A DIVERSIDADE DA GEOGRAFIA BRASILEIRA: ESCALAS E DIMENSÕES DA ANÁLISE E DA AÇÃO DE 9 A 12 DE OUTUBRO INSTITUINDO A APROXIMAÇÃO ENTRE OS PROFISSIONAIS DE GEOGRAFIA E A OBSERVAÇÃO DE CAMPO: A DISCUSSÃO DE DIFERENTES TIPOLOGIAS DE TRABALHO DE CAMPO TENDO COMO ÁREA DE ESTUDO A LAGOA DO VIGÁRIO EM CAMPOS DOS GOYTACAZES-RJ ROMULO DE ALMEIDA BERALDI CRESPO1 RAUL REIS AMORIM2 Resumo: O objetivo deste trabalho é adaptar os parâmetros propostos por Compiani e Carneiro (1993) apud Scortegagna e Negrão (2005) que classificam as excursões geológicas de acordo com seu papel didático dos trabalhos de campo e propor um roteiro de trabalho de campo tendo como área de estudo a Lagoa do Vigário, situada na área urbana do município de Campos dos Goytacazes-RJ. A área se constituiu como possibilidade de trabalho de campo que integre temáticas das diferentes áreas da Geografia. Verificou-se que o roteiro proposto é eficaz, e que a adoção das diferentes concepções de trabalho de campo pode ser aplicado em escala local no ensino de Geografia da Educação Básica. . Palavras-chave: Trabalho de Campo; Geografia; Relações Ensino-Aprendizagem; Abstract: The objective of this work is to adapt the parameters proposed by Compiani and Carneiro (1993) cited Scortegagna and Negrao (2005) classifying geological tours according to their educational role of field work and propose a fieldwork roadmap as area study the Vicar Lagoon, located in the urban area of the municipality of Campos dos Goytacazes-RJ. The area was formed as the possibility of field work that integrates the different thematic areas of geography. It was found that the proposed roadmap is effective, and that the adoption of different fieldwork concepts can be applied at the local level in Basic Education Geography teaching. Key-words: Fieldwork; geography; Teaching and Learning relations; 1 – Introdução O trabalho de campo é uma metodologia importante para a construção do conhecimento, e é adotada pela ciência geográfica desde a sua gênese. As dificuldades na elaboração e execução de trabalhos de campo fez com que esta metodologia fosse adotada predominantemente nos trabalhos técnicos e na universidade, em detrimento da Educação Básica. 1 Acadêmico do Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal Fluminense. E-mail de contato: [email protected] 2 Docente do programa de pós-graduação da Universidade Federal Fluminense. E-mail de contato: [email protected]; [email protected] 64 A DIVERSIDADE DA GEOGRAFIA BRASILEIRA: ESCALAS E DIMENSÕES DA ANÁLISE E DA AÇÃO DE 9 A 12 DE OUTUBRO A difusão dos trabalhos de campo nas escolas da Educação Básica é importante, uma vez que as discussões em torno das aulas, em específico as de Geografia, se limitam as discussões teóricas sem apresentar suas outras múltiplas possibilidades. Uma destas possibilidades se apresenta como trabalho de campo que pode fornecer novas visões de mundo que por suas vezes não se apresentam claras e evidentes em livros didáticos, á exemplo. Para tanto, concluiu-se em apresentar a Geografia como disciplina que possa valorizar o espaço físico da cidade com suas múltiplas faces onde também o ambiente escolar se insere. Para Lopes e Allain (2002), a própria complexidade que envolve um trabalho de campo, em que os alunos se deparam com uma quantidade maior de fenômenos quando comparada a uma aula tradicional, pode confundir os alunos na construção dos conceitos e lidar com essa complexidade requer o estabelecimento de objetivos claros e um professor bem preparado. Tendo o exposto, o objetivo deste trabalho é adaptar os parâmetros propostos por Compiani e Carneiro (1993) apud Scortegagna e Negrão (2005) que classificam as excursões geológicas de acordo com seu papel didático dos trabalhos de campo Ilustrativas, Indutivas, Motivadoras, Treinadoras e Investigativas no âmbito das aulas de campo em Geografia, e propor um roteiro de trabalho de campo tendo como área de estudo