UNIJUÍ – UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL DHE – DEPARTAMENTO DE HUMANIDADES E EDUCAÇÃO CURSO DE EDUCAÇÃO FÍSICA AFFONSO MANOEL RIGHI LANG AS POSSIBILIDADES E OS ENTRAVES NO DESENVOLVIMENTO DE UMA UNIDADE DIDÁTICA SOBRE LAZER NAS AULAS DE EDUCAÇÃO FÍSICA EM UMA ESCOLA MILITAR DO NOROESTE GAÚCHO Ijui/RS 2014 2 AFFONSO MANOEL RIGHI LANG AS POSSIBILIDADES E OS ENTRAVES NO DESENVOLVIMENTO DE UMA UNIDADE DIDÁTICA SOBRE LAZER NAS AULAS DE EDUCAÇÃO FÍSICA EM UMA ESCOLA MILITAR DO NOROESTE GAÚCHO Trabalho de Conclusão de Curso de Educação Fìsica do Departamento de Humanidades e Educação da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul, como requisito parcial para a obtenção do título de licenciado em Educação Física. Orientador: Dr. Fernando Jaime González Ijuí/RS 2014 3 A Banca Examinadora abaixo assinada aprova o trabalho de conclusão de curso: AS POSSIBILIDADES E OS ENTRAVES NO DESENVOLVIMENTO DE UMA UNIDADE DIDÁTICA SOBRE LAZER NAS AULAS DE EDUCAÇÃO FÍSICA EM UMA ESCOLA MILITAR DO NOROESTE GAÚCHO elaborado por AFFONSO MANOEL RIGHI LANG como requisito parcial para obtenção do título de Licenciado em Educação Física. Ijuí (RS), 16 de janeiro de 2014. BANCA EXAMINADORA _______________________________________ Professor Dr. Fernando Jaime González Orientador _______________________________________ Professor Dr. Paulo Evaldo Fensterseifer Examinador Titular 4 DEDICATÓRIA Não conseguirei expressar em poucas palavras tudo o que fizeram por mim. Desde sempre me apoiando e sonhando comigo os meus sonhos. Apoio incondicional do início ao fim. Estrutura familiar, cobrando e incentivando para que sempre desse o meu melhor. Gilmar e Maristela, obrigado por tudo, amo vocês. Tenham a certeza que esta é apenas mais uma das grandes conquistas das quais vocês foram partes fundamentais. Amo vocês! 5 AGRADECIMENTOS Posso dividir a minha vida até esse momento em ciclos: o tempo de escola, do futebol, o tempo das dúvidas profissionais e pessoais e o tempo da graduação. Todos esses ciclos não foram percorridos sozinhos, sempre tive grandes pessoas ao meu lado. Chegou a hora de agradecer. Sem sombra de dúvida alguma devo agradecer primeiramente à minha família. Pai e mãe foram os principais incentivadores desta conquista, porém, junto com eles toda a família Lang e Righi. Ter recebido o apoio de todos foi e tenho certeza que será fundamental! Quantas caronas e pernoites no tempo de futebol em Porto Alegre! Quanto incentivo para que eu continuasse jogando e estudando. Os jogos cessaram e o estudo prosseguiu! Quantos “puxões de orelhas” para que eu estudasse mais. Quantas correções de ortografia “gratuitas” da Mãe Maristela! Quantas conversas com os pais, tios, tias, primos e primas, amigos e namorada em função da graduação. Muito obrigado por tudo, família! Amo vocês! Amigos! Escolhidos a dedo! Tenho a certeza de que os que estão por perto eu posso contar em todas as situações. Sei que nos últimos tempos estive um pouco distante, mas também sei que vocês entendem o porquê. Tenham a certeza de que se eu cheguei até aqui, foi porque vocês também foram fundamentais. Também devo agradecer a primeira escola que me empregou como professor: CEPP. Devo grandes agradecimentos a esta instituição que desde o início me acolheu com muita confiança no meu trabalho. Desde a indicação pela Giliane Dessbesel (sou especialmente grato por todo o apoio durante toda a graduação) até a aceitação da Monica e da Cheila, e claro, de todos os colegas da escola. Aos alunos por aceitarem o meu trabalho e colaborarem para que eu continuasse acreditando na profissão que escolhi seguir. Também devo aqui agradecer aos professores do Curso de Educação Física da Unijuí que fizeram parte da formação obtida até aqui. Carlan, Fensterseifer, Leopoldo, Sidinei, Maria Simone, Lisi, Dari e Mauro, serei eternamente grato pelos ensinamentos, todas as conversas e 6 incentivo que prestaram para mim durante todo o período de graduação foram fundamentais. Ter vocês como professores é um verdadeiro privilégio. Por último quero agradecer ao orientador deste trabalho de conclusão de curso: Fernando Jaime González, o argentino mais temido do curso de Educação Física da Unijuí! Lembro-me como se fosse hoje quando um colega comentou comigo que eu era “louco” por fazer dois componentes curriculares ao mesmo tempo com ele. Eu iria perder o couro, iria desistir no meio do caminho, essas foram as palavras do meu colega, não as minhas. Tanto não desisti como me aproximei ainda mais do argentino. Quantos aprendizados! Poder fazer parte do grupo de pesquisa comandado por você me fez crescer muito profissional e pessoalmente! Agradeço por todo apoio e suporte acadêmico, todas as oportunidades de convívio e evolução acadêmica que ainda estão no início. Até aqui muito obrigado! 7 RESUMO Dentre os vários temas que ganharam repercussão na área da Educação Física nos últimos anos, pode-se destacar o Lazer. Dentro das suas possibilidades de “uso”, sobressai-se dentro de uma gama de significados, a integração social. Porém, ao tratar sobre Educação Física escolar e lazer algumas dúvidas surgem: deve o lazer ser um conteúdo a ser trabalhado na escola? Mais especificamente na Educação Física? Seria possível romper com a tradição escolar ou até mesmo superar o abandono pedagógico e ministrar aulas na perspectiva da inovação pedagógica tematizando o lazer? Este estudo em formato de pesquisa-ação propôs o desenvolvimento de uma Unidade Didática com dez (10) encontros em turma de Ensino Médio de uma escola militar do noroeste gaúcho a fim de analisar e examinar as possibilidades e os entraves para o desenvolvimento das aulas. Vale ressaltar que a turma na qual foi desenvolvida a unidade didática estava acostumada a aulas em formato tradicional da EF, e por vezes também com situações de abandono pedagógico conforme diagnóstico realizado antes do desenvolvimento da unidade didática. Observou-se que os alunos envolvidos na pesquisa, apesar de terem demonstrado uma resistência inicial, aceitaram o tipo de metodologia utilizada, que propôs aulas teóricas aliadas às práticas desenvolvidas, a utilização de material didático e caderno, além da apresentação de trabalhos e avaliação sistematizadora. O que chamou a atenção foi a forma com a qual os alunos encararam o novo formato da disciplina, tratando-a como um componente curricular assim como as demais disciplinas que compõem a grade da instituição. Fato este verificado pelos debates gerados em aula, na qualidade dos trabalhos apresentados, no resultado da avaliação sistematizadora e no desenvolvimento das demais atividades propostas durante a unidade. Destacam-se alguns pontos que surgiram como entrave: (a) romper com a situação de aulas em abandono pedagógico e (b) tentar ministrar aulas na perspectiva da inovação pedagógica. Enquanto os fatos que possibilitaram (facilitaram) o desenvolvimento da UD destaco: (a) a história da EF(b) planejamento da UD bem delimitado, (c) os conteúdos para a temática bem definidos, (d) a aceitação dos alunos, (e) os tipos de trabalhos realizados e (f) as aulas práticas articulada ao conteúdo teórico abordado na sala de aula. Palavras-chave: Educação Física Escola; Investimento Pedagógico; Lazer. 8 SUMÁRIO RESUMO ................................................................................................................................... 7 SUMÁRIO .................................................................................................................................. 8 INTRODUÇÃO .......................................................................................................................... 9 Problema ............................................................................................................................... 10 Objetivo Geral ...................................................................................................................... 10 Objetivos específicos ............................................................................................................ 10 JUSTIFICATIVA ..................................................................................................................... 11 1 REVISÃO BIBLIOGRÁFICA .............................................................................................. 12 1.1 Quais os propósitos da Educação Física na escola? ....................................................... 12 1.2 O que é lazer como fenômeno social e cultural? ............................................................ 14 1.3 Qual é o papel da EF em relação ao lazer? ..................................................................... 17 1.4 O lazer nas aulas de EF: algumas experiências .............................................................. 19 1.5 A renovação das aulas de Educação Física: possibilidades e entraves........................... 21 2 ESCOLHAS METODOLÓGICAS ....................................................................................... 24 2.1 Critérios de escolha da escola ......................................................................................... 24 2.2 Sujeitos da pesquisa ........................................................................................................ 24 2.3 PROCEDIMENTOS ....................................................................................................... 25 2.3.1 Coleta de dados ........................................................................................................ 25 2.3.2 Instrumentos da pesquisa ......................................................................................... 25 3 RESULTADOS ..................................................................................................................... 27 4 ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS ............................................................... 37 4.1 Os aspectos que dificultaram o desenvolvimento da UD ............................................... 37 4.2 Os aspectos que potencializaram/facilitaram o desenvolvimento da UD....................... 39 CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................................... 42 REFERÊNCIAS ....................................................................................................................... 44 APÊNDICES ............................................................................................................................ 47 Apêndice 1 ............................................................................................................................ 48 Apêndice 2 ............................................................................................................................ 49 9 INTRODUÇÃO Um dos temas que vem ganhando destaque no cenário da Educação Física (EF) é, sem sombra de dúvidas, o Lazer1. Este tem, dentre suas características, a possibilidade de integrar pessoas, fazê-las descontrair do dia a dia cada vez mais corrido, conhecer novas práticas corporais, ressignificar sentidos éticos, estéticos e políticos (REQUIXA, 1976; MARTINS, 2010; MARCASSA, MASCARENHAS, 2005). Mas como trabalhar com esta temática nas aulas de EF? Ou ainda, será o Lazer conteúdo pertinente a ser trabalhado na escola? Bracht (1997) comenta que “o lazer e a educação para o lazer parecem, cada vez mais, serem considerados um tema e uma tarefa também da Escola” (p. 30). Dentro da proposta do autor, entende-se que (dentro da perspectiva atual de alguns professores de EF) quando o Lazer aparece nas aulas de EF, existe a necessidade de romper com uma barreira bem conhecida da área: a tão criticada EF Tradicional (GONZÁLEZ; FENSTERSEIFER, 2009; SILVA; BRACHT, 2012), pois esta última abstém-se de trabalhar conteúdos teóricos, desenvolvendo apenas os práticos. Bracht (2003) e Darido (2001) em seus estudos apontam para pontos favoráveis na introdução da temática Lazer nas aulas de EF. Pois segundo os autores, é dentro da escola que os alunos apreendem a entender e interpretar o mundo que os cerca. Portanto, nesta perspectiva, o Lazer pode ser compreendido como uma temática a ser desenvolvida não somente pela EF, mas por toda a escola, já que se trata de um direito de todos os cidadãos. Visto as afirmações acima o que propus para este estudo é o desenvolvimento de uma Unidade Didática (UD) que tematiza o Lazer, particularmente, em um educandário em que as 1 A palavra lazer será apresentada em dois formatos durante o trabalho: (a) quando aparecer Lazer estarei falando do seu significado mais amplo e (b) Lazer será para expressar quando se trata da tematização da Unidade Didática proposta. 