeita cada
um nas suas diferenças.
Quando perguntados sobre conflitos no grupo, uma porcentagem de
50% dos entrevistados verbalizou que há conflitos no grupo. Os outros 50%
expuseram que não há conflitos ou não sabem informar. Para os que consideram a existência de conflitos, os motivos são em virtude de “falsidade” entre
eles, “fofocas”, formação de “panelinhas” (pequenos grupos que se unem por
afinidades), “inveja”, “namoros”, “superioridade”, “liderança”, “amizades” e “ciúmes”, sendo que tais conflitos, segundo os adolescentes, acontecem principalmente nas atividades externas do grupo.
Nesse sentido, Fierro (1995) destaca que esses conflitos surgem devido
à desagregação do grupo, ocasionada quando se consolidam relações amorosas, pois à medida que se estabelece uma relação com um companheiro, reduzem-se as com os demais; ou por outros motivos diversos que ameacem a estabilidade das relações existentes em um grupo coeso e importante para seus
componentes.
Vale ressaltar que 31,25% dos adolescentes apontam que a resolução
dos conflitos ocorre por meio do diálogo, existindo também 6,25% que contaram nas entrevistas que os conflitos ou problemas ocasionados por alguma
adversidade são resolvidos pelo professor da Escola Bíblica.
3.3.1.6.3 O grupo como processo educativo
De acordo com Aberastury & Knobel (1981), a busca da identidade na
adolescência recorre como um comportamento defensivo à busca de uniformidade, o que proporciona segurança e estima pessoal. Surge, então, o espírito
grupal, em que há um processo de super identificação em massa e todos se
121
Universidade da Amazônia
identificam com cada um. Dessa maneira, o fenômeno grupal adquire uma importância transcendental, já que se transfere ao grupo grande parte da dependência que anteriormente era mantida no meio familiar.
A influência familiar se destaca como elemento de identificação grupal, haja vista que a maioria dos adolescentes nasceu em um lar batista, apresentando uma história de vida em comum, em que todos pertencem à mesma
religião e prezam pelos mesmos valores morais, éticos e religiosos. O grupo de
adolescentes da EBD se caracteriza como um grupo fixo, com atividades semanais e com período de permanência em média de cinco anos.
A permanência num grupo na fase da juventude tem um papel fundamental para a identificação do jovem pois proporciona a ele tanto a formação de
ideologias quanto o conforto, por ter pessoas que estão na mesma situação, por
perto. Consequentemente, as lideranças espontâneas no grupo, os ciúmes das
amizades, os namoros, grupos fixos fechados aos demais são percebidos como
uma possibilidade de desarmonia do grupo, pois podem excluir direta ou indiretamente membros do grupo, sendo então encarados como conflitos internos.
Nesse contexto, 18,75% dos adolescentes entrevistados verbalizaram
que o grupo ajuda a “fortalecer na palavra”, ou seja, sentem-se mais seguros
com a fé; 12,5% disseram que ajuda a enfrentar o dia-a dia; como também,
12,5% acreditam que o grupo contribui para o desenvolvimento pessoal (vencer
timidez, ficar mais extrovertidos) e mental.
Em relação aos desafios do grupo da EBD, os adolescentes consideram
que o desafio é “evangelizar”, entender, praticar e refletir sobre o que é ensinado
no grupo, vivenciando-os no seu dia a dia e evitando que os adolescentes saiam
da Igreja. A maior parte dos adolescentes já participou de atividades de formação pessoal, dentre elas: retiros com 68,7% de participação, como também de
outras atividades, como palestras educativas, festivais de canção, coral de
adolescente, oficinas e feira de arte, as quais 43,7% dos entrevistados freqüentam anualmente.
Sobre isso, Aberastury & Knobel (1981) afirmam que a necessidade de
intelectualizar e fantasiar acontece como uma forma típica do pensamento do
adolescente e é considerada também como uma forma de defesa. A exigência
que a realidade impõe de renunciar ao corpo, ao papel da infância e aos pais,
assim como à bissexualidade, que acompanha a identidade infantil, pode ser
vivenciada pelo adolescente como fracasso ou impotência frente à realidade
externa, obrigando-o a recorrer ao pensamento para compensar as perdas ocorridas dentro de si e que não podem ser evitadas.
3.3.1.6.4 Relações de gênero no grupo
Ainda que os seres humanos tenham particularidades de comportamento determinadas por diferenças orgânicas e biológicas, é o processo de
122
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
aprendizagem que condiciona a expressão particular de cada indivíduo. Cada
cultura o faz por intermédio do governo, das escolas, da família, dos meios de
comunicação e da religião, que fazem a diferenciação dos sexos por funções,
direitos e deveres distintos (BATISTA & OLIVEIRA, 2004).
Nesse sentido, no que tange à relação de gênero, um grupo menor dos
adolescentes sente a diferenciação de gêneros e afirma que as meninas recebem tratamento diferenciado. Contudo, 75% dos adolescentes do grupo da EBD
acreditam não haver diferença no tratamento entre homens e mulheres.
3.3.1.7 O Ponto de Vista dos Adolescentes
3.3.1.7.1 Religião
Para Zagury (1996), o Brasil continua sendo um “país de fé”, em que a
maior parte dos adolescentes e jovens possui alguma religião e acredita em um
Deus. Entretanto, a autora enfatiza que alguns se consideram pouco religiosos
e não vivem a religião, isto é, não seguem os princípios e doutrinas de uma
religião e frequentam a igreja esporadicamente. Há ainda outros que acreditam
ser nada religiosos.
Nesse sentido, Rosa (2003, p. 80) explica que, na adolescência e juventude, a religião do indivíduo passa a ter um significado diferente das demais
faixas etárias. A experiência de muitos jovens constitui-se como um problema
para muitas famílias e certas comunidades religiosas. É que muitas vezes, a
religião do jovem e do adolescente é caracterizada por certo grau de rebeldia
velada ou mesmo ostensiva. Todavia, essa rebeldia em certos casos significa
uma luta espiritual deles mesmos, no sentido de buscar sua identidade psicológica tanto na dimensão pessoal quanto na espiritual.
Segundo o mesmo autor, nessa fase, a religião deixa de ser algo meramente imposto pela cultura a que o indivíduo pertence ou pela própria família;
e passa a ser uma experiência estritamente pessoal que representa a opção de
cada um. É na adolescência que se torna possível a inclusão de outro na dimensão subjetiva do indivíduo, além de se tornar possível também a conversão
religiosa, que é uma das experiências mais decisivas na adolescência ou juventude. “Deus, o grande Outro”, torna-se, portanto, parte da experiência desse
grupo não mais como valor cultural, mas, sobretudo, como o ser-fundamento
do próprio ser, que dá sentido e direção à vida.
Logo, quando perguntados sobre o que é religião, os adolescentes da
EBD-PIB não se prenderam a conceitos propriamente ditos ou a literatura disponível; e sim manifestaram uma grande variedade de expressões, conceituando religião a partir daquilo vivenciado e experimentado por eles. Do ponto de
vista dos adolescentes, religião “é uma das coisas mais importantes na vida”.
(ADOLESCENTE B1, 17 anos) e/ou “que todos devem ter e buscar na religião o
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Universidade da Amazônia
sentido da vida” (ADOLESCENTE B16, 17 anos); assim como, “é servir e ter intimidade com Deus” (ADOLESCENTE B4, 13 anos), ou ainda “é acreditar em Deus e
viver de acordo com as normas” (ADOLESCENTE B12, 13 anos).
Desse modo, percebe-se, pois, que a religião, para os adolescentes,
exerce uma função muito importante, sendo uma instituição necessária em
suas vidas, haja vista que a maior parte deles nasceu em um lar batista e desde
criança tiveram um aprendizado constante sobre a religião à qual pertencem.
Observou-se, durante a pesquisa de campo, que a maioria dos adolescentes participa de outros grupos espontaneamente, entretanto, um número
pequeno revelou que participa por “imposição” familiar.
Os adolescentes entrevistados revelaram que a principal motivação
em participar do grupo de adolescentes da EBD são “os amigos”, citado por 25%
dos adolescentes entrevistados, e com resultado semelhante, ou seja, com 12,5%
cada, aparecem vários concordando em alguns pontos, tais como: “gostam da
lição da EBD”, simplesmente “gosta da EBD”, porque “aprende sobre a palavra de
Deus” e por causa das atividades direcionadas aos adolescentes. Há ainda,
também empatados, com 6,25% cada, as seguintes motivações: acha “legal”,
“interessante”, por causa da atividade missionária e por causa da família.
Com relação à regularidade das reuniões e encontros do grupo, 56,25%
dos adolescentes verbalizaram que frequentam o grupo todos os domingos;
18,75% frequentam-no aos sábados e domingos, e 6,25% cada, frequentam-no
duas a três vezes no mês ou sempre que não têm nenhum outro compromisso.
Quando indagados sobre o significado do grupo na sua vida, 18,75%
dos adolescentes da EBD responderam que o grupo ajuda a conhecer profundamente a bíblia, contribuindo para um aprendizado maior sobre Deus e para o
fortalecimento da fé. Outros adolescentes reconhecem que o grupo possui um
significado muito grande, visto que as pessoas que dele participam pertencem
à mesma religião. A seguir, algumas percepções dos adolescentes, referentes ao
significado do grupo em sua vida.
Porque eu sei que eu posso aprender a palavra de Deus, só
eu e a Bíblia, mais eu acho muito importante eu ver e
conviver com as pessoas e também tão buscando o
crescimento, [...] às vezes eu passo dificuldades e quando
eu recebo a benção, é eu posso mostrar pra eles que Deus
me ajudou, e assim a recíproca também é verdadeira, então
eles fazem a mesma coisa, eu acho que é importante isso,
a gente conviver com as pessoas que estão no mesmo meio,
que são batistas também, que entendem a religião, que
são da mesma religião (ADOLESCENTE B15, 14 anos).
124
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
3.3.1.7.2 Política
Segundo Zagury (1996, p. 226-228), nos anos 60 e 70, sobreviveu, no
Brasil e no mundo, uma geração de jovens que se preocupava com a sociedade,
o que gerou uma juventude politizada. Nesse contexto, os jovens tinham como
maior interesse a política e então discutiam problemas sociais, faziam leitura
de autores como Marx e Engels, que traziam em seu bojo o idealismo político,
ainda que a palavra de ordem no momento fosse o racionalismo científico.
Todavia, o autor menciona o desinteresse pela política de muitos adolescentes e jovens da atualidade, e acredita que tal abandono em relação aos
assuntos políticos é ocasionado por uma situação de descrédito político grave,
gerado pela constante sucessão de escândalos financeiros, envolvendo lideres
públicos em esquemas de corrupção, de falta de ética, de impunidade e de
outros, fomentando assim a miséria social.
O desinteresse político também é fruto de um forte esquema individualista que a sociedade capitalista vem conduzindo, levando o “eu”, o indivíduo, à
satisfação do ego que se sobrepõe ao social, à comunidade e à humanidade. Há
ainda o fato de que muitos jovens não possuem uma visão e uma definição maior
de política devido à ausência de formação de consciência crítica e política. Para
tanto, deveriam ser incluídas nos currículos das escolas disciplinas que desenvolvessem a consciência política para que essa voltasse a ocupar o espaço que
lhe foi cruelmente roubado no período da ditadura militar (ZAGURY, 1996).
Nesse sentido, percebe-se uma relação entre os dados citados pelo
autor e o percebido nas falas dos adolescentes da EBD, visto que, quando perguntados se existe relação entre juventude e política, 43,75%, conscientemente
ou inconscientemente, não souberam dar nenhuma informação a respeito. Um
número menor, 18,75%, de adolescentes verbalizou que há relação entre essas
duas categorias, conforme os relatos abaixo:
Eu acho que, às vezes, tem um pouco de relação, por
exemplo, esses governantes, esses vereadores, esses
prefeitos que são mais velhos, com mais experiência, eu
acho que eles são as melhores pessoas pra governar e eu
acho que político, ser uma pessoa muito jovem, eu acho
que não ia dar muito certo, sabe (ADOLESCENTE B2, 12 anos).
Quando perguntados se eram filiados a algum partido político, 43,75%
informaram que não são filiados a nenhum partido político, seguidos de 18,75%
que revelaram que são simpatizantes dos mesmos partidos políticos que os
pais. No cômputo geral, os adolescentes verbalizaram diversas percepções sobre o conceito de política, como no relato a seguir:
125
Universidade da Amazônia
Política, todo mundo precisa, que pelo fato de ser político
deputado não sei o que, pensa que o cara é ladrão. Só que
eu acho que política é muito boa, as pessoas estão
trabalhando para a gente conseguir melhorias da nossa
cidade, cultura, educação, saúde só que muitas das vezes
não dá certo isso. Política pra mim é isso, eles estão
representando o povão, mas eles têm que dizer o trabalho
deles (ADOLESCENTE B4, 13 anos).
3.3.1.7.3 Sonhos e perspectivas
Segundo Robert Havighurst (apud FERREIRA, 1978), a introdução dos
jovens às funções de pais e esposos é fundamental para a continuação da
sociedade e para a felicidade do indivíduo, variando o método de cumprimento
dessa tarefa de uma cultura para a outra. No grupo de adolescentes da PIB, esse
fato tem se manifestado de forma intensa: 31,2% dos adolescentes da EBD gostariam de constituir uma família; 81,2% gostariam de ter uma formação profissional; 6,25% apontam que desejam ser felizes e 12,5% gostariam de levar a
palavra de Deus para as pessoas que não a conhecem. Para a realização desses
sonhos, 50% dos entrevistados disseram que estão estudando para alcançálos, assim como buscam seus projetos de vida.
Trípoli (1998) analisou as representações de um estudo realizado e
identificou que o conhecimento é socialmente necessário, pois segundo Rangel
(apud TRÍPOLI, 1998, p.119), “a informação é a dimensão da representação
social que expressa a organização do conhecimento sobre o que é representado”, estando assim o conhecimento associado à cultura vivenciada diariamente. Pela necessidade do conhecimento, a maior parte dos adolescentes, ou seja,
43,7% da amostra, acredita que daqui a cinco anos estarão na Universidade,
12,5% disseram que gostariam de estar formados e 12,5% gostariam de estar
inseridos no mercado de trabalho.
Quando perguntados sobre o que é felicidade, 12,5% concordam que é
estar em paz consigo e com os outros. Os demais, com 6,25% cada, verbalizaram
que felicidade “é ser alegre”, “é ter cristo como Salvador”, “é ter Jesus no coração”,
“é fazer o que a gente gosta”, “é viver sempre na palavra de Deus”, “é estar bem com
os amigos, a família e e os estudos”. De maneira geral, percebe-se que, para os
adolescentes entrevistados a felicidade tem relação com um bem estar geral,
sendo notório o “estar bem” principalmente com Deus e a igreja.
3.3.1.7.4 Percepções dos adolescentes sobre juventude
Para Venturi e Abramo (2000, p.01), basicamente duas idéias costumam estar presentes nas concepções de juventude modernas: a primeira está
em considerá-la uma fase de passagem no ciclo da vida, situada entre o período
126
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
de dependência, que caracterizaria a infância, e a posterior autonomia adulta.
A segunda é a atribuição dos jovens a uma predisposição natural para a rebeldia, como se fossem portadores de uma essência revolucionária.
Os adolescentes entrevistados estão condizentes com a primeira concepção citada pelos autores acima, pois verbalizaram que ser jovem é uma etapa
da vida, citado por 18,75%. A definição de que é um momento de transformação
cercado de problemas, alegrias e desafios aparecem em segundo lugar, com 12,5%
nas percepções dos entrevistados. Para os adolescentes, ser jovem “é curtir a
vida e ter liberdade”; “é uma coisa boa”, conforme se observa nos relatos a seguir:
“É uma etapa, a gente tem etapas na vida, é uma etapa da vida” (ADOLESCENTE B 5,
13 anos); “É ser uma pessoa comum, com um pouco mais de dificuldade na vida
dela, na própria vida profissional, é uma idade que você começa a crescer” (ADOLESCENTE B 6, 16 anos); “Um momento de transformação, muitas cabeças estão
rodando, tem que tá sempre sabendo o que quer realmente, não se pode deixar
levar por qualquer vento” (ADOLESCENTE B 7, 15 anos).
No entanto, não há uma exclusão da segunda concepção, pois os adolescentes a veem como uma oportunidade de mudar o Brasil, e se preocupam
com o futuro do País, considerando o jovem importante, visto que, sem eles, as
universidades não existiriam, o que não tornaria possível mudar o mundo e
pensar no seu futuro e de sua família.
Uma sociedade difícil, hostil e inexorável, às vezes, diante da onda de
crescimento, lúcida e ativa que impõe aos jovens o fato de alguém que quer agir
sobre o mundo modificado sobre a ação de suas próprias transformações,
evidencia a distorção da juventude difícil. Essa tendência se caracteriza pela
necessidade do jovem de começar a fazer parte do mundo adulto, tendo então
as raízes de seus conflitos nas dificuldades em ingressar neste mundo (ABERASTURY & KNOBEL, 1981).
Dessa forma, na maneira de viver a juventude, escolher o que é certo ou
errado, preservar-se, namoro, consequências da atividade sexual e o diálogo
com os pais; os adolescentes acreditam que as maiores dificuldades enfrentadas na vivência são as drogas, citada por 37,5%. O mercado de trabalho aparece em segundo lugar, com 12,5%; influências dos amigos e diálogo com os pais
também aparecem com 12,5%, cada. A maioria não sabe informar quais são os
desafios dos jovens. Dos que verbalizaram, apontam as drogas, as doenças,
vencer na vida, continuar no caminho do bem, ter caráter, aceitar a palavra de
Deus e vencer as dificuldades. Ser jovem na Amazônia significa melhorar o
Estado e não destruir as coisas.
3.3.1.7.5 Elementos de identificação dos adolescentes da EBD
Os atores sociais, no caso os adolescentes da EBD, a que se faz referência neste relatório, são, pois, também, aqueles próprios das sociedades moder-
127
Universidade da Amazônia
nas marcadas pelo cenário da globalização (CASTELLS, 1999). Nesse sentido,
conforme observadas as falas dos adolescentes, o período da adolescência é
profundamente marcado por conflitos inerentes à própria faixa etária na busca
da construção de sua identidade pessoal e social. E é também um período marcado, ainda, por um forte processo da formação de grupos que se tornam espaços sociais de interação, aprendizagem e conflitos.
No que tange à ideia de identidade, Cardoso de Oliveira (1976) afirma
que pode ser entendida por meio de duas dimensões: pessoal e social, haja
vista que uma é o reflexo da outra. Assim sendo, Goffman (apud CARDOSO DE
OLIVEIRA, 1976, p.8) observou que “a identidade social e pessoal são parte, em
primeiro lugar, dos interesses e definições de outras pessoas em relação ao
indivíduo cuja identidade está em questão”.
Nesse sentido, partindo da bidimensionalidade da identidade, apontada por Cardoso de Oliveira (1976), o que implica um confronto do “eu” diante do
“outro”; entende-se, por meio da análise dos dados qualitativos, que os adolescentes, a partir do momento que se percebem diferentes de outros que não
pertencem à mesma religião, revelam refletir a identidade cultural religiosa da
PIB e como essa é repassada e assumida pelo grupo social da igreja. De certa
forma, isso reflete uma estreita relação com o que o autor chama de “identidade contrastiva”, que implica a afirmação do “eu” diante do “outro” no instante
em que o grupo se afirma por meio da diferenciação e da busca de afirmação
dessa diferença diante de outros grupos religiosos.
A partir dessas análises, são identificados principalmente três elementos identitários norteadores no processo de construção de identidade observado nos adolescentes da EBD: o espaço físico de cunho social religioso; a relação
familiar e o processo grupal que contribuem para o processo de formação de
identidade.
No que se refere ao espaço físico de cunho social religioso, acredita-se
que esse ambiente caracteriza-se como um lócus formador de identidade religioso significativo, em razão de a maior parte dos adolescentes ter nascido em
um lar batista, onde a relação familiar assume um importante papel na construção da identidade e de socialização primária (BEGER, 2003; BOCK, 1995),
apresentando uma história de vida em comum, em que todos pertencem à mesma religião, prezam pelos mesmos valores morais, éticos e religiosos.
Por conseguinte, acredita-se que o processo de construção de identidade na adolescência é ao mesmo tempo pessoal e social, conforme apontou
Cardoso de Oliveira (1976), pois ambos expressam o processo de tomada de
decisão do adolescente através da interação com o grupo e o meio social em
que está inserido.
128
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
3.3.2 Um Breve Olhar Acerca da Construção de Identidade de Jovens Católicos da
Casa da Juventude / Caju
3.3.2.1 A Casa da Juventude / Caju
Na busca de compreender e analisar a formação de identidade em meio
à diversidade cultural a partir de grupos de jovens, selecionou-se o universo
centro urbano, visto que a vida urbana traz em si elementos que permitem
compreender a formação de identidade. Um aspecto fundamental que evidencia
possíveis princípios geradores de identidades no espaço urbano são as redes
de relações sociais, o processo grupal, a religiosidade entre outros.
Dessa forma, a pesquisa toma como referência, no que diz respeito ao
espaço urbano, o bairro do Marco, também conhecido, como Marco da Légua22,
localizado na Zona Norte de Belém, tendo sua área envolvida pela poligonal
com início na interseção da Travessa Curuzu com a Avenida Visconde de Inhaúma até a Avenida Dr. Freitas, dobrando por essa e seguindo até a Avenida João
Paulo II, a partir da qual recebe o nome de Avenida Perimetral. O bairro do
Marco possui, atualmente, uma área de 4.892.405,297m2, com uma população
com aproximadamente de 63.823 habitantes (IBGE, 2000).
Estão registrados, nas esquinas de cada artéria do bairro do Marco, os
nomes das principais batalhas e dos heróis da guerra do Paraguai, quer pelas
grandes figuras militantes - Duque de Caxias, Almirante Barroso, Marquês de
Herval, Visconde de Inhaúma –, quer pelas batalhas decisivas - Itororó, Lomas,
Angustura, Mercedes, Curuzu, Humaitá, Vileta, Chaco. Algumas dessas denominações já foram substituídas com o passar do tempo. Assim, torna-se necessário fazer uma breve contextualização do referido bairro.
Segundo Cruz (1970), no dia 29 de março de 1628, a Câmara de Belém
tomou posse da sua primeira légua patrimonial:
O Governador e Capitão-General do Estado do Maranhão e
Grão-Pará, Francisco Coelho de Carvalho, em nome de sua
Majestade o Rei de Portugal, foi que concedeu, por carta de
doação e sesmaria, essa légua de terra à câmara Municipal
de Belém (CRUZ, 1970, p. 35).
Mas só no século XVIII se procedeu à medição e fez-se a demarcação
respectiva. Fincou-se então, no lugar, um marco de madeira. Atualmente, observa-se que o tempo incumbiu-se de “encobrir” o monumento que marcou a posse
do Marco da légua, porém a tradição fixou o local onde se realizou a cerimônia.
22[
Marco da Légua significa a implantação do marco da posse da primeira légua patrimonial de Belém. Assinalava o
término da extensão da propriedade da terra que lhe fora mandada dar, por vontade Régia (CRUZ, 1970, p. 31).
129
Universidade da Amazônia
Dessa forma, é de extrema relevância destacar o entorno do objeto de
estudo deste relatório, ou seja, o bairro onde está localizada a Casa da Juventude, visto que possui uma conotação importante histórica, bem como uma abordagem descritiva acerca do contexto que abriga a CAJU.
3.3.2.2 O entorno da Caju
Em decorrência da Casa da Juventude estar em reforma, a pesquisa de
campo foi realizada na Igreja de Santa Cruz, localizada na Avenida Almirante
Barroso, no bairro do Marco. Dentro do traçado urbanístico da cidade, esse
bairro é considerado central, com características comerciais e residenciais, na
sua maioria composto por casarões e algumas construções verticais.
Quanto à Avenida em que está localizada a Igreja de Santa Cruz é considerada o maior corredor de tráfego de veículos de Belém. Por ela transitam diariamente centenas de veículos e a maioria das linhas de ônibus urbanos, interurbanos e interestaduais, e possui, também, uma grande ciclovia que interliga o centro urbano da cidade aos bairros mais afastados e municípios vizinhos, além de
ser o corredor de entrada e saída da cidade, dando acesso à rodovia BR-316.
No entorno da Igreja existem pequenos comércios, escolas, hospitais,
laboratório, bancos, farmácias, postos de gasolina, escritórios, departamento
de Polícia Federal, Unidade de Receita Federal, cartório, entre outros. Nas proximidades, também está localizado o Jardim Botânico Bosque Rodrigues Alves,
com 150 mil m2 de área verde, constituindo-se como um resquício de floresta
primária, em meio ao espaço urbano da cidade de Belém, além de ser um
espaço que abriga espécies da fauna e flora amazônica, administrado pela
Prefeitura Municipal de Belém por intermédio da Secretaria Municipal de Meio
Ambiente – SEMMA, o Bosque “representa um importante logradouro público
com um legado de mais de dois séculos” (CONTENTE 2004).
3.3.2.3 Breve Histórico da Casa da Juventude – CAJU23
Segundo o documento “Ação no Mundo”24 (1995) da Casa da Juventude,
a Comunidade é uma entidade ligada à Igreja Católica, fundada em 02 de Fevereiro de 1959, pelo Padre Raul Tavares de Souza, cujo objetivo, a princípio, era
intervir na realidade sofrida e desigual, evidente na sociedade paraense.
De acordo com o padre Raul, um dos seus principais objetivos, na época da fundação da comunidade, “[...] era a preocupação dos pais com que
chamavam de juventude transviada, que nada mais era do que aquilo que há
hoje em dia com outros jovens [...]” (EDUCADOR). Pensou-se, então, em ajudar
23
24
A Casa da Juventude – CAJU localiza-se na Avenida Almirante Barroso nº 883, situada no Bairro do Marco.
Ação no Mundo – “é principalmente uma abertura para uma melhor identificação de nossa vocação dentro da igreja
e de uma garantia de que viveremos com verdade o chamado de nossa comunidade”. Documento estudado e
aprovado no II Concílio da Casa da Juventude (1995).
130
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
esses pais, bem como seus filhos, abrindo um espaço onde eles pudessem se
“encontrar” à medida que lhes eram oferecidos trabalhos que desenvolvessem
o espírito de liderança nessa juventude, com o intuito de enquadrá-los em padrões e normas sociais.
Dessa forma, Padre Raul iniciou seu trabalho evangelizador com a juventude da classe estudantil, em sua maioria formada por jovens oriundos do
interior do Estado do Pará que migravam para a capital para estudar, criando
um espaço para abrigá-los e evangelizá-los, com a atuação, inicialmente, de um
grupo de oito pessoas advindo dos grêmios estudantis de Belém. Ao atuar em
colégios secundaristas, o grupo de jovens orientados pelo Padre Raul criou
diversos projetos atrativos, tais como: feiras de ciências; festivais de músicas;
simpósios sobre a Amazônia; simpósios de conscientização de realidades regionais; semanas estudantis; exposição de artes, entre outros.
Entretanto, de acordo com o padre, o objetivo da casa não era abrigar
pessoas, ao contrário, era um centro de encontro. Contudo, nessa mesma época
os internatos de Belém fecharam, e por um pedido, o padre acabou aceitando
alguns jovens interioranos, que com o encerramento dos internatos não tinham
onde ficar. Enquanto isso, os jovens externos, que participavam da Juventude
estudantil católica – JEC, também se reuniam no local, que antes era localizado
na Rua São Jerônimo, atual Avenida Governador José Malcher.
LEGENDA
 Casa da Juventude – CAJU
na Avenida Almirante Barroso.
FIGURA 10: Localização da Casa da Juventude - CAJU
Fonte: CODEM / 2004
131
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Segundo Souza (2002), a igreja Católica no Brasil, ao longo da primeira
metade do século XX, dedicava seus trabalhos com jovens quase que exclusivamente aos colégios onde estudavam os filhos das classes média e alta, exercendo
em nome do Estado, a função supletiva de qualificar as elites dirigentes do país.
A partir dos anos 60, por meio da Ação Católica Especializada - ACE, os jovens
eram despertados para assumir um compromisso de trabalho social no seu meio.
De acordo com o histórico da Casa, a CAJU alcançou grande popularidade na juventude estudantil, atuando de maneira intensa na capital por intermédio dos grêmios estudantis. Com uma forte ligação com a Juventude Estudantil Católica – JEC/Pará, a CAJU definira como objetivo maior, na época, a formação de lideranças cristãs atuantes em todos os setores da sociedade.
Ainda com base no documento, por volta de 1966, em virtude da repressão política e do desentendimento de um lado entre as equipes dirigentes e de
outro a hierarquia católica, essa experiência chegava ao fim. Na época, a Casa da
Juventude atuava nas dimensões: religiosa-social, que visava ao acolhimento de
pessoas desabrigadas e dos jovens oriundos dos interiores; religiosa-política,
estimulada pelo turbulento contexto da sociedade vigente, procurando formar
lideranças jovens com voz ativa; e religiosa-cultural, voltada para a atuação dos
grêmios estudantis, com estímulo às artes, ao conhecimento e à cultura.
Nessa época, a CAJU encontrava-se em plena atividade, espelhando nas
suas ações “o grito seco da juventude oprimida”, que exigia seus direitos e
liberdade de expressão. Nesse instante, a comunidade foi marcada pela atuação política do Estado e sofreu um golpe: o seu fundador e orientador espiritual
foi deportado para o Chile devido ao contexto ditatorial que a sociedade vivia
na época Entretanto, no seu retorno, Padre Raul congregou novos jovens, retornou as atividades da Casa, desta feita com uma dimensão nova, que classificou
de Religiosa – Cultural – Social (HISTÓRICO DA CASA, 2002).
O Padre trazia um lema consigo: “para que a juventude evangelize a juventude”. A partir de 1988, a CAJU passou a desenvolver diversos trabalhos de evangelização junto à comunidade de Belém. No decorrer do desenvolvimento desses trabalhos,
integrou novos membros, dessa vez mais maduros e comprometidos com a obra,
servindo com seriedade a Igreja. A partir daí, estabeleceu-se uma nova estrutura
organizacional e catequética, com o intuito de melhorar o desenvolvimento da atividade evangelizadora e social da Comunidade (AÇÃO NO MUNDO, 1995).
O mesmo documento relata que, para compor essa nova estrutura, a
CAJU, desde então, passou a ser formada por “membros compromissados” 25,
que assumem um compromisso anual de serviço e formação com a Casa, e
também, de pessoas “não compromissadas”, mas que servem ou recebem formação de maneira não obrigatória na Casa. Conforme os dados coletados du25
Para que um jovem da Casa da Juventude torne-se um membro compromissado é necessário que ele sirva a Casa
espontaneamente durante um ano, prestando serviço à comunidade e participando das formações catequéticas
da CAJU.
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ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
rante a pesquisa de campo (2004), a CAJU conta com aproximadamente 165
membros compromissados e 150 não compromissados.
Segundo os jovens do grupo de liturgia, para servir a Casa, apesar do
trabalho árduo, todos os seus membros, ou seja, os recursos humanos da CAJU,
servem gratuitamente, sem salário ou benefícios, a exemplo do próprio Cristo. Ao
longo de sua trajetória, como entidade sem fins lucrativos, a CAJU vem se mantendo, primordialmente, por intermédio dos seguintes recursos financeiros: dízimo
de membros compromissados e membros da comunidade, doações de amigos e
incentivadores; patrocínio de empresas para os eventos, pedágios; venda de alimentos, rifas; promoções; vendas de artigos religiosos; entre outros.
Apesar das diversas mudanças, o objetivo maior da CAJU permaneceu:
[...] anunciar Jesus Cristo e seus ensinamentos a todos os
homens é denunciar tudo o que vai de encontro ao plano
divino de paz, igualdade e amor, interferindo, modificando
e transformando a sociedade de hoje, em uma sociedade
mais solidária e justa (AÇÃO NO MUNDO, 1995).
Nos seus 45 anos (2004) de existência, percebe-se, nas falas dos entrevistados, jovens e educadores, que as obras e ações da Casa beneficiaram, direta
e indiretamente, milhares de pessoas e famílias da comunidade paraense.
3.3.2.4 Sua Estrutura
De acordo com os jovens e os coordenadores entrevistados, a estrutura
da Casa da Juventude está dividida em Organizacional e Catequética.
A Estrutura Organizacional é subdividida em Coordenações e Conselho.
Há a coordenação geral, com um coordenador, um vice-coordenador, tesouraria e secretaria e sub-coordenações (Administração; Artes e Dança; Assistência
Social; Comunicação; Dizímo; Encontros; Fest Cristo; Formação; Infraestrutura;
Intercessão; Lanchonete; Liturgia; Livraria; Manutenção e Música).
A Estrutura Catequética é subdividida, de acordo com idade e grau de
responsabilidade perante a Casa, em 08 (oito) grupos de formação e catequese:
- Cajuzinho: grupo iniciante de crianças e adolescentes que recebem formação, servindo nos grupos da Casa;
- Aspirantes: grupo de jovens que ingressam na Casa para execução das atividades;
- Estagiários: grupo intermediário, entre aspirantes e militante, com maior responsabilidade de serviços e formação.
- Militantes: membros que passaram por aspirantes e estagiários, responsáveis pelo planejamento, decisão e coordenação das atividades da Casa;
133
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- Pais: (catequese adulto) membros pais, casados ou não, recebem formação
doutrinal, humana e familiar, bem como executam algumas atividades;
- Grupos de Crisma (catequese crismal);
- Primeira Eucaristia;
- Grupos de Formação: abertos à comunidade para os interessados em assumir compromisso com a Casa.
Percebe-se, portanto, que a Casa da Juventude possui uma estrutura que
abriga todas as pessoas, independentemente de idade, pois se observa que há
uma preparação catequética para as crianças, que podem inserir-se no “cajuzinho”. Assim, verifica-se que a maioria das crianças que se inserem na CAJU,
geralmente, são influenciadas por uma herança familiar católica, para que, futuramente, possam desenvolver atividades dentro de uma vida voltada para a religião católica e, assim, se inserirem ao grupo dos militantes, por exemplo.
3.3.2.5 A Justificativa
Segundo o documento Ação no Mundo (1995), as atividades evangelizadoras e assistenciais da CAJU, anualmente, beneficiam cerca de dez mil pessoas. Essas atividades podem ser classificadas em religiosas, catequéticas, evangelizadoras e sociais.
As atividades catequéticas são um dos pontos fortes da CAJU, com a
promoção de atividades de catequese doutrinal, espiritual, humana e social de
membros e não-membros da comunidade. Quanto às atividades evangelizadoras, são desenvolvidas de forma intensa e realizadas anualmente com os seguintes eventos: Páscoa Jovem, Renascer e Fest Cristo.
As atividades de assistência social tornam-se uma das maiores prioridades da CAJU, agindo e interferindo na realidade social local. Várias atividades são realizadas, com o objetivo de profissionalizar e dar assistência material e espiritual às diversas famílias e pessoas de Belém. Realiza-se um grande
evento anual chamado Ação Social, no qual se presta assistência médica, orientação espiritual, faz-se doação de cestas básicas, doação de sangue; ministram-se palestras; entre outros.
3.3.2.6 Os objetivos
O documento Ação no mundo (1995) destaca também, entre outros, que
a CAJU objetiva a realização da reforma e a ampliação de sua Sede; a criação e
viabilização de novas atividades socioassistenciais, profissionalizantes e evangelizadoras. Diante do intenso trabalho evangelizador e social realizado pela
CAJU, com a preocupação acerca da situação desumana de marginalização,
miséria e desigualdade na sociedade, tem-se por objetivo também a realização
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ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
de atividades profissionalizantes, para promoção de melhores condições de
vida dos menos favorecidos.
Outros projetos são almejados como: alfabetização de jovens e adultos;
cursos de informática; cursos de línguas estrangeiras; oficinas de trabalhos manuais; oficina de reciclagem de papel; atividades artísticas; entre outras. Além
desses projetos, os membros da CAJU pensam em investir na ampliação de outros
já existentes para que alcancem, cada vez mais um número maior de pessoas,
resgatando os conceitos de dignidade e possibilidade de uma vida melhor.
3.3.2.7 A Filosofia
Por meio do documento Ação no Mundo (1995), a comunidade Casa da
Juventude procura definir suas práticas e sua espiritualidade na sociedade de
Belém. Para isso, organiza-se com base no “Método”, responsável pela união da
reflexão à ação, e que desenvolve a consciência crítica com vistas à ação transformadora, a partir do próprio viver. Segundo o grupo, é a metodologia do verjulgar-agir-avaliar-celebrar, um método que tem como pressuposto inicial a observação da realidade seguida de uma reflexão sobre ela mesma, para por fim,
partir para uma ação mais consciente e eficiente no mundo, avaliando e festejando os resultados alcançados. Os cinco momentos do método são distintos,
mas não separados. Para os membros da CAJU, é uma revisão de vida, que visa
à transformação radical das pessoas e da sociedade, ou seja, a transformação
pessoal e coletiva. Dessa forma, torna-se necessário explicitar o significado de
cada momento do método para uma melhor compreensão.
O “ver” significa olhar a realidade que se conhece pelos fatos, nos lugares aonde vamos ¯ família, escola, trabalho e outros, apreciando suas causas e
consequências por meio das interrogações como: “Por que aconteceu?”, “Quais
as pessoas envolvidas?”, “Quais as consequências?”. Pode ser realizado em grupos de tal modo a permitir um melhor entendimento sobre o fato. O “julgar” é
analisar a realidade, segundo a Casa da Juventude, à luz da palavra de Cristo. O
“agir”, visualizado no ver e analisado no julgar, implica dois passos: o planejamento e a execução; sendo que, ao planejar, os passos da execução são colocados no papel, é o projeto; e a execução é a prática em si, o fazer, o concretizar. O
“avaliar” é rever os fatos acontecidos com o objetivo de corrigir os erros e aprimorar os acertos. O “celebrar”, segundo a CAJU, é o gesto de agradecer a Deus pela
mudança praticada com a observação, o julgar, o agir e a avaliação.
Assim, o compromisso dos membros da CAJU consiste na vivência livre
e espontânea do seguimento Cristão, já que é uma comunidade católica. Os
princípios básicos da comunidade são: vocação, espiritualidade, obediência e
serviço. A vocação é a escolha do homem pela vida pautada nos valores cristãos. A espiritualidade consiste na crença na ação do Espírito Santo, na transformação ético-moral do homem. A obediência refere-se à observância das pro-
135
Universidade da Amazônia
postas de mudança espiritual do homem. Por fim, o Serviço configura-se como a
prática da moral cristã na sociedade.
O jovem compromissado com a CAJU segue as seguintes práticas como
filosofia de vida: participação na cerimônia da missa e da eucaristia; oração
pessoal e diária; leitura da bíblia; oração diária do terço; reflexão diária da
vida; busca frequente do sacramento da confissão; caridade constante.
Tais atividades perpetuam a vida dos jovens em todos os seus momentos, seja no trabalho, na universidade ou em casa. Segundo eles, nos momentos
difíceis do cotidiano, costumam orar, refletir e fazer leitura bíblica, sendo isso
uma característica diferencial destes jovens, haja vista que tais atividades
refletem nos seus testemunhos de vida, nos seus comportamentos, como se
pode observar no relato abaixo:
[...] é tentar ser diferente na escola, no trabalho, eu coloco
isso no meu dia-a-dia, por exemplo, quantas vezes já
aconteceram coisas no trabalho que tivessem me deixado
chateada, mais se fosse em outra época com certeza eu
tinha discutido, hoje eu tento me calar, rezo até uma Ave
Maria para ficar mais calma. Hoje a gente tenta fazer coisas
que antes não fazíamos [...] porque apesar da gente viver
em comunidade, da gente conhecer Deus, nós somos
pecadores [...] as pessoas de fora te cobram mais, por que
ai de você se fizer ou falar alguma coisa de errado as
pessoas logo falam “ isso é porque ela vive na Caju”. E isso
é exercício para nós” (GRUPO FOCAL, JOVEM DO SEXO
FEMININO).
É importante acrescentar que, para os entrevistados, o Jovem Católico
precisa assumir o compromisso com Deus, e não deixar ser manipulado por
nada nem por ninguém, isto é, assumi-lo sem receios e complexos. E mais, a
relação deles com Deus, estar na Igreja e defender valores e princípios, é a coisa
mais importante em suas vidas.
4.3.2.8 O Grupo de Liturgia da Casa da Juventude
De acordo com os relatos colhidos com a coordenação do grupo de
Liturgia, acredita-se que foi criado em 1995, com o objetivo de mostrar aos
jovens a importância da Liturgia da Igreja, suas origens, sua história.
Segundo o documento “Ação no Mundo”, “a Liturgia é o ápice pelo qual
tende a atividade da Igreja, e, ao mesmo tempo, a fonte de onde emana a sua
força” (1995, p.16). Nesse sentido, o fundador da CAJU, o Padre Raul Tavares,
acrescenta que a formação do grupo objetiva organizar a missa, a primeira
comunhão, a crisma e a parte religiosa.
136
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
Desde a sua fundação até os dias atuais, conforme os entrevistados,
ocorreram diversas mudanças no grupo, dentre as quais, pode-se apontar a
mudança de coordenação e de membros. Sendo assim, o perfil dos integrantes
se modifica à medida que novos membros aderem ao grupo, tornando-se ora
mais dinâmico, ora mais orante; algumas atividades mudam, mas a essência
do grupo continua a mesma, com a busca de uma maior vivência litúrgica.
Quanto às atividades desenvolvidas pelo grupo, algumas permanecem, como a
leitura bíblica, o estudo do catecismo, o estudo das partes das missas, o encontro de oração; tudo com o intuito de fazer com que os jovens conheçam a história da igreja e a missa parte por parte.
Segundo Milner (1969, p. 801), o culto da Igreja Católica, a que se dá o
nome de Liturgia, foi definido na Constituição da Sacra Liturgia, promulgada
pelo Concílio Vaticano II, como:
[...] o exercício do munos sacerdotal de Jesus Cristo, no
qual, mediante sinais sensíveis, é significativa e, de modo
peculiar a cada sinal, realizada a santificação do homem;
e é exercido o culto integral pelo Corpo de Cristo, Cabeça e
membros (MILNER, 1969).
Desde a sua fundação, a motivação dos jovens em relação ao grupo de
liturgia era o fato de se descobrir algo novo. A sua importância reside no fato de
despertar o interesse do jovem pela oração e por uma vida voltada para Deus.
Sobre isso, o Padre Raul Tavares (EDUCADOR, 2004), acrescenta que:
O carisma nosso é trabalhar com a juventude onde quer
que estejamos, certo? Temos um lema assim, a “Alegria da
Ressurreição de Jesus”. Quer dizer, os jovens podem ser
tristes, têm que ser jovens alegres, a missa, portanto, tem
que ser alegre como Cristo nos deu alegria de ressuscitar,
garantir pra nós a ressurreição (EDUCADOR, 2004).
Os membros compromissados com a CAJU expressam que sempre buscam toda sua espiritualidade na vivência ativa de todos os sacramentos, principalmente na Eucaristia, com base de confirmação e renovação da vocação a
que foram chamados.
3.3.2.8.1 Perfil social do grupo de liturgia
Os dados do perfil aqui apresentados referem-se à análise de 12 formulários aplicados aos jovens que participam do Grupo de Liturgia, com os seguintes dados, de acordo com algumas variáveis:
137
Universidade da Amazônia
3.3.2.8.2 Gênero, idade e cor
Do grupo de jovens que responderam os formulários, 75% são do sexo
feminino, 25% do sexo masculino. Dessa forma, percebe-se que o sexo feminino
predomina no grupo pesquisado, que segundo alguns jovens entrevistados,
esse fato ocorre porque as mulheres criam laços mais profundos e mais comprometidos com a religião ou, ainda, porque são vistas como mais designadas
e mais preparadas, conforme se observa: “[...] é porque os homens vêm a algumas reuniões depois somem e não vêm mais, já as mulheres criam laços e
acabam ficando [...]” (GRUPO FOCAL, 2004).
Diante dessa perspectiva. pode-se afirmar que gênero (MORAES, 2001)
é um conceito que se refere a um sistema de papéis e de relações entre mulheres
e homens, os quais não são determinados pela biologia, mas pelo contexto
social, político e econômico. Assim, no contexto do grupo de liturgia anteriormente, podia se identificar uma divisão de tarefas por gêneros, em que os meninos carregavam as mesas, evidenciando a força do sexo masculino, e as meninas demonstravam sua sensibilidade ao arrumarem o altar. No entanto, foi
relatado que na atualidade tais divisões estão mudando devido às peculiaridades de cada sujeito e habilidades pessoais.
Quando perguntados sobre o limite de idade para inserção no grupo, os
jovens responderam que era uma questão de identificação, pois, por exemplo,
as pessoas mais velhas inseriam-se no grupo de pais, ao passo que os mais
jovens, muitas vezes, inserem-se no cajuzinho. Diante disso, observa-se uma
diversidade na faixa etária dos jovens do grupo de liturgia: 25% têm 20 anos;
26% têm 22 anos; 17% têm 21 anos; 8% têm 24 anos; 8% têm 27 anos; 8% têm 28
anos e 8% têm 19 anos. Os dados revelam, ainda, que todos os jovens são
solteiros e não possuem filhos.
Quanto à cor (autodesignação), os dados revelam que 50% se consideram morenos; 17%, brancos; 17%, pardos; 8% se consideram negros, e 8%, indígenas. Desse modo, observa-se que a metade dos jovens se consideram morenos,
cor tal que é autodesignada por eles. Entretanto, pode se observar ainda que há
uma diversidade quanto à cor designada por eles com relação aos outros.
Segundo Munanga (1999):
A mestiçagem, do ponto de vista populacionista, é um
fenômeno universal da qual as populações ou conjuntos de
populações só escapam por períodos limitados. É concebida
como uma troca ou um fluxo de genes de intensidade e
duração variáveis entre populações mais ou menos
contrastadas biologicamente (MUNANGA, 1999, p.17).
Dessa forma, a autodesignação como morenos refere-se a uma mestiçagem entre brancos, negros e índios, basicamente do caboclo da Amazônia.
138
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
3.3.2.8.3 Grau de escolaridade
Os dados revelam que 58% dos jovens estão no ensino superior incompleto; 8% no ensino médio incompleto, também 8% no ensino médio completo, e
26% no superior completo. É importante acrescentar que, 17% desses últimos,
fazem pós-graduação.
Logo, verifica-se maior concentração de jovens no ensino superior. Vale
ressaltar que os entrevistados são privilegiados por estarem no referido grau
de escolaridade. Entre outros fatores, a posição social (classe média alta) de
grande parte desses jovens contribui para melhor formação profissional no
sentido de que o acesso aos recursos adquiridos abre caminhos para o sucesso
profissional, já que muitos possuem subsistência para arcar com os custos de
um curso universitário; além disso, alguns dos jovens entrevistados cursam
profissões elitizadas, tais como: Direito e Odontologia.
3.3.2.8.4 Principais meios de comunicação, transporte e lazer
A análise dos formulários revelou que 33% dos jovens utilizam a televisão como principal meio de comunicação, seguido da Internet com 25%, telefone com 17%, rádio com 17% e revista com 8%.
