O PACIENTE ‘EMPODERADO’ E OS DILEMAS PARA O CUIDADO DE SI1 Andréia Aparecida Ferreira Lopes (FCM/UNICAMP/São Paulo) RESUMO Desde a década de 1990, indo de encontro à perspectiva da ‘promoção da saúde’ que orienta as políticas de saúde em diferentes países, o pensamento médico tem proposto a maior autonomia dos pacientes diabéticos nas decisões sobre o tratamento – a perspectiva do ‘empoderamento’ do paciente. Os textos produzidos pelos diabetólogos constituem uma fonte interessante para explorar as representações acerca dos valores e das sensibilidades do diabético, e que são próprias da perspectiva da reestruturação da relação médico-paciente e da educação do paciente acerca dos saberes e das práticas que envolvem o cuidado do diabetes. Neste trabalho a análise desses dados é desenvolvida em diálogo com a etnografia das atividades associativas entre diabéticos, de modo a problematizar o modo como os valores do individualismo são acionados para a constituição de um modelo de diabético responsável pelo cuidado de si, ao mesmo tempo em que são confrontados posturas e comportamentos relativos ao âmbito das relações familiares dos sujeitos pesquisados, e que se baseiam em valores de caráter mais holista. Se por um lado os valores e sensibilidades relacionados ao empoderamento promovem um ajuste das relações do paciente com determinadas instâncias de poder, como é o caso da figura do médico; em contrapartida, parece implicar certa desestabilização nas relações do âmbito doméstico, no contexto das quais a individualidade assim como a relação com o corpo não encontram o mesmo investimento reflexivo. INTRODUÇÃO Atualmente o diabetes tem ganhado muita atenção das políticas de saúde em nível mundial, e o principal fator que têm concorrido para isso é o alarme em torno das estatísticas de seu crescimento2. Em dezembro de 2006 a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou a resolução 61/225 considerando o diabetes um problema de saúde pública, fato que resulta de uma longa campanha da International Diabetes Federation (IDF), vinculada à Organização Mundial da Saúde. São bem impressionantes os termos como a questão do diabetes é apresentada pela IDF em sua página na Internet: Governments have acknowledged that diabetes is increasing at epidemic rates and is affecting all countries. For the first time, a non-infectious disease has been seen as posing as serious a global health threat as infectious epidemics such as HIV/AIDS3. 1 Trabalho apresentado na 28ª. Reunião Brasileira de Antropologia, realizada entre os dias 02 e 05 de julho de 2012, em São Paulo, SP, Brasil. 2 Segundo dados que constam na página da International Diabetes Federation (IDF), em 1985 estimava-se que existiam 30 milhões de pessoas com diabetes no mundo, em 2000 este número subira para 150 milhões, sendo que a previsão para 2025 é de que este número suba para 380 milhões. Cf. http://www.idf.org/diabetes-prevalence, acesso em 07/11/09. 3 http://www.idf.org/united-nations-resolution-diabetes. 1 Como parte do processo no qual o diabetes se torna uma das questões prioritárias nas políticas públicas de saúde – e eixo organizador de formas variadas de congregação e de sociabilidade entre diabéticos, como as campanhas públicas de detecção e orientação, as associações de diabéticos, as comunidades virtuais de diabéticos na Internet, entre outras –, a partir da década de 90 surgem trabalhos antropológicos interessados em compreender a experiência social específica que a enfermidade promove. À luz desses estudos é surpreendente verificar como, ao longo da história, o diabetes tem sido acionado como um verdadeiro marcador no campo das identidades sociais4. Uma parte das análises exploram as formas institucionais de assistência à saúde dos diabéticos, considerando-as de forma mais crítica (Saslavski, 2007); problematizando os significados que a enfermidade toma nas relações familiares e nas relações dos adoecidos com os agentes de saúde (Pittman, 1999). Outra perspectiva de pesquisa prioriza a experiência da vida com a enfermidade no cotidiano, fora das instituições de saúde (Barsaglini, 2006). A investigação mais recente sobre as práticas associativas dos diabéticos5 mostra que as associações de diabéticos se constituem como agentes articuladores de valores e significados responsáveis pela emergência da figura do diabético enquanto possuidor de uma identidade própria no cenário das ações prioritárias de atenção à saúde. As associações acabam funcionando como eixos em torno dos quais se organizam uma série de formas de intervenções, ligadas à assistência à saúde, assim como à elaboração de produtos e serviços voltados para diabéticos, o que contribui para que a experiência da enfermidade seja orientada socialmente por meio de estilos de vida marcados pelo consumo destes produtos e serviços específicos. A pesquisa nas associações de diabéticos contribuiu para a compreensão de que ser diabético implica também a constituição de uma subjetividade específica. A etnografia das atividades educativas, dirigidas aos associados, mostra que a capacidade de adoção de hábitos, produtos e serviços relativos ao estilo de vida adequado ao diabético faz parte uma atitude de atenção especial para consigo. Como mostro a seguir, esta atenção 4 Cf.: Gilman, 2004; Ferreira, 1998. Pesquisa de doutorado intitulada “Assumindo o cuidado de si: identidade e práticas associativas entre diabéticos”, desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Estadual de Campinas-UNICAMP, sob orientação da Profa. Dra. Guita Grin Debert, financiada pela Fundação de Amparo Pesquisa do Estado de São Paulo-FAPESP (2007-2010), e concluída em março/2010. 