10 aulas de EF transitam entre dois tipos de atuação docente: (a) aulas tradicionais de EF e (b) abandono pedagógico (LANG; GONZÁLEZ, 2012). Mais especificamente o que buscamos pesquisar foi as possibilidades e os entraves no desenvolvimento de uma unidade didática sobre Lazer nas aulas de educação física em uma escola militar do noroeste gaúcho. PROBLEMA Quais as possibilidades e os entraves de desenvolver uma UD que tematiza o Lazer nas aulas de EF Escolar diante de um quadro de ensino “tradicional” da disciplina2? OBJETIVO GERAL Conhecer as possibilidades e os entraves de desenvolver uma UD que tematiza o Lazer nas aulas de EF Escolar num contexto de ensino “tradicional” da disciplina. OBJETIVOS ESPECÍFICOS Examinar os aspectos que dificultaram o desenvolvimento da UD frente ao quadro de ensino tradicional da disciplina; Analisar os aspectos que potencializaram/facilitaram o desenvolvimento da UD frente ao quadro de ensino tradicional da disciplina; 2 É uma concepção de aulas em que o aluno participa apenas como executante de ações motoras estipuladas pelo professor. Isto é, as aulas apresentam linearidade frente aos conteúdos e geralmente o aluno aprende por imitação, tornando-se dependente. 11 JUSTIFICATIVA Desde o início da graduação em EF, sempre me perguntei por que eu deveria seguir no curso. Segui pela satisfação pessoal, profissional, pela aproximação e envolvimento com o esporte de rendimento, pelos círculos de relacionamento, amigos, conhecidos e demais situação que o mundo da EF me proporcionou. Porém, ao chegar ao final do ciclo acadêmico eu ainda tenho algumas perguntas sem respostas, a principal delas era justificar a presença da EF na escola. Nos últimos dois anos, sempre que penso na EF escolar e sua justificativa, penso como um dos principais elementos o Lazer. Isso foi uma concepção desenvolvida durante a graduação, pois na minha época de aluno de EF de escola, eu apenas queria jogar futebol, nada mais (fato que encontrei por diversas vezes durante os estágios curriculares em que atuei como professor estagiário). Porém, durante a graduação, acabei descobrindo um mundo muito maior, que conheci pelo nome de Cultura Corporal de Movimento (CCM). Mas onde e como utilizar todo esse arsenal da CCM? Meu entendimento sobre isso está ligado diretamente com o Lazer, ou seja, a parte da execução da CCM fora do ambiente escolar seria desenvolvida nos momentos de Lazer (exclui-se aqui o alto rendimento). Dentro disso sempre me perguntei por que pouco se ouvia falar sobre a presença do Lazer como um conteúdo de sala de aula. Foi a partir deste momento que decidi dedicar o Trabalho de Conclusão de Curso à temática apresentada anteriormente. 12 1 REVISÃO BIBLIOGRÁFICA Nesta parte, desenvolverei tópicos que se entrelaçam na fundamentação teórica da proposta de trabalho. Primeiramente irei tratar sobre os propósitos da EF na escola, logo após discutirei sobre o que é Lazer como fenômeno social e cultural, também desenvolvo uma parte em que tratarei sobre a função da EF em relação ao Lazer. A terceira parte desta etapa contempla algumas experiências de se trabalhar o Lazer nas aulas de EF e a última trata sobre as possibilidades e os entraves de inovar nas aulas de EF. 1.1 QUAIS OS PROPÓSITOS DA EDUCAÇÃO FÍSICA NA ESCOLA? A EF tem nos Parâmetros Curriculares Nacionais -PCN- (BRASIL, 1997) uma base conceitual que respalda a sua permanência na grade curricular da Educação Básica. Nesse documento oficial, lançado pelo Ministério da Educação, a EF escolar tem “seus fundamentos nas concepções de corpo e movimento”. Mas muito além de movimentar o corpo, a EF deve “considerar também as dimensões cultural, social, política e afetiva, presentes no corpo vivo, isto é, no corpo das pessoas, que interagem e se movimentam como sujeitos sociais e como cidadãos” (BRASIL, 1997, p. 22). Considerar todas essas outras dimensões que o PCN nos faz entender, conforme o próprio texto, que a EF deve ser pautada nos conhecimentos culturais produzidos pela Cultura Corporal do Movimento (CCM). Nessa linha, o documento afirma que [...] a área de Educação Física hoje contempla múltiplos conhecimentos produzidos e usufruídos pela sociedade a respeito do corpo e do movimento. Entre eles, se consideram fundamentais as atividades culturais de movimento com finalidades de lazer, expressão de sentimentos, afetos e emoções, e com possibilidades de promoção, recuperação e manutenção da saúde (BRASIL, 1997, p. 23). Ao pensar sobre a forma de ensinar e compartilhar esses conhecimentos adquiridos sobre a CCM, o documento abrange a ideia de que 13 a Educação Física escolar pode sistematizar situações de ensino e aprendizagem que garantam aos alunos o acesso a conhecimentos práticos e conceituais. Para isso é necessário mudar a ênfase na aptidão física e no rendimento padronizado que caracterizava a Educação Física, para uma concepção mais abrangente, que contemple todas as dimensões envolvidas em cada prática corporal. É fundamental também que se faça uma clara distinção entre os objetivos da Educação Física escolar e os objetivos do esporte, da dança, da ginástica e da luta profissionais, pois, embora seja uma referência, o profissionalismo não pode ser a meta almejada pela escola. A Educação Física escolar deve dar oportunidades a todos os alunos para que desenvolvam suas potencialidades, de forma democrática e não seletiva, visando seu aprimoramento como seres humanos (BRASIL, 1997, p. 24). Portanto, independente do conteúdo a ser trabalhado nas aulas de EF, não se deve dar ênfase apenas ao ensinamento prático de determinado conteúdo. Mas sim, segundo o próprio PCN, quanto aos conteúdos trabalhados, o aluno deve ter a oportunidade de “apreciá-los criticamente, analisá-los esteticamente, avaliá-los eticamente, ressignificá-los e recriá-los” (BRASIL, 1997, p.24). Alguns autores, que desde o início da década de 80 promoviam um movimento renovador dentro da EF, já defendiam a ideia da EF pautada pela CCM muito antes do PCN ser publicado. Porém, anos depois Bracht (1997, p. 49), ao comentar sobre a busca da legitimação pedagógica da EF, afirma que é necessário considerar/postular que a cultura corporal/movimento resume um acervo produzido pelo homem que precisa ou merece ser veiculado pela instituição educacional, acrescentando-se, no entanto, que é preciso fazer a crítica cultural e superá-la. Outros autores ligados a este movimento renovador defendem ideias parecidas. González e Fraga (2012) afirmam que a EF deve ser um componente curricular da escola que propicie diferentes experimentações, conhecimentos e apreciação de outras formas de manifestação corporal do movimento, “compreendendo-as como produções humanas dinâmicas, diversificadas e contraditórias” (p. 42). Os estudiosos comentam ainda que a finalidade da EF deve ser voltada ao tratamento das “possibilidades dos movimentos dos sujeitos, representação e práticas sociais que constituem cultura corporal de movimento, estruturada em diversos momentos históricos e, de algum modo, vinculados ao campo do lazer e da saúde” (p. 43). Portanto, podemos entender que a EF pode ser pautada no eixo do desenvolvimento da CCM. Assim sendo, a EF assumiria seu papel principal que, segundo Bracht e González (2005, p. 155) passa por “formar indivíduos dotados de capacidade crítica em condições de 14 agir autonomamente na esfera da cultura corporal de movimento e de forma transformadora como cidadãos políticos”. Ao tratar dos assuntos citados durante o texto, podemos perceber a importância da EF na escola. Sua função vai muito além de apenas movimentar os alunos, ela deve propiciar a eles experiências que lhes permitam a possibilidade de se tornarem sujeitos críticos e autônomos quanto às suas práticas corporais, muni-los de conhecimento para que possam intervir e transformar o meio em que vivem, além de propiciar a eles opções de algumas modalidades em que possam ser proficientes e utilizá-las como fonte de Lazer. Dentro disso, destaco a importância de trabalhar o Lazer nas aulas de EF na perspectiva de ser um direito do cidadão brasileiro, bem como os deveres perante a temática. A discussão em torno dos propósitos da EF é ampla, mas para que possamos delimitar o objetivo do estudo, discutiremos o fenômeno social e cultural que é o Lazer. 1.2 O QUE É LAZER COMO FENÔMENO SOCIAL E CULTURAL? Para que seja possível entender o fenômeno social e cultural do Lazer, primeiro precisamos entender o significado da palavra. Segundo o dicionário Aurélio, “lazer” tem três significados que se entrelaçam: 1. Ócio, descanso, folga, vagar; 2. Tempo que se pode livremente dispor, uma vez cumpridos os afazeres habituais; 3. Atividade praticada nesse tempo; divertimento, entretenimento, distração, recreio. A interpretação dos significados nos faz entender que Lazer é realizar atividades durante o tempo livre, depois de ter cumprido com o papel de trabalhador. Essa interpretação acaba abarcando uma área que envolve a inserção social e cultural do indivíduo. E é justamente este ponto que será debatido neste tópico, isto é, a abordagem do Lazer na sua realidade (não apenas conceitual), vista como fenômeno social e cultural. A aproximação com o ambiente social e cultural do Lazer propicia leituras em que é possível identificar significados diferentes, porém aproximados dentro da temática. Dumazadier (1979), ao fazer uma abordagem sociológica do tema, atribui quatro diferentes eixos estruturadores na significação do Lazer. O primeiro defende a ideia de que o Lazer não é uma categoria, mas sim “um comportamento, sendo possível de encontrá-lo em qualquer atividade (trabalhar com música, estudar brincando, lavar louça ouvindo rádio)” (DUMAZADIER, 1979, p. 88); o segundo relaciona o Lazer ao trabalho, em que, no ponto de vista dos economistas, “resume-se inteiramente ao não trabalho” (DUMAZADIER, 1979, p. 89); o terceiro está atrelado a uma definição mais complexa, na qual se entende que deve estar 15 incluso no “mesmo tempo das obrigações sócio-políticas necessárias ao funcionamento de uma democracia e as atividades que alguns qualificam como evasão, na medida em que podem desviar o cidadão de suas obrigações sócio-políticas”( DUMAZADIER, 1979, p. 90). O quarto eixo relata que “o indivíduo se libera a seu gosto da fadiga descansando, do tédio, divertindo-se, da especialização funcional, desenvolvendo de maneira interessada as capacidades de seu corpo ou de seu espírito” (DUMAZADIER, 1979, p. 92). Várias são as leituras que compreendem o Lazer como fenômeno social e cultural. Em um texto que aborda a relação entre Lazer e EF expõe-se que este apresenta grandes contribuições ao apresentar as possibilidades de ação e inserção do mesmo, na organização social. Entende que a participação social mais ampla dos indivíduos será facilitada pelas atividades de lazer, visto a disposição de integração na vida de grupos culturais e convívio social, além da motivação para a ampliação da imaginação criadora, e estímulo ao aprimoramento, à participação e a colaboração ao progresso social que elas oferecem (REQUIXA, 1976, apud SILVA, 2011, p.3). Na mesma linha de pensamento, Martins (2010, p. 46) afirma que a diversidade das manifestações culturais são “grandes e presentes” na vida das pessoas e nos seus lazeres. Sendo elas culturais, acabam transmitindo “certos significados, valores, normas, jeitos de ser, servindo como expressão e forma de intervir no mundo” (MARTINS, 2010, p. 46). O mesmo autor destaca uma citação de Pinto (2001, p. 47), em que é identificado duas tendências do Lazer em nosso país: uma conservadora, atribuindo ao Lazer a responsabilidade de preservação do equilíbrio social, e outra entendendo o Lazer como fenômeno social que dialoga com a sociedade e que possibilita o surgimento de valores questionadores que vislumbram mudanças neste quadro. Entendendo o Lazer como uma possibilidade de equilíbrio social, concluímos que existe a possibilidade de através do Lazer manter as pessoas em contato mesmo fora do