a Lagoa do Vigário, situada na área urbana do município de Campos dos Goytacazes-RJ. 2 – MATERIAL E MÉTODOS 2.1 – Área de estudo A lagoa do Vigário é um corpo lacustre com aproximadamente 300m² localizado no município de Campos dos Goytacazes, Região Norte do Estado do Rio de Janeiro. Segundo Santos (2007, p.3), “a área urbana em que está inserida apresenta coordenadas geográficas situadas entre 21º 45’ 15” S e 41º 19’ 28” O, estando compreendida entre os bairros Jardim Carioca e Parque Calabouço”. O seu entorno, devido à ausência de planejamento do poder público, foi totalmente ocupado irregularmente por residências e atividades econômicas que 65 A DIVERSIDADE DA GEOGRAFIA BRASILEIRA: ESCALAS E DIMENSÕES DA ANÁLISE E DA AÇÃO DE 9 A 12 DE OUTUBRO impõem à lagoa uma série de impactos ambientais que aceleraram ano a ano o processo de eutrofização de suas águas, em decorrência do aporte, via lançamentos diretos e indiretos, de materiais orgânicos e inorgânicos. Percebe-se ainda que a Lagoa do Vigário não é um corpo isolado, apresentando um “canal defluente” na sua porção Sul, o canal do Vigário, que está ligado ao brejo dos Prazeres e à Lagoa Taquaruçu, cujas águas são reguladas por comportas que permanecem a maior parte do ano fechadas. No período de estiagem, a maior contribuição por aporte de efluentes orgânicos ocorre por lançamentos pontuais ao longo das margens, provenientes não só de residências, pequenas fábricas e comércios, mas da própria rede pública de galerias pluviais, cuja lagoa é a principal bacia de acumulação. 2.2 – Procedimentos metodológicos Para atender ao objetivo proposto foi necessário adotar quatro etapas: primeiro foi realizar um estudo bibliográfico sobre o papel do trabalho de campo na Geografia; posteriormente selecionou-se a área para a realização do trabalho de campo; em sequência propôs-se como cada um dos tipos de trabalho de campo proposto por Compiani e Carneiro (1993) fossem aplicados na área; e, por fim, a elaboração um roteiro de trabalho de campo que contemplasse diferentes tipos de trabalho de campo numa mesma área. A área selecionada foi a Lagoa do Vigário situada na área urbana do município de Campos dos Goytacazes-RJ, pois a proposta foi realizar uma proposta de trabalho de campo que englobasse temáticas ligadas a dinâmica natural e também social. Adaptando a proposta metodológica proposta por Compiani e Carneiro (1993), definiu-se a realização de cinco tipos de trabalho de campo a serem aplicados: Ilustrativo, Indutivo, Motivador, Treinador e Investigativo. Para tipo de trabalho de campo propôs-se estudo de diferentes temáticas conforme o Quadro 01: 66 A DIVERSIDADE DA GEOGRAFIA BRASILEIRA: ESCALAS E DIMENSÕES DA ANÁLISE E DA AÇÃO DE 9 A 12 DE OUTUBRO Tipo de Trabalho de Campo Temáticas propostas Ilustrativo Processo de urbanização decorrente de ocupação espontânea Indutivo Leitura da paisagem: elementos naturais, sociais e culturais Motivador Efeitos da ocupação para a preservação da Qualidade da Água e da Mata Ciliar Treinador Propriedades dos Solos Investigativo Caracterização da população do entorno Quadro 01 – Tipos de trabalho de campo e temáticas propostas. Organização: CRESPO e AMORIM (2015). A terceira etapa é a proposição de um roteiro de trabalho de campo que poderá ser aplicado para docentes que atuam na Educação Básica, licenciandos em Geografia que estão desenvolvendo atividades ligadas ao PIBID, Práticas Educativas e Estágio Supervisionado e aos alunos da Educação Básica. 