Observa-se, então, que os jovens se sentem atraídos pela televisão por
considerarem-na como bom “passa-tempo”, e também, de certa forma, repassar
informações sobre o mundo inteiro. Acrescenta-se a isso o fato de os grandes
meios de comunicação, especialmente a televisão, trazerem para suas produções os desejos, o imaginário da população, o que permite uma aliança estreita
entre o sistema de meios e os seus consumidores, garantindo uma audiência de
milhões de pessoas. Por isso, ainda é um dos meios de comunicação mais
acessados, não só por esses jovens, mas por grande parte da classe popular.
Na era da globalização, a Internet vem ganhado espaço, principalmente
daqueles que têm condições financeiras para a propriedade de um computador
ou acesso à Internet no trabalho, apontando mais uma vez a classe econômica
dos jovens entrevistados. Observa-se ainda, resultado semelhante nos percentuais, entre os itens que correspondem à Internet, telefone e rádio.
Ao que se refere ao meio de locomoção utilizado pelos jovens, a maioria
deles (58%) utiliza-se de transportes coletivos; entretanto uma parcela também
significativa utiliza como meio de locomoção carro próprio e / ou da família (42%).
Em relação a lazer, constata-se que 34% gostam de se encontrar com
amigos, como também 34% gostam de ir ao cinema e outros 8%, cada, gostam de
ouvir música, dançar, praticar esportes e todas as outras opções de lazer.
Os dados demonstram que os momentos de lazer como cinema e conversa com amigos fazem parte da preferência da maioria dos entrevistados.
Verifica-se ainda que tais hábitos fazem parte de um contexto urbano, no qual
os jovens estão inseridos.
139
Universidade da Amazônia
3.3.2.8.5 Família
Detectou-se que a composição familiar dos membros pesquisados é
nuclear, ou seja, uma composição familiar de formação entre pais e filhos,
sobre uma média de 50% do grupo pesquisado, seguido de outras variações
como: 50% dos integrantes têm sua família composta por 1 a 3 pessoas, o que
mostra uma composição familiar pequena, e 34% possui a família composta
por 3 a 5 pessoas, seguidos de 8%, composta por 1 a 7 pessoas, e também de 8%,
composta acima de 7 pessoas. Quanto à residência, 83% moram com os pais e
17% com parentes. A maior parte dos jovens, 58%, tem apenas um irmão, seguido de 34% que possuem dois irmãos e 8% que possuem três irmãos.
Vale ressaltar que a maioria dos jovens reside com os pais, mesmo que
alguns já tenham formações profissionais, sendo isso uma realidade atual da
juventude contemporânea que está retardando a saída de casa.
3.3.2.8.6 Lugar de moradia
Com relação aos bairros em que os jovens residem, os dados mostram
que 43% moram próximos à sede da CAJU, no bairro do Marco; 8% no Guamá, 8%
no Mangueirão, 8% na Marambaia, 8% no bairro de Nazaré, 17% em São Brás e
8% no Umarizal.
Observa-se que uma parcela significante dos jovens reside em bairros
centrais urbanos, assim os limites de atuação dessa juventude no espaço em
que vivem (a casa, o bairro, a cidade, o país) decorrem da posição que eles
ocupam, das possibilidades que neles são oferecidas, da maior ou menor mobilidade das estruturas sociais.
3.3.2.8.7 Religião
Com relação à religião, os dados indicam que todos os jovens são
católicos praticantes e frequentam a Casa da Juventude. Detectou-se, ainda
durante a pesquisa, que 83% dos jovens entrevistados já participaram de outros grupos na CAJU, tais como: grupo de atividades religiosas e grupo de assistência social. No entanto, 17% dos jovens nunca participaram antes de nenhum
outro grupo.
No que se refere à participação dos jovens nos diversos grupos da
Casa, observa-se, portanto, a dedicação deles com a religião e com a questão
social, que, em alguns casos, já vem de uma história familiar católica, ou seja,
tais jovens têm seus pais católicos envolvidos com a igreja e até inseridos na
CAJU, como se pode perceber no relato a seguir:
140
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
[...] minha família graças a Deus está toda aqui [...] tenho
uma irmã que já foi coordenadora desse grupo, tenho um
irmão que está de licença da casa mais ele também faz
parte deste grupo, meu sobrinho também foi daqui desse
grupo só que agora ele está em outro e minha mãe que
também está dentro de casa (GRUPO FOCAL, 2004).
Vale ressaltar que atualmente 58% dos jovens entrevistados continuam
participando de outros grupos, tanto dentro como fora da CAJU, tais como: grupo
de assistência social, grupo de formação, captação de recursos da CAJU e Centros
Acadêmicos da Unama. No entanto, 42% não participam de nenhum outro grupo a
não ser o de Liturgia. Chama a atenção o fato de uma quantidade considerável de
jovens que, além de desempenhar suas atividades no grupo de liturgia, apresentam-se envolvidos em outros grupos. Isso demonstra o interesse desses jovens
em compreender/reconhecer os espaços coletivos, interagindo e trocando experiências com as pessoas que não fazem parte do seu grupo habitual de convivência.
Os dados também revelam que 42% dos jovens chegaram ao grupo sozinho, 25% por intermédio de amigos, 17% por meio de familiares/parentes, 8% por
intermédio do fundador, Padre Raul e 8% por meio de namorada. Percebe-se aqui
que, apesar de os jovens terem sua história de vida e familiar voltadas para a
religião católica, a família não é a principal causa de sua inserção no grupo;
porém esse sentimento de motivação para a inserção na Casa da Juventude, mais
especificamente ao grupo de Liturgia, pode ter sido gerado desde a infância pelas
figuras de referências, os pais, e que hoje se manifesta nesses jovens.
Quanto à permanência dos jovens no grupo de Liturgia, os dados apontam que 33% deles estão no grupo há um ano, seguido de 17% que frequentamno há dois anos, 17% com três anos, 8% participam do grupo há cerca de cinco
anos e 25% entre dois meses a onze meses.
Observa-se que alguns desses jovens estão inseridos somente no grupo
de liturgia, e isso os leva à dedicação pelo trabalho desenvolvido no grupo.
Percebe-se, também, que grande parte dos jovens que responderam aos formulários está engajado no grupo há pelo menos um ano. Dessa forma, acredita-se
que o serviço da Liturgia seja realizado com seriedade de tais jovens, cujo
serviço litúrgico, bem como as atividades de cunho assistencial, são vistos com
responsabilidade, até mesmo porque um dos ensinamentos passados aos jovens tem como fundamento o compromisso.
3.3.2.8.8 Entrevistas
Com 9 (nove) jovens do grupo de liturgia da Casa da Juventude realizouse entrevistas a fim de obter um perfil mais aprofundado.
A partir da análise das entrevistas realizadas com os jovens do Grupo
de Liturgia, constatou-se com relação ao sexo que 77.8% pertencem ao sexo
141
Universidade da Amazônia
feminino e 22, 2% são do sexo masculino. Com relação à idade, percebeu-se que
66,6% têm idade entre 20 e 22 anos.
Quanto ao grau de escolaridade, constata-se que todos estão na Universidade. Assim 22,2% cursam Direito e outros 11,1% cada, cursam Turismo,
Administração de Agro-Negócio, Farmácia, Veterinária. Outros 33,4% já são
formados e fazem pós-graduação.
Percebe-se que os jovens entrevistados fazem parte de uma pequena
parcela da população brasileira que tem acesso ao ensino superior, haja vista,
que no Brasil o acesso às universidades ainda é para uma minoria, visto que,
segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira - INEP (2003), somente 9% dos jovens de 18 a 24 anos estão nas universidades, sendo que, no Brasil, existem 1.391 instituições de ensino superior e
dessas, somente 183 são públicas, limitando muito o acesso de jovens com
poucas condições financeiras.
No que se refere à naturalidade dos jovens, constata-se que 77,7% são
naturais de Belém - Pa; e com resultado semelhante, 11,1% cada, são naturais de
Altamira e Castanhal. Vale ressaltar que, quanto ao local de residência, os dados
mostram que uma parte considerável desses jovens reside próxima a CAJU. Assim, 44,4% residem no bairro do Marco; 22,2% em São Brás; e 11,1%, cada, residem nos bairros do Mangueirão; Guamá e Umarizal. É importante acrescentar
que o motivo de os jovens frequentarem a CAJU não se dá pela proximidade ou
localização no bairro onde uma parcela significativa reside, o que tornaria mais
fácil o acesso à comunidade, mas sim, segundo relato dos próprios jovens, em
virtude da CAJU ter uma forma peculiar de trabalho religioso e social, pois 55,5%
moram em bairros distintos e frequentam a casa assiduamente.
3.3.2.8.9 Cotidiano e preferências
No que se refere ao dia a dia, 55,6% dos jovens verbalizaram que frequentam a faculdade, seguido de 22,2% que costumam estudar em casa, como
também 22,2% participam de atividades na Casa da Juventude. Os jovens disseram ainda que no dia-a-dia fazem ginásticas, escutam música, leem livros,
fazem curso de pintura e estágio, com 11,1% cada.
Quando perguntado sobre o que costumam fazer quando não estão na
universidade ou trabalhando, 22,2% revelaram que gostam de ficar em casa,
22,2% de sair à noite e outros 22,2% de ir para Casa da Juventude. E 11,1%, cada,
apontaram que frequentam a academia, saem com os amigos, vão ao cinema,
assistem DVD, acessam à Internet, leem e vão ao shopping.
No que se refere aos eventos de que costumam participar, 66,6% dos
jovens entrevistados disseram que gostam de ir a barezinhos, 55,5% ao cinema,
44,4% de ir para a Casa da Juventude, 33,3% para a pizzaria, 33,3% para shows,
22,2% shopping, e 22,2% a Casa das Onze Janelas. Os jovens entrevistados
142
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
verbalizaram que nos tempos livres costumam ficar com os amigos, com a
família, ouvir música, acessar à Internet, ler, assistir a filme.
Quando perguntados acerca dos locais da cidade de Belém que costumam frequentar, os jovens entrevistados verbalizaram que gostam de frequentar bares e boates. Quando frequentam esses locais, os jovens entrevistados
costumam gastar entre U$ 3,45 e U$ 20,69 por local frequentado26. O critério
utilizado para a escolha desses lugares é porque são frequentados pelos amigos em comum, citado por 33,3% dos entrevistados, seguidos de 22,2% que
frequentam porque os ambientes e as músicas são agradáveis, como também
porque tais ambientes oferecem música ao vivo, espaço para dançar e conversar, além da segurança.
Com relação aos meios de comunicação, 66,6% dos jovens verbalizaram
que utilizam a Internet, em segundo lugar, com 55,5% a televisão, com 44,4%,
jornal, com 22,2% , cada, rádio, telefone e revista, além de 11,1% que utilizam
livros. Dos entrevistados, 33,3% disseram que acessam esses meios de comunicação diariamente e 22,2% utilizam semanalmente ou raramente. Na televisão,
assistir a filmes é um dos programas preferidos por 44,4% dos entrevistados,
assim como as novelas e jornais que também aparecem com 44,4% das preferências; e 11,1% dos entrevistados gostam de assistir a desenhos animados.
3.3.2.8.10 Relacionamento com a família
Os dados das entrevistas apontam que 66,6% dos jovens residem com
os pais; 22,2% com a mãe e 11,1% moram com a irmã. No que se refere à composição familiar dos entrevistados, 33,3% pertencem à família composta de quatro pessoas; 22,2% de três pessoas e 11,1%, cada, por duas pessoas e/ou de
cinco e sete pessoas.
Quando perguntados acerca do relacionamento familiar, metade dos
jovens verbalizou que consideram a relação familiar “boa”, citado por 55,5%
dos entrevistados, enquanto 22,2% consideram a relação familiar “ótima” e
11,1%, cada, consideram os seguintes adjetivos, “fantástica” e “excelente”. Nesse sentido, 55,5% dos jovens entrevistados revelam que não sentem dificuldade
de relacionamento com seus familiares, o que foi observado nos relatos: “Graças a Deus é ótima, super franca, super amiga, super madura mesmo, super
tranquila, de amiga pra amiga, de amigo pra amigo” (JOVEM C2).
Lá em casa é ótima, tem discussão como em qualquer outra
família, mas na maioria das vezes é bem harmoniosa, a
gente conversa bastante, a gente participa muito da vida
26
Os valores em reais foram convertidos em Dólar (Cotação do dia 15/ 09/ 2004 era de U$ 1,00 = R$ 2,907). O
Liberal, Caderno Painel/Economia, p.6.
143
Universidade da Amazônia
um do outro, e isso é bom, principalmente pra quem tá
fazendo uma base de qualquer coisa, religiosa,
profissional, isso conta muito, a base familiar (JOVEM C3).
Entretanto, 33,3% revelaram que sentem dificuldade de relacionamento
com os pais, como nos relatos abaixo:
Eu tinha muito com a minha mãe, a gente é muito diferente,
eu costumo dizer que eu sou muito parecida com meu pai,
aí a gente briga porque a gente é muito parecido, muito
cabeça dura, os dois, e a minha irmã já é parecida com a
minha mãe, e hoje eu aprendi a lidar com a mamãe, de
conhecer os limites dela, dizer, pôxa, ela é assim, mas não
que ela não goste de mim (JOVEM C8).
Segundo Mioto (1997):
A família é uma instituição social historicamente
condicionada e dialeticamente articulada com a sociedade
na qual está inserida. Esta se depara com sérios desafios
advindos tanto de suas demandas internas como do seu
meio social (MIOTO, 1997, p. 128).
Contudo, é inegável que, por mais estruturada que seja, uma família
não tenha momentos contraditórios, acarretando conflitos com seus membros;
já que muitas vezes as crianças crescem e tomam personalidades diferentes de
seus pais; pois, apesar de estarem profundamente e exclusivamente identificadas aos pais, que lhe parecem ser na maioria das vezes poderosos e belos e em
outros momentos se mostram perigosos, desagradáveis e até intolerantes, o
contexto sócio-histórico que vivenciam também influenciará, inclusive, na própria identidade dos jovens, por mais traços que obtenham de seus pais.
Os ensinamentos repassados por uma família católica, na maioria das
vezes, se traduzem na harmonia familiar, em que os membros devem viver bem
consigo, com o mundo e acima de tudo com Deus e Nossa Senhora. Assim, é
provável que o maior percentual, quando perguntado sobre relacionamento
familiar, se dê sob um relacionamento positivo; entretanto não se deve desconsiderar a subjetividade de cada subsistema formado por meio de relações entre
pai-filha, pai-filho, mãe-pai, marido-esposa, irmão-irmã etc, além da própria
individualidade de cada sujeito.
A partir das entrevistas, vale refletir que a juventude, como fase da
vida, envolve a construção de autonomia e individualização frente à família.
Nesse processo, além da conquista de independência econômica, eles buscam
um progressivo desligamento da autoridade dos pais, estabelecendo confronto
144
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
entre valores e ideais a partir de novas fontes de referência, até chegar a um
modo próprio de ser e de enxergar o mundo.
3.3.2.8.11 Inserção no grupo de liturgia
No que se refere ao grupo de jovens pesquisados, 66,6% participam do
grupo acerca de um ano, destes, 44,4% começaram a participar do grupo por
intermédio de amigos, seguido de 22,2% que chegaram ao grupo por iniciativa
própria, como também, por 11,1% cada, que apontaram que chegaram ao grupo
por intermédio da irmã e da coordenação do grupo. Os jovens entrevistados
verbalizaram que frequentam o grupo aos domingos, citado por 66,6% dos entrevistados.
Quando perguntados sobre a principal motivação em participar do
grupo de liturgia, 44,4% verbalizaram que a motivação se deu por causa do
serviço de liturgia da CAJU. Os demais, com 22,2% cada, revelaram que gostariam de conhecer um pouco mais sobre a igreja católica; acreditam que se sentiram chamados a estar perto de Deus, como também, pelo convite feito por
amigos, conforme se observa no relato a seguir:
[...] me motivou principalmente a questão do serviço. É, de
tipo assim, retribuir um pouco daquilo que eu já tinha recebido
muito da CAJU. Tipo assim, quando eu conheci a CAJU mudou
a minha vida. Mudou pra melhor, eu fiz novas amizades,
amizades sinceras, uma outra vida, né [...] eu comecei a ter
um outro tipo de comportamento em várias coisas, a minha
vida ficou preenchida. Então pra mim é fazer um serviço na
CAJU, trabalhar em alguma coisa em prol da comunidade é
um pouco assim, do mínimo que eu posso retribuir por tanta
coisa boa que ela me traz e que ela me fez, que ela me traz,
que ela me ensinou, entendeu? (JOVEM C2).
No que se refere aos objetivos do grupo de liturgia, 33,3% dos entrevistados verbalizaram que o objetivo do grupo é fazer com que a celebração da
missa “seja uma grande festa”; 33,3%, também, apontaram que o objetivo do
grupo é evangelizar. Já 22,2% revelaram que o objetivo do grupo é “servir a
Deus” e dar apoio durante a celebração da missa, enquanto que outros 22,2%
acreditam que o objetivo do grupo é incentivar a evangelização.
Quando questionados sobre os aspectos positivos do grupo, 22,2%
apontaram ser o compromisso, seguido de 22,2%, cada, apontaram a sinceridade e a união dos membros do grupo de liturgia. Com 11,1% cada, aparecem os
seguintes aspectos positivos: fidelidade, humildade, responsabilidade, harmonia, busca de espiritualidade, respeito, disponibilidade. Por isso, por meio das
informações coletadas, observa-se que os jovens procuram destacar como pri-
145
Universidade da Amazônia
mordial o compromisso e a sinceridade para o desenvolvimento de um bom
trabalho no grupo.
De acordo com os dados, os jovens explicitam que há a valorização da
missão e o compromisso no grupo, pois os integrantes levam a sério suas
responsabilidades. É importante enfatizar, segundo os entrevistados, os ganhos dos próprios jovens em termos de satisfação pessoal e oportunidades de
crescimento, convivência e cooperação.
No que concerne aos aspectos negativos, 44,4% do grupo apontou a falta
de iniciativa de alguns membros do grupo. Outros aspectos negativos do grupo
também foram destacados, como por exemplo, “fazer as coisas com má vontade”,
“falso entendimento de que a liturgia é só aos domingos”, “divisão de tarefas”.
Como se pode observar, alguns jovens explicitaram também aspectos
negativos: pontuaram a falta de compromisso de alguns, ou seja, percebem a
participação superficial de determinados jovens, como podemos constatar nos
dados apresentados. Entretanto, os entrevistados expressam claramente que à
medida que cresce a habilidade de comunicação e a confiança mútua entre o
grupo, um ou vários participantes poderão mostrar-se capazes de colocar limite ao comportamento inadequado, com firmeza e assertividade, tentando contornar a situação por meio de diálogos, dinâmicas, entre outros.
3.3.2.8.12 Relacionamento no grupo
Quando perguntados acerca dos tipos de relacionamento que vivenciam no grupo, 33,3% dos entrevistados responderam que vivenciam relacionamento de amizade, como também 33,3% verbalizaram que têm um bom relacionamento com as pessoas do grupo. Os demais revelaram vivenciar um relacionamento pautado pelo companheirismo, harmonia, fraternidade e/ou carinho.
Com base nos dados colhidos por meio da entrevista, percebe-se que os
jovens se relacionam bem. Eles expressam que há uma interação no grupo de
acordo com o conjunto de ações, possibilitando-os a examinar e melhorar seus
próprios comportamentos e, consequentemente, o comportamento dos outros.
Com relação à avaliação da sua participação no grupo de liturgia,
33,3% verbalizaram que gostariam de participar mais; 22,2% revelaram que
gostariam de ser mais dedicados; e os demais verbalizaram que gostariam de
ser mais pontuais e assíduos.
Quando questionados sobre o que as pessoas pensam da sua participação, os jovens responderam que as pessoas “ficam felizes com a sua participação”, que tem acrescentado no grupo”, “que é importante”, “que se mostra
interessada” e “que faz para aparecer”.
Os jovens revelaram o desejo de participarem de forma “mais presente”; serem “mais dedicado”, sem “falta à organização”, com o intuito de “se
comprometer mais”, “ser mais ativo”, “normal”, “mais sereno”. Esses dados indicam que a maior parte dos jovens almejam assumir um compromisso com a
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ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
CAJU, visto que, para a realização desse, é necessário um comprometimento
muito maior e não apenas fictício.
3.3.2.8.13 Conflitos no grupo
Os jovens entrevistados revelaram que no grupo de liturgia participam
pessoas diferentes com ideias diferentes, e que essas diferenças acrescentam
no grupo, sendo tratadas com democracia. Outros 88,8% dos jovens revelaram
que existe espaço para diferenças no grupo. Quando perguntados como o grupo
ou os membros lidam com essas diferenças, 33,3% dos jovens entrevistados
revelaram que lidam com as diferenças por meio do diálogo, do respeito, da
maturidade, da melhor maneira possível; outros 11,1% verbalizaram que se não
existisse a figura do coordenador do grupo haveria muitos conflitos.
No que se refere aos conflitos no grupo, 55,5% revelaram que não há
conflitos no grupo de liturgia e 22,2%, que nunca se percebeu nenhum tipo de
conflito no grupo. Entretanto, 33,3% dos entrevistados apontaram que há conflitos em virtude das divergências de pensamentos e revelaram que os conflitos
são resolvidos por meio do diálogo e da intervenção dos coordenadores do
grupo, que direcionam as discussões e assim “tentam harmonizar as relações
sociais do grupo” (JOVEM C3). Nesse sentido, pode-se afirmar que os jovens
percebem de maneira sutil os conflitos, porém, em virtude de a CAJU ser um
grupo religioso, todos buscam a harmonia entre os membros do grupo.
4.3.2.8.14 O grupo enquanto processo educativo
Quando perguntados sobre a importância do grupo na sua formação
profissional e pessoal, percebe-se que os jovens acreditam que o grupo de liturgia possui uma importância bastante positiva, uma vez que os jovens consideram-no como ajuda na formação moral, na questão do compromisso/responsabilidade, na harmonia, em ser mais compreensivo, em ouvir mais as pessoas, ter
calma e/ou ajudar a refletir; além de fortalecer a espiritualidade, em ser um bom
cristão e ainda conviver com as pessoas e lidar com as adversidades.
O jovem faz parte de um todo maior, de uma coletividade, geralmente
representada por grupos e organizações juvenis, formais ou informais, das
mais diversas naturezas e atuações. Alguns trabalhando a própria temática
juvenil, outros trabalhando uma série de outras temáticas condizentes com a
sociedade e com o mundo, ou com o espaço onde vivem como um todo. O grupo
de jovens da CAJU trabalham, além dos ensinamentos cristãos, as temáticas
voltadas para a sociedade na sua totalidade, sob uma tentativa de resgate da
humanidade, bem como da cidadania.
Os entrevistados expressam que o grupo proporcionou a eles uma vida
flexível e adaptativa ao contexto organizacional. Dessa forma, eles são capazes
147
Universidade da Amazônia
de selecionar modos de vida e de trabalho de uma maneira mais integrada,
dinâmica e participativa, especialmente na igreja, que os possibilita uma constante forma de aprendizado.
A maioria dos jovens entrevistados, ou seja, 66,6%, participaram de
formações religiosas na Casa da Juventude; 44,4%, de shows de bandas católicas e 22,2% já participaram de retiros. Constata-se que a maioria das atividades de formação pessoal ou profissional de que os jovens participaram são
oferecidos pela própria Casa da Juventude.
No que se refere aos desafios ao grupo de liturgia, os jovens entrevistados destacaram diversos desafios, dentre eles, 22,2% acreditam que o desafio é
realizar as missas semanais; outros 22,2% verbalizaram que é digitar corretamente os folhetos da missa. Os demais jovens verbalizaram que o desafio perpassa por ser fiel ao compromisso que se assume, dedicar-se ao trabalho litúrgico durante a celebração da missa; e à organização, à estabilidade do grupo
em ter um quadro fixo e chamar jovens para participarem do grupo e/ou organizar as celebrações da missa no horário.
Observa-se que os jovens apontam como desafio a autenticidade no grupo.
Cabe destacar, entretanto, que autenticidade é a condição básica para o processo
de assumir integralmente a própria vida e destino. Segundo os entrevistados, a
autorresponsabilidade leva à mudança de perspectiva frente às dificuldades.
4.3.2.8.15 Relações de gênero no grupo
Os jovens entrevistados acreditam que não há diferenças no tratamento
das pessoas inseridas no grupo, citado por 44,4% dos jovens. Entretanto destacam também que não há diferenças de tratamento enquanto pessoas, mas existem diferenças com relação aos serviços e funções, pois, normalmente as meninas do grupo realizam as tarefas mais leves e/ou “delicadas”, que não exigem
esforço físico. Ao passo que os meninos do grupo realizam tarefas que exigem um
pouco mais de força, como, por exemplo, carregar os materiais de liturgia.
Mas, no geral, todos acabam realizando as mesmas tarefas, tais como:
organização do altar, preparação do ofertório, acolhida, comentarista, entre
outras. Apesar de algumas reclamações no que diz respeito às tarefas, como foi
pontuado, o grupo procura assegurar um espaço de liberdade, de escolha mútua, de exercício do direito das pessoas envolvidas.
3.3.2.9 Os pontos de vista dos jovens
3.3.2.9.1 Juventude e religião
Como afirma Yinger (apud BOTTOMORE, 1996) “a religião é um sistema
de crenças e práticas por meio das quais um grupo de pessoas enfrenta os
problemas essenciais da vida humana” (BOTTOMORE, 1996, p. 660).
148
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
A religião ao lado de outros recortes – de classe, de gênero, de raça ou
cor, entre outros, pode ser vista como um dos aspectos que compõem a grande
diversidade da juventude brasileira. Segundo o Censo 2000 do IBGE, 73% dos
jovens de 15 a 24 anos no Brasil se declaravam católicos; 14,2% evangélicos,
sendo 3,9% de denominações tradicionais e 10,2% de denominações pentecostais, o que tem implicado a diminuição crescente dos que se declaram católicos.
Esses números não se diferenciam muito dos jovens brasileiros de outra faixa etária. Ao contrário, demonstra que os jovens que acompanham mudanças recentes tornam o campo religioso brasileiro mais diversificado e plural no sentido de que há uma grande diversidade de religiões.
Quando perguntados sobre o conceito de religião, 22,2% dos jovens
responderam que a religião é a “base de tudo”, outros verbalizaram que religião
é uma “escolha de vida”, “estado de espírito”, “fortalecimento da fé”, “parte de
si”. Como se observa no relato a seguir:
Religião é um estado de espírito, você se sentir bem no
local que você esteja, eu não uso muito esse termo de
adoração, não, alguma coisa assim, eu acredito num ser
superior, acredito em Deus, acredito que a nossa vida não
pode tomar um rumo certo, agente não existiria se não
fosse por ele, então você tá dentro de uma igreja, tá dentro
de um local que você se sinta bem, você pode fazer o tipo
de adoração como ocorre aqui na CAJU, num momento de
oração, que é um momento que eu realmente me sinto
muito bem porque é um momento que eu sinto a presença
de Deus (JOVEM C6).
Nesse sentido, constata-se, a partir das falas dos jovens entrevistados,
que a questão da identidade religiosa é repassada principalmente pela família,
haja vista que a maioria dos entrevistados nasceu em lares católicos. Apesar
da influência familiar na escolha da religião em grande parte desses jovens,
percebe-se que eles têm uma certa autonomia, ou seja, participam da CAJU não
por imposição da família, e sim por escolha própria.
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Universidade da Amazônia
FIGURA 11: Jovens em suas atividades litúrgicas – momento de comunhão
Fonte: Registro de campo / 2004
O serviço litúrgico aparece como a principal motivação em participar
do grupo de liturgia da CAJU, citado por 55,5% dos entrevistados. Em segundo
lugar, 22,2% verbalizaram que receberam um convite. Os demais disseram que
a principal motivação foi porque o grupo de liturgia “é o melhor dentro da
CAJU”, ou porque “sentia falta de Deus”, ou então para “exercitar a vida em
comunidade” ou por meio de retiros promovidos pela CAJU.
Foi porque eu me identifiquei muito com o trabalho, com o
fato não de você tá preparando a missa, mas tudo que tá
por fora, com as pessoas que você tem que lidar, você tem
que lidar muito com os padres, com os ministros, com
pessoas que não são mais leigas que já estão buscando
uma vocação, já tem uma vocação, mas que tá direcionando,
como por exemplo, os sacerdotes, seminaristas, lidando
com essas pessoas, elas conversam muito sobre a nossa
religião, eles tem uma visão muito ampla, eles conhecem
bastante e repassam muita coisa, isso pra mim é muito
bom (JOVEM C3).
Ou ainda:
Olha, eu na verdade eu me apaixonei pela liturgia numa
páscoa jovem da caju, né, no momento da adoração do
santíssimo sacramento foi assim, um impacto muito grande
que eu senti naquele momento, e naquele instante eu vi
que eu não podia ficar tão longe do senhor, não podia, não
conseguiria mais me contentar em simplesmente ir a missa,
150
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
eu tava de olhos vendados e aquela voz no fundo falando
que o senhor estava ali, que ele tinha ido pra me ver,e
cada um de nós que estava ali, pra me abraçar, pra me
colocar no colo e que eu entregasse, colocasse naquele
momento nos pés do senhor todas as minhas necessidades,
as minhas mágoas e angústias (JOVEM C5).
Desse modo, motivados pelo serviço litúrgico, 77,7% dos jovens entrevistados participam semanalmente das atividades do grupo de liturgia, e esse
possui um significado bastante positivo nas suas vidas.
É importante acrescentar que os jovens apresentaram diversas concepções sobre o significado do grupo de liturgia, entre as quais destacam-se 22,2%
que revelam: “o grupo faz parte da minha vida” (JOVEM C6); outros explicitam o
fato de que: “me sinto uma pessoa mais forte” (JOVEM C9). Nesse contexto,
percebe-se que os jovens acreditam que o grupo é responsável, direta ou indiretamente, pelas mudanças ocorridas em suas vidas, principalmente, mudanças
de comportamento por buscarem uma vida mais responsável.
FIGURA 12: Jovens em suas atividades litúrgicas – momento de organização
do altar da igreja
Fonte: Registro de campo / 2004
Os jovens do grupo de liturgia verbalizaram que existe relação entre
juventude e religião. Deles, 22,2% revelaram que a relação entre juventude e
religião objetiva orientar os jovens para o “caminho do bem”, ao passo que os
demais, 11,1% cada, verbalizaram que a relação “contribui para a formação de
adultos seguros e com a fé fortalecida”, como também orienta e “ocupa a cabeça” dos jovens, ajudando-os a ter um novo ponto de vista.
151
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Observa-se que o Grupo de Liturgia, com sua dinâmica interna, não é
simplesmente a soma de histórias individuais. No espaço e tempo que compartilham, os integrantes vão construindo uma história de significados comuns, de escolhas e realizações que visam a atender suas necessidades e
intenções. Para isso, eles se articulam por objetivos comuns e pela ação que
desenvolvem em conjunto para atingir tais objetivos. Segundo eles, toda essa
experiência faz com que eles cresçam espiritualmente, profissionalmente, ou
seja, como seres humanos.
3.3.2.9.2 Política
De acordo com os dados do Tribunal Regional Eleitoral – TRE (2003),
os jovens correspondem a 24,1% do eleitorado brasileiro. O aumento do número de eleitores jovens não significa, porém, credibilidade e interesse deles
pelas questões políticas. Isso pode ser aplicado aos jovens do grupo de liturgia, visto que as faixas etárias dos jovens entrevistados são formadas por
eleitorado juvenil, ou seja, a faixa etária predominante dos jovens do grupo
se dá de 20 a 22 anos.
Essa falta de interesse do jovem pela política foi comprovada no ano
passado por uma pesquisa realizada pelo Instituto Akatu, em parceria com a
empresa Indicador de opinião pública. A pesquisa teve como base de estudo do
Fundo das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura – UNESCO, sobre a
participação dos jovens nos processos políticos, em que o Brasil apresentou o
menor índice de interesse pela política entre jovens dos 24 países pesquisados,
o que se refere a uma amostra do interesse político da juventude brasileira.
Com base nessas ideias introdutórias, vale ressaltar que, entre os jovens
entrevistados, 33,3% não são simpatizantes, como também, 88,8% não participam de nenhum partido político. Outros 11,1% dos entrevistados acreditam que
um dia poderão estar envolvidos com a política, e apenas 11,1% dos jovens do
grupo de liturgia são filiados a um partido político, por motivação de amigos.
Com relação ao conceito de política, os jovens destacaram diversas
percepções. Eles acreditam que política “é um ato de democracia”; “são regras e
ordenamentos necessários para governar uma região”; “é fundamental para
que o Estado funcione”; “é uma ciência que serve par reger o Estado”.
[...] política pra mim, é o momento de poder discutir o que
está errado, o que não está, é você poder praticar atos que
possam beneficiar as pessoas, acham assim, que quando
você elege uma pessoa, você tá querendo que ela possa
melhorar a tua vida de alguma forma, porque ela vai estar
perto das pessoas que tem poder pra fazer isso, que você,
digamos que eu tenha votado em uma pessoa porque eu
sei que ela vai poder melhorar a minha vida, vai poder
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ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
melhorar a vida das pessoas, vai poder ajudar a arrumar
emprego, então eu acho que é isso, política é você poder
discutir abertamente as suas necessidades (JOVEM C6).
Desse modo, percebe-se que os jovens apresentam percepções tanto
positivas quanto negativas acerca do conceito de política, pois, apesar de a
política ser o ramo das Ciências Sociais que trata da organização e do governo
dos Estados, a maioria dos entrevistados está desacreditada de uma política
verdadeiramente séria, sem jogo de interesses. Mas, contudo, eles acreditam
que a juventude é um grupo chave em qualquer processo de transformação
social. Seus potenciais críticos, criativos, inovadores e participativos, quando
adequadamente desenvolvidos, podem ser a mola propulsora de muitas mudanças positivas na sociedade.
4.3.2.9.3 Sonhos e perspectivas em relação ao futuro
Os seres humanos são livres e potencialmente autodirigidos; portanto,
podem fazer projetos, planejar previamente as próprias ações, estabelecer objetivos a alcançar, prever os resultados de uma ação antes de empreendê-la. Podem
fazer escolhas, transformar comportamentos, ou seja, definir como desejam viver.
Sendo assim, dentre os sonhos e os projetos de vida verbalizados pelos
jovens do grupo de liturgia, 55,5% desejam constituir o matrimônio e ter uma família; os demais, com 33,3% cada, gostariam de concluir uma faculdade, fazer pósgraduação e ter uma formação profissional. Para alcançar esses sonhos, a maioria
dos jovens deseja concluir a faculdade e ter uma boa formação profissional, e, no
que se refere à constituição de uma família e matrimônio, alguns jovens verbalizaram que estão aguardando um namorado e/ou conhecendo pessoas.
Quando perguntados sobre o que é felicidade, 33,3% verbalizaram que
é estar bem consigo, ao passo que os demais destacaram diversas percepções
sobre o que é felicidade, tais como: “meta”, “estar em paz” e/ou “família”.
Percebe-se que a maioria dos jovens entrevistados pretende construir
sua família por meio do matrimônio, enquanto que os demais pensam muito na
vida profissional, com o objetivo de incorporar novos conhecimentos em busca
de perspectivas para o futuro. Nesse sentido, observa-se que esses jovens almejam, para si, viver com seriedade e responsabilidade, sempre pronunciando o
matrimônio, o sucesso profissional, a felicidade em suas vidas.
3.3.2.9.4 Percepções sobre juventude
Os jovens entrevistados acreditam que de alguma forma podem mudar
o mundo e que o papel da juventude hoje se traduz a uma transformação social.
Provavelmente frequentam a CAJU não apenas por possuírem uma tendência ao
153
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catolicismo, mas também pela oportunidade de desenvolver trabalhos sociais,
conhecendo as dificuldades do que é ser jovem no país em desenvolvimento
como o Brasil e, principalmente, na região norte. Os jovens enfrentam a precariedade de recursos industriais, o que acarreta a falta de emprego, que ainda
deve ser conciliada com a universidade sobre uma perspectiva de firmação
profissional diante da sociedade; bem como os conflitos internos diante da
dificuldade nessa fase de transição e de afirmação na fase adulta, que tornam
a juventude não mais com cara de rebeldia ou libertinagem, mas sim surpreendente devido à combinação de traços conservadores com maturidade observada nessa parcela de jovens entrevistados.
No que se refere ao significado de juventude, 33,3% dos jovens acreditam que juventude é ser feliz, seguido por 22,2% que apontam que é saber viver.
Os demais verbalizam que é: “um aprendizado constante” (JOVEM C2), e/ou “é
uma fase da sua vida” (JOVEM C8), ou ainda “juventude está dentro de você”
(JOVEM C6). No que diz respeito ao papel da juventude no Brasil, 22,2% alegam
que o “jovem é meio revolucionário, tem força de vontade” (JOVEM C9), seguido
de outras variações, pois 11,1% dizem que é “ser um instrumento na sociedade”
(JOVEM C8), “ser formador de uma consciência sadia” (JOVEM C9), ou ainda
“estar atuante na sociedade, sendo um ser político” (JOVEM C2).
Quanto às principais dificuldades enfrentadas pelos jovens, 33,3% verbalizam que são os porquês da vida, seguido de outras variações, tais como:
“as tentações do mundo” (JOVEM C3) e/ou “as carências afetivas” (JOVEM C2),
assim como, “os problemas de relacionamento na família” (JOVEM C9). Nesse
caso, percebe-se que alguns jovens avaliam os problemas enfrentados pela
juventude não apenas como os seus problemas, mas como os da juventude
brasileira; assim, nota-se que eles próprios avaliam seus relacionamentos familiares como positivos, porém acreditam que esse é um dos principais conflitos enfrentados pela juventude em geral.
No que diz respeito aos desafios da juventude, as respostas são diversas, tais como: “sair dessa alienação”, ‘ser santo”, “ser feliz’, “a juventude precisa passar por uma lavagem cerebral”, “lutar contra a mídia”, “vencer as barreiras”, “procurar ser um diferencial” e “respeitar os mais velhos”.
Logo, percebe-se que as mudanças almejadas pelos jovens contemporâneos, tendo como referencial os jovens do grupo de Liturgia, são diferentes
daquelas almejadas por seus pais, que lutavam contra a ditadura, na tentativa
de revolucionar a política e sentindo-se sufocados pela família. Esses jovens
estão mais à vontade com o as tradições em sua volta. Observa-se ainda que
estão de “olho no futuro”, preocupados com que pode afetar sua felicidade de
forma concreta, assim como o da sociedade em geral e ainda defendem que o
trabalho, além de garantia de futuro, é também garantia de dignidade.
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ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
3.3.2.10 Formação de Identidade dos Jovens do Grupo de Liturgia
A questão sobre a identidade ganha cada vez mais espaço nas discussões sociais contemporâneas devido à preocupação com a fragmentação do sujeito moderno, que quebra a visão do sujeito unificado do iluminismo, fazendo
surgir novas identidades que superam as velhas identidades, e estabelece um
conflito na sociedade, o que muitos estudiosos chamam de crise de identidade.
Segundo Hall (2001), essa crise de identidade é vista como parte de um
processo maior de mudanças que desloca estruturas e processos centrais das
sociedades modernas, abalando os quadros de referências que proporcionavam aos indivíduos uma “ancoragem estável no mundo social” (HALL, 2001 p.7).
O mesmo autor afirma ainda que as identidades modernas estão sendo descentradas, ou seja, fragmentadas ou deslocadas, devido a:
[...] um tipo diferente de mudança estrutural [que] está
transformando as sociedades modernas no final do século
XX. Isso está fragmentando as paisagens culturais de classe,
gênero, sexualidade, etnia, raça e nacionalidade, que no
passado nos tinham fornecido sólidas localizações como
indivíduos sociais. Estas transformações estão também
mudando nossas identidades pessoais, abalando a ideia
que temos de nós próprios como sujeitos integrados. Esta
perda de um sentido de si estável é chamada algumas vezes
de deslocamento ou descentração do sujeito. Esse duplo
deslocamento – descentração do sujeito tanto do seu lugar
no mundo social e cultural quanto de si mesmos – constitui
uma crise de identidade para o indivíduo (HALL, 2001. p. 9).
Sabe-se que, muitas vezes, a noção de identidade é confundida com funções ou papéis desempenhados por um sujeito, faz-se necessário, portanto, distinguir a noção de identidade e de papéis assumidos. Por isso, entende-se identidade
como fonte de significados e experiência de um povo, pois não existem povos que
não tenham nomes, idiomas ou culturas ou alguma forma de distinção entre o “eu”
e o “outro”, “nós” e o “eles” que não seja estabelecida. Assim, o autoconhecimento –
invariavelmente uma construção, não importa o quanto possa parecer uma descoberta – nunca está totalmente dissociado da necessidade de ser reconhecido, de
modos específicos, pelos outros (CALHOUN apud CASTELLS, 1999).
Dessa forma, entende-se por identidade o processo de construção de
significados com base em atributos culturais ou, ainda, diante de um conjunto de
atributos culturais inter-relacionados, em que umas prevalecem sobre outras
fontes de significados. Por conseguinte, um único sujeito pode ter identidades
múltiplas, no entanto, essa pluralidade pode ser uma grande fonte de tensão.
Quanto aos papéis, por exemplo, ser filha, mãe, estudante, jovem, trabalhadora, mulher, católica, entre outros, são definidos por normas intituladas
155
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por instituições e organizações da sociedade e têm sua importância na influência que exerce nos papéis sociais, pois estão relacionados aos comportamentos humanos e dependem de negociações e articulações feitas entre o próprio
sujeito e essas organizações e instituições. Contudo, esse processo muitas vezes acontece inconscientemente, já que o sujeito encontra-se, de certa forma,
emaranhado no contexto social composto por suas regras, normas, leis e acaba
não percebendo a ocorrência desse processo.
Assim, o nascimento de um indivíduo em uma família católica apostólica romana pode levar como consequência à formação de identidade religiosa,
pois esse sujeito, provavelmente, tem mais chances de ser Católico do que ateu,
porém pode não ser a única assumida por ele. Os sujeitos nascem, então, diante
de regras e normas impostas pela primeira instituição na qual são inseridos (a
família), que os levará à inserção nas demais instituições e organizações. Ressalta-se que essas primeiras regras a serem cumpridas por qualquer um sofrem
uma série de alterações no constante processo de mudança que é a vida.
As identidades, segundo Castells (1999), são fontes mais importantes
de significados que os papéis, pois esses organizam significados, enquanto
aqueles organizam funções. O autor define significado como a identificação
simbólica por parte de um sujeito, da finalidade da ação praticada pelo mesmo
ao propor que na maioria dos sujeitos o significado organiza-se entorno de
uma identidade primária que estrutura as demais, que é autossustentável ao
longo do tempo e do espaço.
3.3.2.10.1 Grupo de liturgia: juventude e identidade
Os jovens do Grupo de Liturgia da CAJU possuem, de uma certa forma,
uma identidade religiosa, mais precisamente católica, porém assumem, no decorrer dos momentos experienciados subjetivamente por cada um deles, um papel de dentista, educadora, advogada, partidária ou não, casada ou não. Mas,
acima de tudo, o que se identificou no decorrer desta pesquisa é que tais jovens
têm reafirmado sua identidade de integrante da Casa da Juventude por que são
assim reconhecidos por outros jovens de outras comunidades católicas ou não.
Assumem também essa formação religiosa no decorrer de suas vidas, no seu
cotidiano, ou seja, no trabalho, na escola, na universidade, entre outros.
Dessa forma, o grupo não só assume sua participação ativa na CAJU,
como também no grupo de liturgia, expondo “no peito” que são integrantes
daquele grupo, por meio das camisas, por exemplo, que não são usadas somente nas missas, mas também em outras situações, como na ida à universidade.
Essa postura pode ser assemelhada ao fato de que é como se esses jovens
vestissem a camisa de seu “time predileto” e se orgulhassem disso, mostrando
para as pessoas o espaço que sua comunidade vem conquistando por intermédio de cada um deles. Além disso, aparentam ser pessoas bastante simpáticas
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ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
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e bem quistas pelos outros, e de serem facilmente taxadas se algum “escorregão” derem; mas isso não os impede de ser jovens com sentimento de liberdade
e diversão, e a consciência da responsabilidade social de cada, um “doutrinamento” repassado pela própria comunidade católica com o intuito de formar
“cidadãos melhores”, bem como uma sociedade mais justa.
Mas, a importância da discussão em torno da construção da identidade ocorre a partir de quê? Para quê? E como ela acontece?
Para Castells (1999), a construção das identidades vale-se da matériaprima fornecida pela história, geografia, biologia, instituições produtivas e
reprodutivas, pela memória coletiva e por fantasias pessoais, pelos aparatos
de poder e de cunho religioso. Tudo isso é processado pelos indivíduos e grupos
sociais e sociedades, que reorganizam seu significado em função de tendências
sociais e projetos culturais enraizados em sua estrutura social, e também na
sua visão temporal e espacial. Portanto, quem constrói a identidade coletiva, e
para quê essa identidade é construída, são em grande medida os determinantes
do conteúdo simbólico dessa identidade e do seu significado para aqueles que
com ela se identificam ou delas se excluem.
Assim, pode parecer estranho que o termo sociedade civil não apresente uma conotação positiva de mudança social democrática; entretanto na concepção de Gramsci (apud CASTELLS, 1999), a sociedade civil é constituída por
uma série de aparatos, como a igreja, instituição de grande poder desde as
antigas eras até a atualidade, que por um lado prolongam a dinâmica do Estado
e por outro estão profundamente arraigados às pessoas.
Desse modo, percebe-se, nos integrantes do grupo de liturgia da CAJU,
que tais jovens tentam expandir sua participação positiva, benevolente dentro
da igreja, que se expande para a sociedade, com intuito de atrair novos fiéis,
por compreenderem que essa é a melhor opção para um jovem. E, nesse caso,
não se refere somente a sua comunidade, mas a sua religião, porque para eles
foi e continua sendo a melhor escolha; visto que o jovem pode viver essa fase
peculiar, com suas características próprias, com uma perspectiva futura melhor para si e para um mundo, diante de um contexto paradigmático contemporâneo, que tem como conseqüência a desigualdade.
O jovem, devido ao seu âmago de rebeldia, por mais religioso que seja,
sente-se como um agente que pode transformar e, precisamente, não conseguirá desenvolver pequenas atividades sociais transformadoras sozinho; logo,
procurará se inserir em um determinado grupo com que possui mais afinidades. Provavelmente, isso deve acontecer da mesma forma com os jovens que se
inserem ou se inseriram no grupo de liturgia da CAJU.