ambiente de trabalho. Jogar um futebol com os colegas de empresa, correr em um parque com os amigos, pescar com familiares, várias são as possibilidades de praticá-lo. Mas, além disso, o Lazer, segundo o autor, também tem a possibilidade de fazer a sociedade pensar/agir sobre as formas e valores que surgem por meio dele. Ao concordar com o pensamento do autor citado anteriormente, Marcassa e Mascarenhas (2005, p. 257), afirmam que o Lazer propicia 16 [...] momentos que os jovens criam e reforçam seus laços de identidade social, que as crianças, por meio da atividade lúdica, interpretam e ressignificam o mundo que as cerca, que os adultos tecem suas relações sociais e renovam valores e comportamentos que fundamentam os princípios éticos, estéticos e políticos que regem a sociedade. Outras leituras nos possibilitam perceber a forma como o Lazer é tratado pelo sistema capitalista, em que, ao invés de ser tido com um direito já garantido pela Constituição Federal, é tratado como um produto. Em seu discurso, Martins (2010, p. 50) ao citar outro autor afirma que o lazer, desta forma, transforma-se de produção cultural, de direito social a direito de propriedade, em um bem ou serviço que precisa ser comprado. O Lazer passa de um direto do cidadão a um objeto de conquista no mercado, criando diversos produtos e subprodutos que são consumidos pelos que têm dinheiro, ou que são ofertados às pessoas que não têm dinheiro por programas de assistência com objetivos atrelados ao sistema capitalista (MASCARENHAS, 2004, p. 80-81). Este discurso nos faz pensar que ao invés de torná-lo um meio de integração social, acaba agindo de forma contrária, produzindo assim, uma forma de exclusão automática daqueles que não podem pagar por determinado tipo de Lazer. Martins (2010) adota uma posição parecida, afirmando que “a contradição está presente também no Lazer, sendo este possibilidade de luta contra o capital e as desigualdades que fundam a alienação, sendo o lazer momento para exercer a cidadania” (p. 50). A discussão em torno do Lazer é muito ampla, mas um ponto básico sobre o assunto está atrelado a uma fase pós-revolução industrial, momento em que as classes defensoras dos trabalhadores começaram a cobrar momentos e espaços de lazer. Melo (2003, apud VILELA, 2006, p. 2) afirma que é ponto comum o fato de que o lazer é um fenômeno moderno, surgido com a artificialização do tempo de trabalho típico do modelo de produção fabril desenvolvido a partir da Revolução Industrial. Neste sentido ele tem-se mostrado um campo de tensões, para esta compreensão basta entendermos que o tempo livre maior aparece não como concessão dos donos dos meios de produção, mas sim como conquista das organizações das classes trabalhadoras. Mas por que o Lazer nunca foi oferecido de livre e espontânea vontade pelos donos de indústrias e comércio? Talvez essa pergunta possa ser respondida pelo viés da alienação, pois assim, os donos dos meios de produção estariam evitando que pessoas de diferentes categorias conversassem e trocassem ideias sobre as realidades vividas em outros setores, evitando assim, possíveis conflitos com seus patrões. Segundo Vilela (2006, p. 3), evitando o acesso ao 17 Lazer, pode-se ter uma ofuscação de conhecimento, o qual se envolvidos com a prática, poderiam ter contato com “qualidade de vida, bem estar físico, mental e social”. Antes de entrarmos no debate sobre o papel da EF em relação ao Lazer, trazemos uma reflexão feita por Carvalho (2006, p. 41), em que a autora sintetiza o Lazer como fenômeno cultural e social com a seguinte afirmação: Como prática social ele se traduz como atividade humana construída historicamente com a intenção de dar respostas às necessidades sociais, identificadas pelos que fazem a história do seu tempo a partir das condições objetivas nele presente. E a capacidade de inventar maneiras de ser e de viver permite identificar diferentes manifestações do lazer e do lúdico em nosso meio - que se reflete tanto nas condições de vida (de moradia, de trabalho, de saúde, de educação) como nos valores pessoais e coletivos. Dentre as inúmeras formas, é o fazer junto com o outro e o conjunto de significados que se atribui ao fazer que se constitui o humano do coletivo, e é nesse sentido que o lazer é compreendido como um fenômeno sociocultural, uma manifestação humana, um direito de todo cidadão. Mas como repassar estes conceitos de Lazer como fenômeno social e cultural aos nossos alunos, visto que a discussão é ampla e complexa? Para isso, tentaremos entender como o tema pode ser ensinado/abordado/discutido nas aulas de EF através de uma busca bibliográfica sobre o assunto. 1.3 QUAL É O PAPEL DA EF EM RELAÇÃO AO LAZER? A compreensão do fenômeno social e cultural do Lazer nos leva a pensar como esse conhecimento deve chegar aos alunos. Qual a relação entre a EF escolar e o lazer? Bracht (2003, p. 147) aprofunda a reflexão ao questionar: “lazer é ou deve ser uma referência fundamental para a teoria e a prática da EF quanto componente curricular?”. Explicar o lazer como tema a ser tratado na escola sem o apoio dado pela cultura parece uma tarefa inviável, visto que o Lazer se constitui através da evolução sócio, histórica e cultural da sociedade. Forquin (1993, apud BRACHT, 2003, p. 148) afirma que a responsabilidade de ter que transmitir e perpetuar a experiência humana considerada cultura, é o que justifica fundamentalmente o empreendimento educativo. A cultura é o conteúdo substancial da educação, sua fonte e sua justificação última. Outro tipo de abordagem feita por Bracht (2003) revela que o Lazer não deveria ser um tema específico da EF. Mas sim abordado por toda escola, de forma a reconhecê-la como um direito do cidadão. E mais do que isso, atrelar ao Lazer o significado de “nobre e 18 importante, o que implica colocar em questão as próprias finalidades sociais da instituição escolar” (BRACHT, 2003, p. 164). Em uma abordagem crítica sobre o modelo atual de ensino, Bracht (2003, p. 165) afirma que a “atual cultura escolar privilegia os saberes conceituais”. Na visão do autor, chegou o tempo de mudar esta concepção e propiciar “um maior espaço para outras linguagens, como a arte e o movimento” (p.165). A crítica do autor vem seguida de outros significados sobre a educação em geral. Abordando a perspectiva tecnicista da educação, “que objetiva tão somente o rendimento no trabalho ou a preparação para o vestibular, tende a negar a necessidade da preparação para a vida no seu sentido amplo” (BRACHT, 2003, p. 167). A relação feita pelo autor sobre o atual momento da educação e o Lazer tenta explicar alguns pontos cruciais. Dentre eles destacamos um: como fazer um cidadão ter o seu momento, ou a capacidade de reconhecer o seu espaço/tempo de Lazer se durante sua passagem na escola ele não teve aproximação com o tema ou com práticas corporais envolvidas pela CCM que possam mesmo que de forma mínima, propiciar momentos de Lazer? Muito mais do que esse questionamento, podemos discutir também como o Lazer pode ser aproveitado/praticado. Porque tempo livre disponível para o Lazer grande parte da população tem, o maior problema estaria em como fazer o indivíduo reconhecer este espaço como um momento em que é dono do seu tempo, em que pode escolher a forma com que vai utilizar este tempo livre. E principalmente, munir este indivíduo de conhecimento para que tenha a oportunidade de fazer escolhas mais saudáveis, de forma mais autônoma, bem como lutar por espaços onde possa ter possibilidades de praticar o Lazer. Outra abordagem feita pelo autor nos faz perceber que existem sim formas de fazer o indivíduo reconhecer a temática do Lazer dentro da escola e de aplicá-las em outros momentos. Bracht (2003, p. 167) destaca que a escola também tem a tarefa de ajudar a continuar a dar vida à cultura (lúdica), mas a partir de um outro entendimento da relação cultura-trabalho; entendendo cultura como um conceito produtivo: criar, produzir cultura, tarefas de sujeitos e não meros consumidores de produtos. Em outras palavras, o autor defende a ideia de que devemos ajudar na formação de sujeitos autônomos e críticos, de forma que o indivíduo não seja um alienado do sistema atual. Também fica o legado de que não cabe somente à área de EF trabalhar o Lazer, mas sim a todo ambiente escolar. 19 Outros autores apresentam argumentos na mesma linha de Bracht. Darido (2001, p.15), citando o PCN, defende que cabe ao ensino abrir as portas para que os alunos possam “reivindicar, organizar e interferir no espaço de forma autônoma, bem como reivindicar locais adequados para promover atividades corporais de lazer”. Fazendo relação com a última citação, em proposta organizada por González e Fraga (2012, p. 88), os autores buscam articular Lazer e EF. Os estudiosos propõem na construção de uma UD, que seja feita uma pesquisa para “identificar locais disponíveis no bairro e materiais (oficinas e alternativos) necessários para a prática”, além da ideia de confeccionar um “cadastro dos espaços públicos próximos ao local de residência dos alunos em que podem ser realizadas as práticas corporais em estudo”. Seguindo sua linha de pensamento, em uma abordagem sobre os conteúdos a serem trabalhados, Darido (2001, p. 21) argumenta que a EF também tem o papel de mostrar o esporte (por ser a forma de lazer mais difundida no Brasil). Porém “com intenções de lazer” e com a intenção da profissionalização, para que se possa ter a diferenciação necessária entre o “esporte da rua” e o esporte profissional. Não somente nos esportes, mas em todos os campos da CCM deveríamos propiciar momentos em que os sujeitos fossem críticos quando a sua prática. Podendo assim, decidir se aquela prática lhe faz bem e se traz algum benefício para a sua vida. Nesse sentido, para González e Fraga (2012, p. 85) a EF deve proporcionar que “ao longo dos anos finais do ensino fundamental, os alunos adquiram um nível de proficiência que potencialize seu envolvimento em atividades recreativas no contexto do lazer e amplie suas redes de sociabilidade”. Após fazer a relação entre o que a EF deve propor nas aulas, o que o Lazer carrega como fenômeno social e cultural e o que se defende em relação ao Lazer nas aulas de EF, passaremos a estudar as vivências das aulas de EF em que foi tematizado o Lazer. 1.4 O LAZER NAS AULAS DE EF: ALGUMAS EXPERIÊNCIAS Neste tópico iremos abordar a forma como o Lazer vem sendo trabalhado nas aulas de EF. Nosso objetivo é verificar como ocorre a aproximação com o tema, como ele é tratado e como é visto por pesquisadores da área. Em muitos casos relatados, é difícil entender o que realmente acontece nas aulas, mas as proposições feitas sobre o tema levam-nos a crer que, quando é trabalhado o tema, é abordado através de conceitos teóricos, com pouca ligação com a prática, como o que se verifica no PCN (1997) e em Marcellino (1995). 