artigo original
Mulheres apresentam maior pressão arterial após
os 50 anos etários, quando comparadas às mais
jovens
Antônio Carlos Silva Filho, Jurema Lopes Castro Filha, Herikson Araújo Costa, Edjaciane da Silva Sá e Carlos José
Moraes Dias e Francisco Navarro
DOI - 10.14242/2236-5117.2015v51n2a254p97
Resumo
Objetivo. O objetivo deste estudo é caracterizar o
comportamento da pressão arterial em homens e
mulheres de várias idades.
Método. Este estudo tem característica transversal, com a amostra escolhida por conveniência.
Voluntários tiveram a pressão aferida durante a 64.ª Reunião da Sociedade Brasileira para o
Progresso da Ciência, utilizando-se o método auscultatório de Korottkof. O teste de Mann-Whitney
não pareado e Kruskal-Wallis com o post-hoc de
Dunn foram escolhidos para a análise estatística.
Considerou-se p < 0,05 como significativo.
Resultados. Foram avaliadas 418 pessoas, sendo
214 do sexo masculino e 204 do sexo feminino. Foi
encontrada diferença significativa entre a pressão arterial de homens e mulheres tanto na sístole quanto na diástole (p < 0,0001), bem como nas
décadas de 20, 30 e 40 anos etários (p < 0,05). No
entanto, não foi encontrada diferença significativa
nas décadas etárias de 50 e 60 anos (116,4 ± 14,1
masculina vs 121,3 ± 15,9 feminina).
Conclusão. A pressão arterial entre homens e mulheres é significativamente diferente até a década
de 50 anos etários, demonstrando que mulheres
após essa idade manifestam aumento da pressão
arterial, igualando-se com a pressão arterial masculina da mesma idade.
Palavras-chave. Hipertensão; menopausa; mulher;
envelhecimento.
Antônio Carlos Silva-Filho – Estudante do Curso de Educação Física do
Departamento de Educação Física da Universidade Federal do Maranhão,
bolsista do programa Ciência Sem Fronteiras da CAPES
Jurema Lopes Castro Filha – Professora de Educação Física e Mestre em
Saúde Materno-Infantil, Departamento de Educação Física, Universidade
Federal do Maranhão
Herikson Araújo Costa – Mestre em Saúde Materno-Infantil e Professor
adjunto do Curso de Educação Física da Universidade Federal do
Maranhão – Polo Pinheiro
Edjaciane da Silva Sá – Fisioterapeuta graduada pela Faculdade Santa
Terezinha, Maranhão
Carlos José Moraes Dias - mestre em Saúde Materno-Infantil pela
Universidade Federal do Maranhão
Francisco Navarro – Professor adjunto do Departamento de Educação
Física da Universidade Federal do Maranhão
Correspondência: Antônio Carlos Silva-Filho - Departamento de
Educação Física, Universidade Federal do Maranhão, Avenida
dos Portugueses, 1966, Núcleo de Esportes, CEP 65080-805,
São Luís, MA. Telefone: (98) 8859-3718; 3272-8170.
Internet: [email protected]
Abstract
Women aged 50 or more have higher blood pressure
than those younger
Objectives. The aim of this study is to determine the
blood pressure profile of men and women of various ages.
Method. This is a cross-sectional study of a convenience sample - 214 men and 204 women - who had their
blood pressure measured during the 64th meeting of the
Brazilian Society for the Progress of Science (Sociedade
Brasileira para o Progresso da Ciência), in accordance
with the recommendations from the Brazilian Society
of Cardiology, using the Korottkof auscultatory method.
Brasília Med 2014;51(2):97-102 • 97
artigo original
The Mann-Whitney unpaired test and Kruskal-Wallis
with post-hoc Dunn’s test were used in the statistical
analysis. P<0.05 was considered statistically significant.
Results. Four hundred and eighteen (418) individuals
were evaluated (214 men and 204 women). The blood
pressure of men and women was significantly different
in both systole and diastole (p < 0.0001) and in their 20s,
30s and 40s (p < 0.05). However, there was no significant
difference between the blood pressure of men and women in their 50s and 60s (116.4 ± 14.1 men vs 121.3 ± 1.9
women), indicating blood pressure equality between
them.
Conclusion. The blood pressure of men and women is
significantly different up until they are 50 years old.
Nonetheless, women after the age of 50 show an increase in blood pressure and significant differences are no
longer found between men and women of the same age.
Key words. Hypertension; menopause; woman; aging.
Introdução
Pressão sanguínea é a capacidade do líquido sanguíneo de exercer pressão sobre os vasos,1 sendo
finamente regulada por mecanismos fisiológicos.