Vale ressaltar que o homem não pensa isoladamente, mas por meio de
categorias engendradas pela vida social. Então, entre uma das necessidades
psicológicas do indivíduo, está a de assegurar mais firmemente possível o sentimento de identidade, que o leva a procurar integrar-se em grupos ideológicos
157
Universidade da Amazônia
que se aproximam da sua própria ideologia. Assim, percebe-se que cada pessoa
se situa num lugar concreto e real, que ela usufrui e modifica, onde se reconhece ou se perde, do qual se apropria pelo corpo e pela convivência. Aí se produzem as identificações e a identidade, pois é com ele e com as pessoas que nele
transitam que o ser humano cria laços. É no lugar que cada pessoa pode ser e
fazer, descobrir a si mesma e ao mundo.
3.4 UNIVERSO URBANO - PERIFERIA
3.4.1 Hip-Hop - Manifestação Cultural, Periferia e Vida
3.4.1.1 O Grupo Bancada Revolucionária Gospel – BRG
O grupo pesquisado denomina-se Bancada Revolucionária Gospel (BRG)
e possui seis anos de atuação, com participação de jovens, majoritariamente
negros, moradores de bairros periféricos, provenientes da realidade violenta
das gangues e de relações familiares conflituosas. O grupo tem como foco de
atuação a manifestação cultural por intermédio do Hip-hop, que se configura
como movimento sociorracial de suporte identitário, englobando formas de
organizações políticas, sociais, religiosas e artísticoculturais.
FIGURA 13: Jovens do grupo (BRG) na Biblioteca Kilombo do Saber
Fonte: Registro de campo/2004
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ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
A Bancada Revolucionária Gospel, um grupo do movimento Hip-hop de
Belém/PA, está localizada no bairro do Guamá, ocupação “Riacho Doce”. É formada por membros, inicialmente integrantes da NRP (Nação de Resistência
Periférica), que por questões particulares de ideologias diferenciadas e por
necessidade de um diálogo maior com a questão da religiosidade, resolveram
fundar seu próprio grupo, voltado ao “Hip-hop Gospel”.
Tal afirmação pode ser constatada, a partir das entrevistas, dos diálogos e do grupo focal realizado com os membros, que têm por significação:
“estar dialogando com as questões espirituais, negar a utilização de palavras
chulas nas letras cantadas de rap, negar a utilização de drogas e da violência”, e tomar o discurso da “palavra” e da conscientização como principal
meio para a “mudança” da exclusão sociorracial, vivenciada pelos jovens da
periferia, principalmente os jovens negros.
No histórico de memórias do BRG, cedido à pesquisa pelo grupo, o
educador e idealizador J.S. aponta que a Bancada foi fundada em junho de
1999, com o objetivo inicial de agregar jovens com conflito familiar e social,
para, por meio da arte, da cultura, da educação popular, do pensamento revolucionário e da religiosidade, retirá-los da marginalização, da violência e das
drogas; além de direcioná-los para práticas educativas de reflexão e atitude
social conscientizadora. O grupo se mantém fundamentalmente por meio de
doações e trabalhos artísticos realizados pelos jovens, como: shows e eventos.
Os incentivos financeiros são poucos, principalmente das políticas públicas
da região. Dessa forma, os jovens divulgam o trabalho na tentativa de ganhar
visibilidade para cultura e arte praticadas com o intuito de resgatar outros
jovens em situação de risco nas periferias. A cultura e a arte praticada pelo
grupo vêm do movimento Hip-hop, com a composição de quatro elementos:
GRAFITE, DJ, BREAK, e o RAP.
As inspirações do pensamento revolucionário são feitas por intermédio de referenciais de líderes negros, como Martin Luter King e Zumbi dos
Palmares, mas também por meio de líderes espirituais, como Jesus Cristo. O
grupo tem como foco de discussões centrais a questão racial e de identidade negra, a criminalidade, as drogas, a minimização da violência, a exclusão social da periferia e a religiosidade - apontada com aspecto de cada
membro seguir aquela religião que possui dentro de si. Nesse caso, a religião ganha uma espécie de caráter pessoal e subjetivo, sem se agregar à
significação de uma religião abordada nos aspectos gerais, única para todos; pois cada jovem tem a liberdade de buscar formas de relacionar com os
aspectos espirituais da maneira como melhor se identifica e entende. Tal
questão foi, em termos gerais, assim abordada, principalmente no grupo
focal realizado com os jovens; entretanto, é importante ressaltar que muitos
membros da BRG intitularam-se evangélicos, quando indagados, sobre qual
religião seguiam.
159
Universidade da Amazônia
O grupo possui em média cerca de 34 jovens que se reunem na sua sede,
na biblioteca Kilombo do Saber, espaço cedido pela prefeitura para a realização
de reuniões, de discussões e de estudos. No mesmo local, posteriormente, é realizado um culto, em que os membros presentes fazem orações coordenadas pelo
líder do grupo, mais conhecido como “Pastor Ênfase”, que, caracterizado pelo seu
carisma, em meio às orações, sempre dá a palavra aos membros, pois não gosta
de realizar sozinho os cultos como forma democrática de liderança. Essa atitude
serve como ideal e exemplo a ser seguido pelos membros do grupo, pois os jovens
desejam ser como ele e seguir seus ensinamentos, e sua maneira de liderar.
A liderança do grupo afirma que é necessária uma preparação intelectual e espiritual dos jovens e que os shows e a fama serão consequências do trabalho, não uma prioridade. Aí, é enfocada a importância do posicionamento de
contracultura exercido pelo grupo, que formula frequentemente críticas ao sistema capitalista e à cultura de massa, propondo-se a produção do Hip-hop como
movimento engajado em causas sociais, políticas e raciais. A exposição e a comercialização crescente de imagens e sinais do Hip-hop relacionados a produtos
da mídia mostram-se como um grande desafio para a identidade racial dos jovens negros. Esse fato designa a produção de uma cultura Hip-hop ligada a uma
proposta sócio-racial e não ao comércio e à venda de imagens juvenis alienadas
de um contexto social e político. Sendo assim, o movimento Hip-hop, proposto
pelo grupo BRG, observa que a exposição exacerbada da imagem culmina como
uma perda do conteúdo contestatório do próprio movimento.
É importante ressaltar que as ações desenvolvidas pela BRG são oriundas do esforço de educar e conscientizar os jovens da periferia, definindo o
caráter educacional e popular do grupo. Além do mais, o grupo apresenta um
caráter missionário e religioso, pois tem por objetivo resgatar jovens em situação de risco, envolvidos com gangues de rua e drogas. As ações preventivas
acontecem por meio do diálogo e de “cultos de rua”, culminados em um trabalho
realizado com reuniões, palestras, ciclos de filmes, discussões e apresentações
das expressões artísticas produzidas pela cultura Hip-hop. Os jovens cantam
em eventos e também em esquinas de ruas da periferia na noite como a tentativa de resgatar e despertar o interesse de novos membros.
O espaço de atuação do grupo situa-se em uma área periférica da cidade, bairro do Guamá - Ocupação Riacho Doce, constituído fundamentalmente
por uma população de baixa renda. O bairro é bastante populoso, com muitos
meios de sobrevivência informal, diversos bares, feira-livre, saneamento e coleta de lixo precária. As casas são muito próximas umas das outras, constituindo-se como verdadeiros becos desenhados no panorama urbano, caracterização muito própria à cultura da periferia, em que rua parece ser uma extensão
da própria casa, e a privacidade é pouco estabelecida entre os moradores em
virtude da proximidade entre as habitações. Os carros misturam-se aos pedestres e às bicicletas, principal meio de transporte utilizado, pois nos formulári-
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ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
os socioculturais, os jovens revelam que 50% utilizam a bicicleta como principal meio de transporte, enquanto os outros 50% utilizam o ônibus coletivo.
A violência é frequente, e a presença de pessoas consumindo bebidas
alcoólicas também, principalmente nos finais de semana. Os roubos são frequentes e presença de gangues também, o que oferece aos jovens pouca oportunidade e ocupação educativa. Há ainda “bocas de fumo” e comercialização de
drogas, conforme relato dos moradores e membros do grupo.
Dessa forma, a atuação da BRG e a biblioteca do grupo proporcionam um
espaço potencializador da prática educativa e conscientizadora direcionada aos
jovens da periferia; pois, ao se abordar a questão da moradia na periferia e o que
representa para os jovens, eles apresentam dois discursos: o lado bom em um
bairro periférico, referente à amizade, à simplicidade e à cumplicidade de solidariedade entre as pessoas, os vizinhos e os amigos; e lado ruim, relacionado à
violência, ao tráfico de drogas, aos roubos, à insegurança permanente, à prostituição, à morte prematura de jovens e à falta de incentivos financeiros, de políticas públicas, de oportunidades de lazer e de educação qualificada.
3.4.1.2 Aspectos observados pela pesquisa
Ao promover-se a análise etnográfica acerca das práticas e discursos
assumidos pelo Grupo Bancada Revolucionária Gospel (BRG), colocou-se, diante dos dados e informações oferecidas pelos formulários socioculturais respondidos pelos seus integrantes (dados quantitativos) e pelas entrevistas realizadas (dados qualitativos), fontes que ofereceram certos parâmetros para o
desenvolvimento deste estudo em relação ao grupo do universo urbano periférico do Hip-hop.
Dessa forma, com o intuito de melhor subsidiar a abordagem, estar-se-á
analisando, na aspereza desses dados quantitativos e qualitativos, os traços que
ajudam a definir o perfil e a natureza processual do grupo, por meio de questões
imbricadas e sobrepostas que se determinam mutuamente, por envolverem relações raciais, de gênero, sociais, culturais, política, religiosas, dentre outras.
3.4.1.2.1 Em relação à raça/cor
Quanto à composição racial do grupo, a partir da autodeclaração dos
seus integrantes, em resposta aos formulários socioculturais aplicados (dados
quantitativos), aponta-se que 90% dos jovens se autodeclararam negros enquanto que 10% se autodeclararam morenos.
A composição racial do grupo apresenta uma hegemonia do elemento
negro, dado relevante e significativo de se levar em consideração, uma vez que
essas pessoas assumiram tal identidade racial, partindo de uma autodeclaração. Nesse caso, ao se identificarem como negros, os entrevistados agiram
161
Universidade da Amazônia
dentro de uma total e irrestrita liberdade de escolha, podendo lançar mão de
um leque variado de designações comumente usadas, entre os quais figuram:
mulato e moreno27, normalmente relacionadas à cor e não à raça, dentro de um
jogo de designações montado pelo ideal do branqueamento.
A identidade negra ou étnica desse grupo revela-se por meio de uma
consciência crítica em relação à condição reservada aos negros na sociedade
brasileira; portanto, essa identidade assume contornos políticos enquanto expressão de oposição e refutação do mito da democracia racial, que omite a
enorme parcela negra da sua população sobre o véu da miscigenação. Sendo
assim, são jovens que se autoidentificam e logo se autodeclaram como negros,
levando em consideração que se assumir negro é um ato político, pois enseja
um debate com as pessoas e com a própria sociedade, que, em via de regra,
repudia ou rejeita essa identidade.
De tal forma que ao se identificarem como negros, esses jovens passaram a construir um discurso e uma prática política sólida a partir das suas
vivências de vida e do grupo, em que as práticas discriminatórias racistas são
percebidas e denunciadas.
A posição política do ser negro no discurso e prática do grupo passa por
símbolos e referências assumidas pelo grupo, que vão da valorização do cabelo28
até aos ídolos cultuados29, chegando à construção de uma identidade relacionada à questão dos reflexos do grupo na individualidade de cada membro.
3.4.1.2.2 Relações de gênero no grupo
No que diz respeito às relações de gênero dentro do grupo, percebe-se
um desequilíbrio na sua formação, em que 65% dos membros do grupo são do
sexo masculino e 35%, do sexo feminino (dados quantitativos). Esse desequilíbrio também ocorreu nas entrevistas realizadas (dados qualitativos), com 67%
de entrevistados do sexo masculino e 33% do sexo feminino.
O predomínio do gênero masculino, embora, seja visível, não é assumida
no discurso dos membros do grupo, sendo ponto delicado e tencionado, pois
questões religiosas encontram-se envolvidas. Nesse sentido, explica-se também
que, dentro da cultura Hip-hop, base fundamentalmente na “cultura de rua”, os
homens são a grande maioria, Sendo assim, por muito tempo e até os dias atuais,
as mulheres encontram certo preconceito e, inclusive, uma rivalidade por estarem “invadindo” um espaço que outrora seria “eminentemente masculino”.
Contudo, o grupo BRG, afirma já ter superado essa fase de preconceito
com relação às figuras femininas, embora essa discussão ainda seja foco de
“tensão”, muitas vezes encoberto no grupo, haja vista a grande maioria das
27
O percentual de 10% de morenos mostra um número bem pequeno de membros da BRG que não encontram
condições para se identificarem como negros.
28
Sempre muito bem cuidado mediante traços e vigor do “black power”.
29
Zumbi, Martin Luther King e Jesus (tido como Negro e não como branco) são os mais valorizados na BRG.
162
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
mulheres presentes terem uma relação afetiva de esposas ou namorada dos
membros masculinos. Além do mais, a figura feminina ainda estaria muito
arraigada à significação da necessidade de “proteção” e “zelo” masculino, principalmente no que se refere ao discurso religioso colocado pelo grupo, pois se
observa, em grande escala, a significação da mulher ligada à figura de mãe ou
esposa, a quem os homens deveriam respeito e pudor.
Tal fato constatou-se, principalmente, no que se referiu à inserção das
mulheres no grupo, ocasionada em virtude laços familiares ou de afeto anteriormente estabelecidos com um membro do sexo oposto. Assim, verifica-se que
as meninas/mulheres chegaram ao grupo via esposo/namorado ou família de
algum membro (sobrinha). Portanto, não houve uma entrada “livre” das jovens
do sexo feminino.
Porém, com o amadurecimento do grupo, no fim da pesquisa já se poderia observar que as mulheres já começavam a se colocar de maneira mais
incisiva no grupo, pois algumas delas decidiram raspar todo o cabelo como
forma de protesto contra a prostituição e promiscuidade ligada à figura da
mulher que a mídia reproduzia, ficando claro, que os questionamentos envolvendo gênero, geralmente constituíam barreiras nas relações grupais.
3.4.1.2.3 Objetivo do grupo
O objetivo do grupo de Hip-hop pesquisado, colocado no discurso dos
membros do grupo Bancada Revolucionária Gospel (BRG), seria em linhas gerais: retirar os jovens do mundo das drogas e das gangues; evangelizar; informar a periferia e lutar por igualdade sócio-racial.
Esses objetivos são constatados, primeiramente, por meio da leitura
dos dados qualitativos, em que 67% afirmaram o desestimular o consumo de
drogas e o lutar para informar a periferia, como o principal objetivo do grupo;
ao passo que 33% consideram como sendo a evangelização. É importante ressaltar que nas falas retiradas das entrevistas, esses objetivos aparecem aglutinados e não de forma separada, ou seja, ao mesmo tempo em que um jovem
afirma que o objetivo é lutar contra a dependência de drogas, logo em seguida
afirma a questão do conhecimento e evangelização como sendo fontes primordiais de objetivação do grupo BRG:
A bancada tem como seus objetivos evangelísticos e
revolucionários. Tanto o estilo revolucionário como
evangelístico é buscar jovens para que eles possam a
conhecer a Jesus Cristo, que conheçam aquele que morreu
na cruz, a vida dele. Agora a gente tem o compromisso
revolucionário que é estar reivindicando as condições da
periferia, aquilo que é justo pra gente, como pobre, como
preto, negro da periferia esse é o objetivo revolucionário
da bancada RG (JOVEM, sexo masculino, 18 anos).
163
Universidade da Amazônia
3.4.1.2.4 Relações vivenciadas
As relações vivenciadas no grupo reproduzem o discurso de “relações
familiares”, pois nos dados qualitativos da pesquisa, 100 % dos jovens verbalizaram, em suas entrevistas, a caracterização do grupo como uma identificação e reconhecimento de família. Nesse caso, os valores, os papéis e as identidades familiares são reconstruídos no grupo e nas relações grupais; uma vez
que os jovens atribuem ao grupo o vivenciar de uma família; reconhecem-se
como “irmãos”; e muitas vezes reportam ao líder como uma figura paterna. Vale
ressaltar, também, que o reconhecimento do outro como “irmão” não faz parte
apenas de uma identificação familiar, mas também de um discurso de prática
religiosa, que, em grande escala, é uma dos elementos identificadores do grupo
BRG, que não é apenas um grupo de Hip-hop, mas também um grupo Gospel.
No que diz respeito às relações familiares, 75% dos jovens consideraram que as relações familiares foram ou são conflituosas, porém afirmam que
com a entrada no grupo esse quadro foi se modificando em virtude de os seus
familiares já não os identificarem como marginais ou drogados. Dessa forma,
os laços de confiança aumentaram e os jovens já podiam frequentar as casas
de seus respectivos parentes, sem que para isso necessitassem temer possíveis
situações de preconceito e aversão, pois não mais participavam de gangues de
rua, afirmando, assim, o quanto era importante a conquista pela confiança e o
reconhecimento familiar.
Em relação às relações familiares, Castells (apud ABRAMOVAY, 1997)
afirma que se caracterizam como uma tentativa de estabelecer novos laços
familiares, que têm como propósito a criação de novas relações de convivência
e de educação, em que as práticas reproduzidas representam formas de adequação à sociedade globalizada. Entretanto, isso não significa que as relações
familiares primeiras estejam se extinguindo. Sobre esse segmento analisado,
um jovem pontua que:
Eu vejo todos como irmãos, porque eles não me deixam
para o lado. Quando estou triste eles vão lá me dar uma
palavra de amigos, me ajudam, me dão conselhos, não
conselhos ruins, conselhos bons, que me tira a tristeza do
coração para joga lá no chão (JOVEM, sexo masculino, 18
anos).
3.4.1.2.5 Conflitos familiares
Como abordado anteriormente, nos dados qualitativos da pesquisa, os
jovens apontam que, em 75%, as relações familiares foram ou são conflituosas,
com ênfase ao fato de que, antes da inserção no grupo, a relação era conflituosa devido à delinquência e à marginalidade. Outros 12,5% identificaram a rela-
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ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
ção como boa, e os demais, 12,5%, afirmaram ser normal. Destaca-se que muitos conflitos são decorrentes da condição social de desestrutura vivenciada
pela violência das drogas e, principalmente, devido a um histórico de alcoolismo por um dos pais. A ideia de que a família constitui um espaço protegido, no
espaço urbano-periférico, é desmistificada, visto que ela própria está sujeita à
criminalidade e à violência. Sobre isso, parte dos jovens entrevistados colocou
que muitas vezes é no espaço familiar que os jovens se deparam com as situações de violência.
A família é um espaço social bastante diversificado, pois abrange diferentes gerações e diferentes modos de pensar, logo, está suscetível a contradições e a diversas dificuldades, sem, no entanto, deixar de ser vista como um
espaço de estruturação para os indivíduos. Daí a crítica dos jovens em relação
à excessiva liberdade, à falta de limites, à falta de cobrança, mostrando como
valores fundamentais a proteção e o conforto emocional.
Parece estar em curso um novo processo de socialização,
acarretando mudanças nos contextos existentes e trazendo,
como consequência, jovens com personalidade mais
complexa e menos seguros, porém mais capazes de
adaptarem-se às mudanças (ABRAMOVAY, 1997, p.74).
Se por um lado os jovens seguem o raciocínio dominante sobre as famílias consideradas ‘desestruturadas’, e exigem comportamentos e valores idealizados; por outro, demonstram-se desamparados e despreparados para enfrentar os problemas concretos de uma sociedade excludente, que não lhes oferece
oportunidades de agir. A ‘desestruturação familiar’ é uma das principais razões
da revolta dos jovens e da busca pela rua como opção. Na ausência da família
como responsável pela formação moral, do certo e do errado, a rua passa a
desenvolver esse papel educador, pois os jovens são criados com total liberdade, sem limites e orientações, o que contribui para o envolvimento no universo
da criminalidade. Vale ressaltar que um dos focos de conflitos são as discriminações vivenciadas por esses jovens dentro da própria família, seja pelo seu
envolvimento na criminalidade, gangue, seja pela sua raça/cor negra.
Às vezes a gente entra nesse mundo porque a gente não
tem conhecimento entendeu, a gente não tem uma
estrutura dentro de casa, porque os meus pais eles bebiam,
ele separou da mamãe, a mamãe ia trabalhar e eu cresci
na rua, e eu conheci gente grande que me deu cola, me
ensinou a roubar[...] (JOVEM, sexo feminino, 20 anos).
165
Universidade da Amazônia
3.4.1.2.6 Conflitos no grupo
Os conflitos no grupo se dão, geralmente, pelas divergências de opiniões, idéias e ideais. Nas fontes qualitativas, 100% dos jovens verbalizaram que
as relações no grupo ficavam mais tensas em razão da entrada de pessoas de
religiões muito diferentes ou da resistência de algum membro em abandonar
por completo o uso de drogas. Assim, devido ao fato do grupo possuir um
número muito grande de integrantes, é comum haver pensamentos e ideias diferentes. No entanto, os jovens afirmam que todos os conflitos buscam ser resolvidos por meio do diálogo nas reuniões do grupo; e comparam o grupo a uma
‘família’, que possui conflitos, mas que sempre são solucionados por meio do
diálogo e do respeito às diferenças.
Outro foco de conflito que resiste, como já exposto anteriormente, são
as relações de gênero, que aparecem de maneira sutil, porém presentes no
grupo. Alguns participantes afirmam haver diferenciação entre as mulheres
casadas e as solteiras, no sentido de que o relacionamento, o diálogo com as
casadas é mais respeitoso e distanciado, enquanto que com as solteiras não; e
afirmam que as próprias mulheres, às vezes, estabelecem essas diferenças na
maneira de se comportar. Há também a cobrança dos homens em relação à falta
de ‘ousadia’ das mulheres, perante as questões de gênero, cobrando que se
“coloquem mais” e lutem por seus respectivos lugares. Nesse caso, ressalta-se
que, à medida que os integrantes cobram, também reduzem os espaços para um
discurso mais liberado. Relações ambíguas, que constituem foco de conflito e
disputa de poder.
Sobretudo, é importante pontuar que, no grupo BRG, ao longo da pesquisa, processos de construção e transformação, assim como de amadurecimento foram acompanhados, e a questão feminina certamente poderia ser apontada como um desses processos, visto que as figuras femininas agora passaram a se posicionar de maneira mais efetiva no grupo, observando-se uma
evolução nas práticas de acordo com os estudos realizados.
Hoje já tem uma igualdade, as minas já colocam, mas por
quê? Porque as minas têm conquistado isso, não é o mano
que vai lá, não, a mina que corre atrás pra conquistar esse
espaço dela entendeu, então, se a mina hoje conquistou é
porque ela mesma foi atrás, correu atrás entendeu (JOVEM,
sexo feminino, 20 anos).
3.4.1.2.7 Lideranças
As lideranças do movimento aparecem na forma de três educadores,
sendo que a “principal’ liderança é a do idealizador do grupo, o qual será
abordado mais especificamente no item “Fragmentos de História de Vida: per-
166
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
sonalidades e trajetórias – Pastor Ênfase”. Ao passo que as outras duas, representadas por uma figura masculina e outra feminina, são denominados líderes
por serem referência e pela forte influência que exercem sobre os demais membros do grupo. Aí, a liderança feminina foi de suma importância para que as
mulheres conquistassem espaços que antes não possuíam. Todos atuam de
maneira carismática, segundo o conceito de Weber (apud MOTTA,1994, p. 29)
em que “carisma” significa “graça divina”. O líder carismático se justifica pela
ideia de que possui características extraordinárias para dirigir um grupo social. A dominação carismática é relativamente comum em movimentos religiosos
e revolucionários”, em que os líderes representam, aos membros do grupo, exemplos a serem seguidos.
Com enfoque democrático, considera-se que desenvolvem todas as características que, segundo Chiavenato (1929, p. 178), uma liderança democrática possui: 1) As diretrizes são debatidas e decididas pelo grupo, estimulado e
assistido pelo líder; 2) O próprio grupo esboça as providências e as técnicas
para atingir o alvo, solicitando aconselhamento técnico ao líder quando necessário, passando esse a sugerir duas ou mais alternativas para o grupo escolher.
As tarefas ganham novas perspectivas com os debates; 3) A divisão das tarefas
fica a critério do próprio grupo e cada membro tem liberdade de escolher os
seus companheiros de trabalho; 4) O líder procura ser um membro normal do
grupo, em espírito, sem encarregar-se muito de tarefas.
3.4.1.2.8 Motivação para entrar no grupo
Os jovens apontaram a motivação para entrar no BRG o fato de o grupo
ter como objetivo o repasse de informação e conscientização à periferia conforme as entrevistas realizadas, em que 50% colocaram o fato de verem o grupo
como uma oportunidade para saírem do mundo das ruas e das drogas, e 50%
apontaram como uma forma de buscar e repassar conhecimento, “informação”.
Assim, o grupo passou a ser visto como uma possibilidade para os jovens
sairem do mundo das gangues e das drogas. Eles se identificam com o grupo
pela presença de histórias de vida comuns e do apoio emocional, ausente na
família, isto é, o diálogo, a compreensão e a amizade.
Foi sair do mundo das gangues, porque eu moro em um
lugar que é beco contra beco [...] eu comecei a ficar
considerado, depois comecei com drogas, assalto a mão
armada, lojinha [...] agora esta tudo bem comigo aqui na
BRG (JOVEM, sexo masculino, 18 anos).
O grupo BRG apresenta o aspecto da “conversão” e do resgate de jovens
em situação de risco, violência e drogadição. Com a inserção no grupo, os
jovens resignificam, por meio da conscientização e da arte, as práticas da
167
Universidade da Amazônia
marginalização para a cultura Hip-hop e para a questão da religiosidade. Essa
motivação se dá, principalmente, pela potencialização da autoestima de cada
jovem, que muitas vezes buscam nas gangues de rua e nas drogas uma maneira
de ser visto e reconhecido; tornar-se importante e respeitado. Com o grupo, o
reconhecimento se valida por meio da dança, da música, da pintura e da informação, que potencializa a utilidade e capacidade dos jovens.
3.4.1.2.9 Mudanças decorrentes da participação no grupo
São evidentes e diversificadas as transformações ocorridas na vida desses jovens após a inserção no grupo. Muitos apontam o interesse pelos estudos;
valorização de sua raça/cor negra a partir do conhecimento de referências históricas do povo negro (Consciência Negra); outros apontam que passaram a exercer
um comprometimento social com a comunidade e que agora conseguem ser reconhecidos pela luta contra a exclusão da população da periferia.
Em geral, houve um processo de transição do universo da violência, da
criminalidade e/ou das drogas para uma tomada de consciência social; assim
como uma melhora no relacionamento familiar. Portanto, a mudança significativa se deu a partir da transmutação dos valores, pois no lugar das práticas
ilegais das gangues e das drogas, ficou a capacidade do poder vivenciar a
liberdade de expressão por meio da cultura Hip-hop, visto que quando um
jovem canta o rap, dança o break ou grafita um muro, potencializa sua utilidade
na condição de cidadão e sujeito engajado no compromisso da denúncia às
mazelas da periferia.
Dessa forma, o jovem deixa sua marca na sociedade não como transgressor, mas como representante da juventude engajada em uma causa. É importante ressaltar também que, mesmo saindo das gangues, os jovens não abandonam determinados aspectos presentes nas gangues, como: os codinomes, a
busca pela liderança e o alcance do reconhecimento, porém canalizados para
as práticas dos trabalhos exercidos pelo grupo.
[...] eu não sei mais o que é ficar de recuperação, não sei o
que é repetir de ano, eu ano passado fui eleito o melhor
aluno do colégio Zacarias Assunção, do turno da manhã,
mérito não meu, mérito que divido com todos meus irmãos
aqui, porque eles que me mostraram que o grande lance é
eu fazer por mim mesmo, correr atrás, estudar, sabe,
batalhar por aquilo que eu acredito”. (JOVEM, sexo
masculino, 18 anos).
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ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
3.4.1.2.10 Política
Os jovens apresentam-se como apartidários e possuem um descrédito
muito grande em relação aos governantes, mas reconhecem a importância da política realizada com honestidade e responsabilidade, como sendo de suma importância para os menos favorecidos financeiramente, para a juventude da periferia.
Assim, nos dados qualitativos das entrevistas realizadas, 16% afirmam
ter apenas uma afinidade com partidos de esquerda, enquanto que a maioria,
84%, alega não ter partidos políticos. Os jovens também criticam a falta de
compromisso dos políticos com o eleitorado e a forma corrupta como a política
tem sido praticada. No entanto, conseguem relacionar política e democracia, e
atribuem ao movimento Hip-hop a função de cobrar uma política mais honesta,
voltada para a periferia. Por conta isso, trabalham com a conscientização dos
jovens na hora de votar e enfatizam a importância da valorização do voto e de
não vendê-lo em troca de favores, pois consideram as eleições como a oportunidade de “escolher candidatos e não eles se escolherem”. A política no grupo
aparece em forma de denúncia à condição de marginalização social:
[...] precisa da gente pra fazer uma parada na rua, vamos
lá, subimos no palco e cantamos o nosso trabalho, mas
sempre depois de cantar, dizemos: “Irmão, vote com
prudência, escolha bem, escolha com calma seu candidato”
(JOVEM, sexo masculino, 18 anos).
3.4.1.2.11 Religião
A questão da religião/religiosidade é ponto central de identidade do
grupo BRG, o elemento de distinção perante os demais grupos de Hip-hop. Configura-se também como destaque no que diz respeito as suas práticas, visto que
o grupo se caracteriza como “Gospel”, que, segundo os jovens entrevistados,
significa: abandonar a vida desregrada, as drogas, a violência e o desrespeito
aos outros. Dessa forma, o grupo congrega muitos dos elementos de uma prática evangélica, principalmente por conservar a figura de pastor, a questão da
missão e do “resgate”, que se realiza por intermédio da retirada dos jovens de
uma vida sem limitações espirituais e sociais.
Nas entrevistas realizadas, em relação às fontes qualitativas, 75% dos
jovens do grupo Hip-hop se identificam com a religião evangélica; 17% afirmaram não ter religião e seguem a Cristo ou a “exemplos”; e 8% afirmaram ser
apenas cristãos.
Quanto aos dados quantitativos dos questionários sócio-culturais, as
estimativas encontradas nas entrevistas retornam, visto que 90% desses se
declararam evangélicos, 5% afirmam que apenas seguem “exemplos” e 5% não
informaram.
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Universidade da Amazônia
FIGURA 14: Jovens em oração – Momento do Culto
Fonte: Registro de campo/2004
Portanto, para que se compreenda melhor a questão da religião no
grupo BRG, é preciso que se tenha em mente que nesse grupo há várias formas
de atuação, e uma das mais importantes é a questão da evangelização de moradores das periferias. A conversão é tida pelo grupo como salvação não só da
alma, mas também do corpo e da mente, pois leva o indivíduo a assumir uma
postura ascética cristã, capaz de livrá-lo das mazelas sociais presentes no
contexto dos bairros periféricos, tais como: consumo de drogas, envolvimento
com gangues de rua, criminalidade, prostituição, relacionamentos familiares
conturbados, conquistando uma autoestima capaz de fazer frente à discriminação racial. Esse ideal salvacionista relaciona-se a uma identidade negra, tendo
por referência o líder negro norte-americano Martin Luther King, pastor da Igreja Batista, mas também nas referências da cultura Hip-hop.
As formas de se expressar e vestir de muitos dos integrantes da BRG
dão-se pos sinais e símbolos do Hip-hop, sendo um dos traços que confere
identidade e unidade ao coletivo, e os torna alvo de críticas e discriminação
dentro de algumas das congregações evangélicas das quais fazem parte alguns
dos membros da BRG. Conforme, suas próprias percepções, eles afirmam que as
pessoas de mais idade (adultos e idosos) não veem com bons olhos a forma
como eles se trajam ou se expressam, sendo acusados de não estarem seguindo
a conduta ascética do “crente” (esses mostram um recato e refinamento nas
roupas e modos). A resposta a essas críticas é dada com argumentos de que não
é roupa que faz alguém ser do mundo, mas a falta de uma conduta cristã.
Além da privação das coisas tidas como do mundo (geralmente relacionadas ao desregramento); valorizam-se os estudos e o trabalho, o restante do
tempo livre é dedicado aos louvores e pregações (BORDA, 2004).
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ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
3.4.1.2.12 Trabalho e educação
Na sociedade, cada vez mais, percebe-se a importância do estudo para
inserção no mercado de trabalho. Ao se considerar que a sociedade atual é
excludente e restritiva às oportunidades de educação e trabalho, os jovens
periféricos e negros são evidentemente prejudicados, pois são excluídos do
processo de inserção social por meio do ensino-aprendizagem formal, sendolhes vetados o direito e a oportunidade à educação de qualidade, que subsidie
o ensino superior. Nas entrevistas realizadas: 58% dos jovens disseram cursar
o ensino fundamental, enquanto que 42% cursam o ensino médio, apesar de que
em suas idades, 67% correspondem a jovens que têm 18, 20 e 22 anos, e 33%
correspondem a jovens que têm 17, 21, 23 e 25 anos, o que evidencia uma faixa
etária de idade que corresponde a um atraso no nível educacional escolar
formal. É importante ressaltar que, apesar do atraso no ensino formal, os
jovens apresentam um desenvolvimento cognitivo e intelectual bastante desenvolvido no que se refere à politização e à conscientização sobre temáticas
sociais, culturais e artísticas, devido à educação popular oferecida por meio
das discussões e atividades promovidas pelo grupo.
A dificuldade em completar os estudos bloqueia a oportunidade de um
emprego aos jovens. No grupo pesquisado, constatou-se que a desmotivação e o
descrédito em relação ao ensino também são fatores determinantes para repetência e atraso escolar, em virtude da falta de qualidade e exclusão social relativos ao
ensino da rede pública. Os jovens verbalizam que o “negro e o pobre” são pouco
valorizados, e, devido a essa condição excludente, qualquer ensino é oferecido; os
professores têm frequência mínima em sala de aula e as condições estruturais são
de péssima qualidade. Em uma conversa informal, um jovem afirma que: “a escola
nunca me ensinou minha origem, hoje no grupo sei que sou negro, antes eu estava
perdido, queria ser branco” (JOVEM, sexo masculino, 18 anos). Entretanto, apesar
da pouca valorização, os jovens do grupo vislumbram, acima de tudo, a educação
para uma qualidade de vida e um emprego, pois observam em grande escala o
trabalho e a profissão como uma condição para inserção na sociedade.
Os jovens sentem-se ‘convidados’ a entrar no mercado de trabalho cada
vez mais cedo, sendo uma cobrança social, em virtude de muitas vezes terem
assumido, muito cedo, uma responsabilidade familiar, com famílias muito numerosas, visto que no grupo os dados quantitativos dos formulários socioculturais revelaram que 30% dos jovens do grupo já têm filhos e 70% não. E 40%
informaram que residem em média com oito pessoas ou mais.
Nesse sentido, afirma-se que o trabalho para os jovens da BRG, assim
como a profissão e um curso superior, é objetivo de vida, que buscam ser alcançados por meio da atuação no grupo. Os jovens apontam o estudo como algo
muito importante, integrante dos seus sonhos e ao mesmo tempo de seus desafios, uma vez que desejam terminar o ensino médio, ingressar no ensino superi-
171
Universidade da Amazônia
or, se profissionalizar e ter um emprego estável, para, assim, ajudar a comunidade da periferia e o trabalho do grupo BRG. Essa realização é vista como a
possibilidade para se desfrutar de atividades de lazer e de cultura, de realizar
o desejo de maior independência em relação aos pais e principalmente como
meio para ajudar a própria família a adquirir uma qualidade de vida, que
permita oportunidades e estabilização, visto que nos formulários socioculturais 44% dos jovens responderam que estão desempregados, 39% trabalham
informalmente e somente 17% trabalham com carteira assinada.
Quanto à ocupação, as entrevistas revelam que 34% se ocupam de trabalhos desenvolvidos pela BRG, 17% desenvolvem atividades domésticas, 25%
trabalham informalmente e apenas 8%, cada, trabalham com carteira assinada
e estão desempregados.
Com relação à ocupação, acrescenta-se que os jovens, que disseram
ocupados com atividades desenvolvidas pela BRG, também afirmaram, em conversas informais, que realizam trabalhos informais, e é praticamente a responsável principal pela fonte de renda. Esses jovens atuam como cabeleireiros,
auxiliares de escritórios, cobradores de ônibus, lavadores de carros, manicures, pedreiros, cinegrafistas, vendedores ambulantes e voluntários.
Assim, constata-se que no mercado informal é onde os jovens do grupo
encontram possibilidades de trabalho, devido ao grau de escolarização, e, fundamentalmente, devido à exclusão sócio-racial. No grupo, 44% dos jovens que preencheram os formulários socioculturais, encontram-se no mercado informal.
3.4.1.2.13 Periferia e identidade
A periferia é um espaço socialmente construído, que, no grupo BRG, exerce
função de identificação de extrema relevância à medida que contextualiza a história de vida, a atuação e a cultura em que os jovens encontram-se inseridos. É nesse
meio social que os jovens encontram compreensão para uma construção de realidade subjetiva e externa, visto que é na periferia que os jovens apontam as falhas
pelas quais passaram e os sonhos que pretendem alcançar. Ou seja, foi das dificuldades enfrentadas nesse espaço de relações vivenciadas que o grupo BRG surgiu,
tem sua atuação e exerce função central de atender os jovens em situação de risco,
com envolvimento com drogas e violência incrustados no universo periférico.
Sendo assim, os dados dos formulários socioculturais mostram que
todos os jovens do grupo BRG residem em bairros periféricos de diferentes
localizações da cidade, sendo que 70% desses estão no bairro do Guamá, bairro em que fica localizada a sede - biblioteca do grupo BRG.
3.4.1.2.14 Juventude: sonhos e desafios
Em relação à juventude, o grupo critica os jovens que se deixam influenciar pela mídia, pelo modismo e pelo consumismo. Acreditam que o jovem
172
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
possa ser mais revolucionário, com ideais e possa lutar por igualdade social.
Afirmam que o maior desafio dos jovens é a falta de oportunidades na educação, no trabalho, principalmente na periferia, e o distanciamento da política,
pois não têm voz na política, e não lutam para isso. Nas entrevistas realizadas,
no que se refere aos sonhos, 41% dos jovens disseram que sonham construir um
mundo diferente, onde a periferia tivesse melhores condições de vida; ao passo
que 25% sonham em proporcionar melhores condições de vida para suas famílias; 17%, voltar a estudar e conseguir um emprego fixo; e outros 17% sonham
em gravar um CD e levar informação por meio da música e da arte, assim como
levar “a palavra de Deus”, para as pessoas. Apesar de a maioria dos jovens
enfrentar problemas familiares, é significativa a preocupação em possibilitar
melhores condições de vida para a família, seja por reconhecimento, seja por
quererem evitar que seus filhos passem pelas mesmas dificuldades que eles
passaram; uma vez que os jovens do grupo, com famílias em situação de pobreza e baixa renda, têm histórico de pai ou mãe alcoólatra, ou usuário de drogas
ilegais, e de violência familiar.
De modo geral, os sonhos do grupo giram em torno de conseguir uma
formação superior educacional; trabalhar; ajudar a periferia. Todos almejam um
mundo mais igualitário, em que haja educação para todos. E pensam também em
tornar o grupo conhecido pelos seus trabalhos com a comunidade e com a gravação de CD’s. O grupo demonstra compromisso social com o espaço urbano-periférico, pois não pensam em sair de lá para terem uma vida melhor, mas sim, em
ajudar a periferia dando oportunidades de estudo, trabalho e lazer.
Em relação a ser jovem, 25% dos entrevistados afirmam que ser jovem
é ter liberdade para se expressar e não se deixar levar por aquilo que a mídia
impõe; 17% disseram que ser jovem é ter acesso a muitas coisas da vida e do
mundo; 16% acreditam que ser jovem é muitas vezes ser desinformado; 17%
afirmaram ser um estado de espírito; e 25% declararam outros. Sobre a juventude um jovem verbaliza:
Por mais que a gente seja mil (o grupo), só que a juventude
que existe no mundo é muito maior do que esses mil, então
no caso, eu vejo a gente como aquela estória do beija-flor
tentando apagar o incêndio na floresta, quer dizer, um
bichinho tão pequenininho, tentando enfrentar uma coisa
tão grande, então, é a mesma coisa a gente aqui, a gente é
simplesmente o beija-flor nesse imenso mar de jovens aí
mesmo nesse problemão que é a vida de um jovem, é a
cabeça de um jovem, mas a gente ta aí,esperando o leão,
esperando a girafa, esperando o elefante se sensibilizar
para que o grupo cresça e não fique só o beija-flor tentando
apagar o fogo (JOVEM, sexo masculino, 18 anos).
173
Universidade da Amazônia
FIGURA 15: Jovem pertencente ao Grupo BRG
Fonte: Registro de campo/2004
3.4.1.2.15 Fragmentos de Histórias de Vida: personalidades eTrajetórias
Neste item, optou-se por abrir um espaço, especialmente dedicado a
duas personalidades que fazem parte do grupo pesquisado BRG. Dois “personagens urbanos”, duas histórias que se entrecortam e se completam na aproximação com a realidade da periferia. Histórias de vida que têm como palavras
chaves centrais a transição, a reconstrução e a mudança.
É a partir dessas histórias, que têm como fonte o relato oral, obtido por
meio das entrevistas, a que se irá ater, pois é pela história oral e pelas sintetizações individuais que se possibilitam as construções culturais e as histórias
das diferentes culturas, visto que: [...] as narrativas são mais do que documentos vivos, possibilitam a importância para o conhecimento de questões subjetivas: a emoção, os sonhos, as perspectivas, a memória e os discursos (CALDAS,
2001, P. 43).
Dessa forma, é na oralidade que se baseia esse item, pois a objetividade dará lugar à reflexão comunicativa, à discussão e à aproximação do pesquisador com o sujeito pesquisado, visto que nessa relação, o enlace se dará por
meio da argumentação e da utilização dos pontos biográficos mais importantes dos sujeitos pesquisados.
174
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
O fragmento será construído por duas histórias de vida. A primeira é do
educador e líder da BRG, e a segunda é de um jovem membro do mesmo grupo. A
opção por esses dois personagens justifica-se a partir da notoriedade e do
destaque que alcançaram por meio do desenvolvimento do grupo, ressaltandose também o aspecto de transição e a reconstrução conscientizadora, que recorta a vida dos atores sociais que iremos abordar.
Dessa maneira, por meio de uma análise interpretativa e antropológica, buscar-se-á construir um fio condutor, em que as práticas e transições
desses indivíduos encontram-se relacionadas a discursos e ideais de vida de
transformação, busca, e transposição de barreiras sociais estigmatizantes.
3.4.1.2.15.1 Pastor Ênfase: o educador e líder espiritual
Estes fragmentos de história de vida integram-se à pesquisa enquanto
análise de uma das principais lideranças da Bancada Revolucionária Gospel
(BRG): O Pastor Ênfase ou J. S. S30, a fim de se traçar o perfil do líder espiritual e
educador do grupo.
O fio condutor da análise segue no sentido de se compreender como o
histórico de vida de J.S.S. determinou certos traços da sua personalidade e do
seu perfil de liderança, e de como isso foi decisivo para a formação e constituição da BRG. Nesse sentido, tratar-se-á de três momentos específicos em seu
histórico de vida. O primeiro, com a apresentação da infância, atingida pela
perda brusca do pai. O segundo, com a adolescência delinquente nas gangues.
O terceiro sobre juventude, após a conversão ao protestantismo e a militância
no movimento Hip-hop, iniciada após a fundação dos grupos JCA e da BRG.
Na condução da análise, recorre-se-á aos dados coletados/fornecidos
pelo estudo de campo e análise das entrevistas, tanto do líder J.S.S., quanto
daqueles membros que possam oferecer outras informações relacionadas a
este estudo de caso. Dessa forma, por meio de uma análise interpretativa antropológica, em que as práticas desses indivíduos encontram-se relacionadas a
discursos e idéias, mais ou menos, sistematizadas e estruturadas de forma
consciente, busca-se organizar e conduzir as abordagens e conclusões.
O jovem de 29 anos, J.S.S., tornou-se o líder e educador de uma das mais
expressivas organizações do movimento Hip-hop de Belém31. Isso decorre da
sua capacidade de aglutinar e coordenar adolescentes e jovens, assegurando
uma unidade e uma integração desses em torno de ideais compartilhados, vol30
Usar-se-á as iniciais a fim de manter-se preservado o entrevistado. Além do nome de registro, J.S.S também é
conhecido como “DJ e MC Ênfase” e “pastor Israel”, dependendo da função ou papel que esteja assumindo ou
desenvolvendo. Ao se apresentar no grupo de Rap JCA (que ajudou a fundar), é “DJ e MC Ênfase”; já ao presidir as
reuniões e cerimônias religiosas, ele assume o título de “pastor Israel”.
31
A BRG é uma organização do movimento Hip-hop de Belém que conta com um quadro expressivo de militantes,
atuando nas diferentes manifestações desse movimento (Rap, Break, Grafitte e DJ), tendo promovido eventos e
atividades sócio-educadoras em escolas, a BRG vem ao longo dos anos assumindo um papel destacado na conversão e reabilitação de adolescentes e jovens infratores. Pelo número de membros e estrutura de organização é que
se pode considerar a BRG uma das mais destacadas representações do movimento Hip-hop de Belém.
175
Universidade da Amazônia
tados para a transformação da sociedade e para a vivência da cidadania, levando-os a lutarem pela garantia dos seus direitos. Muito do sucesso da BRG
em se constituir como uma organização do movimento Hip-hop consolidada e
atuante, decorre do perfil de liderança do seu dirigente. Na busca do melhor
entendimento e compreensão acerca desse sujeito social, deve-se traçar o estudo desse perfil mediante o seu histórico de vida.
Filho mais velho, primogênito de uma família numerosa, que pelas vicissitudes da vida, viu-se na condição de referência masculina para os irmãos,
J.S.S. teve, ainda na infância, a sua liderança incentivada, quase que por uma
sucessão hereditária, após a perda violenta do pai:
[...] tive assim uns problemas no passado que raramente a
gente comenta, a gente do “JCA” no caso, que a gente veio
de classe média e tudo, nosso pai era militar e a própria
polícia matou ele, é uma história que a gente não conta
muito, e, as propriedades que tinha minha mãe vendeu
pra gente ir pra Brasília, fomos pra Brasília, depois minha
mãe resolveu voltar para Belém [...] aí a gente voltou pra
cá, isso já sem mais, sem nada, então eram 7 filhos, todos
pequenos e sem estrutura nenhuma, aí a gente passou a
morar na casa do “Bife” ali, que é uma feira que é do Guamá,
aí de manhã a gente saía pra pegar resto de comida, essas
coisas todas, [...], então a gente passou esse tipo de vida,
então tudo isso atrasou, pra estudar, falta de pai, esses
problemas todos aí [...] (J.S.S.).
A desestruturação material e emocional da família exerceu uma forte
influência sobre o processo de formação da sua personalidade, atuando no
sentido de enraizar valores humanos, um senso de responsabilidade e um sentimento de doação em prol do grupo familiar.