20 Dentre as justificativas para se trabalhar o Lazer nas aulas de EF, encontramos em Oliveira (s.d.), um discurso muito interessante. A autora afirma que a discussão sobre o lazer no tempo livre também pode ser abordada durante as aulas. A partir da realidade vivida pelos alunos, podemos problematizar mudanças nos modos de produção do cotidiano, enfatizando o aumento do tempo livre e a possibilidade de sua utilização para o desenvolvimento da criatividade humana por intermédio da cultura corporal, além das questões sociais acerca do lazer e suas barreiras em razão das diferenças sociais (MARCELLINO, 1995, apud, OLIVEIRA, s.d.,). Notamos o interesse da docente em descentralizar o tema lazer apenas no tempo livre, já que aborda diversos aspectos relacionados, como a criatividade e as questões sociais atreladas ao que o lazer desencadeia. Apesar do bom exemplo citado acima, parece existir um desconforto – talvez por falta de conhecimento – por parte dos docentes em geral quanto à tematização do Lazer nas aulas de EF. Em um estudo sobre aulas de EF em que é tematizado o Lazer, Martins (2010, p. 94) comenta que é certo que ao ter a cultura corporal de movimento como objeto de estudo da Educação Física, e principalmente quando temos os esportes, os jogos, as danças, as lutas e as ginásticas como as manifestações que representariam a parcela desta cultura que seria de sua responsabilidade no trato pedagógico na escola, a Educação Física têm a possibilidade de assumir uma forte relação com o Lazer. Assim, apesar do esforço para ser tematizado o Lazer nas aulas de EF, muitos docentes têm encontrado dificuldades principalmente em como tematizar o assunto, pois para os discentes o “lazer está associado ao não fazer nada, ao brincar, ao prazer, a satisfação, ao não produzir, o descanso, a diversão, ao estar com os outros, e a aprendizagem – uma multiplicidade de significados” (MARTINS, 2010, p.94). Para agravar a situação, em um grupo estudado pelo mesmo autor, uma característica gera preocupação, ou seja, nota-se que “em parte ou no todo, as aulas de EF deste grupo são classificadas pelos alunos como Lazer, pois trazem algumas destas características (citadas acima)” (MARTINS, 2010, p. 94). Talvez a explicação para este fenômeno esteja na ausência da temática Lazer nas aulas de EF, ou até mesmo na não existência de um significado para as aulas de EF. 21 1.5 A RENOVAÇÃO DAS AULAS DE EDUCAÇÃO FÍSICA: POSSIBILIDADES E ENTRAVES Para que seja possível a introdução da temática do Lazer nas aulas de EF são necessárias algumas quebras de paradigmas em relação ao que tradicionalmente se faz na EF. Paradigmas estes que devem ser superados tanto por professores como por alunos, visto que só existe aula com ensino/aprendizado se existir interação entre docentes e discentes. Porém, ao tratar mais especificamente sobre o assunto, algumas ponderações são necessárias sobre as possibilidades e os entraves ao inovar. Vários são os fatores que influenciam na renovação das aulas de EF. Dentre as possibilidades (facilitadores) a literatura aponta o planejamento, a metodologia de trabalho e a formação inicial, continuada e as disposições pessoais de quem assume o desafio. Enquanto como entraves, aparecem a tradição da área e a concepção que muitos alunos têm sobre a EF, oriunda da própria história da disciplina. Dentre os facilitadores que potencializam o investimento pedagógico apresentamos o caso de uma professora. A docente continua motivada a planejar e trabalhar (estando a poucos anos de se aposentar) e tem a EF vista pelos alunos como uma matéria tão importante quanto os outros componentes curriculares (aqui destacado o planejamento e as disposições pessoais frente à EF). Uma das características observadas pelos pesquisadores é que nas aulas dela os alunos têm cadernos específicos para serem utilizados durante as aulas teóricas e práticas de Educação Física, assim como em qualquer outra disciplina, e a professora solicita que eles os tragam sempre quando houver aulas, pois ela pode não avisar antecipadamente sobre sua utilização (GALVÃO, 2002, p. 69). Cabe destacar que para o autor do artigo citado anteriormente, vários fatores em comum são destaques no sucesso para a inovação pedagógica. Dentre eles, destacam o planejamento da EF escolar bem estruturado (OLIVEIRA, 2004) e a metodologia utilizada pelos professores são fatores comuns entre estes perfis de docentes. Destacam ainda que quando os mesmos se utilizam da perspectiva de “abordar os conteúdos em suas diferentes dimensões: conceitual, procedimental e atitudinal” (GALVÃO, 2002, p. 71) existe uma potencial facilitação em relação à sequência e desenvolvimento do trabalho pedagógico. É obvio que não existem apenas facilitadores no dia a dia da EF que tenta inovar em sala de aula. Pois muitos são os casos em que professores são desafiados pela própria tradição da EF ao tentar inovar. Uma das principais dificuldades encontradas pelos professores vem da concepção do próprio aluno em relação ao componente curricular, em que 22 os significados pessoais atribuídos à aula de Educação Física, as experiências anteriores com outros professores e em outras escolas, além da influência de outros aparatos, espaços e instituições que tratam das manifestações da cultura corporal, constituem elementos que perpassam o trabalho docente dos professores de Educação Física diariamente (WITTIZORECKI; MOLINA NETO, 2005, p. 62). Porém, o aluno não pode ser responsabilizado sozinho neste momento, pois normalmente, nestes casos, ele está acostumado com a cultura escolar da EF (Tradicional). Sendo assim é lógico que quando os alunos já experienciaram por muitos anos uma prática pedagógica de Educação Física em que o jogar bola correspondia quase a totalidade do tempo da aula, possivelmente vão ter alguma dificuldade até se adaptar a um novo método, ou melhor, a uma nova perspectiva (SILVA, 2008 p. 64). Cabe aqui ressaltar que o desafio de inovar na EF não é tarefa fácil, porém não é impossível. Os estudos sobre o caso coincidem em apontar que se o professor apropriou-se de conhecimento específicos na formação inicial, tem a consciência de que o planejamento é fundamental, que a sua metodologia de trabalho é o que dará ritmo a seu trabalho e que o conteúdo a ser trabalhado deve ser seu forte em sala de aula, ele terá (deveria ter) plenas condições de inovar nas aulas de EF. Sobre a preocupação com a abordagem da formação inicial como um dos fatores fundamentais na inovação, vale destacar que é impossível não admitir que, se o curso de formação inicial não obtiver êxito no que se refere à compreensão e ao reconhecimento por parte dos acadêmicos acerca da importância da perspectiva da Educação Física como componente curricular, e se, ainda, não muni-los com saberes/conhecimentos para que possam desenvolver esta ideia em suas futuras práticas pedagógicas, cresce consideravelmente a probabilidade de que esses sujeitos venham a repetir apenas o que sabem, o que experienciaram ao longo de suas trajetórias como alunos (SILVA, 2008, p. 73). Porém não é apenas a formação inicial que pode potencializar a inovação pedagógica nas aulas de EF. Destaco outro fator importante, a formação continuada, que segundo Silva (2008, p. 125) “favorece a qualificação da prática pedagógica do professor”. O mesmo autor ainda destaca que a formação continuada apresenta para o docente “outras maneiras possíveis de se realizar a prática pedagógica em Educação Física” (p.126). Sendo assim, professores que buscam conhecimento, mesmo após terem concluído a graduação, têm grandes chances de qualificarem suas práticas, tendo assim, um provável diferencial em sua atuação docente. Retomando a perspectiva de pouca apropriação de conhecimento na formação inicial, surgem os primeiros vícios encontrados no discurso de professores com perfil diferente dos 23 inovadores. Normalmente afirmam que não existem matérias suficientes para que seja possível realizar algumas práticas (não posso deixar de concordar, pois em várias escolas a que tive acesso durante a graduação, realmente, apresentam poucos materiais disponíveis), porém não me sinto confortável ao aceitar isso como um real motivo. Sabe-se hoje que a EF na perspectiva da inovação aceita e até indica a adaptação de materiais. Mas não posso deixar de concordar e citar uma indagação feita por Silva (2008, p. 65): “se falta material até para ensinar os esportes tradicionais, como ensinar outros, que inclusive para os professores são desconhecidos?”. Sobre a falta de materiais, Silva (2008, p. 66) traz algumas ponderações próximas ao que penso sobre o assunto. O autor destaca que realizar a prática pedagógica em Educação Física na perspectiva da construção do conhecimento dispensa que a escola tenha todos os materiais oficiais do esporte ou da atividade a ser desenvolvida, pois nessa perspectiva não é a melhoria das condições técnicas do aluno que se está priorizando, e sim a vivência por parte do aluno daquela manifestação da Cultura Corporal de Movimento de nossa sociedade. Vale salientar que são necessárias ainda algumas reflexões: como trabalhar o Lazer na perspectiva da inovação em aulas de EF que normalmente tem seus encontros no formato tradicional? Ele deveria ser um conteúdo específico ou um tema transversal? Como favorecer a tomada de consciência sobre a importância do Lazer na vida da sociedade? Essas e outras perguntas geraram dúvidas durante o estudo que será apresentado. 24 2 ESCOLHAS METODOLÓGICAS Tendo como guia central os objetivos anteriormente citados, a pesquisa configura-se como descritiva, porém, em relação ao seu desenvolvimento, com base nos procedimentos técnicos utilizados para realizar a coleta de dados, essa investigação ocorreu na forma de pesquisa-ação. Esta é considerada por Thiollent (1985, p. 14 apud GIL, 2007, p. 55), como: [...] um tipo de pesquisa empírica que é concebida e realizada em estreita associação com uma ação ou com a resolução de um problema coletivo e no qual os pesquisadores e participantes representativos da situação ou do problema estão envolvidos de modo cooperativo ou participativo. No caso desta investigação, a pesquisa-ação relatou o desenvolvimento de uma UD tematizando o Lazer dentro de aulas regulares de EF de uma turma de Ensino Médio de uma escola de regime Militar, abrangendo uma metodologia de ensino aberta. Paralelamente ao desenvolvimento da UD de Lazer, também foi trabalhado o treinamento de aptidão física, pois por tratar-se de uma instituição militar tem em seus parâmetros de avaliação o Teste de Aptidão Física (TAF), sendo então necessário destinar um tempo dentro das aulas para tal treinamento. 2.1 CRITÉRIOS DE ESCOLHA DA ESCOLA Para selecionar a escola em que foi aplicado a UD que tematiza o Lazer, usamos um critério simples. A instituição foi escolhida por já estar engajada em um estudo realizado pelo mesmo pesquisador deste caso, porém nesse outro caso, tenta entender os fenômenos que potencializam ou não a reformulação do currículo de EF na escola. 2.2 SUJEITOS DA PESQUISA Para esta pesquisa-ação, foram observados os alunos de uma turma do 2º Ano de Ensino Médio de uma Escola Militar do noroeste do estado do Rio Grande do Sul. São vinte e três (23) alunos (12 meninas e 11 meninos) com idade média de dezesseis anos, oriundos de diversas classes sociais, provenientes da cidade sede da escola e de várias cidades vizinhas da região. A turma tem uma professora regente de EF, essa, após oito horas de observações para diagnóstico do ambiente de pesquisa, pode ser caracterizada como uma professora com o perfil de trabalho caracterizado pelo abandono docente (FARIA, et a., 2010), pois não apresenta planejamento de aulas e nem uma sequência lógica de aulas e conteúdos, além de 25 ter suas aulas “comandadas” pelos alunos, onde os mesmos tem poder de decisão sobre o que farão em cada um dos encontros. 2.3 PROCEDIMENTOS A pesquisa teve dez (10) encontros, com três meses de duração, momento em que fez trabalho duplo com o componente curricular Estágio Supervisionado em EF III. As aulas foram ministradas pelo próprio pesquisador duas vezes por semana, sempre ocorriam nas segundas e sextas-feiras, das 07h45min até as 09h25min. 2.3.1 Coleta de dados A coleta de dados foi realizada através do conhecimento dos alunos adquiridos ao transcorrer da UD. Após expormos quais os objetivos da UD, trabalhei com alguns sub-eixos em forma de seminário: 1) Quais as políticas públicas Federal, Estadual, Municipal relacionadas ao lazer; 2) Entrevistas com vereadores sobre o lazer em Ijuí; 3) Entrevistas com a população para saber o que acham dos espaços de lazer em Ijuí; 4) Qual a verba destinada para o lazer em Ijuí; 5) Quais os espaços públicos de lazer em Ijuí; 6) Quais os espaços privados de lazer em Ijuí; 7) O lazer na praça da república de Ijuí. Este seminário serviu de ferramenta avaliativa para a pesquisa como forma de analisar se é possível fazer intervenções desta maneira, além de também servir como ferramenta avaliativa dentro da UD. Após a realização das aulas pré-estabelecidas para a UD, foi realizada uma avaliação sistematizadora. Esta teve como eixo principal entender o que os alunos aprenderam sobre os conteúdos trabalhados na UD e o que essas aulas trouxeram de valores para a sua vida. Entretanto, também observei os entraves e as possibilidades encontradas pelos alunos e pelo pesquisador durante o período de pesquisa relativo ao desenvolvimento da UD sobre Lazer. 2.3.2 Instrumentos da pesquisa Para que fosse possível captar dados para serem analisados nesta pesquisa, utilizei algumas ferramentas que auxiliaram na reflexão a partir dos objetivos traçados para este estudo. Dentre as ferramentas destacaremos dois pontos, o primeiro está relacionado ao que o aluno aprendeu durante o período da pesquisa e o segundo a tentativa de identificar qual o nível de aceitação dos alunos em relação ao conteúdo. 