Os mecanismos regulatórios da pressão sanguínea
dividem-se classicamente em rápidos (ou reflexos),
médios (ou humorais) e longos (ou renais). O mecanismo rápido consiste em um conjunto de fibras
autonômicas que estão em interação com os vasos
e os líquidos sanguíneos, como o barorreflexo, o
quimiorreflexo e o osmorreflexo. O mecanismo
médio consiste em ajustes humorais por substâncias que são produzidas e mantêm interação com
seus receptores, agindo nos próprios vasos ou em
centros de controle, como o óxido nítrico e a angiotensina. O mecanismo longo ou renal consiste no
controle em longo prazo do volume plasmático, no
intuito de controlar a concentração de hidrogênio,
sódio e outros eletrólitos. Mas, em decorrência de
fatores genéticos, ambientais, de comportamento e de hábitos alimentares, esses mecanismos de
controle são afetados, interferindo diretamente na
regulação da pressão sanguínea, levando a doenças
como a hipertensão.2,3
98 • Brasília Med 2014;51(2):97-102
É descrito que 12,8% da população morre por consequência da hipertensão arterial sistêmica, em
que o risco de morte inicia-se a partir de pressão
sanguínea arterial com valores acima de 115/75
mmHg, aumentado linearmente a cada ano de vida.2 A maior parte dessa população é composta de
homens.3 Mas as mulheres pós-menopáusicas são
susceptíveis a risco maior de doenças cardiovasculares em relação àquelas que se encontram no período fértil. Em alguns casos, o risco é até maior que
nos homens, mostrando que fatores de distinção
entre homens e mulheres são importantes na regulação da pressão arterial.4 Isso indica o possível papel dos hormônios androgênicos nessa regulação.
Nas mulheres, a presença do estrogênio pode ser
um fator de regulação da pressão arterial. Estudos
demonstram o papel cardioprotetor desse hormônio5 e o efeito de aumento da pressão arterial da
testosterona.6
Com base nesses dados, o objetivo do presente estudo é avaliar o comportamento da pressão arterial
em homens e mulheres de várias idades.
Método
Este estudo tem característica transversal, com
amostra escolhida por conveniência. Os voluntários
c
tiveram a pressão aferida durante a 64 Reunião
Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da
Ciência (SBPC), onde um estande disponibilizou a
avaliação física e a aferição da pressão arterial.
Tendo aguardado previamente por cinco minutos,
a aferição foi feita com os sujeitos sentados e com
o braço esquerdo estendido à altura do coração
e com uso de um estetoscópio e um esfigmomanômetro aneroide com manguito adulto (32 cm)
(Premium, Glicomed). A braçadeira foi colocada
acima da fossa antecubital pressionando a artéria
braquial. O estetoscópio foi posicionado sobre a
fossa antecubital, apalpando-se o local para localização do pulso. Para determinação dos valores,
foram utilizadas as recomendações da Sociedade
Brasileira de Cardiologia,2 que usa o método de
Korottkof, utilizando-se das fases 1 (K1) para a
pressão arterial sistólica e da fase 5 (K5) para a
pressão arterial diastólica.
Antônio Carlos Silva-Filho • Mulheres apresentam maior pressão arterial
Todos os sujeitos foram informados sobre os procedimentos experimentais e assinaram o termo de
consentimento livre esclarecido de participação no
estudo. Todos os procedimentos foram aprovados
pelo Comitê de Ética em Pesquisa institucional e realizados segundo as recomendações da Declaração
de Helsinki.
ANÁLISE ESTATÍSTICA
Para análise estatística dos resultados foi usada a
relação de média e o desvio-padrão. Para localização de outliers, foi aplicado o teste de Grubbs e,
a fim de caracterizar a normalidade da amostra,
adotou-se o teste de Kolmogorov-Smirnov. Para a
análise das décadas, foram empregados os testes
de Mann-Whitney não pareado e Kruskal-Wallis
com o post-hoc de Dunn, considerando-se estatisticamente significante o intervalo de confiança de
95% e o p ≤ 0,05. Os dados foram analisados pelo
software Prism 5 (GraphPad®).
Resultados
Avaliaram-se 418 pessoas. Foram 214 homens, com
idade de 18 a 66 anos, e 204 mulheres de 18 a 87
anos. Foi encontrada diferença significativa entre
a pressão arterial sistólica dos homens e das mulheres (p < 0,0001). Também houve diferença significativa entre a pressão arterial diastólica dos
homens e das mulheres (p < 0,0001; figura 1). Foi
encontrada diferença significativa entre a década de 20 anos entre os sexos, respectivamente na
pressão arterial sistólica e pressão arterial diastólica (p < 0,0001). Também foi encontrada diferença
significativa entre os sexos na década de 30 anos
(na pressão arterial sistólica e pressão arterial diastólica (p < 0,0001; p = 0,0009). Na década de 40 anos,
também foi encontrada diferença significativa entre os sexos na pressão arterial sistólica e na pressão arterial diastólica (p = 0,04; p = 0,01). Na década
de 50 anos, não foi encontrada diferença significativa na pressão arterial sistólica e pressão arterial
diastólica. Também não houve diferença estatística
significativa na década de 60 anos entre homens
e mulheres na pressão arterial sistólica e pressão
arterial diastólica (tabela 1 e figura 2).
