Inteligência Organizacional: do Debate Metafísico para uma Perspectiva Contextual em
Estratégias de Conhecimento
Autoria: Cláudio Reis Gonçalo
Resumo
Este trabalho propõe uma perspectiva organizacional a partir de contextos cognitivos que
suportam estratégias de conhecimento. O reconhecimento desta perspectiva identifica fatores
decisivos quanto a promover e/ou manter capacidades estratégicas da organização. As
representações da inteligência organizacional e de estratégias de conhecimento são discutidas
a partir da visão baseada em capacidades e recursos. Sugere-se que a identificação das
barreiras cognitivas permite caracterizar o contexto do uso da inteligência organizacional,
facilitando reconhecer ações gerenciais indispensáveis para desenvolver as habilidades
requeridas pelo melhor desempenho das atividades. Para ilustrar o tema desenvolvido,
apresentam-se dois estudos de casos em empresas envolvidas com inovação e P&D, através
da investigação do processo de criar e/ou adquirir conhecimentos. Nas duas empresas
investigadas o fator crítico de sucesso insere-se no contexto organizacional, em particular, nos
inter-relacionamentos que permitem habilidades em criar estratégias para enfrentar desafios.
I. Introdução
As organizações quando interpretadas como processos cognitivos inter-relacionados
são um conjunto de ações que “fazem sentido” (WEICK, 1995), expressas através de um
contexto cognitivo específico. Compreende-se como um contexto cognitivo o conjunto de
“conhecimentos organizados” (SACKMAN, 1991), que são resultantes das diversas relações
que as pessoas vivenciam em suas experiências para criar ou transferir conhecimentos. Entre
esses conhecimentos organizados estão as idéias ou teorias que as pessoas utilizam
coletivamente para construírem suas interpretações sobre o que a organização representa
(SPENDER, 1996). Neste sentido, este artigo visa contribuir para a compreensão gerencial
das organizações como sistemas cognitivos que suportam as estratégias de conhecimentos
pretendidas.
O conhecimento, por ser contextual, deve ser analisado no contexto dos sistemas
humanos, e investigado através das narrativas das experiências pessoais (SNOWEDEN,
2002). A percepção de estratégias de conhecimento está relacionada com a percepção da
forma de pensar, tratar, resolver problemas em situações de complexidade. Neste artigo,
propõe-se que o melhor uso da inteligência organizacional dependa da compreensão do
contexto cognitivo organizacional. Em termos pragmáticos, a identificação das barreiras
cognitivas existentes neste contexto pode facilitar a atuação gerencial para promover
estratégias de conhecimento. Apresenta-se uma análise sucinta de dois estudos de casos em
empresas envolvidas com pesquisa e desenvolvimento, ilustrando a investigação no processo
de criar e/ou adquirir conhecimentos.
Assim, apresenta-se inicialmente uma reflexão conceitual sobre inteligência
organizacional a partir da visão baseada em capacidades e recursos. A seguir, propõe-se uma
perspectiva organizacional para diagnosticar e analisar a promoção da inteligência
organizacional, baseando-se em estratégias de conhecimento e na identificação de barreiras
cognitivas. Nas seções seguintes, apresentam-se os procedimentos metodológicos e a análise
sucinta de dois estudos de casos. Por fim, uma análise geral dos casos e as considerações
finais do trabalho, destacando o relacionamento informal como o elemento crítico de contexto
para criar e/ou adquirir conhecimento, assim como barreiras cognitivas na falta de habilidades
de criar estratégias para adquirir novos conhecimentos.
2 A Inteligência Organizacional
A procura das inteligências nas organizações é um processo constante que nunca será
alcançado com total sucesso, pois a história está repleta de casos de sucessos e fracassos
organizacionais (MARCH, 1999). Talvez a própria falta de clareza sobre o conceito de
inteligência seja um dos principais motivos desses fracassos (LIEBOWITZ, 2000), a qual por
um lado poderia “motivar” o debate conceitual, por outro, parece “intimidar”, sobretudo em
função das complexas perspectivas utilizadas nas diferentes ciências envolvidas. Sob a ótica
da ciência da administração, este artigo insere-se neste debate dialético entre uma “concepção
aplicada” e uma “concepção cognitiva” buscando contribuir para o esclarecimento conceitual
e, conseqüentemente, para a capacidade gerencial de melhor promover o uso da inteligência
organizacional.
2.1 A Inteligência Individual e o Líder Eficaz
Definida de uma forma abrangente, a inteligência pode ser considerada como qualquer
característica empregada para obter, com sucesso, uma adaptação pretendida ao contexto do
mundo real (McClelland & KLEMP, 1986). Entende-se que adaptação significa toda forma
vislumbrada e/ou aplicada, tanto para mudar o ambiente como para selecionar um novo
ambiente (se necessário). Sternberg (2000) chama essa característica de inteligência prática,
ou seja, a capacidade de traduzir teoria em prática e idéias abstratas em realizações concretas.
March (1999) corrobora propondo que, de maneira geral, inteligência se refere à
habilidade de alcançar resultados desejados, os quais devem atender às expectativas tanto
quanto possível. Entre essas habilidades está a de resolver problemas, remetendo à definição
de Gardner (2000) sobre inteligência, como sendo a capacidade de resolver problemas ou de
elaborar produtos que sejam importantes num determinado ambiente ou comunidade cultural.
A inteligência gerencial, em relação aos atributos de um líder eficaz, têm sido
intensamente debatidos, entretanto, de forma genérica. McClelland & Klemp (1986)
realizaram uma pesquisa com 132 gerentes durante 10 anos, investigando o que caracteriza
uma função inteligente entre executivos. Essas características encontradas no perfil dos
gerentes foram classificadas em dois grandes tipos de competências: (1) competências
de conteúdo, ou conhecimento utilizável relacionado ao papel desempenhado; e (2)
competências em processos, ou atributos que sustentam como o conhecimento é aplicado
efetivamente. Os resultados genéricos encontrados foram divididos em competências
intelectuais, competências de influência e competência adicional. As competências de
influência foram: (1) preocupação em influência (necessidade de poder); (2) influência
interpessoal (poder personalizado); (3) influência de colaboração (poder social) e (4)
influência simbólica. A competência adicional é a de autoconfiança em ser líder da
organização.