3 – RESULTADOS E DISCUSSÕES 3.1 – Contribuições teóricas para o Trabalho de campo em Geografia Diversas são as contribuições para justificar o trabalho de campo como complementar as atividades educativas em sala de aula. Professores de Geografia devem refletir acerca desta prática, pois a mesma está imbuída de contribuições para com as aulas expositivas que são ministradas pelos mesmos. De acordo com Suetergaray (2009, p. 3): A pesquisa de campo constitui para o geógrafo um ato de observação da realidade do outro, interpretada pela lente do sujeito na relação com o outro sujeito. Esta interpretação resulta de seu engajamento no próprio objeto de investigação. Sua construção geográfica resulta de suas práticas sociais. Neste caso, o conhecimento não é produzido para subsidiar outros processos. Ele alimenta o processo, na medida em que desvenda as contradições, na medida em que as revela e, portanto, cria nova consciência do mundo. Trata-se de um movimento da geografia engajada nos movimentos, sejam eles sociais agrários ou urbanos. Enfim, movimentos de territorialização, desterritorialização e reterritorialização. A necessidade de executar a prática de campo e estudar o local para compreender o global se constitui como possibilidade de ampliar horizontes. Ao se 67 A DIVERSIDADE DA GEOGRAFIA BRASILEIRA: ESCALAS E DIMENSÕES DA ANÁLISE E DA AÇÃO DE 9 A 12 DE OUTUBRO executar trabalhos de campo, “é essencial a análise escalar dos ambientes, pois partindo de um estudo local (...), a percepção de contextos mais distantes acontece por meio de contextos mais significativos”. (JUSTEN-ZANCANARO; CARNEIRO, 2012, p. 3). Uma das virtudes da aula de campo seria compreender esta prática como estratégica. Uma vez esta compreensão estabelecida, o papel dos educandos seria inserir os alunos a realidade aos quais os mesmos se inserem. Assim, conforme Souza e Chiapetti (2012, p. 7): Utilizar o trabalho de campo como uma estratégia no ensino de Geografia é uma forma significativa de integrar os conteúdos ministrados pelos professores, visto que o mesmo proporcionaria a compreensão da realidade vivida pelos alunos e a apreensão de outros espaços geográficos externos ao seu cotidiano, ampliando as fontes de conhecimentos que os levam à reflexão e à tomada de consciência sobre a organização do seu espaço geográfico. Atualmente, na perspectiva da modernidade, o professor deve se inserir no campo da tecnologia para despertar a atenção de seus alunos no tocante a ministração de aulas. Este condicionante não estaria fora da realidade da aula de campo. Para Azambuja (2012, p. 12): Certamente os alunos têm mais facilidades para trabalhar a campo com equipamentos portáteis tais como, computadores ou tablet, GPS, telefones celulares e máquinas fotográficas fazendo o uso de mapas e imagens virtuais para o registro dos dados e das informações coletadas nas atividades a campo. Todavia haverá sempre o esforço de demonstrar que a aula de campo é efetiva no tocante a despertar nos alunos, novas percepções de mundo. Este é o papel da aula de campo e deverá ser o discurso do professor, mesmo que para o docente as dificuldades porquanto do exercício de executar esta atividade, sejam muito maiores que as virtudes. De acordo com Carbonell (2002, p. 3): a mente tem a capacidade de aprender e reter melhor as informações quando o corpo interage de maneira ativa na exploração de lugares, enquanto experiências onde o sujeito é passivo tendem a ter impacto de curta duração e atenuam-se com o tempo. Faz-se importante ressaltar que muitas são as opções para a realização de um trabalho de campo pautado numa perspectiva sócio-construtivista, pois o espaço geográfico de vivência ou de conhecimento dos alunos oferece um leque de 68 A DIVERSIDADE DA GEOGRAFIA BRASILEIRA: ESCALAS E DIMENSÕES DA ANÁLISE E DA AÇÃO DE 9 A 12 DE OUTUBRO alternativas, tanto no meio urbano quanto no meio rural. Segundo Pontuschka (2004, p. 3) O meio é uma geografia viva. A escola, o córrego, a população de um bairro, o distrito industrial, um parque, uma reserva florestal, um shopping, um hipermercado, a chácara vizinha são elementos integrantes de um espaço, que podem ser pontos de partida para uma reflexão. Em um primeiro momento, pode-se descrever utilizando os referenciais vivos para localizá-los. No entanto, é preciso ir além. Em qualquer lugar escolhido para realizar