[...] então a gente aprendeu a ter essa vida de irmão, talvez
a perda de estabilidade que tínhamos quando nosso pai
era vivo, nos ensinou isso, humildade e tal...
companheirismo. Então pra mim primeiro lugar vem essa
história de ser família, dar a vida um ao outro, se preocupar
com aquele ser humano, e depois vem a visão que daí a
gente pode tirar pra família, filhos, esposa, mãe, pai e
deixar um exemplo pra rapaziada aí que não respeita mãe,
nem pai (J.S.S.).
A inserção nas gangues ou “galeras” (como identifica J.S.S. em depoimento mais abaixo) foi outro momento do seu histórico de vida, significativo
para a formação do seu perfil de líder e educador. Esse agrupamento é uma das
176
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
formas mais comuns de agregação e organização de adolescentes e jovens, logo
que passam a exercer maior independência com relação ao grupo familiar. Sem
propósitos bem definidos, as gangues ou “galeras” são compostas majoritariamente pelo sexo masculino, havendo por parte dos seus membros uma necessidade de autoafirmação, conduzindo-os a uma identidade deles e do grupo por
meio do contraste com outros agrupamentos da mesma natureza. A violência é,
por conta disso, o meio quase sempre recorrente para tratar das rivalidades e
disputas envolvendo esses agrupamentos, conforme se pode perceber:
É, na minha época era galera, a gente chama de galera, e
era aquela onda de fazer uma roda com a galera daqui,
quem dançava mais e tal, e arrastava menina, e às vezes
essa menina trazia problema de briga, né, e às vezes se
encontrava galera com galera, e graças a Deus não tinha as
arma de fogo, naquela época a gente não usava, né, agora
que já veio surgir (J.S.S).
As gangues estabelecem, entre os seus membros, uma rede de solidariedade e proteção, considerada vital para a manutenção do grupo, estabelecendo laços muito fortes sedimentados em um sentimento de irmandade nesse tipo
de agrupamento e, ao mesmo tempo, de rivalidade, austeridade, violência e
contravenção social em relação a outros grupos ou à própria sociedade. Isso
tem contribuído, decididamente, para a escalada de violência entre esses jovens, conforme se observa no depoimento de F.R.S., hoje integrante da BRG.
O que me levou a participar da gangue foi um irmão que eu
gostava muito dele, que não era meu irmão de sangue,
mas eu o considerava como um irmão, um “cara” que nunca
me deixou de mão. E tinha uns moleques que “meteram
porrada” nele, ele já se metia em gangue, e eu “me mordi”
por causa dele e peguei um revolver invadi lá e dei uns
tiros num moleque e ele ficou aleijado, de cadeira de rodas.
Então me levou através daquilo que aconteceu com ele e
me levou para as gangues, eu comecei a pinchar em muitos
lugares, na cidade por aí, no centro. E eu passei a ficar
considerado, depois comecei com esse negócio de drogas,
assalto a mão armada, lojinha, mercadinho, farmácias,
essas coisas (JOVEM, sexo masculino, 21 anos).
Ainda, tomando por subsídio os dois depoimentos expressos anteriormente, nota-se que o envolvimento com gangues conduz a outras práticas contraventoras ou delinquentes, tais como: pichação, uso de drogas, assaltos, entre
outros. Notadamente, a busca pela autoafirmação dos membros de uma gangue
passa por essas práticas. Ser “considerado”, ou seja, desfrutar de uma posição de
177
Universidade da Amazônia
destaque e liderança nesse tipo de agrupamento, inevitavelmente, leva a um desajuste social; nesse caso, quanto pior, melhor, quanto mais proezas no enfrentamento com os “inimigos”, desafiando a lei e a polícia, melhor. A compensação por
essa conduta arriscada está no prestígio conquistado pelo indivíduo, o que se
converte em vantagens, sobretudo, no mercado da paquera e do namoro.
A conquista de pretendentes é facilitada se o indivíduo conta com uma
posição de destaque. Caso se torne um membro “considerado” do agrupamento,
fica em evidência perante a um número maior de possíveis candidatas à “paquera”
ou “namoro”. Na adolescência, quando a descoberta da sexualidade aflora, ser
bem sucedido na conquista é uma preocupação muito presente, conseguir desenvolver seus atributos faz toda a diferença para se obter o sucesso esperado. A
inclinação de J.S.S. para a liderança, iniciada no núcleo familiar, foi estimulada, na
adolescência, no agrupamento da gangue ou “galera”, em que o senso de responsabilidade expandiu-se em relação a outro tipo de agrupamento e relações.
A etapa seguinte da formação do perfil de liderança e educador do
jovem J.S.S. se deu dentro de uma instituição, denominada, Igreja Evangélica do
Guamá. Essa fase da sua vida implicou uma ruptura brusca com a adolescência
delinquente, embora, certos hábitos e traços tenham sido preservados, conforme se observa no depoimento:
[...] na época eu ainda era meio do Black [...], tinha cabelo
grande, tem uma identidade minha que ainda é assim, [...],
ia pra igreja com bermuda, um meião, sempre fui assim,
sem eu ter conhecido rap nem nada, [...], eu ia embora pra
igreja, é isso foi me fazendo ficar conhecido na igreja, eu
cheguei até a ser coordenador das regiões de Belém, como
presidente de jovens, então eu tava sendo um dos
presidentes, organizava os eventos e tal, estadual e de
Belém também (J.S.S).
Destoado da imagem normalmente atribuída aos membros da Igreja
Evangélica, tidos como pessoas pacatas, comedidas e vestidas de forma discreta, J.S.S. se tornou na sua congregação uma referência para outros jovens, assumindo a liderança, condição com a qual já estava bem familiarizado. Nessa
Igreja, J.S.S. viria a fundar, com a ajuda dos irmãos Sandrão e Anderson, o grupo
de “street dance”32 JCA, segundo explicita logo abaixo:
Aí, depois eu comecei a cantar na igreja, cantava músicas
clássicas, músicas lentas e tal, aí meus irmão viram que eu
tava levando a sério a igreja, já entraram, formaram um
32
O Termo designa a dança grupal, com passos desenvolvidos a partir dos ambientes das danceterias, club’s e
logradores públicos, tais como a praça. A música utilizada na performance é eletrônica, geralmente derivadas do
funk e do house.
178
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
grupo de teatro, depois que veio, não tinha nome ainda,
foi um grupo de teatro, interno da igreja, depois veio o
grupo de dança, porque eu vi que o teatro não tava surtindo
tanto efeito, tinha aquela visão meio doida, meio aberta,
aí criamos o street dance (J.S.S).
A dança, a vestimenta, as gírias, os vulgos, enfim, a forma de se expressar,
que define alguns traços da personalidade do J.S.S e de outros adolescentes,
constituídos durante a sua vivência na gangue, tornaram-se impossíveis de serem
suprimidos completamente pela vida religiosa-evangélica, causando resistência
e oposição dos dirigentes da Igreja. Tal situação gerou uma tensão e conflitos
incontornáveis, levando a saída do grupo da congregação, no dizer de J.S.S.:
Olha, na verdade a igreja nunca deu apoio que precisava,
então chamava a gente de demônio, satanás, que aquilo
não era de Deus e tal, aí foi um dos objetivos pra gente
sair. E a represália que a gente saiu é que o espaço nosso
ficou menor, mas que ao contrário, fora ficou maior, as
outras igrejas começaram a querer que fizesse uma
apresentação por noite, ai passou a ter duas, depois
quatro, até mais, então chegava, tipo estrela, fazia e ia
embora porque não dava tempo pra permanecer, assistir
culto, conversar com a rapaziada, então isso era o momento
street dance, que a gente dançava e que pra mim foi a fase
que nos fez ser “JCA” pra igreja, frequentava normal não
tinha se desviado, mas parou de frequentar até por causa
das apresentações viajo, voltamos a frequentar lá, até
voltamos com cd gravado e aquela coisa, de respeito, são
cantores, dá a melhor cadeira... (J.S.S.).
Tal acontecimento ajudou a reafirmar os propósitos e identidade do
grupo JCA, liderado por J.S.S. na sua maneira de se expressar e se relacionar
com outros adolescentes e jovens. Tinha início uma busca por uma expressão
cultural característica dos adolescentes e jovens ao mesmo tempo tinha uma
pedagogia formadora de atitudes e valores construtivos. Dessa forma, o Hiphop surge no horizonte do JCA e de sua liderança.
A importância pra mim, do Hip-hop, tirando a igreja, como
eu falei ela me transformou em alguns aspectos, talvez
porque eu não tinha encontrado o verdadeiro sentido de
servir a Cristo, hoje, o Hip-hop, me ajudou a encontrar o
verdadeiro sentido de servir a Cristo (J.S.S.).
179
Universidade da Amazônia
Em outra declaração, J.S.S. faz a seguinte consideração acerca do potencial do Hip-hop para fazer os adolescentes e jovens se expressarem:
Olha, o Hip-hop pra mim á a maneira que tem de expressar,
porque todo jovem procura expor aquilo que ele tem dentro,
então o Hip-hop me ensinou um pouquinho mais, me deu
mais coragem de expressar o que eu tenho dentro, [...]
(J.S.S.).
A inserção no movimento Hip-hop veio por meio do contato com outros
grupos de Rap e da NRP33 (Nação da Resistência Periférica). Nessa organização
do movimento Hip-hop, a tônica era a questão sócio-racial da juventude e a
busca de uma militância política, o que a colocava em contato com as entidades do movimento negro, outras organizações do movimento social e partidário
de esquerda.
Novos elementos passaram a se constituir no desenvolvimento da personalidade do J.S.S. e do seu perfil de liderança. Contudo, o forte sentido religiosoevangélico do grupo JCA tornou-o incompatível com a organização que reunia
outros grupos de Hip-hop. Nesse momento, destaca-se a liderança de J.S.S. frente
à necessidade de uma organização capaz de congregar as duas visões de mundo
(religiosa e de Hip-hop). Nascia assim a BRG (Bancada Revolucionária Gospel),
organização que aglutina grupos adolescentes e jovens evangélicos e de Hip-hop.
A liderança de J.S.S iria conferir uma estruturação e organização à BRG muito
próxima do modelo constituído pelas igrejas protestantes evangélicas.
Na BRG, J.S.S assume não apenas o posto de líder político, mas também
religioso, tornando-se mais tarde um pastor. Isso faria com que a sua liderança
adquirisse uma conotação de sacerdócio, já que J.S.S. acredita ter assumido
uma espécie de “missão”, que consiste em: conduzir seu grupo na superação
das deficiências, dificuldade, zelando pelo seu bem estar e prosperidade.
Olha, eu me vejo, com a rapaziada, uma pedra fundamental,
que quando a gente olha pra uma liderança, como eu falei,
ou pra um cantor, por exemplo, a gente é o único grupo
ainda que tem um CD gravado, então a gente olha pra essas
pessoas com esperança [...]. Então eu me vejo, tanto pro
“JCA” quanto pro “BRG” como uma esperança, até minha
própria família, vejo nos olhos da minha mãe a esperança,
a solução dos problemas, pra trazer prosperidade a família,
até porque eu poderia ter um futuro selado, certo, se fosse
cantor de música clássica [...], mas eu optei, pelo Hip-hop,
porque eu acreditei no Hip-hop (J.S.S.).
33
Essa foi a primeira organização do movimento Hip-hop de Belém, surgida no ano de 1998, no bairro da Terra Firme,
a partir do grupo de Rap MBGC (Manos da Baixada de Grosso Calibre).
180
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
A prosperidade da “BRG”, do “JCA” e da própria família dependeria,
portanto, da sua capacidade de liderança, capaz de tomar as decisões certas e
servir de “exemplo”, sendo moralmente inatacável. Isso só seria humanamente
possível, segundo o ponto de vista de J.S.S., por meio de um suporte religioso,
pois, para J.S.S:
[...] eu ser um homem bom só porque eu sou é uma coisa,
agora eu ser um homem bom porque eu conheço a Deus é
outra coisa, tem duas forças que agem na minha vida pra mim
ser um homem bom, agora só eu ser um homem bom porque
eu sou um cara que tá enquadrado na sociedade e tal, um
bom cidadão, a qualquer momento eu posso cair, com mais
facilidade do que um cara que tem Deus, crer, vai numa igreja,
ouve os blá-blá-blá dos pastores que isso ajuda ele a ser
duas vezes mais forte que um homem comum [...] (J.S.S).
J.S.S. desenvolveu um senso de responsabilidade como líder político e
religioso da BRG, acreditando depender a prosperidade da BRG, congregando
um número cada vez maior de adolescentes e jovens em situação de risco,
imprimindo-lhes uma disciplina e organização, mobilizando-lhes no sentido de
tornar a BRG uma entidade bem estrutura. Como pastor, J.S.S. coloca-se como
líder político e religioso devotado, preocupado em inspirar confiança e credibilidade aos que o seguem.
Conforme o exposto, J.S.S. se prepara para um outro passo importante
no seu histórico de liderança: assumir como pastor uma Igreja ou congregação,
a qual pretende fazer prosperar, congregar um número maior de fiéis, reunir
recursos financeiros e materiais maiores, para serem revertidos em proveito da
própria comunidade. Esse é um ponto do qual ele pretende promover um projeto
mais ambicioso: fazer da BRG uma nova Igreja Evangélica, com sete sedes submetidas a sua liderança, para que assim a corrupção não a desvirtue da proposta inicial. Há, nesse sentido, uma fusão entre o seu projeto de vida e o da
organização que lidera.
A liderança do J.S.S. à frente da BRG tem se mantido a salvo das disputas
e questionamentos pela própria estrutura interna que se formou, em que as outras lideranças, ao assumir outros postos chaves na organização interna da BRG,
são em grande parte pertencentes ao seu núcleo familiar, como no caso de dois
outros irmãos, da esposa e da cunhada. Pessoas que de longa data tem o J.S.S.
como liderança, e, talvez, por isso colaborem para a sua manutenção, suprindo
até em alguns casos as possíveis lacunas ou deficiências dessa liderança.
O Anjo Preto, como vice-líder do grupo BRG, possui certas atribuições
que colaboram decididamente para a integração e coesão da BRG, qualidade
identificada pelo próprio J.S.S. por superar as distâncias existentes entre os
membros, dirimindo os focos de tensão e conflito existentes na BRG.
181
Universidade da Amazônia
Eu ainda tenho uma dificuldade que eu sou o tipo de líder,
[...], então eu não sou muito de tá conversando com os
liderados, entendeu, só se eles me perguntarem alguma
coisa, precisar de uma ajuda, alguma coisa, eu sou mais de
atitude, de agir, entendeu, eu não sou muito de falar,
entendeu, então a gente não tem uma relação muito
próxima, já o anjo ele é um cara muito conselheiro que é o
que eu tenho a visão, se caso acontecer algum problema,
ele pegar a líder da “BRG” (J.S.S.).
Outro fator a ser levado em consideração, para o melhor entendimento
da forma como o J.S.S. tem sido bem sucedido em seu papel de liderança da BRG,
seria sua idade mais avançada em relação ao restante dos outros membros.
Contudo, não se pode deixar de considerar que tal liderança tem apresentado
bons resultados também em razão do carisma inerente à pessoa do próprio
líder. Talvez por se idealizar e por ser idealizado como pai ou irmão mais velho
dos membros, J.S.S tem expressado uma dedicação e doação em prol do progresso e desenvolvimento da BRG incomparável a de qualquer outro membro, o
que por si só já o torna o líder natural dessa organização. Acrescenta-se a isso,
a franqueza e a objetividade dos seus discursos só expressos em ocasiões em
que se faz necessário um direcionamento ou uma tomada de posição. Isso faz
dele uma figura emblemática.
Ao findar-se essa análise, expor-se-ão algumas aproximações conclusivas acerca do perfil da liderança do jovem J.S.S, que ao longo do seu histórico
de vida tem acumulado experiências significativas que o ajudaram a construir
sua índole e sua personalidade. Colocar-se a serviço do bem estar do grupo é
algo que ele vem perseguindo desde a infância, o que tem se constituído em um
verdadeiro ideal de vida, e ampliado o foco inicial do grupo familiar para a
BRG, e, em seguida, para os demais adolescentes e jovens do bairro, de Belém,
da Amazônia e do Brasil.
A firmeza de caráter e personalidade, juntamente com a sua força de
vontade, tem feito toda a diferença para que a BRG venha se constituindo e se
estruturando enquanto uma organização, investindo na formação dos seus
quadros. A institucionalização da BRG é o ponto de interseção de uma trajetória
de vida trilhada entre a vida religiosa-evangélica e o Hip-hop. Isso longe de se
constituir em um projeto individual é a aspiração de outros jovens da BRG que
se veem representados pela liderança do J.S.S.
Agora que está próximo de ingressar no estágio da vida adulta, J.S.S. tem
se preparado para no futuro assumir outra frente: a candidatura a um cargo
político. Ele sabe que isso depende de um trabalho sólido, por isso, vem buscando
desenvolver uma maturidade política acompanhada de uma postura moral inabalável. Somente sendo um líder descente, que inspire confiança, é que J.S.S. acredita poder ser possível representar os interesses da sua comunidade.
182
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
A vida religiosa do líder J.S.S. é algo que não se encerra em si mesmo, ou
seja, preocupada apenas com aspecto espiritual, mas que aponta para uma
intervenção efetiva na sociedade, tomando por princípio a moralidade religiosa, combinada com a proposta transformadora do Hip-hop, por meio dos adolescentes e jovens.
3.4.1.2.15.2 Rick Hei: das gangues ao hip-hop
Rick Hei, de iniciais E.V.C.S, 18 anos, estudante do ensino médio, morador da periferia de Belém, bairro do Guamá, é proveniente do universo das
drogas e da marginalidade. Inicialmente conhecido com o codinome ou vulgo
de “Rick Rei”, atualmente modificado para “Rick Hei”.
Filho do meio de uma família de três irmãos, todos homens, teve o pai
separado da mãe quando ainda criança, e uma trajetória de vida que demonstra a constituição de uma transição do universo de delinqüência e violência
juvenil, das gangues, para a conscientização e engajamento oferecido pelo universo Hip-hop.
Eu nasci aqui em Belém, [...] na Santa Casa e estou aqui em
Belém, desde de que eu sou gente...eu sempre morei aqui no
bairro do Guamá... se eu morei em outros bairros, eu não lembro
[...] são histórias que não costumo buscar. Antes de entrar na
BRG eu quase não parava em casa, vivia “tipo caçador de
baladas” 34, ficava com os moleques da rua assim [...] (E.V.C.S).
Rick Hei foi o primeiro codinome ou vulgo35 adquirido por E.V.C.S, sendo
que o “Rick” configura-se como uma contração de seu nome de batismo, e o “Rei”
foi adquirido quando iniciou sua relação com o universo das gangues de rua, em
que exercia o papel de líder ou chefe de uma gangue. Observa-se, nesse caso, a
relação entre a vontade do jovem em assumir um codinome e a importância que
essa identificação exerce, pois a função significante do seu “novo nome” exerce
papel fundamental na construção de sua identidade, que se encerra no universo
urbano das gangues, com as relativas funções do “ser reconhecido”, ter visibilidade, alcançar o respeito e os préstimos dos outros, e, finalmente, sentir-se incluído no contexto social de um grupo, ou de uma gangue.
Meu vulgo era “Rick Rei”, porque quem deu a idéia ora formar
todo o barato fui eu. Esse “Rei” foi porque naquela época,
eu tomava a frente dos meninos da rua da minha casa, eu
consegui com uns caras que tem mais influência juntar com
outra gangue. Na rua da minha casa tem uma rua maior e
34
35
Balada: termo utilizado para se referir às festas noturnas que reúnem os jovens.
Vulgo: espécie de gíria utilizada pela linguagem dos membros de gangues e absorvida pelos adeptos do movimento
Hip-hop, o termo significa codinome.
183
Universidade da Amazônia
uma rua pequena, que tem só uma ponte. Ali atrás naquela
época eu comecei a me envolver com gangue, com drogas,
com marginalidade, naquele lugarzinho ali. Eu nunca cheguei
a me envolver com drogas fortes, mas me envolvi com drogas,
brigas, com marginalidade, uma série de coisas, época que
eu cheguei a repetir a sexta série três vezes [...] tenho
cicatrizes que estão até hoje por causa disso (E.V.C.S).
O processo de saída do mundo das gangues de Rick teve relação direta
com medo, mais precisamente, com o medo da morte, pois, em um momento
ápice ou limite, Rick relata o quanto sentiu esse medo.
Até que uma vez em uma briga com uma gangue rival, eu já
tinha visto a morte várias vezes e nesse dia algo me tocou
muito. [...] No meio do caminho um menino conseguiu me
jogar no chão e ele era canhoto e ele tentou me acertar
com um ‘terçado’ e eu sai... Eu me levantei caí e ele deu
com o ‘terçado’ em minha perna. Chega deu pra ouvir quando
bateu no meu osso. [...] Na hora a polícia veio aparecendo
de longe e ele saiu correndo. [...] Eu fiquei só, até que meu
primo que considero irmão me jogou em um quintal de
uma casa e fiquei lá até o outro dia...desde aí eu comecei
mais a me envolver com o Hip-hop, fiquei conhecendo mais
os bailes e me afastei de toda aquela vida louca (E.V.C.S).
No processo de saída das gangues, o medo parece ter desenvolvido o
sentimento de temor que contextualizava a vida nas gangues, vida que parecia
estar recortada por um estar constante em uma “corda bamba” entre o viver e o
morrer. Sendo que, desse sentimento de medo, desencadeou-se o processo de
transição, que se encerraria no engajamento e na identificação com o universo
Hip-hop, no qual a violência seria canalizada pelas produções artísticas e pela
busca incessante do conhecimento, do estudo e dos projetos sociais de resgate
de outros jovens do mundo das drogas e da violência.
Rick sublimou, canalizou, trocou intimamente de forma subjetiva e profunda um universo por outro; substituiu as ações violentas e autodestrutivas
pelas ações de vida, de arte e de um crescimento na busca de um processo
pedagógico e social, no qual tanto a sua vida, quanto à vida dos outros, passaram a exercer função fundamental e de grande valoração.
Com a inserção no grupo, também passou a ter melhor relação com a
família; despertou interesse pelos estudos, chegando até a ser eleito o “aluno
do ano”, no colégio Zacarias Assunção. Adquiriu conhecimentos relacionados à
questão histórica sócio-racial de nosso país, passando inclusive a se autodenominar negro; conscientizou-se politicamente e ‘abraçou’ o ideal de lutar por
melhores condições de vida na periferia.
184
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
Desde que eu conheci esses ‘doidos’ aqui, eu não sei mais
o que é ficar de recuperação, não sei o que é repetir de
ano, eu ano passado fui eleito o melhor aluno do colégio
Zacarias Assunção, do turno da manhã, mérito não meu,
mérito que eu divido com todos meus irmãos aqui, porque
eles que me mostraram que o grande lance é eu fazer por
mim mesmo, correr atrás, estudar, sabe, batalhar por aquilo
que eu acredito, foi esses ‘loucos que me mostraram
exatamente o quê que eu devo fazer da minha vida, me
informar, aí seguir a palavra de Deus, não preciso de mais
nada na minha vida (E.V.C.S).
Ou ainda:
Dentro do Hip-hop eu descobri que eu sou negro, descobri
muita coisa que a escola não me ensinou. Hoje no Pará
existe um lance de desinformação, com relação à negritude
do irmão, ele não sabe que é negro, ele não se identifica
como negro, ele aceita ser chamado de moreno, mas nem
aquele moreno que ele aceita ser chamado, ele não sabe
o que é (E.V.C.S).
O gostar de Rap, ou da música que embala o movimento Hip-hop, exerceu importância fundamental para a identificação com o grupo de Hip-hop BRG.
E Rick começou a gostar de Rap a partir de um clipe a que assistiu na MTV (canal
de televisão). Hoje, gosta de ouvir rap a qualquer hora. Seu contato com o grupo
ocorreu a partir da amizade com um dos integrantes, com o qual estudou junto,
que lhe apresentou um dos idealizadores do grupo.
Eu comecei a sintonizar a MTV, uma vez eu estava na casa
com meu primo, que é uma pessoa que gosto muito, em
essa vida louca, ele sempre estava comigo. E ele estava
escutando uma música e logo de cara eu não gostei, e aí eu
estava vendo tv e vi o clip desta música que era “o diário de
um detento”. E eu fiquei assim, besta de ver. E aí comecei a
gostar de Hip-hop. Até que um bom tempo depois, e aí
conheci o Ismael e foi o primeiro ano que agente estudou
junto, na mesma sala e com uma semana ele me apresentou
o cunhado dele “Sandrão”. Já existia o projeto da Bancada,
embora não fosse algo forte como é hoje. Nós levamos um
walkman pra curtir um dia [...] em uma esquina da rua [...]
um dia o Sandro passou lá e cantamos no meio da rua, uma
música, daí comecei uma amizade muito forte, tínhamos as
mesmas idéias, gostávamos de brincar com tudo, agente
era muito parecido. Nessa época eu não estava ainda
185
Universidade da Amazônia
partindo pra começar aquele trabalho social como faço aqui
na Bancada agora, eu estava ali pra formar um grupo de
rap, cantar, ter uma experiência e tudo mais (E.V.C.S).
A partir desse momento de identificação, Rick abandonou as gangues,
formou o grupo de Rap Gospel “Fúria Negra”, e atualmente se dedica ao movimento Hip-hop - Rap, grafite e a militância. Tornou-se membro assíduo das
ações socais e o Rick que era Rei, se tornou “Rick Hei”, ou seja, o “Rei” que antes
significava alteza, majestade, devido a sua liderança em uma gangue, transformou-se em ‘Hei’, expressão que faz alusão à ritimização da música e da arte do
Hip-hop. Vale ressaltar que, apesar de uma mudança gráfica e semântica, a
pronúncia permaneceu a mesma, caracterizando o sentido ambíguo de seu vulgo, pois apesar de ter saído das gangues, não perdeu sua característica de líder,
sendo assim reconhecido dentro da BRG. Ocupa-se com as atividades desenvolvidas pela Bancada e pelos estudos da escola. É professor das oficinas de
grafite e também faz parte do grupo dos 7, responsável pelo trabalho espiritual,
pelo ‘resgate’ dos jovens, ou melhor, por ajudar os jovens a sair do mundo das
drogas, da marginalização, das gangues etc.
Antes era Rick Rei, agora mudei esse Rei para Hei, Hei. Minha
ocupação agora é desenvolver aqui o trabalho com a BRG, é
minha vida espiritual, aqui tem muitos projetos para realizar
em longo prazo, em esse processo eu quero estar os meninos
da liderança, mas eu não quero tomar o lugar do “Jako” [...]
eu quero mostrar o meu trabalho, o meu valor.
Tem muita coisa que eu quero fazer aqui.[...] eu gosto do Hiphop como um todo. Eu quero estar falando mais do meu
trabalho, tentando ajudar um pouco mais, da forma que eu
puder tá ajudando eu vou lá e faço isso, ser Hip-hop, cantar
um rap contribui pra alguma coisa, então eu vou lá e faço o
rap também. O nosso objetivo estar mostrando um mundo
bom, sem drogas, ter um esporte, um lazer, colocar alguma
coisa que traga algum benefício para eles. Se o Hip-hop pode
me ajudar a fazer isso, é por isso que eu estou aqui (E.V.C.S).
Antes de fazer parte do grupo, já havia participado de uma igreja evangélica, porém somente com a Bancada encontrou a motivação para permanecer
no trabalho social e espiritual. Sua decepção com a igreja que frequentava se
deu pela impessoalidade das relações entre as pessoas, que apesar de frequentarem o mesmo espaço não se conheciam, não se relacionavam, não havia uma
preocupação em fazer com que os novos participantes permanecessem no trabalho. Associou essa falta de acolhimento ao preconceito racial e acredita-se
que os membros que ainda continuam a frequentar a igreja não se reconhecem
como negros e por isso não percebem a discriminação existente. Para Rick, a
186
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
religião depende do ponto de vista de cada um, ou seja, é aquilo que a pessoa
acredita que é certo, que é melhor para sua vida, e não o que lhe dizem que é
certo. Religião é a pessoa estar bem consigo mesma, amar a Deus e ao seu
próximo. Por isso costuma dizer que não tem religião, que segue a Cristo, porém, se houver necessidade de uma definição, se denomina evangélico.
Eu tinha muita raiva eu achava que todas as igrejas, tinham
esse caráter de não cuidar bem de seus membros então eu
peguei o conselho do “Black”, ele saiu da igreja por causa
disso, do preconceito racial [...]. Na verdade os outros
negros não sabem que são negros de verdade não percebem
que são também vítimas do mesmo preconceito de
qualquer negro aqui, por isso eles estão lá até hoje.
[...] isso seria a religião que a gente está buscando?, onde
as pessoas se ajudam e identificam?. Não, é aquela religião
que você segue, só pra dizer que segue. E então digamos
que você me pergunte qual a minha religião eu vou dizer é
a relação do que eu sigo, do que eu atuo. [...] Mas nesse
ponto de vista eu sou evangélico, sigo a Cristo, eu quero a
salvação pela fé, pelo amor (E.V.C.S).
A partir de sua transição das gangues para o Hip-hop, Rick passou por
um processo de conscientização, em que desenvolveu um posicionamento crítico político-social. Perante esse contexto, é possível afirmar que houve uma
transformação de valores em sua vida, em que de jovem delinquente, líder de
uma gangue, passou a ser um militante comprometido com as lutas sociais, e
referência dentro um grupo gospel. O processo pelo qual Rick passou não anulou suas respectivas identificações anteriores, apagando aspectos anteriores
da sua personalidade, mas resignificou, ou seja, o caráter de liderança de Rick,
exercido anteriormente na prática da “gangue de rua”, agora era resignificado e
canalizado para o grupo social, visto que o caráter de liderança exercido outrora na gangue, agora fora direcionado para sua atuação no grupo BRG.
Rick se apresenta como um jovem que exerce posição de fundamental
influência dentro do grupo para os outros jovens, que, em alguns discursos,
verbalizam a mudança e a presença constante de Rick nas atividades exercidas
pela BRG. Rick afirma “que o problema não é ter dinheiro, mas ter ocupação, lazer
e educação de qualidade para a juventude da periferia”. Por isso, acrescenta em
um diálogo informal que o que tem por objetivo não é “se mudar e sair do bairro
onde mora, é lutar por melhores condições de vida na periferia, por oportunidades de lazer, educação e trabalho para população”. Rick observa no movimento
Hip-hop a possibilidade de mudança da exclusão social em que se encontram
inseridos os bairros periféricos. E assim como conseguiu mudar sua trajetória de
vida, por meio do Hip-hop, da BRG, se dedica a mudar a história de outros jovens
que se encontram em situações semelhantes pelas quais já passou.
187
Universidade da Amazônia
Nós de bairros de periferias, não temos acesso à muita
coisa de que deveríamos de ter acesso.O fato não é não ter
dinheiro, é ter algo onde você possa se interessar por uma
coisa, desenvolver um esporte, um lazer, algo que te deixe
inserido por algum tempo, o barato é esse, é crescer naquilo
que você quer fazer, uma educação que te prenda de verdade
na frente do professor [...]. Agora a BRG é algo que eu tenho,
um lazer com meus amigos, trabalho com o Hip-hop, que é
algo que eu gosto muito. Os outros jovens que não tem
isso, não tem mais nada. O que eles vão fazer? Vão ali
buscar aquilo que está ao alcance deles, que é se divertindo
de uma forma errada se envolvendo com brigas, com drogas,
com uma série de coisas que vão levar ele pra cadeia.
Ser Hip-hop é compromisso, é cantar o que eu vivo e o que
o jovem da periferia vive, é a minha vida, é o que eu gosto,
é o que eu faço, pretendo fazer até os meus cem anos. E se
um dia eu não puder mais cantar, que os outros cantem,
que os outros faça, e possam aprender e ensinar.
3.4.2 Quadrilha Junina “Flor do Paraíso”: a Expressão do Folclore por meio da
Dança e da Música no Urbano Periférico de Belém
3.4.2.1 Contextualizando o Universo Urbano Periférico de Belém
3.4.2.1.1 Periferia: construção das relações sociais e identidade
Segundo Ledrut (1971), a sociologia urbana considera que a cidade
estabelece diferenciações, não só no que tange ao espaço-ambiental, mas também em relação ao social, que não se restringem a questões de grupos ou de
classes. Sociologicamente, as partes como lares, vizinhanças e bairros assumem especial relevo na composição da coletividade urbana chamada cidade.
Por sua vez, o bairro é assim entendido pela sociologia urbana como
um fenômeno relacionado às coletividades urbanas complexas, que interpõem
coletividades intermediárias entre as formas de agrupamento primárias (família e vizinhança) e a cidade. O bairro seria um agrupamento que se sobrepõe à
vizinhança36, sendo mais amplo que esta, embora guarde uma característica
comum em relação a este: ambos se formam a partir da aproximação espacial
dos indivíduos.
36
A vizinhança, ou unidade de vizinhança, é um fenômeno generalizado. Depois do lar, é a primeira unidade coletiva
local que encontramos. É o agrupamento de indivíduos, com residências próximas e que mantêm relações de auxílio
mútuo e visitas. A vizinhança se define pela habitação/moradia. Torna-se mais forte quando residência e lugar de
trabalho se associam.
188
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
Em certas circunstâncias, o bairro pode vir a assumir uma base sociológica profissional (comerciantes, etc.), étnica (judeus, negros etc.) ou social
(operários, favelas etc.). Contudo, a participação coletiva dos moradores do
bairro, organizada em associações, centros comunitários, dentre outros, é o
que melhor define um bairro; além do mais, essas são as formas de o bairro
ganhar personalidade e vida, ou seja, identidade. No Conjunto Satélite, tais
fatores são observados e funcionam como elementos integrativos, já que os
moradores frequentam a mesma igreja, a mesma praça, as mesmas escolas.
Isso se dá em decorrência de o conjunto estar localizado em um bairro distante
do centro urbano, no ambiente urbano periférico.
Assim, toda essa aproximação entre as pessoas no conjunto Satélite
cria ainda um sentimento de pertencimento favorável à construção da identidade, especificamente coletiva, e isso é claramente percebido no grupo de jovens
que compõem a Quadrilha Junina “Flor do Paraíso”, visto que eles participam
de muitas atividades em comum.
Vale ressaltar que o Conjunto Satélite, apesar de pertencer à zona periférica da cidade e apresentar certa estrutura organizacional (com lojas, igrejas, farmácias, escolas, posto médico etc.), vivencia uma realidade bem diferente dos bairros periféricos que se encontram dentro da primeira légua patrimonial de Belém, como no caso do Guamá, que, por estar dentro da cidade, é
mais assistido, além de dispor de acesso mais fácil a grandes redes de supermercados, farmácias, transportes, feiras equipadas e estruturadas, shopping
centers, dentre outros.
Portanto, ao considerar que a “sede” da Quadrilha Junina “Flor do Paraíso” fica localizada no Conjunto Satélite, parte integrante do Bairro do Coqueiro, tal bairro se constitui no campo social da pesquisa de campo do universo urbano periférico. E para que haja a compreensão quanto a sua origem e
formação, é preciso que se tenha em mente a estruturação e o contexto de
organização social excludente inserido no Município de Belém.
3.4.2.1.2 O processo de urbanização da cidade de Belém: fragmentos históricos
A urbanização de Belém se acelerou no período em que a Amazônia
viveu o “ciclo da borracha”, pois a cidade passou a exercer função de porto
exportador do produto do extrativismo para os países industrializados. Diante
desse fato, passou a ser alvo dos imigrantes nordestinos, pertencentes à massa
excluída de trabalhadores, que vinham em busca de trabalho na Amazônia. Esse
período tornou-se um marco no processo de urbanização de Belém. Sobre o
assunto, Tupiassu (apud RODRIGUES, 1996, p.121) elucida que:
Somente nas últimas décadas do século XIX é que o
pungente ciclo econômico da borracha e as graves secas do
Nordeste provocariam o que já foi denominado de
189
Universidade da Amazônia
“transumância amazônica”, isto é, o deslocamento em
massa de nordestinos para a Região Norte. Como principal
porto de exportação do látex e centro importador
intermediário dos bens consumidos no interior, Belém
registrou forte expansão populacional. Se em torno de 1850
exibia cerca de 20.000 habitantes, passaria no final do
século XIX a cerca de 100.000, ampliando sua área urbana
graças à ocupação das matas existentes ao fundo.
Antes desse período de crescimento populacional, Belém aparecia como
a quinta cidade mais populosa do Brasil, ficando atrás do Rio de Janeiro, São
Paulo, Salvador e Recife. Após esse inchaço populacional, passou a ocupar a
quarta posição.
Conforme Rodrigues (1996), não se deve perder de vista que esse processo acelerado de crescimento populacional e, consequentemente, urbano
estava estreitamente ligado ao sistema capitalista de produção. A cidade era
vista como espaço de aglomeração de trabalhadores e concentração de meios
de produção. Logo, o processo de urbanização de Belém passava a ter um caráter excludente, de segregação, antes não observado.
O desenvolvimento acelerado e o crescimento populacional de Belém
promoveram grandes modificações na infraestrutura da cidade. Ruas foram
pavimentadas, arborizadas e foi instalada a estrada de ferro Belém-Bragança.
Esses avanços fizeram com que houvesse a valorização de alguns espaços de
Belém, provocando o deslocamento de uma grande quantidade de pessoas, que
não mais podiam pagar os aluguéis que se tornavam mais altos, para áreas
distantes do centro. Essas pessoas tiveram que seguir em direção do nordeste,
passando a instalar-se em terrenos mais baixos e alagadiços, que não forneciam nenhum tipo de infraestrutura.
A partir da década de 50 do século XX, esse deslocamento se intensificou e se estendeu em dois vetores geográficos. O primeiro em direção às “baixadas”, que originaram as favelas, percebidas por Ferreira (apud RODRIGUES,
1996, p.181) como um “conjunto de habitações populares toscamente construídas e desprovidas de recursos higiênicos”. E o segundo deslocamento em direção à Rodovia Augusto Montenegro (eixo Belém-Icoaraci), para a BR-316, para
a Estrada do Coqueiro (eixo Belém-Ananindeua) e para lugares que ultrapassavam as marcas da Primeira Légua Patrimonial37, dando origem à periferia, que
Trindade (1998, p.123) entende ser “o espaço produzido socialmente, onde se
reproduz a força de trabalho de baixo poder aquisitivo, definindo ambientes
segregados no conjunto do espaço urbano”.
37
Segundo Rodrigues (1996), convencionou-se a denominar Primeira Légua Patrimonial a área de terra de aproximadamente 4.110 hectares, circunscrita num arco de quadrante de raio igual a uma légua brasileira ou légua de
sesmarias (6.600m), que tem como centro o ponto geográfico coincidente com o local onde a cidade se originou.
190
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
Na década de 60, no período marcado pelo governo militar, esse processo de deslocamento para as terras além da 1ª Légua se intensificou com a
criação do primeiro conjunto habitacional, o NPI, localizado em São Braz, construído pela Companhia de Habitação do Pará - COHAB, que assentou uma grande quantidade da população que não tinha casa própria. Esses vetores de expansão horizontal foram estimulados a partir da localização dos novos empreendimentos industriais, tendo em vista a política dos incentivos fiscais do governo federal, e, principalmente, dos primeiros conjuntos habitacionais. A ideologia da casa própria dos governos militares foi responsável por atrair um
significativo número de pessoas para essas áreas, alcançando definitivamente
a chamada Segunda Légua Patrimonial.
Relativamente aos recursos financeiros necessários, os conjuntos habitacionais construídos pela COHAB dependiam do Governo Federal e/ou Estadual. No entanto, não era ela a única empresa a construí-los em Belém, pois o
Governo do Estado, por meio do Instituto da Previdência e Assistência dos
Servidores do Estado do Pará - IPASEP, também veio a empreender conjuntos
habitacionais, com recursos captados, em sua maior parte, do Banco Nacional
de Habitação – BNH, para assentar os funcionários públicos do Estado que não
possuíam casa própria.
Dentre os conjuntos habitacionais construídos pelo IPASEP, em Belém, destaca-se os Conjuntos Cordeiro de Farias, Stélio Maroja e Nuneslândia (hoje, Satélite), localizados na Segunda Légua, na Rodovia Augusto Montenegro. Vale ressaltar
que esses lugares onde foram assentados os conjuntos habitacionais, além de
distantes, eram de difícil acesso, dispondo de poucos serviços e equipamentos
urbanos, de tal forma a deixar patente a exclusão socioambiental da cidade.
3.4.2.1.3 Periferia e exclusão socioambiental
Como se pode observar, a cidade de Belém se formou em um espaço
geográfico com sérias limitações ao seu crescimento, haja vista, encontrar-se
circunscrita entre a Baía do Guajará e o Lago do Piriá Jussara, com diminutas
áreas salvas de alagamento, denominadas sítios altos, enquanto grande parte
do seu território é formada por áreas de várzeas38, conhecidas como baixadas.
Essas áreas estão sujeitas a constantes cheias e inundações.
Até a segunda metade do século XX, a população concentrou-se nos
sítios altos. Mas, ante ao crescimento demográfico acelerado decorrente dos
projetos de integração do espaço amazônico, as áreas de baixada passaram a
sofrer a ocupação por uma população de baixa renda. Souza, 1992 (apud RODRIGUES, 1996, p.163) considera que as baixadas são:
38
As áreas de várzeas das bacias hidrográficas de Belém são: a) Una; b) Armas e do Reduto; c) Comércio, Tamandaré
e São José; d) de drenagem da Estrada Nova; e) Igarapé do Tuncunduba.
191
Universidade da Amazônia
[...] espaços ocupados por famílias numerosas, de baixa
renda, possuindo exiguidade de áreas públicas, tais como
ruas e estiva estreitas e praças de diminutas dimensões,
formando aglomerados carentes de infraestrutura e de
equipamento urbanos.
Enquanto isso, a população de alta renda concentrava-se nos sítios altos39, onde a especulação mobiliária eleva sobremaneira o valor da terra nessas
áreas, fazendo com que haja uma concentração demográfica, sobretudo vertical.
A valorização dessas áreas se deve também ao fato de elas terem recebido, ao
longo do tempo, os investimentos em infraestrutura do Estado, concentrando
grande parte dos serviços públicos. No entanto, a densidade demográfica das
áreas de baixada é muito maior, pois a escassez de áreas destinadas à habitação
concentra famílias numerosas em lotes pequenos, havendo casos de barracos
construídos em espaços menores que 50,00 m² (RODRIGUES, 1996, p.181).
Assim, as baixadas, por conta da densidade demográfica, carência de
infraestruturas e de serviços públicos, surgem em meio a um processo de favelização. Para Campos Filho,1992 (apud RODRIGUES, 1996), esse processo comum nas cidades do Brasil é inerente ao modo de produção capitalista, pois:
Nesse tipo de sociedade, a população e as atividades
econômicas se distribuem no solo urbano obedecendo à
‘regra básica’ segundo a qual quem tem maior poder
aquisitivo melhor se localiza na estrutura da cidade, seja
em relação ao ambiente de trabalho, à oferta de serviços
urbanos, comércio e especialmente cultura e lazer
(RODRIGUES, 1996, p. 182).
Portanto, a favela carece de investimentos governamentais na infraestrutura e na rede de serviços públicos. Por outro lado, ao longo do tempo, o
Estado tem seguido um modelo de desenvolvimento que destina esses investimentos e serviços apenas aos centros, onde reside a população de alta renda; contribuindo, dessa forma, para o agravamento da desigualdade socioambiental.
Campos Filho, 1992 (apud RODRIGUES, 1996, p.182) compreende que o
processo de segregação espaço-ambiental da população de baixa renda, desenvolvido em Belém, a partir de 1950, divide-se em dois vetores: a ocupação
das áreas alagáveis e a periferia geográfica. No primeiro caso, a população de
baixa renda passou a ocupar as áreas de baixada, vivendo em condições deploráveis de vida, sujeitas a enchentes e inundações, onde proliferam doenças
infectocontagiosas. No entanto, segundo Souza,1992 (apud RODRIGUES, 1996,
p.167), esse processo significa também uma economia com transporte, em ra39
Segundo Souza, 1992 (apud RODRIGUES, 1996), essas áreas correspondem aos bairros do Comércio, de Nazaré,
de Batista Campos, da Cidade Velha, do Reduto, do Umarizal, de São Braz e do Marco.
192
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
zão da proximidade do centro de negócios, em que a maioria trabalha nos
mercados formal ou informal. No segundo caso, a população passa a ocupar
áreas mais distantes do centro metropolitano, acompanhando o sentido da
estrada de ferro Belém-Bragança. Esse é o caso do Conjunto Satélite.
Pertencente à zona urbana periférica, atualmente dispõe de transporte
urbano realizado por várias linhas de ônibus, que ligam o bairro a outros pontos
da cidade. A situação econômica da região é caracterizada por população de
média e baixa renda, havendo vários pontos comerciais e outras facilidades ao
redor, tais como: padarias, oficinas de carro e bicicletas, mercadinhos, salões de
beleza, locadoras, clubes sociais, lanchonetes, bares, depósitos de bebidas, escolas públicas e particulares, igrejas, farmácias, postos médicos e policiais,
revistarias e outros, como no caso do antigo Clube, hoje casa de shows e raves
“Parque dos Igarapés”, localizado entre as duas rodovias onde o conjunto se
insere. Em seu entorno, não há supermercados e feiras de grande porte, não
suprindo as necessidades da população local que se desloca para o centro da
cidade ou localidades próximas para realizar sua compra de gêneros de primeira
necessidade, incluindo vestuário. As habitações são construídas em alvenaria,
mas foram observadas moradias constituídas por apenas um cômodo, abrigando
grandes famílias em condições precárias.
Apesar de o Conjunto Satélite estar situado em uma região considerada
periférica e em seus arredores estarem presentes várias invasões, nele também
há condomínios fechados, o que caracteriza um contraste social marcante. Nele
estão presentes as questões da violência; dificuldades financeiras; baixo nível
de escolaridade; famílias incompletas, compostas por apenas um dos provedores (geralmente a mãe); elevados índices de consumo de drogas e de gravidez
precoce, decorrentes da falta de cultura, educação, noções de saúde, higiene;
dentre outros fatores.
Além do mais, o Conjunto Satélite, por se caracterizar como um bairro
afastado do centro urbano de Belém, não oferece as mesmas oportunidades em
relação a trabalho, lazer, escolarização, saúde. Isso se dá devido a uma série de
fatores, entre eles, a falta de políticas públicas voltadas a esses espaços e à população presente, que só adquire certos benefícios em períodos de eleições. Tais fatores comungam para a exclusão social e ao mesmo tempo para a segregação de uma
parcela da sociedade que vive, em parte, à margem da qualidade de vida.
Mesmo com todos esses problemas, algumas famílias vizinhas, moradoras desse conjunto, se organizam todos os anos na tentativa de promover algum
tipo de diversão com vista à satisfação pessoal e dos moradores do conjunto.
Buscam, por meio do folclore popular, reunir o máximo de jovens possível para
colocar a Quadrilha Junina “Flor do Paraíso” nas ruas, tornando assim vivo o
folclore, que teve sua origem na Inglaterra e foi trazido para o Brasil pelos colonizadores, mas que recebeu influências do povo brasileiro, modificando a dança de
acordo com a região em que se encontra (assunto este que será tratado a seguir).
