UNIVERSIDADE SÃO JUDAS TADEU “O FUNDAMENTO DA MORAL NO PENSAMENTO DE ARTHUR SCHOPENHAUER” Dissertação de Mestrado em Filosofia apresentada à coordenação do curso de PósGraduação Stricto Sensu da Universidade São Judas Tadeu, como requisito para a obtenção do título de Mestre, sob a orientação do professor Dr. Mauricio Keinert. SÃO PAULO 2010 Gutierrez, Leandro Cardoso O fundamento da moral no pensamento de Arthur Schopenhauer / Leandro Cardoso Gutierrez. - São Paulo, 2010. xx f. ; 30 cm Orientador: Mauricio Keinert Dissertação (mestrado) – Universidade São Judas Tadeu, São Paulo, 2010. 1. Schopenhauer, Arthur, 1788-1860. 2. Conduta. I. Keinert, Mauricio. II. Universidade São Judas Tadeu, Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Filosofia. III. Título Ficha catalográfica: Elizangela L. de Almeida Ribeiro - CRB 8/6878 DEDICATÓRIA Dedico este pequeno estudo primeiramente aos meus pais e também a Eliani, a primeira e a única, e aos professores e amigos Paulo Jonas de Lima Piva, Mauricio Keinert e Plinio Junqueira Smith, com a esperança de ter a honra de o mesmo estar a altura de todos eles. Agradecimentos Agradeço aos meus pais por sempre acreditarem em mime permanecerem ao meu lado em todos os momentos, ruins e bons, de mais esse percurso, assim como também em toda minha vida, demonstrando o que é um amor verdadeiro. Em razão do acidente que sofri no dia 23/01/2010 que quase ceifou minha existência, agradeço ao médico Dr.Marcos R. Gregorini por com excelência ter salvado minha vida e ter se mostrado uma pessoa superior todo o tempo como também a toda a equipe médica que me acompanhou e zelosamente cuidou de mim em minha recuperação na UTI e internação, em especial ao enfermeiro Daniel. Também em razão do acidente sofrido agradeço aos parentes que me ajudaram e também a meus pais. Agradeço a minhas tias Terezinha Pereira Cardoso, Aparecida Cardoso Santos,Bernadete Pereira Cardoso da Silva,todas mulheres de bondade inigualável. Meus tios Joaquim Pereira Cardoso, Jorge Vicente da Silva. Meus primos Alexandre de Oliveira Santos, Alexandra de Oliveira Santos, Márcia Rodrigues Cardoso de Souza, Marcelo Rodrigues Cardoso, Adalberto Brito de Souza, Cecílio Giroto Junior, Heloisa Vicente Cardoso da Silva e Adriana Vicente Cardoso da Silva. Todos me mostraram extrema lealdade, virtude indispensável a qualquer pessoa como também a família maravilhosa que tenho. Agradeço aos meus amigos Luciano Alves Pereira e Luis Alberto Alves Pereira pela lealdade extrema e companheirismo. Agradeço ao professor e amigo Alexandre Calegaro Moraes por me ajudar tanto em 2005 quando passava por um momento muito difícil. Agradeço a meu amigo Cônego Antônio Hélio Augusto Ferreira, que dentro da fé que possui, fé essa que não tenho e nunca terei, também se mostrou leal e me ajudou que de todas as formas pôde. Agradeço a minha amiga Silvia Regina Fratezi Martins pela ajuda indispensável para a realização deste trabalho Agradeço ao meu amigo Emerson Ferreira Rocha pelo auxilio durante as aulas e também depois delas. Também agradeço aos meus inimigos e traidores, alguns disfarçados de amigos, que através de seus atos de extrema covardia, agressão e abandono em momentos difíceis, ensinaram-me a força da sublimação do ódio que senti por eles, força essa que foi indispensável para o término deste trabalho. Mas “o mundo dá voltas” e um dia os verei deformados e mutilados arrastando-se pelo chão sangrando a ponto de se afogarem no próprio sangue! Agradeço a toda Universidade São Judas Tadeu pelos momentos felizes que me proporcionou e em especial a coordenadoria de Pós Graduação nas pessoas de Simone, Daniel e Selma que me ajudaram de maneira impar e atenderam muito bem minha família enquanto estava internado. Agradeço ao CAPES, na esperança de ter correspondido com um bom trabalho, pela bolsa sem a qual jamais teria realizado este mestrado. Que ele continue existindo e realizando sonhos e conseqüentemente tanta felicidade. Não foi só por mim. Agradeço ao professor Plinio Junqueira Smith, grande intelectual e também a professora Regina André Rebollo, também grande intelectual, pela maneira especial com a qual me receberam e pelos ensinamentos preciosos que recebi deles. Agradeço ao professor e orientador Mauricio Keinert, exemplo de ser humano, por ter se mostrado não apenas um professor, mas um amigo, que me ajudou de todas as formas e acreditou em mim e em minha capacidade jamais me abandonando, tratando-me como um irmão. “Jamais te esquecerei Mauricio”!Carregarei comigo sua lembrança para onde eu for. Agradeço de maneira especial ao professor Paulo Jonas de Lima Piva, por ter me recebido na Universidade São Judas Tadeu de forma tão carinhosa, por ter acreditado em mim, me encorajado nos momentos difíceis, ter me dado todas as dicas referentes ao mundo acadêmico e ter se mostrado sempre um homem de extremo caráter e bondade, não só comigo, mas com todos os alunos. Dificilmente encontrarei em minha vida, que como a de todos é curta, outra pessoa que como ele seja tão grandiosa. Tudo isso faz dele um homem superior. A homens como ele deveria pertencer o domínio da terra! Sem ele jamais teria conseguido, jamais teria chegado até aqui. A ele devo praticamente tudo e enquanto eu viver carregarei em meu peito essa gratidão e seu rosto jamais desaparecerá da minha memória. Quem sabe um dia o acaso me dará a oportunidade extremamente feliz de agradecê-lo da maneira que ele merece, já que essas simples palavras não podem fazer isso. Também espero ter um dia a felicidade de poder ser considerado por ele um irmão, coisa que seria uma das maiores honras da minha vida. A ele meu eterno “muito obrigado”. Quantum of solace Sou capaz da maior glória de todas que é você! Sou capaz dos seus lábios, olhos e cabelos. Sou capaz do seu rosto inteiro. Do seu corpo inteiro. Do seu gozo de viver feliz. Em você, por maiores que sejam as batalhas, Descanso como nunca, Descubro o que sempre quis e sabia que queria. Encontro as ternuras perdidas da minha vida, E faço a lua e as estrelas parecerem mais bonitas do que são: eu as ouço. Mudo de palavras e digo que tu és minha maior vitória. Tu és o sonho que reclama vida por mérito de beleza sem fim. Tu és a sombra onde descanso com frutos frios e calmantes. Lugar onde ninguém pode chegar, Minha maior quantidade de consolo. “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria”. (Machado de Assis, Memórias póstumas de Brás Cubas) “Perfeição é a morte”. (Olavo Bilac, Tarde) Resumo O presente trabalho possui a finalidade de expor e investigar profundamente o fundamento da moral do filosofo Arthur Schopenhauer, assim como também pontos relevantes de toda sua filosofia, como, por exemplo, as questões da representação e da metafísica da vontade, e também sua crítica a moral kantiana. Assim essa exposição não conterá apenas o pensamento que se encontra em sua obra “Sobre o fundamento da moral”, mas também o de sua obra capital “O mundo como vontade e representação”. Em relação a sua obra “Sobre o fundamento da moral” pretendemos demonstrar a importância da experiência e do sofrimento humano como meios de encontrar o primeiro princípio da moral, isto é, o fundamento moral que para ele trata-se da compaixão, que consequentemente deve estar ligada a ambas, segundo o próprio autor, não encontradas na fundamentação da moral kantiana, e que possuem em todo o pensamento de Schopenhauer extrema relevância.Depois da investigação do fundamento da moral apresentado pelo autor nos permitirá, através, da explicação metafísica desse mesmo fundamento, penetrarmos na filosofia do autor em seus pontos mais obscuros que nos levarão até uma tentativa de elucidação da questão proposta: “compaixão e ilusão de individualidade não podem coexistir”, questão essa diretamente ligada como já dissemos a sua filosofia e por isso mesmo de extrema importância. Palavras- chave: 1. Fundamento da moral. 2. Schopenhauer. 3. Kant. 4. Ética. 5. Pessimismo. 6. Compaixão. 7. Vontade. Abstract This essay has as main goal deeply expose and investigate philosopher Arthur Schopenhauer’s moral foundation, as well as relevant points of his whole philosophy, for instance, representation and metaphysic willing issues, as also his kantiana moral criticism. Therefore, this exposition will not just contain the thought found is his work “About moral foundation”, but also from his capital work “the world as willingness and representation”. According to his work “About moral foundation” we intend to show the importance of the experience and human suffering as tools used to find the first moral principle, the moral principle that for him is about compassion, that consequently might be connected to both not found at Kantiana’s moral foundation according to the author, and that can be found extremely relevance at the whole Schopenhauer thought. After the moral foundation investigation showed by the author, it will be possible through a metaphysics explanation from the same foundation, to get into the author's philosophy darkest points that will lead us to an attempt to elucidate the question posed: "illusion of compassion and individualism can not exist", an issue directly linked as we have said his philosophy and therefore of the most importance. Key word: 1. Foundation of morals. 2. Schopenhauer. 3. Kant. 4. Ethic. 5. Pessimism. 6. Compassion. 7. Will. ÍNDICE Introdução................................................................................................................... 1 1. Crítica de Schopenhauer a moral kantiana ......................................................... 12 1.2. Negando a metafísica do povo............................................................................ 21 1.3. Crítica à forma imperativa da moral kantiana................................................. 25 1.4. Crítica à admissão dos deveres a nós próprios.................................................. 34 1.5.Crítica ao fundamento da ética kantiana ........................................................... 39 1.6. Crítica à lei moral kantiana ............................................................................... 45 1.7. Crítica ao princípio máximo da ética kantiana e a suas formas derivadas...... 50 2. Da compaixão como único e verdadeiro fundamento da moral .......................... 67 2.1 A visão cética sobre a moral................................................................................ 72 2.2 Provando a existência da compaixão e demonstrando-a como único e verdadeiro fundamento da moral............................................................................. 78 2.2.1 Das virtudes da justiça e da caridade .............................................................. 84 2.2.2 Da real existência da compaixão ...................................................................... 88 2.3 A Representação e a Vontade ............................................................................. 95 2.4 A Explicação metafísica da compaixão............................................................. 106 Conclusão ................................................................................................................ 115 1 Introdução No ano de 1837, a Sociedade Real Dinamarquesa de Ciências de Copenhague, propõe um concurso, no qual seus concorrentes deveriam apresentar uma investigação sobre a seguinte questão: “Tendo em vista que a idéia originária da moralidade ou de seu conceito principal da lei moral suprema surge como uma necessidade que lhe é própria, embora não seja de modo alguma lógica, não só na ciência que tem por objetivo expor o conhecimento do ético, mas também na vida real, na qual ela se apresenta em parte no juízo da consciência sobre nossas próprias ações, em parte em nossos juízos morais, sobre o comportamento dos outros, e tendo em vista, além disso, que vários conceitos morais principais, nascidos daquela idéia e dela inseparáveis, como, por exemplo, o conceito de dever e o da imputabilidade, fazem-se valer com a mesma necessidade e no mesmo âmbito – e, ainda, que nos caminhos que segue a pesquisa filosófica de nosso tempo parece muito importante investigar de novo este objeto – quer a Sociedade que se reflita e se trate cuidadosamente da seguinte questão: A fonte e o fundamento da filosofia moral devem ser buscados numa idéia de moralidade contida na consciência imediata e em outras noções fundamentais que dela derivam ou em outro princípio do 1 conhecimento?” Arthur Schopenhauer propõe-se não só a responder a questão, mas, também, a esclarecer todos os enigmas que envolvem a questão moral. Não poderia ter intuito diferente, um filósofo que pensava ter a Filosofia a missão de decifrar o mundo e o seu significado. Schopenhauer é adepto da filosofia kantiana na qual o mundo é fenômeno e “coisa em si”, mas em seu pensamento não há a renúncia da busca pelo conhecimento da “coisa em si”, considerado por Kant inatingível por ser algo transcendente. Assim, a metafísica deve ser para Schopenhauer imanente e através da experiência não só pode como deve desvendar aquilo que o mundo tem de oculto e que existe de maneira impassível. Esse oculto, para ele, é a vontade. Tal era seu desejo ao escrever sua obra prima: O Mundo como vontade e como representação. Nesse livro Schopenhauer 1 Schopenhauer, A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p.3 2 concentrou todas as suas forças e conhecimento. Para ele, os grandes mistérios do mundo estavam ali esclarecidos. Schopenhauer tenta em toda a sua filosofia desvendar o enigma do mundo, sua verdadeira essência, aquilo que ele realmente é sem nenhuma alegoria ou religiosidade – a filosofia deve permanecer cosmologia e não teologia –, as causas do sofrimento humano e, consequentemente, encontrar um significado para a existência do homem, a sua finalidade; dar a ele uma meta a ser atingida que o levaria à libertação da dor, a chamada “salvação”, já que para ele, o mundo é e sempre será um sofrimento infinito. Assim compreende-se que não apenas decifrar o mundo, mas também encontrar a redenção da humanidade é o seu interesse, o que faz de sua metafísica, uma metafísica que culmina sem nenhuma dúvida na ética. Tal pensamento extremamente pessimista, de que o homem é um ser sofredor em meio a um inferno ilimitado que é o mundo e que o mesmo deve buscar o meio de sua “salvação” também se alicerça em sua metafísica da vontade, fruto de sua busca incansável pela verdade da vida como acima explicamos e tal busca só é possível pela metafísica que, para o nosso autor, é a única capaz de responder perguntas como “Qual o motivo do sofrimento?”, “Qual o sentido da vida?”, “O que é o mundo?”. Sem a metafísica jamais essas perguntas poderiam ser esclarecidas por completo. Assim, o filósofo que realmente estiver comprometimento com a verdade, jamais poderá esquecer-se da metafísica ao questionar qualquer coisa. Surge assim o primeiro problema apontado para a consecução da investigação e seu estudo sobre o tema, pois, segundo nosso pensador, a Sociedade Real Dinamarquesa de Ciências de Copenhague exige que o ensaio apresente o fundamento da ética por si só, sem o apoio de nenhum sistema filosófico, ou seja, sem nenhuma metafísica, o que para Schopenhauer é algo quase impossível de se fazer dada a importância que, como vimos, ele atribui a metafísica.2 Mas, mesmo assim, como veremos, a metafísica será de grande importância para Schopenhauer tentar desvendar, depois de apresentá-lo, a essência daquele que seria o único fundamento da moral realmente válido. Em seu ensaio intitulado Sobre o fundamento da moral, que será o centro das nossas investigações e com a qual concorreu ao prêmio oferecido pela Sociedade Real Dinamarquesa de Ciências de 2 “Acrescentando-se que a Sociedade Real exige que o fundamento da ética seja exposto separadamente e por si só, numa monografia curta, fora, portanto de sua conexão com o sistema de qualquer filosofia que seja, quer dizer, da metafísica propriamente dita, isso deve não só dificultar a sua realização, mas até torná-la incompleta”- Schopenhauer, A.Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes: São Paulo 2001. P7 3 Copenhague, Schopenhauer apresenta toda a sua investigação sobre o tema. Esse ensaio foi publicado posteriormente, mais precisamente em 1841, juntamente com outro ensaio intitulado Sobre a Liberdade da Vontade (1839) sob o título de Os Dois Problemas Fundamentais da Ética, o último, diferentemente do primeiro, foi premiado pela Sociedade Norueguesa de Ciências de Dronthein que promoveu o concurso. Desde o inicio até o fim do ensaio Sobre o fundamento da moral, percebe-se sua intenção, não apenas de responder a questão proposta e decifrar os mistérios da moral, mas também, de atacar ferozmente alguns pensadores de sua época, os “sofistas” de seu tempo, como Fichte, Schelling e, principalmente Hegel, o que o faz “ter-se identificado com Sócrates”3 na luta contra os sofistas que não possuíam nenhum comprometimento com a verdade. E também de demonstrar que, com exceção das palavras de Rousseau, tudo aquilo que até então havia sido dito sobre a moral em toda a história da filosofia não era suficiente para apresentar algo realmente satisfatório em relação à questão moral. O ensaio de Schopenhauer sobre a moral possui em si quase todo seu pensamento. Impossível seria entendê-lo sem conhecer suas outras obras e também algumas características principais de sua filosofia, na qual, a moral e a vida ética, como já vimos, possuem extrema importância. Sobre essa importância comenta David E. Cartwright: em seu texto: “A filosofia de Schopenhauer foi motivada desde o seu inicio até o seu final por preocupações morais” 4, apesar de ele ser mais conhecido por seu profundo pessimismo vindo de sua metafísica da vontade. No pensamento de Schopenhauer a moral em sentido estrito refere-se às ações éticas, a compaixão e outra na ética em sentido amplo que nada mais é do que a negação da vontade e esta por sua vez leva em consideração a metafísica da vontade e representação apesar de em um primeiro momento parecerem coisas totalmente diferentes, a primeira, de alguma forma conduz a segunda. O exame dos textos necessários para a compreensão da fundamentação moral de Schopenhauer será feito no segundo capítulo desse trabalho de forma pormenorizada5. Assim, nessa parte introdutória de nossa dissertação, estamos apenas apresentando a forma com a qual Schopenhauer trata do assunto em exame e também de que maneira o 3 Roger, Alain In: Schopenhauer, A.Sobre o fundamento da moral trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo 2001: p.. 15 4 Cartwright, E. David. “Schopenhauer`s Narrower Sense of Morality”. In: The Cambridge Companion to Schopenhauer. (Edited by Christopher Janaway). Cambridge: Cambridge University Press, 1999.p. 252 5 Nos referimos a obra capital do autor O mundo como vontade e como representação, onde é apresentado os dois lado do mundo, fenômeno e “coisa em si” e também a doutrina da salvação através da negação da vontade. 4 apresentaremos. Passemos então adiante, e nos empenhemos em conhecer os pontos principais de seu ensaio sobre o fundamento da moral e como ele será por nós apresentado e investigado. Schopenhauer inicia seu trabalho examinando primeiramente a própria questão proposta pela Sociedade Real Dinamarquesa de Ciências de Copenhague e traça a forma com a qual tal questão deve e vai ser estudada por ele. Primeiramente, como já citamos, a ausência da metafísica será o primeiro problema a ser resolvido pelo pensador. Sem a metafísica a explicação do fenômeno ético irá se restringir apenas ao campo psicológico como o próprio autor afirma6, mas mesmo assim, como já mencionado, indo além do que foi proposto pela Sociedade Real Dinamarquesa de Ciências de Copenhague, ao final do seu ensaio, como veremos ao final do segundo capítulo desse trabalho, ele retoma a metafísica e com ela tentará encontrar a origem do seu fundamento da moral que dará as bases para a interpretação da questão proposta por nós e que será apresentada mais adiante ainda nessa introdução. Juntamente com a ausência da metafísica, ainda será apontado por Schopenhauer outro problema a ser superado por ele e que também existiria pela forma com a qual a Sociedade Real Dinamarquesa de Ciências de Copenhague apresenta a questão a ser solucionada: “Além disso, a pesquisa teórica do fundamento da moral subjaz a peculiar desvantagem de poder ser tomada pelo minar do próprio fundamento, que poderia acarretar o desmoronamento do todo edifício”7. Assim, o filósofo que tentar responder à questão proposta deve se esforçar ao máximo para que nada que venha do exterior possa penetrar-lhe a alma no momento em que se debruçar sobre a questão e estar atento em suas observações, pois, em um tema como esse, é difícil manter-se distante da “investida febril das santas convicções do coração” 8. Dessa forma, com a ausência da metafísica, Schopenhauer terá de partir dos próprios fatos, da experiência interna ou externa dos homens e neles tentar encontrar a solução para a questão proposta: “Em contrapartida, com a separação, posta nessa tarefa como necessária, entre a ética e a metafísica, nada mais resta senão o procedimento analítico, que parte dos fatos, quer da experiência externa, quer da consciência” 9. 6 Schopenhauer, A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria 2001.p.8-9 7 Schopenhauer, A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria 2001. p..6 8 Schopenhauer, A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria 2001. p..6 9 Schopenhauer, A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria 2001. p.8 Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 5 Assim, tomando o máximo de cuidado para não se influenciar por nada que possa viciar a visão da verdadeira essência da moral, como acima vimos, Schopenhauer apresentará aquilo que ele considera o verdadeiro fundamento da moral: a compaixão. Somente ela, segundo o autor, pode dar origem a um ato que realmente não possua nenhuma forma de interesse egoísta, característica essa que, como veremos, define a verdadeira ação genuinamente moral. Mas antes de chegar até a apresentação desse fundamento, Schopenhauer dedicará metade de seu trabalho a uma crítica exaustiva daquela que seria a última e mais bem sucedida, apesar de em sua visão estar errada, tentativa de explicar e fundamentar a moral antes dele: a fundamentação moral kantiana contida no livro Fundamentação da metafísica dos costumes. Para Schopenhauer, Kant foi o primeiro filósofo a dar uma concepção realmente procedente à moral. Kant afirma que o ato verdadeiramente moral é aquele que não possui nenhum interesse pessoal seja ele qual for. O genuíno ato moral não possui em nenhum momento egoísmo e tal afirmação encontra-se no livro de Kant acima citado. Para Schopenhauer esse, juntamente com a separação entre moral e Eudemonismo10, que na realidade é apenas aparente na moral kantiana, seria o grande mérito de toda filosofia moral de Kant. Mas essa mesma concepção da moral, a única procedente até então, encontrar-se-ia totalmente destituída de uma fundamentação filosófica sólida. Kant teria encontrado o verdadeiro conceito da moral, mas se perdido completamente em raciocínios improcedentes e vazios quando passou a tentar fundamentá-lo. E é exatamente sobre essa fundamentação, considerada por Schopenhauer improcedente, obscura e totalmente sem sentido, que recairá sua crítica dura e muitas vezes sarcástica. Mas também não podemos deixar de citar que a crítica de Schopenhauer à moral kantiana possui argumentos de sua própria filosofia onde a razão é mero instrumento da vontade, e como tal, não poderia ser livre a ponto de criar uma moral como Kant pretendia11, ou seja, uma moral baseada em uma razão prática. Aliás, importante ressaltar que, como veremos no primeiro capítulo desse trabalho, Schopenhauer irá afirmar em O mundo como vontade e como representação, que a chamada “razão 10 Estudaremos no primeiro capítulo de maneira mais profunda a crítica de Schopenhauer ao eudemonismo e entenderemos porque o mesmo, segundo o autor, não pode estar em nenhum momento ligado ao ato moral genuíno. 11 Esse ponto é de extrema importância não só para a compreensão da crítica de Schopenhauer a moral kantiana, mas também para a compreensão de toda a filosofia Schopenhaueriana. Estudaremos essa questão, que pode ser encontrada no quarto livro de O mundo como vontade e como representação, no segundo capítulo desse trabalho e exporemos como a razão, objetivação da vontade está a serviço dela. 6 prática”, quando o assunto é a ética, poderia apenas levar o homem ao Eudemonismo e o melhor exemplo dessa afirmação seriam os pensamentos e regras sobre a vida dos estóicos, mas deixemos esse ponto para ser explicado no momento oportuno. Voltando à critica à moral kantiana, eis as palavras de Schopenhauer que, desdenhando quase tudo aquilo que havia sido dito sobre a moral até Kant, afirma a necessidade de criticar a moral daquele do qual se considerava sucessor filosófico: “Kant deu a essa ciência uma fundamentação que tinha reais vantagens diante das anteriores e, em parte, porque é a última mais significativa que aconteceu na ética”12. Mas esse não é o único motivo que faz com que Schopenhauer tenha de criticar a moral kantiana. Como ele mesmo diz “Os contrários se esclarecem” 13 e a sua fundamentação da moral “Nos pontos essenciais, opõe-se diametralmente à de Kant” 14 . Dificilmente não se entenderá quando chegarmos ao segundo capítulo desse trabalho onde a fundamentação da moral de Schopenhauer for apresentada, o quanto ela realmente, em seus pontos essenciais, é totalmente oposta a moral de Kant e, por isso mesmo, a necessidade de mostrá-la destituída de fundamento. Segundo David E. Cartwright Schopenhauer “Em vez de criticar Kant com a intenção de corrigir ou melhorar as perspectivas Kantianas em uma visão filosófica teórica de Kant, Schopenhauer almeja demolir a ética de Kant, para poder abrir terreno à formação e erguimento de sua própria fundamentação moral”15. Assim, seguindo o “conselho” do autor, antes de examinarmos a sua fundamentação da moral logo no primeiro capítulo, nós o dedicaremos ao estudo da crítica feita por ele à moral kantiana cuja essência se encontra no livro Fundamentação da metafísica dos costumes. Para Schopenhauer essa obra contém o fundamento da ética kantiana. É nela que estão os pontos essenciais de seu pensamento moral que serão desenvolvidos de forma mais detalhada na Crítica da razão prática. E também é nela que se encontra um grande problema da ética: “Há mais de meio século ela repousa no confortável encosto que Kant ajeitou sob ela: O imperativo categórico da 12 Schopenhauer, A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. P. 15 13 Schopenhauer, A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p.15 14 Schopenhauer, A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. P..15 15 Cartwrigh, E. David. “Schopenhauer`s Narrower Sense of Morality”. In: The Cambridge Companion to Schopenhauer. (Edited by Christopher Janaway). Cambridge: Cambridge University Press, 1999.p. 253 7 razão prática” 16 que também é chamado de “lei moral”. Aos lermos as observações de Schopenhauer a esse respeito, notamos que o pensador não apenas discorda da ética kantiana, mas vê em seu imperativo categórico um mal que precisa ser retirado da ética, algo que atrapalha as investigações sobre a moral e abre espaço pra tantos outros devaneios. Schopenhauer nos chama a atenção que o imperativo categórico foi usado de maneira irrefletida por muitos escritores sem o necessário aprofundamento do seu conteúdo. A partir dele criou-se uma “Prolixa e confusa teia de frases com a qual entendem tornar ininteligíveis as mais claras e simples relações da vida – sem jamais se perguntarem em tal feito se, porventura, uma ‘lei moral’ está realmente escrita na nossa cabeça, peito ou coração como confortante código moral” 17. Sem nenhum exame mais preciso a ética kantiana foi aceita por todos e tida como base para as mais diversas criações de sistemas éticos que, por mais que se esforçassem em ser originais, tinham como fundamento oculto o imperativo categórico kantiano. Assim combater a ética kantiana não é apenas um meio de Schopenhauer começar a explicar sua ética, como dissemos, mas também de purificar o pensamento sobre a moralidade de um erro ainda não percebido. Sem nenhuma modéstia Schopenhauer coloca-se como aquele que irá desfazer esse terrível engano e colocar a ética mais uma vez em “Total perplexidade”18 na qual ela deve permanecer até que ele demonstre o verdadeiro fundamento da ética que, de uma vez por todas, destruirá a ética kantiana. Já o livro Crítica da razão prática, também de Kant e que também investiga a questão moral, será avaliado apenas algumas vezes por Schopenhauer que terá o intuito de usá-lo apenas para demonstrar ainda mais a inconsistência da moral kantiana contida no já citado Fundamentação da metafísica dos costumes. A crítica de Schopenhauer à moral kantiana recai como dito, em sua fundamentação que é o imperativo categórico. A idéia kantiana de que o fundamento da moral seja uma lei, um dever, uma espécie de regra que pode ser encontrada na mente humana sem necessitar de nenhum elemento empírico, é o absurdo que Schopenhauer quer retirar da moral. Essas afirmações de Kant sobre a moral a tornam para Schopenhauer abstratas e mesmo em sua fidelidade ao autor da Crítica da razão pura, devem, como já dito, serem retiradas da moral. Assim, a 16 Schopenhauer, A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p.15-16 17 Schopenhauer, A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. P.16 18 Schopenhauer, A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p.16 8 ausência de qualquer experiência faz com que a moral kantiana seja algo sem nenhum sentido. Segundo Maria Lucia M. O. Cacciola, a experiência possui um papel fundamental no pensamento de Schopenhauer. Como já visto é através da experiência que Schopenhauer irá concluir a vontade como a “coisa em si” 19 . A filosofia de Schopenhauer parte sempre do sensível, do empírico, é através dele que a verdade, a decifração do mundo pode ser alcançada. Tal método também se aplicaria a questão moral que faz parte, evidentemente, desse mundo a ser decifrado, assim, tudo aquilo que é considerado pelo autor como abstrato e que pretende fundamentar a ética deve ser demolido. Maria Lúcia M. O. Cacciola comenta em seu livro Schopenhauer e a questão do dogmatismo, que a fidelidade de Schopenhauer para com a filosofia kantiana e a importância que a experiência possui para ele baseada nessa mesma fidelidade: “Sua declaração de fidelidade a Kant está, pois, ligada ao que ele vê como sendo o cerne da filosofia crítica: a recusa de toda e qualquer transcendência e a firme resolução de manter-se no domínio da experiência, cuja totalidade é o mundo” 20. Assim, a tentativa de Kant em apresentar uma moral que em nenhum momento necessita de qualquer tipo de experiência, ou seja, está totalmente desligada de qualquer elemento empírico para existir e, ainda mais que isso, só é verdadeira por nele não estar fundamentada, excluindo assim, toda e qualquer ligação com o mundo objetivo, e isso inclui os homens, é algo abstrato demais: ela não teria base sólida alguma para se apoiar sendo apenas uma “petição de princípios”, palavras que pairam no ar, uma total contradição com aquilo que o próprio Kant apresentou em sua obra prima A crítica da razão pura. A única forma de imaginar um dever como guia da moral seria com o auxílio da idéia de punição e recompensa que fazem do ato moral com base neles praticado uma obrigação a um comando e não um ato espontâneo e genuíno, ou seja, sem nenhum tipo de interesse egoísta por parte de quem o pratica. Tal visão da moral possui suas raízes em uma lei divina, ou seja, na teologia tanto rejeitada por Schopenhauer: “Cada dever é também necessariamente condicionado pelo castigo ou pela recompensa e assim, para falar a linguagem de Kant, essencial e inevitavelmente hipotético e jamais, como ele afirmou, categórico” 21. 19 No segundo capítulo de nosso trabalho estudaremos O mundo como vontade e como representação como já dissemos e explicaremos o processo através do qual, através da experiência Schopenhauer conclui, a partir do nosso próprio corpo, o “em si” como sendo a vontade. 20 21 Cacciola, Maria Lucia, Schopenhauer e a questão do dogmatismo, FAPESP, São Paulo, 1994. P. 171 Schopenhauer, A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p.26 - 27 9 Mais a frente, quando criticará de forma específica o fundamento da moral kantiana, Schopenhauer dirá: “Portanto ele não fundamenta – o que peço que se note bem – seu princípio moral em qualquer fato da consciência que seja demonstrável, algo como uma disposição interna. Menos ainda em qualquer relação objetiva das coisas no mundo exterior. Não! Isto seria uma fundamentação empírica. Mas sim conceitos puros “a priori”, quer dizer, conceitos que não têm nenhum conteúdo da experiência externa ou interna, que são, portanto, puras cascas sem caroço, é que devem ser o fundamento da moral “22. Importante salientar que a moral de Schopenhauer tem como ponto de partida o sofrimento humano que, como dissemos, é infinito nesse mundo. Uma moral como a de Kant que, como veremos mais à frente, não considera primeiramente o homem em todas as suas dores e aflições não merece, pelo menos de um filósofo como Schopenhauer que possui um método onde a experiência é imprescindível nenhum espaço para qualquer tipo de aprovação: a moral deve estar voltada ao homem e ao seu sofrimento. Eis mais um traço marcante do pensamento moral schopenhaueriano que o fará tentar derrubar a moral kantiana. Como veremos no primeiro capítulo, onde apresentaremos a crítica de Schopenhauer a moral de Kant de forma pormenorizada, essa “moral do dever”, longe de ser capaz de fundamentar o ato genuinamente moral, ou seja, aquele praticado sem nenhum interesse pessoal é, na realidade, como vimos acima na visão de Schopenhauer, nada mais que puro egoísmo não podendo conter em si uma intenção destituída de interesse pessoal. Assim, um dever que em nada se apóia, jamais poderia fundamentar a moral de qualquer maneira. Frente a esse dever, a única coisa que Schopenhauer consegue enxergar é a moral teológica onde se busca ser recompensado ou poupado de algum castigo qualquer, que através dele, teria sido recolocada na Filosofia por Kant, sendo esse seu verdadeiro intuito. Dessa forma, segundo Schopenhauer, Kant teria entrado na mais profunda contradição ao tentar tornar a teologia aceitável para a Filosofia, ou, pelo menos, se voltado a ela de maneira inconsciente, coisa que, ele mesmo, já havia impossibilitado em sua Crítica da razão pura mais precisamente na Dialética Transcendental. 22 Schopenhauer, A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p.35 10 Depois, no segundo capítulo, apresentaremos a fundamentação moral do próprio Schopenhauer que, para sua melhor compreensão, deverá ser acompanhada com um estudo dos dois principais pontos de toda a filosofia Schopenhaueriana: a vontade como sendo a “coisa em si” da filosofia kantiana e também o mundo como representação dessa vontade, ambos estudados exaustivamente pelo autor em sua obra capital: O mundo como vontade e como representação. Interessante citar comentários do próprio Schopenhauer e de um de seus comentadores sobre essas duas questões para a melhor compreensão das mesmas nesse momento da nossa introdução, lembrando que esses dois pontos serão examinados de maneira mais profunda no segundo capítulo deste trabalho, como já explicado, o que faz das citações abaixo pequenas explicações, um simples resumo daquilo que será apresentado mais a frente em sua completude. “Sobre a vontade como sendo a “coisa em si” kantiana e sobre a representação como fruto dessa vontade Schopenhauer afirma: “Essa COISA EM SI ( queremos conservar a expressão kantiana como formula definitiva), que enquanto tal, jamais é objeto, porque todo objeto é apenas seu fenômeno e não ela mesma, se pudesse ser pensada objetivamente, teria de emprestar nome e conceito de um objeto, de algo dado de certa forma objetivamente, por conseqüência , de um de seus fenômenos”23. José Thomaz Brum confirma tal afirmação em seu livro O pessimismo e suas vontades: “Essa força obscura vital é o aspecto do mundo que não pode ser reduzido à representação, é o mundo como coisa em si, o mundo enquanto vontade”24. Assim, neste segundo capítulo, com a interpretação que Schopenhauer dá ao mundo, explicada de forma detalhada, e que acima foram apresentadas apenas de maneira sucinta, e com o estudo pormenorizado do seu fundamento da moral, apresentaremos aquela que é nossa interpretação sobre esse fundamento: a compaixão e a “ilusão da individualidade”, que nada mais é do que fenômeno e por isso mesmo ilusão, Véu de Maia, não podem coexistir.25 Na compaixão não existe espaço para a individualidade, pois nela o agente do ato moral volta-se para a “coisa em si”. O ato moral genuíno, isto é, aquele motivado pela compaixão exige que a individualidade desapareça por completo. É nele que, como bem diz José Tomaz Brum, surge o 23 24 Schopenhauer, A.O mundo como vontade e como representação, trad. Jair Barboza, UNESP, 2005 São Paulo:p.169 Brum Thomaz José, O pessimismo e suas vontades, Rocco, Rio de Janeiro 1998. p.23 25 A idéia de individualidade como ilusão e do mundo como “Véu de Maia” serão melhor explicadas por nós no segundo capítulo deste trabalho ao estudarmos o mundo como representação cuja explicação está contida nos livros I e III de O mundo como vontade e como representação. 