1 HISTÓRIA DA PROFISSÃO DOCENTE: SENTIDOS E PERSPECTIVAS DAS PESQUISAS EM HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO (2002-2007) Rita de Cássia Oliveira Ferreira Cafeu FaE/UFMG [email protected] Palavras-chave: Estado da arte - Profissão docente - História da educação Esta comunicação integra pesquisa de mestrado em andamento que tem como título “A representação sobre o professor primário mineiro nas três primeiras décadas do século XX”. O objetivo foi fazer levantamento das pesquisas que problematizaram a profissão docente apresentadas no período de 2002 a 2007 nos seguintes eventos científicos de História da Educação: Congresso Brasileiro de História da Educação (CBHE), Congresso de Pesquisa e Ensino em História da Educação em Minas Gerais (CPEHEMG), Congressos Luso-brasileiros de História da Educação (CLBHE), Reuniões Anuais da ANPEd (Grupo de Trabalho História da Educação/GTHE). A investigação desenvolvida teve como objeto a elaboração do estado da arte das pesquisas históricas sobre o professor apresentadas nos Congressos de História da Educação e na ANPEd, visando realizar um balanço indicativo das principais tendências no conjunto das pesquisas analisadas, buscando assim conhecer como se encontra o cenário das produções sobre o tema na historiografia da educação, e possíveis contribuições aos debates. Adotei como procedimento metodológico a seleção de trabalhos publicados na íntegra e inscritos em eixos temáticos que abrangem o tema da profissão docente. No caso da ANPEd selecionei os títulos dos trabalhos sobre a profissão docente apresentadas no Grupo de Trabalho História da Educação (GTHE). Entre as 363 comunicações apresentadas nos eixos sobre profissão docente e nos GTs História da educação, selecionei 93 trabalhos que versam sobre profissão docente no Brasil: docência no ensino primário, profissionalização do professor, vida de professor, associação, produções intelectuais e políticas, Escola Normal, formação, saberes e práticas docentes, magistério. Estas escolhas se fizeram por se aproximarem do meu objeto de dissertação. Nos trabalhos lidos identificou-se os seguintes itens: região, instituição, tema central, período histórico, fontes e referenciais teóricos. Este trabalho teve como principal suporte teórico-metodológico as reflexões e estudos dos autores Dermeval Saviani (2007) e José Gondra (2007) sobre balanços na historiografia da educação brasileira. O autor Dermeval Saviani parte do “entendimento do conceito de balanço como uma radiografia”, ou seja, uma descrição detalhada de como se “encontra uma área de conhecimento num momento determinado”. E ao considerar os “balanços já realizados sobre a produção de estudos e pesquisas na área de história da educação”, o autor identifica os seguintes tipos de balanço no campo da historiografia da educação brasileira: 1) o balanço como um levantamento da situação em que se encontra a produção historiográfica, uma espécie de “estado da arte”, 2 realizado em função de objetos específicos de pesquisa que se pretende investigar; 2) o balanço como um registro seqüencial do conjunto da produção da área, visando evidenciar a progressiva constituição, desenvolvimento e consolidação do campo da história da educação no Brasil; 3) o balanço como uma sistematização da produção disponível na área, tendo em vista sua incorporação ao ensino da disciplina história da educação nos cursos de pedagogia e de mestrado e doutorado em educação; 4) o balanço como um levantamento, mais ou menos exaustivo, dos estudos e pesquisas produzidos, tendo em vista compor um registro global que, colocado à disposição dos estudiosos da área, será utilizado de acordo com os seus interesses específicos (SAVIANI, 2007, p. 150). Segundo Dermeval Saviani para realizar balanço na historiografia da educação é preciso levantar “os aspectos positivo e negativo, os avanços e recuos, os ganhos e as perdas” nas produções analisadas, permitindo diagnosticar a situação presente, como