193
Universidade da Amazônia
3.4.2.2 A Quadrilha Junina
A quadrilha junina enquadra-se na formação artística caracterizada
como manifestação popular e cultural, transmitida de forma oral e por meio da
dança, repassada de geração a geração por intermédio da tradição e do folclore. Nesse sentido, Loureiro (2001) elucida que:
[...] o folclore costuma ser definido como um amplo conjunto
de tradições e crenças, de lendas, de conhecimentos, de
visões do mundo, expressas em provérbios, canções, cantos,
costumes, lendas, atividades artísticas representativos de
uma época ou região (LOUREIRO, 2001, p. 40).
Assim, percebe-se que a quadrilha recebe influências da região em que
é dançada, ou seja, a quadrilha que se apresenta no Estado de São Paulo, por
exemplo, não possui as mesmas características das quadrilhas do Pará.
No Brasil, a quadrilha ganhou características diferentes. Estudiosos na
área assinalam que essa manifestação folclórica surgiu na Inglaterra, por volta dos séculos XIII e XIV, onde era chamada de country dance e que mais tarde foi
absorvida pela França com algumas modificações. Com a Guerra dos Cem Anos
entre a França e Inglaterra, ocorreu a transferência cultural que levou a quadrilha aos palácios franceses. Neles recebeu a denominação contredance (uma
dança em que os pares executam a coreografia, frente a frente ou, na linguagem
francesa, vis-a-vis), e se tornou uma dança nobre, que se espalhou rapidamente
por toda a Europa, fazendo-se muito conhecida nas cortes europeias, inclusive
na portuguesa. No século XVIII, ela foi a grande dança protocolar de abertura
dos bailes das cortes.
À medida que a dança se popularizou, principalmente no Brasil e em
Portugal, o nome “quadrilha” foi usado, conforme uma terminologia utilizada
na Espanha e Itália, que identificava a contradança dançada por quatro pessoas. Dessa “quadrilha” derivou a “quadrilha geral”, com um número bem maior
de pares, variando com o espaço oferecido para a dança.
No Brasil, a quadrilha surgiu junto à colonização, principalmente nas
regiões Sul e Centro-Oeste, onde foi muito forte a influência europeia, com
fortes características das tradições e modos franceses, ingleses e portugueses.
Posteriormente, suas variantes espalharam-se por todo o país, e adquiriu caracterizações e traços da cultura popular, definindo-se como quadrilha caipira, principalmente no interior paulista, em Minas, na Bahia e em Goiás, com
extensão para todo o norte e nordeste do Brasil.
Hoje, as quadrilhas são muito importantes em Belém, designando traço
forte da cultura popular regional amazônica, uma vez que suas coreografias e
vestimentas apresentam características amazônicas, tais como: raízes cheirosas (patchouli, priprioca), peneiras, abanos, tipitis (objeto de palha trançada,
194
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
utilizado para retirar o leite e tucupi da mandioca e separar a massa para
fabricação da farinha), chapéus artesanais feitos de palha, cuias, além de letras de músicas feitas geralmente por compositores paraenses. Assim, a cultura popular pode atravessar a cultura de massa, tomando seus elementos e
transfigurando esse cotidiano em arte.
Em razão disso, a Prefeitura Municipal de Belém, por intermédio da
Fundação Cultural do Município de Belém - FUMBEL e do Centro Cultural Tancredo Neves - CENTUR, vinculado à Secretaria de Cultura do Estado do Pará, vem
realizando concursos anuais, que se demarcam como festivais muito concorridos e que movimentam toda a cidade. Para tanto, os grupos folclóricos da
região investem um grande período do ano nos ensaios e apresentações com o
objetivo de obter os primeiros lugares desses concursos, para tornar o nome do
grupo folclórico mais conhecido e oportunizar apresentações em outras localidades ou mesmo em outros concursos fora do município.
Por sua vez, o sentido da dança da quadrilha está ligado às coisas da
região e aos sentimentos de alegria e amor. No entanto, também é a dança da
conquista, que possui em sua estrutura a tradição de juntar namorados e casais, os quais carregam consigo a tarefa de repassar e preservar o valor do
cultivo das tradições e da sabedoria artística popular. É considerada ainda
como uma dança de rua com caráter de exposição e reconhecimento público
dos dançantes. Além do estímulo que a dança provoca nos jovens, há uma outra
conotação por trás, a oportunidade de eles saírem após os ensaios, uma vez que
os momentos de lazer são limitados no Conjunto Satélite. Para esse fim, há
apenas a praça como ponto de concentração, alguns barezinhos, a porta de
suas casas e dos colegas, para os corriqueiros bate-papos, e acesso limitado a
clubes existentes nas proximidades.
Outro aspecto importante é que a dança tem por característica ser um
evento noturno, visto que até os ensaios ocorrem principalmente à noite, em
horário tardio já que muitos dos participantes trabalham e estudam. Sabe-se
que a dança de quadrilha espalhou-se por todo território brasileiro assumindo
características peculiares a cada região.
Especificamente em Belém do Pará, sem poder realizar a pesquisa junto
às 120 quadrilhas juninas registradas, escolheu-se a Quadrilha Junina “Flor do
Paraíso”, por estar inserida nos objetivos do projeto maior e por se encontrar
numa região urbana periférica, objeto do estudo em questão.
3.4.2.3 A Quadrilha Junina “Flor do Paraíso”
Segundo relatos, a Quadrilha Junina “Flor do Paraíso” foi fundada no
dia 05 de junho de 1980. Inicialmente, seu nome era “Quadrilha da Tia Dora e
Compade Zeca” por serem os idealizadores e fundadores. A Quadrilha começou
com uma brincadeira de rua para animar a vizinhança, pois os moradores, na
195
Universidade da Amazônia
tentativa de promover diversão, mobilizavam-se para preencher a falta de lazer
no Conjunto Satélite.
No ano seguinte a sua criação, Tia Dora e sua família, formada por
matriarcas40, decidiram mudar o nome para “Flor das Dez”, em decorrência de
os ensaios serem realizados na Rua WE 10 do Conjunto Satélite. Entretanto, o
referido nome também não satisfez ao grupo por muito tempo. Durante um dos
ensaio, uma das dirigentes da quadrilha junina disse ao grupo que gostaria de
mudar o nome. Foi então que um dos brincantes, chamado Edvan, sugeriu Quadrilha Junina “Flor do Paraíso”. Acatado e aprovado por todos, o nome permanece até os dias atuais.
A “Flor do Paraíso” tem mais de 20 anos de existência e destaca-se entre
as melhores quadrilhas da região por sua originalidade, criatividade, pois, de
acordo com as transformações no cenário social, ela também tem sofrido evoluções e mudanças na coreografia, sofisticando-se conforme as exigências dos
concursos, mas a quadrilha busca manter a tradição na utilização de tecidos e
enfeites, que caracterizam a quadra junina, uma vez que prima pela manutenção da tradição.
FIGURA 16: Quadrilha Junina “Flor do Paraíso”
Fonte: Quadrilha “Flor do Paraíso”
No início, a quadrilha se apresentava com cerca de 30 a 40 brincantes
adultos, cujo perfil era marcado pela união, pelo respeito, pela disciplina e pela
responsabilidade, conforme se observa no relato: “Bastava apitar, pronto!. Todos
40
De acordo com o dicionário Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, matriarca de matr (i) + arca S.f. a mulher, considerada como base ou chefe da família.
196
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
corriam porque sabiam que era hora de ensaiar. Naquela época eram obedientes,
cumpridores de horários e das normas da quadrilha”. (EDUCADORA).
Ao longo do tempo, muitas transformações ocorreram. Assim como seu
nome mudou, também mudou o perfil da quadrilha, à medida que muitos brincantes deixaram de dançar, e os novos, agora mais jovens, com costumes, valores e hábitos diferentes, passaram a fazer parte da quadrilha, modificando sua
dinâmica interna. Isso em virtude de os brincantes, cada vez mais jovens, não
terem o mesmo respeito que os antigos brincantes tinham em relação à atividade. Sobre o assunto, uma das atuais educadoras do grupo, em seu depoimento,
deixa transparecer claramente essas mudanças quando revela que:
Hoje temos que ter tato para chamar atenção, muitos não
aceitam. Mudou também a maneira de vestir, as moças
vêm quase nuas, shorts curtos demais e tem que haver
limites, muitos não gostam. Há o uso e abuso dos palavrões.
São essas coisas que quando lembramos do começo da
quadrilha, dos primeiros brincantes, percebemos que as
mudanças foram radicais (EDUCADORA).
Diante desse relato, compreende-se que os educadores ficam chocados e
decepcionados com a perda de valores, hábitos e comportamentos por parte dos
brincantes da Quadrilha Junina “Flor do Paraíso”. No entanto, esses comportamentos são trabalhados pelos coordenadores e isso em nada vem prejudicando
as apresentações durante a quadra junina, o que a torna atualmente, bastante
conhecida em virtude de, ao longo do tempo, ter se apresentado fora do seu bairro
de origem e participado de concursos promovidos especialmente pela FUMBEL.
Dentre diversos aspectos, a Quadrilha apresenta figuras marcantes. Sua
fundadora, Tia Dora, continua contribuindo para a manutenção da Quadrilha
Junina “Flor do Paraíso”. Já o Compadre Zeca, outro fundador, há anos não participa mais por residir distante do bairro. Outra figura muito importante é Dona
Margarida (Vó), senhora de 84 anos, considerada a matriarca da família, mãe da
Tia Dora, Neneca e avó da Mariana. É pessoa que todos os brincantes tratam com
muito respeito e de quem tomam a bênção. Representa o esteio familiar. Pessoa
de sabedoria popular e espiritual muito grande, ela é consultada em tudo, além
de ser conselheira e benzedeira. É católica devota de Frei Daniel.
Hoje, a quadrilha apresenta uma estrutura organizacional que conta
com a participação de 5 educadores ou coordenadores, a saber: Sandra (Neneca)
coordenadora geral, cuja função é de mostrar os limites, estabelecer diálogo
aberto, organizar e planejar juntamente com os demais membros da coordenação os rumos que serão tomados para a apresentação da Quadrilha; Mariana
(filha da fundadora da quadrilha, ex-brincante e também uma das coordenadoras do grupo) é a coreógrafa, que cria alguns passos novos a cada ano; Flávia,
estilista que, anualmente, desenha as novas fantasias; Marcador Júnior, pessoa
197
Universidade da Amazônia
que garante a disciplina no grupo e marca cada passo a ser tomado na dança de
quadrilha durante as apresentações, é a pessoa que representa os laços da
família fictícia com a família real e tem um uma função de suma importância, pois
é ele quem orienta os casais, usando palavras portuguesas e afrancesadas.
Esse grupo tem como principais objetivos apresentar o fortalecimento
do folclore no Estado do Pará e conquistar a vitória no concurso da FUMBEL, o
que faz com que eles ensaiem com garra e determinação, pois vencer o concurso
é ganhar status e ser respeitado por todos os outros grupos de quadrilha.
3.4.2.4 Percepções Gerais sobre a Quadrilha Junina “Flor do Paraíso”
Existem em Belém dois tipos de quadrilha junina: uma de caráter mais
estilizado (profissional) e outra que atua de forma mais tradicional.
O primeiro tipo, na maioria das vezes, possui um patrocinador influente e, consequentemente, tem maior poder aquisitivo, sendo comumente conhecidas como as quadrilhas do centro da cidade. Suas coreografias sofisticadas
fogem do padrão tradicional das quadrilhas interioranas, que popularmente
receberam o nome de “quadrilhas caipiras”.
Já o segundo tipo de quadrilha é repassado de geração a geração, e
atualmente são compostas por filhos, netos e, até mesmo, em alguns casos, bisnetos, de antigos brincantes. Essas são as quadrilhas que primam pelos hábitos
e costumes, mas que evoluem de acordo com as transformações locais. Não possuem patrocinador e geralmente estão situadas na zona urbano-periférica.
Durante o acompanhamento da quadrilha, foi realizada a aplicação de
formulários com 14 jovens, representando 63% dos integrantes da quadrilha.
Desse formulário foram extraídos aspectos objetivos sobre o perfil social, além
de outras percepções sobre os jovens.
3.4.2.4.1 Par de brincantes da flor do paraíso
É evidente que por questões logísticas não foi possível entrevistar todos os membros. Mas, no que tange ao quesito gênero, é importante ressaltar
que, dependendo do momento e da necessidade, os papéis podem ser trocados
de forma a compor o maior número de pares. Meninos podem fazer o papel de
meninas e vice-versa, com total aceitação por parte do grupo (ver item: Quanto
aos conflitos internos). De qualquer forma, observou-se que o grupo, na sua
totalidade, é representado, na grande maioria, por meninas e/ou mulheres,
pois a coordenação se faz presente em número de quatro. No entanto, há uma
preocupação geral, por parte dos jovens brincantes da quadrilha e dos coordenadores, em enfatizar que há a comunhão da idéia de que todos devem receber
tratamento igual, até mesmo os jovens pertencentes à família dirigente e de
fundação da “Flor do Paraíso”.
198
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
3.4.2.4.2 Quanto ao gênero e idade
Segundo Heilborn (1998), apesar das evoluções e transformações ocorridas durante a trajetória humana numa sociedade completamente antagônica
e contraditória, a questão do gênero tem sido alvo de muitas discussões não
somente baseadas numa perspectiva histórica, que consequentemente fundamenta essa relação, mas também sob o olhar de uma sociedade em que os
papéis sociais são definidos a partir dessa relação de gênero. Para tanto, o
autor explicita que tal questão é marcada pela trajetória histórica das sociedades, apresentando um diversificado quadro situado no tempo e no espaço em
que o indivíduo se insere.
Nesse sentido, compreende-se que a constituição dos gêneros é colocada como propriedade distinta, ou seja, antes do capitalismo essa questão do
gênero não era vista na sociedade. Somente após a Revolução Industrial, quando homens e mulheres passaram a desenvolver atividades semelhantes, essa
hierarquia se acentuou. Após esse advento, o homem passou a ser questionado
e, por intermédio da Declaração Universal dos Direitos do Homem, foi anunciado que todos eram iguais perante a lei. Então, o capital vai buscar uma diferenciação para promover a desigualdade, e essa diferença ele vai encontrar na
natureza do homem e da mulher, ou seja, no sexo.
Diante do exposto, à medida que as transformações e mudanças ocorreram no cenário social das diferentes civilizações, a ideologia apregoada aos
sexos, que colocava o homem na condição de superioridade e a mulher na
condição de inferioridade, muda a largos passos. Um bom exemplo é o grupo de
jovens da Quadrilha Junina “Flor do Paraíso”. Nela não há preconceitos quanto
aos sexos. Pelo contrário, apesar de a dança ser realizada em pares, as mulheres estão, em grande maioria, na coordenação. Além do mais, a direção é formada por mulheres, e apenas um homem faz parte dela. Desse ambiente emanam
regras, respeito, disciplina, solidariedade, amizade, dentre outros valores por
elas orientados, visando auxiliar na formação integral dos jovens. Assim sendo, por ser a quadrilha uma dança folclórica, caracterizada por um grupo de
pessoas que se apresentam em pares, a pesquisa foi realizada com 14 jovens: 7
do sexo feminino e 7 do sexo masculino.
A idade dos jovens brincantes na Quadrilha Junina “Flor do Paraíso”
varia bastante, de 7 a 29 anos, mas a maioria é composta por jovens de 16 a 20
anos. É importante apontar que a pesquisa contemplou os 32 integrantes da
Quadrilha Junina no ano de 2003, haja vista que, esse número não é permanente, modificando-se a cada ano. No entanto, essa variação é decorrente da falta
de um número significativo de jovens que gostem de dançar nas quadrilhas,
visto que muitos debandam e acabam se envolvendo em outros grupos de dança
(balé, danças de salão, baile funk, entre outras). Outro aspecto que contribui
para essa diversificação de faixa etária reside na ideia negativa que muitos
199
Universidade da Amazônia
familiares constroem sobre dançar em quadrilhas, como: o gosto pela dança
pode ser prejudicial aos estudos para ambos os sexos, namoros começarem
muito cedo e cuminarem em casos de gravidez precoce; fatores esses que contribuem para que muitos jovens não cheguem até a “Flor do Paraíso”. Desse modo,
as dificuldades enfrentadas, para se conseguir pelo menos um número mínimo
exigido nos concursos da cidade de Belém, têm aumentado ano após ano.
Assim, é possível inferir que esse tipo de manifestação mobiliza, em
maior parcela, os jovens recém-saídos da adolescência, provavelmente em decorrência da maior autonomia e do menor nível de responsabilidades com o
outro, características próprias dessa idade.
Vale ressaltar que a escolha de jovens nessa faixa etária ocorre devido
à necessidade de conhecer e estudar a realidade enfrentada por eles quanto a
condições de moradia, distância dos centros urbanos, o que inviabiliza o acesso à educação e à alimentação de melhor qualidade, as oportunidades em fazer
cursos paralelos, como os de língua estrangeira e informática. Além do mais,
contempla a fase em que os jovens estão em formação de identidade, em busca
de autoafirmação, por ser marcada por conflitos e, ainda, por caracterizar a
transição entre o deixar de ser “criança” e passar a ser “adulto”.
3.4.2.4.3 Grau de escolaridade
Ao se analisar o dado referente à escolaridade, observa-se que 36% dos
jovens apresentam ensino fundamental incompleto e, na mesma proporção,
outros desses jovens apresentam ensino médio incompleto, em escala menor
de 14%, alguns jovens já possuem ensino médio completo e outros, na mesma
proporção, apresentam ensino superior incompleto.
Ficou claro que muitos desses jovens, principalmente aqueles que permanecem no ensino fundamental incompleto, apresentam problemas de distorção de idade, geralmente em decorrência da necessidade de trabalhar cedo
para complementar a renda familiar; repetência ou o simples descaso pelo
estudo. Deve-se considerar também o contexto em que esses jovens estão inseridos e a realidade local vivenciada cotidianamente, uma vez que o reduzido
número de escolas no bairro provoca filas enormes, para se conseguir uma
vaga, dificultando o ingresso e a permanência de muitos jovens.
3.4.2.4.4 Meios de comunicação mais utilizados
No que diz respeito ao meio de comunicação mais utilizado pelos jovens, os gostos foram bastante diversificados. Como esperado, a televisão surgiu em primeiro lugar com 39% das respostas apresentadas, seguida do rádio
com 18%, já 14% das respostas destacaram as conversas, 11% apontaram revista e jornal e apenas 7% das respostas enfatizaram o telefone.
200
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
Nesse aspecto, os resultados não apresentaram quaisquer surpresas,
visto que a televisão é o meio de comunicação mais utilizado em todo o Brasil.
No entanto, é interessante destacar que apenas 11% das respostas apresentadas indicam a imprensa escrita para se informarem, demonstrando a pouca
importância dada pelo público jovem à leitura, além de corroborar a análise
sobre o grau de escolaridade.
Diante do exposto, vale ressaltar que esse percentual de respostas que
enfatizam a televisão como meio de comunicação mais destacado é pequeno se
comparado à região brasileira como um todo. No entanto, esses jovens absorvem menos os efeitos que a mídia causa na vida das pessoas e, por essa razão,
encontram-se ainda muito arraigados à tradição.
3.4.2.4.5 Lazer preferido
Outro aspecto enfatizado e, por sinal, também diversificado foi a forma de
lazer que os jovens buscam no seu cotidiano. Daí observou-se que parcela significativa dos jovens apontou tanto a TV quanto os amigos como forma de lazer, isto é,
54%; outros 20% apontaram o esporte como fonte de lazer do qual desfrutam quase
que todos os dias; 17% das citações indicaram o ouvir música; enquanto que a
Internet, a dança e o violoncelo alcançaram, cada um deles, 3% das citações.
Constata-se que a maioria dos jovens brincantes aponta as relações de
amizade como algo que dá prazer. Em muitos encontros, os pesquisadores observaram os grupinhos que brincavam, sorriam ou conversavam relaxadamente, nos momentos que antecediam aos ensaios. O envolvimento e as relações de
amizade pareceram ser muito fortes, aspecto esse confirmado durante as entrevistas (ver item: Quanto à inserção no grupo).
Estranhamente, a dança apareceu em último lugar com apenas 3% das
respostas. Parece evidente que os jovens não associaram a participação no
grupo de quadrilha a uma de suas atividade de lazer.
3.4.2.4.6 Moradia
Nesse caso, a maioria dos jovens, ou seja, 71% dos entrevistados, mora
com parentes e apenas 29% dos jovens residem com os pais.
Muitos deles são provenientes de lares com pais separados. No entanto, não foi possível avançar mais nesse assunto porque os jovens não deram
espaço de aprofundamento aos pesquisadores. Pode ser que tais sujeitos tenham ingressado na quadrilha junina por uma questão de rebeldia, mais autonomia, menos controle familiar, o que caracteriza uma fuga desse tipo de ambiente, fazendo da quadrilha junina uma família substituta.
Por outro lado, apesar de o grupo vir resistindo às dificuldades, a cada
ano vivencia situações de críticas por parte daqueles que se contrapõem ao
201
Universidade da Amazônia
grupo, como é o caso de pais que radicalizam seus pontos de vista ao construir
uma ideia negativa sobre quadrilhas juninas e proíbem seus filhos de participar da dança, especialmente meninas. Ocorrem também ciúmes, discussões e
“xavecos” por parte de pessoas que talvez gostariam de estar no lugar da coordenação, à frente de um grupo folclórico que já permanece há décadas, haja
vista que essa família vem exercendo total hegemonia sobre o grupo formado.
3.4.2.4.7 Família
No que tange à composição familiar, observou-se que há um número
bastante diversificado, que varia do não ter irmãos, como é o caso de dois
sujeitos entrevistados, até aquele que tem cinco irmãos.
É interessante registrar que a composição familiar de poucos membros
sugere característica própria da economia dos tempos modernos, porque constitui minoria aqueles que têm três ou mais irmãos. Isso porque desde as últimas
décadas, intensificaram-se campanhas educativas para diminuir o alto índice
de natalidade. Além do mais, as informações coletadas expressam que há uma
variação entre o número de irmãos de um jovem brincante a outro.
3.4.2.5 Algumas Percepções sobre os Jovens
3.4.2.5.1 Relação familiar
As relações familiares foram construídas e edificadas desde o começo
da civilização, ou seja, desde que o homem se fez homem. E é tida como um dos
aparelhos ideológicos de Estado, pois segundo Althusser (1998):
[...] os Aparelhos Ideológicos de Estado “funcionam”
predominantemente através da ideologia, o que unifica a
sua diversidade é este funcionamento mesmo, na medida
em que a ideologia, na qual funcionam, está de fato sempre
unificada, apesar da sua diversidade e contradições, sob a
ideologia dominante [...] (ALTHUSSER, 1998, p. 70).
Portanto, ela tem sua representatividade e legitimidade nas diferentes
sociedades.
De acordo com a literatura disponível, a família vem passando por
inúmeras mudanças e transformações nos diferentes contextos sociais. Nesse
sentido, a adolescência precisa ser compreendida na sua dinâmica, posto que
implica uma série de mudanças nos aspectos sociais, psicológicos/mentais e
biológicas. Desse modo, para Becker (1993, p.44), “o adolescente é um ser em
desenvolvimento e em conflito”. Assim, além dos conflitos normais da idade, o
adolescente convive com uma série de dificuldades, muitas vezes oriundas das
202
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
próprias relações familiares e das constantes transformações culturais.
Entretanto, verificou-se, ao extrair dos dados coletados nos relatos dos
sujeitos, uma característica importante: a família, pois, segundo eles, representa a base, o esteio, a estrutura da vida do ser humano.
Em geral, os entrevistados consideram boa a relação com familiares.
Apenas um dos sujeitos entrevistados se posicionou contrário aos demais, ao
dizer que considera a relação familiar “mais ou menos” e pontuou que apresenta problemas com a avó e com os pais, mas não revelou detalhes sobre o fato
Diante do exposto, Prado (1981) explicita que:
[...] apesar dos conflitos, a família, no entanto, é a “única” em
seu papel no desenvolvimento da sociabilidade, da
afetividade e do bem estar físico dos indivíduos, sobretudo
no período da infância e da adolescência (PRADO, 1981, p. 13).
Cabe ressaltar que os jovens da Quadrilha Junina “Flor do Paraíso”
foram criando vínculos fortes com a coordenação, que passou a ser vista e tida
como uma espécie de família substituta, por favorecer aos sujeitos uma relação
de afetividade, amizade, padrões de comportamento, regras de conduta, lições
de vida, entre outros aspectos importantes que colaboram para formação integral deles. Muitas vezes, esses jovens não vivenciam na própria família uma
relação tão saudável quanto a apresentada com as coordenadoras do grupo.
Fora isso, os jovens contam com a presença marcante da “Vó” que apresenta
toda uma experiência, vivência e trajetória de vida e com a qual os jovens têm
grande sintonia e respeito; visto que o tratamento emanado dessa família é de
carinho, respeito, compreensão e de aceitação do outro. Para eles, todos fazem
parte da família e não diferem os jovens uns dos outros.
3.4.2.5.2 Religiosidade
Para Zagury, (1999, p. 78) a adolescência é uma fase de questionamentos e de grande desenvolvimento intelectual. O jovem desenvolve a capacidade
de raciocinar abstratamente, o que inclui analisar teorias, criticá-las, criar
novas teses, levantar hipóteses, questionar, refletir, filosofar. Preocupa-se com
o mundo, com os problemas sociais, com a relação do homem com o mundo e
do homem com o homem. Segundo Jean Piaget, é por volta de 12 anos que o ser
humano entra na fase das operações lógicas ou formais, quando alcança toda
sua capacidade de abstração.
A aquisição dessa nova capacidade leva à não aceitação passiva das
teorias que lhes são apresentadas. É fácil compreender, portanto, que, como em
relação com os demais assuntos, a religião passa também por fortes questionamentos. Ocorrem mudanças também nesse setor. Crianças que iam sempre à
igreja e assistiam à missa junto com a família, podem apresentar resistência a
203
Universidade da Amazônia
essas atividades. Outras, ao contrário, podem ligar-se de forma até radical à
religião, criticando seus familiares pelo que consideram pouco apego religioso. Podem, ainda, demonstrar interesse por outras religiões, diferentes daquela
adotada pela família. É uma busca pessoal, um período de contestação, de
revisão e de profunda reflexão.
Segundo Zagury (1999), ao final do processo, o jovem adotará a sua
própria postura em relação ao assunto, fruto desses questionamentos. Poderá
assumir o mesmo modelo religioso da família, tornar-se alheio à prática religiosa ou mais apegado a ela que sua família.
Tudo isso é natural e faz parte do crescimento intelectual e afetivo. O
bom disso é que a maioria dos jovens segue a orientação religiosa da família,
evidentemente com variações pessoais. De modo geral, os princípios morais
que regem a maior parte das religiões, quando transmitidos sem dogmatismos
aos jovens, permanecem como norteadores de suas vidas.
Para tanto, Zagury (1999) afirma que o Brasil continua sendo um “país
de fé”, em que a maior parte dos adolescentes e jovens possuem alguma religião
e acreditam em um Deus. Entretanto, outros se consideram pouco religiosos,
não vivem a religião, isto é, não seguem os princípios e doutrinas de uma religião e frequentam a igreja esporadicamente. Há ainda outros que acreditam
não ser nada religiosos.
Tais aspectos foram observados na fala dos sujeitos entrevistados, dada
a importância da religião na vida das pessoas de modo geral, à exceção de apenas um dos entrevistados que revelou não professar qualquer religião. Mas, no
que tange aos demais, destacam-se expressões bastante enfáticas: “Religião é
tudo. Sem ela não seríamos nada” (JOVEM SÃO JOÃO) e “Religião é encontrar e
estar com Deus” (JOVEM SÃO MARÇAL) ou, ainda, “Para mim é o caminho que nos
leva a Deus. Conhecer os seus ensinamentos é a base para caminharmos corretamente e nos ajuda a discernir o bem do mal” (JOVEM SÃO PEDRO).
Por outro lado, questionados sobre a relação que fazem entre religião e
juventude, as manifestações sugeriram um caráter de caminho a ser seguido ou
busca desse caminho, por parte dos jovens em geral.
É assim [...] eu vejo dessa forma. Quando a religião traz o
jovem pra dentro da igreja, eu acho muito legal, pois o
jovem está muito perdido, muito afastado das coisas boas,
dos valores, dos pais, da família principalmente e só pensa
em festas, drogas, sexo. E a religião tem esse poder de
trazer o jovem para dentro dela, retira-lo das ruas, das
coisas erradas (JOVEM SÃO BENEDITO).
204
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
Ou ainda:
É que a religião nos ajuda a buscar sempre o melhor
caminho, nos orienta para a vida, ensina coisas sobre o
bem e o mal, sobre o amor, sobre a fraternidade. E hoje, a
gente vê tanto jovem sem direção, perdido mesmo, matando,
roubando, se viciando por falta também de formação cristã
(JOVEM SÃO PAULO).
Fica claro, por meio dos relatos acima expostos, que a religião exerce um
poder muito grande sobre a vida das pessoas, especialmente dos jovens de hoje,
que questionam situações e valores inculcados socialmente. A religião representa para eles a expressão do que pode vir a ser o certo, o caminho a ser seguido.
Diante do exposto, percebe-se que os jovens da Quadrilha Junina “Flor
do Paraíso” recebem influência da coordenação do grupo no que tange aos
valores transmitidos, aos padrões de comportamento, às regras de boa conduta e convivência em grupo.
3.4.2.5.3 Política
A esse respeito, os dados revelaram respostas diversas. Contudo, a grande maioria dos entrevistados não acredita na política, pois a veem como um mal,
conforme pode observar na fala de alguns entrevistados: “É sujeira. Não consigo
ver nas ações desses políticos a verdadeira essência da palavra política” ou “É
um jogo de interesses pessoais muito grande e pessoas disputando o poder”.
Apesar da opinião formada quanto à classe política brasileira, é claro que
falta aos jovens entrevistados uma visão mais ampla do que é política e dos benefícios que dela podem decorrer, quando praticada com seriedade, responsabilidade e espírito público. Provavelmente, essa lacuna decorre da falta desse assunto no
currículo escolar, em especial nos níveis fundamental e médio. Nesse sentido, observa-se que os jovens atribuem política apenas como partido e não, na maioria
dos sujeitos, uma leitura crítica e reflexiva do real significado de política.
3.4.2.5.4 Inserção no grupo
Percebeu-se que a maioria dos jovens chegou ao grupo por intermédio
dos amigos, colegas, parentes que já participavam do grupo ou por contingência diversa: “Eu tinha colegas dançando. Aí primeiro eu vinha e ficava olhando.
Depois estava faltando cavalheiro e então comecei a dançar e não parei mais”
(JOVEM SÃO MARÇAL). Dentre os vários relatos, destacam-se as considerações
tecidas por um jovem: “Dançar, tornar a quadrilha cada vez mais conhecida e
ficar entre as dez primeiras colocadas no concurso da FUMBEL” (JOVEM SÃO
PAULO). Por outras falas, parece ser esse um dos principais objetivos do grupo.
205
Universidade da Amazônia
Os jovens enfatizaram alguns aspectos positivos, com destaque para a
união dos seus componentes. Um dos entrevistados reforçou: “O grupo, apesar
de alguns momentos de conflito, é muito unido” (JOVEM SÃO PEDRO). Outro
jovem salientou: “As amizades, a oportunidade de aprendermos coisas novas. O
grupo ensina muito” (JOVEM SÃO LAZARO).
Quanto aos aspectos negativos, os jovens apontam as fofocas, as desavenças e intrigas.
Negativos? Tem assim um certo grau de desunião. Começa
assim entre as meninas bonitas que sempre rola um clima
de atração por parte dos meninos. Todo mundo quer ficar
ou namorar com essa menina. Aí rola aquela fofoca, rola
briga, enfim isso tudo a quadrilha tem, não é só a nossa
(JOVEM SÃO PEDRO).
Paradoxalmente, a união destacada como ponto positivo é questionada em determinados momentos, especialmente por conta de eventuais relacionamentos amorosos. Nesses momentos, entra em cena a coordenação.
3.4.2.5.5 Conflitos internos
Como anteriormente exposto, os jovens acreditam que os conflitos são
gerados, em sua grande maioria, por fofocas e desavenças causadas pelos
namoros entre os participantes. Em geral, são resolvidos por meio de conversa
entre os coordenadores e brincantes. Entre os relatos, destaca-se: “A gente sempre faz uma reunião, aí a gente joga tudo que tem de conflito no meio de discussões e o que tem para ser tirado a limpo. Para isso é necessária muita conversa”
(JOVEM SÃO FRANCISCO).
Logo, constata-se que os conflitos surgem devido à desagregação do
grupo, que pode se dar por causas diversas que ameacem a estabilidade das
relações existentes em um grupo coeso e importante para seus componentes, ou
quando se consolidam relações amorosas; pois, à medida que se estabelece
uma relação com um companheiro, reduze-se a relação com os demais.
Por outro lado, no que diz respeito às diferenças existentes no grupo, os
entrevistados revelaram que lidam normalmente, com naturalidade. Não costumam discriminar ninguém. Há, entre eles, componentes homossexuais que fazem sem nenhum problema o papel de mulheres e os homens que fazem pares
com eles, observam a situação sem problemas e sem discriminações. Diante
disso, fica evidente que existe espaço para diferenças no grupo, uma vez que
não são preconceituosos e consideram todos iguais. Quanto a esse aspecto, os
jovens elucidaram: “Normalmente, lá todo mundo aceita a diferença de todo
mundo. Se você é branco ou negro, se é homossexual, todo mundo se respeita”
(JOVEM SÃO PEDRO). Outro ainda argumentou que:
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ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
Com certeza, nós não descriminamos ninguém aqui, mas
tem-se o cuidado com as pessoas que ingressam na
quadrilha para que não sejam de gangues, viciadas e outras
coisas dessa natureza, apenas isso. No entanto, se elas
tiverem um comportamento saudável, que não tragam seus
problemas para dentro da quadrilha, que o propósito seja
dançar sem prejudicar, acho que também não tem problema
(JOVEM SÃO MATEUS).
É interessante notar que os jovens fazem clara distinção entre preconceito e preocupação em conviver com pessoas cujo comportamento social possa ser prejudicial a eles. Até mesmo o sentimento de “machismo”, muito comum
na região, não se faz presente, ou melhor, não foi observado ou mencionado
pelos entrevistados e não condiz a discriminação dos rapazes homossexuais.
Assim, conforme Zagury (1999), o homossexualismo sempre existiu e
aparece na maior parte das culturas conhecidas. Atualmente, assiste-se a um
movimento de revisão na forma de se abordar o problema. A luta hoje é para
não discriminar, não perseguir – aceitar.
Além do mais, são muito nebulosas as razões que levam ao homossexualismo. Há alguns séculos, por exemplo, na sociedade grega e persa, o homossexualismo era considerado normal e até valorizado. A mulher, segundo Zagury
(1999, p. 241), era considerada inferior, por ser iletrada e inculta; cabia-lhe
ficar lá pelos fundos da casa, criando filhos e cuidando do serviço doméstico,
da comida e servindo ao homem. A mulher era para a reprodução e o cuidado
com as crianças. Por isso era menosprezada. As trocas afetivas e intelectuais
ocorriam entre os homens.
Na Idade Média, o homossexualismo passou a ser desprezado e até
perseguido. Tanto que, na Segunda Guerra Mundial, sob o comando de Hitler, os
homossexuais, assim como judeus, ciganos, negros e comunistas eram mortos
e condenados à degradação.
Portanto, para Zagury (1999):
O comportamento sexual do ser humano é diversificado e
determinado pela interação complexa de vários fatores.
Está ligado a elementos de personalidade, conformação
biológica e à percepção do “eu” (self). Inclui a forma como
a pessoa interioriza o que é ser homem ou ser mulher e
reflete experiências do desenvolvimento com o sexo ao
longo de toda a vida (ZAGURY, 1999, p. 230).
Assim, percebe-se que a sexualidade se forma pela conjugação de
três fatores importantes: a identidade de gênero, a identidade sexual e o comportamento sexual. Ressalta-se que a primeira é definida de forma bem simples, é a
207
Universidade da Amazônia
percepção que a pessoa adquire, por meio de sua vivência diária, de que faz parte
do gênero masculino ou feminino. O menino, após tantas experiências, começa a
entender que ele é menino e que existem certos comportamentos que lhe são
próprios e o mesmo ocorre com as meninas. A identidade de gênero está relacionada diretamente à cultura pessoal e social. Ao passo que a identidade sexual
está relacionada à parte biológica, com características ligadas à formação física, genitália interna e externa, composição hormonal, gônadas e características
sexuais secundárias, que surgem na puberdade. Esses elementos corporais contribuem para que a criança identifique seu sexo biológico.
3.4.2.5.6 Processo educativo
A respeito do processo educativo, Freire (1998) ressalta, a priori, que o
homem, uma vez inserido num contexto histórico cultural, de acordo com o
tempo em que está situada sua ação e capacidade de refletir sobre suas condições no mundo, evoca sua consciência crítica; posicionando-se comprometidamente com a sua realidade, com intenção de nela se incluir e intervir, visto que
o homem é um ser de relações.
Quando trata do homem como um ser de relações, Freire (1997) o faz de
acordo com a sua natureza inacabada, logo sujeito por vocação e objeto por
distorção e que trava relações com a realidade. Esse homem retém conotações
de pluralidade, de criticidade, de consequência e de temporalidade.
A pluralidade nas relações do homem com o mundo se dá na proporção
em que esse homem responde aos desafios desse mesmo mundo, com sua criatividade e não se limita a respostas padronizadas. Além do que, somente o
homem é capaz de discernir, de separar, de distinguir uma coisa da outra, e de
travar relações incorpóreas.
Essas características das relações que o homem tem com e na sua realidade fazem dessas relações algo que transpõe a simples passividade. O homem cria e recria, integra-se em seu contexto, responde a desafios, auto-objetividando-se, discernindo; e; dessa forma; vai se lançando no domínio que lhe é
exclusivo, o da história e da cultura.
Assim, Freire (1997) dá ênfase à necessidade de uma educação que priorize as condições naturais do homem de ser sujeito e não objeto, sem deixar de
cuidar das particularidades de nossa sociedade em transição, considerando suas
mutações e contradições. Essa educação, por meio da conscientização crítica,
deve ser tal a ponto de poder libertar o homem de seu anonimato, proporcionando a sua imersão dentro do processo histórico no qual está enraizado.
Nesse contexto, a educação dos “sujeitos-sociais” deve preparar esse
homem para o exercício pleno de sua condição humana, envolvendo a formação intelectual, artística e profissional; visto que deve pleitear a sua inclusão e
qualificá-lo para um exercício de cidadania, imbuindo-o a participar ativamen-
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ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
te da vida social, política e econômica do país, num processo que deve partir de
todos, para realmente efetivar-se como construção de uma sociedade mais
justa e democrática.
Dessa forma, retomando as contribuições dos jovens brincantes da
quadrilha “Flor do Paraíso” por intermédio de seus relatos, percebe-se que,
quanto à formação profissional na dança, os jovens acreditam não existir nenhuma chance. Dançam pelo prazer que isso proporciona, mas oportunidades
de trabalho, profissionalismo, não há. Acham que o grupo é muito importante,
pois contribui para a formação pessoal, porque lá aprendem a respeitar o
outro, a conviver em grupo, a ser mais tolerantes, disciplinados e responsáveis,
a ser determinados. Nele se constituem amizades duradouras. O texto abaixo
exemplifica esse fato:
Quanto ao profissional nenhuma, quanto pessoal várias.
Uma delas que julgo importante é a troca de amizade, a
união que se estabelece no grupo, o senso de justiça e o
aprendizado que fica de muitas coisas, entre elas, aprender
a ser tolerante e a respeitar as opiniões alheias (JOVEM
SANTA LUZIA).
Nesse sentido, o exposto leva a comungar com as ideias de Aberastury
& Knobel (1981), quando argumentam que a busca da identidade na adolescência recorre como um comportamento defensivo à busca de uniformidade, proporcionando segurança e estima pessoal, emergindo assim o espírito grupal,
em que há um processo de identificação massificada, em que todos se identificam com cada um. Dessa forma, o fenômeno grupal adquire uma importância
transcendente já que se transfere ao grupo grande parte da dependência que
anteriormente era mantida apenas no espaço familiar.
3.4.2.5.7 Sonhos e perspectivas em relação ao futuro
Quanto ao futuro, os jovens têm sonhos muito heterogêneos. Dentre
esses, no entanto, o que mais se destaca é o estudo, que vai favorecer a formação, o emprego ou o trabalho, que depende do nível de instrução dos sujeitos.
Em seguida, vem a formação da família, ou seja, casar e ter filhos. Entretanto,
eles sabem que para realizar tais sonhos precisam estudar, se especializar e
trabalhar. Percebe-se que tais sonhos não são mera ilusão, mas fazem parte de
uma construção de vida em que os sujeitos nascem, crescem, se desenvolvem e
passam a conhecer coisas, praticar ações, comungar aprendizagens. Essa é
uma condição inerente a todos os seres humanos, independe de raça, religião
ou mesmo condição social e econômica.
209
Universidade da Amazônia
3.4.2.5.8 Juventude
De acordo com os dados coletados, os jovens têm concepções diferentes quanto ao conceito de juventude. Uns dizem que “é transformação, é aprendizado, é ter duvidas, é conquista, é mudança, é revolta” (JOVEM SANTA IZABEL).
Outros acreditam que “é uma coisa boa, é ser feliz, é ter alegria no coração, é ser
capaz de vencer desafios, é desfrutar de coisas com liberdade, é curtir a vida”
(JOVEM SANTA CECILIA) e/ou “É desfrutar das coisas da idade com liberdade,
desde que esta liberdade não fira os direitos e deveres, nossos e dos outros, e
que o jovem saiba usá-lo corretamente” (JOVEM SANTA TEREZINHA).
Nesse sentido, para Venturi e Abramo (2000, p.1), existem duas ideias
básicas que costumam estar presentes nas concepções modernas de juventude.
A primeira está em considerá-la uma fase de passagem no ciclo da vida, situada
entre o período de dependência, que caracterizaria a infância, e a posteriormente autonomia adulta. A segunda é a atribuição dos jovens a uma predisposição natural para a rebeldia, como se fossem portadores de uma essência
revolucionária. No entanto, não dá para descartar a ideia que os jovens da
Quadrilha Junina “Flor do Paraíso” fazem sobre juventude, a qual expressa
liberdade e, de certa forma, independência. Mas, também, expressam claramente as duas ideias apontadas pelos autores: a primeira por ser a juventude
uma fase do ciclo de vida humana; e a segunda por referendar uma predisposição à rebeldia, o que foi visto em alguns relatos dos jovens, especialmente ao se
tratar questões polêmicas como religião, política e família, por exemplo.
Quanto ao papel da juventude no Brasil, um dos jovens assim se colocou:
Eu diria assim, que o jovem hoje em dia não tem espaço, a
gente mostra um modo diferente de ver as coisas, de
trabalhar um modo legal e os adultos discordam no geral.
Nós temos uma maneira de ver e entender as coisas.
Pensamos, refletimos, compreendemos muitas coisas ao
nosso redor. Então, penso que o papel do jovem é estudar
para conhecer mais e mudar algumas coisas que estão
erradas. Resgatar e construir uma história, uma sociedade
melhor para as gerações futuras. Mais humana (JOVEM SÃO
MARÇAL).
Diante de um mundo globalizado, marcado pelo individualismo e pela
competitividade, percebem-se traços fortes de hostilidade e falta de humanização. Tal situação, muitas vezes, tem provocado nos jovens atitudes contrárias
aos padrões de comportamento, aos valores e aos hábitos inculcados socialmente e, até mesmo, impostos para serem seguidos e vividos como “verdades
absolutas”. Isso os leva a crer que muitas de suas ações são vistas como mera
distorção da juventude “difícil” e “problemática” dos dias de hoje. Para Aberas-
210
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
tury e Knobel (1981), “tal tendência se caracteriza pela necessidade do jovem de
começar a fazer parte do mundo adulto, tendo, então as raízes de seus conflitos
nas dificuldades em ingressar neste mundo”.
Além do mais, cabe salientar ainda sobre o conceito de ser jovem, que
os entrevistados destacaram, em geral, aspectos belos e positivos dessa idade,
também fortemente marcada pelas mudanças e transformações. No entanto, ao
buscar apresentar o papel dessa mesma juventude no Brasil, os mesmos entrevistados destacaram características negativas, tais como preconceito; falta de
recursos para o estudo; drogas; violência; diferença entre o que é ser jovem e
ser adulto; o descrédito nos jovens; a falta de espaço para se expressarem e
oportunidades de serem ouvidos; dentre outros. Talvez essa problemática tenha
sua origem no próprio contexto social e cultural em que vivem.
Tal realidade, ou seja, aquela das dificuldades vivenciadas pelos jovens, conduziu a relatos que destacaram a falta de mercado de trabalho, o
preconceito contra o jovem, pela idade, pela condição econômica, pela falta de
experiência.
A questão da pouca idade é um fator. As pessoas acham
que, por termos pouca idade, não sabemos das coisas. Às
vezes somos mais maduros do que nossos pais. Outra
dificuldade é que as pessoas não estão sabendo usar a
liberdade que têm e hoje o número de prostituição infantil
é muito grande, de jovens que dependem de drogas, as
gangues. Acho que tudo isso é gerado pela desestrutura
familiar. Devem ter outros fatores, mas eu considero esse
o número um (JOVEM SÃO PEDRO).
Quanto a ser jovem na Amazônia, um dos entrevistados explicitou em
tom de questionamento/insatisfação, “Por que na Amazônia? Poderia ser em
qualquer outro lugar, jovem é jovem, todos passam por essa fase. É normal ser
jovem na Amazônia, essa pergunta é meio preconceituosa” (JOVEM SÃO PAULO).
Enquanto em outros relatos, houve argumentos mais dispersos, em geral muito vagos: “Não sei. Depende do que as pessoas acham do conceito de
Amazônia. Tem muita gente que acha que aqui só tem índio. Por isso eu acho que
depende muito desse conceito” (JOVEM SANTA CECILIA). Outro jovem diz: “Ih!
Agora pegou! Ser jovem na Amazônia? Acho que é ser discriminado em outros
lugares, é ter menores chances de trabalho, de educação e de vida social. Sei lá!
É mais ou menos isso” (JOVEM SÃO JOÃO).
Evidentemente, quaisquer que sejam os questionamentos em relação à
Amazônia, algumas pessoas têm sérias dificuldades em responder, por ser um
assunto de grande complexidade em decorrência do contexto histórico-socialpolítico-geográfico não explorado nos diversos níveis de ensino, fazendo com
que o homem amazônico não tenha plena consciência de sua condição.