11 “Mistério da unidade dos seres” 26 , única coisa capaz de explicar o fenômeno moral genuíno. Apenas fora do fenômeno a ação genuinamente moral é possível e, por isso mesmo, aos olhos daquele que permanece no fenômeno quase incompreensível. Para chegarmos a essa conclusão é necessário um exame minucioso do terceiro livro do ensaio Sobre o fundamento da moral, onde Schopenhauer apresentará a sua explicação metafísica da compaixão, indo além do que foi proposto pela Sociedade Real Dinamarquesa Ciências de Copenhague, com o intuito não só de completar sua análise sobre o tema proposto, mas também, de decifrar o seu próprio fundamento da moral que ele mesmo em alguns momentos define como algo misterioso. Agora nos preparemos então para conhecermos aqueles que seriam, segundo Schopenhauer, os grandes erros da moral kantiana, tão aceita por todos, e apontados com tanto prazer por Schopenhauer, como ele mesmo nos diz em seu ensaio Sobre o fundamento da moral: “Confesso o prazer especial com que ponho mãos à obra agora para retirar da moral seu amplo encosto – imperativo categórico – e declaro francamente minha intenção de demonstrar que a Razão Prática e o imperativo categórico de Kant são suposições injustificadas, infundadas e inventadas para provar que também a ética de Kant carece de um fundamento sólido. Com isso, a moral é de novo entregue à sua total perplexidade, na qual deve permanecer antes que eu me ponha a expor o princípio moral verdadeiro da natureza humana, fundado em nossa essência e indubitavelmente eficaz”27. Também devemos salientar que o que apresentaremos em seguida é a crítica de Schopenhauer a moral kantiana e não uma investigação profunda sobre a mesma. Estudaremos assim, a interpretação de Schopenhauer sobre a moral kantiana tão somente, citando e explicando a moral kantiana em seus pontos necessários para o melhor entendimento de tal crítica. 26 27 Brum Thomaz José, O pessimismo e suas vontades, Rocco, Rio de Janeiro: 1998. p.47 Schopenhauer, A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p. 16 12 1. Crítica de Schopenhauer a moral kantiana É no segundo livro do ensaio Sobre o fundamento da moral que Schopenhauer inicia sua crítica ao fundamento da moral kantiana. Como vimos na introdução deste trabalho, Schopenhauer considera a concepção kantiana do ato moral a melhor até então formulada, isto é, a concepção de que o único ato moral verdadeiro é aquele que se apresenta totalmente destituído de todo e qualquer interesse pessoal por parte de quem o pratica. Mas essa seria a única contribuição verdadeiramente substancial dada por Kant a ética, já que o mesmo soube, segundo Schopenhauer, conceituá-la de forma ímpar, ao mesmo tempo em que não soube fundamentá-la. Portanto, a crítica que recai sobre a moral kantiana não está baseada em seu conceito e sim em sua fundamentação e também, como não poderia deixar de ser, na própria filosofia de Schopenhauer que de modo algum poderia aceitar uma razão prática capaz de estabelecer padrões morais de conduta. Nessa parte da crítica que oferece uma “visão geral” sobre o assunto, destacam-se três pontos interessantes que não podem ser deixados sem exame. O primeiro deles são os motivos pelos quais Schopenhauer escolhe a Fundamentação da metafísica dos costumes para realizar sua crítica à moral kantiana, o segundo é a sua análise do Eudemonismo que, apenas aparentemente, Kant teria retirado da moral, e o terceiro diz respeito a visão que nosso autor tem de que Kant quis, ao conceber a sua moralidade, dar-lhe bases teológicas, mesmo que ocultas, de maneira consciente ou não, que, como veremos pormenorizadamente, Schopenhauer recusa com veemência, assim como recusa qualquer forma de visão teológica do mundo. Dessa forma, antes de entrarmos na primeira parte da crítica à moral kantiana, que se refere a sua forma imperativa, na qual Schopenhauer encontrará vários pontos que irão minar a moral kantiana no seu modo de pensar, estudaremos esses pontos relevantes e como eles são essenciais para a compreensão de todo o restante da crítica que recai sobre a moral de Kant através de duras e irônicas palavras do nosso pensador. Já na introdução encontramos alguns dos motivos pelos quais Schopenhauer quer dedicar-se a crítica da moral kantiana a partir da Fundamentação da metafísica dos costumes. Para ele a sua crítica conduziria o leitor mais facilmente a sua própria fundamentação moral já que a de Kant é totalmente oposta a sua. Além de que a tentativa de Kant em sua obra sobre a moral teria sido a mais bem sucedida até então. Também é importante lembrar que, segundo Schopenhauer, a Fundamentação da 13 metafísica dos costumes contém todas as bases para a moral kantiana além de que a mesma apresentou a única definição procedente sobre o que realmente é um ato moral genuíno falando-se em Filosofia. No que se segue Schopenhauer ainda afirmará, com as próprias palavras de Kant, que a Fundamentação da metafísica dos costumes é a busca do princípio primeiro da moralidade e que, como tal, deve ser separada das investigações acerca da moralidade. Nela reside a base, o fundamento preciso, daquilo que seria a ética kantiana. Outra justificativa não filosófica refere-se ao próprio Kant: “Além disso, ela tem ainda a vantagem significativa de ser a mais antiga de suas obras sobre a moral, quatro anos apenas mais nova que a Crítica da razão pura, sendo assim do tempo em que, embora ele já estivesse com sessenta e um anos, a influência prejudicial da sua idade sobre seu espírito ainda não era perceptível” 28 . Vemos que Schopenhauer está preocupado com a própria capacidade intelectual de Kant, tamanha é sua aversão à fundamentação da moral kantiana, já em relação à Crítica da razão prática, Schopenhauer será menos complacente e dirá que nela já é possível notar, como também na segunda edição da Crítica da razão prática os efeitos da idade responsáveis pela deturpação de sua obra imortal, a Crítica da razão pura, o que também teria acontecido com nas “Primeiras razões metafísicas da doutrina da virtude”, peça lateral a “doutrina do direito”. Ainda salientando o pensador dirá que a Crítica da razão prática, contém essencialmente aquilo que está estabelecido na Fundamentação da metafísica dos costumes, o que fará com que Schopenhauer analise essas obras, em seus próprios dizeres, de “modo secundário e acessório” 29 . Apesar dessas colocações do autor, ao estudarmos a sua crítica à moral kantiana, veremos o quanto a Crítica da razão pura será de extrema importância, pelo menos em alguns de seus pontos, para que todo seu pensamento crítico possa, não só ser entendido, mas também analisado. O segundo ponto a ser ressaltado por nós nessa introdução à critica da moral de Kant é a questão do Eudemonismo que em nenhum momento pode fundamentar qualquer moral segundo Schopenhauer. Tal crítica ao Eudemonismo se deve ao fato de que ele é um meio de atingir a felicidade, o bem viver ou, ao menos, a idéia de viver com menos sofrimento possível. O ato moral deve estar sempre destituído de qualquer vantagem que possa surgir depois de praticado a quem o pratica. Aquele que “age 28 Schopenhauer, A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p. 21 29 Schopenhauer, A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. P. 22 14 moralmente” tendo em vista alcançar qualquer tipo de benefício na verdade não age moralmente e é exatamente isso que acontece com a moral Eudemonista: age-se visando um fim, ou seja, a ação moral, a virtude, é apenas um meio de se atingir algo almejado anteriormente a ela. Agir moralmente não significa necessariamente que aquele que assim age será feliz com essa ação. Na maioria das vezes, o oposto é o que encontramos na moralidade quando, por exemplo, agimos de determinada maneira por considerar essa maneira a correta a ser seguida ainda que ela vá contra tudo o que queremos e que nos fará feliz30. Schopenhauer vê na moral kantiana essa mesma afirmação de incompatibilidade entre moral e Eudemonismo, pois a mesma aponta essa necessidade e pretende ser destituída de egoísmo. Sobre essa separação irrecusável entre moral e Eudemonismo nosso autor comenta: “O grande mérito de Kant na ética foi tê-la purificado de todo Eudemonismo. A ética dos antigos era eudemonista, e a dos modernos, na maioria das vezes, uma doutrina da salvação”.31 Quando Schopenhauer fala em “ética dos antigos” ele está se referendo, em especial, aos cínicos e estóicos que, para ele, possuíam uma forma diferente, especial de Eudemonismo.32 No inicio do referido capítulo de O mundo como vontade e como representação Schopenhauer dirá que depois de ter efetuado todas as considerações pertinentes a razão como faculdade de conhecimento e sobre os resultados e também sobre os fenômenos que dela surgem, resta-lhe ainda falar da razão prática: “Após as considerações sobre a razão enquanto faculdade especial e exclusiva do homem, e sobre aqueles fenômenos e realizações próprios da natureza humana, falta ainda falara da razão na medida em que conduz a ação das pessoas, portanto, podendo nesse aspecto ser denominada PRÁTICA”.33 Schopenhauer refere-se aqui ao uso da razão como meio de encontrar o melhor meio de viver, isto é, como meio de encontrar o caminho que apresenta-se com menos obstáculos possíveis, ou a forma de viver que nos conduz a uma vida sem sofrimentos ou com menos sofrimentos possíveis É nesse ponto de sua obra capital que aparecerá suas reflexões sobre a moral Eudemonista “dos antigos”. Para Schopenhauer 30 Sobre essa questão também devemos dizer que agir moralmente não implica sempre em irmos contra a nossa felicidade ou interesses, mas sim que o ato moral verdadeiro não deve se preocupar com eles. Dessa forma nem todo ato moral genuíno nos fará infelizes ou irá contra algo que desejamos. 31 Schopenhauer, A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. P. 19 32 Tal investigação a esse assunto encontra-se no livro O mundo como vontade e como representação, mais precisamente em seu livro primeiro no capítulo dezesseis ao qual Schopenhauer nos remete caso queiramos nos aprofundar um pouco mais no assunto. Assim, estudemos essa parte da obra do filósofo. 33 Schopenhauer, A.O mundo como vontade e como representação, trad. Jair Barboza, UNESP, São Paulo: p.138 - 139 15 o homem diferentemente dos animais possui a presença de conceitos abstratos em sua consciência. Os animais possuem apenas o contato intuitivo e imediato enquanto que nós, homens, conhecimento abstrato: “O homem, ao contrário, em virtude do conhecimento in abstracto abrange, ao lado do presente efetivo e próximo, ainda o passado inteiro e futuro, junto com o vasto reino das possibilidades”, Abrangemos, ao lado do presente efetivo e próximo, ainda passado inteiro e o futuro junto com o vasto reino das possibilidades. Divisamos livremente a vida em todos os lados, a vida distante, além do presente e da realidade efetiva “34. Interessante lembrarmos de Parerga e Paralipomena, onde a vida inteiramente vivida no presente pelos animais é fruto de “inveja” para o autor: “O animal é presente corporificado, a tranqüilidade visível de que assim se investe, muitas vezes envergonham nosso estado, frequentemente intranquilo e insatisfeito à causa de pensamentos e preocupações”35. Na citação de Schopenhauer expostas acima, ele quer nos mostrar que o homem tem a possibilidade, diferentemente do animal, de, através dos conceitos abstratos, realizar uma ação utilizando-se da razão, fazendo dela prática. É através dela que podemos ter, dentro do possível, domínio sobre nossas vidas. Podemos nos lembrar do passado, viver o presente e lançar olhos ao futuro que sempre contém em si uma infinidade de possibilidades, grande parte delas, imaginadas por nós mesmos em nossos temores, ansiedades e desejos. A partir do momento, que depois de todas essas reflexões advindas dos conceitos abstratos sobre nossas vidas, agimos guiados pela razão ela se tornará prática. Na razão prática nossas ações não são guiadas pelo momento, ela tem em vista, por exemplo, o futuro incerto que carrega nossos desejos e temores e contra ou a favor deles pode nos ajudar. Esses conceitos abstratos que nós humanos possuímos ao mesmo tempo em que pode nos ajudar, nos atormentam com as mais diferentes expectativas que podem variar de simples temores até o medo da morte. Nunca a razão por si só poderá produzir um ato, por exemplo, bom ou mau, ela será apenas um meio de por em prática a bondade ou a maldade. A razão em si mesma não é boa nem má, apenas pode se aliar “A razão se encontra unida à grande maldade quanto à grande bondade, que o seu auxilio confere grande eficácia seja a esta primeira ou à segunda, que ela esta igualmente preparada e disponível para executar 34 35 Schopenhauer, A.O mundo como vontade e como representação, trad. Jair Barboza, UNESP, 2005 São Paulo:p.139 Schopenhauer, A. Parerga e paralipomena, In: “OSPENSADORES” Trad. Wolfgang Leo Mar, Nova Cultural, São Paulo: 1997 p. 282 16 metodicamente e de maneira conseqüente tanto os propósitos nobres quanto os vis” 36 . Mas esse tema será apresentado em local apropriado quando nos dirigirmos à critica da moral kantiana propriamente dita, agora voltemos ao Eudemonismo, também existente graças a essa razão. Para Schopenhauer o ponto mais alto que o homem pode atingir através do simples uso da razão é a sabedoria estóica que não possui em nenhum momento uma ciência ou regras para a virtude, ou seja, ela contém apenas: “Um conjunto de preceitos, de regras, para viver segundo a razão afastando-se o quanto mais de problemas e sofrimentos” 37 . Diante de perguntas como “O que devo fazer para impedir que tal mal me aconteça?” ou “Como devo agir para ter mais tranqüilidade em minha vida?”, a razão aparece como meio para se alcançar as respostas desejadas. Dessa forma a ética estóica difere completamente dos sistemas morais como, por exemplo, os de Kant, do Cristianismo dos Vedas entre outros que ele cita. A finalidade dessa ética é como já afirmamos a felicidade ou pelo menos o bem viver dentro do possível. É possível notar assim nos estóicos, e também nos cínicos citados em Sobre o fundamento da moral como também possuidores de uma ética Eudemonista, uma forma de pessimismo em relação a existência. Ambos querem fazer com que a razão os eleve acima dos males mais diversos que a vida pode oferecer em seu decurso; a vida possui mais possibilidades ruins que boas. Assim a melhor maneira de viver é submetendo a vida à razão que nos trará uma existência, senão feliz, pelo menos com um número menor de tormentos. Schopenhauer irá concluir sua exposição dizendo: “A ética estóica, tomada no seu conjunto, é de fato uma tentativa bastante apreciável e digna de atenção para usar a grande prerrogativa do homem, a razão, em favor de um fim importante e salutar, a saber, elevá-lo por sobre os sofrimentos e dores aos quais cada vida está exposta”38. Schopenhauer também criou a sua Eudemonologia em Aforismos para a sabedoria de vida, texto que faz parte de Parerga e Paralipomena, onde também tenta construir uma doutrina de bem viver não só para os filósofos, mas para todos aqueles que possuem a capacidade de pelo menos tentar submeter sua vida a razão, onde conclui, entre tantas outras coisas que a vida não existe para ser gozada, mas para ser vencida e superada assim como também que “Quem quiser obter um balanço da própria vida em termos eudemonológicos, deve fazer a conta não segundo os prazeres dos quais 36 37 38 Schopenhauer, A.O mundo como vontade e como representação, trad. Jair Barboza, UNESP, 2005 São Paulo: p.141 Schopenhauer, A.O mundo como vontade e como representação, trad. Jair Barboza, UNESP, 2005 São Paulo: p.146 Schopenhauer, A.O mundo como vontade e como representação, trad. Jair Barboza, UNESP, 2005 São Paulo: p.146 17 conseguiu escapar” 39. Com as explicações acima fica claro perceber o motivo que faz do Eudemonismo uma fonte imprópria para qualquer fundamentação da moral, o porquê Schopenhauer e também Kant o recusam. Agora, depois de analisarmos esses dois primeiros pontos importantes dessa introdução à critica da moral kantiana, vamos estudar a recusa da moral teológica por parte de Schopenhauer que é claramente mais óbvia. Tal estudo é importante, em nossa visão, pois Schopenhauer nessa introdução faz um comentário bem interessante a respeito da moral kantiana, mais precisamente sobre a obra Critica da razão prática, onde, segundo Schopenhauer se reconhece cada vez mais a teologia moral “Como sendo aquilo que Kant quis” 40. Devemos entender assim a crítica que o mesmo faz a toda e qualquer moral teológica, que para ele não pode fundamentar a moral, pois a mesma já estaria viciada desde o seu surgimento com o interesse pessoal por parte de quem pratica o ato moral nela fundamentada. Schopenhauer vê na moral teológica o simples interesse pessoal. Ela é uma moral que se baseia apenas em seguir a vontade de um Deus, também podendo ser vista como uma lei, que, de alguma forma, premia aqueles que a observam, enquanto pune aqueles que não a observam. Sendo assim, aquele que pratica um ato moral com base na crença religiosa, estaria praticando-o tendo em vista apenas as vantagens que o mesmo lhe traria ou a tentativa de escapar da ira divina que sobre ele recairia pela inobservância de sua lei. Assim, na moral teológica, o que de fato existe é apenas o total interesse pessoal. A pessoa para a qual é dirigida a ação não possui de fato importância para aquele que desenvolve o ato moral, ela seria apenas um meio para alcançar a graça divina por observância de sua lei ou fugir de sua punição. Tal ato seria fruto de puro egoísmo. Ainda seguindo a concepção de Kant sobre o ato moral genuíno, de que o ato moral deve estar destituído de interesse pessoal por parte de quem o pratica Schopenhauer não consegue aprovar a moral teológica, pois, nela o que de fato existe é o desejo de ser recompensado ou a tentativa de fugir da ira divina, além de que a pessoa para a qual é feito o ato moral não possui nenhuma importância, ela é penas uma meio de se atingir os dois objetivos acima explicados, isso faz com que a moral teológica se apresente como uma moral na realidade falsa, viciada, onde o que realmente existe é o 39 40 Schopenhauer, A. Aforismos para a sabedoria de vida, trad. Jair Barboza, Martins fontes, são Paulo: 2006 p. 141 Schopenhauer, A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p. 22 18 interesse por parte de quem pratica qualquer ato nela baseada. Não é a própria pessoa que por compaixão, fundamento da moral de Schopenhauer, como já visto, que por sua própria consciência decide praticar o ato e sim seu desejo de recompensa que diz: ”ajude”,seu medo de ser punido que diz: “estenda a mão a seu irmão” Como tal ato poderia ser moralmente genuíno? Diante do que foi dito apenas o interesse, o egoísmo surge como fonte desse ato baseado na teologia. Schopenhauer também afirma que a moral teológica é a moral dominante no mundo. A maioria dos atos morais realizados possui nela o seu fundamento, e a maioria dos filósofos dela tentou escapar sem nenhum sucesso. Eis um dos pontos principais sobre o qual se apóia a crítica a fundamentação moral kantiana feita por Schopenhauer. Segundo ele, o próprio Kant em seu livro Crítica da razão pura, teria destruído totalmente o que chama de “teologia especulativa”, com a demonstração de que a existência de Deus jamais poderia ser confirmada. Vejamos o que o próprio Kant diz a respeito em sua Crítica da razão pura: Ora, afirmo que todas as tentativas de um uso meramente especulativo da razão na Teologia são totalmente infecundas e, pela sua natureza íntima, nulas e vãs; que, porém, os princípios do seu uso natural de modo algum levam a uma Teologia. 41 Sem essa teologia especulativa, a “certeza” de uma moral teológica seria impossível. Mesmo assim, o próprio Kant não teria conseguido escapar da teologia para fundamentar sua moral, o que a tornaria completamente sem sentido por carecer de um fundamento filosófico autêntico. Kant teria partido da própria ética para atingir Deus, fazendo o contrário do que até então havia sido feito, quando se partia de Deus para se encontrar uma ética. Essa conclusão é atingida por Schopenhauer a partir da observação do caráter imperativo da ética kantiana, cuja crítica estudaremos mais a frente. O fato de a moral kantiana estar baseada em um dever, dá a nosso pensador o material necessário para ver nela a teologia, encontrar nela a primeira grande contradição que não poderia conter, ou seja, a teologia que como vimos de nenhuma maneira pode fundamentar o genuíno ato moral. A crítica de Schopenhauer a Kant, porém, não para apenas frente à questão teológica, ela estende-se a outros pontos de extrema importância que nosso filósofo investiga e corrige de forma dura e muita vezes até irônica; para ele muitos argumentos 41 Kant I. Crítica da razão pura, In: OSPENSADORES” trad. Valerio Rohden e Udo Moosburger, Nova Cultural, são Paulo: 1996 p. 390 19 apresentados lhe parecerem simplesmente absurdos e sem nenhum sentido, e todo o tempo percebe-se a insistência em demonstrar não só a total falta de fundamentação do conceito dado por Kant à sua moral, como também sua incoerência. Vejamos o pensamento de Schopenhauer a respeito: Porém, desde que Kant destruiu o fundamento da “teologia especulativa”, até então tido por firmemente válido, e em seguida quis que ela, que tinha sido até ai o suporte de toda a ética, fosse inversamente sustentada pela ética para conferir-lhe uma existência apenas ideal -, pensa-se menos do que nunca numa fundamentação da ética por meio da teologia, pois não mais se sabe qual das duas é a carga e qual o apoio, caindo-se por fim num “circulus vitiosus.42 Segundo o que Schopenhauer diz acima, Kant teria tido a intenção de inverter o que até então existia em relação à teologia. Deus que até então havia sido a base da ética, depois de ter sido retirado do pensamento humano por Kant em sua Crítica da razão pura, passou a ser sustentado pela ética pela própria vontade de Kant em sua fundamentação da moral. Mas, como já foi dito, o pensamento de Kant sobre a moral possui seu mérito ao apresentar aquele que seria o único conceito realmente aceitável da moral. Além do que, segundo Schopenhauer, a moral kantiana fez surgir nos intelectuais de sua época um maior interesse pela moral, juntamente com o conhecimento do Budismo e Bramanismo que chegavam à Europa. Diante do aparecimento dessas novas visões de moral e de mundo, os velhos fundamentos da moral haviam desaparecido e necessária era uma nova fundamentação moral como o próprio Schopenhauer afirma: Como conseqüência, os fundamentos antigos da ética apodreceram, apesar de ter ficado a confiança de que ela mesma nunca pode afundar. Daí surge a convicção de que se tem de lhe dar outros apoios que não mais os até hoje existentes, adequando-os aos conhecimentos avançados da época. Sem dúvida, é a compreensão dessa necessidade cada vez mais sensível que motivou a sociedade Real para a presente e significativa pergunta do concurso.43 Como nota-se nas palavras acima, Schopenhauer apresenta sua época como sendo carente de um conceito que realmente pudesse fundamentar a moral. Uma época 42 Schopenhauer, A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p. 11-12 43 Schopenhauer, A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p. 12 20 que graças a evoluções culturais das mais diversas, como o conhecimento do Budismo, do Bramanismo, percebeu de uma só vez, que todos os fundamentos da moral até então apresentados haviam falhado. Tal fracasso não se deveria apenas à destruição da moral com bases teológicas, mas também, à moral Eudemonista, que Schopenhauer chama de “moral dos antigos”, gregos de modo geral, e que também se encontra presente entre os Cínicos e Estóicos. Como já apresentado, nessa moral, o que existe é a pretensão de apresentar virtude e felicidade como idênticas, a prática da virtude seria uma forma de se atingir a felicidade. Podemos concluir que Schopenhauer resumia tudo o que havia sido apresentado por fundamento da moral até então como fundamentos eudemonistas ou teológicos, que não teriam no ato moral um fim em si mesmo, mas sim um meio de se atingir algo. No Eudemonismo o fim a ser atingido através da virtude seria a própria felicidade, não se preocupando com outras pessoas, e na moral teológica, que seria a moral dominante nos filósofos modernos, a salvação ou qualquer outra coisa que estivesse relacionada com o divino e suas vontades ou leis. Salvação ou felicidade seriam assim o fim de todo ato moral que se constituiria dessa forma de pleno interesse egoísta. Depois dessa introdução que apresentou os aspectos gerais da crítica de Schopenhauer à moral kantiana, passemos a estudar os aspectos mais específicos dessa crítica nos quais podemos encontrar seus fundamentos. 21 1.2 Negando a metafísica do povo Schopenhauer é profundamente ateu e para entendermos melhor a sua crítica à moral kantiana, precisamos compreender os motivos de seu profundo ateísmo, o que ele pensa a respeito das religiões e da crença em deus ou em deuses e, ainda, qual o motivo que faz com que essas crenças não possam em nenhum momento serem verdadeiras e até que ponto ele as respeita. É como metafísica do povo que Schopenhauer denomina a religião e a crença em deus em geral. Para ele as religiões, apesar de falsas, são compreensíveis, pois surgem como tentativas de explicar a existência de alguma maneira. O homem menos capaz intelectualmente ao se deparar com a existência e todos os seus mistérios, ao ter o espanto metafísico que sobre todos os homens recai, necessita de uma explicação convincente ou pelo menos confortante para a sua vida. Assim a religião possui seu grau de relevância ao ser uma tentativa de interpretação do mundo, vista pelo erudito como uma alegoria da vida criada para tentar interpretar o mundo ou para se conseguir alguma consolação. Nesse ponto o pensamento de Schopenhauer se aproxima ou se iguala ao pensamento de David Hume que em suas obras História natural da religião e Diálogos sobre a religião natural trata do assunto vendo a religião como uma tentativa de explicação do mundo, uma alegoria do mundo, e também como um meio de os homens diminuírem seus infortúnios pelo menos psicologicamente. Os homens atormentados pelos horrores da vida precisam de um mito consolador e assim criam um deus com o qual podem contar ou que lhes ofereça a salvação ou a diminuição de suas dores. Assim o ser divino tem sua origem na angústia, na dor, na preocupação dos homens que precisam de algum tipo de solução, ainda que impalpável, para suas necessidades. Ainda, não esqueçamos que para Schopenhauer O “em si” é a vontade cega que faz do homem um ser destinado ao sofrimento por sua insatisfação ininterrupta, somado isso a outras dores do mundo o homem precisa de um consolo e por isso cria um deus, um ser com o qual “pode” contar, ao qual “pode” pedir paz, reverenciar, pedir ajuda; um ser ou seres que regem o mundo e o têm sob seu poder. Imaginar tal ser ou tais seres traz ao homem um conforto momentâneo ou até mesmo um conforto que ele pode carregar por toda a vida; a fraqueza dos seres humanos e sua impotência diante dos infortúnios do mundo faz com que eles necessitem dessa presença mágica, presença essa que é criada, assim como também todos os efeitos provenientes dela. Dessa forma deus nada mais é 22 do que uma criação do próprio homem em sua egoísta e incessante vontade que domina a razão. Isso se segue a um povo inteiro, que como o povo judeu se intitula o povo escolhido de deus e até em guerras pede a ajuda desse mesmo deus movimentando a esperança de toda uma nação. É assim que se resume o Teísmo Para Schopenhauer, como uma criação humana frente as suas necessidades na procura de algum tipo de salvação ou uma tentativa de interpretar a vida e o mundo. Assim que se entende o Teísmo e alguns dos motivos pelos quais nosso pensador não acredita e nem poderia acreditar nele. Agora vejamos outro motivo que faz de Schopenhauer um ateu, esse motivo é o velho e conhecido problema do mal, também apresentado David Hume em seu livro Diálogos sobre a religião natural, para Hume e Schopenhauer como nós poderíamos acreditar que um deus perfeito, bondoso, misericordioso, onipotente, onisciente é criador desse mundo se no mesmo existe tanta dor, horrores dos mais diversos, ou seja, tanto sofrimento, se seus filhos, isto é, os homens e os animais, tanto sofrem e se os raríssimos momentos de paz dos quais desfruta a humanidade são tão curtos e extremamente frágeis? O sofrimento do mundo jamais poderia coexistir com a idéia de um deus perfeito e misericordioso. Em nenhum momento poderíamos ver esse mundo como a obra de um deus todo poderoso, e, pior ainda, misericordioso, tal pensamento só pode ser fruto de uma mente não só egoísta, como também de uma mente totalmente desprovida de um autêntico raciocínio filosófico coerente. O mundo caso seja obra de algum ser superior a ele, esse ser só pode ser uma espécie de demônio que se diverte com a dor dos homens. Longe de esse mundo ser o melhor dos mundos possíveis, ele é o pior dos mundos possíveis, contendo a pior das vidas possíveis. Nosso autor expressa esse pensamento por várias vezes em sua obra, mas é em Parerga e Paralipomena que podemos encontrá-lo de maneira mais explícita, eis uma passagem: “Se o sentido mais próximo e imediato de nossa vida não é o sofrimento, nossa existência é o maior contra senso do mundo”.44 Percebemos que Schopenhauer em nenhum momento admite que a vida possa ser alguma coisa a mais do que sofrimento ou necessidade, tal visão extremamente pessimista não se deve apenas a sua metafísica da vontade, mas também a simples observação do mundo e da vida das pessoas. O sofrimento humano possui um papel extremamente importante no pensamento de Schopenhauer ele será mais uma vez usado para negar a existência de deus dessa vez 44 Schopenhauer, A. Parerga e paralipomena, In: “OS PENSADORES”, Trad. Wolfgang Leo Mar, Nova Cultural, São Paulo: 1997 p. 277 23 em sua visão Panteísta. Para ele a crença de que um ser onipotente, onisciente e misericordioso tenha criado um mundo cheio de sofrimento ainda pode, mesmo sendo absurda, ser pensada já que poderia ser apresentada como porquê desse sofrimento a imperscrutabilidade de sua vontade, mas “pensar que deus, o próprio deus criador é o infinitamente atormentado, ou seja, que deus é o próprio mundo sendo a própria criação, e somente nesse pequeno mundo, o que morre uma vez em cada segundo, isto por atos livres, o que constitui um absurdo. Mais fácil seria identificar esse mesmo mundo com o próprio demônio do que com um deus”45. Dessa maneira jamais um deus seja ele qual for poderia se transformar nesse mundo tão terrível e condenar-se por própria vontade a um sofrimento sem fim, tal pensamento seria um absurdo para o qual, diferentemente do Teísmo, não cabe nenhuma desculpa. Ainda que Teístas possam dizer que na terra existe certa ordem, ou uma estrutura própria, que apenas poderia ser proveniente de um deus qualquer, ou seja, que basta olhar para uma possível ordenação do mundo para constatar a existência de um deus, Schopenhauer não dará a mínima atenção para esse argumento, pois não só para ele, mas também para David Hume basta um olhar mais atento para o mundo, basta olhar mais de perto para o mundo e ver que o que de fato existe nele é a desordem brutal e ininterrupta, longe de qualquer ordem ou estrutura bem idealizada o mundo e os seres que nele habitam são desordenados e jamais poderiam ser vistos como criação de um deus com todas as qualidades que já mencionamos.Entre os seres o que existe é a guerra inacabável, o desejo infinitamente insatisfeito, o sofrimento diante do qual somos impotentes. O mundo é ruim, as pessoas em sua maioria são ruins, basta olhar para a história e veremos as mais cruéis histórias de traições, guerras, tudo movido pelo egoísmo humano e por sua maldade, na terra são a tristeza a amargura que existem e que sempre saem triunfante, os momentos de paz são como pequenos intervalos entre um momento de dor e outro, dessa forma a visão de que o mundo, por sua ordenação, só pode ser a criação de um deus é totalmente equivocada não procedendo de maneira alguma. Longe de todos esses males serem causados apenas pelos próprios homens, eles também existem por si mesmos e são elas as doenças, os acidentes, o homem nunca sabe o que o espera, pode ser qualquer coisa, desde a loucura até a morte ou a agressão fatal de outro homem: “Pois o mundo constitui o inferno, e os 45 Schopenhauer, A. Parerga e paralipomena, In: ”OSPENSADORES”, Trad. Wolfgang Leo Mar, Nova Cultural, Os Pensadores, São Paulo: 1997 p 24 homens formam em parte os atormentados e noutra, os demônios” 46 .Assim a religião deus ou os deuses estão completamente descartados. Aquilo que para David Hume é argumento para se suspender o juízo e levantar a possibilidade de deus não existir, para Schopenhauer é o suficiente para negar a sua existência. Como já dissemos, a metafísica do povo surge pelo espanto que o homem sente frente aos mistérios da existência e também pela necessidade de uma salvação por causa da terrível e incessante vontade que conduz sua vida, Também a religião não se resume apenas no Teísmo. Ela possui outra forma totalmente diferente que é o Budismo e o Hinduísmo, religiões nas quais o pensador se inspira para criar seu próprio pensamento. No Budismo a figura central é o Buda, ou seja, o príncipe Sidarta Gautama que abandonou tudo, inclusive sua vida de riquezas, por compaixão da humanidade presa no sofrimento da vida para dar-lhe o caminho que conduz a salvação, depois de seis anos Sidarta atinge a iluminação, torna-se o Buda, sendo a partir de então aquele que despertou para a verdade universal ensinando que a vida é sofrimento do começo ao fim, e passa a guiar seus discípulos. Schopenhauer concorda plenamente com as quatro verdades de Buda que guiam o homem a iluminação ou até a santidade, são elas a existência, a origem, a cessação e o caminho da cessação do sofrimento. O próprio Schopenhauer defenderá essa visão de mundo em seu pensamento e também a exemplo da religião Budista irá propor ao homem um meio de libertação do sofrimento, de salvação através da negação da vontade, algo bem próximo do ascetismo de Gautama. 46 Schopenhauer, A. Parerga e paralipomena, In”OS PENSADORES” Trad. Wolfgang Leo Mar, Nova Cultural, São Paulo: 1997 p. 285 25 1.3 Crítica à forma imperativa da moral kantiana O imperativo categórico é a base do pensamento kantiano sobre a moral, alicerce do edifício ético formulado por Kant, mas antes de estudarmos a crítica que Schopenhauer faz a ele, vamos estudar a gênese do mesmo.Ela se inicia com a idéia de Dever. É bom ressaltar que a crítica de Schopenhauer à moral kantiana possui dois momentos um deles diz respeito a forma imperativa que possui, o outro a seu formalismo. O ato moral para Kant é aquele que não possui nenhum tipo de interesse pessoal. No inicio de seu livro Fundamentação da metafísica dos costumes, ele dirá: “Neste mundo, e até também fora dele, nada é possível pensar que possa ser considerado como bom sem limitação a não ser uma só coisa: uma boa vontade”47.Para Kant essa “boa vontade” deve ser boa por si mesma, não estar contaminada por nenhum interesse humano, como por exemplo, ainda que a atitude possa parecer boa em um primeiro momento, como a do caridoso que ajuda muitas outras pessoas, mas que foi motivado pelo desejo de sentir-se bem ao ver as pessoas felizes, essa atitude não poderá ser considerada moral pois, apesar de estar de acordo com o dever, não foi motivada por ele. Se uma pessoa pratica uma ação apenas porque ela quer praticá-la, essa ação não possui valor moral algum. O único modo como Kant compreende a possibilidade de um ato moral genuíno é com a existência de um dever responsável pela motivação do ato moral: “Para desenvolver porém, o conceito de boa vontade altamente estimável em si mesma e sem qualquer intenção ulterior, conceito que reside já no bom senso natural e que mais precisa de ser esclarecido do que ensinado, este conceito que está sempre no cume da apreciação de todo o valor das nossas ações e que constitui a condição de todo o resto, vamos encarar o conceito de Dever que contém em si o de boa vontade.48 Bom ressaltar que Kant possui em sua fundamentação o intuito de, como ele mesmo diz, buscar a fixação do princípio supremo da moralidade. Kant não está interessado em construir uma moral ou definir o que seja certo ou errado. 47 Kant I. Fundamentação da metafísica dos costumes, trad. Paulo Quintela, Edições 70, Lisboa Portugal: 2008 p. 21 48 Kant I. Fundamentação da metafísica dos costumes, trad. Paulo Quintela, Edições70, Lisboa Portugal: 2008 p. 26 26 Para Schopenhauer o primeiro erro de Kant se encontra na forma com a qual ele apresenta a moral: “Tanto a filosofia natural como a filosofia moral, podem cada uma ter sua parte empírica, porque aquela que tem de determinar as leis da natureza como objeto da experiência, esta porem as da vontade do homem enquanto ela é afetada pela natureza; quer dizer, as primeiras como leis segundo as quais tudo acontece, as segundas como leis segundo as quais tudo deve acontecer,, mas ponderando também as condições sob as quais muitas vezes não acontece o que devia acontecer” 49 Diante dessa definição Schopenhauer dirá: “Isto já é uma petição de princípio decisiva. Quem nos diz que há leis as quais nossas ações devem submeter-se? Que vos diz que deve acontecer o que nunca acontece?”