O DISCURSO VELADO DA REJEIÇÃO PEDE LICENÇA PARA VOTAR
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Hildelene Barbosa Cruz
1) Introdução
O corpus deste artigo foi coletado na revista Veja, na seção Ensaio. A revista é um veículo de caráter
informativo de grande circulação nacional, publicada com periodicidade semanal, voltada para um público
formador de opinião.Tem se ocupado em acompanhar e analisar o percurso e os desdobramentos da atual
campanha à Presidência dos Estados Unidos, com especial enfoque à polêmica despertada com a hipótese da
eleição de Barack Obama.
Parte do corpus aqui analisado, o gênero ensaio, é objeto da pesquisa que desenvolvo na dissertação
para obtenção do título de Mestre em Lingüística Aplicada da Universidade de Taubaté.
O estudo propõe-se a desvelar o dizer dos outros que se faz presente no ensaio “Obama: questões mais
freqüentes”, de Roberto Pompeu de Toledo, veiculado na revista Veja (11 de junho de 2008, p. 158), o qual se
debruça sobre algumas questões que procuram explicar a ascensão de um negro, Barack Obama, candidato do
Partido Democrata à Presidência dos Estados Unidos, apontando ainda para a queda de um tabu de séculos:
trata-se do primeiro negro na história do país a virar candidato à Casa Branca, com chance de ser eleito
presidente, escolhido por um grande partido. Em contrapartida, o racismo que se faz notar, mesmo quando não
expresso publicamente, além das implicações decorrentes desse fato (a hipótese da eleição de Obama), caso
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tal se concretize. Mas há ainda um fator histórico a se considerar: o “efeito Bradley” , o qual pode vir a interferir
nesse percurso, algo recorrente e verificado em outras eleições norte-americanas, que também envolviam
candidatos negros na disputa. Isso se explica pela mudança de última hora e mesmo de idéia (de voto) que os
eleitores se permitem, inclusive em nome do “politicamente correto”: anunciar o voto num candidato negro
implica desdizer uma suposta e possível apreensão branca quanto a ter um governo liderado por um negro, o
que redunda uma espécie de negação do voto.
A possibilidade da eleição do candidato Barack Obama faz alusão ao escritor brasileiro Monteiro Lobato
(1882-1948), nascido em Taubaté, cidade do interior do estado de São Paulo, que já antevia esta possibilidade:
no futuro, os EUA teriam seu primeiro presidente negro. Tal pode ser observado em uma obra de sua autoria,
ainda hoje não muito conhecida do grande público leitor intitulada O choque das raças ou O presidente negro.
Publicada em 1926, em folhetins, no jornal carioca A Manhã, tinha o subtítulo “romance americano do ano
2228”. Lobato preconiza nessa obra a eleição nos EUA de um presidente negro no então longínquo ano de
2228. Essa eleição é profetizada no “porviroscópio”, um dispositivo que permite ver o futuro. Tal se concretiza a
partir da cisão do eleitorado branco em torno da candidatura de Kerlog, do Partido Masculino e de Evelyn Astor,
do Partido Feminino. Surge então nesse cenário, surpreendentemente, o candidato Jim Roy, líder negro, que
acaba sendo eleito presidente. A raça branca, antes dividida, agora se une para evitar que Roy assuma o
poder. A obra, na voz de seus personagens, faz uma veemente defesa da eugenia, das vantagens de leis que
pudessem eliminar da sociedade aleijados físicos e morais e todos aqueles que pudessem estar no que se
considerava, naquele contexto, “limbo” social. A purificação racial é, na obra, levada às últimas conseqüências.
A obra de Lobato reúne uma visão de futuro nos moldes das obras do escritor britânico H. G. Wells e
idéias sobre superioridade racial, degeneração e eugenia de Gustave Le Bon . Um ensaio de Nola Kortner Alex
(ALEX, Nola K. Prescient Science Fiction: Monteiro Lobato’s “O Presidente Negro” after 70 Years. 1996),
publicado em maio de 1996, época em que o general negro Colin Powell era apontado como pré-candidato à
presidência dos EUA, discute o caráter profético dessa obra de Monteiro Lobato. O desfecho da obra e seu tom
grotesco, no dizer do ensaísta Kortner, “parece menos distante da realidade em fins do século XX do que no
início dele”. Conclui dizendo:
(...) para o estudante de política americana bem como para o estudante de literatura e cultura
brasileiras, todavia, uma leitura atenta do romance presciente de Monteiro Lobato delineia uma
situação que faz com que o leitor recue da idéia de um homem negro como candidato para o
posto mais alto nos Estados Unidos.
