ALFABETIZAÇÃO EM ESCOLAS DO MST E SUA RELAÇÃO COM O LETRAMENTO DOS APRENDIZES Maria Neuza Pedrosa Ferreira1 Sidney Alexandre Costa2 Maria Lúcia Ferreira de Figueiredo Barbosa 3 RESUMO: Esta pesquisa visa analisar a relação alfabetização e letramento, em escolas do MST. Optamos por uma abordagem qualitativa, de cunho etnográfico, utilizando como instrumentos para coleta dos dados: observações, entrevistas semi-estruturadas e análise documental da proposta pedagógica do Movimento. Participaram da pesquisa quatro professores de duas escolas do MST, sendo uma escola de um assentamento e outra de um acampamento. Os dados mostraram que apenas uma professora trabalha sob os princípios educativos do MST. Concluímos que o letramento escolar vinculado às práticas tradicionais foi evidenciado em uma das escolas observadas e em outra encontramos uma abordagem voltada às práticas sociais de letramento. Palavras-chaves: alfabetização; letramento; Movimento dos Sem Terra. INTRODUÇÃO Segundo dados de pesquisas nacionais e internacionais (SAEB, PISA 2005) o Brasil possui uma grande quantidade de indivíduos que mesmo com alguma escolaridade não atendem as exigências de um mundo letrado. Mesmo não estando incluídos em estado de analfabetismo, muitos destes indivíduos jovens, adultos e crianças - apresentam extrema dificuldade ou mesmo incapacidade de interpretar frases curtas ou textos simples. Além disso, o país possui ainda 18 milhões de cidadãos analfabetos (IBGE 2006), ou seja, indivíduos que não sabem ler nem escrever, segundo as determinações na constituição nacional. 1 Concluinte de Pedagogia – Centro de Educação – UFPE. [email protected] Concluinte de Pedagogia – Centro de Educação – UFPE. [email protected] 3 Professora do Departamento de Métodos e Técnicas Educacionais – Centro de Educação – UFPE. [email protected] 2 1 No campo da alfabetização vários autores (Albuquerque e Leal, 2005; Soares, 1998; Tfouni, 1995) vêm participando de debates nos quais se questionam as práticas restritas aos velhos métodos de alfabetização, sugerindo que desde cedo sejam adotadas as práticas de alfabetizar letrando. Temos conhecimento da existência de vasto material de pesquisa sobre a temática central tratada neste estudo – alfabetização e letramento – em ambientes escolares das redes oficiais de ensino. Contudo, optamos por investigar como acontece a apropriação do sistema de escrita alfabética numa perspectiva de letramento em escolas vinculadas ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). O MST vem conseguindo manter-se na condição de um dos movimentos sociais mais fortes e como o maior representante dos trabalhadores rurais graças à sua estrutura e organização interna. Os acampamentos e assentamentos que surgem ano após ano são evidências disso. Mais adiante faremos a distinção entre essas duas condições de ocupação no tópico percepções entre as escolas e a vida dos acampados e assentados. Roseli Caldart (1997) em “Educação em Movimento - formação de educadores e educadoras do MST” faz uma abordagem dos processos pedagógicos presentes na proposta educacional do MST a partir da formação de educadores e educadoras na década de 1990. Segundo essa autora, as situações reais impulsionaram o Movimento a pensar em inserir a educação no seu interior, especialmente no âmbito da escolarização das crianças presentes nos acampamentos. Segundo ela, foi pensada uma pedagogia que em suas ações viesse a diferenciar-se das tradicionais formas de educação das escolas oficiais. Assim, o prolongamento dos acampamentos e a presença de crianças fazem surgir uma preocupação em relação à educação. Data de meados de 1983 o registro de surgimento da primeira escola de assentamento, em Ronda Alta, no Estado do Rio Grande do Sul (Caldart 1997). Caldart (1997) diz que em 1987 tem-se a criação do Setor de Educação na ocasião reuniram-se representantes de sete Estados visando à organicidade para a questão educacional. Duas questões levantadas nesse encontro serviram de mote para a elaboração da proposta pedagógica: “o que queremos com as escolas nos assentamentos?” e “como fazer a escola que queremos?”. 2 Fiéis aos princípios sociais e políticos defendidos pelo Movimento foi-se constituindo a proposta educacional. O primeiro Curso de Magistério do MST, ocorrido em janeiro de 1990, no Rio Grande do Sul é considerado um marco na história de educação do movimento por permitir “incorporar e gerar as novas práticas de formação desenvolvidas nos diversos lugares da luta, bem como ser um espaço privilegiado de experimentação, criação e recriação das concepções e práticas pedagógicas do MST” (Caldart 1997, p.33). Não queremos neste estudo deixar margem ou levantar especulações sobre que ou quais escolas sejam melhores, pois evidentemente cada escola possui sua singularidade e aspectos pertinentes a cada uma. São esses aspectos que procuraremos mostrar mais adiante neste estudo. Podemos dizer que a concepção deste estudo foi impulsionada por dois aspectos que nos inquietavam. O primeiro aspecto era conhecer melhor o funcionamento do sistema de escrita e como é possível este se engajar em práticas sociais letradas, principalmente sob o ponto de vista de que vivemos numa “quase” inevitável cultura grafocêntrica. O segundo era saber como ocorrem as práticas escolares de ensino da língua escrita, e como sua dimensão social manifesta-se em espaços diferenciados, em especial, escolas do MST. Tivemos a oportunidade de fazer, durante o curso de Pedagogia, uma excussão a um acampamento do MST em São Lourenço da Mata, Região Metropolitana do Recife, daí surgiu o interesse por esse espaço ao cogitarmos em qual campo empírico seria realizada nossa pesquisa. Esperamos que os resultados deste estudo, embora sejam decorrentes de uma pequena amostra, tragam alguma contribuição para o entendimento sobre o novo paradigma alfabetizador em instituições escolares inseridas em contextos diferenciados, como é o caso do MST, e que sirva como proposição de situações de intervenção específicas sobre alfabetização na perspectiva de letramento que favoreçam a compreensão e ampliação do conhecimento dos alunos para que estes não a usem como uma mera técnica da escrita, mas que possa ser utilizada como instrumento nas ações comunicativas nos diversos contextos cotidianos. E ainda, temos a expectativa de que a pesquisa desperte o interesse de outros educadores sobre o trabalho de alfabetização em escolas fora do contexto oficial de ensino. 