Tabela 1. Valores de pressão arterial entre idade e sexo em sujeitos participantes da 64.ª Reunião da Sociedade Brasileira para
o Progresso da Ciência, em São Luís, Maranhão. Valores mostrados em milímetros de mercúrio (mm/Hg)
Variável
Década (Idade)
P
Homens
20
(22,2 ± 2,7)
30
(33,6 ± 3,1)
40
(43,8 ± 3,1)
50
(53,1 ± 2,8)
60
(63 ± 2,2)
Sístole
120,5
122,5
123
116,4
123,3
± DP
12,1
12,1
14,3
14,1
8,1
Diástole
78,20
82,36
84,80
75,78
78,33
± DP
9,94
12,33
10,46
7,10
9,83
Mulheres
20
(22,5 ± 3,0)
30
(33,5 ± 2,7)
40
(44,3 ± 2,8)
50
(54 ± 2,5)
60
(63,2 ± 2,6)
Sístole
107,9
109,1
114,7
121,3
120,8
± DP
11,98
10,46
11,77
15,90
24,68
Diástole
72,15
74,36
75,85
82,93
75,00
± DP
8,49
7,63
12,12
10,98
10,00
0,0001
0,0009
0,0014
Brasília Med 2014;51(2):97-102 • 99
artigo original
Pressão Arterial Sistólica
***
Pressão Arterial Sistólica
130
140
a
***
b
120
mm/Hg
mm/Hg
120
a
***
100
b
110
80
Homens
Mulheres
60
100
Pressão Arterial Diastólica
***
Pressão Arterial Diastólica
90
100
a
***
mm/Hg
mm/Hg
85
80
80
a
***
75
b
a
*
b
70
60
65
Masculino
Feminino
10
20
30
40
50
60
Figura 1. Pressão sistólica (* p < 0,0001) e diastólica († p < 0,0001)
entre homens e mulheres.
Figura 2. Pressão sistólica e diastólica entre as décadas. a: diferença
entre os gêneros; b: diferença entre as décadas do mesmo sexo (p
< 0,05). *** p < 0,0001; * p < 0,05. A sequência correta dos símbolos
acima é: * ††§¶. Caso seja necessário, duplicam-se os símbolos: ** ††
etc.
Discussão
diferenças na pressão arterial média,7 e isso pode
se dever a maior presença circulante de testosterona nos garotos, devido à fase de crescimento.6
Em animais, também foi mostrada diferença entre
a pressão arterial de ratos espontaneamente hipertensos.8 Já em mulheres pós-menopáusicas, as
quais não sofreram nenhum tipo de intervenção
cirúrgica ou processo de reposição hormonal, as
concentrações circulantes de testosterona aumentam gradativamente após o início da menopausa.9
O mecanismo pelo qual a testosterona influencia a regulação da pressão arterial ainda não está
bem elucidado, mas um dos possíveis mecanismos
mostra que receptores androgênicos estão presentes no túbulo proximal dos glomérulos, o que
influencia a reabsorção de sódio, tendo assim possível papel na natriurese pressórica, uma forma de
O objetivo deste estudo foi caracterizar o perfil
pressórico de homens e mulheres de diversas faixas etárias, analisando-se o comportamento da
pressão arterial com o passar dos anos. Os resultados mostram que a pressão arterial masculina é
significativamente maior quando comparada com
a feminina (p < 0,0001). Isso indica predominância
de fatores em ambos os sexos que influenciam diretamente a regulação da pressão arterial.