5 2 não implica apenas, por exemplo, o desenvolvimento da capacidade de reconhecimento dos sintomas ligados aos mal-estares do diabetes, mas o desenvolvimento de uma atitude reflexiva acerca do próprio modo de se encarar os acontecimentos da vida e as relações com as outras pessoas. A discussão que proponho neste trabalho representa uma análise em fase inicial acerca da literatura médica no campo do diabetes – o chamado campo da diabetologia – responsável pela proposta de um novo paradigma de orientação para o tratamento6. Procuro avaliar alguns aspectos básicos das representações que norteiam o modelo do ‘paciente empoderado’, responsável pelas escolhas que envolvem o manejo de seu tratamento médico. Em um segundo momento mostro como a perspectiva do paciente empoderado se relaciona com as práticas de autocuidado que os diabéticos são estimulados a adotar na vida com o diabetes; as quais demonstram por vezes entrar em conflito com valores e sensibilidades ligados às relações familiares. A PERSPECTIVA DO EMPODERAMENTO DO PACIENTE O aumento da responsabilização do indivíduo pela própria saúde tem sido uma questão central para compreender as transformações recentes nas formas de sociabilidade e de diferenciação social7. O debate tem explorado o modo como determinados valores associados à saúde estimulam formas de cuidado de si que passam a redefinir estilos de vida, e promover transformações nas formas de sociabilidade8. A presença do conceito de empowerment no campo da saúde se relaciona com o modelo da Promoção da Saúde. A versão mais atual da Promoção da Saúde tem se tornado uma das principais perspectivas com que a Organização Mundial da Saúde vem orientando as políticas de saúde em diferentes países desde a conferência de Ottawa, em 1986 (Carvalho e Gastaldo, 2008:2030). Com uma compreensão mais ampla acerca do significado de saúde, o modelo da Promoção da Saúde tem sido responsável por estratégias de ‘participação comunitária’, ‘educação em saúde’ e ‘políticas públicas saudáveis’. A ideia central do modelo se expressa por alguns de seus objetivos centrais: “Garantir condições dignas de vida e 6 Pesquisa de pós-doutorado em andamento intitulada “Cuidado de si e empoderamento: os cuidados do diabetes a partir da experiência associativa”, desenvolvida no Departamento de Saúde Coletiva da Faculdade de Ciências Médicas-UNICAMP, sob supervisão da Profa. Dra. Ana Maria Canesqui, financiada pela Fundação de Amparo Pesquisa do Estado de São Paulo-FAPESP – processo nº 2011/22751-2. 7 Cf. Featherstone, 1991; Debert, 2004 e Rose, 2001. 8 Cf. Le Breton, 2003, Featherstone, 1991; Sant’Anna, 2003. 3 possibilitar que indivíduos e coletivos tenham um maior controle sobre os determinantes da saúde” (Carvalho e Gastaldo, 2008:2030 e 2031). Como esclarecem Carvalho e Gastaldo (2008:2030), o empoderamento (como tem sido traduzido em português) é um dos conceitos estruturantes da Promoção da Saúde, e tem orientado a implementação de ações que visam a transformação das práticas comunitárias e profissionais em saúde9. Conforme Kleba e Wendausen (2009:735), o desenvolvimento conceitual do empoderamento tem início nos anos 1970 influenciada pelos movimentos de autoajuda; seguindo nos anos 1980 pela psicologia comunitária e, nos anos 1990, pelos movimentos que buscam afirmar o direito de cidadania sobre distintas esferas sociais, dentre as quais a da saúde (apud Carvalho, 2004). Neste percurso o conceito se tornou multifacetado por conta das diversas influências teóricas que recebeu (p.735). Sintetizando o sentido de empoderamento a partir de alguns autores10, as autoras definem empoderamento como um processo dinâmico que envolve aspectos cognitivos, afetivos e condutuais. Significa aumento do poder, da autonomia pessoal e coletiva de indivíduos e grupos sociais nas relações interpessoais e institucionais, principalmente daqueles submetidos à relações de opressão, discriminação e dominação social (Kleba e Wendausen, 2009:735). Segundo Cyrino et al. (2009), no campo da saúde é na década de 1990 que a literatura internacional sobre educação em diabetes começa a constatar que ‘transmitir informação’ não era suficiente para habilitar a pessoa diabética no cuidado de si (p.94). A questão que se tornava cada vez mais clara era a limitação da exigência de ‘obediência’ com que os médicos esperavam envolver os pacientes no tratamento de sua enfermidade. Cyrino et al. (2009) mostram como a noção de ‘obediência’ foi substituída pela de ‘aderência’, questão central no tratamento das doenças crônicas, e que implica uma perspectiva bastante diferente do lugar do enfermo no gerenciamento do tratamento, se comparado à perspectiva tradicional onde este lugar é praticamente inexistente (p.95). Passa-se a valorizar a experiência do paciente com a enfermidade, o conhecimento que ele adquire sobre como ela afeta seu cotidiano e como responde ao tratamento. A perspectiva mais recente acerca da relação médico-paciente seria a que procura reduzir 9 “Através do empoderamento, a Promoção à Saúde procura possibilitar aos indivíduos e coletivos um aprendizado que os torne capazes de viver a vida em suas distintas etapas e de lidar com as limitações impostas por eventuais enfermidades, sugerindo que estas ações devam ser realizadas em distintos settings, entre os quais a escola, o domicílio, o trabalho e os coletivos comunitários (Carvalho e Gastaldo, 2008:2031). 10 Vasconcellos, 2003; Silva e Martínez, 2004; Oakley e Clayton, 2003; Wallerstein, 2002. 