3 Alfabetização e Letramento - conceitos, relações e implicações básicas Neste momento, faz-se necessário uma breve descrição a respeito do que vem sendo cientificamente considerado sobre alfabetização e letramento a fim de fundamentarmos algumas de nossas colocações. Segundo Albuquerque e Leal (2005), a partir da década de 90 o IBGE, sobre recomendação da UNESCO, passou a divulgar além do índice de alfabetização e analfabetismo, o de analfabetismo funcional. No entanto, em nosso país, o caráter de analfabetismo funcional também está vinculado ao tempo de escolarização dos sujeitos. Neste caso, o indivíduo que for alfabetizado, mas que tiver menos de quatro anos de escolarização pode ser considerado como analfabeto funcional. Este dado, a priori, nos desperta uma preocupação, pois o instrumento que analisa o analfabetismo funcional é determinado por uma instituição internacional (Unesco) que toma como referência países desenvolvidos, onde a maioria da população se encontra alfabetizada e possui alta escolaridade (e mesmo lá se evidencia o fator do analfabetismo funcional). O conceito de analfabetismo funcional no paradigma brasileiro torna-se escandaloso, pois em nosso país grande parte da população tem baixa escolaridade e, por este instrumento de análise, acaba sendo considerado analfabeto funcional mesmo que se encontrem sujeitos que se mostrem capazes de se inserirem em práticas sociais diversas de escrita. Para Tfouni (1995), letramento consiste num processo no qual está encaixado outro, o da alfabetização, e que está ligado a condições sóciohistóricas onde discursos escritos são lidos e ganham sentido. Para esta autora, existem duas formas de definir a alfabetização: uma delas é concebê-la como um processo de aquisição de habilidades para leitura e escrita; a outra é como um processo de representação de objetos de naturezas diferentes. A primeira forma tem seu valor reconhecido, pois a alfabetização é a aquisição de habilidades individuais. Entretanto, apoiando-se em Tfouni (1995), a concepção de alfabetização que se esgota quando chegam ao fim os objetivos instrucionais evidencia a visão restrita de alfabetização. Ou seja, geralmente concebe-se a alfabetização como um fenômeno que se completa quando se adquire a tecnologia da escrita e prática de leitura de textos, 4 habilidades por sua vez geralmente adquiridas através da escolarização. Outro aspecto que merece atenção é o fato de que a alfabetização encontra-se intimamente ligada à escola, já que esta é a instituição oficial e formalmente responsável por consolidá-la. Porém sabemos que sujeitos podem se alfabetizar sem nunca terem ido à escola. É possível se estar alfabetizado sem necessariamente se estar letrado ou vice-versa, bem como que ambos os fenômenos são interdependentes. Podemos considerar que se os indivíduos se alfabetizam numa perspectiva de letramento, estes poderão ter acesso aos diversos suportes que comportam o conhecimento e assim, possivelmente, poderão interferir nas demandas e transformações decorrentes do processo histórico-social, exercendo verdadeira influência nos âmbitos sociais. Alfabetização como processo de apropriação da escrita Hoje em dia com as diversas teorias a respeito da alfabetização, principalmente a psicogenética (FERREIRO e TEBEROSKY, 1985), é comum não mais conceber a alfabetização como um simples domínio mecânico das habilidades de codificação e decodificação, embora essas autoras não aceitem o uso do termo letramento, pois para elas a alfabetização englobaria os dois termos. Uma vez que acreditamos ser possível e mais pertinente se alfabetizar letrando, parece-nos que apenas deter uma técnica (a escrita) não é um princípio primordial para inserção de sujeitos num mundo letrado. Alfabetizar de modo que os indivíduos se beneficiem deste processo e compreendam os princípios do sistema alfabético, nos parece fundamental para que os aprendizes possam criar autonomia quanto à leitura e à produção de textos diversos. Para que os alunos possam refletir sobre os princípios do sistema de escrita alfabético devemos levar em conta que eles deverão passar por diferentes etapas na construção de suas hipóteses sobre a escrita. Para Ferreiro (1985), estes estágios são, grosso modo, o pré-silábico, o silábico e o alfabético, descritos no Quadro 1, que segue logo abaixo. A construção da escrita por meio desses estágios mostra o sujeito alfabetizado como construtor 5 de concepções, portanto sujeito ativo do conhecimento sobre o sistema alfabético. Para Ferreiro (1981), “a construção da escrita foi um processo histórico de construção de um sistema de representação e não um processo de codificação” (p.12). Desse modo, conceber a escrita como um sistema e não um código leva em conta que os sujeitos alfabetizandos são seres que elaboram hipóteses a respeito desse sistema e, portanto, (re) constroem seus conhecimentos de modo a compreenderem em que implicam suas características. Segundo a Teoria da Psicogênese da Língua Escrita, o alfabetizando se apropria do sistema alfabético passando pelos já citados estágios de construção, cujas especificidades são observadas no Quadro 1, cuja elaboração foi sistematizada a partir de Albuquerque e Leal (2005): Quadro 1. Estágios de apropriação da escrita Estágios Características Pré-silábico Não fazem relação entre a escrita e a pauta sonora e concentram seus esforços para saber o que a escrita representa. Percebem que precisa dirigir a escrita para a pauta sonora, e compreendem que as palavras podem ser segmentadas em partes. Compreendem que as sílabas podem ser compostas de unidades menores (os fonemas) e começam a pôr mais letras para cada sílaba sem, no entanto, haver consistência quanto a tais relações. Este ainda se subdivide-se em silábico qualitativo e silábico quantitativo. Já representam fonemas e começam a aprender que as regras de correspondências grafofônicas são ortográficas e não fonéticas. Silábico Silábico-alfabético Alfabético Letramento: práticas sociais de leitura e escrita Segundo Magda Soares (1998) os primeiros registros do uso do termo letramento foi introduzido por Mary Kato4 em sua obra No mundo da escrita: uma perspectiva lingüística (1986) e logo após por Leda Verdiani Tfouni5 em seu livro Adultos não alfabetizados: o avesso do avesso (1988). Soares também nos explica que letramento é um termo traduzido da palavra inglesa literacy que significa a condição daquele que faz uso competente e freqüente da leitura e da escrita. Para tanto não é tão somente saber ler e escrever, mas 4 5 KATO, Mary apud SOARES, Magda. Letramento: um tema em três gêneros . p.13. TFOUNI, Leda apud SOARES, Magda. Idem. p.13 6 envolver-se em situações sociais em que a leitura e a escrita estejam presentes. Soares também nos apresenta nesta mesma obra os conceitos de letramento individual e social, sendo o primeiro basicamente entendido como: A habilidade lingüística e psicológica de usar a leitura para decodificar palavras escritas até a capacidade de compreender textos escritos integrando diferentes informações e a escrita como habilidade desde registrar unidades de som até a capacidade de transmitir significados de forma adequada a leitores potenciais (SOARES, 1998, p. 68). O segundo (o social) é basicamente compreendido como: “o conjunto de práticas socialmente envolvendo leitura e escrita geradas por processos sociais mais amplos e responsáveis por reforçar ou questionar valores, tradições e formas de distribuição de poder presentes nos contextos sociais” (p.74). As necessidades sociais foram determinantes para o surgimento de novas demandas comunicativas - que também envolvem o uso da leitura e escrita - e estar ciente destas necessidades sabendo utilizá-las no cotidiano significa “estar letrado”, pois se constitui do uso competente da linguagem em situações diferentes de comunicação. Salientamos também que na década de 1980 surgiram novas concepções de letramento entre as quais as concepções do modelo autônomo e do modelo ideológico Street6 (1984). Kleiman (1995) aponta como desvantagem do modelo autônomo o determinismo tecnológico, a indiferença às variações culturais entre outros fatores discriminatórios contra o “iletrado” e por ser baseado principalmente em textos escritos em detrimento da oralidade. Já o modelo que se contrapõe a este (o ideológico) tem como base a natureza social do letramento e considera a leitura e a escrita como práticas sociais. O modelo do letramento ideológico leva em consideração as crenças, os valores, a ideologia dos indivíduos, bem como a sua relação de afetividade com a escrita. OBJETIVO GERAL 6 STREET apud KLEIMAN, Ângela B. O significado do Letramento (p.21). 