XXV CONGRESSO BRASILEIRO DE ZOOTECNIA
ZOOTEC 2015
Dimensões Tecnológicas e Sociais da Zootecnia
Fortaleza – CE, 27 a 29 de maio de 2015
Diagnóstico de bem-estar animal em Unidade de Produção Leiteira - Parte I: Saúde animal
Diagnosis of welfare animal in milk producing unit -Part I: Animal health
Bianca Peter Gonçalves1, Mônica Daiana de Paula Peters2, Viviane Vasconcelos de Lacerda3, Lívia Argoud
Lourenço3, Renata Espíndola de Moraes4, Isabella Dias Barbosa Silveira5
1
Zootecnista, Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Zootecnia- PPGZ/FAEM/UFPel/
Pelotas/RS/Brasil. Bolsista CNPq. e-mail: [email protected]
2
Engenheira Agrônoma, Instituto Federal Sul-rio-grandense/Campus Pelotas Visconde da Graça,
Pelotas/RS/Brasil. Doutora em Produção Animal/PPGZ/FAEM/UFPel.
3
Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Zootecnia- PPGZ/FAEM/UFPel
4
Graduanda em Zootecnia – FAEM/UFPel
5
Professora Adjunta – Professora Programa de Pós-graduação em Zootecnia – PPGZ/FAEM/UFPel
Resumo:O presente trabalho teve como objetivo avaliar o bem-estar, no aspecto da saúde animal, de vacas
lactantes em uma unidade produtora de leite localizada no município de Morro Redondo, Rio Grande do Sul,
identificando o grau de bem-estar na propriedade. O diagnóstico teve duração de cinco dias, tendo sido
observado como indicadores de bem-estar as seguintes variáveis: incidência de mastite clínica e subclínica,
condições do úbere, escore de sujidade do úbere, escore de locomoção (claudicação), condições do casco,
condições de pelagem e escore de condição corporal. Das variáveis analisadas, a ocorrência de mastite
subclínica grau II (31,04% das vacas) e grau III (10,34% das vacas) e a condição dos cascos foram as que
apresentaram resultados que podem impactar negativamente sobre o bem-estar dos animais. Dos animais
avaliados, 58,55% apresentaram escore 1 (casco pouco crescido, não chega a ter seu formato alterado),
alertando a propriedade a buscar alternativas para minimizar este problema. Conclui-se que, considerando os
indicadores de bem-estar associados à saúde de vacas lactantes, a unidade de produção leiteira apresenta um
grau médio de bem-estar animal.
Palavras–chave: claudicação, mastite, propriedade, sanidade, vacas leiteiras
Abstract: The present study aimed to evaluate the welfare, in the animal health aspect of lactating cows in
the milk producing unit located on the municipality of Morro Redondo, Rio Grande do Sul, identifying the
level of animal welfare in the farm. The diagnosis lasted for five days and was observed as animal welfare
indicators the following variables: incidence of clinical and subclinical mastitis, udder conditions, dirt score
udder, locomotion score (claudication), hull condition, hair coat condition and body condition score. Of the
variables, the occurrence of subclinical mastitis level II (31.04% of cows) and level III (10.34% of cows) and
the condition of the hulls showed the results that may negatively affect on animal welfare. Of the animals
evaluated, 58.55% had a score 1 (little grown hull, not enough to have change dits format), alerting the farm
to seek alternatives to minimize this problem. In conclusion, considering the animal welfare indicators
associated with the health of lactating cows, milk-producing unith as an average degree of animal welfare.
Keywords: claudication, dairy cows, farm, mastitis, sanity
Introdução
O bem-estar animal é um assunto amplamente discutido em escala mundial e, no caso de animais de
produção, a preocupação em produzir de forma ética, respeitando o bem-estar dos animais, levou a
construção de regulamentações e leis que regem a produção animal em diversos países do mundo. No Brasil,
o assunto é relativamente recente, sendo que medidas para o diagnóstico, regulamentação e certificação de
propriedades ainda estão sendo desenvolvidas (Bond et al., 2012).
Até alguns anos atrás não se percebia que o bem-estar de vacas leiteiras era de baixo grau, e os
sistemas de produção eram criticados apenas em relação à criação de terneiras. No entanto, a indústria leiteira
vem se modificando e as evidências de baixo grau de bem-estar de vacas e suas relações com a produção vêm
se acumulando e apresentando influência sobre a opinião pública e técnica–científica. Desta forma, o bemestar de bovinos leiteiros vem recebendo atenção nos últimos tempos, inclusive no Brasil, não apenas no que
se refere a incrementos na produtividade a partir da elevação nos níveis de bem-estar, mas, buscando
identificar os principais causadores de baixo grau de bem-estar. É evidente que a avaliação da ocorrência de
Página - 1 - de 3
XXV CONGRESSO BRASILEIRO DE ZOOTECNIA
ZOOTEC 2015
Dimensões Tecnológicas e Sociais da Zootecnia
Fortaleza – CE, 27 a 29 de maio de 2015
enfermidades pode ser utilizada como um indicador de baixo grau de bem-estar em unidades de produção
animal, pois estas prejudicam o bem-estar de duas maneiras: efeitos patológicos da doença e efeitos do
processo doloroso que se estabelece em função da doença (Peters, 2012).