um estudo do meio, há o que ver, há o que refletir em geografia, pois não existem lugares privilegiados, não há lugares pobres. É preciso saber ver, dialogar com a paisagem, detectar os problemas existentes na vida de seus moradores e estabelecer uma relação entre os fatos verificados e o cotidiano dos alunos. A Lagoa do Vigário, espaço onde a pesquisa se insere e é a realidade dos professores que fizeram parte deste estudo, se constitui como “o laboratório de geografia que é a própria realidade. Por isso, acredita que o estudo do meio oferece oportunidade para tal apreensão do mundo concreto”. (OLIVEIRA e ASSIS, 2009, p. 09). Embora não seja objetivo desse trabalho investigar como se dá a aprendizagem de um conceito específico, “há evidências de que a aula de campo em um ecossistema terrestre natural possa contribuir para a elaboração e a compreensão de conceitos abstratos”. (SENICIATO e CAVASSAN, 2004, p. 13) 3.2. – Roteiro de Trabalho de Campo: o caso da Lagoa do Vigário em Campos dos Goytacazes-RJ A Lagoa do Vigário está localizada numa área urbanizada do município de Campos dos Goytacazes, e faz-se necessária uma proposta de utilização corretiva dessa lagoa, para que não seja alvo de despejo de efluentes entre muitos outros problemas, já que a responsabilidade pelo saneamento ambiental é do poder público conforme preceitua o Plano Diretor Municipal, Lei 7.972/081, e legislações afins. Uma vez que se constam problemas, importa neste trabalho levar os docentes a campo para reconhecer as múltiplas possibilidades de observação neste local. Para tanto, são apresentadas abaixo as formas de análise campo a serem executadas na lagoa. Segundo Scortegagna e Negrão (2005, p.40) a atividade de campo ilustrativa: (...) é considerada a mais tradicional das saídas de campo, pois reafirma o conhecimento como produto acabado. Serve para mostrar 69 A DIVERSIDADE DA GEOGRAFIA BRASILEIRA: ESCALAS E DIMENSÕES DA ANÁLISE E DA AÇÃO DE 9 A 12 DE OUTUBRO ou reforçar os conceitos já vistos em sala de aula. É centrada no professor que se utiliza da lógica da ciência para reforçar o conteúdo no campo. O aluno faz o papel do espectador com a caderneta de campo repleta de anotações repassadas pelo professor. Utilizando-se desta tipologia, sugere-se que a área é ideal para discutir o processo de urbanização decorrente da ocupação espontânea. O professor pode tratar da temática de forma prévia antes de realizar o trabalho de campo. Sugere-se que além da abordagem teórica, o docente utilize diferentes recursos didáticos como o uso de série de fotografias com temporalidades distintas, o uso do computador na sala de informática para a manipulação do software Google Earth (em tal software é possível visualizar imagens de satélite de diferentes períodos) para ilustrar o conteúdo proposto na escola. Ao ter o conhecimento prévio da temática, a ida a campo guiada pelo professor possibilitará mensurar na realidade os conceitos vistos em sala de aula. Como proposta de avaliação, sugere-se que os alunos façam o registro fotográfico da área observada e busquem nos materiais didáticos estudados anteriormente fazer uma correlação entre o observado em campo e a teoria apreendida em sala de aula. Há também a tipologia de campo denominada Indutiva. Conforme Scortegagna e Negrão (2005, p.40): este tipo de saída de campo visa guiar sequencialmente os processos de observação e interpretação, para que os alunos resolvam um problema dado e o papel do professor é de conduzir os alunos ou fazer com que eles sigam um determinado roteiro de atividades, geralmente acompanhado por questionário envolvendo questões teóricas com conceitos previamente estabelecidos. O ensino é dirigido, podendo chegar a semidirigido, mas é delimitado pelo professor que define o ritmo dos trabalhos. Neste caso, utilizando-se desta tipologia, o professor pode elaborar um roteiro de campo. Sugere-se nesta proposta que os alunos façam a partir do roteiro a leitura dos elementos naturais, sociais e culturais da paisagem. É importante que os alunos tenham embasamento teórico do conceito de paisagem em suas diferentes concepções. Como proposta de avaliação, sugere-se que os alunos façam o registro dos elementos observados das três categorias propostas: aspectos naturais, sociais e culturais. Tal registro pode se dá em formato de um esquema, quadro síntese ou mesmo um pequeno relatório. 