também verificar as ações que podem ser implementadas, possibilitando caminhar para além dos balanços já realizados, buscando atingir um patamar superior na qualidade dos mesmos. Nesse sentido, cumpre considerar a perspectiva de se efetuar um balanço global e sistemático que cubra toda a massa já considerável da produção acumulada, mediante um projeto intencional coordenado nacionalmente, capaz de articular os quatro sentidos ou tipos de balanço mencionados (SAVIANI, 2007, p. 159). Já José Gondra (2007) afirma que os balanços produzidos servem para “diagnosticar o ponto e o estado em que” se encontram as pesquisas, conhecer as possibilidades de ultrapassá-las e deslocá-las, ou seja, o caminho a seguir e ir “mais adiante”. Assim, o “estado da arte” da Historiografia da Educação Brasileira, permite refletir sobre as pesquisas e estudos realizados, ajudando a definir alguns “marcos interpretativos a respeito das temáticas, periodizações, fontes, teorias sociais e metodologias privilegiadas em diferentes momentos da história intelectual do campo”, e quando realizado em escala nacional, “contribui para a formação da memória/identidade” do mesmo. Segundo este autor, o balanço exige pensar nossa própria experiência de modo a diagnosticar nosso presente para dizer o que somos hoje e o que significa, hoje, dizer o que somos. Atitude experimental que implica em um trabalho nos limites de nós mesmos, do campo em que atuamos para, simultaneamente, apreender os pontos em que a mudança é possível e desejável e para determinar a forma precisa a dar a essa mudança, como diria Foucault (GONDRA, 2007, p. 174). A profissão docente em eventos de História da Educação No conjunto das comunicações apresentadas temos os seguintes dados quanto à local, número de trabalhos e nome do eixo temático pesquisado. 3 Quadro I Informações dos eventos Local Tema geral do evento II CBHE 2002 UFRN Natal, RN História e Memória da Educação Brasileira Evento Local Tema geral do evento Total de trabalhos aprovados III CBHE 2004 PUC-PR Curitiba PR A Educação Escolar em perspectiva histórica 418 Profissão docente IV CBHE 2006 UCG Goiânia, GO A educação e seus sujeitos na História ___* História da profissão docente e das instituições escolares 69 VI CLBHE 2006 UFU Uberlândia, MG UFU Uberlândia, MG UFSJ São João del Rei, MG UFJF Juiz de Fora, MG Caxambu MG Percursos e Desafios da Pesquisa e do Ensino de História da Educação 656 Profissão e Identidade docente 25 ___** 109 Profissão docente 11 ___** 78 Profissão docente 08 ___** 149 Profissão docente 10 A leitura do mundo atual e virtual 47 GTHE1 4 Caxambu MG Novo Governo. Novas Políticas? 271 GTHE 12 Caxambu MG Sociedade, Democracia e Educação: Qual Universidade? 40 anos da PósGraduação em Educação no Brasil Educação, cultura e conhecimento na contemporaneidade:Des afios e Compromissos ANPEd: 30 anos de pesquisa e compromisso social 304 GTHE 14 445 GTHE 20 325 GTHE 11 350 GTHE 17 II COPEHEMG 2003 III COPEHEMG 2005 IV COPEHEMG 2007 ANPEd 25ª Reunião 2002 ANPEd 26ª Reunião 2003 ANPEd 27ª Reunião 2004 ANPEd 28ª Reunião 2005 ANPEd 29ª Reunião 2006 ANPEd 30ª Reunião 2007 Caxambu MG Caxambu MG Caxambu MG Total de trabalhos aprovados 428 Eixo temático pesquisado Total de trabalhos no eixo pesquisado Evento Histórica de culturas escolares e profissão docente no Brasil Eixo temático pesquisado Fontes: Anais dos Congressos e da Reunião Anual da ANPEd (GT: História da Educação) 2002/2007. * Informação não encontrada. Evento não apresenta tema geral. ** 1 ANPEd se organiza por Grupos de Trabalhos (GTs) e não por eixos temáticos. 