7 Analisar a prática de ensino dos princípios do sistema alfabético, para fins de leitura e escrita, no interior de escolas do MST, bem como, saber se esta prática tem relação com a perspectiva do letramento, e se esta se encontra em consonância com a proposta pedagógica do movimento. OBJETIVOS ESPECÍFICOS • Observar as atividades de alfabetização utilizadas na(s) escola(s) pesquisada(s); • Analisar o documento da Proposta Pedagógica para alfabetização nas escolas do MST. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS O desenvolvimento desta pesquisa foi realizado por meio de uma abordagem qualitativa. Adotamos como campo empírico duas escolas do MST (uma situada num acampamento e outra num assentamento). Foram realizadas dez observações no acampamento (totalizando 26 horas de observação) e duas observações no assentamento durante dois dias corridos (totalizando 16 horas de observação, sendo oito horas em cada dia). No acampamento, observou-se duas turmas de alfabetização de crianças, uma de EJA e uma do Brasil Alfabetizado. No assentamento foram observadas duas turmas de crianças das séries iniciais do ensino fundamental de oito anos. O estudo teve os seguintes procedimentos técnicos: leituras e fichamentos; pesquisa documental, através da análise dos princípios que fundamentam a proposta pedagógica para as escolas do MST no tocante à alfabetização e produção de textos; roteiro de observação; entrevistas semi-estruturadas e gravadas em áudio; e diário de campo. Após o levantamento dos dados, seguimos com a análise qualitativa dos mesmos lançando um olhar crítico, observando os procedimentos didáticos para ensinar os princípios do sistema da notação alfabética e suas relações com a perspectiva do alfabetizar letrando, e ainda se as práticas dos professores encontram-se em consonância com os princípios apresentados na proposta pedagógica do MST. O caráter qualitativo da investigação neste estudo permitirá não uma generalização dos fatos, mas, sim, sistematizar no 8 interior das unidades investigadas, a título de exemplaridade, os diversos aspectos inerentes à perspectiva da alfabetização e letramento realizados com maior freqüência e maior relevância. RESULTADOS E DISCUSSÃO: Percepções entre as escolas e a vida dos Acampados e Assentados Optamos por duas escolas da área rural, uma pertencente ao Município de São Lourenço da Mata e outra ao Município de Gravatá. Antes gostaríamos de esboçar um pouco sobre as duas realidades distintas nas escolas observadas, pois uma encontra-se dentro de acampamento e a outra no interior de um assentamento. Sabemos que a determinação de ocupar uma terra não é uma tarefa fácil, exige muita coragem, visto que histórias de trabalhadores que lutam pela terra muitas vezes podem terminar de forma violenta. De modo que, da ocupação ao assentamento há uma longa história (ameaças de desocupação, negociatas com governantes, distribuição dos lotes). A condição de acampamento dá-se quando grupos de trabalhadores ocupam a terra improdutiva e montam suas campanas de resistência. Esses permanecem acampados por anos até que todos os processos legais sejam tramitados e a terra seja comprada pelo INCRA. Esta é a situação em que se encontra o Acampamento Chico Mendes, em São Lourenço da Mata. Ainda não há na localidade água corrente nem energia elétrica. Quanto à água, os acampados retiram-na de poços artesianos abertos por eles. Uma vez de posse de suas escrituras, os trabalhadores serão donos dos seus lotes de terra. Entretanto, o governo só entregará a escritura aos trabalhadores que quitarem a dívida que foi assumida por aquele, que varia de acordo com o tempo de cada processo de negociação e tamanho das terras. Nesse caso, as famílias são assentadas e recebem seus respectivos lotes e ficam pagando as prestações até quitar a dívida e terem suas escrituras definitivamente. A distribuição dos lotes significa a realização de um sonho dentro do processo de assentamento e seria a objetivação da luta. O assentamento Várzea Grande em Gravatá existe há dez anos e como em tantas outras lutas de trabalhadores pela conquista de um pedaço de terra, ou 9 de uma vida nova, tem a sua história. As habitações desta localidade são de alvenaria, possuem água corrente e eletricidade. Caracterização dos espaços escolares pesquisados A Escola Itinerante Chico Mendes, localiza-se no centro do acampamento homônimo e trata-se de um anexo da Escola Estadual do Conde, localizada no centro do município de São Lourenço. Sua estrutura é caracterizada por um espaço quadricular de 4mx6m com o piso composto por barro batido e as paredes são feitas com material de pau-a-pique (barro e madeira) cobrindo a metade de baixo da sala e deixando a outra metade de cima aberta para ventilação. O teto é de telhas de amianto. O espaço não possui porta e seu interior é composto por dois quadros de giz (um pequeno e um grande), várias cadeiras escolares em estado deteriorado, duas estantes repletas de livros didáticos de níveis diversos, dois lampiões a gás, um birô para o professor (a) e uma mesa que dá suporte a dois filtros de barro com água para consumo dos alunos e professores. O material didático básico (papel, lápis, caneta, giz) tem sido trazido pelas professoras da rede estadual e está sendo distribuído aos alunos aos poucos devido ao recente início do ano letivo. No geral, podemos notar que a estrutura da escola Itinerante Chico Mendes é improvisada para atendimento imediato aos estudantes do acampamento, sem demais instalações. Há ainda um pequeno banheiro ao lado da escola feito do mesmo material (pau-a-pique), e recentemente tem-se feito um mutirão, revezado por grupos compostos pelos membros do acampamento, para a construção da cozinha da escola ao lado desta. A segunda é a Escola Várzea Grande que fica no assentamento homônimo e este se localiza na zona rural da cidade de Gravatá e atendem crianças na faixa etária dos 6 aos 11 anos de idade. A Escola fica no espaço de um antigo barracão do assentamento construído em alvenaria. Assim seu espaço é composto de um salão, que é sala de aula, quadro de giz, um pequeno quarto com livros e três estantes de ferro, um espaço, aos fundos, onde fica a cozinha e, mais atrás, um pequeno banheiro, com pia e vaso sanitário. Existe ainda um pequeno quarto, cujo acesso se dá pela sala de aula 10 (o vão) e que serve como espaço para se guardar material didático. As janelas e portas da escola são de madeira. Tanto estas quanto às paredes estavam pintadas. O teto é coberto por telha colonial. No geral, o espaço é limpo e arejado. As bancas das crianças são mesas quadradas e pequenas cadeiras apropriadas para a altura dos aprendizes que freqüentam a escola. As bancas sempre ficam organizadas em grupos de quatro, e em cada uma delas há uma identificação com o nome das crianças, porém a professora, sempre que necessita, organiza a sala de acordo com a atividade proposta para o dia ou coloca os alunos próximos uns dos outros de modo que possa haver mediação entre eles - alunos mais experientes podem ajudar aos menos experientes. Perfil dos sujeitos entrevistados Foram realizadas dez observações no acampamento Chico Mendes, sendo quatro no Ensino Fundamental I regular, durante o turno da manhã, quatro no Ensino Fundamental I EJA, no turno da tarde, e duas no programa Brasil Alfabetizado, do turno da noite. A duração das aulas no turno da manhã ocorre entre 8h às 11h; à tarde entre 13:00h às 16:00h; e à noite entre 19:00h às 20:00h. No acampamento, as professoras Wanderléia e Joelma7 do turno da manhã e da tarde, respectivamente, são funcionárias docentes da Rede Estadual de Ensino e o professor Marcelo do turno da noite é integrante e morador do lugar. No assentamento Várzea Grande foram realizadas duas observações onde permanecemos dois dias corridos no local. A duração das aulas no turno da manhã começa das 7:00h às 11:00h e no turno da tarde das 13:00h às 17:00h. A professora Maria Betânia é formada em Pedagogia e está por concluir uma especialização em Psicopedagogia. Já leciona há 23 anos. É a única professora do assentamento e vive lá há 10 anos. Seu vínculo é pela Secretaria de Educação da Rede municipal de Gravatá. Ela mora numa residência ao lado da escola. O Quadro 2 abaixo resume os perfis dos entrevistados: Quadro 2 – Perfis dos entrevistados (n=4) 7 Os nomes atribuídos aos professores são codinomes. 