1 ELIANE OLIVEIRA MENDES QUINHONE LETRAMENTO ESCOLAR E FORMAÇÃO DO LEITOR CRÍTICO: UM ESTUDO SOBRE A REDE MUNICIPAL DE CUIABÁ Universidade Federal de Mato Grosso - UFMT Instituto de Linguagens - IL Cuiabá 2008 2 ELIANE OLIVEIRA MENDES QUINHONE LETRAMENTO ESCOLAR E FORMAÇÃO DO LEITOR CRÍTICO: UM ESTUDO SOBRE A REDE MUNICIPAL DE CUIABÁ Dissertação apresentada ao Programa de Mestrado em Estudos de Linguagem do Instituto de Linguagens da Universidade Federal de Mato Grosso, como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Estudos de Linguagem. Área de concentração: Estudos Lingüísticos Orientadora: Profª Drª Simone de Jesus Padilha Co-orientadora: Profª Drª Cláudia G. Paes de Barros Universidade Federal de Mato Grosso - UFMT Instituto de Linguagens - IL Cuiabá 2008 3 ELIANE OLIVEIRA MENDES QUINHONE LETRAMENTO ESCOLAR E FORMAÇÃO DO LEITOR CRÍTICO: UM ESTUDO SOBRE A REDE MUNICIPAL DE CUIABÁ Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Estudos de Linguagem da Universidade Federal de Mato Grosso, como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Estudos de Linguagem. Orientadora: Profª Drª Simone de Jesus Padilha Co-orientadora: Profª Drª Cláudia G. Paes de Barros BANCA EXAMINADORA _________________________________________________________ Profª. Drª. Raquel Salek Fiad Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP __________________________________________________________ Profª. Drª. Cláudia Graziano Paes de Barros Universidade Federal de Mato Grosso – UFMT ____________________________________________________________ Profª. Drª. Simone de Jesus Padilha Universidade Federal de Mato Grosso – UFMT 4 Dedico este trabalho ao meu esposo, Luís, pelo grande incentivo e apoio ao longo de mais essa jornada. À minha mãe, que sempre me acolheu com carinho e generosidade nos momentos mais difíceis. Ao meu pai (in memoriam), doce presença em meu coração. 5 AGRADECIMENTOS A Jesus, por estar sempre ao meu lado, iluminando meu caminho; À minha orientadora, Professora Dra. Simone J. Padilha, pela doçura com a qual me guiou através do universo bakhtiniano, obrigada por confiar no meu trabalho e pelo respeito às minhas idéias; À Prof.ª Acenil S. Prado Rosa, diretora da EMEB. Filogônio Correa, à prof.ª Marta, à prof.ª Laudisséia, aos alunos do 4º ano, ao Adão e aos demais profissionais da citada escola, que sempre me receberam com carinho e atenção, disponibilizando todas as informações que foram solicitadas; Às professoras Doutoras Raquel Salek Fiad (UNICAMP-SP) e Claudia G. Paes de Barros (UFMT), pela leitura de meu trabalho e sugestões valiosas nos exames de qualificação; Às professoras Judith, Marlene e Lílian (Instituto de Educação/ UFMT), pelo apoio e pela confiança em meu trabalho; À prof.ª Dr.ª Maria Rosa Petroni e aos demais docentes do Programa de Mestrado em Estudos em Linguagem, pelas significativas contribuições teóricas que foram dadas durante o curso; À Secretaria Municipal de Educação de Cuiabá, pela concessão do afastamento de minhas funções docentes durante a realização dessa pesquisa. Aos meus amigos da Secretaria Municipal de Educação: Ivone, Célia, Vanilda, Edilene, Valderes e Enedir, pelo incentivo nos momentos difíceis; À Eliane Albuquerque, Daniela Ambrósio, Moisés Dias e demais colegas da Diretoria de Recursos Humanos/ SME/ Cuiabá, por acreditar na minha competência profissional e por torcerem pelo meu sucesso; Aos colegas de pós-graduação: Dalva, Marcos, Maribel, Marilena e Cristiane, obrigada pela parceria durante este período de crescimento intelectual e, principalmente, pelas relações de amizade que se fortaleceram a partir desse processo; À Silma, pelo exemplo de profissional, obrigada pela grande amizade que nos uniu, que Jesus a proteja e abençoe sempre; 6 À Tânia, amiga e companheira na “jornada bakhtiniana”, obrigada pelo carinho e pela paciência durante “nosso” período de “conflito cognitivo”; À Edilene Queiroz, amiga de longa data, obrigada por estar sempre disposta a me ajudar e que Jesus a conserve assim; Às acadêmicas de Pedagogia/ UFMT, Débora Müller, Daniela, Fabiana, Sabrine e Niciléia, pelo acesso aos dados do relatório de pesquisa por elas elaborado; Aos meus alunos do Curso de Pedagogia, pelas mensagens de incentivo e pelo imenso carinho. À minha mãe, minha tia Nailza, meus avós maternos e aos meus irmãos, Elieth e Ocimar, por acreditarem em mim e me apoiarem incondicionalmente; Aos meus filhos Melisa e Christian, por trazerem alegria e amor à minha vida, principalmente nos dias mais cansativos; Ao Luís, meu esposo, pela admiração e pelo amor que sempre me dedicou. Obrigada por acreditar na minha capacidade profissional, pela eterna paciência e por estar sempre disposto a ajudar. A todos aqueles que, direta ou indiretamente, contribuíram para a realização desta pesquisa. 7 Eu vivo em um mundo de palavras do outro. E toda a minha vida é uma orientação nesse mundo; é reação às palavras do outro (uma reação infinitamente diversificada), a começar pela assimilação delas (no processo de domínio inicial do discurso) e terminando na assimilação das riquezas da cultura humana (expressas em palavras ou em outros materiais semióticos). Mikhail Bakhtin 8 RESUMO Esta pesquisa, fundamentada na teoria da enunciação bakhtiniana, discute a influência das práticas de letramento escolar no processo de formação do leitor proficiente. Assim, através da análise das capacidades de leitura demonstradas por alunos do 4º ano (3ª série) do Ensino Fundamental, de uma escola da rede municipal de Cuiabá/MT, pretendemos contribuir para a melhoria da qualidade do processo de ensino-aprendizagem de leitura. Constitui-se, portanto, em um trabalho de natureza qualitativa que enfoca, principalmente, as noções bakhtinianas de compreensão ativa, dialogismo e exotopia, as quais norteiam nossas reflexões acerca das práticas de leitura realizadas na escola pesquisada, desvelando as relações interdiscursivas entre a política educacional implementada pela Secretaria de Educação e a situação encontrada no ambiente escolar. Os dados foram coletados através da aplicação de questionários para investigar a formação da professora e o letramento não-escolar de seus alunos, e de um instrumento avaliativo para diagnosticar as capacidades de leitura construídas pelos discentes. Em consonância com os demais estudos realizados acerca do mesmo tema, a análise realizada mostrou que as práticas escolares de leitura pouco têm contribuído para a construção das capacidades de leitura e, conseqüentemente, para a formação de leitores críticos, uma vez que os discentes pesquisados demonstraram grande dificuldade para compreender a unidade temática de gêneros textuais que são comumente utilizados em sala de aula, como as tirinhas e as fábulas. Diante desse contexto, acreditamos que a escola deveria deixar de utilizar a leitura como estratégia didática e passar a visualizá-la como um objeto que possui conteúdos específicos a serem ensinados, a saber, as capacidades de leitura. Além disso, compreendemos que o tratamento didático dado aos textos poderia ser modificado, incorporando o trabalho com os gêneros discursivos ao cotidiano escolar. Ao tratar de uma realidade específica, a da rede municipal de Cuiabá, a pesquisa desenvolvida poderá fornecer subsídios para que as propostas pedagógicas das unidades escolares sejam repensadas, a fim de que possam incluir, efetivamente, ações voltadas para a formação de leitores proficientes. Palavras-chave: compreensão ativa, capacidades de leitura e letramento escolar. 9 ABSTRACT This research, based on the theory of bakhtinian enunciation, discusses the influence of the educational literacy practices in the process of formation of proficient reader. Thus, by analysis of the reading skills demonstrated by students in the 4 th year of the elementary school, in the municipal system in Cuiaba / MT, we intend to contribute to improving the quality of the teaching-learning reading process. It is therefore a work of qualitative nature that focuses mainly, the bakhtinian concepts of active understanding, dialogism and exotopia, which guide our thinking about the practice of reading held in the school searched, exposing discursive relations between educational politics implemented by the Secretary of Education and the situation found in the school environment. Data were collected using questionnaires to investigate the formation of the teacher and non-school literacy of their students, and evaluative test to diagnose the capabilities of reading constructed by students. In line with other studies about the same subject, the analysis showed that the school practices of reading have contributed too little to the building of the capacities of reading and, consequently, for the formation of critical readers: the students demonstrated a lot of difficulties to understand the thematic unit of discursive genres that are commonly used in the classroom, such as comics (tirinhas) and fables. In this context, we believe that the school should stop using the reading process as a teaching strategy and move to view it as something that has specific content to be taught, namely, the capacity of reading. Moreover, the treatment given to teaching texts should be changed, incorporating work with the discourse genres to routine school. As we are dealing with a specific reality, of a municipal school in Cuiabá, the research developed could provide subsidies for the proposed teaching of the schools is reconsidered so that may include, effectively, actions directed to the training of readers. Keywords: active understanding, skills of reading and educational literacy. 10 SUMÁRIO INTRODUÇÃO...........................................................................................................13 CAPÍTULO 1 – LETRAMENTO, LEITURA E PRÁTICA ESCOLAR........................19 1.1. Letramento (s).....................................................................................................20 1.1.2. Modelo Autônomo............................................................................................23 1.1.3. Modelo Ideológico............................................................................................24 1.2. Letramento Crítico...............................................................................................26 1. 3. Letramento Escolar............................................................................................28 1.4. Práticas de Leitura: das reflexões teóricas à leitura na escola...........................31 1.4.1. Modelo Ascendente ou bottom-up...................................................................32 1.4.2. Modelo Descendente (top-down) ou psicolingüístico.......................................33 1.4.3 Modelo Interativo...............................................................................................34 1.5. A leitura para a vertente enunciativo-discursiva (ancorada em Bakhtin)............37 1.5.1 As capacidades de leitura ................................................................................43 CAPÍTULO 2 – ENSINO DE LEITURA: O QUE DIZEM OS DOCUMENTOS OFICIAIS....................................................................................................................49 2.1. O PCN de Língua Portuguesa (1º e 2º Ciclos)....................................................49 2.2. A Escola Sarã......................................................................................................63 2.2.1. Surge um novo registro avaliativo na rede municipal de Cuiabá: um olhar sobre o “Dossiê Acadêmico”..................................................................................... 76 CAPÍTULO 3 – METODOLOGIA DE PESQUISA.....................................................81 11 3.1. Metodologia de Coleta de Dados........................................................................82 3.2. Descrição do locus .............................................................................................86 3.2.1. A biblioteca escolar..........................................................................................89 3.3. Os sujeitos da pesquisa......................................................................................90 3.3.1. A professora.....................................................................................................91 3.3.2. Os alunos do 4º ano.........................................................................................93 3.4. Os instrumentos de coleta de dados...................................................................95 3.4.1. Investigando o processo de formação da professora......................................96 3.4.2. Investigando o processo de letramento “não-escolar” dos alunos...................97 3.4.3. Investigando as capacidades de leitura dos alunos.........................................98 3.5. Metodologia de análise dos dados....................................................................101 CAPÍTULO 4 – EXERCITANDO O OLHAR EXOTÓPICO.....................................105 4.1. Algumas reflexões sobre a proposta pedagógica da rede municipal de Cuiabá para o ensino de Leitura...........................................................................................106 4.1.2 Algumas reflexões sobre o Projeto Político Pedagógico da escola pesquisada...............................................................................................................116 4.2. A importância do professor em uma práxis voltada para a formação do leitor crítico........................................................................................................................122 CAPÍTULO 5 – LETRAMENTO ESCOLAR E NÃO-ESCOLAR: EM BUSCA DE UM DIAGNÓSTICO DA REALIDADE............................................................................128 5.1. Conhecendo um pouco das práticas de letramento construídas pelos alunos fora do ambiente escolar.................................................................................................129 5.2. O diagnóstico das capacidades de leitura e o processo de letramento escolar......................................................................................................................144 5.2.1. Um olhar exotópico acerca dos “erros” dos alunos pesquisados...................148 5.3. A formação do leitor e o letramento escolar......................................................157 12 CAPÍTULO 6 – CONSIDERAÇÕES FINAIS...........................................................166 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS........................................................................175 APÊNDICES ............................................................................................................182 ANEXOS..................................................................................................................201 13 INTRODUÇÃO Atualmente, no cenário educacional brasileiro, acentuaram-se as discussões acerca da necessidade da elaboração de políticas públicas que visem à formação de leitores proficientes. Essas reflexões se intensificaram na medida em que os resultados de algumas avaliações institucionais (Prova Brasil e SAEB1) foram divulgados, principalmente porque estes apontam para a dificuldade que os alunos têm em interpretar textos de diferentes gêneros discursivos. Segundo Relatório do SAEB/ 2005, após quatro anos de escolarização, a média mínima satisfatória seria de 200 pontos e, para estar próximo a este índice, o aluno deveria demonstrar compreensão de textos de gêneros variados (anedotas, pequenas narrativas, fábulas, textos informativos, histórias em quadrinhos); localizar informações explícitas, identificar as personagens dos textos, distinguir fato de opinião, compreender as relações de causa e conseqüência; perceber efeitos de sentido a partir de sinais de pontuação e outras formas de notações. Assim, a média brasileira de proficiência em Língua Portuguesa na 4ª série do Ensino Fundamental, que era de 188,3 em 1995, após várias oscilações, caiu para 172,3 em 2005, sendo que a rede municipal de Cuiabá, neste mesmo período e série, obteve resultado inferior ao nacional, a saber: 165,1, denominado de nível crítico, no qual se encontram os estudantes que não são leitores competentes e lêem de forma truncada, apenas frases simples. Nesse sentido, ao analisar o nível de letramento da população, os indicadores do INAF/ 20052 também refletem essa realidade: apenas 26% dos 2002 sujeitos entrevistados têm domínio pleno3 das capacidades de leitura avaliadas. 1 A Prova Brasil e o Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica/ SAEB foram criados pelo MEC para avaliar o desempenho dos discentes que estão concluindo a 4ª e a 8ª séries do Ensino Fundamental, nas áreas de Língua Portuguesa e Matemática. Os dois são exames complementares, pois enquanto o SAEB avalia por amostragem, a Prova Brasil é aplicada em todas as escolas públicas localizadas em área urbana. 2 Indicador de Alfabetismo Funcional, criado pelo Instituto Paulo Montenegro, que avalia o nível de letramento de jovens e adultos. O citado instituto é uma organização sem fins lucrativos que pertence ao Grupo IBOPE (Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística), tendo como foco a realização de pesquisas na área educacional. 14 Sabemos que esses problemas são resultantes do processo sócio-histórico de constituição do sistema educacional brasileiro e que, mesmo com a efetivação de políticas públicas para a democratização do ensino, há, ainda, grandes dificuldades para melhorar a qualidade da prática pedagógica desenvolvida nas escolas, pois para a implementação de “novas” metodologias, faz-se necessário maior investimento na formação dos professores. Por outro lado, para sujeitos pertencentes às classes sociais mais desfavorecidas, a escola, às vezes, pode ser a única “agência” 4 de letramento capaz de inseri-los na cultura letrada. Desse modo, espera-se que o processo de escolarização forneça instrumentos para que todos os cidadãos possam participar, autonomamente, de situações nas quais a escrita e a leitura sejam necessárias. Ao analisarmos os dados das pesquisas oficiais (SAEB e Prova Brasil), podemos inferir que a escola não está conseguindo realizar essa tarefa, visto que grande parte dos jovens ainda abandona os estudos sem concluir o Ensino Fundamental ou mesmo sem ter consolidado algumas “capacidades” que permitam o domínio da leitura e da escrita5. Na década de 80, o problema era que os alunos não gostavam de ler ou não tinham acesso a livros. Hoje, esta realidade está mudando e isto pode ser comprovado por meio dos dados coletados na pesquisa do INAF/2005 (p. 18): Quase 90% dos entrevistados pelo INAF têm a bíblia ou outros livros religiosos em suas casas. Além dos livros escolares e infantis, o dicionário também já está na casa de pelo menos ¾ da população. A relação entre o nível de escolaridade e o hábito de leitura também foi comentada no referido documento, visto que somente entre pessoas alfabetizadas no nível pleno, foi encontrada uma maioria de leitores que diversifica seus interesses (33% costumam ler dois gêneros e 34% três ou mais). 3 Isso significa dizer que somente 26% da população avaliada conseguem ler textos mais longos, localizar e relacionar mais de uma informação, comparar vários textos, identificar fontes. 4 As agências podem ser consideradas como “espaços” nos quais ocorrem formas de interação do indivíduo com o mundo, sejam estas por meio da leitura e/ou da escrita. A principal agência de letramento é a escola, mas ao seu lado temos a família e outras instituições de caráter social, político ou religioso. 5 Dados coletados do Relatório do INAF/2005. 15 Todavia, ainda que o índice de analfabetismo tenha diminuído e que o brasileiro esteja passando mais tempo na escola, os resultados das avaliações (Prova Brasil, SAEB, INAF) têm demonstrado que os alunos não conseguem interpretar6, de fato, o que estão lendo, fixando-se apenas em informações que estiverem explícitas no texto. Diante desses pressupostos, preocupa-nos a situação da rede municipal de ensino de Cuiabá, afinal, boa parte da nossa trajetória profissional se mistura à história do sistema municipal, a saber, em 19917, passamos a ser professora das séries iniciais na citada rede e, portanto, pudemos vivenciar grande parte do processo que culminou com a mudança do regime seriado para a organização por Ciclos de Formação. Já no período de 1995 a 2005, exercemos diversas funções na Secretaria Municipal de Educação de Cuiabá, atuando, ora como assessora pedagógica, ora como formadora, ministrando cursos na área de Linguagem. Conseqüentemente, essas experiências serviram como base para consolidar nossa formação continuada e para nos dar uma ampla visão da rede. Desse modo, pensamos ser pertinente esclarecer que, nos últimos 07 anos, posteriores à implantação dos Ciclos de Formação, ocorreram várias mudanças, principalmente de gestores na Secretaria de Educação e isso acabou por repercutir negativamente na efetivação das políticas educacionais, pois, como houve uma descontinuidade nos projetos de formação continuada, a situação das escolas acabou se agravando. Um bom exemplo disso foi o surgimento de movimentos, dentro do sistema municipal, a favor do “retorno” ao regime de seriação. Em face dessa situação, considerando as avaliações realizadas pelo MEC e os dados do INAF, acreditamos ser relevante investigar algumas questões relacionadas a essa realidade específica: 6 O Relatório do INAF/ 2007 mostra que, dentre os entrevistados que cursaram da 5ª à 8ª séries, apenas 20% pode ser considerado plenamente alfabetizado, enquanto que a maioria se enquadra no nível básico de alfabetismo e cerca de 26% dos que completaram esse nível de ensino ainda permanecem no nível rudimentar, com sérias limitações tanto em suas habilidades de leitura/escrita, quanto em Matemática. 7 Neste mesmo ano, recém saída do curso de Magistério, a pesquisadora começou a cursar Letras, na Universidade Federal de Mato Grosso. 16 • Qual a proposta da rede municipal de Cuiabá para o ensino de leitura nos anos iniciais do Ensino Fundamental? • Como a concepção de ensino-aprendizagem de leitura expressa no PCN de Língua Portuguesa (1º e 2º Ciclos) se reflete nos documentos oficiais da Secretaria Municipal de Educação de Cuiabá e no Projeto Políticopedagógico da escola pesquisada? • Quais são as capacidades de leitura construídas pelos discentes? Quais capacidades são priorizadas pela escola? • Quais as relações existentes entre: as capacidades de leitura demonstradas pelos alunos e o letramento não escolar? • A proposta de ensino de leitura implementada pela rede municipal de Cuiabá está voltada para a formação do leitor crítico? Desse modo, para termos uma “amostra” da realidade, o estudo foi centralizado em uma única escola, selecionada, entre outros motivos, por ter participado de um programa8 de formação continuada que enfatiza o trabalho com os gêneros textuais. Destacamos, ainda, que o citado programa foi coordenado pela pesquisadora, fato este que a aproximou ainda mais da realidade do locus da pesquisa. No entanto, se por um lado, isso facilitou o acesso ao material de pesquisa, por outro, trouxe também alguns problemas, pois em várias interações realizadas no ambiente escolar, percebemos que nossa imagem9 estava imbricada à da Secretaria de Educação e que algumas vezes as pessoas se sentiam obrigadas a fornecer as informações solicitadas. Outro fator importante foi o esforço despendido pela pesquisadora para se distanciar da realidade estudada e buscar uma “nova” forma de olhar a rede municipal. Reconhecemos que isso não foi uma tarefa fácil, pois, em diversos momentos, a fonte de informações foi a própria pesquisadora, principalmente no relato acerca da “caminhada” histórica da rede municipal. Tendo em vista essas peculiaridades no percurso da pesquisa, organizamos nosso trabalho da seguinte forma: 8 Implantado em parceria com o MEC, o Programa de Gestão da Aprendizagem Escolar/ Séries Iniciais/ Gestar I atendeu 07 escolas municipais, no período de 2001 a 2003. 9 Ao longo da dissertação, exemplificaremos melhor como isso ocorreu durante a coleta de dados. 17 • Capítulo 1: constitui-se de um breve resgate histórico acerca das concepções de leitura e letramento que fundamentam as práticas de ensinoaprendizagem de leitura implementadas pelas escolas. Além disso, nele, explicitaremos alguns conceitos bakhtinianos que serão utilizados na análise dos dados; • Capítulo 2: apresenta uma análise dos documentos oficiais que norteiam o processo de ensino-aprendizagem de leitura nas escolas municipais de Cuiabá: o PCN de Língua Portuguesa (1º e 2º Ciclos), os Referenciais Curriculares da Escola Ciclada/ Cuiabá e o Dossiê Acadêmico do Aluno10; • Capítulo 3: aborda a metodologia utilizada tanto para a coleta, quanto para a análise dos dados e descreve os instrumentos elaborados para a realização da pesquisa de campo, apresentando, também, o locus e os sujeitos estudados. • Capítulo 4: trata-se da análise dos dados coletados acerca da política educacional da Secretaria Municipal/ Cuiabá e da Proposta Político Pedagógica da escola pesquisada, a fim de situarmos o trabalho desenvolvido em sala de aula no que se refere à formação de leitores proficientes; • Capítulo 5: expõe os dados que se referem ao letramento não escolar e às capacidades de leitura construídas pelos alunos; • Capítulo 6: delineia as considerações finais sobre a realidade estudada e indica algumas sugestões para os possíveis problemas que forem detectados. Após o referido capítulo, elencamos as diversas referências bibliográficas consultadas durante a elaboração dessa dissertação. Isto posto, ainda que os contextos analisados sejam distintos, ressaltamos que o presente trabalho mantém estreito diálogo com os diversos estudos já realizados acerca do ensino de leitura no Ensino Fundamental, atendo-se, aqui, à situação específica da rede municipal de ensino de Cuiabá. Nesse aspecto, a tentativa de mapear e desvelar a realidade do sistema municipal objetiva contribuir, de alguma 10 Instrumento utilizado para registro avaliativo dos alunos. 18 forma, para a construção de propostas pedagógicas voltadas para a formação do leitor crítico. Assim, as possíveis críticas irão assumir um caráter construtivo, pois ao partirem tanto da nossa experiência dentro da própria rede, como da análise dos dados, as reflexões aqui suscitadas fornecerão subsídios concretos para a elaboração de ações educativas que visem à melhoria da qualidade do ensino oferecido pela rede municipal. 19 Capítulo 1: Letramento, Leitura e Prática Escolar No contexto educacional brasileiro, a partir da década de 70, ocorreram muitas transformações nas concepções de linguagem e de ensino-aprendizagem de Língua Portuguesa, uma vez que muitas pesquisas na área das Ciências Lingüísticas passaram a direcionar seu foco para as práticas desenvolvidas em sala de aula. Assim, de modo geral, podemos afirmar que tivemos dois períodos de mudança de paradigma: • 1º período - teve início na década de 80 com a publicação do livro “O texto na sala de aula”, organizado por Geraldi. A citada obra pode ser considerada como marco inicial do trabalho com a diversidade textual, pois com linguagem “acessível” aos professores, estimulava a utilização de textos (de diversas tipologias) como objeto para o ensino de língua e não como pretexto para exercícios gramaticais; • 2º período: ainda em curso, começou na década de 90 e se caracterizou por um aumento na divulgação dos estudos de Lingüística Aplicada ao ensino de línguas, os quais influenciaram diretamente na elaboração dos PCN de Língua Portuguesa (1997/ 1998) 11 , provocando grandes mudanças ao trazer diversos conceitos como: gênero discursivo, variedade lingüística, competência discursiva, letramento, análise lingüística12, etc., para a sala de aula. Essas pesquisas também têm influenciado os livros didáticos, logo, seria natural que o estudo desses temas fizesse parte da formação dos professores que atuam na Educação Básica (1º, 2º, 3º e 4º Ciclos). Todavia, ao que nos parece, a maioria dos cursos de graduação oferecidos (Letras e Pedagogia, principalmente) ainda 11 Em 1997, foram divulgados os PCN de 1º e 2º Ciclos e, em 1998, o de 3º e 4º Ciclos. 12 Ao longo desta pesquisa, iremos explicitar alguns destes conceitos. 20 apresenta problemas para articular essa formação inicial com as teorias atuais e sua respectiva transposição didática. Nesse contexto, buscaremos refletir sobre os pressupostos teóricos que permeiam o processo de letramento, uma vez que estes se encontram imbricados aos temas centrais desta pesquisa (o processo de ensino-aprendizagem de leitura e o letramento escolar). Sabemos que a concepção de letramento é complexa, principalmente se a analisarmos em seus aspectos políticos e ideológicos. Portanto, como forma de aprofundar e ampliar as discussões acerca desse termo e analisar criticamente as práticas escolares de leitura, utilizaremos como contraponto as teorias enunciativodiscursivas, em sua vertente bakhtiniana. Consideraremos ainda uma aproximação entre o modelo ideológico de letramento e a visão bakhtiniana de linguagem, principalmente no que se refere à relevância que o contexto sócio-cultural assume no ato de produção e compreensão de enunciados. Dessa forma, poderemos entender melhor as práticas escolares de letramento e como estas interferem no processo de formação do leitor. 1.1 Letramento (s) Atualmente, um dos grandes desafios das sociedades modernas é a universalização do acesso às práticas sociais de leitura e escrita, visto que os índices de analfabetismo vêm diminuindo gradativamente em diversos países, inclusive no Brasil, conforme demonstra o trecho que extraímos do relatório do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística/ IBGE (2003): O aumento da escolarização das crianças e adolescentes vem contribuindo para a redução do analfabetismo e elevação do nível de instrução da população. Em todo o país, a taxa de analfabetismo das pessoas de 10 anos ou mais de idade caiu de 15,6%, em 1993, para 10,6%, em 2003. Na faixa etária de 10 a 14 anos de idade, em que se espera que a criança esteja pelo menos alfabetizada, a taxa de analfabetismo baixou de 11,3% para 3,5%, nesses dez anos. No Nordeste, no entanto, este indicador estava em 26,7%, em 1993, e decresceu para 8,1%, em 2003. Apesar da expressiva melhoria na região, este último resultado ainda ficou muito distanciado do patamar 21 alcançado pelas regiões Sul, Sudeste e Centro Oeste: 0,8%, 1,0% e 1,3%, respectivamente. Ainda segundo o citado relatório, esses índices coincidem com a diminuição do percentual (de 21,8% para 8,8%, em todo Brasil) de crianças e adolescentes com idades entre 5 e 17 anos que não freqüentavam a escola. Esse mesmo processo de erradicação e/ou diminuição dos índices de analfabetismo ocorreu em diversos países, os quais, a partir da década de 80, começaram a perceber que a condição de “estar alfabetizado” não garantia às pessoas o uso da leitura e da escrita enquanto práticas sociais, ocorridas nos mais variados contextos interacionais. Assim, países como França, Portugal, Inglaterra e Estados Unidos passaram a se preocupar com os usos sociais da escrita, ocasionando, de certo modo, a “invenção” do termo letramento e, nesse sentido, concordamos com Soares (2004: p.06): É curioso que tenha ocorrido em um mesmo momento histórico, em sociedades distanciadas tanto geograficamente, quanto socioeconomicamente e culturalmente, a necessidade de reconhecer e nomear práticas sociais de leitura e de escrita mais avançadas e complexas do que as práticas do ler e do escrever resultantes da aprendizagem do sistema de escrita. É claro que o contexto e as causas que provocaram esse surgimento são diferentes em cada país, visto que na França, Inglaterra e Estados Unidos, por exemplo, o foco do problema era o não domínio das competências de uso da leitura e da escrita; já no Brasil, a dificuldade centrava-se no processo inicial de aprendizagem do sistema de escrita, ou seja, no processo de alfabetização. A preocupação principal era a de encontrar uma forma alfabetizar de maneira significativa, fugindo da simples decodificação e criando possibilidades de uso concreto da leitura e da escrita. Diante disso, retornamos a Soares (2004: p.07): No Brasil, porém, o movimento se deu, de certa forma, em direção contrária: o despertar para a importância e necessidade de habilidades para o uso competente da leitura e da escrita tem sua origem vinculada à aprendizagem inicial da escrita, desenvolvendo-se basicamente a partir de um questionamento do conceito de alfabetização. (...), no Brasil os conceitos de alfabetização e letramento se mesclam, se superpõem, 22 freqüentemente se confundem. Esse enraizamento do conceito de letramento no conceito de alfabetização pode ser detectado tomando-se para análise, fontes como os censos demográficos, a mídia, a produção acadêmica. Destacamos, também, que, no Brasil, o termo letramento surgiu, pela primeira vez, em um livro de Mary Kato (1986) 13 , “No mundo da escrita: uma perspectiva psicolingüística”, situando a linguagem escrita enquanto prática social. Todavia, foi somente a partir da década de 90 que o termo letramento tornou-se necessário em qualquer discussão ou estudo cujo foco estivesse direcionado às práticas de leitura, escrita e alfabetização. Assim, diversas pesquisas foram realizadas a fim de compreender melhor as especificidades do processo de letramento, sua influência na prática escolar e sua interface com as vertentes teóricas que tratam da alfabetização. Logo, como “fruto” de todo esse processo, o conceito de letramento ganhou novas dimensões: primeiramente, como já vimos, centrava-se nas práticas sociais de escrita e depois passou a incluir, também, as práticas de leitura. Atualmente, letramento pode ser definido como o processo de utilização da leitura e da escrita nas práticas sociais realizadas em contextos específicos, com objetivos específicos. Nesta perspectiva, podemos afirmar que existem diferentes “tipos” de letramento, ou seja, para cada prática social (de leitura ou de escrita) existente, haverá um “tipo” de letramento a ser adquirido pelo sujeito, sendo que, para análise dos dados coletados durante a pesquisa de campo, tomaremos como base o processo de letramento escolar 14 e a esse respeito, concordamos com Rojo (2001: p.235): (...) As práticas letradas escolares passam, então, a ser apenas um tipo de prática social de letramento, que, embora continue sendo, nas sociedades complexas, um tipo dominante – relativamente majoritário e abrangente -, desenvolve apenas algumas capacidades e não outras. 13 Kato (1986: p.07) declarou: “Acredito ainda que a chamada norma-padrão, ou língua falada culta é conseqüência do letramento, motivo por que, indiretamente, é função da escola desenvolver no aluno o domínio da linguagem falada institucionalmente aceita.” 14 Devido à sua relevância para esse trabalho, detalharemos o conceito de letramento escolar nas próximas páginas. 23 Todavia, para compreendermos melhor como as diferentes concepções de letramento influenciam no trabalho pedagógico, pensamos ser necessário comentarmos sobre os aspectos teóricos presentes nos atuais modelos de letramento propostos por Street (1984) e que serão descritos abaixo. 1.1.2 Modelo Autônomo: Neste modelo, a escrita é vista como um produto acabado, pois seu funcionamento é orientado pela lógica e não pelo contexto e, portanto: (...) pressupõe que há apenas uma maneira de o letramento ser desenvolvido, sendo que essa forma está associada quase que causalmente com o progresso, a civilização, a mobilidade social. (...) A característica de “autonomia” refere-se ao fato de que a escrita seria, nesse modelo, um produto completo em si mesmo, que não estaria preso ao contexto de sua produção para ser interpretado; o processo de interpretação estaria determinado pelo funcionamento lógico interno ao texto escrito (...). (KLEIMAN, 1995: p.21-22) Autores como Luria (1976), Goody (1977), Havelock (1989) e Olson (1994) são considerados representantes dessa abordagem que, como podemos perceber, não considera os aspectos sociais e culturais envolvidos no processo de letramento, associando o desenvolvimento cognitivo à aquisição da escrita. Portanto, a responsabilidade pelo fracasso no processo de escolarização é do indivíduo que, geralmente, pertence às classes sociais mais desfavorecidas. A partir dessa lógica, surgem vários problemas, pois ao compararmos grupos nãoletrados com grupos letrados, estes últimos podem ser determinados como o padrão ideal a ser alcançado por todos os demais. Lembramos que isso contribui para reforçar o preconceito, “chegando até a criar duas espécies, cognitivamente distintas: os que sabem ler e os que não sabem” (Kleiman, 1995: p.27). Ao entender o processo de letramento como independente das práticas discursivas às quais a escrita estiver integrada, corre-se o risco de privilegiar somente as situações que levem à produção do texto escrito, o que resultará na dicotomização entre oralidade e escrita. 24 No entanto, se partirmos do pressuposto que a prática social é constitutiva da linguagem, perceberemos que a dimensão interpessoal não pode ser desconsiderada durante o processo de produção e interpretação de enunciados. Assim, concordamos com Kleiman (1995: p.28): (...) as diferenças são bem mais relativas quando o foco não está nas diferenças e quando a concepção não é polar. Em primeiro lugar, porque nem toda escrita é formal e planejada, nem toda oralidade é informal e sem planejamento. As cartas pessoais, por exemplo, têm mais semelhanças com a conversação do que a conversação tem com uma palestra inaugural, pois esta última, muitas vezes, parece ter apenas a modalidade – isto é, o fato de ser falada – em comum com outras formas orais. Neste sentido, as pesquisas desenvolvidas acerca do letramento escolar têm demonstrado a grande ênfase dada às práticas que envolvem a escrita, em detrimento das atividades que envolvam a leitura ou o estudo dos gêneros orais. Conseqüentemente, como poderemos comprovar, mais adiante, é o modelo autônomo que parece permear as práticas de ensino desenvolvidas nas unidades escolares, tanto públicas como privadas, fato este que irá determinar as características que os eventos de letramento assumirão no ambiente escolar. 1.1.3 Modelo Ideológico: Nesta vertente, as práticas de letramento somente podem ser compreendidas em relação ao contexto sócio-cultural que as originaram, imbricadas às estruturas de poder estabelecidas na sociedade, assumindo, desse modo, significados específicos a determinados contextos; o que nos leva a constatar que não há uma relação de causa e consequência entre letramento e progresso, ascensão social ou modernidade. Portanto, ao invés de dividir a sociedade em dois grupos, os que sabem e os que não sabem ler, aumentando as desigualdades sociais, neste modelo as práticas de letramento realizadas por grupos específicos são investigadas a partir de suas relações com as estruturas culturais e de poder existentes na sociedade. Conseqüentemente, a cada situação interacional, teremos tipos diferentes de “eventos de letramento”, ou seja, situações nas quais a escrita e a 25 leitura serão os instrumentos utilizados na construção e/ou negociação de sentidos entre os interlocutores. Isto posto, o “sujeito letrado” será aquele que se apropriou da leitura e da escrita, utilizando-as, eficientemente, nas práticas sociais das quais participa. Por isso, mesmo aqueles que não dominam o código lingüístico, mas se envolvem em práticas que demandam a leitura ou a escrita, adquirem determinados tipos e/ou níveis de letramento. Ao considerarmos essas reflexões, podemos concluir que o conceito de letramento vai além do simples uso da leitura e da escrita para atender às exigências da sociedade e, neste aspecto, concordamos com Soares (1998: p. 74): (...) letramento não pode ser considerado um “instrumento” neutro a ser usado nas práticas sociais quando exigido, mas é essencialmente um conjunto de práticas socialmente construídas que envolvem a leitura e a escrita, geradas por processos sociais mais amplos, e responsáveis por reforçar ou questionar valores, tradições e formas de distribuição de poder presentes nos contextos sociais. Como podemos perceber, no cerne das concepções que constituem o modelo ideológico, encontramos as teorias enunciativo-discursivas, as quais buscam romper com a dicotomia entre oralidade e escrita, concebendo a linguagem não um sistema autônomo de regras, mas como constituinte e constituidora dos sujeitos. Portanto, língua e linguagem estão vinculadas às práticas sociais, sendo que destas não podem ser dissociadas e somente em relação a estas podem ser analisadas. Vislumbramos nesse arcabouço teórico uma aproximação com as idéias de Bakhtin e seu círculo, pois, como vimos, a linguagem passou a ser compreendida enquanto fenômeno social, histórico e ideológico, sendo assim, os enunciados não podem ser compreendidos fora desse vínculo com uma situação concreta de comunicação, ou ainda, conforme o autor (1929: p.99): A palavra está sempre carregada de um conteúdo ou de um sentido ideológico ou vivencial. É assim que compreendemos as palavras e somente reagimos àquelas que despertam em nós ressonâncias ideológicas ou concernentes à vida. 26 Em resumo, o processo de construção dos significados ocorre somente através da relação dialógica entre os interlocutores, nas mais variadas situações comunicativas ou em eventos de letramento, sócio-historicamente situados. Assim, considerando essa fundamentação epistemológica, o modelo ideológico de letramento está presente, também, nos estudos de Gee (1990), Graff (1979), Street (1984), Kleiman (1995), Rojo (1994), Schneuwly (1994) Scribner & Cole (1981) e Signorini (1995). 1.2 Letramento Crítico: Atualmente, compartilhando do mesmo arcabouço teórico que o modelo ideológico, há uma terceira visão - o letramento crítico, que vem ganhando espaço nos estudos acadêmicos e nas pesquisas15 sobre o ensino de línguas, principalmente de língua estrangeira. Esta abordagem está fundamentada em autores como Freire (1987), Fehring e Green (2001) e busca ampliar os pressupostos do modelo ideológico, pois além de considerar os aspectos acima descritos, preocupa-se em estudar a influência das relações de poder em eventos de letramento, discutindo a questão política, social e cultural que envolve esses processos. No bojo desses pressupostos, ressaltamos a forte influência de Paulo Freire, especialmente das idéias expressas em seu livro Pedagogia do Oprimido (1987), no qual o autor ressalta que homem deve aprender a ser “dono” da sua própria palavra e não repetir, simplesmente, a do outro. Nesse sentido, a palavra será o instrumento através do qual o homem se tornará, plenamente, sujeito e por meio de situações concretas de comunicação, permeadas pelo diálogo, o indivíduo se transformará em criador e sujeito de sua própria história. Isto posto, toda ação educativa deve ser problematizadora e, por isso, flexível, participativa e dialógica. 15 Já existem vários grupos desenvolvendo pesquisas sobre letramento crítico, principalmente no IEL/ UNICAMP. 27 Diante disso, constatamos que o modelo ideológico e o letramento crítico não se opõem: ao contrário, se complementam, sendo difícil estabelecer uma diferença concreta entre ambos, a não ser a de que, neste último, as práticas de letramento devem estar necessariamente voltadas para a transformação da sociedade. Logo, o objetivo maior do processo de escolarização seria ampliar a visão de mundo dos alunos para além de suas comunidades lingüísticas, possibilitando a construção da autonomia, da reflexão crítica com vistas à transformação de seu ambiente social. O mencionado objetivo (formar cidadão críticos16) norteia, também, os Parâmetros Curriculares Nacionais/ MEC e, na área de Língua Portuguesa, se reflete na adoção dos gêneros discursivos como objeto de ensino e como meio para alcançar a competência discursiva17. Assim, como já dissemos, este fato contribuiu para disseminar as teorias que, até o momento, circulavam apenas nas esferas acadêmicas. No entanto, embora o conceito de gêneros já apareça nos PCN de 1º e 2º Ciclos18 (1997), foi somente com a publicação dos PCN de Língua Portuguesa/ 3º e 4º Ciclos (1998) que as discussões acerca de sua “didatização” se ampliaram, passando, inclusive, a modificar a organização de muitos livros didáticos, por conta das exigências do Programa Nacional de Avaliação do Livro Didático (PNLD), o que acabou por afetar, também, os professores. Acreditamos que o trabalho pedagógico com os gêneros permite a inserção da concepção de letramento nas práticas escolares, atenuando a polarização entre oralidade e escrita, as quais, segundo Kleiman (1995: p.30), passariam a ser consideradas sob: (...) Um olhar que veja a linguagem oral e a escrita não através das diferenças formais, mas através das semelhanças constitutivas, permitindo que pensemos a aquisição da escrita como um processo que dá continuidade ao desenvolvimento lingüístico da criança, substituindo o processo de ruptura, que subjaz e determina a práxis escolar. 16 A dissertação de Mestrado de Laura Figueiredo (2005), intitulada “Gêneros discursivos/ textuais e cidadania: um estudo comparativo entre os PCN de Língua Portuguesa e os Parâmetros em Ação, discute com profundidade o conceito de cidadania presente nos referidos documentos. 17 18 A definição desse termo será abordada nas próximas páginas. Ao longo dos PCN de Língua Portuguesa/ 1º e 2º Ciclos, a proposta de gêneros parece ter sido reduzida ao trabalho com diversidade textual. 28 Um fato, entretanto, desperta a atenção: se a escola possui a função de promover a formação de sujeitos “capazes de se posicionar de maneira crítica, responsável e construtiva nas diferentes situações sociais (...)”, segundo consta nos PCN (in Objetivos para o Ensino Fundamental, p. 07), surge o seguinte questionamento: como fazer com que a escola perceba a inconsistência existente entre seus objetivos e as práticas de letramento que ela oferece aos alunos? Ao longo desta dissertação, refletiremos, também, acerca dos efeitos que as práticas de letramento escolar têm provocado no processo de escolarização. 1.3 Letramento Escolar: Sabemos que as práticas de letramento têm início antes mesmo do processo de escolarização formal, no momento em que as crianças participam de diferentes eventos de letramento, ou seja, de situações nas quais o uso efetivo da leitura e da escrita é fundamental para a construção de sentido, por exemplo, quando os pais levam seus filhos ao supermercado, estes são estimulados a “ler” os rótulos das embalagens, passando, com o tempo, a identificar os produtos consumidos pela família, mesmo sem saber decodificar o que está escrito na embalagem. Isso faz com que a escola, ainda que desempenhe papel fundamental nesse processo, não seja a única “agência” responsável pelo letramento dos alunos. Todavia, para grande parte dos professores, o pensamento corrente é aquele que vincula alfabetização, letramento e escolarização como processos interdependentes e indissociáveis, isto é, permanece a idéia de que tanto o processo de letramento, quanto o de alfabetização são decorrentes da escolarização. No cerne destas discussões, temos a assertiva de que cabe à escola (fundamentalmente) a tarefa de proporcionar aos alunos a aquisição inicial do sistema de escrita, ou melhor, promover a alfabetização, propriamente dita. Este fato se confronta com a realidade, pois, como já dissemos, a escola é apenas uma das instâncias onde podemos aprender a “ler e escrever”, assim como ocorre no caso do processo de letramento. No entanto, embora existam relações entre alfabetização e letramento, devemos ter clareza de que ambos possuem naturezas distintas e a esse respeito, nos reportaremos a Soares (1998: p.95): 29 Do processo de alfabetização pode-se esperar que resulte, ao fim de determinado tempo de aprendizagem, em geral préfixado, um “produto” que se pode reconhecer, cuja aquisição ou não, atesta ou nega o processo de escolarização; ao contrário, o processo de letramento jamais chega a um “produto” final, é sempre e permanentemente um “processo”, e não há como decidir em que ponto do processo o iletrado se torna letrado. Diante disso, a alfabetização, muitas vezes, se restringe à aquisição da escrita e das habilidades necessárias à decodificação. Já no processo de letramento, destacamse as práticas sociais mediadas pela escrita e pela leitura, para as quais nem sempre é necessário o domínio do sistema de escrita. Face a estas reflexões, podemos constatar o nível de complexidade presente nas relações entre letramento, alfabetização e escolarização, o que nos levou ao estudo de um “tipo” de letramento, em especial - o escolar. Assim, concordamos com Rojo (2001: p. 244): Escola é letramento e dele decorre, quer suas práticas sejam orais ou escritas; quer haja ou não texto escrito sendo utilizado na sala de aula. Logo, só é admitida a forma composicional adjetiva: “letramento escolar”. Ou seja, não cabe investigar qual é a “variável dependente” – escola ou letramento – mas cabe enfocar o funcionamento e a tessitura particular do letramento na escola, seus processos e produtos. A autora destaca, ainda, que o processo de escolarização brasileiro não tem possibilitado a formação da competência discursiva19 dos alunos, pois as práticas de leitura no letramento escolar enfatizam apenas algumas (poucas) capacidades exigidas nas práticas sociais, concentrando-se naquelas necessárias ao “ler para estudar”, o que pode ser considerado como “um processo de repetir, de revozear falas e textos de autor (idade) – escolar, científica – que devem ser entendidos e memorizados para que o currículo se cumpra” (Rojo, 2004: p.1). Desperta-nos a atenção o fato de que os referidos procedimentos são comuns e ocorrem em todas as disciplinas curriculares, através de atividades direcionadas à 19 É a capacidade de utilizar a linguagem, oral ou escrita, em diversos ambientes discursivos, manejando os diferentes gêneros discursivos, de acordo com a necessidade de interação social. (Baltar, 2004: p. 5). 