111 Total de trabalhos no eixo pesquisado 51 4 Em alguns Congressos percebe-se a fusão de duas temáticas num mesmo eixo, assim no II CBHE as pesquisas sobre a profissão docente se encontram no eixo temático nomeado “História de culturas escolares e profissão docente no Brasil”. No IV CBHE as pesquisas foram inscritas no eixo temático nomeado “História da profissão docente e das instituições escolares”. Já no VI CLBHE o eixo temático que abarcou as pesquisas foi nomeado “Profissão docente e Identidade docente”. Somente no III CBHE e nos Congressos Mineiros encontrei eixo temático específico para pesquisas sobre a profissão docente, o que pode ser entendido como um sinal de que os eventos ao abrirem esse eixo, reconhecem o volume e a importância dos estudos a respeito, seja por parte dos pesquisadores seja daqueles que buscam os eventos para o diálogo acadêmico. De uma forma ou de outra, as pesquisas sobre a profissão docente sempre estiveram presentes nos eventos científicos com maior ou menor visibilidade. No quadro II a seguir, organizou-se as pesquisas por instituições e sua localização geográfica. Quadro II Pesquisas por instituições e região Pesquisas por instituições públicas (Estaduais e Federais) e região Pesquisas por instituições particulares e região Total de pesquisas por região Região Sudeste: 49 pesquisas UNICAMP - 1 UNESP/Marília - 2 USP - 16 UFSCar - 1 UENF - 1 UNIRIO - 1 UERJ - 11 UFF - 2 UFRJ - 1 UFMG - 5 UFU - 6 UEMG - 1 UFES - 1 Região Sul: 8 pesquisas UEM - 2 UFSM - 1 UDESC – 5 Pesquisas por instituições públicas (Estaduais e Federais) e região Região Nordeste: 8 pesquisas UFPE - 2 UFC - 1 UERN -1 UFRN - 2 UFPI 2 Região Sudeste: 18 pesquisas Universidade Metodista de São Paulo - 1 UNIBAN - 1 Universidade Estácio de Sá 1 UNIG - 1 PUC/RIO - 2 UNIPAC - 1 Unicentro Izabela Hendrix 1 Uni-BH - 2 Centro Newton Paiva - 1 PUC Minas – 7 Região Sul: 4 pesquisas Unesc - 1 UNISINOS - 2 UnC – 1 Pesquisas por instituições particulares e região Região Sudeste: 67 pesquisas Região Nordeste: --- Região Nordeste: 8 pesquisas Região Sul: 12 pesquisas Total de pesquisas por região 5 Região Centro-Oeste:6 pesquisas UFG - 2 UFMT - 1 UnB - 1 UEG - 1 UFGD – 1 Região Centro-Oeste: --- Região Centro-Oeste: 6 pesquisas Total de pesquisas: 93 Fontes: Anais dos Congressos e da Reunião Anual da ANPEd (GT: História da Educação) 2002/2007. Podemos notar que das 39 instituições de ensino superior que apresentaram pesquisas, 26 eram públicas federais e estaduais e 13 particulares. Assim, as pesquisas sobre profissão docente foram em sua maioria realizadas por instituições públicas, principalmente pela USP e UERJ, com exceção do Estado de Minas Gerais onde a PUC Minas, uma instituição particular apresentou o maior número de trabalhos do Estado, fato que pode ser justificado pela presença da linha de pesquisa “Profissão docente - constituição e memória” do Programa de PósGraduação, e pelo “Grupo de Estudos e Pesquisas sobre a Profissão Docente (GEPPDOC)” nesta instituição. Verifica-se o predomínio de trabalhos realizados por pesquisadores da região Sudeste, pois das 93 pesquisas apresentadas, 67 foram desta região, representando um percentual de 72% do total de trabalhos. Dentro da região Sudeste, os Estados que mais apresentaram pesquisas foram os de São Paulo com 22, de Minas Gerais com 24, e Rio de Janeiro com 20 pesquisas, totalizando 66 das 67 pesquisas apresentadas pela região. Dessa forma, de acordo com a análise quantitativa de trabalhos por região, verifica-se o predomínio da região Sudeste com 67 pesquisas, seguida pela região Sul com 12, pela região Nordeste com 8, e pela Centro-Oeste com 6. Também podemos verificar que a região Norte não apresentou pesquisas sobre a profissão docente; e no caso das instituições particulares somente as das regiões Sudeste e Sul tiveram pesquisas nos eventos e períodos analisados. Tema, período, fontes e referencial teórico O quadro a seguir foi organizado de acordo com o principal tema e foco dos trabalhos, buscando sistematizar e conhecer os principais assuntos pesquisados sobre a profissão docente. 6 Quadro III Temas pesquisados Profissionalização do professor, associações, manifestos, carreira, condições de trabalho. Identidade, memória, saberes e práticas docentes, gênero, formação, vida de professores. Produções política, intelectuais, educadores, família. Instituição, Escola Normal, cursos, programas, disciplinas, magistério. Estudo da arte e estudo comparado. 