Outra importante contribuição é a pesquisa com gerentes, de Wagner & Sternberg
(1986), a respeito do comportamento inteligente nas carreiras profissionais e gerenciais
e a influência do conhecimento tácito, o qual foi divido em três categorias: o conhecimento
tácito sobre a administração de si mesmo – aspectos automotivacionais e autoorganizacionais; a administração de atividades, e a administração de outras pessoas. O
resultado final retrata uma grande relação entre medidas de performance gerencial e o
conhecimento tácito dos participantes. O conhecimento tácito, significa o conhecimento
reconhecido nas raízes da prática, da ação organizacional através da originalidade de “como
fazer” (POLANYI, 1966; NONAKA & TAKEUCHI, 1995).
Maturana & Varela (1980) consideram que a linguagem humana, e todo o contexto
social em que ela aparece, cria o fenômeno do pensamento e da consciência. O pensamento e
a consciência não são algo que estão dentro do crânio, não são algo como um fluido do
cérebro, eles pertencem ao domínio do acoplamento social, e é neste domínio que ocorre toda
2
a sua dinâmica. Mas como se relacionam os conceitos de pensamento, consciência e
inteligência? Essas relações, segundo Morin (1986), são de interdependência e
complementaridade, ou seja:
- a inteligência é a arte da estratégia, ligada aos múltiplos desenvolvimentos das atividades
pessoais, inter-pessoais e coletivas, nos vários domínios do social, econômico e
profissional, enfim, nos diversos relacionamentos da vida humana. “[...] inteligência é a
aptidão para pensar, tratar, resolver problemas em situações de complexidade [...]” (p.
166);
- o pensamento é a arte da dialógica e da concepção; é uma atividade específica do espírito
humano - pessoal e original - no desenvolvimento da linguagem, da lógica e da
consciência; desenvolve-se no ambiente da concepção a partir de uma esfera de múltiplas
competências: especulativas, práticas e técnicas;
- a consciência é a arte da reflexão; aparentemente existe em duas dimensões
interdependentes: a consciência cognitiva - conhecimento das atividades do espírito por
essas mesmas atividades - e a consciência de si - conhecimento reflexivo de si.
Maturana (1998) considera que a pergunta sobre “o que é inteligência” pode ser
abordada sob dois enfoques:
a) como um atributo ou propriedade que alguns organismos possuem – neste caso
inteligência é a capacidade de resolver problemas, um determinado procedimento na
análise e encaminhamento de soluções;
b) como as relações e mudanças de relações que acontecem entre os sistemas – neste caso a
inteligência é a expressão de um tipo de interação que envolve a história de interações
entre os sistemas participantes.
Maturana (1998) considera adequado o enfoque da inteligência como sendo o resultado
das relações entre o organismo em ação com outros organismos ou com o meio. A pergunta o que é inteligência? - deveria transformar-se em “como se gera um comportamento
inteligente?”. O comportamento inteligente é sempre contextual, e apresenta-se no limite
do domínio do consenso em que ocorre ou no domínio de adaptação ontogênica.
Enfatizando a inteligência pelo comportamento inteligente, a “Teoria das Inteligências
Múltiplas” de Gardner (2000) valoriza a pluralidade do intelecto. A Teoria é uma tentativa de
organizar diferentes inteligências com o seu devido valor, contrapondo-se ao preconceito
ocidental de que inteligência significa somente lingüística e lógica. A Teoria propõe sete
inteligências: a lingüística, a lógico-matemática, a espacial, a musical, a corporal-cinestésica,
a interpessoal e a intrapessoal. Maturana (1998) corrobora Gardner (2000) na definição de
inteligência, quando inclui tanto a dimensão racional como a emocional. Sternberg (2000)
afirma que há três aspectos interligados da inteligência de sucesso: o raciocínio analítico, o
criativo e o prático. A inteligência analítica é a capacidade de analisar e avaliar idéias,
resolver problemas e tomar decisões; a inteligência criativa é a capacidade de ir além do
previsto para criar idéias novas e interessantes. Essas reflexões corroboram para interpretar
como a inteligência organizacional se expressa nas atividades desenvolvidas e,
conseqüentemente, como pode ser melhor “utilizada”.
2.2 A Inteligência Organizacional como um Reflexo da Ação
Uma organização inteligente é aquela que, frente às restrições impostas, adapta os
procedimentos apropriados a sua realidade frente a restrições impostas, tais como recursos e
competitividade (MARCH, 1999). Por exemplo, em organizações pode-se avaliar a
inteligência de um processo de tomada de decisão pelo acompanhamento dos resultados
advindos das expectativas e/ou desejos originalmente envolvidos.
March (1999) argumenta que a avaliação da inteligência organizacional é um processo
complicado, pois envolve desejos, ações e resultados, os quais estão conectados e distribuídos
3
ao longo do tempo e do espaço. As realizações são percebidas ao longo do tempo, enquanto
os desejos diferem entre indivíduos e grupos, em função do momento, e mudam
constantemente influenciados pelos próprios resultados. Portanto, qualquer avaliação
dependerá da perspectiva escolhida de tempo versus local de análise. O que é inteligente para
um grupo com um certo conjunto de desejos em certo período de tempo, pode ser considerado
totalmente “estúpido” para outro grupo, com outro conjunto de desejos, em outro momento.
Stewart (1998) propõe a reflexão sobre a necessidade da definição aplicada de
inteligência a partir de uma estratégia organizacional. O conceito “metafísico” de inteligência
organizacional, para ser delineado, necessita ser decomposto para a sua compreensão,
permitindo que seja medido, gerenciado e ampliado. Não basta somente afirmar que a
inteligência é o ativo mais importante de uma organização, é imperativo que essa afirmação se
transforme em estratégias e planos para atingir um melhor desempenho. A inteligência
organizacional deve ser trabalhada no contexto da ação.
A questão da relação entre inteligência individual e organizacional é analisada por
Glynn (1996) a partir de pesquisa empírica na qual propõe que a relação entre a inteligência
individual e organizacional ocorre entre três mecanismos:
a) efeitos de agregação, em que a promoção da inteligência individual se torna
organizacional;
b) efeitos de nível longitudinal, em que a inteligência individual é transformada e
decodificada como organizacional;
c) efeitos distribuídos, em que a inteligência organizacional é expressa em padrões
estruturados de pensamentos e ações, nos quais as pessoas interagem e participam.