11 Professor 8 Wanderléia Vínculo Situação Empregatício Escola Secret. Educaç Acampam. Formação Tempo q/Tempo na Turma - Turno leciona Pedagogia Escola 22 anos 4 anos Estadual Joelma Ens. Fundam. I regular – Manhã Secret. Educaç Acampam. Normal Médio 8 anos Estadual 3 anos Ens. Fundam. I (Magistério) Marcelo Governo Augusto(*) Federal e MST Maria Secret. Educ. EJA – Tarde Acampam. Ens. Fundam. 2 anos 2 anos Brasil Alfabetizado Completo Assentam. Betânia(**) Municip.Gravatá Noite Pedagogia + 23 especializaçã anos 10anos Ens. Fundam. I regular – M / T o (cursando) *professor acampado; ** professora assentada. CONCEPÇÕES SOBRE O SISTEMA DE ESCRITA ALFABÉTICA - SEA Observamos durante aproximadamente três semanas seguidas, a prática alfabetizadora de quatro professores com formações distintas e que atendiam alunos de diferentes faixas etárias e níveis de ensino. Por questões didáticas, dividimos as observações realizadas na escola do acampamento Chico Mendes e na do assentamento Várzea Grande. A Tabela 1 traz o resumo das atividades desenvolvidas: Tabela 1 - Atividades de apropriação do SEA Professor Turma Período Atividades Desenvolvidas observado § 12 h Joelma EJA Wanderléia Fundamental I Marcelo Augusto Brasil Alfabetizado § 12h § 2h § 16h Maria Bethânia 8 Fundamental I § Familiarização com letras do alfabeto (cópia); § Utilização de famílias silábicas; § Utilização de palavras estáveis (nomes próprios); § Escrita de palavras curtas com sílabas na ordem consoante-vogal. § Familiarização com letras do alfabeto (cópia); § Utilização de famílias silábicas; § Contagem de silabas das palavras. § Familiarização com letras do alfabeto (cópia); § Utilização de famílias silábicas; § Cópia de palavras pré-estabelecidas. § Construção de palavras e atividade de leitura; § Familiarização com letras do alfabeto (jogos, brincadeiras); § Produção de palavras diversas; § Ativid. de comparação das sílabas das palavras; § Reflexão sobre a segmentação das palavras (letra, sílaba); § Reflexão sobre a semelhança grafofônica das palavras; Os nomes atribuídos aos professores são codinomes. 12 O SEA no contexto do acampamento Chico Mendes Na escola do acampamento, os três professores observados realizaram práticas alfabetizadoras de acordo com uma concepção tradicional, ou seja, de assimilação do sistema de escrita alfabético como um código. As práticas geralmente se limitaram à cópia e memorização das letras do alfabeto da língua portuguesa, das famílias silábicas, junção de sílabas, na ordem consoante-vogal, para a formação de palavras com, no máximo, três silabas. Nas atividades de alfabetização, a cópia foi o instrumento principal utilizado pelos professores para que os alunos registrassem e exercitassem seus conhecimentos sobre o SEA. Atividades escritas pelos professores nos cadernos dos alunos alfabetizandos para que os mesmos as copiassem tinham como base a cópia das letras (vogais e consoantes), sílabas com essas letras e a junção dessas sílabas a fim de se formar palavras. Neste caso, podemos perceber que a concepção dos professores em relação ao sistema de escrita alfabético é o de um processo de aquisição de uma habilidade para codificação e decodificação. Isso fica bastante evidente na fala do professor do turno noturno sobre qual significado ele atribui à alfabetização: - Marcelo Augusto: Pra mim significa aprender as letras e depois saber junta elas pra formar palavras, inclusive escrever o nome pra poder o povo saber quem você é. Nesta fala notamos que o professor confere um caráter de terminalidade no processo de alfabetização, uma vez que afirma que ao se aprender a juntar letras para se formar as palavras, inclusive o nome próprio, chega-se ao fim do processo, pois para ele alfabetizar é isso. Outra fala do mesmo professor diz respeito às atividades de memorização para se alcançar o aprendizado do SEA: - Marcelo Augusto: Eu fico tentando explicar e mando prestar atenção senão não decora as letras. Aí fico dizendo fica treinando senão não aprende. E a maior dificuldade deles é essa: saber identificar as letras, qual é qual. Logo, segundo o professor, se não memorizarem as letras, não saberão os alunos discerni-las e, assim, não se alfabetizarão. Para se aprender, neste caso, é necessário se utilizar de exercícios de repetição de modo que se internalize (memorize) as letras. Não é muito diferente a concepção que têm as outras duas professoras do acampamento Chico Mendes. Suas atividades de alfabetização também se 13 restringiram à cópia de letras e famílias silábicas nos cadernos dos alunos e memorização destas como forma dos mesmos exercitarem seus conhecimentos sobre o SEA. A junção de sílabas para formação de palavras também foi uma atividade predominante na prática alfabetizadora das mesmas. Uma frase de uma das professoras sobre o que é alfabetização: - Wanderléia: “É ensinar ele a ler né? Tem as etapas não é? O pré-silábico, o silábico, depois aí eles chegam na alfabetização que é quando ele aprende a ler, né?”. Neste caso, evidenciamos a peculiaridade de a professora considerar estágios de apropriação do sistema de escrita e, no entanto, sua prática ser desconectada do conhecimento destas concepções. A outra professora nos diz que a alfabetização para ela é: - Joelma: O que eu entendo é como eu trabalho. No meu sistema de trabalho de alfabetização eu trabalho: formação de palavras, de pequenas palavras, uma sílaba, depois a formação de palavras com duas sílabas, depois com três, depois a gente passa a conhecer as letras, letras manuscritas, a cursiva, trabalhar letras dos nomes próprios, como é? Letras maiúsculas, minúsculas. Depois a gente passa a conhecer letras de livro, textos, placas, revistas, recortes, formação de livros pequenos como contar histórias. Eu trabalho assim na alfabetização. Trabalho com eles aos poucos aí eles vão entendendo aos poucos porque eles são adultos não são feito as crianças que têm mais facilidade de aprendizagem do que os adultos. Ao analisar a fala, acima, notamos que a professora chega a considerar a existência de uma diferença de aprendizagem entre adultos e crianças concebendo uma visão da qual discordamos quando diz que crianças aprendem com mais facilidade. O que se percebe em turmas de adulto é a vontade de eles quererem aprender aquilo que lhes interessar, algo que eles precisam saber para fazer uso na sociedade. Para tanto, cabe ao professor motivar o estudante adulto à aprendizagem promovendo