4 as condições de assimetria caracterizadas pelo poder médico de um lado, e a submissão do paciente de outro; deixando para trás a ideia de ‘obediência ao médico’ para em seu lugar priorizar a ‘aceitação do tratamento’11 (Cyrino et al., 2009:96). Nos Estados Unidos a formulação do paradigma do empoderamento na diabetologia recua ao início dos anos de 1990 quando o Comitê de Educação do Centro de Pesquisa e Treinamento em Diabetes da Universidade de Michigan, responsável pelos programas de educação de pacientes e profissionais, concluiu que a tradicional abordagem baseada na obediência (compliance) era uma estrutura conceitual inapropriada para a prática e avaliação da educação do paciente diabético (Anderson et al., 1995:943). Mesmo a perspectiva da ‘aderência’ – que se concentra na ‘aceitação do tratamento’ pelo paciente – é tida como insuficiente (Anderson, 1999:2090-1). Segundo a perspectiva do empoderamento do paciente proposta pelos pesquisadores daquela universidade, o cuidado com o diabetes requer uma abordagem colaborativa, implicando que pacientes e profissionais de saúde se relacionem como iguais, em lugar da abordagem hierárquica do modelo de cuidado relacionado aos processos agudos de adoecimento. Diferentemente destes, os pacientes com diabetes são inteiramente responsáveis pela autogestão de suas enfermidades (Glasgow e Anderson, 1999:2091). A educação para os cuidados do diabetes Certamente o investimento das políticas de saúde no oferecimento de programas educativos sobre o diabetes aos pacientes têm sido motivado pela constatação de que esse conhecimento tem um efeito positivo sobre o modo como os indivíduos procedem ao autocuidado. A prática educativa tem sido reconhecida como uma parte importante da gestão clínica dos diabéticos desde os anos de 1930 (Norris et al., 2002:1159). A perspectiva do empoderamento entretanto é bem mais recente, e implica um questionamento profundo dos papéis de paciente e profissionais de saúde nas relações da assistência à saúde. Sua argumentação inspira-se em um modelo de paciente bastante autônomo – o paciente diabético é considerado responsável por ‘95% ou mais do cuidado diário’ relacionado ao tratamento. O diabetes é definido, então, como uma enfermidade de ‘autogestão’ (Anderson et al., 1995:943). 11 “Although professionals prescribe medications, and recommend and guide care measures for patients, it is up to patients to organize these measures within their everyday lives. This requires enormous adaptive effort by patients, for them to be able to deal with these recommendations within routines that gave already been structured through their established habits of family and social relationships” (Cyrino et al., 2009:97-8). 5 A etnografia das atividades associativas na cidade de São Paulo, desenvolvida entre 2007 e 2009, permitiu verificar o quanto a educação em diabetes estrutura fortemente as relações no campo da assistência à saúde do diabético. Entre os membros da associação de diabéticos é muito frequente a avaliação positiva dos esclarecimentos e orientações que as atividades desenvolvidas na associação oferecem sobre o diabetes e sobre os cuidados que se deve tomar para viver bem com esta enfermidade. Os associados geralmente se referem a uma substancial diferença na forma como se tratavam antes de participarem da associação. Na comparação com a condição ‘ilustrada’, por assim dizer, que os associados consideram ter alcançado na compreensão sobre o diabetes e seu tratamento, volta e meia se faz referência à forma ‘errada’ ou precária do antigo tratamento de pais ou parentes mais velhos – “não se podia comer nada”, “não existiam alimentos diet” –, ou censura-se o modo como os médicos com que se tratavam não tinham tempo de explicar e orientar melhor sobre o diabetes e seu tratamento. A Associação de Pacientes Diabéticos (APD)12, situada na cidade de São Paulo, possui cerca de 20 mil associados. Entretanto, o grupo pesquisado, que participa ativamente das atividades associativas, é proporcionalmente bem menor. O que chamo de ‘participantes ativos’ da associação envolve cerca de 50 pessoas, as quais, de formas diversas, frequentam as atividades de caráter educativo e de lazer realizadas na sede da associação. A sede da APD oferece a seus associados uma série de reuniões, palestras, aulas de culinária, grupos educativos, de psicoterapia e de artes, que compõem uma agenda semanal. Distribuídos através de diferentes formas de frequência a essas atividades, os associados acabam por se inserir em uma dinâmica de relações que definem grupos mais próximos de amizade e reconhecimento. Esse grupo de associados possui certa homogeneidade: a maioria dos membros pertence às classes populares; são em sua grande parte mulheres sobretudo acima de 60 anos; muitas delas, viúvas, com filhos adultos independentes e netos; e que moram só. Geralmente a participação de homens nas atividades associativas não ultrapassa 25%. Dos quatro homens que entrevistei, dois deles ainda mantinham o grupo familiar composto por esposa e filhos; um era solteiro e morava só e outro morava com a esposa. Os dados aqui analisados foram obtidos a partir de entrevistas com 12 associados – 8 12 Nome fictício que se refere a uma das associações de diabéticos onde se concentrou a maior parte do trabalho de campo da pesquisa de doutorado. 6 mulheres e 4 homens –, e também de observações feitas nas reuniões de psicoterapia em grupo que compõem o quadro de atividades semanais da associação. As atividades semanais que congregam grupos de diabéticos na associação, com um número de participantes que varia de 12 a 18 pessoas, são dirigidas aos associados com o objetivo de informá-los e orientá-los sobre como lidar com o diabetes. As orientações implicam tanto a familiarização com ideias e conceitos da biomedicina acerca da compreensão dos processos fisiológicos relacionados à enfermidade, como a introdução em um universo amplo de conhecimento acerca de hábitos e práticas de cuidado de si; os quais vão desde as técnicas para a realização de hemoglicotestes13 e de aplicação de insulina, passando por considerações acerca da prática de atividades físicas, chegando aos conceitos sobre alimentação saudável. Conforme o associado tenha interesse, seja por não estar conseguindo manter sua glicemia em níveis adequados, seja pela necessidade de emagrecer, ou por algum outro motivo; ele pode passar em consulta com o psicólogo ou nutricionista, por exemplo, e se submeter a um tratamento orientado de forma personalizada. Pode-se afirmar, entretanto, que