. 50 O que vos dá o direito de antecipá-lo e logo impor uma ética na forma legislo - imperativa como a única para nós possível”51. além dessa definição ser uma petição de princípio ela contém a suposição inaceitável por parte de Schopenhauer de que existem leis morais puras em nossa mente, coisa que durante toda a Fundamentação da metafísica dos costumes, segundo Schopenhauer, não foi provado por Kant ou demonstrado de nenhuma maneira. A condição pura de leis morais em nossa mente é afirmada pelo próprio Kant logo no inicio da Segunda Seção da Fundamentação da metafísica dos costumes: “Do facto de até agora havermos tirado o nosso conhecimento de dever do uso vulgar da nossa razão prática não se deve de forma alguma concluir que tenhamos tratado como um conceito empírico”52. Schopenhauer dirá, a respeito dessa forma pura da moral kantiana: Em Kant o princípio ético apresenta-se como algo totalmente independente da experiência e do seu ensinamento, como algo transcendental ou metafísico. Ele reconhece que o modo de agir humano tem um significado que ultrapassa toda a possibilidade de experiência e, por isso mesmo, a ponte própria para levar é o chamado mundo inteligível, “mundum noumenon”, o mundo das coisas em si.53 49 50 Kant I. Fundamentação da metafísica dos costumes, trad. Paulo Quintela, Edições 70, Lisboa Portugal: 2008 p. 14 Schopenhauer, A. fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p.23 51 Schopenhauer, A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. P. 23 52 Kant I. Fundamentação da metafísica dos costumes, trad. Paulo Quintela, Edições70, Lisboa Portugal: 2008 p. 41 53 Kant I. Fundamentação da metafísica dos costumes, trad. Paulo Quintela, Edições70, Lisboa Portugal: 2008 p. 20 27 Assim o princípio da moralidade em nada é motivado por algo empírico, o mesmo é metafísico e de alguma forma espontâneo. Icilio Vecchiotti comenta a interpretação de Schopenhauer sobre a moral kantiana: Quase todos os críticos defenderam que o imperativo kantiano se apresenta como um facto imediato de consciência. Mas essa opinião vai contra o pensamento de Kant. O imperativo é introduzido na Fundamentação da metafísica dos costumes por um processo totalmente a priori, através de um raciocínio subtil.54 Assim, a lei moral é apresentada por Kant como algo totalmente a priori, que em nenhum momento necessita do empírico para existir e ainda mais além, é genuinamente moral em parte por ser assim. Depois de Schopenhauer lançar os questionamentos apresentados acima, ele irá apresentar aquilo que ele pensa estar realmente por detrás da moral kantiana. Depois de tais questionamentos, Schopenhauer continuará fiel a Kant, quando o mesmo afirma em sua Crítica da razão pura, que a única forma de adquirir conhecimentos é através da experiência, coisa que Schopenhauer mais a frente dirá que Kant se esqueceu em sua Fundamentação da metafísica dos costumes. Schopenhauer continuará defendendo a experiência como fonte única de conhecimento, e argumenta que o filósofo deve estudar aquilo que de fato acontece no mundo ou entre os homens para depois chegar a uma conclusão, seja ela qual for. Schopenhauer irá se valer da experiência para encontrar o seu fundamento da moral, atento a fatos, a ações humanas, sempre citando exemplos, Schopenhauer encontrará, por detrás de toda boa ação a compaixão que para ele é a única coisa capaz de explicar e fundamentar a moral, em nenhum momento Schopenhauer se esquece da experiência para formular sua tese, Sendo assim, descobrimos um dos motivos que o faz criticar tanto a moral kantiana: Kant teria, sem nenhuma preocupação com as experiências morais humanas, definido, e estabelecido (ou até mesmo criado) a existência da lei moral a ser seguida, o que constituiria um equívoco, para não dizer um absurdo que vai contra sua própria obra. No pensamento de Schopenhauer o conceito de “lei” tem sua origem nas instituições civis criadas pelo homem e também, em um sentido alegórico, no conhecimento da natureza onde os fatos apreendidos “a posteriori”, que se mantêm constantes, são também chamados pelos homens de “leis da natureza”. Nos homens, já 54 Vecchiotti, I. Schopenhauer. Rio de Janeiro: Edições 70, 1986 p. 57 28 que são eles parte da natureza, tal “lei” também existe e se encontra na motivação das ações humanas, ou seja, na lei de motivação. Cada ação só pode acontecer depois de uma devida causa, mas em nenhum momento tal ação pode ser vista como originária de uma suposta lei moral pré-existente na mente humana, mas tão somente como um efeito que se encerra em si mesmo. Fora esse exemplo de “lei natural” apresentado por Schopenhauer, não haveria motivos para se acreditar na existência de uma lei moral que, independentemente de regulamentação estatal ou religiosa pudesse existir “a priori” na mente dos homens e lhe mostrar claramente o que deve ou não ser feito. Mas tal foi a tentativa de Kant com sua moral imperativa, que possui em si uma necessidade absoluta. Juntamente com a afirmação dessa necessidade absoluta. Schopenhauer reconhece uma “petição de princípio”,: Kant afirma que tal “lei moral” nos dá um “dever” a ser seguido. Com esse conceito de “dever” presente à “lei moral”, surge não só a contradição absoluta da moral, kantiana como também o ponto mais fraco em sua fundamentação. Primeiramente, uma moral que ordena não pode esperar que a atitude daqueles que a seguem seja realmente genuína; não existiria um “agir moral” de forma espontânea, realmente desejada, e sim uma ação moral guiada por uma ordem a ser seguida. Em segundo lugar, Schopenhauer reconhece no “tu deves”, expressão utilizada por Kant, juntamente com os conceitos de mandamento e lei, nada mais do que a antiga moral teológica que, em nenhum momento, poderia fundamentar a moral genuína que como tal se caracterizaria por seu total desinteresse pessoal. Em relação à questão do “Dever” apresentada por Kant, Schopenhauer explica que não existe nenhuma outra origem para a introdução de conceitos como lei, prescrição ou Dever, a não ser no decálogo mosaico, a própria ortografia de Kant no tu deves [du sollt], revelaria, até de maneira ingênua, essa origem inaceitável que teria de ser da retirada da filosofia. Tais conceitos como lei, mandamento e dever teriam sua origem na moral teológica e, portanto permaneceriam estranhos a Filosofia55, Kant estaria simplesmente fazendo uma afirmação sem nenhuma argumentação ou raciocínio. Com essas palavras Schopenhauer afirma não só que a moral teológica é algo que não deve ser levada em consideração pela filosofia como também que a moral kantiana em sua fundamentação, já se encontra viciada e em contradição com seu próprio conceito. Além disso, o “tu deves”, presente na obra de Kant ou em qualquer 55 Schopenhauer, A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. P. 25 29 outra teoria sobre a moral, perde todo seu significado fora da teologia. Uma moral que ordena, impele ou exige só pode ser, no ponto de vista de Schopenhauer, ligada à religião, pois inerente a si existe sempre o pressuposto de castigo ou recompensa. Sobre isso Schopenhauer esclarece: Se tais condições – castigo e recompensa – forem abstraídas, o conceito de dever fica vazio de sentido. Por isso o dever absoluto é simplesmente uma “contradictio in adjecto”. É simplesmente impossível pensar uma voz que comanda, venha ela de dentro ou de fora, a não ser ameaçando ou prometendo. Mas assim, a obediência em relação à ela mesma, que, de acordo com as circunstâncias, pode ser esperta ou tola, será sempre, todavia, em proveito próprio e portanto sem valor moral.56 O Dever da moral kantiana começa agora a aparecer como algo vazio, que não possui em si nada sólido que o sustente, mas o que estaria então tentando Kant revelar com ele se o mesmo é apenas algo vazio? Ora, se inerentes ao Dever, estão o castigo e a recompensa posteriores, obviamente que o próprio conceito de Dever e seja mais o que vier depois dele nada poder pode fornecer de concreto, dessa maneira, mesmo tendo tentado fugir da teologia ela permanece na teoria moral de Kant, e não apenas ela, mas também o Eudemonismo como se verá a seguir. O Dever na moral kantiana revela assim a teologia que seria pelo que entendemos, a sua própria sustentação. Schopenhauer, mesmo criticando em seu ensaio apenas a Fundamentação da metafísica dos costumes, obra de Kant que, como vimos, apresenta a sua fundamentação da moral, não deixa de examinar a Crítica da razão prática, na qual encontra aquela que seria a prova da contradição kantiana que aparece indiscutivelmente na teoria do “Soberano Bem”. Para Schopenhauer o “Soberano Bem”, fruto da observância moral, nada mais é do que a recompensa pela observância da lei moral que se constitui na unificação da virtude e felicidade, que nada mais seria do que o Eudemonismo retirado da moral pelo próprio Kant através do seu conceito de ato moral genuíno Assim, a moral kantiana apresentar-se-ia com uma dupla contradição levando em consideração todo o seu pensamento sobre a moral: após conceituar o ato moral genuíno como sendo aquele que está totalmente destituído de interesse pessoal, Kant tenta fundamentá-lo através de um imperativo categórico que possui em seu íntimo nada mais que a moral teológica, e, conseqüentemente, egoísta. Depois disso, na Crítica da razão prática, o 56 Schopenhauer, A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p. 27 30 “Soberano Bem” faz renascer o Eudemonismo que também nada mais é do que interesse pessoal. Schopenhauer comenta: Assim é que se vinga a admissão do dever incondicionado e absoluto, que oculta uma contradição. Por outro lado, o dever condicionado não pode ser certamente um conceito ético fundamental, porque tudo o que acontece visando uma recompensa ou castigo é necessariamente uma ação egoísta e, sendo assim, sem puro valor moral.57 Mas a crítica de Schopenhauer a forma imperativa da moral kantiana não termina nessas afirmações que já seriam suficientes para entendê-la como contraditória dentro do pensamento do autor. O “tu deves” possui em si mais uma peculiaridade que o impediria de ser fonte de uma moral genuína, peculiaridade que recai sobre a própria vontade do indivíduo que o obedece. O ato moral não deve ser apenas desinteressado, mas também fruto de uma vontade genuína, deve ser espontâneo, deve acontecer por pura vontade e não por obediência de quem pratica uma lei seja ela qual for. Qualquer ato moral que surja tendo uma fonte como a do “tu deves”, não existiria por si mesmo, e sim, por obediência ou comprometimento de se seguir um preceito ou lei. Dentro dessa conclusão, a vontade humana no ato moral simplesmente desapareceria por completo, o que faria com que a fundamentação moral do pensamento de Kant fosse destruída de uma só vez. Schopenhauer apresenta assim a moral kantiana como carente de tudo quilo que ela tentou apresentar: Como todo deve está simplesmente ligado a uma condição, do mesmo modo todo dever. Pois ambos os conceitos têm um parentesco próximo e são quase idênticos. A única diferença poderia ser a de que o deve em geral pode repousar sobre a mera coerção, e o dever, pelo contrário, pressupõe o compromisso, quer dizer, a aceitação do dever – esta tem lugar entre senhor e servidor, superior e subordinado, governo e súditos. Mesmo porque ninguém aceita um dever gratuitamente, e cada dever dá um direito. O escravo não tem deveres porque não têm direitos, mas existe para eles um deve que repousa na mera coerção.58 Assim, aquilo que até então era a estrutura sólida para fundamentar qualquer ato moral se transforma em um mero jogo de palavras profundamente contraditório e não merecedor de ser considerado sequer como pensamento filosófico. Schopenhauer ainda 57 Schopenhauer, A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p. 28 58 Schopenhauer, A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p. 28 31 faz afirmações provenientes de suas conclusões a respeito da moral kantiana que pretendem demonstrar o real interesse de Kant na sua formulação dos fundamentos da moral. Ele afirma que o pensador “emprestou” da moral teológica o seu fundamento, criando uma teologia às avessas que surge da moral, e que, conseqüentemente à sua aceitação, levaria seu seguidor obrigatoriamente a um deus qualquer, isto é, aceitar a moral kantiana como procedente significa aceitar consequentemente a teologia. Eis que nesse ponto de sua dissertação, surge uma “acusação” dura de Schopenhauer ao afirmar que os “pressupostos teológicos ocultos” na moral kantiana podem ter sido lá colocados de forma proposital ou por incapacidade intelectual de Kant de raciocinar plenamente. Schopenhauer comenta essa “incapacidade intelectual” de Kant logo no inicio de sua dissertação, como já vimos, quando justifica a necessidade de criticar a Fundamentação da metafísica dos costumes, vejamos o que ele diz: Além disso, ela – Fundamentação da Metafísica dos Costumes - tem ainda a vantagem significativa de ser a mais antiga de suas obras sobre a moral, quatro anos apenas mais nova que a Crítica da Razão Pura, sendo assim do tempo em que, embora ele já estivesse com sessenta e um anos, a influência da idade sobre seu espírito ainda não era perceptível.59 Notamos nas palavras acima que Schopenhauer desconfia da própria capacidade de Kant como pensador e indica a “idade avançada” de Kant como responsável pelos absurdos ditos a respeito da moral em sua fundamentação. Mas essa ainda é a conclusão mais “leve” sobre o pensamento moral kantiano, Schopenhauer aponta ainda no inicio de sua dissertação um raciocínio, onde mostra aquele que seria o verdadeiro intuito de Kant na construção de sua moral e que, caso tal apontamento seja procedente, faria de Kant, segundo os próprios dizeres de Schopenhauer, um pensador que de maneira proposital manteve a teologia em sua moral, coisa totalmente contrária a sua própria filosofia. Schopenhauer irá afirmar ainda sobre a Fundamentação da metafísica dos costumes, mas com apoio na Crítica da razão prática, que construir uma teologia moral era o intuito de Kant desde o princípio. Vejamos as palavras do pensador referentes à Crítica da razão prática: Porém deve-se particularmente mencionar a Crítica da Razão Prática para o seguinte: em primeiro lugar, a exposição de alto mérito em relação às demais, e, por certo, composta anteriormente, a exposição das relações entre liberdade e necessidade (pp. 169-79 da quarta edição), a qual concorda, 59 Schopenhauer, A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p. 21 32 contudo com a primeira com a que ele dá na Crítica da razão pura (pp. 56086); e, em segundo lugar, a teologia moral que cada vez mais se reconhece como sendo aquilo que Kant quis.60 Talvez tal intuito de Kant já pudesse ser presumido, levando em consideração a crítica de Schopenhauer a moral kantiana, quando no Prefácio à Crítica da razão pura, Kant fala sobre sua própria filosofia e também sobre aquilo que seria sua “missão”, apesar de Schopenhauer não tocar nessa parte da obra de Kant em sua crítica, pensamos ser interessante colocá-la aqui: Só mediante essa crítica podem ser cortados pela raiz o materialismo, o fatalismo, o ateísmo, a incredulidade dos livres-pensadores, o fanatismo e a superstição, que podem tornar-se prejudiciais em geral, e por fim também ao idealismo e o ceticismo, que são mais perigosos para as escolas e dificilmente passam para o público.61 Assim, no pensamento de Schopenhauer, Kant não encontrou nenhuma moral, não quis descobrir o princípio primeiro da moralidade, mas sim, quis construir uma com bases teológicas. Poderíamos dizer que Schopenhauer pensa ter sido a vontade de “manter a possibilidade da teologia viva” por meio da moral, o verdadeiro interesse de Kant ao escrever sua fundamentação moral. Em nenhum momento Kant teria buscado a verdade sobre a ética, e sim, um meio de, através da filosofia, manter a teologia ainda possível. Essa é a conclusão que chegamos depois das palavras de Schopenhauer, que afirma que Kant quis construir uma teologia as avessas. Nosso pensador quis dizer com isso que Kant através da moral levaria o homem a crença em deus, já que sem algum deus sua moral não faria sentido. Percebe-se aqui o esforço de Schopenhauer em destruir qualquer porta para a moral teológica cristã na moral de Kant. Se Schopenhauer realmente está com a razão ou não, é algo que não nos cabe responder, mas sua interpretação da moral kantiana é realmente essa. Tal suposição, ainda que não explícita, pode ser encontrada facilmente na crítica de Schopenhauer à fundamentação moral kantiana e não pode ser descartada, já que, como acima vimos nas próprias palavras de Kant, o ceticismo e o ateísmo seriam males que, através de sua Crítica da razão pura, ele se propunha a combater. Mas já que 60 Schopenhauer, A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p. 21 - 22 61 Kant I. Crítica da razão pura, In “OS PENSADORES”trad. Valerio Rohden e Udo Moosburger, Nova Cultural, São Paulo: 1996 p. 47 33 Schopenhauer cita a Crítica da razão prática vamos até ela, investigar esses pontos obscuros dessa crítica. Esses trechos podem parecer inapropriados por não tratarem de forma exclusiva da Fundamentação metafísica dos costumes, livro sobre o qual Schopenhauer se debruça para elaborar sua crítica à moral kantiana, mas eles mostram que a tentativa kantiana de manter a religião aceitável não se encontra apenas em seu pensamento moral, mas também em toda sua obra. Muitos partilham do pensamento de Schopenhauer sobre os pressupostos teológicos ocultos na obra de Kant, como por exemplo, Michel Onfray, mas, interessante notar, que ninguém cita nosso pensador como aquele que fez essa afirmação tão claramente. Schopenhauer ainda diz antes de terminar sua crítica ao imperativo categórico: Dito de forma abstrata, o procedimento de Kant é o de ter dado como resultado aquilo que teria de ser o princípio ou o pressuposto (a teologia) e de ter tomado como pressuposto aquilo que teria de ter sido derivado como resultado (o mandamento). Porém, depois que ele virou a coisa de ponta cabeça, ninguém, nem mesmo ele, a reconheceu como sendo aquilo que era, a velha e bem conhecida moral teológica. 62 Assim, não teria Kant despertado totalmente do seu sono dogmático. A moral kantiana nessa primeira crítica aparece como, consciente ou inconscientemente, o que pode ria ser chamado de erro, um meio de atingir a teologia, aquilo que seria o fim aparece como princípio, da crença em um deus qualquer surgem mandamentos, preceitos a serem seguidos, em qualquer crença religiosa o mandamento surge depois dela, o que Schopenhauer nos diz é que Kant construiu algo invertido, é isso que ele quer dizer quando acima citamos, “virou de ponta cabeça”. Mas a crítica moral kantiana continua e agora veremos mais pontos específicos dela que nos levarão a compreensão de onde Schopenhauer quer chegar ao examinarmos a sua fundamentação da moral. 62 Schopenhauer, A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p. 30/ 34 1.4 Crítica à admissão dos deveres a nós próprios Outro ponto interessante da Fundamentação da metafísica dos costumes, diz respeito aos deveres que teríamos em relação a nós mesmos, ao qual Schopenhauer também não poupa críticas. Kant afirma que o “tu deves” também existe para o homem em relação a si mesmo. Assim, não em relação apenas ao mundo e às outras pessoas o homem possui um dever a cumprir, mas também a si mesmo, existe uma atitude correta a ser seguida. Tal suposta atitude também será alvo das críticas de Schopenhauer que continuam duras e irônicas. Schopenhauer dir-nos-á que só existem dois deveres em relação a nós próprios: deveres de direito ou deveres de amor.63 Ele afirmará que deveres de direito são para nós impossíveis de serem realizados, pois sempre fazemos conosco aquilo que queremos. Jamais alguém poderia afirmar que um homem comete uma injustiça contra si mesmo, no máximo, tal pessoa que cometeria uma “injustiça” contra si mesmo, estaria equivocada em relação ao efeito benéfico que o ato praticado lhe traria, o que, quando descoberto, seria desfeito ou seria ponto de partida para uma reparação. Já nos deveres de amor a contradição seria ainda mais evidente já que o “amar a si mesmo” seria algo mais que evidente em todos os seres humanos. Schopenhauer cita a passagem do evangelho no qual tal verdade seria explicitamente indicada: A impossibilidade de ferir a obrigação do amor-próprio já vem pressuposta no mais alto mandamento da moral cristã – “Ama teu próximo como a ti mesmo” (Mateus 22,39) -, segundo o qual o amor que cada um nutre por si mesmo é tomado previamente como o máximo e a condição de qualquer outro é complementado, de nenhum modo, pelo ‘ama a ti mesmo como a teu próximo”, pelo que cada um sentiria que seria obrigado a muito pouco.64 Nessa regra moral, vemos que o amor a si mesmo é considerado o maior de todos e ela nos pede que amemos os outros com o mesmo amor, com a mesma intensidade que nós amamos a nós mesmos, pois, o amor que voltamos para nós mesmos não é de nenhuma forma um dever, e sim, algo espontâneo. Ainda sobre os “deveres” que temos para com nós mesmos, Schopenhauer nos dirá: “O que se 63 Schopenhauer, A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p. 31 64 Schopenhauer, A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p. 31 35 apresenta de costume como dever em relação a nós próprios é, antes de tudo, um arrazoamento contra o suicídio, fortemente preso a preconceitos e extraído de razões as mais superficiais.” 65 Esclareçamos sobre o que foi dito acima, pois no pensamento de Schopenhauer o homem é sempre egoísta, com exceção do momento no qual sente a compaixão ou nega a vontade, assim pensar apenas em si mesmo ou naquilo que é melhor para si mesmo lhe é algo natural e não há como isso não acontecer, assim as tais regras de amor ou dever para consigo mesmo não necessitariam existir em nenhum momento, já que isso seria algo natural do homem, já em relação ao suicídio, a crítica de Schopenhauer que, mesmo não sendo um defensor do suicídio, terá elementos um pouco mais polêmicos de seu pensamento, ele dirá que ele é uma compensação para o homem que, diferentemente do animal, pode “viver” passado e futuro juntamente com o presente graças a razão, como já vimos, coisa que aumentaria ainda mais seu sofrimento. No animal o passado e o futuro não existem, assim como a racionalidade também não. O animal não experimenta o sofrimento de prever uma situação desastrosa ou simplesmente ruim, às vezes inevitável, ou de se remoer em sofrimento por um fato acontecido no passado e que ainda lhe atinge com dor, como acontece nos seres humanos. Para Schopenhauer os motivos que fazem com que um homem não cometa suicídio devem ser motivos muito mais profundos do que aqueles apresentados por Kant. Esses motivos podem ser encontrados em O Mundo como vontade e como representação. Nesse livro o suicídio é apresentado por Schopenhauer como um ato vão, sem sentido, pois exterminaria apenas o indivíduo enquanto toda a espécie permaneceria no sofrimento da vida, a essência de tudo, sempre uma, a vontade, continuaria a existir assim como a dor. Longe de ser um ato de negação da vida, que Schopenhauer defende como a mais alta meta da vida, talvez sua única meta, o suicídio é um ato de afirmação equivocada da vida, fruto do apego aos prazeres terrenos que tantos nos escravizam ou a própria vida. Como veremos no segundo capítulo deste trabalho, Schopenhauer é um pessimista e vê na vontade, como dito na introdução, o “em si” kantiano e também a responsável pela a existência de tudo o que existe. Libertar-se dessa vontade seria a “missão” do homem e o único meio de acabar com todo o sofrimento da existência até o aniquilamento total. Suicidar-se seria algo bem 65 Schopenhauer, A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. P. 32 36 distante desse pensamento. Vejamos o que ele nos fala no quarto livro de O Mundo como vontade e como representação sobre o assunto: Nada mais difere tão amplamente da negação da Vontade de vida, exposta suficientemente nos limites do nosso modo de consideração, e que constitui o único ato de liberdade da Vontade a entrar em cena no feno individual, na efetividade, portanto é como Asmus a define, a mudança transcendental do que a efetiva supressão do fenômeno individual, na efetividade, pelo SUICÍDIO. Este, longe de ser negação da Vontade, é um acontecimento que vigorosamente a afirma66. Mas, depois de fazermos essa observação sobre a visão de Schopenhauer sobre o suicídio que, como veremos na conclusão deste trabalho, será de extrema importância para a compreensão da moral de Schopenhauer no tocante à liberdade e, conseqüentemente, à sua fundamentação da moral, voltemos à sua crítica à Kant e também à suas ironias sobre o mesmo. Vejamos o que Schopenhauer diz sobre a questão do suicídio em Kant: Também as razões contra o suicídio que Kant, nas pp. 53 e 67, não desdenha de alegar, posso apenas, de modo escrupuloso, intitular de mesquinharias que nem ao menos merecem uma resposta. Temos de rir quando pensamos que tais reflexões teriam de arrancar o punhal das mãos da Catão, de Cleópatra, de Cocio Nerva (Tacitus, Anais 6, 26) ou de Arria de Paetos (Plínio, Epístolas 3, 16)67. Como vimos o suicídio não é algo moralmente reprovável no pensamento de Schopenhauer, ele apenas é algo estúpido sem nenhum efeito. Para Schopenhauer o suicídio pode até mesmo ser visto como a oportunidade concedida pela natureza ao homem que não resiste aos seus sofrimentos. Eis abaixo os comentários de Kant a respeito do suicídio em sua Fundamentação da metafísica dos costumes: Uma pessoa, que por uma série de desgraças, chegou ao desespero e sente tédio da vida, mas está ainda bastante em posse da razão para poder perguntar a si mesma se não será talvez contrário ao dever para consigo mesma atentar contra a própria vida. E procura agora saber se a máxima de sua ação se poderia tornar em lei universal da natureza. A sua máxima, porém é a seguinte: Por amor de mim mesmo, admito como princípio que, se a vida, 66 67 Schopenhauer, A.O mundo como vontade e como representação, trad. Jair Barboza, UNESP, 2005 São Paulo: p.504 Schopenhauer, A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p. 32 37 prolongar-se, me ameaça mais com desgraças do que me promete alegrias, devo encurtá-la. Mas pergunta-se agora se esse princípio do amor a si mesmo se pode tornar em lei universal da natureza. Vê- se em breve que uma natureza, cuja lei fosse destruir a vida em virtude do mesmo sentimento cujo objetivo é suscitar a sua conservação, se contradiria a si mesma e portanto não existiria como natureza. Por conseguinte, aquela máxima não poderia de forma alguma dar-se como lei universal da natureza, e, portanto é absolutamente contrária ao princípio supremo de todo dever68. Mais à frente Kant ainda falará sobre o suicídio: Segundo o conceito de dever necessário para consigo mesmo, o homem que anda pensando em suicidar-se perguntará a si mesmo se a sua acção pode estar de acordo com a idéia de humanidade como fim em si mesma necessário para consigo mesmo, o homem que anda pensando em suicidar-se perguntará a si mesmo se a sua ação pode estar de acordo com a idéia da humanidade como um fim em si mesma. Se, para escapar a uma situação penosa, se destrói a si mesmo, serve-se ele de uma pessoa como de um simples meio para conservar até o fim da vida uma situação suportável. Mas o homem não é uma coisa; não é portanto um objeto que possa ser utilizado simplesmente como um meio, mas pelo contrário deve ser considerado sempre em todas as suas ações como um fim em si mesmo. Portanto, não posso dispor do homem na minha pessoa para mutilar, ou degradar ou matar.69 Esses dois comentários de Kant fazem parte da Segunda Seção do livro Fundamentação da metafísica dos costumes, na qual são apresentadas a “máximas” deduzidas do princípio da moral kantiana que é o imperativo categórico segundo o próprio Kant, e que também será alvo das mais severas críticas por parte de Schopenhauer. Uma das máximas é a seguinte: “age apenas segundo uma máxima tal qual que possas ao mesmo tempo querer que ela se torne uma lei universal”70 Importante notar que Schopenhauer sequer deseja tecer algum comentário crítico sobre essas duas passagens sobre o suicídio em Kant, por considerá-las absurdas demais para tal. Na realidade, essas observações de Kant sobre o suicídio se encontram apoiadas também no imperativo categórico, agora, como vimos acima, apresentado através de uma de suas máximas derivadas. 68 69 70 Kant I. Fundamentação da metafísica dos costumes, trad. Paulo Quintela, Edições70, Lisboa Portugal: 2008 p. 62-63 Kant I. Fundamentação da metafísica dos costumes, trad. Paulo Quintela, Edições70, Lisboa Portugal: 2008 p. 73 Kant I. Fundamentação da metafísica dos costumes, trad. Paulo Quintela, Edições70 Lisboa Portugal: p.62 38 Ainda existe um último aspecto dos deveres em relação a nós mesmos a ser criticado por Schopenhauer, para ele, esses deveres seriam na realidade, em sua maioria, apenas regras de bem viver ou de prudência. Não é por dever que um homem se resguarda de praticar algo que lhe seria nocivo para sua própria vida. Apesar de Schopenhauer não afirmar tal posicionamento, entendemos que o que ele quer dizer é que essas prescrições nada mais são do que formas de “bem viver” ligadas, por exemplo, à higiene, quando cita os casos de bestialidade e onanismo. Tais preocupações nada teriam de moral, com exceção, entre os casos que ele cita a pederastia que, por envolver a corrupção de um jovem seria algo a ser pensado no âmbito moral. Dessa forma, vemos que Schopenhauer mais uma vez tenta acabar com a noção de dever encontrada em Kant. Até mesmo esses supostos deveres do homem para consigo mesmo, nada mais seriam do que regras para se alcançar uma vida mais feliz, ou no mínimo, uma vida sem problemas. Também aqui, notamos que nosso autor volta a afirmar, mesmo que de maneira indireta, a dupla contradição, já apresentada no item anterior, que estaria escondida na moral kantiana: a moral teológica e o Eudemonismo, ambos incompatíveis que a concepção de moral apresentada pelo próprio Kant. Mesmo tendo Kant afirmado que não se trata disso quando, por exemplo, ele diz: “Quando, por exemplo, dizemos: ‘Não deves fazer promessas enganadoras’, - admitimos que a necessidade dessa abstenção não é somente o conselho para evitar qualquer outro mal, como se disséssemos: ‘Não deves fazer promessas mentirosas, para não perderes o crédito quando se descobrir o teu procedimento”71 71 Kant I. Fundamentação da metafísica dos costumes, trad. Paulo Quintela, Edições70, Lisboa Portugal: 2008 p.59 39 1.5. Crítica ao fundamento da ética kantiana Nesse item de seu ensaio, Schopenhauer irá criticar a forma com a qual Kant conclui a existência do dever e, conseqüentemente, do imperativo categórico e da lei moral. Podemos dizer que esse é o ponto mais importante da crítica de Schopenhauer a Kant, pois nele é apresentada de forma pormenorizada a grande contradição que Schopenhauer aponta como o erro de toda moral kantiana. Ter feito a distinção em “a priori” e o “a posteriori” foi seu grande feito; seu erro foi ter tentado levar essa “formula” até a moral, deixando-a sem sentido e vazia. Vejamos o que Schopenhauer diz: Com a distinção entre “a priori” e o a “posteriori” no conhecimento humano, ele fez a descoberta mais surpreendente e mais coroada de êxito de que pode gabar-se a metafísica. Por que se admirar com o fato de que ele procure então aplicar esse método por toda a parte?72 Schopenhauer verá na Fundamentação metafísica dos costumes, a tentativa, por parte de Kant, de apresentar uma moral cognoscível “a priori”, rejeitando assim tudo aquilo que seja empírico. A suposta lei moral kantiana seria previamente admitida sem nenhuma justificativa, dedução ou prova. Sem nenhuma experiência, qualquer que fosse. Longe, então, de utilizar-se do empirismo para encontrar sua moral, Kant o rejeita completamente, afirmando que o mesmo jamais poderia fundamentar a questão moral. Tal moral deveria ser conhecida em si mesma e não avaliada nas ações desenvolvidas a partir dela. Importante ressaltar que, com esse desprezo pelo empirismo, não só a experiência externa como também a interna seria deixada de lado por Kant. Schopenhauer afirmará isso claramente: Ele rejeita a experiência externa ainda mais decididamente que a interna, pois recusa toda fundamentação empírica da moral. Portanto ele não fundamenta – o que peço que se note bem – seu princípio moral em qualquer fato de consciência que seja demonstrável, algo como uma disposição interna. Menos ainda em qualquer relação objetiva das coisas no mundo exterior. Não! Isso seria uma fundamentação empírica.73 72 Schopenhauer, A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p. 34 73 Schopenhauer, A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p. 35 40 Vejamos as palavras de Kant sobre sua própria moral: Ora, a lei moral, na sua pureza e autenticidade (e é exatamente isto que mais importa na prática), não se deve buscar em nenhuma outra parte senão na filosofia pura, e esta (Metafísica) tem que vir portanto em primeiro lugar, e sem ela não pode haver em parte alguma uma Filosofia moral; e aquela que mistura os princípios puros com os empíricos não merece mesmo o nome de filosofia (pois esta distingui-se do conhecimento racional comum exatamente por expor em ciência à parte aquilo que este conhecimento só concebe misturado); merece ainda muito menos o nome de Filosofia moral, porque, exatamente por este amálgama de princípios, vem prejudicar até a pureza dos costumes e age contra a sua própria finalidade.74 Com isso, Schopenhauer dirá que a ética kantiana se apóia em conceitos totalmente abstratos, conceitos que não se sustentam em nada, mas que seriam capazes de constituírem uma lei capaz de guiar todos os seres humanos em seus atos. Mas não apenas dos seres humanos ela seria o guia, como também, nos próprios dizeres de Kant, de todo ser racional definindo a moral como um comando da razão de maneira metafísica. Kant apresentaria, segundo Schopenhauer, uma razão pura, também produtora da moral, que existe independentemente do próprio homem, uma razão pura que existiria por si mesma. A moral se dirigiria não apenas ao homem, mas também para todos os seres racionais. Schopenhauer, em seu raciocínio, levantará a seguinte questão em nós: que outros seres racionais são esses que não os homens? Schopenhauer dirá que impossível é pensar a razão existindo por si mesma, impossível seria vê-la sem o homem: Do mesmo modo que conhecemos a inteligência como sendo, em geral, apenas uma propriedade dos seres animais e, por isso mesmo, nunca estamos justificados a pensá-la como existente independentemente da natureza animal, assim também conhecemos a razão somente como propriedade da espécie humana e não estamos autorizados a pensá-la como existindo fora dela e formando um gênero “ser racional” que seja diferenciado de sua única espécie “ser humano” e, ainda menos, a estabelecer leis para tais seres racionais em abstrato.75 Nesse ponto surge para Schopenhauer, mais um grande absurdo na filosofia moral kantiana que ele irá ironizar com as seguintes palavras: 74 75 Kant I. Fundamentação da metafísica dos costumes, trad. Paulo Quintela, Edições, Lisboa Portugal: 2008 p.59 Schopenhauer, A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p. 37 41 Falar de seres racionais fora do homem não é diferente de se querer falar de seres pesados fora dos corpos. Não se pode evitar a suspeita de que Kant teria aí pensado um pouco nos queridos anjinhos ou que tivesse contado com a sua ajuda para a persuasão do leitor.76 Mesmo que de maneira não explícita, fica-nos claro que Schopenhauer afirma mais uma vez a existência inequívoca da teologia na moral kantiana. Ao ironizar Kant falando em “anjinhos”, não apenas está levantando uma simples suspeita, mas sim, mais uma vez uma “acusação”: existência de religiosidade nos escritos de Kant. Ele deixa isso claro no parágrafo seguinte dizendo: Em todo o caso, aí se encontra uma pressuposição silenciosa da “anima rationalis”, que difere totalmente da “anima sensitiva” e da “anima vegetativa” e que permanece após a morte e que, então, nada mais é do que simplesmente “rationalis”77 Schopenhauer dirá, depois dessa conclusão que o que se pressupõe estar por detrás da moral kantiana, tanto na Fundamentação metafísica dos costumes quanto na Crítica da razão prática, nada mais é do que a razão como sendo a essência imortal do homem, ou seja, a existência de um “eu” individual e imortal, coisa que, segundo Schopenhauer, o próprio Kant já havia rejeitado como possibilidade de se conhecer em sua Crítica da razão pura, aliás, como já citado no inicio desse capítulo. Assim, além da afirmação da impossibilidade da existência de uma razão criadora de leis morais, razão que existiria por si mesma, independentemente de qualquer experiência, Schopenhauer aponta o erro da teologia, que já estudamos contida de forma inequívoca na moral kantiana. Em relação à razão, Schopenhauer nos dirá que ela não é a formadora do homem e jamais poderá ser a fonte do fenômeno, ela pertence ao fenômeno, está condicionada ao fenômeno, ou seja, ao homem e, fora dele, jamais poderia existir. No pensamento de Schopenhauer a razão nada mais é do que instrumento da vontade o que impossibilitaria tal afirmação de Kant. O erro de Kant foi tentar levar até a moral conhecimentos “a priori”; conhecimentos esses que apenas poderiam nos dar os meios de se conhecer o mundo, e “legislar” apenas as experiências que nos chegam, mas jamais, estabelecer padrões de condutas morais existentes por si mesmos. Desprezar a experiência foi o erro 76 Schopenhauer, A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p. 37 77 Schopenhauer, A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p. 37 42 de Kant e, por causa desse erro, sua moral permanece praticamente incompreensível e sem nenhuma sustentação. Segundo Schopenhauer, Kant se esqueceu que o “em si” das coisas em sua própria teoria, permanece incognoscível e a contradição do fundamento da lei moral kantiana está em apresentar essa suposta lei como não pertencente ao fenômeno. Longe de agir por amor, compaixão, respeito, justiça ou caridade, o homem que age de forma genuinamente moral, segundo Kant, age por dever. Não há compaixão, amor ou qualquer outro sentimento, apenas o dever de agir. Assim A moral kantiana é apenas formal, sem nenhum conteúdo O homem indiferente, insensível, que não se emociona frente a qualquer situação de sofrimento do homem e age comandado por esse dever, age mais moralmente do que aquele que, movido por extrema compaixão, salva outro ser humano de uma situação desastrosa. Schopenhauer afirmará que apenas uma moral de escravos seria capaz de fazer isso: mover um homem indiferente a uma ação moral. O medo, mais uma vez, aparece como sendo o responsável pela atitude desse homem já que não há nenhuma intenção de fazer o bem. Schopenhauer, colocando-se diretamente contra a moral kantiana, dirá que a intenção de fazer o bem é o único critério de avaliação de uma ação moral. Nietzsche também comentará em sua obra Aurora esse pensamento de Schopenhauer sobre a moral kantiana: É visto como bom tudo o que, de algum modo, corresponde a esse impulso formador de corpo e membros, e a seus impulsos auxiliares, esta é a corrente moral fundamental de nosso tempo; empatia individual e sentimento social aí se conjugam. (Kant ainda está fora desse movimento: ele ensina expressamente que devemos ser insensíveis ao sofrimento alheio, para que nossa beneficência tenha valor moral – o que Schopenhauer, muito irritado, como se pode compreender, chama de insipidez kantiana.78 Assim, a verdadeira sustentação da moral kantiana que permanece todo o tempo oculta em sua obra é a teologia. Sem ela seria impossível imaginar a moral kantiana provida de sentido. A crítica ainda continua sobre o Dever de Kant. Schopenhauer dirá que um Dever acontecerá necessariamente, ao passo que o próprio Kant afirma que a atitude que deveria ser praticada em respeito a esse dever, nem sempre acontece. Jamais um dever, 78 Nietzsche F. Aurora, trad. Paulo César de Souza, Companhia das Letras, são Paulo, 204 p.102 43 uma necessidade absoluta poderia deixar de ser cumprida, segundo Schopenhauer, é a noção de uma necessidade absoluta que irá aparecer nas palavras de Kant para a definição de Dever: “Dever é a necessidade de uma ação por respeito à lei”. 