26 Cabe aqui destacar que para o primeiro ponto comentado foi dado ênfase para dois tipos de avaliação. A primeira condiz com apresentação de seminário temático relacionado ao Lazer, em que a preocupação maior da avaliação dos dados esteve centrada no domínio conceitual desenvolvido pelos estudantes sobre a temática do Lazer. A segunda parte foi uma avaliação final sistematizadora, dissertativa/objetiva, em que tive a possibilidade de avaliar e analisar o que o aluno captou/aprendeu durante o desenvolvimento da UD. O segundo ponto a ser considerado neste estudo esteve centrado em entender qual a aceitação dos alunos em relação às aulas que tematizam o Lazer. Para tal, foi elaborado um conjunto de banco de dados que serviram de bases para avaliação: questionário de opinião, registro de atitudes e comentários durante as aulas em um diário de campo. 27 3 RESULTADOS Nesta etapa do trabalho, realizarei a apresentação dos resultados dos dados coletados. A discussão será pautada em três pontos fundamentais do que foi observado nas aulas: (a) as minhas percepções; (b) os comentários dos alunos; (c) o resultado dos trabalhos e avaliações realizadas durante o período de intervenção para o desenvolvimento da UD proposta. Ao introduzir a primeira aula ministrada da UD, deparei-me com alguns atravessamentos poucos positivos da cultura escolar no que se refere ao não uso do caderno nas aulas de EF pela professora regente. Muitos alunos não se preocuparam em pegar o caderno para anotar as informações passadas logo no início da aula, as quais davam conta da organização que teríamos para as próximas oito aulas. Aos poucos alguns alunos começaram a reclamar: “nunca vi usar caderno”, “pra que isso?”, “e o futebol?”. Expliquei que durante o período em que eu estivesse ali, eles teriam que utilizar sempre o caderno, pois trabalharia com muitas informações essenciais para eles. Antes de introduzir o conteúdo tematizando o Lazer, perguntei qual o entendimento que os alunos tinham do tema. Como resposta, escutei: “não fazer nada”, “dormir, comer”, “jogar play”, “viajar”, “caminhar”, “jogar futebol”, “jogar basquete”, “correr” e “ler” (Fragmentos do Diário de Campo, 06/09/2013). Porém a resposta mais marcante foi a que apareceu por último: “aula de EF!”. Após questionar o aluno sobre os porquês daquela resposta, escutei que aquele era o “momento de relaxar, de liberar as energias, de jogar um futebolzinho malandro” (Fragmentos do Diário de Campo, 06/09/2013). Após conceituar o Lazer através de constante debate e construção com os discentes, passei uma atividade (Tema de casa) em que os alunos deveriam pesquisar em uma praça próxima às suas casas as condições estruturais do espaço. Eles deveriam basear-se na tabela de Angelis et. al. (2004, apud GONZÁLEZ; FRAGA, p. 201, 2012) em que pontos como equipamentos e espaços para práticas corporais são analisados. O retorno após uma semana (primeira semana de Setembro de 2013) me proporcionou uma grata surpresa, todos demonstraram ter feito o tema, o que quando apresentado em sala acabou gerando uma bela discussão em torno dos espaços de Lazer perto das suas casas. Os espaços mais observados foram praças e clubes das diversas cidades da região das quais os alunos fazem parte. A discussão foi permeada pela diferença existente entre os espaços públicos e os espaços privados de Lazer. Ficou nítida a percepção que os alunos encontraram na comparação entre um tipo de espaço e outro. Porém, ao retratar o que poderiam fazer neste espaço, aconteceram algumas “confusões” quanto aos conceitos. Para poder balizar a 28 discussão entre jogo, esportes, atividades físicas e exercícios, acabei optando por conceituar cada um, para que em outras situações o diálogo entre eu e os alunos fosse um pouco mais claro. Durante cerca de quarenta minutos, conversamos e apresentei os conceitos e as características que diferenciam jogos, esportes, atividades e exercícios físicos. No início, eles tiveram algumas dificuldades para trabalhar com os conceitos, mas aos poucos, após notarem a diferença, começaram a falar: “Na praça que fulano observou só tem espaço pra jogos, não para esportes”, “então a diferença entre a academia que a gente paga e essas públicas é que um exercício planejado e a outra não!”. Poder participar desta construção de conceitos e transmitir significados para que, minimamente, os alunos se localizem, quando estiverem “de frente” com alguma prática corporal, produziu-me uma satisfação profissional muito positiva. Na segunda parte da aula, após o recreio, estava programado um circuito training. Sete estações de trinta segundos cada, visando trabalhar força e resistência. Após um rápido aquecimento com a brincadeira do rouba-rabo e alongamentos passamos para a atividade principal que foi realizada na rua frontal da escola. Todos os alunos participaram ativamente dos exercícios propostos, após o final de cada rodada eram liberados para tomar água. Como se trata de uma escola em que o Teste de Aptidão Física é um dos elementos avaliativos, achei necessário incluir na UD um momento de treinamento. Durante a realização dos exercícios propostos para este dia, alguns comentários foram surgindo. O principal e mais surpreendente foi de uma menina: “Nossa, eu estou ficando cansada, mas isso é bom, pelo menos estamos treinando para o TAF, a gente nunca fez isso”. O comentário surtiu certo constrangimento por parte da professora de EF da turma que estava perto da aluna. Ao final da segunda volta do circuito, criou-se uma certa tensão com a professora. Faltavam 25 minutos para o final da aula quando ela me chamou para um canto e avisou que falaria para os alunos irem para o banheiro tomar banho para ficarem prontos para a outra aula. Argumentei que não, que eu ainda estava dando aula, e que os alunos tinham mais uma volta do circuito para fazer. Avalio que a professora gostaria de mandar os alunos para o banheiro por dois motivos: o primeiro relacionado a não correr o risco de ter a sua atenção chamada por conta do horário, e o segundo, para não deixar os alunos concluírem o treinamento. Após terminar as três voltas propostas para o circuito, fizeram um breve alongamento e então liberei os alunos para que pudessem tomar banho, pois faltavam apenas 10 minutos para a troca do período. Ao final, ouvi alguns alunos reclamando de cansaço, de sede, de fome. Questionei-me então se o condicionamento físico deles estaria abaixo do necessário ou 29 o treinamento teria sido muito forte. Acredito que uma soma de fatores influenciou para esse acontecimento. A terceira aula tinha como programação uma visita à Praça da República de Ijuí. Logo no início da aula, entreguei novamente o questionário Levantamento dos equipamentos e estruturas existentes indicadas por Angelis et. Al. (2004, apud GONZÁLEZ; FRAGA, 2012, p. 201). Fizemos novamente a leitura de todo o questionário para que durante a visita não surgisse nenhuma dúvida que atrapalhasse o andamento da pesquisa. Um dos protocolos a ser seguido para sair com os alunos para ambientes externos a escola é a organização. Neste dia, do lado de fora da escola, a turma foi colocada em forma para que o deslocamento fosse feito de forma rápida (caminhando) e organizada. Ao longo do percurso que liga a escola à praça, a chefe de turma (uma aluna) me confidenciou algumas informações. A que mais me chamou a atenção foi a de que a turma inicialmente havia estranhado a minha metodologia de trabalho. Mas que na segunda aula em que as “coisas” começaram a fazer sentido, a grande maioria começou a gostar. Segundo ela, deixar de ter “atividades” na EF e passar a ter aula fez com que ela percebesse que a disciplina tem muita coisa para ensinar. Quinze minutos depois de termos saído da escola, chegamos à praça. Lá todos estavam com canetas, cadernos e questionários em punho, rapidamente combinamos o horário de retorno e então eles foram observar a praça. O questionário é dividido basicamente em duas partes: a primeira trata da observação da estrutura em geral da praça e a segunda sobre as áreas destinadas às práticas corporais sistematizadas. Rapidamente os alunos se espalharam pela praça e começaram a contar bancos, árvores, luminárias, pontos de ônibus, de táxi, etc. Aos poucos, alguns pequenos grupos foram se formando e as discussões sobre o espaço começaram a surgir. Ouço um comentário: “Não tem lancheria na praça, somente ao redor, então não faz parte da praça”. Outros comentários: “Que banheiro sujo!”, “Não tem ponto de ônibus na praça”, “Mede 100 metros x 100 metros”, “Não dá pra praticar esportes aqui”, “Tem 73 bancos, nossa!”. Perto da área denominada de academia ao ar livre, alguns alunos sentaram e começaram a refletir sobre aquele espaço. Será esta prática um momento de atividade ou de exercício? Escuto uma aluna dizendo: “É um momento de atividade, porque não tem ninguém orientando, nada é programado”, um aluno responde, “Depende, vai que alguém prescreveu um exercício com um objetivo, lembra do que o professor falou?”. Ao final da observação, reuni todos os alunos e falei que eles deveriam analisar e refletir sobre o que haviam encontrado na primeira praça que haviam observado (Tema de 30 casa da 1ª aula) e o que mudava em relação a esta. A discussão em torno disso ficaria para a próxima aula, pois já era hora de voltar à escola. Novamente a turma entrou em forma e retornamos para o educandário. A proposta para o quarto encontro estava dividida em três partes: a) discussão sobre a visita à Praça da República feita na última aula, b) montagem de grupos para realização de um seminário e c) um circuito training após o intervalo. Na primeira parte da aula, fui surpreendido pela adesão da turma em discutir sobre o espaço visitado na última aula. Foram cerca de quarenta minutos em que discutimos ponto a ponto do questionário. O ponto que ganhou maior destaque foi a estrutura referente às práticas corporais sistematizadas. Após discutirem e perceberem que a Praça da República não colocava à disposição quadras de esportes, locais próprios para caminhadas ou corridas, pista de skate ou ciclo faixas, fui indagado sobre os motivos dessa inexistência. Devolvi a pergunta para os alunos, desafiando-os a pensarem sobre. Alguns apontamentos começaram a surgir: “É uma praça que visa o encontro de pessoas, não de práticas corporais”; “Foi pensado com a finalidade de serem realizados eventos cívicos e festivos”; “Esporte no centro poderia atrair muitas pessoas, e com certeza faltaria espaço para todos”. Gostei muito desta discussão em que grande parte da turma se propôs a participar, discutindo e refletindo sobre o espaço, poder “provocá-los” neste eixo foi uma experiência fantástica. Partindo para a segunda parte da aula, pedi que fossem montados seis grandes grupos. Após a divisão, apresentei os temas propostos e foi realizado o sorteio de cada tema por grupo. Após terem os seus temas definidos, os grupos deveriam conversar um pouco sobre o assunto e montar um pré-roteiro do que fariam durante o trabalho. Esta atividade deveria ser entregue para posterior avaliação. Após todos terem entregado o trabalho inicial, combinei as datas de apresentações e o sinal para o intervalo soou. Ficou combinado de nos encontrarmos no saguão da escola para realizar o circuito training após o recreio. Logo após o término do intervalo, fizemos um aquecimento com uma brincadeira: let’s-cola. Após dez minutos da atividade, foram liberados para a água e no retorno, foi realizado o alongamento. Este dia o circuito training foi realizado dentro do saguão da escola, pois as condições climáticas não permitiam atividades em ambientes abertos. O Circuito Training foi novamente de tempo fixo: sete estações, trinta segundos, três voltas. Neste dia o objetivo era estimular a resistência localizada de membros inferiores. Pela característica do trabalho, alguns alunos demonstraram fadiga muscular logo no final de primeira volta no circuito, porém, expliquei que seria interessante eles continuarem fazendo 31 os exercícios para que realmente fosse trabalhada a resistência muscular localizada. Novamente ao final de cada volta os alunos eram liberados para tomar água. Neste dia, a professora não se manifestou, e até me