Nessa perspectiva o embate entre os então pré-candidatos Hillary Clinton e Barack Obama na escalada
para a candidatura do Partido Democrata; a ascensão de Barack Obama, agora candidato à Presidência dos
Estados Unidos pelo Partido Republicano traz também essas questões suscitadas na obra de Lobato à tona.
Essa referência à obra é, pois, pertinente.
2) O sujeito traído pela sua própria linguagem: a presença do “Outro” no “Um”
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A teoria pêcheutiana de análise do discurso, cuja preocupação é pensar como se instituem efeitos de
sentido no discurso, entre a língua e o efeito-sujeito e a história fundamenta os procedimentos de análise do
corpus recortado para esse estudo.
O que se fala e o que se deixa de falar dizem muito do sujeito e de seu discurso. Os elementos aqui
encontrados permitem construir o sentido no discurso, considerando-se nessa análise o sujeito que “falha em
dizer”, o sujeito que é traído pela sua linguagem (Pêcheux, 2000).
Sob o viés da Análise do Discurso de linha francesa, fundamentou-se a análise das evidências no excerto
(na língua) indicando a presença do “Outro” no “Um”, possibilitando ampliar marcas pontuais que explicitem nos
fenômenos lingüísticos o que irrompe no discurso à revelia do sujeito (Pêcheux, 2000).
O discurso midiático aqui ganha sentido porque
(...) passa a ser visto como o lugar onde se trama a relação entre a língua e a ideologia,
compreendido dentro da perspectiva do materialismo histórico, e a questão do sujeito é
remetida a um atravessamento pela psicanálise (Pêcheux, 2000).
Para a Análise do Discurso, todo discurso concreto é determinado pela dicotomia: formações ideológicas
que relacionam este discurso a formações discursivas definidas e também pela autonomia relativa da língua
(Henry, 1990, p.58-9).
Pode-se afirmar que é um confronto constante com o(s) outro(s), nem sempre consciente ou controlado,
mas que se constrói aí a identidade do sujeito, como conseqüência de múltiplas re-significações provocadas
pelo estranhamento da presença do(s) outro(s).
Adotou-se também a teoria bakhtiniana para fundamentação teórica da análise desse recorte, pois o
estudo se realiza numa perspectiva enunciativo-discursiva, sobretudo porque explora os conceitos de
linguagem, gênero, dialogismo e polifonia. Por linguagens, entenda-se, num processo sócio-historicamente
situado, a língua completamente articulada ao contexto em que é empregada. Ao considerar um aspecto novo
e fundamental na compreensão do que se passa quando se utiliza a linguagem (elemento essencial nessa
análise de corpus) tem-se o dialogismo, isto é, a relação do enunciado com outros enunciados próximos ou
distantes no tempo e no espaço.
O ensaio, gênero de texto literário breve, escrito por um autor que deseja partilhar, expor a seus leitores
idéias, críticas e reflexões morais e filosóficas sobre um determinado tema, está situado entre o poético e o
didático. Nele o autor não costuma fazer afirmações categóricas, acabadas, conclusivas, pois possui caráter
provisório. É menos formal e mais flexível que o tratado. O ensaio se materializa em atividades diversas,
enquanto avaliamos, experimentamos, praticamos, treinamos atividades ainda inacabadas. Há ensaios
literários, acadêmicos, científicos. Ensaios, entendidos aqui como um tipo de texto, são publicados em jornais e
revistas.
O ensaio assume a forma livre e assistemática sem um estilo definido. Por essa razão, o
filósofo espanhol José Ortega y Gasset o definiu como ‘a ciência sem prova explícita’.