79 Tal respeito a essa lei seria inevitável e não fruto de uma escolha por parte do homem. Kant também afirmará: Pois que aquilo que deve ser moralmente bom não basta que seja conforme à lei moral, mas tem também que cumprir-se por amor dessa mesma lei; caso contrário, aquela conformidade será apenas muito contingente e incerta, porque o princípio imoral produzirá na verdade de vez em quando ações conformes à lei moral, mas mais vezes ainda ações contrárias a essa lei.80 A contradição dessas afirmações fica ainda mais clara para Schopenhauer, quando Kant diz que não existe nenhum exemplo na experiência que seja suficientemente seguro para apontar uma atitude cuja disposição se deu por respeito ao Dever. Assim onde estaria a necessidade de tal ação, ou melhor, como atribuir a ela necessidade? Em razão dessa observação, Schopenhauer dirá: Já que é justo interpretar um autor sempre pelo mais favorável, digamos que o que ele quer dizer é que uma ação conforme ao dever é necessária e objetivamente, mas subjetivamente casual. No entanto não é tão fácil pensar tal coisa quanto dizê-la: onde está pois o objeto dessa necessidade objetiva, cujo resultado muitas vezes e talvez nunca se dê na realidade objetiva? Com toda a justeza de interpretação, não posso deixar de dizer que a expressão da definição ‘necessidade de uma ação’ não é outra coisa uma perífrase artificiosamente escondida, bem torcida, da palavra deve.81 . Como já feito várias vezes por Schopenhauer, aqui, mais uma vez, aparece uma fundamentação da moral baseada na teologia ou que pelo menos abre espaço para o ressurgimento da teologia. Pode parecer, ao leitor desatento, que Schopenhauer está sendo extremamente repetitivo, mas o que entendemos é que ele está fazendo em sua crítica à moral kantiana é mostrar que em todos os pontos dessa moral encontra-se um vazio, isto é, formalidade, que só pode ser preenchido pela teologia que, por sua vez, não pode fundamentar a ética de nenhuma maneira. Como dissemos anteriormente, 79 80 81 Kant I. Fundamentação da metafísica dos costumes, trad. Paulo Quintela, Edições, Lisboa Portugal: 2008 p.31 Kant I. Fundamentação da metafísica dos costumes, trad. Paulo Quintela, Edições, Lisboa Portugal: 2008 p.16 Schopenhauer, A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p.41 - 42 44 Schopenhauer vê em Kant a intenção de recolocar a teologia na filosofia ocultando-a através de conceitos que em si mesmos nada valem: Esta intenção torna-se mais familiar para nós quando notamos que a palavra respeito é empregada na mesma definição, onde se queria dizer obediência. A saber, na nota da p. 16 está dito: ‘Respeito significa apenas a subsunção de minha vontade sob uma lei. Esta determinação imediata pela lei, e a consciência dela, chama-se respeito’. Em que língua? O que está dito aqui quer dizer, em alemão, obediência, então isto teria de servir a alguma intenção, e esta não é manifestamente outra senão a de ocultar a proveniência da forma imperativa e do conceito de dever a partir da moral teológica. Como vimos anteriormente, a expressão necessidade de uma ação, que tomou lugar do deve, de modo bem torcido e desajeitado, só foi escolhida porque o deve é precisamente a linguagem do Decágolo. A definição acima – ‘o dever é a necessidade de uma ação por respeito diante de uma lei’ – diria portanto numa linguagem sem rodeios e descoberta, isto é, sem máscara: o dever significa uma ação que deve acontecer por obediência em relação a uma lei. Este é o nó da questão82. Fica claro nas palavras acima que Schopenhauer, durante toda a sua crítica à moral kantiana, a analisa profundamente e através de suas contradições e falta de sentido chega à conclusão do real intuito de Kant em toda a sua fundamentação moral que é a teologia. Até mesmo, como foi visto na citação acima, certas palavras foram colocadas de forma proposital no texto por Kant, para atingir esse fim. 82 Schopenhauer, A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p.42 45 1.6 Crítica à lei moral kantiana “E agora a lei, está última pedra de toque da ética kantiana! Qual seu conteúdo? E onde está escrita? Esta é a questão principal”. 83 Essas são as perguntas que Schopenhauer irá lançar sobre a chamada lei moral que Kant apresenta em sua fundamentação. Antes de examiná-la, Schopenhauer pensa ser de suma importância saber diferenciar o que seja princípio e fundamento da ética. O princípio da ética segundo Schopenhauer é uma expressão que melhor conceitua o agir ético. Podemos usar como exemplo, uma velha conceituação do agir moral bem conhecida pela maioria das pessoas: “Faça o bem sem olhar a quem”. Tal conceituação diz respeito ao agir propriamente dito, ou seja, ela expressa uma ação de forma genérica que representa um valor moral a ser seguido, no caso, fazer o bem a todas as pessoas independentemente de serem essas pessoas boas ou más, conhecidas ou merecedoras de receberem o bem. Também pode haver uma conceituação do princípio ético baseada em uma forma imperativa, em uma lei que estabelece padrões de conduta a serem seguidos. Diferentemente, a fundamentação da ética, não é uma expressão que conceitua o agir ético como vimos, e sim, que o fundamenta. A fundamentação da ética expõe os motivos pelos quais determinadas atitudes éticas devem ou não ser seguidas. Segundo Schopenhauer, tal diferenciação é extremamente importante, já que Kant teria unido ambas: Quando retornamos à nossa questão acima: qual o teor da lei em cujo cumprimento consiste, de acordo com Kant, o dever e em que ela se funda? Descobriremos que também Kant ligou estreitamente o princípio da moral com o seu fundamento de um modo bastante artificial.84 Para Schopenhauer até mesmo Kant sentiu a dificuldade em unir o fundamento da moral com seu princípio. Propor uma proposição sintética “a priori” em relação à moral, ou seja, leis morais que determinem o comportamento do homem no mundo objetivo sem nenhuma sustentação empírica é a tarefa que o próprio Kant se impõe. 83 Schopenhauer, A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p.43 84 Schopenhauer, A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p.45 46 Schopenhauer dirá que a solução desse problema foi “alcançada” através da tentativa de estabelecer, em relação à moral, a universalidade dessa mesma moral. A universalidade da lei moral seria seu conteúdo e Kant teria chegado até a seguinte proposição: “Age apenas segundo uma máxima tal que possas ao mesmo tempo querer que ela se torne uma lei universal”. 85 Essa seria a proposição que fundamentaria toda a sua moral, o que demonstraria o imperativo categórico, e também um equívoco grosseiro no modo de pensar de Schopenhauer. Segundo ele, uma proposição como essa só poderia ser encontrada através do pensamento do homem que, depois de iniciar sua vida e tomar contato com o mundo exterior, analisa a convivência humana, os problemas dos quais é vítima e as circunstâncias nas quais vive e chega até essa conclusão. Jamais tal proposição, poderia estar de forma inata na mente do homem, pois, ela requer experiência. Para Kant, essa proposição, segundo Schopenhauer, apenas surge no homem de modo imperativo e a ela não cabe nenhum questionamento em relação a sua origem, o que, para Schopenhauer, é um total absurdo. Na visão de nosso pensador, a moral tem de ser empírica já que para o homem apenas aquilo que é empírico pode determinar uma atitude do ser humano. Pois a moral tem a ver com a ação efetiva do ser humano e não com castelos de cartas apriorísticos, de cujos resultados nenhum homem faria caso em meio ao ímpeto da vida e cuja ação, por isso mesmo, seria tão eficaz contra a tempestade das paixões quanto a de uma injeção para o incêndio.86 Nesse ponto da crítica à moral kantiana, é impossível não notar a presença da própria filosofia de Schopenhauer. Até aqui, vimos uma crítica baseada, quase que exclusivamente, ou pelo menos na pretensão de Schopenhauer, apenas no próprio pensamento de Kant. Com exceção da importância do empirismo ressaltada no inicio desse trabalho, a fundamentação kantiana da moral, foi a base utilizada por Schopenhauer, para sua própria crítica. Agora, vemos a sua própria idéia sobre o mundo e os homens aparecer de forma explícita como quando antes estava “oculta”, como que estabelecendo o inicio de uma ligação entre a primeira parte de sua dissertação e a segunda, na qual ele exporá o seu fundamento da moral. Assim, surgem as próprias convicções de Schopenhauer como fonte de questionamento e crítica à Kant. 85 86 Kant I. Fundamentação da metafísica dos costumes, trad. Paulo Quintela, Edições, Lisboa Portugal: 2008 p.62 Schopenhauer, A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p.52 47 Para Schopenhauer, apenas conceitos abstratos, da forma com a qual Kant os apresenta fundamentando a moral, não seriam capazes de deter o homem em suas paixões, egoísmo e maldade. Aquilo que para Kant é incognoscível, o “em si”, para Schopenhauer pode ser conhecido e é a vontade. A vontade formadora de tudo, inclusive dos homens, e que dá a eles não só o desejo incessante, mas também a noção de individualidade no mundo fenomênico responsável pelo egoísmo. Assim, o homem sempre se encontra dominado, escravizado por seus desejos e por ele faz absolutamente tudo. Dessa forma, em um mundo egoísta, no qual a vontade particular sempre se sobrepõe à vontade de todos e, conseqüentemente, o interesse pessoal é o maior de todos os impulsos para as ações humanas, como, conceitos abstratos, poderiam ter alguma força para deter esses impulsos e determinar uma moral não só desinteressada como também universal? Dessa vez, é a afirmação de Schopenhauer de que o homem é a objetivação da vontade, que aparece oculta para criticar a real efetividade da moral kantiana. Assim, mais um erro de Kant, é a junção de princípio moral com seu fundamento e também a sua total ineficácia frente aos desejos humanos: Por isso, a falta de conteúdo é o segundo erro da fundamentação kantiana da moralidade. Isto não foi notado até aqui, porque o acima claramente exposto fundamento próprio da moral kantiana só se tornou provavelmente claro por completo para poucos entre os que o celebraram e propagaram. O segundo erro é portanto a falta total de realidade e por isso de efetividade possível.87 Schopenhauer ainda dirá logo abaixo, de maneira bem simples, não deixando dúvida sobre sua crítica: “Paira no ar como uma teia de aranha de conceitos, os mais sutis e vazios de conteúdo, não se baseia em nada e não pode por isso nada suportar e nada mover”88. Fica claro aqui, como apresentado na introdução desse trabalho, o ponto sobre o qual recai toda a crítica de Schopenhauer à moral kantiana, mais do que em qualquer outro momento. Para Schopenhauer a moral kantiana é simplesmente vazia, constituída de conceitos abstratos que, em nenhum momento, podem sustentá-la. Por detrás de todos esses conceitos, o que realmente existe é a teologia, que seria a única coisa capaz de dar sustentação a todo o edifício da moral kantiana. 87 Schopenhauer, A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo 2001: p.52 88 Schopenhauer, A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo 2001: p.52 48 Ainda, em sua crítica ao fundamento da ética kantiana, Schopenhauer irá propor a análise desse fundamento e a teologia ainda aparecerá. Em relação ao fundamento da razão prática, Schopenhauer dirá: Acharemos então que ela procede de uma doutrina que Kant contradisse profundamente, mas que, no entanto, encontrava-se, mesmo que inconscientemente para ele, como reminiscência de um modo de pensar precedente, no fundamento de sua admissão de uma razão prática com seu imperativo e sua autonomia. É a psicologia racional, de acordo com a qual o homem compõe-se de duas substâncias heterogêneas, o corpo material e a alma imaterial.89 Schopenhauer apresentará um breve histórico das idéias sobre a existência material e salientará o ponto em que, a moral kantiana, no seu modo de ver, se apóia. A diferenciação entre a alma e corpo, faria da alma o princípio do homem e, por si mesma, ela seria cognoscente, não dependendo em nada do corpo. Essa alma conheceria então, nos dizeres de Schopenhauer, conceitos universais, abstratos, inatos e assim por diante. Quando a alma atua juntamente com seu corpo, o que acontece é uma atividade impura, viciosa e não representante da grandiosidade dessa alma. Assim, aquilo que de fato é puro e verdadeiro no homem está, tão somente, ligado à vontade e à razão dessa alma enquanto ela não “interage” com o corpo. Assim, em total “coincidência” com essa visão transcendente da existência do homem, aparece a razão pura de Kant que, sem nenhuma experiência, seja ela qual for, é capaz de trazer em si uma lei moral que dite antes mesmo de qualquer fato acontecer no mundo objetivo, o que se deve ou não fazer. E ainda, mais que isso, jamais tais atos morais poderiam estar ligados com o mundo objetivo. A vontade determinada, pois, por um conhecimento condicionado sensivelmente era a mais inferior e, muitas vezes, má, pois o seu querer era dirigido pelas excitações sensoriais; ao passo que aquele outro era um querer dirigido tão-só pela razão pura pertencente tão-só è alma imaterial.90 Depois dessas exposições claras feitas por nosso filósofo, ele afirmará ser essa a fonte do fundamento da moral no pensamento de Kant: De uma reminiscência não claramente consciente de tal concepção proveio, finalmente, a doutrina kantiana da autonomia da vontade, que, tomada, como voz da razão pura prática, é legisladora para todo ser enquanto racional e 89 Schopenhauer, A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p.63 90 Schopenhauer, A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p.65 49 conhece meramente razões formais de determinação, em oposição às materiais, que, como tal, determinam apenas a faculdade de desejar inferior que age contra a superior.91 Vemos a crítica de Schopenhauer ao fundamento da moral kantiana, como sendo a parte mais importante de toda a crítica. Nela fica extremamente claro como Schopenhauer chegou à conclusão de que Kant tentou reintroduzir a teologia na filosofia conscientemente ou não. Ainda temos como adiante se verá a importância que Schopenhauer dá para a avaliação dos atos dos homens, que podem ser vistos e avaliados, para o encontro daquela que o autor apresentará como sendo a verdadeira fundamentação da moral. Dessa forma, podemos entender os motivos pelos quais Schopenhauer considerou ser de suma importância a avaliação da Fundamentação da metafísica dos costumes, pois os erros nela contidos mostram, ainda que de maneira incompleta, o verdadeiro caminho a seguir para encontrar-se a verdadeira fundamentação da moral dentro do pensamento de Schopenhauer. 91 Schopenhauer, A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p.66 50 1.7 Crítica ao princípio máximo da ética kantiana e as suas formas derivadas Depois de investigar e avaliar o fundamento da moral kantiana, Schopenhauer irá criticar, ainda de maneira mais dura, a máxima derivada da moral kantiana que se encontra como Schopenhauer mostrou, ligada a seu próprio fundamento: “Dirijo-me agora àquele princípio máximo da moral que repousa sobre esse fundamento, estandolhe estreitamente ligado e mesmo confundindo-se com ele”92. Apesar de, como visto na citação acima e também no item anterior, o princípio da moral kantiana se confundir com seu próprio fundamento, nesse momento de sua crítica, Schopenhauer irá avaliá-lo como se tal não ocorresse: Mas retenhamos apenas o fato de que aquela regra fundamental, estabelecida por Kant, não é ainda o próprio princípio moral, mas apenas uma regra heurística para ele, isto é, uma indicação de onde deva ser procurado.93 O princípio da moral kantiana que Schopenhauer analisa é: “Age apenas segundo uma máxima tal que possas ao mesmo tempo querer que ela se torne uma lei universal”.94 Assim, tendo essa máxima apenas como princípio da moral kantiana, Schopenhauer irá avaliá-la em si mesma e descobrir nela mais uma contradição no pensamento de Kant. Tal máxima, segundo Schopenhauer, encontrar-se-ia já viciada pelo interesse pessoal, ou seja, pelo egoísmo, coisa totalmente contrária à conceituação de genuíno ato moral feita por Kant, onde verdadeiro ato moral é aquele destituído de todo e qualquer interesse pessoal. A avaliação dessa máxima por Schopenhauer irá apontar para a palavra que traz em si toda a contradição que é a palavra “querer” já que o querer-poder é o eixo em torno do qual giram as ordens dadas. Para Schopenhauer a elucidação dessa máxima está em descobrir o que o homem pode ou não querer: É claro que eu preciso de novo de um regulativo para determinar, no aspecto mencionado, o que eu possa querer, e só por meio desse é que eu teria a chave para a ordem dada, como se fosse um comando lacrado.95 92 Schopenhauer, A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p.67 93 Schopenhauer, A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p.68 94 Kant I. Fundamentação da metafísica dos costumes, trad. Paulo Quintela, Edições, Lisboa Portugal: 2008 p.62 51 Esse querer presente na máxima de Kant está, segundo nosso pensador, em apenas um lugar: em nosso egoísmo que sempre aparece em primeiro lugar em qualquer ato da vontade humana. Impossível imaginar, para Schopenhauer um querer que não encontre no egoísmo sua principal fonte. Para ele, a maioria dos atos humanos é praticada tendo em vista aquilo que os homens desejam para si mesmos; mesmo certas atitudes que aparentam ter um intuito moral, podem ter, em seu íntimo, uma meta a ser alcançada que diz respeito apenas ao egoísmo do homem. Assim, muitas vezes, ajudar o semelhante, pode ser apenas um meio de atingir aquilo que se deseja apenas para si mesmo. “A indicação contida na regra máxima de Kant para se encontrar o princípio moral propriamente dito repousa, aliás, na pressuposição tácita de que só posso querer aquilo com que me dou melhor”96 Assim, o homem ao estabelecer tal regra máxima, coloca-se, em relação a ela, tanto de forma ativa como também de forma passiva. A “bondade” propriamente dita, não existe de fato, como, segundo o próprio Schopenhauer, Kant afirmará em sua obra. Para Schopenhauer, o homem é o animal que mais sofre no mundo, pois ele é aquele que, diferentemente dos irracionais, possui a plena consciência de si mesmo e, além disso, pode se lembrar do passado, podendo sofrer com lembranças ruins que nele se encontrem, e também sofrer frente ao futuro, que sempre se apresenta em sua mente como incerto e cheio de possibilidades ruins. Assim, o homem tem plena consciência de tudo aquilo que pode lhe acontecer e a moral, pode, de forma antecipada, livrá-lo de atitudes que lhe causam sofrimento através do estabelecimento de padrões de conduta que lhe resguardam sua integridade em todos os aspectos. Essa é a forma que, segundo Schopenhauer, o homem cria alguns padrões morais, já se colocando como vítima de alguma atitude que lhe traria sofrimento se contra ele fosse praticada. Assim, estabelecendo regras de conduta que fazem de certos atos reprováveis, o homem já está se defendendo antecipadamente ou, de maneira genérica, está tentando se defender de qualquer coisa que no futuro possa lhe causar mal. Na realidade, o que existe não é a genuína vontade de fazer o bem, de exercer aquilo que é certo, mas, sim, praticar algo que, pelo menos hipoteticamente, lhe resguardará de um efeito ruim, caso 95 Schopenhauer, A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: p.68 96 Schopenhauer, A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p.68 - 69 52 ele praticasse um ato diferente. No fundo o que existe é apenas o egoísmo, o interesse pessoal, o desejo de não ser afetado. Podemos exemplificar tal pensamento com um dos mandamentos: “Não matarás” (Êxodo 20:13). Nele estaria contido, não o interesse genuíno de respeitar a vida do semelhante, e sim, o desejo de não ser morto por ninguém. Esse mesmo raciocínio pode ser levado até atos ainda mais genéricos, como por exemplo, a caridade. Qual o homem que não gostaria de, em um momento de agonia ou dificuldade de qualquer forma, receber a ajuda de alguém? Assim, ajudar os necessitados, famintos e empobrecidos e, mais do que isso, qualificar tais atitudes como “boas” em si mesmas, é algo que surge do egoísmo, da “previsão” de que tais situações de total falta de dignidade podem um dia recair sobre o próprio homem que delas se defende. Nessa defesa, o que na realidade existe é a defesa, de forma antecipada, da própria vida e de seus interesses. Esse “querer” kantiano, teria então, nas afirmações de Schopenhauer, sua fonte em nada mais do que no egoísmo humano. E, como já dissemos, o próprio Kant afirmará isso: Ele não pode deixar de acrescentar esta conclusão indispensável à ordem em que consiste o princípio máximo da moral de Kant. Todavia, ele não o faz logo que ela é estabelecida, pois isto poderia chocar, mas o faz mantendo uma distância respeitável e no recôndito do texto, para que não salte aos olhos que aqui, apesar de sublimes instituições “a priori”, é o egoísmo que se senta na cadeira do juiz e que faz pender a balança; e, depois de ter optado pelo ponto de vista do lado eventualmente passivo, o faz valer pelo lado ativo97. Dessa forma, entende-se claramente, segundo a crítica de Schopenhauer que, da mesma forma como Kant tentou criar uma teologia às avessas, ou seja, afirmando-a através da moral, ele também se valeu de princípios morais que, na realidade, estão fundamentados apenas no egoísmo, e tentou transformá-los em leis inatas na mente homem. A veracidade de tal afirmação ficará ainda mais clara para Schopenhauer pelas próprias palavras de Kant que nosso pensador irá transcrever em seu texto com suas próprias palavras: “Que eu não poderia querer uma máxima universal para mentir, porque então não se acreditaria mais em mim ou seria pago na mesma moeda”98. Ainda: 97 Schopenhauer, A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p.69 98 Schopenhauer, A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p.69 53 “A universalidade de uma lei em que cada um, se lhe aprouvesse, poderia prometer com a intenção de não cumprir tornaria impossível a promessa e a finalidade que com ela se poderia ter, pois ninguém acreditaria”99. O próprio Kant deixará em suas palavras o raciocínio de Schopenhauer mais compreensível: Pois uma vontade que decidisse tal coisa pôr-se-ia em contradição consigo mesma; podem com efeito descobrir-se muitos casos em que a pessoa em questão precise do amor e da compaixão dos outros e em que ela graças a tal lei natural nascida da sua própria vontade, roubaria a si mesma toda a esperança de auxílio que para si deseja.100 Diante dessas palavras de Kant, Schopenhauer afirma, sem ter nenhuma dúvida, que a máxima da moral kantiana possui como base apenas o egoísmo e pressupõe a reciprocidade, ou seja, o relacionamento entre as pessoas que, para ser o melhor possível, necessita de uma regra. Essa reciprocidade seria viável, segundo Schopenhauer, como uma regra para se estabelecer em nível estatal, mas jamais moral. O “agir moralmente” nada mais é do que um meio de melhor conviver com as pessoas e também de evitar empecilhos que poderiam surgir como efeitos de atitudes explicitamente egoístas. O homem age conforme uma atitude que pudesse ser adotada por toda a humanidade, já visando sua satisfação e não um bem em si mesmo. Se não mente, é porque não quer correr o risco de ser desacreditado no futuro; se não faz falsas promessas, é porque não quer ser vítima de uma possível falsa promessa que alguém a ele poderá fazer. Assim, como Schopenhauer já disse o egoísmo diante dessa máxima moral kantiana, é o juiz que decide o que se deve aceitar como uma regra passível de ser aceita universalmente ou não. Eis as palavras de Schopenhauer que deixam nossa explicação ainda mais clara: O princípio ‘Age sempre de acordo com a máxima cuja universalidade como lei tu possas querer ao mesmo tempo’ é a única condição sob a qual uma vontade nunca pode estar em contradição consigo mesma’ – assim a verdadeira interpretação da palavra contradição é a de que, se uma vontade tivesse sancionado a máxima da injustiça e da falta de caridade, ela a 99 Schopenhauer, A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p.69 100 KANT I. Fundamentação da metafísica dos costumes, trad. Paulo Quintela, Edições, Lisboa Portugal: 2008 p.65 54 revogaria, mais tarde, ao tornar-se eventualmente parte passiva e, com isso, contradizer-se-ia.101 Para Schopenhauer fica claro que o suposto imperativo categórico, na realidade é um imperativo hipotético que surge do egoísmo que, previdente, coloca-se como parte passiva de qualquer situação ruim e, através dessa abstração, estabelece regras a serem seguidas para lhe auxiliar caso, em algum momento, essas situações possam vir a acontecer e lhe afetar. Dessa forma, o desejo da justiça, caridade, amor, respeito e tantas outras virtudes, são na verdade o desejo de viver em um mundo onde aquele que sofre é sempre amparado e defendido para que o homem, em seus interesses pessoais se sinta mais seguro. Agora, diferentemente de uma pessoa egoísta que, ao sentir-se insegura diante das incertezas do futuro que lhe fazem querer uma lei moral universal, que pregue a caridade e a justiça, uma pessoa que se sente segura por confiar em suas forças físicas ou intelectuais a ponto de imaginar não precisar da caridade e da justiça para bem viver, iria encontrar em seu querer uma regra que dissesse exatamente o oposto. A injustiça e o total individualismo seriam o seu desejo e deveriam ser as “leis” a serem seguidas universalmente. Ficaria assim demonstrado que a falta de um fundamento seguro para essa máxima kantiana a torna hipotética e também ineficaz para, de fato, trazer uma lei moral que conduzisse os homens a uma universalidade caridosa e justa. Portanto, à falta de uma fundamentação real do princípio supremo da moral de Kant, exposta no parágrafo precedente, junta-se, contra a afirmação expressa de Kant, a oculta natureza hipotética do mesmo, graças à qual ele se baseia no puro egoísmo, como sendo o intérprete oculto da ordem dada nele.102 Nessa passagem da crítica de Schopenhauer à moral kantiana, será proveitoso lembrarmo-nos de Nietzsche, que em seu livro Genealogia da moral, afirmará que os valores morais nada mais são do que a criação do ressentimento daquele que os cria. O fraco ofendido pelo forte, em sua insegurança e fraqueza, cria valores morais que fazem da atitude sofrida uma atitude reprovável e digna de ser combatida por aqueles que de fato seriam os “bons homens”. Assim, da mesma forma que Schopenhauer nos fala acima, Nietzsche apresentará uma visão que afirma ser a moral criação do ressentimento 101 Schopenhauer, A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p.70 - 71 102 Schopenhauer, A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p.72 55 do fraco, tendo em vista o egoísmo humano em todos os setores da vida. Na realidade, o que existe não é a bondade e sim o interesse que, para melhor se satisfazer, cria normas que o impeçam de ser atingido, o que lhe proporcionaria mais chances de êxito. Ainda, como intuito dessa valoração de atitudes, também existiria a intenção de impedir o desenvolvimento dos fortes, apresentando-os como pessoas más, cujo agir deve ser impedido de alguma forma, até mesmo com a crueldade extrema. Nietzsche diz: Quanta reverência aos inimigos não tem um homem nobre! – e tal reverência é já uma ponte para o amor... Ele reclama para si seu inimigo como uma distinção, ele não suporta inimigo que não aquele no qual nada existe a desprezar, e muito a venerar! Em contrapartida, imaginemos “o inimigo” tal como concebe o homem do ressentimento – e precisamente nisso está seu feito, sua criação: ele concebeu o “inimigo mau”, “o mau”, e isto como conceito básico, a partir do qual também elabora, como imagem equivalente, um “bom” – ele mesmo!...103 Também, segundo Nietzsche, uma das maiores construções morais contra os fortes seria a religião, na qual, tudo aquilo que é contra as atitudes dos fortes, é elevada às alturas como sendo o agir correto. Evidentemente que nosso intuito não é traçar um paralelo entre o pensamento de Schopenhauer e Nietzsche e muito menos apresentar o pensamento do segundo como crítica à moral kantiana, mas impossível não tocar no nome de Nietzsche, quando, nesse ponto da crítica à moral kantiana, nos lembramos que Schopenhauer afirma ser a teologia, o grande pano de fundo da moral kantiana que, oculta pela própria vontade de Kant, seria a única capaz de dar sustentação a seu pensamento de uma moral apenas formal. Assim essa máxima da moral kantiana não apenas é totalmente ineficaz, pois jamais ela estaria realmente fundada, por ter em si o querer do homem, em uma intenção genuinamente desinteressada capaz de suprimir o egoísmo, pelo contrário, ela é puro egoísmo disfarçado. Schopenhauer ainda afirmará mais, pois, para ele, o egoísmo é um gigante dentro do homem. Ele vem primeiro em todas as ações humanas, sendo assim, como se poderia diferenciar, em uma suposta lei a ser seguida onde um dos princípios de Kant seria: Age somente segundo a máxima que possas ao mesmo tempo querer que valha universalmente para todo ser racional “104. uma atitude genuinamente moral de uma atitude egoísta caso essa referida lei realmente existisse? Para 103 104 Nietzsche F. Genealogia da moral, trad. Paulo césar de Souza, companhia Das Letras, são Paulo: 1999. P. 31 Kant I. Fundamentação da metafísica dos costumes, trad. Paulo Quintela, Edições, Lisboa Portugal: 2008 p.71 56 Schopenhauer, como fica bem claro em todo texto, tais pensamentos de Kant são absurdos profundos demais para sequer serem levados a sério. Mas a crítica continua, e, dessa vez, ela alcançará as outras formas derivadas do princípio máximo da ética kantiana Nessa parte da crítica, Schopenhauer apresentará aquele que seria o princípio da moral kantiana: “Age de tal maneira que uses a humanidade, tanto na tua pessoa como na pessoa de qualquer outro, sempre e simultaneamente como fim e nunca simplesmente como meio”105. Em primeiro lugar Schopenhauer dirá que a afirmação de Kant “O homem e, duma maneira geral, todo o ser racional, existe como fim em si mesmo, não só como meio para uso arbitrário desta ou daquela vontade” 106. é uma grande contradição: Mas preciso dizer diretamente que ‘existir como fim em si mesmo’ é um nãopensamento, uma ‘contradictio in adjecto’. Ser fim significa: ser querido. Todo fim só o é em relação a uma vontade, cujo fim é, como já foi dito, o seu motivo direto. Só nesta relação é que o conceito de fim tem um sentido e o perde logo que este lhe é tirado. Esta relação que lhe é essencial excluiu porém necessariamente todo o ‘em-si’. ‘Fim-em-si’ é a mesma coisa que ‘amigo em si – inimigo em si – inimigo em si – norte e leste em si – acima ou abaixo em si’ etc. no fundo, porém, passa-se com o ‘fim-em-si’ o mesmo que com o ‘deve absoluto.107 Mais uma vez, Schopenhauer afirmará com convicção que o que de fato existe por detrás dessas afirmações é a teologia. Apesar de essa parte da crítica ser extremamente complexa, entendemos que Schopenhauer quer dizer que o homem apenas poderia ser um fim em “si mesmo” se existisse uma vontade que assim o quisesse, e, no caso apresentado, essa vontade apenas poderia ser a vontade de um Deus. Assim como o imperativo categórico, o fim em si mesmo nada mais é do que mais uma casca sem caroço, algo que por si só jamais poderia se sustentar. Schopenhauer ainda continuará dizendo a esse respeito: A coisa não se passa melhor com o ‘valor absoluto’ que deve pertencer ao suposto porém impensável ‘fim-em-si’. Tenho pois de rotulá-lo, sem misericórdia, como contradictio ‘in adjecto’. Todo valor é uma grandeza comparativa e, até mesmo, apresenta-se necessariamente em dupla relação: pois primeiro é relativo já que é para alguém, e, segundo, é comparativo pois 105 106 107 Kant I. Fundamentação da metafísica dos costumes, trad. Paulo Quintela, Edições, Lisboa Portugal: 2008 p.73 Kant I. Fundamentação da metafísica dos costumes, trad. Paulo Quintela, Edições, Lisboa Portugal: 2008 p.71 Kant I. Fundamentação da metafísica dos costumes, trad. Paulo Quintela, Edições, Lisboa Portugal: 2008 p.75 - 76 57 está em comparação com alguma outra coisa, de acordo com a qual é avaliado. Retirado destas duas relações, o conceito de valor perde todo o sentido e o significado.108 A crítica ficará ainda mais interessante depois que o homem não pode ter nenhum dever para qualquer ser que não seja simplesmente o homem Depois, Schopenhauer ainda nos transcreverá outra passagem de Kant que, em suas próprias palavras lhe causará uma enorme repulsa e desprezo, nas quais afirma que Kant diz que a compaixão para com os animais é meramente para exercitar-se. Schopenhauer comentará: Acho, junto com toda a Ásia não islamizada (ou seja, não judaicizada), tais frases revoltantes e abjetas. Mostra-se, ao mesmo tempo, como esta moral filosófica que é, como foi acima exposto, uma teologia travestida dependente totalmente da moral bíblica.109 Uma moral que vê apenas “os seres racionais” como merecedores de preocupação moral e os irracionais apenas como meios, é, para Schopenhauer, uma moral de párias. Nada a justificaria senão, como já dito, a teologia que desconhece a unidade dos seres através de sua essência única que é a vontade ou que coloca o homem como a “grande e principal criação” de um deus qualquer. Nesse momento, também aparece o próprio pensamento de Schopenhauer como sendo o crítico da moral kantiana. Schopenhauer dirá: Que vergonha desta moral de párias, ‘schandálas’ e ‘mletschas’, que desconhece a essência eterna que existe em tudo o que tem vida e reluz com inesgotável significação em todos os olhos que vêem à luz do dia.110 Uma moral que vê apenas “os seres racionais” como merecedores de preocupação moral e os irracionais apenas como um meio é para Schopenhauer uma moral de párias. Nada justificaria senão, como já dito, a teologia que desconhece a unidade dos seres através de sua essência única que é a vontade ou que coloca o homem como “a grande e principal criação” de um deus qualquer Nesse momento, mais uma vez de forma explícita aparece o pensamento de Schopenhauer como a motivação para sua crítica à moral kantiana: Mas apesar da crítica de Schopenhauer, essa segunda máxima derivada da moral kantiana, traz, a seu ver, uma importante visão sobre as 108 109 Kant I. Fundamentação da metafísica dos costumes, trad. Paulo Quintela, Edições, Lisboa Portugal: 2008 p.76 Schopenhauer, A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p.77 110 Schopenhauer, A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p.77 58 atitudes egoístas dos homens que usam outros homens como meios para atingirem seus intentos. Para Schopenhauer a cordialidade é uma invenção humana para esconder os intentos dos homens. Por causa do egoísmo humano, sempre um homem irá olhar para outro e imediatamente buscar nele um meio para satisfazer um desejo. Schopenhauer vai ainda mais longe: Por ocasião de cada novo conhecimento é, na maioria das vezes, nosso primeiro pensamento se essa pessoa poderia tornar-se-nos útil para algo; se ela não o pode, então é para muitos, logo que estes estiverem disto convencidos, propriamente nada111. Portanto, na linguagem de Kant, segundo as palavras de Schopenhauer uma linguagem errada, muitas pessoas usam outras como um meio não as respeitando como pessoas. Mas longe de ser esse linguajar de Kant apenas um equívoco, ele é algo pensado com um propósito que, como Schopenhauer já disse, é o propósito de trazer à filosofia a teologia. Ainda Schopenhauer criticará mais duas outras formas derivadas dessa máxima kantiana: Schopenhauer comentará: “De modo bem artificial e por um grande desvio, diz-se com isso: ‘não respeites apenas a ti mesmo, mas também aos outros”. 