70 A DIVERSIDADE DA GEOGRAFIA BRASILEIRA: ESCALAS E DIMENSÕES DA ANÁLISE E DA AÇÃO DE 9 A 12 DE OUTUBRO Scortegagna e Negrão (2005, p.40) afirmam que a atividade de campo denominada motivadora: Este tipo de saída de campo tem como objetivo despertar o interesse dos alunos para um dado problema ou aspecto a ser estudado. Este tipo de trabalho é, geralmente, realizado com alunos desprovidos de conhecimentos (...) anteriores, porque se valorizam aspectos mais genéricos, como a paisagem, o senso comum e a afetividade com o meio. O objetivo é despertar a curiosidade e o interesse do aluno para a disciplina ou curso. A saída de campo é centrada no aluno, valorizando a experiência de cada um e os seus questionamentos. Tratar da temática relacionada aos efeitos da ocupação para a qualidade da água e da mata ciliar, de fato, não é um tema proposto nos conteúdos escolares na Educação Básica. É um conhecimento que está embutido em conteúdos distintos da Geografia como a Fitogeografia, Hidrogeografia, Geografia da População e Geografia Urbana. Integrar a dita Geografia Física e a Geografia Humana na Educação Básica é uma forma de motivar os discentes a integrar conteúdos que tradicionalmente na Geografia são dicotômicos. O docente pode solicitar que os alunos antes do trabalho de campo façam uma pesquisa teórica sobre o tema proposto. Posteriormente, os alunos buscarão validar os dados da pesquisa teórica durante o trabalho de campo. Este tipo de atividade tem como objetivo motivar o aluno a integrar temas que nos livros didáticos aparecem dissociados, além de possibilitar aos alunos que tirem suas conclusões a partir do problema proposto. Sugere-se como avaliação que os alunos apresentem um seminário para finalizar tal atividade. Quanto à atividade de campo treinadora, Scortegagna e Negrão (2005, p.40) afirmam que: Este tipo de saída de campo visa treinar habilidades, geralmente com o uso de aparelhos, instrumentos ou aparatos científicos. Exige conhecimentos prévios por parte do aluno que fará anotações, medições ou coleta de amostras. As atividades são direcionadas pelo professor, cabendo ao aluno seguir as recomendações e treinar a técnica ou procedimento. Certamente que a atividade de campo treinadora, na Lagoa do Vigário, pode ser compreendida pelos alunos como a parte mais interessante e ao mesmo tempo diferente da atividade de campo, uma vez que eles poderão utilizar recursos que não estão acostumados a utilizarem em sala de aula. O aluno como participante 71 A DIVERSIDADE DA GEOGRAFIA BRASILEIRA: ESCALAS E DIMENSÕES DA ANÁLISE E DA AÇÃO DE 9 A 12 DE OUTUBRO real da atividade pode ter o sentimento de estar verdadeiramente contribuindo para mudanças significativas na paisagem local. Uma das possibilidades seria seguir as sugestões propostas pelo livro “O SOLO NO MEIO AMBIENTE: abordagem para professores do Ensino Fundamental e Médio e alunos do Ensino Médio” de Lima et al (2007) que apresentam uma série de atividades práticas referentes a temática solos a serem desenvolvidas no campo por alunos e docentes da Educação Básica. Aspectos como a formação dos solos, a cor, estrutura, textura dentre outros aspectos pudessem ser realizados em campo. Como avaliação, sugere-se o registro das atividades através de fichas de campo, fotografias e mesmo vídeo dos experimentos. Cabe-se ressaltar, que experimentos ligados a outras temáticas podem ser realizados em campo, ligados a Geologia, Climatologia dentre outros. Descrevendo a atividade