Lévy (1999) considera que o ideal da inteligência coletiva é que, a partir de indivíduos
singulares, múltiplos, nômades, e em aprendizado permanente, desencadeie uma dinâmica
positiva de reconhecimento e mobilização das competências. Isto só poderá ter início e
crescer com uma cultura de compartilhar conhecimentos. Para Lévy, inteligência deve ser
interpretada como na expressão “trabalhar em comum acordo”, ou “entendimento ou acordo
com o inimigo”. Liebowitz (2000), tendo por base uma perspectiva de sistemas de
informações, considera a inteligência organizacional como uma reunião coletiva de todas as
inteligências que contribuem para uma visão compartilhada, processos renovados e
direcionamento para o todo. As diferentes concepções sugerem a procura de modelos que
representem a inteligência organizacional a partir de pressupostos sistêmicos, cujos alicerces
supõem a constante evolução e avaliação de seus elementos.
2.3 A Inteligência Organizacional: a procura de modelos
A representação da inteligência organizacional caracteriza-se por diferentes
concepções teóricas, nas quais nem todas expressam-se com esta denominação. Apresenta-se
a seguir, diferentes modelos que buscam representar elementos pertencentes à inteligência
organizacional (ver quadro 1).
Neste artigo considera-se que a inteligência organizacional, em uma perspectiva
cognitiva, é o potencial da organização para criar e transferir conhecimentos gerando uma
maneira peculiar de relacioná-los para encontrar soluções criativas e inovadoras nas tomadas
de decisões. Uma organização atua de forma inteligente quando, a partir de seu potencial
(inteligência), consegue superar as suas barreiras cognitivas para encontrar soluções
adequadas ao contexto do problema vivenciado.
4
Concepção - Modelo
Organizacional
Autor (es)
Morgan (1996)
Organizações como
Intelectos Profissionais
Organizações como
“capital intelectual”
Quinn et al. (1996)
Edvinsson & Malone
(1998)
Stewart (1998)
Conceitos / Categorias
Organizações como cérebros:
organizadas, flexíveis e criativas
orgânicas,
auto-
Organizações representadas por quatro dimensões:
-conhecimento cognitivo (know-what)
-compreensão sistêmica (know-why)
-habilidades avançadas (know-how)
-criatividade automotivada (care-why)
Modelo da Empresa sueca Skandia como referência,
considerando capital intelectual como: -posse de
conhecimento, experiência aplicada, tecnologia
organizacional, relacionamento com clientes e
habilidades profissionais.
Capital Intelectual significa: capital humano, capital
estrutural e capital dos clientes
Representação da Organização para Elaborar Estratégias
engloba três princípios: pessoas operam no tempo,
Organizações como
pessoas procuram significados, pessoas possuem
Orgânicas e Criativas
identidade.
Organizações criativas preservam a diversidade
Leonard & Strauss
cognitiva: pessoas com abordagens analítica (linear) e
(2000);
pessoas com abordagem intuitiva (não-linear).
Quatro subsistemas constituem a representação da
inteligência
organizacional:
o
subsistema
de
Pór (1995)
comunicação, o subsistema de coordenação, o
Organizações como
subsistema de memória / gestão do conhecimento, e o
Sistemas Cognitivos
subsistema de aprendizagem
Inteligência Organizacional a partir de quatro sistemas
Gonçalo (2004)
de inteligência: sistema orgânico, sistema analítico,
sistema intuitivo e sistema de coordenação.
Quadro 1 – A Procura de Modelos para representar a Inteligência Organizacional
Gratton (2000)
Portanto, propõe-se que o conhecimento poderá se desenvolver na organização
dependendo das características existentes na perspectiva cognitiva do uso da inteligência
organizacional. Essas características serão expressas se as barreiras cognitivas da organização
forem reduzidas ou superadas. Mais especificamente, considera-se que cada organização tem
as suas características de inteligência as quais apresentam (conscientemente ou não)
condições específicas para a promoção do conhecimento organizacional. Essas condições
serão viabilizadoras ou impeditivas (barreiras cognitivas) para proporcionar a criação e/ou
transferência do conhecimento pretendido.
2.4 O Uso da Inteligência Organizacional
Para estabelecer-se a conexão de estratégia com o uso da inteligência, impõe-se a
cognição. Child (apud SPENDER, 1998) propõe que a cognição emerge a partir da
consciência da escolha estratégica. O uso da inteligência pode, então, ser interpretado sob a
perspectiva cognitiva através da opção estratégica. Morin (1986) avança conceitualmente
quando considera o uso da inteligência como a própria arte da estratégia. Baseando-se em
Morin e Child, considera-se, neste trabalho, que a consciência da opção estratégica é a
melhor forma de expressar a cognição, constituindo-se num meio de inferir o uso da
inteligência organizacional. As capacidades e recursos da organização atuam como o
diferencial fundamental para o uso da sua inteligência.
5
Hamel & Prahalad (1997) argumentam que a gestão estratégica, antes de tudo, primeiro
deve promover e desenvolver a competitividade através das competências essenciais (core
competence) da organização, as quais irão suportar a competitividade entre os produtos
ofertados no mercado. Esses autores consideram que a vantagem competitiva estará em adotar
estratégias que superem as limitações dos recursos, através de ações criativas e
empreendedoras na promoção e utilização desses recursos.
Analisar as capacidades organizacionais significa entender como as organizações
fazem as coisas e, consequentemente, estabelecer os requisitos para a aquisição de
conhecimento associado. Neste sentido, Dosi et al. (2000) identificam as capacidades
organizacionais como o know-how que possibilita a que as organizações desempenhem seus
conjuntos de atividades. Uma capacidade organizacional surge da atividade, do processo
bottom-up em vez de qualquer intenção coerente com o negócio, e será cada vez mais
percebida pelos clientes, quanto maior for o exercício de transformar sua complexidade em
processos simples e familiares a todos. O problema da estratégia baseada em capacidades e
recursos está em como desenvolver, aplicar e proteger os diferentes recursos e competências
da organização para atuarem como fontes de vantagem competitiva. Teece et al. (1997)
chamam este processo de capacidades dinâmicas, ou seja, a exploração e combinação dos
diferentes recursos e competências internas e externas da organização, com foco para
ambientes de mudança.