112 Mesmo, apesar de Kant ter dado de uma maneira errada um fundamento da ética nessa segunda forma derivada de sua máxima, Schopenhauer vê nesse “fundamento”, como acima foi dito, uma idéia que pode ser aproveitada para o seu próprio fundamento da ética: Quão perto ou longe está alguém de pensar em considerar alguém como fim, ao invés de costumeiramente como meio, resulta de medida da grande diferença entre os caracteres. O por que isto também acontece em última instância será por certo o verdadeiro fundamento da ética, para o qual apenas caminho nas próximas partes do texto.113 Assim, na afirmação de Kant de que o homem deve ser tratado como fim e não como meio, mesmo que apresentada de maneira errada fornece a Schopenhauer, assim como a conceituação de Kant de que o ato moral verdadeiro é destituído de qualquer interesse pessoal por parte de quem o pratica, o caminho para encontrar o seu fundamento da moral a ser tratado na segunda parte de seu trabalho. Interessante notar 111 Schopenhauer, A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p.78 - 79 112 Schopenhauer, A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p.80 113 Schopenhauer, A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p.80 59 que, mesmo criticando negativamente Kant, Schopenhauer continua se valendo, de determinada maneira, de seu pensamento para a construção, não só do seu fundamento moral, mas também, como veremos à frente, de todo o seu sistema filosófico. Estudando a crítica de Schopenhauer a Kant, temos a impressão de que nosso pensador não quer derrubar seu mestre, mas sim, corrigi-lo. Dentro do pensamento de Kant, apresentando por Schopenhauer como já bem vimos como confuso e, até mesmo, como uma tentativa de recolocar a moral teológica na filosofia, encontram-se as bases daquilo que Schopenhauer apresentará como seu fundamento moral. De certa maneira, Schopenhauer reconhece ainda mais esse fato com as seguintes palavras: Kant indicou, portanto, na sua segunda fórmula o egoísmo e seu oposto por um sinal extremamente característico, cujo efeito principal melhor destaquei e pus às claras por meio de uma explicação ao ter que, de resto, infelizmente, deixar que apenas pouco do fundamento e sua moral possa ser válido.114 Assim, reconhece o discípulo, não só o mérito do mestre, mas também sua influência que lhe dará, mesmo de maneira incompleta, a fonte para o seu próprio pensamento. Depois da análise dessa que seria a segunda forma derivada da máxima kantiana da moral, Schopenhauer irá apresentar sua crítica para outras duas que, ao que parece, apresentam-se para Schopenhauer de maneira ainda mais difícil de ser compreendida como também ainda mais confusa. A primeira delas que será avaliada por Schopenhauer é a seguinte: “A vontade de todo ser racional concebida como vontade legisladora universal”115 Segundo Schopenhauer, essa derivação, que ele chama de fórmula, apresenta para sua existência a autonomia da vontade, sem a qual ele não poderia existir. Assim, o imperativo categórico, possui uma diferenciação de todos os atos morais não desinteressados, pois nele, o querer por dever não possui nenhum objeto específico, nenhum motivo, como veremos a seguir, nada o impulsiona. Schopenhauer comentará outra passagem: “Por causa da idéia da legislação universal, ele não se funda em nenhum interesse” 116 A segunda passagem à qual Schopenhauer se refere acima é a seguinte: Pois quando pensamos uma tal vontade, se bem que uma vontade subordinada a leis possa estar ligada a estas leis por meio de um interesse, não é no entanto possível que a vontade, que é ela mesma legisladora 114 Schopenhauer, A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p.80 115 Kant I. Fundamentação da metafísica dos costumes, trad. Paulo Quintela, Edições, Lisboa Portuga: 2008 p.76 116 Kant I. Fundamentação da metafísica dos costumes, trad. Paulo Quintela, Edições, Lisboa Portugal: 2008 p.78 60 suprema, dependa, enquanto tal, de um interesse qualquer; pois que uma tal vontade dependente precisaria ainda de uma outra lei que limitasse o interesse do seu amor-próprio à condição de uma validade como lei universal.117 Schopenhauer iniciará sua crítica a essa fórmula moral de Kant, com as seguintes palavras que, para uma perfeita compreensão do que nosso pensador irá apresentar, em seguida, como sendo seu fundamento da moral e, conseqüentemente, o motivo primordial de sua crítica a Kant, devem ser lidas atentamente: Agora peço, porém, que se reflita sobre o que isto quer propriamente dizer: de fato, nada menos do que uma vontade sem motivo, portanto, um efeito sem causa. Interesse e motivo são conceitos intercabíveis: interesse não quer dizer ‘quod mea interest’? [qual é o meu motivo?] E isto não é tudo aquilo que estimula e move minha vontade?118 Aquilo que apresentamos na introdução desse trabalho, ainda que de forma exaustiva tenha aparecido até aqui, agora surge de uma maneira bem explícita: a moral kantiana com seu imperativo categórico é nada mais que uma “casca sem caroço”, sua formalidade, o respeito a uma lei, não pode ser aceita por schopenhauer de nenhuma maneira. Impossível imaginar, para Schopenhauer, uma vontade sem motivo, uma vontade que, no seu modo de ver, surge na moral kantiana simplesmente do nada e a nada se direciona. Vejamos o que ele diz a frente: “O que é conseqüentemente um interesse, a não ser a atuação de um motivo sobre a vontade? Onde, portanto um motivo move a vontade, aí ele tem um interesse”. 119 Já que no imperativo categórico existe uma vontade de agir por dever é claro que, para Schopenhauer como bem vimos acima, existe um interesse, pois sem ele, nenhuma vontade existe, e se existe um interesse não há ato moral genuíno no imperativo categórico como Kant propunha. Pode-se notar que diante dessa crítica, a “teologia de Kant”, para Schopenhauer, fica ainda mais evidente. Seguindo o raciocínio dele, encontram-se por detrás dessa fórmula, mais uma vez a teologia, como sendo aquilo que irá sustentar a moral kantiana que, em si mesma, é completamente vazia, uma simples ação por respeito a uma lei. Essa suposta autonomia da vontade, na verdade, seria apenas o receio ou a esperança da recompensa vinda de um ser criador, 117 118 Kant. I. Fundamentação da metafísica dos costumes, trad. Paulo Quintela, Edições, Lisboa Portugal 2008 p.78 Schopenhauer, A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p.81 119 Schopenhauer, A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p.81 61 no caso de Kant, pela análise de Schopenhauer, Deus. Essa afirmação de Kant parece ter deixado Schopenhauer bem incomodado, tanto que ele escreve sobre ela o que se segue: Para contradizer tal admissão monstruosa seria preciso apenas reconduzí-la ao seu sentido próprio, que estava oculto pelo jogo com a palavra interesse. Enquanto isso, festeja Kant o triunfo de sua autonomia da vontade na implantação de uma utopia moral, sob o nome de ‘reino dos fins’, que é habitada por puros seres racionais ‘in abstracto’ que, todos juntos, continuamente querem, sem querer qualquer coisa que seja (isto é, sem interesse); querem apenas uma coisa: que todos queiram sempre de acordo com uma máxima (quer dizer, autonomia). 120 Em sua obra capital, Schopenhauer também se expressa em relação ao vazio citado tanta vezes por ele nessa crítica: Porém o que aqui será mencionado encontra em grande parte o seu lugar em outro contexto, a saber, no apêndice desse livro em que se contesta a existência da chamada razão prática de Kant que ele (certamente por comodidade) expõe como fonte imediata de todas as virtudes e sede de um DEVER absoluto ( ou seja, caído do céu)121 Assim apresenta-se o mundo da moral kantiana para Schopenhauer: um mundo onde todos querem sem nada querer. Talvez a maior utopia já tentada por um filósofo. Um mundo que só a teologia pode dar algum sentido. Mas como dissemos acima, esse ponto da dissertação revela-nos algo ainda mais interessante: a própria filosofia de Schopenhauer como fonte para sua crítica a moral kantiana. Se antes ela apareceu de maneira menos evidente, aqui, ainda que não de forma explícita, o sistema da filosofia de Schopenhauer apresenta-se de maneira límpida e a vontade, que Schopenhauer apresenta como sendo o “em si” kantiano, é a responsável por isso. Assim, a crítica não se dá apenas com base nas contradições do pensamento kantiano, mas também, com base nas próprias convicções do sistema filosófico de Schopenhauer. Para Schopenhauer, longe de ser libertadora, a vontade é a grande aprisionadora do ser humano. Sempre ela será responsável pela escravidão sofrida pelo homem e também sempre estará voltada para um objeto que irá lhe satisfazer de alguma forma. Toda vontade possui algum motivo. O homem somente é livre quando, através da razão, negar a vontade. Vejamos o que Schopenhauer fala em sua obra prima sobre a vontade: “Salvação verdadeira redenção da vida e do sofrimento é impensável sem a completa negação da vontade? Até então cada um não passa dessa vontade 120 Schopenhauer, A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p.81 – 82 121 Schopenhauer, A.O mundo como vontade e como representação, trad. Jair Barboza, UNESP, 2005 São Paulo:p.139 62 cujo fenômeno é uma existência efêmera, um esforço sempre nulo e continuamente malogrado, o mundo tal qual exposto cheio de sofrimento, ao qual todos pertencem irrevogavelmente de maneira igual”122 Diante do parágrafo acima, podemos entender que jamais Schopenhauer poderia ver realmente algum fundamento na moral kantiana tendo um pensamento como o seu. Uma “vontade universal legisladora” não possui espaço algum no pensamento de Schopenhauer. Isso fica claro, quando ele afirma que tudo que move a vontade é um interesse. Mas voltemos à crítica a essa vontade universal legisladora de Kant que é responsável por dar ao homem aquilo que seria, dentro da moral kantiana, o maior de todos os valores do homem: a dignidade humana. Kant dirá, segundo Schopenhauer, que a dignidade humana é “um valor sublime e incomparável”. Em relação a isso Schopenhauer apresentará mais uma vez, em sua crítica, a “casca sem caroço” de Kant: Mas além desse pequeno e inocente reino dos fins, que se pode deixar em paz como inofensivo, Kant dirige sua autonomia da vontade a uma outra coisa de conseqüências mais graves, a saber, ao conceito de dignidade do homem. Esta repousa, aliás, apenas sobre a autonomia dele e consiste em que a lei que deve seguir lhe seja dada por si mesmo. 123 Schopenhauer, fará como fez das outras vezes que vimos, analisará esse conceito e, segundo suas palavras, encontrará mais uma contradição gritante em Kant. Para Schopenhauer, todo valor só existe em comparação a outra coisa, sendo assim totalmente relativo. A relatividade em relação a outra coisa é a essência desse mesmo valor e sem ela nada pode constituir-se como sendo valoroso. Assim, dentro do pensamento de Schopenhauer, como propor um valor absoluto, incomparável e incondicionado? Mais uma vez vemos na interpretação de Schopenhauer o total vazio da moral kantiana que em nada se apóia. É interessante percebermos que Schopenhauer encontra as contradições da moral kantiana com as expressões usadas por Kant para apresentá-la. Tudo aquilo que Kant diz em sua fundamentação da moral, a leva para um vazio, dentro do qual, não existe nenhuma sustentação. A total falta de ligação com qualquer objeto torna a moral kantiana sem sentido para Schopenhauer que dirá: Um valor absoluto incomparável, incondicionado, tal como deve ser a dignidade, é, por isso, como muitas coisas na filosofia, uma tarefa posta por 122 123 Schopenhauer, A.O mundo como vontade e como representação, trad. Jair Barboza, Unesp,2005 São Paulo:p.503 Schopenhauer, A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p.82 63 palavras para um pensamento que não se pode sequer pensar, tão pouco quanto se pode pensar o maior número ou o maior espaço.124 Assim, simplificando o pensamento de Schopenhauer em relação a esse ponto de sua crítica a Kant, podemos apresentar a seguinte pergunta que irá esclarecer ainda mais o pensamento exposto: a dignidade do homem é o maior de todos os valores em relação a quê? Essa pergunta não encontra resposta, para Schopenhauer, na moral kantiana, portanto, ela só pode levar o leitor ao vazio impensável tratando-se de filosofia. Schopenhauer dirá: Esta é uma explicação que, por seu sublime tom, impõe-se de tal modo que não deixa facilmente alguém, que está mais abaixo, aproximar-se para investigá-la mais de perto, descobrindo então que também ela é apenas uma hipérbole oca, em cujo interior aninha-se a ‘contradictio in adjecto’.125 Schopenhauer ainda irá criticar a forma com a qual Kant irá concluir sua apresentação. Assim colocaremos as palavras de Kant sobre o tema na íntegra para podermos melhor entender o final dessa crítica. Kant dirá: Ora, como uma razão pura, sem outros móbiles, venham eles donde vierem, posa por si mesma ser prática, isto é, como o simples princípio universal de todas as suas máximas como leis (que seria certamente a forma de uma razão pura prática), sem matéria alguma (objeto) da vontade em que de antemão pudesse tomar-se qualquer interesse, possa por si mesmo fornecer um móbil e produzir um interesse que pudesse chamar-se puramente moral; ou, por outras palavras: como uma razão pura possa ser prática – explicar isto, eis o de que toda razão humana é absolutamente incapaz; e todo esforço e todo trabalho que se empreguem para buscar a explicação disto serão perdidos.126 Talvez, essa passagem de Kant seja a prova final, para Schopenhauer, do absurdo moral kantiano. Aquilo que é afirmado por Kant de maneira tão vigorosa e que atraiu tantos intelectuais para a sua apreciação é explicado e afirmado, mas, no final, não pode de maneira nenhuma ser compreendido. Como entender então o imperativo categórico de Kant? Como entender e poder defender algo que em nada se apóia e cuja própria razão não pode alcançar de nenhuma maneira? Algo que existe em nossa mente de maneira inata, que move nossas ações e coordenando nossas vontades sem necessitar 124 Schopenhauer, A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo; 2001. p.83 125 Schopenhauer, A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p.82 - 83 126 Kant I. Fundamentação da metafísica dos costumes, trad. Paulo Quintela, Edições, Lisboa Portugal: 2008 p.118 64 de nenhuma experiência só pode existir em nós de uma maneira: foi colocada em nós por Deus. Assim, como vimos em toda essa crítica de Schopenhauer à moral kantiana, a teologia é a grande vilã que Kant tentou de todas as formas esconder em seu fundamento da moral. Com certeza, no pensamento de Schopenhauer, basta colocarmos um deus legislador por detrás do imperativo categórico e veremos a moral kantiana começar, como que, por encanto, a fazer sentido de um momento para o outro. Aquilo que a razão em nenhum momento pode encontrar, não está oculto por, de fato, ser algo misterioso ou inalcançável, mas fim, por não ter em sua explicação aquilo que lhe é essencial: a vontade de um Deus. Schopenhauer se expressa bem em relação a isso em suas palavras abaixo: Seria então para se pensar que, se algo cuja existência é afirmada não pode ao menos ser compreendido de acordo com sua possibilidade, teria de ser faticamente provado em sua realidade: só que o imperativo categórico da razão prática não é estabelecido expressamente como um fato de consciência ou, de resto, fundado na experiência. Ao contrário fomos suficientemente advertidos que não é para buscá-lo em tais caminhos antropológicos e empíricos.127 Schopenhauer não poupa ironias: “Quando se resume tudo isso, pode-se realmente suspeitar que Kant zomba de seu leitor”128. Ainda que fosse possível acreditar que Kant não estivesse escondendo nenhum Deus por detrás de seu pensamento, tal afirmação continuaria sem nenhum sentido, permanecendo uma mera crença sem nenhum fundamento aceitável: Temos portanto de permanecer na convicção de que aquilo que nem é compreendido como sendo possível nem provado como sendo real não tem qualquer confirmação de sua existência. Se porém, apenas tentamos apreendê-lo meramente com a fantasia, representando-nos assim um homem em cuja mente falasse um puro imperativo categórico, um deve absoluto, como se possuído por um demônio que conseguisse dirigir suas ações contra as tendências e os desejos, não avistaríamos, então, com isso, uma imagem verdadeira da natureza humana ou dos processos de nosso íntimo, mas antes 127 Schopenhauer, A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p.84 128 Schopenhauer, A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo 2001. p.85 65 reconheceríamos um substituto artificial da moral teológica, à qual ela se relacionaria como uma perna de pau a uma de verdade.129 Nas palavras de Schopenhauer, vemos sem nenhuma dúvida o que acima foi dito: sem a teologia a moral kantiana não faz nenhum sentido e, mesmo com ela, é apenas uma “perna de pau” que nenhum mérito alcança quando o objetivo é fundamentar a moral que ele mesmo conceituou tão bem. Com essa idéia acima, concluímos que enquanto a moral de Kant só é realmente genuína por afastar-se do mundo objetivo, a moral de Schopenhauer, por sua vez, será somente genuína por nele apoiar-se. A vontade que é o “em si” para Schopenhauer, não é capaz de, em nenhum momento, estabelecer um padrão moral, dela, somente o egoísmo pode existir. Findando sua crítica à moral kantiana ele concluirá: Nosso resultado é pois que a ética kantiana, tanto quanto todas as anteriores, dispensa todo fundamento seguro. Ela é, no fundo, como mostrei pela prova estabelecida logo no início da sua forma imperativa, apenas uma inversão da moral teológica e um disfarce dela em formas bem abstratas e aparentemente encontradas ‘a priori’.130 Podemos agora apresentar aquilo que Schopenhauer concluiu em sua crítica à moral de Kant. Primeiramente digamos, que por detrás de todos os seus conceitos, existe a teologia, sem a qual, ela não faz o mínimo sentido. Kant teria tido essa intenção ao formular sua moral. Sem a teologia a moral kantiana nada significa, e, a cada tentativa de tornar esses conceitos aceitáveis, maior é a contradição. Em segundo lugar, podemos ainda dizer que, as tentativas de Kant em tornar sua moral aceitável, fizeram com que ela entrasse em contradição com o próprio conceito de genuíno ato moral apresentado por Kant no qual o verdadeiro ato moral é aquele praticado sem nenhum interesse. Esse seria o caso apresentado, como já visto, por Schopenhauer em relação ao Soberano Bem. Interesse e teologia totalmente ligados, em uma dupla contradição oculta por um apriorismo sem nenhum sentido. Ainda, não podemos deixar de citar que, segundo essa crítica, Kant teria deixado de lado a importância da experiência na fundamentação da sua moral, atitude 129 Schopenhauer, A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p.89 130 Schopenhauer, A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p.85 66 extremamente contraditória com sua própria filosofia que afirma a necessidade da experiência para a obtenção de conhecimento. Também temos de destacar a afirmação de Schopenhauer de que a moral kantina, com exceção de seu perfeito conceito, apresenta uma fundamentação nociva que precisava ser de toda forma corrigida em nome da verdade. Mas a crítica à moral kantiana ainda possui seus mistérios. É preciso entendê-la como peça fundamental para a compreensão da fundamentação moral do próprio Schopenhauer. Isso será apresentado no próximo capítulo. Mas antes dele iniciar-se, gostaríamos de colocar a últimas palavras de Schopenhauer sobre a moral kantiana e, também, sobre seu próprio autor. Com uma ironia interessante, elas nos dão a entender que ele não apenas quer mostrar os erros de Kant, mas também os erros da própria teologia que, além de ser totalmente estranha à filosofia depois da obra do próprio Kant, não passa de crença sem nenhum sentido, movida apenas pela ignorância do homem em seus desejos mais secretos e inconfessáveis: Se me fosse permitida, no final desta árida investigação, cansativa até para o leitor, uma frívola e brincalhona analogia para alegrar, compararia Kant, naquela automistificação, com um homem que, num baile de máscara, corteja toda a noite uma beldade mascarada, na ilusão de ter feito uma conquista. Até que, no final, ela tira a máscara e se dá a conhecer como sua mulher.131 131 Schopenhauer, A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p.86 67 2. Da compaixão como único e verdadeiro fundamento da moral No primeiro capítulo vimos que Schopenhauer rejeita o fundamento da moral apresentado por Kant, assim como também rejeita o fundamento da moral com bases teológicas ou Eudemonistas. Sendo assim, qual seria o verdadeiro fundamento da moral? Onde deveríamos buscá-lo? O fundamento da moral para Schopenhauer é apenas um: a compaixão. E, respondendo à segunda questão, a busca do verdadeiro fundamento da moral deve ser feita em apenas um lugar: na experiência, ou seja, na observação da vida, dos seres humanos e de suas atitudes. Elas revelam a existência da compaixão e também a mostram como único fundamento da moral, é ela que de forma exclusiva e desinteressada é capaz de deter os fortes impulsos do egoísmo humano e dar aos homens a repreensão da consciência. Apenas ela é capaz de ser encontrada em qualquer homem, desde o mais tosco até o mais intelectual, exigindo sempre pouca ou nenhuma reflexão, e impondo-se imediatamente frente à realidade dos fatos.132 Perceberemos ao estudarmos o fundamento da moral de Schopenhauer o quanto ele se afasta em seus fundamentos e definições da moral kantiana. A compaixão não se funda em um dever, ela é algo espontâneo e inato em todo o homem em qualquer parte do planeta. Também podemos dizer que a compaixão encontra-se afastada, no extremo oposto do “em-si”, diferentemente da fundamentação moral kantiana; que esse mesmo fundamento não é um valor em si mesmo, mas sim, um valor em relação ao sofrimento do homem e que ele só pode existir se for precedido pela experiência que mostra esse mesmo sofrimento e faz com que o homem o compreenda. Também a compaixão, diferentemente do imperativo categórico de Kant, estende-se aos irracionais, ou seja, aos animais. Com esses apontamentos em relação às diferenças existentes entre o fundamento da moral de Kant e o fundamento da moral de Schopenhauer, nota-se a importância que a crítica à moral kantiana possui para poder-se entender a moral da compaixão defendida por Schopenhauer. Inicialmente, Schopenhauer irá apontar a dificuldade de encontrar a genuína motivação para o fundamento da moral apenas de maneira empírica. Em seu modo de pensar, ainda que existam atos aparentemente morais de maneira genuína que são 132 Schopenhauer A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p.108 68 aqueles que não possuem nenhum tipo de interesse, seria realmente muito difícil haver certeza de que esses atos seriam realmente desinteressados, pois, mesmo que aparentemente verdadeiros, os mesmos podem ocultar interesses pessoais que se utilizam de outras pessoas para atingir um intento puramente egoísta. Para Schopenhauer, o homem, em seu egoísmo, que é a grande motivação antimoral, pode muito bem se valer de uma aparência de generosidade, amor, justiça ou benevolência, para atingir seus intentos, conseguir realizar seus desejos ou até mesmo de forma previdente, tentando evitar um mal futuro. Nesses casos, as pessoas, frente ao egoísmo seriam apenas um meio de se atingir um fim, que nada possui de desinteressado. Assim, no pensamento de Schopenhauer, apenas a aparência de bondade ou justiça não prova definitivamente a existência do verdadeiro fundamento da moral. Com base apenas nessa aparência não é possível afirmar que a compaixão realmente esteja por detrás dela. Nós, por mais que avaliemos bem as atitudes humanas, não podemos ter acesso ao que realmente as impulsionou, à intenção que moveu o homem nesse ato aparentemente moral. Mas ainda que nesse mundo o egoísmo seja a regra que move a esmagadora maioria das ações humanas, ainda que a maldade, o simples prazer de fazer o mal a alguém e vê-lo sofrer sem nada ganhar, também exista em grande número de pessoas, ainda que a guerra de todos contra todos seja uma constante e a paz pareça ser apenas um sonho do qual a desesperança é a senhora, Schopenhauer afirmará sem vacilar em nenhum momento que pessoas verdadeiramente boas, ou seja, compassivas, ainda que em número reduzido, realmente existem. Existem pessoas que “Fazem e renunciam sem ter outro intuito em seu coração que o de ajudar a outrem cuja necessidade eles vêem”133. Schopenhauer ainda afirmará que se a possível inexistência de atos realmente desinteressados, ou seja, de atos genuinamente morais for um fato, continuar a estudar a moral nada mais é do que um absurdo. Para nosso pensador, seguindo a conceituação moral apresentada por Kant, os atos desinteressados são o pressuposto para a própria existência de uma preocupação com a moral. Não há que se falar em moral se não se acreditar que realmente existam tais atos. Mas se alguém persiste em negar a ocorrência de tais ações, então a moral segundo esse alguém seria uma ciência sem objeto real, igual à astrologia e à alquimia, e seria tempo perdido discutir mais sobre seu fundamento. Eu 133 Schopenhauer A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. .p.130 69 pararia de falar com ele e continuaria falando com aqueles que admitem a realidade do fato134 Assim, esse ato moral totalmente desinteressado é o único capaz de fundamentar a moral. Nele não existe o interesse pessoal e o único interesse existente é o de ajudar o semelhante sem nada ganhar em troca, o que move a ação é o desejo de ver o bem do outro tão somente. “A ausência de toda motivação egoísta é, portanto, o critério de uma ação dotada de valor moral”. 135 Esse desinteresse não está apenas ligado a qualquer vantagem, mas, também, ao que Schopenhauer irá chamar de “aplauso da consciência”. Algumas pessoas podem fazer o bem sem esperar dinheiro, posição ou reconhecimento com essa atitude, mas, muitas vezes, o que ela realmente quer é sentir-se bem consigo mesma, coloca-se através de sua consciência acima do outros, reconhecer-se melhor do que aqueles que não praticam tal atitude. Nesse caso existe um gozo íntimo e não observável, e os atos morais também estão viciados, pois, ainda que não exista algo a ser ganho no sentido material ou social, existe o interesse de um contentamento interno que move a ação. Tal ato não poderia ser genuinamente moral, pois, mesmo que de uma forma subjetiva que só traz vantagens diante dos olhos daquele que pratica tal ato, o interesse existe e o mesmo não pode ter participação em uma moral genuína. Essas explicações dadas por Schopenhauer como bem podemos observar estão alicerçadas sobre a concepção moral de Kant no qual o único ato moral genuíno é aquele que não possui nenhuma forma de interesse pessoal. O que Schopenhauer faz nada mais é do que tentar ajustar todas as atitudes humanas dentro desse conceito e assim filtrá-las, para, não só encontrar a atitude genuinamente moral, mas também de tentar descobrir qual a motivação dessas atitudes. Como dissemos, Schopenhauer afirma que buscar o fundamento da moral apenas na experiência é difícil, pois mesmo uma atitude aparentemente desinteressada, pode existir um interesse pessoal, mas mesmo assim, será avaliando as atitudes humanas de maneira minuciosa e descobrindo nelas a compaixão como fonte inequívoca da ação, que o nosso pensador irá encontrá-la como o seu fundamento da moral. Temos então de considerar as ações assim estabelecidas e fatidicamente dadas às quais se atribui valor moral como sendo fenômeno que estão diante de nós para serem explicados e, de acordo com isso, para investigarmos o que 134 Schopenhauer A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p.130 135 Schopenhauer A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. .p.131 70 é que pode mover os homens a ações deste tipo. Tal investigação, se der bom resultado, tem de trazer necessariamente para a luz do dia a genuína motivação moral por meio da qual o nosso problema seria resolvido já que toda a ética tem de repousar sobre ela.136 Depois de fazer essas observações Schopenhauer irá apresentar em seu ensaio aquela que seria a única motivação verdadeira para o fundamento da moral. Toda a moral deve nela se basear e fora dela não seria possível encontrar nada que realmente pudesse ser considerado como destituído de interesse pessoal. Para Schopenhauer, a única motivação verdadeiramente moral que é capaz de ser o fundamento da moral, é a compaixão. Como Schopenhauer bem diz em seu texto, ele não quer apenas sugerir a compaixão como motivação da moral ou construir um sistema moral, esses não são os intuitos de nosso pensador, mas sim, demonstrar que ela é a única motivação que pode fazer nascer no homem uma ação desinteressada e boa, através dos fatos, que como vimos serão avaliados minuciosamente, para provar a sua existência. Schopenhauer, mais uma vez, diz ser a compaixão uma realidade irrecusável diferentemente do imperativo categórico. Para encontrar essa prova da compaixão como única motivação genuína do ato moral, do fundamento da moral, Schopenhauer apresentará como necessárias algumas premissas sobre as ações humanas que, para ele, são indispensáveis para a compreensão do seu pensamento. E através delas, analisando várias atitudes humanas através de exemplos históricos ou próximos de nossas vidas em nosso dia a dia, chegará ao que ele considera a prova da existência da compaixão. Depois disso ele apresentará o que considera as duas virtudes fundamentais que derivam da compaixão e criam toda a estrutura moral do mundo. Mas antes de apresentar o seu fundamento da moral, Schopenhauer dedicará algumas páginas da segunda parte da sua dissertação na demonstração de que a visão cética sobre a moral, ou seja, a idéia de que não existem atos desinteressados por parte de quem quer que seja é equivocada. Importante apresentar suas considerações a respeito desse tema mesmo que sucintamente, pois as mesmas serão de extrema importância para a compreensão daquilo que, como fonte da atitude moral genuína Schopenhauer chamará de grande mistério, não poderia ser visto de forma diferente 136 Schopenhauer A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. P. 131 71 para Schopenhauer, algo que vai contra o egoísmo do homem levando-o a prática de boas atitudes. Se como veremos, a verdadeira essência do homem é a vontade cega sempre insatisfeita, o egoísmo é a regra da qual ninguém é capaz de escapar em um primeiro momento Dessa forma, a compaixão será algo que merecerá uma explicação que ultrapasse a nossa experiência, e nesse momento Schopenhauer irá recorrer à metafísica para tentar encontrar a explicação desse grande mistério que mesmo sendo improvável acontece frequentemente e do qual não podemos duvidar, apesar de a dúvida nos fornecer a desconfiança necessária para encontrarmos o verdadeiro fundamento da moral e não nos deixarmos levar pela primeira atitude aparentemente moral que na realidade não é desinteressada possuindo algo egoísta a ser atingido por parte de quem pratica tais atos, vejamos assim a crítica e analise da visão cética sobre a moral de Schopenhauer. 72 2.1 A visão cética sobre a moral De maneira geral, no pensamento de Schopenhauer, a visão cética sobre a moral defende que toda a moralidade nada mais é do que uma tentativa de se “domesticar” o homem. Diante do egoísmo das pessoas, seria preciso criar normas de conduta para que todo o mundo não terminasse em ruínas na luta entre os homens por seus interesses pessoais. Dessa forma, a moral não possuiria nenhum fundamento natural, nada inerente ao homem lhe mostraria o correto a fazer frente às mais diversas situações que diante dele apresentar-se-iam exigindo uma atitude moral. Organizar a sociedade deixando-a em paz, seria objetivo dessa moral que os céticos afirmam ser pura criação do homem. O poder do Estado em um primeiro momento cria leis referentes à sua organização e com elas tenta combater através de preceitos que são seus de forma exclusiva, as tendências egoístas e malvadas do homem. Mas o poder estatal não poderia alcançar todo e qualquer ato, existiriam transgressões que além de difícil descoberta seriam também difíceis de serem punidas de alguma forma. Dessa maneira a moral teológica e a moral dos “bons costumes” seriam a complementação das regras estatais estabelecidas para a tranquila existência do Estado; complementação que iria até onde o poder do Estado não pode chegar, tanto porque a lei pode no máximo coagir à justiça, a observância de suas regras, mas nunca um padrão moral que delas escapasse. Para Schopenhauer, essa complementação caracteriza a moral dos céticos, que ele não esclarece quem são mencionando apenas os Pirrônicos sem dar maiores explicações a respeito do tema e sobre esses pensadores. Apesar de não concordar com tal posicionamento, Schopenhauer o respeita e pretende criticá-lo com cautela, não apenas por ver nele alguma procedência, mas também por reconhecer nele como será estudado, grande responsabilidade pela paz que, mesmo sendo pequena, existiria no mundo. Eis algumas palavras de Schopenhauer sobre a opinião dos céticos: Também, em época mais recente, pensadores notáveis foram partidários dessa opinião. Ela precisa, pois de um exame cuidadoso, apesar de ser bem mais confortável pô-la de lado com um olhar de soslaio inquisitorial, dirigido para a consciência daquele em que tal pensamento pode surgir.137 Assim mesmo não concordando com o pensamento cético, schopenhauer o respeita, pois, como visto acima, nem tudo aquilo que parece ser genuinamente moral o 137 Schopenhauer A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p.109 73 é. O ceticismo aparece para ele como uma espécie de guia, que, em um primeiro momento, tira a ilusão do homem sobre a bondade humana: “Encontrar-nos-íamos num grande e juvenil erro se acreditássemos que todas as ações justas e legais do ser humano fossem de origem moral”138. Assim essa dúvida inicial é importante, pois tira nossas ilusões a respeito do homem e nos conduz ao conhecimento da verdadeira moralidade que apesar de ser difícil de identificar existe sem nenhuma dúvida,a investigação minuciosa das atitudes humanas exigiria essa dúvida ainda mais para um pensador que vê o egoísmo e a maldade como regras das atitudes humanas.Já salientamos que para Schopenhauer existem atos que se revestem de uma aparência moral genuína, mas que na realidade não passam de puro interesse e tais atos são a maioria. Sobre isso ele comenta: Na verdade, a legalidade geral exercida no trato humano e afirmada em máximas firmes como rochas repousa principalmente sobre dois tipos de necessidade externa: em primeiro lugar, sobre a ordem legal, por meio da qual o poder público protege o direito de cada um e, em segundo lugar, sobre a conhecida necessidade do bom nome e da honestidade civil para a subsistência no mundo, por meio da qual os passos de cada um ficam sob a fiscalização da opinião pública, que, inexoravelmente severa, não perdoa nunca nenhum passo em falso neste ponto e guarda rancor do culpado até a morte, como uma mácula insolúvel.139 Nessa explicação Schopenhauer deixa claro o que ele considera de maneira geral a maioria dos atos humanos que, num primeiro momento pareceriam genuínos, como atos egoístas, atos que visam apenas a necessidade dos homens em relação à sobrevivência entre os demais. Na maioria das vezes o egoísmo é a fonte de um ato aparentemente moral. O próprio Estado e os costumes nada mais são do que uma espécie de controle sobre o egoísmo humano, controle esse surgido, não pela bondade, mas sim pelo interesse pessoal, do egoísmo que pretende através deles se defender. Mas mesmo sendo eles apenas uma espécie de controle, o pouco que temos de paz deve-se quase que exclusivamente a eles: “Estes são, portanto, os guardiões da legalidade pública, e quem vive com os olhos bem abertos concordará que, de longe, deve-se agradecer só a eles a maior parte da integridade nas relações humanas” 138 140 Dessa forma Schopenhauer A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p.109 139 Schopenhauer A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. .p.110 140 Schopenhauer A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p. 113 74 esses atos aparentemente morais não são nada mais que egoísmo, primeiramente aqueles que os praticam se resguardam da lei e depois da opinião pública tão severa ou ainda mais severa do que a própria lei Vemos assim que Schopenhauer concorda quase que integralmente com a posição cética sobre a moral. Vejamos o que ele mesmo diz sobre o Estado: O Estado, esta obra-prima do egoísmo racional óbvio, do egoísmo de todos somado, deu, para a proteção do direito de todos, uma força que ultrapassa infinitamente a potência de cada um e que o força a respeitar o direito de todos os outros. Por isso, o egoísmo ilimitado de quase todos, a maldade de muitos e a crueldade de alguns não podem sobressair; a coerção subjugou a todos141 Tal posicionamento de Schopenhauer é comentado por José Thomaz Brum: O Estado, segundo a filosofia de Schopenhauer, criou a ‘legislação’ para proteger a vítima da injustiça’. O Estado não é ‘um meio de nos elevar à moralidade’; ele nasceu do egoísmo metódico, de um egoísmo que visa ‘as conseqüências funestas do egoísmo’. A imagem que Schopenhauer utiliza é a da ‘focinheira’. O Estado vigia para que o animal feroz (o homem) não ultrapasse os limites de um egoísmo restrito à autoconservação.142 É preciso olhar para o Estado e ver o que, na realidade, acontece por detrás dele. Brum comenta acima a seguinte passagem de Schopenhauer: “É preciso ver os milhares que se acotovelam uns aos outros num transitar pacífico, diante de nossos olhos, como se fossem tigres e lobos cujas mandíbulas estivessem seguras por forte focinheira”. 