de campo investigativa, Scortegagna e Negrão (2005, p.40) afirmam que Esse tipo de saída de campo propicia ao aluno resolver determinados problemas no campo. Os alunos podem elaborar hipóteses a ser pesquisadas; estruturar a sequência de observação e interpretação; decidir as estratégias para validá-las, inclusive avaliando a necessidade de recorrer à literatura; discutir entre si as reflexões e conclusões. Na atividade de campo investigativa o papel do professor é o de um orientador que resolve as dúvidas dos alunos quando solicitado, além de incentivá-los, dando o suporte necessário para que os mesmos não se dispersem no assunto a ser trabalhado. O professor pode propor um problema para ser solucionado o que direciona a atenção dos alunos para o conteúdo. A saída é centrada no aluno e valoriza seus conhecimentos prévios, não se importando muito com a lógica da ciência, pois aqui o professor considera o aluno capaz de desenvolver habilidades no campo teórico. Na prática de campo investigativa, o professor pode, em sala de aula, debater uma questão problema acerca do local a ser explorado. No caso da Lagoa do Vigário, o local passa pelo processo de ocupação espontânea desde a década de 60 e para tanto, o professor pode fazer dois ou três ou mais questionamentos em sala a respeito desse fato para que, em campo, o aluno possa tenta responder a partir do seu olhar crítico. Questionamentos como: quais as características da população que habita o entorno da área de estudo? Será que as pessoas sabem que estão morando em áreas de risco ambiental? As pessoas que moram ao entorno da Lagoa do Vigário imaginam que poluição, grande parte dela causada por estes moradores, 72 A DIVERSIDADE DA GEOGRAFIA BRASILEIRA: ESCALAS E DIMENSÕES DA ANÁLISE E DA AÇÃO DE 9 A 12 DE OUTUBRO causa ameaça permanentemente a saúde dos ocupantes de suas margens? Entre outras possibilidades de questionamentos. Sugere-se que a avaliação seja produto da coleta de dados em campo, preferencialmente questionários, entrevistas, registro fotográfico entre outros. 4 – Considerações Finais O presente trabalho procurou discutir o papel dos trabalhos de campo como modalidade didática no ensino de Geografia, tendo como objetivo identificar e problematizar as tipologias de trabalho de campo a partir da construção de um roteiro de campo tendo como área de estudo a Lagoa do Vigário em Campos dos Goytacazes na sua prática pedagógica. Segundo Viveiro (2006, p. 133) “de modo geral, as atividades de campo constituem, (...), excelente modalidade para o ensino (...). Os professores que as inserem em suas aulas enfatizam a importância dessas atividades”. Entretanto, a exploração ainda ocorre de maneira limitada. Ir a campo permite, segundo Rocha (2015, p. 06) “a compreensão de que os atores sociais ao realizarem suas ações político-econômico-sociais territorializam práticas sociais para sua permanência nele”. A aula de campo pode significar esta impressão nos atores sociais presentes, no caso, os professores. As tipologias contribuíram para envolver o corpo docente a aula de campo. Desconstruíram a ideia de como é inviável realizar tal atividade e ao contrário, somatizaram possibilidades de se observar a natureza e suas múltiplas facetas. A lagoa do Vigário jamais será vista da mesma forma pelo grupo que outrora as visitou. Todavia este estudo não visa resolver problemas entre a aproximação de professores e o trabalho de campo. Contudo, coopera para que este tipo de atividade possa ser realizado de forma organizada, simples, didática metodologicamente viável. 73 e A DIVERSIDADE DA GEOGRAFIA BRASILEIRA: ESCALAS E DIMENSÕES DA ANÁLISE E DA AÇÃO DE 9 A 12 DE OUTUBRO Referências Bibliográficas AZAMBUJA, L. D.. Trabalho de campo e ensino de Geografia. Geosul, n. 54, p. 181-195, 2012. CARBONELL, J. A aventura de inovar: a mudança na escola. Porto Alegre: Artmed, 2002. 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