3. A Promoção da Inteligência: uma perspectiva organizacional
Estratégia de conhecimento está diretamente relacionada com o contexto de inteligência
organizacional. A promoção da expressão da inteligência ocorrerá em função da estratégia
para desenvolver competências a partir de capacidades organizacionais.
Quando analisa-se estratégias de conhecimento há duas dimensões: a implementação
estratégica e a formulação estratégica. Propõe-se que a prioridade da estrutura deste artigo
baseie-se no nível tático, ou seja na própria implementação estratégica (GLADSTEIN &
QUINN, 1985), que através do processo de gestão do conhecimento (ALAVI, 2001), promova
ações para criar e transferir conhecimento (NONAKA et al., 2001). Este processo engloba as
seguintes etapas:
a) adquirir/criar conhecimento - engloba tanto as fontes do conhecimento como as
condições facilitadoras para a atuação das pessoas, tanto a nível individual como
organizacional;
b) explicitar/armazenar conhecimento envolve captar o conhecimento explícito das
pessoas da organização, codificá-lo e armazená-lo para o possível acesso posterior;
c) distribuir conhecimento envolve a transferência da parte explícita do conhecimento
das pessoas, utilizando ou não estratégias técnicas para facilitar o seu acesso por todos
na organização, e
d) aplicar caracteriza o uso do conhecimento para melhoria da performance
organizacional, através do seu efetivo emprego na atividade e a possibilidade de
“aprender-fazendo”.
Na figura 1 representa-se a implementação estratégica de conhecimento,
caracterizando um período de desenvolvimento de um determinado
conhecimento
organizacional. Partindo de um conhecimento geral na etapa de decisão ou formulação
estratégica, o movimento espiral conduz ao conhecimento específico através da ação ou
implementação da estratégia. Esse movimento se repete, ciclicamente, separando as duas
etapas da estratégia por uma linha difusa – impercebível - entre os novos estados de
formulação e implementação, até atingir um equilíbrio no novo conhecimento adquirido na
organização.
6
OBJETIVO
ESTRATEGICO
Implementação
(ação estratégica)
Conhecimento
Específico
Linha difusa
Conhecimento
Geral
Formulação
(decisão estratégica)
Período de Desenvolvimento do Conhecimento
TEMPO
Figura1: Implementando estratégias de conhecimento organizacional
Sugere-se uma perspectiva organizacional para promover estratégia de conhecimento,
utilizando os pressupostos da visão da empresa baseada em conhecimento. Essa perspectiva
focaliza as estruturas cognitivas que suportam ações para os processos estratégicos de criar
e transferir conhecimento, com o objetivo de desenvolver habilidades cognitivas como um
dos fatores básicos para a formação de competências (ver fig. 2 – área escurecida). Mais
especificamente, defende-se que estratégias de conhecimento sejam definidas e reconhecidas
em uma perspectiva organizacional, na qual estratégias ocorrem no ambiente organizacional a
partir de um potencial – os sistemas cognitivos de inteligência. Esses sistemas suportam
determinadas capacidades estratégicas, as quais serão expressas no exercício das habilidades
praticadas nas atividades organizacionais.
Portanto, compreende-se que estratégias de conhecimento no campo cognitivo são
promovidas gerencialmente se, a partir do exercício na atividade, foram desenvolvidas
habilidades cognitivas que constroem uma capacidade estratégica. Em outras palavras, a
capacidade estratégica será desenvolvida a partir do exercício da atividade que ao longo do
tempo criou habilidades cognitivas que diferenciam uma organização. Por exemplo, entendese que uma organização A que desenvolveu uma capacidade estratégica de ser rápida no
desenvolvimento de novos produtos, ela, naturalmente, dependeu da promoção de estratégias
de conhecimento. Para tanto, compreende-se que as oportunidades para o exercício da criação
e transferência de conhecimento na atividade e a percepção acurada do contexto cognitivo de
sua inteligência foram cruciais para a organização A desenvolver essa capacidade estratégica.
Na perspectiva proposta da fig. 2 compreende-se que uma organização possui uma
capacidade estratégica pelo exercício de sua competência, considerando-se ambos conceitos
como complementares. Por exemplo, uma organização será contratada para construir um
produto totalmente novo pela sua capacidade estratégica em construí-lo, pois já teria
desenvolvido competências na construção de outros produtos diferentes. O exercício da
construção de diferentes produtos terá lhe atribuído competências que levam o cliente e/ou o
mercado a creditar-lhe uma determinada capacidade estratégica.
7
AMBIENTE ORGANIZACIONAL
Sistemas
Cognitivos de
Inteligência
Recursos e capacidades
para Economia do
Conhecimento
Sistemas de
Informação
Uma visão da empresa
baseada em
conhecimento
Desenvolvendo
habilidades
para obter competências
como vantagem
competitiva
AMBIENTE
DE MERCADO
A
C
ESTRATÉGIAS
DE
CONHECIMENTO
B
D
HABILIDADES
COGNITIVAS
RECURSOS E
CAPACIDADES
COMPETÊNCIAS
NOVA
INFORMAÇÃO
BARREIRAS
RECURSOS
TÉCNICOS
TECNOLOGIA
OPORTUNIDADES
COMPETITIVAS
NO MERCADO
REDE SOCIAL
ENTREEMPRESAS
Figura 2: Perspectiva organizacional para promover estratégia de conhecimento
A questão crucial que se coloca é quais são as habilidades cognitivas relativas a
determinada capacidade estratégica? Se a capacidade se constrói ao longo do tempo no
exercício da atividade gerando habilidades, entende-se que cada organização deverá
identificar quais serão elas, como um dos elementos fundamentais da formação das
competências geradoras de sua competitividade. Não há uma “receita”, e sim a necessidade de
compreender estratégias de conhecimento em uma perspectiva organizacional, ou seja, em
uma visão contextual. Portanto, considera-se estratégia de conhecimento como o conjunto
de ações peculiares relacionadas com os processos de criação e transferência de
conhecimento que ocorrem no contexto do uso da inteligência organizacional. A
expressão dessa inteligência dependerá das barreiras cognitivas criadas na organização, que
irão impedir com maior ou menor intensidade o desenvolvimento de capacidades estratégicas
e o desenvolvimento de estratégias de conhecimento.