23 20 13 12 7 Fontes: Anais dos Congressos e da Reunião Anual da ANPEd (GT: História da Educação) 2002/2007. Podemos constatar uma diversidade temática, destacando-se as pesquisas sobre profissionalização docente, carreira do professor, participação em associações e movimentos, condições de trabalho, seguidas pelas pesquisas sobre identidade, memória, saberes e práticas docente, questão de gênero, formação, vida de professores. Sobre a profissão docente no final do século XIX, Alessandra Schueler comenta que existia um esforço coletivo dos professores e professoras rumo à associação e à organização como grupo profissional, estavam em causa tentativas de construção e de afirmação de identidades – sempre provisórias, fluídas e mutáveis, porque históricas -, em meio às contradições, ambigüidades, diversas práticas e representações da profissão e múltiplas e multifacetadas experiências docentes que os professores, individualmente, elaboraram (e reelaboravam) e vivenciaram (...). Esse processo de construção e de reconstrução permanente de identidades docentes integra os processos históricos de constituição e de transformação da própria profissão docente, ao passo que configura uma faceta do complexo fazer-se dos professores e professoras primárias, explicitando um avanço significativo no movimento oitocentista de profissionalização da carreira docente (SCHUELER, 2000, p. 381). Diante da análise das pesquisas observa-se que a grande maioria realiza uma abordagem regional, específicas de um local, com pouquíssimas produções comparadas entre diferentes localidades, regiões, objetos, o que talvez possa ser justificado pela diversidade e dimensão geográfica do país. O quadro IV sistematiza o período das pesquisas. 7 Quadro IV Períodos pesquisados Período Número de trabalhos % Século XVI – XVIII ___ ___ Século XIX 22 22 Século XIX ao XX 30 30 Século XX 37 37 Século XX ao XXI 4 4 Outros 6 6 Fontes: Anais dos Congressos e da Reunião Anual da ANPEd (GT: História da Educação) 2002/2007. Diante deste quadro verifica-se ausência de trabalhos sobre profissão docente no período entre os séculos XVI e XVIII, mesmo porque no período colonial, algum tipo de formação dos mestres se dava na metrópole. Desse modo as pesquisas referem-se aos séculos XIX e XX, sendo que o período de transição do século XIX ao XX possui número significativo de comunicações, e a maior concentração no século XX. Não é de estranhar a concentração de pesquisas referentes aos professores nos dois últimos séculos, pois as escolas de formação docente só se instalaram após a independência do Brasil. Sabemos que a primeira Constituição brasileira, outorgada em 1824, afirmava em seu Art. 179, Inciso XXXII que “A instrução primária é gratuita a todos os cidadãos”. O que apontava para a necessidade de cursos de formação de professores, mas também é do conhecimento que isto não se concretizou de imediato. Segundo a autora Leonor Tanuri (2000) a Lei Geral de 1827 pouco resultou providências do Governo central referentes ao ensino de primeiras letras e preparo de seus docentes. Assim, as primeiras escolas normais brasileiras só foram estabelecidas, “por iniciativa das Províncias”, logo após o ato adicional de 12 de agosto de 1834, “que, atendendo ao movimento descentralista, conferiu às Assembléias Legislativas Provinciais, então criadas, entre outras atribuições, a de legislar “sobre a instrução pública e estabelecimentos próprios a promovê-las”. Dessa forma, a primeira escola normal brasileira foi criada em Niterói, na Província do Rio de Janeiro em 1835 (TANURI, 2000). E conforme estudiosos do século XIX foi a partir das décadas finais deste século que “o número de professoras sofreu uma elevação surpreendente” (SCHUELER, 2005). Ainda segundo Jane Almeida (2004) a feminização do magistério, que dava mostras incipientes já a partir do final do século XIX teve sua gênese logo após a República e se solidificou nas décadas seguintes. No quadro V registrou-se as fontes utilizadas pelos pesquisadores em suas comunicações. 