aulas interessantes e estimulantes, pois são pessoas normais, que apenas não tiveram condições de estudar no tempo adequado por vários motivos que exigiu sua própria condição social e econômica. Percebemos, ainda, que a professora utiliza vários suportes para ensinar as letras e assim alfabetizar, mas, no geral, o trabalho sempre emana do micro para o macro (da letra para a palavra), baseando-se em técnica de memorização e cópia de letras e sílabas para formação de palavras. Em todas as práticas, não houve, ou não foi dada muita margem à produção textual diversificada. Quando essa atividade acorreu durante as 14 observações, se restringiu a produção de textos em que era pedido para o aluno que não sabia escrever, fazer uma representação (em forma de desenho) sobre algo relacionado às temáticas tratadas na sala de aula. As práticas acima retratadas restringem à alfabetização a concepção de método. Soares (1998) dá sua definição quando a alfabetização preocupa-se excessivamente com o método. Para esta autora o método de alfabetização deverá ser resultado de objetivos definidos e da opção por algum paradigma conceitual que poderá caracterizar a pessoa a ser alfabetizada considerando os aspectos psicológicos, lingüísticos e pedagógicos que venha a responder aos objetivos determinados. Neste caso, fica evidente o caráter terminal atribuído à alfabetização pelos professores analisados no acampamento, pois na medida em que suas atividades se resumem a atividades em que se decore as letras para se aprender a juntá-las em forma de palavras, se alfabetizam os sujeitos. Não há dúvida que quando os alunos conseguem escrever palavras autonomamente podemos dizer que estão alfabetizados, mas não podemos negar que o propósito de terminalidade desconsidera que o sistema da escrita alfabética foi historicamente construído pela necessidade em se representar objetos de naturezas diferentes de modo a aperfeiçoar a comunicação. Quem aprende a ler e a escrever na perspectiva terminal, com maior dificuldade poderá ter compreensão sobre dimensões que configuram o SEA, como as regras ortográficas e gramaticais, por exemplo. Entretanto, este tipo de abordagem tradicional ignora o caráter significativo da escrita contribuindo para que o aluno não perceba imediatamente os usos e funções da escrita na sociedade. O SEA no contexto do assentamento Várzea Grande Na escola do assentamento, nos deparamos com uma realidade diferente. A professora realiza um trabalho de reflexão para o aprendizado do SEA. Nas atividades observadas, a mesma buscou estabelecer relações entre o som e grafia das letras, se utilizou de atividades de análise de reflexão fonológica, e isto sempre considerando haver a diferença entre os níveis de escrita de seus alunos. 15 Os alunos foram colocados frente a atividades que os fizeram pensar sobre os princípios do SEA de modo que compreendessem que A é A porque representa um determinado som correspondente. Neste contexto, a professora se utilizou de atividades em que palavras com partes semelhantes fossem confrontadas para que os alunos compreendessem que se tais partes são semelhantes seus sons poderão, também, serem semelhantes. Por exemplo, a professora a partir de um texto (o poema A Casa, de Vinicius de Morais) confrontou palavras como engraçada e nada e esmero e zero para que os alunos tecessem relação entre seus pedaços finais quanto à grafia e aos sons correspondentes. Esta atividade propiciou aos alunos a perceber que as rimas estão presentes em muitas outras palavras e que são muito utilizadas em poesias. Outra atividade, um ditado de palavras, serviu para que os alunos pudessem escrever uma palavra do jeito que sabiam, para depois compará-la à sua forma ortográfica, o que levou aos aprendizes a refletir sobre o que é necessário para construir uma determinada palavra de maneira ortograficamente aceitável. Neste caso, se o aluno escrevesse CUELO e depois se deparasse com COELHO ele seria obrigado a pensar na diferença existente na grafia destas palavras e no que implica essa diferença, fazendo-o levantar hipóteses sobre a escrita com a mediação da professora. O tipo de trabalho realizado pela professora levou em conta a escrita como um objeto de representação do oral. Na medida em que ela contrapôs palavras com partes semelhantes ou iguais para que os alunos analisassem a relação entre as mesmas, levou os educandos a compreenderem que estas semelhanças implicam em escrever de forma semelhante o que se pronuncia de forma também semelhante. A professora ainda estimula a autonomia dos alunos na medida em que os coloca para corrigirem suas atividades, uma vez em que eles teriam que comparar o que escreveram com o que já estava pronto e ver a diferença (no caso das palavras do ditado), a fim de depois orientá-los para que possam avançar em suas hipóteses. A prática de ensino da professora tem como base um trabalho bem planejado e flexível de acordo com o contexto da sala de aula e que acompanha o processo de desenvolvimento dos alunos. Atribuímos a 16 forma como a professora ensina os princípios do SEA à uma perspectiva de letramento. Vejamos o que ela diz sobre a alfabetização: - Maria Bethânia: A alfabetização, pra mim, ela é algo que não acontece sozinha, ela não pode estar isolada, trabalhando somente letras, números. Ela deve ser pensada de forma que aquele aluno tenha a visão maior do mundo ao seu redor, né? Por isso eu sempre trabalho muito através da vivência deles aqui. [...] O letramento, ele começa a partir da alfabetização. Porque você já vai começando ler para o aluno e ele já vai começando buscar o entendimento. Neste caso, alfabetizar é uma atividade que parece não se esgotar, pois se configura de acordo com as demandas e mudanças exigidas pela interação dos seres humanos com o mundo e a sociedade. Alfabetização é uma pratica que implica em constantes revisões devido a sua consonância com a realidade. CONCEPÇÕES SOBRE O LETRAMENTO As observações nos contextos distintos no MST, assentamento e acampamento, nos permitiram evidenciar um paradoxo existente nas práticas de letramento realizadas pelos educadores observados. A Tabela 2 abaixo traz a síntese das práticas de leitura evidenciadas nos dois contextos: Tabela 2: Indícios de Letramento nas atividades de leitura Professor Turma Atividades Desenvolvidas Joelma Fundamental I (EJA) § Utilização dos contextualizadores (título e autor) para resgatar informações sobre o texto. § Leitura do texto pela professora, depois por alunos. Wanderléia Fundamental I Marcelo Augusto Brasil Alfabetizado Maria Bethânia Fundamental I § Após leitura debater sobre a temática tratada no texto. § Elaboração de perguntas sobre o texto (respostas explícitas dadas no texto). § Inferências (respostas inferidas entre relações contextuais e textuais) Não houve § Utilização dos contextualizadores (autor, título...) para ativar conhecimentos prévios sobre o tema abordado; § Reconhecimento do gênero textual através de questões realizadas pela professora. § Leitura pela professora, depois cantiga por todos; § Perguntas literais (respostas explícitas); § Perguntas estimulando inferências (respostas inferidas do conhecimento de mundo, respostas de opinião). As atividades de leituras restringiram-se às práticas das professoras Maria Bethânia, Joelma e Wanderléia. Apenas o professor Marcelo Augusto, que ministra aulas no projeto Brasil Alfabetizado, não desenvolveu nenhuma 17 atividade com ocorrência de leituras em sala de aula. A seguir