30 localização de informação, as quais devem ser repetidas ou copiadas em questionários, orais ou escritos. Logo, parece haver uma contradição entre a função da escola enquanto agência de letramento, o objetivo expresso nas propostas pedagógicas (educar para a cidadania) e as práticas letradas construídas nesse espaço educativo ou, de acordo com Barbosa, (2001: p.70): (...) Isso gera uma contradição interna ao papel da escola, atribuído socialmente, como uma agenciadora de letramentos, pois, nesse caso, a escola cobraria algo – o domínio de certas práticas letradas – sem efetivamente “ensiná-las” a todos os seus alunos (apenas colaboraria para o desenvolvimento daqueles que já possuem contato com essas práticas), o que deveria ser um dos seus objetivos principais, numa perspectiva democratizante. Por exemplo: a escola se propõe a formar alunos críticos, no entanto as atividades de interpretação de texto, geralmente, se restringem a questões de localização de informação, não exigindo maiores reflexões acerca do que foi lido. Todavia, nas diversas áreas do conhecimento, exige-se que os discentes compreendam gráficos, mapas, tabelas, etc., ações estas que requerem capacidades de leitura distintas e que, muitas vezes, não são trabalhadas pela escola. Esse tipo de prática pedagógica não estimula o desenvolvimento das capacidades de leitura e escrita necessárias à participação efetiva em eventos de letramento relacionados ao exercício da cidadania. Todavia, conforme já dissemos antes, a escola parece atribuir mais valor à linguagem escrita, deixando em segundo plano, tanto o ensino de leitura, quanto o trabalho com a oralidade ou, mais propriamente, com os gêneros orais. Além disso, continua priorizando os conhecimentos gramaticais “transmitidos” de modo fragmentado e descontextualizado, chegando, no máximo a trabalhar com a noção de tipologia textual. Nesse sentido, confirma-se o que já havíamos abordado, ou seja, em decorrência de uma visão “tradicional” de educação e de linguagem, ainda predominantes, ao longo dos séculos, no sistema de ensino brasileiro, instituiu-se um “tipo” de letramento escolar que se fundamenta no modelo autônomo. Esses pressupostos teóricos fazem com que a maioria das práticas pedagógicas desenvolvidas nas escolas enfatize a leitura como decodificação de signos lingüísticos, uma vez que a 31 capacidade de compreender textos é entendida como mera repetição dos significados literais. Desse modo, dentro desta lógica, ao final do processo, o aluno que chegar à interpretação autorizada pelo autor e/ou pelo professor terá sucesso em sua vida escolar. As práticas pedagógicas implementadas a partir desta visão de ensino acabam por reforçar a manutenção das desigualdades sociais, contribuindo para a formação de sujeitos passivos, habituados a não discordar e a aceitar opiniões alheias sem refletir ou se posicionar diante delas. Acreditamos que grande parte desses problemas seja produto da falta de continuidade nos programas de formação oferecidos aos docentes pelo governo. Portanto, mesmo com o aumento do número de pesquisas acerca dos processos de alfabetização, letramento e leitura, o conhecimento por elas produzido parece não chegar20 à sala de aula. Por outro lado, se considerarmos que, muitas vezes, o próprio professor também é fruto do “ensino tradicional”, podemos compreender os motivos pelos quais muitos resistem às mudanças, afinal é mais fácil reproduzir práticas já cristalizadas, sem a devida reflexão, do que se “aventurar” com a utilização de “novas” metodologias. Nesse contexto, para compreender melhor o trabalho desenvolvido pelas escolas, pensamos ser oportuno discutirmos, também, as concepções de ensinoaprendizagem de leitura e suas interfaces com os modelos de letramento. 1.4 Práticas de leitura: das reflexões teóricas à leitura na escola. O ensino de leitura esteve durante muito tempo vinculado ao processo de alfabetização e, somente a partir da década de 70, conseguiu alcançar o “status” de campo de investigação metodológica. Nesse período, segundo Mary Kato (1986), as pesquisas realizadas sobre leitura instrumental em Língua Inglesa contribuíram bastante para a compreensão dos processos cognitivos envolvidos no ato de ler, 20 Ou ainda, as teorias podem chegar de modo incipiente e/ou fragmentado, sem produzir efeitos concretos na práxis educativa desenvolvida pelas escolas. 32 pois comprovaram que as dificuldades de leitura dos alunos não se referiam especificamente ao desconhecimento do idioma e, sim, a uma dificuldade de interação com o texto escrito. Paralelamente a esses estudos, desenvolveu-se a concepção de língua enquanto código e do sujeito como “sujeito cognitivo”, dando origem aos modelos cognitivos de leitura, que: Em comum, sustentam a idéia da mente humana como um processador de informações que recebe, armazena, recupera, transforma e transmite informação, variando nos modos de descrever esses processamentos quanto aos usos e hierarquia de regras explícitas que determinam a manipulação de símbolos ou de maneira serial ou de modo paralelo ou de modo circular, a que correspondem respectivamente os modelos de leitura ascendente (bottom up), descendente (top down) e interativo. (JURADO, 2003: p.66) Como o próprio nome já revela, no bojo dos citados modelos estão as Teorias Cognitivistas, as quais têm como objeto de estudo os processos mentais subjacentes ao comportamento humano, tendo como fundamentação principal a Psicologia Cognitiva, em sua abordagem de processamento de informações. Esta corrente teórica define a língua como um sistema de sinais, mobilizado através de processos mentais durante a transmissão de mensagens, concepção esta que a aproxima dos pressupostos da Teoria da Comunicação. Alguns dos trabalhos de Kato (1985), Kleiman (1992) e Koch (2002) abordam, com maiores detalhes, os modelos cognitivos de leitura e suas implicações na prática pedagógica desenvolvida nas escolas. Portanto, considerando que nosso objeto de estudo é o ensino de leitura, torna-se necessário conhecermos as concepções que envolvem o processo de ensino-aprendizagem dessa área. Assim sendo, iniciaremos nosso percurso teórico a partir dos modelos cognitivos de leitura. 1.4.1 Modelo Ascendente ou bottom-up: Compreende a leitura como processo de percepção e decodificação (fonema e grafema), partindo das unidades lingüísticas mínimas para, gradativamente, chegar 33 ao texto. Assim, considerando a opção pelo modelo autônomo de letramento, a escola parece privilegiar esse tipo de processamento, pois centraliza sua atenção nos elementos lingüísticos num percurso que vai das unidades menores às maiores (fonemas, sílaba, palavra, frase, texto). Acreditamos que a opção por métodos sintéticos de alfabetização (soletração e silabação) está embasada nestes pressupostos, uma vez o texto é visto como um conjunto de elementos (letras, sílabas e palavras) que devem ser decodificados pelos alunos. Logo, a leitura em voz alta é essencial para que o aluno tenha fluência e rapidez no processo de decodificação, servindo como garantia de compreensão do que foi lido. Entretanto, percebemos que essa assertiva é falsa, pois ao analisarmos algumas práticas escolares de leitura, constatamos que, devido ao esforço realizado na “decifração” das letras em fonemas, às vezes, os alunos chegam ao final da leitura sem compreender o sentido da frase ou do texto que acabaram de ler. Esse modelo está baseado na identificação das palavras e não em sua compreensão ativa21, fato este que implica na desconsideração do caráter polissêmico da língua, do contexto de produção dos enunciados, dos aspectos dialógicos e responsivos que permeiam o ato da leitura, do conhecimento prévio do leitor, etc. A prática de leitura embasada no modelo ascendente é, portanto, monológica e autoritária, visto que ao leitor cabe, apenas, a assimilação do que a escola ou o professor estabelecem como “única” leitura possível (autorizada e permitida). 1.4.2 Modelo Descendente (top- down) ou psicolingüístico: O modelo descendente enfatiza a utilização das estratégias de leitura no ato de processamento do texto: (...) para a compreensão, é preciso que o leitor realize previsões, antecipações que partem de seu conhecimento de mundo.(...) ler significa empregar um amplo esquema voltado à 21 Para Bakhtin (1929) a compreensão somente se concretiza se produzir uma resposta (contrapalavra), sendo por isso chamada de ativa e responsiva (grifos nossos). 34 obtenção, avaliação e utilização das informações contidas no texto, possível, apenas, através do uso de estratégias que são desenvolvidas e modificadas no próprio processo de leitura: 1. estratégia de seleção; 2. estratégia de predição; 3. estratégia de inferência; 4. estratégias de confirmação ou rejeição das predições prévias. (Paes de Barros, 2005: p. 20) O leitor ainda é um decodificador, porém passou a ter uma participação “mais ativa” no ato de ler, já que será com base em seus conhecimentos prévios que será obtida a fluência durante a leitura. O ato de ler é considerado como um processo individual, ou melhor, é uma ação puramente cognitiva. Desse modo, além da importância atribuída ao conhecimento prévio, para compreender o significado do texto, o leitor deverá mobilizar as estratégias de seleção, predição e inferência, criando hipóteses sobre as palavras a partir do contexto lingüístico no qual estiverem inseridas. Desse modo, o foco do processo desloca-se do texto (modelo bottom-up) para o leitor (modelo top-down). Conseqüentemente, a leitura não pode ser ensinada e o leitor “aprende a ler, lendo”, através da mobilização dos conhecimentos prévios. No entanto, devido ao apagamento do autor, uma vez que a compreensão depende apenas de esquemas mentais, o texto permanece como “produto autônomo”. 1.4.3 Interativo: Este modelo pressupõe a interatividade entre os dois anteriores (ascendente/ descendente), ou seja, o leitor deverá utilizar diversos níveis de conhecimento durante a leitura, sendo que esta passa a ser considerada como uma atividade de produção de sentidos, realizada com base nos elementos lingüísticos e estruturais presentes na superfície do texto. Esta atividade, segundo Jurado (2003), requer a mobilização de vários níveis de conhecimentos, tais como: lingüísticos (implícitos, não-verbalizados, nem verbalizáveis) - que vão desde a fonologia-grafêmica, o vocabulário e as regras da língua, chegando ao conhecimento sobre o uso; textuais - que são o conjunto das noções (conhecimento sobre as estruturas expositiva, narrativa, descritiva, etc.) e conceitos sobre o texto (os tipos de textos, considerando as “intenções” do autor – 35 narrar, argumentar, etc.); enciclopédicos ou de mundo - que seriam os conhecimentos armazenados na memória (composta por esquemas de conhecimentos sobre assuntos, eventos ou situações típicos). Como podemos perceber, a figura do autor reaparece, pois, através da interação com o texto, o leitor deverá “reconstruir o sentido do texto”, procurando interpretar os objetivos e intencionalidades do escritor. Todavia, o texto continua sendo uma “entidade” autônoma, já que as intenções do autor devem ser marcadas, formalmente, no texto, constituindo-se em “pistas”, as quais devem ser seguidas pelo leitor, a fim de que este possa, finalmente, interpretar o que leu. Em resumo, o processo de compreensão tem como ponto de partida e de chegada o próprio texto, enquanto unidade formal, ainda que, de certo modo, o aspecto interacional entre autor/leitor seja considerado para a atribuição de significado. Segundo Lodi (2004), o modelo interativo já aparece nos livros didáticos utilizados pelas escolas desde o final da década de 90. No entanto, ainda que seja clara a intenção de se estabelecer um processo de interação no ato da leitura, podemos constatar que as atividades propostas nos livros, geralmente, não permitem a ampliação de leituras “possíveis”, pois as hipóteses levantadas pelos alunos devem ser comprovadas a partir de aspectos formais presentes no texto. Destacamos, ainda, a relevância das discussões sobre as estratégias de leitura (cognitivas e meta-cognitivas) e a transposição desses pressupostos para a sala de aula, uma vez que tiveram ampla divulgação nos cursos de formação oferecidos aos professores, principalmente nas últimas décadas. Porém, isso parece ter ocorrido de maneira bastante incipiente, uma vez que a maioria dos professores parece priorizar, talvez inconscientemente, apenas algumas estratégias de leitura, como por exemplo: levantamento de conhecimento prévio e inferência a partir de marcas formais do texto. Já entre as diversas capacidades de leitura existentes, a de localização de informação parecer ter a preferência absoluta dos docentes e, face ao exposto, nos reportaremos a Jurado (2003, p. 70): Podemos verificar que todas essas práticas reforçam as críticas que Bakhtin faz em relação ao estudo dos enunciados. Essas práticas estão relacionadas ao ensino-aprendizagem da leitura entendido como a aquisição do código, baseada no modelo bottom-up. Compreender o texto é ler em voz alta, mapear 36 informação gráfica, extrair informação palavra a palavra, reconhecer aspectos morfológicos e sintáticos do texto. Sabemos que essas ações pedagógicas não são suficientes para a construção do leitor proficiente e os dados da avaliação do SAEB (Sistema de Avaliação do Ensino Básico) / MEC/ 2005 demonstram isso: Tabela 1 - Brasil - Proficiências do SAEB 1995 - 2005 Série Disciplinas 1995 1997 1999 2001 2003 2005 4ª Ensino Fundamental Português 188.3 186.5 170.7 165.1 169.4 172.3 (a) Matemática 190.6 190.8 181.0 176.3 177.1 182.4 8ª Ensino Fundamental Português 256.1 250.0 232.9 235.2 232.0 231.9 (b) Matemática 253.2 250.0 246.4 243.4 245.0 239.5 Português 290.0 283.9 266.6 262.3 266.7 257.6 Matemática 281.9 288.7 280.3 276.7 278.7 271.3 3ª Ensino Médio (b) (a) Inclui escolas federais e rurais. As federais nos anos de 1995, 2003 e 2005. As rurais em todos os anos, porém em 1997 não inclui as da Região Norte e em 1999 e 2001 apenas as dos Estados do Nordeste, Minas Gerais e Mato Grosso (b) Não inclui rurais, inclui federais em 1995, 2003 e 2005 Considerando que nossa pesquisa está direcionada às séries iniciais do Ensino Básico, comentaremos, brevemente, sobre os resultados da 4ª série, cuja média mínima (satisfatória) estabelecida no SAEB (nesta série) é de 200 pontos e, para atingir esse nível de desempenho, os alunos devem demonstrar as seguintes habilidades22: • Compreender textos de gêneros variados, tais como: anedotas, pequenas narrativas, fábulas, textos de caráter informativo, tirinhas e histórias em quadrinhos; 22 • Ser capaz de localizar informações explícitas; • Identificar as personagens dos textos; • Distinguir fato de opinião; • Compreender as relações de causa e conseqüência; Descritores extraídos do livro “Avaliação da educação básica: em busca da qualidade e eqüidade no Brasil”, publicado pelo INEP em 2005. 37 • Compreender os efeitos de sentido a partir da pontuação e de outras formas de notações. Como podemos constatar ao analisarmos a Tabela 1, a média nacional está abaixo do mínimo satisfatório (200 pontos), sendo que, em 2005, a rede municipal urbana/ Cuiabá obteve 165,123 de média, índice inferior à média nacional (172,3). Lembramos, novamente, que, segundo o relatório do SAEB, isso significa que os alunos da 4ª série lêem de forma truncada, apenas frases simples. Esses dados servem de alerta para as instituições que definem as políticas públicas de Educação, em todas as esferas: municipal, estadual ou federal, pois demonstram que o processo de escolarização não está cumprindo com uma de suas funções, que é a de formar leitores críticos. 1.5 A leitura para a vertente enunciativo-discursiva (ancorada em Bakhtin): Para Bakhtin, a língua é dinâmica e a enunciação resulta do processo de interação. Portanto, o homem, assim como a língua, são produtos sócio-históricos que se constituem através da relações sociais. A linguagem, nessa perspectiva, surge como mediadora entre o sujeito e o meio, concretizando-se, durante o ato de interação, através da relações dialógicas estabelecidas entre os interlocutores, pois, segundo Bakhtin (1929: p.111): (...) Na verdade, a língua não se transmite; ela dura e perdura sob a forma de um processo evolutivo contínuo. Os indivíduos não recebem a língua pronta para ser usada; eles penetram na corrente da comunicação verbal; ou melhor, somente quando mergulham nessa corrente é que sua consciência desperta e começa a operar. Esse fato nos leva a inferir que fazemos parte de uma mesma cadeia discursiva, na qual os enunciados se materializam por meio de gêneros (discursivos), assumindo formas diversas, de acordo com a esfera de atividade humana na qual circulam e refletindo, também, as condições que demandaram a sua produção. Assim, em 23 Nível denominado de crítico, conforme dados extraídos do Relatório do SAEB 1995-2005. 38 outras palavras, o conteúdo temático, o estilo e a construção composicional são partes constituintes dos gêneros discursivos. A partir dessa base teórica, o processo de leitura passa a ser concebido como prática social e, conforme Paes de Barros (2005: p.30): (...) a leitura é vista como um processo de compreensão ativa no qual os diversos sentidos em circulação no texto são instituídos a partir da relação dialógica estabelecida entre autor e leitor, entre leitor e texto, e entre a multiplicidade de linguagens sociais que permeiam essas instâncias. Assim, pode-se afirmar que a leitura, nessa concepção, é um processo dialógico que promove um encontro entre discursos e enunciados que acabam por construir conjuntamente os sentidos dos textos. Como resultado dessas reflexões, acreditamos que o ato de ler implica em compreensão ativa e não deve ser reduzido à identificação de signos lingüísticos (decodificação), uma vez que este se caracteriza, principalmente, pela interação entre o sujeito/autor e o sujeito/ leitor, em um processo dialógico de construção de significados, ou, como declarou Bakhtin (1929: p. 137): (...) Compreender a enunciação de outrem significa orientar-se em relação a ela, encontrar o seu lugar adequado no contexto correspondente. A cada palavra da enunciação que estamos em processo de compreender, fazemos corresponder uma série de palavras nossas, formando uma réplica. Quanto mais numerosas e substanciais forem, mais profunda e real é a nossa compreensão. Desse modo, para Bakhtin, a compreensão somente se concretiza se produzir uma resposta, pois “compreender é opor à palavra do locutor uma contrapalavra” (1929: p. 137), sendo por isso chamada de ativa e responsiva. Portanto, compreender um enunciado significa adotar uma atitude responsiva ativa, que pode se materializar em uma resposta verbal, através de uma ação ou, ainda, permanecer “muda” por certo tempo, mas que a qualquer momento poderá se manifestar, tanto no comportamento como no discurso do interlocutor, sendo que em determinadas interações face a face, o fato de “permanecer mudo” também pode ser uma forma de resposta. 39 Nessa perspectiva, o processo de compreensão não é resultante apenas da interação entre os interlocutores, mas também é fruto das relações dialógicas que se estabelecem entre os mesmos em um determinado contexto sócio-histórico: “(...) A compreensão é uma forma de diálogo; ela está para a enunciação assim como uma réplica está para a outra no diálogo” (1929: p. 137). Ainda segundo Bakhtin, a enunciação é dotada de dois elementos: o tema e a significação. O primeiro pode ser definido como o “sentido” construído pelos interlocutores em determinada situação comunicativa concreta. Logo, o tema “surge” a partir do contexto no qual os enunciados foram produzidos. Em síntese, podemos dizer que todo enunciado possui um tema, o qual se caracteriza por ser concreto, individual e não reiterável, pois depende de uma situação histórica concreta. Quanto ao segundo, ou seja, a significação, esta é constituída pelos “elementos da enunciação que são reiteráveis e idênticos cada vez que são repetidos” (Bakhtin, 1929: p. 134), isso faz com que significação só possa existir no interior do tema, unindo os interlocutores, afinal, apenas poderá se concretizar durante o processo de compreensão ativa. Isto posto, para que fique mais claro, tomemos o clássico exemplo dado pelo autor acerca do enunciado “Que horas são?”, o qual, de acordo com a situação comunicativa na qual for “pronunciado”, poderá ter várias possibilidades de tema em uma sala de aula, com um aluno perguntando ao professor, o tema poderá ser: já está na hora do intervalo ou do término da aula; em uma festa - pode expressar impaciência com o atraso de alguém. Já a significação da enunciação “Que horas são?” será a mesma em todas as interações, pois “ela se compõe das significações de todas as palavras que fazem parte dela, das formas de suas relações morfológicas e sintáticas, da entonação interrogativa, etc.,” (Bakhtin, 1929: p.134). Todavia, além disso, no ato de compreensão, devemos considerar, ainda, a entoação expressiva, a qual pode ser entendida como o acento apreciativo (de valor) atribuído pelo falante/ escritor aos enunciados. Portanto, o modo como as palavras são pronunciadas (entoadas) também se constitui como um dos recursos usados pelos interlocutores para expressar sentidos e atribuir “valor” aos enunciados produzidos durante as interações. 40 Como exemplo, vejamos a seguinte situação: o marido chegou de madrugada em casa e a esposa perguntou “Você sabe que horas são?”, podemos inferir que a entoação empregada estará imbricada à apreciação valorativa atribuída pela mulher e, certamente, o marido compreenderá que esta não deseja saber as horas e sim “está exigindo” explicações acerca dos motivos que o levaram a chegar tarde em casa. Nesse aspecto, percebemos que tanto a entoação expressiva como o acento apreciativo contribuem diretamente para a apreensão do tema de um enunciado, pois, segundo Bakhtin (1929: p.140): (...) a significação objetiva forma-se graças à apreciação; ela indica que uma determinada significação objetiva entrou no horizonte dos interlocutores - tanto no horizonte imediato como no horizonte social mais amplo de um dado grupo social. Além disso, é à apreciação que se deve o papel criativo nas mudanças de significação. Esses elementos atuam “em conjunto” durante o processo de compreensão ativa e responsiva dos discursos, contribuindo diretamente para a efetivação da construção de significados. Entretanto, em oposição a esse processo, temos a compreensão passiva que se “caracteriza pela percepção do signo como objeto-sinal” (Bakhtin, 1929: p. 99), sendo que esta última nada acrescenta aos conhecimentos que o interlocutor já possui, gerando apenas a reprodução do discurso do outro. Assim, conforme já foi mencionado, podemos constatar que é na relação dialógica ocorrida entre os interlocutores que as significações são produzidas e/ou reformuladas, ou seja, ler não significa “descobrir” as intenções do autor e, sim, dialogar com ele (replicando ou concordando), uma vez que o tema do texto irá se concretizar de diferentes modos para cada leitor e nesse processo está a riqueza do ato interlocutivo. Portanto, ler é se envolver em práticas sociais, participando ativamente de um processo contínuo e dialógico de construção de significados. Com isso, retomamos a assunção da interface entre o modelo ideológico de letramento e a abordagem bakhtiniana de linguagem: a concepção da linguagem enquanto prática social discursiva, pois, segundo Bakhtin (1929: p.117): 41 (...) A situação social mais imediata e o meio social mais amplo determinam completamente e, por assim dizer, a partir do seu próprio interior, a estrutura da enunciação. Nesse contexto, as práticas escolares de leitura precisam avançar para além das já consagradas atividades de ler em voz alta (quando utilizada exclusivamente para “treinar a dicção”), localizar informações explícitas no texto (Ex.: Juca estava na floresta/ Pergunta: onde estava Juca? Ou: Quem estava na floresta?) ou utilizar estratégias para que todos os alunos compreendam o texto do mesmo modo, como se este tivesse um sentido único, o qual, na maioria das vezes, se restringe àquele que aparece no livro didático do professor. De modo geral, são essas atividades que parecem predominar na maioria das escolas, por isso, torna-se primordial que a comunidade escolar repense e reveja suas práticas, visto que, se o texto é, por natureza, dialógico, como atividades descontextualizadas poderiam estimular a compreensão ativa dos alunos? Se ler é produzir sentidos, como a imposição de uma interpretação “única” poderá formar leitores críticos? Acreditamos que, dentre os desafios com os quais a escola se defronta atualmente, está o de propor atividades de leitura, significativas e contextualizadas, que atuem na zona de desenvolvimento proximal24 do aluno, possibilitando que o mesmo seja autor do próprio discurso e não apenas “ventríloquo” do professor. Desse modo, ao assumir uma atitude responsiva (dialógica) diante do discurso alheio, o aluno poderá compreender, efetivamente, a realidade sócio-cultural em que vive, atuando sobre ela e transformando-a, quando necessário. Conforme já dissemos, há vários fatores relevantes que contribuíram para a construção do conceito de leitura enquanto ato social, a saber, as reflexões propostas pelo modelo ideológico de letramento, a abordagem bakhtiniana da linguagem e a adoção dos gêneros discursivos como objeto de ensino da área de Língua Portuguesa. 24 Conceito elaborado por Vygotsky, grosso modo, refere-se à distância entre o nível de desenvolvimento real, determinado pela capacidade de resolver um problema sem ajuda, e o nível de desenvolvimento potencial, determinado através de resolução de um problema sob a orientação de um adulto ou em colaboração com outro companheiro. 42 Assim, entendemos que tanto o estudo das teorias enunciativo-discursivas e das práticas de letramento, como o acesso às pesquisas desenvolvidas na área do ensino-aprendizagem de Língua Portuguesa, podem auxiliar os docentes na compreensão ativa da própria prática educativa, percebendo-se enquanto agentes sociais e ideológicos. Nesse bojo, o trabalho de pesquisa desenvolvido nesta dissertação pretende analisar as práticas de leitura implementadas por uma determinada escola da rede municipal de Cuiabá, a partir dos pressupostos teóricos bakhtinianos. Acreditamos que estes irão facilitar a compreensão acerca das condições sócio-historicas que constituem a escola e que, de certa forma, norteiam o trabalho realizado pelos docentes. No entanto, sabemos que os conceitos bakhtinianos ainda não foram assimilados pela grande maioria das escolas, embora apareçam de modo mais explícito, desde 1998, nos PCN de 3º e 4º Ciclos. Assim, não se trata de constatarmos o óbvio (que a escola não trabalha com esta concepção de linguagem), o que nos move é o desejo de contribuir, através dos estudos de Bakhtin, para a melhoria do processo de ensino-aprendizagem de leitura efetivado em nosso locus de pesquisa. Isto posto, destacamos, ainda, outros conceitos bakhtinianos que poderiam estar presentes no modo como o professor trata as práticas de leitura e produção de texto, que são: o dialogismo, a alteridade e a exotopia. O termo dialogismo refere-se ao princípio dialógico constitutivo da linguagem, uma vez que, como já dissemos, os enunciados são produzidos durante processos interacionais estabelecidos entre os interlocutores, de acordo com as condições contextuais. Assim, ao considerarmos a importância do papel do outro na construção de sentido, podemos concluir que a concepção de alteridade norteia as atividades discursivas, ou seja, a palavra do outro influencia, continuamente, a construção dos enunciados. Quanto à questão da alteridade e da exotopia, concluímos que o outro sempre será aquele que observa e analisa “de fora”, pois está em uma posição que só ele pode ocupar, entretanto, em situações de interação face a face, temos uma contínua alternância nas relações entre o “eu e o outro”, em um processo contínuo de alteridade. 43 Isso reforça, mais uma vez, o que já comentamos: o ato de ler não é tão simples quanto pode parecer, há vários processos e procedimentos que estão a ele imbricados e devem ser considerados para que a leitura, de fato, possa ser ensinada. A partir desses pressupostos, torna-se necessário que a escola comece a refletir acerca do modelo de letramento que tem pautado a grande maioria das práticas de leitura e escrita por ela desenvolvidas e que, efetivamente, não têm contribuído para o desvelamento da realidade e a construção da cidadania. As atividades didáticas implementadas a partir do modelo autônomo de letramento colocam o professor como único interlocutor dos textos dos alunos, modelo de autor e de norma padrão, aquele que detém o poder de permitir ou não determinadas “leituras”, aumentando, assim, as desigualdades sociais. Esses procedimentos didáticos podem trazer sérias conseqüências para o processo de aprendizagem do aluno, já que poderiam gerar o seguinte comportamento: ao invés de refletir sobre o texto lido e tentar compreendê-lo, os discentes passarão a esperar que o professor lhes mostre qual a “leitura correta”, chegando ao extremo de transpor este tipo de atitude para outros contextos interacionais e, conseqüentemente, ao assumir a palavra do outro como sua, assimilarão, também, sem a devida reflexão, as formações ideológicas presentes nestes discursos. Diante disso, o ambiente escolar deve estimular a diversidade de posicionamentos, fugindo da tentação de padronizar o pensamento dos alunos. Logo, a escola deve se constituir como espaço privilegiado para que as reflexões acerca do processo de ensino-aprendizagem de leitura e de escrita se consolidem, trazendo avanços concretos para a prática pedagógica em desenvolvimento nas unidades escolares e melhorando, significativamente, a qualidade do ensino oferecido aos discentes. 1.5.1 As capacidades de leitura Nesse aspecto, torna-se necessário destacarmos, também, a importância de se considerar as capacidades de leitura (Rojo, 2004) como primordiais para a 44 construção da competência discursiva. Portanto, no decorrer deste capítulo, exploraremos com mais detalhes os conceitos de competência e capacidade. Atualmente, o termo competência voltou à discussão no cenário educacional, aparecendo, inclusive, nos documentos oficiais como os PCN e os Referenciais Curriculares da rede municipal de Cuiabá, nos quais podemos perceber a influência de Perrenoud (1999) que propõe a organização de um currículo por competências25. Para o citado autor (1999: p.7), competência é a “capacidade de agir eficazmente em um determinado tipo de situação, apoiado em conhecimentos, mas sem limitarse a eles”. Ele afirma, ainda, que a competência vai além da simples mobilização de esquemas mentais e deve estar sempre relacionada a algum tipo de prática social e, nesse aspecto, aproxima-se do conceito de competência discursiva utilizado na área da Linguagem. No bojo dessas discussões, tentamos situar o referido termo sob o olhar da vertente bakhtiniana, ou seja, ao associarmos competência a discurso e instituições sociais, podemos definir competência discursiva como a capacidade de inserir-se em práticas sociais de leitura e escrita, em determinados contextos e com objetivos específicos. Isto posto, podemos constatar que este conceito está, intrinsecamente, associado ao significado “ser letrado” para o modelo ideológico de letramento. Por isso, concordamos com Baltar (2004: p. 224): Assim, parece que esta concepção de competência discursiva nos permite (...) transitar de uma instituição a outra, uma vez que se aperceba a diversidade dos gêneros textuais que predominam nesses diversos ambientes discursivos das diversas instituições sociais. Esse conceito talvez se aproxime do que Perrenoud tem se referido como a capacidade de transferência, que deveria ser o objetivo do fazer pedagógico. A capacidade de organizar e de atualizar saberes desenvolvidos dentro do ambiente discursivo escolar, nas mais variadas situações de prática social que ocorrem na sociedade, portanto dentro dos diversos ambientes discursivos. O conhecimento sobre as várias capacidades envolvidas no ato de ler tem avançado à medida que as pesquisas e teorias sobre o tema são desenvolvidas. Isto é primordial para facilitar a compreensão do processo de leitura, ampliando sua 25 Para maiores informações, ver Perrenoud (1999), Construir as competências desde a escola, livro no qual descreve as vantagens em se optar por uma organização curricular a partir de competências. 45 dimensão, pois, atualmente, sabemos que ler envolve diversos procedimentos e capacidades, os quais atuam, em conjunto, de acordo com o gênero discursivo a ser utilizado. O termo “capacidade” será muito utilizado nesta pesquisa e, quase sempre, estará associado ao termo “habilidade”. É claro que seria possível falar das capacidades de leitura utilizando o termo “competência”. Todavia, optamos por “capacidades”, uma vez que este parece se tratar de um termo bastante amplo, que pode abranger desde os procedimentos mais mecânicos (ler de cima para baixo, etc.), até a capacidade discursiva (como a de elaborar apreciações éticas e políticas, entre outras). Isto posto, podemos concluir que o processo de leitura abarca tanto o uso de procedimentos quanto a mobilização de diversas capacidades adequadas ao contexto situacional e às finalidades da leitura. Logo, nenhuma das teorias existentes nega a anterior, ao contrário, contribui para o aprofundamento das discussões. Assim, com base nas diversas abordagens, podemos concluir que “diferentes tipos de letramento, diferentes práticas de leitura, em diversas situações, vão exigir diferentes combinações de capacidades26 de várias ordens” (Rojo, 2004: p. 4-7), as quais serão expostas a seguir: a) Capacidades de decodificação: Referem-se às habilidades básicas para a aquisição do código escrito, relacionandose, portanto, ao processo inicial de alfabetização. Nesse sentido, notamos que é esse é um aspecto importante, pois permite, tanto ao leitor iniciante quanto ao leitor maduro, a leitura de palavras que nunca foram vistas antes, mesmo sem compreender o seu significado e, além disso, contribui para a construção da consciência fonológica. Entretanto, constituem apenas a parte inicial do processo de leitura e, conforme Rojo (2004: p. 4), “não se dão por si sós, sem a contribuição de outras capacidades de compreensão, apreciação e réplica”. 26 As capacidades aqui elencadas foram extraídas de materiais elaborados pelo Centro de Alfabetização, Leitura e Escrita (CEALE) e dos critérios utilizados na avaliação dos Livros Didáticos de Língua Portuguesa (5ª a 8ª séries, PNLD/2005). 46 Exemplos: • Compreender diferenças entre escrita e outras formas gráficas (outros sistemas de representação); • Conhecer o alfabeto; • Compreender a natureza alfabética do nosso sistema de escrita; • Dominar as relações entre grafemas e fonemas; • Saber decodificar palavras e textos escritos; • Saber ler, reconhecendo globalmente as palavras e demonstrando fluência e rapidez de leitura. b) Capacidades de compreensão: Estão diretamente associadas às estratégias de leitura discutidas nos modelos cognitivos de leitura, são utilizadas na compreensão da estrutura de superfície do texto e/ou enunciados. Nesse contexto, ler significa, basicamente, demonstrar a compreensão linear, a produção de inferências, a compreensão global, etc. Lembramos que o trabalho com as capacidades de compreensão pode e deve ser iniciado antes mesmo que as crianças tenham aprendido a decodificar e a reconhecer globalmente as palavras. Exemplos: • Ativação de conhecimento prévio; • Antecipação ou predição de conteúdos ou propriedades dos textos; • Checagem de hipóteses; • Localização e/ou cópia de informações; • Comparação e generalização de informações; • Produção de inferências locais e globais; 47 c) Capacidades de apreciação e réplica do leitor em relação ao texto (interpretação, interação): O desenvolvimento das capacidades de interpretação está relacionado ao trabalho com os gêneros discursivos. Logo, é importante que o professor proporcione aos alunos a leitura de textos pertencentes aos mais variados gêneros (narrativas ficcionais, poemas, trovas, canções, parlendas, listas, agendas, propagandas, notícias, cartazes, receitas culinárias, instruções de jogos, regulamentos, etc.). Outro aspecto a ser tratado com os alunos refere-se às características gerais desses gêneros (do que eles costumam tratar, como costumam se organizar, que recursos lingüísticos costumam usar, para que servem, onde circulam, etc.), auxiliando no trabalho de interpretação, pois orientam adequadamente as expectativas do leitor diante do texto. Ressaltamos, ainda, a importância de situar o texto no contexto em que foi produzido, ampliando as possibilidades de leitura, além de contribuir para a formação de um leitor cada vez mais proficiente. Portanto, ser capaz de fazer extrapolações pertinentes, aumenta a capacidade de réplica e estimula o processo de compreensão ativa. Exemplos: • Recuperação do contexto de produção do texto; • Definição de finalidades e metas da atividade de leitura; • Percepção de relações de intertextualidade (no nível temático e no discursivo); • Percepção de outras linguagens (imagens, som, imagens em movimento, diagramas, gráficos, mapas etc.) como elementos constitutivos dos sentidos dos textos e não somente da linguagem verbal escrita. • Elaboração de apreciações estéticas e/ou afetivas; • Elaboração de apreciações relativas a valores éticos e/ou políticos. Nesse contexto, ao analisarmos as práticas escolares de leitura sob o olhar do modelo ideológico de letramento, ampliando, também, nossa percepção com base nas teorias enunciativo-discursivas, teremos um panorama bastante complexo do 48 processo de escolarização: a escola, como principal agência de letramento, parece não estar cumprindo sua função de formar leitores críticos. A instituição escolar deveria criar espaços nos quais a crítica, a contradição e o antagonismo presentes nas relações sociais também fossem discutidos, ampliando a visão de mundo dos alunos e dando voz a eles para concordar ou discordar, analisar, refletir, criticar e propor soluções. A vertente bakhtiniana pode contribuir muito nesse processo, pois, segundo Goulart (2000: p.110): (...) A necessidade de formação de leitores e autores críticos pode ser adensada pelos estudos de Bakhtin, na medida em que as noções desenvolvidas pelo autor dão suporte teórico para compreender aspectos que determinam muitas possibilidades de interpretar enunciados e a relação entre o conteúdo temático, a seleção de recursos expressivos e a construção textual. No entanto, embora a maioria das escolas públicas se declare comprometida com a realidade de seus alunos, continua organizando o currículo em disciplinas isoladas e adotando metodologias que reforçam a exclusão e nesse aspecto nos reportamos a Kleiman (1996: p. 16): As práticas desmotivadoras, perversas até, pelas conseqüências nefastas que trazem, provem, basicamente, de concepções erradas sobre a natureza do texto e da leitura, e, portanto, da linguagem. Elas são práticas sustentadas por um entendimento limitado e incoerente do que seja ensinar português, entendimento este tradicionalmente legitimado tanto dentro como fora da escola. Assim, os temas discutidos neste capítulo ganham relevância ao nos apontarem para o fato de como o letramento escolar parece não contribuir, efetivamente, para a formação de leitores críticos, o que amplia a função social da escola e a coloca diante de um novo desafio: como implementar práticas pedagógicas destinadas a “alfabetizar letrando”, considerando a leitura como algo que pode e deve ser ensinado, em todas as áreas do conhecimento, garantindo, assim, não só a formação do leitor crítico, mas também a construção de um processo educacional voltado para o exercício da cidadania? Nesse sentido, não há respostas definitivas e “milagrosas” a esta questão, mas, tentaremos encontrar alguns caminhos durante a trajetória da nossa pesquisa. 49 Capítulo 2: Ensino de Leitura - O que dizem os documentos oficiais Embora as Diretrizes Político-Pedagógicas da Rede Municipal de Cuiabá (1999) tenham sido “gestadas” em um período bem próximo à produção e divulgação dos Parâmetros Curriculares Nacionais de 1º e 2º Ciclos (1997), podemos verificar uma influência deste último na elaboração das referidas diretrizes, principalmente na parte que trata dos referenciais curriculares. Por conta disso, acreditamos ser importante, para esse trabalho, a análise das concepções teóricas que fundamentam os PCN de Língua Portuguesa (1º e 2º Ciclos). Além disso, considerando que nosso estudo está direcionado às práticas de leitura desenvolvidas em uma escola da rede municipal de Cuiabá, faremos, também, um breve histórico do processo que levou o município a adotar o regime de ciclos. Descreveremos, também, alguns fatos marcantes que ocorreram no período de 1993 a 2005 e que originaram mudanças na organização escolar, a fim de compreendermos melhor a situação atual do locus da nossa pesquisa. 2.1 Os PCN de Língua Portuguesa (1º e 2º Ciclos): Como já dissemos anteriormente, o desenvolvimento de pesquisas e teorias em algumas áreas da Lingüística como a Sociolingüística e a Lingüística Textual, principalmente, trouxe grandes contribuições para repensarmos o processo de ensino-aprendizagem de Língua Portuguesa e, a partir do arcabouço teórico bakhtiniano, chegamos à concepção de linguagem como discurso, ou seja, esta é produto das relações entre os sujeitos, constituindo-os e sendo por eles constituída, em um processo contínuo, afetado pelas condições sociais e históricas de sua utilização. Influenciados pelas mudanças epistemológicas que ocorreram na citada área, os PCN de Língua Portuguesa de 1º e 2º Ciclos (2001: p. 24) assumem que: 50 (...) a língua é um sistema de signos histórico e social que possibilita ao homem significar o mundo e a realidade. Assim, aprendê-la é aprender não só as palavras, mas também os seus significados culturais e, com eles, os modos pelos quais as pessoas do seu meio social entendem e interpretam a realidade e a si mesmas. (...) A linguagem, por realizar-se na interação verbal dos interlocutores, não pode ser compreendida sem que se considere o seu vínculo com a situação concreta de produção. É no interior do funcionamento da linguagem que é possível compreender o modo desse funcionamento. Produzindo linguagem, aprende-se linguagem. Nesse contexto, como já mencionamos, e por se tratar de um documento norteador de políticas educacionais para todo o país, a proposta apresentada nos PCN provocou mudanças efetivas na organização dos livros didáticos da referida área, principalmente, através do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD).27 Sabemos que isso ocorreu gradualmente, pois somente após a criação do PNLD foram estabelecidos certos parâmetros a serem observados pelos autores/editoras. Este fato favoreceu a “entrada”, nas escolas públicas, de diversos e novos conceitos estudados nas esferas acadêmicas, como por exemplo: discurso, intertextualidade, letramento, gênero discursivo, variação lingüística, análise lingüística, etc. No entanto, grande parte das pesquisas realizadas acerca dos livros didáticos de Língua Portuguesa tem demonstrado que tais conceitos parecem figurar apenas no manual do professor, sem serem efetivados, de fato, na proposta metodológica dos livros, em toda a sua plenitude. Os autores, assim como os professores, estão em fase de conhecimento e aprendizagem. Talvez os cursos de formação continuada tenham contribuído mais eficazmente, mas só uma pesquisa sobre o tema poderá confirmar essa hipótese. Assim, em consonância com os pressupostos teóricos assumidos e, entendendo que a linguagem está vinculada a situações concretas de uso, os PCN propõem que os conteúdos da área de Língua Portuguesa sejam organizados a partir dos seguintes eixos (PCN, 2001: p.44). 27 Ambos, os PCN e o PNLD trabalham com os mesmos pressupostos teóricos e, por isso, coincidem em vários aspectos, contudo, parece não haver uma transposição “literal” do primeiro para o segundo. 51 Todo o tratamento didático a ser dado aos conteúdos deve considerar esses eixos (reflexão ↔ uso), logo o ensino deve ocorrer através de situações didáticas nas quais as práticas de uso da linguagem sejam compreendidas em sua dimensão histórica/ social. Assim, as atividades de análise e sistematização teórica dos conhecimentos lingüísticos devem surgir dessas mesmas práticas. Lembramos, ainda, que o quadro acima toma como base os trabalhos de Geraldi.28 Conseqüentemente, percebemos também a influência de autores como Bakhtin, Bronckart e Schneuwly, através do conceito de gênero exposto nos PCN29. O gênero discursivo alcança, assim, o “status” de objeto de ensino da área de Língua Portuguesa, conforme PCN (2001: p. 26): Todo texto se organiza dentro de um determinado gênero. Os vários gêneros existentes, por sua vez, constituem formas relativamente estáveis de enunciados, disponíveis na cultura, caracterizados por três elementos: conteúdo temático, estilo e construção composicional. Pode-se ainda afirmar que a noção de gêneros refere-se a “famílias” de textos que compartilham algumas características comuns, embora heterogêneas, como visão geral da ação à qual o texto se articula, tipo de suporte comunicativo, extensão, grau de literariedade, por exemplo, existindo em número quase ilimitado. Os gêneros são determinados historicamente. As intenções comunicativas, como parte das condições de produção dos discursos, geram usos sociais que determinam os gêneros que darão forma aos textos. 28 Essa organização articula propostas de João Wanderley Geraldi para o ensino de Língua Portuguesa, apresentada em Unidades básicas do Ensino de Português (in O texto na sala de aula 1984) e em Portos de Passagem (1993). 29 No texto dos PCN, encontramos a seguinte nota de rodapé: O termo “gênero” é utilizado aqui como proposto por Bakhtin e desenvolvido por Bronckart e Schneuwly. 52 A definição de gênero proposta pelos PCN tenta unificar duas perspectivas complementares: a discursiva e a textual, visto que Schneuwly e Bronckart partiram dos estudos de Bakhtin para constituir uma abordagem teórica acerca dos gêneros textuais que, em alguns aspectos, aproxima-se e em outros se afasta da vertente bakhtiniana (principalmente na preocupação com a estrutura composicional do gênero). Todavia, os PCN ainda demonstram certa dificuldade na utilização desse conceito, pois ao mesmo tempo em que propõem um trabalho a partir dos gêneros discursivos, embasado, principalmente em Bronckart e Schneuwly, destacam, continuamente, a utilização da diversidade textual, abordagem esta que ganhou projeção nacional a partir de Geraldi (1984), em seu livro “O texto na sala de aula: leitura e produção”.30 Exemplo: Um leitor competente só pode constituir-se mediante uma prática constante de leitura de textos de fato, a partir de um trabalho que deve se organizar em torno da diversidade de textos que circulam socialmente. (PCN, 2001: p.54) Desse modo, ao longo do documento, podemos constatar que a concepção de diversidade textual prevalece sobre a de gêneros, fato este que irá ocasionar mudanças significativas no tratamento didático a ser dado ao texto em sala de aula, tais como, os aspectos discursivos e dialógicos inerentes às práticas de leitura e escrita são postos de lado, a simples exposição à diversidade textual existente seria capaz de fornecer modelos para a produção escrita, sem que seja necessária a mediação do professor; a prática de leitura tem o objetivo de buscar elementos que possam auxiliar na fixação da estrutura textual. Outro fator que merece destaque é a valorização da linguagem oral e das variedades lingüísticas, como conteúdos a serem tratados nas aulas de Língua Portuguesa. Já em relação ao ensino de leitura, nota-se que a preocupação principal expressa no documento (PCN, 2001: p. 53) parece ser: (...) a formação de leitores competentes e, conseqüentemente, a formação de escritores, pois a possibilidade de produzir 30 Destacamos que estas abordagens não excluem uma à outra, pois partem de concepções teóricas semelhantes. 