8 Quadro V Natureza das fontes utilizadas Natureza da Fonte Escrita Recorrências % 34 61 Oral 4 7 Imagética 1 2 Escrita e Oral 6 11 Escrita e Imagética 3 5 Escrita, Oral e Imagética 6 11 Total 56 100 Fontes: Anais dos Congressos e da Reunião Anual da ANPEd (GT: História da Educação) 2002/2007. Podemos verificar que as fontes escritas predominam quantitativamente nas pesquisas, representando 61% dos documentos utilizados, seguido pelas pesquisas realizadas com dois e/ou três tipos de fontes, tais como: fontes escrita e oral, fontes escrita, oral e imagética, constituindo um percentual de 22% do conjunto de fontes trabalhadas nas pesquisas. Dessa forma, observa-se o interesse em utilizar diferentes tipos de fontes, pois a diversificação e o cruzamento das mesmas, possibilita confrontar diferentes informações, pontos de vista e realidades para a construção do conhecimento histórico, ao invés de considerar apenas um tipo de documento como a única verdade ou informação relevante. Os historiadores da educação, enfatizando a materialidade de práticas sociais educativas, a constituição dos saberes e da formação docente, vem recentemente demandando a utilização de novos documentos. Novas formas de olhar e abordar as fontes também foram responsáveis pela atenção que os textos impressos e os jornais vêm adquirindo na pesquisa histórica da educação, que alarga seus interesses para as práticas culturais, os sujeitos históricos e os produtos culturais (Souza; Catani, 1998). Assim, com a análise das pesquisas podemos constatar um conjunto de fontes variadas, tais como: jornais, revistas, livros didáticos, manuais escolares, obras escritas por educadores, intelectuais, fotografias, manifestos de educadores, intelectuais, movimentos de professores, ou seja, o uso de fontes de diversas natureza visa recuperar as histórias de professores (as), sua trajetória profissional, portanto, uma característica cada vez mais presente na história da profissão docente. A imprensa pedagógica especializada no debate de assuntos e problemas educacionais constitui instância privilegiada para a apreensão dos modos de funcionamento do campo educacional, pois fazem circular informações sobre o trabalho docente, as práticas pedagógicas, as reivindicações da categoria do magistério, permitindo conhecer as lutas por legitimidade que se travam no interior do campo, bem como as representações construídas a respeito da profissão docente (Nóvoa, 1993; Catani; Bastos, 2002). 9 Sobre os materiais impressos a autora Marta Araújo comenta que: várias razões explicam o progressivo investimento dos historiadores da educação em pesquisar em materiais impressos do porte de manuais escolares, guias curriculares, revistas especializadas em educação, menos como fonte de informação historiográfica e mais como objeto de estudo da pesquisa. A propósito do potencial investigativo desses veículos pedagógicos especialmente as revistas especializadas em ensino e educação, Catani e Sousa (2001), sublinham a possibilidade deles proporcionarem repertórios analíticos e temáticos, catálogos, âmbito de circulação, idéias e práticas educacionais (ARAÚJO, 2002, p.4). O referencial teórico utilizado nas pesquisas é o tema do quadro VI. Quadro VI Autores mais citados como referência teórica Autor Recorrências Conceitos/assuntos Antônio Nóvoa 22 profissionalização e formação docente Roger Chartier 11 práticas, identidade, representação Pierre Bourdieu 8 biografia, discurso, história de vida Denice Catani 9 impressos, periódicos Luciano M. Faria Filho 7 cultura escolar Vinão Frago 7 cultura escolar Michel Foucault 6 poder, disputas, lutas profissionais Michel de Certeau 6 táticas e apropriações Jacques Le Goff 6 trajetórias profissionais, memória Outros 80 Fontes: Anais dos Congressos e da Reunião Anual da ANPEd (GT: História da Educação) 2002/2007. Nota-se diversidade de autores no conjunto dos trabalhos apresentados, ao todo foram 90 autores citados. Entretanto, muitos trabalhos trazem os autores como referencial teórico no início da escrita, e não retornam ou comentam mais a respeito. Observa-se que na maioria das vezes não existe uma articulação das teorias com as fontes, pelo menos não fica explícito no decorrer da escrita, dando a impressão de uma descrição de fontes, sem mostrar como se chegou a conclusão da pesquisa. 