O presente estudo objetivou avaliar o bem-estar animal de vacas lactantes, no aspecto de saúde
animal, em unidade produtora de leite (UPL) no município de Morro Redondo/RS/Brasil, com a finalidade de
identificar o grau de bem-estar na propriedade.
Material e Métodos
O diagnóstico foi realizado em Unidade Produtora de Leite (UPL) no município de Morro Redondo,
Rio Grande do Sul/Brasil por um período de cinco dias no mês de janeiro de 2013. Foram utilizadas 29 vacas
em lactação da raça holandês, com idade média de cinco anos e estágios da lactação variando de 8 a 682 dias
(média 209 dias).
Os parâmetros avaliados para diagnóstico do bem-estar no aspecto de saúde animal foram:
incidência de mastite clínica e subclínica, condições do úbere, escore de sujidade do úbere, escore de
locomoção (claudicação), condições do casco,condições de pelagem e escore de condição corporal.
Para detecção de mastite clínica utilizou-se o método da caneca de fundo preto, o qual consiste na
retirada dos três primeiros jatos de cada teto antes da ordenha em um recipiente de fundo escuro, observandose o aparecimento de grumos, pus e sangue. Para identificação de casos de mastite subclínica foi realizado o
teste do CMT (California Mastitis Test), o qual consiste em estimar a contagem de células somáticas
presentes no leite em função do grau de gelatinização da mistura de partes iguais de leite e reagente (2ml) em
bandeja apropriada, sendo os resultados expressos em quatro: nível 0 -vaca sadia (gelatinização normal,
reação “aguada”), nível 1- mastite subclínica grau I (gelatinização leve), nível 2- mastite subclínica grau II
(gelatinização intensa) e nível 3- mastite subclínica grau III (gelatinização muito intensa).As condições do
úbere foram avaliadas através de observação e palpação, sendo utilizado escore N para úbere normal e VI
para úbere vermelho e inchado. O escore de sujidade do úbere foi avaliado utilizando metodologia proposta
por Ruegg (2002), através de escala de 1 a 4, sendo escore 1- úbere sem sujidade; escore 2- úbere pouco sujo
(2 à 10%); escore 3- úbere moderadamente sujo (10 à 30%) e escore 4- úbere muito sujo (acima de 30%).
Quanto à variável claudicação, registrou-se o escore de locomoção no momento em que as vacas se
deslocavam para sala de ordenha, utilizando-se a escala de 0 a 3 adaptado de Whay et al.(2002), onde 0normal (a vaca pára ou caminha com a linha dorsal nivelada), 1- levemente manca (a linha dorsal está
nivelada mas arqueia-se ao caminhar, passos normais), 2- moderadamente manca (a linha dorsal arqueada é
evidente ao caminhar ou estando parada, passos curtos), 3- muito manca (linha dorsal muito arqueada, a vaca
mostra incapacidade ou recusa a apoiar o peso em um ou mais membros). As condições do casco foram
avaliadas através do crescimento do mesmo de forma visual e objetiva, sendo expresso em três escores: 0 casco normal, 1 - casco pouco crescido (não chega a ter seu formato alterado), 2- casco muito crescido (com
formato alterado) (Bond et al., 2012).
A variável condição de pelagem foi registrada visualmente através do seguinte escore: 1-pelagem
arrepiada e opaca ou 2- pelagem não arrepiada e brilhosa. Cabe destacar que esta variável isoladamente não
indica uma condição de bem-estar boa ou ruim, no entanto juntamente com outras variáveis torna-se um bom
indicador de saúde animal e, conseqüentemente de bem-estar.
Para avaliação da condição corporal utilizou-se escores de 1 a 5, segundo metodologia de Machado
et al. (2008),sendo: escore 1- vacas muito magras; escore 2- vacas magras; escore 3- vacas em estado
corporal intermediário; escore 4- vacas gordas; escore 5- vacas muito gordas.
Resultados e Discussão
Com relação à ocorrência de mastite não foi encontrado nenhum caso da doença na forma clínica,
porém na forma subclínica encontrou-se um total de 82,76% de ocorrência da mesma, sendo que destes
10,34% das vacas apresentaram o grau III, 31,04% grau II e 41,38% grau I da enfermidade na forma
subclínica. Segundo Peters (2012), vacas com mastite clínica apresentam maior sensibilidade à dor quando
comparado com vacas sadias e vacas com mastite subclínica grau I. No entanto, não há diferença na sensação
de dor entre vacas com mastite subclínica grau II e III em relação a vacas com a doença na forma clínica.