53 textos eficazes tem sua origem na prática de leitura, espaço de construção da intertextualidade e fonte de referências modelizadora. Nessa visão, a leitura deve contribuir para a formação de modelos sobre o “como escrever”, o que parece divergir da concepção exposta em outro lugar do citado documento (PCN, 2001: p. 53), a saber: A leitura é um processo no qual o leitor realiza um trabalho ativo de construção do significado do texto, a partir dos seus objetivos, do seu conhecimento sobre o assunto, sobre o autor, de tudo o que sabe sobre a língua: características do gênero, do portador, do sistema de escrita, etc. (...) Trata-se de uma atividade que implica, necessariamente, compreensão na qual os sentidos começam a ser constituídos antes da leitura propriamente dita. No cerne desses pressupostos, encontramos o modelo interativo de leitura, o que pode ser confirmado através da opção pelo trabalho com a diversidade textual e com a análise do agrupamento de gêneros propostos para o trabalho com linguagem oral e escrita31. Assim, ao deixar a critério do professor quais gêneros selecionar para o ensino de leitura, os PCN (2001: p. 109) não esclarecem que, de acordo com o gênero, são exigidas diferentes capacidades de leitura. Embora não se tenha, neste documento, estabelecido exatamente quais gêneros seriam adequados para o trabalho específico com a leitura e com a produção de textos, isso não significa que devam ser utilizados indiscriminadamente. (...) No entanto, o critério de seleção de quais textos podem ser abordados e em quais situações didáticas, cabe, em última instância, ao professor. Esse trecho parece reforçar a idéia de que o objetivo central da leitura é fornecer modelos de escrita para a produção de texto, uma vez que os aspectos dialógicos presentes no ato de ler, “aparentemente”, ficaram em segundo plano. Este fato se repete no item Tratamento Didático (Prática de Leitura/ 1º Ciclo, p. 54): Como se trata de uma prática social complexa, se a escola pretende converter a leitura em objeto de aprendizagem deve 31 Um trabalho que aprofunda esta questão é o de Barbosa (2001), “Trabalhando com os gêneros discursivos: uma perspectiva para o ensino de Língua Portuguesa” - tese de doutorado/ LAEL/ PUC – SP. 54 preservar sua natureza e sua complexidade, sem descaracterizá-la. Isso significa trabalhar com a diversidade de textos e de combinações entre eles. Significa trabalhar com a diversidade de objetivos e modalidades que caracterizam a leitura, (...) Eis a primeira e talvez a mais importante estratégia didática para a prática de leitura: o trabalho com a diversidade textual. Sem ela pode-se até ensinar a ler, mas certamente não se formarão leitores competentes. A utilização das estratégias de leitura (mobilização de conhecimento prévio, localização de informação, levantamento e verificação de hipóteses, antecipações, inferências, etc.) é estimulada continuamente e reforçada através de citações recorrentes, em detrimento das demais capacidades necessárias ao processo de compreensão ativa (vertente enunciativo-discursiva/ bakhtiniana). Exemplo (PCN, p.55): O conhecimento atualmente disponível a respeito do processo de leitura indica que não se deve ensinar a ler por meio de práticas centradas na decodificação. Ao contrário, é preciso oferecer aos alunos inúmeras oportunidades de aprenderem a ler usando os procedimentos que os bons leitores utilizam. É preciso que antecipem, que façam inferências a partir do contexto ou do conhecimento prévio que possuem, que verifiquem suas suposições — tanto em relação à escrita, propriamente, quanto ao significado. É disso que se está falando quando se diz que é preciso “aprender a ler, lendo” 32 . Ao refletirmos sobre essas idéias, parece-nos que o pensamento teórico subjacente ao “aprender a ler, lendo”, “aprender a escrever, escrevendo” se insere em uma visão “natural” da língua, embasada no Construtivismo e na Pedagogia de Freinet 33 (1976), os quais enfatizam as relações entre desenvolvimento cognitivo e aprendizagem e estão presentes no modelo interativo de leitura. Essas concepções foram criticadas por Schneuwly (2004), pois compreendem o processo de ensinoaprendizagem dos gêneros como algo espontâneo e, conseqüentemente, distante de suas relações discursivas e sócio-históricas. 32 33 Ênfase adicionada. As técnicas desenvolvidas por Freinet têm o objetivo de favorecer o desenvolvimento dos métodos naturais da Linguagem (desenho, escrita, gramática), da Matemática, das Ciências Naturais e Sociais, organizando as atividades curriculares a partir de Centros de Interesse. 55 Diante disso, percebemos mais uma vez os conflitos existentes no documento. Portanto, de modo geral, parece-nos que os PCN privilegiam apenas a capacidade de compreensão34, o que parece demonstrar certa incoerência com o objetivo estabelecido para a área de Língua Portuguesa, que é possibilitar a construção da competência discursiva, uma vez que este processo requer a utilização das várias capacidades de leitura e escrita, pois, segundo Rojo (2001: p. 2): (...) ser letrado e ler na vida e na cidadania é muito mais que isso: é escapar da literalidade dos textos e interpretá-los, colocando-os em relação com outros textos e discursos, de maneira situada na realidade social; é discutir com os textos, replicando e avaliando posições e ideologias que constituem seus sentidos; é, enfim, trazer o texto para a vida e colocá-lo em relação com ela. Mais que isso, as práticas de leitura na vida são muito variadas e dependentes de contexto, cada um deles exigindo certas capacidades leitoras e não outras. Ainda no capítulo concernente ao 1º Ciclo, foram elencadas algumas sugestões de propostas didáticas para a formação de leitores, a saber, leitura diária, colaborativa; projetos de leitura; atividades seqüenciadas de leitura; atividades permanentes de leitura; leitura feita pelo professor. A maioria das propostas prevê a fixação de objetivos para a realização das atividades, além, é claro, da utilização das estratégias de leitura como forma de garantir a compreensão do texto. O outro aspecto que merece destaque é a ressignificação da leitura em voz alta, recomendada, nos PCN, em situações contextualizadas e com objetivos funcionais. No entanto, percebemos um “pequeno” deslize ao tratarem da leitura feita pelo professor, conforme demonstrado nos PCN (p. 64): A leitura em voz alta feita pelo professor não é uma prática muito comum na escola. E, quanto mais avançam as séries, mais incomum se torna, o que não deveria acontecer, pois, muitas vezes, são os alunos maiores que mais precisam de bons modelos de leitores. 35 Com isso, os PCN acabam voltando à visão de leitura apenas como “oralização” da escrita, o que pode suscitar os seguintes questionamentos: nesse contexto, o que 34 35 Considerada sob a visão cognitivista. Ênfase adicionada. 56 significa “bons modelos de leitores”? Os alunos devem “imitar” a forma como o professor lê (em voz alta)? E se a variedade lingüística falada pelo professor for diferente da que os alunos utilizam? A prática da leitura em voz alta deve ser utilizada, em sala de aula, de modo mais significativo, como por exemplo, para despertar a sensibilidade dos alunos em relação aos recursos lingüísticos utilizados na construção de um poema (aliteração, sonoridade, etc.). Esta passaria a ser, então, um recurso didático muito importante para auxiliar o discente durante o processo de compreensão e interpretação. Outro aspecto fundamental é a entoação, que se “mescla” ao enunciado, favorecendo a construção do sentido. Sabemos que, muitas vezes, o contexto pode determinar a entoação utilizada, entretanto, as escolhas lingüísticas feitas pelos interlocutores também interferem nesse processo, pois trazem em seu bojo outras relações discursivas que, aparentemente, não estão explicitas no contexto de produção do enunciado. Estas reflexões nos levam novamente a Bakhtin (1929: p.117): (...) A situação social mais imediata e o meio social mais amplo determinam completamente e, por assim dizer, a partir do seu próprio interior, a estrutura da enunciação. Logo, a leitura em voz alta, tão privilegiada pelas escolas, e da qual os PCN propõem que o professor seja “o modelo”, não é algo tão simples quanto aparenta, visto que abarca uma série de valores sociais e ideológicos que interferem, diretamente, no processo de atribuição de sentidos. Considerando que nossa pesquisa tem como sujeitos alunos do 2º Ciclo (4º ano) 36 , analisaremos com maior profundidade os itens direcionados a esse ciclo: • Objetivos da área de linguagem para o ensino de leitura (PCN, 2001: p. 124): • Compreender o sentido nas mensagens orais e escritas de que é destinatário direto ou indireto, desenvolvendo sensibilidade para reconhecer a intencionalidade implícita e conteúdos 36 Na rede municipal de Cuiabá, o 2º Ciclo abarca a 3ª, 4ª e 5ª séries. 57 discriminatórios ou persuasivos, especialmente nas mensagens veiculadas pelos meios de comunicação; 37 • Ler autonomamente diferentes textos dos gêneros previstos para o ciclo, sabendo identificar aqueles que respondem às suas necessidades imediatas e selecionar estratégias adequadas para abordá-los; 38 Podemos identificar, nos trechos acima, a influência do modelo interativo de leitura: “reconhecer a intencionalidade” e “selecionar estratégias”. Além disso, percebe-se também a presença da Teoria da Comunicação, através do uso dos termos “mensagens” e “destinatários”, fato este que deixou exposta não a concepção de linguagem assumida inicialmente39, mas sim a que vê a língua como instrumento para comunicação. • Tratamento didático: Neste item, os PCN (2001: p. 125) propõem que as atividades pedagógicas realizadas em sala sejam conduzidas de modo que, ao final do 2º Ciclo, os alunos possam: (...) utilizar autonomamente estratégias de leitura — decifrar, antecipar, inferir e verificar — e coordenar, mesmo que com ajuda, os diferentes papéis que precisam assumir ao produzir um texto: planejar, redigir rascunhos, revisar e cuidar da apresentação. Isto nos remete, novamente, à presença marcante dos modelos cognitivos de leitura, para os quais a língua é vista como um código (Teoria da Comunicação), sendo que o processo de interpretação depende, principalmente, da utilização de esquemas mentais acionados através da mobilização de estratégias cognitivas (comparar, inferir, antecipar, confirmar, etc.). Esse trecho ocasiona mais um ponto de conflito no 37 Ênfase adicionada. 38 Ênfase adicionada. 39 A língua é um sistema de signos histórico e social que possibilita ao homem significar o mundo e a realidade. Assim, aprendê-la é aprender não só as palavras, mas também os seus significados culturais e, com eles, os modos pelos quais as pessoas do seu meio social entendem e interpretam a realidade e a si mesmas (PCN, 2001: p. 24). 58 texto dos PCN, reforçando a contradição entre a concepção de língua declarada e a que, concretamente, se efetiva ao longo do documento. • Conteúdos gerais do ciclo (PCN, 2001: p. 126): Com o objetivo de subsidiar nossa análise e considerando a importância desse item na organização da práxis pedagógica, retomaremos o conceito de conteúdo que, anteriormente, estava associado exclusivamente às Áreas do Conhecimento, priorizando os aspectos cognitivos. Nos dias atuais, com o desenvolvimento das teorias educacionais, essa concepção foi ampliada, conforme esclarece Zabala (1998: p. 30): Devemos nos desprender desta leitura restrita do termo “conteúdo” e entendê-lo como tudo quanto se tem que aprender para alcançar determinados objetivos que não apenas abrangem as capacidades cognitivas, como também incluem as demais capacidades. Deste modo, os conteúdos de aprendizagem não se reduzem unicamente às contribuições das disciplinas e matérias tradicionais. Portanto, também serão conteúdos de aprendizagem todos aqueles que possibilitem o desenvolvimento das capacidades motoras, afetivas, de relação interpessoal e de inserção social. Assim, diante da complexidade dos fenômenos que envolvem o processo de classificação e seleção dos conteúdos, Coll40 (1986), ancorado na abordagem construtivista, propõe os seguintes agrupamentos: • Conteúdos factuais: são aqueles que se referem a conhecimento de fatos, acontecimentos, situações e dados concretos e singulares: a localização ou a altura de uma montanha, os nomes dos rios que compõem uma determinada bacia hidrográfica, datas e nomes de acontecimentos históricos, etc. 40 Lembramos, ainda, que Cesar Coll, psicólogo espanhol, orientou a reforma educacional na Espanha e atuou como consultor na elaboração dos Parâmetros Curriculares Nacionais. 59 • Conteúdos conceituais41: destinam-se à aprendizagem de conceitos e princípios, porém não se trata apenas de repetir definições e sim de saber utilizar o conhecimento construído para a interpretação, compreensão ou exposição de um fenômeno ou situação. Uma das características dos conteúdos conceituais é que a aprendizagem não pode ser considerada acabada, já que sempre existe a possibilidade de ampliar ou aprofundar o conhecimento, de fazê-lo mais significativo. • Conteúdos atitudinais: abarcam uma série de conteúdos que por sua vez podemos agrupar em valores, atitudes e normas. De modo geral, a aprendizagem desses conteúdos supõe um conhecimento e uma reflexão sobre os possíveis modelos, o que implica na análise dos fatores positivos e negativos, na tomada de posição e avaliação da própria situação em discussão na sala de aula. • Conteúdos procedimentais: incluem, entre outras coisas, as regras, técnicas, os métodos, as habilidades, as estratégias, os procedimentos, ou seja, um conjunto de ações dirigidas para a realização de um determinado objetivo. São conteúdos procedimentais: ler, desenhar, observar, calcular, recortar, inferir, etc. Assim, segundo Zabala (1998: p.44), as estratégias de leitura podem ser classificadas neste grupo. Ao analisarmos a classificação acima, percebemos, novamente, a influência de Coll e do Construtivismo na forma como os conteúdos foram agrupados na área de Língua Portuguesa. Logo abaixo, selecionamos os que se referem ao ensino de leitura: 41 Embora isso não esteja explicitado no texto dos PCN, podemos inferir que os gêneros discursivos estivessem mais próximos do que se estabelece como conteúdos conceituais. Todavia, devido aos problemas teóricos subjacentes à questão, entendemos porque os autores do documento optaram pela não inclusão do gênero em uma das categorias propostas por Cesar Coll. 60 Conteúdos gerais do ciclo: Valores, Normas e Atitudes • • • • • • • • Valorização da leitura como fonte de fruição estética e entretenimento. Interesse, iniciativa e autonomia para ler, especialmente textos literários e informativos. Interesse por compartilhar opiniões, idéias e preferências sobre leituras realizadas. Interesse em tomar emprestados livros do acervo da classe e da biblioteca escolar. Manuseio cuidadoso de livros e demais materiais escritos. Interesse no uso e conhecimento das regras de utilização de bibliotecas, centros de documentação e redes de informação. Sensibilidade para reconhecer e capacidade de questionar, com ajuda do professor, conteúdos discriminatórios, veiculados por intermédio da linguagem. Atitude crítica diante de textos persuasivos dos quais é destinatário direto ou indireto. Os conteúdos gerais são iguais para os dois ciclos e, como sugere o título em destaque, temos apenas uma lista de conteúdos atitudinais, em detrimento dos conceituais e procedimentais, os quais poderiam estar mais relacionados ao trabalho com as capacidades de leitura. Diante disso, ao refletirmos sobre a organização dos diferentes conteúdos nas escolas públicas ou privadas, percebemos diferenças nos tipos de conteúdos a serem privilegiados, conforme os níveis e modalidades de ensino a que se destinam. Todavia, acreditamos que o equilíbrio na distribuição seria mais adequado, visto que o conhecimento não é construído de forma fragmentada e que há uma relação de interdependência entre os diferentes tipos de conteúdo; além de que, de acordo com a faixa etária, as necessidades e interesses dos alunos se modificam. Esse fato se repete na escolha dos gêneros discursivos sugeridos nos PCN42 e que são, basicamente, os mesmos para os dois ciclos, sem considerar a complexidade natural que o trabalho didático deve assumir a cada ano de escolarização. Isso nos 42 No texto dos PCN (1º e 2º Ciclos) os termos gênero discursivo e diversidade textual são utilizados como equivalentes, fato este que além das implicações teóricas já comentadas, pode provocar confusões e interpretações equivocadas por parte dos professores. 61 leva a deduzir que, talvez, os gêneros sejam considerados como conteúdo conceitual, mas não há como confirmar essa inferência, pois isso também poderia gerar outros problemas de ordem teórica, afinal o documento não traz marcas lingüísticas que possam confirmar essa análise. Assim, constata-se a dificuldade em manter a coerência teórica na utilização do termo gênero discursivo, conforme podemos comprovar neste exemplo transcrito da página 108: Posteriormente, sob o título “Gêneros discursivos”, em coerência com o princípio didático que prevê a organização das situações de aprendizagem a partir da diversidade textual43, estão especificados gêneros adequados para o trabalho com a linguagem oral e com a linguagem escrita. • Conteúdos específicos para a prática de leitura no 2º Ciclo (PCN, 2001: p. 130): • • • • • • • • • • • 43 Atribuição de sentido, coordenando texto e contexto. Utilização de indicadores para fazer antecipações e inferências em relação ao conteúdo (tipo de portador, características gráficas, conhecimento do gênero ou do estilo do autor, etc.) e à intencionalidade. Emprego dos dados obtidos por intermédio da leitura para confirmação ou retificação das suposições de sentido feitas anteriormente. Uso de recursos variados para resolver dúvidas na leitura: seguir lendo em busca de informação esclarecedora, deduzir do contexto, consultar dicionário, etc. Utilização de diferentes modalidades de leitura adequadas a diferentes objetivos: ler para revisar, para obter informação rápida, etc. Uso de acervos e bibliotecas: Busca de informações e consulta a fontes de diferentes tipos (jornais, revistas, enciclopédias, etc.), com orientação do professor; Leitura de livros na classe, na biblioteca e empréstimo de livros para leitura em casa; Socialização das experiências de leitura; Rastreamento da obra de escritores preferidos; Formação de critérios para selecionar leituras e desenvolvimento de padrões de gosto pessoal. Ênfase adicionada. Lembramos que o termo diversidade textual está embasado no trabalho de Geraldi (1984), em seu livro “O texto na sala de aula”. 62 Quanto aos conteúdos específicos, percebemos um equilíbrio maior entre os procedimentais (estratégias de leitura) e os atitudinais (uso de acervos e bibliotecas). Entretanto, ressaltamos que, ao enfatizar o ensino das capacidades de compreensão (estratégias de leitura), os PCN deixam de lado as capacidades de apreciação e réplica (interpretação e interação), as quais são primordiais para a formação do leitor proficiente e devem ser trabalhadas em conjunto com as demais. Talvez um dos motivos para a existência desta lacuna seja o fato de que, quando os PCN foram elaborados, os estudos sobre as capacidades de leitura ainda estavam incipientes. No entanto, nos últimos anos, o crescente interesse pelo processo de leitura está ampliando este campo de estudo e aumentando as possibilidades de pesquisa. • Critérios para avaliação no 2º Ciclo (PCN, 2001: p. 134-135): • Demonstrar compreensão de textos ouvidos por meio de resumo das idéias Espera-se que o aluno realize, oralmente ou por escrito, resumos de textos ouvidos, de forma que sejam preservadas as idéias principais. • Coordenar estratégias de decodificação com as de antecipação, inferência e verificação, utilizando procedimentos simples para resolver dúvidas na compreensão. Espera-se que o aluno, ao realizar uma leitura, não se limite à decodificação: que utilize coordenadamente procedimentos necessários para a compreensão do texto. Assim, se ele antecipou ou inferiu uma informação, é necessário que busque no texto, pela decodificação, por exemplo, pistas que confirmem ou não a antecipação ou a inferência realizada; • Utilizar a leitura para alcançar diferentes objetivos: ler para estudar, ler para revisar, ler para escrever. Espera-se que o aluno seja capaz de ajustar sua leitura a diferentes objetivos utilizando os procedimentos adequados a cada situação. 63 Como podemos ver, há apenas três tópicos que se referem, mais especificamente, ao processo de ensino-aprendizagem de leitura, sendo que a ênfase dada aos modelos cognitivos de leitura é mantida durante todo o texto dos PCN. Apenas desejamos destacar outras “lacunas”, considerando que os estudos acerca do modelo de leitura de viés bakhtiniano estavam em fase inicial, na época em que os PCN foram elaborados, verificamos que o processo de compreensão ativa44 não aparece de modo consistente no referido documento; no último item, os objetivos elencados para a prática de leitura relacionam-se, exclusivamente, a situações escolares, desconsiderando os que se referem ao cotidiano do aluno. No bojo dessa assertiva, temos outro aspecto que está em desacordo com a concepção de linguagem assumida: se a linguagem é vista como prática social, histórica e culturalmente situada, as situações de aprendizagem devem avançar para além das práticas de leitura e escrita específicas do ambiente escolar. Logo, se concentrarmos a avaliação apenas nesses aspectos, o tipo de ensino ministrado pouco contribuirá para o uso efetivo da leitura em outras práticas de letramento. 2.2 A Escola Sarã45 Em 1993, a Secretaria Municipal de Educação de Cuiabá (SME), através de convênio estabelecido com a Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), deu início ao Projeto de Reorganização Curricular das Escolas da Rede Municipal, mobilizando as unidades escolares para a discussão de uma proposta curricular que atendesse às necessidades da comunidade. A parceria com a UFMT resultou na realização de vários cursos, encontros e seminários, nos quais foram tratados temas 44 O termo compreensão ativa é utilizado somente uma vez nos PCN (1º e 2º Ciclos), todavia não com o mesmo sentido proposto por Bakhtin, visto que ao longo do texto esse termo se equivale a recepção e escuta ativa. 45 Denominação atribuída à escola ciclada da rede municipal de ensino de Cuiabá: sarã é o nome de uma vegetação típica da margem do rio Cuiabá. 64 relacionados às concepções teóricas de Educação, Currículo e Áreas do Conhecimento. Nesse contexto, como produto das discussões e estudos realizados, a rede municipal optou pela construção de uma proposta curricular fundamentada na Pedagogia Crítica46 e organizada por Temas Geradores47, conforme poderemos verificar nos Referenciais da Escola Sarã (1999: p.14): Todo esse processo gerou mudanças e reformulações no fazer pedagógico, tais como: a diminuição gradual dos sistemas tradicionais de avaliação, a ruptura com os conteúdos fragmentados ideologizados e sua substituição por conteúdos práticos, pautados em uma realidade social, cultural e política que emergem dos saberes que os educandos já possuem. Essas mudanças contribuíram para que as escolas repensassem sua forma de organização: qual seria o sistema mais adequado – Seriado ou Ciclado? Assim, até para manter a coerência teórica com os pressupostos da Pedagogia Crítica, seria natural a opção pelos Ciclos de Formação (Escola Sarã, 1999: p.15):48 Garantir a aprendizagem passa a ser a meta fundamental quando pensamos em uma sociedade sem exclusão. Nessa perspectiva, a escola por ciclos está sendo pensada, buscando dar uma nova organização aos tempos e espaços para aprender, tornando-se um instrumento necessário e fundamental na construção de uma sociedade crítica, justa e solidária. A SME/ Cuiabá, em 1997, criou uma comissão, composta por técnicos da Secretaria e representantes das escolas municipais, com o objetivo de pesquisar e estudar propostas de outros de outros municípios/ estados que já trabalhavam em sistema 46 Corrente teórica representada por Giroux e McLaren, comprometida com os interesses do sujeito das camadas economicamente desfavorecidas, na qual a escola se organiza como espaço de negação da dominação e não como simples instrumento para reproduzir a estrutura social vigente; 47 O currículo é organizado em temas geradores (fundamentado em Paulo Freire), os quais podem ser definidos como situações de desafio apresentados aos alunos sobre a realidade em que estão inseridos; geralmente é a análise de problemas nacionais ou regionais e, a partir desses temas, seriam selecionadas as “palavras geradoras”, sempre levando em consideração o nível maior de compromisso social, cultural e político dessas palavras visando sempre às mudanças. 48 Segundo Arroyo (1999), trabalhar com ciclos de formação é uma procura, nada fácil, de organizar o trabalho, os tempos e espaços, os saberes, as experiências de socialização da maneira mais respeitosa para com as temporalidades do desenvolvimento humano. 65 de Ciclos. Desse trabalho, surgiu o Projeto Saranzal, o qual, após a realização de fóruns e seminários com a participação de toda a comunidade escolar, deu origem à Escola Sarã, denominação escolhida pelos profissionais da educação à “sua” escola ciclada (1999: p. 16): As propostas de alterações enviadas pelas unidades escolares foram sistematizadas pela comissão do projeto e apresentadas para discussão e deliberação no Fórum Deliberativo do Projeto Saranzal, com a participação de delegados representantes de todos os segmentos das escolas, do SINTEP e do Colegiado de Diretores. Nesta oportunidade os pontos polêmicos foram debatidos e colocados em votação, sendo sistematizados no documento definitivo, denominado Escola Sarã. Nesse contexto, de 1993 a 1999, a rede municipal de Cuiabá passou por diversas mudanças que culminaram na opção pelos Ciclos de Formação. Esse também foi um período produtivo, pois, em 1999, a SME/ Cuiabá publicou o primeiro livro contendo as novas diretrizes político-pedagógicas do sistema municipal e, em 2000, foi feita outra edição do mesmo documento. Diante do exposto, a partir de 1999, a maioria das escolas municipais, gradativamente, foi aderindo aos Ciclos, os quais, até 2004, foram estruturados conforme quadro abaixo: Ciclo Etapas/ Idade 1º Ciclo 1ª etapa: 6 anos 2ª etapa: 7 anos 3ª etapa: 8 anos Infância 1ª etapa: 9 anos 2ª etapa: 10 anos 3ª etapa: 11anos Pré-adolescência 1ª etapa: 12 anos 2ª etapa: 13 anos 3ª etapa: 14 anos Adolescência 2º Ciclo 3º Ciclo Fase do Desenvolvimento Quanto à adesão ao citado sistema, ainda que o processo tivesse um caráter coletivo, destacamos que este, até 2007, não atingiu a totalidade das escolas municipais, a saber: 66 • De 1999 até os dias atuais: cerca de 06 unidades escolares permaneceram seriadas; • De 1999 a 2007: 05 unidades escolares cicladas, aproximadamente, optaram pelo retorno ao regime seriado, sendo que esta parece ser a tendência atual na rede municipal. • De 1999 a 2006: várias escolas funcionavam em regime “misto”, ou seja, possuíam 1º Ciclo completo, 2º Ciclo até a 2ª etapa (4ª série) e 5ª, 6ª, 7ª e 8ª séries. Outra possibilidade era: 1º e 2º Ciclos, completos, e 6ª, 7ª e 8ª séries. Em 2005, houve uma mudança na nomenclatura oficial, talvez com o objetivo de compatibilizá-la com a utilizada pelo Ministério da Educação: anos iniciais e anos finais. Portanto, todas as escolas municipais, independente do regime adotado (ciclado ou seriado), passaram a ter a seguinte estrutura: Anos Iniciais 1º ano: 6 anos 2º ano: 7 anos 3º ano: 8 anos 4º ano: 9 anos 5º ano: 10 anos Anos finais 6º ano: 11 anos 7º ano: 12 anos 8º ano: 13 anos 9º ano: 14 anos Como podemos constatar, talvez como reflexo do que está ocorrendo nas escolas, a nova organização proposta parece reforçar a intenção de retorno à seriação. Vejamos: nos Ciclos de Formação, a lógica da enturmação49 dos alunos é a fase do desenvolvimento cognitivo (Escola Sarã, p. 94) e na Seriação, o que prevalece é a separação entre os antigos “primário” e “ginásio”, ou seja, a 5ª série (atual 6º ano), que fazia parte do 2º Ciclo (3ª etapa), agora faz parte dos “anos finais”. A atual nomenclatura parece não ter sido totalmente assimilada pelas unidades escolares, já que provocou vários transtornos no processo de registro de matrícula dos alunos, por exemplo: estudantes que cursaram a 7ª série em 2004 foram matriculados no 9º ano em 2005, quando deveria ser assegurada a terminalidade no 49 Nome utilizado pela rede municipal para se referir ao processo pedagógico que organiza os alunos em grupos, considerando a faixa etária e a fase de desenvolvimento (infância, pré-adolescência e adolescência). 67 sistema de 8 anos, conforme prevê a legislação vigente; crianças que estavam na Educação Infantil em 2004, com a idade de 05 anos, foram matriculadas, em 2005, no 2º ano (sala para as crianças de 07 anos) - “pularam” o 1º ano, pois este, de modo equivocado, é associado à Pré-escola. Esses problemas geraram lacunas no histórico escolar50 dos alunos, pois não há como justificar o porquê de o aluno não haver cursado determinada série e, por isso, o citado documento não pode ser expedido sem que isso seja resolvido. Em outras palavras, a instituição estará impedida de expedir o documento de transferência do aluno, caso este o solicite. Segundo informações obtidas em conversas com alguns diretores de escolas municipais, a Secretaria ainda não conseguiu solucionar, definitivamente, essas questões e, à medida que surgem os casos, solicita-se ao Conselho Municipal de Educação de Cuiabá que auxilie a encontrar mecanismos legais para que os alunos não sejam prejudicados. Assim, desde 2006, a SME/Cuiabá e o Conselho Municipal de Educação estão atuando em parceria para regularizar a vida escolar dos alunos. No entanto, apesar do esforço que a atual gestão da Secretaria vem fazendo para reorganizar o sistema municipal, há ainda outro ponto de conflito - as matrizes curriculares51. Em 2006, a rede municipal chegou a trabalhar com cerca de 18 matrizes diferentes, nas quais criavam-se “novas” disciplinas, aparentemente, sem preocupação com a continuidade da proposta pedagógica a ser desenvolvida. Já em 2007, buscando respeitar as propostas educativas em andamento, houve uma tentativa, por parte da SME, de reestruturar as matrizes existentes, sintetizando-as em outros modelos mais adequados à legislação e ao sistema de ciclos. Por outro lado, para termos uma visão mais ampla da prática educativa efetivada nas escolas municipais, torna-se necessário, ainda, investigarmos o processo de 50 Documento oficial no qual são registradas as séries que o aluno já cursou ou está cursando, no caso de uma transferência de escola ou de conclusão de um nível de ensino. 51 Matriz curricular é o documento que sistematiza a forma de organização dos conteúdos escolares: por disciplina, área do conhecimento, ambiência, sala temática, etc., de acordo com o Projeto Político Pedagógico de cada escola e a legislação vigente. A cada ano letivo, as unidades escolares devem encaminhar a matriz para análise e aprovação da Secretaria de Educação. 68 formação continuada oferecido aos docentes52. Isto posto, de acordo com informações da Assessoria Pedagógica da SME/ Cuiabá, no início dos anos 90, os cursos de formação eram feitos com base em listas de conteúdos “mínimos” a serem trabalhados durante cada bimestre, sendo que na área de Linguagem já se falava sobre o texto como ponto de partida para o ensino de língua (diversidade textual). Já a partir de 93, as discussões sobre Tema Gerador e as idéias de Paulo Freire embasaram a prática docente nesse período, como tentativa de superar a fragmentação existente na rede. Assim, os cursos de formação (mesmo que pontuais) tratavam, prioritariamente, de temas como reorganização curricular, planejamento globalizado, gestão democrática e avaliação, os quais eram de interesse coletivo, visto que a rede municipal estava em fase de definição de suas diretrizes político-pedagógicas. Já na área de Linguagem, os cursos abordavam questões direcionadas à utilização da tipologia textual, porém, na prática em sala de aula, os textos eram utilizados apenas como recurso para a discussão dos temas geradores53. No período de 1998 a 2000, o amadurecimento das discussões sobre a política educacional da rede municipal resultou na iniciativa de se organizar as escolas por Ciclos de Aprendizagem. Assim, a Secretaria Municipal de Educação de Cuiabá implantou um novo programa de formação continuada, a fim de preparar os professores para atuar no Ciclo, envolvendo-os na elaboração dos novos referenciais curriculares. Nesse momento, foram realizadas “oficinas de formação” sobre as fases de desenvolvimento da criança, relatórios avaliativos, tema gerador, etc. Na área de Linguagem, discutia-se a função social da Língua Portuguesa, o trabalho com a diversidade textual e o modelo interativo de leitura, além disso, sob influência dos PCN, alguns cursos abordavam o processo de ensino-aprendizagem das habilidades lingüísticas, porém ainda de modo muito incipiente. 52 Pensamos ser pertinente esclarecemos que a pesquisadora também é funcionária da SME/ Cuiabá e, portanto, participou de todo o processo de formação descrito acima, atuando, inclusive, em alguns momentos, como ministrante dos cursos em questão. Portanto, parte do que foi relatado, constitui a própria sócio-história da pesquisadora que também passa a ser “fonte” de dados. 53 Os textos utilizados em sala eram selecionados de acordo com o tema gerador a ser estudado, servindo apenas como pretexto para o levantamento do conhecimento prévio do aluno acerca do tema em questão. 69 O ano de 2000 foi marcado pela entrada, no sistema municipal, de um grande número de docentes (aprovados no concurso público/ 99). Esse fato gerou uma nova demanda de formação continuada, pois os “novos professores” que desconheciam toda a caminhada histórica da rede somavam-se, então, aos que já estavam no processo, necessitando de auxílio para superar as dificuldades vivenciadas nos primeiros anos de implantação do Ciclo. Diante desse panorama, seria natural que a Secretaria Municipal de Educação de Cuiabá repensasse suas ações, programas e projetos, para enfrentar mais esse desafio, pois como afirmou Dalben (2004: p. 05), Os inúmeros vínculos estabelecidos em projetos de formação continuada são mediados por uma noção de conhecimento. Assim, aqueles que assumem a noção clássica de conhecimento estarão organizados segundo perspectivas bastante diferentes daqueles que tomam por base o paradigma do conhecimento como uma produção social, localizado e produzido na relação dos sujeitos com a construção da própria vida. Todavia, segundo informações da Assessoria/ SME, isso não ocorreu, pois, em 2001, após mudança de gestor na SME/ Cuiabá, os cursos de capacitação relacionados aos Ciclos deixaram de ser priorizados e a formação continuada dos professores voltou a ser realizada em grandes eventos ou através da implantação de programas e projetos isolados que atendiam a pequenos grupos de escolas. Portanto, podemos inferir que, a partir desse período, a rede municipal de Cuiabá começou a perder sua característica de sistema com uma proposta educacional coletivamente construída. As escolas foram, então, divididas em 03 grupos: 1. As que aderiram à proposta do Secretário de Educação para se organizarem em Ambiências e/ou Salas Temáticas, trabalhando com a Pedagogia de Projetos (08 unidades): possuíam um consultor exclusivo para atendê-las e atuar na formação de seus professores, além, é claro, de investimentos financeiros na estrutura física do prédio escolar; 2. As que participavam do Programa de Gestão da Aprendizagem Escolar/ Gestar/ FNDE (07 unidades): durante 02 anos e seis meses, os professores dessas escolas participaram de oficinas pedagógicas nas áreas de Língua 70 Portuguesa, Matemática e Psicopedagogia e eram acompanhados semanalmente pela equipe do citado programa. A escola municipal escolhida como locus dessa pesquisa fez parte desse grupo, sendo este um dos motivos pelos quais a selecionamos para a realização desse estudo. 3. As demais escolas cicladas e/ou seriadas que não recebiam orientação pedagógica específica (87 unidades): participavam apenas da formação realizada através dos “grandes eventos”, palestras ocasionais ou de alguns dos projetos de atividades sócio-educativas. Talvez isso possa explicar a diversidade de matrizes curriculares existentes na rede em 2007, visto que, de 2001 a 2004, as prioridades da SME parecem ter se modificado e as diretrizes político-pedagógicas elaboradas para dar suporte aos ciclos, juntamente com os programas de formação em andamento, foram parcialmente “esquecidos”. Assim, aqueles problemas detectados no período de implantação dos Ciclos de Aprendizagem foram se agravando gradativamente, culminando na problemática que descrevemos inicialmente: escolas fragmentadas e sem um eixo político pedagógico consistente. Por conta disso, aos poucos, o retorno ao regime seriado está voltando à pauta na maioria das reuniões promovidas pelo sindicato que representa a classe. Essa breve contextualização contribuirá para entendermos as causas que levaram à descontinuidade, tanto no trabalho desenvolvido nas escolas, como nos programas de formação continuada implantados, tornando compreensível o fato de que os cursos oferecidos pela SME/ Cuiabá, na área de Língua Portuguesa, não tenham acompanhado os estudos desenvolvidos pelas ciências da linguagem, ficando restritos a temas como diversidade textual e modelo interativo de leitura. Isto posto, como seria previsível, os Referenciais Curriculares de Escola Sarã54, elaborados em 1999, também apresentam alguns conflitos teóricos semelhantes aos dos PCN de Língua Portuguesa (1º e 2º Ciclos). Todavia, os que aparecem no documento da rede municipal parecem mais contundentes, como por exemplo, ao 54 Em 2000, foi publicada uma nova edição das diretrizes educacionais do município de Cuiabá, o livro intitulado: Escola Sarã – Cuiabá nos ciclos de formação. Entretanto, como se tratou de uma “quase” paráfrase da 1ª edição e devido à densidade dos problemas de ordem teórica e até mesmo gramatical existentes no documento, optamos por centrar nossa análise na edição de 1999, inclusive por ser esta a mais utilizada pelas escolas municipais até o ano de 2004. 71 mesmo tempo em que afirmam ter considerado os PCN na produção dos referenciais, acabam por subvertê-los, visto que fazem opção pela organização curricular através de Temas Geradores. O texto introdutório da área de Língua Portuguesa aborda a evolução dos estudos lingüísticos, mas de forma bem superficial, sem explicitar sua afiliação teórica. Em outras palavras, não aparecem marcas lingüísticas de posicionamento do autor, sendo que, apenas no último parágrafo, podemos inferir que há uma preferência pela concepção sócio-interacionista de linguagem. Vejamos o trecho abaixo (Escola Sarã, 1999: p.55): É fundamental colocarmos em foco a discussão sobre a linguagem como atividade constituidora dos sujeitos e por eles constituída. O ser humano se faz, historicamente, através da linguagem. As perspectivas de ampliação de suas possibilidades, nesta área, estão intrinsecamente ligadas à educação, no sentido amplo, cabendo à escola parte substancial no desenvolvimento desse processo, que é permanente. Na seqüência, foram elencadas algumas “habilidades” 55 que deveriam ser trabalhadas em cada ciclo e, nesse momento, percebe-se a quebra na coerência entre a concepção de linguagem supostamente assumida e as habilidades propostas: verificamos várias alusões ao termo tipo e tipologia, sendo que a palavra gênero foi utilizada apenas 02 vezes, porém em sua acepção mais clássica. Como exemplo, citaremos alguns trechos nos quais essa contradição se torna mais visível: • 1º Ciclo: Conhecer as diferentes tipologias textuais de acordo com seu nível de desenvolvimento (sic), (p. 56); • 2º Ciclo: Localizar e retirar informações de diversos tipos de texto (p. 57); produzir diferentes tipos de texto (p.58); 55 O conceito de habilidade adotado na rede municipal está embasado em Perrenoud (1999) – saber fazer algo específico, em uma determinada situação concreta. Entretanto, ao analisarmos o documento, verificamos que, em muitas vezes, o que foi registrado como habilidade, na realidade, trata-se de objetivo educacional. Acreditamos que, à época da elaboração dos Referenciais Curriculares, a abordagem de competências/ habilidades ainda não tinha sido amplamente discutida na rede, tanto que o citado documento possui as mais variadas influências teóricas. Até o atual momento, como podemos verificar no Dossiê Acadêmico, ainda persiste a confusão entre habilidade e objetivo, sendo que ambos são, freqüentemente, utilizados como sinônimos. 72 • 3º Ciclo: Ler diferentes gêneros, tanto do universo cotidiano quanto do específico (técnico, científico e literatura), (p. 58); Quanto à prática de leitura, constatamos a existência de apenas dois itens que poderíamos relacionar à leitura, sendo que a palavra compreensão aparece apenas uma vez no 1º e no 3º Ciclos; outro fator relevante é que alguns desses itens foram “parafraseados” dos PCN/ Língua Portuguesa/ 1º e 2º Ciclos. Vejamos os exemplos abaixo: • 1º Ciclo: 1. Relacionar o texto com o contexto: compreensão e interpretação (p. 56); Nos PCN (p.114) temos: Atribuição de sentido, coordenando texto e contexto – com ajuda; 2. Emitir opiniões a partir do texto lido, ampliando seus conhecimentos (p.57); Lembramos que este objetivo se repete no 2º Ciclo, visando mais o exercício da oralidade que o processo de compreensão ativa; • 2º Ciclo: 1. Localizar e retirar informações de diversos tipos de texto (p. 57). – Dentre todas as capacidades leitoras, apenas este aspecto foi privilegiado, ainda que de forma isolada e sem uma finalidade concreta; • 3º Ciclo: 1. Ler diferentes gêneros, tanto do universo cotidiano quanto do específico (técnico, científico e literatura) (p. 58); 2. Realizar compreensão global de um texto, fazendo comparações com o mundo que o cerca (p. 58); Nos PCN (p.120) aparece: Demonstrar compreensão do sentido global de textos lidos em voz alta. 73 Diante do exposto, podemos notar a dificuldade, por parte da Secretaria de Educação, de realizar uma reflexão teórica mais profunda sobre o conteúdo dos PCN/ Língua Portuguesa. Além disso, houve uma “mistura desorganizada” dos modelos cognitivos de leitura (ascendente ou bottom-up e descendente ou topdown), já que as estratégias de leitura e as capacidades leitoras não são citadas explicitamente nos referenciais curriculares e apenas uma ou outra aparece de modo indireto e descontextualizado, sendo também abordadas de modo incipiente e superficial. Percebe-se, também, que alguns termos específicos da área de Língua Portuguesa carecem de aprofundamento teórico: gênero e tipologia, compreensão e interpretação, etc. Uma concepção de currículo em espiral, como era a proposta do município, pressupõe que deve haver uma gradação no nível de complexidade das habilidades lingüísticas, considerando também as relações existentes entre estas, em cada ciclo, e a prática social. Entretanto, tem-se a impressão de que as “habilidades” elencadas não se relacionam à prática social e parecem ter um fim em si mesmas. Sabemos que diferentes instituições participaram da elaboração do documento (UFMT, UNIC, SME/ Cuiabá e SINTEP56), portanto o texto apresenta indícios das tensões políticas que permearam esse processo, o que poderia justificar a variedade de aportes teóricos utilizados na fundamentação das diretrizes. Nesse sentido, partindo de um olhar bakhtiniano, podemos perceber a ação de forças conflitantes ao tentarmos agrupar essa diversidade teórica 57, por exemplo: 1. Ao se fundamentar na Pedagogia Crítica e no trabalho com Temas Geradores, a proposta se aproxima da concepção de Letramento Crítico e de uma política educacional voltada para as camadas populares, para a intervenção e transformação da realidade; o que já direcionaria para a concepção do currículo em espiral e para uma visão sócio-interacionista de educação. Logo, parece haver o desejo de implementar uma política educacional engajada com os ideais de mudança social. 56 As siglas significam, respectivamente: Universidade Federal de Mato Grosso; Universidade de Cuiabá; Secretaria Municipal de Educação e Sindicato dos Trabalhadores do Ensino Público. 57 Faremos apenas uma análise superficial, pois essa questão requer uma discussão mais aprofundada das teorias da Educação, o que nos distanciaria do foco da pesquisa. 74 2. Por outro lado, a opção pela organização em Ciclos de Formação foi justificada apenas com base nas teorias de desenvolvimento humano, através de um referencial teórico centrado em diversos autores da Psicologia (Piaget, Wallon, Feizi, Vygotsky) 58. Desse modo, o texto não traz registros que relacionem estas concepções à proposta de organização do tempo curricular59 em sua interface com o tema gerador. Isso contribuiu para que fossem retomados alguns pressupostos construtivistas que, associados à visão de competência enquanto processo cognitivo e individual, provocaram um movimento contrário ao anterior e que, implicitamente, enfatizam o modelo autônomo de letramento. Diante do exposto, podemos concluir que, embora os objetivos educacionais apontem para a construção do leitor proficiente, são as práticas pedagógicas inerentes ao letramento escolar que, geralmente, prevalecem e predominam no sistema de ensino. Essas discussões demonstram a importância da existência de programas de formação continuada para a consolidação das políticas públicas. No entanto, quanto à rede municipal, percebe-se que, mesmo no período em que havia um programa instituído (1997 a 2000), as discussões teóricas sobre a área de Linguagem continuavam reduzidas a aspectos da estrutura textual, resultantes de uma visão dicotômica de linguagem, na qual não há imbricamento entre os processos de leitura e escrita. Esses problemas parecem ter se agravado com o tempo, devido à descontinuidade das políticas públicas implantadas na rede municipal. Esses fatos, aliados à falta de um programa de formação articulado com as necessidades das escolas municipais, provocaram um “corte” no processo de avanço das práticas pedagógicas desenvolvidas na rede municipal e, por isso, concordamos com Figueiredo (2005: p. 190): Assim, onde se esperava a continuidade de projetos que pudessem levar a uma verdadeira transformação da escola, encontramos o continuísmo. A cada interrupção e retomada de 58 59 O texto da Escola Sarã traz uma diversidade de aportes teóricos, muitas vezes conflitantes. Conceito importantíssimo em uma organização por ciclos, pois permite maior interação entre envolvidos no ato educativo, favorecendo a participação em atividades coletivas e respeitando os diferentes ritmos de aprendizagem. 75 forma descontinuada, é como se o passado – sobre o qual atuamos no presente e construímos o futuro – fosse negado. Assim, é a desconsideração do passado que leva à estagnação. Diante disso, iniciou-se o processo de fragmentação na rede municipal e, ao fazermos uma análise situacional do problema, podemos levantar a seguinte hipótese: desconsiderar os programas de formação em andamento parece ser uma prática comum dos governantes em início de mandato, assim como ignorar as necessidades demandadas pelo grupo docente, dando vazão a projetos individuais, fato este que pode provocar o desinteresse dos profissionais da educação quanto à implementação de mudanças na prática pedagógica. Além disso, a desarticulação entre as políticas públicas e as necessidades elencadas pelas unidades de ensino acabam gerando, da mesma forma, uma indiferença por parte dos docentes. Estas constatações nos levam a pensar que, talvez, não haja desejo real (por parte de alguns gestores) de transformações no setor educacional, pois a cada mudança de governo, todo o processo de construção já iniciado é, geralmente, descartado e/ou ignorado. Isso traz sérias conseqüências, principalmente ao setor educacional, das quais citaremos apenas uma: com o passar do tempo, os professores se “acostumam” a essa dinâmica e se tornam indiferentes a qualquer proposta de mudança, portanto, preferem não se envolver, efetivamente, nas discussões acerca de “novas” práticas pedagógicas. Grande parte dos profissionais que atuam na formação de professores já ouviu a seguinte frase: “Não vamos nos preocupar em entender isso, quando acabar essa gestão, vai mudar tudo de novo”; por isso, acreditamos que é imprescindível distinguirmos “política pública – que nasce do engajamento legítimo dos cidadãos com as transformações sociais –, de política de governo ou de gestão” (Figueiredo, 2005: p.190). O caso do município de Cuiabá parece ilustrar muito bem esta questão, pois, atualmente, a rede está de volta ao ponto de partida, tentando se reorganizar para retomar a caminhada. Portanto, acreditamos que esse é o momento ideal para reavaliar e repensar a organização do sistema. 