ajudou com alguns alunos que demonstravam dificuldades motoras em alguns exercícios. Ao final da aula, reuni os alunos e me coloquei à disposição para dúvidas referentes ao trabalho (seminário). Algumas dúvidas referentes ao tipo de apresentação e tempo de duração da mesma foram respondidas. Questionei os alunos sobre o cansaço durante a aula, se notaram alguma evolução ou algo assim, a resposta mais ouvida foi de que cansaram do “Meio pro fim”, mas que estava sendo “Legal” treinar para o TAF, que provavelmente não iriam sofrer tanto na hora da prova. O quinto encontro ocorreu somente uma semana após o último, por conta do feriado alusivo à Revolução Farroupilha. Ao introduzir as atividades, realizei a mesma pergunta que eu havia feio no início da primeira aula: O que é Lazer? Escutei respostas totalmente diferentes. “Fazer algo que te faça bem, uma prática de esportes ou jogos, exercícios ou atividades, mas sem muita responsabilidade, que traga um bem estar”, “e saber reconhecer os espaços de lazer, se está bom ou não”, entre outras. Fui desenvolvendo o planejamento, perguntando e obtendo respostas: Como praticar o Lazer? Um esportista profissional tem na sua profissão ou momento de Lazer ou não? Como resposta, obtive: “Não professor! Ele recebe por isso, o lazer só deve trazer satisfação pessoal”. Posso ter um momento de Lazer no trabalho? “Depende, mesmo que tu goste do teu trabalho, tu recebe pra fazer aquilo, se no intervalo você joga um ping-pong você está tendo um momento de lazer”. Poder analisar a evolução dos alunos dentro de quatro aulas é muito bom, sair do “meu principal lazer é dormir” para essas ponderações que apareceram nesse, deixaram-me satisfeito. Na metade do primeiro período de aula perguntei se o Lazer pode promover saúde. Alguns falaram que sim, outros que não. Começamos a discutir sobre o tema e surgiram algumas ideias: “Não passar fome”; “Não ter doença”; “Viver em paz”. Comentei que tudo isso faz parte sim, mas que nada é saúde isoladamente. Entreguei cópias do texto Saúde na definição da OMS, o qual aborda a ideia de saúde através de três eixos: física, mental e social. Após a leitura e interpretação do texto fiz algumas perguntas relacionadas ao tema. Não ter doença? Ser feliz? Ter amigos? Ter comida no prato todos os dias? Ter uma casa? Ter uma cama? Ter uma televisão? Ter um celular? Tudo isso me assegura ter saúde? As respostas levaram cerca de vinte segundos para começarem a aparecer. Alguns conseguiram fazer um gancho entre o texto e as perguntas. “Nada é saúde isoladamente”, repetiu-me um aluno. 32 A argumentação geral dos alunos veio ao encontro da ideia central do texto. “A saúde depende de vários fatores, professor. Eu posso estar bem de saúde física e mental, mas se eu tenho um amigo doente, isso vai afetar a minha mente e consequentemente o meu meio social, então eu não posso afirmar que realmente tenho saúde se seguir esta ideia”. Fantástico! Grande parte da turma ficou surpresa com a resposta apresentada por um dos alunos mais participativos. Para terminar esta primeira parta da aula, antes do intervalo, informei que após o recreio faríamos um circuito training nos mesmos moldes no primeiro realizado pela turma. Após o recreio, realizamos o Circuito Training idêntico ao realizado na primeira aula. A adesão a esta aula foi melhor do que no primeiro encontro. Algumas meninas que se mostraram contrária à ideia inicial participaram com maior entusiasmo. Notei que grande parte da turma teve uma leve melhora no condicionamento físico, pois demoraram mais do que nas aulas anteriores para apresentar sintomas de fadiga. Um dos elementos foi de que aceitaram fazer os circuitos sem tomar água no intervalo entre as voltas. Ao final da aula em que realizávamos o Circuito Training, cada um dos grupos se tornava responsável por recolher e guardar em ordem os materiais utilizados durante a aula. Para o sexto encontro, estava programado uma palestra com o responsável pela Secretaria de Desporto e Lazer do município de Ijuí. Porém o funcionário entrou em contato para informar que não poderia se fazer presente. Para esta aula então, foi readequado o plano de aula. Decidi que os alunos fariam um trabalho em grupo, que consistiu em dividir a turma em três grupos, cada um deles ficaria responsável por criar um jogo que poderia ser utilizado como uma prática de Lazer. Vinte minutos da aula foi separado para a criação dos jogos em que foi perceptível a participação dos alunos durante a montagem do grupo. Após este momento inicial ocorreu o deslocamento da turma até um clube aquático (convênio entre o Clube e o liceu) perto da escola onde normalmente são realizadas as atividades esportivas. O primeiro grupo criou um jogo adaptado do basquete, denominado “Conebol”, uma espécie de basquete com alvo móvel, em que o objetivo do jogo era fazer cesta no cone segurado por um dos alunos. O segundo jogo foi o chamado “brusqueta”, uma mistura de let’s cola, kabaddi e pac-man. Os participantes deveriam se deslocar apenas por cima das linhas da quadra em que a aula foi desenvolvida. Enquanto isso, um participante era o pegador, que deveria colar os participantes. Para serem descolados, os jogadores não colados deveriam passar por debaixo da perna dos colados e falar “brusqueta”. Caso essa palavra não fosse dita, os dois alunos estariam então colados. 33 O terceiro e último jogo consistiu em uma mistura da amarelinha com basquete, esta disputa era em grupo. Cada grupo tinha direito a dez arremessos em que existia pontuação para cesta sem “queimada”, “cesta picada sem queimada”, “cesta com queimada” e “cesta picada com queimada”. Ao final, como prática reflexiva, vários alunos comentaram que nunca haviam criado um jogo assim, e que não imaginavam que um jogo poderia ser divertido e criado por eles mesmos. Ao serem indagados se a prática deste dia havia sido um exercício, atividade, jogo ou esporte surgiram algumas respostas diferentes entre atividades e jogos. Aproveitei para relembrar o conceito de jogo. Também indaguei se aquela poderia ser uma prática de Lazer entre eles ou entre grupos de fora da escola. Eles comentaram que poderia sim, “apesar de não parecer tão normal criar um jogo”. Cabe aqui ressaltar que a entrega de trabalho estava prevista para a próxima aula, porém foi necessário transferir a data por conta da não realização da palestra, necessária para que um dos grupos fizesse uma entrevista com o palestrante. Ao final da aula, os alunos entraram em forma e retornaram para a escola. Para o sétimo encontro o planejamento foi alterado, e a palestra acabou ocorrendo no centro poliesportivo da cidade, para facilitar o acesso do palestrante, já que ele estaria em horário de trabalho. Ao chegar à sala de aula, fui indagado pelos discentes se neste dia iríamos mesmo ir até o Poliesportivo para assistirmos à palestra. Na sala de aula, fiz os encaminhamentos necessários para que a visita fosse proveitosa, pedi que os alunos já fossem formulando questões durante a primeira atividade de observação proposta para aquele espaço para que posteriormente realizássemos as indagações para o nosso palestrante. Ao chegarmos ao Poliesportivo, rapidamente os alunos pegaram o questionário já utilizado na observação feita na praça da república e partiram para as observações. Trinta minutos após o início das observações, chamei a turma até as arquibancadas para uma rápida reflexão sobre o espaço em relação à Praça da República. Algumas boas ponderações sobre a finalidade de cada um dos espaços e a preservação da estrutura apareceram, novamente a discussão sobre a finalidade dos espaços se fez presente, foi unânime a discussão de que a Praça da República tinha um fim mais social enquanto o Poliesportivo fazia jus ao próprio nome. Logo após essa discussão, o palestrante chegou e falou sobre as políticas públicas de lazer em Ijuí e como funciona a Secretaria de Cultura, Desporto e Lazer. Ao abordar as práticas esportivas, despertou o interesse dos alunos ao falar sobre a diferença entre Esportes de Competição, Educacional e de Inclusão. Também falou sobre a possibilidade de melhorias 34 do esporte do Poliesportivo e sanou algumas dúvidas referentes à verba e formas de investimentos na área do Esporte e Lazer em Ijuí. Ao final, como forma de reflexão, falou da importância do jovem buscar conhecimento sobre o Lazer, já que se trata de um tema extremamente amplo e importante para a sociedade em geral. O palestrante destacou ainda que muito mais do que buscar conhecer, cada um deve tentar praticar alguma atividade, exercício ou esporte como prática de lazer, pois segundo ele: “Essas práticas são o remédio do futuro”. Para finalizar, o líder da turma agradeceu pela oportunidade da palestra para eles apresentada e juntamente com ele, agradeci pela disponibilidade do palestrante em nos atender. Dentro do ônibus, ao retornar para a escola, informei que na próxima aula teríamos as apresentações dos trabalhos. Ao introduzir a oitava aula, solicitei que os grupos se organizassem para as apresentações, limitado o tempo em quinze minutos por grupo, conforme orientações dadas anteriormente. Rapidamente a turma se organizou e foi dado início à apresentação de trabalhos, que fez parte da avaliação da UD. Abaixo seguem breves descrições por mim feitas sobre as apresentações dos grupos. 1. Quais as políticas públicas Federais, Estaduais e Municipais relacionadas ao lazer? O grupo apresentou algumas políticas públicas de esporte e lazer do governo federal e municipal. Escola Aberta, Segundo Tempo, e outros planos de governos foram apresentados. Demonstraram também terem prestado bastante atenção à palestra do Secretário de Esporte e Lazer, através de vários ganchos feitos sobre os programas do município relacionados às práticas de esporte e lazer. 2. Qual a verba destinada para o lazer em Ijuí? Como ela é distribuída? Apesar de não terem apresentado as cifras envolvidas, o grupo demonstrou uma boa organização na apresentação, tematizou a importância do investimento no lazer, o alto preço dos esportes como práticas de lazer e a administração do dinheiro destinado ao esporte e ao lazer em Ijuí. 3. Qual a visão da população Ijuiense sobre os espaços de lazer no Município? Os alunos, por uma questão de tempo, optaram por realizar a pesquisa dentro da escola. Os dados obtidos foram relevantes, o mais espantoso relata que apenas duas meninas em toda a escola costumam ter práticas sistematizadas de lazer. O tema foi bem introduzido, desenvolvido e concluído. 35 4. Quais os espaços públicos de lazer em Ijuí? O grupo apresentou os locais da cidade em uma lista (praças, centros comunitários, centros esportivos, etc). Excelentes reflexões e ponderações sobre os espaços públicos de lazer em Ijuí foram realizadas pelo grupo. Argumentaram que existem sim espaços de lazer em Ijuí, para as diversas finalidades do lazer, mas que grande parte destes espaços tem estrutura precária se for comparada aos resultados encontros nos espaços privados. 