Diversos estudos ao longo dos anos tentam demonstrar os fatores que elucidam essa diferença,
sendo o foco principal o papel dos hormônios sexuais testosterona e estrogênio.Em adolescentes
pré-púberes de ambos os sexos, foram encontradas
100 • Brasília Med 2014;51(2):97-102
Antônio Carlos Silva-Filho • Mulheres apresentam maior pressão arterial
controle em longo prazo da pressão arterial.6,10 Em
mulheres com síndrome dos ovários policísticos, o
aumento das concentrações de testosterona indica
riscos de doenças cardiovasculares e consequente hipertensão arterial.11 Outros estudos em ratos
demonstram que fêmeas ovariectomizadas que espontaneamente desenvolveram hipertensão, quando tratadas com testosterona, mostraram aumento
da pressão arterial e consequente aumento da absorção de Na++. 6,12
Os dados também mostram que a pressão arterial
masculina se mantém maior que a feminina entre
as décadas de 20 até os 50 anos de idade. A partir
dos 50 anos, a pressão arterial não mais se diferencia entre os sexos, indicando que as das mulheres
alcançaram valores semelhantes aos do sexo masculino na mesma idade. Ocorre aumento significativo da pressão arterial em cada década de vida,
numa razão média de 2,6 mm/Hg para os homens
e 19,2 mm/Hg para as mulheres.
No sexo feminino, o principal hormônio participante nessa regulação é o estrogênio. Este tem a
capacidade de estimular a produção de óxido nítrico (NO), um potente vasodilatador produzido
no endotélio vascular. Dong e colaboradores 13
demonstraram que, em ratas ovariectomizadas,
existe aumento da expressão da ciclooxigenase-2,
uma enzima que estimula a expressão do receptor
tromboxano-prostanoide, que diminui a biodisponibilidade de óxido nítrico, diminuindo assim a
capacidade de relaxamento vascular causado pelo
óxido.
Outras teorias mais recentes, conduzidas com animais, mostram não só a importância do estrogênio,
mas seu balanço equilibrado com a testosterona –,
balanço androgênio-estrogênio que, com o passar
dos anos, parece se direcionar para o aumento da
testosterona, com diminuição das concentrações e
da resposta ao estrogênio exógeno.14
O papel do sistema nervoso autônomo na regulação da pressão arterial também não pode ser descartado.15 Barry e colaboradores16 mostraram que
as mulheres têm maior quantidade e responsividade de receptores β2-adrenérgicos relacionados
com as fibras simpáticas vasodilatadoras do que
os homens, o que indica maior vasodilatação nas
mulheres e, portanto, um fator determinante nos
menores níveis de pressão arterial.
Liao e colaboradores,17 em estudo feito com 1.984
sujeitos participantes, demonstraram que as mulheres têm o componente LF (correspondente a
atividade simpática) menor do que os homens, e
o componente HF (correspondente a atividade parassimpática) maior do que o dos homens. Isso pode sugerir menor frequência cardíaca e, portanto,
menor volume de ejeção e menor pressão arterial
antes dos 50 anos de idade.
Já Barnes e colaboradores18 demonstraram que as
mulheres apresentam maior atividade do componente LF, quando comparadas com seus valores anteriores aos 50 anos, confirmando que a atividade
simpática aumenta com o passar da idade, o que
indica ser um dos possíveis mecanismos responsáveis pelo aumento da pressão arterial. Outros fatores também podem estar envolvidos na regulação
da pressão arterial entre os sexos, como o sistema
renina-angiotensina-aldosterona,19,20 a idade e a
etnia.21
Contudo, o mais importante dos resultados aqui
apresentados é que as mulheres acima de 50 anos,
possivelmente pós-menopáusicas, mostram pressão arterial sem diferenças significativas quando
comparadas aos homens, o que pode indicar maior
risco de desenvolvimento de hipertensão e outras
doenças relacionadas. Esses fatores já são conhecidos, e a menopausa aumenta fortemente o risco
de as mulheres desenvolverem episódios hipertensivos e a própria hipertensão arterial crônica,22
corroborando assim os achados dos autores do presente estudo.
As limitações desse estudo são a falta do controle
da temperatura e atividade física antes da coleta.
Mas devido a ser um evento amplo, o controle dessas variáveis se mostra difícil. O controle do ciclo
menstrual e do período atual das participantes, se
menopáusicas ou pré-menopáusicas, entre outros
casos, poderiam dar maior força aos achados.
Brasília Med 2014;51(2):97-102 • 101
artigo original
Na literatura, tem-se discutido a relação dos hormônios androgênicos na regulação da pressão arterial, demonstrando-se que os fatores humorais da
pressão arterial são formados por vários tipos de
hormônios e seus receptores, mas, a regulação nervosa também é parte determinante na regulação da
pressão arterial. Devem haver estudos direcionados para confirmação das hipóteses de regulação
androgênica por via humoral, mas, também, a verificação da regulação nervosa, engrossando assim
os fatores que são influenciados, principalmente
no período pós-menopausa.
Em conclusão, com base no anteriormente visto,
conclui-se que a pressão arterial entre homens e
mulheres se diferencia nas décadas de 20 e 40 anos,
mas as mulheres, após os 50 anos de idade têm
pressão arterial igual a dos homens de mesma idade, mostrando-se aumento em relação ao período
anterior aos 50 anos.
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