143 Dessa forma o Estado nada mais é do que a soma dos egoísmos racionalizados, a razão como instrumento da vontade cega, trabalha a seu favor criando o Estado como prevenção para as injustiças, o que se quer através dele não é punir, mas sim evitar que o mal aconteça, se ele deixasse de existir o que veríamos seria a terrível imagem do homem entregue ao seu próprio egoísmo e, não conhecendo nenhum limite, praticando todo tipo de injustiça ou maldade. Vivendo a ilusão do Véu de Maia, a ilusão da individuação dos seres, o homem afirmaria sua vontade individual em relação aos demais e o caos reinaria indestrutível. Como bem afirma Renato César Cardoso: “Ecos hobbesianos surgem então por todos os lados. Homo homini lupus. A vontade é loba da 141 Schopenhauer A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p.118 142 Brum Thomaz José, O pessimismo e suas vontades, Rocco, Rio de Janeiro 1998. p. 44 143 Schopenhauer A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p.118 75 vontade...A guerra de todos contra todos é a regra”144. Esse é o posicionamento claro também de Hobbes que antecede Schopenhauer. Em seu livro Do cidadão Hobbes afirma: Tendo assim estabelecido os alicerces para o assunto ao qual me propus, demonstro primeiramente que o estado dos homens sem a sociedade civil (ao qual podemos corretamente chamar de Estado de Natureza), nada mais é que uma guerra de todos contra todos, e nesta guerra, todos os homens tem direitos iguais sobre todas as coisas; e em sequência, que todos os homens assim entendem esta condição odiosa (até porque a natureza os compele a isto) desejam livrar-se desta miséria145. A, em seu livro posterior O leviatã, Hobbes continuará afirmando a mesma idéia dizendo: “O FIM ÚLTIMO, causa final e desígnios dos homens (que amam naturalmente a liberdade e o domínio sobre os outros), ao introduzir aquela restrição sobre si mesmos sob a qual os vemos viver no Estado”. 146. Dessa forma a visão de que no chamado Estado de Natureza o homem é bom a paz existiria por completo é um grande equívoco não só para Hobbes, mas como também para Schopenhauer. Assim Schopenhauer apresenta como principal motivação antimoral o egoísmo: “A motivação principal e fundamental, tanto no homem como no animal, é o egoísmo, quer dizer, o ímpeto para a existência e o bem estar”147. Ele esclarece sendo mais explicativo: O egoísmo, de acordo com sua natureza, é sem limites: o homem quer conservar a sua existência incondicionalmente , a quer incondicionalmente livre da dor à qual também pertence toda a penúria e privação, quer a maior soma possível de bem-estar, quer todo gozo de que é capaz e procura, ainda, desenvolver em si, outras aptidões de gozo. Tudo o que se opõe ao esforço de seu egoísmo excita sua má vontade, ira e ódio; procurará aniquilá-lo como inimigo148 Mas também existem outras motivações antimorais que Schopenhauer cita, entre elas está a alegria maligna. Na alegria maligna a maldade é o desejo principal, ver a desgraça e o sofrimento do outro é o objetivo, isto é, nesse tipo de atitude o fim a ser 144 Cardoso César Renato, A idéia de justiça em Schopenhauer, Argumentum, Belo Horizonte, 2008: p. 137 – 138. Hobbes T.Do cidadão, Martins fontes, São Paulo:2002 p. 41 146 Hobbes T. Leviatã, In :” OS PENSADORES”trad. João Paulo Monteiro e Maria Beatriz Nizza da Silva, Nova Cultural, São Paulo: 1997 p. 147 Schopenhauer A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p.120 148 Schopenhauer A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p.121 145 76 alcançado é o próprio sofrimento de quem sofre a ação, diferentemente de quem, por exemplo, mata para roubar que tem como fim de sua atitude o roubo. O egoísmo pode levar a todas as formas de crimes e delitos, mas os prejuízos e as dores causadas a outrem são para si um mero meio e não um fim, aí entrando de modo apenas acidental. Em contrapartida, para a maldade e a crueldade o sofrimento e a dor de outrem são fins em si; alcançá-los é o que dá prazer149 Importante ressaltar que em Schopenhauer egoísmo e maldade não se confundem. No egoísmo a maldade praticada é apenas um meio para se atingir algum fim, já na maldade o “fazer o outro sofrer” é o próprio fim a ser buscado. Mas apesar de tudo o que foi dito Schopenhauer acredita que exista, de fato, uma ação moralmente genuína. Percebemos que o pensador acredita ser de extrema importância o pensamento cético sobre a moral, pelo menos no campo da prática, e mesmo, naqueles que possuem suas atitudes morais pautadas por essa visão, como em todo ser humano, pode-se encontrar aquilo que ele irá caracterizar como uma atitude moral genuína. Atitude que poderia passar despercebida pela própria pessoa que a põe em prática. O limite que definiria uma ação moral genuína de uma que existe apenas como contenção da violência ou manutenção da paz social seria extremamente tênue, e somente um exame profundo das ações humanas poderia nos revelar qual ação é apenas uma convenção social e qual é um ato moral genuíno: “Mas também é certo que há ações feitas por caridade desinteressada e por justiça espontânea. Referindo-me apenas à experiência e não aos fatos da consciência, são provas dessas últimas ações os casos isolados, mas indubitáveis em que, não havendo nem o perigo da perseguição legal nem também da descoberta e de qualquer suspeita, foi, não obstante, dado pelo pobre ao rico o que lhe pertencia”.150 Eis acima uma das maneiras de se identificar o ato genuinamente moral, quando não há nenhum obstáculo para a injustiça e a mesma não é praticada, como, por exemplo, o homem pobre que encontra uma maleta cheia de dinheiro e sabendo que mesmo que fique com ela jamais será apanhado ou descoberto, necessitando dessa soma, a devolve para seu dono, deixando a injustiça de lado. Sendo assim, Schopenhauer dirá: 149 Schopenhauer A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p.126 150 Schopenhauer A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p.114 77 O conjunto desses escrúpulos céticos não é por certo suficiente para negar a existência de toda moralidade genuína, mas o é para moderar nossa expectativa sobre a disposição moral do ser humano e, assim, sobre o fundamento natural da ética, pois muito daquilo que lhe é atribuído resulta de outros motivos, e a observação sobre a corrupção moral do mundo prova, à suficiência, que a motivação para o bem não pode ser tão poderosa, sobretudo porque ela muitas vezes não se efetiva onde os motivos opostos não são fortes, muito embora a diferença individual entre os caracteres afirme aqui sua plena validade.151 Para nosso pensador, a moralidade pode existir sempre, mesmo se o Estado desaparecesse e o homem ficasse entregue ao seu egoísmo e ainda que a maioria ou quase todos os homens a ele se entregassem agindo de acordo com suas ordens, existiriam aqueles que não se deixariam levar por ele e manteriam a justiça e a caridade pautando suas ações. Agora, analisados e vencidos os argumentos céticos contra a moral, Schopenhauer iniciará sua investigação que visa encontrar o único e verdadeiro fundamento da moral. Analisando as atitudes humanas de maneira pormenorizada: esse será o seu caminhado que percorreremos no próximo item: Proponho, em contrapartida, como finalidade para a ética, a de esclarecer, explicar e reconduzir á sua razão última os modos muito diferentes de agir dos homens no aspecto moral. Por isso, resta apenas para a descoberta do fundamento da ética o caminho empírico, a saber, o de investigar se há em geral ações às quais temos de atribuir autêntico valor moral – que seriam as ações de justiça espontânea, pura caridade e generosidade afetiva. Estas devem ser pois consideradas como um fenômeno dado que temos de explicar corretamente, ou seja, reconduzir às verdadeiras razões, tendo para isso indicado, em cada caso, o impulso próprio que move o homem a ações desse tipo, especificamente diferentes de todas as outras. Esta motivação, junto com a receptividade para ela, será a razão última da moralidade, e o seu conhecimento, o fundamento da moral. Este é o caminho modesto que indico para a ética.152 151 Schopenhauer A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p.117 152 Schopenhauer A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p.119 78 2.2 Provando a existência da compaixão e demonstrando-a como único e verdadeiro fundamento da moral Depois de estudar a visão cética, contestá-la e afirmar que a ação moral é apenas aquela praticada sem nenhum tipo de interesse pessoal, sem egoísmo, Schopenhauer apresentará aquele que é o seu fundamento da moral: a compaixão. Inicialmente ele apresentará algumas premissas essenciais, sem as quais seria impossível153 compreender seu pensamento. Eis uma dessas premissas: toda ação deve acontecer por um motivo.154 As nove premissas são apresentadas por Schopenhauer para entendermos o caminho que ele percorrerá para chegar até a compaixão como o fundamento da moral. Nas duas últimas premissas, Schopenhauer diz que o egoísmo e o verdadeiro valor moral não podem coexistir excluindo-se um ao outro, e que todo ato moral só pode existir em relação à outra pessoa, portanto, deveres com relação a nós mesmos jamais poderão existir como pretendia Kant. Depois de afirmar que egoísmo e moral genuína não podem coexistir, Schopenhauer diz que apenas os atos que são voltados para o bem estar de outro é que realmente podem ser avaliados como sendo morais ou não. Diante dessas premissas, entendemos de forma definitiva o motivo pelo qual Schopenhauer tanto criticou a fundamentação da moral kantiana. Nada poderia ser mais distante das explicações dadas por Schopenhauer às atitudes humanas, do que as fórmulas apriorísticas da moral kantiana que segundo ele nada podem sustentar e que, muito menos, podem ser encontradas no homem. 153 Tais premissas são colocadas aqui na integra para melhor compreensão do raciocínio do autor: 1°. Nenhuma ação pode acontecer sem motivo suficiente, assim como uma pedra não pode mover-se sem um choque ou impulso suficiente; 2°. ainda menos uma ação para a qual se apresenta, para o caráter do agente, um motivo suficiente pode não se efetuar se um contramotivo mais forte não tornar necessária sua cessação; 3°. o que move principalmente a vontade é o bem estar ou o mal estar, tomados no sentido mais amplo da palavra, como também inversamente bem-estar e malestar significam ‘de acordo ou contra uma vontade’. Portanto todo motivo tem de se referir ao bem estar e ao mal-estar; 4°. consequentemente, toda ação refere-se a um ser suscetível de bem-estar ou mal-estar como seu fim último; 5°. este ser é: ou o próprio agente, ou outro ser, que, portanto, participa da ação passivamente, pois ela acontece para seu dano ou para seu proveito e alegria; 6°. toda ação cujo fim último é o bem-estar e o mal-estar do próprio agente é uma ação egoísta; 7°. tudo o que aqui foi dito das ações vale igualmente para as omissões de tais ações, para as quais existem motivos e contramotivos; 8°. em conseqüência das explicações dadas nos parágrafos precedentes, egoísmo e valor moral simplesmente excluem-se um ao outro. Se uma ação tiver um fim egoísta como um motivo, então ela não pode ter nenhum valor moral. Deva uma ação ter valor moral, então um fim egoísta não pode ser seu motivo imediato ou mediato, próximo ou longínquo; 9°. de acordo com a eliminação total dos pretensos deveres para com nós mesmos, efetuada no parágrafo 5, a significação moral de uma ação só pode estar na sua relação com outros. Só com referência a estes é que ela pode ter valor moral ou ser condenável moralmente e, assim, ser uma ação de justiça e caridade, como também o oposto de ambas. Schopenhauer A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo 2001. p. 132-133 154 Schopenhauer A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p.132 79 Ainda, com base nas premissas dadas, Schopenhauer afirmará que toda a ação ou omissão tem como base o bem-estar ou o mal-estar. Esse bem-estar ou mal-estar podem estar relacionados tanto com o próprio agente como também com outra pessoa. As ações ou omissões que visam o bem-estar com relação a si mesmo podem acontecer visando várias coisas, como já vimos: reconhecimento social esperança de recompensa nesse ou em outro mundo (moral teológica), o temor de castigos de um ser transcendente e criador, recompensas materiais e emocionais que se referem ao já apresentado “aplauso da consciência” e assim por diante. Schopenhauer concluirá que a única ação que realmente é desinteressada e pode ser considerada valorosa moralmente é a ação que visa de forma exclusiva, o bem-estar de outra pessoa que participa da ação de forma passiva. Schopenhauer dirá: Portanto, a parte ativa no seu agir ou omitir só tem diante dos olhos o bemestar ou o mal-estar de um outro e nada almeja a não ser que aquele outro permaneça são e salvo ou receba ajuda, assistência e alívio. Somente esta finalidade imprime numa ação o selo do valor moral, que, portanto, repousa exclusivamente no fato de que a ação aconteça para proveito e contentamento de um outro155 A ação que visa diretamente o outro deve assim estar diretamente ligada ao bemestar ou mal-estar do outro, é neles que essa ação ou omissão encontrará o seu intuito de forma exclusiva. Assim com essa conclusão, surgirá o problema da motivação da ação moral: o que pode fazer com que o outro seja, por completo, a minha preocupação no agir ou no omitir de alguma maneira? Como outro alguém pode se tornar para o homem a única motivação do seu modo de agir, ou seja, ser o próprio e exclusivo fim da ação? Para Schopenhauer existe uma única maneira de o outro se tornar a preocupação exclusiva de alguém. Aquele que dirige suas ações ou omissões diretamente a alguém, tendo nesse alguém o próprio fim de suas atitudes, deve querer o bem-estar do outro como se fosse o seu próprio e sentir o mal-estar desse mesmo como se ele fosse seu próprio. Assim, com esses sentimentos o homem se identifica com a própria pessoa para a qual seus atos são dirigidos. Nesse processo o egoísmo que é para Schopenhauer a grande motivação antimoral, desaparece pelo menos no momento em que a ação ocorre, e o homem se volta para outro homem como se esse fosse ele mesmo. A diferença entre as pessoas desaparece até o ponto necessário para que a ação destituída de interesse 155 Schopenhauer A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. .p.134 – 135 80 pessoal possa surgir naquele que age. Esse processo acontece, segundo Schopenhauer, de maneira menos rara do que pensamos e ele é o processo da compaixão. Schopenhauer defende que a compaixão é o único processo que faz com que homem participe de forma imediata no sofrimento de outro homem. Schopenhauer afirma: Esta compaixão sozinha é a base efetiva de toda a justiça livre e de toda a caridade genuína. Somente quando uma ação dela surgiu é que tem valor moral, e toda a ação que se produz por quaisquer outros motivos não tem nenhum. 156 Segundo Schopenhauer o processo da compaixão é o único capaz de explicar as atitudes desinteressadas do homem em relação a outrem. Mesmo assim esse processo permanece um mistério, em seus próprios dizeres, “o grande mistério da ética”. É apenas através dele que o eu e o não-eu tornam-se, até certo ponto que não é absoluto, a mesma coisa. Apenas a metafísica seria capaz de tentar lançar luz a esse enigma e esclarecê-lo de alguma forma, coisa que, segundo o próprio Schopenhauer afirma, não é o propósito da Sociedade Real Dinamarquesa de Ciências de Copenhague, mas que mesmo assim, nosso filósofo tentará esclarecer ao final de seu ensaio como veremos. Da compaixão surge tudo aquilo que visa o bem estar do próximo, Schopenhauer divide em duas as derivações dessa compaixão: virtude da justiça e virtude da caridade. Mas antes de analisar essas duas derivações, Schopenhauer apresentará duas observações a respeito do tema. Ele dirá que existem três motivações fundamentais nas ações humanas. A primeira delas é o egoísmo, que visa o seu próprio bem e é ilimitado. A segunda é a maldade que deseja o mal alheio e pode chegar até a mais profunda crueldade. A terceira é a compaixão, que quer o bem-estar alheio. A maldade também é desinteressada, visa o outro como fim, mas ao contrário da compaixão, ela quer o malestar do outro e não seu bem-estar. Essas três motivações coexistem no mundo, mas não podem coexistir no mesmo individuo no mesmo momento. Assim, todas as ações humanas surgem dessas três motivações e apenas pela terceira motivação pode surgir o ato genuinamente moral. A prova “a posteriori” disso será apresentada por Schopenhauer quando o mesmo diz que o sofrimento, que nada mais é do que o mal-estar do outro, é a única forma de fazer o homem participar de maneira ativa da vida do outro. Apenas sentimos o outro quando o outro sofre, ao 156 Schopenhauer A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p. 136 81 contrário, a felicidade alheia não nos chama a atenção. É apenas a necessidade do outro que faz a barreira da individualidade e, portanto, do egoísmo cair pelo menos até o ponto necessário para que o homem possa se identificar com o outro. Schopenhauer falará a respeito disso: Portanto o positivo, o que manifesta por si mesmo, é a dor. Contentamento e prazer são o negativo, a mera supressão da dor. É nisto, em primeiro lugar, que se baseia o fato de que só o sofrimento, a falta, o perigo e o desamparo do outro despertam diretamente nossa participação.157 A felicidade alheia causa apenas a indiferença, não faz o homem participar dela. O único caso em que a felicidade do outro causa uma participação efetiva dela, é quando o outro está ligado ao homem por algum tipo de laço, por exemplo, pelos laços sociais ou familiares. Participamos da felicidade de um filho, pai, amigo, e assim por diante. Jamais participaremos da felicidade de um estranho. Importante notar que Schopenhauer já trará aqui, traços de seu pensamento contido em O mundo como vontade e como representação, onde a dor é o agente positivo, enquanto o bem-estar é o negativo para a ação. Schopenhauer afirmará em sua obra capital que a dor é o que nos impulsiona para a ação, para a “conquista” de nossos objetivos, enquanto o contentamento, o bemestar, nos faz ficar parados sem nada produzir. Assim, quando a pessoa se compadece de outra, ela se torna, pelo menos em parte, aquela pessoa e sente a dor da mesma, esse impulso positivo a faz agir, da mesma forma como quando ela sofre age, enquanto, da mesma forma em que quando satisfeita ela simplesmente não age, ela também procederá em relação ao outro que nada necessita. Schopenhauer afirmará: “A visão daquele que é feliz e sente prazer pode até mesmo excitar muito ligeiramente nossa inveja, já que existe em todo homem a disposição para ela e já que ela encontrou seu lugar de destaque entre as potências antimorais” 158 Mas agora, vale ressaltar um ponto importante sobre a questão da compaixão. Quando Schopenhauer afirma que a pessoa que se compadece, de alguma forma por outra pessoa, passa por uma espécie de identificação com ela, ele não está querendo dizer que aquele que se compadece tem a ilusão de ser, por algum momento, a pessoa que sofre qualquer tipo de mal-estar. Schopenhauer afirmará que aquele que se 157 Schopenhauer A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p.139 158 Schopenhauer A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p.139 82 compadece sente a dor no outro e tem a plena consciência de que ele não é o outro. Aquele que se compadece sabe que a dor não está em sua pessoa, mas sim na outra e isso a incomoda. Assim, na compaixão, existe a plena certeza de que aquele mal do qual o outro sofre não está em quem se compadece. Portanto a compaixão não pode ter seu motivo encontrado apenas de maneira psicológica, apenas a metafísica poderá tentar esclarecê-lo. Esse fenômeno para Schopenhauer é tão real e forte, que é capaz de fazer com que nós nos esqueçamos de nós mesmos. Ainda que estejamos extremamente felizes e com nossos desejos realizados em sua totalidade, ao sermos invadidos pelo sentimento de compaixão, somos levados a esquecer quase que totalmente nossa ventura, e nos voltarmos para aquele que sofre imediatamente. Ainda, quanto maior for nossa sensação de bem estar, maior será também a força que a compaixão exercerá sobre nós: “E mesmo, quanto mais feliz for nosso estado e, pois, quanto mais contrasta a nossa consciência com a situação do outro, tanto mais sensíveis seremos para a compaixão”159Tal é o poder dessa compaixão que, como o próprio Schopenhauer diz, permanece como um mistério no homem. Schopenhauer também afirmará que essa compaixão é algo próprio do ser humano e não repousa sobre nenhum pressuposto. Vejamos o que ele diz a respeito para uma melhor compreensão daquilo que ele chama de compaixão: Porém esta mesma compaixão é um fato inegável da consciência humana, élhe essencialmente própria e não repousa sobre qualquer pressuposto, conceitos, religiões, dogmas, mitos, educação e cultura, mas é originária e imediata e, estando na própria natureza humana, faz-se valer em todas as relações e mostra-se em todos os povos e tempos. Por isso é que se apela para ela confiantemente em toda a parte como sendo algo presente necessariamente em todo homem, e em nenhum lugar ela é atribuída a ‘deuses estranhos’. Pelo contrário, chama-se de inumano aquele que dela parece carecer. Do mesmo modo que ‘humanidade’ é muitas vezes usada como sinônimo de compaixão.160 Assim fica claro que essa compaixão é algo que está no próprio homem, nos dizeres de Schopenhauer acima, em sua própria natureza, inerente ao homem de todos 159 Schopenhauer A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p.140 160 Schopenhauer A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p.141 - 142 83 os tempos e lugares encontra-se a compaixão. Nada pode ser considerado como fonte da compaixão a não ser o próprio homem. A educação, a religião, a crença em algum deus, não são responsáveis por esse fenômeno em nenhum instante. Assim, um ateu, uma pessoa totalmente destituída de educação e que não faz parte de nenhuma cultura mais estruturada terá compaixão e, como conclusão, pensamos ser inútil, dentro daquilo que Schopenhauer afirma sobre ela, tentar tirá-la do homem de qualquer maneira que seja. Ainda vale ressaltar diante do exposto, que essa compaixão não é algo raciocinado e sim espontâneo, em nenhum momento no qual a compaixão se apresenta no homem houve qualquer raciocínio que a ela antecedeu mostrando-a como aquilo que deve ser sentido ou seguido. Mas antes de examinarmos esses dois pontos da moral de Schopenhauer, devemos apresentar uma questão de extrema relevância para a moral da compaixão que ele defende: Se a compaixão é algo inato, inerente ao homem, não podendo assim ser ensinada a ninguém, o que faz com que existam pessoas compassivas ao mesmo tempo em que existam pessoais cruéis? Para essa questão Schopenhauer não apresenta nenhuma resposta. Segundo o autor a maldade e a bondade não fazem parte das nossas escolhas. Diante do que foi apresentado acima e do que será apresentado a seguir no estudo das virtudes da justiça e caridade, a compaixão deveria existir em todos, mas não é assim que acontece. Schopenhauer então dirá sobre esse ponto: “A maldade é tão inata ao maldoso como que dente venenoso ou a glândula venenosa da serpente. Também como ela, ele não pode mudar”. 161 Portanto, se não há como o homem se desvencilhar da compaixão quando ela surge, também não há como deixar de ser maldoso quando há maldade em nós. Avaliamos esse ponto da dissertação de Schopenhauer e concluímos que ele, mesmo não sendo apresentado dessa forma pelo autor, é o segundo mistério de sua moral, já que sobre ele não é apresentado sequer uma tentativa de explicação metafísica. Assim, a moral possui seu campo “restringido”, pois seu estudo pode apenas tentar explicar o fenômeno da ação moral, mas jamais poderá tentar, de alguma forma criar um meio de fazer com que as pessoas se tornem boas ou, pelo menos, percam seus ímpetos malignos. Sobre isso Schopenhauer comenta: Ora, a realidade e a experiência, que sempre se opuseram vitoriosamente às promessas de uma ética que quer melhorar os homens moralmente e fala de 161 Schopenhauer A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. .p.190 84 progresso na virtude, provaram com isso que a virtude é inata e não resulta de pregação.162 A maldade e bondade inatas são o outro grande mistério da moral de Schopenhauer que como bem podemos perceber, assim como a moral kantiana, não pretende mudar o homem, mas sim apenas analisá-lo e alcançar as conclusões necessárias para. 2.2.1 Das virtudes da justiça e da caridade A primeira das virtudes provenientes da compaixão, segundo Schopenhauer, é a virtude da justiça. E é interessante o pensamento de Schopenhauer sobre como somos levados a senti-la em nós, pois, para ele, em um primeiro momento somos levados à compaixão através de nosso próprio egoísmo. Como já vimos, todos os homens são, no pensamento de Schopenhauer, inclinados à injustiça e à violência das mais variadas formas através de nossos desejos que são provenientes da vontade incessante que nos forma. Assim, tudo aquilo que pode ser um obstáculo aos nossos apetites sempre famintos e insaciáveis é algo a ser derrubado e ultrapassado sempre. Na luta pela saciedade, nossos interesses podem causar o sofrimento de outrem que parece ser um obstáculo a nós, e quando algo é ferido por nós em nossa violência tomamos, através da experiência, consciência da existência do outro e, consequentemente, da dor que o mesmo sofre. Assim, aquele que até então era um desconhecido torna-se semelhante a nós e a compaixão surgirá de forma espontânea contra a injustiça que nós mesmos cometemos contra outras pessoas: “Ela me grita ‘pare’! e se coloca como arma defensiva diante do outro, protegendo-o da ofensa a que, não fora isso, meu egoísmo ou minha maldade me teriam impelido”. 163 Dessa forma se daria o primeiro grau de compaixão no homem; diante de sua própria maldade ou egoísmo ela aparece e segura as rédeas do ser humano enlouquecido por seus desejos. Essa virtude de justiça, porém, não aparece apenas em momentos de ação egoísta. Depois de um primeiro ato de um homem que venha a ferir o bem-estar de outro, ele estará apto para, pelo resto de sua vida, resguardar a justiça em relação às outras pessoas em todos os sentidos. Schopenhauer afirma sobre isso: 162 Schopenhauer A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p.193 163 Schopenhauer A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p.142 85 Todavia, não é de nenhum modo preciso que, em cada caso único, a compaixão seja efetivamente despertada, pois muitas vezes ela chegaria muito tarde, mas em cada alma nobre a máxima ‘neminem laede’ origina-se do conhecimento, alcançado de uma vez por todas, do sofrimento que toda ação injusta traz necessariamente aos outros e que é aguçado através do sentimento do padecer injusto, isto é, da prepotência alheia.164 Tal sentimento de justiça, vindo da compaixão seria o responsável por pessoas, mesmo em situações propícias para a realização de tais atos, não furtarem os bens de seu semelhante, assim como de não roubar, seduzir a mulher do seu vizinho, ou maltratar as pessoas diretamente de qualquer forma. Importante também dizer que essa justiça, também impediria o homem de aplicar a outros sofrimentos não só físicos ou patrimoniais, mas também morais. Antes de humilharmos alguém, de lhe infligirmos sofrimentos emocionais de toda ordem, essa “voz” da consciência, como Schopenhauer bem exemplificou, nos gritará para pararmos. Não há temor de ser pego em uma prática desonesta, de ser preso ou então de receber a reprovação da sociedade e consequentemente, ser banido dela, a pessoa está à sós consigo mesma e é a sua consciência apenas, o tribunal que de forma instantânea lhe dirá o que deve ou não ser feito. Mas é bom salientarmos que essa consciência passa a atuar em favor da compaixão depois de uma experiência, ela não é, em nenhum momento, inata no sentido de não precisar de nenhuma forma empírica de conhecimento, bem pelo contrário, se baseia nos acontecimentos do mundo objetivo totalmente. Também é importante ressaltar que a razão exerce um papel fundamental em relação à compaixão, pois, depois de uma vez sentida, a reflexão racional sobre ela faz com que o homem crie suas máximas em relação à justiça que podem ser “não matarás”, “não causar dano ao patrimônio de ninguém”, “não humilhar ninguém”, ou seja, não causar nenhum tipo de sofrimento a outrem de nenhuma maneira. Tudo isso, surgido, como Schopenhauer afirma, de uma vez por todas depois da primeira experiência com a compaixão vivida. Assim, essa razão criadora de princípios, é a responsável por manter o homem agindo na moralidade, já que a compaixão nem sempre surgirá, por ser ela espontânea e não surgir sempre no homem. 164 Schopenhauer A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p.145 86 Esse ponto é de extrema importância para a compreensão do pensamento de Schopenhauer sobre a compaixão. A compaixão é a fonte primeira e também única da ação moralmente genuína, com ela surgem a justiça e a caridade. Mas mesmo assim ela não é uma constante no homem, Dessa forma é a razão que, analisando o que foi vivido pelo homem ao sentir a compaixão pela primeira vez, cria regras de conduta e diz ao homem o que deve ser ou não feito diante de uma situação na qual a compaixão não aparece. Manter-se na moral para com os outros não é apenas algo fruto da compaixão, mas também da razão que, “lembrando-se” da compaixão vivida em certa ocasião, compaixão essa que é espontânea e que de nada depende, cria, por intermédio dessa lembrança regras genéricas e as segue por uma forte determinação. Assim, o agir moral também surge do autodomínio do próprio homem depois que ele toma conhecimento da existência do outro através do seu sofrimento. Sem essa experiência de conhecer o outro, não haveria a compaixão. Talvez essa seja a maior diferença entre a moral kantiana e a moral da compaixão de Schopenhauer. Sem princípios fortemente tomados, seríamos irrevogavelmente abandonados às motivações antimorais, quando elas fossem estimuladas através de impressões externas, até transformarem-se em afetos. O que permite manter e seguir os princípios, a despeito dos motivos que agem em sentido contrário a eles, é o autodomínio.165 Essa virtude da justiça não é apenas responsável pelos atos justos, mas também por tentar evitar os atos injustos. Quando alguém se coloca contra uma atitude que considera injusta é por meio da compaixão e, consequentemente, da virtude de justiça que surge essa ação que visa impedir uma atitude reprovável. Importante notar que a compaixão não depende de nenhuma instituição, do Estado ou da religiosidade. A compaixão precede todos eles. Todas as tentativas de fundamentar a compaixão com base em qualquer elemento que não seja o próprio ser humano será improcedente. Através dela Schopenhauer explica, por exemplo, o surgimento do próprio Direito: Os conceitos injusto e justo, significando o mesmo que dano e ausência de dano, ao qual também pertence o impedir o dano, são manifestamente independentes de toda a religião positiva e a precedem. Há portanto um puro 165 Schopenhauer A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p.144 87 direito ético ou direito natural, isto é, uma doutrina do direito, independente de todo regulamento positivo. 166 Também importante ressaltar que o justo e o injusto estão relacionados sempre com uma atitude à outra pessoa e podem diferenciar em graus: mais ou menos injusto ou mais ou menos justo. Schopenhauer explica: O tamanho da injustiça de minha ação é igual ao tamanho do mal que com ela infligi a outrem, dividida pelo tamanho da vantagem que consegui com ela; e o tamanho da justiça de minha ação é igual ao tamanho da vantagem que me traria o dano de outrem dividido pelo tamanho do prejuízo que ele sofreria com ela. 167 Em relação à virtude da justiça o essencial foi explicado, agora temos de nos debruçar sobre a virtude da caridade, também surgida da compaixão. Para Schopenhauer a caridade, ainda que não reconhecida por filósofos antigos, sempre existiu: A caridade existiu prática e fatidicamente em todos os tempos. Mas foi trazida à baila teoricamente e estabelecida como a maior de todas, estendendo-se mesmo aos inimigos, em primeiro lugar pelo cristianismo, cujo maior mérito consiste nisso, embora só em relação à Europa.168 Na virtude da caridade o processo de compaixão se produz de modo diferente da virtude da justiça, pois enquanto nessa última o homem luta para não causar dano a outrem ou impede um ato injusto, na virtude da caridade o homem é levado a ajudar alguém. Livremente o homem se encarrega de estender sua mão a outro que sofre e tirar ou pelo menos tentar tirá-lo de qualquer situação que lhe traga risco ou então amenizar seu sofrimento de alguma forma. Essa participação no sofrimento do outro é direta, até mesmo podendo ser conceituada como instintiva e visa sempre unicamente o bem alheio. Lembrando sempre, que tal atitude deve estar destituída de interesse pessoal, pois até na caridade pode existir algum interesse. Aquele que ajuda com o intuito de elevar-se perante os outros ao ajudar a pessoa que sofre não está sendo caridoso em sua ação, nem mesmo aquele que faz a caridade com a intenção de ganhar grandes méritos no “céu”, ou seja, ser salvo não está sendo caridoso. A atitude deve sempre, tanto na 166 Schopenhauer A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p.148 167 Schopenhauer A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p.150 168 Schopenhauer A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p.159 88 virtude de justiça como na virtude de caridade ter como fim o outro, aquele que sofre ou aquele que quer se livrar de um mal qualquer. Essa dor que o outro sente é a motivação da caridade, é por sua causa que o homem age. Ele não sente essa dor, sabe que não é sua, mas de alguma forma ela se torna sua e por isso a felicidade ou o bem estar do outro lhe é tão importante e também o fim a que essa atitude se destina. Aqui se abre um pequeno atalho para a explicação metafísica que em breve veremos. Schopenhauer não vê de maneira fácil a explicação para esse fenômeno. Em relação a ele, diz: Isto pressupõe, porém, que eu tenha me identificado com o outro numa certa medida e, consequentemente, que a barreira entre o eu e o não-eu tenha sido, por um momento, suprimida. Só então a situação do outro, sua precisão, sua necessidade e seu sofrimento tornar-se-ão meus.169 Assim termina a explicação de Schopenhauer sobre a compaixão e de suas duas virtudes que são o fundamento de todas as outras virtudes verdadeiras. Mas ainda é preciso mostrar a base para todas essas reflexões que é apenas uma: provar a existência da compaixão. 