as atividades da associação estimulam a apropriação dos conhecimentos desses profissionais em um grau suficiente para capacitar o diabético a ter um controle mais autônomo sobre suas perturbações. O papel da associação e das formas tomadas por suas ações apontam neste sentido. O uso de insulina é um exemplo interessante dessa perspectiva. Os indivíduos que são diabéticos há mais tempo geralmente reivindicam o fato de possuir um conhecimento maior sobre seu próprio corpo, e acabam expressando determinados pontos de vista que desafiam a autoridade médica: Ernesto14, diabético há 39 anos, contou como sua médica – com a qual se tratava há sete anos na associação – “queria morrer” quando lhe contava que tomava “NPH durante o dia, e Levemir à noite”. Frisava com isso sua longa experiência na prática de controle da glicemia. Ernesto tem diabetes tipo 1. Vera, que tem diabetes tipo 2 há 34 anos, seguindo Ernesto, contou que sua médica estava insistindo em manter a dose de insulina alta, mas que ela própria a andava diminuindo por sua conta (Caderno de Campo). 13 O hemoglicoteste consiste em tomar a medida de glicemia sanguínea com o auxílio do glicosímetro, monitorando a glicemia durante o dia, medindo-a idealmente antes e após as refeições. O glicosímetro aponta a glicemia a partir de uma amostra de sangue extraída de um dos dedos da mão. Na prática, os diabéticos que mais se dedicam a realizar esses hemoglicotestes de forma mais sistemática são os que apresentam uma variação glicêmica maior durante o dia, implicando a necessidade de um controle mais estrito a fim de evitar hipoglicemias ou hiperglicemias severas. Em geral, este é o caso de quem tem diabetes do tipo 1. 14 Todos os nomes das pessoas que contribuíram para a pesquisa são fictícios. 7 Dadas as características específicas do tratamento, o diabetes do tipo 1 acaba envolvendo uma maior autonomia da pessoa na avaliação da dose de insulina a ser usada ao longo do dia. Mais recentemente, verifica-se que a investida dos laboratórios de medicamentos na modernização das insulinas também acaba incluindo os diabéticos do tipo 2 na perspectiva de maior autonomia. A matéria informativa, publicada no site de um dos laboratórios parceiros da associação, sobre o estudo de um novo tipo de insulina aponta este horizonte promissor: Pacientes portadores de diabetes tipo 2 foram capazes de ajustar suas próprias doses de Levemir TM e obter melhorias nos níveis de açúcar no sangue, comparados com a dosagem ajustada por seus médicos. (...) Os dados demonstraram que o auto-ajuste do paciente no tratamento com a insulina Levemir TM foi tão seguro e eficaz, quanto a dosagem ajustada pelos médicos, de acordo com o tratamento padrão. Os pacientes que auto-ajustaram a sua dosagem atingiram níveis de controle glicêmico satisfatório e, além disso, foi observada uma mínima mudança no peso15 O ajuste da dose de insulina, assim, passa a ser algo que se liberta da prescrição médica, de modo que esse medicamento entra para o âmbito de controle do próprio diabético. Como esta situação mostra, enquanto agentes que se associam no campo criado pela assistência à saúde do diabético, médicos e indústria farmacêutica submetem suas posições a um jogo que tem uma dinâmica própria16. Valores e sensibilidades do diabético empoderado Na experiência de Robert Anderson (1995) as apresentações sobre o empoderamento do paciente sempre produzem reações de resistência e desconforto da parte dos médicos e outros profissionais da saúde (Anderson, 1995:412). O autor explica que o modelo médico tradicional17 é fortemente baseado no tratamento da doença aguda, e por isso a figura do médico é profundamente marcada pela responsabilidade pelo diagnóstico e pela decisão do tratamento a ser seguido. Os trabalhos que tematizam as enfermidades crônicas têm chamado a atenção para o impacto que o tratamento desses males representa para a vida da pessoa: um mal que não se cura, e com o qual é preciso aprender a conviver. No caso do diabetes é muito comum adotar a expressão ‘controlar o diabetes’, ou seja, a preocupação em manter o 15 Cf.: www.mudandodiabetes.com.br/press_realeases/2007/07/Press_Release_2007071601. htm, acesso em 30/06/2008. 16 Os médicos são agentes centrais na associação pesquisada, ocupando os cargos mais importantes da diretoria. Os laboratórios farmacêuticos são parceiros nos projetos de intervenção realizados pela associação e têm uma presença muito importante nas práticas associativas. 17 Segundo o autor: “In this model, the physician is viewed as active, powerful, knowledgeable, and in control of the care process. The patient is viewed as passive, accepting, compliant, and dependent on the physician's medical knowledge and goodwill” (Anderson, 1995:413). 8 nível de açúcar no sangue em parâmetros considerados adequados é constante no dia-adia do diabético. Para Anderson (1995) são os pacientes que se encarregam do cuidado do diabetes na vida diária, “eles são de fato seus próprios provedores de cuidado”. Essa conclusão leva em consideração o fato de que os cuidados que o diabetes requer afetam virtualmente todos os aspectos da vida do paciente, implicando uma substancial remodelação da forma de vida (Anderson, 1995:413). Com uma forma tão difusiva de tratamento, que se imiscui em grande variedade de situações da vida do paciente, o diabetes acabou se tornando atualmente um dos focos de pressão sobre a perspectiva médica mais tradicional. O empoderamento do paciente aponta para uma diferente divisão da carga de responsabilidade entre médico e paciente quanto ao tratamento. Do paciente passa a se esperar a capacidade e disposição para assumir o papel ‘de quem toma decisões’. Como coloca Anderson, “In practice, diabetes care plans are sometimes the result of a process of education and discussion between the patient and members of the health care team” (Anderson, 1995:412). A adaptação do tratamento às inúmeras situações da vida do paciente tem levado à revisões acerca da distribuição das capacidades de decisão entre médico e paciente. Ao ponderar o fato de que alguns pacientes teriam dificuldade em tomar decisões, preferindo a posição de dependência, Anderson diz que seria necessário informar o paciente de que alguns detalhes do tratamento planejado poderiam não se ajustar a determinados aspectos de suas vidas, sendo então necessário discutir e reformular o plano de cuidado (Anderson, 1995:414). O autor lembra que não se trata dos médicos abandonarem a responsabilidade pelo tratamento, mas sim de abandonarem a ‘ilusão’ de que têm responsabilidade pela gestão do dia-a-dia do diabetes. É de fato muito significativo quando Anderson se refere à apreensão dos médicos quando lhe perguntam; “You're not talking about letting patients do anything they want, are you?”