4. O Contexto da Inteligência Organizacional
O contexto envolve os sistemas cognitivos representativos da expressão da inteligência
organizacional (GONÇALO et al., 2002). Sob a perspectiva cognitiva, os sistemas podem ser
classificados em: orgânico, analítico, intuitivo e de coordenação. O Sistema Orgânico
representa a atuação da organização frente ao profissional como elemento individual e social
(GRATTON, 2000). O Sistema Analítico identifica as condições e capacidades existentes
para desenvolver o conhecimento estruturado. O Sistema Intuitivo retrata o tratamento
dedicado ao conhecimento tácito com base na experiência e intuição dos indivíduos. E o
Sistema de Coordenação engloba as características da liderança organizacional com objetivo
de interligar e promover entre as pessoas uma rede natural de conhecimentos.
Cada sistema de inteligência foi dividido em dimensões essenciais, que significam as
ênfases assumidas como contexto para a pesquisa. Para cada dimensão focalizou-se uma
barreira potencial considerada como crítica para a promoção de cada sistema de inteligência,
através de estratégia de conhecimento (ver quadro 2).
8
Sistemas
de Inteligência
SISTEMA
ORGÂNICO
(A)
SISTEMA
ANALÍTICO
(B)
SISTEMA
INTUITIVO
(C)
SISTEMA
DE
COORDEN.
(D)
Dimensões
Essenciais
Pessoas operam no
tempo.
Barreiras Cognitivas Potenciais para
a promoção de estratégias de conhecimento
•falta de habilidades de criar estratégias.
Pessoas procuram por
significados.
Pessoas precisam
confiar.
•falta de habilidades de pensamento sistêmico.
Conhecimento
explícito
•falta de habilidades em estimular o acesso e informação
ao conhecimento estruturado.
Memória
organizacional
•falta de habilidades na expressão da experiência
individual na construção da memória organizacional
aplicando ou não a tecnologia da informação.
Rede de informação /
conhecimento
•falta de habilidades de iniciativa em gerenciamento
autônomo e de compartilhar conhecimento.
Conhecimento tácito /
intuitivo heurístico.
•falta de habilidades em estimular o conhecimento não
estruturado, ou seja, baseado nas experiências das pessoas.
Inteligência na
absorção da
informação.
Visão sistêmica de
conhecimento para o
negócio.
Característica da
liderança
“consciente”.
•falta de habilidades na escolha da absorção de melhores
dados/informações.
•falta de habilidades de criar /assumir desafios.
•falta de habilidades na percepção da cadeia de processos
e conhecimento.
•falta de habilidades de estímulo
organizacional’ e influência interpessoal.
à
‘conversa
Quadro 2- O contexto: a inteligência organizacional na perspectiva cognitiva
Fonte: Gonçalo(2004, p.122)
5. Procedimentos Metodológicos de Pesquisa
Adotou-se a pesquisa qualitativa para compreender profundamente uma situação
específica na organização sob a perspectiva da inteligência organizacional, utilizando o
contexto e o processo como dimensões básicas para a representação analisada. Este trabalho
de pesquisa seguiu a linha filosófica interpretativa. A pesquisa interpretativa considera que o
acesso à realidade ocorre somente através de construções sociais tais como a linguagem, a
consciência e o significados compartilhados. O objetivo desta pesquisa foi a interpretação dos
significados organizacionais, daquilo que as pessoas percebem em relação ao contexto e ao
processo, no exercício das práticas para estratégias de conhecimentos.
O estudo de caso foi a metodologia de pesquisa adotada, principalmente por ser
adequado para a investigação de assuntos empíricos específicos, com uma estratégia de
pesquisa abrangente. Portanto, neste artigo, apresenta-se a pesquisa sobre estratégias para a
criação de conhecimento, na procura de compreender o contexto “para” ou “no” desempenho
da atividade em dois estudos de casos, principalmente, através dos relatos dos entrevistados
sobre situações e/ou problemas vivenciadas, e de evidências observadas.
5.1 A Estratégia de Pesquisa e as Categorias de Investigação
Os estudos de caso foram conduzidos através de estratégias exploratórias (YIN, 2001),
na medida em que visaram investigar uma nova perspectiva de análise das organizações. A
estratégia de pesquisa envolveu duas empresas: uma brasileira (ALFA) e outra australiana
(BETA), sendo que em ambas os produtos finais dependem de inovação tecnológica. Na
empresa ALFA, o projeto total da pesquisa foi dividido em três etapas exploratórias,
9
desenvolvendo-se ao longo da complexidade da construção teórica, sendo que em uma
primeira etapa investigou-se o contexto; numa segunda, o processo e, por último, numa
terceira, o processo versus o contexto. Na empresa BETA realizou-se uma etapa de de
investigação na qual procurou-se investigar estratégias de conhecimento como um processo,
entretanto os cientistas investigados precisaram dissertar sobre o contexto organizacional que
propiciou criar e/ou transferir conhecimentos em determinados projetos. No quadro 3, a
seguir, apresenta-se uma visão geral das características das pesquisas e do objeto deste artigo.
Elementos Característicos
da Pesquisa
Empresa ALFA
Empresa brasileira envolvida com
pesquisa e desenvolvimento de
produtos, atuando no mercado
nacional e internacional do setor
automobilístico
Número de Empregados
170 pessoas
Etapas Exploratórias / período
setembro-dezembro de 2001 e de
março-maio de 2003
Lideres Entrevistados
28 líderes
Tempo de Entrevistas Realizadas
38h 45min
Categorias de Investigação
Estratégias de criação de
conhecimento
Quadro 3- Uma visão geral das características das pesquisas
Características das Empresas
Empresa BETA
P&D de Empresa multinacional
(localizado na Australia) com
atuação e unidades de produção em
diversos países do mundo do setor
de lentes oculares
80 pessoas (no P&D investigado)
agosto-novembro 2002
09
11h 45min
Estratégias de criação de
conhecimento
Para a investigação profunda das organizações, combinaram-se diferentes técnicas de
coleta de evidências: documentos/relatórios, entrevistas e observação-direta. Como a pesquisa
estava relacionada com a construção de teoria a partir de estudo de caso foi freqüente a
superposição entre a análise e a coleta de dados, conforme observa Eisenhardt (1989). As
entrevistas foram do tipo semi-estruturada, auxiliadas pelo protocolo de pesquisa previamente
elaborado. Procurou-se valorizar, intensamente, o momento de esclarecer o objetivo e
abrangência da pesquisa ao entrevistado, de forma a proporcionar o contexto mais espontâneo
possível para a sua expressão, e incentivar o relato de exemplos no exercício de sua atividade.