5. Quais os espaços privados de lazer em Ijuí? Este grupo realizou uma bela pesquisa de campo, registraram toda a estrutura com fotos e fizeram reflexões focadas sobre os clubes aquáticos privados localizados dentro do espaço urbano de Ijuí. 6. O Lazer na Praça da República de Ijuí Foram sintéticos e claros nos dados apresentados. O interessante foi a reflexão feita sobre o “Domingo na praça”, em que relataram que carros com som alto e muita ingestão de cerveja era o que mais era encontrado, os alunos perguntaram para a turma se aquilo seria lazer e se estaria promovendo saúde em algum dos três eixos estudados. Também apresentaram um vídeo mostrando as várias atividades realizadas durante o segundo semestre na praça. Acredito que este foi um dos melhores encontros com os alunos. Foi possível perceber a notável evolução da turma, através das ricas apresentações e discussões, fazendome acreditar no trabalho proposto. Porém, mais do que isso, poder despertar o olhar crítico dos alunos frente aos espaços de Lazer é muito satisfatório, pois um dos objetivos da UD era justamente esse. Cabe aqui apresentar algumas falas que apareceram nos trabalhos escritos pelos alunos: “são poucas as pessoas que disponibilizam tempo para prática de lazer”; “são muitos aqueles que falam dos problemas que rodeiam a praça, porém são poucos os que tomam a atitude de fazer algo para mudar”; “foi possível constatar vários problemas, como falta de higiene em bebedouros e banheiros, falta de cuidados, como lixeiras quebradas, falta de locais cobertos, etc.” (FRAGMENTOS DOS TRABALHOS DOS ALUNOS). Para o próximo encontro estava programada a avaliação sistematizadora final (Anexo 1). Os conteúdos estavam relacionados a tudo que foi trabalhado até esse momento: Lazer e seus conceitos, espaços para Lazer, formas de Lazer e saúde e Lazer. Os alunos durante a avaliação se mostraram tranquilos e conhecedores dos conceitos trabalhados, poucas dúvidas surgiram durante a prova e não ocorreu nenhum imprevisto. Após correção das provas ficou notável o conhecimento adquirido pelos alunos ao longo da UD. 36 Além da avaliação normal existia uma questão em separado que deveria ser respondida anonimamente. O enunciado da questão trazia a seguinte frase: “Em uma folha em separado, faça uma avaliação do período em que ministrei aulas de EF para você. Tente avaliar o conteúdo, metodologia, relação aluno/professor, organização da aula, entre outros”. Esta questão foi trabalhada desta maneira para que não houvesse constrangimento por parte dos alunos. Abaixo seguem algumas respostas que chamaram a atenção: 1. Estávamos acostumados apenas com atividades práticas na Educação Física, por isso, foi chato ter aulas teóricas. Mas aprendemos a encarar a Educação Física como mais um componente curricular, o que antes não acontecia. As práticas foram ligadas com a teoria, o que facilitou a compreensão [...]. 2. [...] Antes não tínhamos todo este olhar diferenciado. As aulas foram organizadas, todos os alunos participaram o que foi um “milagre”!. 3. [...] É extremamente difícil dar aula de Educação Física, principalmente para adolescentes, ainda mais os que fazem corpo mole, mas tenho certeza que apesar das reclamações [das aulas teóricas], haverá um dia que sintam saudades das aulas um pouco fora do normal, que sempre foi correr, flexões e abdominais, porque sempre no final de algum ciclo algo bom há de vir[...]. 4. [...] As suas aulas sim são boas, pois não ficamos parados sem fazer nada ou sempre jogando a mesma coisa: “futebol”, sem ofensas ao esporte, mas estava cansada de não fazer nada. Algumas pessoas podem não ter gostado das aulas, pois tínhamos que colocar a “mão na massa”, mas se tem Educação Física é para ser aprendido conteúdos e depois se praticar para ter certeza se está fazendo certo ou não[...]. 5. “Os quatro períodos semanais pareceram mais bem aproveitados, e passaram a ser encarados (por mim) como aulas realmente, pois, proporcionaram a cada nova semana, mais conhecimento e mais vontade de aprender. O conteúdo, a metodologia e a organização das aulas romperam aquele pensamento/visão banalizado da disciplina de Educação Física. Compreendi o quão importante a mesma é, e os benefícios futuros que o conhecimento proporcionado pela mesma podem me trazer”. 37 4 ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS Para analisar e discutir os resultados anteriormente apresentados, delimitarei bem dois pontos. O primeiro será discutir sobre os aspectos que dificultaram o desenvolvimento da UD frente ao quadro de ensino tradicional da disciplina. Já no segundo irei analisar os aspectos que potencializaram/facilitaram o desenvolvimento da UD frente ao quadro de ensino tradicional da disciplina. 4.1 OS ASPECTOS QUE DIFICULTARAM O DESENVOLVIMENTO DA UD Antes mesmo de iniciar a UD já notava que teria um grande desafio pela frente: manter os alunos em sala durante as aulas teóricas para serem interligadas às práticas. Como citado no início da apresentação dos resultados, esta dificuldade foi percebida durante as observações iniciais das aulas da professora regente, antes mesmo de ocorrer a intervenção da pesquisa, durante o período de diagnóstico da turma na qual foi realizado o estudo. O principal ponto estava em romper com a situação de aulas tradicionais e tentar ministrar aulas na perspectiva da inovação pedagógica. Sobre as características do trabalho da professora regente destacamos o que Lang e González (2012), Farias et. al (2010) encontraram em seus estudos e aqui novamente foi diagnosticado, e que pode ser caracterizado como perfis de docentes em situação de desinvestimento pedagógico. O termo destacado é usado para se referir àqueles professores que “abrem mão de seu compromisso ético, político, pedagógico profissional de ensinar, porém continuam no emprego, imobilizados ou por falta de opção ou por certo conformismo vinculado a sua estratégia de sobrevivência no sistema” (SANTINI; MOLINA NETO, 2005, apud FENSTERSEIFER, SILVA, 2011, p. 120). O desinvestimento pedagógico pode ser caracterizado por vários fatores observados durante o diagnóstico da turma. Dentre eles destaco: (a) a inexistência de planejamento e sequência de conteúdos, (b) as várias atividades feitas ao mesmo tempo por escolha dos alunos (em uma mesma aula e no mesmo momento chegou a ser verificados jogos de vôlei, futsal, xadrez e também haviam algumas alunas pulando corda) e (c) pelo não uso de caderno em sala de aula. Portanto, ao assumir uma proposta de trabalho diferente da tradicional surge a necessidade de superar e ressignificar as aulas de EF. Sendo assim, assumindo “um novo 38 posicionamento, uma nova atitude do professor e dos alunos em relação ao conteúdo e à sociedade: o conhecimento escolar passa a ser teórico-prático” (GASPARIN, 2003, p. 2). Tentar introduzir a UD na perspectiva da EF como disciplina escolar, com um conteúdo muito pouco conhecido pelos alunos também foi um dos entraves encontrados. Inicialmente discutir sobre lazer, jogos, esportes, exercícios, atividades e saúde foi extremamente difícil, pois a história3 da EF na escola deixava os conceitos se limitando a prática pela prática (quase sempre esportiva). Porém, nesta nova perspectiva de EF, faz-se necessária a introdução de conceitos, já que, como afirma Darido (2001, p. 21) é “direito do aluno saber porque ele está realizando este ou aquele movimento, isto é, quais conceitos estão ligados àqueles procedimentos (dimensão conceitual)”. A introdução de conceitos nas aulas pôde ser realizada através dos conhecimentos adquiridos durante a minha formação inicial. Ter a oportunidade de aprender a trabalhar com as abordagens conceituais, procedimentais e atitudinais durante a graduação foi um dos aspectos que ajudaram a superar esta dificuldade inicial encontrada na pesquisa. Darido (2001) novamente contribuindo na minha reflexão, afirma que um dos grandes diferenciais dos professores que tentam inovar na área e trabalhar seus conteúdos dentro da perspectiva citada anteriormente. Ainda sobre a formação inicial destacamos a importância que a mesma teve para superar estes aspectos vivenciados em sala de aula durante a pesquisa. Destaco aqui a persistência dos professores do curso para que durante a graduação tivéssemos a oportunidade de sermos críticos em relação às ações em geral da EF e sermos capazes de modificá-las e ressignificá-las. As palavras de Nóvoa (1995, apud FENSTERSEIFER, SILVA, 2011, p. 124) explicitam melhor meu pensamento, segundo o qual é importante que: a formação passe pela experimentação, pela inovação, pelo ensaio de novos modos de trabalho pedagógico, e por uma reflexão crítica sobre sua utilização. A formação passa por processos de investigação, diretamente articulados com as práticas educativas. Neste sentido, a dinamização de dispositivos de investigação-ação e de investigação-formação pode dar corpo à apropriação pelos professores dos saberes que são chamados a mobilizar no exercício da sua profissão. O esforço de formação passa sempre pela mobilização de vários tipos de saberes: saberes de uma prática reflexiva; saberes de uma teoria especializada; saberes de uma militância pedagógica. 3 A escola militar em que foi realizada a pesquisa tem em seu PPP apenas a prática esportiva como conteúdos a serem trabalhados. Futsal, handebol, basquete, voleibol e atletismo são as modalidades presentes no PPP. 39 4.2 OS ASPECTOS QUE POTENCIALIZARAM/FACILITARAM O DESENVOLVIMENTO DA UD Dentre os aspectos que potencializaram/facilitaram o desenvolvimento da UD temos vários fatores para citar. Aqui podemos citar alguns destes fatores: (a) a história da EF na escola foi um entrave, mas também foi um grande facilitador, (b) planejamento da UD bem delimitado, (c) os conteúdos para a temática bem definidos, (d) a aceitação dos alunos, (e) os tipos de trabalhos realizados e (f) as aulas práticas unidas a teoria da sala de aula. Ao mesmo tempo em que a história da EF na escola foi um entrave, pude perceber que ela foi um facilitador. Digo isto porque antes dessa UD desenvolvida nada de parecido havia sido trabalhado com os alunos, segundo relato dos mesmos. Isto gera certa desconfiança sobre o próprio trabalho realizado, pois o balizamento para comparar a UD realizada para a pesquisa e o tipo de aula normalmente ministrada pela professora regente é muito diferente. Porém, para que fosse possível existir esta comparação pelos próprios alunos, houve a necessidade da participação deles. Acredito que isso esteja ligado diretamente à sequência e desenvolvimento estabelecido pelo planejamento. O planejamento no meu entendimento foi um dos carros-chefes para que a turma aceitasse bem o tema proposto. As oito aulas inicias planejadas antecipadamente (que por readequação de planejamento e necessidade de mais tempo acabaram virando dez), sendo readequadas em conjunto com os alunos conforme andamento dos encontros, foram um dos fatores que possibilitaram chegar ao final da UD com um resultado positivo. Oliveira (2004, apud KRAVCHYCHYN, et al, 2008, p.52) em uma pesquisa sobre a implementação de uma UD sob característica de inovação (parecido com a proposta desta pesquisa) colheu o depoimento de um professor envolvido na reelaboração do plano de estudo de EF, o qual apontou como maior dificuldade a necessidade de estudo: “[...] não basta o conhecimento genérico, do dia-a-dia, para entrarmos em sala de aula e conquistarmos os alunos”, é “o domínio dos conteúdos e a metodologia aplicada que fazem a diferença”. Dentro do planejamento, os conteúdos trabalhados frente à temática também influenciaram diretamente no resultado final. Ter trabalhado com jogos, esportes, exercícios, atividades e saúde como temas transversais ao eixo principal foram de extrema importância, pois conforme relato dos alunos, o modo como foi conduzido a UD fez com que eles se interessassem e pusessem “a mão na massa” (palavras de um aluno), através de criação de jogos, pesquisa, apresentação de trabalhos e outros fatores citados anteriormente. 40 Aqui podemos destacar o modo como foi elaborado o planejamento inicial da UD. Utilizando de materiais didáticos da área (GONZÁLEZ, FRAGA, 2012. GONZÁLEZ, FRAGA, 2009) foi possível fazer uma combinação de temas e conteúdos propostos pelos documentos. Desta maneira, sempre que necessário, recorria aos materiais citados para readequar as aulas ou buscar opções de dúvidas surgidas durante o desenvolvimento da UD. Rufino et. al (2012) comenta sobre a autonomia que o professor tem ao utilizar materiais didáticos, pois além de ter uma orientação, tem a possibilidade de remanejar atividades propostas e mesclar ideias de diversos livros para contribuir no desenvolvimento das aulas. Os alunos também demonstraram terem aceitado muito bem o conteúdo trabalhado. De início, apesar de algumas contestações, consegui convencê-los através da demonstração de conteúdo no andamento das aulas, dialogando e afirmando que o planejamento estava bem delimitado que seria aquilo que iríamos estudar durante a UD. Em relação a isso, cabe destacar a colocação de Pérez Gómez (1998, apud WITTIZORECKI; MOLINA NETO, 2005, p. 64) que “as habilidades de argumentar, de negociar e mediar momentos de tensões e divergências podem se mostrar tão necessárias quanto o domínio de um repertório de atividades na construção do trabalho docente”. Portanto o diálogo estabelecido foi fator fundamental para a aceitação e participação constante dos alunos durante a UD. Esse debate constante estabelecido com os alunos sobre os conteúdos, junto com a linguagem próxima da realidade deles pode ser entendido como um dos fatores que facilitaram a quebra da resistência demonstrada nas primeiras aulas. Fato parecido ocorreu com a pesquisa de Kravchychyn, et al (2008, p. 52), em que [...] os pequenos grupos que exigiam um determinado tipo de aula foram se integrando e cedendo às exigências da disciplina. Foi vencida a primeira barreira. Acho que a aula deve ser um momento agradável, o que não significa fazer só o que os alunos querem (PROFESSOR PESQUISADO)” A pesquisa de campo realizada em vários ambientes diferentes de pesquisa foi outro fator positivo durante a UD. Segundo Betti (2005, p. 1) “a pesquisa não deve separar-se da prática; a prática mesma é a forma de investigação, pois nessa situação desconhecida são levantadas hipóteses para além da atual compreensão do professor”. A discussão gerada entre os alunos com a minha mediação, levou-os a perceberem a diferença existente entre os espaços destinados aos diferentes tipos de Lazer e atividades em geral. Fazê-los refletir sobre os espaços, a diferença entre o público e o privado, os espaços de lazer social e de atividades (jogos, esportes, atividades físicas e exercícios físicos) fez com que eles se envolvessem nas 41 discussões, estimulando assim o desenvolvimento sobre o tema e o envolvimento nas aulas práticas. 