(www.pt.wikipedia.org/wiki/Ensaio)
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É aqui entendido como gênero discursivo , com forma relativamente estável, na qual os falantes
reconhecem e usam; gênero flutuante e que vem se transmutando ao longo do tempo e em diferentes esferas
de atividade humana: jornalismo, crítica literária, crítica musical entre outros.
Bakhtin, ao demonstrar os conceitos de cronotopia e exotopia4, ao tratar de articulações existentes na
cultura, entende suas manifestações passando obrigatoriamente pelas marcas do tempo e do espaço. Assim,
no seu próprio dizer: “o gênero vive do presente, mas recorda o seu passado, o seu começo” (BRAIT, 2006).
Isso significa dizer que o gênero tem uma existência cultural e, conforme a teoria do cronotopo, o tempo implica
mudanças, não constituindo um “nascimento original e a morte definitiva”; não existe o dizer adâmico, original.
Assim esse (gênero) se transformará, variará conforme o contexto histórico-cultural.
A linguagem, por sua vez, só se realiza em gêneros. Sobre o modo de inscrição de outros discursos no
fio do texto, pode-se classificar o ensaio em estudo como pertencente ao gênero polifônico, mesmo que
aparente ser monofônico: nele circulam vozes outras que constituem o texto, pois o que caracteriza a polifonia é
a posição do autor em relação às vozes que participam desse processo (dialógico); é uma multiplicidade de
vozes, uma multiplicidade de consciências independentes, todas representantes de um determinado universo e
marcadas pelas peculiaridades deste. No texto de Pompeu de Toledo, essas vozes emergem como no trecho:
Ele ganhou porque é negro? É o que acha Geraldine Ferraro, ex-deputada e ex-candidata a
vice-presidente (em 1984). Ela afirmou, a certa altura das primárias, que Obama estava na
frente por causa da cor de sua pele. Alguém achar isso é prova de algo esquisito no ar. O fato
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de ser negro em princípio não seria vantagem, mas, ao contrário, séria desvantagem. Geraldine
Ferraro, que apoiava Hillary Clinton, com isso pretendeu desqualificar o candidato. Mas
intrigante mesmo era a sugestão de que ser negro lhe impulsionava a candidatura.
O ensaísta constrói o discurso por meio de outro discurso. Apresenta a posição ideológica da exdeputada e ex-candidata a vice-presidente dos Estados Unidos em 1984, opinião (d)esta que reitera o discurso
de tom depreciativo sobre a candidatura de Obama, face à dicotomia em torno da “vantagem-desvantagem”
pela condição de ser negro. Relata a ação ou ato de fala realizado por Geraldine Ferraro (ela afirmou) para
referendar o seu próprio discurso, o qual também dialoga com a matéria central dessa edição da revista:
“Obama entra para a história’, de André Petry (Veja, ed. 2064, ano 41, nº 23, p.92-101).
Nessa reportagem, que dialoga com o ensaio estudado na mesma revista, Petry transcreve a fala do
próprio Obama, de trechos da biografia do candidato, quando esse pontua a distinção racial entre sua mãe e
seu pai:
(...) E, aos 18 anos, ela, ‘branca como leite’, o encontraria, ‘negro como breu’, numa aula de russo.