Desta forma, no que se refere à sensação de dor associada com a mastite pode-se dizer que casos subclínicos
de grau II e III merecem atenção por poderem causar dor tanto quanto casos clínicos da doença e com isso,
afetar negativamente o nível de bem-estar da vaca.
Os resultados encontrados para condição do úbere foram altamente satisfatórios, pois apenas 3,50%
das vacas avaliadas (um animal) apresentaram o úbere vermelho e inchado. Isto ocorreu em função da vaca
Página - 2 - de 3
XXV CONGRESSO BRASILEIRO DE ZOOTECNIA
ZOOTEC 2015
Dimensões Tecnológicas e Sociais da Zootecnia
Fortaleza – CE, 27 a 29 de maio de 2015
ser de alta produção e ter parido recentemente. Cabe destacar que esta vaca não apresentou mastite em
nenhuma das formas (clínica e subclínica).
Quanto à sujidade do úbere foram encontrados apenas escores 1 e 2, respectivamente, 89,65% de
escore 1(úbere sem sujidade) e 10,35% de escore 2(úbere pouco sujo), apontando que a maior parte das
vacas (89,65%) apresentam o úbere limpo, isto se deve ao fato desta variável ser influenciada pelas condições
climáticas da região que, no período das avaliações, foi de tempo quente, seco e sem precipitações
pluviométricas.
Para a variável escore de locomoção (claudicação) registrou-se 86,20% de vacas que não
apresentaram sinal de claudicação, ou seja, escore normal sem nenhuma alteração na locomoção, 10,30% das
vacas apresentaram escore 1 (levemente manca) e apenas3,50% dos animais (uma vaca) apresentaram escore
de locomoção 2 (moderadamente manca). Segundo Bond et al (2012), os casos de escore 1 não é causado
por doenças do casco, mas principalmente por problemas de conformação de aprumos ou úbere muito
grande. A ocorrência de escore 2 representa uma claudicação de causa clínica, ou seja, a vaca apresenta lesão
no casco e manca devido à dor (Bond et al, 2012).
No que se refere às condições do casco encontrou-se 38,5% das vacas com escore 0 (casco normal),
58,55% das vacas com escore 1 (casco pouco crescido, não chega a ter seu formato alterado) e 3,45% com
escore 2 (casco muito crescido). Esses resultados representam um alerta para que a propriedade busque
alternativas para este problema.Tais resultados podem estar relacionados com as condições do ambiente (tipo
de piso) e fatores genéticos do animal. Cabe destacar que, se estivesse sendo avaliada somente essa variável
como indicador de bem-estar animal na propriedade este não estaria plenamente atendido.
Com relação às condições de pelagem obteve-se 100% das vacas com pelagem não arrepiada e
brilhosa, indicando que os animais estão em condições saudáveis. As vacas avaliadas apresentaram escore de
condição corporal variando de 3 a 4 na sua totalidade, resultados estes ideais em se tratando de vacas
lactantes, considerando que o mesmo muda ao longo da lactação (Roche et al, 2009)
Conclusões
Conclui-se que, considerando os indicadores de bem-estar associados à saúde de vacas lactantes, a
unidade de produção leiteira apresenta um grau médio de bem-estar animal.
Literatura citada
BOND, G. B., ALMEIDA, R., OSTRENSKY, A., MOLENTO, C.F.M. Métodos de diagnóstico e pontos
críticos de bem-estar de bovinos leiteiros. Ciência Rural, v. 42, n. 7, Julho 2012.
MACHADO, R., CORRÊA, R.F., BARBOSA, R.T., BERGAMASCHI, M.A.C.M. Escore da condição
corporal e sua aplicação no manejo reprodutivo de ruminantes. Circular Técnica 57, 1ª ed. São Carlos:
Embrapa Pecuária Sul, 2008.
PETERS, M.D.P. Avaliação da mastite e seu impacto sobre a sensibilidade à dor em vacas leiteiras. 97f.
Tese (Doutorado em Zootecnia). Faculdade de Agronomia Eliseu Maciel. Universidade Federal de Pelotas,
Pelotas, 2012.
ROCHE, J.R., FRIGGENS, N.C., KAY, J.K.., FISHER, M.W., STAFFORD, K.J., BERRY. D.P. Invited
review: Body condition score and its association with dairy cow productivity, health, and welfare. Journal of
Dairy Science. v. 92, p.5769-5801, 2009.
RUEGG, P.L.; REINEMANN, D. J. Milk quality and mastitis test. Bovine Practitioner, Stillwater, v.36,
p.41-54, 2002.
WHAY, H., MAIN, D., GREEN, L., WEBSTER, A. Farmer Perception of Lameness Prevalence.
Proceedings of the International Symposium on Lameness in Ruminants. Orlando, Florida, 355-358,
2002.
Página - 3 - de 3
Download

apresenta um grau