2.2.2 Da real existência da compaixão Como Schopenhauer pretende provar a existência da compaixão? A resposta a essa pergunta só pode ser uma: com base na experiência. Dessa forma, analisando vários fatos cotidianos e históricos, nosso pensador irá tentar demonstrar que tais fatos, os genuinamente morais, só podem ter origem na compaixão, nada mais poderia ser responsável pela existência dos mesmos: A verdade agora expressa de que a compaixão á a única motivação não egoísta e a única genuinamente moral é, de um modo estranho e quase incompreensível, paradoxal. Quero por isso tentar mudar as convicções do leitor, demonstrando que ela é confirmada pela experiência e pelas expressões do sentimento geral humano.170 Através de exemplos simples Schopenhauer irá demonstrar que apenas a compaixão pode fundamentar um ato genuinamente moral. Por exemplo: se alguém deixa de matar outrem por não querer ser preso, por não querer ter má fama, por seguir um imperativo categórico tal ato não teria realmente um valor moral. Somente aquele 169 Schopenhauer A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p.163 170 Schopenhauer A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p.165 89 que deixa de matar outrem, pois pensa nele e toma suas dores por maior que seja o ódio que contra ele existe, está de fato, sendo moralmente genuíno. Em relação ao exemplo dado acima, tomamos a liberdade de transcrever aqui uma história apresentada por Montaigne em seu livro Ensaios que se encaixa perfeitamente nessa descrição de uma genuína atitude moral: O Imperador Conrado III, assediando o duque da Baviera, não consentiria em deixar sair da cidade senão as mulheres dos fidalgos que ali se encontravam. Comprometera-se a respeitar-lhes a honra, mas à condição de saírem a pé e levando apenas, com elas, o que pudessem carregar; e recusara-se a atenuar tais condições, por mais humilhantes que fossem as satisfações oferecidas pelo inimigo. Atentando unicamente para ditames do coração, lembraram-se as mulheres de levar às costas os maridos, os filhos e o próprio duque. Impressionou-se o Imperador a tal ponto com essa prova de coragem que chegou a chorar de emoção. O ódio mortal que votara ao duque, cuja desgraça desejava, tornou-se menos violento e a partir desse momento ele o tratou, e aos seus, com humanidade.171 Tal história encaixa-se perfeitamente no pensamento de Schopenhauer. Interessante notar como as mulheres citadas apelaram para o “coração” do imperador Conrado oferecendo-lhe um espetáculo que despertaria nele o perdão, o que de fato aconteceu. Diante dessa história ou de alguma outra parecida, a pergunta de Schopenhauer seria a seguinte: Que outro sentimento poderia despertar essa atitude no imperador que não a compaixão? Como poderiam as mulheres sabiamente usaram essa estratégia que apela para o coração, ou seja, para a compaixão, se ela não existisse, se ela fosse apenas fruto de uma educação ou algo reservado apenas para uma parcela dos homens do planeta? Assim a compaixão é algo real, que de fato existe e no coração de todos: ninguém está isento dela e quando está não é, como o próprio Schopenhauer afirmou e voltara a afirmar em seguida, digno de ser considerado humano. Outra prova não só de que a compaixão é a única fonte do ato moral, mas como também real é o sentimento que toma o homem diante de um fato terrível provocado pela crueldade que é o oposto da compaixão: “Podemos desculpar qualquer outro delito, mas não a crueldade” e o motivo disso é que ela é o extremo oposto da compaixão. Assim não apenas examinando os fatos do cotidiano, mas também a si mesmo, Schopenhauer conclui a existência da compaixão. 171 Montaigne M. Os ensaios, In: “OSPENSADORES” trad. Sergio Milliet, Nova Cultural, Os Pensadores, São Paulo: 1996 p. 33 – 34 90 Nada segundo Schopenhauer pode nos deixar tão estarrecidos quanto a crueldade. Nada é mais desumano do que uma atitude cruel. Note-se bem a palavra “desumano”, indicaria que a compaixão é algo inerente à realidade humana, parte integrante do homem em todos os lugares. A compaixão não necessita ser ensinada, ela é pressuposto da vida humana não dependendo da vontade de quem a sente. Mas deixemos ainda mais explicito esse pensamento. Schopenhauer cita uma história na qual uma mãe havia torturado e depois assassinado seus próprios filhos: Quando tomamos conhecimento de um ato muito cruel – como, por exemplo, o que agora mesmo os jornais noticiaram de uma mãe que assassinou o filho de quinze anos derramando-lhe óleo fervente na garganta e o filho mais novo, enterrando-o vivo; ou o que nos foi comunicado da Argélia: que, depois de uma briga e uma luta casuais entre um espanhol e um argelino, este, sendo mais forte, arrancou o maxilar inferior daquele e o levou como troféu, deixando o espanhol vivo - , então, seríamos tomados de horror e exclamaríamos: “Como é possível fazer algo desse tipo?” Qual seria o sentido desta pergunta.172 O sentido seria apenas um: a falta de compaixão de tais pessoas. Como alguém poderia ser tão desprovido de compaixão a ponto de cometer algo desse tipo? Nesse momento, ao deparar-se com tal noticia ou ver tal fato acontecer, o homem não pensa como alguém pode ser, por exemplo, tão desprovido de fé, tão alheio ao imperativo categórico ou não se preocupar em ser, por exemplo, preso ou rejeitado pela sociedade. Nesse momento é a desumanidade, a crueldade que nos assusta, que nos faz lembrar da compaixão uma vez sentida e que nos remete às nossas experiências pessoais com ela não nos deixando aceitar tamanha malvadez. Caso a compaixão não existisse, jamais sentiríamos tamanho repúdio ou até mesmo ira contra alguém que cometesse atos desse tipo. Também devemos lembrar que a compaixão se estende não apenas ao homem, mas também a todos os seres vivos. A compaixão não possui limites, assim, um homem pode senti-la em relação a um cachorro que sofre ou poderá sofrer qualquer tipo de incidente e tal exemplo é citado por Schopenhauer: 172 Schopenhauer A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p.167 91 A compaixão para com os animais liga-se tão estreitamente com a bondade do caráter que se pode afirmar, confiantemente, que quem é cruel com os animais não pode ser uma boa pessoa173 Aqui há mais uma diferença entra a moral kantiana e a moral de Schopenhauer. Em Kant a moral se volta apenas para os seres racionais (homens), em Schopenhauer a moral que não se volta para os animais, na realidade, não pode ser vista como genuína. A ausência de compaixão para com os animais, aos olhos do autor, só pode ser vista como algo repulsivo, fruto do judaísmo: A suposta ausência de direito dos animais, a ilusão de que nossas ações em relação a eles sejam sem significação moral, ou, como se diz na linguagem moral, que não há qualquer direito em relação aos animais, é diretamente uma crueza e uma barbárie revoltantes do Ocidente, cuja está no judaísmo. 174 Com essa verdadeira defesa dos animais já é possível começar a identificar as bases para a compaixão e sua possível explicação metafísica no pensamento do filósofo. Schopenhauer já disse que na compaixão o homem é tomado por algo que lhe faz participar do sofrimento do outro. Mesmo sabendo que ele não é aquele que sofre, o compassivo sente de alguma forma a dor do outro e identificando-se com ele age com justiça ou caridade. Mas frente a isso poderíamos nos perguntar como um homem pode se identificar com um animal. Mesmo existindo um sofrimento qualquer no animal qual a semelhança, ou melhor, o que faz com que o homem identifique-se com o animal? As respostas a essa pergunta encontrar-se-ão inevitavelmente na metafísica. É preciso dirigir-se à essência da vida e nela encontrar o motivo pelo qual o animal pode ser visto como merecedor de compaixão: Tem-se de estar cego em todos os sentidos ou cloroformizado pelo “foetur judaicos” para não reconhecer que o essencial e o principal é o mesmo no animal e no homem, e aquilo que os distingue não está no primário, no princípio, no arcaico, no ser íntimo, no âmago de ambos os fenômenos, que, como tal, tanto num como noutro, é a vontade do indivíduo, mas somente no secundário, no intelecto, no grau da força do conhecimento, que no homem, através da faculdade acrescentada de conhecimento abstrato, chamada de razão, é incomparavelmente mais alto, mas verificado apenas graças a um maior desenvolvimento cerebral, portanto graças a diferença somática de 173 Schopenhauer A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p.179 174 Schopenhauer A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p.175 92 apenas uma parte, o cérebro, e especificamente em relação à sua quantidade.175 Assim não há nenhuma diferença essencial entre o homem (racional) e o animal (irracional), pois ambos são constituídos com base na mesma fonte: a vontade. De alguma maneira é possível entender isso e o fruto desse entendimento é a compaixão que se manifesta espontaneamente frente ao sofrimento de um irracional. O homem não possui um lugar de destaque frente a outros seres que com ele vive sobre a terra, tal visão só pode ser fruto do equívoco das religiões que insistem em negar a igualdade entre os seres dando ao homem um lugar de destaque. Também temos de comentar que a compaixão para com os irracionais acontece da mesma forma com a qual ela acontece para com os homens. Não é necessário esforçar-se para compadecer-se dos irracionais. Da mesma forma que nos compadecemos frente ao sofrimento de um homem, isso também acontece frente ao sofrimento de um irracional. Schopenhauer cita uma história protagonizada por um homem chamado Wilhelm Harris como exemplo: Em sua viagem, publicada em Bombaim em 1838, conta ele que, depois de haver matado seu primeiro elefante, que era fêmea, e procurado o animal morto na manhã seguinte, todos os outros elefantes tinham fugido do lugar, só o filhote do animal morto tinha passado a noite ao lado da mãe morta; esquecendo todo o medo, este veio então de encontro ao caçador, com a mais viva e clara demonstração de sua dor inconsolável, e enlaçou-o com a sua pequena tromba para pedir socorro176 Não é necessário dizer que o iniciante caçador desistiu de se tornar um experiente caçador depois disso. Segundo as palavras de Schopenhauer o mesmo homem diante de tal cena sentiu um terrível remorso e jamais voltou a caçar. Resumindo: a compaixão que se volta para um homem é a mesma que se volta para um animal (irracional) com toda a certeza. É interessante notarmos que a compaixão que existe para com os irracionais é uma espécie de ponte que nos leva ao verdadeiro conhecimento do mundo, ao entendermos e visualizarmos a existência da compaixão pelos irracionais, nossos preconceitos em relação a eles caem, nos vemos perdidos em uma espécie de ilusão aumentada pelo infeliz moralismo judaico-cristão que tanto 175 Schopenhauer A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p.177 176 Schopenhauer A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p.180 93 engana e cria valores que apenas podem estar baseados para a diminuição dos animais frente ao homem em uma coisa: no egoísmo. De certa forma, todos nós sabemos que os animais são dignos de compaixão e de que ela surge em nós quando vemos esses nossos irmãos, os irracionais, sofrerem. Mas o egoísmo humano nos faz apelar para a criação de sistemas morais ou religiosos que tentam de todas as formas rebaixar os animais para mais tranquilamente nos aproveitarmos deles. Assim, o homem não enxerga o irracional como um ser totalmente diferente dele, mas sim, quer que o mesmo o seja para dele poder se aproveitar. Vejamos as palavras de Schopenhauer nesse momento importantíssimo de sua dissertação: Então os filósofos, inquietados por sua consciência intelectual, tiveram de procurar apoiar a psicologia racional por meio da empírica e, por isso, esforçar-se por abrir entre o homem e o animal um abismo monstruoso, uma distância incomensurável, para apresentá-los, a despeito de toda evidência, como diferenciados já no fundamento.177 Nessas palavras de Schopenhauer acima, vê-se claramente que a compaixão é algo tão verdadeiro, que os homens se propuseram devido ao seu egoísmo, tentar retirála de si mesmos através de construções de sistemas filosóficos que de alguma forma rebaixassem os animais. Depois, eles, com a consciência “tranquila”, poderiam tornar a ver os animais como inferiores e assim se aproveitarem deles como bem quisessem. Impressionante a força que a compaixão exerce no homem e como ela é capaz de produzir tamanhos efeitos nele das mais diversas formas. Negar a compaixão é negar a si mesmo e consequentemente a verdade de que em todos os seres possuem uma mesma identidade da qual não se pode fugir. O grande problema é que aceitar essa realidade seria algo totalmente diferente do que aquilo que foi proposto pela moral judaicocristão, como por exemplo, a vida após a morte, a superioridade dos racionais, punição, castigo e assim por diante. Entenderemos melhor quando analisarmos a metafísica de Schopenhauer, mas já podemos adiantar para melhor explicarmos a compaixão, que ela se volta para todos os seres, pois ela está relacionada com a essência primeira que forma todos esses seres. No mundo dos fenômenos que só conhecemos através da experiência e da causalidade inata, não há possibilidade de encontramos uma explicação para ela. Podemos apenas através do empirismo conhecer a sua existência, mas não no que ela se funda. Se 177 Schopenhauer A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p.175 94 realmente nos debruçarmos sobre os motivos que fazem com que a compaixão exista, toda a moralidade Ocidental e os valores, os mais diversos, desabarão por completo. Tal posicionamento é complexo e sobre ele Icilio Vecchiotti comenta: Um dos motivos característicos da polemica de Schopenhauer, nesta como nas outras obras, é a extensão do principio da caridade aos animais, contra um costume que tem na sua origem a instrumentalização do animal e na recusa de qualquer direito que, segundo ele, seria próprio do judaísmo: também o cristianismo herdou, em algumas de suas formas – de acordo com o nosso filósofo – essa característica da mentalidade judaica178 Assim, a compaixão que se estende aos animais é algo polemico, pois revela um mundo que foi ignorado por séculos devido à cultura Ocidental alicerçada infelizmente, segundo o autor, no judaísmo. Em outras religiões, as mais antigas da humanidade e também mais conscientes da verdade do mundo, tal distinção não existe e os racionais e irracionais diferem apenas na forma com a qual existem no mundo, mas não em essência. Depois de estudarmos a compaixão como o único e verdadeiro fundamento da moral, basta agora tentarmos entender qual o motivo que faz com que Schopenhauer a veja como um grande mistério. Sobre ela nosso pensador comenta: Este processo é, eu repito, misterioso, pois é algo de que a razão não pode dar conta diretamente e cujos fundamentos não podem ser descobertos pelo caminho da experiência. E, no entanto, é algo cotidiano. Todos o vivenciaram muitas vezes em si mesmos, e até mesmo os mais duros de coração e egoístas ele não foi estranho. Ele surge todos os dias, diante de nossos olhos, no singular, no pequeno, em toda a parte onde, por um impulso direto, um homem ajuda outro sem reflexão e o socorre e, às vezes, até mesmo coloca sua vida em evidente perigo por alguém que ele vê pela primeira vez, sem pensar mais, logo que vê a grande necessidade e o perigo do outro179 Nas palavras acima vemos dois obstáculos para a compreensão da compaixão. O primeiro deles refere-se à nossa razão que não teria como encontrar o seu fundamento. E o segundo ao próprio ser humano que, em sua esmagadora maioria é egoísta. Mas porque o homem é egoísta? Por que a nossa razão não possui capacidade de, através do empirismo, encontrar o fundamento da moral? Percebemos que as questões agora são outras e necessário será respondê-las para encontrarmos a fundamentação da própria 178 Vecchiotti, Schopenhauer. Rio de Janeiro, edições 70, rio de Janeiro,1986: p. 57 179 Schopenhauer A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p.163 95 compaixão, na qual descobriremos que a mesma se manifesta como negação da ilusão da individualidade dos seres, ou seja, como negação da vontade, o ponto máximo de toda a ética de Schopenhauer e a própria finalidade de todo o pensamento de Schopenhauer. Sendo assim analisemos agora rapidamente os dois lados que o mundo possui, para Schopenhauer. Mas antes de estudarmos o mundo como representação e como vontade, seria importante fazermos algumas observações sobre tudo o que foi dito até aqui. Primeiramente devemos concluir que o sofrimento humano possui uma importância enorme em todo o pensamento de Schopenhauer. É ao seu redor que seu pensamento gira e é nele que seu pensamento encontra a sua primordial motivação. A compaixão dessa forma não poderia deixar de ter um papel importantíssimo no mundo, pois é a compaixão responsável, como vimos, pelas virtudes da caridade e justiça, isto é, a compaixão á a grande responsável por tudo aquilo que existe de “bom” no mundo, sem ela não existiria nada que pudesse ser considerado bom e aquilo que é bom só o é, pois interfere diretamente no sofrimento humano diminuindo-o ou acabando com ele. Mesmo a negação da vontade que é o ápice da ética Schopenhaueriana não é capaz de gerar atitudes boas em relação a outras pessoas, ou seja, justiça e caridade, dessa forma, no mundo, aquilo que é bom só o é por estar motivado pela compaixão. Nenhum outro meio é possível que não a compaixão, é apenas através dela que a chamada bondade e tudo aquilo que venha a amenizar o sofrimento humano pode existir, agora vamos entender como o mundo funciona segundo Schopenhauer e consequentemente entender ainda mais a compaixão e sua motivação. 2.3 A Representação e a Vontade Segundo Schopenhauer o grande mérito de Kant é a distinção entre o fenômeno e a “coisa em si”.180 No fenômeno ele reconhecerá a ilusão e na “coisa em si” a vontade, o fenômeno é o Véu de Maia do qual o homem deve se libertar. Tal pensamento já se encontraria na doutrina dos Vedas e dos Puranas não sendo, na interpretação de Schopenhauer de originalidade kantiana; o mundo no qual vivemos nada mais é do que ilusão e deve ser encarado como um sonho inconsistente e inessencial. 180 Schopenhauer A. Crítica da Filosofia Kantiana, In: “OS PENSADORES”trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Nova Cultural, Os Pensadores, São Paulo, 1997 p. 120 96 Schopenhauer é um grande admirador de Kant como já sabemos, dizendo-se até mesmo seu sucessor quando em seu pensamento assim como Kant estabelece o mundo como fenômeno e “coisa em si”, representação e vontade respectivamente. Para ele Kant teria sido umas das mais brilhantes mentes que o mundo já conheceu. Toda essa admiração se deve ao fato de Kant ter escrito sua obra prima a Crítica da razão pura, e desenvolver nela a grande descoberta da metafísica que daria a Schopenhauer parte da solução frente ao grande enigma do mundo: a Estética Transcendental. A Estética Transcendental é segundo Kant, o meio pelo qual as sensações se tornam percepções. Todo o “material” que chega até o ser humano seria dado por duas simples formas: espaço e tempo. Assim, espaço e tempo não são coisas percebidas, mas sim formas de perceber. Dentro desse sistema, Kant afirma que o “em si” do universo jamais poderia ser conhecido. Aprendemos e tomamos contato com o mundo através de uma maneira já determinada por princípios a priori de nossa razão. A Estética Transcendental, responsável por transformar sensação em percepção, juntamente com a Analítica Transcendental, responsável por fazer das percepções conhecimento, são uma espécie de “filtro”, que coordena nosso saber e fazem-nos ver e entender o fenômeno, mas não a causa desse fenômeno que permanecerá para sempre um grande enigma. Assim tudo o que vemos, sentimos, aprendemos, entendemos está relacionado ao fenômeno. O mundo é o fenômeno do qual jamais conheceríamos a causa. Diferentemente de Hume, Locke e outros pensadores que defendiam as sensações como únicas causadoras de nosso conhecimento, Kant afirmará que apesar de todos nossos conhecimentos realmente virem das sensações, a razão jamais possuiria um papel passivo diante delas. O próprio homem possui inerente a si mesmo, o meio pelo qual o conhecimento surgirá nele. Schopenhauer vê nessas afirmações kantianas a sabedoria que até então ninguém havia encontrado, e fará dela uma das suas principais fontes de pensamento. Unindo a Estética Transcendental ao Budismo e hinduísmo, por exemplo, dos quais nunca se afastará, Schopenhauer afirmará que o mundo nada mais é do que mera representação, simples fenômeno e fará dele uma total ilusão. Mais uma vez, valendo-se das alegorias Budistas e Hinduístas, nosso pensador verá no mundo a ilusão da qual poucos se desvencilharam. O mundo é o já citado “Véu de Maia” que a todos engana e o véu rasgado pelo Gênio, faz com que sua causa, a vontade, apareça. Diante dessa conclusão a idéia de individualidade se acaba, pois ela não existe, é apenas mais um fenômeno, ou como prefere Schopenhauer, uma ilusão criada pela 97 vontade para melhor se objetivar. Eis as palavras iniciais de Schopenhauer no primeiro livro de O mundo como vontade e como representação: “O mundo é minha representação.” – Esta é uma verdade que vale em relação a cada ser que vive e conhece, embora apenas o homem possa trazê-la à consciência refletida e abstrata e de fato o faz. Então nele aparece a clarividência filosófica. Torna-se claro e certo que não conhece sol algum e terra alguma, mas sempre apenas um olho que vê um sol, uma mão que toca uma terra.181 A existência do mundo dependeria do homem. Poderiamos resumir dizendo que para Schopenhauer não existe mundo sem homem. O fenômeno aparece apenas com o relacionamento entre ambos. Eis o esclarecimento de Schopenhauer sobre esse assunto: Verdade alguma é, portanto, mais certa, mais independente de todas as outras e menos necessitada de uma prova do que esta: o que existe para o conhecimento, portanto o mundo inteiro, é tão somente objeto em relação ao sujeito nenhuma verdade é, portanto mais certa, mais absoluta, mais evidente do que esta: tudo o que existe, existe para o pensamento, isto é, o universo inteiro apenas é objeto em relação ao sujeito, intuição de quem intui, numa palavra, representação.182 Como dito acima para Schopenhauer esse foi o grande mérito de Kant, o de ter separado o “em si” do fenômeno. Sobre essa visão de Schopenhauer da Estética Transcendental kantiana, José Thomaz Brum irá comentar: Em relação à vontade, que é em si e sem razão suficiente, o individuo é “fenômeno”, uma aparição do intelecto sob forma de individuação. Os indivíduos, “fenômenos passageiros”, nascem e morrem. Mas a natureza, que se interessa apenas pela conservação da espécie, é “indiferente” a esse processo. No “fluxo perpetuo da matéria” que constitui a vida, o individuo é alguma coisa de irreal. Devemos nos dar conta de que Schopenhauer, radicalizando o idealismo transcendental kantiano, concebe o mundo fenomênico como um sonho do intelecto humano183 Thomaz Brum usa a expressão “radicalizando”, já que ao que tudo indica tempo e espaço assim como o próprio mundo não eram apenas ilusões, miragens, como Schopenhauer afirmava, Essa interpretação polêmica de Schopenhauer da filosofia kantiana será essencial para a formulação de sua própria filosofia. O mundo para Schopenhauer, como visto acima, nada mais é do que uma miragem que existe apenas 181 Schopenhauer A. O mundo como vontade e representação, trad. Jair Barboza, UNESP, são Paulo: 2005 p. 43 182 Schopenhauer A. O mundo como vontade e representação, trad. Jair Barboza, UNESP, são Paulo: 2005 p. 43 183 Brum Thomaz José O pessimismo e suas vontades, Rocco, Rio de Janeiro: 1998 p. 34. 98 para o intelecto humano, o mundo está em nós, em nossa forma de conhecer e não existe em si mesmo, sem sujeitos para conhecer o mundo o mesmo não existiria. Podemos ver essa “visão radical” sobre a Estética Transcendental de Kant, quando Schopenhauer em O Mundo como vontade e como representação, cita uma passagem sem mencionar onde a encontrou e que teria semelhança com outras passagens facilmente encontradas nos livros sagrados dos Vedas ou Puranas. Eis o texto: Trata-se de maya, o véu da ilusão, que envolve os olhos dos mortais, deixando-lhes ver um mundo do qual não se pode falar que é nem que não é, pois assemelhasse ao sonho, ou ao reflexo do sol sobre a areia tomado a distância pelo andarilho como água, ou ao pedaço de corda no chão que ele toma como uma serpente.184 Mais adiante ele continua: “Sóis e planetas sem olhos para os verem, sem uma inteligência para os conhecer, são palavras que se podem pronunciar, mas que representam qualquer coisa tão inteligível como “bocado de ferro madeira”. A questão é que Schopenhauer toma como ponto de partida para o conhecimento essa noção de representação que necessita da interação imediata entre os homens e os objetos para poder existir.185 A noção de conhecimento em Schopenhauer, assim, está ligada à noção de representação que pressupõe de alguma maneira o envolvimento simultâneo de sujeito e objeto e que nos faz chegar a uma conclusão curiosa: ao pensarmos no sujeito estamos pensando imediatamente no objeto e ao pensarmos no objeto estamos pensando imediatamente no sujeito. Seria impossível pensar em apenas um, ou seja, só no sujeito ou só no objeto. Sobre isso, Jair Barboza afirmará: “Estamos diante de um amálgama teórico que nenhum corte, nenhum raciocínio lógico consegue. Onde começa o sujeito termina o objeto; e onde começa o objeto termina o sujeito”. 186 A representação não revela sua essência o que a faz permanecer uma espécie de enigma, uma ilusão propriamente dita, algo enganoso, mas em todo o processo de conhecimento o sujeito é ativo e não passivo, pois possui a priori três formas puras de 184 185 Schopenhauer A. O mundo como vontade ecomo representação, trad. Jair Barboza, UNESP, são Paulo: 2005 p. 49 Para Zair Barboza isso se confirma na frase inicial de o mundo como vontade e como representação “O mundo é minha representação”, Nela Schopenhauer estaria querendo desviar-se de duas formas tradicionais, mas diferentes de entender o conhecimento que seriam o idealismo e o realismo, no segundo o ponto de partida é o objeto e no primeiro o ponto de partida é o homem nessa o homem origina o objeto e naquela o objeto origina o homem. Schopenhauer discorda de tais teorias e estaria pretendendo combatê-las. 186 Barboza Jair: a decifração do enigma do mundo, Editora Moderna, São Paulo: 1977 p. 29. 99 conhecimento, formas inatas, que são o tempo, o espaço e a causalidade que juntas formam o chamado princípio de razão que figura como tema da tese de doutorado do pensador. Mas o começo do conhecimento se dá com o corpo humano, de nada adiantaria uma cabeça sem corpo para sentir, olhos para ver, ouvidos para ouvir e assim por diante, sem corpo não haveria conhecimento algum, tudo seria estranho e sem nenhuma certeza, assim entendemos que as simples sensações em si nada são não podem nos dar nenhum tipo de conhecimento, é nossa razão ativa que trabalha essas sensações e nos dá o mundo, ou seja, faz surgir a representação, sem as formas inatas do conhecimento tais sensações seriam inúteis. O mundo inteiro então é apenas intelectual, existe na cabeça das pessoas e não em si mesmo, se todo esse processo de conhecimento fosse de um momento para outro retirado de todos os seres humanos e também dos irracionais o mundo desapareceria. Mas se por um lado o mundo é representação, por outro ele é vontade e a vontade é o “em si” do mundo tido por Kant como transcendente e consequentemente inatingível. Mas em um mundo cuja essência é uma vontade irracional e incontrolável só pode reinar a dor sem fim. Schopenhauer é um pessimista, talvez o primeiro grande pessimista da história da filosofia. Seu pessimismo, não é apenas o desabafo de alguém decepcionado com a vida por não conseguir alcançar seus objetivos ou por ter sido vítima de alguma tragédia pessoal, mas sim, um pensamento alicerçado em uma coerência profunda que vai desde a idéia de representação e vontade que começamos a analisar e, ao contrário do que dizem, não é apenas fruto de uma época difícil, mas de uma análise minuciosa não só da história e do homem, mas também da vida em todas as suas formas. Com certeza é esse o motivo que faz de Schopenhauer um filósofo que, na maioria das vezes, é esquecido ou rejeitado. Schopenhauer nos frustra em cada uma de suas palavras, com ele retornamos à realidade da vida de maneira radical. Schopenhauer apresenta um mundo sempre indiferente ao nosso desejo, ele não nos ajuda, não nos dá nenhuma palavra de alento. O próprio Schopenhauer irá nos dizer de uma maneira lógica o motivo do desprezo que sofreria dizendo: Na maioria das vezes, entretanto, fechamos os olhos para o conhecimento amargo como um remédio, de que o sofrimento é essencial à vida e, por 100 conseqüência, não penetra em nós do exterior, mas cada pessoa porta em seu interior a sua fonte inesgotável 187. Mas que fonte seria essa que faz da vida um sofrimento sem fim? Essa questão é simples de ser respondida: a vontade. A vontade é a grande fonte de sofrimento de todos os seres e é ela que faz o mundo ser o inferno que é voltando todos contra todos em um egoísmo sem fim e fazendo de todos eternos insatisfeitos. Todos trazidos ao mundo, “tirados” do nada, tendo como essência a vontade sem fim que a tudo e todos chicoteia sem piedade através de desejos ilimitados. A vontade una torna-se uma multiplicidade de indivíduos na representação apenas e cada individuo é um sofredor corroído pela insatisfação e pelos ataques de outros sofredores como ele. Tal é a tragédia da vida em Schopenhauer, o espetáculo de horror encontrado em cada ser que perdido nesse inferno se digladia contra tudo e contra todos. E enquanto o retorno à inconsciência, ou seja, a morte, não vier, só há uma saída para tanta dor: a negação da própria vontade, pois somos não só criação dessa vontade como também a própria vontade objetivada em fenômenos dos mais variados. Assim, a essência intima de tudo o que existe é essa mesma vontade, não há diferença substancial em nada. Homens, animais, vegetais e assim por diante, são uma única coisa. Ainda essa vontade é cega e nunca deixa de ser vontade. Não existe nenhum “objetivo maior” no mundo, nenhuma regra ou lei superior que o dirige. Tudo é e será eternamente um caos no qual o sofrimento é a única “regra” a ser observada por todos aqueles que realmente desejam conhecer de fato a verdade. Negar o sofrimento do mundo seria negar a própria vida e ela, a vida, é o grande problema a ser resolvido por isso nos surge a negação da vontade como única saída, ou seja, a negação da própria vida, a negação de si mesmo. Ainda que a maioria ou todos os nossos desejos fossem satisfeitos restaria ainda assim a dor, isto é, o tédio viria até nós e mais uma vez nos faria sofrer. Depois de um desejo satisfeito o tédio aparece e domina o homem até que outro desejo apareça e o lance no sofrimento outra vez, dessa forma, sem paz alguma, como já dito, o homem possui dentro de si a fonte inesgotável da sua dor que jamais cessa ou lhe dá uma trégua qualquer. Sempre o desejo inesgotável, a vontade arrasadora nos domina fazendo da vida frustração, tédio, desejo sem trégua, ou seja, um sofrimento que não possui fim, que é o grande senhor da vida e de tudo e de todos. O que podemos entender sobre a vida na filosofia de Schopenhauer é que toda a vida é sofrimento, é dor sem limite já que essa mesma vida é vontade sem 187 Schopenhauer A. O mundo como vontade ecomo representação, trad. Jair Barboza, UNESP, são Paulo: 2005 p. 410 101 limite. Como se não bastasse a guerra que o indivíduo trava consigo mesmo, com sua própria essência ainda existe a guerra que ele trava com os outros homens como ele, perdidos no labirinto do egoísmo, cada um é um inimigo em potencial quando formada a guerra de todos contra todos e se são “bons” o são pelo egoísmo e não pela bondade mesma, o Estado, como já vimos, é a grande focinheira a administrar toda essa barbárie que sem ele aconteceria.A vida nada mais é do que vontade que se alimenta de si mesma.Sendo assim em qual conclusão chegamos? Depois de analisarmos todo esse pensamento amargo e essa conclusão da vida ainda mais amarga?A conclusão somente poderia ser uma: seria melhor que tudo o que existe não existisse; seria melhor que não tivéssemos nascido que tivéssemos continuado no nada da inconsciência, ou melhor, que ninguém tivesse nascido a inexistência no pensamento de Schopenhauer é preferível a existência. Tanto é assim que o pensador afirma literalmente ser o ato da procriação uma traição contra a própria raça, ninguém em sã consciência teria o desejo de ter filhos, ou melhor, de aprisionar algum ser nesse mundo e vida de martírios inesgotáveis, Assim a negação da vida sexual também aparece na Filosofia de Schopenhauer como necessária e como meio de evitar ainda mais sofrimentos. Não poderia haver outra conclusão sobre a procriação em um pensamento que vê o mundo de maneira tão terrível. Seria possível dizer que Schopenhauer se compadece dos seres antes mesmo que eles venham ao mundo. Na negação da vontade está a salvação dos seres antes mesmo de eles terem nascido, só a negação da vida por completo é aquilo que levaria a humanidade ao aniquilamento absoluto e finalmente à paz perpetua. Em sua obra capital, O mundo como vontade e como representação, ele irá nos dizer que aquilo que Kant definia como “em si” incognoscível, é a vontade. Tudo o que existe é obra de uma vontade cega, eternamente insatisfeita que se alimenta de si mesma nas mais variadas formas. Schopenhauer explica: Coisa em si, entretanto, é apenas Vontade. Como tal não é absolutamente representação, mas Toto genere diferente dela. É a partir daquela que se tem todo objeto, fenômeno, visibilidade, objetividade. É o mais íntimo, o núcleo de cada partícula, bem como do todo. Aparece em cada força da natureza que faz efeito cegamente, na ação ponderada do ser humano: ambas diferem, isso concerne tão somente ao grau da aparição, não à essência do que aparece.188 188 Schopenhauer A.O mundo como vontade e como representação, trad. Jair Barboza, UNESP, são Paulo: 2005 p. 168 - 169 102 Somos então não só criação dessa vontade como também a própria vontade objetivada em fenômenos dos mais variados. Assim, a essência intima de tudo o que existe é essa vontade, não há diferença substancial em nada. Homens, animais, vegetais e assim por diante, são uma única coisa. Ainda essa vontade é cega e nunca deixa de ser vontade. Não existe nenhum “objetivo maior” no mundo, nenhuma regra ou lei superior que o dirige. Tudo é e será eternamente um caos no qual o sofrimento é a única “regra” a ser observada por todos aqueles que realmente desejam conhecer de fato a verdade. A cada desejo satisfeito, sobrevém-nos o tédio e depois dele mais uma vez uma nova vontade que nos arrasta, irrevogavelmente, para um novo sofrimento. A vontade não cessa. A vida seria um ciclo interminável de desejo, sofrimento, tédio e novos desejos atormentadores que existem sem nenhuma razão de ser; de uma forma ou de outra, a paz jamais seria possuída por nós. Essa vontade manifesta-se no mundo dos fenômenos, mesmo sendo una, de diferentes formas. É ela que está em todo tipo de vida, desde uma planta até o homem e assim, dividida e sendo vontade sempre insatisfeita, causa a guerra de todos contra todos, o sofrimento inesgotável e a dor sem fim. Eis a fonte do egoísmo e das motivações antimorais no homem. Não existe nenhum Deus, nenhuma justiça, sobrevivência de consciência após a morte, ou seja, não há nenhuma esperança de qualquer tipo de redenção que não seja o nada e a negação de si mesmo. A negação da vontade, em todos os seus aspectos, é a chave para encontrarmos esse nada salvador do qual o universo jamais deveria ter saído se é que um dia esse nada existiu. Eis as palavras de Schopenhauer: A salvação é algo completamente alheio à nossa pessoa, e aponta para uma negação e supressão necessária à salvação dessa pessoa189 Com uma confessa admiração pelo Budismo, no qual vê a maior e mais perfeita alegoria que já existiu sobre a vida, o universo e suas verdades, como também, a maior e mais sábia religião que já existiu, sua negação da vontade encontra ainda mais vigor em sua filosofia. A lenda de Sidarta Gautama, o príncipe que abandonou absolutamente tudo, se tornou um asceta e se desvencilhou das ilusões do mundo e de todos os desejos, alcançando assim a paz do Nirvana e tornando-se o Buda. É nessa alegoria perfeita que traz em si as regras para nossa própria “salvação”. Tanto em relação à luta contra a vontade como também, como já vimos, em relação à luta contra a ilusão criada pela vontade que seriam o fenômeno da individualidade, tempo, espaço, etc. Poderíamos dizer que o pensamento de Schopenhauer é quase que o próprio Budismo sendo 189 Schopenhauer A. O mundo como vontade e como representação, trad. Jair Barboza, UNESP, são Paulo: 2005 p. 414 103 afirmado de uma maneira laica, se é que tal afirmação seria possível. Não apenas pela compaixão, mas também pela negação da vontade, podemos encontrar atos virtuosos como os atos dos “santos”, por exemplo, que foram “santos” por negarem a vontade mesmo que de forma inconsciente, a misericórdia, o perdão nada mais são do que negação da vontade. Em um mundo criado por uma vontade cega, irracional