211
Universidade da Amazônia
3.4.2.5.9 Folclore
É importante notar a valorização e a necessidade de resgatar a tradição folclórica na região por meio da dança de quadrilha quando enfatizam que:
“Folclore é cultura do povo, tradição” (JOVEM SÃO MARÇAL) ou, ainda, “Folclore
é a arte de transmitir ao povo a tradição entre as danças e as artes” (JOVEM SÃO
PEDRO). Além de:
Pra mim são os dias de festas que acontecem no mundo
inteiro em determinada época do ano, como as quadrilhas
que se apresentam no mês de junho. Os bois, a marujada,
o carimbó, o siriá, o lundu e outras danças típicas de uma
determinada região (JOVEM SANTA IZABEL).
Ou então:
É uma cultura, uma coisa que infelizmente está sendo
esquecida, As pessoas deveriam dar mais valor ao folclore.
A gente vê que as próprias crianças nem se dão conta da
importância que tem o folclore da sua região. E os mais
velhos, por sua vez, nem repassam isso aos mais jovens.
Por isso é que nas épocas juninas, por exemplo, a
dificuldade em formar uma quadrilha grande é muito grande
também. Eu vejo o que as meninas passam para conseguir
jovens para sair na quadrilha. Muitos elas até bancam a
roupa (JOVEM SANTA BARBARA).
Percebe-se claramente que os jovens brincantes, ao enfatizarem que
folclore representa tradição de um povo, comungam com as considerações de
Loureiro (2001, p.40) quando define folclore como “um amplo conjunto de tradições e crenças, de lendas, de conhecimentos, de visões do mundo, expressas
em provérbios, canções, cantos, costumes, lendas, atividades artísticas representativos de uma época ou região”.
Portanto, percebe-se que para os jovens brincantes da Quadrilha Junina “Flor do Paraíso” existe uma relação positiva entre o folclore como expressão cultural deles mesmos, como se por meio da dança de quadrilha junina eles
pudessem expressar um pouco de suas identidades culturais, uma vez que é
algo que dá prazer. Durante a dança, eles se encontram, se realizam e gostam. É
a inspiração do belo, do natural, do que é bom para o corpo e para o espírito. É
ainda cultivar a tradição.
Outro aspecto relevante em seus relatos reside nas considerações acerca
de cultura, pois lutam, acreditam, primam para que essa não morra e, de certa
forma, suas considerações estão articuladas com Laraia (2002):
212
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
O fato de que o homem vê o mundo através de sua cultura
tem como consequência a propensão em considerar o seu
modo de vida como o mais correto e mais natural. Tal
tendência, denominada etnocentrismo, é responsável em
seus casos extremos pela ocorrência de numerosos conflitos
sociais (LARAIA, 2002, p. 72).
3.4.2.6 Outras Percepções sobre a Quadrilha Junina “Flor do Paraíso”
Após a sistematização dos dados coletados, objetivando ampliar o conhecimento obtido por meio dos formulários de pesquisa sócio-cultural e entrevistas semi-estruturadas, foi conduzida uma discussão em grupo focal. Essa
discussão, realizada em grupo de seis a dez pessoas e sempre em locais neutros, para possibilitar o afastamento, reduz as barreiras de comunicação. Após
o estímulo inicial, o coordenador do grupo procura manter o debate dentro de
um tema previamente estabelecido. Dados adicionais podem advir de entrevistas de grupos e de observações.
Assim sendo, participaram do grupo focal 11 brincantes, sendo 6 meninas (uma delas ex-participante do grupo) e 5 meninos (também um deles exbrincante). O local da reunião foi a escola “Centro de Estudos Intelecto”, situada no próprio Conjunto Satélite.
No entanto, a tentativa de entrada no grupo focal com o tema “família”
não gerou uma conversa maior, abordada por poucos dos integrantes, destacando-se a presença dos dois ex-brincantes. No entanto, quando a Quadrilha
Junina “Flor do Paraíso” passou a ser o foco da conversa, muitas colocações
foram obtidas.
Na fala dos integrantes da reunião, houve insistência no sentido de que a
Quadrilha proporciona a união das pessoas de maneira muito forte. Enfatizaram
a questão da motivação pela dança e pelas relações de amizade, que se estabelecem e permanecem mesmo após as apresentações. A Quadrilha, na opinião deles,
cria vínculos fortes. Entretanto, eles fizeram questão de frisar que essa união não
impede que os antigos brincantes recebam muito bem os novatos.
Dentre os desafios enfrentados, eles destacaram a falta de patrocínio, que
acarreta muitas dificuldades financeiras e também o preconceito que algumas
pessoas manifestam com relação à quadrilha. Alguns pais não deixam os filhos
participarem por medo de gravidez precoce, prejuízo nos estudos, baderna e outros
motivos alegados. Entretanto, como também dito pelos coordenadores, os participantes do grupo alertaram que durante os ensaios e apresentações o controle é
muito grande. Por outro lado, se depois dos eventos os jovens não vão direto para
suas casas e se envolvem em situações comprometedoras, não há como imputar a
culpa à quadrilha. No entanto, apesar desse preconceito, o grupo focal enfatizou
que há jovens brincantes que participam da Quadrilha apenas para poder sair ou
até mesmo fugir de casa, para ter algumas horas de simples lazer.
213
Universidade da Amazônia
Em relação à postura da população local, os integrantes da reunião
demonstraram também certa revolta pela falta de apoio, de espaço próprio
para ensaios. Assim, a quadrilha ensaia na sua rua e isso, às vezes, gera conflito em decorrência do barulho. Contraditoriamente, essa mesma população apoia
e aplaude as apresentações da “Flor do Paraíso” nas praças e eventos.
O grupo focal manifestou um grande compromisso com a dança e o
gosto pela Quadrilha, bem como com a valorização do folclore na região. Eles
dançam também para ganhar nas competições, especialmente da FUMBEL, e
oferecer o título à Vó.
Além do mais, os jovens brincantes na quadrilha junina fazem uma
relação positiva entre folclore como expressão cultural arraigada neles próprios, visto que é algo extremamente prazeroso, saudável, descontraente, e que
gostam da dança, dos passos e de tudo que inspira. Portanto, o folclore expressa tradição de uma cultura que deve ser cultivada de geração em geração.
3.4.2.6.1 Considerações sobre os educadores da quadrilha “Flor do Paraíso”
Durante as entrevistas realizadas com os educadores, no que se refere ao
perfil social, podem-se destacar algumas considerações pertinentes. Quanto ao
gênero, apresenta quatro educadores do sexo feminino e um do sexo masculino.
No que tange à idade, varia entre 34 a 61 anos, sendo três dos educadores casados e dois solteiros. Quanto ao grau de escolaridade, há significativa variação:
um estudou até a terceira série do fundamental, outro está cursando o segundo
ano do ensino médio, enquanto três apresentam ensino médio completo. Todos
moram com familiares com quem mantêm boas relações.
No que tange à religião, todos se consideram católicos e praticantes,
tanto que, ao questionar-se o que é religião, um dos educadores explicitou que:
É minha vida, é meu chão e meu teto. É estar sempre com
Deus, refletindo com ele, procurando fazer as coisas certas.
É ter fé. É acreditar numa força que não vejo, mas sou convicta
que ela existe e que sem ela a vida seria mais difícil e talvez
para mim não tivesse sentido (EDUCADORA A).
No entanto, sobre a relação entre religião e juventude, um comentário
foi significativo:
É difícil relacionar essa questão, até porque vendo pelo
lado dos jovens, especificamente do sexo masculino, são
mais afastados da religião. Vejo, por exemplo, na igreja.
Há mais mulheres do que homens. As mulheres rezam
mais. Pelo menos demonstram isso. Ou seja, o lado
feminino é mais influenciável. Vejo também que de modo
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ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
geral os jovens estão ligados a outros valores, se assim
posso dizer, que a religião, a busca de Deus em suas vidas
está fadada a um segundo plano e, muitas vezes, para uma
grande maioria nem existe. Percebo que não há neles a
preocupação que os jovens de nossa geração tinham.
Mesmo que isso fosse imposto, inculcado pela família,
nós absorvemos de tal forma que acreditamos e buscamos
a religião como um caminho que conduz, prepara e orienta
para chegar a Deus (EDUCADORA A).
Como anteriormente mencionado, a religião é um dos valores trabalhados pela coordenação, mas não se observou significativo impacto, pelo menos
de forma explícita, no comportamento dos jovens do grupo.
Quanto à relação entre política e juventude, as colocações foram as
seguintes:
Acho que há relação quando pessoas jovens [...] se
candidatam. Eles chamam a atenção dos jovens, até porque
nos seus discursos existem coisas peculiares aos jovens e
eles se enveredam. Um exemplo típico está na Malhação
(programa da Rede Globo) que tem agora um negócio de
chapas e o garoto para atrair outros jovens para aderirem à
sua campanha e votar em sua chapa distribui CD’s para
seduzir a turma. Enquanto que as garotas que estão
tentando fazer as coisas direitinho, os jovens não lhes dão
a devida atenção. E é por isso que não entendo direito as
questões políticas (EDUCADORA A).
No dizer dos entrevistados, a política é vista apenas como a questão
partidária. De qualquer forma, não há qualquer relação entre a política e a
dinâmica do grupo, ou seja, questões políticas não interferem no processo de
condução ou participação na quadrilha.
Sobre os objetivos do grupo no começo de sua formação, as considerações deixadas pela fundadora foram:
Na época, era só criar uma quadrilha pra animar a rua, pra
garotada curtir, brincar, porque aqui no conjunto não tinha
nada, nada mesmo. Foi então que tivemos a ideia de montar
uma quadrilha. Você precisava ver a animação que era.
Todo mundo envolvido, ensaiando. Era uma alegria e tanto.
E a nossa festa marcou, tanto que a quadrilha já tem 24
anos (EDUCADORA B - FUNDADOURA).
215
Universidade da Amazônia
Em relação aos atuais objetivos, são citados: união, amizade, relação
familiar, mas principalmente, competir e ganhar nos concursos. Como disse um
dos coordenadores: “É vencer sempre e principalmente na FUMBEL” (EDUCADORA A). Para outro é também importante legalizar a quadrilha, com a elaboração
do estatuto, ata de fundação e obtenção do CNPJ.
Outro aspecto abordado foi sobre as mudanças ocorridas ao longo do
tempo. Dentre os posicionamentos, destaca-se:
Ocorreram muitas mudanças mesmo, pois naquela época
eles eram mais obedientes, cumpridores de horário, das
normas da quadrilha. Hoje, temos que ter tato para poder
chamar a atenção. Muitos não aceitam. Mudou também a
maneira de vestir, as moças vêm quase nuas, shorts curtos
demais e tem que haver limites, muitos não gostam. Há o
uso e abuso de palavrões que me incomodam bastante.
São essas coisas que quando lembramos do começo da
quadrilha, dos primeiros brincantes, percebemos que as
mudanças foram radicais (EDUCADORA A).
No que tange às suas opiniões sobre as causas dessas mudanças, os
educadores argumentaram que:
As próprias mudanças e transformações ocorridas no tempo.
As pessoas de hoje apresentam um comportamento e
costumes diferentes. A formação de hoje é outra. Eles levam
as coisas muito na brincadeira. Apesar de perceber o
respeito que eles têm por mim, assim mesmo têm pessoas
que dizem: Ah! O meu pai não me manda, porque aqui
tenho que cumprir ordens, normas. E procuramos mostrar
que isso é necessário (EDUCADORA C).
E mais:
A troca dos participantes que vão ficando mais velhos e
vão naturalmente deixando de dançar assumindo outras
responsabilidades. Isso é até compreensível porque não
tem só a quadrilha na vida das pessoas. Vejo por mim:
Brinquei vários anos e depois casei, passei a ter outras
coisas a fazer e de lá para cá fiquei no cá, fiquei na
coordenação (EDUCADORA A).
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ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
Quanto às inovações da quadrilha:
[...] elas são resultado de nossa criatividade, de nossas
ideias, porque nós criamos muitas coisas, não copiamos
nada. Já tivemos a experiência de trazer pessoas de fora
que, sem sabermos, traziam a coreografia de outras
quadrilhas e quando íamos dançar outra quadrilha já tinha
apresentado a mesma coreografia. Quanto ao traje, temos
uma moça [...] que desenha exclusivamente para nós
(EDUCADORA C).
Como em todos os aspectos da vida em geral, a Quadrilha Junina “Flor do
Paraíso”, depois de mais de 20 anos de existência, mesmo tendo sido mantida a
base da coordenação, também teria que se modificar, não somente na sua estrutura ou coreografia, mas também no seu comportamento. Evidentemente, a maior
competição dos dias de hoje afastou um pouco os mais velhos – os adultos - da
quadrilha, atualmente composta, em sua maioria, por jovens, que levam para
dentro dela sua própria realidade, muito diferente daquela de duas décadas
atrás. Portanto, as mudanças estruturais reportadas não se comparam ao choque comportamental ora vivenciado entre coordenação e brincantes.
Quanto à motivação dos jovens brincantes em participar da quadrilha,
os educadores apresentaram opiniões diferentes.
São várias coisas. Entre elas, existem pais que não deixam
os filhos saírem à noite e o ingresso na quadrilha favorece
isso. Muitos saem por lazer, por gostar de dançar. Outros
por paquera. Tem gente que sai até casado da quadrilha,
[...]. Eles se conheceram na quadrilha, namoraram e
casaram. A Silvana, que ganhou bebê agora, conheceu o
Alaor na quadrilha. Há dez anos que eles se conhecem e
agora se casaram (EDUCADORA C).
Ou ainda:
É a FUMBEL, de modo geral. Mas para nós, aqui no conjunto,
é para mostrar para as outras quadrilhas que indo
participar do concurso da FUMBEL temos a oportunidade
de sair no jornal. Há toda uma divulgação, a quadrilha vai
ficando conhecida e também para trazer o título, um troféu
para a Vó, nossa maior torcida (EDUCADORA A).
Conforme pode ser observado, além das competições e do prazer pela
dança, a participação na quadrilha está vinculada aos processos educativo e
social dos jovens. Segundo afirmações deles mesmos, é importante para a for-
217
Universidade da Amazônia
mação pessoal, desenvolvendo o respeito, a tolerância, a disciplina, a amizade
e outros valores julgados importantes ao ser humano. A motivação por participar da quadrilha explica por que, em geral, os brincantes voltam em anos
seguintes. Evidentemente, o processo de socialização vivido pelos jovens os
satisfazem sobremaneira.
No que tange às atividades desenvolvidas com o grupo de jovens brincantes, os educadores destacaram passeios, festas e, em especial, promoções
para angariar fundos. É interessante notar que por trás de tais atividades, pode
ser percebida a intenção da coordenação em manter vivo e permanente o grupo,
garantindo a participação nas competições no ano seguinte, e no grupo não há
discriminações e preconceitos de uns com os outros.
Ficou claro nos relatos que o grupo aceita com naturalidade a participação de pessoas diferentes, “Sim, aceita, porque é um grupo democrático. Não
excluímos ideia de ninguém” (EDUCADORA A). Outro educador destacou:
Sim, com naturalidade, apesar de termos pessoas que são
verdadeiros entraves, que discordam de tudo. Outras pessoas
são tão negativas que acham sempre que não vão saber
acertar. Mas penso que em qualquer tipo de grupo existem
as divergências e as pessoas cricris (EDUCADORA C).
Em razão disso, os educadores foram questionados como o grupo trabalha as diferenças de opinião. As considerações apresentadas indicam o efetivo exercício da discussão, participação e aceitação de forma muito natural.
Quanto ao espaço para as diferenças, os sujeitos explicitaram que: “Existe. Nós
até gostamos quando entram pessoas diferentes, com ideias diferentes, desde
que não prejudiquem o grupo nem as normas da quadrilha” (EDUCADORA A).
No que diz respeito às relações de poder dentro do grupo, os educadores lembraram o caso do marcador já mencionado, além de outras situações,
criadas, em geral, pelos novatos, que exigiram a intervenção deles.
Quanto às relações de gênero, ou seja, se meninas recebem tratamento
diferenciado dos meninos, um dos educadores assim se posicionou:
Não, a única
aqui na Flor
porque para
casa e para
(EDUCADORA
diferença existente entre meninos e meninas
do Paraíso é o banheiro. Portas diferentes,
as meninas o banheiro é daqui de dentro da
os meninos é fora, ao lado, na rua mesmo
C).
Em outro momento, os educadores foram suscitados a comentar sobre
aspectos positivos no grupo; assim, os educadores apontaram a união, a disciplina nos ensaios, a vontade de dançar, a amizade entre os brincantes, o carinho,
o respeito, o compromisso e determinação que todos assumem em vestir a cami-
218
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
sa da “Flor do Paraíso”. Já os aspectos negativos destacados foram poucos, resumindo-se à falta de recursos financeiros e às intrigas e às fofocas. Essas últimas
são tratadas por meio do diálogo estimulado pelos coordenadores.
Dessa forma, em tais situações, é inquestionável a liderança exercida
pelos educadores, tendo sido construída ao longo dos anos de trabalho. Questionada sobre esse papel, uma das educadoras afirmou:
Acho que sou líder por esse jeito de tomar a frente das
coisas. Acredito que sou um pouco de tudo. Sou confidente,
conselheira, líder, coordenadora, tia, irmã, amiga e, às
vezes, até mãe (EDUCADORA C)
Entretanto, no entendimento deles, essa liderança perpassa por saber
ouvir e falar, pelas decisões participativas e coletivas, envolvendo todo o grupo.
Em contrapartida, curiosamente, as opiniões apresentadas pelos educadores sobre folclore são muito parecidas com aquelas apresentadas pelos
jovens entrevistados. Mesmo não apresentando uma clara definição sobre o
termo, eles têm perfeito entendimento de que faz parte da cultura e da tradição.
Em geral, os educadores adoram a quadrilha e dão muita importância a esse
trabalho. Um deles citou:
Sinceramente falando, às vezes, penso em desistir, mas é
muito importante para mim, já estou acostumada. Gosto
de fazer isso e faço com muito carinho. Traz muita dor de
cabeça mais traz também muitas alegrias. Choramos muito
e sorrimos ao mesmo tempo (EDUCADORA A).
Foi com um sentimento de paixão, expresso por palavras, olhares e
gestos, que eles participaram dessa pesquisa. Com esse enfoque e lembrando
as diversas citações em relação à Vó, é mister explorar um pouco da história
dessa mulher que ainda hoje mantém unida a família “Flor do Paraíso”.
3.4.2.6.2 A história de vida da Vó
Por ser a Quadrilha Junina “Flor do Paraíso” coordenada por matriarcas e por ser a Dona Margarida, ou Vó como é conhecida, uma mulher marcante
na família, espécie de esteio, de base, não seria correto deixá-la de fora sem
coletar seus preciosos relatos. Para tanto, a técnica da história de vida foi
escolhida, para que fosse obtida uma narração da sua própria experiência.
Trata-se de um trabalho autobiográfico que a própria pessoa constrói quando
estimulada pelo pesquisador, por meio de interrogações ou mesmo hipóteses
inscritas em uma determinada problemática.
219
Universidade da Amazônia
Tal procedimento foi realizado em várias etapas, devido à quantidade
de informações a serem obtidas e em decorrência da idade, da saúde, considerando o cansaço que, às vezes, a Vó sentia, pedindo para parar e continuar no
dia seguinte.
Margarida Marques Araújo, 84 anos de idade, rege toda a família. Nascida no Município de Maracanã, região interiorana do Pará, aos três anos de
idade veio morar definitivamente em Belém. Recebeu o apelido carinhoso de Vó,
tendo também, ao longo de sua existência, conquistado o carinho, a admiração
e o amor de muitas pessoas, inclusive de todos os jovens que dançaram e ainda
permanecem dançando na Quadrilha Junina “Flor do Paraíso”.
Quando perguntada até que série ela havia estudado, a resposta obtida
foi surpreendente: “Naquele tempo, minha querida, a gente não estudava” (EDUCADORA B). No entanto, como poderá ser observado adiante, a vida foi sua
escola e muito ela ensinou e continua ensinando.
Quando questionada sobre o que a fez morar aqui em Belém, respondeu:
Eu passava com minha mãe no interior (Que Deus a tenha)
quando minha avó chegou lá. O meu pai devido já ter tido a
primeira filha mulher, a segunda filha mulher e a terceira,
meu pai disse que ia dar, fosse dar pra quem fosse, mas ia
dar. E ela chegou e disse: Ah! Já que tu vai dar a tua filha, tu
não queres a tua filha. Então eu vou levar pra mim e ele
respondeu: Pode levar que é sua. Aí, eu fui (EDUCADORA B).
E o seu papel na família:
[...] eu naturalmente sou o esteio da casa e quando o esteio
não está não resolve nada [...] a casa, a família só está de
pé por minha causa. Se não fosse eu, hum! Eu trabalhei
muito, a minha vida toda, pra poder criar meus filhos. Nunca
deixei que lhes faltasse nada. Foram criados com sacrifício,
mas tá aí o meu filho que você conhece. Chegou onde chegou
por minha causa e hoje está muito bem. Estudou, se formou.
A Neneca também e a Dora, que não quis. Por isso está
passando pelo que está passando. Mas a vovó está aqui
ainda e tenho fé em Deus, primeiramente, e o Frei Daniel
que ainda vou viver bastante e ver todos muito bem
(EDUCADORA B).
Outro aspecto relevante observado durante as idas a campo, reside na
devoção da Vó pelo Frei Daniel. A toda pessoa que chega a sua casa ela pede que
beije uma das fitas coloridas, amarradas num quadro com a fotografia do Frei
e, para muitos, pede que façam um pedido. Questionada como Frei Daniel entrou em sua vida e outros aspectos relativos à religiosidade, esclareceu:
220
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
Foi quando eu me dediquei com ela, com a mãe Nazaré
[amiga do Frei Daniel]. Foi ela, graças a Deus, que me
colocou do jeito que eu estou hoje em dia. E quando ele foi
lá para a Colônia do Prata41, ela foi junto pra cuidar dele e
cuidou até a morte. E eu também ia lá sempre. Alcancei
muitas graças, até hoje. Sou católica. Deus me livre e guarde
se não fosse a religião na minha vida. [A religião] Ah! É
tudo! É a base. É o caminho para estarmos buscando Deus.
Representa vida e saúde (EDUCADORA B).
Devido às diversas idas a campo, um vínculo muito forte se estabeleceu
entre as pesquisadoras e os membros da família, favorecendo um clima de
confiança que facilitou a captura de informações que, provavelmente, não seriam ditas em outra situação. Por causa disso, houve conhecimento de que a Vó,
católica fervorosa, durante muitos anos de sua existência dedicou-se à umbanda em razão de sua mediunidade. Houve então oportunidade de conhecer um
cômodo da casa onde há um altar com imagens de muitos santos e, no chão,
algumas imagens que representam os guias ou espíritos com os quais ela trabalhou. Assim, questionada sobre sua mediunidade, como começou a desenvolvêla, ela explicou o seguinte:
Quando o meu filho estava com 16 anos, ele começou a
namorar e queria sair de casa, eu fui procurar a minha
amiga Nazaré que é a minha mãe de cabeça. Fui lá tomar
um passe. Ela conversou comigo e me disse: Margarida tu é
medium? Eu disse pra ela que não, que eu nunca seria
medium. Aí ela se virou e me disse: Pois agora tu és, tu és
médium, [...] foi ela quem me revelou e daí em diante eu
começei a trabalhar. Trabalhei muito, agora, depois que
enfartei, [...] meu filho me proibiu de muitas coisas [...]
também em decorrência de minha idade, meus
compannheiros, os guias, disseram que não era pra eu
trabalhar mais (EDUCADORA B).
Sobre os conflitos entre a umbanda e a religião católica, ela apontou:
Quando eu comecei a trabalhar na umbanda e frequentava
a igreja [...] ela [vizinha da frente] sabia e ela é membro da
igreja até hoje. Ela falava pros padres e eles não permitiam
que eu comungasse. Mas, assim mesmo, eu nunca deixei
de frequentar a igreja. Assistia à missa e não participava
de mais nada. Quando as entidades me afastaram e ela
ficou sabendo, deve ter falado pros padres e hoje eu já
comungo (EDUCADORA B).
41
Hospital destinado aos cuidados de pacientes portadores da hanseníase, localizado em Marituba.
221
Universidade da Amazônia
É interessante ressaltar que a Vó nunca recebeu pagamento por seu
trabalho religioso, fato confirmado por membros da família e amigos. Chegou a
comentar que fazia de panelões de banho para ajudar as pessoas que ali chegavam em busca de auxílio. A Vó era também “benzedeira”, pois rezava crianças
contra “mal-olhado”, “quebranto”, “ventre caído” e em adultos, moleza, dores no
corpo, entre outros. Assim fazendo, comunga das palavras do Cristo: “Dai de
graça, aquilo que de graça recebeu”.
Durante seu relato, a Vó informou que, quando começou a quadrilha, ela
estava sempre presente aos ensaios com uma varinha retirada de uma árvore e
caminhava entre os brincantes para verificar se estavam dançando direitinho.
Naquele que fosse apanhado na brincadeira, com passos errados, batia com a
varinha dizendo: “Acerta o passo menino! Agora não é hora de brincar, mas de
dançar. Quero ver você fazendo bonito na apresentação.” (EDUCADORA B).
Em sua opinião, o que mais motiva os jovens, mesmo nos dias de hoje,
é o gosto pela dança e pelas pessoas da quadrilha. Eles se sentem bem, são
tratados de forma igual, sem qualquer discriminação. Ela, assim como todos os
demais entrevistados, destaca a união dos integrantes da Quadrilha como um
dos pontos mais positivos. Entende que os conflitos são pontos negativos que
fazem parte da vida e são resolvidos, em geral, com muita conversa.
Foi criada e criou seus filhos com honestidade, orientando-os de acordo com os valores, hábitos, tabus, padrões de comportamento de sua época.
Atualmente, a Vó mora com sua filha e netos. Continua indo à igreja todos os
domingos. É considerada a matriarca de toda a família, pois é a mãe, avó,
amiga, companheira, conselheira, benzedeira e outras qualidades mais que
fizeram dela uma pessoa muito querida no lar e por todos que as conhecem.
Ainda hoje, a Vó é uma pessoa muito respeitada e influente na quadrilha. Como ela diz “Se eu não estiver na frente não sai.” (EDUCADORA B), sendo
que o sentido desses termos vai desde a liderança maior por trás dos coordenadores até a oração para que tudo aconteça de acordo.
222
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
4
UMA LEITURA COMPARATIVA DOS
UNIVERSOS PESQUISADOS
A
pós um “mergulho” em cada um dos universos com o intuito de se
redesenhar cenários, relações e movimentos de cada um dos grupos
pesquisados, estar-se-á diante de um quadro complexo que demonstra
diversidades e particularidades, ao mesmo tempo em que, a partir de
uma leitura comparativa, indica elementos para refletir com mais profundidade processos educativos.
1. Partiu-se do pressuposto de que o encontro entre diferentes influências
culturais detém um potencial latente de conflito, principalmente para jovens que estão numa fase de orientação e afirmação. Pretende-se traçar os
contornos dos cenários sociais, culturais e religiosos a fim de verificar
como os conflitos de fato se materializam no “mundo” dos jovens, de forma
explícita, aberta, mas também implícita, escondida (Quadro I).
2. O próximo passo de análise (Quadro II) pretende retratar a maneira como
os jovens se posicionam e lidam com esse pano de fundo de diversidade
cultural-religioso e social: o que assumem para si; o que evitam; o que
sentem como conflito; o que é “pacífico”; com que se identificam; o que
criticam e; finalmente, ao que aspiram.
3. Com base nesse retrato, dirige-se o foco aos grupos nos quais os jovens
pesquisados estão inseridos (Quadro III). Qual é a importância do grupo a
partir da fala dos jovens e qual é a forma que o grupo articula e direciona os
jovens? Pergunta-se também sobre a relação do grupo socialmente instituído com outros grupos de interesse e, finalmente, se é possível perceber
tendências de participação social como acomodação ou revolta.
4. As análises dos primeiros três aspectos devem trazer subsídios para uma
reflexão diferenciada sobre cultura como ato e movimento de criação do
seu próprio espaço vital. A base empírica deve alimentar a pergunta: como e
até que ponto jovens “entre culturas” encontram e desenvolvem a sua criação
cultural, ou seja, se afirmam na construção de sua própria perspectiva de
vida?
223
Universidade da Amazônia
Cada item de análise é subsidiado com um quadro comparativo dos
resultados mais significativos e oferece espaço para primeiras observações.
Segue a cada quadro um texto que desenvolve reflexões apontadas às
contribuições dessa pesquisa na discussão mais ampla pretendida.
Os cenários não surpreendem. Pelo contrário, confirmam o diagnóstico
geral que, a partir dos indicadores sociais, se faz do Brasil no mundo: o país
com um dos maiores graus de segregação social. Os meios de sustentação
disponíveis definem cada universo pesquisado como uma moldura, na qual os
atores estabelecem as suas relações. Evidencia-se o potencial de conflito gerado
pela divisão social que se manifesta violentamente em todos os cenários.
No entanto, o quadro apresentado aprofunda a percepção dessa
problemática por meio de um olhar diferenciado sobre as expressões culturaisreligiosas. Aqui se encontram as formas de como a população lida com o
imperativo estrutural de condenação como pobre ou pertencente de privilégios.
Sim, cultura e religião estão fortemente marcadas pela delimitação social, mas
indicam, ao mesmo tempo, movimento. Confirma-se que o lugar social não é
determinação total, as fronteiras não são insuperáveis. Enquanto a população
vive, cria meios de sobreviver da melhor forma possível.
Cultura e religião são expressões dessa movimentação de assimilar a
si mesmo ao ambiente externo, bem como, vice-versa, assimilar o ambiente às
suas necessidades; ajeitar-se assim como se afirmar dentro das circunstâncias.
Observam-se processos muito diferentes de cunho mais destrutivo ou mais
construtivo. Encontram-se posturas e reações de conformidade e acomodação,
de resistência e revolta ou de criação e mudança.
224
42
GRUPO
RAÍZES DO
CARU-AIPIM
Extrativismo e
agricultura
familiar: pesca,
frutos, mandioca,
criação de
animais pequenos - comércio de
mercadorias
básicas na vila, a
uma hora de
viagem de barco serviços públicos
precários e
distantes - jovens
ajudam desde
cedo.
Extrativismo:
autosustento
altamente difícil recursos naturais
(caça, pesca,
frutos) escassos
nas áreas delimitadas da reserva distância e difícil
comunicação dependência do
apoio governamental - participação
dos jovens nas
atividades
econômicas.
RIBEIRINHO
GRUPO
INDÍGENA ANAMBÉ42
INDÍGENA
PRIMEIRA
IGREJA BATISTA
(PIB)
Famílias de nível de vida
elevado, pertencentes a um
grupo altamente restrito de
classe média-alta. (IBGE
2001: 5a10 SM: 6,33% 10a20 SM: 3,15% - >20 SM:
1,84% da população
residente de 10 anos ou
mais) - sustento: autônomos
(advogados, médicos e
arquitetos) ou empregados
de alto nível. - utilização de
serviços particulares - na PIB,
diversas famílias de outros
estados - jovens somente
estudam.
CASA DA
JUVENTUDE
(CAJU)
CENTRO URBANO
Famílias de
classe médiabaixa - sustento:
empregos de
baixo nível,
muitas vezes
sem formação. ajuda dos
jovens, desde
cedo, no
sustento da
família - serviço
público
precário.
QUADRILHA
FLOR DO
PARAÍSO
Famílias de
classe baixa sustento:
"bicos", poucos
empregos com
regularidade altos graus de
criminalidade e
comércio de
drogas no
bairro. - serviço
público
precário.
BANCADA
REVOLUCIONÁRIA
GOSPEL
PERIFERIA URBANA
Confirma-se
um quadro de
uma clara
segregação
com divisão
social de
grupos
populacionais, reforçado pela
localização
geográfica em
área rural e
urbano,
centro e
periferia.
ANÁLISE
TRANSVERSAL
A pesquisa no universo indígena se caracterizou por extrema dificuldade devido aos trâmites burocráticos junto à FUNAI, que tardaram todo o planejamento. Mesmo com contatos
anteriores da pesquisadora, percebemos que o período de permanência junto aos Anambé ficou restrito demais para poder aprofundar-se nesse contexto, tão complexo e tão
diferente. Assim, não houve tempo suficiente para levantar os dados qualitativos e acompanhar os processos educativos. Decidimos, mesmo com essas deficiências, incluir o
universo, porém, apenas com aqueles dados que podemos legitimar a partir da pesquisa. Portanto, a análise do universo indígena fica parcial e não permite maiores conclusões.
Contexto
socioeconômico
ITENS
UNIVERSO
Quadro I: Cenário social, cultural e religioso dos grupos de jovens pesquisados
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
225
226
GRUPO
INDÍGENA ANAMBÉ42
INDÍGENA
Povo (Grupo)
Contexto
sociocultural Anambé como
unidade cultural quase extinto, fase
de recuperação,
busca de afirmação
de sua identidade somente duas
idosas ainda
incorporam a
cultura anambé
(língua, danças,
histórias) - mistura
étnica nas novas
gerações.
ITENS
UNIVERSO
continuação...
"Comunidade"
delimitada
culturalmente identidade de
ribeirinhos distinção entre os
"sitioara" e os "da
vila" - pontos de
encontro: trapiche,
campo, bar - duas
famílias disputam
entre si poder e
referência,
envolvendo
alianças com
setores do poder
público - investimento externo na
região como área
turística
GRUPO
RAÍZES DO
CARU-AIPIM
RIBEIRINHO
PRIMEIRA
IGREJA BATISTA
(PIB)
Grupos de elite social,
articulados em espaços
particulares, entre eles
escola, clube, igreja, hospital
- "liberdade" de lazer, de
comunicação e de transporte
- investimento na formação referências socioculturais
por: família, etnia, interesse,
religião, baseados em
sistemas universais.
CAJU: visão geral e inculturação regional, mas distância
social.
PIB: dualismo moral religioso, distância cultural e
social da população em
geral.
CASA DA
JUVENTUDE
(CAJU)
CENTRO URBANO
BANCADA
REVOLUCIONÁRIA
GOSPEL
Cultura de "Rua e
de Praça":
comunicação e
encontros prevalecimento
de violência,
medo, desconfiança - alto fluxo
migratório identidades
exclusivas =
grupos se
isolam, afirmando-se contra
outros dominação por
tráfico de
drogas, intervenções policiais,
gangues - festas
de rua para
extravasar
insatisfações poucas alternativas.
QUADRILHA
FLOR DO
PARAÍSO
Cultura de "Rua e
de Praça":
comunicação,
lazer, liberdades "um pouco da
vida do interior":
importância da
vizinhança,
tradição e
hierarquia
familiar - festas
informais com
alto grau de
espontaneidade
popular (Festa
Junina, p.ex.) identidade de
bairro de
periferia formação de
grupos culturais
específicos,
representando o
bairro.
PERIFERIA URBANA
Dificilmente se
pode delimitar
diferentes
culturas.
Observa-se
mais "hábitus
culturais" como
formas de
expressão e
afirmação,
marcados pelo
ambiente social
(elite - periferia)
e geográfico
(rio/ mata).
Referências
locais (trapiche,
rua, clube) e
pessoais
(família, grupo)
definem a
forma como
cultura se
configura e
materializa no
cotidiano.
ANÁLISE
TRANSVERSAL
Universidade da Amazônia
Igreja e
religiosidade
como
referência
central ética de
querer
ajudar e
melhorar compromisso
de pertencer
a um grupo sistema
religioso
hierarquizado.
1. Insegurança social;
2. Manutenção do seu
nível de vida;
3. Hierarquia
religiosa.
Identidade e
valores marcados
pelo rio e pela
floresta - festa
anual da Igreja
Católica - além
disso, referências
difusas, pouco
exercício de
rituais religiosos.
1. Disputa de
poder interno,
acoplado a
recursos
externos;
2. Distância e
limitação:
serviços públicos,
escola, eventos;
3. Discriminação
externa;
4. Perspectivas
limitadas.
Sistema de valores
diretamente ligado
ao ambiente
natural: água,
mata e animais crenças e sistemas
religiosos pouco
evidenciados por
falta de uma
referência pessoal
(pajé).
1. Precariedade da
sobrevivência;
2. Dependência
externa do governo;
3. Falta de referências internas;
4. Identidade
cultural interna
difusa;
5. Perspectivas
difíceis para
sobrevivência
enquanto povo.
Potencial de
Conflitos
ITENS
CASA DA
JUVENTUDE
(CAJU)
1. Insegurança social.
2. Manutenção do nível
de vida.
3. Diferenciação moral e
vida social.
4. Distanciamento da
cultura local.
Igreja e
religiosidade
marcam a
identidade religião como
referencial e
ritual
universal salvação pela
conversão
individual diferenciação
com o
"mundo" missão
religiosa.
PRIMEIRA
IGREJA BATISTA
(PIB)
CENTRO URBANO
Contexto
religioso
RIBEIRINHO
GRUPO
RAÍZES DO
CARU-AIPIM
INDÍGENA
GRUPO
INDÍGENA ANAMBÉ
UNIVERSO
continuação...
Principalmente
grupos
religiosos (neo-)
pentecostais se
firmam com a
pretensão de
ser a única
alternativa,
manifestação
com postura de
negação ao que
é do "mundo".
1. Violência
ameaça
qualquer
iniciativa;
2. Dominação de
grupos com
regras próprias;
3. Pobreza;
4. Precariedade
geral de vida;
5. Falta de
perspectivas.
1. Baixo nível de
vida;
2. Serviços
públicos
precários;
3. Violência
social;
4. Obstáculos
para traçar
perspectivas
alternativas.
BANCADA
REVOLUCIONÁRIA
GOSPEL
Igreja Católica
é o centro do
bairro expressões
religiosas
diversificadas
nas esquinas,
nas ruas, nas
casas (AfroBrasileiros,
Pentecostais) religiosidade
informal
presente na
vida do bairro.
QUADRILHA
FLOR DO
PARAÍSO
PERIFERIA URBANA
Os potenciais de
conflitos são
marcados pela
segregação
social. Expressões culturais e
religiosas não
representam um
campo de
conflito
explícito, mas
reafirmam a
divisão social.
A dimensão
religiosa está
presente em
todos os
cenários, seja
como instituição social, seja
como referência éticaespiritual da
população. As
expressões
religiosas são
múltiplas e
difusas.
ANÁLISE
TRANSVERSAL
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
227
Universidade da Amazônia
Os diferentes cenários são complexos sem demonstrar contornos culturais e religiosos claros e devem ser compreendidos dessa forma para a nossa
análise, com o devido respeito às particularidades e com conclusões cuidadosas.
Expressões culturais e religiosas foram percebidas:
a) De forma instituída que constituem atores sociais. Apresentam-se publicamente com caráter mais religioso (igrejas, centro de jovens etc), cultural (dança etc) ou social (gangues etc.),
e demonstram geralmente delimitações claramente identificáveis em confessionalidade, objetivos, tradição, regras, área
geográfica. Alguns grupos instituídos (desde igrejas até as
gangues) definem-se em contraposição aos outros. Isso resulta, geralmente, em uma visão dualista que separa bons e maus,
acompanhado de um comportamento de hostilidade e desconfiança diante dos que não pertencem ao seu próprio grupo. Viu-se atrás dessa tendência uma forte necessidade de
autodefesa e autoafirmação.
b) De forma mais difusa e espontânea, que foge à delimitação
institucional clara, mas constitui a base de um potencial criativo alimenta-se de manifestações autênticas das vivências,
das modas e das necessidades; ultrapassa facilmente convenções e pode ser dificilmente controlado ou encomendado.
Mesmo com toda a diversidade do quadro observado, as expressões
culturais e religiosas são centradas em referências que formam um conjunto
que impulsiona o seu potencial. Fora e além das estruturas institucionais, as
referências marcam, articulam, congregam e norteiam cultura e religião. Nos
cenários da pesquisa, observaram-se diferentes tipos de referências:
 pessoas incorporam valores e tradições; interferem
ativamente nas relações;
 localidades (praças, ruas, clubes, shoppings) e momentos (início da noite) abrigam e caracterizam movimentos e rotinas;
 lugares geográficos (rio, mata, áreas urbanas periféricas ou centrais) imprimem ritmos naturais e artificiais; atraem ou provocam; inspiram ou frustram.
Verificou-se que a falta de uma pessoa de referência no Povo Anambé desarticula o potencial cultural, mesmo que as lideranças políticas do povo invistam na
formação de identidade cultural. Portanto, referências pessoais podem ser instituídas como tais ou não; no entanto, dependem principalmente da recepção como algo
autêntico e confiável, com resposta às necessidades dos que as procuram.
A seguir, verifica-se o próximo quadro que visualiza mais detalhadamente esses cenários a partir de um olhar específico em relação aos jovens; ao
perfil social e aos referenciais culturais e religiosos deles, as suas manifestações em situações de desafios e conflitos.
228
43
Predominância
do sexo
feminino na
CAJU, mas não
há
diferenciação
nas tarefas ou
funções – no
grupo, chega a
75% o número
de jovens do
sexo feminino.
Jovens já em
processo de
amadurecimento – no
grupo: entre
20 a 22 anos.
Faixa ampla –
enquanto solteiro,
considera-se
jovem – no grupo:
predominância
entre 13 a 15
anos, mas há
meninos até 23
anos.
Adolescência como
fase de desenvolvimento é difícil de
aplicar nesse povo
indígena. Há uma
passagem mais
direta de criança
para adulto.
CASA DA
JUVENTUDE
(CAJU)
Jovens
encaminhados
pelas famílias
– grupos
divididos por
faixas etárias
- 13 a 14
anos.
Equilíbrio
entre os
participantes
da igreja – no
grupo teve
uma maioria
de meninas.
PRIMEIRA
IGREJA BATISTA
(PIB)
CENTRO URBANO
Meninos ajudam
na atividade
agricular e têm
mais liberdade,
meninas
permanecem no
ambiente da casa
– no grupo
pesquisado: 59%
meninos.
GRUPO
RAÍZES DO
CARU-AIPIM
RIBEIRINHO
Divisão por sexo
correspondente
aos papéis
socioeconô-micos:
meninos ajudam
na caça e na pesca;
meninas, em casa.
GRUPO
INDÍGENA ANAMBÉ43
INDÍGENA
Ampla faixa
etária – no
grupo, há jovens
entre 7 e 29
anos, mas,
predominantemente entre 16
e 20 anos.
Equilíbrio – no
grupo:
composição de
pares de sexo
masculino e
feminino.
QUADRILHA
FLOR DO
PARAÍSO
Ampla faixa
etária – no
grupo, há jovens
a partir de 13
até 25 anos.
Nas ruas, há
uma maior
frequência de
meninos – no
grupo:
predominância
masculina
(67%), as
meninas
entraram como
namoradas.
BANCADA
REVOLUCIONÁRIA
GOSPEL
PERIFERIA URBANA
Ribeirinho e
periferia agrupam
jovens de várias
faixas etárias,
enquanto nos
grupos do centro
é mais
estritamente
dividido.
No rural, a divisão
de papéis marca
também a
participação dos
jovens. No
urbano,
dependendo do
espaço, há
maioria de
meninos ou
meninas.
ANÁLISE
TRANSVERSAL
229
continua...
A pesquisa no universo indígena se caracterizou por extrema dificuldade devido aos trâmites burocráticos junto à FUNAI, que tardaram todo o planejamento. Mesmo com contatos
anteriores da pesquisadora, percebemos que o período de permanência junto aos Anambé ficou restrito demais para poder aprofundar-se nesse contexto, tão complexo e tão
diferente. Assim, não houve tempo suficiente para levantar os dados qualitativos e acompanhar os processos educativos. Decidimos, mesmo com essas deficiências, incluir o
universo, porém, apenas com aqueles dados que podemos legitimar a partir da pesquisa. Portanto, a análise do universo indígena fica parcial e não permite maiores conclusões.
Idade
Sexo
PERFIL SOCIAL
ITENS
UNIVERSO
Quadro II: OS GRUPOS DE JOVENS - PERFIL SOCIAL, REFERENCIAIS E CONFLITOS
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
230
Cotidiano e
preferências
Meios de
comunicação
Meios de
transporte
Escolaridade
PERFIL SOCIAL
ITENS
UNIVERSO
continuação...
Rádio – TV: uma
hora por dia.
A pé – barco.
Há escola
somente até 4ª
série do Ensino
Fundamental –
escola é o lugar de
encontro; mas
estudo tem pouca
importância.
GRUPO
INDÍGENA ANAMBÉ43
INDÍGENA
Passeio pelo
bairro.
Cursos extraescolares,
igreja.
Esportes,
leitura,
igreja.
Esportes, música.
Rádio – TV.
TV – Internet
–celular.
TV– Internet
–celular.
Rádio – TV: uma a
duas horas por
dia.
79% estudam –
1/4 com
defasagem
escolar –
muitos já
trabalham.
QUADRILHA
FLOR DO
PARAÍSO
93% ônibus –7%
bicicleta.
Todos
estudam sem
defasagem
escolar –
escola é a
ocupação
principal
durante a
semana.
PRIMEIRA
IGREJA BATISTA
(PIB)
Esportes,
música.
Rádio – TV
50% ônibus –
50% bicicleta.
Poucos
estudam,
maioria
abandonou a
escola – 40%
estão no
trabalho
informal e
fazem “bicos”.
BANCADA
REVOLUCIONÁRIA
GOSPEL
PERIFERIA URBANA
58% ônibus – Carro da
42% carro
família.
próprio.
Todos
estudam ou
finalizaram o
nível
superior – há
um grande
investimento
nos estudos.
CASA DA
JUVENTUDE
(CAJU)
CENTRO URBANO
Barco a remo
(95%).
68% estudam,
porém com
defasagem de 3 a
8 anos –maioria
ajuda em casa e
na lavoura.
GRUPO
RAÍZES DO
CARU-AIPIM
RIBEIRINHO
continua...
A segregação
social se
perpetua.
A escolaridade
divide
claramente
interior e
cidade,
periferia e
centro.
Oportunidades
e limitações se
evidenciam nos
transportes e
nas
comunicações.
ANÁLISE
TRANSVERSAL
Universidade da Amazônia
GRUPO
INDÍGENA ANAMBÉ43
INDÍGENA
Afirmam ser do
povo Anambé.
78% são de
Belém – 44%
moram
próximo.
Todos são do
“Caruaru” – um
jovem mora na
vila.
Todos nasceram
na reserva.
QUADRILHA
FLOR DO
PARAÍSO
BANCADA
REVOLUCIONÁRIA
GOSPEL
PERIFERIA URBANA
Importância
grande – 87%
boa relação /
13% conflitos –
maioria com os
pais, alguns
com tios.
Todos são de
Belém – 93%
moram no
bairro.
Trabalham a
cultura
amazônica na
dança – têm
uma
Considerada
básica – apenas
um caso de
conflitos – 72%
moram com os
pais, 28%
formaram
família própria.
Todos são do
Estado do Pará e
moram no bairro.
Diversos
aspectos de
identificação: ser
evangélico, ser
negro, ser da
periferia. Hip-hop
Em 84%, fortes
conflitos, desde
maus-tratos até
abandono – 84%
residem com
mãe ou irmãos.
44% “branco” – 56% se
90% se
44% “moreno” autodenominam autodesignam
– 12% não sabe “morenos”.
“negros”.