6. Os Estudos de Casos
Os estudos de casos das empresas ALFA e BETA serão resumidamente apresentados,
a seguir, apresentando neste artigo a investigação da etapa do processo estratégico de
adquirir/criar conhecimento, procurando identificar evidências da existência de barreiras
cognitivas (ver quadro 2) sob a ótica da perspectiva organizacional proposta (ver figura 2).
6.1 A Empresa BETA
O Centro de Pesquisa e Desenvolvimento investigado pertence a uma empresa de
liderança mundial em desenho, manufatura e fornecimento de lentes oculares para proteção
solar e lentes plásticas oftálmicas, produtos que apresentam resultados pioneiros em inovação
tecnológica. O Centro de Pesquisa e Desenvolvimento, objeto desta pesquisa, está localizado
na Austrália. Entre os produtos criados pelo Centro de Pesquisa e produzidos pelas unidades
de produção da empresa estão: lentes corretivas de visão individual, lentes progressivas
multifocais, lentes com curvatura ótica, sistemas de proteção para lentes, ou lentes produzidas
por diferentes plásticos e cores. O Centro de Pesquisa conta com cerca de 80 engenheiros e
técnicos desenvolvendo inovações tecnológicas, tanto atendendo ao mercado, como também
procurando por tecnologias emergentes em todo o mundo.
10
6.1.1 O Processo de Adquirir/Criar Conhecimento
O desenvolvimento de novos produtos vem ocorrendo através de mudanças radicais em
relação ao conhecimento utilizado, sendo algumas descobertas por mudanças incrementais. A
partir de mudanças radicais através da criação de novos conceitos, o Centro proporcionou à
empresa uma maior competitividade desde meados dos anos 1980.
Atualmente, os líderes consideram que o Centro de Pesquisa apresenta uma base
sólida de conhecimentos que permite o rápido desenvolvimento de produtos, entregando
alguns em um ano e meio ou dois anos. Esta base sólida de conhecimentos foi construída a
partir do exercício de poder tentar novas coisas que não estão relacionadas com projetos
específicos. Na realidade, consideram que esta é a chave para construir essa base de
conhecimentos que quanto mais sólida for, maior será a facilidade para rápidas
implementações de novos produtos e novos conceitos.
Mas qual é a maior fonte de informação utilizada no Centro para criar
conhecimento? Na percepção “convicta” dos cientistas entrevistados é a informação obtida
com base na informalidade, ou seja, no relacionamento interpessoal. Os sistemas de
informação são valorizados, assim como as publicações científicas, as conferências, as visitas
ou documentação de projetos, enfim, diversas formas são consideradas importantes. Mas, o
contato pessoal é a fonte considerada como a base de sustentação para disseminar e trocar a
informação de “como fazer”.
Eu não acho que muita informação se obtenha através do compartilhamento de
documentos; é muito mais na comunicação direta entre um a um [...] Você tem
conferências internacionais, video-conferências, você visita lugares [...] Mas a
maioria da informação interna ocorre através de encontros dos grupos e nesse
sentido. (Tradução deste trabalho)
As estratégias de criar conhecimento estão ligadas à estratégia comercial da Empresa.
Um novo conhecimento será pesquisado em função de um novo produto comercial,
vislumbrado pelo grupo de marketing. Ao Centro de Pesquisa são definidas as novas
expectativas de produtos inovadores, pesquisadas junto ao cliente. A partir desta expectativa
produtos inovadores são criados e/ou desenvolvidos.
Seguidamente um produto tem sido desenvolvido para atender uma deficiência
particular do mercado [...] e deve existir uma razão pela qual essa deficiência existe
[...] e, portanto, alguma coisa precisa ser feita [...] Portanto, sim - muito do
conhecimento que precisamos adquirir é devido à percepção do mercado que nós
necessitamos obter melhor, e auxiliar a criar um produto para atender um nicho [...]
Realmente nunca havia pensado sobre isso, você sabe? (Tradução deste trabalho)
Portanto, não se percebe uma estratégia de criação de conhecimento conceitual
planejada para o futuro, ou seja, uma definição de conhecimento a ser obtida em um
determinado prazo para desbravar novos rumos e/ou novas pesquisas. Há, na realidade, idéias
que surgem de repente, a partir das pessoas e que são perseguidas através de projetos
estruturados para a criação do novo conceito necessário.
Um exemplo é o tipo de lente X [...] Portanto, a idéia para isto veio de uma pessoa
que tinha estado trabalhando por um bom período de tempo. Ela provocou-nos, eu
acho, em adotar a idéia, implementá-la e desenvolvê-la. Mas, foi somente uma
pessoa que teve a idéia [...] Nós discutimos a idéia por uns dias, submetemos aos
fóruns e iniciamos o projeto. O trabalho iniciou e nós fizemos todo o
desenvolvimento e o lançamento do produto. Levou [...] nós planejamos lançá-la
dentro de 12 meses, mas levou um par de anos em função do número de áreas de
inovação e desenvolvimento necessárias. (Tradução deste trabalho)
A atividade de procurar por novas oportunidades em bases tecnológicas para o Centro
de Pesquisa desenvolver, desde que sejam comercializáveis no mercado, é uma das maiores
responsabilidades do time de tecnologia de materiais. A atividade envolve uma visão mais
holística do todo, a partir de tecnologias individuais, procurando identificar como elas podem
ser combinadas e otimizadas em relação aos produtos já desenvolvidos.