. Para Anderson a pergunta revela uma visão ingênua acerca do papel do profissional da saúde, a qual evocaria a situação da oposição entre a figura de pais controladores e a de pais indiferentes. Por isso a proposta implicaria o reconhecimento de que a relação pai-criança não é apropriada para o cuidado adulto do diabetes, sendo preciso substituí-la por uma relação adulto-adulto (Anderson, 1995:414). Para o autor o paciente deve ser tomado como um membro autônomo e igual na equipe que cuida de sua saúde, dotado de uma expertise especial fundamental: o 9 conhecimento de si. Só ele conhece os efeitos do tratamento sobre seu quadro de saúde no contexto de sua vida diária. No trabalho que Robert Anderson e colaboradores discutem os resultados de um programa de educação de pacientes diabéticos, os autores afirmam que segundo a filosofia do empoderamento a condição saudável depende de ‘habilidades psicossociais’ para provocar mudanças (1) no comportamento pessoal, (2) nas situações sociais e (3) nas instituições que influenciam suas vidas (Anderson et al., 1995:944). Embora os autores não abordem mais detalhadamente o conteúdo com que o programa de educação analisado procura ajudar a desenvolver essas habilidades psicossociais, é possível distinguir algumas dimensões da vida do paciente que devem se tornar alvo de uma atitude transformadora. Quer dizer, nessas dimensões da vida se localizam fontes de sofrimento que dificultam a vida com o diabetes. É possível distinguir dois campos de atuação do paciente na adaptação da vida com o diabetes. Esses campos são perceptíveis a partir das habilidades que o programa de educação espera que os pacientes adquiram. O primeiro campo envolveria o ‘ajuste dos hábitos cotidianos’. Relacionei as seguintes habilidades relativas a esse campo (Anderson et al., 1995:944-5): 1. 2. 3. 4. Melhorar a habilidade dos pacientes identificarem e estabelecerem objetivos realísticos Aplicar um processo de resolução de problemas sistemático para eliminar as barreiras para alcançar essas metas Lidar com circunstâncias que não podem mudar Tomar decisões que envolvam a avaliação de custo/benefício para alterar o comportamento relacionado à vida com o diabetes A primeira questão para a qual essas habilidades apontam diz respeito à grande dificuldade que os pacientes encontram na adaptação de seu dia-a-dia aos cuidados do diabetes. Essa é uma questão bastante conhecida no meio médico, e também entre outros estudiosos dedicados à experiência social da vida com o diabetes. Afinal, estabelecer ‘objetivos realísticos’, lidar com o que ‘não se pode mudar’, desenvolver estratégias para ‘eliminar barreiras’ insinuam a ideia de tarefas complicadas de serem realizadas, envolvendo incertezas quanto ao resultado das ações, interferência de imprevistos e situações de impedimento ou desfavoráveis à prática do cuidado. As decisões complicadas que podem compor o cuidado com o diabetes podem envolver, por exemplo, a composição do prato em uma refeição feita em condições imprevistas (em uma festa, em uma visita a um amigo, em uma situação de hipoglicemia, etc). Pode envolver também: o ajuste da dose de insulina de acordo com o 10 nível de açúcar sanguíneo medido; as providências contra um mal-estar inesperado; a manutenção do tratamento em situações de viagem ou de adoecimento. Mas de que modo ou por que essas situações são tão difíceis para as pessoas que vivem com o diabetes? Antes de abordar essa questão com as experiências dos diabéticos é importante concluir a consideração das habilidades relativas ao segundo campo em que é preciso atuar para assumir o cuidado com o diabetes. Esse segundo campo envolveria o ‘ajuste das emoções’ para a mudança dos hábitos. Seria marcado pela condição de reflexividade do eu, reunindo as habilidades para lidar com o impacto das práticas de cuidado com o diabetes. As seguintes habilidades apontam nesse sentido (Anderson et al., 1995:944-5): 1. 2. 3. 4. Gerenciar o estresse causado pela vida com o diabetes assim como o estresse geral da vida cotidiana Identificar áreas de satisfação e não satisfação relacionadas à vida com o diabetes Melhorar a habilidade para ser automotivado Lidar com os aspectos emocionais da vida com o diabetes As habilidades ‘emocionais’ para o cuidado do diabetes se referem à capacidade de ‘manutenção da disposição’ para o autocuidado. Elas apontam para o fato de que é preciso saber lidar com o estresse e com a insatisfação que essa prática provoca. Pelo que foi visto, as habilidades do primeiro grupo se voltam para estados tais como os de incerteza, confusão, frustração, ansiedade, dúvida/insegurança. São habilidades que se voltam para promover a ação sob tais condições. As habilidades do segundo grupo parecem se dirigir ao impacto dessa verdadeira ‘luta’ na qual as ações de cuidado transformam a vida da pessoa. Elas se voltariam para estados tais como os de estresse, insatisfação, desânimo, desmotivação. Pode-se pensar que os efeitos desses estados permeariam a disposição mais básica, por