76 De acordo com informações da unidade escolar pesquisada, em 2005, a SME implementou algumas medidas para se reestruturar, como por exemplo, a definição de parâmetros avaliativos comuns para todas as unidades escolares, através da criação do “Dossiê Acadêmico do Aluno”, instrumento utilizado para registro avaliativo das competências construídas pelos discentes durante os Ciclos de Formação. Todavia, antes de resolver algumas questões primordiais, como a necessidade de redefinir as diretrizes político-pedagógicas expressas no documento da Escola Sarã, com a adoção do citado dossiê, a SME/ Cuiabá acabou criando outro problema. Até 2005, a formação continuada60 oferecida aos professores não discutia a Abordagem de Competências61, sua didatização e implicações para a prática educativa desenvolvida nas áreas do conhecimento. Esse fato se reflete na própria elaboração do conteúdo do Dossiê, documento que, na prática, passou a substituir os Referenciais Curriculares da Escola Sarã. 2.2.1. Surge um novo registro avaliativo na rede municipal de Cuiabá: o “Dossiê Acadêmico” O Dossiê Acadêmico é composto por várias matrizes de “competências e habilidades” 62 , organizadas em Áreas do Conhecimento e divididas em ciclos, sendo que as habilidades elencadas deverão ser trabalhadas pelos professores ao longo do triênio, logo, torna-se imprescindível refletirmos sobre o citado documento. No entanto, focalizaremos apenas os pressupostos teóricos relacionados ao processo de ensino-aprendizagem de leitura: 60 Na realidade, foram apenas duas palestras sobre esse tema, proferidas por Celso Antunes, teórico da área educacional, ambas insuficientes quanto ao fornecimento de subsídios para a transposição didática e, segundo alguns diretores de escolas municipais, o conteúdo abordado foi o mesmo, nos dois eventos. 61 Também denominada de Pedagogia de Competências, esta abordagem ainda provoca muitas discordâncias na esfera acadêmica. E, para maiores detalhes acerca de sua organização e pressupostos, recomendamos a leitura de autores como Perrenoud, (1998) e Lucie Tanguy (1997). 62 Como já foi dito anteriormente, parecia haver um grande desejo de mudança na rede municipal, por isso a mesma se apropriou dos discursos que circulavam na esfera educacional, mesclando-os em suas propostas pedagógicas: abordagem de competências, tema gerador, metodologia de projetos, etc. Isso resultou na união de teorias, por vezes contraditórias, provocando sérios problemas. 77 • 1º Ciclo: 1. Ler pequenos textos destacando o que entendeu; 2. Valorizar a leitura como fonte de fruição estética e entretenimento. Já nos PCN (p. 110) aparece: Valorização da leitura como fonte de fruição estética e entretenimento. • 2º Ciclo: 1. Identificar as informações relevantes em diferentes tipos de texto; 2. Relatar oralmente fatos de textos lidos e ouvidos; 3. Expressar a compreensão de uma história lida e/ou ouvida; 4. Trocar impressões e informações com outros leitores a respeito de temas diversos; 5. Ler diferentes gêneros textuais (compreensão/ paráfrase – interpretação/ polissemia); 6. Ler e oralizar o texto; • 3º Ciclo: 1. Parafrasear idéias explícitas de um texto e explicar idéias implícitas; 2. Reproduzir e transmitir com fidelidade diferentes tipos de mensagens: ouvidas, lidas, transmitidas por vários meios de comunicação; Como podemos verificar, os avanços foram pouco significativos (o 2º Ciclo passou a ter uma quantidade maior de objetivos relacionados à leitura) e ainda persistem os problemas teóricos. Quanto ao processo de ensino-aprendizagem de leitura, temos agora uma maior ênfase no modelo cognitivo/ bottom-up, ou seja, a leitura é considerada como um processo de decodificação, cabendo ao leitor realizar a apreensão do significado literal do texto escrito. Esta constatação não nos causou estranhamento, pois se formos pesquisar os métodos de alfabetização utilizados na rede municipal, veremos a predominância 78 dos sintéticos (soletração e silabação), os quais estão embasados nestes pressupostos. Destacamos, ainda, que uma das conseqüências do trabalho com os citados métodos é que, geralmente, o aluno leva muito tempo tentando decodificar as letras em fonemas, assim, quando chega ao final da leitura, não consegue compreender o sentido da frase ou do texto que acabou de ler. Diante dessas reflexões, ao compararmos este documento com os Referenciais Curriculares/ Ciclos de Formação, nos quais aparecia, ainda que de maneira “tímida”, uma certa preocupação com o contexto na atribuição de sentido ao texto, veremos que isso não apareceu, nem de modo implícito, no referido dossiê. Os indicadores avaliativos se restringem a aspectos superficiais de algumas das capacidades leitoras, chegando mesmo a possuir problemas de coesão (ou coerência?). Exemplo: Ler e oralizar o texto; a que “tipo” de leitura essa “habilidade” se refere? Saber ler em voz alta e com entonação? Inferimos que, talvez isso seja reflexo da concepção de leitura enquanto “oralização” do texto escrito. Quanto ao 3º Ciclo, temos a impressão de que, para demonstrar compreensão do que leu, o aluno deverá apenas repetir (parafrasear) o texto ou, ainda, reproduzir com fidelidade a mensagem lida/ ouvida, transformando-se em “ventríloquo” do professor e dos autores, assim como ocorreu nos PCN e, por isso, concordamos com Rojo (2001: p. 253): Em suma, quando o texto está empiricamente presente em sala de aula e é objeto de leitura por parte dos alunos e professores, é desta leitura plana, descontextualizada, unívoca, monofônica, tão comum nas práticas de leitura escolares – em Língua Portuguesa, mas também em outras áreas do conhecimento – que se trata. Leituras de localização e de “copiação” (Marcuschi, 1996) da informação, para efeitos de controle escolar, em vez de réplica ativa e crítica da significação, que seria de se desejar no letramento cidadão. Ler é, aqui, localizar e repetir informação, julgada relevante pela instituição para controle dos sentidos, de maneira monofônica, monológica, impositiva, controladora e inflexível (Signorini, 1995). Ler é reconhecer e aceitar acriticamente a significação do autor (ou do leitor, autorizado – o professor), na melhor tradição da palavra autoritária (Bakhtin, 1935-35/ 1988). 79 Assim, diante desse modelo de letramento escolar, ressaltamos que a formação continuada em serviço é peça fundamental para a melhoria da qualidade do ensino em qualquer área do conhecimento e, para que ela efetivamente aconteça, necessitamos de programas de formação que se articulem com as propostas pedagógicas das escolas, oferecendo possibilidades de respostas aos anseios da comunidade escolar. Estes programas deveriam considerar, também, o processo sócio-histórico de constituição de cada rede (municipal ou estadual), possibilitando aos envolvidos a construção da autonomia, que se refletirá na valorização da função docente e na criação de espaços para o estabelecimento de compromissos com as ações educativas planejadas e discutidas coletivamente. Diante do exposto, acreditamos que o simples acúmulo de palestras, seminários, cursos, etc., não garante a transposição didática dos conhecimentos e técnicas adquiridas para a realidade da sala de aula. Por isso, os programas de formação continuada devem ser compostos, também, por mecanismos de acompanhamento e avaliação da prática docente dos cursistas, além, é claro, de estarem articulados com os Projetos Político-Pedagógicos das unidades escolares. Lembramos, ainda, que qualquer que seja o programa de formação continuada a ser implantado na rede municipal, este tem de estar em consonância com os Referenciais Curriculares vigentes e, conseqüentemente, os instrumentos elaborados para a sistematização dos registros avaliativos deveriam ser produto desse documento. Portanto, a reestruturação das diretrizes educacionais deve repercutir em um programa de formação, na área de Linguagem/ Língua Portuguesa, que contemple as seguintes questões: • Quais as contribuições das pesquisas lingüísticas mais atuais sobre o processo de ensino-aprendizagem de leitura e escrita? • Como o conceito de letramento pode afetar as ações pedagógicas desenvolvidas, principalmente nas séries/ etapas iniciais do Ensino Básico? • O que são gêneros discursivos? Como utilizá-los em sala de aula? • Como o trabalho com as capacidades de leitura e de escrita contribui para a construção da competência discursiva? 80 Destacamos, também, que, ao reavaliar a política educacional implantada e as ações desenvolvidas, os gestores das Secretarias de Educação devem ter em mente que, para formarmos cidadãos críticos e atuantes, é imperativo que cada elemento da prática educacional esteja articulado: desde as propostas de governo e os programas federais de formação docente, passando pelos conteúdos curriculares, até as posturas docentes em sala de aula. Sabemos que essa tarefa é muito complexa, pois depende de fatores políticos, sociais e econômicos. Contudo, ao criarmos espaços para que os docentes participem de discussões acerca de seu próprio fazer pedagógico, poderemos estimular o processo de reflexão, trazendo, assim, avanços concretos, tanto para a práxis desenvolvida em sala de aula, quanto para a construção, por parte dos alunos, de outros tipos de letramento. 81 Capítulo 3: Metodologia de Pesquisa Neste capítulo, abordaremos os fatores relacionados à metodologia adotada no desenvolvimento da pesquisa, quais sejam: a contextualização dos sujeitos, os instrumentos utilizados para a coleta de dados e a delimitação de categorias de análise, sendo que a interpretação dos dados se constituirá no tema do capítulo subseqüente. Assim, em consonância com os fundamentos teóricos que norteiam esse estudo (teorias enunciativo-discursiva de base bakhtiniana), optamos por realizar uma pesquisa de natureza qualitativa, partindo do percurso metodológico proposto por Bakhtin/ Volochinov (1929: p.129): 1. As formas e os tipos de interação verbal em ligação com as condições concretas em que se realiza. 2. As formas das distintas enunciações, dos atos de fala isolados, em ligação estreita com a interação de que constituem os elementos, isto é, as categorias de atos de fala na vida e na criação ideológica que se prestam a uma determinação pela interação verbal. 3. A partir daí, exame das formas da língua na sua interpretação lingüística habitual. Portanto, ao situarmos nosso olhar de pesquisador, imbricado na vertente bakhtiniana, esperamos que a análise documental, associada aos dados coletados, possa nos fornecer subsídios para respondermos às seguintes questões: • Qual a proposta da rede municipal para o ensino de leitura nos anos iniciais do Ensino Fundamental? • Como a concepção de ensino-aprendizagem de leitura expressa nos PCN de Língua Portuguesa (1º e 2º Ciclos) se reflete nos documentos oficiais da Secretaria Municipal de Educação de Cuiabá e no Projeto Políticopedagógico da escola pesquisada? • Quais são as capacidades de leitura construídas pelos discentes do 4º ano pesquisado? Qual o tipo de capacidade priorizada pela escola? 82 • Quais as relações existentes entre: as capacidades de leitura demonstradas pelos alunos e o letramento não escolar? • Qual a importância do professor no processo de formação do leitor crítico? Temos clareza de que a “amostragem” utilizada nessa pesquisa é pouco significativa em relação ao número de escolas municipais existentes em Cuiabá e que a ampliação de sujeitos nos permitiria compor um “retrato” mais fiel da rede municipal. No entanto, insistimos na relevância deste estudo, enquanto instrumento de reflexão sobre o ensino de leitura, visto que o locus da pesquisa parece representar a realidade de muitas outras unidades escolares pertencentes ao mesmo sistema, conforme o que demonstram as condições que iremos descrever. Desse modo, na busca de elementos que nos auxiliem a compreender melhor a situação atual da rede municipal, selecionamos a EMEB Filogônio Corrêa que, por ser uma das mais antigas, vivenciou todo o processo histórico relatado no capítulo anterior. Além disso, a escola participou, durante 02 anos e 06 meses, do Programa de Gestão da Aprendizagem Escolar63/ Gestar/ MEC, direcionado às séries iniciais e, a professora Marta64, um dos sujeitos da pesquisa, também freqüentou as oficinas pedagógicas realizadas nesse período. A seguir, contextualizaremos nossos sujeitos de pesquisa e detalharemos cada um destes instrumentos. 3.1 Metodologia de Coleta de Dados Considerando que a abordagem metodológica utilizada fundamenta-se na vertente enunciativo-discursiva (bakhtiniana), tanto os sujeitos, quanto o contexto e os fenômenos estudados, devem ser compreendidos em seus aspectos sóciohistóricos. Nesta perspectiva, a pesquisa em Ciências Humanas deve ser concebida 63 De 2002 a 2004, esse programa oferecia oficinas pedagógicas semanais de Língua Portuguesa e Matemática aos professores das séries iniciais. Na área de Linguagem, o material do curso enfatizava o trabalho com as capacidades de leitura e escrita a partir dos gêneros textuais. Há também outra versão do programa, destinada ao 3º e 4º Ciclos e que foi implantada apenas na rede estadual. 64 Nome fictício atribuído à professora pesquisada. 83 não como um simples ato de cognição por parte do pesquisador, mas como um processo dialógico, uma vez que o sujeito, objeto do conhecimento, sempre irá assumir uma atitude responsiva, podendo, inclusive, alterar o “rumo” da pesquisa. Nesse sentido, concordamos com Amorim (2001: p. 29): (...) O próprio fato de que todo objeto de pesquisa é um objeto construído e não imediatamente dado, já implica um trabalho de negociação com os graus de alteridade que podem suportar a pesquisa e o pesquisador. O desejo de alteridade enquanto motor da pesquisa em Ciências Humanas não é primário nem inanalisável. Assim, conforme já dissemos no capítulo 1, o dialogismo e a alteridade assumem papel de extrema importância na construção de sentido acerca do nosso objeto de estudo, pois permeiam todo o processo de coleta e análise dos dados. E, refletindo sobre esses pressupostos, nos remeteremos a Bakhtin (1952-1953/ 1979: p. 381): A palavra do outro deve transformar-se em minha-alheia (ou alheia-minha). (...) No processo da comunicação dialógica com o objeto, este se transforma em sujeito (o outro eu). Desse modo, em determinados momentos, a própria pesquisadora constituiu-se em fonte de pesquisa, principalmente no que se refere ao resgate do processo sóciohistórico da rede municipal de Cuiabá. Já em outros, as interações ocorridas durante a pesquisa de campo, acabaram por transformar as questões de pesquisa que foram traçadas inicialmente. Em síntese, no campo de pesquisa, o outro65 e o pesquisador se constituem dialogicamente através das relações estabelecidas durante as interações, fazendo com que os dados coletados neste contexto específico sejam representativos e significativos. Esses procedimentos, por sua vez, possibilitarão a compreensão tanto do objeto, quanto das relações interdiscursivas existentes na esfera em estudo. Todavia, sabemos que as relações de alteridade se instituem, diferentemente, de acordo com o lugar/ função que ocupamos, portanto, de certa forma, a diferença que 65 Devido à proximidade entre contexto estudado e a própria pesquisadora, ao longo deste trabalho o outro, em alguns momentos, deixa de ser a comunidade escolar analisada e passa a ser a Instituição/ SME e, assim, sucessivamente. 84 permeia o ato de pesquisa continuará existindo e transformará o sujeito em “outro”. Por isso, concordamos com Amorim (2001: p.31): Colocar esse sujeito no lugar de objeto de estudo instaura entre o sujeito cognoscente e o sujeito a conhecer uma relação de alteridade fundamental que emerge de uma diferença de lugar na construção do saber. O outro se torna estrangeiro pelo simples fato de eu pretender estudá-lo. Destacamos, ainda, que a abordagem metodológica adotada nos auxiliará a compreender, mais facilmente, as relações de poder que se instauram no ato dialógico, principalmente, a partir das funções sociais que os interlocutores ocupam, institucionalmente ou não, o que, muitas vezes, poderá expor elementos de assimetria existentes nas interações, transformando a linguagem em um “campo” natural de confronto ideológico, o que nos remete, novamente, a Amorim (2001: p.71): Se, de um lado, a boa percepção exige certa familiaridade, uma vez adquirida, é necessário empreender um movimento em sentido inverso para manter a exterioridade do objeto em relação ao sujeito. É importante que o equilíbrio se mantenha, pois se o sujeito se torna mais forte que o objeto, ele absorve o outro sem que este imprima suas marcas; se o objeto domina, é o sujeito que corre o risco de renunciar a seu próprio ser. Nesse aspecto, há, ainda, a questão da exotopia: o outro sempre será aquele que observa e analisa “de fora”, pois está em uma posição que só ele pode ocupar, entretanto, nas situações de interação face a face, temos uma contínua alternância nas relações entre o “eu e o outro”. Isso traz, para o processo de pesquisa, a diversidade de vozes que permeiam tanto o objeto a ser estudado, como cada experiência construída na relação com o outro. Ressaltamos, ainda, que, no caso específico desse trabalho, o exercício de dialogismo, de alteridade e de exotopia não foram tarefas fáceis66. No entanto, procuramos “dar voz” aos nossos sujeitos, deixando que os dados nos guiassem no 66 Lembramos ao leitor que a pesquisadora trabalhou durante 11 anos, como assessora pedagógica, na Secretaria Municipal de Educação. 85 processo de compreensão, pois concordamos com Bakhtin (1952-1953/ 1979: p.366): (...) A cultura do outro só se revela com plenitude e profundidade (mas não em toda a plenitude, porque virão outras culturas que a verão e compreenderão ainda mais) aos olhos de outra cultura. Um sentido só revela as suas profundidades encontrando-se e contactando com o outro, com o sentido do outro: entre eles começa uma espécie de diálogo que supera o fechamento e a unilateralidade desses sentidos, dessas culturas. Diante desses pressupostos e considerando que a relação inicial da pesquisadora com a escola se deu, primeiramente, em nível institucional67, optamos por organizar nossa inserção no locus de estudo, de modo gradativo e cuidadoso, a fim de não comprometer a coleta de dados. Conseqüentemente, como forma de “mapear” a realidade da unidade escolar, o trabalho de campo foi dividido em dois momentos: • 1º - contemplou a coleta e análise de alguns documentos, tais como: a) Diretrizes Político-Pedagógicas da Escola Sarã (referencial teórico que fundamenta o sistema de ensino da rede municipal de Cuiabá); b) O Dossiê Acadêmico do Aluno68 elaborado pela Secretaria de Educação; c) O Projeto Político Pedagógico (PPP) desenvolvido pela escola pesquisada; d) Os modelos de matrizes curriculares utilizados na rede municipal; e) O planejamento da professora pesquisada; f) Relatórios de observação direta69 em sala de aula de alunos do 3º ano do curso de Pedagogia/ UFMT. 67 No período de 2001 a 2003, lembramos ao leitor que a pesquisadora coordenou o Programa Gestar/ MEC na rede municipal de Cuiabá, sendo que EMEB. Filogônio Correa foi uma das unidades beneficiadas pelo programa. 68 Conforme já mencionamos, esse documento registra as habilidades a serem desenvolvidas pelos alunos em cada ciclo. 69 Os estudantes de Pedagogia observaram, durante uma semana no mês de abril/2007, as aulas de diferentes professores que atuam no 3º ano (2ª série). 86 • 2º - consistiu na aplicação de: a) Questionários – um para a professora (acerca de seu processo de formação continuada e concepções de linguagem) e outro para os alunos (direcionado a verificar quais práticas de letramento são realizadas pelos discentes fora do espaço escolar); b) Instrumento avaliativo – documento elaborado especialmente para realizarmos o diagnóstico das capacidades de leitura já construídas pelos alunos. c) Entrevistas informais com a equipe gestora da unidade escolar, a fim de conhecermos quais as orientações pedagógicas dadas aos docentes, o Projeto Político-pedagógico desenvolvido, etc. Lembramos, novamente, que a amizade existente entre a equipe gestora da escola e a pesquisadora facilitou o acesso ao locus e a coleta de materiais. Entretanto, isto aumentou a carga de responsabilidade sobre o sujeito/ pesquisador, uma vez que foi gerada grande expectativa70 quanto aos resultados desse estudo e sua contribuição para a melhoria das ações educativas desenvolvidas no ambiente escolar. Em face ao exposto, convidamos o leitor a “mergulhar” conosco na corrente interdiscursiva tecida pelos dados coletados para, finalmente, compreendermos o que, de fato, acontece em nosso locus de pesquisa, no que diz respeito ao processo de ensino-aprendizagem de leitura. 3.2 Descrição do Locus A pesquisa foi realizada na Escola Municipal de Ensino Básico Prof. Filogônio Correa, situada no bairro Campo Velho, em uma região próxima ao centro de Cuiabá (MT). Quanto à estrutura física, notamos que há a necessidade de algumas reformas, principalmente dos banheiros utilizados pelos alunos e da quadra 70 Por conta dessa situação, alguns dos resultados obtidos já foram “repassados” à direção da unidade escolar. Todavia, esse assunto será abordado, com maiores detalhes, nos capítulos subseqüentes. 87 esportiva. A escola possui, também, 09 salas de aula que funcionam em dois períodos (matutino e vespertino); 01 biblioteca; 01 sala para os professores; 01 secretaria; 01 diretoria; 01 espaço para a Sala de Apoio à Aprendizagem71; 01 cozinha; 01 almoxarifado; 01 pátio coberto; 01 quadra esportiva. Há outro fator que merece atenção: algumas salas são muito prejudicadas pelo excesso de barulho externo, o que dificulta a compreensão, pois quase não se pode ouvir com clareza o que a professora está dizendo, mesmo que os alunos fiquem em silêncio. A diretora nos informou que esses problemas estruturais são decorrentes do fato de que esta escola é uma das mais antigas da rede municipal: foi inaugurada em 25 de janeiro de 1971, fruto da luta dos moradores contra lideranças políticas da época, as quais desejavam a desapropriação do terreno onde hoje se situa a escola, para a manutenção de um cemitério: Os moradores, (...), fundaram uma associação com o propósito de lutar por melhorias na comunidade. Com a associação criada, os moradores puderam reivindicar o traslado do cemitério e construíram no local, um barracão para o funcionamento de uma escola. (Projeto Político Pedagógico, 2007: p. 08). O nome da unidade foi escolhido pelos vereadores, como forma de homenagear o professor Philogônio de Paula Correa, figura destacada na sociedade cuiabana, pois exerceu as funções de Catedrático de História Geral do Liceu Cuiabano, além de ter sido, também, jornalista, vereador e deputado estadual. Contando com 36 anos de existência, verificamos que a escola passou por todos os momentos descritos no capítulo anterior e que culminaram com a reorganização da rede municipal em Ciclos de Formação, ao qual a comunidade escolar também aderiu no ano 2000, passando a atender a modalidade de Educação Infantil, 1º e 2º Ciclos. 71 Na Sala de Apoio são atendidos os alunos que possuem dificuldade de aprendizagem, em horário oposto ao que estes estudam: os discentes são distribuídos em grupos de 10, os quais participam de duas aulas semanais. Ressaltamos que somente os alunos de unidades cicladas, a partir do 2º ano/ Ensino Fundamental, são beneficiados pela Sala de Apoio e na medida em que as dificuldades apresentadas forem superadas, os grupos iniciais são substituídos por outros. 88 Na estrutura ciclada72 da rede municipal estão distribuídos, de modo geral, 04 professores para cada turma, a saber: 01 professor referência, que atua nas áreas de Conhecimento Lingüístico, Conhecimento Lógico-matemático, Ciências Naturais e Ciências Sociais; 01 professor de Educação Física; 01 professor de Artes para o 1º Ciclo e 01 professor de Língua Estrangeira para o 2º Ciclo; 01 professor da Sala de Apoio à Aprendizagem. Atualmente, a escola possui 528 alunos, sendo que a maior parte destes é residente no próprio bairro ou nos circunvizinhos. Segundo a diretora, os moradores preferem a escola municipal às estaduais que se localizam nas proximidades. Portanto, as salas de aulas estão com o número máximo de alunos permitido pela legislação municipal, a saber: 25 para o 1º Ciclo e 35 para o 2º Ciclo. Segundo o PPP (2007: p. 10), a maior parte da clientela da escola (52%) nasceu em Cuiabá; 16% em outras cidades de Mato Grosso e 32% oriundos de outros estados. Já quanto ao grau de escolaridade dos pais dos alunos: 37% cursam ou cursaram o Ensino Médio; 36% concluíram o Ensino Fundamental; 18% cursaram da 1ª a 4ª série; 8% cursaram ou estão cursando o Ensino Superior e 2% não são alfabetizados. Nesse contexto, a maioria da comunidade escolar pertence à classe média baixa, apresentando renda familiar de até 1 salário mínimo (43%); 1 a 5 salários mínimos (54%); 5 a 10 salários mínimos (1%); apenas 2% não declararam a renda familiar. Desse modo, considerando a diversidade da realidade sócio-cultural e econômica dos alunos, a unidade escolar busca desenvolver uma proposta educativa que vá ao encontro dos anseios e necessidades da comunidade, ou conforme exposto no PPP (2007: p. 10): A expressiva clientela advinda de bairros circunvizinhos (49%), de realidade e história de vida distintas torna a escola um espaço onde a diversidade sócio cultural e econômica deva ser trabalhada, buscando um currículo e uma filosofia que atenda às diferenças, oportunizando a construção de conhecimentos para todos os alunos. 72 Esta é a estrutura “padrão” de organização das escolas cicladas. 89 Entretanto, a diretora da escola declarou que há, ainda, muita dificuldade para a concretização dos objetivos educacionais expostos no PPP73. Um dos problemas destacados foi a falta de participação efetiva da comunidade nas atividades escolares, o que tem prejudicado o trabalho realizado e, atualmente, embora a situação já tenha melhorado, ainda está longe de ser a ideal. 3.2.1 A biblioteca escolar A biblioteca da EMEB. Filogônio Correa funciona em uma sala de tamanho médio e conta com um pequeno acervo, com cerca de 500 exemplares de livros, entre os quais temos a predominância dos livros de literatura infantil (293), seguido pelos didáticos (207), ambos pertencentes a diversas coleções, umas recebidas através de doações particulares e outras encaminhadas pelo MEC. O espaço também funciona como sala de vídeo, sendo que lá estão: 01 televisão, 01 DVD e 01 retro-projetor. Notamos que o ambiente é agradável e os alunos, tanto podem pegar livros emprestados para ler em casa, como podem ler na própria biblioteca. A rede municipal possui técnicos específicos para “cuidar” das bibliotecas e, para exercer esta função, os servidores participaram de um curso profissionalizante, voltado para o trabalho de bibliotecário, oferecido pela própria instituição através de um programa de formação, destinado às demais categorias profissionais que atuam nas unidades escolares, a saber, vigilante, auxiliar de serviços gerais, merendeiras e oficiais administrativos. A EMEB. Filogônio Correa possui uma funcionária para cuidar do acervo e do material tecnológico e esta optou por trabalhar apenas no período matutino, de acordo com a sua carga horária (30h); em conseqüência disso, a biblioteca fica fechada no período vespertino. Assim, das 13:00 às 17:00h, caso alguém necessite de algum livro ou tenha de fazer alguma pesquisa, deverá solicitar permissão da diretora. 73 Esclarecemos que o Projeto Político Pedagógico da EMEB. Filogônio será objeto de uma análise mais detalhada no próximo capítulo. 90 A equipe gestora nos informou que segundo a Instrução Normativa nº. 01/2007/ SME, a escola tem direito somente a um TMD74, uma vez que é considerada como unidade de porte (tamanho) médio. Nesse aspecto, destacamos que, ao utilizar como critério o porte das unidades, a SME/ Cuiabá acabou criando uma situação, no mínimo, curiosa: algumas escolas não possuem biblioteca, mas contam com um TMD em seu quadro funcional. A diretora afirmou que, embora o acervo seja pequeno, é suficiente para atender a demanda dos alunos, pois dos 528 alunos matriculados, apenas 30% utiliza a biblioteca com certa freqüência. Citou, ainda, a iniciativa de uma das professoras do 5º ano (4ª série): a docente estabeleceu que todos os seus alunos deveriam ler 10 livros durante o ano, sem compromissos avaliativos, mas com a “obrigação” de contar aos colegas sobre o que leram. Esta atividade é feita com os livros de literatura que estão na biblioteca e parece ter mobilizado os alunos do 5º ano, visto que estes são os que mais utilizam o espaço. Diante do exposto, acreditamos que a escola poderia aproveitar melhor a biblioteca, seja através do desenvolvimento de projetos direcionados à leitura, ou mesmo interdisciplinarmente, com a inclusão dessa questão no projeto semestral75 implementado pelos professores durante o ano letivo. 3.3 Os sujeitos da pesquisa Conforme já dissemos, a pesquisa foi realizada na EMEB. Filogônio Correa e teve como sujeitos a professora Marta76 e seus 27 alunos do 4º ano/ Ensino Fundamental. 74 Técnico em Multi-meio Didático, esta sigla se refere cargo exercido pelos funcionários que cuidam da biblioteca e do material tecnológico (vídeo, televisão, DVD, entre outros). Segundo informação do setor de Recursos Humanos da SME/ Cuiabá, a maioria dos “TMDs” entrou na rede municipal como Auxiliar de Serviços Gerais, atuando nesta função até o término do curso profissionalizante, após o qual eram “enquadrados” como técnicos e passavam a exercer esta nova função. 75 Lembramos ao leitor que a unidade escolar organiza o conteúdo a ser trabalhado através de projetos semestrais. 76 Lembramos ao leitor que este é o nome fictício atribuído à professora pesquisada. 91 Embora tivéssemos uma relação amistosa com a professora pesquisada, percebemos que esta manteve certa reserva quanto a mostrar seu planejamento ou permitir a observação direta das aulas. Em face do exposto, procuramos não insistir, a fim de que nossos pedidos não assumissem caráter de “ordem”, pois, como já dissemos, para a docente, a imagem da pesquisadora ainda estava imbricada à da SME. Acreditamos que, de certo modo, este aspecto parece ter permeado a maioria das interações ocorridas no ambiente escolar, por exemplo, invariavelmente, ouvíamos, como se fosse uma saudação, a seguinte frase: o que você está “mandando” hoje? Mesmo com essa dificuldade inicial, ao explanarmos acerca dos objetivos dessa pesquisa, conseguimos obter o apoio da equipe gestora para realizarmos a coleta de dados, sem maiores problemas. 3.3.1 A professora Marta se tornou professora da rede municipal no ano de 2000, após ser aprovada em concurso público77 para atuar nas séries iniciais do Ensino Fundamental. E, portanto, não participou do movimento descrito no capítulo 2, que culminou com a implantação dos Ciclos de Formação. Todavia, a partir dos registros da escola, verificamos que a educadora trabalha na citada unidade desde 2001, com carga horária de 20h/ semanais78. Este fato demonstra que a mesma já estabeleceu vínculos com o grupo docente da unidade e que já conhece e é conhecida pela comunidade escolar. A sua entrada na rede municipal coincidiu com o início de sua formação acadêmica, visto que, em 2005, a mesma concluiu o curso de Pedagogia na UFMT e, em 2007, concluiu o curso de Especialização em Docência Universitária promovido pelo Instituto de Educação/ UFMT. 77 Em 1999, foi realizado o último concurso público promovido pela prefeitura de Cuiabá para o cargo de professor. 78 No ano letivo de 2007, a profª. Marta está trabalhando em regime de 40h na mesma unidade escolar pesquisada: 4º ano/ matutino e Sala de Apoio à Aprendizagem/ vespertino. 92 Percebe-se que, nos últimos sete anos, a educadora teve de administrar seu tempo para conciliar as demandas de sua vida pessoal, seu trabalho como professora, a formação acadêmica e a continuada. Ressaltamos, ainda, que o período da graduação coincidiu com a sua participação nas oficinas do Programa Gestar/ MEC, sendo que, nesta mesma época, a turma na qual atuava era monitorada pelo citado projeto, através de avaliações sistêmicas79. Assim, como parte do processo de formação, a profª. Marta tinha “tarefas” a cumprir, como por exemplo, utilizar em sala de aula os conteúdos estudados nas oficinas pedagógicas, com acompanhamento das formadoras80/ SME. Em relação a esse processo, a docente comentou: Esse curso contribuiu muito com a minha formação: desenvolvi noções básicas sobre diferentes tipos de textos, processos de leitura e interpretação de textos, compreensão sobre variações lingüísticas. Na produção de texto, aprendi a importância da coerência e dos elementos coesivos. Esses conhecimentos de leitura e produção têm sido fundamentais na minha prática em sala. (trecho extraído do questionário) Além disso, de 2006 e 2007, a docente participou de outro programa de formação promovido pelo MEC, o Praler, com duração de 02 anos, sendo que as oficinas foram ministradas na própria escola, contemplando temas relacionados ao processo de alfabetização. Destacamos, ainda, que o material do Praler se fundamenta na concepção de letramento, propondo que a alfabetização seja feita a partir do trabalho com os gêneros textuais, dando ênfase, também, ao desenvolvimento da linguagem oral. Segundo informações da profª. Marta, dentre os diversos cursos dos quais participou, estes foram os mais significativos, pois lhe deram noções de como trabalhar com habilidades/ competências e com os gêneros textuais. Entretanto, reconhece que necessita de mais estudo sobre estes temas, a fim de que possa organizar melhor o trabalho realizado em sala de aula. Sobre isso, a educadora declarou que: 79 Os alunos passaram por uma avaliação inicial, de entrada no programa, e a cada ano, verificava-se a progressão dos mesmos, em relação às habilidades de Leitura e Produção de Texto. 80 As formadoras pertenciam ao quadro funcional da SME e acompanhavam tanto o planejamento das aulas, quanto a aplicação do material proposto pelo programa. 93 (...) necessito de um aprofundamento. Mesmo conhecendo pouco sobre essa forma de ensinar, procuro colocar em prática. Organizo as atividades com o objetivo de desenvolver as habilidades que são necessárias à faixa etária dos meus alunos. É mais complexo trabalhar dessa forma porque requer mais conhecimento e mais tempo para organizar as atividades de aprendizagem. (trecho extraído do questionário) Sabemos que a observação direta das aulas da educadora poderia aprofundar nosso olhar. Todavia, há dois fatores que nos fizeram repensar essa estratégia: primeiro, o tempo disponível para a pesquisa de campo, registro, sistematização e análise dos dados teria de ser maior; segundo, a resistência da professora pesquisada diante da possibilidade de ser observada em sala. Portanto, preferimos restringir nossa fonte de dados, concentrando-nos nas capacidades de leitura demonstradas pelos alunos do 4º ano/ Ensino Fundamental da EMEB Filogônio Correa e, mais especificamente, da turma na qual a profª. Marta atuou em 2007. 3.3.2 Os alunos do 4º ano Conforme estabelecem os documentos oficiais da SME/ Cuiabá, no 4º ano do Ensino Fundamental, espera-se que os discentes já possuam as habilidades relacionadas à capacidade de decodificação, apresentando relativo domínio da escrita alfabética e a faixa etária predominante deve ser a de 9 anos, sendo que a turma pesquisada não está muito distante deste perfil, pois a maioria já consegue decodificar81 e, segundo a professora, gostam muito de ler em voz alta, utilizando a biblioteca da escola, com certa freqüência, tanto para pesquisas escolares como para leitura de fruição. Nos momentos em que estivemos na sala de aula, notamos que os discentes, de modo geral, são participativos e durante a aplicação dos instrumentos, não tiveram 81 Esta era a situação em maio/2007, quando aplicamos o instrumento avaliativo: de 25 alunos freqüentes, apenas três apresentavam problemas relacionados ao processo inicial de alfabetização, em outras palavras: estavam no nível silábico-alfabético, conforme classificação de Ferreiro e Teberoski. 94 receio de esclarecer as dúvidas existentes. Alguns até fizeram perguntas sobre a Secretaria de Educação, sobre a UFMT e se a pesquisadora iria “dar aula para eles”, demonstrando, então, que não ficaram tímidos com nossa presença. De acordo com informações do questionário, a maior parte dos alunos está na faixa etária entre 9 a 10 anos82 e mora com seus pais, sendo que apenas um deles trabalha83. Destacamos, ainda, que dos 27 alunos matriculados, 20 responderam ao questionário sobre letramento e 25 ao instrumento avaliativo. Logo, ao cruzarmos esses dados, verificamos que apenas 20 discentes participaram desses dois momentos e, portanto, para o processo de análise, tivemos de “descartar” cinco avaliações. No entanto, para contextualizarmos melhor a “situação” de aprendizagem dos alunos, torna-se importante relembrarmos alguns aspectos da organização dos Ciclos, a saber, a retenção de alunos somente poderá ser feita ao final de cada Ciclo. Desse modo, podemos saber quem “passou de ano” através do sistema de progressão, que se subdivide em dois tipos: o simples (PS), utilizado para alunos que não possuem dificuldades de aprendizagem; progressão mediante plano didático de apoio (PPDA), para aqueles que apresentarem dificuldades, geralmente relacionadas ao processo de alfabetização. Nesse contexto, os discentes que possuírem em seus registros avaliativos a sigla PPDA, freqüentaram a Sala de Apoio à Aprendizagem, em período oposto ao que estavam estudando. Contudo, com as recentes mudanças nos diários de classe, as siglas acima são utilizadas apenas para o resultado final, como forma de delimitar quais alunos avançaram nas etapas do Ciclo, sem necessidade de começar o próximo ano letivo assistindo aulas de apoio. Já no que se refere à turma da profª. Marta, atualmente84, dos 27 alunos, 20 são considerados PS e 07 PPDA. Considerando que a docente, no período vespertino, atua na Sala de Apoio, conseqüentemente, também está atendendo a seus próprios alunos do matutino. 82 Apenas um aluno possui 11 anos. 83 Este aluno trabalha ajudando a mãe que vende pamonha. 84 Dados atualizados em outubro/2007. 95 Segundo a diretora, muitos alunos já superaram suas dificuldades e foram dispensados das aulas de apoio, sendo que da citada turma, apenas 07 devem ser atendidos no último bimestre. No entanto, ao analisarmos os registros avaliativos dos alunos, verificamos que estes aparecem com “habilidades em construção” (marcado pelo uso da sigla EC). Ressaltamos, também, pelos poucos momentos em que observamos a interação em sala, que o relacionamento entre professor/ aluno e aluno/aluno parece ser bom, sem maiores conflitos. Nos capítulos subseqüentes, quando analisarmos os questionários dos alunos, poderemos ampliar nossa visão acerca do modo como estes lidam com as práticas de leitura. 3.4 Os instrumentos de coleta de dados Como já havíamos mencionado, além de uma relação profissional, desde 1998, estabelecemos vínculos com a equipe gestora da EMEB. Filogônio Correa, visto que nos conhecemos durante aquele período85 de preparação da rede municipal para a mudança do sistema seriado para o ciclado. É obvio que isso facilitou o acesso à professora, com a qual, até o momento, mantínhamos apenas uma relação profissional86, influenciando, também, diretamente, na escolha do locus. Portanto, em março/2006, contatamos a diretora da unidade e expusemos, detalhadamente, qual era a proposta da pesquisa a ser desenvolvida. Além disso, conversamos, também, com a professora, a qual concordou em participar das aplicações dos instrumentos, abrindo o espaço de sua sala de aula para que pudéssemos coletar nossos dados. Todavia, no que se refere às interações entre sujeito/professora e a pesquisadora, voltamos a comentar sobre o caráter assimétrico que esse processo acabou assumindo em alguns momentos, pois para a docente, a imagem constituída acerca da pesquisadora estava imbricada à da 85 86 Esse período compreende os anos de 1998 a 2000, conforme já foi dito no capítulo 2. Lembramos, novamente, que a pesquisadora coordenava o programa de formação do qual a profª Marta era cursista. 96 instituição (SME/ Cuiabá), mesmo que o “papel social” ocupado pelos interlocutores, naquela situação específica, fosse muito distinto das interações anteriores. Isto posto, por mais que nos esforçássemos, esta imagem foi reforçada através do modo como nos apresentaram aos demais funcionários e alunos da unidade: “... ela é da SME e está fazendo uma pesquisa, aqui, na nossa escola”. Isso foi o suficiente para transformar os olhares de curiosos a cautelosos, como se tentassem desvendar as reais intenções da pesquisadora, como se nossa presença fosse mais uma estratégia da Secretaria para inspecionar o trabalho desenvolvido na unidade escolar. Exemplos87 de falas: “Não diga isso na frente dela!”; “O que ela vai pensar da gente?”, “Aqui todo mundo trabalha duro!”, entre outras. Conforme já dissemos, isso trouxe algumas vantagens (todas as solicitações feitas eram prontamente atendidas), mas, em compensação, as pessoas se sentiam pouco à vontade para responder às nossas indagações, o que fez com que desistíssemos de realizar entrevistas gravadas, optando pelo registro escrito das conversas, como recurso para manter a “informalidade” nas interações. Assim, a pesquisa de campo foi desenvolvida no período de fevereiro a maio/ 2007 e consistiu em sucessivas visitas à unidade escolar para a aplicação alguns instrumentos de coleta (dois questionários e um instrumento avaliativo acerca das capacidades de leitura), os quais serão descritos a seguir. 3.4.1 Investigando o processo de formação da professora: Com o objetivo de obter informações sobre a formação profissional do nosso sujeito e sobre aspectos didáticos e metodológicos que envolvem o seu trabalho, elaboramos um questionário88 organizado em três partes distintas, a saber: 87 Essas frases foram ditas por vários funcionários da escola durante nossas visitas. 88 Ver Anexos. 97 • A 1ª corresponde a 6 questões que tratavam da formação acadêmica, continuada e da concepção teórica acerca do processo de ensinoaprendizagem de leitura; • A 2ª abarca 4 questões relacionadas à implementação do PPP e ao sistema de avaliação utilizado pela escola; • A 3ª propõe 7 questões que abordam elementos da prática pedagógica desenvolvida em sala de aula, especialmente os relacionados ao processo de ensino-aprendizagem de leitura. Acreditamos que o instrumento ficou um pouco extenso, com 17 perguntas, uma vez que a educadora precisou levá-lo para casa, a fim de concluir o preenchimento. Durante as visitas que fizemos à escola, tivemos oportunidade de conversar várias vezes com a profª. Marta e, nesses momentos, conforme já comentamos, quando indagávamos sobre a possibilidade de gravarmos uma entrevista ou filmarmos uma aula, a mesma demonstrava desconforto com a situação, mesmo quanto à observação direta, sem aparato tecnológico, a docente chegou a comentar: “Eu não conseguiria dar aula direito com você me olhando do fundo da sala”. Assim, considerando a imagem atribuída pela escola à pesquisadora, preferimos utilizar uma abordagem mais sutil, de modo que a docente não se sentisse obrigada a participar da pesquisa e colaborasse, de forma mais espontânea possível, com a aplicação dos instrumentos. 3.4.2 Investigando o processo de letramento “não-escolar” dos alunos: Considerando nosso interesse em saber como os alunos do 4º ano lidam com as práticas de leitura fora do espaço escolar, adaptamos o modelo de questionário utilizado nos levantamentos do INAF (Indicador Nacional de Alfabetismo Funcional), adequando-o para a coleta de informações dos citados alunos. Isso resultou em um instrumento composto por 22 questões de múltipla escolha, sendo que a aplicação do mesmo transcorreu normalmente, sem causar transtornos ao cotidiano dos alunos. 98 Todavia, antes desse processo, explicamos aos discentes os objetivos do nosso trabalho e, para não caracterizar aquele momento como uma situação formal 89 , saímos da sala e deixamos que a professora efetuasse a aplicação. Ressaltamos, também, que algumas questões tiveram de ser respondidas em casa, visto que necessitavam de informações relacionadas aos pais dos alunos. 3.4.3 Investigando as capacidades de leitura dos alunos: Com base nas mais recentes fundamentações epistemológicas que discutem o processo de ensino-aprendizagem de leitura através do trabalho com as capacidades de leitura (Kleiman, 1998; Rojo, 2001; Cafiero, 2005, entre outros), elaboramos um instrumento90 com 20 questões de interpretação, a fim de verificar quais habilidades de leitura foram construídas pelos alunos do 4º ano e quais as que necessitam de um trabalho pedagógico mais sistemático. O processo de aplicação foi executado sem problemas, sendo que a maioria dos alunos demonstrou, inicialmente, certa agitação, porém esta logo cedeu espaço à tranqüilidade. Portanto, o tempo médio de resolução das questões pode ser considerado normal, pois variou entre 1hora e 30 minutos a 2 horas. A educadora recebeu recomendações para não auxiliar os alunos durante a aplicação, uma vez que isto poderia afetar os dados coletados e, nesse sentido, obtivemos total colaboração de sua parte. Esclarecemos algumas dúvidas dos discentes sobre o instrumento, no entanto, como das outras vezes, não permanecemos na sala pelos mesmos motivos já elencados anteriormente. Quanto à estrutura da avaliação propriamente dita, necessário se faz tecermos alguns comentários, antes de detalharmos as habilidades presentes nas questões. Exemplos: 89 Lembramos ao leitor que a pesquisadora foi apresentada aos alunos como técnica da Secretaria de Educação. 90 O instrumento avaliativo pode ser visto no Apêndice B. 99 1. Os gêneros discursivos selecionados estavam previstos nos descritores91 de habilidades do 2º Ciclo, a saber, narrativos ficcionais (fábula, histórias em quadrinhos e tirinhas), informativos (texto didático e verbete de dicionário); 2. Partindo do pressuposto que os alunos do 4º ano já possuem o domínio das habilidades relacionadas à capacidade de decodificação, procuramos elaborar questões que envolvessem as capacidades de compreensão e de apreciação e réplica (interpretação); 3. Para a aquisição de uma capacidade92, torna-se necessária, conseqüentemente, a construção de diversas habilidades, as quais podem variar de acordo com a situação de comunicação e o gênero discursivo utilizado. Diante disso, as questões propostas no instrumento estão relacionadas somente às capacidades “avaliadas”. Nesse contexto, buscamos manter o equilíbrio entre as capacidades avaliadas: 06 questões se referem à de compreensão e outras 06 à de apreciação e réplica. Assim, cada questão pode (ou não) requerer a mobilização de várias habilidades, com níveis diferentes de relevância93. O instrumento apresentou, então, a seguinte seqüência: 1ª parte, texto 1 - fábula; texto 2 - informativo (refere-se ao autor da fábula); texto 3 – verbete de dicionário (esclarece o significado de um termo presente na fábula); 2ª parte, texto 4 — tirinha e 5 – história em quadrinhos. Considerando as diversas habilidades que compõem as capacidades de compreensão e de apreciação e réplica, juntamente com as que constam no PPP da 91 Conforme já foi mencionado: para a elaboração da avaliação, utilizamos como base os descritores previstos no PPP da unidade escolar pesquisada e não os adotados, de modo mais amplo, pelo sistema municipal. 92 Diante da diversidade de definições acerca do termo capacidade, optamos por utilizá-lo como equivalente ao de competência proposto por Perrenoud (1998), adotando assim a mesma base teórica que tem fundamentado os atuais programas de formação de professores implantados pelo MEC e elaborados pelo CEALE/ UFMG. 93 Em outras palavras, dentre as habilidades necessárias para dar resposta a uma determinada questão, uma delas poderá ser a “predominante” em relação às demais. 100 unidade escolar pesquisada, tivemos de delimitar algumas para utilizar na elaboração das questões. O principal critério que norteou a escolha das habilidades foi o imbricamento entre estas e os gêneros discursivos selecionados, pois, conforme já dissemos, de acordo com o contexto situacional, o gênero e o objetivo da leitura realizada, mobilizamos diferentes habilidades, conhecimentos e saberes. Exemplo: para interpretarmos uma história em quadrinhos, a relação entre as imagens e o texto verbal assume grande importância. Todavia, para a leitura de um artigo de opinião, a habilidade de elaborar apreciações referentes a valores éticos e/ou políticos alcançará maior “status” que as demais. Nesse contexto, esclarecemos que, durante o ato da leitura, não existe nenhum tipo de hierarquia entre as capacidades ou mesmo uma ordem pré-determinada para que sejam mobilizadas, portanto, somente para efeitos didático-metodológicos, exporemos, separadamente, cada uma com as respectivas habilidades avaliadas: 1. Capacidade de compreensão: • Identificar informações relevantes para a compreensão do texto (fábulas, texto informativo, verbete de dicionário, tirinha e história em quadrinhos). • Mobilizar conhecimentos prévios para auxiliar no processo de atribuição de sentido ao texto. • Utilizar informações oferecidas por um verbete de dicionário, glossário ou texto informativo na compreensão do texto. • Reconhecer a unidade temática do texto. • Perceber a coesão estabelecida no texto por meio de pronomes, sinônimos, advérbios e da ordem das palavras na frase. • Reconhecer causas e conseqüências de determinados fatos. 