e não direcionada a nada, o sofrimento é o grande imperador de todos os seres. O homem, objetivação mais perfeita dessa vontade, teria a capacidade de se conhecer como sendo vontade, entender seu “destino” eterno e trágico e, através de seu raciocínio, negar-se com o intuito de acabar de vez com todo o sofrimento do mundo. Schopenhauer afirma: Salvação verdadeira, redenção da vida e do sofrimento, é impensável sem a completa negação da Vontade até então cada um não passa dessa Vontade, cujo fenômeno é uma existência efêmera, um esforço sempre nulo e continuamente malogrado, o mundo tal qual exposto, cheio de sofrimento, ao qual todos pertencem irrevogavelmente de maneira igual190. A vida assim, mais uma vez explicada, não é ruim por ter muitos problemas, ela é ruim por ser o próprio problema. Mas apesar de Schopenhauer ter apresentado todo esse pensamento como se o mesmo fosse totalmente original na filosofia, poderemos encontrar em outros pensadores afirmações ou suposições bem parecidas com as dele. Lembremo-nos dos Estoicos e Epicuristas, que, de uma forma menos radical, se é que Schopenhauer pode ser visto como possuidor de algum radicalismo, também ofereceram ao mundo um pensamento com regras de vida que exigem certa abstinência de desejos ou que, pelo menos, tentam minimizá-los, fazendo o homem voltar-se apenas aos desejos realmente úteis visando o não sofrimento. Que dizer então dos cínicos que se abstinham de tudo, vivendo na mais profunda pobreza para se afastar dos males do mundo? De uma maneira evidentemente diferente, mas nem por isso totalmente afastada do pessimismo de Schopenhauer, tais pensamentos já apresentam desprezo ou comedimento para com relação às vontades que o homem possui. Mas é em David Hume que encontramos aquela que talvez possa ter sido uma das maiores inspirações de Schopenhauer para a construção de todo seu sistema filosófico. No livro Diálogos sobre a Religião Natural, Hume apresenta uma crítica extremamente procedente em relação a todo tipo de crença em Deus. Talvez, pela primeira vez na história da Filosofia, um pensador, e essa é nossa interpretação, afirma 190 Schopenhauer A. O mundo como vontade e como representação, trad. Jair Barboza, UNESP, são Paulo: 2005 p. 503 104 que a crença em Deus é algo destituído de razão e levanta a possibilidade da inexistência desse mesmo Deus. Nesse texto simplesmente extraordinário podemos encontrar as seguintes palavras: Olhe para o Universo ao nosso redor. Que quantidade imensa de seres, animados e organizados, sensíveis e ativos!Você admira essa prodigiosa variedade e fecundidade. Observe, porém, mais de perto as existências dotadas de vida, que são os únicos seres dignos de consideração. Como são hostis e destrutivas uma para com as outras!Quão incapazes todas elas, de prover à sua própria felicidade! Como são odiosas e desprezíveis aos olhos do observador!Tudo isso não nos oferece senão a idéia de uma Natureza cega, embebida de um grande princípio vivificador, que despeja de seu regaço sua prole defeituosa e degenerada, sem qualquer discernimento ou cuidado materno.191. Se Hume tivesse afirmado que esse princípio vivificador ao qual se refere fosse a vontade e não tivesse feito distinção entre “criaturas” e “criador”, que no caso seria esse princípio vivificador, poderíamos ver nas palavras acima o melhor de todos os resumos do pensamento Schopenhaueriano. Também não é difícil encontrar a fonte do ateísmo de Schopenhauer nessas palavras, que, coloca o sofrimento do mundo, como o maior argumento contra a existência de um Deus bondoso e que nos criou para a felicidade eterna ou, até mesmo, passageira em uma vida finita. Como apresentado a dor do mundo, o sofrimento dos seres e o caos do universo, de alguma forma, já haviam sido mostrados por outros filósofos, mas nunca, tiveram uma compreensão tão apurada, uma analise tão detalhada e uma aceitação tão profunda como em Schopenhauer. Nunca houve uma acusação tão grave e detalhada contra a vida; nunca a idéia da existência de um Deus foi mostrada de forma tão absurda e no extremo da incoerência. Podemos dizer que Schopenhauer foi o filósofo que aplicou o mais duro “golpe” em todo e qualquer tipo de otimismo que, para ele, nada mais poderia ser do que uma piada de mal gosto. Nosso filósofo simplesmente mergulha nessa visão pessimista da vida e a estende a tudo e a todos. Todos sofrem! Não é apenas o homem o centro das atenções de Schopenhauer. Não é raro vermos exemplos que mostrariam que o mundo é essencialmente. O homem é a objetivação da vontade que mais sofre, pois é capaz de conhecer pelo intelecto sua condição miserável e ainda se preocupar com todas as dores que podem acontecer voltando seus olhos para o futuro incerto, ou então, sofrer pelo 191 Hume D. Diálogos sobre a religião natural, , Martins fontes, São Paulo,1992: p158 -159 105 passado, com traumas, vergonhas e lembranças ruins. Já os animais não possuem essa consciência de si mesmos, vivendo apenas o presente, mas nem por isso, deixando de sofrer. Mas sendo o homem racional, ele também pode pensar e entender, como já dissemos, a si mesmo e a sua situação de penúria interminável. Assim, através de seu conhecimento é alcançada libertação da vontade, libertação essa que deve se estender a tudo e a todos como o próprio filósofo nos diz: “O conhecimento, ao contrário, fornece a possibilidade de supressão do querer, de redenção pela liberdade, de superação e aniquilamento do mundo”. Schopenhauer não quer apenas o fim da dor de um indivíduo, ele quer o fim do mundo, pois enquanto existir vida existirá a dor. O Gênio, aquele que venceu o mundo, nada mais é do que aquele que vê por trás das aparências do fenômeno, que vê através da grande ilusão da vida o “em si”, causa e algoz de todo tipo de representação instável e caótica; é aquele que vê a vontade e nada mais. Ele é capaz de vencer a si mesmo, ou seja, vencer a vontade até mesmo em seu maior nível: a vontade de reproduzir-se. Ter filhos: o Gênio jamais cometeria esse crime horroroso: Afastando-se da vida por completo, suprimindo toda vontade em completo ascetismo, alcançaria a paz, aquilo que, como vimos, foi chamado de Nirvana, em forma alegórica pelos Budistas e Hinduístas. Tal luta de certo não é fácil, mas para nosso pensador não impossível, somos como na alegoria de Bhagavad Gîtâ, Arjuna desanimado na frente de batalha ao ver que deveria guerrear com seus próprios parentes, mas mesmo que essa luta seja dolorosa, ela é, simplesmente, o único meio redenção. Assim os “lamentos” de nosso autor sobre o mundo em nenhum momento podem ser encarados como um protesto ou luta por um mundo melhor, pois o mundo é e sempre será sofrimento, a única coisa que nos resta é negar a vontade e acabar com o próprio mundo, com a vida vencendo assim o sofrimento. Quando Schopenhauer denuncia os abusos cometidos contra os homens ou animais, sua intenção não é despertar os homens para novas atitudes contrárias a esses abusos, mas sim lhes abrir os olhos para a verdade do mundo e para seu sofrimento infinito, a saída é apenas uma: acabar com a vida, pois ela é o problema a ser resolvido. Mas como Schopenhauer descobriu o “em – si”, ou seja, a vontade?: Esquecendo-se da representação e de tudo que lhe pertence, o homem faz parte do mundo, ele é mundo, possui um corpo, então o enigma do mundo encontra-se nele. Por fazermos parte do mundo é que podemos decifrá-lo, encontrar a sua essência verdadeira. 106 Experimentamos a realidade do mundo cotidianamente, a realidade do mundo é a nossa realidade, investigando nós mesmos encontraremos a verdade, o nosso íntimo possui a resposta, já a representação, simples Véu de Maia, nada pode nos dizer, mas somos parte dessa mesma representação, temos dentro de nós o “em-si”, ou melhor, somos o “em-si”. A verdade do mundo não submetida a representação está em nós. É por esse modo que ele decifra o enigma, não partindo de fora, mas de dentro, distante das formas de conhecer onde está o “em-si”, isto é, a vontade. Nosso corpo, não como representação, mas como objetivação da vontade. Ele é única coisa que temos além da representação, o conhecemos como representação e de forma imediata como vontade, se nos perguntássemos: ‘O que somos?”A resposta é imediata: vontade. Todas as coisas são vontade, por analogia chega-se a essa conclusão, não há motivo para não serem. Essa vontade está além do fenômeno e é impassível, eterna. Schopenhauer estende a tudo essa verdade. Tudo é apenas uma coisa: vontade objetivada e o homem é a mais perfeita objetivação dessa vontade que não pode ser confundida com vontade humana que nada mais é do que uma simples parcela dessa vontade. 2.4 A Explicação metafísica da compaixão Ao final de seu ensaio, Schopenhauer, como ele mesmo já havia dito, apresentará mesmo sendo essa explicação desnecessária diante do que foi pedido, a explicação metafísica do fenômeno da compaixão. É através dela que o autor tentará entender como é possível a existência da compaixão, isto é, decifrar esse grande enigma que se apresenta aos seus olhos e do qual como vimos resultam todas as virtudes existentes no homem. Mais uma vez, ao inicio do suplemento, Schopenhauer defende que a ética deve estar apoiada em algo demonstrável, segundo suas próprias palavras, ou no mundo exterior ou na consciência, ao contrário de Kant, cuja moral repousa em um simples conceito. Ainda aqui vemos a necessidade de criticar Kant para formular, ou melhor, para explicar, o seu fundamento da moral. Schopenhauer afirma que a tarefa exigida pela Sociedade Real Dinamarquesa já foi cumprida, ou seja, o fundamento da ética já foi apresentado, como foi pedido em sua integralidade, ele é a compaixão, o que será feito a partir daqui é a explicação metafísica desse mesmo fundamento, para apresentar e provar a existência desse fundamento não seria necessária essa explicação metafísica, mas como o próprio Schopenhauer afirma mesmo defendendo que o fundamento da ética já foi apresentado: “Entretanto, vejo muito bem que o espírito 107 humano ainda não encontra aí o seu contentamento e repouso”.192Assim o que se segue é a explicação da compaixão através da metafísica, para Schopenhauer, apesar de em seu ensaio ter demonstrado a existência da compaixão e ela como único fonte de qualquer ato genuinamente moral, ela, a própria compaixão continua sem nenhuma explicação, como ele mesmo disse sobre ela, um grande mistério.Schopenhauer tentará explicar nesse suplemento de onde surge a compaixão, o que ela é e como tal coisa pode existir em um mundo onde o que reina, como vimos, é a perversidade e a crueldade,a grande questão é: Como pode existir a compaixão? Como vimos a visão de mundo de Schopenhauer não é a das mais agradáveis, o homem sendo um ser dominado e guiado pelo egoísmo teria de ser na maioria da vezes ou sempre, ruim, mas como vimos o fenômeno da compaixão acontece sempre e é mais habitual do que pensamos, surge assim a questão: Como a compaixão é possível? Sobre essa questão o autor irá se debruçar e tentar resolve-la. Para nosso filósofo a ética possui um tremendo valor metafísico e para justificar isso ele cita vários casos onde pessoas prestes a morrer preocupam-se com suas atitudes durante a vida, tendo como mais valorosas as atitudes nas quais fizeram o bem a seu semelhante esquecendo-se de seus feitos honrosos e grandiosos e, também, em qualquer momento, no qual uma recompensa por tais atos derivados da compaixão surgisse ela seria negada, pois aquele que a nega os valores que existem por detrás dela. Dessa forma a metafísica afirma-se mais uma vez como necessária colocando-se inseparavelmente da ética. Mesmo assim Schopenhauer aponta para as dificuldades de tal tarefa dizendo: “Eu só vejo a saída de contentar-me com um esboço geral, de dar mais indicações do que desenvolvimentos, de apontar o caminho que leve ao alto, mas não trilhá-lo até o fim e, acima de tudo, de dizer apenas uma pequena parte daquilo que eu, sob outras circunstâncias, aduziria aqui”193 Na realidade essa explicação metafísica está ligada diretamente ao pensamento metafísico de Schopenhauer e a sua Filosofia em sua integralidade, por isso é necessário apresentarmos as questões da representação e da vontade que serão de extrema importância aqui onde o dito “mistério” da compaixão será desvendado. 192 Schopenhauer A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p.205 193 Schopenhauer A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p.163 108 Pelo menos onde será apresentado de maneira sucinta uma tentativa de elucidação que deve ter obrigatoriamente o conhecimento da metafísica da vontade e da representação. Logo no inicio, do suplemento, Schopenhauer explica o procedimento metafísico, o abandono da experiência, mas deixa bem claro que de nenhuma maneira filiar-se- á aos sistemas metafísicos pós-kantianos chamados por ele de delírios e contos de fadas194. Como ele mesmo diz a compaixão que até então foi apresentada como elucidação torna-se o problema a resolver e explicá-la é outro grande problema, logo de início Schopenhauer nos apresenta algumas características dessa compaixão que são de grande importância para a sua compreensão. É a compaixão natural, indestrutível e inata em todo homem195. Dessa forma já teríamos o ponto de partida para os questionamentos concernentes a compaixão nessa última investigação: por que a compaixão é inata, indestrutível e natural no homem?O que faz com que ela seja assim?Antes, porém Schopenhauer irá explicar o que faz de um homem um homem bom ou um homem mau. Em suas próprias palavras “Um homem que, em virtude de seu caráter, não gosta de ser contrário aos desejos de outrem, mas de preferência lhe presta ajuda e assistência quando pode,será chamado em consideração a isto, de um homem bom”196 Mais à frente nosso pensador dirá que para um homem bom, como o acima mencionado, existe uma distância pequena ou quase inexistente com o mundo, isto é, entre ele e o mundo praticamente não há diferença, distância alguma.Que dizer então de alguém que dá a vida por outrem?A conclusão, segundo Schopenhauer só pode ser uma: entre ele e o outro não havia diferença, quando alguém faz o bem ele o faz, pois entre ele e o outro não há diferença, de alguma maneira isso acontece. Diferentemente o homem chamado de mau é aquele para o qual essa diferença, essa distância é enorme, entre ele e o outro não há nenhuma ligação, para seus olhos a diferença entre ele e o outro é gigantesca e isso o faz ser egoísta e quando não malvado, essa diferença para o homem cruel, ou seja, para aquele que de maneira maligna se alegrar com o sofrimento alheio é ainda maior e por isso mesmo é que surge as suas atitudes terríveis em relação ao outro.Vemos assim, que bondade e maldade para Schopenhauer estão ligadas em suas explicações com um princípio de identificação com o outro para quem a ação é dirigida. 194 Schopenhauer A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes: São Paulo: 2001. p.210 195 Schopenhauer A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes: São Paulo: 2001. p.212 196 Schopenhauer A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p.211 109 Será de extrema importância como veremos, termos estudado a metafísica da vontade e também, como já dissemos, a representação, pois é nesses dois pontos principais do pensamento de nosso autor que encontraremos a resposta para essa aproximação responsável pela compaixão e pelos atos morais surgidos da compaixão, únicos que podem ser considerados moralmente desinteressados. Ainda para a pessoa extremamente generosa, Schopenhauer dirá sobre a diferença entre os homens: “Em contrapartida, para o homem bom esta diferença não é de nenhum modo tão grande, e, mesmo nas ações generosas, ela aparece como suprimida, uma vez que se favorece o bem alheio às custas do próprio e que, portanto, o eu alheio é equiparado ao próprio e, onde muitos outros há para se salvar, o próprio eu lhes é totalmente sacrificado, desde que o indivíduo entregue sua vida por muitos”197. Com as palavras acima fica claro que existe para aquele que faz o bem uma espécie de identificação com a pessoa que recebe o bem, tanto que na maioria das vezes o benfeitor cria para si mesmo um problema ao ajudar o outro ou até mesmo perece, como já citado existem casos em que aquele que ajuda perde sua própria vida, um membro e mesmo assim o faz de bom grado. Como seria possível isso se ela não se identificasse com outro de alguma maneira já que para Schopenhauer o mundo é tão terrivelmente cruel e em regra as pessoas egoístas? Assim começa de maneira sucinta a aparição daquela que seria a explicação para a compaixão. Podemos já identificar que sua mais importante característica é a identificação, de alguma maneira com aquele que sofre. Enquanto para o egoísta pleno a distância e a diferença entre ele e os outros, é enorme, para o caridoso essa distância e diferença parecem ser para Schopenhauer muito pequena. Nosso pensador vai ainda mais longe dizendo que tal diferença é praticamente inexistente em alguns casos. Em alguns casos aquele que faz a caridade chega até mesmo a dar sua própria vida em razão de outra ou de outras vidas, assim, a diferença, entre ela e as outras pessoas, na realidade, parece não existir, o que há é uma identificação em casos como esse, total, integral, no qual aquele que pratica a caridade entrega-se por completo para a salvação de outrem. Em relação a essa questão Schopenhauer faz um pergunta realmente interessante e que esclarece ainda mais o que será dito: 197 Schopenhauer A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p.213 110 “Pergunta-se agora se a apreensão da relação entre os próprios eu e o alheio, que está no fundamento das ações do caráter bom, é errada e repousa num engano ou se isso não acontece, pelo contrário, com a apreensão oposta, em que se apóiam o egoísmo e a maldade”198 O que Schopenhauer pergunta é se no momento em que uma pessoa considerada boa pratica uma caridade seja qual for, essa sua identificação é equivocada, se na realidade não existe identificação alguma, ou se aquele que é egoísta a age pensando apenas em si mesmo, em sua total diferenciação com os outros é que está equivocado. Schopenhauer aqui já levanta a primeira indicação do que será a explicação apresentada por ele para a compaixão. Nosso pensador levanta, em nosso entender, a possibilidade de não existir uma diferença de fato entre as pessoas. Mas se assim o fosse que motivo faz das pessoas egoístas? Schopenhauer afirmará isso dizendo que empiricamente o egoísmo é com rigor justificado, pois a experiência nos mostra isso apresentando-nos o outro distante de nós, fazendo com que a diferença entre o outro e nós seja plena, assim o egoísmo seria a opção mais óbvia a ser tomada, já que a experiência demonstra a diferença entre nós e os outros. Mas ainda assim Schopenhauer continuará: “Em contrapartida, seria de se notar, em primeiro lugar, que o conhecimento que temos do nosso próprio eu não é, de nenhum modo que se esgote e que seja claro até seu ultimo fundamento”199. Segundo Schopenhauer conhecemos o nosso corpo não inteiramente a partir da intuição que o nosso cérebro tem, a partir dos dados de nossos sentidos. Assim essa intuição é muito pequena e de nenhuma maneira consegue penetrar naquilo que nós realmente somos, seja lá o que somos não nos é acessível de nenhuma maneira integralmente. Para nós nossa essência permanece um mistério que pelas nossas sensações não nos é dado. Segundo Schopenhauer o conhecimento que temos de nós mesmos é extremamente 198 Schopenhauer A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p.212 199 Schopenhauer A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p.212 111 superficial200 , sendo assim somos nós mesmos o enigma que se conhece apenas como fenômeno. Dessa forma, aquilo que realmente somos permanece totalmente desconhecido, o que nos é entregue como conhecimento de nós mesmos é extremamente pequeno e assim se justificaria o egoísmo sempre como vencedor em todos os casos, pelo menos em um primeiro momento, pois nele somos realmente diferentes um do outro totalmente. Mas isso como dissemos, se dá através de um conhecimento superficial que não atingiria a nossa essência, porque atos compassivos de generosidade e justiça continuam acontecendo. Se mesmo tendo esse conhecimento superficial de nós mesmos que nos diz que somos diferentes por completo dos outros, continuamos a ver atos de autêntica moral, ou seja, atos de compaixão acontecendo o que é que isso significaria? Significaria que talvez a nossa parte mais essencial, mais íntima, mais real, não tenha essa diferença, pode ser que através de um conhecimento superficial de nós mesmos essa parte na qual seriamos iguais a todos os outros fique escondida, não revelada, mas atuando, isto é, fazendo diferença em nossa vida e até mesmo regendo certos atos. Schopenhauer sobre isso dirá sobre essa parte mais essencial d todos nós: “Resta apenas uma possibilidade de que ela seja em todos a mesma e idêntica”201Assim é preciso que a identidade entre todos os seres exista de alguma maneira para que a compaixão exista. Sem essa unidade a generosidade, bondade etc., seriam de certa forma inviáveis, impossíveis. Voltando para sua metafísica Schopenhauer dirá que toda a multiplicidade dos seres repousa sobre o espaço e o tempo, somente por eles a individualização dos seres é possível. Para Schopenhauer, espaço e tempo são apenas formas da nossa própria faculdade de intuição, não pertencendo ao objeto propriamente dito, não são pertencentes às coisas em si mesmas em seus dizeres, espaço e tempo pertencem apenas ao fenômeno que é falso, Véu de Maia. 200 Schopenhauer A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p.213 201 Schopenhauer A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001.p.213 112 Assim começa a surgir a explicação da compaixão, se espaço e tempo são apenas ideais, isso significa que eles não são pertencentes à “coisa em si”, ou seja, não existem de fato, não possuem nenhuma ligação com a verdadeira essência do mundo e se é através deles que surge a individualidade pois são eles o “principium individuationis”202. Assim a individualidade como todo fenômeno é uma mera ilusão, ela não existe por si mesma, de uma maneira misteriosa somos todos a mesma coisa, a mesma essência e por isso nos identificamos a ponto de esquecermos nossa ilusória individualidade, a multiplicidade dos seres, e termos compaixão um do outro, deixando de lado o egoísmo. Na realidade nossa essência é uma, apenas uma coisa que no fenômeno manifesta-se de diversas formas, formas essas que não podem ser a “coisa em si” de nenhuma maneira, são apenas fenômenos e como tal devem ser encarados. De alguma forma em algum momento a “coisa em si” sempre una aparece e nesse momento o múltiplo desaparece e a compaixão surge. O homem vê no outro a mesma essência que possui em si mesmo e o ajuda sem nenhum tipo de interesse. Segundo Schopenhauer essa doutrina que afirma a unidade dos seres não é algo novo e sim bem antigo, já estando presente nos livros dos Vedas e Upanishads, até mesmo na escassa filosofia segundo Schopenhauer, de Pitágoras ela está presente. Schopenhauer diz: “O espaço e tempo são, porém estranhos à “coisa em-si”, quer dizer, à verdadeira essência do mundo; a multiplicidade também o é necessariamente.” 203. Aqui o enigma já está quase que totalmente resolvido, depois disso, Schopenhauer ainda afirmará que o entendimento de que o eu e o não eu não são diferentes, não é o entendimento errado, com isso ele afirma que a distinção entre os seres, ou seja, a multiplicidade é que é a errada e, quando o homem age tendo em vista essa multiplicidade, essa separação, ele age de maneira errada. A multiplicidade dos 202 Schopenhauer A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p.218 203 Schopenhauer A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p.218 - 219 113 seres é na verdade o erro a ser suprimido, é a ilusão, o Véu de Maia do qual o homem deve se libertar. A compaixão, então, aparece como inicio dessa libertação, pois ela tem em seu intimo essa essência, ou seja, todos os seres na realidade são apenas uma mesma coisa, por isso a compaixão é possível. Enquanto em um primeiro momento o homem é levado pelo egoísmo ilimitado, em um segundo momento esse egoísmo é refreado pela realidade de que todos os seres são a mesma coisa. A unidade dos seres é o motivo pelo qual existe a moral, isto é, a compaixão seria, portanto a base metafísica da ética a unidade de todos os seres, aquilo que faria despertar a compaixão e necessariamente a cessação da ilusão da individualidade, a consciência de que sua essência verdadeira encontra-se imediatamente no outro. Agir conforme a bondade então é agir pela sabedoria, aquele que age através da bondade demonstra conhecer essa verdade pelo menos naquele momento. O mais interessante dessa explicação do fundamento da moral que seria a unidade dos seres é que aquele que pratica o bem, que age justa ou caridosamente não apenas está colocando-se no lugar do outro, não é uma mera identificação psicológica com o outro de maneira nenhuma, como o autor bem diz “O autor se reconhece a si próprio a sua essência verdadeira, imediatamente no outro”, aquele que age compassivamente simplesmente é o outro, em sua essência é o outro. Mas ainda que o homem generoso não seja um intelectual é possível observar nele a compaixão fruto desse conhecimento profundo que até mesmo alguns eruditos se esqueceram de ver. Como vimos a individuação nada mais é do que mero fenômeno que segundo Schopenhauer, surge entre espaço e tempo que são nossas faculdades mentais de conhecimento, assim toda a individualidade é mera representação e por assim dizer, ilusão tão somente. Sobre a compaixão como fruto desse conhecimento Schopenhauer nos falará: “Minha essência interna verdadeira existe tão imediatamente em cada ser vivo quanto ela só se anuncia para mim, na minha autoconsciência”204 Isso seria a palavra em sânscrito “ta-twam-asi” que 204 Schopenhauer A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p.219 114 significa “isto é tu”, é exatamente desse conhecimento que surgem toda a bondade, doçura e atos altruístas. Assim a conclusão a qual chegamos é que a bondade só pode existir quando a representação cessa, quando a ilusão se desfaz, na representação a bondade é impossível, pois nela, como já vimos, reina a crueldade e a guerra de todos contra todos. A bondade nada mais é do que dirigida para aquele conhecimento de que todos os seres são em essência a mesma coisa, na realidade o que Schopenhauer quer dizer é que todos os seres são a mesma coisa, na realidade a individuação como visto é apenas fenômeno, mas o “em si” na realidade é a mesma coisa, assim, todos os seres, são na realidade unos, são uma mesma coisa. No ato de generosidade, por exemplo, a barreira criada pela representação a essa verdade é quebrada. Assim o grande mistério da compaixão estaria resolvido, é a unidade existente entre os seres a responsável pela compaixão e, consequentemente, por todo ato de generosidade justiça e caridade. Schopenhauer afirma que o outro nada mais é do que nós mesmos ao dizer: “mas quem, animado pelo “neikos”, penetrasse hostilmente no eu odiado opositor e chegasse até seu íntimo mais profundo, neste descobriria, para seu espanto, a si próprio “205. Mais uma vez a afirmação de que o que acontece na compaixão não é apenas uma identificação psicológica, não, é algo que transcende isso, o outro é o próprio agente da ação generosa, todos nós somos apenas uma coisa tão somente, uma mesma essência por uma ilusão dividida, individualizada, mas que em determinados momentos apresenta-se como é, isto é, una. 205 Schopenhauer A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p.219 115 Conclusão Vimos a moral kantiana desabar segundo Schopenhauer e depois a sua própria moral surgir como única procedente. Estudamos a visão de mundo do autor, onde o mesmo é representação e vontade. Falta-nos agora apresentarmos a justificação da questão oferecida ao inicio deste trabalho. Como vimos o mundo é representação e vontade, a representação é a ilusão, o chamado “Véu de Maia”, nela tudo é ilusório, sua verdadeira essência, a vontade, não está submetida a ela. Vimos também que fazemos parte desse esquema, sendo assim, somos vontade, mas também somos nosso “eu” ilusório, ou seja, não existe individualidade, tudo é apenas uma mesma coisa, a essência universal é a vontade.Assim, já que tudo é vontade cega e incessante, o mundo é uma guerra total, todos contra todos. Quem não se desvencilhou da ilusão da representação agirá sempre, ou quase sempre, de maneira egoísta, sendo assim, necessária foi a explicação metafísica do fenômeno da compaixão. Na representação não há espaço para a “bondade”, é preciso que o Véu da ilusão rasgue-se e a verdadeira essência do universo apareça. Assim a compaixão não poderia ter outra explicação, no momento em que ela acontece a ilusão cessa, mesmo que temporariamente e a nossa verdadeira essência aparece, “vivemos” a verdade de que somos apenas uma mesma coisa, a representação naquele momento acaba, deixamos a ilusão e agimos conforme a verdade. Impossível seria existir a compaixão se a ilusão continuasse. Schopenhauer deixa bem claro que na compaixão não há apenas uma mera identificação com o outro, mas nos descobrimos no outro, somos o outro. Sobre a compaixão nosso pensador dirá: “Isto pressupõe, porém, que eu tenha me identificado com o outro numa certa medida e, consequentemente, que a barreira entre o eu e o não – eu tenha sido, por um momento suprimida. Só então a situação do outro, sua precisão, sua necessidade e seu sofrimento tornar –se – ão meus”206 com ‘eu’ schopenhauer quer dizer fenômeno e consequentemente ilusão. Nada pode ser tão claro quanto isso. Sidarta Gautama iniciou sua busca pela iluminação depois de ter sentido compaixão, ela abre as portas para a negação e para o desejo de vencer a ilusão, tanto que, segundo a lenda, a sua última tentação foi sua própria imagem. Concluindo, no momento da compaixão a ilusão da individualidade não pode 206 Schopenhauer A. Sobre o fundamento da moral, trad. Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, Martins fontes, São Paulo: 2001. p.163 116 existir, ambas não podem coexistir. É por isso que alguns dão a própria vida por outros, pois saberia de alguma maneira que aquele que socorre é ele mesmo, nesse momento não vivem a representação. Pensamos ter esclarecido a questão por completo, mas daremos mais exemplos dessa interpretação. Nietzsche que através do seu Zaratustra defendeu o egoísmo foi um grande crítico da compaixão, por ser ela, em nossa interpretação, em seu pensamento o inicio do fim da individualidade que ele tanto tentou manter: Tanto a compaixão como a passagem que ela torna possível para a negação da vontade, são, pois alvos da crítica de Nietzsche, que identifica ambas como ideais cristãos “207. Não é difícil encontrar tais críticas em Nietzsche, escolhemos uma que bem demonstra isso: “Piedade para todos” – seria dureza e tirania contra ti mesmo, meu caro”.208 Mas mesmo assim vencer a compaixão seria para Schopenhauer impossível, pois enquanto o homem existir, ela existirá e com ela a cessação mesmo que momentânea da individualidade. 207 Cacciola M. Lucia Schopenhauer e a questão do dogmatismo, Maria Lucia Mello e Oliveira Cacciola, FAPESP, São Paulo: 1994 208 Nietzsche F. Além do bem e do mal, trad. Armando amado Junior, WVC, São Paulo: 2002 p. 97 117 BIBLIOGRAFIA I - Obras de Schopenhauer SCHOPENHAUER, Arthur. A arte de conhecer a si mesmo, São Paulo: Martins Fontes, 2009 – tradução de Jair Barboza. ___________________. Aforismos para a sabedoria de vida, São Paulo: Martins Fontes, 2006 – tradução de Jair Barboza. ___________________. Crítica da Filosofia Kantiana, In: Coleção “Os Pensadores”, São Paulo: Nova Cultural Ltda, 1997 - tradução de Maria Lúcia Mello e Oliveira Cacciola ___________________. Fragmentos para a História da Filosofia, São Paulo: Iluminuras, 2003 - trad. Maria Lúcia Mello e Oliveira Cacciola. ___________________. Metafísica do Amor, Metafísica da Morte, São Paulo: Martins Fontes, 2009 – tradução de Jair Barboza. ___________________. O mundo como vontade e como representação, São Paulo: Unesp,2005 – tradução de Jair Barboza. 118 ___________________. Parerga e Paralipomena, In: Coleção “OS PENSADORES”, São Paulo: Nova Cultural Ltda, 1997 – tradução de Wolfgang Leo Maar e Maria Lúcia Mello e Oliveira Cacciola. ___________________. Sobre o fundamento da moral, São Paulo: Martins Fontes, 2001 – Tradução de Maria Lucia Mello oliveira Cacciola. I - Comentadores de Schopenhauer BARBOZA, Jair. A Metafísica do Belo de Arthur Schopenhauer, São Paulo: FAPESP, 2001. ___________________.Schopenhauer a decifração do enigma do mundo, São Paulo:Editora Moderna,1997. BRUM, José Thomaz. O pessimismo e suas vontades, Rio de Janeiro: Rocco, 1998. BRUM, José Thomaz. O Pessimismo e suas vontades: Schopenhauer e Nietzsche. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 1998. CACCIOLA, Maria Lúcia Mello e Oliveira. Schopenhauer e a Questão do Dogmatismo. São Paulo: Edusp, 1994. CARDOSO, Renato César. A idéia de justiça em Schopenhauer. Belo horizonte: Argumentum, 2008 119 JANAWAY, Christopher. The Cambridge Companion to Schopenhauer, Cambrigde University Press, 1999 JANAWAY, Cristopher. Schopenhauer. In “Coleção Mestres do Pensar” São Paulo: Edições Loyola, 2003 MAIA, Muriel. A outra face do nada, Petrópolis: Vozes, 2001 PERNIN, Marie José. Schopenhauer decifrando o Enigma do Mundo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar editor, 1995 – tradução de. Lucy Magalhães, 1995 VECHIOTTI, Icilio. Schopenhauer. Lisboa: Edições 70, 1986 - Tradução de João Gama, CARDOSO, Renato César. A idéia de justiça em Schopenhauer. Belo horizonte: Argumentum, 2008 III - Outras Obras Consultadas ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Martins fontes, 2003 ARANTES, P. Eduardo. O Ressentimento da Dialética. São Paulo: Paz e Terra, 1996. 120 BARROS, Fernando de Moraes. A Maldição Transvalorada: O problema da civilização em “O Anticristo” de Nietzsche. São Paulo: Discurso Editorial; Ijuí, Editora Unijuí, 2002. CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Editora Ática, 2005. GONÇALVES, Ricardo M. Org. Textos budistas e zen-budistas.São Paulo:Cultrix. 1999. HOBBES, Thomas. Leviatã ou Matéria, forma e poder de um estado eclesiástico e civil. In: Coleção “Os Pensadores”, São Paulo: Abril Cultural, 1997 – tradução de João Paulo Monteiro e Maria Beatriz Nizza da Silva. HÖFFE, Otfried. Immanuel Kant. São Paulo: Martins Fontes, 2005 – tradução de Cristian Viktor Hamm Valerio Rohden HUME, David. Diálogos sobre a religião natural. São Paulo: Martins Fontes, 1992 – tradução de José Oscar de Almeida Marques. ___________________. História natural da religião. São Paulo: UNESP, 2004 – tradução de Jaimir Conte. KANT, Immanuel. Crítica da razão prática. São Paulo: Martins Fontes, 2008 – tradução Valerio Rohden. 121 ___________________. Crítica da razão pura. In: Coleção “OS PENSADORES”, São Paulo: Nova Cultural, 1996 – tradução de Valerio Rohden e Udo Baldur Moosburger. LEBRUN, Gérard. Kant e o fim da metafísica. São Paulo: Martins Fontes, 2002 – tradução de Carlos Alberto Ribeiro de Moura. MARTON, Scarlett. Extravagâncias ensaios sobre a filosofia de Nietzsche. São Paulo: Barcarolla, 2009. MONTAIGNE, Michel. Os ensaios. São Paulo: Editora Nova cultural Ltda, 1996 – tradução Sergio Milliet NIETZSCHE, Friedrich. Além do bem e do mal. São Paulo: WVC Gestão Inteligente, 2001 - tradução de Armando Amado Junior. ___________________. A gaia ciência. São Paulo: Companhia das letras, 2001 – tradução Paulo Cesar Lima de Souza. ___________________. Assim falou Zaratustra. São Paulo: Bertrand Brasil S.A., 1995 – tradução de Mario da Silva. ___________________. Genealogia da moral. São Paulo: Companhia das Letras, 1999 – tradução de Paulo César de Souza. 122 ___________________. Aurora. São Paulo: Companhia das Letras, 2004 – tradução de Paulo César de Souza. ___________________.Obras Incompletas. In: Coleção “Os pensadores”. São Paulo: Abril Cultural, 1996 – tradução de Rubens Rodrigues Torres Filhos. ONFRAY, Michel, Tratado de ateologia.São Paulo: Martins Fontes, 2007 – tradução de Monica Stahel PEREZ, Daniel Omar. Kant no Brasil. São Paulo: Escuta Ltda, 2005. RAMOS, Flamarion Caldeira. Tragédia e Redenção: O significado moral da existência na filosofia de Schopenhauer. São Paulo: dissertação de mestrado, USP, 2003. ___________________. O pessimismo e a questão social em Philipp Mainländer. In: “Caderno de filosofia alemã, 10”, 2007, p. 35-50. PASCAL, Georges. Compreender Kant. Petrópolis: Vozes, 2005 – tradução de Raimundo Vier. ROUSSEAU, J. J. Emílio ou da educação. São Paulo: Martins Fontes, 2004 – tradução de Roberto Leal Ferreira. 123 TERRA, Ricardo. Kant e o direito. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2004. ___________________. Passagens estudos sobre a filosofia de Kant. Rio de Janeiro: UFRJ, 2003. VOLPI, Franco. O niilismo. In: Coleção “LEITURAS FILOSÓFICAS”. São Paulo: Edições Loyola, 1999 – tradução de Aldo Vannucchi. WALKER, Ralph. Kant. In: Coleção “GRANDES FILÓSOFOS”. São Paulo: UNESP, 1998 – tradução de Oswaldo Giacóia Junior. WILLIAMS, Bernard. Moral uma introdução à ética. São Paulo: Martins Fontes, 2005 – tradução de Remo Mannarino Filho.