analisaremos essas práticas de acordo com seus respectivos contextos. A leitura no contexto do acampamento Chico Mendes Constatou-se que no contexto do acampamento Chico Mendes os indícios de letramento ficaram restritos às práticas letradas escolares servindo para atender apenas as capacidades simples sem a preocupação em estabelecer ligação com objetivos sociais mais complexos. Apesar da importância de a escola avançar para práticas de letramento que se insiram no modelo ideológico (STREET, 1984 apud KLAIMEN, 1995) persiste o letramento autônomo. Não nos propusemos nesse estudo aprofundarmos a distinção entre um e outro modelo de letramento, mas não podemos ignorar que as práticas observadas no acampamento Chico Mendes evidenciam a abordagem do letramento para escolarização. As práticas de leitura realizadas pelas professoras Joelma e Wanderléia, durante nossas observações, restringiram-se ao suporte do livro didático ou a uma letra de música. No primeiro caso observado, na turma da manhã, com a professora Wanderléia, uma das leituras teve como finalidade analisar a poluição das águas, ficou restrita ao texto didático do livro de Ciências Naturais, e logo depois foi feita uma atividade de interpretação e reposta a perguntas do livro. No segundo caso, observado na turma da tarde, a professora Joelma procurou explorar, uma letra de música (Asa Branca, de Luiz Gonzaga,) e deteve-se minimamente aos contextualizadores do texto como o cantor, o compositor e o título, e logo depois sugeriu uma atividade de construção de um desenho, ou texto que se relacionasse com a realidade retratada na música. Em ambos os casos, ficou evidente que o letramento foi algo realizado de maneira instrumental. Não houve sugestão das professoras para que os alunos pudessem transpor estes gêneros para a sua vivência no dia a dia, pois, a leitura e a escrita (que de fato ocorreram) tiveram intencionalidade meramente para fins escolares. Foram feitas sem reflexão sobre o gênero do texto nem autonomia para refletir e utilizar estes indícios de letramento nas práticas de leitura e escrita do cotidiano. 18 O letramento escolar é necessário e não pode ser concebido como algo negativo em si mesmo. Suas limitações e dificuldades dependem não apenas dos professores, mas de outros fatores como condições de vida e de trabalho, formação para ensinar leitura e escrita, proposta pedagógica da instituição, dentre outros. Por fim, evidenciamos que o letramento propiciado aos alunos e realizado pelas professoras, no acampamento Chico Mendes cumpre uma finalidade instrumental e não se configurou como uma prática que considera a necessidade de haver outros sujeitos que se beneficiam e relacionam nas situações de comunicação (sócio-interatividade). A leitura no contexto do assentamento Várzea Grande Neste contexto, pudemos perceber, dentre os muitos aspectos, que a professora realizou práticas de letramento cujo modelo é o ideológico. Ela procurou mesclar a proposta pedagógica de cunho político do MST com a da secretaria municipal de educação do município de Gravatá e permitiu que os alunos refletissem sobre as utilidades e necessidades de se utilizar a escrita em contextos sociais diferenciados. A abordagem numa perspectiva ideológica de letramento observada na prática da professora Maria Betânia mostra que ela considera a leitura e a escrita como algo de natureza social e que, portanto, envolvem vários sujeitos que se inter-relacionam. Suas atividades se basearam na exploração de gêneros textuais como poesia, letra de música, texto de livro didático e noticia, nas diferentes tipologias e trouxe reflexões sobre a intencionalidade e características dos mesmos. Na medida em que os alunos acompanhavam a leitura, a professora Maria Betânia os fazia confrontarem com as características do gênero que estava presente, a forma como estavam escritos os textos em cada gênero. E assim, os próprios alunos percebiam que a noticia parecia relatar algo, enquanto que a poesia “falava de coisas bonitas e utilizava muitas rimas”, ou que a música parecia com a poesia, “mas se fazia para ser cantada” (as frases entre aspas representam reflexões sobre os textos pelos alunos). 19 Por exemplo, quando a professora Mª Betânia utilizou um poema (A casa, de Vinicius de Morais) para as atividades de alfabetização de seus alunos não desconsiderou que poderia alfabetizar explorando as características do texto e apontando a intencionalidade do mesmo que nesse caso seria de brincar, de proporcionar prazer. Ela não desconsiderou, também, a interdisciplinaridade, pois enquanto os fazia ler abordava temáticas de diversas áreas do conhecimento. O depoimento desta professora ao ser indagada sobre a utilização de leituras e textos escritos nas suas aulas reflete bem esta analise: - Maria Bethânia: Com A casa, de Vinicius de Morais, aí aqui já entra com a interdisciplinaridade, instrução sobre a casa deles, trabalha ciências, tipos de moradias, aí você vai esclarecer todas as matérias. Quando eu estou trabalhando o poema, [...] estou trabalhando a arte, aí já vai explicar a eles o que é um poema, quem é o autor, quem foi que fez, pra que serve e quando se usa. Aí já entra em tipos de moradia, de barro, de madeira, de lona, aí já surge a história do acampamento, do assentamento, como foi que surgiu. Nas atividades, a professora deixou evidente que as práticas de leitura e escrita ensinadas com base nos gêneros textuais não possuíam um caráter de terminalidade, pois ela apresentou aos alunos que o texto se caracteriza mais pelo “estilo” e pela função que possui no mundo social. O contexto político do assentamento não ficou excluído da prática da professora, pois ela procura sempre contextualizá-lo nas aulas, como fez com a atividade subseqüente à análise do poema de Vinicius de Morais. Nesta atividade, a mesma pediu que os alunos escrevessem um texto descrevendo como é a casa em que moram para depois debater sobre os tipos de moradias comuns no assentamento e no centro da cidade e por que elas assim o são nestas diferentes localidades. ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO SEGUNDO A PROPOSTA PEDAGÓGICA DO MST A maneira como podem ser realizados o letramento e a alfabetização nas escolas do MST é explicitada no capítulo intitulado Como Fazer a Escola que Queremos de sua Proposta Pedagógica, mais especificamente das páginas 76 até 81. A proposta pedagógica à qual nos referimos trata-se do documento Caderno de Educação nº13 (ver bibliografia). Salientamos que o termo letramento não é utilizado neste documento, mas como entendermos do que se trata este, podemos remetê-lo às sugestões de atividades para ensino 20 contidas na referida proposta de modo a expandir as capacidades discursivas dos alunos. Nos primeiros capítulos do documento é esclarecido que a proposta pedagógica do MST fora produzida com o auxilio de filósofos, educadores, sociólogos e gente das diversas áreas pertencentes direta ou indiretamente ao movimento. Segundo o documento, a educação no movimento visa ser realizada partindo-se de temas geradores (influência de Paulo Freire) relacionados com a realidade dos alunos, e tem como intencionalidade educar para que os seus cidadãos tornem-se agentes fortificadores da luta do movimento em sua intenção de emancipação política, através da posse e distribuição de terra que influencie até mesmo a sociedade. Vejamos como no seguinte trecho isso fica patente: Não é só terra. [...] É projetar um outro tipo de organização da sociedade. Ou