101 2. Capacidade de apreciação e réplica (interpretação): • Relacionar as características textuais do gênero e os indicadores de suporte ao sentido atribuído ao texto. • Caracterizar personagens a partir de descrições apresentadas, de ações por ela realizadas ou do modo como se expressam. • Reconhecer a relação entre imagem e texto verbal na atribuição de sentido ao texto. • Reconhecer o efeito de sentido de recursos gráficos como cores, fonte, tamanho e formato de letras, imagens, etc. • Interpretar com base no texto, inferindo uma idéia implícita nele. • Elaborar apreciações relativas a valores éticos e/ou políticos. Depois de concluído o processo de aplicação do instrumento, entregamos tanto à professora como à equipe gestora da escola, uma cópia da avaliação com sua respectiva matriz analítica94, a fim de que todos tivessem conhecimento sobre quais foram as habilidades e as capacidades avaliadas em cada questão. Aproveitamos a oportunidade para informar-lhes, mais uma vez, sobre os objetivos da pesquisa que estava sendo desenvolvida e da importância daquele diagnóstico para a prática pedagógica. Destacamos, ainda, que cada instrumento de pesquisa utilizado representará uma peça do “quebra-cabeça” denominado EMEB Filogônio Correa, colaborando para aprofundar a reflexão acerca dos processos educativos implementados pela escola. 3.5 Metodologia de análise dos dados Em consonância com a abordagem enunciativo-discursiva bakhtiniana e compreendendo o processo de leitura com um fenômeno discursivo, sócio- 94 Essa matriz foi elaborada pela pesquisadora para facilitar a análise das capacidades de leitura demonstradas pelos alunos e foi descrita no item 3.4.3, deste capítulo. 102 historicamente situado, buscamos analisar as interfaces entre nossos sujeitos e as práticas de leitura desenvolvidas no ambiente escolar. Isto posto, organizamos a análise dos dados a partir dos itens elencados no método sociológico para o estudo da língua (Bakhtin, 1929: p.129), sendo que para sua efetiva utilização nesta pesquisa, o mesmo teve de ser adaptado, a fim de que pudéssemos relacioná-lo aos nossos objetos de estudo: capacidades de leitura e letramento escolar. Alguns importantes conceitos bakhtinianos também serão utilizados no processo de análise dos dados, tais como, compreensão ativa, discurso, gênero discursivo, dialogismo e exotopia. Além da referida fundamentação teórica, tivemos de estabelecer critérios para a correção e análise minuciosa do instrumento avaliativo, já que isso poderia interferir no levantamento das habilidades de leitura construídas pelos alunos. Portanto: • Será considerada como habilidade construída, quando o aluno responder corretamente pelo menos 75% das questões relacionadas ao respectivo indicador; • Algumas questões foram respondidas parcialmente, ou seja, não contemplaram todos os aspectos solicitados no enunciado; assim, no quadro de acertos, aparecem com a letra P95, sendo consideradas durante o processo de verificação da habilidade (construída ou não); • A nomenclatura utilizada será: HC (habilidade construída) e NC (não construída); preferimos não utilizar termos como “em construção”, uma vez que isso implicaria em um acompanhamento mais sistemático e por um tempo mais longo das práticas de leitura realizadas pelos alunos no ambiente escolar. 95 Para as respostas corretas utilizamos a letra C, conforme quadro de correção que poderá ser visto nos Anexos. 103 • Quando houver apenas duas questões96 que se referem à determinada habilidade, o discente deverá acertar ambas; Na seqüência, poderemos visualizar o quadro utilizado para análise das habilidades: HABILIDADES Questões 1. Identifica informações relevantes para a compreensão do texto (fábulas, texto informativo, verbete de dicionário, tirinha e histórias em quadrinhos). 4, 6, 12, 15 2. Mobiliza conhecimentos prévios para auxiliar no processo de atribuição de sentido ao texto. 1, 10, 11 3. Utiliza informações oferecidas por um verbete de dicionário, glossário ou texto informativo na compreensão do texto. 2, 8, 9 4. Reconhece a unidade temática do texto. 2, 5, 14 5. Relaciona as características textuais do gênero e os indicadores de suporte ao sentido atribuído ao texto. 11, 17, 19 6. Caracteriza personagens a partir de descrições apresentadas, de ações por ela realizadas ou do modo como se expressam. 7, 20 7. Percebe a coesão estabelecida no texto por meio de pronomes, sinônimos, advérbios e da ordem das palavras na frase. 8, 18 8. Reconhece a relação entre imagem e texto verbal na atribuição de sentido ao texto. 12,13 9. Reconhece causas e conseqüências de determinados fatos. 6, 15, 20 10. Interpreta com base no texto, inferindo uma idéia implícita nele. 2, 5, 7, 14 11. Reconhece o efeito de sentido de recursos gráficos como cores, fonte, tamanho e formato de letras, imagens, etc. 13, 17, 19 12. Elabora apreciações relativas a valores éticos e/ou políticos. 3, 16 Considerando a necessidade de formularmos critérios para a correção da avaliação feita pelos alunos, principalmente no que diz respeito às questões abertas, delimitamos, também, alguns parâmetros97 para verificar quais as possibilidades de resposta que seriam consideradas corretas. Desse modo, após todo esse processo, com o auxílio dos instrumentos aqui descritos, buscaremos detectar as relações existentes entre os dados coletados 96 Ou pelo menos uma resposta correta e uma parcial. 97 Os referidos parâmetros podem ser encontrados no Apêndice D. 104 acerca da formação profissional da professora, do letramento extra-escolar apresentado pelos alunos e das capacidades de leitura por eles construídas. O foco de nossa análise se concentrará, principalmente, na interface entre esses fatores, os quais, como sabemos, são importantíssimos para o processo de letramento dos alunos e a construção das capacidades de leitura. No próximo capítulo, veremos como o outro acabou interferindo no projeto inicial de pesquisa e, principalmente, na forma que este assumiu após o trabalho de pesquisa de campo. 105 Capítulo 4: Exercitando o olhar exotópico Para compreendermos melhor os sujeitos da nossa pesquisa, tentamos visualizar o sistema municipal a partir do ponto de vista da escola, pois de acordo com Bakhtin (1952-1953/ 1979: p.21): Quando nos olhamos, dois diferentes mundos se refletem na pupila dos nossos olhos. Assumindo a devida posição, é possível reduzir ao mínimo essa diferença de horizonte, mas para eliminá-la inteiramente, urge fundir-se em um todo único e tornar-se uma só pessoa. Assim, lembramos que a história da rede municipal de Cuiabá e a da pesquisadora se mesclaram durante vários anos,98 afetando-se mutuamente, fato este que fez com que fossem redobrados os esforços para a construção do estranhamento necessário à efetivação da pesquisa, deixando de lado o olhar institucional que, até bem pouco tempo (2005), se fazia presente nas relações entre os sujeitos e a pesquisadora. Além disso, esse aspecto tornou ainda mais relevante a inserção do conceito de exotopia no desenvolvimento desse estudo e na análise dos dados, pois a própria pesquisadora também se converteu em fonte de dados, uma vez que foi observadora privilegiada (e também agente) do processo sócio-histórico da rede municipal de Cuiabá, período no qual esteve lado a lado com os sujeitos pesquisados, ora ocupando posições sociais semelhantes, ora representando a própria Instituição (SME). Conseqüentemente, isso contribuiu para o estabelecimento de relações de alteridade em diversos níveis, ampliando nossa visão acerca do objeto de estudo e enriquecendo o processo de análise, o qual será descrito no presente capítulo. 98 Como já dissemos, a pesquisadora participou de todo o processo que culminou com a adoção dos Ciclos de Formação: primeiramente, enquanto professora da rede municipal e, posteriormente, como formadora dos docentes, representando a Instituição/ SME. 106 4.1 Algumas reflexões sobre a proposta pedagógica da rede municipal de Cuiabá para o ensino de Leitura Neste item, iremos responder a seguinte questão de pesquisa: qual a proposta da rede municipal para o ensino de leitura nos anos iniciais do Ensino Fundamental? De acordo com o que foi exposto com capítulo 2, tanto o documento inicial, de 1999, quanto o mais recente - “Escola Sarã: Cuiabá nos Ciclos de Formação” (2000), não apresentam, efetivamente, diretrizes para o ensino de leitura, tratando a questão de modo superficial, ainda fundamentado na Teoria da Comunicação, como poderemos perceber no trecho abaixo: Nesta fase (1º Ciclo), ampliam-se gradativamente as possibilidades de comunicação e expressão. (...) Falar, ouvir, ler e escrever são atividades essenciais. Os exercícios de copiar repetidas vezes uma palavra em nada contribui (sic) para o desenvolvimento da aprendizagem, pois a leitura é a fornecedora dos elementos da escrita. (Escola Sarã, 2000: p. 91) Portanto, de modo geral, no texto aparecem poucas referências ao processo de leitura, sendo que as mais expressivas se referem à alfabetização99, propriamente dita. No entanto, não poderíamos deixar de mencionar a conceituação de “bom leitor” apresentada no documento de 2000, o qual manteve o caráter grafocêntrico, já analisado na versão de 1999. Vejamos o exemplo: Associada a isto (à boa escrita), está a formação do bom leitor, no sentido do desenvolvimento do hábito e da fluência na leitura com entendimento das idéias centrais e das intenções do texto lido. 100(Escola Sarã, 2000: p. 91) 99 A proposta para alfabetização está fundamentada em Emília Ferreiro e Ana Teberosky (Psicogênese da Língua Escrita). 100 Ênfase adicionada. 107 Percebe-se, ainda, a influência dos modelos cognitivos de leitura (entender “as intenções do autor”) e a crença de que a formação de hábito e a fluência (oralização) são suficientes para garantir a interpretação do texto; também se torna visível o diálogo que os Referenciais Curriculares da Escola Sarã mantêm com o PCN de Língua Portuguesa de 1º e 2º Ciclos: ambos apresentaram dificuldade no que se refere à formulação de propostas para a formação do leitor crítico. Nesse contexto, na proposta da rede municipal de Cuiabá, os pressupostos construtivistas parecem predominar, pois, como não são estabelecidos “conteúdos” para o ensino de leitura, podemos inferir que o discurso subjacente é o de que esse tipo de aprendizagem ocorre naturalmente, afinal, segundo Freinet, “aprende-se a ler, lendo” e a “escrever, escrevendo” 101. A própria pesquisadora participou da elaboração dos referenciais de 1999102 e, de 1997 a 2001, ministrou muitos cursos sobre as estratégias de leitura para os professores da rede municipal. Assim, se por um lado foi difícil “olhar”, exotopicamente, aquela produção como se não tivéssemos feito parte do processo de construção da mesma, para analisá-la a partir de outro lugar social; por outro, foi interessante perceber aspectos que não pareciam tão visíveis naquele período, como por exemplo, compreender o conflito existente entre a diversidade de aportes teóricos que permeiam o documento. Segundo informações da Assessoria Pedagógica da SME, a publicação de 2000 foi uma tentativa de atender ao desejo das escolas em delimitar quais as competências necessárias em cada ano do Ensino Fundamental, contudo, esse objetivo parece não ter sido alcançado, pois esta versão é quase uma paráfrase da primeira (1999). Portanto, o documento de 2000 não trouxe avanços significativos quanto à resolução de alguns problemas do Ciclo e muito menos na área de ensino-aprendizagem de Língua Portuguesa. Essa dificuldade de aprofundamento teórico pode ser um dos motivos pelos quais a rede municipal de Cuiabá não contemple, em suas diretrizes 101 Lembramos ao leitor que isso já foi comentado no Capítulo 2, aparecendo também nos PCN de Língua Portuguesa de 1º e 2º Ciclos. 102 A parte de Língua Portuguesa foi coordenada por outra professora, uma vez que a pesquisadora teve que assumir a elaboração dos Referenciais de Língua Estrangeira que constam na publicação de 1999. 108 político-pedagógicas, os aspectos que deveriam ser trabalhados para a construção do leitor crítico. Acrescente-se a isso, os problemas resultantes da implantação do Dossiê Acadêmico103, agravados pela fragmentação no processo de formação continuada (de 1991 a 2005) 104, tanto na área de Língua Portuguesa, quanto acerca do trabalho com a Abordagem de Competências. Assim, ao considerarmos esse contexto, passamos a entender melhor a situação dos docentes, pois, embora não tenham sido preparados para lidar com os indicadores avaliativos que constam no Dossiê, são forçados a utilizá-los sem compreender, realmente, quais as implicações teóricas e metodológicas desse ato para o processo de ensino-aprendizagem. Acreditamos que essa situação foi provocada pela descontinuidade na implementação das políticas educacionais propostas para a rede municipal e que retomar esse processo é algo que demanda um tempo maior. Reconhecemos, também, que a padronização dos critérios avaliativos era necessária e, inclusive, recomendável, dada a fragmentação existente na rede. Entretanto, com base nos depoimentos de diversos docentes, constatamos que o preenchimento do citado documento é feito, na maioria das vezes, de modo aleatório e que, portanto, este não pode ser considerado como fonte confiável de dados sobre o desenvolvimento do processo de ensino-aprendizagem dos alunos. Em face disso, poderíamos levantar a hipótese de que esta monologização do discurso acerca dos procedimentos e instrumentos avaliativos se constituiria como um meio para ocultar a real situação do sistema. Contudo, como não há elementos para sustentar tal afirmação, as reflexões aqui expostas servem apenas como alerta para que as unidades escolares repensem, a forma de utilização do Dossiê Acadêmico, criando espaços junto à SME/ Cuiabá para discussão acerca do sistema de avaliação implantado na rede. Destacamos, ainda, que o Projeto Político Pedagógico da escola pesquisada apresenta os mesmos conflitos teóricos existentes nos PCN de Língua Portuguesa/ 103 Em 2007, a SME/ Cuiabá deixou de utilizar o termo Matriz de Habilidades e Competências, transformando-o em “Indicadores Avaliativos”; o que na prática, parece ser inócuo, pois o problema não parece ser a nomenclatura em si, mas sim como utilizar esses critérios para analisar o desempenho dos alunos. 104 Período no qual a SME produziu os documentos analisados nessa pesquisa. 109 1º e 2º Ciclos, e nos Referenciais da Escola Sarã. Portanto, embora a unidade possua uma proposta bem estruturada para o ensino de leitura, como veremos mais adiante, fundamentada no trabalho com as capacidades,105 os dados coletados demonstraram que os docentes estão com sérias dificuldades para implementá-la. Isso pode ser confirmado através das descrições106 das aulas observadas por acadêmicos do curso de Pedagogia/ UFMT, em turmas do 3º ano (2ª série): Trecho 1 - Professora A: Após ela corrigir os cadernos dos alunos, começou a fazer as atividades do livro que eram acerca do texto. Na primeira atividade, os alunos tiveram dificuldade para responder, então a professora pediu para que cada aluno indicado por ela lesse em voz alta, e perguntava para o aluno assim: “O que? Você entendeu? Entendeu! Não!? Então, lê de novo!” 107, e isso ela fazia – aluno por aluno. Esse processo demorou muito tempo, e alguns alunos nem abriram o livro para ler. (trecho extraído do Relatório de Observação, 2007: p. 04) Trecho 2 - Professora A: Depois de copiarem o texto, os alunos deveriam responder 05 perguntas. Percebemos que poucos lêem o texto, eles passavam várias vezes pelas respostas, porém não conseguiam entender. As perguntas tinham respostas evidentes no texto, como por exemplo: Texto: “... Os índios constroem ocas para morarem...” Pergunta: “Onde os índios moram?”. A professora passava pelas cadeiras dos alunos auxiliando-os nas tarefas. Notamos que uma das alunas não sabe ler, mas mesmo assim fez a cópia do texto; entretanto, esta não tem nem idéia do que está escrevendo. As áreas do conhecimento trabalhadas são Português, Matemática e Artes, pois segundo a professora, a área de Ciências Naturais não é trabalhada pelo fato de que: “nem todas as crianças sabem ler”. (trecho extraído do Relatório de Observação, 2007: p. 07) 105 O conteúdo da área de linguagem está organizado em habilidades de leitura e de escrita, específicas para cada ciclo (ver Anexos). 106 Coincidentemente, alunas do curso de Pedagogia/ UFMT estiveram, em abril/2007, observando a prática pedagógica desenvolvida na escola pesquisada, como parte das atividades da disciplina de Projetos Integrados. Assim, como a pesquisadora está desenvolvendo um trabalho junto ao Instituto de Educação/ UFMT, tivemos acesso ao Relatório de Observação por elas produzido e este se constituiu, também, em fonte complementar de informações para nossa pesquisa. 107 Ênfase adicionada. 110 Os relatos acima nos mostram que profª. A parece conduzir a maior parte das interações sem se preocupar em estimular a compreensão ativa dos alunos e muito menos em criar estratégias para instigá-los a pensar a respeito do que estão lendo. Conforme nossa compreensão teórica, suas atitudes deixam transparecer uma visão de leitura na qual os significados não precisam ser construídos e não há relações dialógicas a serem percebidas e estabelecidas entre os interlocutores. A ênfase dada à oralização do texto, além de não favorecer a aquisição das capacidades de leitura, nega o acesso dos discentes a conceitos importantes da área de Ciências Naturais (meio ambiente, desenvolvimento sustentável, etc.), sob a alegação de que apenas alguns, os que dominam o código lingüístico, podem “compreender” conceitos de outras áreas do conhecimento. Sob a influência do modelo autônomo de letramento, a prática pedagógica implementada atua no sentido de excluir do processo de ensino-aprendizagem aqueles alunos que ainda não aprenderam a decodificar. Todavia, o caráter monológico presente nas aulas dos trechos 1 e 2 não necessariamente pressupõe “passividade” por parte dos alunos, que acabam encontrando um meio para agir “responsivamente” à rotina escolar: “(...) e alguns alunos nem abriram o livro para ler”. (trecho extraído do relatório/ UFMT/ Pedagogia). Trecho 3 - Professora B: Ao entrarem em sala de aula, a professora Rose solicitou que os alunos pegassem o livro de Português, porém esta não fazia idéia de onde havia parado a matéria. Com a ajuda dos alunos, que fizeram a indicação da página e em qual exercício da matéria havia parado, ela pôde dar continuidade à aula. Ao se localizar e verificar a matéria percebeu que seriam exercícios que necessitariam o uso do dicionário e que estes não estavam condizentes com as capacidades de leitura dos alunos, devido a isso não os executou. (...) A professora começou a leitura do texto intitulado “Como se fosse dinheiro”, da autora Ruth Rocha. (...) Fez, então, uma rodada de leitura com os alunos, porém pela presença estranha, segundo a professora, eles estavam tímidos e liam em um tom de voz muito baixo, audível apenas pelos mais próximos. Pela demora em fazer a leitura os alunos se dispersaram. (...) Após esta rodada de leitura a professora prosseguiu com os exercícios de interpretação do texto, fazendo apenas os mais técnicos, deixando os exercícios que necessitavam de respostas e discussões mais aprofundadas sobre o texto para um outro momento, sem maiores explicação sobre a razão de tal decisão. (trecho extraído do Relatório de Observação, 2007: p. 16) 111 Trecho 4 - Professora B: (...) ela entregou-lhes um desenho mimeografado da Boneca Emilia, do Sítio do Pica-Pau Amarelo, obra de Monteiro Lobato. Disse que eles iriam pintar este desenho, pois era uma data comemorativa: O Dia do Livro Infantil. Enquanto os alunos faziam esta atividade, a professora preparava os exercícios que seriam oferecidos aos alunos no dia seguinte. Quando a maioria dos alunos já havia terminado de pintar, a professora pediu a atenção de todos e disse que os alunos que liam melhor iriam fazer a leitura de parte de um samba-enredo que falava sobre a Independência do Brasil. Nesse dia ela não deu maiores explicações sobre o que significavam estas datas comemorativas. Apenas seis alunos foram selecionados e os demais ficaram inquietos o resto da aula, pedindo “um pedaço do texto pra ler”. (trecho extraído do Relatório de Observação, 2007: p. 04) Os trechos 3 e 4 também podem ser considerados como exemplo de práticas típicas do modelo de letramento escolar, fundamentado em uma concepção tradicional de ensino, visto que os turnos de fala são controlados pela professora de modo a não abrir espaço para a réplica dos discentes, inclusive não permitindo que estes ampliem suas capacidades de leitura, visto que as atividades “mais complexas”, segundo avaliação docente, são deixadas de lado. As atividades desenvolvidas contribuem para que os alunos aprendam a argumentar e/ou a se posicionar diante do que lêem; as datas comemorativas são tratadas de modo dissociado da realidade e parece não haver preocupação com a seqüência do conteúdo que deveria ser trabalhado na aula. Logo, esses fragmentos indicam que a escola precisa rever suas ações, principalmente se tiver, como uma de suas metas, a formação de leitores críticos. No trecho 01, parece-nos que a concepção dominante é a de que ler em voz alta garante ao aluno a compreensão de qualquer gênero discursivo, logo, o ato de ler não é visto como processo de construção de sentido, no qual o estabelecimento de relações interdiscursivas assume papel importante. Notamos que, no trecho 2, diante das dificuldades dos alunos em decodificar (alguns aprenderam apenas a fazer cópia), interpretar textos e/ou utilizar algumas estratégias de leitura (como a de localização de informações), temos a impressão de 112 que a professora parece não se preocupar em implementar atividades diversificadas para auxiliar os alunos. Já nos trechos 3 e 4, nota-se que o texto continua sendo tratado como “pretexto” para trabalhar datas comemorativas e exercícios de gramática, de modo fragmentado e descontextualizado. Verificamos, também, que o texto não é tratado enquanto gênero e que os conhecimentos prévios dos alunos acerca dos assuntos abordados em sala parecem não ser considerados. Além disso, as atividades realizadas parecem impedir que os alunos “dialoguem” com os textos e que os compreendam ativamente, expressando suas opiniões e expondo suas dúvidas sobre o que estão lendo. Ao ouvirmos a frase: “Não ensino Ciências porque os alunos não sabem ler” ou “não dou esta atividade porque está acima da capacidade de leitura dos alunos”, tem-se a impressão de que aos alunos cabe a tarefa de copiar e reproduzir os conceitos “transmitidos” pelos autores dos livros didáticos e pelos professores, pois não se espera nenhuma responsividade por parte dos discentes. A História da Educação nos auxilia na compreensão de que as práticas pedagógicas atuais se cristalizaram ao longo do processo de constituição da Escola (instituição), solidificada em uma concepção de ensino-aprendizagem centrada no professor como “detentor do conhecimento” e, mesmo com a formulação de novas teorias, há todo um aparato sócio-ideológico que parece “segurar” os avanços nessa área, por exemplo, entre outros, a descontinuidade na implementação de políticas públicas, a implementação de programas de formação continuada desvinculados da realidade e da necessidade do grupo a que se destina. Em síntese, ainda que os governos (federal, municipal e estadual) afirmem ter como meta a formação de cidadãos críticos, a realidade encontrada na maioria das escolas contraria os discursos oficiais e, nesse aspecto, os dados do relatório elaborado pelas acadêmicas de Pedagogia/ UFMT são preocupantes e nos surpreenderam, pois conforme quadro abaixo, a escola pesquisada obteve uma classificação razoável nas avaliações feitas pelo SAEB e Prova Brasil (2005), visto 113 que sua média para o IDEB108/ 2005 foi de 4,1109 (séries iniciais), maior inclusive que a da rede municipal, a saber: 3,7. IDEB 2005 e Projeções para Rede Municipal - CUIABA Ensino 2005 Fundamental Projeção do IDEB 2007 2009 2011 2013 2015 2017 2019 2021 (Observado) Anos Iniciais 3,7 3,7 4,1 4,5 4,8 5,0 5,3 5,6 5,9 Anos Finais 3,2 3,2 3,3 3,6 4,0 4,4 4,7 4,9 5,2 Fonte: Prova Brasil 2005 e Censo Escolar 2005 e 2006. IDEB 2005 e Projeções para a escola Municipal - EMEB FILOGONIO CORREA Ensino 2005 Fundamental Projeção do IDEB 2007 2009 2011 2013 2015 2017 2019 2021 (Observado) Anos Iniciais 4.1 Anos Finais - 4.1 - 4.5 - 4.9 - 5.1 - 5.4 - 5.7 - 6.0 - 6.2 - Fonte: Prova Brasil 2005 e Censo Escolar 2005 e 2006. Nesse contexto, torna-se necessário esclarecermos que os alunos participantes das citadas avaliações, em 2005, são os mesmos que foram monitorados pelo Programa Gestar/ MEC, quando ainda estavam no 1º Ciclo (2001 a 2003). Nessa época, os professores recebiam acompanhamento sistemático das formadoras do programa, o que nos leva a considerar que isso possa ter influenciado no resultado alcançado pela escola. Entretanto, em 2007, diante do modo como as aulas de Língua Portuguesa estão sendo ministradas nas turmas de 3º ano, acreditamos que, ao contrário da projeção 108 Indicador de Desenvolvimento da Educação Básica é calculado pelo INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), com base em informações do censo escolar e das avaliações institucionais realizadas pelo MEC (Prova Brasil e SAEB). 109 Aproximadamente 61,73% dos alunos demonstraram desempenho compatível à “escala” de 150 a 200 e, para maiores detalhes recomendamos verificar a tabela da Prova Brasil que consta nos Anexos. 114 apresentada no quadro acima, a expectativa é de diminuição da média do IDEB. Em outras palavras, é provável que a média de 173,05110 para a 4ª série, obtida na Prova Brasil/2005, irá diminuir consideravelmente, uma vez que, em 2009, o referido processo avaliativo focalizará os alunos do atual 3º ano, os mesmos que hoje participam das “aulas de leitura” descritas no Relatório de Observação/ Pedagogia/ UFMT. Segundo a escala de avaliação utilizada na Prova Brasil/ 2005, uma média de 150 a 175 pontos indica que os alunos, além das habilidades do nível anterior (125 a 150), demonstraram que: • localizam informações explícitas em textos narrativos mais longos, em textos poéticos, informativos e em anúncio de classificados; • localizam informações explícitas em situações mais complexas, por exemplo, requerendo a seleção e a comparação de dados do texto; • inferem o sentido de palavra em texto poético (cantiga popular); • inferem informações, identificando o comportamento e os traços de personalidade de uma determinada personagem a partir de texto do gênero conto (de média extensão), de texto não-verbal ou expositivo curto; • identificam o tema de um texto expositivo longo e de um texto informativo simples; • identificam o conflito gerador de um conto de média extensão; • identificam marcas lingüísticas que evidenciam os elementos que compõem uma narrativa (conto de longa extensão); • interpretam textos com material gráfico diverso e com auxílio de elementos não verbais em histórias em quadrinhos, tirinhas e poemas, identificando características e ações dos personagens. 110 De acordo com o relatório do SAEB/2005, a média nacional para proficiência em Língua Portuguesa, na 4ª série foi de 172,3. 115 Ao analisarmos os descritores acima, podemos constatar que, para manter ou mesmo melhorar o nível alcançado, o trabalho pedagógico com as capacidades de leitura não deve ser limitar às turmas que serão avaliadas e, sim, ser incorporado ao cotidiano de todas as salas, beneficiando os alunos matriculados desde a Educação Infantil até o último ano do 2º Ciclo. No entanto, quando submetemos os discentes a atividades de repetição de conteúdos fragmentados e descontextualizados, desestimulando o processo de compreensão ativa (afinal todas as respostas já foram dadas pelo professor), estaremos negando aos alunos o direito de participar, plenamente, em eventos de letramento que exijam a mobilização de capacidades de leitura mais complexas; o direito de compreender ativamente as relações que se estabelecem entre os enunciados, enquanto elementos constituintes de uma mesma cadeia discursiva, restringindo, assim, o ato de ler à mera decodificação de grafemas em fonemas. Outra conseqüência dessa opção metodológica se refere ao tipo de individuo que, a longo prazo, pode vir a ser “(de) formado” através dessas práticas: este poderá se transformar em um sujeito passivo, que acredita não ter capacidade para pensar sozinho, pois se acostumou a depender de alguém para lhe dizer o que fazer e/ou dizer. Com isso, retornamos ao modelo autônomo de letramento que, de modo geral, tem fundamentado as práticas desenvolvidas no ambiente escolar, e para o qual a culpa do fracasso no processo de escolarização é do próprio indivíduo, como vimos no Trecho 1: ao constatar que um aluno não conseguia entender o que havia lido, a professora apenas disse: “O que? Você entendeu? Entendeu! Não!? Então, lê de novo!”. Lembramos que essa atitude parece se sedimentar na crença de que o ato de ler (em voz alta) já implica em compreender – e mais uma vez, de que “aprende-se a ler, lendo”. Diante do exposto, decidimos antecipar alguns dos resultados desse estudo à equipe gestora da escola pesquisada, principalmente acerca do risco de manter práticas pedagógicas que não priorizam a formação de leitores e os problemas que isso pode acarretar, tanto na vida dos alunos, quanto para a unidade escolar. 116 Para evitar que os problemas detectados assumam proporções maiores, a diretora e a coordenadora pedagógica, em face da situação encontrada nas turmas do 3º ano, já estão tomando algumas providências, por exemplo, a didatização das capacidades de leitura e de escrita será acompanhada mais sistematicamente, sendo que os discentes das turmas mencionadas receberão atenção especial. Desse modo, ao refletirmos sobre o processo de ensino-aprendizagem de leitura nas turmas do 3º ano (2ª série), tendo como base os dados do citado relatório, percebemos que estes deveriam ser incluídos no bojo da pesquisa, embora isso não estivesse previsto inicialmente, o que reforça a importância da efetivação de estudos acerca da prática educativa desenvolvida no ambiente escolar e, indo mais além, a necessidade de auxiliar a escola a analisar a sua práxis, buscando a melhoria da qualidade do ensino. 4.1.2 Algumas reflexões sobre o Projeto Político Pedagógico da escola pesquisada A reestruturação do Projeto Político Pedagógico (PPP) da EMEB. Filogônio Correa foi concluída no início do 2º semestre/2007, mas, de acordo com informações da Coordenação Pedagógica da unidade, não houve mudanças significativas entre o documento anterior e o atual. Assim, destacaremos apenas os itens que interferem diretamente nessa pesquisa, a saber, a metodologia adotada, a proposta para o ensino de leitura, o sistema avaliativo, entre outros. Como já mencionamos, a escola atende alunos que, em sua maioria, são oriundos de classes socioeconomicamente desfavorecidas e, portanto, esse fator direciona todo o trabalho desenvolvido. Diante desse panorama, a coordenação pedagógica e os docentes estabeleceram a seguinte “filosofia”, expressa no PPP (2007: p. 10): Realizar uma prática pedagógica socialmente comprometida com a construção de saberes necessários para a formação integral do aluno, adequando-as (sic) aos problemas, 117 expectativas e necessidades específicas da comunidade, garantindo o desenvolvimento de cidadãos ativos, conscientes, capazes de tomar decisões e transformar sua realidade pela ação, contribuindo assim para a construção de uma sociedade mais justa, com valores éticos, sociais e igualdade para todos. Em outras palavras, a escola se propõe a desenvolver um tipo de educação comprometida com os ideais das classes mais desfavorecidas, voltada para a construção da cidadania. Isto aproxima o PPP de outros documentos oficiais analisamos anteriormente: os PCN e as diretrizes da SME/ Cuiabá. O diálogo entre os referidos documentos se explicita, objetivamente, nos seguintes itens: por ser uma unidade organizada em ciclos, destaca-se a preocupação com as fases do desenvolvimento humano, embasada em autores como Piaget, Wallon e Vygotsky; opção pela Pedagogia Crítica (McLaren) e por uma teoria dialética do conhecimento, uma vez que organizam o currículo através de temas geradores. Nesse sentido, apresentam o mesmo conflito existente nas diretrizes da SME/ Cuiabá, a saber, trabalham ao mesmo tempo com Tema Gerador (Paulo Freire) e Abordagem de Competências (Perrenoud). Isto posto, sob a influência do Programa Gestar/ MEC, desde 2002, a escola passou a organizar os conteúdos em habilidades, adaptando os descritores propostos no citado programa e criando outros para as demais áreas do conhecimento, sempre embasados nos PCN. Destacamos que as fichas avaliativas de habilidades elaboradas pela coordenação pedagógica serviram de modelo para outras escolas da rede municipal, inclusive aquelas que nunca participaram de nenhum estudo mais aprofundado sobre o tema. Outro fator interessante é a resistência da unidade escolar em adotar o modelo de registro avaliativo proposto pela SME/ Cuiabá, a saber, o Dossiê Acadêmico. Entendemos a necessidade de documentos padronizados para o registro do sistema de avaliação dos alunos, uma vez que eles são expedidos para outras instituições, todavia, a causa deste conflito parece ser o modo como isso ocorreu, pois segundo informações coletadas em nosso locus de pesquisa, não houve uma ampla discussão acerca do tema em questão. Portanto, conforme já dissemos anteriormente, o Dossiê se tornou um problema para grande parte das unidades escolares, visto que, além dos equívocos que já 118 relacionamos, a maioria dos professores ainda não têm idéia de como este documento deveria ser utilizado.111 Desse modo, a EMEB. Filogônio Correa preferiu continuar com a “sua” ficha avaliativa, ignorando as recomendações oficiais. Em outras palavras, ainda que a SME procurasse estabelecer, enquanto instituição representante do poder, um discurso monofônico, centralizando o controle dos processos pedagógicos desenvolvidos na rede municipal, as diversas “vozes” que compõem o referido sistema insistem em assumir posicionamentos, por vezes contraditórios: concordando, ignorando e/ou discordando das “vozes oficiais”. Nesse contexto, tem-se a impressão de que a escola está se esforçando para recuperar sua identidade e retomar seu processo de crescimento, interrompido em 2001. Isso pode ser visto como uma tentativa de “re-significar” a própria realidade, alcançando a autonomia necessária para organizar e desenvolver os processos educativos que estão sob sua responsabilidade. Portanto, conforme já comentamos, ainda que a escola esteja buscando a superação de suas dificuldades, no que se refere ao seu Projeto Político Pedagógico, este acaba por reproduzir os conflitos presentes nos demais documentos oficiais aqui analisados (PCN e Diretrizes da SME), o que de certo modo pode ser considerado normal em um processo de mudanças educacionais. Assim, no que diz respeito à área de Linguagem, a mesma aparece no PPP dividida em habilidades de leitura e de produção de textos112, e, considerando que o foco da nossa pesquisa é uma turma de 4º ano, destacaremos as que se referem a esta série e ao ensino de leitura (PPP, 2005: 52): 111 Até julho de 2007, a SME/ Cuiabá ainda não havia oferecido cursos formação destinados à implementação da Abordagem de Competências ou mesmo sobre como transpor as habilidades propostas no Dossiê para a prática de sala de aula. 112 As habilidades relacionadas neste item foram extraídas pela escola pesquisada do Guia Geral do Programa GESTAR de 1ª a 4ª séries/ MEC/ 2002, sendo também utilizadas nesse estudo para a elaboração do instrumento avaliativo. 119 • • • • • • • • • • • • • • • • • • • Utilizar indicadores de suporte, de organização gráfica e de identificação de autoria na atribuição do sentido do texto; Interpretar com base no texto, inferindo uma idéia implícita nele; Reconhecer a unidade temática; Comparar textos, considerando tema, características textuais do gênero, organização das idéias, suporte e finalidade; Observar no texto narrativo a separação entre discurso do narrador e o discurso direto dos personagens e as marcas dessa separação (travessão e dois pontos); Reconhecer o valor expressivo dos recursos da língua (repetição de termo, recursos gráficos, sinais de pontuação); Reconhecer as variedades de uso da língua e o prestígio do padrão culto da língua (sic); Utilizar informações oferecidas por um glossário, verbete de dicionário ou texto informativo na compreensão do texto; Relacionar as características textuais do gênero e os indicadores de suporte e de autoria ao sentido ao texto; Identificar, no texto, os personagens e o modo como são apresentados; Identificar marcas de oralidade em um texto escrito e/ou características do registro formal, informal; Identificar falas de personagens (narrativas), de entrevistados (notícias) e recursos empregados para assinalar a transcrição dessas falas; Caracterizar personagens a partir de descrições apresentadas, de ações por elas realizadas ou do modo como se expressam; Reconhecer a relação entre imagem (propaganda, notícia) e texto verbal na atribuição de sentido ao texto; Identificar informações relevantes para a compreensão do texto: narrativas, notícias, classificados e propaganda, história em quadrinhos, informativo, poemas, jornalísticos (sic); Associar dados presentes na notícia a organizadores do tipo quem, como, onde, por quê; Reconhecer causas e conseqüências de determinados fatos; Reconhecer o efeito de sentido obtido com o emprego de recursos expressivos, tais como repetição de palavras ou de estruturas sintáticas, rimas, aliteração, onomatopéia; Perceber a coesão estabelecida no texto por meio de frases, sinônimos, advérbios, e da ordem das palavras na frase. Podemos observar a presença dos pressupostos teóricos da Lingüística Textual e da Abordagem de Gêneros Textuais, uma vez que o processo de interpretação está imbricado a aspectos da estrutura textual, o que nos direciona a um modelo cognitivo de leitura (o interativo). No entanto, parece não haver predominância das estratégias de leitura e podemos verificar a inclusão de algumas capacidades de apreciação e réplica (interpretação), o que em si, já representou um grande avanço, como por exemplo: 120 • Relacionar as características textuais do gênero e os indicadores de suporte e de autoria ao sentido ao texto; • Reconhecer o efeito de sentido obtido com o emprego de recursos expressivos, tais como repetição de palavras ou de estruturas sintáticas, rimas, aliteração, onomatopéia; Destacamos, também, as fases que se seguem à elaboração do PPP (seu percurso até a sala de aula): definição de um tema gerador113 (considerando o diagnóstico da realidade feito para a elaboração do PPP); elaboração de um organograma para mapear o tema gerador e estabelecer os eixos temáticos114 relacionados ao tema; o tema gerador e os eixos temáticos norteiam a elaboração de projetos115 semestrais a serem desenvolvidos em cada ano/ série; elaboração dos planos de aula considerando – tema gerador, eixo temático, projeto e habilidades elencadas tanto no PPP, quanto na ficha avaliativa do aluno. Lembramos, ainda, que não tivemos oportunidade de observar diretamente a prática pedagógica desenvolvida nas salas de aula, porém tivemos acesso a relatórios de estagiárias do curso de Pedagogia/ UFMT. Os descritores que compõem o dossiê elaborado pela escola foram, literalmente, transcritos do PPP, no qual se encontravam distribuídos de acordo com o ano/ série. Desse modo, para incluí-los no citado documento, a escola precisou uni-los em um único bloco, o que resultou em algumas confusões quanto à gradação na complexidade116 entre o que foi estabelecido para o 4º ano e o que “se espera” ao final do ciclo. Exemplos: a) Habilidades que se referem ao reconhecimento dos mecanismos de coesão como elementos que auxiliam na atribuição de sentido ao texto: 113 O tema escolhido para 2007 foi: “O homem vivenciando valores diante das transformações universais”; 114 A escola fez uma adaptação: uniu a Abordagem Metodológica do Tema Gerador (Paulo Freire) à de Complexo Temático (Pistrak); 115 Cada ano/ série trabalha com um projeto diferente. O 4º ano pesquisado desenvolveu, no 1º semestre, o projeto denominado: ”Eu, pessoa humana, em minha individualidade e coletividade”. 116 Conforme já mencionamos, as habilidades utilizadas pela escola foram extraídas do Guia Geral do Programa Gestar/ MEC (2001), destinado às séries iniciais. Entretanto, necessário se faz esclarecermos que, no guia, as mesmas foram organizadas da seguinte forma: habilidades de entrada, as do 1º Semestre e as do 2º Semestre. 121 • Nº 2 – Percebe a coesão estabelecida no texto por meio do uso de conjunções, pronomes, e expressões que marcam temporalidade e causalidade e da correlação dos tempos verbais (PPP, 2007: p. 73). • Nº 13 – Reconhece a coesão estabelecida no texto por meio do uso de conjunção, pronomes expressões que marcam temporalidade e causalidade e da correlação dos tempos verbais, (sic) causas ou conseqüências de determinados fatos (PPP, 2007: p. 74). • Nº 27 – Percebe a coesão estabelecida no texto por meio de pronomes, sinônimos, advérbios, e da ordem das palavras na frase (PPP, 2007: p. 75). b) Habilidades que implicam na associação entre as características do gênero, ao suporte e à autoria durante o processo de construção do sentido do texto: • Nº 6 – Relaciona as características textuais do gênero ao sentido atribuído ao texto (narrativas, cartas, história, (sic) em quadrinhos, poema). (PPP, 2007: p. 74). • Nº 10 - Relaciona as características textuais do gênero às características gráficas do tipo de texto e os indicadores de suporte e de autoria ao sentido atribuído ao texto (PPP, 2007: p. 74). • Nº 14 - Utiliza indicadores de suporte, de organização gráfica e de identificação de autoria, na atribuição do sentido do texto (PPP, 2007: p. 74). Contudo, de modo geral, podemos verificar que as habilidades selecionadas pela escola apresentam certa coerência, sendo que apenas uma delas está inadequada à perceptiva teórica adotada para o ensino de leitura: a de nº11, que está direcionada a aspectos gramaticais, próprios da escrita117: “Transformar estruturas gramaticais, observando as conseqüências dessas transformações (singular / plural; masculino / feminino; frases declarativas, interrogativas, exclamativas; adjetiva; advérbio por locução adverbial)” (PPP, 2007: p. 74). 117 No dossiê elaborado pela escola, as habilidades de produção de texto estão separadas das que se destinam ao trabalho de leitura. 122 Assim, podemos afirmar que a maioria das 27 habilidades propostas está relacionada às capacidades de compreensão e às de apreciação e réplica (cf. Rojo, 2001) e, conseqüentemente, em consonância com o objetivo de formar leitores proficientes. Este fato torna o documento produzido pela unidade escolar mais próximo dos mais recentes estudos sobre o processo de ensino-aprendizagem de leitura, das discussões sobre o trabalho com os gêneros discursivos. Em face ao exposto, compreendemos a decisão da escola em continuar com a sua ficha avaliativa, deixando de lado os indicadores propostos no dossiê elaborado pela SME/ Cuiabá118. O quadro situacional da rede municipal nos aponta para a necessidade do estabelecimento de políticas educacionais mais “duradouras”, que proporcionem aos profissionais da educação o tempo necessário para que estas sejam consolidadas, independente de questões político-partidárias, pois a cada ruptura, o processo de recuperação do sistema se torna mais penoso e difícil. A descontinuidade nas políticas educacionais, além de prejudicar a consolidação de qualquer mudança na prática educativa desenvolvida pelas escolas, possui outro efeito, ainda mais contundente: faz com que os sujeitos se tornem indiferentes quanto às reais possibilidades de transformação da práxis. 4.2 A importância do professor em uma práxis voltada para a formação do leitor crítico Conforme comentamos anteriormente, os cursos de graduação direcionados para a formação de professores, principalmente Pedagogia e Letras, ainda estão “assimilando” as novas propostas de trabalho para o ensino de leitura. Logo, isso criou lacunas que devem (ou deveriam) ser preenchidas através dos cursos de formação continuada em serviço. 118 No segundo semestre/ 2007, o Dossiê Acadêmico sofreu algumas alterações, a SME/ Cuiabá substituiu os termos habilidade e competência por indicadores avaliativos e, além disso, corrigiu alguns problemas gramaticais existentes no texto em questão. 123 Nesse sentido, outro aspecto relevante é a formação leitora do professor, pois um educador que não demonstre interesse pela prática da leitura, conseqüentemente, terá mais dificuldade, tanto para compreender as mudanças ocorridas nas concepções teóricas, como para implementar ações educativas que visem à formação de alunos leitores. Assim, embora alguns cursos de formação já comecem a enfatizar a utilização das estratégias de leitura, considerando que o ato de ler é um fenômeno complexo, as atividades propostas pela escola parecem não sofrer quaisquer alterações, mantendo-se “enraizadas” às bases epistemológicas do modelo autônomo de letramento. Uma das possíveis explicações para esse problema poderia ser a união de dois fatores: a precariedade da formação inicial e continuada e a existência de docentes não-leitores. Sabemos que transformar essa realidade não é uma tarefa simples, pois ao retornar de um curso de formação, ainda que tenha recebido uma gama de informações a respeito de “como ensinar leitura”, o professor acaba retomando sua prática cotidiana, sem implementar modificações significativas e, em alguns casos, tentando incluir apenas pequenas alterações na rotina da sala de aula. Estas modificações, quando realizadas sem o devido embasamento teórico e sem um diagnóstico das capacidades de leitura construídas pelos alunos, irão provocar frustrações no professor, uma vez que os resultados alcançados se distanciarão, e muito, dos esperados. Em resumo, as dificuldades demonstradas pelos docentes, quanto à formação de alunos-leitores, perpassam, muitas vezes, pelo fato de que eles próprios não possuem várias das habilidades de leitura que deveriam ensinar. Isto posto, se adicionarmos a estas questões o fato de que, na sociedade atual, para exercermos a cidadania plena, torna-se imprescindível a construção de práticas de letramento cada vez mais complexas, teremos, então, uma pequena idéia acerca da gravidade dos problemas pelos quais as escolas públicas estão passando, especialmente em relação ao ensino de leitura e produção de texto. Sabemos que as avaliações do SAEB ou Prova Brasil exigem diversas capacidades de leitura, as quais, em sua maioria não são trabalhadas nas unidades escolares, 124 pois, de acordo com nossos dados, isso acontece, muitas vezes, porque os professores desconhecem as propostas oficiais para o ensino de leitura ou não tiveram formação suficiente para implementá-las. Essas reflexões nos fazem indagar: Como romper esse ciclo: formação deficitária + professor não-leitor = alunos não- leitores? Nesse contexto, pensamos que a coordenação pedagógica assume um papel muito importante, uma vez que sua função principal é a de subsidiar e orientar os professores na implementação de metodologias diversificadas. Além disso, a reestruturação dos cursos de licenciatura e o estabelecimento de políticas concretas119 para a formação continuada poderiam atenuar os efeitos que certas práticas pedagógicas trazem para a vida dos alunos, posto que estas reproduzem e aumentam as desigualdades sociais já existentes (modelo autônomo de letramento). Esses fatos revelam a importância do professor como mediador no processo de construção do leitor crítico, uma que vez a metodologia por ele adotada será um dos fatores determinantes do sucesso ou fracasso dos alunos nos eventos de letramento dos quais venha a participar. Embora a expectativa da pesquisadora fosse diferente, já que a escola pesquisada participou de um programa sistemático de formação continuada, acabamos por encontrar, em nosso locus de pesquisa, muitos dos problemas aqui levantados, principalmente no trabalho desenvolvido com as turmas do 3º ano (2ª série). Quanto à profª Marta120, embora tenha concluído o curso graduação em 2005 e o de pós-graduação em 2007 e seja participante assídua dos cursos de formação oferecidos pela SME/ Cuiabá, percebemos que ela ainda não conseguiu se apropriar das teorias estudadas, como poderemos ver no trecho abaixo, extraído do questionário: A leitura é uma prática social que deve ser proporcionada ao aprendiz desde a Educação Infantil. (...) a interação com 119 Os programas de formação instituídos deveriam ser vistos com política educacional e não como política de um governo específico, pois a cada troca de governo, a rede pública de ensino parece estar, continuamente, de volta ao ponto de partida. 