11
Como vender a idéia de uma nova oportunidade dentro da Empresa? Como promover o
avanço do domínio tecnológico? Deve-se investigar uma tecnologia que ainda não se tem
conhecimento? O próprio conhecimento conceitual sobre uma tecnologia gerará um
conhecimento aplicado para o desenvolvimento e lançamento de novos produtos no mercado.
A aquisição e/ou criação do conhecimento ocorre no plano conceitual. Quando uma pessoa
sugere uma idéia, há a percepção entre os cientistas de que esta é uma idéia para e da
empresa, portanto, uma idéia sugerida pelo indivíduo, mas valorizada como do grupo. A
atuação em equipes de projetos propõe que obter um resultado de sucesso significa que esse
resultado pertence ao time e não ao indivíduo.
6.2 A Empresa ALFA
A empresa ALFA atua no setor de desenvolvimento, projeto e construção de linhas e
sistemas de montagem e testes para fabricantes de autopeças, eletrodomésticos e componentes
eletrônicos. Cada linha de montagem representa um novo projeto e a construção de um novo
produto, específico para as necessidades dos clientes. Os produtos e serviços incluem
soluções em montagem, teste e manuseio de peças, variando de uma bancada de teste a uma
linha de montagem completa, totalmente automatizada. Seus produtos são células de
montagem – um grupo de máquinas e equipamentos interligados com a função de montar,
testar e movimentar componentes de uma determinada família de produtos, tais como:
mecanismos de direção hidráulica, sistemas de arrefecimento, bombas hidráulicas, colunas de
direção automotiva, interruptores elétricos, compressores de refrigeração, radiadores,
contactoras, reatores e disjuntores.
6.2.1 O Processo de Adquirir/Criar Conhecimento
A empresa valoriza a aquisição e criação do conhecimento a partir e no exercício da
atividade. Não há um processo formal com um tempo dedicado para promoção da
aquisição/criação de um determinado conhecimento, independente da gestão de um projeto
em andamento. Há a intenção de desenvolver procedimentos para gerenciar diferentes
projetos, entretanto, a “pressão” por resultados específicos para a produção sob encomenda
acaba recebendo toda a prioridade e é compreendida como a razão pela qual os gerentes não
vêm sistematizando a aquisição/criação de conhecimento.
O setor de Engenharia de Aplicações da empresa é o responsável pela criação e
concepção de um novo projeto, considerado uma atividade “nobre” entre as fases integrantes
de um projeto, ou seja, onde boa parte da criação de soluções inovadoras são definidas. A
partir desta concepção são elaborados orçamentos (cotações) e, portanto, estabelecidas as
definições restritivas de custos e opções de aplicação tecnológica. O processo desenvolvido
pelo setor de Aplicações - desde conhecer o produto do cliente, identificar o processo
produtivo, criar uma solução, apresentar e desenvolver a solução ideal –envolve um período
de seis a oito meses. Os vendedores técnicos fazem o contato entre o cliente e o engenheiro de
aplicações que irá desdobrar a necessidade do cliente em uma proposta de linha de produção.
O nosso produto é a necessidade do cliente. Nossa linha tapa o buraco que o
cliente tem. E aí, cada cliente tem o seu buraco e sua maneira de fazer as coisas.
Então a Engenharia de Aplicações é - um pouco - cria também. Ela cria e quando
precisa de auxílio, ela busca auxílio nas áreas mais [...] que têm mais expertise pra
conseguir ter uma melhor solução. Mas ela faz essa função um pouco de criar [...].
Entretanto “Como acontece a aquisição do novo conhecimento necessário para a
criação de uma nova linha de produção?” Interessante a primeira resposta sucinta: “[...]
primeiro o conhecimento se adquire pegando a experiência do cliente [...]”. As visitas às
novas fábricas, o contato com os processos produtivos, a visualização de projetos antigos para
o qual o cliente requisitou uma nova concepção foram mencionadas como as ações que mais
proporcionam a criação para desenvolver um novo conceito. Conceitos que podem ser antigos
12
em certas aplicações, mas que quando reutilizados em outras, se tornam novos para a
Empresa.
Então ao visitar essas novas linhas, essas fábricas, surgem idéias novas, tu
aproveitas, vamos dizer assim, pra nós, mas que já estão sendo utilizados em outros
lugares. Eu acho que essa é uma forma de acessar conhecimento: pode ser novo pra
empresa, mas pode ser algo que já existia em outro lugar [...]
O contato com os processos produtivos, os quais são normalmente informados pelo
cliente, proporciona a criação e aquisição inicial de conhecimento. Muitas vezes, após o
estudo e análise da possível linha, são sugeridas alterações no processo original de produção
que o cliente apresentou. Algumas vezes o cliente solicita um tipo de produto que ele já viu
algo parecido. Nessas situações todas idéias são aproveitadas, seja no processo de produção
pesquisado, ou em outros processos relacionados com o problema.
Se eu vou visitar uma planta de um cliente – ah, ele vai me mostrar o processo dele
pra montar um freio, vamos supor. Aí eu começo a olhar, acompanhar –
automaticamente eu tô guardando aquilo pra mim. Pode acontecer de naquele
momento não ser útil, mas lá na frente apareceu uma outra aplicação e dizer: “Puxa,
olha aqui, oh! Eu vi um troço parecido, uma aplicação parecida no cliente X fazer
assim. Assim, pô! Eu posso usar essa solução aqui”.
Portanto, resumindo, as fontes de criação e aquisição de conhecimento utilizadas são:
o conhecimento do próprio cliente;
as visitas às plantas industriais dos clientes;
o conhecimento da experiência dos especialistas da Empresa – o knowhow adquirido;
as novas soluções de tecnologias vislumbradas pela liderança ou pelo pessoal, ou
propostas por fornecedores;
5) o incentivo ao treinamento e desenvolvimento sobre novos temas, e
6) a Internet, como meio de identificar novos produtos adequados para soluções imaginadas
para o problema proposto. Esta última mais como um apoio, e não como uma fonte de
criação de conhecimento.
1)
2)
3)
4)
6.3 Análise Sucinta dos Casos
Na Empresa BETA na investigação do processo como foco de pesquisa verificou-se
que haveria necessidade de maior tempo de observação e análise do contexto. Quando se trata
de estratégias de conhecimento, a pesquisa sobre o processo é totalmente diferente de uma
pesquisa das etapas de um processo de produção, por exemplo.