assim dizer, para o autocuidado. Quer dizer, seriam estados que marcariam previamente a disposição para a ação mais concreta; de tal forma que, no limite, levariam a pessoa a abandonar o empenho de se cuidar. É interessante observar que a primeira habilidade relacionada neste segundo grupo de habilidades se refere não apenas a gerenciar o estresse causado pelo cuidado do diabetes, mas o estresse da vida cotidiana em geral. De fato, observa-se nas práticas associativas pesquisadas o desenvolvimento de atividades educativas nas quais os associados são estimulados a rever certas formas de se ‘encarar a vida’ e as relações 11 sociais. E estas sugestões se mostram muito mais abrangentes e excedem o âmbito da ação mais prática do cuidado do diabetes. O que se mostra aqui em questão é o fato dos cuidados do diabetes demonstrarem ter um peso significativo para a vida das pessoas, no sentido de representarem um verdadeiro desafio. Com uma ‘fama’ já bem constituída acerca da resistência ao tratamento por parte de seus enfermos, a qual inclusive vem estimulando reflexões críticas ao modo tradicional da abordagem clínica do tratamento, o diabetes parece apontar para questões mais profundas relacionadas à disposição para o autocuidado. Essas questões estariam ligadas às ‘novas’ disposições pessoais requeridas por essa prática e é preciso questionar a relação dessas disposições com o contexto social dos enfermos. De que forma essas disposições contrariam ou se chocam com as experiências de vida das pessoas que têm diabetes? No embate com as dificuldades do tratamento do diabetes, os médicos acabaram por reconhecer que seus cuidados afetam um conjunto amplo de aspectos da vida do paciente: os domínios físico, emocional, mental e espiritual (Anderson et al., 1995:944). E desse modo, algumas perspectivas apontam para a necessidade de que esses domínios sejam tomados como uma parte integral do cuidado e da educação do paciente (Anderson et al., 1995:947). Como visto acima, uma forma de educação proposta tem como alvo estimular o desenvolvimento de determinada habilidades individuais ligadas à adequação do tratamento às especificidades da vida cotidiana. É preciso, entretanto, questionar mais profundamente os aspectos sociais que circunscrevem o dilema dos indivíduos. Passemos então à análise dos dados colhidos nas associações de diabéticos, para poder dimensionar o teor das dificuldades do autocuidado das pessoas que sofrem com o diabetes. Antes porém, é importante considerar as observações acerca do perfil dos pacientes que participaram do programa educativo referido por Anderson et al. (1995). Os resultados do programa foram considerados muito positivos, pois os pacientes apresentaram melhores condições para gerenciarem seu tratamento, aumentando-se o nível de autoeficácia, e também foi relatada a melhoria no controle no nível de glicemia sanguínea. Os autores mencionam que os participantes tinham um bom nível de educação, 77% tendo terminado pelo menos um curso superior e 84% já havia participado de outros cursos de educação sobre diabetes (Anderson et al., 1995:945). O grupo de participantes 12 foi descrito como ‘assertivo’ e ‘educado’, formado por pessoas dispostas e capazes de se engajar em programa de educação psicossocial salientando um alto grau de responsabilidade pessoal (Anderson et al., 1995:946). DEIXAR DE CUIDAR DO OUTRO PARA CUIDAR DO DIABETES? O constrangimento com os cuidados da diabetes em situações sociais se manifesta de maneira geral entre os associados. Esse é o caso, por exemplo, de quando se tem que: recusar uma bebida adoçada com açúcar ou mais um pedaço de bolo; declarar ser diabético ao recusar um cafezinho adoçado com açúcar; aceitar uma sobremesa diet feita especialmente, marcando com isso uma diferença com relação aos demais comensais; ou ausentar-se do grupo para aplicar uma dose de insulina. “É como se você estivesse deixando de fazer parte daquele grupo”, como se expressou Henrique, um dos entrevistados. Ou seja, em situações sociais os cuidados da diabetes provocam mal-estar tanto para homens como para mulheres. Tanto a pesquisa nas associações como a literatura apontam um conjunto muito amplo de situações em que o diabetes funciona como um verdadeiro marcador da diferença, e essas situações envolvem a experiência de pessoas de várias idades, não se restringindo à fase da velhice18. A etnografia nas associações, entretanto, permitiu uma aproximação privilegiada dos incômodos sentidos sobretudo por mulheres incluídas na fase de vida conhecida como da terceira idade. Como referido anteriormente, o grupo de diabéticos-associados pesquisado se constitui por maioria de mulheres, com idades acima dos 60 anos, muitas delas morando só – na condição de viúva ou separada. “Os filhos casaram e foram cada um para um canto”, como se expressou uma associada. Suas experiências e disposições são fortemente marcadas pelo desempenho dos papéis de mães e esposas, orientados pelo sistema de valores e de sensibilidades próprio das relações de obrigação familiar. Entre as pesquisadas a maternidade é uma forma social altamente valorizada, sendo que as representações acerca dos atributos e comportamentos do ‘ser mãe’ marcam a pessoa com a disposição básica de voltar-se para o cuidado do outro. Pude explorar melhor esta questão ao analisar a dificuldade que as associadas demonstravam ter para cuidarem de si mesmas nos momentos de encontro familiar 18 O uso do termo ‘velho’ se refere à elaboração simbólica com a qual o processo biológico dos indivíduos é investido. Trata-se, portanto, de uma categoria de idade tal como definida pelo processo de institucionalização do curso da vida, próprio da modernidade, e que no Brasil compreende as pessoas com 60 anos ou mais. (Debert, 2004:39, 50-ss). 