PRIMEIRA
IGREJA BATISTA
(PIB)
56% são de fora
– residem em
diversos bairros
de Belém.
São evangélicos
Identificam-se com Tem uma
batistas
a comunidade
relação
(origem
ribeirinha, mesmo positiva com a norteamericasendo
região
na) e têm
Considerada a
base de tudo –
78% acham a
sua relação
boa – 67%
moram com os
pais.
Família é
referência
principal – 89%
consideram
relação boa – 91%
residem com os
pais.
Povo e família
formam unidade.
Família
Origem /
identificação
cultural
50%
“morenos” –
50%
“brancos”.
77% se
autodenominam
“morenos”.
CASA DA
JUVENTUDE
(CAJU)
CENTRO URBANO
Não existem
“índios” (puros)
entre os jovens.
GRUPO
RAÍZES DO
CARU-AIPIM
RIBEIRINHO
Cor / etnia /
raça
IDENTIFICAÇÕES E REFERÊNCIAS
ITENS
UNIVERSO
continuação...
continua...
No centro,
constata-se um
maior
movimento
migratório. A
igreja serve
como ponto de
referência.
A referência da
família é
central.
Observou-se
uma tendência
a idealizar e
harmonizar as
relações.
Em quatro
grupos,
“moreno”
aponta para
uma mistura
difusa; um grupo
se designa
conscientemente
“negro”.
ANÁLISE
TRANSVERSAL
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
231
232
GRUPO
INDÍGENA ANAMBÉ43
INDÍGENA
Pesquisa não
levantou dados.
Pesquisa não
levantou dados.
Religião
Visões
IDENTIFICAÇÕES E REFERÊNCIAS
ITENS
UNIVERSO
continuação...
Contraposição
entre Vila
(urbano) e “Sítio”
(comunidade)
96% se declaram
“católicos”, mas
a maioria não
freqüenta a
igreja – pouca
referência
explícita à
religião.
discriminados na
vila – raízes na
dança folclórica.
GRUPO
RAÍZES DO
CARU-AIPIM
RIBEIRINHO
Compromisso
claro em
mundo
complexo.
amazônica, o
que se
expressa
pontualmente
nas
litúrgicas.
Todos
“católicos” –
voto de
compromisso
– principal
referência na
vida – ética e
valores.
CASA DA
JUVENTUDE
(CAJU)
Visão
dualista: os
que são de
Jesus diante
daqueles que
são do
“mundo”.
pouco
referencial
amazônico.
Todos
“evangélicos”
– “porto
seguro” –
assiduidade
de freqüentar
igreja.
PRIMEIRA
IGREJA BATISTA
(PIB)
CENTRO URBANO
Concorrência
com outros
grupos –
distanciamento da
violência.
identificação
com o próprio
bairro.
92%
“católicos” –
participam de
culto afrobrasileiro na
casa da “vô”,
alguns
freqüentam
igreja do
bairro.
QUADRILHA
FLOR DO
PARAÍSO
Revolta política
e mudança
radical
religiosa:
libertação.
inspirado em
movimento
norteamericano.
Grupo “segue o
exemplo de
Jesus” - maioria
se declara
“evangélico” –
alicerce para a
vida.
BANCADA
REVOLUCIONÁRIA
GOSPEL
PERIFERIA URBANA
continua...
As visões são
marcadas pelos
referenciais em
seus limites e
em sua
exclusividade.
Em outros
grupos (exceção
Hip-hop), a
representação
do contexto
amazônico é um
referencial
chave.
Também para os
jovens, a religião
é um referencial
importante:
central para três
grupos, mais
difuso para os
outros.
ANÁLISE
TRANSVERSAL
Universidade da Amazônia
GRUPO
INDÍGENA ANAMBÉ43
INDÍGENA
Pesquisa não
levantou dados.
Sustento.Distância.
Percebidos
no ambiente
externo
Envolvendo
os próprios
jovens
CONFLITOS E DESAFIOS
ITENS
UNIVERSO
continuação...
Insegurança na
cidade.Falta de
oportunidade no
local.Drogas,
álcool.
Brigas na
comunidade.
Violência e
drogas.
Políticas
desacreditadas.
GRUPO
RAÍZES DO
CARU-AIPIM
RIBEIRINHO
Violência e
drogas.
Necessidade
de base
religiosa.
Pobreza.
Distanciamento dos jovens
“do mundo”.
Perspectivas
individuais.
Necessidade
de
referenciais
claras.Perspectivas
próprias.
PRIMEIRA
IGREJA BATISTA
(PIB)
Pobreza e
violência.Poucas
perspectivas
para o
país.Sociedade
sem valores.
CASA DA
JUVENTUDE
(CAJU)
CENTRO URBANO
Disputa com
outros
grupos.
Sexualidade,
álcool.
Falta de
perspectivas.
Violência,
drogas.
Pobreza.
QUADRILHA
FLOR DO
PARAÍSO
Libertação da
gangue e das
drogas.
Família:
drogação - mãe
solteira.
Violência,
drogas.
Corrupção.
BANCADA
REVOLUCIONÁRIA
GOSPEL
PERIFERIA URBANA
continua...
Os jovens
sentem
diretamente a
presença do
problema
“violência e
drogas”. Em
segundo
lugar:
perspectivas.
A percepção
dos
problemas
centrais em
torno de
“violência e
drogas” é
comum em
todos os
grupos.
ANÁLISE
TRANSVERSAL
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
233
Universidade da Amazônia
O perfil social dos jovens subsidia com seus detalhes o cenário mais
amplo acima descrito: a influência do ambiente geográfico, a distinção entre
rural e urbano, a delimitação social da periferia e do centro urbano. Evidenciamse as limitações e oportunidades, os papéis sócio-econômicos e a dinâmica
das relações sociais em volta deles.
Esses cenários constituem o “mundo” dos jovens, no qual se movimentam
com naturalidade, assimilando e se adaptando a partir e por meio das relações
mais próximas. O grupo familiar – de forma real e idealizada – é a referência mais
direta e mais importante na fala dos jovens de todos os grupos. Além dele, no meio
rural (indígena e ribeirinho), o local geográfico em si, acoplado à comunidade
(povo) onde habita, representa a referência de identificação central. Similarmente,
no grupo de quadrilha, o bairro periférico, com as suas relações de “família
ampliada” e vizinhança, forma esse marco na construção de vida. Ao passo que nos
lugares onde menos se encontra uma estabilidade e continuidade por causa dos
fortes fluxos e trânsitos, a referência local se dissolve. Aqui, os elementos de
identificação se acoplam a pessoas, grupos, momentos e lugares que aparentam
ser mais estáveis. Indivíduos assumem a função de garantir um fio condutor na
vida pessoal desses jovens – seja em relações diretas (líder do grupo Hip-hop/da
gangue; vô da quadrilha; padre fundador da CAJU) ou como imagem idealizada
(Jesus). Os jovens se veem como “seguidores” (Hip-hop, CAJU, PIB) desses membros.
Instituições e tradições representam espaços importantes com regras determinadas,
compromisso e regularidades (Hip-hop/ gangue; “Flor do Paraíso”; CAJU; PIB), mas
somente se tornam pontos de referência quando aceitos pelos jovens.
Nos grupos estudados, a fixação em referências não se choca com as
vontades expressas de sair, de experimentar coisas novas, de se aventurar ou
de fazer festa. O desejo de liberdade – assim pode-se intitular todas essas
vontades – existe congruentemente à necessidade de um ponto de partida e de
retorno das saídas e liberdades. Essa constatação vale para todos os níveis
sociais, desde os ribeirinhos, que saem de canoa para as festas da vila, e
voltam ao seu “sítio”, até os jovens privilegiados da CAJU, que, em meio a todas
as oportunidades de lazer, fazem votos para um trabalho religioso.
Portanto, a identificação se relaciona fortemente com aquilo que fornece
sensação de estabilidade, continuidade e segurança para os jovens. Referências
reais (pessoas, grupos e lugares) se misturam com idealizações e projeções
daquilo desejado. Os valores e visões subjacentes, nem sempre conscientemente
refletidos, às vezes, são expressos em imagens difusas ou versos decorados.
Num ponto, porém, congruem: a necessidade e o desejo de estabilidade que
garantem uma perspectiva de vida.
Isso se confirma quando os jovens começam a falar sobre conflitos que
os envolvem. Mesmo de formas diferentes, há um problema central a qual todos
se referem nas entrevistas: a violência social explícita e ameaçadora em todos
os lugares públicos que, na opinião dos jovens, está ligada à pobreza, à falta de
oportunidades e às drogas.
234
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
Pouco se percebe conflitos que são caracterizados por diferenças
culturais, como se esperava, a partir das hipóteses da pesquisa de campo. Não
há choques de valores e sistemas de orientação nas colocações dos jovens. A
influência dos meios de comunicação não é expressiva, pouco se fala dos
programas de TV ou rádio. As imagens de mundos diferentes, os sons de estilos
de músicas “modernas” são encarados e inseridos com naturalidade no
cotidiano, quando interessam; mas, em geral, permanecem distantes em relação
às influências diretas do ambiente dos jovens. No entanto, quando não há a
retaguarda de referências no ambiente primário (como parcialmente no caso
do Povo Anambé), os jovens são mais receptíveis a influências externas, “correm”
ou “fogem” atrás de imagens geralmente inalcançáveis. A confirmação ampla
desta afirmação, porém, ultrapassa o limite desta pesquisa.
Um potencial de conflito encontra-se em relação ao exercício da religião,
que constitui a base de identificação para diversos grupos, principalmente nos
universos urbanos. Enquanto os jovens de dois grupos destacam a importância
da religião de forma mais geral e indiferenciada; outros dois grupos demonstram
uma postura mais determinada em relação aos “outros”, e transferem uma
segurança de que a sua convicção pode “salvar” outras pessoas e melhorar o
mundo. Nessa compreensão mais missionária, a identidade religiosa firma
uma unidade interna e, paralelamente, provoca uma tendência de
distanciamento em relação aos diferentes.
Num dos grupos (PIB), isso se expressa no que diz respeito ao “mundo”,
com o assumir de uma posição “acima” da cultura humana. Discurso religioso
e linguagem ritual – mesmo sendo de origem cultural norteamericana –
manifestam-se em expressões relativamente uniformes nas diferentes regiões.
Na igreja, as pessoas sentem-se em casa pela semelhança dos rituais, das
músicas e da linguagem, assim como do discurso. Portanto, esse lugar representa
um ponto de inserção fácil para pessoas migrantes de outros lugares, como
pode ser verificado no grupo dos jovens.
O outro grupo evangélico (Hip-hop) tem uma característica muito
particular, espontânea não-institucional e não se enquadra nesta análise. Há
um conjunto de bases de identificação explícita, uma sobreposição entre
diferentes referenciais culturais (Movimento Hip-hop, oriundo na América do
Norte, Amazônia), sociais (periferia - rua, libertação de jovens das gangues),
políticos (emancipação do negro, justiça social) e religiosas (seguidores de
Jesus, conversão - mudança radical de vida). Esses referenciais têm, como ponto
aglutinador, uma visão de vida em justiça. O conflito central gerado pela
violência social marca profundamente a biografia desses jovens. A conversão
religiosa, como afirmam, é a inspiração para um caminho concreto de mudança
de vida pessoal: a libertação da gangue e das drogas. Nessa perspectiva, o
grupo desenvolve uma dinâmica que demonstra, por um lado, um potencial de
ação para libertar outros do círculo fatal das gangues e, pelo outro, uma sede
de estudar e aprofundar temas de interesse.
235
236
GRUPO
INDÍGENA
ANAMBÉ44
INDÍGENA
44
Papel social dos
jovens no grupo
social e cultural.
Não foi
observada uma
identidade e
estrutura clara
de grupo.
Uma das poucas
ofertas para
jovens no local –
prazer de dançar
– possibilidade
de sair: mais
liberdade –
apresentar-se
publicamente.
Dança folclórica –
lugar de origem /
ribeirinhos –
casal de
fundadores.
GRUPO
RAÍZES DO
CARU-AIPIM
RIBEIRINHO
Evangélico –
Igreja Batista
– grupo
jovem.
Encontro de
jovens –
socialização
na Igreja
Batista –
envolvimento
familiar – fé
religiosa.
Encontro com
outros jovens
– busca
religiosa –
socialização
na Igreja
Católica – se
comprometer
com algo.
PRIMEIRA
IGREJA BATISTA
(PIB)
Casa da
Juventude –
Igreja Católica
– liturgia.
CASA DA
JUVENTUDE
(CAJU)
CENTRO URBANO
Prazer de
dançar – estar
junto com
outros jovens
–
envolvimento
na vizinhança
–
possibilidade
de sair e de
apresentar-se.
Tradição da
quadrilha mais
antiga de
Belém /
família
coordenadora
– dança –
bairro.
QUADRILHA
FLOR DO
PARAÍSO
Libertação das
gangues: nova
perspectiva de
vida –
apresentar-se e
afirmar-se em
público –
mudança
política.
Movimento Hiphop –
Evangélico –
movimento
negro – bairro –
líder.
BANCADA
REVOLUCIONÁRIA
GOSPEL
PERIFERIA URBANA
O grupo
representa
para os jovens
um espaço
central para
constituir a
sua vida
social: o
encontro com
outros, a
liberdade e a
autoafirmação.
Identificações
não são
unívocas, mas
um conjunto
de elementos:
atividade –
local – pessoas
instituição –
religião.
ANÁLISE
TRANSVERSAL
continua...
A pesquisa no universo indígena se caracterizou por extrema dificuldade devido aos trâmites burocráticos junto à FUNAI, que tardaram todo o planejamento. Mesmo com contatos
anteriores da pesquisadora, percebemos que o período de permanência junto aos Anambé ficou restrito demais para poder aprofundar-se nesse contexto, tão complexo e tão
diferente. Assim, não houve tempo suficiente para levantar os dados qualitativos e acompanhar os processos educativos. Decidimos, mesmo com essas deficiências, incluir o
universo, porém, apenas com aqueles dados que podemos legitimar a partir da pesquisa. Portanto, a análise do universo indígena fica parcial e não permite maiores conclusões.
Motivação
Elementos
identificadores de grupo
a) DINÂMICA INTERNA
ITENS
UNIVERSO
Quadro III: Os Grupos de Jovens - Dinâmica Interna, Articulação e Processos Educativos
Universidade da Amazônia
GRUPO
INDÍGENA
ANAMBÉ
INDÍGENA
Constituição:
adesão,
regularidade,
fluxo na
participação
Instituição:
fundação /
regulamento /
dependência
institucional /
apoio
Agrupamento
espontâneo por
idade e papel
social.
a) DINÂMICA INTERNA
ITENS
UNIVERSO
continuação...
CAJU, fundada
em 1959, com
autonomia
relativa à Igreja
Católica –
grupo de
“Liturgia” é
atividade
interna desde
1995 –
obedece
regulamento
geral – jovens
passam por
diferentes
estágios dentro
da CAJU.
Integrantes
da “Liturgia”
fizeram
oficialmente
votos
religiosos
como
expressão do
seu compro
Adesão por
convite do casal
de fundadores e
de amigos –
compromisso
informal e
confiança na
responsabilidade de cada um –
CASA DA
JUVENTUDE
(CAJU)
Fundada há
24 anos por
família,
liderança
como
animação de
rua –
coordenação
continua na
mão das
mulheres da
família,
passada de
geração em
geração.
Adesão por
proximidade à
família
fundadora,
principalmente da
vizinhança,
mas também
por amizade –
compromisso
Todos os
jovens da
igreja são
encaminhados
para os grupos
– compromisso
de credo
religioso –
divisão por
idade –
QUADRILHA
FLOR DO
PARAÍSO
Todos os
grupos
demonstram
uma alta
estabilidade
interna
surpreendente para
jovens. É um
sinal da
Grupo base em
volta do líder –
outras adesões
em chamadas
por ocasião das
apresentações
públicas – chegou
a 80 participantes esporádicos,
mas
continua...
Os grupos
apresentam
formas e graus
diferentes de
relações
institucionais.
A partir delas
se estabelece
boa parte da
dinâmica
interna:
restrições e
liberdades,
mecanismos e
possibilidades
de decisão e
participação.
ANÁLISE
TRANSVERSAL
Surgiu da NRP
(Nação de
Resistência
Periférica) por
questões
ideológicas e
religiosas há 6
anos – mantém
independência,
mas se articula
com outras
instituições
(igreja,
prefeitura) em
áreas pontuais.
BANCADA
REVOLUCIONÁRIA
GOSPEL
PERIFERIA URBANA
Parte da
Escola Bíblica
Dominical
(EBD) desde a
fundação da
PIB – atividade
institucionalizada e regulamentada –
coordenadores
escolhidos
pela direção
da igreja.
PRIMEIRA
IGREJA BATISTA
(PIB)
CENTRO URBANO
Grupo fundado
por casal da
comunidade –
regulamento
interno definido
pelos
fundadores e
participantes –
apoios externos
esporádicos –
colaboração de
coreógrafo
experiente.
GRUPO
RAÍZES DO
CARU-AIPIM
RIBEIRINHO
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
237
238
GRUPO
INDÍGENA
ANAMBÉ
INDÍGENA
Liderança /
Coordenação
O Conselho do
Povo Anambé
exerce influência
direta também
aos jovens. – Fora
disso, o professor
é uma figura
referencial para
eles.
a) DINÂMICA INTERNA
ITENS
UNIVERSO
continuação...
Os coordenadores se veem como
amigos e
aconselhadores –
os jovens
aceitam a sua
liderança,
consideram-na
necessária para
organizar o grupo.
vários encontros
por semana –
grupo estável:
90% participam
desde o início há
um ano.
GRUPO
RAÍZES DO
CARU-AIPIM
RIBEIRINHO
O grupo
escolhe a
coordenação
a cada ano a
partir do
critério
principal da
disponibilidade - função de
organizar as
atividades e
articular com
outros grupos
misso - já
participaram
de outros
grupos – grupo
se constitui a
cada ano
novamente –
encontro
semanal –
participação
regular.
CASA DA
JUVENTUDE
(CAJU)
Coordendores
indicados
pela diretoria
da igreja,
tendo
passado por
cursos de
formação –
jovens não
questionam
coordenação
nem forma
escolarizada
dos encontros
como aulas.
encontros
dominicais –
participação
regular
controlada.
PRIMEIRA
IGREJA BATISTA
(PIB)
CENTRO URBANO
A família
fundadora
ocupa coordenação desde a
existência do
grupo, apenas
mulheres,
agora na
terceira
geração,
zelando pela
tradição – são
chamadas
como “vô” e
“mãe” pelos
jovens.
informal –
composição
anual, porém
com grupo de
base participação
intensa de
fevereiro a
junho; depois,
encontros
espontâneos.
QUADRILHA
FLOR DO
PARAÍSO
Prática
democrática de
votação, porém
a coordenação
continua desde
o início na mão
do idealizador,
um líder
carismático que
estuda para ser
pastor. Observase uma
lealdade grupal,
parecida como
nas gangues.
firmou-se como
grupo menor
(20) em estudos,
discussões nos
encontros
semanais.
BANCADA
REVOLUCIONÁRIA
GOSPEL
PERIFERIA URBANA
continua...
Também no
perfil e na
escolha da
coordenação,
confima-se a
diversidade
entre os grupos.
No entanto, em
todos prevalece
uma integração
positiva e uma
identificação
jovem-liderança.
importância
que tem para
a vida dos
jovens.
ANÁLISE
TRANSVERSAL
Universidade da Amazônia
GRUPO
INDÍGENA
ANAMBÉ
INDÍGENA
Grupo sem
O centro da centro próprio
visível – encondinâmica
grupal interna tros espontâneos
e dispersão.
a) DINÂMICA INTERNA
ITENS
UNIVERSO
continuação...
Oferta
específica
aglutina jovens
antes
dispersos com
atividades e
linguagem
apropriadas.
GRUPO
RAÍZES DO
CARU-AIPIM
RIBEIRINHO
O grupo se
entende na
responsabilidade de realizar
semanalmente a liturgia
central para
os jovens da
CAJU.
CASA DA
JUVENTUDE
(CAJU)
O grupo se
insere na
dinâmica
escolar da
EBD, sendo
um lugar de
estudo e
aprendizagem.
PRIMEIRA
IGREJA BATISTA
(PIB)
CENTRO URBANO
Grupo se
forma em
estruturas
familiares
em volta da
figura central
e
carismática
da “mãe”.
QUADRILHA
FLOR DO
PARAÍSO
Grupo reúne
jovens a partir
da sua história
de vida:
violência mudança –
missão.
BANCADA
REVOLUCIONÁRIA
GOSPEL
PERIFERIA URBANA
Verifica-se a
importância
de um centro
referencial,
que se
compõe de
personalidades ou
instituições,
de ações ou
temas.
ANÁLISE
TRANSVERSAL
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
239
Universidade da Amazônia
A importância chave do grupo de jovens45 como centro da socialização
confirma-se nessas manifestações. O encontro e a coletividade com outros
jovens é o espaço em que o jovem se afirma como pessoa, aprende a sociabilidade
e erige a sua orientação em referenciais para a construção de suas perspectivas
de vida. No entanto, “grupos” não existem na abstração. Eles são realidade e se
constituem em contextos limitantes e potencializadores, estão em constante
movimento por dentro e para fora. Tendo em vista os diferentes cenários (Quadro
I e II), houve aproximação, inicialmente, aos movimentos internos dos grupos.
O momento inicial de ingresso no grupo é um dado significativo, uma
vez que nesse momento se molda a ligação emocional com o grupo, a relação
com os outros e a posição pela qual o jovem se insere. As diferentes motivações
e situações de adesão dos jovens a um grupo levam à distinção de três formas:
- ingresso induzido: Geralmente, os jovens são colocados por ingerência
externa do grupo social (família, vizinhança, igreja) do qual fazem parte.
Mesmo que eles não se sintam pressionados ou forçados, têm pouca
interferência na inserção no grupo.
- opção ocasional: O grupo como oferta atrativa surgiu nas proximidades
do jovem, que começou a envolver-se ocasionalmente e, às vezes,
coincidencialmente nas atividades. Frequentemente, a aproximação
foi facilitada ou reforçada por uma pessoa de confiança (amigo,
vizinho).
- escolha ciente: A inserção no grupo se dá por seleção própria do jovem,
normalmente, a partir de uma opinião já formada. Pressupõe-se que o
jovem passou por um processo de experiência, busca e aprofundamento
até chegar a uma decisão de se aproximar de determinado grupo.
A pesquisa demonstra que não existem exemplos “puros” de uma ou
outra forma de inserção, mas sempre observam-se interferências externas,
ocasiões e decisões. Deve se considerar também que os jovens encontram-se
em diversos estágios de desenvolvimento e situações contextuais. No entanto, a
análise aponta para graus diferenciados de participação dos jovens na adesão
e, consequentemente, na própria dinâmica interna do grupo. Partiu-se do
pressuposto de que uma maior postura participativa, ou seja, o jovem como
“sujeito”, leva a uma maior competência de construir perspectivas em
responsabilidade e gestão própria. Entende-se também que o jovem, como
sujeito, é um horizonte de um desenvolvimento e amadurecimento.
45
Conhecida na Sociologia e Pedagogia como “Peer Group”.
240
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
O grupo somente se constitui e permanece articulado se houver uma
composição interna, que une os jovens em sua diversidade num centro comum.
Esse centro não é uniforme e estático, visto que abrange uma dimensão emocional
pela qual os jovens sentem-se ligados ao grupo; e uma dimensão material, em
que uma identidade grupal se manifesta concretamente. Na pesquisa de
formatações tão diversas, encontraram-se mesmo assim alguns fatores centrais
constituintes de grupo.
Primeiro, jovens de todos os grupos frisam a importância da amizade,
seja no que se refere ao convite para o grupo, seja em relação a momentos
marcantes do grupo. É o encontro com outros jovens; é a vontade de ser amigo;
é o desejo de se relacionar com alguém – tudo isso faz do grupo um espaço em
que o jovem busca satisfazer uma necessidade existencial. E para isso, ele,
jovem, precisa do outro jovem, um lugar e um momento que possibilite um
encontro com esse outro.
Segundo, observa-se a centralidade do movimento para o grupo. Ele
atrai a liberdade alcançada a partir das atividades; atrai as oportunidades e
mudanças e novidades. Os elementos da música e da dança que desenvolvem
um papel importante em todos os grupos, expressam essa vontade. Também a
religiosidade está ligada ao movimento interno e externo por representar a
saudade e o desejo de relações ideais.
Terceiro, identifica-se a importância de referenciais. Grupos que
demonstram uma certa assiduidade e regularidade formam-se em volta de
lideranças que incorporam um referencial para os jovens. O carisma dessas
pessoas não surge apenas da fala convincente, mas de uma coerência entre
discurso e atuação, de uma segurança e autoridade na orientação, assim como
de uma sensibilidade para as necessidades dos jovens.
Contudo, um grupo não se define apenas para dentro; ele se compõe da
mesma forma em diferenciação ao que está em sua volta. As articulações externas
posicionam o grupo num contexto maior, delimitam a sua ação e fazem dele um
ator social coletivo.
241
242
Apoios
Atividades
Externas
GRUPO
INDÍGENA
ANAMBÉ
INDÍGENA
Escola.
Organização do
lazer (sinuca, por
exemplo).
a) ARTICULAÇÕES
ITENS
UNIVERSO
Coreógrafo
conhecido –
Órgãos públicos
(Prefeitura) –
grupo de
amigos.
Apresentações
de dança em
eventos
públicos,
representando
a cultura
amazônica e
comunidade
Caruaru.
GRUPO
RAÍZES DO
CARU-AIPIM
RIBEIRINHO
CAJU –
Paróquia
Católica –
famílias .
Organiza
missas jovens
com o grupo
de música –
articula-se em
atividades
gerais da CAJU
com os outros
grupos.
CASA DA
JUVENTUDE
(CAJU)
Famílias –
comunidades
religiosas
Não se
posiciona
como grupo
em lugares
externos, mas
se articula em
encontros
maiores de
jovens
evangélicos.
PRIMEIRA
IGREJA BATISTA
(PIB)
CENTRO URBANO
Grupo de
amigos órgãos
públicos
(Prefeitura) –
organizadores
de eventos de
rua.
Concorre com
outras
quadrilhas
nos festivais
juninas –
apresenta-se
em festas de
rua.
QUADRILHA
FLOR DO
PARAÍSO
Órgãos públicos
(Prefeitura) –
organizadores
de eventos de
rua.
Apresentações
de rua e em
eventos
maiores –
oficinas nas
expressões do
Hip-hop –
missão de rua.
BANCADA
REVOLUCIONÁRIA
GOSPEL
PERIFERIA URBANA
continua...
Todos os
grupos fazem
parte de uma
rede de
relações e
instâncias.
Os grupos do
centro urbano
agem mais
para dentro da
instituição,
enquanto os
outros ocupam
prioritariamente
os espaços
públicos.
ANÁLISE
TRANSVERSAL
Universidade da Amazônia
Movimentos
como ator
social
GRUPO
INDÍGENA
ANAMBÉ
INDÍGENA
Pesquisa não
levantou dados
a) ARTICULAÇÕES
ITENS
UNIVERSO
continuação...
A comunidade e
principalmente
os jovens da
comunidade
acompanham as
atividades –
grupo faz parte
de uma
estratégia de
desenvolver uma
área turística.
GRUPO
RAÍZES DO
CARU-AIPIM
RIBEIRINHO
O grupo se
insere nas
atividades
gerais da
CAJU, sendo
as liturgias o
momento e o
lugar central
para unir
todos da CAJU
e congregar
outros que se
aproximam.
CASA DA
JUVENTUDE
(CAJU)
Cada jovem
individualmente,
e o grupo
como tal, é
importante
para a
comunidade
na recrutação
(convite e
acolhida) de
novos
membros.
PRIMEIRA
IGREJA BATISTA
(PIB)
CENTRO URBANO
O concurso
não posiciona
apenas o
bairro diante
de outros,
mas reforça o
potencial e a
criatividade
da cultura
“popular” de
bairros
periféricos.
QUADRILHA
FLOR DO
PARAÍSO
O grupo
manifesta o
potencial do
jovem, do negro
e da rua, provoca
politicamente e
concebe isso
como “missão” a
seguir,
principalmente
para gangues.
BANCADA
REVOLUCIONÁRIA
GOSPEL
PERIFERIA URBANA
Evidencia-se o
potencial e a
importância
que os jovens
articulados
em grupo têm
como atores
sociais para
dentro e fora
das
instituições.
ANÁLISE
TRANSVERSAL
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
243
Universidade da Amazônia
Nas suas articulações externas, observam-se duas tendências entre os
grupos pesquisados. Os dois grupos do centro urbano permanecem dentro de
uma instituição, assumem uma função mais restrita a ela. Fora desses limites,
funcionam mais para reforçar a própria instituição, à medida que ajudam a
agregar outros jovens. Os outros grupos têm uma presença muito maior em
espaços públicos, apresentando-se com o seu potencial cultural. Mesmo que,
em pelo menos dois grupos, não possa ser encontrada uma consciência política
aprofundada de relações, mecanismos e estruturas que compõem uma sociedade;
há um despertar para formar-se como ator social, tanto no que diz respeito à
participação de poder interagir em espaços públicos, quanto no que diz respeito
à valorização de ser significativo em seu potencial para a construção de
sociedade.
Dirige-se a atenção da análise agora aos processos educativos, ou seja,
formas intencionadas de trabalhar com os grupos, com um determinado
propósito e com atividades (mais ou menos) planejadas. O movimento, os
interesses, as motivações e os desejos dos jovens confluem num processo
acompanhado, impulsionado e parcialmente dirigido.
244
GRUPO
INDÍGENA
ANAMBÉ
INDÍGENA
Objetivos
Atividades
educativas
Desenvolver uma
consciência
própria sobre
identidade e
realidade do povo
Anambé.
Tematizar e
refletir a própria
situação como
povo indígena na
escola – inventar
ofertas de lazer.
c) PROCESSOS EDUCATIVOS
ITENS
UNIVERSO
Os
coordenadores
apontam como
objetivo
principal afastar
os jovens das
drogas. Os
jovens
mencionam a
divulgação da
comunidade
como principal
objetivo.
Refletir sobre
cultura regional
– trabalhar
conflitos
internos –
empenhar-se
para superar
dificuldades –
melhorar as
apresentações.
GRUPO
RAÍZES DO
CARU-AIPIM
RIBEIRINHO
Conhecer a
importância
da liturgia –
criar liturgias
jovens realizar
momentos
litúrgicas na
CAJU para os
jovens.
Refletir sobre
temas
relevantes
para as
liturgias –
criar formas
envolventes
para os
jovens –
realizar as
liturgias.
CASA DA
JUVENTUDE
(CAJU)
Objetivos
gerais da
igreja:
evangelização
e
envolvimento
na obra
missionária –
formar os
jovens na
palavra de
Deus e na
doutrina da
igreja.
Estudar
palavra de
Deus e as
doutrinas
religiosas –
aprender
significados
essenciais
para a vida
humana (fé,
destino,
ética).
PRIMEIRA
IGREJA BATISTA
(PIB)
CENTRO URBANO
O objetivo
inicial de
“animar e
ocupar os
jovens”
tornou-se
“cultivar a
tradição da
quadrilha” –
instruir os
jovens em
valores
culturais e
religiosos.
Aperfeiçoar a
apresentação
de dança –
trabalhar
relações
internas,
inclusive
afetivas –
tematizar os
valores
centrais na
cultura,
religião.
QUADRILHA
FLOR DO
PARAÍSO
Evangelizar e
tirar os jovens
das gangues, do
mundo da
violência e das
drogas.
Afirmar-se e
aprofundar-se
em estudo,
discussão e
culto – analisar
a realidade e
desenvolver
estratégias de
mudá-la.
BANCADA
REVOLUCIONÁRIA
GOSPEL
PERIFERIA URBANA
continua...
Os grupos de
caráter
“missionário”
formulam
objetivos mais
idealizados.
Nos outros,
encontram-se
objetivos da
práxis, porém
dentro de uma
perspectiva
ética mais
ampla.
O impulso
educativo vem
principalmente
da reflexão
sobre a
própria
realidade e
interligar esta
com as
atividades
promovidas.
ANÁLISE
TRANSVERSAL
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
245
246
GRUPO
INDÍGENA
ANAMBÉ
INDÍGENA
Conflitos
internos:
diversidade
de opinião,
falhas na
organização,
integração
com outros
grupos,
sobrecarga de
alguns poucos
– Conflitos
Externos:
decisões
ainda
hierárquicas.
Alto grau de
compromisso
com as
atividades e
com a causa –
aprofundamento
emocional e
Conflitos
internos:
relacionamento
entre meninos e
meninas, atraso,
nãocumprimento
das regras –
Conflitos
Externos: disputa
com outra
família pela
liderança na
comunidade,
falta de
recursos.
Impacto na
personalidade dos
jovens:
autoafirmação,
segurança –
relação positiva
com o local
ribeirinho: sentem
A liderança do
povo está ciente
do problema e
busca formas de
trabalhar com os
jovens.
Potenciais /
avanços /
mudanças
CASA DA
JUVENTUDE
(CAJU)
Acompanhamento de
jovens na
fase de sua
adolescência
– desenvolvimento do
conhecimento
Conflitos
internos:
relacionamento
entre
meninos e
meninas –
Conflitos
Externos:
afastamento
de eventos
sociais
considerados
nãoadequados
para crentes.
PRIMEIRA
IGREJA BATISTA
(PIB)
CENTRO URBANO
Dispersão – não
há atenção
específica dirigida
aos jovens.
GRUPO
RAÍZES DO
CARU-AIPIM
RIBEIRINHO
Desafios /
potencial de
conflitos
c) PROCESSOS EDUCATIVOS
ITENS
UNIVERSO
continuação...
Fortalecimento
da
autoafirmação,
das
apresentações
em público, da
capacidade de
ter realizado
Conflitos
internos:
relações e
namoros,
falta de
compromisso
de poucos que
prejudicam os
outros –
Conflitos
Externos: falta
de recursos,
brigas com
outros grupos,
atividades
prejudicam
rendimento
escolar.
QUADRILHA
FLOR DO
PARAÍSO
Libertação
pessoal de
drogas,
percepção e
empenho por
novas
perspectivas
de vida – visão
Conflitos
internos: papel
das meninas
como
namoradas,
recaídas nas
drogas –
Conflitos
Externos:
violência na
família, na rua,
nas gangues,
ameaças,
coerência
entre discurso
e prática, falta
de recursos.
BANCADA
REVOLUCIONÁRIA
GOSPEL
PERIFERIA URBANA
continua...
O envolvimento
no grupo tem
desencadeado
mudanças
múltiplas no
desenvolvimento
de competências
pessoais dos
Os desafios
internos são
muito
semelhantes
em todos os
grupos,
próprios à
idade jovem.
Externamente,
na medida em
que se
posicionam e
se afirmam,
veem-se
envolvidos
nos conflitos
do seu
contexto.
ANÁLISE
TRANSVERSAL
Universidade da Amazônia
GRUPO
INDÍGENA
ANAMBÉ
INDÍGENA
Perspectivas
Necessidade de
investimento
educativo nos
jovens.
c) PROCESSOS EDUCATIVOS
ITENS
UNIVERSO
continuação...
cognitivo por
discutir temas
relevantes no
horizonte da
celebração
religiosa –
desenvolvimento
de percepção
mais complexa
no exercício de
debate.
A CAJU é uma
instituição
estável na qual a
liturgia recebe
uma atenção
especial. O grupo
depende de uma
liderança jovem
e vai passar
sempre por
novas
composições –
talvez uma
dinâmica
positiva.
O grupo tem se
afirmado como
elemento de uma
estratégia de
desenvolvimento
turístico da área.
Com isso, pode
atrair outros
apoios, mas ao
mesmo tempo,
corre o risco de
negligenciar a
própria atenção
educativa para os
jovens.
CASA DA
JUVENTUDE
(CAJU)
Todos os
grupos
demonstram
uma
estabilidade
interna e
externa
suficiente
para garantir
uma
perspectiva
para os
próximos
tempos.
O grupo está
Há uma
ciente do seu
consciência
potencial em
sobre a
importância da chamar a
continuidade atenção pública.
É dinâmico e
cultural
flexível para
(tradição), o
ampliar os seus
que ajuda o
espaços de
grupo para
atuação e
superar
sustentação fora
“baixas”.
Precisa, porém, de dependências
ampliar a base institucionais e
de sustentação. políticas.
A manutenção
institucional
da EBD e do
grupo jovem
está fora de
dúvida. - Há
tendências
entre as
lideranças
jovens de uma
maior
enculturação
no contexto
amazônico.
ANÁLISE
TRANSVERSAL
jovens; assim
como; na sua
capacidade
de posicionarse
ativamente
no contexto
social.
BANCADA
REVOLUCIONÁRIA
GOSPEL
crítica
algo
significativo por aprofundada do
contexto de vida
empenho do
grupo – relação – interligação de
fé e práxis –
positiva com
sensação de
tradição e
responsabilidade
bairro, e, ao
mesmo tempo, por outros
reflexão crítica jovens.
de violências,
relações e
perspectivas.
QUADRILHA
FLOR DO
PARAÍSO
PERIFERIA URBANA
e da vida
espiritual –
reflexões
aprofundadas
sobre
problemas da
realidade –
movimentação
de jovens em
encontros
amplos.
PRIMEIRA
IGREJA BATISTA
(PIB)
CENTRO URBANO
a importância
como
representantes da
comunidade
Caruaru – maior
capacidade de
reflexão sobre si e
sua realidade –
consciência éticaambiental.
GRUPO
RAÍZES DO
CARU-AIPIM
RIBEIRINHO
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
247
Universidade da Amazônia
Conflitos culturais - a atenção analítica – se vestem de múltiplas formas,
umas em evidência, outras escondidas e silenciadas. Nos cenários concretos,
aparecem geralmente apenas os atores primários “em palco” (famílias em disputa,
relações afetivas, brigas entre grupos, alcoolismo, falta de recursos, etc.). Pouco
é revelado sobre origens históricas e estruturais dos conflitos e desafios, sobre
segundas intenções e emoções, sobre interesses e aspirações subjacentes.
Os processos educativos permanecem amarrados e limitados a esses
cenários; agem em e a partir de relações diretas concretas, fortalecendo e
afirmando os jovens dentro desses contextos. No entanto, há indícios claros de
que o trabalho nos grupos leva à percepção e à reflexão mais ampla do que é
posto. O fundo cultural e religioso das atividades tematiza continuadamente
questões de responsabilidade ética e valores principais; impulsiona a criação
de visões da vida, do mundo e do ser humano em suas relações. Formula, a
partir desse pano de fundo – às vezes, difuso e silencioso, às vezes, explícito e
doutrinário –, um objetivo maior de um mundo melhor, encarando, em primeiro
lugar, as violências sociais sentidas por todos. A possibilidade de fazer o mundo
diferente é um horizonte necessário para um processo educativo de mudança
pessoal e social e possibilita uma avaliação crítica de sua realidade atual.
O forte cunho cultural do trabalho educativo nos quatro grupos do
interior (indígenas e ribeirinhos) e da periferia (Quadrilha e Hip-hop) coloca no
centro a busca e a valorização das próprias raízes. É uma tematização de si
mesmo em sua realidade histórica, geográfica e social que olha as relações
cotidianas de fora a fim de entender as próprias maneiras e jeitos de ser e
perceber em elementos significantes do seu ambiente de vida. “Falar sobre a
sua cultura é aprender o mundo afora”, como afirmou um dos coreógrafos, pois
começa a distinguir e valorizar o que “é nosso em relação ao que é dos outros”.
Por isso, a dança expressa muito mais do que uma sequência de passos e vestes
típicos. É uma insistência de que “aquilo que somos tem valor”, é um ato profundo
de autoafirmação. Evidentemente, mistura-se, aqui, o discurso, idealizado pelo
coreógrafo, com a realidade; mas explicita, visivelmente, como os jovens se
entregam e assumem a dança para si: os ribeirinhos, num jogo intenso dos
corpos; na dança da quadrilha, 50 minutos de ritmo alucinante; ou dos giros
acrobáticos do Hip-hop. É prazer, esforço e autoafirmação.
A identificação cultural na área rural está diretamente ligada ao
ambiente natural. Trabalhar com as suas raízes significa estabelecer uma relação
positiva com lugar, valores e sistema de vida local. Nas apresentações de dança,
os jovens assumem e representam tudo isso. Na área urbana, os pontos de
identificação ficam mais difusos, mergulhados numa massa anônima e em fluxos
de movimentação. A quadrilha e o Hip-hop resgatam, nesse cenário, uma mistura
entre tradições importadas de outros lugares (quadrilha - Inglaterra, Hip-hop Estados Unidos), embasamentos amazônicos, movimento de rua e identidade
social de periferia. O resultado é um ato de criação cultural própria, algo que é
248
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
do grupo e algo que compõe, ao mesmo tempo, o rosto do bairro. A cidade de
Belém recebe a sua identidade cultural por essas criações, promove-se e se
apresenta como um grande palco desses grupos. Principalmente nos eventos
públicos e festivais, os jovens respiram esse ar de ser criadores importantes
que se mostram na cidade e que mostram a cidade.
Os grupos do centro urbano manifestam uma característica diferente.
Prevalece uma identificação religiosa que tematiza valores essenciais e uma
visão geral da vida. As doutrinas e a sua expressão ritual se baseiam num
referencial universal que pouco se insere no contexto cultural da região. A
estrutura básica da liturgia católica foi definida pelo centro da igreja em Roma;
as aprendizagens e o culto da Igreja Batista obedecem a convenções doutrinárias
gerais. Assim, a definição da identidade está sob uma influência de representar
uma “verdade” que está numa tensão crítica e provocativa com a realidade. No
entanto, os jovens entrevistados não são meros receptores, mas estão envolvidos
em relações concretas, o que suscita reflexões e questões sobre as maneiras de
como viver os preceitos num determinado momento e local. Existe,
permanentemente, o desafio de enculturação.
Também nos outros grupos, percebe-se o elemento religioso, fazendo
intimamente parte do exercício cultural. Às vezes, de forma implícita, às vezes,
explícita, representa um sistema de orientações básicas. Em todo caso, o referencial
religioso busca uma legitimidade da ação cultural numa percepção geral de vida
e ajuda a manter uma distância crítica necessária às relações sociais.
No mesmo instante em que se constata o referencial cultural e religioso
como impulsionadores de uma transgressão refletiva do seu espaço de vida,
observam-se as suas amarras nas estruturas de segregação social. O interior e
a periferia, como local de ação cultural e religiosa, permanecem no lugar
socialmente interior ou periférico – sem serviços públicos de qualidade, com
altos graus de violência etc. Pouco se questionam ou se modificam estruturas
fundantes da sociedade: tanto as externas, que condenam a população à
pobreza; quanto as internas, que pregam lealdade ao poder local, por
exemplo,elas permancem quase intocáveis. Os grupos no centro urbano
demonstram uma dinâmica mais dirigida por e a um determinado organismo
social. A partir da instituição, posicionam-se na sociedade. A delimitação clara
em relação ao contexto político-social-cultural indica também uma tendência a
se defenderem como pertencentes a uma faixa social mais privilegiada,
distanciando-se do restante da sociedade.
4.1 CULTURA E RELIGIÃO: ESPAÇOS DE CRIAÇÃO SOCIAL
Não se detectaram conflitos culturais como se esperava, a partir das
hipóteses da pesquisa. Os jovens se movimentam com facilidade e naturalidade
nos contextos, assimilando influências de diversas culturas. O que interfere
249
Universidade da Amazônia
com mais vigor são conflitos das relações diretas ou primárias, principalmente
originados na violência social. O impacto generalizado dessa guerra social
não-declarada ficou evidente, já que todos os grupos de lugares e classes sociais
diferenciados encararam-na como problema central de fundo.
Olhou-se para grupos de jovens com características e em contextos
muito diferentes. Mergulhou-se nos processos educativos para perceber
movimentos, mudanças e perspectivas. No horizonte inicial do desafio da
democracia no cenário da globalização, desenhou-se o nosso pano avaliativo
de análise e conclusão.
A democracia como referencial básico declara a pessoa
indiscriminadamente como o ponto principal para dirigir politicamente a
sociedade, ou seja, a dinâmica fundante se baseia no indivíduo e grupo em sua
responsabilidade de atores sociais. Além do reconhecimento de cada um em
seu potencial, mas também com necessidades básicas, alimenta-se uma visão
de uma sociedade em que o respeito pela diversidade e a participação de todos
garante um processo de construção de relações sociais mais justas.
Mesmo que representantes do mundo político e econômico se declarem
em discursos a favor da democracia, um dos efeitos mais negativos da
globalização é justamente a violação dos fundamentos desse ideal: a submissão
das pessoas, de grupos sociais e populações inteiras a mecanismos econômicos
excludentes, sustentados por poderes políticos. Exclusão social significa social
- e politicamente a não-participação na partilha dos recursos naturais, no
acesso às riquezas da terra e na decisão sobre o seu próprio futuro. Significa
cultural - e religiosamente a condenação das pessoas a um estado de calar-se
diante da dominação e suportar os efeitos negativos dela.
Confirmou-se, em nossa pesquisa, a análise da segregação e exclusão
social que se põe como um manto em todos os universos dos quais nos
aproximamos. Entretanto, não se encontrou com clareza a relação da tipologia
dominados e dominadores, mas sentiu-se a onipresença da condenação social
da violência. No entanto, as nossas observações não permitiram uma conclusão
linear da exclusão para uma apatia social, de que as pessoas se entregam
simplesmente a seu destino. E é nesse sentido que a nossa atenção se dirigiu na
pesquisa à dimensão da cultura e da religião. Nelas, o potencial das pessoas de
mobilização e criação consegue ser explicitado, ultrapassando os limites sóciopolíticos e econômicos impostos.
Sem querer nivelar diferenças e desconsiderar complexidades, a análise
comparativa indica alguns elementos chaves que se destacaram como
significativos em processos educativos para uma maior participação social:
1 A formação e a articulação em grupo se mostrou como plataforma de uma
dinâmica mobilizadora dos jovens. Já nas primeiras aproximações aos universos
de pesquisa, detectou-se uma diferença surpreendente de grupos bem-articulados
250
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
em relação a agrupamentos de indivíduos. A partir da nossa observação ainda
sem confirmação empírico, os últimos eram vulneráveis, num grau mais alto, a
influências externas, sem referencial próprio que estabelecesse um horizonte
crítico de verificação. Positivamente falado, jovens em grupo geram em si uma
dinâmica própria com relações minimamente regulamentadas que, por um lado,
reforça uma postura de compromisso mútuo e disciplina e, pelo outro, serve de
impulso a um potencial criador e mobilizador.
2 Complementar à articulação grupal é o processo educativo que desenha a
dinâmica a partir de determinados objetivos. O mero efeito mobilizador de
um grupo ainda não define a direção dos conteúdos e a forma das ações. A
diferença entre os grupos está no contexto, mas também na maneira como se
responde a esse contexto; como o grupo se movimenta, com o que se identifica,
onde se situa, a que aspira. A criação direcionada de respostas é educação. É
intervenção consciente em relações e contextos, formulando impulsos e
criando ambientes a partir de um ideal. É a moldura conceitual e ideológica
que posiciona o grupo de maneira mais criativa e/ou mais assimilativa, mais
aberta e/ou mais afirmativa-missionária, mais compreensiva e/ou mais
agressiva. É o centro de identificação, que desencadeia e reforça competências,
estabelece referenciais e provoca reflexão sobre si mesmo.