Na etapa do processo de adquirir/criar conhecimento na empresa BETA, considerou-se
como provável a existência de barreiras cognitivas através de algumas evidências
caracterizadas pelos entrevistados. Por exemplo, através da falta de tempo dedicado para
pesquisar novos conceitos independentes do mercado; ou mais especificamente, pesquisar
produtos que venham a “transformar o mercado” em vez de “atender o mercado” em suas
necessidades ou expectativas. Como o Centro valoriza o conhecimento adquirido ao longo do
tempo procurando manter os seus profissionais, parece haver um consenso de que isto vem
facilitando atender à criação rápida de conhecimento dedicado aos projetos demandados. Por
outro lado, as habilidades anteriormente desenvolvidas na criação de conhecimento conceitual
não estão mais sendo promovidas, em função da atual resposta ao mercado requisitada à
P&D.
Na Empresa ALFA foi possível investigar com maior profundidade o processo em
relação ao contexto, permitindo identificar as barreiras cognitivas e as suas intensidades. O
comprometimento é um elemento que os líderes consideram como crucial para fazer parte da
empresa, influenciando na “obstinação” evidenciada para a aquisição/criação do
conhecimento (característica de empresas empreendedoras). Nesta Empresa, foram
identificadas fortes barreiras cognitivas na criação de conhecimento, evidenciadas
principalmente pela dificuldade de envolver diferentes pessoas na concepção de novos
13
projetos, na medida em que atua “sob pressão” de resultados administrando tanto cotações de
complexos projetos, como problemas na gestão dos projetos contratados. Tanto na empresa
ALFA como na BETA a competência estratégica mais evidenciada foi a de rapidamente
transformar a tecnologia em novos produtos e/ou serviços agregados.
7. Considerações Finais
Considera-se que toda organização tem a sua própria inteligência peculiar. A
inteligência organizacional se expressa em tomadas de decisões e ações que podem ser
consideradas “inteligentes” ou “não-inteligentes”. O problema é que mesmo uma atuação
“não inteligente” não indica, necessariamente, que a organização não tenha a inteligência
requerida. A inteligência pode estar sendo inibida. O desafio de refletir a respeito da
inteligência organizacional exige a distinção entre a inteligência da organização como um
potencial, e o estado “inteligente” ou “não-inteligente” de atuação da organização.
A questão crítica está em como a organização promove ou restringe a sua “mente
coletiva”, criando um estereótipo ou um “perfil” associado as suas ações como aquele
representativo do potencial invisível existente. O potencial necessário (a inteligência) pode
existir, entretanto, certas barreiras na organização podem inibir o desenvolvimento de atos
cada vez mais inteligentes. A questão é que os atos representam e incentivam o
desenvolvimento de uma mente coletiva, pois as ações conectadas é que constroem o processo
mental, em vez do processo mental suportar essas ações (WEICK & ROBERTS, 1993). Uma
organização cujos “atos” vem sendo “desastrosos”, constrói uma mente coletiva de desastres.
Uma organização cujos “atos” vem sendo construtivos, constrói uma mente coletiva de ações
construtivas.
Analisar as organizações através da perspectiva contextual para promover a sua
inteligência através de estratégias de conhecimento, permite identificar o uso de sua
inteligência. Quanto maior forem as barreiras cognitivas percebidas, maior será a dificuldade
de compreender os atos como “inteligentes” e/ou “não-inteligentes” no desempenho das
atividades organizacionais. Entende-se que uma organização atuará de forma inteligente
quando, a partir de seu potencial (inteligência), conseguir identificar e superar as suas
barreiras cognitivas para encontrar soluções adequadas ao contexto do problema vivenciado.
Os estudos de caso apresentados ilustraram, especificamente através do processo de
criação de conhecimento, a perspectiva contextual apesar de descrita de forma implícita. Nas
duas empresas envolvidas com pesquisa e desenvolvimento, detentoras de “tecnologia de
ponta”, identificou-se que o principal elemento para a criação do conhecimento está no
contexto. O relacionamento interpessoal para a troca de informações foi evidenciado como o
fator preponderante para a criação de conhecimento nas duas organizações pesquisadas. O
ambiente de compartilhar não valoriza a idéia “de um” e, sim, a idéia “para todos”,
contribuindo para o sucesso do projeto em desenvolvimento.
Nas Empresas investigadas as estratégias utilizadas para acessar e/ou criar novos
conhecimentos dependem das particularidades dos indivíduoss. Entretanto, quando observa-se
o plano organizacional identifica-se características e barreiras peculiares, como a falta de
tempo dedicado para “pensar” e “criar” um novo conhecimento e, conseqüentemente, um
novo mercado, parecendo caracterizar estratégias incrementais e não revolucionárias na
obtenção de novos conhecimentos esperados. Parecem indicar que a inteligência
organizacional desenvolve-se em uma esfera de atuação, como se atuasse em um setor
competitivo do conhecimento. Parecem esquecer, ou desconhecer, que a sua atuação
expressa-se, principalmente, através de estratégias de conhecimento que ocorrem na ação nãolinear, e as grandes oportunidades estão em saber relacionar, em saber conectar diferentes
planos ou em “hipertextos”.
14
Este artigo procurou contribuir, através da análise de estratégias de conhecimento, em
como interpretar organizações sob a ótica da perspectiva contextual, no sentido de
desenvolver habilidades necessárias para promover a criação de competências
organizacionais. Compreende-se que o desenvolvimento dessas habilidades será proporcional
à redução das barreiras cognitivas da organização e argumentou-se que esta é uma maneira
pragmática, e portanto, gerencial de promover o melhor uso da inteligência organizacional.
Assim, acredita-se que o debate metafísico sobre o conceito de ser ou não inteligente; ou se há
ou não uma inteligência organizacional – dúvida sustentada, principalmente, pela
complexidade conceitual – venha a ser direcionado para melhor interpretar as organizações
como resultados de processos cognitivos, expressos em suas escolhas estratégicas frente aos
desafios do desconhecimento.
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Inteligência Organizacional: do Debate Metafísico para uma