seja, no fundo, o que entra em jogo na discussão sobre a escola são diferentes concepções de luta pela terra. Quando se forma a consciência da amplitude do processo social que está sendo desencadeado pelo movimento abre-se o espaço para discutir mais profundamente a questão da educação, e ela passa a ser considerada como uma dimensão fundamental da luta (p.17). No tópico O que queremos com cada área de estudos (voltada para Comunicação e Expressão; p.76-77) a proposta explicita que quer que as crianças do assentamento aprendam a: Expressar-se oralmente, por escrito e por gesto... e a dominar o necessário da linguagem oficial; usar os variados instrumentos de comunicação existentes e inventar novos; [...] interpretar textos e realidade: entender o que esta dito ou escrito e também o que tem por trás das palavras, das ações, dos gestos; [...] desenvolver o habito de leitura. As sugestões específicas para as práticas de alfabetização e produção textual estão expostas nas páginas 80 e 81 do documento. No caso da atividade de leitura, está registrado, por exemplo, que esta prática deve envolver a exploração de textos informativos e narrativos curtos e longos, sendo esta mesma prática feita com finalidades e linguagem diferentes para o 21 mesmo tema. Assim, podemos perceber que o tópico remete à valorização e desenvolvimento de diversos tipos de discursos contextualizados. E se segue sugerindo que se aproveitem “vários tipos de material escrito encontrados no cotidiano, como placas, rótulos, cartazes, e que sejam utilizados fazendo-se a análise e a compreensão da função destes” (p.80). À prática de escrita ainda é sugerida a exploração de vários suportes (jornal, livros de literatura, documentos do MST, etc.) de modo que seja “vivenciada a riqueza de idéias e palavras”. Neste caso, percebemos que o letramento, segundo a proposta pedagógica, valoriza a utilização de gêneros textuais (escritos) e que isso deve ser feito exercitando-se os diversos tipos de discursos para as diferentes finalidades sociais sem deixar-se de preservar a identidade do acampamento ou assentamento. Para a alfabetização, o documento sugere que o encontro da criança com a escrita aconteça partindo do seu nome e que comumente faça-se uso da escrita para registrar acontecimentos em vários gêneros de diferentes suportes, do manuseio de diversos materiais escritos, da visualização dos diversos traçados das letras em alfabetos minúsculos e maiúsculos, de atividades de construção e desconstrução de palavras (neste caso, com o auxílio de inúmeros materiais, desde massas de modelagem até jogos com letras ou sílabas) e recorte de letras, palavras, frases e textos, sem esquecer que esta prática de alfabetização deve envolver temas geradores para que “dentro dos temas geradores as crianças tenham um mundo maior para desenvolver a escrita” (p.80). Podemos perceber que esta alfabetização prevê o contato constante com uma diversidade de material escrito e atividades de escrita que podem ser executadas de diversas formas e nos vários gêneros textuais, sendo este fato o proporcionador da apropriação do sistema de escrita. Vejamos um trecho da proposta em que se evidencia como deve acontecer o encontro da criança com a escrita: Iniciar a construção da historia da criança partindo do seu nome; iniciar o contato com o mundo através da escrita, envolvendo as crianças nas mais diversas formas de escrita: manusear livros, panfletos, faixas, rótulos de produtos... jogos, dramatizações, brincadeiras onde as regras sejam elaboradas e registradas no quadro ou em cartazes; [...] desenho e escrita de sua história, do jeito 22 que a criança conseguir fazer mas sempre fazendo mais perguntas para que ela vá avançando na linguagem... (p.80) Segundo a proposta pedagógica, a alfabetização deve acontecer através de temas geradores, sempre havendo registro dos acontecimentos das atividades como forma de incentivar o contato com o texto escrito. Deve ser uma alfabetização feita “não através de palavras soltas, mas na base de textos escritos, sejam eles curtos ou não” (p. 80). Ao professor é sugerido se trabalhar com palavras, sílabas e sons das letras desde que a análise destas unidades se inicie do texto todo, ou seja, do macro para o micro. Sugere-se ainda que os textos principais utilizados sejam produzidos primeiro oralmente e depois por escrito, acelerando a capacidade de leitura e escrita das crianças. RELAÇÃO: SEA, PRÁTICAS DE LEITURA E PROPOSTA PEDAGÓGICA Foram constatadas distinções nas práticas dos docentes no que se refere às atividades de apropriação do SEA, leitura e escrita em sala de aula, apesar de participarem das mesmas orientações em capacitações feitas uma vez por ano no centro estadual de formação do MST (localizado no assentamento Normandia, em Caruaru). Evidenciamos que apenas a professora Maria Bethânia consegue, na sua prática em sala de aula, alfabetizar numa perspectiva do letramento, ou seja, considerando os usos sociais dos textos e sempre faz uso dos princípios educativos tratados na proposta pedagógica do MST. Todos os professores do acampamento Chico Mendes realizaram atividades de alfabetização como se esta fosse apenas a assimilação de um código, e o letramento, quando praticado, ficou restrito à execução das atividades escolares. Com base na discussão teórico-metodológica apresentada na proposta pedagógica do MST no que se refere à atividade de leitura, está registrado, por exemplo, que esta prática deve envolver a exploração de textos informativos e narrativos curtos e longos, sendo esta mesma prática realizada com finalidade e linguagem diferentes para o mesmo tema. A linha apontada nos cadernos de educação pela proposta, e identificando essa com o que chamamos há algum tempo de letramento, valoriza a utilização de diversos gêneros textuais escritos e que isso deve ser feito explorando-se os diversos tipos de discursos para as 23 diferentes finalidades sociais sem deixar de preservar a identidade do acampamento ou do assentamento. De modo geral, o conceito de alfabetização acompanha já algumas décadas a tendência sociointeracionista ao se estabelecer críticas aos processos de aprendizagem da leitura e da escrita para que esta não se restrinja ao conhecimento de leitura de frases e textos simples. Cabe ao professor estar sempre se atualizando sobre os novos processos ou perspectivas de alfabetizar, e a fala da docente reflete esta preocupação: - Maria Bethânia: O ensino a cada dia ele vai mudando, né? Você nunca está preparado. Hoje você faz uma coisa, amanhã já está ultrapassado. Os professores que a gente fazia as capacitações sempre diziam: "a educação nunca é nova" ela sempre é ultrapassada. Porque a tecnologia vai avançando e a gente vai observando que a educação é bem lenta por mais que você busque, não é? Principalmente nuns lugares deste [se referindo à zona rural]. CONSIDERAÇÕES FINAIS Percebemos que no bojo das contradições em que vive o MST em meio a seus conflitos particulares e sociais no questionamento da atual ordem, injusta e desigual, foi-se construindo um processo educativo. Nessa luta um projeto pedagógico emerge e resiste. Algumas vezes se entrega às metodologias tradicionais, em outras, começa-se a romper barreiras rumo a didáticas mais avançadas. Segundo nosso estudo, o processo de aquisição do sistema de escrita alfabético (SEA) desenvolvido nas práticas docentes no contexto da Escola Itinerante Chico Mendes caminha mais lentamente na apreensão desse sistema de modo que venha a favorecer sua prática pelos alunos de maneira satisfatória. É sabido que no processo de alfabetização precisa-se considerar não apenas as habilidades de codificação e decodificação dos indivíduos, mas também fazer com que atitudes sejam desenvolvidas em relação às possibilidades de utilização de tais habilidades. Nessa perspectiva, o que a prática pedagógica deve almejar é a criação de oportunidades onde a leitura e a escrita de textos significativos possam ser experimentados e cumpram enfim suas funções sociais reais. Todavia, não estamos desmerecendo o letramento escolar (ou acadêmico), apenas salientamos que este deixa lacunas que precisam ser preenchidas com um letramento social. 