13 (almoços de domingo, férias com a família e momentos festivos) (Lopes, 2011). Ou seja, quando sós elas dedicavam significativos esforços para manterem uma rotina de respeito aos horários recomendados para as refeições, para as quantidades de alimentos adequados, por exemplo. Nas festas familiares, nas visitas, porém, sentiam-se muito desconfortáveis em manter suas práticas de autocuidado, resistindo a alterar o padrão de comportamento condizente com sua identidade no grupo. O autocuidado contrasta, por exemplo, com o cuidado que é próprio do papel da mãe e esposa na cozinha. Sobre isso Ana Maria Canesqui (2005:187-8) descreve os atributos morais sobre a boa dona-de-casa prevalecente na comunidade que pesquisou: “Saber cozinhar, preparar a comida para o marido e os filhos e não para si, cuidar caprichosamente da comida, ‘não descontrolar o fogão’, o que implica evitar qualquer desperdício, e ‘ser trabalhadeira’, a que se move constantemente no espaço da casa...” No grupo de psicoterapia da associação uma associada se referiu à ideia de que somente a mãe é capaz de cuidar do outro, e que por isso não se poderia esperar que a família assumisse o cuidado com o parente diabético: Contou que seu filho por muito tempo sofrera com um mal que o obrigava a comer a cada 3 horas, e somente legumes cozidos. Chamou a atenção para o enorme cuidado que tinha, deixando as porções já preparadas de antemão. Concluiu dizendo: “Eu fazia porque era mãe, ninguém mais faria isso” (Caderno de Campo). Levando-se em conta o fato de que a mãe se define eminentemente como cuidadora, não fica tão estranho constatar o fato de que quando se encontra ‘de volta’ à família por ocasião das festividades, ela se sinta constrangida por ter que ‘romper’ com o ritual coletivo para providenciar, por exemplo, refeições em horários especiais para si mesma. Em momentos como esse se estabelece uma inversão: o cuidar-se toma o lugar do cuidar do outro. O que pode ser tomado como uma verdadeira excentricidade. Outros pesquisadores dos diabéticos já apontaram as inflexões que o gênero provoca nas práticas de autocuidado. Nas entrevistas com pacientes diabéticos em dois hospitais de Porto Alegre-RS, Witt (1996) observa uma nítida diferença nas respostas obtidas com diabéticos do sexo masculina e do sexo feminino à afirmação: ‘Eu penso primeiro em mim’. Diabéticos do sexo masculino escolhiam sem hesitar a afirmativa sempre, enquanto que os do sexo feminino hesitavam e depois diziam que ‘primeiro pensavam no marido e nos filhos e depois nelas mesmas’ (destacado no original, Witt, 1996:153). Em sua pesquisa em bairros pobres em Avellaneda, Província de Buenos Aires, Argentina, Pittman (1999) nota que para as mulheres o papel de cuidadora é central no modo como elas explicam tanto o aparecimento da diabetes como a razão pela qual não 14 se tratam adequadamente. Não poder suprir as necessidades dos filhos lhes causam “nervios” (Pittman, 1999:9). A diabetes é entendida como consequência desta situação. De outro lado, entre os dados da autora, o autocuidado é mencionado como egoísta, contraposto à atitude materna e à disposição de ajudar as pessoas: “Yo creo que ser madre te condiciona. Dejás de ser, para vivir por el outro”, argumenta uma das entrevistadas da autora (p.19). Sob condições de carência, as mães muitas vezes sacrificam suas necessidades próprias optando por comprar o alimento para os filhos. ‘Aprender a ser só junto com os outros’. Essa foi a ideia com que me deparei no esforço de encontrar um sentido para a ética que caracteriza a condição do ‘bom diabético’. Alguns excertos das discussões dos grupos de psicoterapia que observei na associação me levaram a ela: “Ninguém pede para alguém morrer junto”; “Você nasce só e morre só”; “Ninguém cuida de ninguém, somente a própria pessoa decide se cuidar”. Em uma passagem muito significativa dessas discussões, anotei em meu caderno de campo: A cada pessoa cabe perguntar-se ‘O que é importante para mim?’. A essa colocação seguiu-se a sugestão de que esta atitude deveria se dar mesmo diante do cuidado com os filhos. O comentário advertia sobre a dedicação excessiva aos filhos. Quer dizer, mesmo se tratando dos próprios filhos, ainda se manteria a necessidade de buscar realizar aquilo que é importante para si; procurando, então, a melhor forma de equacionar as duas coisas (...) A conclusão que se encaminhava era a de que preservar a individualidade não ameaçava ou seria contrária à dedicação à família19. Essa perspectiva torna a dimensão do eu um tanto incompatível com as disposições relativas à experiência das relações familiares. A mãe cuidadora deve ceder lugar para o sujeito centrado em si, ocupado consigo. A predisposição do sujeito que assume a responsabilidade do cuidado de si provavelmente soa por demais egoísta para quem diz que “os filhos valem qualquer sacrifício”. As representações sobre a família que colhi no grupo estudado levaram-me às reflexões desenvolvidas por Cinthia A. Sarti. Em seu estudo sobre a moralidade dos pobres em um bairro de São Paulo, Sarti salienta que “A família, pensada como uma ordem moral, constitui o espelho que reflete a imagem com a qual os pobres ordenam e dão sentido ao mundo social”20. Para a autora, a família é fundamentada por um princípio de obrigação moral com o qual seus membros se definem como comprometidos entre si: “... são da família aqueles com quem se pode contar, isto quer 19 20 Caderno de Campo. Sarti, 2005, p. 22. 