A dimensão dialógica, ilustrada sob outro viés (ADF) com a denominação heterogeneidade, por AuthierRevuz (2001), embora com certas diferenças, questiona a unicidade de todo o dizer. Afirma a autora: “Ao partir
das formas marcadas que atribuem ao outro um lugar lingüisticamente descritível, claramente delimitado no
discurso, passando pelo continuum das formas recuperáveis da presença do outro no discurso, chega-se,
inevitavelmente, à presença do outro – às palavras dos outros, às outras palavras –. Aproxima-se, então, o
conceito de heterogeneidade dado por Authier-Revuz do dialogismo proposto por Bakhtin. A autora “empresta”
de Bakhtin as reflexões sobre o dialogismo, cuja ênfase recai sobre o lugar em que o autor confere ao outro no
discurso. O princípio do dialogismo bakhtiniano se verifica nas análises que o sujeito-autor faz do plurilingüismo,
das fronteiras constitutivas dos chamados “falares sociais”. Esse conceito encontra correspondência na
heterogeneidade de acordo com Authier-Revuz. A autora define as duas maneiras pelas quais pode aparecer
a alteridade no discurso. Define então heterogeneidade mostrada e heterogeneidade constitutiva. Ao definir o
que chama heterogeneidade mostrada do sujeito e de seu discurso, apóia-se nas formas lingüisticamente
descritíveis (discurso direto, discurso indireto, aspas, glosas, etc.). Já ao definir a heterogeneidade constitutiva
(do sujeito e seu discurso), a autora busca uma ancoragem exterior à lingüística: o sujeito produzido pela
linguagem, estruturalmente clivado pelo inconsciente. Aponta para a presença do outro no dizer daquele que
aparenta o “um”. E tal aspecto vai sendo discursivamente construído pelo dizer do próprio ensaísta ao analisar
o dizer daquela (Geraldine Ferraro, ex-deputada e ex-candidata a vice-presidente em 1984), cuja opinião faz
chegar ao leitor, em tom jocoso e depreciativo uma imagem de candidato que, segundo seu dizer, a certa altura
das eleições primárias afirmara que Obama só estava na frente por causa da cor de sua pele e não teria
qualidades pessoais para ser o candidato”: assim, desqualifica Obama como adversário5.
3) Ensaiando o dizer sobre Barack Obama: heterogeneidade constitutiva e o dialogismo bakhtiniano
Inicialmente há que se considerar algumas das características do gênero discursivo ensaio: a brevidade,
a exposição de idéias, de reflexões sobre determinado tema, sem um estilo definido. O gênero, surgido no final
do século XVI, inicialmente se configurava em tentativa ou esboço de idéias e reflexões, tendo como
precursores o francês Michel Eyquem de Montaigne (1533-1592) e, a seguir, o inglês Francis Bacon (1561 1626), os quais influenciariam decisivamente um dos principais gêneros literários – incluindo-se aí também a
influência na própria história. A presença marcada do autor, o qual imprime o tom a seu discurso, inscreve sua
presença nele.
“Todo discurso é atravessado pelo discurso do outro ou por outros discursos, os quais mantêm entre si
relações de dominação, de confronto, de aliança e/ou de complementação” (Authier-Revuz,1990). É sob essa
perspectiva que a presente análise propõe a reflexão sobre a possibilidade de uma unicidade do dizer,
apontando para a presença do outro no dizer daquele que aparenta o “um”. Ao abordar a questão presidencialracial, revisitada no ensaio de Roberto Pompeu de Toledo, publicada na revista Veja (11 de junho, 2008, p.158.)
o sujeito-autor permite refletir um evento incomum no cenário norte-americano:
(...) no mais alto escalão do país situado no mais alto escalão do mundo até começou a parecer
normal. Não é normal. Um negro com chance de ganhar a Presidência dos EUA é evento raro
como o risco de um cometa no céu. É uma pirueta histórica no país cuja crônica, até outro dia
incluía a proibição dos casamentos mistos, a Ku Klux Klan e os jardins públicos proibidos para
negros e animais.
Falar do outro, aqui, implica postular sua presença na constituição de todo e qualquer discurso:
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(...) Ela afirmou, a certa altura das primárias, que Obama estava na frente por causa da cor de
sua pele. Alguém achar isso é prova de algo esquisito no ar.
(...) Ela errou ao menosprezar as qualidades pessoais de Obama. Ele é inspirado orador,
estudioso, persistente, audacioso a ponto de se jogar em busca da Presidência com escassos
quatro anos de experiência na política federal e irradia um encanto pessoal como fazia muito
não se via entre os políticos do país.
Heterogeneidade mostrada (Negação): é o efeito da negação que opera aqui
(...) Mas Geraldine Ferraro tem uma ponta de razão porque ser negro parece lhe acrescentar
uma boa dose suplementar de charme. Se isso for verdade – e é o que se verá na fase da
campanha que agora se inicia – significará nada menos do que uma revolução copernicana. Em
vez de maldição para um candidato, a cor negra terá virado um benefício; em vez de anátema,
uma graça.