3 Uma influência marcante representa o referencial cultural nos processos
educativos. Nele, o objetivo dos processos educativos se relaciona com a
própria identidade dos participantes do grupo, ou seja, o objetivo não é
algo imposto externamente, mas se define a partir do próprio
desenvolvimento.
• Primeiro, evidenciaram-se o movimento e a criação espontânea nos
processos de buscar empatias nas aproximações, nas formas de
expressão, nas relações com os outros e com o ambiente de vida. Em
diversos momentos, jovens e educadores citaram a imagem conhecida
de “desenvolver raízes” de si mesmo em relação ao trabalho cultural. A
partir dessa imagem, explicitou-se uma base afetiva e emocional de
autoafirmação, segurança e força (“a raiz firma, equilibra e nutre”).
• Segundo, tematizando a própria identidade cultural, pensa-se também
no que difere de si mesmo. A partir das próprias identificações, surgiram
reflexões sobre “outros”, sobre diferenças, sobre respeito, sobre nãoidentidade. Tem que se distanciar de si para poder olhar para si mesmo
e refletir-se nos outros. Graus e conteúdos de reflexão muito diversos
foram encontrados, no entanto, o exercício de pensar e perceber a
realidade para além das fronteiras do seu contexto e da sua
normalidade representa uma base importante de desenvolver uma
consciência das relações sociais e de aprofundar um senso ético de
respeito e ser respeitado.
251
Universidade da Amazônia
4 O trabalho educativo, cultural e, parcialmente, religioso gerou atividades
não apenas internas, mas incluiu apresentações ao público. Sob os olhares
de “outros”, os jovens se mostram e recebem reconhecimento, comunicam o
seu trabalho com um certo orgulho, são, durante um momento, o centro da
atenção. Mesmo com uma certa pressão e ansiedade, a dimensão pública é
um aspecto importante do processo grupal, muito citado pelos jovens: cada
jovem aprofunda a sua própria autoafirmação e autossegurança. Entre eles,
desenvolvem posturas de disciplina e respeito no grupo; diante da esfera
pública, firmam um compromisso maior com aquilo que representam
culturalmente.
5 A religiosidade como dimensão afetiva dos jovens é presente em todos os
grupos, no entanto, somente em três, a religião faz explicitamente parte do
processo educativo. Como sistema de valores e orientações, tematiza
questões básicas do ser humano, conduta e ética. Os jovens colocam-se
num referencial de caráter universal que amplia o horizonte de reflexão e
ação, ao mesmo tempo em que assegura uma identidade clara de
direcionamentos. Dessa maneira, o trabalho educativo a partir da religião,
chega a estimular nos jovens inovações e liberdades, assim como leva a
direcioná-los em doutrinas, ou seja, afirmações consideradas verdadeiras
que devem ser assimiladas e obedecidas.
6 Todos os jovens dos grupos com forte caráter religioso sentem-se em missão.
Estão convencidos de que têm uma mensagem importante que tem que ser
comunicada para outros. Querem mudar o mundo a partir dessa mensagem,
baseando-se frequentemente em experiências de uma mudança pessoal de vida.
O grau do fervor e o compromisso dos jovens sinalizam o envolvimento e a
segurança, mas geram, também, conflitos à medida que perdem a capacidade
de compreender e respeitar percepções e opiniões diferentes. O conflito tende a
se agravar quando questões político-sociais se misturam e se sobrepõem.
Portanto, constatou-se que, em todos os universos, os grupos tornaramse plataformas importantes para que os jovens se tornassem atores sociais.
São espaços decisivos para desenvolver competências pessoais, assim como
formas coletivas de participação social num contexto maior. Da mesma forma
que a pesquisa demonstra os potenciais e aspectos significativos para o
desenvolvimento dos jovens, ela pretende ser um espelho a fim de gerar uma
reflexão autocrítica sobre os processos educativos. Indica ainda difícil tarefa
educativa em meio à complexidade e a ambivalências entre indivíduo e coletivo,
entre violentação e própria violência, entre perspectivas e limites, entre mudança
e regressão, entre consciência e ideologia, entre segurança e exclusão. Dessa
maneira, a educação continua a ser um desafio para o qual é preciso sensibilidade
diante do existente, perceptividade diante dos potenciais de mudança; e visão
do que se quer e do que se espera.
252
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
A
PROXIMAÇÕES CONCLUSIVAS
A
Região Amazônica é caracterizada como o encontro de diversas culturas,
etnias, grupos sociais e realidades sócio-econômicas; que se cristalizam
como um desafio central num contexto de um crescente movimento de
migração. Essa dinâmica culmina num espaço em que diversas
influências culturais incidem sobre a formação da cultura local, tendo entre si
processos de transição e transformação, o que caracteriza seu processo
transcultural. O conceito da transculturalidade pressupõe que existem múltiplas
formatações e configurações culturais. No entanto, as limitações que distinguem
uma das outras não podem ser identificadas claramente (OESSELMANN, 2002).
A pesquisa realizada com grupos de jovens no contexto amazônico visou
compreender os processos de socialização e de construção de identidade em
encontros transculturais. Partiu-se, então, da pluralidade de processos
educativos existentes nos diferentes espaços, sejam eles estimulados ou
espontâneos, de encontros, tais como: lazer, formação religiosa, informação,
cultura, entre outros.
Os adolescentes são atores-chave na compreensão desse processo, visto
que na adolescência há um forte processo de agrupamento, em que todos se
identificam com cada um, demonstrando toda sua potencialidade, criatividade,
independência, segurança e estima pessoal na busca e construção de um estilo
ou modelo próprio de vida. Sendo assim, revelam os elementos culturais,
artísticos, políticos, religiosos e ideológicos que manifestam suas aspirações
pessoais de vida, com o estabelecimento de intensas relações grupais e a
consolidação de processos de identidade.
Entende-se por adolescência a fase que compreende grande parte da
segunda década de vida do indivíduo, a partir dos 12 anos. Acredita-se que
nessa fase as mudanças corporais, ao nível físico, são relativamente universais,
a exemplo disso temos a menarca nas meninas, pois não se conhece cultura em
que esse fato não ocorra, podendo variar as datas, mas nunca deixa de acontecer
(LEPRE, 2003; PALÁCIDOS, 1995).
253
Universidade da Amazônia
Todavia, a adolescência muda seu conceito, não só no que diz respeito
à cultura, mas também no que concerne à mudança no tempo e no espaço,
sendo entendida por muitos autores como “moratória social”, por referir-se à
expectativa da sociedade sobre o jovem no mundo (PALÁCIDOS, 1995).
Percebe-se, então, que o entendimento sobre adolescência tem um
caráter social significativo, uma vez que existem determinadas características
do desenvolvimento que se diferenciam em grande escala quando há diferenças
culturais, sendo que a construção da identidade é um dos fatores relacionados
ao desenvolvimento, à cultura e à sociedade em que o indivíduo está inserido
(LEPRE, 2003; PALÁCIDOS, 1995).
Como afirma Becker (apud LEPRE, 2003):
Então, um belo dia, a lagarta inicia a construção do seu
casulo. Este ser que vivia em contato íntimo com a natureza
e a vida exterior, se fecha dentro de uma “casca”, dentro de
si mesmo. E dá início à transformação que levará a um outro
ser, mais livre, mais bonito (segundo algumas estéticas) e
dotado de asas que lhe permitirão voar. Se a lagarta pensa
e sente, também o seu pensamento e o seu sentimento se
transformarão. Serão agora o pensar e o sentir de uma
borboleta. Ela vai ter um outro corpo, outro astral, outro tipo
de relação com o mundo (BECKER, 1997, p.14).
Logo, o adolescente tem em seu horizonte uma gama de possibilidades
na sua relação com o mundo, onde vivencia conflitos afetivos, sociais e morais
na busca de se afirmar como sujeito, e também por ter que fazer escolhas em
uma sociedade, em cujo contexto transcultural as opções se multiplicam,
formando então sua identidade (PALÁCIDOS, 1995).
A identidade é também entendida como a criação de um sentimento
interno da semelhança e continuidade, uma unidade da personalidade sentida
pelo indivíduo e reconhecida por outro, é o “saber quem sou” (ABERASTURY,
1981). Tal processo de formação de identidade é, segundo Berger (2003), formada
por processos sociais, resultados de diversas interações sociais, o que implica
a formação e a conservação de novas identidades.
Nesse sentido, o contexto do universo indígena Anambé, particularmente
dos adolescentes e jovens, remete a uma leitura clara do processo de confronto
e conflitos diante da diversidade de influências e vivências sociais.
A resistência étnica está na continuidade de viver na reserva indígena e
manter elementos contidos nesse universo enquanto cultura diferenciada. A
influência de novos saberes, por meio dos sistemas de informações que lhes
são acessíveis, cria um processo democrático, que permeia a necessidade de
integrar e pertencer, porém sempre com o cuidado em manter seus vínculos e
referenciais indígenas.
254
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
A realidade do grupo indígena Anambé possibilitou análise valiosa no
sentido de pensar os grupos misturados dentro de um processo de transição
cultural. Na apreensão dessa realidade fica a característica própria do povo
indígena, baseada na relação com a natureza, respeito com o outro,
solidariedade, companheirismo. Esse grupo apresenta tais relações de
convivência, configurada por intermédio de seu cotidiano.
Percebe-se que a identidade indígena é visível no grupo Anambé, mesmo
diante do contexto amplo de mistura racial, em que foram perdidos alguns
laços culturais, correspondendo a valores, crenças e símbolos. O viver do grupo
na reserva indígena, mesmo delimitada, sustenta a identidade e a cultura, em
virtude do modo de vida típico e diferenciado, fato que o caracteriza como índio.
Os jovens e adolescentes concebem essa realidade por meio da aceitação
do seu modo de vida. O amor que demonstram pela terra, pela aldeia e pela
família permite essa leitura. O contato com o outro subsidia o olhar para frente,
com perspectivas no âmbito profissional; contudo, anseiam por esse sonho,
convivendo na aldeia, da sua forma, com a sua gente.
O processo de autoafirmação dos índios Anambé traduz-se no
pertencimento, o viver na reserva indígena. Existe a necessidade de interação
com o outro para melhor apreensão das políticas públicas em que estão
inseridos. A educação formal e informal contribui para a ampliação da leitura
sobre o outro e da necessidade de conviver, criando concomitantemente um
sistema de defesa da identidade étnica.
Portanto, a elaboração dessa realidade contribuiu para a educação
indígena na questão de direcionamento para suas ações educativas, que deverão
ser norteadas pela realidade do grupo e suas necessidades emergentes em
relação à cultura e à identidade.
No que diz respeito aos adolescentes inseridos no espaço ribeirinho,
isto é, no grupo de danças folclóricas “Raízes do Caru-aipim”, observou-se que
a preocupação com a temática da juventude enfrenta um desafio de superar a
lógica, que compreende os processos de socialização e formação identitários
somente a partir de espaços formais, como a escola e o trabalho. Ignora-se,
sobretudo, a pluralidade de processos educativos, vivenciados de forma
espontânea ou estimulada e que se constituem enquanto espaços privilegiados
de construção da subjetividade juvenil.
Na pesquisa de campo, verificou-se tal preocupação na dinâmica de atuação
dos coordenadores, um casal residente na comunidade, a fim de inserir os jovens
do local em um grupo de características culturais próximas ao seu cotidiano.
Dessa forma, afirma-se que tal prática se constitui num processo de
socialização secundária, de caráter informal, cujo objetivo é se trabalhar
pedagogicamente os jovens que se encontravam em situação de risco, ou seja, em
contato com drogas, violência e alcoolismo. A formação do grupo, nesse caos,
propiciou o “resgate” de alguns jovens dessa situação, muito embora esse discurso
255
Universidade da Amazônia
não seja manifestado e, portanto, não esteja internalizado pela maioria dos
integrantes do grupo. Contudo, é válido pontuar que o fato dos jovens estarem
inseridos no grupo, permitiu-os o conhecimento de outras realidades e,
consequentemente, a adequação de comportamentos como forma de inserção social.
Quanto à dinâmica estabelecida no grupo, observou-se que se configura
como uma extensão da uma família real existente na comunidade, e que se caracteriza
como um grupo fixo e permanente com manifestação também de conflitos internos e
externos, que se constituem nos principais desafios para a consolidação do grupo.
Quanto aos jovens em si, percebeu-se que eles não têm internalizados
os valores do que venha a ser política, religião e a própria juventude, o que
representa uma lógica histórica estabelecida em comunidades rurais, uma vez
que essas se encontram desprovidas de políticas públicas no que tange,
sobretudo, ao acesso a uma educação de qualidade.
Quanto aos elementos culturais, observou-se que os jovens apresentam
um modo próprio de vida estritamente relacionado às condições ambientais e
sociais em que vivem; e desempenham seu papel social no mundo, assim como
também constroem seus referenciais simbólicos. Nesse sentido, foram
identificados e elencados quatro elementos-chave no processo de constituição
dos comportamentos e do imaginário dos jovens moradores de Caruaru: ação
do meio; ocupação; princípio da herança e relações de parentesco.
Aponta-se que os jovens estudados apresentam uma identidade social
bem delineada, definida fundamentalmente a partir das relações materiais e
simbólicas que estabelecem com o território. Assim, a identidade social é também
uma identidade territorial defensiva que filtra as ameaças da experiência social
urbana e do contato com o desconhecido e imprevisível.
Quanto à transculturalidade buscada pelo projeto, observou-se sua
ocorrência no momento em que os jovens apresentam características
psicossociais marcadas por influências locais, como o rio e mata; estão
inseridos na cultura amazônica ribeirinha de base rural, mas com aproximação,
em seu cotidiano, de elementos padronizados da cultura urbana e de massa,
como as gírias, o gosto pelo gênero musical popular “brega”, assim como também
por representações simbólicas que articulam ambigüidades características da
situação de convivência entre dois universos culturais: o ribeirinho (Caruaru) e
o urbano (Vila de Mosqueiro), isto é, o desejo de serem, ao mesmo tempo,
diferentes e iguais aos jovens da cidade.
No que tange aos grupos religiosos, isto é, Primeira Igreja Batista - PIB
e Casa da Juventude – CAJU, observou-se que dentro do contexto da
transculturalidade amazônica na construção da identidade dos jovens, foi
constatado em relação ao primeiro, ou seja, que os adolescentes da PIB, mesmo
que inseridos na cultura da região amazônica, formam um grupo com
comportamentos padronizados, institucionalizados, apresentando conflitos
individuais inerentes ao estágio de desenvolvimento psicoemocional, comum
256
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
aos demais adolescentes. Esses conflitos abrangem desde problemas de
relacionamento familiar, relações amorosas, à aceitação grupal dentro e/ou
fora do grupo da EBD. Entretanto, esses jovens se diferenciam dos demais
adolescentes na maneira de vivenciá-los, por adotarem comportamentos,
costumes e valores de princípios religiosos.
Percebeu-se também que a padronização e a institucionalização são
vivenciadas no cotidiano das atividades de lazer dos adolescentes, haja vista
que eles adotam padrões culturais tidos como universais, sendo
predominantemente realizadas atividades com influências externas, da mídia
de massa, dos modismos e das padronizações sociais: ir ao shopping, cinema,
navegar na Internet, o que não são majoritariamente pertencentes à cultura
tipicamente amazônida. Esse fato corrobora para o conceito de
transculturalidade, visto que é perceptível um forte movimento de transformação
e transfiguração da identidade cultural dos adolescentes da EBD em meio a
influências internas e até externas da Região Amazônica.
No contexto da diferenciação, vale ressaltar que os jovens que não
vivenciam de maneira edificante os princípios bíblicos de preservação dos
valores morais, éticos, religiosos e do corpo são identificados pelos
adolescentes da PIB como “mundanos46” por muitas vezes esses buscarem apenas
a própria satisfação, que pode ser momentânea, egoística, imoral e antiética.
Assim, reforça-se a concepção de Aberastury & knobel (1981) de que o elemento
sociocultural influi com determinismo específico nas manifestações da
adolescência, dando-lhe características universais.
Portanto, as ideologias precocemente adquiridas e mantidas sem
modificações assumem um caráter defensivo, em que os adolescentes da PIB
percebem-se diferentes dos demais, pois acreditam que seguem uma religião de
maneira espontânea, norteadora de seus pensamentos e comportamentos nos
diversos setores da vida, posto que, segundo os princípios religiosos adotados,
devem sempre estar voltados às questões éticas e morais.
Diante do exposto, verificou-se, apoiado em Oliveira (1976), que a
identidade é construída social e pessoalmente, modificando-se constantemente
no tempo e no espaço, ou seja, ela não é estática. Infere-se, então que a Escola
Bíblica Dominical constitui-se como um espaço religioso privilegiado
(culturalmente e socialmente) para o processo de formação e construção de
identidade, e de socialização secundária do grupo de adolescentes pesquisado.
Quanto aos adolescentes da CAJU, foram consideradas tanto as variáveis
pessoais, quanto as variáveis coletivas, decorrentes da tarefa a que o grupo se
propõe desenvolver e do contexto em que está inserido. Cada contexto constitui
um espaço peculiar, com limites, normas e significados que, captados pelo
grupo, poderão ou não ser explicitados e aceitos por esse.
46
Segundo os adolescentes entrevistados, “mundanos” são pessoas que utilizam drogas lícitas ou ilícitas e que não
preservam o seu corpo, pois acreditam que o corpo é templo do Espírito Santo.
257
Universidade da Amazônia
Até onde foi possível avançar na pesquisa, percebeu-se que os
integrantes do grupo de liturgia estão sempre atentos aos momentos que o
grupo está vivendo; percebendo suas carências, dificuldades e necessidades,
comunicando aos coordenadores, para junto com eles, tomar atitudes para
promover o amadurecimento do grupo. A meta da equipe é trabalhar com
profundidade todas as atividades litúrgicas para que a celebração da missa
seja realizada com sucesso.
Contudo, quanto mais uma pessoa se enquadra nos padrões ideais do
grupo mais será popular e, provavelmente, representará o tipo de pessoa que
todos os membros restantes gostariam de ser. A interação é um pré-requisito
necessário para o crescimento de sentimentos, tanto das normas quanto das
simpatias e antipatias existentes no grupo, já que, diante do processo de
avaliação da personalidade de cada sujeito, com o intuito de identificação,
bem como de aproximação, que ocorre com aqueles membros que já tiveram
uma forte identificação antecipatória com o Grupo de Liturgia. Observou-se,
portanto, a presença mais forte de laços positivos, ou seja, os vínculos
gratificantes de simpatia preponderam sobre os da antipatia, sendo que esse
último vínculo pode estar recalcado no inconsciente coletivo do grupo.
Dessa forma, a religião se faz presente no âmbito das boas relações,
precisando ser observada como um fenômeno da “alma humana”, em que é
natural se ouvir que o momento atual é de resgate do âmbito espiritual do ser
humano. O ser humano não é apenas um corpo munido de uma mente pensante
e de um conjunto de emoções, mas é, também, como se pode perceber, um ser
espiritual (VICENTE, 2000).
Naisbitt e Aburdene (apud VICENTE, 2000) afirmam que objetivo tanto
da religião quanto da ciência é encontrar a verdade. Desde o Iluminismo os
ocidentais têm cultuado a ciência quase como uma religião, reforçada pelo
pensamento do filósofo Nietzsche, que tendia a um Deus que estava morto.
Entretanto, hoje a tendência culmina ao renascimento religioso, pois a ciência
juntamente com a tecnologia não respondem ao homem o significado da vida. É
obvio, portanto, à medida que se observa a modernidade, observa-se também o
papel terapêutico que algumas igrejas vêm realizando.
Assim, associando esse fato ao declínio das religiões nas décadas de
60 e 70, está o valor que se dá atualmente à subjetividade, em que perguntas do
tipo “quem sou eu?” ou “qual o significado da minha vida?” só podem ter respostas
subjetivas. No entanto, parece não haver muitas aprovações para a vida
introvertida e/ ou subjetiva, pois parece que a sociedade conduz os sujeitos na
direção oposta, na tentativa de que encontre respostas para suas perguntas
nas questões externas e na objetividade. Isso tende a acarretar maiores conflitos
juntamente com aqueles que são “naturais”, pois as respostas estão dentro de
cada um. No entanto, parece que a capacidade humana na resolução de conflitos
está ligada ao outro como referencial do bom / ruim, certo / errado; então,
258
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
torna-se mais fácil a fé em um Deus que se tem como referencial de vida, e a
busca na inserção de grupos religiosos.
Segundo Hillman (apud VICENTE, 2000), quanto mais se penetra no mundo
interior, mais se sente que os problemas pessoais adquirem uma dimensão
humana, passando da individualidade para a universalidade. Assim, o momento
religioso deve ser intensamente vivido quando transcende o ego e revela a
verdade. Esse pensamento é que, aparentemente, se observa no grupo de Liturgia,
bem como na Casa da Juventude, caso não seja uma mera alienação, neurose ou
uma fuga de problemas ou conflitos pessoais.
Para Yung (apud VICENTE, 2000, p. 94),
[...] não é possível chegar à harmonia do ser sem tomar
consciência dos valores espirituais e sem um retorno a
eles. Ele considera a religião como uma das expressões
mais antigas e universais da alma humana e que a ciência,
qualquer que seja sua linha, uma vez que se ocupa da
estrutura da personalidade humana, deve constatar que a
religião é um assunto importante para muitos indivíduos,
além de um fenômeno histórico ou sociológico.
Percebe-se, ainda, que os jovens envolvidos nesta pesquisa sentem-se
atraídos pelas missas, e, à medida do possível, tentam fazê-la mais atrativa,
sendo uma das principais tarefas em se tratando desse grupo, justamente, com
o intuito de cativar novos jovens para serem fiéis. Assim, os jovens pesquisados
acabam devolvendo à religião o papel de integração social e espiritual da
juventude.
A Casa da Juventude torna-se um lugar onde os jovens podem fazer
amizades. Assim, a igreja começa a oferecer aos jovens esse espaço com mais
segurança, autoconhecimento e doutrina, transformando-o num lugar onde tais
jovens podem praticar a fé espiritual, a sede de transformação social, não no
sentido de transformação na estrutura da sociedade, enquanto sistemas sociais,
mas com o intuito de ajudar a população excludente.
Percebeu-se que os jovens do grupo de Liturgia vivenciam de acordo
com a sociedade, um momento pós-moderno, em que não se utiliza apenas um
determinado tipo de identidade, e sim, articula-se um tipo para cada momento
vivenciado. Dessa forma, pode-se identificar prioritariamente dois tipos de
identidade presente no grupo: a Legitimadora, a qual utilizam para propagar a
doutrina católica, e de Projeto, que enfatiza a capacidade de reafirmar a
identidade legitimadora, a qualquer momento histórico, sua posição na
sociedade, buscando uma transformação social, mesclando o pós-modernismo
com características tradicionais do catolicismo.
Nas aproximações conclusivas acerca do universo urbano periférico,
no que tange ao Hip-hop, optou-se por trabalhar com as conceituações acerca
259
Universidade da Amazônia
das temáticas: identidades, transculturalidade e processo pedagógico presente
no grupo pesquisado, Bancada Revolucionária Gospel.
Sendo que se dividiu, em uma primeira perspectiva de discussão, a questão
das identidades e transculturalidade, que será enfocada sob a óptica de autores
que reproduzem uma visão de mundo e de homem, móvel e em constante transição
muitas vezes antagônica no contexto das realidades culturais.
Posteriormente, a perspectiva de análise que envolve o processo
pedagógico e processo de transição pelo qual os jovens, pertencentes ao grupo,
passaram e passam, o que vem, acima de tudo, assegurar a produção de projetos
de vida conscientes e intelectuais obtidos por meio da construção educacional,
revelados pela prática na atuação dos jovens, no grupo de Hip-hop BRG.
Nesse grupo a discussão de maior importância gira em torno da questão
relativa à produção de jovens como “autores de si”, constata no grupo, à medida
que este jovem é lançado na busca do conhecimento (educação e arte), as práticas
construídas ultrapassam as barreiras estigmatizadas do ensino e da educação
formal, pois estes jovens do grupo BRG utilizam suas histórias, experiências e
ancoram, sobre a aprendizagem, o sentido pedagógico do movimento Hip-hop.
Identidades e transculturalidade: construção e reconhecimento grupal
Para se falar sobre o tema “ identidade”, faz-se necessária uma
explanação que tem como objetivo a construção do conceito ancorado sobre
abordagem dos autores: Hall, Castells e Guareschi & Brusch. Dessa forma,
destaca-se que não se tem como objetivo tratar de um sujeito uno, concreto,
estático e imóvel em sua eterna essência unificada, pois o sujeito do qual se irá
tratar é, conforme Hall (2001),
um sujeito fragmentado; composto não de uma, mas de várias
identidades, algumas vezes contraditórias... Correspondentes,
as identidades que compunham as paisagens sociais “lá fora”
e que asseguravam nossa conformidade subjetiva com as
necessidades objetivas da cultura...processo de identificação,
através do qual nos projetamos em nossas identidades
culturais (HALL, 2001, p. 12).
Na mesma linha de raciocínio, Guareschi & Brusch (2003, p.117),
afirmam que a:
subjetividade não é o ser, mas modos de ser [...] trata-se
de uma produção tributária do social, da cultura, de
qualquer elemento que de algum modo, possibilidades
de um “si ”, de uma “consciência de si”, que é sempre
provisória.
260
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
Dessa forma, ao abordar o jovem pertencente ao grupo Hip-hop, discutese sobre um sujeito recortado não de uma, mas de várias identidades, repletas
de significações, simbolizações, maneiras de ser, estar e atuar na sociedade,
em que estariam em jogo elementos de identificação grupal, social, individual
e fundamentalmente cultural.
Assim, acerca das temáticas: identidade e realidade transcultural,
Guareschi & Brusch (2003) apontam que os Estudos Culturais vêm propor uma
ressignificação, em que o sujeito se expressa na forma como alguém se
determina, na composição de grupo, etnia, raça, gênero ou família. Interessandonos os modos de ser que nos compõem na relação com o outro.
Nesste sentido, é pertinente afirmar que as identidades se produziriam
e se construiriam, cerceadas por uma realidade, fundamentalmente pela
transculturalidade, conceito que remete à transgressão das significações e
simbolizações culturais. Logo, as mais diversas valorações culturais estariam
em constante comunicação e transição. Sobre os quais, Guareschi & Brusch
(apud FOUCAULT , 2000), afirmam que:
[...] a produção de sentidos e discursos, objetivam
determinados modos de ser e de se pensar, construídos
culturalmente, não como um multiculturalismo, mas como
um jogo de reflexos de um espelho, quando posto diante
de outro. O resultado é um reflexo que remete a outro
reflexo, sem nunca voltar a uma imagem essencial e
primordial, nem tão pouco passível de tingir um fim [...]
(FOUCAULT, 200, p. 99).
Dessa forma, Sommerman (2002, p. 68) define, em relação à temática,
que “o transcultural designa a abertura de todas as culturas para aquilo que as
atravessa e as transcende. A percepção do que atravessa as culturas é, antes de
mais nada, uma experiência que não pode ser reduzida a uma questão teórica”,
visto que a transculturalidade é rica em ensinamentos da vida diária, dos
conhecimentos espontâneos e das ações produzidas no mundo.
Assim, Sommerman (2002) discorre ainda que o transcultural pode ser
entendido como uma experiência, pois diz respeito, também, ao silêncio de
diferentes experiências. O espaço entre o nível de percepção e os níveis de
realidades, transitórias, abertas e fechadas, ao mesmo tempo, para tudo o que
diz respeito a histórias das mais diversas culturas, a mudanças e a estados de
ser dos povos, nações, comunidades e formações grupais.
Nesse caso, os mais diversos discursos e representações se entrecortam
e se transgridem nos mais diversos contextos, uma vez que o jovem da BRG
apresenta um processo altamente dinâmico de construção de identidade com
diversos elementos: ruptura, contestação e liberdade/libertação, e, ao mesmo
tempo, inserção numa disciplina religiosa e organização grupal, com significado
261
Universidade da Amazônia
de pertencimento e aceitação grupal. Isso resulta na busca por uma cultura
própria, ou uma contracultura, no sentido da inquietação por um caminhar
próprio, alimentado e aprofundado por diálogos e reflexões constantes, sendo
alicerçado por uma base religiosa ou “referencial” e pelas experiências de vida
que cruzaram fronteiras sociais, raciais e políticas.
Entretanto, para uma análise mais sintetizada, é válido debruçar-se sobre
a discussão das identidades ou identificações sobre as lógicas de atuação, que se
justificam pela construção e reconhecimento do jovem na relação de pertencimento
ao grupo. Dessa maneira, são destacadas as identidades: da “Cultura Hip-hop” e da
religiosidade, como pontos centrais para análise e discussão.
Segundo Borda (2004), o “ser evangélico” e o “ser da cultura de rua ou da
cultura Hip-hop”, que outrora poderia parecer contraditório, congrega-se no grupo
por meio do ideal do “resgate” ou salvacionismo, colocado no discurso e na prática
dos membros por intermédio da retirada de jovens do universo das gangues de rua,
consumo de drogas, álcool e violência. Define-se, por conseguinte, como o salvar,
que acontece por meio da música, política e expressões artísticas manifestadas
pela cultura Hip-hop, assim como pela evangelização. Desenvolvendo-se sobre
essas duas égides, o chamado Hip-hop Gospel, que Borda (2004, p.6) denomina
como o ascético desse movimento, é
aquele que é conhecedor da bíblia, um estudioso da causa
negra, o que lhe faz um militante e adorador, para isso se
concentra em reservar seu tempo para adquirir conhecimentos, que servirão nas suas ações de evangelização por
meio do Hip-hop.
Sendo assim, a identidade do grupo BRG utiliza-se de uma ética religiosa
que, embora recoberta em uma realidade instituinte de atuação, por dialogar
com o já instituído, refazendo-o e recriando-o a sua maneira de observar e
vivenciar o mundo, atua de maneira ascética, lembrando com clareza do
ascetismo defendido por Weber, em que se aborda que a utilização do tempo
deve ser canalizada para a vida engajada sob uma óptica social.
Nesse sentido, afirma-se que, à medida que o jovem da BRG entra em
contato com a negação dos valores relativos ao consumo do álcool, drogas e
culto da violência, ele passa a canalizar sua atuação para os valores relativos
àquilo que o grupo apresenta como de suma importância (evangelização e
conscientização). Nesse momento, acontece um processo de transição subjetiva,
em que os valores do grupo e suas respectivas identificações passam a
reproduzir-se sobre cada membro engajado.
Logo, considera-se que a identidade grupal é reproduzida na lógica de
vida dos jovens, já que esses passam a atuar e congregar sobre os mesmos
ideais fundamentados pelo grupo, embora identidades anteriores não sejam
completamente abandonadas; visto que rompem com uma identificação anterior
262
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
em relação ao mundo das gangues, mas ainda utilizam elementos simbólicos
relativos a esse mundo, como os codinomes ou “vulgos”. É importante esclarecer
que a utilização simbólica de tais elementos constitui-se dentro de uma lógica
diferente, que já não mais se encerra na marginalidade e na violência, e sim
como uma forma se ser visto, ou conhecido artisticamente pelo codinome de
significância efetiva a cada jovem.
Nesse contexto, o “ser negro e da periferia” também se encontra como
reflexo da identidade dos membros da BRG, uma vez que a luta contra a exclusão
sócio-racial dos negros, pertencentes a um espaço marginal socialmente
excluído, é vivenciado no cotidiano dos jovens não como meras rotulações,
mas como referenciais incrustados nas vivências constituídas por uma cadência
de biografias comuns retratadas pela violência familiar, envolvimento com
drogas e falta de oportunidades e projetos pedagógicos como formas de
apropriação do espaço público para gerar educação às comunidades carentes.
Além do “ser negro”, aparece no grupo também o “ser revolucionário”
no sentido da denúncia às mazelas da segregação social, da questão negra e da
mudança do quadro caótico a que esse seguimento foi condenado. Identidade
dos jovens do grupo que podem ser referenciadas por meio do conceito de
identidade de “resistência” proposto por Castells (2001), em que a identidade
de resistência corresponde àquela a qual os sujeitos, em condições
desvalorizadas e estigmatizadas, constroem para fazer frente de sobrevivência
a princípios diferentes dos que permeiam as instituições socais.
Dessa forma, evidenciam-se as formas de ser jovem no grupo Hip-hop,
concluem-se nas suas múltiplas maneiras de ser e se posicionar socialmente
por meio de práticas, ideologias e ideais de vida. A inserção no grupo Bancada
Revolucionária Gospel representa, acima de tudo, a construção de identidades
militantes e evangelizadoras, que têm como objetivo a produção de mudança
para a comunidade periférica por intermédio da educação, verbalizada pelo
grupo como a proposta de “ informação para periferia” por meio da
conscientização racial, social e política.
Castells (2001) define esse tipo de evidência como as origens de
resistências coletivas, representante de parcelas estigmatizadas da população,
ou seja, significantes atores sociais que manifestam projetos de vida pertinentes
contra a opressão produzida por sistemas sociais excludentes e manipuladores.
Processo Pedagógico Grupal: a transição, conscientização e projeto
De acordo com Diógenes (1998), o processo de transição pelo qual os
jovens do movimento Hip-hop passam pode ser definido como uma “transmutação
de valores por dentro”, em que o funk é substituído pelo rap, a coreografia do funk
é substituída pelo break, as “pichações” pelo grafite, em que a violência e as
práticas desregradas são substituídas por uma tomada de consciência.
263
Universidade da Amazônia
Cardoza (2004) discute a origem e o caráter desse “resgate” realizado
pelo Hip-hop do universo das drogas e da delinquência juvenil à inserção social
e educação popular engajada com o compromisso a comunidade, visto que:
As propostas pedagógicas que estão sendo construídas pelo
Hip-hop no Brasil, caracterizam-se como não formal e/ou
informal, rompem com a hierarquia de poder constituída na
modernidade entre adultos como educadores e escola como
poder formal de ensino, para colocar os jovens e adolescentes
militantes do movimento como seres protagonistas de ações
propositivas que contribuam para soluções dos problemas
de nossa sociedade (MAGRO, 2002, p 10.).
A violência, os roubos e os palavrões vão sendo substituídos, sublimados
e redirecionados ao enfoque engajado da mudança da condição social, para
“autores de si”, de seus processos educacionais, pela busca da instrução que
ultrapassa os muros da escola e de um ensino formal burocratizado e por
muitas vezes excludente.
Barreiro (1980) afirma que a conscientização começa pela descoberta
do significado e dos valores que envolvem a ideia de pessoa humana. E é
importante, para começar a compreendê-la, saber como se interpreta essa pessoa,
ou seja, como é o homem e como está em seu mundo, em seu meio. Dessa forma,
esses jovens tornam-se de grande importância à valoração da mudança, do estudo,
da arte e, principalmente, do outro, que já não é mais simplesmente aquele aquém
das aspirações, mas aquele que faz parte do indíviduo, de que necessita para
aprender, desenvolver e constituir. Assim, conclui-se o processo pedagógico do
grupo, que se perpetua, principalmente, no que diz respeito à aprendizagem.
Segundo Cardoza (2004), a educação a que o grupo se refere está
relacionada ao conceito de cultura e contextualização da realidade de vida, feita
e transmitida por intermédio de uma juventude atuante e disposta a repassá-la.
Isso significa uma abordagem enquanto forma de ensino/aprendizagem, adquirida
ao longo da vida dos cidadãos pela leitura, interpretação e assimilação dos
fatos, eventos e acontecimentos que os indivíduos fazem de forma isolada ou em
contato com seu universo social (MONTEIRO & SANTOS, 2001).
Desse modo, os sujeitos pertencentes à BRG tornam-se em grande escala,
“autores de si” e de seus processos educacionais. Portanto, propõe-se o
entendimento de outros modos de ser jovem e adolescente; a transgressão do
evidente para a possibilidade de se entrar em contato com o “diferente”,
constatando-se a alternativa da construção de um olhar mais livre e
desmistificado diante das diversidades culturais. Tais práticas devem estar em
prol de uma educação efetivamente para todos os modos de ser e estar em uma
sociedade, que é recoberta por um panorama que tem como construção
fundamental o contexto transcultural das transgressões simbólicas da realidade.
264
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
De acordo com Sommerman (2002), a transculturalidade lançaria as
diferentes facetas do ser humano, a fertilização de uma cultura em muitas
outras culturas, mediante a decifração de sentidos, processos educacionais,
simbólicos e transitórios; ao mesmo tempo em que uniria um sentido ser humano,
poderia ultrapassá-lo e ir muito mais além desse.
Por fim, a Quadrilha Junina “Flor do Paraíso” se destaca como um grupo
que apresenta relevância social e cultural no que tange principalmente às
relações familiares, tendo em vista a transmissão de valores, crenças e hábitos
historicamente construídos. A religiosidade também perpassa como um fator
marcante na vida dos jovens entrevistados e da própria coordenação da
quadrilha junina, por ser vista por eles como a base de todos os valores
construídos social e espiritualmente.
É interessante destacar essa busca de identidade de jovens num bairro
de periferia, com muitas dificuldades sociais, girando em torno de liberdade e
exposição pública. No primeiro aspecto manifesta-se a vontade de sair do lugar
e ao mesmo tempo da situação social, romper com as adversidades cotidianas,
dançar, brincar, sentir prazer. O segundo aspecto tem a ver com a construção de
autoestima, de ser alguém, de se manifestar publicamente e mostrar a sua
capacidade. Nesse sentido, a identidade é uma forma de responder
simbolicamente ao contexto social.
Portanto, a expressão cultural do “folclore” é um meio positivo de
construir a sua identidade. Positivo por agrupar os jovens como numa família
substituta, unidos por um mesmo objetivo, mas ao mesmo tempo, por indicar
valores éticos de respeito e consideração, de negação às drogas e à violência.
Essas posturas positivas são automaticamente inerentes ao folclore, mas
recebem o seu formato específico pela história e pela tradição, transmitido
pela família inspiradora e incentivadora, assim como pela religião que perpassa,
não de forma explícita, mas motivadora – orientadora do processo educativo.
Outrossim, vale ressaltar que esse grupo de jovens se mantém unido
enquanto dura a quadra junina, mas a cada ano ocorre um “entra e sai” de
brincantes, alterando a sua composição, ou seja, alguns permanecem dançando
ano após ano, e mantêm a unidade da quadrilha; mas não há como negar o
processo de permanente renovação decorrente de certa rotatividade. No entanto,
apesar de tal dispersão ao final das festas juninas, em geral, os brincantes se
mantêm em permanente contato entre si e com a coordenação, reforçando o
aspecto de socialização decorrente da família substituta.
É claramente percebido que a Quadrilha apresenta vínculo familiar
muito forte, especialmente por se tratar de um grupo que começou a dançar
para alegrar a rua. Seus componentes, todos adultos, em grande maioria
pertenciam a mesma família. Anos depois, os adultos brincantes foram saindo,
pois muitos formaram suas famílias, dando lugar aos jovens, adolescentes e
crianças, que passaram a “ilustrar” cada vez mais a “Flor do paraíso”. Entretanto,
265
Universidade da Amazônia
são mantidos fortes laços de família, pois de uma geração a outra continuam
dançando filhos, netos, bisnetos e assim por diante. A importância dada à
família está presente tanto no discurso dos jovens brincantes quanto na
coordenação do grupo. Para eles, a família é o começo, é a base, o alicerce de
tudo, é o pilar de uma formação sólida e de uma educação para a vida.
Dessa forma, nesse cenário, a cultura amazônica se tornou algo de
referência para os jovens a qual propicia um meio de expressão e fortalecimento.
Portanto, o grupo cria concretamente uma sensação de pertencimento. Mesmo
que não ofereça aparentemente nenhuma vantagem material ou social, a
participação na quadrilha representa um processo de exercício de poder e
liderança dos atores num cenário de vulnerabilidade social da periferia. Nesse
horizonte, os jovens enfrentam o mundo com uma postura mais afirmativa, com
pontos de vista mais definidos de identificação, sobre as influências da mídia,
assim como sobre as drogas e a violência.
266
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
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272
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
NOTA SOBRE OS AUTORES
ALLAN KALIL ABDON MARTINS é Sociólogo e acadêmico de Direito. Pós-graduando
Lato e Sensu em Psicologia jurídica e políticas públicas com ênfase em violência
doméstica e familiar pela Faculdade de Belém - FABEL. Desde 2003 vem atuando
em projetos de pesquisa, monitoria e extensão, tais como: Pelo indivíduo e pelo
ambiente: travessias de saberes sobre o cuidar cotidiano de populações
ribeirinhas, no estuário amazônico - PIPA II (2003); Encontros Transculturais –
PET (2004); Monitor da disciplina Métodos e Técnicas de Pesquisa (2004);
Diagnóstico da qualidade das relações sociais na comunidade escolar (2005) e
Agenda Criança Amazônia (2006/2008) vinculados a Universidade da Amazônia
– UNAMA, Fundação Instituto para o Desenvolvimento da Amazônia - FIDESA e
Conselho Nacional de Pesquisa – CNPq.
DIRK JURGEN OESSELMANN (ORG), graduado em Teologia. Mestre em Ciências
da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo. Doutor em Educação
pela Universidade de Hannover (1998). É professor titular da Universidade da
Amazônia – UNAMA.
FERNANDA DO SOCORRO SANTOS FERREIRA, é Geógrafa e especialista em
produção familiar rural e ciências sociais pela Universidade Federal do Pará
(UFPA) e Museu Paraense Emílio Goeldi (MPGE). Foi bolsista de aperfeiçoamento
da Fidesa e DTI do CNPq no âmbito do Projeto “Encontros Transculturais: sua
importância para o pensar e agir democrático de educadores/as numa
comparação internacional”, atuando mais especificamente, sobre o universo
ribeirinho da pesquisa. Desde 2005 reside na região do Baixo Amazonas (PA),
onde atua como Assistente de Pesquisa I no Instituto de Pesquisa Ambiental da
Amazônia – IPAM.
ISABELA FONSECA CARDOZA, Psicóloga graduada pela Universidade da
Amazônia – UNAMA.
ITANEIDE FERNANDES SILVA, graduada em Serviço Social pela Universidade da
Amazônia - UNAMA no ano de 2002. Pesquisadora Júnior na pesquisa “Violência
nas escolas” da UNESCO em 2003 e Pesquisadora de campo do Censo do Terceiro
Setor do Pará em 2004. Bolsista de Apoio Técnico do CNPq do Projeto “Encontros
Transculturais: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores/
as numa comparação internacional”, em 2003 e 2004, atuando mais
especificamente, sobre o universo centro urbano da pesquisa. Desde 2006 reside
na região do Baixo Amazonas (PA), onde atua como Assistente Social do Grupo
Orsa/ Fundação Orsa.
273
Universidade da Amazônia
MARIA JOSÉ ARAÚJO CAMPOS, é graduada em Pedagogia – Ciências da Educação
pela Universidade da Amazônia – UNAMA. Bolsista de Iniciação Cientifica do
projeto Encontros Transculturais em 2003. É pós-graduada em Docência do
Ensino Superior pela Faculdade do Pará – FAP (2004) e em Educação Inclusiva
pela Universidade do Estado do Pará – UEPA (2007). Atualmente atua como
diretora na Escola Municipal de Belém “Nestor Nonato de Lima”.
MARIA LÚCIA DIAS GASPAR GARCIA (ORG), Assistente Social, Mestre em Serviço
Social/UFPE. Professora do Curso de Serviço Social da Universidade da
Amazônia. De 1999 a 2007 atuou como coordenadora do Laboratório de Serviço
Social da Unama. Teve atuação em pesquisas da UNESCO. Coordenadora do
projeto de extensão e pesquisa Agenda Criança Amazônia.
MARCYETTE CALDAS TOJAL, Pedagoga formada pela Universidade da Amazonia
– UNAMA. Especialista em Gestão Empresarial pelo Instituto Brasileiro de
Pesquisa e Extensão - IBPEX e Gestão Escolar pela Universidade Estadual do
Pará – UEPA. Aluna concluinte do curso de Ciências Sociais com ênfase em
Sociologia pela Universidade Federal do Pará - UFPA. Foi bolsista de
aperfeiçoamento do projeto “Encotros Transculturais” na UNAMA em parceria
com CNPq e FIDESA. Atualmente é Professora do curso de formação de professores
da Universidade Estadual Vale do Acaraú - UVA.
MAYLA NENO MARQUES, Psicóloga, com Pós-graduação em Terapia Familiar e
Gestão com Pessoas, bolsista de Iniciação Científica do Projeto “Encontros
Transculturais: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores/
as numa comparação internacional” no ano de 2004, atuando mais
especificamente, sobre o universo centro urbano da pesquisa. Atualmente
trabalha como Psicóloga Organizacional em empresa de grande porte realizando
R&S, T&D e, participando, como voluntária e secretária, de projetos de
Responsabilidade Social. Também atua como Psicóloga clínica.
MICHELLE DOS SANTOS OLIVEIRA, Assistente Social graduada pela Universidade
da Amazônia – UNAMA.
NELIZA MARIA TRINDADE DE AZEVEDO, é Assistente Social; Especialista em Serviço
Social e Produção de Conhecimento na Região Amazônica. Mestre em Serviço
Social pela Universidade Federal do Pará - UFPa.
SIMONE VILHENA VENTURA NOVAIS, é graduada em Pedagogia – Ciências da
Educação (2004) pela Universidade da Amazônia – UNAMA. É especialista em
Psicologia Educacional com ênfase em Psicopedagogia pela Universidade
Estadual do Pará – UEPA (2007). Durante formação acadêmica atuou como
bolsista no programa de Iniciação Cientifica vinculada ao projeto “Encontros
Transculturais: sua importância para o pensar e agir democrático de educadores
274
ENCONTROS TRANSCULTURAIS:
sua importância para o pensar e agir democrático de educadores(as) numa compração internacional
numa comparação internacional”. Atualmente trabalha com Pedagogia
Empresarial atuando em hospitais com projetos voltados para a humanização
na área da saúde.
SUELLEN ADRIENNE SARAIVA DE OLIVEIRA, Psicóloga graduada pela Universidade
da Amazônia – UNAMA.
VERA LÚCIA NASCIMENTO DE SOUZA, é formada em Serviço Social pela
Universidade da Amazônia – UNAMA; Mestre em Serviço Social pela Universidade
Federal do Pará – UFPa. Foi bolsista de aperfeiçoamento da FIDESA através do
projeto “Encontros Transculturais: sua importância para o pensar e agir
democrático de educadores(as) numa comparação internacional” com atuação
específica na pesquisa sobre o universo centro-urbano. Atualmente trabalha na
Secretaria Municipal de Trabalho e Cidadania (Ananindeua/Pa) como Assistente
Social.
275
Universidade da Amazônia
276
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