15 dizer, aqueles que retribuem ao que se dá, aqueles, portanto, para com quem se tem obrigações”21. A autora chama a atenção para o caráter difuso da obrigação moral familiar, sendo que a reciprocidade não se pauta pelo interesse explícito ou pela troca imediata, mas pela confiança22. Neste contexto “... os pais que criam e cuidam são merecedores de profunda retribuição, sendo um sinal de ingratidão o não reconhecimento desta contrapartida”23. O padrão moral desenhado por Sarti faz parte da experiência familiar vivida pelo grupo pesquisado. Entretanto, diante dos novos contextos de sociabilidade definidos pela condição de diabéticos, eles são instados a relativizar as formas de ser que os predispuseram ao compromisso com as obrigações morais da família enquanto projeto coletivo. Os profissionais que orientam sobre os cuidados com o diabetes na associação evocam um padrão diferente de envolvimento nas relações sociais, o qual implica a preeminência do cuidado de si. Os hábitos alimentares, os horários dos medicamentos e do monitoramento da glicemia, a prática de atividade física, instauram nas situações sociais a ênfase no ‘eu’, em lugar da ênfase no ‘outro’. As discussões sobre alguns dos incômodos experimentados mostram como as relações de apoio podem ser lidas através de uma lente crítica pelo sistema de valores que envolve o autocuidado. Essas situações incômodas são revisitadas pelos associados quando se tornam temas de discussões nas práticas associativas e ganham novos sentidos. O cuidado do diabetes e o padrão de obrigação moral da família se defrontam enquanto sistemas de valores conflitantes. Michel Foucault (1990) relaciona a prática do cuidado de si a um sujeito que desenvolve um tipo de vigilância para consigo, circunscrevendo uma parte de si mesmo que se constitui como objeto de uma prática moral. As práticas de cuidado de si dos diabéticos implicam justamente a constituição deste sujeito moral, em um contexto que tem sido discutido por alguns autores como o do aumento da responsabilização do sujeito pela própria saúde24. Esta ideia é central na reflexão que Novas e Rose (2000) fazem acerca das novas ‘estratégias de vida’ que acompanham o surgimento da nova genética molecular, responsáveis por uma ampla reformulação da condição de pessoa através da perspectiva somática. Para os autores relações novas e diretas são 21 Sarti, 2005, p. 85, destacado no original. Sarti, 2005, p. 86. 23 Sarti, 2005, p. 82, destacado no original. 24 Cf. Featherstone, 1991; Novas e Rose, 2000. 22 16 estabelecidas entre o corpo e o self, sendo que os leigos passam a dominar cada vez mais a linguagem da descrição e do julgamento da biomedicina25. Considerar o sujeito moral da ação é perceber a “elaboração de uma forma de relação consigo que permite ao indivíduo constituir-se como sujeito de uma conduta moral”26. As práticas e técnicas do cuidado com o diabetes engendrariam uma forma de se conduzir moralmente, envolvendo os sujeitos em uma ‘ascética’ ou em um conjunto de ‘práticas de si’. As práticas de cuidado sugeridas implicam, mais do que a ‘consciência de si’, a constituição de si enquanto ‘sujeito moral’, na qual o indivíduo circunscreve a parte dele mesmo que constitui o objetivo dessa prática moral, define sua posição em relação ao preceito que respeita, estabelece para si um certo modo de ser que valerá como realização moral dele mesmo; e, para tal, age sobre si mesmo, procura conhecer-se, controla-se, põese à prova, aperfeiçoa-se, transforma-se27. Promovendo a aproximação com determinados valores da vida moderna, as práticas associativas se convertem em um contexto em que as representações individualizantes dos agentes da biomedicina se confrontam com as representações de caráter mais holistas dos diabéticos – uma situação já apontada por Duarte28. É preciso chamar a atenção para o fato de que este quadro não deixa muito espaço para se considerar que ficar velho ou doente implica uma condição de dependência. Esta questão é problematizada em A Reinvenção da Velhice, trabalho em que Guita Grin Debert (2004) considera o modo como a recente ressignificação da velhice no contexto brasileiro se inscreve em processos de reprivatização, nos quais determinadas preocupações sociais são transferidas para a esfera de responsabilidade do indivíduo29. As pessoas que se tornam membros plenos, por assim dizer, nos grupos semanais da associação, que são sempre presentes e se engajam mais intensamente nas relações com os outros associados; de certa forma são aquelas que demonstram estar mais dispostas a mudar ou implementar os hábitos de cuidado de si e os novos modos de relacionamento. 25 Novas e Rose, 2000, p. 487-8. Foucault, 1990, p. 219. 27 Foucault, 1990, p. 28. 28 Duarte, 2003, p. 177. 29 Como coloca a autora: “A nova imagem do idoso não oferece instrumentos capazes de enfrentar a decadência de habilidades cognitivas e controles físicos e emocionais que são fundamentais, na nossa sociedade, para que um indivíduo seja reconhecido como um ser autônomo, capaz de um exercício pleno dos direitos de cidadania. A dissolução desses problemas nas representações gratificantes da terceira idade é um elemento ativo na reprivatização do envelhecimento, na medida em que a visibilidade conquistada pelas experiências inovadoras e bem-sucedidas fecha o espaço para as situações de abandono e dependência” (Debert, 2004, p. 15). 26 17 Da transformação rumo ao novo eu faz parte uma atitude crítica com relação aos valores transmitidos socialmente. A ênfase na responsabilização do indivíduo sobre as condições de sua vida, a partir da constatação sugerida de que ‘ninguém cuida de ninguém’, ou de que ‘ser só é uma condição do homem’, dialoga, em sentido inverso, com os pressupostos das relações familiares do cuidado e do apoio mútuo. Para cuidar do diabetes o diabético precisa voltar-se para si e reorientar a relação que mantém com os outros. O que significa, por exemplo, que a mulher idosa deve assumir plenamente a prática do cuidado de si, ajustando-a ao envolvimento com as práticas sociais familiares. O cuidado de si passa a ter precedência. O cuidado com o outro não deve ameaçar o bem-estar de quem cuida (“aprender a ser só [mesmo estando] junto com os outros”). BIBLIOGRAFIA ANDERSON, Robert M. Patient Empowerment and the Traditional Medical Model: a case of irreconcilable differences? Diabetes Care, vol. 18, nº 3, p.412-5, Mar. 1995. 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