10 Como pode ser visualizado no quadro VI as referências numéricas superiores são feitas ao pesquisador português Antônio Nóvoa especialista em história sobre docentes. Em seguida destacam-se o historiador Roger Chartier e o sociólogo Pierre Bourdieu. A autora Marta Carvalho (2000) afirma que a interlocução com as proposições de Roger Chartier, no campo da história cultural, marcaram a renovação dos nossos estudos histórico-educacionais. Ainda segundo Catani e Pereira (2001) a presença incisiva de Bourdieu também pode ser percebida em balanços anteriores no campo da História da Educação (CATANI; FARIA FILHO, 2002), e nos trabalhos da área da Educação. Considerações Finais Nesta comunicação apresentei um levantamento de dados retirados dos Anais produzidos pelos Congressos de História da Educação, e pelas reuniões da ANPEd, procurando delinear um panorama da produção historiografia brasileira sobre a profissão docente. Sabemos que o universo das pesquisas analisadas oferece uma pequena amostra do conjunto da produção, e para uma análise eficiente talvez fosse necessário incluir artigos e teses realizadas sobre a temática. Nesse sentido, as conclusões desta comunicação são apenas indicativas e sem a pretensão de esgotar o assunto. Com relação à escrita dos trabalhos, percebe-se uma ampla variedade, em algumas situações, o objetivo, a metodologia, fontes, período e local ficam explícitos, e são encontrados de forma clara, até mesmo no título da pesquisa. Em outras escritas, isso não fica claro, chegando a não encontrar os dados da pesquisa, ocasionando dúvidas com relação à mesma. Também percebi que o título dos trabalhos pode causar expectativas das mais diversas, podendo ficar aquém ou além do trabalho realizado e/ou escrito. Diante deste estudo podemos constatar que as análises sobre profissão docente têm buscado o debate interdisciplinar buscando conceitos na sociologia e filosofia. Por outro lado, para o avanço das pesquisas sobre a profissão docente na historiografia da educação, precisamos de um maior aprofundamento teórico-metodológico, que apesar de autores constarem nos textos, na maioria das vezes percebe-se uma ausência de análise das fontes com base no referencial teórico indicado. Dessa forma, intensificar o intercâmbio entre as pesquisas sobre a profissão docente em História da Educação e nos demais campos do conhecimento parece ser o desafio que se coloca atualmente ao campo, tanto na condução das investigações, quanto na constituição dos quadros conceituais de análise. Diante disso, a necessidade de um investimento da área nas abordagens metodológicas, enfocando de maneira explícita os referenciais teóricometodológicos que dão sustentabilidade e rigor as análises empreendidas nas pesquisas. Referências Bibliográficas ALMEIDA, J. Mulher e educação: paixão pelo possível. São Paulo: UNESP, 1998. ALVES-MAZZOTTI, Alda Judith. O Método nas ciências naturais e sociais: pesquisa quantitativa e qualitativa. 2. ed. São Paulo: Pioneira, 2000. ARAÚJO, Marta Maria de. O cultivo de uma historiografia engajada com a história e a 11 memória da educação brasileira. Natal: UFRN, 2002. <http://www.sbhe.org.br/novo/arquivo04.pdf.