42 CONSIDERAÇÕES FINAIS Após a apresentação e análise de dados, ainda são necessárias algumas reflexões, pois sou ciente das limitações do estudo (o que poderiam gerar mais discussões), mas cabe aqui relembrar os objetivos traçados para esta pesquisa, isto é, examinar e analisar as possibilidades e os entraves no desenvolvimento de uma UD que tematiza o Lazer nas aulas de EF Escolar diante de um quadro de ensino “tradicional” da disciplina, porém outros aspectos também merecem destaque. A primeira parte em que quero centrar meus comentários está relacionada à resistência inicial dos alunos que aos poucos foi superada. Acredito que muito mais do que destacar os prováveis indícios da superação e aceitação dos alunos (já apresentados anteriormente), cabe aqui destacar a fidelidade com a qual eles trataram o componente curricular da EF a partir do momento em que visualizaram os porquês daquele tipo de intervenção. Cabe ressaltar que mesmo com algumas dificuldades, grande parte da turma dedicou-se ao CC para dar conta das pesquisas de campo, do seminário e da avaliação sistematizadora final. Destaco que a participação e envolvimento constante dos alunos podem ser potencialmente explicada pelas intervenções realizadas durante a UD, sempre tentando buscar a problematização dos assuntos. Este fato pode melhor ser entendido ao comparar o comportamento dos alunos entre as aulas da professora regente (em que os alunos eram reprodutores de uma tradição esportiva da EF e que havia pouca participação) e os encontros por mim ministrados, intencionando fazê-los sujeitos da situação, sempre indagando e estimulando a reflexão crítica em torno da temática, o que abriu portas para a participação quase total da turma (dois alunos não participaram das aulas práticas por motivo de fraturas). Outro fator que se mostrou relevante para que os alunos dedicassem seus estudos ao CC é a tradição da escola. Por se tratar de uma instituição militar, as horas médias de estudo semanais são de no mínimo 40 (aqui somam-se as horas de sala de aula mais os estudos realizados em casa). Portanto os alunos têm uma tendência maior em estudar sobre aquilo que aprendem em sala de aula. O que visualizei foi certa “atualização” da forma com que os 43 alunos acabaram tratando as aulas de EF (equiparando esforços destinados as outras disciplinas), que nesse tempo e espaço de intervenção da pesquisa deixou de ser preenchido por uma mera atividade descompromissada e assumiu características parecidas com os outros CC, o que desencadeou esforços ao estudo e tratamento dos conteúdos visualizados em EF. Ter dado voz aos alunos durante as aulas para debatermos (e não somente escolher que prática gostariam de realizar) sobre assuntos relevantes do seu dia a dia em relação à temática foi outro fator fundamental. Durante a leitura dos trabalhos impressos, entregues pelos alunos após a apresentação do seminário, foi possível verificar a presença do senso crítico. Não posso deixar de comentar sobre a quebra de paradigma na introdução da UD. Muito mais do que superar a resistência dos alunos, havia a necessidade de superar a EF tradicional com a qual a turma estava acostumada e tentar trabalhar na perspectiva do novo, da inovação pedagógica em EF. Isso somente foi possível através do estudo sobre a temática, do planejamento, da avaliação do trabalho e da readequação dos planos de aula. Superar a tradição da EF neste ambiente de pesquisa foi tarefa relativamente fácil se comparado com outros estudos. Cabe destacar que minhas vivências acadêmica e profissional foram fatores decisivos para que eu tivesse condições profissionais e psicológicas para alcançar os objetivos propostos. Por fim, saliento o significado e a pequena transformação feita na turma em que ocorreu a intervenção. Perceber que uma parte significativa da turma (que não participava das aulas da professora regente), acabou participando ativamente das discussões e momentos práticos da UD proposta, faz acreditar que quando existe disposição para inovar por parte do professor, a resposta por parte dos alunos possivelmente será positiva. Ter tido a oportunidade de verificar que uma EF diferente da diagnosticada nas aulas da professora regente é possível mesmo dentro de um ambiente fortemente ligado com tal tradição é mais um fator que motiva a seguir a linha que defendo e na qual pretendo trabalhar após a graduação. Mas vale ressaltar novamente que os estudos realizados durante a formação inicial e as disposições pessoais foram fatores fundamentais para a fundamentação teórica e prática apresentada neste trabalho. 44 REFERÊNCIAS BETTI, M. Sobre teoria e prática: manifesto pela redescoberta da educação física. Revista Digital. Buenos Aires, ano 10, n. 90, dez. 2005. 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Balizados pelos conteúdos trabalhados durante o período em que trabalhamos o Lazer e Esporte/Saúde durante as aulas de Educação Física responda: 1) O que podemos compreender como Lazer? 2) Como as práticas corporais sistematizadas se relacionam com as práticas de Lazer? 3) Sobre os espaços de Lazer visitados pela turma faça uma leitura de um espaço (praça ou poliesportivo): Eles são adequados para todas as idades? Que tipos de Lazer podem ser praticados nestes ambientes? Como a estrutura influi nas práticas destes locais? 4) Quais as políticas públicas que o município adota para estimular as práticas de Lazer? 5) O que são Atividades Físicas? Exercícios Físicos? Jogos? Esportes? Todos podem ser encarados como práticas de Lazer? 6) Segundo a OMS, como pode ser classificado o conceito de Saúde? 7) Esporte é Saúde? Como acontece essa relação? 8) Como o Lazer pode influenciar na Saúde da população em geral? 9) Anonimamente, em uma folha em separado, faça uma avaliação do período em que ministrei aulas de Educação Física para vocês. Tentar avaliar o conteúdo, metodologia, relação aluno/professor, organização da aula, entre outros. 49 APÊNDICE 2 Planos de Aula Unidade Didática sobre Lazer TEMA: Lazer sob a óptica dos nossos deveres, direitos, formas e espaços quanto cidadãos brasileiros. Sub-temas: 1) Lazer: o entendimento por parte dos alunos, e os conceitos teóricos 2) Práticas corporais e Saúde (atividades/exercícios físicos) 3) Legislação Federal, Estadual, Municipal relacionadas ao lazer 4) Espaços existentes (pesquisa de campo, levantamento de dados, esses espaços são utilizados? Idosos? Crianças? Jogos? Esportes?). 1ª Aula: 02/09/2013 Horário da aula: 09:25/ 11:25 Parte Inicial: Apresentação aos alunos Parte Principal: Apresentação do tema a ser trabalhado na Unidade Didática de Lazer e seus sub-temas: a - Práticas corporais e Saúde (atividades/exercícios físicos, jogos/esportes), b - Legislação Federal, Estadual, Municipal relacionadas ao lazer, c - Espaços existentes (pesquisa de campo, levantamento de dados, esses espaços são utilizados? Idosos? Crianças? Jogos? Esportes?) Discussão sobre o que é lazer na concepção dos alunos (indagações sobre os espaços disponíveis, o que eles mais fazem nos momentos de lazer, etc) Entrega de material conceituando o lazer Momento prático: levantamento de práticas motoras realizadas pelos os alunos em momentos de lazer e realização de algumas delas Reflexão sobre os conceitos trabalhados e as expectativas para a Unidade Didática Parte final Tema de casa Pesquisa: Quais as práticas são possíveis de serem feitas nos espaços de lazer perto de onde você mora? Quais são estes espaços? Como está a estrutura deste ambiente? Quem frequenta? Quais os dias mais frequentados? Você frequenta este espaço? Sim? Não? Por quê? O que você mudaria no espaço em que você visitou? 2ª Aula: 05/09/2013 Horário da aula: 09:25/ 11:25 Parte Inicial 50 Correção e discussão do tema (Questionar se em algum momento as condições estruturais eram melhores) Acredito que irão aparecer os conceitos de atividade/exercício físico e jogo/esporte Parte Principal Se necessário conceituar/relembrar o que são atividades físicas, exercícios físicos, jogos motores e esportes. Relembrar o conceito lazer Realizar Circuito Trainer com 10 estações de 30 segundos cada a fim de preparar os alunos para o TAF da escola. Parte Final Combinações para a próxima aula que terá saída de campo 3ª Aula: 09/09/2013 Horário da aula: 09:25/ 11:25 Parte Inicial Relembrar o que foi trabalhado na última aula e organização para a visita agendada para este dia Parte Principal Visita crítica a espaço (praça) próximo a escola que servirá de modelo para o exercício de observações que deverão ser feitas no seminário da disciplina. Para esta atividade será a utilizado a planilha Levantamento dos equipamentos e estruturas existentes indicadas por González e Fraga (2012, p. 150 apud ANGELIS, CASTRO E NETO, 2004) Realização de alguma atividade do conhecimento dos alunos que realizam quando vão a algum espaço público de lazer Parte Final Retorno para a escola e conversa durante o percurso para discussões sobre o que foi observado 4ª Aula: 13/09/2013 Horário da aula: 09:25/ 11:25 Parte Inicial Relembrar o que foi trabalhado na última aula Parte Principal Organizações dos grupos para realização dos seminários com os seguintes temas: 1. Quais as políticas públicas Federal, Estadual e Municipal relacionadas ao lazer? 2. Qual a verba destinada para o Lazer em Ijuí? 3. Qual a visão da população Ijuiense sobre os espaços de Lazer em Ijuí? 4. Quais os espaços públicos de Lazer em Ijuí? 5. Quais os espaços privados de Lazer em Ijuí? 51 6. O Lazer na Praça da República de Ijuí Parte Final Tira dúvidas sobre os temas propostos 5ª Aula: 16/09/2013 Horário da aula: 09:25/ 11:25 Aula reservada para conversa sobre O Papel da Secretaria Municipal de Desporto e Lazer de Ijuí com o coordenador Rogério Durks 6ª Aula: 23/09/2013 Horário da aula: 09:25/ 11:25 Parte Inicial: Conversa sobre a palestra realizada no último encontro Saca dúvidas sobre o trabalho que está em desenvolvimento pelos alunos Parte Principal Discussão sobre o tema: Lazer, um promotor da Saúde? O que é Saúde? Realização de circuito training Parte Final Encaminhamentos para a próxima aula para visita a praça da república ou poliesportivo 7ª Aula: 27/09/2013 Horário da aula: 09:25/ 11:25 Parte Inicial Conversa relembrando o Lazer como promotor da Saúde. Parte Principal Apresentação dos trabalhos relativos ao seminário Conversa avaliativa sobre as apresentações Parte Final 8ª Aula: 30/09/2013 Horário da aula: 09:25/ 11:25 Parte Inicial Abordar a construção de uma carta aberta aos órgãos competentes pelo Lazer em Ijuí Parte Principal Em grupos, definir o que cada grupo vai escrever Parte Final Fazer a montagem da carta aberta e encaminhar para avaliação da instituição e posterior envio para o órgão competente 9ª Aula: 04/10/2013 Horário da aula: 09:25/ 11:25 52 Parte Inicial Realizar um saca dúvidas sobre os conteúdos até aqui trabalhados Parte Principal Avaliação sistematizadora envolvendo a temática sobre Lazer e sobre Esporte e saúde. 10ª Aula: 07/10/2013 Horário da aula: 09:25/ 11:25 Parte Inicial Devolução das provas Parte Principal Correção e discussão das mesmas Parte Final Avaliação sobre a UD