120 A docente pesquisada cursou Pedagogia na Universidade Federal de Mato Grosso, onde, atualmente, está concluindo a pós-graduação. 125 diversos tipos de texto, desenvolverá nele (no aluno) diferentes tipos de leitura121. (Questionário do Professor) Constatamos, desse modo, que há uma tentativa de compreender o processo de leitura enquanto prática social. No entanto, persiste ainda uma mistura entre a abordagem construtivista e a de Freinet (aprende-se a ler lendo), uma vez que fica exposta a crença de que a somente a interação com diversos tipos de texto seria suficiente para transformar o aluno em leitor. Esse é um problema bastante comum e, até certo ponto, fácil de ser superado, desde que o professor esteja disposto a estudar e que tenha acompanhamento da coordenação pedagógica. Temos conhecimento de que esses procedimentos seriam mais proveitosos se a unidade escolar tivesse um acompanhamento mais efetivo por parte da SME/ Cuiabá122. Em nossos encontros com a docente pesquisada, percebemos seu interesse em melhorar seu trabalho. Constatamos, também, a educadora parece conhecer os PCN de Língua Portuguesa/ 1º e 2º Ciclos, pois detectou a influência deste no PPP da unidade escolar, afirmando que ambos partem da mesma concepção de linguagem. Todavia, não soube esclarecer, de modo explícito, a relação existente entre estes e o trabalho que desenvolve em sala de aula. Conforme relato da professora, esta “toma leitura” dos alunos uma vez por semana. Assim, ao lado das atividades de leitura em voz alta e compartilhada, estão as de interpretação (oral e escrita) de textos pertencentes a vários gêneros, tais como: narrativo (fábulas, história em quadrinhos, tirinhas, parábolas, entre outros), jornalístico, poético, epistolar, informativo e instrucional, sendo que o livro didático é utilizado apenas para leitura oral. Todavia, embora tenha participado de cursos acerca do trabalho com os gêneros textuais, ao descrever sua metodologia em sala de aula, a professora usa várias vezes o termo “tipos de texto”, sendo que a alusão a gêneros textuais ocorre apenas uma vez. Isto nos leva a inferir que, mesmo com os estudos oferecidos nos cursos 121 122 Ênfase adicionada. Após tomar conhecimento das questões levantadas em nosso estudo, a equipe gestora percebeu que, sozinha, não conseguirá fazer muita coisa e que, portanto, necessita de auxílio para resolver os problemas, antes que estes assumam proporções maiores. 126 de formação, a educadora ainda não assimilou o conceito de gênero e de como este poderia ser transposto para a prática pedagógica. Destacamos, ainda, outra atividade por ela realizada, o “momento da leitura prazerosa”, realizado uma vez por semana e que consiste em possibilitar aos alunos que escolham, livremente, os textos que desejam ler, sem cobranças ou compromissos avaliativos. Considerando o exposto e os relatos feitos pela profª. Marta, percebemos a tentativa de modificar sua prática em sala de aula, principalmente, em virtude dos cursos de formação continuada dos quais tem participado nos últimos anos. Entretanto, talvez devido à força da tradição presente no modelo de letramento escolar, ainda podemos encontrar alguns indícios dessa abordagem na fala da professora. Por exemplo, quando indagada sobre quais as dificuldades apresentadas pelos alunos em relação ao ensino de leitura e o que faz para resolvê-las, a mesma declarou: Uma das dificuldades é respeitar os sinais de pontuação123. Então faço atividades de pontuar corretamente o texto. Faço leitura compartilhada e junto vou trabalhando cada pontuação apresentada no texto. Isso nos traz a seguinte reflexão: se o trabalho pedagógico na área de Língua Portuguesa se concentra em habilidades de leitura e produção de texto, esperávamos que as dificuldades dos alunos estivessem relacionadas ao não domínio desta ou daquela habilidade. Portanto, a resposta dada pela professora deixa transparecer, aparentemente, uma visão de ensino de leitura enquanto oralização do texto. De modo geral, temos a impressão de que a profª. Marta está passando por um período de transição, no qual há correntes teóricas conflitantes norteando sua prática pedagógica, a saber: • Modelo Autônomo de Letramento e modelos cognitivos de leitura (ascendente ou top-down): embasa a permanência de certas atividades já cristalizadas, 123 Ênfase adicionada. 127 como, por exemplo, a leitura em voz alta sem função aparente, a não ser exercitar a entonação e o ritmo; • Modelo Interativo de leitura: seu desejo de aprender mais sobre o processo de ensino-aprendizagem das capacidades de leitura, a fim de possibilitar a formação de leitores críticos. A docente, por exemplo, demonstra ter consciência de que lemos com diferentes objetivos, tanto que criou o momento da leitura sem compromisso, no qual os alunos são estimulados a ler, socializar suas leituras uns com os outros e fazer apreciações valorativas acerca do que foi lido, sem “cobranças” didáticas. Assim, o processo pelo qual a educadora está passando é necessário para que a mesma possa reformular suas crenças e concepções sobre o ensino de leitura, a partir da “re-significação” das teorias que estudou nos cursos de formação, ou seja, ao transformar palavra alheia em sua, poderá ter mais autonomia sobre os processos educativos que desenvolve, compreendendo ativamente as implicações da sua função, enquanto docente, na vida de seus alunos. Entretanto, conforme já foi mencionado, tanto a unidade escolar, como a educadora pesquisada estão necessitando de ajuda, uma vez que nossos dados indicam, de modo geral, que o corpo docente da escola chegou a um determinado “ponto”, do qual não conseguirá avançar sem auxílio externo. O interesse manifestado pela equipe gestora e pela professora em melhorar a qualidade do ensino oferecido, aliado ao reconhecimento das dificuldades existentes, podem se constituir em ações concretas para a implementação de mudanças significativas no processo de ensino-aprendizagem de leitura e produção de texto realizado na escola pesquisada. Em face ao exposto e considerando, também, as relações existentes entre a equipe gestora da unidade e a pesquisadora, acabamos nos comprometendo em colaborar na formação continuada dos professores, principalmente após a conclusão desse estudo. 128 Capítulo 5: Letramento escolar e não-escolar: em busca de um diagnóstico da realidade Sabemos que as práticas escolares de letramento consideram a linguagem como um código neutro, independente do contexto sócio-cultural, conseqüentemente, o trabalho desenvolvido pela escola tende a caminhar em direção oposta àquela que culminaria com a formação do leitor crítico. Isso ocorre porque as atividades realizadas (de leitura ou escrita), ao se inserirem no modelo autônomo, deixam de fornecer subsídios para que os discentes atuem, de modo crítico, na sociedade em que vivem e, terminam por afastar a escola dos objetivos delineados no PPP (2007: p. 10), como por exemplo o de: Realizar uma prática pedagógica socialmente comprometida com a construção de saberes necessários para a formação integral do aluno, adequando-as (sic) aos problemas, expectativas e necessidades específicas da comunidade, garantindo o desenvolvimento de cidadãos ativos, conscientes, capazes de tomar decisões e transformar sua realidade pela ação, contribuindo assim para a construção de uma sociedade mais justa, com valores éticos, sociais e igualdade para todos.124 Como já mencionamos no capítulo anterior, o PPP da unidade escolar está mais próximo da base teórica que fundamenta o Letramento Crítico, pois implica em propor ações educativas que instrumentalizem os discentes para a intervenção e transformação da própria realidade. Entretanto, conforme verificamos, isso não está acontecendo e os dados coletados acerca das turmas do 3º ano comprovam essa situação. Já em relação aos alunos do 4º ano, ressaltamos que não coletamos dados concretos sobre a prática pedagógica desenvolvida em sala de aula pela profª Marta, uma vez que não pudemos assistir às aulas ministradas. Logo, somente poderemos inferir como isso se concretiza ao cruzarmos os dados do questionário sobre letramento não-escolar com os do instrumento avaliativo/ capacidades de leitura. Desse modo, nas 124 Ênfase adicionada. 129 próximas páginas, tentaremos “mapear” as práticas de letramento não-escolar das quais os alunos participam e as capacidades de leitura demonstradas na avaliação. 5.1 Conhecendo um pouco das práticas de letramento construídas pelos alunos fora do ambiente escolar Conforme mencionamos no capítulo 3, o questionário utilizado teve como base o do INAF – Indicador Nacional de Alfabetismo Funcional e, desse modo, iremos comparar os dados coletados com alguns índices nacionais expostos no Relatório do INAF/ 2005, a fim de descrevermos o universo de letramento não-escolar dos alunos do 4º ano (3ª série), sujeitos do nosso estudo. A pesquisa do INAF foi realizada pelo IBOPE, que utilizou uma amostra nacional de 2002 pessoas, representando a população brasileira com faixa etária de 15 a 64 anos e, embora tanto a quantidade (20 alunos), quanto a idade (9 a 11 anos), sejam bem distintas, acreditamos que o roteiro por eles proposto nos auxiliará na investigação e na interpretação dos dados coletados. Iniciaremos nossa análise pelo contexto familiar dos discentes: a tabela 1 nos mostra que, em relação às mães, 65% concluíram ou estão cursando o Ensino Médio, sendo que apenas uma possui escolaridade abaixo da 4ª série, diferente dos índices apresentados pelos pais: Tabela 1: Escolaridade dos pais Mãe Quantidade % Ensino Médio completo 9 45% Superior incompleto 4 20% Superior completo 2 10% Ensino Médio/ até ao 2º ano 2 10% Ensino Fundamental incompleto/ até a 7ª série 2 10% Menos de 4ª série 1 5% Ensino Fundamental completo/ até a 8ª série 0 0% Nenhuma 0 0% Total 20 130 Ao analisarmos os dados referentes aos pais, veremos a comprovação de uma tendência nacional, a de que as mulheres têm, em geral, mais escolaridade que os homens: Tabela 1.2: Escolaridade dos pais Pai Quantidade % Ensino Médio completo 4 20% Ensino Médio/ até ao 2º ano 4 20% Menos de 4ª série 4 20% Ensino Fundamental incompleto/ até a 7ª série 3 15% Superior incompleto 2 10% Não respondeu 2 10% Nenhuma 1 5% Superior completo 0 0% Ensino Fundamental completo/ até a 8ª série 0 0% Total 20 Já na tabela abaixo, observamos que 63% dos alunos citaram as mães como responsável pela prática de contar histórias, sendo que o nível de escolaridade da figura materna também influencia nesse processo. No entanto, o que nos chamou a atenção, foi o fato de que grande parte dos alunos citou mais de uma pessoa da família como participante desses eventos de letramento. Tabela 2: Quando ainda não sabia ler, quem lia para você? Respostas Quantidade % Mãe 19 63% Pai 2 7% Avô 2 7% Avó 2 7% Irmã mais velha 2 7% Tia 1 3% Outra pessoa 1 3% Não respondeu 1 3% Total 30 131 Segundo Relatório do INAF/2005 (p. 17): A influência dos pais, e especialmente da mãe, nos hábitos de leitura dos entrevistados também se revela nas suas respostas sobre quais foram as duas pessoas que mais influenciaram seu gosto pela leitura. A mãe é mencionada por 41% dos entrevistados, enquanto professor ou professora é indicado por 33% e o pai por 31%. Em nossos dados, isso também se confirma, todavia há uma diferença maior: 63% mencionam a mãe e 17%, além desta, mencionam um professor ou professora, o que reforça ainda mais a importância da família na construção do letramento nãoescolar. Vejamos esses dados na tabela abaixo: Tabela 3: Pessoas que mais influenciaram o gosto pela leitura Respostas Quantidade % Mãe ou responsável do sexo feminino 19 63% Algum professor 5 17% Pai ou responsável do sexo masculino 4 13% Padre/Pastor ou líder religioso 1 3% Outro parente 1 3% Total 30 Desse modo, percebemos que algumas crenças a respeito dos alunos de escolas públicas estão equivocadas, pois constatamos, através dos questionários, que não só os pais incentivam a leitura, como também se utilizavam de certa variedade de gêneros discursivos no momento em que liam para seus filhos: Tabela 3.1: O que costumavam ler para você Respostas Quantidade % Livros infantis 15 42% Gibis, revista em quadrinhos 9 25% Bíblia, livros sagrados ou religiosos 6 17% Jornais e revistas 3 8% Outros tipos de livros 2 6% Não respondeu 1 3% Total 36 132 Todavia, sabemos que a formação do leitor crítico não se limita à formação de hábitos e que a escola possui papel importante no processo de ensinoaprendizagem das capacidades de leitura. Isto posto, percebemos que a família dos alunos do 4º ano já deu os primeiros passos nesse processo, restando à escola a tarefa de dar continuidade a esse trabalho. Também verificamos a presença da Literatura Infantil como elemento vital para despertar o gosto pela leitura, principalmente nesse período que antecede o processo de escolarização formal, uma vez que, para 42% dos alunos, os livros infantis eram, preferencialmente utilizados. Portanto, antes de serem alfabetizados, os alunos já participavam, ativamente, de eventos de letramento realizados no ambiente familiar, tendo contato com a leitura de diversos materiais, além do livro infantil. Desse modo, ao indagarmos a respeito de suas preferências quanto a material de leitura, 05 crianças marcaram duas opções: Tabela 4: Tipos de material que você mais gosta de ler Respostas Quantidade % Gibis, revista em quadrinhos 10 40% Bíblia, livros sagrados ou religiosos 7 28% Livros 5 20% Revistas 2 8% Outros 1 4% Total 25 Considerando a idade das crianças (9 a 11 anos), é claro que as tirinhas e as histórias em quadrinhos deveriam estar entre os gêneros discursivos preferidos pelos discentes e, nesse sentido, necessário se faz destacarmos a Bíblia, como segundo material mais lido, o que demonstra, novamente, a importância da influência dos pais no processo inicial de formação do leitor. Contudo, no outro extremo, verificamos que a maioria dos alunos não costuma ler jornal (60%), o que revela a necessidade proporcionar o acesso a esse tipo de material e, além disso, de iniciar um trabalho com os gêneros da esfera jornalística. 133 Tabela 5: Freqüência com que lê jornal Respostas Quantidade % Não costuma ler jornal 12 60% De vez em quando 5 25% Algumas ou uma vez por semana 3 15% Total 20 Podemos inferir que, talvez, os 60% que não costumam ler jornais não o façam devido à dificuldade de acesso, pois no item materiais escritos que possui em casa, apenas 08 o mencionaram. Observamos, ainda, que a Bíblia125 é o livro encontrado com maior freqüência, além de ser o segundo mais lido pelos alunos. Tabela 6: Materiais escritos que possui na residência Respostas Quantidade % Bíblia, livros sagrados ou religiosos 14 16% Álbum de família, fotografias 13 15% Calendários e folhinhas 10 12% Livros didáticos 10 12% Agenda de telefone/endereços 8 9% Dicionário 7 8% Livros infantis 7 8% Jornais 8 9% Livros de receitas de cozinha 5 6% Enciclopédia 4 5% Livros de literatura/romances 4 5% Guias, listas e catálogos 2 2% Livros técnicos 1 1% Total 93 Diante disso, verificamos que há uma grande diversidade nos materiais escritos com os quais o aluno tem contato no ambiente familiar e sabemos o quanto isso é importante para crianças que estão em período de aquisição do sistema de escrita. Logo, pensamos que a escola poderia aproveitar melhor essa vivência dos 125 Na pesquisa INAF/2005, esse índice chegou a 89% dos entrevistados. 134 educandos para tornar as atividades de alfabetização, leitura e escrita, mais contextualizadas e significativas. Nossos dados indicam que, fora do ambiente escolar, 95% dos alunos do 4º ano costumam ler vários gêneros discursivos: 70% lêem revistas, de vez em quando; sendo que 43% destas revistas são de histórias em quadrinhos; 47% lêem, de vez em quando, livros de literatura infantil. Isso poderá ser comprovado logo abaixo: Tabela 7: Tipos de revista que costuma ler Respostas Quantidade % Quadrinhos, gibis, humor 13 43% Fofocas e novelas (Contigo, etc.) 6 20% De informação (Veja, Época, etc.) 5 17% De religião 4 13% Outros 1 3% Nenhuma 1 3% Total 30 Tabela 7.1: Tipos de livros que costuma ler, ainda que de vez em quando Respostas Quantidade % Infantil, contos, fábulas, poemas 14 47% Bíblia, livros sagrados ou religiosos 9 30% Livros didáticos 5 17% Outros 1 3% Não costuma ler livros 1 3% Total 30 Desse modo, constatamos que a maioria dos educandos, em situações não escolares, não só tem acesso, mas também lê pelo menos dois gêneros discursivos diferentes, fator este que irá contribuir para a formação do leitor proficiente, pois, segundo Relatório do INAF/2005 (p. 19): Não só a disponibilidade de livros em casa, mas também a leitura de uma maior variedade de gêneros têm um efeito positivo na habilidade de leitura. A maioria dos alfabetizados no nível rudimentar e básico não costuma ler livros (29% e 16%) 135 ou só lêem um tipo de livro (42%), geralmente, a bíblia ou livros religiosos. Só entre pessoas alfabetizadas no nível pleno temos uma maioria de leitores que diversifica seus interesses (33% costumam ler dois gêneros e 34% três ou mais gêneros). Assim, podemos inferir que, considerando as condições familiares, os discentes do 4º ano estão expostos a um ambiente que favorece a construção do hábito de leitura. Por outro lado, chegamos a uma questão: o que os alunos costumam ler na escola também está colaborando para a formação do leitor proficiente? Vejamos: Tabela 7.2: O que você costuma ler na escola? Respostas Quantidade % Livros didáticos 13 25% Textos ou exercícios no quadro negro 9 17% Livros de histórias infantis 8 15% Seus próprios textos ou dos colegas 6 12% Dicionários 4 8% Revistas em quadrinhos 4 8% Folhetos e cartazes 3 6% Enciclopédias 2 4% Textos e exercícios em folhas avulsas 2 4% Revistas 1 2% Jornais 0 0% Sites ou páginas na Internet 0 0% Total 52 Obviamente, o livro didático se sobressaiu, com 25%, seguido pelos textos ou exercícios no quadro negro (17%) e os livros infantis (15%). Portanto, aparentemente, parece não haver a inserção de diferentes gêneros discursivos, como, por exemplo, inferimos que ainda não foram trabalhados os gêneros da esfera jornalística126, previstos no PPP da unidade escolar. Acreditamos que os aspectos levantados demonstram a necessidade de se organizar um trabalho mais 126 Todavia, devemos levar em conta que os dados analisados foram coletados em abril/ 2007, no início do ano letivo. 136 sistemático com a leitura de textos do gênero jornalístico, uma vez que estes estão presentes nos mais diversos eventos de letramento. Destacamos, ainda, que embora o universo de nossa pesquisa seja “modesto”, podemos observar que os educandos também têm livros à sua disposição e, a maioria, em quantidade razoável: Tabela 8: Quantidade de livros que possui em sua residência Respostas Quantidade % De 15 a 50 livros 12 60% Menos de 10 livros 6 30% De 51 a 100 livros 2 10% Não tem livros em casa 0 0% Total 20 Talvez o acervo não apresente grande variedade de gêneros discursivos, mas ressaltamos que este é outro elemento importante para a formação do leitor. No entanto, o fato que mais nos surpreendeu se refere à utilização da linguagem escrita em situações informais: 19 alunos declararam que costumam escrever em seu tempo livre, sendo que destes, 08 produzem (ou copiam com objetivos pessoais) pelos menos dois gêneros discursivos. Tabela 9: O que costuma escrever, criando ou copiando, em seu tempo livre? Respostas Histórias reais ou inventadas Receitas Letras de músicas Poesia Diário íntimo Álbuns familiares Cartas e e-mails Outros Não costuma escrever Total Quantidade 9 5 5 3 2 1 1 1 1 28 % 32% 18% 18% 11% 7% 4% 4% 4% 4% 137 Podemos observar que o maior índice se relaciona à produção de textos do gênero narrativo127 (32%); os outros mais citados são receitas culinárias e músicas, os quais, certamente, são utilizados para cópia, que, nesse sentido, são realizadas a partir de um determinado objetivo (exemplo: colecionar as letras de suas músicas preferidas ou auxiliar as mães na busca de receitas diferentes), sem assumir o caráter de obrigatoriedade, como muitas vezes acontece em situações escolares. Nesse aspecto, fora do ambiente escolar, as atividades de leitura, produção ou cópia de textos se tornam mais significativas para os discentes, pois se inserem em situações de prática social. Em oposição a isso, temos práticas de leitura com as que foram relatadas no capítulo anterior (ocorridas nas turmas do 3º ano), descontextualizadas e voltadas somente para objetivos escolares. Esse tratamento didático prejudica a construção de outros tipos de letramento e não contribui para a formação do leitor crítico, uma vez que, a nosso ver, não enfatiza o processo compreensão ativa. Essa situação poderia se modificar se o texto fosse considerado como gênero discursivo, pois, segundo Bakhtin (1952-1953/ 1979: p. 401): O texto só tem vida contatando com outro texto (contexto). Só no ponto desse contato de textos eclode a luz que ilumina retrospectiva e prospectivamente, iniciando dado texto no diálogo. Salientamos que esse contato é um contato dialógico entre textos (enunciados) e não um contato mecânico de “oposição”, só possível no âmbito de um texto (mas não do texto e dos contextos) entre os elementos abstratos (os signos no interior do texto) e necessário apenas na primeira etapa da observação (da interpretação do significado e não do sentido). Assim, considerando nosso enfoque teórico, os educandos deveriam ser estimulados a ir além do significado literal das palavras, percebendo as relações dialógicas que permeiam os textos, avaliando o conteúdo temático destes e se posicionando, criticamente. Nesse aspecto, destacamos um dado interessante: - a importância da participação dos pais: 18 alunos mencionaram que seus pais têm o hábito de ler em casa. 127 Provavelmente sob influência das histórias infantis (contos de fada) lidas em casa ou na escola, já que este é um gênero muito utilizado pelos professores nas séries iniciais. 138 Tabela 10: O que seus pais ou parentes costumam ler? Respostas Ler a Bíblia ou livros religiosos Ler revistas Ler folhetos Fazer trabalhos escolares Ler jornais Ler ou escrever tarefas do trabalho Ler ou escrever receitas Não sabe Não respondeu Ler ou escrever cartas Total Quantidade 14 8 6 5 4 3 2 1 1 0 44 % 32% 18% 14% 11% 9% 7% 5% 2% 2% 0% Confirmando os dados apresentados na pesquisa do INAF/2005, a Bíblia (32%) foi a mais citada, seguida por revistas e folhetos e quanto aos jornais, a média de 9% está em consonância com o pouco interesse que os discentes demonstraram pela leitura do mesmo128. Novamente, podemos inferir que os alunos do 4º ano pesquisado têm, no ambiente familiar, algumas fontes de leitura. Entretanto, parece-nos que isso não está exercendo influência no uso da biblioteca129, ou seja, 45% dos alunos, às vezes, utilizam a biblioteca para ler e consultar livros; sendo que a média dos que nunca o fazem é igual à de quem sempre utiliza esse serviço. Tabela 11: Com que freqüência você utiliza a biblioteca para ler ou consultar livros? Respostas Quantidade % Às vezes 9 45% Sempre 5 25% Nunca 5 25% Não respondeu 1 5% Total 20 Se unirmos a porcentagem de “às vezes” à de “sempre”, teremos um resultado mais significativo (70%), porém isso não poderá ter um efeito tranqüilizador, pois “às 128 Na tabela 07, podemos comprovar que 60% dos alunos não costumam ler jornal. 129 Tanto da biblioteca escolar com outra qualquer. 139 vezes” pode representar tanto uma vez por mês, quanto quatro por ano. Vejamos outra tabela relacionada a essa questão: Tabela 11.1: Com que freqüência você utiliza a biblioteca para ler ou consultar revistas e jornais? Respostas Às vezes Sempre Nunca Não respondeu Total Quantidade 14 3 3 0 20 % 70% 15% 15% 0% Verificamos que, para o 4º ano da profª. Marta, o jornal e as revistas podem se apresentar como uma possibilidade interessante de leitura e pesquisa e, portanto, poderiam ser mais aproveitados, principalmente no caso do primeiro. Contudo, o que nos preocupou foi a média de alunos que nunca utilizou a biblioteca para retirar livros, a saber: 40%. Tabela 11.2: Com que freqüência você utiliza a biblioteca para ler ou retirar livros? Respostas Às vezes Nunca Sempre Não respondeu Total Quantidade 11 8 1 0 20 % 55% 40% 5% 0% Esses índices nos alertam para a necessidade do desenvolvimento de projetos que estimulem o uso da biblioteca, transformando-a em um espaço que “movimente” a escola e mobilize os alunos para a prática de leitura. A coordenação pedagógica da escola pesquisada deveria criar projetos para que a biblioteca se tornasse um espaço mais atrativo, utilizado por toda a comunidade escolar, afinal o acervo disponível é suficiente para atender a maioria dos alunos. Diante dos fatos expostos no relatório das acadêmicas de Pedagogia e considerando as características do letramento escolar, torna-se compreensível que a maior parte das atividades realizadas pelos discentes seja de cópia, leitura em voz 140 alta, responder a questionários e preparar-se para as avaliações, itens que, somados, perfazem um total de 52%. Tabela 12: Atividades que realiza na escola Respostas Quantidade Copiar matérias, textos e exercícios do quadro negro 15 Estudar e preparar-se para provas e avaliações 12 Ler em voz alta 11 Copiar textos dos livros 10 Responder a questionários ou fazer exercícios 10 Fazer perguntas de esclarecimento ao professor 8 Consultar quadros de horários 8 Escrever textos ditados pelo professor 7 Fazer redação ou trabalhos 6 Participar de debates ou discussões 6 Controlar suas próprias notas ou conceitos e faltas 5 Participar de reuniões para tomar decisões 4 Agendar provas e entrega de trabalhos 4 Apresentar trabalhos oralmente 3 Fazer resumos de textos 2 Fazer relatórios 2 Fazer anotações sobre as aulas 1 Total 114 % 13% 11% 10% 9% 9% 7% 7% 6% 5% 5% 4% 4% 4% 3% 2% 2% 1% Como podemos observar, os dois itens relacionados à cópia correspondem a 23%, média inferior à das atividades direcionadas à produção de texto (5%) e que também é menor do que a de leitura em voz alta (10%). Esses dados nos trazem as seguintes inferências130: o trabalho com linguagem oral parece ser pouco explorado; as atividades de leitura em voz alta estão apresentando freqüência maior do que as de produção de texto; alguns gêneros escolares (resumo e relatório), aparentemente, foram abordados superficialmente; no espaço escolar, poucos alunos utilizam a leitura com outra finalidade que não seja a de estudar, por exemplo, consultar quadros, controlar suas notas, entre outras. Diante dessa problemática, pensamos que a professora pesquisada poderia reorganizar a distribuição do tempo em sala de aula, buscando maior equilíbrio entre as atividades de linguagem (leitura e produção de texto). 130 Lembramos ao leitor que, como não tivemos oportunidade de observar, diretamente, as aulas da profª Marta, apenas levantamos algumas hipóteses acerca do que os dados coletados nos “dizem”. 141 Já em relação à participação dos alunos em eventos de letramento fora do ambiente familiar, percebemos que o acesso a determinados espaços culturais ainda é restrito, por exemplo, 70% dos discentes nunca foram ao teatro e 55% nunca assistiram a shows. Por outro lado, cerca de 60% dos alunos costuma, às vezes, freqüentar o cinema e 65% vai a feiras ou exposições: Tabela 13: Com que freqüência você vai ao cinema? Respostas Às vezes Nunca Sempre Não respondeu Total Quantidade 12 7 1 0 20 % 60% 35% 5% 0% Tabela 13.1: Com que freqüência você vai a exposições ou feiras? Respostas Às vezes Nunca Sempre Total Quantidade 13 4 3 20 % 65% 20% 15% Já em relação aos meios de comunicação mais utilizados, comprovamos a presença da televisão na vida dos alunos. Além disso, esta parece ser a principal fonte de informação para os discentes: Tabela 13.2: Com que freqüência você assiste a televisão? Respostas Sempre Às vezes Não respondeu Nunca Total Quantidade 16 3 1 0 20 % 80% 15% 5% 0% 142 Tabela 14: Como se mantém informado sobre assuntos da atualidade? Respostas Televisão Rádio Conversas com parentes, amigos e colegas Reuniões na Igreja Internet Jornal Total Quantidade 18 6 4 4 4 3 39 % 46% 15% 10% 10% 10% 8% Sabemos que a diversificação na utilização destas fontes contribui para a construção das capacidades de leitura, segundo o Relatório do INAF/2005 (p.26): A televisão e o rádio confirmam ser as fontes mais populares, que atingem também os que têm nível de alfabetização mais baixo. Mas as pessoas que buscam mais de uma fonte de informação são as que demonstram melhor desempenho de leitura, assim como as que costumam ler mais de um gênero de livro, já foram a mais de um tipo de biblioteca. A possibilidade de acessar diversas fontes e formas de conhecimento se revela como uma condição necessária para promover a compreensão e a capacidade de operar com a informação. Outro fator relevante é que, atualmente, o computador se constituiu como uma ferramenta fundamental, tanto para a construção de diversos “tipos” de letramento, quanto para a aprendizagem escolar. Nesse sentido, embora a escola131 não possua laboratório de informática, poderia elaborar um projeto de inclusão digital e solicitar à SME/ Cuiabá132 alguns computadores que poderiam ser utilizados pedagogicamente. Reconhecemos, ainda, que as questões socioeconômicas se refletem no acesso e uso do computador, afetando também a participação dos alunos em cursos de educação continuada: 131 A escola possui 02 computadores: um é utilizado para os serviços administrativos e outro para que os professores possam fazer pesquisas. 132 Atualmente, a prefeitura está disponibilizando, através de valores simbólicos, um computador para cada professor efetivo da rede municipal, desde que esteja atuando em sala de aula. 143 Tabela 15: Atividades fora da escola (participação em cursos) Respostas Quantidade Não 13 Sim 7 Total 20 % 65% 35% Essa realidade também parece nos dados do INAF/2005 (p. 21): A realização de cursos, para além do ensino formal, também é um fator potencial de promoção das habilidades de leitura e escrita. A educação continuada é um setor em que os países desenvolvidos têm feito grandes investimentos, conscientes de que, na sociedade contemporânea, é essencial renovar constantemente os conhecimentos. Segundo o INAF, a freqüência a cursos vem aumentando lentamente, mas ainda é uma prática muito restrita. Em face ao exposto, os dados acerca do letramento não escolar dos alunos pesquisados nos mostram que antes da escolarização formal, os discentes foram iniciados em diversas práticas de letramento; os pais, independente do nível de escolaridade, estão exercendo influência na formação leitora de seus filhos; grande parte dos alunos, em seu tempo livre, gosta de ler e produzir textos. Contudo, ao analisarmos as práticas não escolares vivenciadas pelos alunos, comparando-as com as que ocorrem na unidade escolar, temos a impressão de que as primeiras não estão sendo aproveitadas, satisfatoriamente, como elemento fundamental para a construção de outros tipos de letramento e, muito menos, no processo de ensino-aprendizagem das capacidades de leitura, talvez até por desconhecimento de como isso pudesse ser utilizado em sala de aula. A seguir, veremos como esses pressupostos se configuraram ou até mesmo afetaram os resultados obtidos através do instrumento avaliativo acerca das capacidades de leitura. 144 5.2 O diagnóstico das capacidades de leitura e o processo de letramento escolar Conforme destacamos, anteriormente, grande parte dos alunos pesquisados demonstrou que gosta de ler, principalmente, histórias em quadrinhos e, além disso, possui livros em casa. Observamos, ainda, que o nível de escolaridade das mães133 tem contribuído positivamente para estimular o interesse das crianças pela leitura, enquanto fonte de fruição. Por outro lado, parece-nos que não há muita diversificação nas práticas de leitura desenvolvidas em sala de aula, à exceção do “momento da leitura livre”, instituído por iniciativa da profª. Marta, o que predominam são as atividades de cópia e leitura oral, típicas do modelo de letramento escolar adotado pela unidade escolar134, as quais não irão contribuir para resolver os problemas de interpretação de texto demonstrados pelos discentes no instrumento avaliativo. A realização, uma vez por semana, de atividades em grupo para a socialização de algumas leituras feitas pelos alunos (o momento da leitura prazerosa), parece não ser suficiente para garantir a construção das capacidades de leitura, mesmo para leitores iniciantes. Isso ocorre, conforme já mencionamos, porque o tratamento didático dado aos textos não consideram as relações discursivas que se instauram durante o ato de ler, nem os aspectos inerentes ao gênero discursivo selecionado para a leitura. Diante do exposto, iremos analisar o desempenho dos alunos quanto às capacidades de leitura expressas, tanto no Projeto Político Pedagógico (PPP), quanto na ficha avaliativa/ Dossiê Acadêmico. Ressaltamos, ainda, que as habilidades verificadas são equivalentes às que os discentes deveriam apresentar após ter cursado os três anos do 1º Ciclo, no início 133 Lembramos que 55% das mães estão cursando ou concluíram o Ensino Médio e segundo o INAF/2005, o nível pleno de Alfabetismo só é majoritário (57%) entre pessoas que concluíram este nível de escolaridade. 134 O Projeto Político Pedagógico da escola pesquisada está fundamentado, principalmente, nos ideais de Paulo Freire, portanto, as atividades educativas desenvolvidas deveriam contemplar os pressupostos do Letramento Crítico. No entanto, notamos, ainda, a forte presença do modelo autônomo de letramento. 145 do 2º Bimestre/ 4º ano. Assim, não constituíam algo complexo ou “inatingível”, acima do nível cognitivo de crianças na faixa etária e dos 9 a 10 anos. Além disso, o instrumento foi aplicado pela própria professora da sala, a fim de deixar os educandos mais à vontade, sem gerar qualquer tipo de tensão, comum às situações formais de avaliação. De modo geral, a maioria dos alunos acertou acertou mais de 50% das questões, fato este que, à primeira vista, poderia ser considerado como um bom desempenho. Todavia, somente ao analisarmos as relações entre erros, acertos e capacidades de leitura, poderemos ter uma visão mais ampla da situação. Esclarecemos, larecemos, novamente, que mesmo as respostas classificadas como parciais135 foram consideradas no processo de análise, sendo que, nos Anexos, disponibilizamos um quadro síntese, no qual estão marcadas as questões que obtiveram respostas parciais, corretas e/ou e/ou erradas, o que permitirá ao leitor visualizar melhor os índices alcançados em cada um desses itens: Gráfico 1. Média de acertos dos alunos na resolução das questões: 135 Consideramos parciais as respostas que não contemplaram todos os aspectos solicitados nos enunciados das questões. 146 Ao analisarmos o gráfico acima, constatamos que as questões nas quais os educandos obtiveram maior êxito podem ser divididas em 04 grupos: • 1º grupo - as que avaliam a habilidade de caracterizar personagens a partir de descrições apresentadas, de ações por elas realizadas ou do modo como se expressam (nº 07 e nº 20). a) Verificamos que todos os alunos acertaram a questão nº 07, o que parece indicar contatos anteriores com a leitura de fábulas, ou mesmo de contos de fada, nos quais a raposa, geralmente, simboliza a astúcia e a inteligência. b) Já na nº 20, acreditamos que o interesse demonstrado pelos alunos em relação ao gênero história em quadrinhos, contribuiu bastante para a aquisição da citada habilidade. • 2º grupo - as que se referem à habilidade de identificar informações relevantes para a compreensão do texto (nº 04, 06 e 15); a) A média de erros foi mínima, por exemplo: a nº 04 e a 06 alcançaram 5%, cada uma; a nº 15, ficou com 15%; b) Apenas 03 alunos, os que tiveram desempenho abaixo de 50%, marcaram a opção errada na questão nº 15; fato este que nos causou estranheza, visto que o texto base era uma tirinha, gênero muito utilizado na escola pesquisada e que está presente em grande parte dos livros didáticos. • 3º grupo: focalizam a habilidade de mobilizar conhecimentos prévios para auxiliar no processo de atribuição de sentido ao texto (Nº 01, 10 e 11), sendo que 90% dos educandos marcaram a alternativa correta, fato este que parece demonstrar certo conhecimento acerca das histórias da Turma da Mônica. a) Destacamos que dentre as respostas dadas à questão nº 01, oito foram consideradas como parciais, uma vez que alguns alunos não souberam citar títulos de fábulas escritas por Esopo; 147 b) Quanto à nº 10, a maioria dos discentes demonstrou dificuldade para falar sobre o autor (Maurício de Souza), limitando-se a comentar sobre os personagens136. Exemplos: 1. AC (9anos): Eu conheço que ele fabrica gibi. 2. ID (anos): Eu sei que a Monica e o Cebolinha brigam muito. 3. MV (anos): A Monica vive batem em Cebolinhia e Cascão, Magali vive comemdo. • 4º grupo: avaliam a habilidade de perceber a coesão estabelecida no texto por meio de pronomes, sinônimos, advérbios e da ordem das palavras na frase (Nº 08 e 18). É interessante perceber que grande parte dos discentes pesquisados já reconhece alguns dos mecanismos de coesão, visto que essa habilidade será muito útil nas atividades de produção textual e de análise lingüística. Entretanto, embora 75% dos alunos tenham demonstrado a citada habilidade, percebemos que estes estavam inseguros, uma vez que marcaram várias opções e depois apagaram, deixando apenas a correta137. Isso indica que essa habilidade precisa ser retomada pela professora, através de atividades nas quais os alunos possam perceber, também, o valor dos elementos coesivos no processo de atribuição de sentido. Em face dessas reflexões, podemos constatar que a maioria das questões, nas quais os alunos obtiveram êxito, está diretamente relacionada à capacidade de compreensão (estratégias de leitura), o que pode ser visto como positivo, pois indica um avanço na prática pedagógica da profª. Marta. Todavia, lembramos que somente o domínio das estratégias de leitura não é suficiente para garantir a compreensão ativa e estimular a formação de leitores críticos, conforme já discutimos no Capítulo 2. 136 Ainda que alguns alunos não tenham falado sobre o autor, somente sobre os personagens, essas respostas também foram consideradas corretas, pois houve a mobilização do conhecimento prévio. Nesta questão, verificamos 06 respostas parciais, 09 corretas e 05 erradas. 137 Encontramos sinais desses procedimentos, pois, nesta fase, os alunos “apertam” o lápis para escrever e mesmo quando apagam o que estava escrito, as marcas permanecem. 148 5.2.1 Um olhar exotópico acerca dos “erros” dos alunos pesquisados do as relações interpessoais entre os sujeitos de pesquisa (professora e Considerando equipe gestora da escola) e a pesquisadora, torna-se torna se necessário esclarecer que as observações e comentários, aqui registrados, têm como foco fornecer elementos para a reflexão crítica acerca do trabalho desenvolvido pela unidade escolar, a fim de melhorar a qualidade do ensino oferecido. Nesta perspectiva, entendemos os problemas detectados como parte do processo de ensino-aprendizagem, aprendizagem, fundamentais tanto para a realização de um diagnóstico diagn concreto em relação às dificuldades de leitura, quanto para a sistematização de propostas de intervenção didática. Isto posto, passaremos a analisar as questões com maior média de erros, refletindo sobre as causas e tentando encontrar algumas soluções. soluçõ Contudo, as maiores dificuldades parecem se concentrar em algumas perguntas que tinham como base uma tirinha, gênero este que, conforme comentamos há pouco, pertence ao cotidiano dos alunos fora do ambiente escolar e que também aparece, com muita freqüência, ência, nos livros didáticos. Como exemplo, destacamos a questão nº 14138 (95% de erros): Leia a tirinha abaixo: 14. Qual o objetivo do Cebolinha ao propor à Mônica que resolvessem suas diferenças “com um tabuleilo de xadlez”? xadlez” 138 A tirinha da Turma da Mônica serviu como texto base para responder as questões de nº 12, 13, 14 e 17. 149 Apenas um aluno respondeu satisfatoriamente, sendo que os demais não conseguiram inferir qual era a real intenção do Cebolinha ao propor à Mônica que jogasse xadrez com ele. Alguns exemplos: 1. JT (anos): Os dois não semhentenderam. 2. JV, JA, PD e WM: Para jogar xadrez. 3. ID: Bateu nele. 4. MP: Para mudar de pancada e não bater mas de ursinho. 5. PJ: A Monica ficol patendo na capeça do Cebolinha. Desse modo, podemos observar que 95% dos discentes pesquisados demonstraram sérias dificuldades para compreender a unidade temática do texto lido, mesmo que este pertença a gêneros discursivos do seu cotidiano. Além disso, esta questão também abarca outro aspecto: a produção de inferências acerca do que está implícito no texto, como meio para auxiliar no processo de compreensão ativa. Entretanto, não esperávamos que os alunos tivessem tanta dificuldade quanto à leitura de tirinhas, pois os dados coletados junto à equipe gestora parecem indicar que este é um gênero comumente trabalhado na escola. Os dados coletados atestam que o fato de os alunos estarem familiarizados com um determinado gênero (fábula, tirinha e história em quadrinhos), na prática, não garante a compreensão dos sentidos ali concentrados. Este fato torna ainda mais relevante o processo de ensino-aprendizagem da leitura e da escrita, no qual a escola deveria assumir seu papel como agência “fomentadora” de diversos tipos de letramento, ampliando as possibilidades de aprendizagem dos alunos. Verificamos que o gênero tirinha está presente nos livros didáticos utilizados pelos docentes da unidade pesquisada, desde o início do processo de alfabetização. Logo, embora este seja considerado complexo, se a escola organizasse a prática pedagógica, na área de Língua Portuguesa, a partir dos gêneros discursivos, certamente, os problemas encontrados pelos alunos na resolução das questões seriam menores. Nessa perspectiva, surge a necessidade da organização de programas consistentes para a formação continuada dos professores que atuam a partir das séries iniciais; programas estes que, de fato, instrumentalizem os docentes a trabalharem com os 150 gêneros discursivos e não apenas com enfoque em suas formas composicionais, o que também não irá garantir a apreensão/construção dos sentidos possíveis e nem a formação do leitor proficiente. A seguir, comentaremos a respeito das demais questões: a) Questão nº 17 (85% de erros): 17. No 2º quadrinho, algumas palavras usadas pelo Cebolinha aparecem em negrito (estão mais escuras que as outras): “PELAÍ, LESOLVER e DIFELENÇAS”. Em sua opinião, o autor usou esse recurso para mostrar que o Cebolinha: a) ( ) queria que a Mônica parasse para escutá-lo, assim ele poderia convencêla a desistir de bater nele. b) ( ) queria assustar a Mônica. c) ( ) queria convidá-la para jogar xadrez. d) ( ) queria demonstrar que não tinha medo dela. Após constatarmos que os discentes não reconheceram a unidade temática implícita na tirinha, tornou-se compreensível que também demonstrassem dificuldade para resolver a referida questão: a maioria dos alunos marcou a alternativa c, pois acreditaram que o Cebolinha realmente estava com vontade de jogar xadrez. Este é mais um indício de que a leitura feita pelos alunos foi superficial e que o trabalho realizado em sala deveria explorar os textos enquanto gêneros que circulam em determinadas esferas de atividade humana139, inseridos em práticas sociais de leitura ou escrita. Assim, como a escola pode cobrar dos alunos a habilidade de reconhecer o efeito de sentido de recursos gráficos como cores, fonte, tamanho e formato de letras, imagens, etc., uma vez que os enunciados não são explorados como um todo em sala de aula?140 Lembramos, ainda, que essa habilidade consta no Dossiê Acadêmico utilizado pela unidade pesquisada. Há, ainda, outro aspecto que nos incomodou: Por que alunos, leitores de gibis, nos quais circulam histórias em quadrinhos e tirinhas, apresentaram sérios problemas na leitura desses gêneros? 139 Temos a impressão de que não é prática comum na escola pesquisada o fato de considerar o suporte textual como elemento que contribui para o processo de atribuição de significado. 140 Esses recursos gráficos são muito utilizados em tirinhas e histórias em quadrinhos. 151 Com isso retomamos a importância de se tratar a leitura como objeto de ensino, visto que, apenas proporcionar o contato com gêneros diferentes (fábula e tirinha como parece que foi feito em nosso locus de pesquisa) ou a familiarização com textos de um determinado gênero (histórias em quadrinhos - em eventos de letramento fora da escola) não é suficiente para garantir a apreensão/construção dos sentidos. Sabemos que o instrumento foi aplicado com tranqüilidade, sem causar estresse ou qualquer tipo de pressão e, por isso, acreditamos que o problema detectado serve para despertar nossa atenção em relação ao equívoco implícito na expressão – “aprende-se a ler, lendo”. Parece-nos que, sem a mediação pedagógica adequada, há o risco de que o significado construído se vincule somente à estrutura superficial do texto, sem possibilitar aos educandos o exercício da compreensão ativa e criadora, “bakhtinianamente” falando. b) Questão nº 12 (70% de erro, sendo que apenas 6 alunos responderam satisfatoriamente): 12. No 2º quadrinho, aconteceu algo inesperado. O que foi? Inicialmente, tínhamos a impressão de que essa questão não traria dificuldades para os alunos, pois estes poderiam mobilizar a habilidade de identificar informações relevantes para a compreensão do texto. No entanto, os discentes também deveriam relacionar a imagem ao texto verbal e isso causou um problema: • 75% não conseguiram responder adequadamente, restringindo-se à descrição da cena, sem refletir sobre a sua relação com o todo da história: 1. GV (anos): O Cebolinha queria fazer a nova amisade. 2. JT (anos): O Cebolinha vai conversar com a Monica. 3. JV (anos): Falou diferente, inteligente. 4. AJ (anos): O Cebolinha parrou a Monica e falo não é melhor Bater com o jogo de xadrez. 5. AC (anos): Ele parol e valou Monica me perdoe e ela valou tabom. 152 As respostas de AJ e AC parecem demonstrar uma tendência dos alunos a dar continuidade à história (produção de texto), o que pode revelar que esta é uma atividade comum em sala e que os discentes interpretaram a questão nº 12 da mesma forma. Todavia, se lembrarmos que não houve a compreensão da unidade temática, conseqüentemente, a citada pergunta também seria afetada. c) Questão nº 13 (40% de erro): 13. Observe a expressão da Mônica no 3º quadrinho, você acha que ela concordou totalmente com a sugestão do Cebolinha? Justifique. Mesmo que a porcentagem de erro tenha ficado abaixo de 50%, a análise da questão acima apenas nos fornece mais indícios a respeito da dificuldade que os alunos demonstraram para ir além dos aspectos explícitos no texto, uma vez que das 12 respostas ditas como “corretas”: 10 foram consideradas parciais141 e apenas 02 como satisfatórias. Isso merece destaque, afinal esta é uma das habilidades primordiais para a leitura de tirinhas (reconhecer a relação entre texto e imagem verbal na atribuição de sentido) e, como os discentes pesquisados são leitores iniciantes, acreditamos o trabalho didático com o citado gênero deve ser considerado, também, a partir de uma visão de ensino-aprendizagem em espiral, de modo que ao longo do processo de escolarização, os estudantes possam compreender ativamente o que estão lendo. Destacamos, também, que a vivência dos educandos, fora do ambiente escolar, deve ser o ponto de partida para “novas leituras” e o professor possui um papel muito importante nesse processo, visto que ele é o mediador mais experiente, aquele que deve criar situações nas quais seja possível o aprofundamento e a ampliação do olhar acerca dos aspectos discursivos presentes no texto. Vejamos alguns exemplos de respostas dadas pelos alunos: 1. VS (anos): Ela não concordo porque ela tavan jogando até o Sebalia sair correndo. 141 Vários alunos escreveram “não”, sem justificar quais os elementos que subsidiavam a resposta dada. 153 2. WM (anos): Sim. 3. JT (anos): Não, ela não concordou. 4. GV (anos): Sim por que ele concordou a amizade. 5. MP (anos): Sim porque no quarto quadrinho mostra ela com um tabuleiro. 