24 Durante a pesquisa encontramos outra abordagem pedagógica de alfabetização voltada à perspectiva do letramento, que amplia a visão da noção de alfabetismo. Segundo nossas observações, identificamos na prática da docente Maria Betânia da Escola do assentamento de Várzea Grande, a preocupação que vai além do desenvolvimento das habilidades cognitivas, pois a dimensão social, relativa às práticas sociais de uso da leitura e escrita foi considerada. A realidade social foi outro aspecto trabalhado nas aulas dessa professora, pois notamos a presença marcante da ideologia investida pelo Movimento, ou seja, uma pedagogia com fortes marcas dos princípios educacionais traçados na proposta pedagógica do MST, embora algumas vezes mesclada com a pedagogia proposta pelas Secretárias de Educação do Município de Gravatá. Neste contexto o pensamento pedagógico que emerge na proposta educacional do MST impulsiona a Educação no sentido de se construir uma nova prática alfabetizadora para as crianças e jovens e os adultos trabalhadores rurais. Entretanto, faz-se necessário compreender essa educação no sentido de práticas formativas que possibilitem as pessoas chegarem à condição de sujeitos de suas próprias vidas. Outro aspecto refere-se ao fortalecimento de políticas públicas para educação no campo que traga melhores condições de trabalho aos docentes. E no que compete ao MST, faz-se necessário intensificar as formações continuadas dos educadores que trabalham nas escolas de áreas de acampamento/assentamento e que se tenha um acompanhamento das atividades ali desenvolvidas de forma a garantir o desenvolvimento e a qualidade do ensino, em especial nos acampamentos, por estes estarem ainda em condições mais precárias. Espera-se que esta pesquisa, através de seus resultados, contribua para o desvelamento da realidade da educação no interior de escolas do MST no que se refere às práticas de alfabetização. Contudo, não pretendemos esgotar o tema nem tão pouco generalizar tais resultados aqui mostrados por trata-se de um estudo de caso. Deverá contribuir, também, para a redefinição de perspectivas de alfabetização preocupadas com o processo de formação de professores em contextos sociais diferenciados. 25 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALBUQUERQUE, E.B.C; LEAL, T.F. A Alfabetização de Jovens e Adultos – Em Uma Perspectiva de Letramento. Belo Horizonte: Autêntica, 2005. ___________________________ . Desafio da Educação de Jovens e Adultos – Construindo Práticas de Alfabetização. Belo Horizonte: Autêntica, 2005. CALDART, Roseli Salete. Educação em Movimento: formação de educadoras e educadores no MST. Petropolis, RJ: Vozes, 1997, p.23 – 39. FERREIRO, Emília; TEBEROSKY, Ana. Psicogênese da Língua Escrita. Porto Alegre: Artmed, 1985. FERREIRO, Emília. Reflexões Sobre Alfabetização. São Paulo: Cortez, 1981. KATO, Mary Aizawa. No mundo da escrita - uma perspectiva psicolingüística. São Paulo, Ática, 1986. KLEIMAN, Angela B. Os significados do Letramento: uma nova perspectiva sobre a prática social da escrita. Angela Kleiman (Org.) – Campinas, SP: Mercado de Letras, 1995. MST. Dossiê MST Escola: Documento e Estudos 1990-2001. Caderno de educação, São Paulo, n. 13, 2005. SOARES, Magda. Letramento, um tema em três gêneros. Belo Horizonte, Autêntica, 1998. STREET, B.V. Literacy in Theory and Practice. Cambrigde, Cambrigde University Press, 1984. TFOUNI, Leda Verdiani. Letramento e Alfabetização. São Paulo, Cortez, 1995. ____________________. Adultos não alfabetizados - o avesso do avesso. Campinas, Pontes, 1988. 26 ANEXOS ROTEIRO DE ENTREVISTA – PROFESSOR Identificação: Nome: Função: Formação: Tempo de ensino: Tempo que está na escola: Participou de capacitação, cursos nos últimos meses? 1. O que você entende por alfabetização? 2. O que você entende por letramento? 3. Como você vê e identifica a relação entre a alfabetização e letramento? 4. Como você encara as dificuldades apresentadas por seus alunos no processo de aquisição da escrita? 5. Como você professor (a) faz para sondar o nível de escrita dos seus alunos? Em que momento é feita esta sondagem? 6. Há níveis ou etapas diferenciadas de escrita dentro da sala de aula? Poderia exemplificar algum caso? 7. Que procedimentos você costuma utilizar para trabalhar com crianças em níveis diferenciados no processo de aquisição de escrita? 8. Você costuma trabalhar com leitura e escrita de textos? Quais tipos de textos? O que eles lêem e que eles escrevem? 9. O que diz a proposta pedagógica do MST para a alfabetização? Em que ela se baseia? 10. Para você quais são os princípios mais importantes presentes na proposta do MST para a alfabetização? 11. Como ocorre o processo de avaliação da aprendizagem? 12. O que acontece com aqueles alunos que não conseguem obter um desempenho esperado na alfabetização? (ele repete de ano ou não). 13. Quais as principais dificuldades encontradas na sua prática pedagógica em sala de aula? O que faz para superá-la? 14. Em sua opinião, a proposta pedagógica do MST para as escolas dos assentamentos se diferencia a das propostas pedagógicas de outras instituições públicas de ensino? Em que sentido? 27 ROTEIRO DE OBSERVAÇÃO: Escola: Professor(a): data: horário: 1. Aspectos gerais: • Caracterização da escola (a localização, aspectos físicos e estruturais) • Perfil sócio-econômico dos usuários da escola; • Quantidades de usuários (alunos, professores, outros); • Organização da sala de aula; 2. Aspectos pedagógicos gerais: • Procedimentos metodológicos aplicados nas aulas (roteiro, agenda, atividades planejadas); • Planejamento das aulas; • Recursos comumente utilizados; • Formas de avaliação. 3. A prática da alfabetização ou do letramento em sala de aula: • Formas de abordagem (demandas de leitura de textos, atividades específicas de alfabetização); • Recursos utilizados nas aulas de alfabetização/letramento (textos escritos, livro didático, cartilha, etc.); • Níveis de apropriação do sistema de escrita pelos alunos; estratégias utilizadas para diferentes níveis de apropriação do sistema alfabético pelo professor (a) em sala de aula; • Práticas de letramento mais freqüentes. Documento analisado: i i Dossiê: MST Escola: Documentos e Estudos 1990 – 2001 Trata-se de uma coletânea de textos do Setor de Educação do MST sobre a escola de educação fundamental. São 15 documentos produzidos entre 1990 e 2001 que remetem à continuidade da reflexão: o que queremos com as escolas dos assentamentos e acampamentos do MST, quais as tarefas pedagógicas específicas da escola na formação dos Sem Terra e como organizar sua prática educativa para que contribua na construção do projeto de sociedade com emancipação social e humana. i. Os campos mais focalizados do documento foram aqueles que faziam referência a alfabetização. 28