> Acesso em: maio 2008. Disponível em: CARVALHO, Marta Maria Chagas de. A escola e a República e outros ensaios. Bragança Paulista: EDUSF, 2003. CATANI, Denice; BASTOS, M. H. (Orgs.). Educação em revista: a imprensa periódica e a história da educação. São Paulo: Escrituras, 2002. CATANI, Denice; FARIA FILHO, Luciano M. Um lugar de produção e a produção de um lugar: a história e a historiografia divulgadas no GT História da Educação da ANPEd (19852000). Revista Brasileira de Educação, n. 19, p.113-127, jan./abr. 2002. CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO, 2, 2002, Natal. [Anais eletrônicos...] Natal: Sociedade Brasileira de História da Educação, 2002. 1 CD-ROM. CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO, 3, 2004, Curitiba. [Anais eletrônicos...] Curitiba: Sociedade Brasileira de História da Educação, 2004. 1 CD-ROM. CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO, 4, 2006, Goiânia. [Anais eletrônicos...] Goiânia: Sociedade Brasileira de História da Educação, 2006. 1 CD-ROM. CONGRESSO LUSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO, 6, 2006, Uberlândia. [Anais eletrônicos...] Uberlândia: UFU, 2006. 1 CD-ROM. CONGRESSO DE ENSINO E PESQUISA EM HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO EM MINAS GERAIS, 2, 2003, Uberlândia. [Anais eletrônicos...] Uberlândia: UFU. 1 CD-ROM. CONGRESSO DE ENSINO E PESQUISA EM HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO EM MINAS GERAIS, 3, 2005, São João del-Rei. [Anais eletrônicos...] São João del-Rei Universidade Federal de S. J. Del Rei, 2005. 1 CD-ROM. CONGRESSO DE ENSINO E PESQUISA EM HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO EM MINAS GERAIS, 4, 2007, Juiz de Fora. [Anais eletrônicos...] Juiz de Fora: UFJF. 1 CD-ROM. FARIA FILHO, L. M.; GONÇALVES, I; CALDEIRA, S. História da Educação em Minas Gerais: pequeno balanço e algumas perspectivas de pesquisa (1985-2001). In: GONDRA, José (Org.). Pesquisa em história da educação no Brasil. Rio de Janeiro: DP&A, 2005. 221242. FARIA FILHO, Luciano M. de; VIDAL, Diana Gonçalves (2002/2003). “História da educação no Brasil: a constituição histórica do campo e a sua configuração atual”. Educação em Foco: Revista de Educação da Universidade Federal de Juiz de Fora. Faculdade de Educação, v.7, n.2, pp. 28-45, set/fev. FREITAS, Ana Maria Bueno. Cultura escolar, práticas educacionais e profissão docente: os balanços do campo da história da educação. In: CORREA, Rosa; MIGUEL E.B, Maria (Orgs). A educação escolar em perspectiva histórica. São Paulo: Autores Associados, 2005. 12 MORAIS, Christianni Cardoso; PORTES, Écio Antônio; ARRUDA Maria Aparecida (Orgs.). História da educação: ensino e pesquisa. Belo Horizonte: Autêntica, 2006. NEPOMUCENO, Maria de Araújo; TIBALLI, Elianda Figueiredo Arantes (Orgs.). A educação e seus sujeitos na história. Belo Horizonte, MG: Argumentum, 2007. NÓVOA, A. (Org.). Vidas de professores. Porto: Porto Editora, 1992. NÓVOA, A. A imprensa da educação e ensino: repertório analítico (séculos XIX e XX). Coleção Memórias da Educação. Lisboa: Instituto de Inovação Educacional, 1993. SAVIANI, Dermeval; ALMEIDA, Jane Soares de; SOUZA, Rosa Fátima de; VALDEMARIN, Vera Teresa. O legado educacional do século XX no Brasil. Campinas, SP: Autores Associados, 2004. SCHUELER, Alessandra Frota de Representações da docência na imprensa pedagógica na Corte imperial (1870-1889): o exemplo da Instrução Pública. Educação e Pesquisa, 2005, vol.31, n. 3, p.379-390. SOUZA, Rosa Fátima. Templos de civilização: a implantação da Escola Primária Graduada no Estado de São Paulo. São Paulo: Unesp, 1998. TANURI, Leonor Maria. História da formação de professores. Revista Brasileira de Educação, 2000, n. 14, p.61-88. WARDE, Mirian J. (2003). “Historiografia da educação brasileira: mapa conceitual e metodológico (dos anos 1970 aos anos 1990)”. Revista do mestrado em educação, São Cristóvão, Núcleo de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Sergipe, v.6. pp. 45-50, fev/jun. XAVIER, Libânea Nacif. Particularidade de um Campo Disciplinar em consolidação: balanço do I Congresso Brasileiro de História da Educação (RJ 2000). Disponível em: <http://www.sbhe.org.br/novo/arquivo03.pdf.>. Acesso em: maio de 2008.