6. ID (anos): É a cara dela. Já entre os que justificaram a resposta, verificamos verificamos que alguns o fizeram com base na expressão do rosto da Mônica e outros utilizaram a seqüência de fatos da história. Outro fator que merece destaque se refere à sistematização escrita das respostas, pois, como podemos observar, poucos alunos conseguiram registrar registrar suas idéias de modo claro e objetivo, considerando o leitor virtual, fato este que pode indicar a existência de problemas quanto à produção de texto. d) Questão nº 02 (55% de erro): 2. A intenção do autor ao escrever esta fábula foi: a) ( ) falar sobre a briga entre o leão e o urso. b) ( ) mostrar a esperteza da raposa. c) ( ) alertar os leitores a respeito de pessoas que gostam de levar vantagem sobre os outros. d) ( ) mostrar que devemos ter cuidado ao andar pela floresta. nero fábula está previsto como conteúdo a ser trabalhado Considerando que o gênero desde o 1º Ciclo, que o mesmo é muito utilizado pelos docentes por ser um texto de curta extensão e que este também aparece com certa recorrência nos livros didáticos, pensamos que os discentes não apresentariam apresentariam muitas dificuldades no processo de interpretação, principalmente porque, antecedendo à questão, havia um texto informativo que poderia ser utilizado para auxiliar na resolução: • Saiba mais sobre as Fábulas de Esopo: A fábula é uma das mais antigas an maneiras de se contar uma história. O autor grego Esopo usava muitos bichos como personagens de suas fábulas, como tartarugas, lebres, raposas, formigas e cigarras. Através das histórias ele criticava os valores da sociedade de sua época, para mostrar mostrar o que é certo e o que é errado. (Fonte: http://criancas.uol.com.br/historias/fabulas/esopo.jhtm http://criancas.uol.com.br/historias/fabulas/esopo.jhtm) 154 No entanto, vários alunos marcaram a opção b, uma vez que não conseguiram compreender a unidade temática do texto lido. Em face do exposto, ressaltamos, novamente, a importância de utilizar os gêneros discursivos142 como objeto de ensino, como forma de situar o texto sócio-historicamente, reconhecendo as relações dialógicas que o permeiam. Ainda que nossas reflexões possam trazer certo nível de complexidade a uma questão, aparentemente simples, que seria a de “entender qual a intenção do autor”, sabemos que a mobilização de várias capacidades143 para responder a uma determinada situação-problema, não se constitui como um desafio cognitivo insuperável para discentes do 4º ano de qualquer escola, desde que as mesmas estejam adequadas ao nível de desenvolvimento esperado para determinada faixa etária (de 9 a 10 anos, no caso dessa pesquisa). No cerne dos problemas detectados, encontramos as capacidades de leitura que deveriam ser ensinadas nas escolas, pois são inerentes ao processo de compreensão ativa e necessárias para a formação do leitor proficiente. Assim, nesse aspecto, concordamos com Kleiman (1996: p: 94): Para criar condições para o aluno paulatinamente ir desenvolvendo sua capacidade de perceber a relação entre a função do elemento textual e a intencionalidade, é importante um trabalho de conscientização lingüística crítica. Isto é, não é suficiente analisar como a linguagem funciona, mas também como a linguagem está a serviço das intenções do autor. A tarefa é complexa, mas pode ser facilitada fornecendo exemplos de análise que ajudarão ao aluno a perceber elementos que depois ele passará a perceber em outros textos. e) Questão nº 03 (50% de erro): Como você pode perceber, toda fábula traz uma mensagem para reflexão: a moral da história. Vamos relembrar a moral da história que acabamos de ler: “Algumas vezes acontece de alguém fazer todo trabalho pesado e outro levar todo o lucro.” 142 De acordo com nossos dados, parece-nos que a professora não trabalha na perspectiva dos gêneros e, desse modo, pensamos que os 45% de alunos que acertaram a questão, o fizeram a partir do texto informativo. 143 No que se refere à questão nº 2, os alunos deveriam recorrer às seguintes habilidades: Utilizar informações oferecidas por textos de outros gêneros (informativo), a fim de compreender a unidade temática e interpretar com base no texto, inferindo uma idéia implícita nele. 155 a) O que você pensa sobre a frase acima? Como isso pode ser aplicado à sua vida? Embora a questão acima possa ser classificada como “de resposta pessoal”144, constatamos a dificuldade dos educandos para elaborarem apreciações valorativas, posicionando-se e estabelecendo relações entre o conteúdo temático do texto lido e as situações vivenciadas no cotidiano (somente dois alunos responderam a questão de modo, relativamente, satisfatório): 1. EJ (anos): Sim. Você trabalha pesado aí depois outra pesoa levar o lucro isto é errado não pode deixar augem lucrar no trabalho pesado que você faz. 2. MP (anos): Eu penso que ningem deve pegar as coisas dos outros sem pedir. Pode ser explicado como roubar ou furtar as coisas. Percebemos que os dois avaliam o tema da fábula em sua dimensão ética, tentando situar a moral da história de acordo com suas experiências de vida. Dentre os 10 alunos que acertaram a questão, 8 o fizeram parcialmente, já que não conseguiram explicitar, objetivamente, a relação entre o conteúdo temático do texto e a sua vivência, fazendo com que inferíssemos qual o seu posicionamento diante do tema abordado. Exemplos: 1. WM (anos): porexempro quando eu pego uma água e algem vai e bebe a minha água e acho ruim. 2. ID (anos): Eu acho que é errado uma pessoa fazer o trabalho pesado e outra levar todo o tuclo. - (vários discentes apenas comentaram que “acham errada esse tipo de atitude”). 3. PJM (anos): Eu penso que isso pode ser uma boa lição. E que isso pode ser aplicado na minha vida como uma lição. 144 Foram consideradas todas as respostas nas quais os alunos expressavam seu posicionamento, tentando avaliar eticamente a situação proposta. 156 Percebemos que 50% educandos se limitaram a repetir a moral da fábula, sem definir um posicionamento e, às vezes, escrevendo frases, aparentemente, sem sentido. Exemplos: 1. JT (anos): A frase ai em cima dis que agem tem que faz todo o trabalo e as pessoas leva o lugro. 2. JA (anos): Eu penso que esse homem pega um bichinho Só pra fazer essa voz. Eles mesmo pega o gato dele a arara e faz. 3. TX (anos): Tem a vem com a minha vida. 4. MV (anos): quando nois faz o trabalho duro e os outros que levam todo o lucro. Ao relacionarmos os resultados das questões nº 2 e 3, podemos constatar que as causas das dificuldades demonstradas pelos educandos, conforme já discutimos, parecem estar relacionadas ao fato de que as práticas de leitura realizadas na escola ainda se fundamentam, de modo geral, no modelo autônomo de letramento. Por isso, deixam de considerar aspectos importantes, tais como, as relações dialógicas existentes entre os elementos (conteúdo temático, estrutura composicional e estilo) que constituem o “todo” discursivo que se “materializa” como texto, pertencente a um determinado gênero discursivo. Diante disso, verificamos que 55% dos alunos pesquisados não conseguiram reconhecer a unidade temática, tanto da fábula quanto da tirinha, gêneros comuns nas séries iniciais e no processo de letramento não escolar de grande parte dos discentes. Isso indica a necessidade urgente de se repensar o processo de ensinoaprendizagem de leitura, afinal, se este tem como função contribuir para a formação do leitor crítico, parece-nos que há sérios problemas no percurso entre os objetivos educacionais e a prática, efetivamente, desenvolvida em sala de aula. Lembramos, novamente, que os resultados aqui expostos apenas fornecem indícios acerca do trabalho desenvolvido pela profª. Marta, pois não tivemos oportunidade de observar as aulas por ela ministradas. Outro fator relevante diz respeito ao período de coleta de dados, que ocorreu no início do 2º Bimestre. Logo, mais do que as práticas de leitura vivenciadas em 2007, os dados mostram como foi o processo de escolarização dos discentes pesquisados, ou seja, expõem a práxis implementada nos anos anteriores (durante o 1º Ciclo) e, além disso, desvelam a distância existente entre esta e a Proposta Político Pedagógica da unidade escolar. 157 5.3 A formação do leitor e o letramento escolar O processo de reflexão, acerca dos acertos e erros dos alunos, contribuiu para percebermos quais as habilidades que ainda não estão consolidadas e precisariam ser retomadas, quais alunos apresentaram mais dificuldades e em quais situações isso ocorreu, ou seja, permitiu que fizéssemos um diagnóstico detalhado das capacidades de leitura avaliadas. Isto posto, mesmo diante dos problemas detectados, podemos afirmar que a maioria dos discentes obteve um desempenho, relativamente satisfatório, pois das 12 habilidades avaliadas, em 07 a média alcançada foi superior a 50%. Vejamos o gráfico: Gráfico 2. Média de habilidades de leitura demonstradas Média de habilidades de leitura demonstradas Hb1 Hb2 Hb3 Hb4 Hb5 Hb6 Hb7 Hb8 Hb9 Hb10 Hb11 Hb12 Total Ressaltamos que o índice foi maior em habilidades relacionadas à capacidade de compreensão (estratégias de leitura), a saber: • Nº 01 (75%): Identificar informações relevantes para a compreensão do texto (fábulas, texto informativo, verbete de dicionário, tirinhas e histórias em quadrinhos). • Nº 02 (85%): Mobilizar conhecimentos prévios para auxiliar no processo de atribuição de sentido ao texto. 158 • Nº 03 (85%): Utilizar informações oferecidas por um verbete de dicionário, glossário ou texto informativo na compreensão do texto. • Nº 07 (75%): Perceber a coesão estabelecida no texto por meio de pronomes, sinônimos, advérbios e da ordem das palavras na frase. • Nº 09 (85%): Reconhecer causas e conseqüências de determinados fatos. Ressaltamos, nesse momento, a presença das estratégias de leitura como algo positivo, uma vez que também são necessárias para a formação do leitor proficiente. Contudo, temos de enfatizar que estas não são suficientes para a construção da compreensão ativa e, conseqüentemente, para que ocorra a interpretação do texto. Constatamos que apenas uma das habilidades referentes à capacidade de compreensão obteve média abaixo de 50% (reconhecer a unidade temática do texto, com 45%), fato este que expõe a fragilidade do ensino ministrado em nosso locus de pesquisa, visto que os gêneros selecionados para a avaliação estão presentes, tanto no universo do cotidiano (HQ), quanto nas práticas escolares (fábula e tirinha). Diante desses pressupostos, podemos inferir que o modelo de letramento adotado pela escola pesquisada não está contribuindo, significativamente, para a formação do leitor crítico, uma vez que parece deixar de lado habilidades importantes para a efetivação desse processo, tais como: • Reconhecer a relação entre imagem e texto verbal na atribuição de sentido ao texto (nº 8, com média de 15%). • Interpreta com base no texto, inferindo uma idéia implícita nele (nº 10, com média de 45%). • Reconhecer o efeito de sentido de recursos gráficos como cores, fonte, tamanho e formato de letras, imagens, etc. (nº 11, com média de 5%). • Elaborar apreciações relativas a valores éticos e/ou políticos (nº 12, com média de 30%). Todavia, ainda em relação à capacidade de apreciação e réplica, encontramos as habilidades: 159 a) Caracterizar personagens a partir de descrições apresentadas, de ações por ela realizadas ou do modo como se expressam (nº 06, com 90%, maior índice alcançado na avaliação). Acreditamos que esse resultado seja fruto do letramento não escolar, uma vez que nos gêneros HQ e tirinhas, geralmente, as características dos personagens são inferidas pelo leitor a partir das ações por eles realizadas ou pelo modo como se expressam. b) Relacionar as características textuais do gênero e os indicadores de suporte ao sentido atribuído ao texto (nº 07, na qual os alunos alcançaram 55%). Mesmo que a média esteja acima de 50%, constatamos que a citada habilidade ainda está em processo de construção, pois os alunos demonstraram muita dificuldade na resolução das questões 17 e 19 (com 85% e 45% de erro, respectivamente), à exceção da nº 11 (com 90% de acerto) e, novamente, nesse caso, observamos a contribuição da leitura não escolar de HQ e tirinhas: a pergunta nº 11 recupera o enredo das histórias da Turma da Mônica e a nº 19, as funções de determinado tipo de balão. Considerando o fato de que os alunos do 4º ano pesquisado são leitores em formação (e iniciantes), enfatizamos a importância desses resultados, uma vez que estes reforçam a necessidade tanto da realização de diagnósticos acerca do processo de ensino-aprendizagem de leitura, quanto da mediação pedagógica, visto que os discentes avaliados ainda apresentam problemas para reconhecer a unidade temática, habilidade esta essencial para a interpretação de qualquer gênero discursivo. Nesse sentido, pensamos que a escola deve ser organizar para implementar uma proposta de ensino de leitura que as necessidades de todos os discentes, afinal, uma das metas do processo de escolarização é a de possibilitar a formação do leitor proficiente. Logo abaixo, estudaremos o desempenho individual de alguns educandos, com o objetivo de exemplificar melhor as situações observadas: 160 1) PJM (9 anos, 92% de aproveitamento/ habilidades demonstradas): • Os pais de PJM possuem curso superior incompleto e sua mãe exerceu grande influência no desenvolvimento de seu gosto pela leitura; • Em período anterior ao de sua alfabetização, além de sua mãe, outros familiares também costumavam ler para PJM; • O aluno gosta de ler revistas sobre jogos (videogame e computador), televisão, fofocas ou de informação; gibis, livros infantis e didáticos; a Bíblia. Assim, como podemos constatar, PJM (fora do ambiente escolar) não só tem acesso, mas lê uma boa diversidade de gêneros discursivos; • Além disso, fora do espaço escolar, ele costuma escrever histórias reais ou inventadas; • Utiliza computador todos os dias e, de vez em quando, vai à biblioteca145, ao cinema e ao teatro; possui de 15 a 50 livros em casa; a televisão e a internet são suas principais fontes de informação. Quanto às atividades que realiza na unidade escolar, PJM citou146: • Copiar matérias, textos e exercícios do quadro negro; • Copiar textos dos livros; • Fazer redação ou trabalhos; • Responder a questionários ou fazer exercícios; • Escrever textos ditados pelo professor; • Participar de debates ou discussões; • Fazer perguntas de esclarecimento ao professor; • Consultar quadros de horários; • Estudar e preparar-se para provas e avaliações; • Participar de reuniões para tomar decisões. Investigamos, também, os registros avaliativos do aluno e verificamos que todas as habilidades elencadas no Dossiê Acadêmico aparecem marcadas com a sigla EC 145 Tanto para ler como para consultar ou retirar livros. 146 Percebemos que o aluno não assinalou a leitura em voz alta. 161 (em construção), desde o 1º até o 4º Bimestre147. Talvez este tenha sido o meio utilizado pela professora para não se “comprometer”, ou seja, como não possuía segurança para avaliar os discentes a partir dos critérios presentes no referido documento, optou por registrar, do mesmo modo, o desenvolvimento de todos. Contudo, ao analisarmos os resultados obtidos por PJM, inferimos que: a) O discente já havia construído várias das habilidades avaliadas em nossa pesquisa, as quais, em sua maioria, também compõem o mencionado dossiê (exemplo: identifica informações relevantes para a atribuição de sentido, mobiliza conhecimentos prévios, entre outras); b) A habilidade de reconhecer o efeito de sentido de recursos gráficos (cores, fonte, tamanho e formato de letras, imagens, etc.) em textos dos gêneros HQ e tirinhas, precisa receber atenção especial, pois das três questões a ela relacionadas, o educando respondeu parcialmente a nº 13, errou a nº 17 e acertou apenas a nº 19; c) Quanto à habilidade de elaborar apreciações relativas a valores éticos e/ou políticos, permanecem as dificuldades, pois o aluno respondeu parcialmente a questão nº 3; d) As habilidades de reconhecer o efeito de sentido de recursos gráficos e relacionar imagem e texto verbal na atribuição de sentido parecem estar em processo de construção (a questão nº13 também foi respondida parcialmente). 2) TX (11anos, não obteve nenhum aproveitamento/ habilidades demonstradas): • Ainda que tenha acertado algumas questões, estas não foram suficientes para “constituir” nenhuma das habilidades avaliadas. • A mãe possui Ensino Médio completo, sendo que o incentivo à leitura não foi motivado pela família e, sim, por um professor, pois, segundo informações do 147 De acordo com informações obtidas em outubro/2007, através da diretora da unidade escolar, o fato se repetiu nos dossiês de todos os demais alunos do 4º ano. 162 aluno, antes que ele aprendesse a ler, não havia ninguém que fizesse isso para ele. • Tem a Bíblia como leitura preferida e, de vez em quando, também lê revistas sobre (fofocas/ televisão) e jornais. Desse modo, chamou-nos a atenção o fato de que o aluno não mencionou nenhum dos materiais de leitura, mais comuns, na fase da infância (livros infantis e gibis); o que nos leva a inferir que TX tem pouco acesso a texto de diversos gêneros; • As atividades de produção escrita que realiza, fora da escola, são de cópia (receitas culinárias e letras de música); nunca utilizou o computador e possui menos de 10 livros. Além disso, nunca foi à biblioteca e nem ao teatro, sendo que a televisão, o rádio e as conversas com os amigos são as suas principais fontes de informação. • TX trabalha ajudando sua mãe a fazer pamonha para vender. Quanto às atividades que realiza na unidade escolar, TX citou148: • Copiar matérias, textos e exercícios do quadro negro; • Copiar textos dos livros; • Responder a questionários ou fazer exercícios; • Participar de debates ou discussões. Os registros avaliativos apresentados no Dossiê Acadêmico nos mostram que TX obteve um desempenho igual ao dos demais alunos, ou seja, todas as habilidades estavam marcadas como “em construção” (EC do 1º até o 4º Bimestre). No entanto, o discente foi encaminhado pela profª. Marta à Sala de Apoio, a fim de receber atendimento específico para resolver dificuldades de aprendizagem. Este fato fez com que refletíssemos, pois, de acordo com os dados oficiais da escola pesquisada, ambos (PJM e TX) apresentam desenvolvimento similar, no qual todas as habilidades estão em construção. Então, ousamos perguntar: por que TX foi indicado para a Sala de Apoio e PJM não? 148 TX também não assinalou a leitura em voz alta. 163 Diante dos dados dessa pesquisa, parecem óbvios os motivos pelos quais o aluno necessita de atendimento específico: TX não alcançou nenhuma das habilidades avaliadas em nosso instrumento149. Entretanto, essa realidade não poderá ser vista se tomarmos como objeto de análise somente o referido dossiê, o qual, oficialmente, deveria mostrar o desenvolvimento cognitivo do aluno: Tabela 16: Quadro de habilidades de leitura/ alunos - 4º ano ALUNO (A) H/1 H/2 H/3 H/4 H/5 H/6 H/7 H/8 H/9 H/10 H/11 H/12 Total % PJM x x x x x x x x x x - x 11 92% KK x x x x x x x x x x x - 11 92% MP x x x x x x x x x x 10 83% PD x x x x x x x x x x 10 83% JA x x x x x x x x x 9 75% LR x x x x x x x x x EJ x x x x x x ID x x x x x x x GV x x x x x x JV x x x x x x VS x x x x WM x x x x x x AJ x x x x x x x x KC x x x x MV x x x x JT x DC x AC x PJ TX % x x x x 0 0 0 0 0 75% 8 67% x 8 67% x 7 58% x 7 58% 7 58% 7 58% 6 50% x x x 6 50% x 6 50% x 6 50% x 4 33% x 3 25% x x 3 25% 0 0 0 0% x x x x x x 9 x 0 0 x 0 75% 85% 85% 45% 55% 90% 75% 15% 85% 45% 0 0 5% 30% Como podemos observar na tabela acima, cada um dos discentes avaliados demonstrou habilidades diferentes, as quais, ao serem analisadas minuciosamente, desvelaram níveis também diversos de aprendizagem, a saber, algumas habilidades já foram consolidadas e outras devem ser retomadas. Acreditamos que o processo de construção das capacidades de leitura deve ser mediado e acompanhado pelo professor e este deve estar atento à heterogeneidade do grupo de alunos com o qual trabalha. Esses procedimentos facilitarão a 149 Ele acertou as questões nº 4, 6, 7 e 8; respondeu parcialmente a 1 e a 9; errou a 2, 3, 5 e 10; deixou sem fazer da nº 12 até a 20. 164 implementação de estratégias didáticas mais eficientes na resolução das dificuldades de aprendizagem, em qualquer área do conhecimento. A distância entre os registros avaliativos oficiais e o desempenho real dos alunos traz sérios problemas para a rede municipal de Cuiabá, pois parece não se restringir somente ao nosso locus de pesquisa150. Isso acaba expondo a ineficiência do sistema avaliativo implantado na rede municipal de Cuiabá, afinal são as informações do Dossiê Acadêmico que serão utilizadas para nortear as políticas públicas de formação dos docentes. Além disso, demonstra também uma lacuna no processo de formação dos próprios assessores pedagógicos da SME/ Cuiabá, coordenadores pedagógicos e, conseqüentemente, dos professores que atuam em sala de aula. Em consonância com as demais pesquisas desenvolvidas acerca do letramento escolar, esta dissertação demonstra o impacto que a prática educativa fundamentada no modelo autônomo pode trazer para o sucesso e/ou fracasso do aluno em seu processo de escolarização. Lembramos que os jovens PJM e TX são exemplos clássicos dessa situação: • PJM parece possuir todos os recursos para construir vários tipos de letramento, pois em seu contexto sócio-cultural, tanto a leitura quanto a escrita são valorizadas. Porém, como as capacidades de leitura que constituem o que denominamos de leitor crítico não são construídas espontaneamente, o educando necessita que a escola atue nesse processo; • No caso de TX, temos a impressão que seu ambiente familiar não oferece estímulos para que se torne leitor e, além disso, a participação dele em outros tipos de evento de letramento parece ser muito restrita (uso de biblioteca, visitas a museus, teatros, cinemas, etc.). Esses fatores aumentam a responsabilidade da unidade escolar na formação leitora de TX e de outros discentes que, assim como ele, apresentam as mesmas condições sócioculturais. 150 Conforme mencionado no capítulo 2, em conversas informais com diversos diretores e coordenadores de escolas municipais, percebemos que a maioria dos docentes tem dificuldade para compreender a que se referem os indicadores avaliativos do Dossiê Acadêmico. 165 Nesse sentido, mesmo vivenciando realidades opostas, ambos se aproximam em um aspecto: dependem da escola para se tornarem leitores proficientes e, ao negarlhes isso, a referida instituição os condena a ser parte das estatísticas que circulam, atualmente, na sociedade brasileira (Prova Brasil, SAEB, Provinha Brasil), as quais afirmam que nossos alunos não entendem o que lêem e possuem um nível de letramento muito baixo. 166 Capítulo 6: Considerações finais Ao contrário das expectativas iniciais, o processo de coleta de dados e de elaboração desta dissertação se tornou um grande desafio para a pesquisadora, principalmente tendo em vista a proximidade entre esta e o contexto estudado. Afinal, durante 14 anos (1991-2004), atuamos na rede municipal de Cuiabá, ora como professora das séries iniciais, ora na função de assessora pedagógica, acompanhando as escolas e, muitas vezes, ministrando cursos de formação continuada aos docentes. Desse modo, para estabelecermos relações de alteridade com nossos sujeitos de pesquisa, tivemos de mudar o olhar institucional com o qual, até então, visualizávamos a realidade escolar, para tentar analisar os processos educacionais a partir do ponto de vista de nossos sujeitos. Esse “exercício exotópico” produziu efeitos interessantes, pois passamos a ver nosso papel na constituição do que hoje se tornou a rede municipal através das informações dos sujeitos pesquisados, ampliando nossa percepção sobre o modo como a escola nos vê e de como pensamos ser nossa imagem externa e, nesse aspecto, concordamos com Bakhtin (1952- 1953/ 1979: p. 27), pois: Podemos tentar imaginar a nossa própria imagem externa, perceber-nos de fora, traduzir-nos da linguagem da autosensação interna para a linguagem expressiva externa: nem de longe isso é fácil, requer um esforço inusitado; essa dificuldade e esse esforço não se parecem em nada com aquele que vivenciamos ao memorizarmos o rosto pouco conhecido e meio esquecido de outra pessoa; aqui não se trata de insuficiência da memória de nossa imagem externa, mas de certa resistência de principio que oferece a nossa imagem externa. Essa troca de posições sociais fez com que percebêssemos a real dimensão das mudanças ocorridas na rede municipal no período de 1994 a 2000, pois pudemos compreender, efetivamente, qual a nossa função nesse processo e as responsabilidades resultantes dessa ação. Assim, conforme mencionamos anteriormente, as críticas aqui tecidas se destinam a suscitar reflexões acerca do processo de letramento escolar e das práticas de 167 ensino-aprendizagem desenvolvidas pelos docentes em sala de aula, contribuindo para a melhoria da qualidade do ensino, pois os dados coletados, além de demonstrarem essa necessidade, indicam que a escola pesquisada necessita de auxílio externo para elaborar e implementar situações didáticas que favoreçam a construção das capacidades de leitura. Considerando que essa não é uma demanda localizada, ou seja, específica do nosso locus, acreditamos que a SME/ Cuiabá poderia se organizar para encontrar formas mais eficientes de articular avaliação, formação continuada e acompanhamento da prática educativa desenvolvida em sala de aula, a fim de que possamos visualizar melhorias concretas na qualidade do ensino oferecido pela rede municipal. Nessa perspectiva, verificamos que os dados coletados neste estudo apontam para problemas semelhantes aos detectados por outras pesquisas ou mesmo pelas avaliações oficiais realizadas pelo MEC (Prova Brasil e SAEB), a saber, os alunos conseguem apreender apenas os significados mais superficiais do texto e, por isso, apresentam dificuldade para utilizar a leitura, tanto em situações escolares, como não escolares. Portanto, reavaliar a função da escola no processo de formação de leitores críticos e criar mecanismos para que os docentes compreendam a importância de “ensinar leitura”, em uma sociedade na qual as práticas de letramento estão cada vez mais complexas, exigindo a construção de novas capacidades de leitura e/ou escrita, deveria se constituir como prioridade para todos os profissionais que atuam na área da Educação, principalmente nos Ensinos Fundamental e Médio. Todas essas questões apenas reforçaram nosso interesse em estudar o processo de ensino-aprendizagem de leitura e mesmo que nosso universo de sujeitos possa ser considerado “pequeno”, este parece representar a realidade de várias escolas da rede municipal151. Assim, pensamos que os dados coletados poderão nos subsidiar nas respostas às seguintes questões: 151 Segundo informações coletadas junto às equipes gestoras de outras unidades escolares, percebemos que os problemas constatados em nosso locus estão se repetindo em outras escolas da rede. 168 1) Como a concepção de ensino-aprendizagem de leitura expressa nos PCN de Língua Portuguesa (1º e 2º Ciclos) se reflete nos documentos oficiais da Secretaria Municipal de Educação de Cuiabá e no Projeto Políticopedagógico da escola pesquisada? Já vimos que o Construtivismo parece ser o denominador comum entre os PCN, os Referenciais Curriculares da Escola Sarã e o PPP da unidade escolar pesquisada. Ainda que em todos eles apareçam “sinais” oriundos de diversas fontes teóricas (Interacionismo, Sócio-interacionismo, Teoria da Comunicação, entre outras), percebemos que os modelos cognitivos de leitura acabaram predominando nos citados documentos. Diante disso, dois fatores nos chamaram a atenção: a) Os Referenciais Curriculares/ SME/ Cuiabá não estabelecem diretrizes e nem conteúdos específicos para o ensino de leitura, fato este que demonstra a concepção de leitura existente no sistema municipal: “aprende-se a ler, lendo” (Freinet). Logo, esta é uma ação que não compreende mediação pedagógica, pois requer apenas que os alunos tenham acesso à diversidade de gêneros discursivos, fato que seria suficiente para que estes se tornassem leitores (esses pressupostos também aparecem nos PCN de 1º e 2º Ciclos); b) Ao contrário da situação institucional, a escola pesquisada possui uma proposta pedagógica152 concreta para o ensino de leitura, fundamentada nas capacidades de leitura e comprometida com o pensamento de Paulo Freire. Assim, como forma de resistência às diretrizes estabelecidas pela SME, a comunidade escolar preferiu elaborar seu próprio Dossiê Acadêmico, contrariando as orientações oficiais. No entanto, lembramos que, segundo os dados coletados durante a pesquisa, a unidade escolar se encontra com sérios problemas para implantar a proposta delineada no PPP, uma vez que esta ainda não foi totalmente internalizada pelos 152 O Programa Gestar/ MEC, implantado na escola de 2001 a 2003, influenciou nesse processo, principalmente na seleção das habilidades de leitura que deveriam ser trabalhadas em cada Ciclo. 169 docentes e, conseqüentemente, os mesmos apresentam dificuldades para colocá-la em prática. 2) Quais são as capacidades de leitura construídas pelos discentes do 4º ano pesquisado? Qual o tipo de capacidade priorizada pela escola? A análise do instrumento avaliativo indicou que a maior média de habilidades demonstradas pelos alunos está relacionada à capacidade de compreensão (estratégias de leitura). Exemplos: quanto a reconhecer relações de causa e conseqüência, mobilizar conhecimento prévio e utilizar informações oferecidas por verbete de dicionário, glossário ou texto informativo, os alunos obtiveram 85% de aproveitamento, chegando a 75% nas que se referem à identificação de informações relevantes para a compreensão do texto e à percepção de alguns mecanismos de coesão (por meio de pronomes, sinônimos, advérbios e da ordem das palavras na frase). Lembramos que apenas duas das seis habilidades relacionadas à capacidade de apreciação e réplica alcançaram índice superior a 50%: a de relacionar características textuais do gênero e os indicadores de suporte ao sentido atribuído ao texto e a de caracterizar personagens a partir de descrições apresentadas, de ações por elas realizadas ou do modo como se expressam. Os dados coletados nos indicam que, fora do ambiente escolar, o gibi é a leitura preferida pela maioria dos alunos. Esse fator parece ter contribuído bastante para a aquisição desta habilidade, pois tanto nas tirinhas, como nas histórias em quadrinhos, as características das personagens são, geralmente, inferidas pelo leitor ao longo do texto. Outro fator que deve ser considerado está relacionado ao texto selecionado, a saber, uma tirinha e uma história em quadrinhos da Turma da Mônica, cuja esfera de circulação é o gibi, material bastante presente no cotidiano dos alunos. Isso faz com que os alunos reconheçam algumas características do gênero (tipos de balão, por exemplo, e sua relação com o texto verbal) e associem esses elementos ao enredo típico de algumas das histórias criadas por Maurício de Souza. Exemplo: o Cebolinha pega o coelhinho da Mônica para dar nós nas suas orelhas, no entanto, 170 quando esta descobre e o recupera, o menino acaba levando várias “coelhadas” na cabeça. Destacamos que durante a seleção dos textos que fariam parte do instrumento avaliativo, preferimos não utilizar tirinhas que circulam em jornais, visto que, no questionário aplicado, a freqüência de leitura desse meio de comunicação é muito baixa entre os alunos. Todavia, mesmo com todos esses cuidados, conforme explanamos no capítulo 5, os discentes apresentaram vários problemas na interpretação de textos dos gêneros fábula, tirinha e história em quadrinhos, principalmente, quanto às habilidades que se referem à capacidade de apreciação e réplica, tais como: reconhecer o efeito de sentido de recursos gráficos como cores, fonte, tamanho e formato das letras, etc. (5%); reconhecer a relação entre imagem e texto verbal na atribuição de sentido ao texto (15%); elaborar apreciações relativas a valores éticos e/ou políticos (30%), entre outras. Assim, diante desses dados e considerando as entrevistas realizadas com a equipe gestora, percebemos certa tendência, por parte da escola, em priorizar o ensino da capacidade de compreensão (estratégias de leitura), isso ficou mais visível no trabalho desenvolvido pela professora pesquisada, o que de certa forma é significativo, porém não é o suficiente para efetivar um dos objetivos da proposta pedagógica, a saber, formar leitores críticos. Conforme já dissemos anteriormente, os estudos bakhtinianos podem contribuir bastante para que os alunos compreendam ativamente o que lêem, pois ao considerarmos esses pressupostos teóricos, ressalta-se a importância de tratarmos o texto, em sala de aula, como gênero discursivo (constituído por tema, estrutura composicional e estilo) e que, portanto, deve ser considerado a partir das relações dialógicas que este estabelece com seus interlocutores e com o seu contexto de produção. Assim, concordamos com Goulart (2003: p. 110): (...) A necessidade de formação pela escola de leitores e autores críticos pode ser adensada pelos estudos de Bakhtin na medida em que as noções desenvolvidas pelo autor dão suporte teórico para compreender aspectos que determinam as muitas possibilidades de interpretar enunciados e a relação 171 entre o conteúdo temático, a seleção de recursos expressivos e a construção textual. A melhor compreensão dessa relação pode contribuir também para se investigar e repensar o trabalho tradicional com a gramática na escola sem que a correlação dos três aspectos seja rompida. Pode contribuir ao mesmo tempo, para que os alunos, conhecendo cada vez mais a língua, tornem suas falas mais livres e comprometidas. Diante do exposto, voltamos nosso olhar para as aulas de leitura ministradas nas turmas do 3º ano153, as quais, devido à gravidade da situação detectada, merecem atenção especial da coordenação pedagógica da escola. Os fatos narrados no relatório das acadêmicas de Pedagogia fizeram com que antecipássemos os resultados dessa pesquisa para a equipe gestora154 da unidade, no mês de novembro/2007 e para toda a comunidade escolar, em fevereiro/2008. 3) Quais as relações existentes entre: as capacidades de leitura demonstradas pelos alunos e o letramento não escolar? Os alunos pesquisados, em sua maioria, participam de eventos de letramento fora do ambiente escolar, são leitores de livros infantis e gibis, e, justamente por isso, nossa expectativa era a de que estes não apresentariam grandes dificuldades para compreender a unidade temática de textos dos gêneros fábula e tirinha, ambos bastante comuns, especialmente, na esfera escolar, uma vez que também aparecem com certa freqüência nos livros didáticos destinados às séries iniciais. Embora a habilidade de reconhecer a unidade temática do texto esteja relacionada à capacidade de compreensão, acreditamos que esta é fundamental no processo de atribuição de sentido, pois contribui para que os alunos percebam quais as possibilidades de temas que fazem parte do universo discursivo de determinado gênero. Nesse sentido, o fato de não entender a unidade temática interfere na habilidade de “interpretar com base no texto, inferindo uma idéia implícita nele”, 153 Para maiores detalhes, ver o Anexo D. 154 A diretora e a coordenadora pedagógica já estão tomando providências para reverter a situação. 172 diminuindo a probabilidade de os educandos compreenderem ativamente o que foi lido, ou melhor, de que os mesmos se posicionem criticamente acerca do texto. Conforme já mencionamos, grande parte das habilidades demonstradas pelos alunos está relacionada à capacidade de compreensão e podemos inferir que sua aquisição também sofre influência dos eventos de letramento não escolar dos quais os alunos participam. Por exemplo, sabemos que a escola não trabalha com a abordagem de gêneros discursivos, no entanto, como os educandos são leitores assíduos de gibis, os mesmos mobilizaram, com certa facilidade, os conhecimentos prévios que possuíam acerca das personagens da Turma da Mônica. Contudo, podemos inferir que a mobilização de estratégias de leitura e o envolvimento em práticas de letramento fora do ambiente escolar não são suficientes para garantir a construção da capacidade de apreciação e réplica e, por conseguinte, a formação do leitor proficiente. Nesse sentido, a função da escola se amplia, pois, considerando a heterogeneidade dos grupos que atende, teremos as seguintes situações: para alguns discentes, ela será a única agência de letramento responsável pela sua formação de leitor, como no caso de TX155, já para outros, a mesma teria de complementar a formação iniciada fora do ambiente escolar, atuando de modo mais efetivo na criação de situações didáticas que possibilitem o desenvolvimento de leitores críticos. Acreditamos que o trabalho com os gêneros discursivos poderia auxiliar a unidade escolar na implementação de uma proposta pedagógica voltada para a formação do leitor proficiente, uma vez que o texto passaria a ser estudado a partir de suas relações dialógicas e de sua interface com outros discursos, sócio-historicamente situados, possibilitando a construção de sentidos e a apreciação valorativa. Finalmente, lembramos que a escola precisa refletir acerca das ações que desenvolve, pois o modelo escolar de letramento, como declarou Rojo (2001), não propicia a formação do leitor e, para romper com essa situação, é imprescindível que os profissionais da educação superem algumas de suas crenças sobre a prática educativa, especialmente quanto ao processo de ensino-aprendizagem de leitura. 155 Aluno com menor índice de aproveitamento da turma pesquisada (não conseguiu demonstrar nenhuma das habilidades avaliadas). 173 As pesquisas realizadas nessa área atestam que a leitura não deve ser vista apenas como uma estratégia didática e, sim, como um “objeto” a ser ensinado. 4) Qual a importância do professor no processo de formação do leitor crítico? Ao longo desta pesquisa, comentamos várias vezes que o acesso aos livros, sem a mediação pedagógica adequada, não assegura a formação do leitor proficiente. Isso aumenta a responsabilidade dos docentes, pois, muitas vezes, devido a problemas socioeconômicos, a escola pode se tornar a única possibilidade de acesso à cultura letrada para alunos oriundos das classes sociais mais desfavorecidas. Assim, para trabalhar com esses alunos (ou com outros), auxiliando-os no processo de construção das capacidades de leitura, a escola deve investir na formação continuada dos professores, criando momentos de reflexão coletiva, através dos quais sejam discutidas estratégias para a implementação de novas metodologias e socializadas as experiências realizadas. Nessa perspectiva, surge a necessidade de se criar situações didáticas nas quais os alunos possam vivenciar práticas concretas de leitura e escrita, nas quais estes possam perceber que sempre lemos para alcançar algum objetivo e que um texto pode abarcar um “universo” de significações. Portanto, ao fundamentarmos nossa práxis em uma visão bakhtiniana de linguagem, poderemos perceber que educar não é “homogeneizar”, é considerar a diversidade existente em sala de aula, é abrir espaço para a réplica, para diferentes possibilidades de leitura, de modos de pensar e de construir o conhecimento, criando oportunidades para que o aluno seja autor de sua própria palavra e não um simples “revozeador” da palavra alheia, ou como declarou Freitas (1996: p: 173): Educar é levar o aluno a ser autor, a dizer a própria palavra, a interagir com a língua, a penetrar numa escrita viva e real. O professor precisa também ser autor: penetrar na corrente da língua, recuperar sua palavra, sua autonomia, sem fazer dela uma tribuna para o poder, mas um meio de exercer uma autoridade que se conquista no conhecimento partilhado. Nesse sentido o professor pode ser visto como um orquestrador de diferentes vozes. 174 Isso faz com que o processo de ensino-aprendizagem também seja considerado uma prática social, um ato dialógico no qual os papéis de professor e aluno possam ser permeados por relações de alteridade, uma vez que ambos são agentes sociais que, nas interações em sala de aula, compartilham o mesmo ato educativo. Acreditamos que esses pressupostos teóricos podem auxiliar os docentes a repensar, também, as práticas escolares de leitura, ampliando sua visão acerca do processo de formação do leitor proficiente e do que significa, de fato, ensinar leitura. Ao longo desta pesquisa, verificamos que a rede municipal de Cuiabá, até 2007, não possuía diretrizes específicas para o ensino de leitura e o mesmo ocorre no que diz respeito à formação do leitor proficiente e, muito embora a SME desenvolva alguns projetos de formação continuada, entre estes não parece haver articulação que possa resultar em modificações concretas da prática educativa. Percebemos, ainda, que a escola pesquisada apresenta sérias dificuldades para implementar sua proposta pedagógica. Nesse contexto, disponibilizamos nossa pesquisa como mais um elemento a ser utilizado tanto pela SME/ Cuiabá, quanto pela unidade escolar, no processo de análise e reflexão acerca do trabalho que está sendo desenvolvido na área de Linguagem/ Ensino de Leitura. No entanto, para que haja avanços significativos, destacamos que a SME e as escolas municipais deveriam se reconhecer como interlocutores, parceiros em um mesmo processo educativo, uma vez que ambos possuem metas semelhantes, a saber, melhorar a qualidade do ensino oferecido à população cuiabana. Acreditamos, ainda, que esta pesquisa, aqui concretizada, poderá contribuir para uma releitura sócio-histórica das ações da rede municipal de ensino, por meio da qual seria possível visualizar algumas soluções para os problemas enfrentados pelas escolas, tendo como base a contribuição da visão bakhtiniana de linguagem. 175 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AMORIM, Marília. A contribuição de Mikhail Bakhtin: a tripla articulação ética, estética e epistemológica. In: Ciências Humanas e Pesquisa: Leituras de Mikhail Bakhtin. São Paulo: Cortez Editora, 2003. p. 11-25. ______. O Pesquisador e seu Outro: Bakhtin nas Ciências Humanas. São Paulo: Musa Editora, 2001. ANDRÉ, Marli E.D.; LUDKE, Menga. 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Nome do Pai ou responsável do sexo masculino: _____________________ Idade_________; Profissão____________________ local de trabalho ____________________ Grau de instrução ( ) Nenhuma ( ) Menos de 4ª série ( ) Ensino Fundamental incompleto/ até a 7ª série ( ) Ensino Fundamental completo/ até a 8ª série ( ) Ensino Médio/ até ao 2º ano ( ) Ensino Médio completo ( ) Superior incompleto ( ) Superior completo →Nome da Mãe ou responsável do sexo feminino_______________________ Idade_________; Profissão____________________ local de trabalho ____________________ Grau de instrução ( ) Nenhuma ( ) Menos de 4ª série ( ) Ensino Fundamental incompleto/ até a 7ª série ( ) Ensino Fundamental completo/ até a 8ª série ( ) Ensino Médio completo ( ) Superior incompleto ( ) Ensino Médio/ até ao 2º ano ( ) Superior completo 2. Renda familiar _____________________________________________ 3. Quando ainda não sabia ler, alguém lia textos para você? Sim ( ) • Não ( ) Em caso positivo, responda: Quem lia? Não sei ( ) 184 ( ) Mãe ou responsável do sexo feminino ( ) Pai ou responsável do sexo masculino ( ) Irmão mais velho ( ) Irmã mais velha ( ) Avô ( ) Avó ( ) Tio ( ) Tia ( ) Outra pessoa 4. O que costumava ler? ( ) Livros infantis ( ) Bíblia, livros sagrados ou religiosos ( ) Outros tipos de livros ( ) Gibis, revista em quadrinhos ( ) Jornais e revistas 5. Tipos de material que mais gosta de ler: ( ) Revistas ( ) Jornais ( ) Bíblia, livros sagrados ou religiosos ( ) Livros ( ) Gibis, revistas em quadrinhos ( ) Outros 6. Pessoas que mais influenciaram o gosto pela leitura: ( ) Mãe ou responsável do sexo feminino ( ) Outra pessoa ( ) Pai ou responsável do sexo masculino ( ) Ninguém ( ) Algum amigo ( ) Algum professor ( ) Outro parente ( ) Padre/Pastor ou líder religioso 7. Freqüência com que lê jornal: ( ) Todos os dias ( ) Algumas ou uma vez por semana ( ) De vez em quando ( ) Não costuma ler jornal 8. Freqüência com que lê revistas: ( ) Pelo menos uma vez por semana ( ) De vez em quando ( ) Não costuma ler 9. Tipos de revista que costuma ler: ( ) De informação (Veja, Época, Isto É etc.) ( ) Fofocas e novelas (Caras , Contigo, Amiga etc.) ( ) De religião ( ) Nenhum ( ) Quadrinhos, gibis, humor ( ) Outros. Quais?__________________ 10. Tipo de livro que costuma ler, ainda que de vez em quando: 185 ( ) Bíblia, livros sagrados ou religiosos ( ) Infantil, contos, fábulas, poemas ( ) Enciclopédias ( ) Livros didáticos ( ) Não costuma ler livros ( ) Outros 11. O que costuma escrever, criando ou copiando, no tempo livre? ( ) Receitas ( ) Letras de músicas ( ) Poesia ( ) Cartas e e-mails ( ) Histórias reais ou inventadas ( ) Álbuns familiares ( ) Diário íntimo ( ) Outros ( ) Não costuma escrever 12. Freqüência de uso do computador: ( ) Todos os dias da semana ( ) Quase todos os dias da semana ( ) Um ou dois dias da semana ( ) Eventualmente/de vez em quando ( ) Nunca utilizou computador 13. Materiais escritos que possui na residência: ( ) Calendários e folhinhas ( ) Álbum de família, fotografias ( ) Bíblia, livros sagrados ou religiosos ( ) Agenda de telefone/endereços ( ) Dicionário ( ) Livros de receitas de cozinha ( ) Livros didáticos ( ) Livros infantis ( ) Guias, listas e catálogos ( ) Livros de literatura/romances ( ) Enciclopédia ( ) Livros técnicos 14. Quantidade de livros que possui na residência: ( ) Menos de 10 livros ( ) De 15 a 50 livros ( ) De 51 a 100 livros ( ) Não tem livros em casa 15. O que seus pais ou parentes costumam ler? ( ) Ler a Bíblia, livros sagrados ou religiosos ( ) Ler jornais ( ) Ler ou escrever cartas ( ) Ler revistas ( ) Ler ou escrever receitas ( ) Ler folhetos ( ) Ler ou escrever tarefas do trabalho ( ) Fazer trabalhos escolares ( ) Nenhum tipo de texto ( ) Não sabe 186 • Com que freqüência você: 16. Assiste à televisão: 17. Ouve rádio: ( ) Sempre ( ) Sempre ( ) Às vezes ( ) Às vezes ( ) Nunca ( ) Nunca 18. Vai a exposições ou feiras: 19. Vai a shows: ( ) Sempre ( ) Sempre ( ) Às vezes ( ) Às vezes ( ) Nunca ( ) Nunca 20. Vai ao cinema: 21. Vai ao teatro: ( ) Sempre ( ) Sempre ( ) Às vezes ( ) Às vezes ( ) Nunca ( ) Nunca • Com que freqüência você utiliza a Biblioteca para: 22. Retirar livros: 23. Ler e consultar livros: ( ) Sempre ( ) Sempre ( ) Às vezes ( ) Às vezes ( )Nunca ( ) Nunca 24. Ler e consultar revistas e jornais: ( ) Sempre ( ) Às vezes ( ) Nunca 25. O que você costuma ler na escola? ( ) Livros didáticos ( ) Dicionários ( ) Livros de histórias infantis ( ) Revistas em quadrinhos ( ) Revistas ( ) Folhetos e cartazes ( ) Textos e exercícios em folhas avulsas ( ) Enciclopédias ( ) Textos ou exercícios no quadro negro ( ) Jornais ( ) Sites ou páginas na Internet ( ) Seus próprios textos ou dos colegas ( ) Nenhum destes ( ) Outros. Quais?________________ 187 26. Atividades que realiza na escola: ( ) Copiar matérias, textos e exercícios do quadro negro ( ) Copiar textos dos livros ( ) Fazer anotações sobre as aulas ( ) Fazer resumos de textos ( ) Fazer redação ou trabalhos ( ) Responder a questionários ou fazer exercícios ( ) Escrever textos ditados pelo professor ( ) Ler em voz alta ( ) Fazer relatórios ( ) Apresentar trabalhos oralmente ( ) Participar de debates ou discussões ( ) Fazer perguntas de esclarecimento ao professor ( ) Consultar quadros de horários ( ) Agendar provas e entrega de trabalhos ( ) Controlar suas próprias notas ou conceitos e faltas ( ) Estudar e preparar-se para provas e avaliações ( ) Participar de reuniões para tomar decisões ( ) Nenhuma destas 27. Como se mantém informado sobre assuntos da atualidade? ( ) Televisão ( ) Rádio ( ) Jornal ( ) Internet ( ) Conversas com parentes, amigos e colegas ( ) Reuniões na Igreja ( ) Nenhuma destas 28. Atividades fora da escola Trabalha?____ Atividade que realiza no trabalho: _______________________ Freqüenta algum curso?_____________ Qual(is)?______________________ Por que escolheu fazer esse(s) curso(s)?______________________________ Faz teatro?______________________________________________________ • Caso trabalhe, responda à seção a seguir: 29. O que você lê no trabalho?________________________________________ 30. Tipos de material que escreve no trabalho: ( ) Bilhetes e recados ( ) Nenhum destes ( ) Pedidos ( ) Outros. Quais? _________ 188 APÊNDICE B – Modelo do instrumento avaliativo utilizado. EMEB.______________________________________________________ Aluno (a):____________________________________________________ 4º Ano/ mat./ Profª __________________; Data:_________________ ATIVIDADES • Leia o texto com atenção: O Leão, o Urso e a Raposa Um leão e um urso capturaram um cervo e, em feroz luta, disputavam o direito de posse da presa. Após terem lutado bastante, cansados e feridos, eles caíram no chão, completamente exaustos. Uma Raposa que estava nas redondezas, a uma distância segura e observando a tudo, vendo ambos caídos no chão, e o cervo abandonado entre eles, correu entre os dois. Agarrou o cervo e desapareceu no meio do mato. O leão e o urso vendo aquilo, mas incapazes de impedir, disseram: - Ai de nós! Ferimos um ao outro apenas para garantir o jantar da raposa! Autor: Esopo Moral da História: Algumas vezes acontece de alguém fazer todo trabalho pesado e outro levar todo o lucro. Fonte: Fábulas Ilustradas: O Leão, o Urso e a Raposa – © Copyright 2000-2006/ http://www.sitededicas.com.br • Agora responda às perguntas com atenção: 1. Você já ouviu falar em um autor chamado Esopo? Leu algumas das fábulas escritas por ele? _______________________________________ _________________________________________________________ 189 • Saiba mais sobre as Fábulas de Esopo: A fábula é uma das mais antigas maneiras de se contar uma história. O autor grego Esopo usava muitos bichos como personagens de suas fábulas, como tartarugas, lebres, raposas, formigas e cigarras. Através das histórias ele criticava os valores da sociedade de sua época, para mostrar o que é certo e o que é errado. (Fonte: http://criancas.uol. http://criancas.uol.com.br/historias/fabulas/esopo.jhtm) 2. A intenção do autor ao escrever esta fábula foi: a) ( ) falar sobre a briga entre o leão e o urso. b) ( ) mostrar a esperteza da raposa. c) ( ) alertar os leitores a respeito de pessoas que gostam de levar vantagem sobre os outros. d) ( ) mostrar que devemos ter cuidado ao andar pela floresta. 