Sobre a ascensão de Obama, o sujeito-autor postula, com o discurso entrecortado por uma outra voz que
se anuncia no texto, que a condição de negro lhe impulsionava a candidatura:
Ele ganhou porque é negro?
É o que acha Geraldine Ferraro, ex-deputada e ex-candidata a vice-presidente (em 1984). Ela
afirmou, a certa altura das primárias, que Obama estava na frente por causa da cor de sua pele.
Alguém achar isso é prova de algo esquisito no ar. O fato de ser negro em princípio não seria
vantagem, mas, ao contrário, séria desvantagem. Geraldine Ferraro, que apoiava Hillary
Clinton, com isso pretendeu desqualificar o candidato. Mas intrigante mesmo era a sugestão de
que ser negro lhe impulsionava a candidatura.
(...)
Ou ganhou apesar de ser negro?
A biografia de Obama é um caso de vitória sobre suas circunstâncias. O pai era um negro do
Quênia e a mãe uma americana branca. Divorciaram-se quando ele tinha 2 anos, e o pai lhe
sumiu de vista. A mãe se casou com um indonésio e o arrastou, aos 6 anos, para a Indonésia.
Aos 10 ele voltou ao Havaí, onde nascera, para viver com os avós maternos. A trajetória é sob
medida para um futuro consumidor de crack e morador de rua. Em vez disso, ele se forma em
Colúmbia e Harvard, elege-se aos 35 anos para o Legislativo estadual de Illinois, aos 43 para
senador e aos 46 vira candidato a presidente. Obama triunfou na vida apesar de sua história,
que inclui a desvantagem de ser negro, mas não se pode dizer que também a candidatura
ganhou apesar de negro. Ser negro pode até ter ajudado.
Observo no excerto anterior, na transcrição do ensaio, o abafamento da heterogeneidade constitutiva e
também mostrada pelas citações diretas e indiretas. A idéia é que o texto tem origem naquele que o assina,
apagando e anulando a heterogeneidade que é constitutiva dele, segundo Authier-Revuz ao explicitar alguns
aspectos pontuais da heterogeneidade constitutiva.
Quando analiso o título do ensaio Obama: questões mais freqüentes, registro a marca, ainda no primeiro
parágrafo, sobre o tipo de questões consideradas pelo ensaísta como ‘freqüentes’: o evento raro como o
cometa no céu (palavras pontuais do sujeito-autor) da ascensão da candidatura de Barack Obama, um negro,
com chance de ganhar a Presidência dos EUA (palavras empregadas pelo ensaísta).
Esse ensaio dialoga ainda com outros textos, como o que observo ao confrontar o ensaio em estudo e o
artigo “Obama: o preço de ser negro”, publicado no Jornal Folha de S. Paulo (13/09/2008, Caderno A, p. 28.), o
qual aponta para as possíveis dificuldades que o candidato democrata deverá contornar: de entraves ao voto
dos negros, consultas sobre ação afirmativa, passando pelo preconceito latente que distorce pesquisas. O autor
desenvolve esse comentário com ironia. Se o leitor não souber a ideologia que perpassa o texto (a começar
pelo título), não conseguirá alcançar a ironia pretendida. O leitor aqui precisa ser capaz de “transcender a
literalidade para vislumbrar” as significações sugeridas no texto e as significações escondidas pelo espaço
significante (BRAIT, 1996).
4) Considerações Finais
4
Ao discorrer sobre a análise da rejeição onipresente no discurso midiático, por vezes velada, negada; em
outras inscrita, marcada por traços que vão constituindo esse discurso que mesmo assim não são vistas,
buscou-se evidenciar em especial as implicações desse (discurso), apontando para o percurso da candidatura à
Presidência dos Estados Unidos de Barack Obama, um negro com chance de ganhar essa concorridíssima
disputa.
Não se pretendeu aqui explicar o porquê dessa rejeição, mas evidenciá-la como inscrita no dizer do
sujeito-autor, verificada no corpus analisado a partir do ensaio de Roberto Pompeu de Toledo.