3. Como você pode perceber, toda fábula traz uma mensagem para reflexão: a moral da história. Vamos relembrar a moral da história que acabamos de ler: “Algumas vezes acontece de alguém alguém fazer todo trabalho pesado e outro levar todo o lucro.” a) O que você pensa sobre a frase acima? Como isso pode ser aplicado à sua vida? ________________________________________________ __________________________________________ ______________________________________________________ _______________________________________________________ 4. Qual o motivo da luta entre o leão e o urso? __________________ ________________ ______________________________________________________ _______________________________________________________ 5. Qual a intenção da raposa ao ficar observando a luta entre o leão e o urso? _________________________________________________ 6. O leão e o urso não conseguiram impedir a raposa de levar o cervo porque estavam: a) ( ) cansados e feridos. c) ( ) com medo da raposa. b) ( ) com preguiça. d) ( ) com sono. 7. Considerando as atitudes da raposa, podemos afirmar que ela é: a) ( ) preguiçosa. c) ( ) orgulhosa. b) ( ) esperta. d) ( ) briguenta. 190 • Agora, vamos conhecer alguns dos significados do substantivo PRESA: Presa(sf) : 1. ato de apresar ou apreender; 2. Aquilo de que o animal se apodera para comer; 3. Dente canino; 4. 4. Garra de ave de rapina; 5. Mulher em prisão. Fonte: Michaelis/ Dicionário. 8. Assim, no 1º parágrafo, o termo presa está substituindo a palavra: a) ( ) leão. b) ( ) raposa. c) ( ) cervo. d) ( ) urso. 9. Analise as frases abaixo e escreva em qual “sentido” a palavra presa foi usada: a) O veterinário estava cuidando da águia que estava com as presas machucadas. _______________________________________________ b)Várias presas ficaram machucadas durante a rebelião rebelião na Penitenciária do Pascoal Ramos. ______________________________________________________ c) Por medida segurança, os leões do Circo Nicolau não possuem mais presas.____________________________________________________ .____________________________________________________ • Leia a tirinha abaixo: 10. Você conhece Maurício de Souza e a Turma da Mônica? Escreva o que você sabe sobre eles: ______________________________________ __________________________________ _______________________________________________________ 11. As cenas que aparecem na tirinha retratam uma situação bastante comum nas histórias da Mônica: 191 a) ( ) o interesse da Mônica e do Cebolinha pelo jogo de xadrez. b) ( ) o diálogo como meio para resolver os problemas que existem entre eles. c) ( ) o Cebolinha fugindo da Mônica, pois tem medo de apanhar. 12. No 2º quadrinho, aconteceu algo inesperado. O que foi? _______ ______________________________________________________ 13. Observe a expressão da Mônica no 3º quadrinho, você acha que ela concordou totalmente com a sugestão do Cebolinha? Justifique. ______ ______________________________________________________ 14. Qual o objetivo do Cebolinha ao propor à Mônica que resolvessem suas diferenças “com um tabuleilo de xadlez”? ______________________ 15. Assim, a Mônica decidiu usar o tabuleiro de xadrez de outro modo. Qual foi? a) ( ) como bandeja para servir chá e brincar de casinha. b) ( ) transformou em leque porque estava calor. c) ( ) usou como guarda-chuva, pois já estava começando a chover. d)( ) usou para bater no Cebolinha, já que ainda estava zangada com ele. 16. Em nosso dia-a-dia, como você acha que devemos resolver nossas “difelenças” com as outras pessoas? _____________________________ ______________________________________________________ 17. No 2º quadrinho, algumas palavras usadas pelo Cebolinha aparecem em negrito (estão mais escuras que as outras): “PELAÍ, LESOLVER e DIFELENÇAS”. Na sua opinião, o autor usou esse recurso para mostrar que o Cebolinha: a) ( ) queria que a Mônica parasse para escutá-lo, assim ele poderia convencê-la a desistir de bater nele. b) ( ) queria assustar a Mônica. c) ( ) queria convidá-la para jogar xadrez. d) ( ) queria demonstrar que não tinha medo dela. 192 • Vamos ler mais uma história da Turma da Mônica: 18. No 1º quadrinho, o pronome ela se refere à: a) ( ) Mônica. b) ( ) raposa. c) ( ) Páscoa. d) ( ) Magali. 193 19. Observe o 1º e o 2º quadrinhos. Quais são os elementos que indicam que o Coelhinho da Páscoa está falando baixo e tentando se esconder: _________________________________________________________ _________________________________________________________ _________________________________________________________ 20. O Coelhinho da Páscoa estava com medo da Magali. Parece que ele já conhecia uma característica especial da menina. Você sabe qual é ? a) ( ) Ser gulosa. b) ( ) Trocar o r pelo l. c) ( ) Ser forte. d) ( ) Não gostar de tomar banho. 194 APÊNDICE C – Modelo de matriz analítica acerca das habilidades/ capacidades de leitura. MATRIZ ANALÍTICA DAS CAPACIDADES DE LEITURA AVALIADAS 4º Ano/ 3ª série HABILIDADES Questões 1. Identifica informações relevantes para a compreensão do texto (fábulas, texto informativo, verbete de dicionário, tirinhas e histórias em quadrinhos). 2. Mobiliza conhecimentos prévios para auxiliar no processo de atribuição de sentido ao texto. 3. Utiliza informações oferecidas por um verbete de dicionário, glossário ou texto informativo na compreensão do texto. 4. Reconhece a unidade temática do texto. 4, 6, 12, 15 5. Relaciona as características textuais do gênero e os indicadores de suporte ao sentido atribuído ao texto. 6. Caracteriza personagens a partir de descrições apresentadas, de ações por elas realizadas ou do modo como se expressam. 7. Percebe a coesão estabelecida no texto por meio de pronomes, sinônimos, advérbios e da ordem das palavras na frase. 8. Reconhece a relação entre imagem e texto verbal na atribuição de sentido ao texto. 9. Reconhece causas e conseqüências de determinados fatos. 10. Interpreta com base no texto, inferindo uma idéia implícita nele. 11. Reconhece o efeito de sentido de recursos gráficos como cores, fonte, tamanho e formato de letras, imagens, etc. 12. Elabora apreciações relativas a valores éticos e/ou políticos. 11, 17, 19 1, 10, 11 2, 8, 9 2, 5, 14 7, 20 8, 18 12,13 6, 15, 20 2, 5, 7, 14 13, 17, 19 3, 16 Obs.: Habilidades extraídas do Projeto Político Pedagógico/ 2006 da EMEB. Filogônio Correa. (Considerou-se também o Dossiê Acadêmico do Aluno/2007.) 195 APÊNDICE D– Parâmetros para a correção do Instrumento Avaliativo. Questão 1: Você já ouviu falar em um autor chamado Esopo? Leu algumas das fábulas escritas por ele? Observações: Caso o aluno responda afirmativamente, deverá citar algumas fábulas escritas por Esopo, tais como: “O leão e o rato”; “A raposa e as uvas”; “A cigarra e a formiga”, entre outras. Embora a pergunta não solicite exemplos, durante a aplicação foi recomendado aos discentes que colocassem os títulos de algumas das histórias lidas. Questão 2: A intenção do autor ao escrever esta fábula foi: Observações: Considerar correta se o aluno assinalar apenas a letra c (alertar os leitores a respeito de pessoas que gostam de levar vantagem sobre os outros). ü Questão 3: Como você pode perceber, toda fábula traz uma mensagem para reflexão: a moral da história. Vamos relembrar a moral da história que acabamos de ler: “Algumas vezes acontece de alguém fazer todo trabalho pesado e outro levar todo o lucro.” O que você pensa sobre a frase acima? Como isso pode ser aplicado à sua vida? Observações: Considerar correta se a resposta produzida apresentar sentido coerente com as possibilidades de interpretação do tema da fábula, demonstrando o posicionamento ético do aluno. Questão 4: Qual o motivo da luta entre o leão e o urso? Exemplos de respostas possíveis: • Disputar o direito de posse sobre a presa; • Porque não queriam dividir a presa (ou o cervo); • Brigavam por cauda de comida; • Pelo cervo; • Porque só tinha um cervo e eles não queriam dividir. 196 Questão 5: Qual a intenção da raposa ao ficar observando a luta entre o leão e o urso? Exemplos de respostas possíveis: • Esperar que os dois ficassem cansados, para poder roubar a presa sem correr riscos; • Esperar para ver o que ia acontecer e depois pegar a presa/ o cervo; • Pegar a presa (o cervo ou a comida); Questão 6: O leão e o urso não conseguiram impedir a raposa de levar o cervo porque estavam: Observações: Considerar correta se o aluno assinalar apenas a letra a (cansados e feridos). Questão 7: Considerando as atitudes da raposa, podemos afirmar que ela é: Observações: Considerar correta se o aluno assinalar apenas a letra b (esperta). Questão 8: Assim, no 1º parágrafo, o termo presa está substituindo a palavra: Observações: Considerar correta se o aluno assinalar apenas a letra c (cervo). Questão 9: Analise as frases abaixo e escreva em qual “sentido” a palavra presa foi usada: Respostas possíveis: a) Garra de ave de rapina; unhas; b) Mulher em prisão; mulheres que estão presas; c) Dente canino; dentes. Observações: Serão desconsideradas as respostas que não estiverem de acordo com o sentido expresso na frase. Questão 10: Você conhece Maurício de Souza e a Turma da Mônica? Escreva o que você sabe sobre eles: Observações: Considerar correta as respostas que situem o Maurício de Souza enquanto autor das histórias da turma da Mônica; ou até mesmo se apenas comentarem sobre os personagens. 197 As repostas que não apresentarem sentido coerente com o tema, serão desconsideradas. Questão 11: As cenas que aparecem na tirinha retratam uma situação bastante comum nas histórias da Mônica: Considerar correta se o aluno assinalar apenas a letra c (O Cebolinha fugindo da Mônica, pois tem medo de apanhar). Questão 12: No 2º quadrinho, aconteceu algo inesperado. O que foi? Respostas possíveis: • O Cebolinha tentando resolver suas diferenças com a Mônica, sem brigas, através de um jogo de xadrez; • O Cebolinha convida a Mônica para jogar xadrez; • O Cebolinha faz a Mônica para de correr atrás dele e a convida para jogar xadrez; • O Cebolinha fez a Mônica parar para escutá-lo. Questão 13: Observe a expressão da Mônica no 3º quadrinho, você acha que ela concordou totalmente com a sugestão do Cebolinha? Justifique. Respostas possíveis: • Não, porque estava com cara de zangada; • Não, porque depois ela bateu nele com o tabuleiro de xadrez; • Não, porque mesmo dizendo que estava tudo bem, ela estava com cara de brava; • Não, porque estava com cara de raiva/ brava. Questão 14: Qual o objetivo do Cebolinha ao propor à Mônica que resolvessem suas diferenças “com um tabuleilo de xadlez”? Respostas possíveis: • Não apanhar da Mônica; • Fazer com que a Mônica se esquecesse de bater nele; • Distrair a Mônica para que ela não batesse nele. Questão 15: Assim, a Mônica decidiu usar o tabuleiro de xadrez de outro modo. Qual foi? 198 Observações: Considerar correta se o aluno assinalar apenas a letra d (usou para bater no Cebolinha, já que ainda estava zangada com ele). Questão 16: Em nosso dia-a-dia, como você acha que devemos resolver nossas “difelenças” com as outras pessoas? Observações: Considerar correta se a resposta produzida apresentar sentido coerente com as possibilidades de sugestões “pacíficas” para resolver os problemas, demonstrando o posicionamento ético do aluno. Questão 17: No 2º quadrinho, algumas palavras usadas pelo Cebolinha aparecem em negrito (estão mais escuras que as outras): “PELAÍ, LESOLVER e DIFELENÇAS”. Em sua opinião, o autor usou esse recurso para mostrar que o Cebolinha: Observações: Considerar correta se o aluno assinalar apenas a letra a (queria que a Mônica parasse para escutá-lo, assim ele poderia convencê-la a desistir de bater nele). Questão 18: No 1º quadrinho, o pronome ela se refere à: Observações: Considerar correta se o aluno assinalar apenas a letra d (Magali). Questão 19: Observe o 1º e o 2º quadrinhos. Quais são os elementos que indicam que o Coelhinho da Páscoa está falando baixo e tentando se esconder: Respostas possíveis: • O balão pontilhado e o fato de o coelho estar atrás de um arbusto, como se estivesse com medo de alguém; • O balão com risquinhos e a cara de medo do coelho; • O balão com pontilhados e porque ele estava atrás da moita; • O balão pontilhado. Questão 20: O Coelhinho da Páscoa estava com medo da Magali. Parece que ele já conhecia uma característica especial da menina. Você sabe qual é? Observações: Considerar correta se o aluno assinalar apenas a letra a (ser gulosa). 199 APÊNDICE E – Modelo do Questionário utilizado com o professor. 1. Formação profissional e concepção teórica: a) Formação Acadêmica: Curso de Graduação:_____________________________________ Instituição:______________________________________________ Ano de Conclusão:________________ b) Pós-Graduação:_______________________________________ Instituição:______________________________________________ Ano de Conclusão:________________ Efetiva da rede municipal desde:__________________________ Trabalha nesta escola desde:_____________________________ c) Formação Continuada (comente sobre os cursos que já fez na área da linguagem, se foram significativos, se está fazendo algum no momento, quais os temas que mais lhe interessam): _____________________________________________________ _____________________________________________________ d) Concepção de ensino-aprendizagem de leitura, língua e texto: _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ e) Qual sua opinião sobre os PCN de LP/ 1º e 2º Ciclos? _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ f) Qual sua opinião sobre o ensino a partir de competências e habilidades? Você já fez algum curso sobre isso? Comente como você trabalha com isso em sala de aula. _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ g) O que você entende por “organizar a escola em Ciclos de Formação”? _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ h) Você participa dos cursos de formação oferecidos pela SMEDEL? Isso tem ajudado em sua prática de sala de aula? Como? _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ 2. Projeto Pedagógico da Escola: 200 a) Como foi o processo de construção do PPP? _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ b) Qual a concepção de linguagem expressa no PPP? _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ c)Como é feito o planejamento a partir do Tema Gerador? _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ e) Como é feita a avaliação dos alunos? Como são utilizados os registros avaliativos (dossiê acadêmico)? _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ 3. A Prática em Sala de Aula: a)Como você utiliza os “novos” conhecimentos, construídos no processo de formação continuada? _____________________________________________________ _____________________________________________________ b) Como a coordenadora pedagógica acompanha o seu trabalho? _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ c) Quais as competências/habilidades que estão sendo trabalhadas, atualmente, na área de Linguagem? _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ d) Como você organiza o ensino de Leitura em sala de aula? Que gêneros textuais são utilizados? _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ e)Como você avalia as habilidades de Leitura construídas pelos alunos? Que instrumentos utiliza para este fim? _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ f) Quais as dificuldades apresentadas pelos alunos em relação à Leitura? Que estratégias você utiliza para superar esses problemas? _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ 201 ANEXOS ÁREAS • Bimestres Produzir pequenos textos espontâneos, escrevendo de modo legível, observando as convenções ; Ler pequenos textos destacando o que entendeu, Relatar aproximando, o melhor possível, da forma lógica e seqüenciada as experiências vivenciadas, tais como: filmes, músicas, passeios, palestras, descrição de objetos; Apresentar movimentos de destreza, de acordo com suas possibilidades individuais, durante os jogos, lutas, danças, esporte e ginástica; Recontar oralmente uma história ouvida, observando início, meio e fim; Demonstrar estabilidade para escrever: o próprio nome, o das pessoas com quem convive, palavras-chaves e palavras propostas nas diversas atividades; Experimentar diversas técnicas de desenhos, pinturas e/ou colagens, Apreciar produções artísticas presentes em sua cidade, bem como, aquelas que fazem parte da herança cultural da humanidade; 1 2 Ano escolar 1º Ano Conhecer o valor sonoro e gráfico de todas as letras, estabelecendo relação com a figura, a palavra e o texto; (relação grafema e fonema) 1º Ciclo: 3 4 5 6 2º Ano 7 8 9 10 3º Ano 11 ANEXO A – Dossiê Acadêmico do Aluno (documento elaborado pela SME/ Cuiabá). Linguagens 12 ___ Ano R T 202 Síntese-processo de construção das Aprendizagens da área nos bimestres. Diferenciar os portadores de texto (embalagens, outdoors, etc.) e suas funções. Pesquisar, em diferentes fontes, temas diversificados, compartilhando opiniões, idéias e preferências (ainda que com ajuda); Valorizar a leitura como fonte de fruição, estética e entretenimento; Criar, imitar e recriar gestos, expressões, coreografias, seqüências de movimentos corporais; Produzir mesmo que seja não na escrita alfabética, textos coerentes com o gênero solicitado. (bilhetes, relatórios, histórias, etc.), considerando o destinatário; Reconhecer que a cooperação e o sentimento comunitário são mais importantes que a luta competitiva; Utilizar a escrita em situação real ou simulada: bilhetes, lista de compras, convites e recados; Reescrever o texto, priorizando o sentido, utilizando a língua padrão (letra maiúscula no início de frase, títulos e nomes próprios, pontuação, virgulação e ortografia); 203 Bimestres Ano escolar Reelaborar, com ajuda do professor, do colega, da gramática, do dicionário, o próprio texto em função do leitor e dos objetivos pretendidos; Elaborar diferentes gêneros textuais utilizando dados e informações relevantes de assuntos variados (cartazes, relatórios, gráficos, poesias); Registrar o assunto de uma situação presenciada (palestra, filme, teatro, excursão, visita); Criar histórias, enriquecendo-as com a descrição; Identificar as características dos diferentes gêneros textuais (poesias, noticias, músicas, propagandas, parlendas, fábulas); Trocar impressões e informações com outros leitores a respeitos de temas diversos; Pesquisar em várias fontes o mesmo tema, registrando a idéia principal e identificando os diferentes pontos de vistas ( livros, entrevistas, internet), etc.; Expressar a compreensão de uma história lida; e/ou ouvida; Relatar oralmente fatos de textos lidos e ouvidos; Identificar as informações relevantes em diferentes tipos de textos; LINGUAGENS - Língua Portuguesa • 2º Ciclo: 1 2 3 4º Ano 4 5 6 7 5º Ano 8 9 10 11 6º Ano 12 ___ Ano ANEXO A – Dossiê Acadêmico do Aluno (documento elaborado pela SME/ Cuiabá - continuação). R T 204 Síntese – processo de construção das Aprendizagens da sub-área nos bimestres. Empregar adequadamente a língua padrão no cotidiano escolar ( oral e escrito). Ler e oralizar o texto; Ler diferentes gêneros textuais (compreensão/paráfrase-interpretação/polissemia); 205 Síntese – processo de construção das Aprendizagens da sub-área nos bimestres. Reproduzir e transmitir com fidelidade diferentes tipos de mensagens: ouvidas, lidas, transmitidas por vários tipos de meios de comunicação. Parafrasear idéias explícitas de um texto e explicar idéias implícitas; Fazer síntese de um discurso ouvido; Traduzir elementos não verbais em verbais; Produzir os diferentes gêneros textuais observando sua estrutura (tipologia); Analisar as funções da linguagem no texto, identificando marcas de variantes lingüísticas de natureza sociocultural, regional, de registro ou de estilo; Refazer o próprio texto e outros textos identificando os problemas de conteúdo e forma ( sentido e gramática); Transformar um texto em registro informal para o registro formal, explorando as relações entre as linguagens coloquial e formal. Relatar experiências vivenciadas e narrativas criativas incluindo: descrição, viés, intertextualidade, conotação, metáfora, pressuposição, argumentação, conforme a função do texto; Expor oralmente suas idéias, aproximando o melhor possível da forma lógica e seqüenciada; LINGUAGENS - Língua Portuguesa Bimestres 3º Ciclo/ ANO ESCOLAR 1 2 3 7º Ano 4 5 6 7 8º Ano 8 9 10 11 9º Ano 12 ___ Ano RT ANEXO A – Dossiê Acadêmico do Aluno (documento elaborado pela SME/ Cuiabá - continuação). 206 ANEXO B – PROVA Brasil 2005: resultados da EMEB. Filogônio Correa. 207 P P C P P P C A.J. D.C. E.J. G.V. I.D. J.V. J.A. C C C C C C P C K.C. K.K. L.R. M.V. M. P. P. D. P.J. P. J.M. J.T. 1 P Aluno (a) A.C. C C C C C C C 2 P P C P P P P C P 3 C C C C C C P C C C C C C C C 4 C C C C C C C C C C C C C C 5 C C C C C C C C C C C C C C C C C 6 C C C C C C C C C C C C C C C C 7 C C C C C C C C C C C C C C C C 8 C C P P P P P C P P C C P P P 9 P C P P C C C C P C C C P C P 10 C C C C C C C C C C C C C C 11 C C C C C C 12 P P P P C C P P P C P 13 P C 14 C C C C C C C C C C C C C C 15 C C C C C C P C C C C C 16 C C C 17 C C C C C C C C C C C C C C 18 C C C C C C P C C C C 19 MAPA DE RESPOSTAS CORRETAS E PARCIAIS/ 4º ANO/ EMEB. FILOGÔNIO CORREA ANEXO C – Mapa detalhado de acertos no instrumento avaliativo. C C C C C C C C C C C C C C C C 20 208 08 12 C 08 11 01 W.M. Total/ Parciais Total/ Corretas Total/ Erros Legenda: 0 C V.S. C P T.X. 01 18 01 C 04 16 0 C C 01 19 0 C C C Respostas erradas P – respostas parciais 0 20 0 C C C C – respostas corretas 10 02 08 P C C 02 18 0 C C 03 05 12 C P 05 09 06 P 02 18 0 C C C 14 05 01 P 08 03 09 19 01 0 04 16 0 C C 06 13 01 C C 17 03 0 03 17 0 C C 09 10 01 C 02 18 0 C C 209 210 ANEXO D – Trechos do Relatório de Observação de acadêmicas do 3º ano/ Pedagogia/ UFMT/ IE (transcrição das aulas observadas em turmas do 3º ano (2ª série), no mês de abril/2007. • Descrição das aulas da profª A: Dia 16/04/2007 (segunda) Turma: 3º ano matutino Professora: A 14 alunos presentes Disciplinas desenvolvidas: Português e Matemática No primeiro momento da observação da sala de aula, percebemos que é bem arejada com quatro ventiladores sendo que, apenas dois funcionavam, bem iluminada, limpa, dois armários, mesa com cadeira para os alunos, abecedário visível na parede, em cima do quadro negro. Lista feita em papel cartão com nomes dos alunos, destacando as letras iniciais, tabuada feita em papel pardo de 02 a 10, também localizada a cima do quadro, fotos ilustrativas do Sistema Solar. Cantinho do aniversariante, varal para exposição dos trabalhos e duas caixas com revistas e livros para que os alunos utilizassem em algumas atividades. Ao entrarmos na sala de aula do 3° ano do 1° ciclo a professora A, diz bom dia, pergunta se eles fizeram as tarefas e a maioria dos alunos disse que não. Então ela falou para quem não tivesse feito era para fazer durante a aula. Na segunda feira teve somente aula de português, que foi realizada através do livro da página 49 a página 51. Após uma aluna perguntar quem eram as pessoas que estavam em sala, nós nos apresentamos para os estudantes. A coordenadora foi até a sala para levar o livro da Nova Escola, e ficou um tempo na porta conversando com a professora, enquanto isso as crianças ficaram agitadas pela a sua ausência. A professora pediu para que os alunos lessem o texto em voz baixa e com os olhos. Enquanto isso ela corrigia as tarefas do caderno de matemática e pedia para que os alunos que não acertaram refizessem os exercícios. Após ela corrigir os cadernos dos alunos começou a fazer as atividades do livro que eram a cerca do texto. Na primeira atividade os alunos tiveram dificuldade para responder, então à professora pediu para que cada aluno indicado por ela lesse em voz alta, e perguntava para o aluno assim: “o que você entendeu? Entendeu! Não! Então lê de novo!”, e isso ela fazia aluno por aluno individualmente. Esse processo demorou muito tempo, e alguns alunos nem abriram o livro para ler. Durante o tempo de observação do primeiro dia, percebemos que as crianças gostam de apontar seus lápis apenas para levantarem das suas cadeiras e irem até a lixeira para conversarem e escorregarem no chão liso e encerado da sala. 211 O recreio geralmente é realizado 09h00min da manhã na sala de aula, eles vão à cozinha, pegam as merendas e retornam para a sala de aula, na saída para o lanche formam-se duas fileiras um de meninos e outra de meninas. Nesse intervalo a professora deixa os alunos livres e, vai até a secretária para pegar o xerox dos exercícios de uma outra turma. Ao término do lanche, sumiu a borracha de uma aluna, e ela falou para a professora e a mesma respondeu: “só podia ser você, sempre é você!”, os alunos ajudaram a procurar a borracha, mas só no fim da aula que a encontrou. A professora ajuda os alunos a terminarem de fazer os exercícios do livro. Após isso ela passa alguns exercícios no quadro tendo como conteúdo de português: monossílaba, dissílaba, trissílaba e polissílaba. Observamos que um aluno está sempre disperso nas aulas, ele jogou o caderno velho fora e com isso ele não faz nenhuma das atividades e apresenta problema na visão. Já outro aluno tem caderno novo, mas aparenta não gostar de escrever, mas lê bem e gosta de ficar conversando em sala com os outros colegas. Quando a professora está ocupada os alunos começam a brincar e a escorregar no chão, e com isso surge uma confusão entre dois alunos os quais começaram a se agredir verbalmente e fisicamente, quem separou a confusão foi um outro aluno, que dizia: “aqui não é lugar de brigar é lugar de estudar”. Mas mesmo assim os dois alunos continuaram brigando, depois de algum tempo a professora veio e interveio na briga. Em uma conversa informal com um aluno, perguntei para ele se ele gostava da professora? Ele me respondeu que: “é mais ou menos” eu perguntei para ele por que: “ela grita muito”, ele respondeu. A professora começa a passar as atividades de matemática para casa no quadro, tendo como conteúdo: ordem crescente e decrescente, adição, escrever por extenso os nomes dos números; português: palavras com cha, che, chi, cho, chu. A professora diz que é para eles copiarem e fazerem em casa, mas nem todos dão conta de terminar de copiar os exercícios do quadro, então bate o sino às 10: 45 h da manhã, as crianças que terminavam ficavam na sala copiando e a professora se encaminhava para a sala dos professores. Dia 17/04/2007 (terça) Turma: 3º ano matutino Professora: A 17 alunos presentes Disciplinas desenvolvidas: Matemática e Artes Chegamos à escola e fomos para o pátio, as crianças já estavam sentadas, esperando que a coordenadora fizesse a oração, ela chegou e fez a oração do pai nosso, quando terminou cada um foi para a sua sala. A professora chegou à sala, passou exercícios de Matemática no livro, e enquanto alguns bagunçam apenas três faziam à lição, ela passou em cada carteira 212 para dar visto nos cadernos dos alunos. Os alunos estavam dispersos e, escorregavam no piso da sala. E assim passou uma aula inteira. Logo em seguida entrou a professora Rose, e explicou que dia 15 de abril foi comemorado o dia da conservação do solo e que “este tem que ser conservado porque é ele que nos traz a comida”, logo entregou desenho mimeografado de um menino mexendo no solo e pediu que as crianças pintassem, algumas vezes ela sugeria as cores para eles. Enquanto algumas crianças pintavam, outras passeavam pela sala. Muitas não têm lápis de cor então se sentam em dupla. A professora pegou alguns cadernos novos de Artes com as crianças e sentou em sua mesa para fazer as aberturas. À medida que foram terminando colavam a atividade da pintura no caderno. Na sala tem muito barulho, ao lado tem um pátio onde outras crianças fazem Educação Física, e pelo que dá de escutar estão fazendo algum grito de guerra. A aula de Artes acabou e, as crianças pegaram a merenda e fizeram a refeição na sala de aula, pois não há intervalo. Logo em seguida retornou a aula de Matemática. A professora pediu para que pegassem os livros para resolverem os exercícios sobre números pares e ímpares. Mas, percebemos que as crianças ainda desconhecem os números, alguns bagunçam e outros fazem os exercícios. Enquanto isso a professora está mimeografando outros exercícios em sua mesa. Passado alguns minutos, ela passa outra atividade de lógica, sendo que, muitas crianças ainda não haviam terminado a anterior. Logo em seguida, começou a fazer ditado de números, ela ditou alguns números e então bateu o sinal para que as crianças fossem embora. Dia 18/04/2007 (quarta) Turma: 3º matutino Professora: A 22 alunos presentes Disciplinas desenvolvidas: História, Ed. Física e Ed. Artística. Chegamos à escola e as crianças já estavam no pátio rezando, depois foram para a sala. Quando entramos, os alunos nos deram as boas vindas e, sentamos no fundo da sala. Neste dia as maiorias dos alunos estavam uniformizados. A primeira aula foi de História, na qual o tema tratado foi: O Dia do Índio, já que no dia seguinte seria comemorada a data. Os alunos deveriam copiar do quadro o texto passado pela professora, mas pelo menos 07 alunos não conseguiram copiar no período da aula de História. Ficaram durante a aula de Ed. Física e mesmo assim não acabaram. Depois de copiarem o texto os alunos deveriam responder 05 perguntas. Percebemos que, poucos lêem o texto, eles passavam várias vezes pelas respostas, porém não conseguiam entender. As perguntas tinham respostas evidentes no texto, como por exemplo: 213 Texto: “... Os índios constroem ocas para morarem...” Pergunta: “Onde os índios moram?”. A professora passava pelas cadeiras dos alunos auxiliando-os nas tarefas. Uma aluna que não sabe ler fez a cópia do texto, mas não tem nem idéia do que está escrevendo. Segundo a professora “ela não é interessada, tem muita preguiça, está matriculada na aula de Apoio, que é realizada no período vespertino, mas falta muito”. A professora afirma que ela ficará retida no terceiro ano, por não ter a mínima condição de seguir em frente sem saber ler.Apesar dessa afirmação, não há preocupação em encontrar uma solução para o desenvolvimento do aprendizado desta aluna. Outro aluno tem problemas sérios de visão e não consegue escrever, segundo informações da professora, já foi conversado com os pais deste, que é imprescindível levá-lo ao oftalmologista, mas até agora não foi tomada nenhuma atitude. Apesar de termos a informação de que a escola é receptiva a alunos com deficiências visuais, não compreendemos por quais motivos a escola não tomou providencias quanto ao caso deste aluno. Os alunos falam muitos palavrões e se agridem fisicamente, principalmente as meninas. Conversando com a professora, ela nos falou que já pediu a aposentadoria e está muito desanimada com a falta de participação dos pais na escola, do desânimo dos alunos e, não concorda de forma alguma com o sistema de ciclo. Ela argumenta que boa parte dos alunos chegam ao terceiro ano sem saberem ler e, isso atrapalha o processo de ensino e de aprendizagem dos demais alunos que estão “aptos” a estarem no terceiro ano, já que os mesmos precisam que a professora sente junto com eles e ela tem que atender toda a turma. O processo de aprendizagem é avaliado por meio de um relatório, com questões objetivas e a resposta é equivalente à aprendizagem do aluno. Não tivemos acesso a este documento, apensa nos foi relatado. Logo após a aula de História começou a de Educação Física. A professora teve uma postura autoritária, conversava pouco com alunos, apenas o suficiente para passar informações das atividades que seriam desenvolvidas, sentada ela observava os alunos, mas, não interagia nas atividades. Trabalhou figuras geométricas em forma de “amarelinha”, utilizou cabos de vassouras e o pátio da escola. A aula foi de 15 m. A próxima aula foi de Educação Artística. A professora entregou aos alunos desenhos mimeografados, de alguns o desenho era a figura de um índio e de outros a de um livro, já que dia 18 de abril foi comemorado o dia do Livro Infantil. Não houve uma introdução sobre essas datas comemorativas. As crianças gostam muito de pintar, todas fizeram a atividade e os trabalhos ficaram expostos no varal dentro da sala de aula. Assim que terminaram a atividade, bateu o sinal e as crianças foram embora. 214 Dia 19/04/2007 (quinta) Turma: 3º matutino Professora: A 22 alunos presentes Disciplinas desenvolvidas: História, Ed. Física e Artes. A primeira aula neste dia foi de Educação Física. Ao retornarem a sala de aula, a professora entregou a eles a figura mimeografada de um índio para que colorissem. O inspetor entrou na sala para conferir se um aluno estava fazendo as tarefas corretamente. Conversou em voz alta com a professora, dizendo que “o sistema estava louco para reprová-lo”. Ao sair da sala, disse que se esse ano ele não se esforçar “vai ficar para trás, que nem um João Bobo”. As crianças brigam muito, falam muito palavrão e a professora não consegue controlá-los. Com relação ao planejamento das aulas, quando ele é feito, a professora disse que planeja as aulas conforme o conteúdo que é passado pela coordenação, todo início do ano, baseando-se em xérox. As áreas do conhecimento trabalhadas são Português, Matemática e Artes, segundo a professora A não trabalha Ciências naturais pelo fato: “nem todas as crianças sabem ler”. A coordenadora do colégio é ex-aluna do curso de Pedagogia da UFMT. Ela nos informou que “os pedagogos formados pela Universidade Federal de Mato Grosso saem muito mal preparados para a sala de aula” e também: “que o curso oferecido pela instituição é muito básico para a realidade da sala de aula”. Com relação à estrutura do colégio, os ambientes são bem distribuídos, sendo que algumas salas possuem ar refrigerador. Há refeição para alunos e professores no intervalo. • Descrição das aulas da profª B: Dia 16/04/2007 (segunda) Turma: 3º ano matutino Professora: B 17 alunos presentes Disciplinas desenvolvidas: Matemática e Artes Ao chegarmos à escola fomos bem recebidas pela diretora, entregamos o oficio e pedimos para ficar na sala de segunda série e, ela nos explicou que a escola é ciclada e ficaríamos em sala que corresponde a tal. 215 A secretária levou-nos ao pátio onde as crianças estavam em fila e sentadas rezando. Havia uma professora contando uma passagem bíblica e ao terminar os alunos rezaram o Pai Nosso e foram para a sala. Ficamos na sala do terceiro ano do primeiro ciclo, que agora corresponde à segunda série. A professora nos apresentou para a sala como sofredoras (devido à profissão), as crianças não entenderam a expressão usada. Inicialmente observamos o espaço físico da sala de aula que é estreita e com pouca iluminação, têm janelas altas e, em apenas uma das paredes. A mesa do professor e o armário ficam no fundo da sala. O quadro já está bem gasto. A ventilação da sala é boa, tem ar condicionado e ventiladores. Há cartazes com o alfabeto em letras maiúsculas e minúsculas, os numerais, as regras de comportamento e as famílias silábicas, que estão distribuídos pelas paredes da sala. Após nos apresentar, a professora falou para os alunos pegarem os livros de Matemática e explicou os números ordinais, pediu que as crianças copiassem no caderno os exercícios do livro. Nestes exercícios havia o desenho de uma tartaruga, e a professora aproveitou este desenho para contar a fábula da Festa no céu, na versão em que ela contou a tartaruga e o urubu eram os protagonistas. A professora passou de carteira em carteira para ver se estavam fazendo certo o exercício. Percebemos que algumas escrevem em letra bastão e outras em letra cursiva. Nem todas conseguem acompanhar os exercícios, umas estão no começo e outras terminando. A professora chama a atenção dos alunos para corrigirem suas posturas quando estão sentados. Eles fizeram exercícios sobre os números ordinais e colocaram o nome dos colegas em ordem no qual estão sentados nas carteiras. Algumas crianças já sabem escrever bem, outras ainda não e, principalmente elas têm muita dificuldade em utilizar letras maiúsculas. Logo após a professora passou contas de efetuações matemáticas. Em seguida iniciou a aula de Educação Artística, a professora deu desenhos mimeografados sobre o dia da conservação do solo para que eles pintassem com as cores que ela indicava aos poucos as crianças foram terminando e colando no caderno de desenho. O horário da aula havia terminado e seria aula de Educação Física, porém a professora havia faltado, e para que os alunos não ficassem dispersos por meio de recortes de papéis e, fez vários desenhos como chapéu de chinês, borboleta, coração e etc. Ao tocar o sino de saída as crianças terminaram os recortes, coloram no caderno e foram embora. Dia 17/04/2007 (terça feira) Turma: 3° ano Matutino Professora: B 20 alunos presentes Disciplinas desenvolvidas: Artes, Educação física, Português. 216 A professora cumprimenta os alunos dizendo, “Bom dia” e começa a aula de Educação Artística, durante esta aula a professora preparou no mimeografo o desenho de um índio para que as crianças colorissem. Discretamente pedimos o caderno de arte para uma aluna e ela nos cedeu. No caderno havia somente duas folhas escritas: uma tratava das cores primárias e secundárias e na outra havia um desenho livre, porém não fazia parte das atividades propostas pela professora. Após a aula de Educação Artística teve inicio a Educação física, a professora apareceu na porta e disse para que as crianças se encaminhassem para a quadra. Fizeram alongamento e, depois brincaram de “morto vivo”, essa brincadeira se repetiu por três vezes. Neste entremeio uma aluna machucou a boca, a professora a orientou que fosse o banheiro para levar o local machucado. Os meninos jogaram futebol, com uma bola velha e sem revestimento, mas mesmo assim, pareciam gostar muito. Enquanto isso a professora brincava com as alunas do “mês”, da seguinte maneira: formava-se uma dupla, na qual cada uma escolhia um sonho e, as demais participantes tinham que descobrir qual era esse sonho, quem acertasse substituiria uma das que formava a dupla, e começava uma nova brincadeira. Outra atividade foi uma roda de cantiga com a música do “galo e da galinha”, em que um (a) aluno (a) ficava dentro da roda, cantava a música e, assim que terminasse era escolhida uma outra criança para prosseguir a brincadeira. Brincaram ainda de “passa meu bom vaqueiro...” e, “corre cutia”. Após o termino da aula as crianças foram merendar (arroz, feijão e ovo). A aula de português foi realizada através do livro. A leitura das atividades era feita em voz alta. A professora o tempo todo relaciona as atividades do livro com a realidade dos alunos, por exemplo, ao falar sobre o lixo, ela dizia que o “lixo não é para ficar no chão”, que a “sala deve permanecer sempre limpa” e assim por diante. Os alunos fizeram cópias das atividades do livro no caderno e, nesse intervalo a professora elaborava a aula do dia seguinte. Depois que os alunos terminaram de responder as questões, a professora vai à frente da sala e dita as respostas, segundo o livro, para os alunos escreverem no quadro. O aluno R apresenta boa leitura, mas sempre está no meio da bagunça, já a aluna H que veio transferida de uma escola de SP, tem uma narrativa muito boa e sempre termina as atividades antes de outros alunos, e para essa aluna, a professora passa mais exercícios e sempre pede para que ela escreva um texto de acordo com a sua imaginação. Logo em seguida a professora passa exercícios de caligrafia, porque segundo ela “os alunos estão tendo dificuldade em aprender maiúscula e minúscula”. Depois dá visto no caderno de quem já terminou. A professora passa as atividades para casa, que tinham como conteúdo: contas de adição. Os alunos copiam todas as tarefas e vão saindo da sala, enquanto isso a professora organiza a sala e guarda os exercícios de caligrafias para no dia seguinte colar no caderno. 217 Dia 18/04/2007 Turma: 3° ano Matutino Professora: B 17 alunos presentes Disciplinas desenvolvidas: Português Os alunos estão aprendendo a utilizar a letra maiúscula e minúscula. Para começar, a professora utilizou um texto de Marco Antônio Abilar, chamado “Passeando pela cidade”. Texto: “Passeando pela cidade” _ Vrumm, vrum... Entro no carro, saio para a rua. _ Vrum, vrum... Acelero bem o motor Vou passear na cidade, fazer compras, me divertir. Na esquina tem a farmácia. _ Cof, cof... Vou comprar remédio para tosse. Logo ali, um supermercado. _ Que enorme! Vou buscar arroz e feijão. Passo lá na padaria, pra pegar o leite e o pão. Na praça como pipoca, encontro os amigos. Conversar, como é bom! O conteúdo trabalhado foi à utilização de letras maiúsculas e minúsculas, uso da pontuação, cópia do texto passado no quadro negro, interpretação e, correção do exercício de casa, na área do conhecimento de Matemática. Exercícios de sala sobre o texto: 1. Como você costuma passear na cidade: de carro, de ônibus, à pé? 2. Como é o barulho do carro? 3. Quais os lugares por onde a personagem vai passear? 4. Por que a personagem vai à farmácia? 218 5. O que ela pega na padaria? 6. O que ela quer comprar no supermercado? 7. O que ela faz na praça? 8. Desenhe como você imagina a historinha do livro. 9. Junte as sílabas. __daria= pa __ pai = __ macia = far __ da = __versa = con __ curso = Ela também fez uma aula de leitura por intermédio do texto passado no quadro, com todos os alunos, sendo que uma aluna recusou-se a ler. A professora exaltou-se mediante a recusa da aluna, de modo que a menina se envergou para dentro da carteira, com vergonha. Após as atividades, ela deu uma cópia para os alunos colorirem. Segundo a professora a pintura, é o momento em que elas mais se socializam e acalmam. A escola não exige que os professores façam o plano de aula, tanto que a professora não pôde nos mostrar todos os conteúdos apresentados por não estar com os planos de todas as aulas em mãos. Dia 19/04/2007 Turma 3º matutino Professora: B 22 alunos presentes Disciplinas desenvolvidas: Português. Educação física, Matemática. Ao entrarem em sala de aula, a professora B solicitou que os alunos pegassem o livro de Português, porém esta não fazia idéia de onde havia parado a matéria. Com a ajuda dos alunos, que fizeram a indicação da página e em qual exercício da matéria havia parado, ela pôde dar continuidade à aula. Ao se localizar e verificar a matéria percebeu que seriam exercícios que necessitariam o uso do dicionário e que estes não estavam condizente com as capacidades de leitura dos alunos, devido a isso não os executou. A professora pulou algumas páginas do livro, tanto que uma das alunas comentou “Credo professora, pra que pular tantas páginas?” (sic). Ao encontrar uma matéria que estivesse condizente com as capacidades dos alunos a professora indicou a página em que os alunos deveriam abrir o livro. Quando a maioria já 219 estava com o livro aberto a professora começou a chamar a atenção de alguns por terem esquecido o livro ou por não estarem na página correta do livro. Quando todos já estavam com seus livros abertos nas páginas corretas, exceto os alunos que esqueceram os seus e não participaram da atividade proposta. A professora começou a leitura do texto intitulado “Como se fosse dinheiro”, da autora Ruth Rocha. Este texto trata do direito do consumidor em receber seu troco em dinheiro e não em mercadorias. Fez-se então uma rodada de leituras com os alunos, porém pela presença estranha, segundo a professora, eles estavam tímidos e liam em um tom de voz muito baixo, audível apenas pelos mais próximos. Pela demora em fazer a leitura os alunos se dispersaram, conversando e andando pela sala. A professora pediu apenas que sentassem e continuou a leitura individualmente, mesmo com a conversa dos demais atrapalhando o desenvolvimento da atividade. Após esta rodada de leituras a professora prosseguiu com os exercícios de interpretação do texto, fazendo apenas os mais técnicos, deixando os exercícios que necessitavam de respostas e discussões mais aprofundadas sobre o texto para um outro momento, sem maiores explicação sobre a razão de tal decisão. Aproveitando um exercício do livro a professora fez uma leitura da capa do livro de Português com os estudantes, explicando onde ficava cada informação sobre o livro, como nome dos autores, nome do livro e explicando a utilidade dessas em nosso cotidiano. Os exercícios do livro eram respondidos no caderno da mesma matéria, colocando a numeração da página onde estava o exercício e as respostas eram passadas no quadro, copiadas do livro pela professora. Os alunos alegaram que estava na hora do intervalo, então foram liberados e lembrados de que após o intervalo deveriam permanecer no pátio, pois teriam aula de Educação Física. Após o intervalo os alunos aguardaram a professora de Educação Física, Maria, no pátio. Ao chegar ela solicitou que as meninas e os meninos fizessem duas filas e entre elas colocou uma fileira de colchonetes. Ensinou então a posição para que as crianças fizessem cambalhotas, chamando sempre a atenção de quem não seguia suas instruções. A segunda atividade foi a seguinte: as meninas deveriam deitar nos colchonetes e um menino por vez deveria rolar sobre elas. Quando todos os meninos já haviam feito a atividade, trocaram os papéis, os meninos deitaram e as meninas rolavam sobre eles, uma por vez. A nosso ver o objetivo de desenvolver uma atividade de integração não existiu, já que os alunos fizeram a atividade por obrigação e pela professora ser muito autoritária Neste momento a professora teve um pouco de dificuldade em convencê-los a fazer a atividade. Ela também explicou que a Educação Física era feita ali, pois a quadra por não ser coberta, poderia oferecer algum risco a saúde das crianças. Alguns alunos que estavam bagunçando durante a aula eram colocados de castigo, um mais disperso foi retirado do pátio, levado até a sala dos professores e obrigado a fazer a leitura de um livro, selecionado pela professora na biblioteca da escola. Outro que estava dispersando a turma a professora colocou em um canto do pátio em pé e este ficou lá durante todo o resto da aula. A próxima atividade foi a brincadeira “coelhinho sai da toca”. As tocas eram os colchonetes e as crianças deveriam aos trios trocar de toca, sempre correndo em 220 sentido horário. A brincadeira não transcorreu muito bem, pois as crianças contrárias se batiam e caiam no chão. Ao chamar à atenção das crianças a professora sempre utilizava apelidos como “Gaúcho”, “Criatura”, “Maria Joaquina”, etc. A professora acabou desistindo da aula e, pediu que todos fossem ao banheiro, bebessem água para retornarem à aula. Ao chegarem à sala a professora Rose pediu que todos sentassem e se acalmassem, pois a aula de Educação Física já havia passado. Os alunos comentavam com a professora quem havia ficado de castigo na aula anterior e o porquê da punição. A professora, então, chegou junto aos alunos que ficaram de castigo e conversou com eles, explicando que a aula de Educação Física é pra brincar, se divertir, mas sem abusar, pois como eram muitos alunos, acabavam por atrapalhar o trabalho da professora e isso não era bom pra eles próprios. Após a conversa com os alunos ela entregou-lhes um desenho mimeografado da Boneca Emilia, do Sítio do Pica-Pau Amarelo, obra de Monteiro Lobato. Disse que eles iriam pintar este desenho, pois era uma data comemorativa: O Dia do Livro Infantil. Enquanto os alunos faziam esta atividade, a professora preparava os exercícios que seriam oferecidos aos alunos no dia seguinte. Quando a maioria dos alunos já havia terminado de pintar, a professora pediu a atenção de todos e disse que os alunos que liam melhor iriam fazer a leitura de parte de um samba-enredo que falava sobre a Independência do Brasil. Nesse dia ela não deu maiores explicações sobre o que significava esta data comemorativa. Apenas seis alunos foram selecionados e os demais ficaram inquietos o resto da aula, pedindo “um pedaço do texto pra ler”. A professora aproveitou a última meia hora de aula e passou alguns cálculos de matemática, de multiplicação e subtração, no formato “arme e efetue”, avisando aos alunos que não haviam terminado a pintura para guardá-lo e copiar as contas, podendo trazê-lo pintado no dia seguinte, juntamente com as contas feitas. Conforme iam terminando de copiar, as crianças eram dispensadas.