Existem as marcas da fala do produtor do discurso e estas não são neutras. Esse discurso é atravessado
por outros discursos nos quais viveu sua existência socialmente sustentada. Somente o Adão mítico abordaria
com sua primeira fala um dizer ainda não posto.
O discurso velado – a rejeição ao candidato, dada sua origem étnica –, a resistência diante da ameaça
do destronamento da supremacia branca (histórica), o aspecto ideológico que perpassa os textos aqui
analisados acabam por desvelar esse discurso de negação, sob a capa da ironia, em nome do politicamente
correto. A ideologia oficial, relativamente dominante, possibilita uma concepção única de produção de mundo.
Para reagir frente à ideologia, para escapar a seu controle, não é fácil. Há que se fazer uma reflexão dialógica
entre você e o Outro. O conceito de ideologia aqui descrito por Bakhtin e que se verifica nos textos estudados
constrói-se no movimento entre idéias instáveis e idéias relativamente estáveis. Ou seja, provoca a
desestabilização, tomando como base a conexão da ideologia com o estudo da linguagem, empregando para
isso o método marxista. Passa a significar mais, incorpora mais valor.
A análise feita a partir das vozes que se entrecruzam no discurso estudado - excertos do ensaio sobre a
ascensão de Barack Obama no processo de eleição à Presidência dos Estados Unidos - revelam que para dar
conta da produção do discurso, a pretensão do sujeito de constituir fonte autônoma do sentido não existe.
Aponta para a fala como determinada de fora da vontade do sujeito: ‘o sujeito é mais falado do que fala’.
Há que se considerar sempre que a natureza do discurso é heterogênea e que há interesses envolvidos
na fabricação de uma notícia, na veiculação de um fato a serviço de uma ideologia – especialmente quando se
trata de algo que envolve interesses tão complexos como a hegemonia branca entender ameaçada sua
condição histórica de perpetuação no mais alto escalão do poder, desbancada por um negro.
1
Mestranda em Lingüística Aplicada pela UNITAU
2
Uma referência a um prefeito negro de Los Angeles, derrotado na disputa ao governo do Estado, no ano de
1982, que até a data das eleições tinha todas as pesquisas apontando-o como favorito diante de um oponente
branco.
3
Aqui se emprega o conceito de gênero discursivo de modo a assegurar uma coerência teórica com a linha
bakhtiniana (Bakhtin, 1997). Marcuschi, por sua vez, emprega a terminologia gênero textual.
4
Os conceitos bakhtinianos de cronotopia e exotopia tratam da relação tempo-espaço. Conceitos distintos do
pensamento de Bakhtin, jamais se substituem. Cronotopia circula no âmbito do texto literário; Exotopia,
relaciona-se à atividade estética, inicialmente para, logo mais, abarcar também a atividade da pesquisa em
Ciências Humanas.
5
É preciso observar a posição da ex-deputada e ex-candidata a vice-presidência em 1984 (e que nesse atual
processo de eleições - até então apoiava Hillary Clinton -, é adversária de Obama) que em seu dizer revela um
discurso racial impregnado e clivado por uma ideologia contrária à de Obama.
REFERÊNCIAS
AUTHIER-REVUZ, Jacqueline. Entre a transparência e a opacidade: um estudo enunciativo do sentido. Porto
Alegre: EDIPUCRS, 2004.
BRAIT, Beth. Bakhtin Conceitos-chave. Beth Brait (org.). 3. ed. São Paulo: Contexto, 2006.
BRAIT, Beth. Ironia em perspectiva polifônica. Campinas: Editora da UNICAMP, 1996.
HACKER, Andrew. Obama: o preço de ser Negro. Folha de S. Paulo, São Paulo, 13 set. 2008. Folha Mundo,
Caderno A, p.28.
PETRY, André. Obama entre para a história. Veja, São Paulo, ed. 2064, ano 41, nº 23,, p.92-101, 11 jun. 2008.
TOLEDO, Roberto Pompeu de. Obama: questões mais freqüentes. Veja, São Paulo, ed. 2064, ano 41, nº 23, p.
158, 11 jun. 2008.
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