UNIVERSIDADE CATÓLICA PORTUGUESA Faculdade de Ciências Humanas PROJECTO FÉNIX – À DESCOBERTA DOS SENTIDOS E DAS PRÁTICAS PROMOCIONAIS DE SUCESSO - Um estudo de caso num Agrupamento de Escolas - Dissertação apresentada à Universidade Católica Portuguesa para obtenção do grau de Mestre em Ciências da Educação - Especialização em Supervisão Pedagógica e Avaliação de Docentes - Orientação do Professor Doutor José Joaquim Matias Alves Ana Cristina Marques Nunes Lisboa, Outubro de 2011 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. AGRADECIMENTOS Este trabalho não teria sido possível sem a ajuda inestimável de várias pessoas. Directa ou indirectamente, um conjunto considerável de protagonistas influenciou a emergência desta modesta produção. De entre elas quero destacar, em primeiro lugar, o meu orientador, Professor Doutor José Matias Alves, pelo apoio concedido na dinâmica do percurso deste estudo, pelo conhecimento e pelo ânimo que me transmitiu, especialmente nos momentos mais difíceis. Agradeço, igualmente, a todas as minhas colegas do curso de pós-graduação em Supervisão Pedagógica e Avaliação Docente, da Universidade Católica, que me incentivaram a levar este trabalho por diante. Aos colegas do agrupamento objecto de estudo, a minha gratidão pela disponibilidade evidenciada. Àqueles que dedicarem parte do seu precioso tempo na leitura desta dissertação, também dedico uma pré-palavra de agradecimento. Aos meus pais (referências da minha vida) e aos meus filhos Mafalda e Afonso, a quem dedico este trabalho, pelo encorajamento e pela compreensão relativamente aos longos momentos da minha presença de certo modo distanciada ou mesmo ausente. Finalmente, uma referência a Francisco Barroca, in memoriam, notável interlocutor em longas reflexões sobre a problemática da educação, o meu reconhecimento pelo companheirismo, pela amizade, pela vivência, pelo estímulo e por tudo aquilo em que me fez acreditar. ii Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. RESUMO Esta dissertação é o resultado de uma investigação, numa perspectiva sociológica e organizacional, realizada no agrupamento por nós denominado Agrupamento Abuja e focalizada na problemática do (in)sucesso. Quisemos perceber de que forma um projecto no âmbito do Programa Mais Sucesso Escolar, o projecto Fénix, desenvolvido ao nível meso, num agrupamento de escolas, influencia e altera as lógicas organizacionais e educacionais em função do pressuposto conceptual daquele projecto. Intentámos um bosquejo sobre a complexidade das igualdades face à escola e à escolarização de todos, sobre os factores de inovação e melhoria da eficácia da escola. Revisitámos o papel da(s) liderança(s), no sentido de clarificar quais são as marcas identificadoras dos líderes eficazes e, desejavelmente, transformacionais. Privilegia-se, a partir de um estudo de caso, os discursos e as práticas dos actores educativos em torno das dinâmicas implícitas ao projecto Fénix. Para a interpretação desta situação desenvolvemos um quadro conceptual tendo como referência as perspectivas teóricas da burocracia, da hipocrisia organizada, do funcionamento díptico da organização escolar e em contributos da perspectiva política. Foi ainda feita referência à actual lógica de acção gerencialista da gestão e administração das organizações escolares que, na opinião de muitos, faz perigar o envolvimento e a vontade dos professores. Neste estudo identifica-se, em diferentes níveis de análise, a ambiguidade entre decisões e acções. Os dados recolhidos parecem confirmar que, apesar da matriz formativa e formadora do projecto Fénix, o sucesso escolar de uma organização depende de entre vários factores, do “efeito de escola” (schools can make the difference). Os resultados indiciam que se verificam mudanças muito ténues nas práticas pedagógicas e organizacionais do agrupamento que foi o nosso objecto de estudo. Na opinião de todos os intervenientes da nossa investigação, a supervisão pedagógica foi praticamente nula, confirmando-se o distanciamento e a falta de articulação entre as tomadas de decisão e as lideranças, bem como uma débil apropriação do projecto. Palavras-chave: sucesso, lideranças, melhoria e eficácia da escola. iii Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. AB STRACT This dissertation is the result of a research project carried out from a sociological and organisational viewpoint in the school cluster of Abuja Cluster and focuses on the issue of success/failure. Our aim was to understand how a project developed within the range of the “More Success Programme” and put in place in a school cluster at meso level (the Fenix project) influences and alters the organisational and educational frameworks according to the conceptual assumptions of the above mentioned project. We tried to give an overview of the complexity of equal opportunities in regards to school and to mass schooling, having in mind the factors of innovation and improvement of school effectiveness. We revisited the role of leadership(s), so as to clarify which are the identifying traces of the effective and desirably transformational leaders. We highlighted, from a case study, the speeches and practices of educational agents on the implicit dynamics of the Fenix project. To interpret this situation we developed a conceptual framework having as reference the theoretical perspectives of bureaucracy, organised hypocrisy, the dyptical functioning of school organisation, and also the contributions of political perspectives. We have equally made reference to the current logic of managerial administration of school organisations, which, in the opinion of many, jeopardises the involvement and goodwill of the teachers. In the present study we identify, at different levels of analysis, the ambiguity between decision and action. Data collected seemed to confirm that, despite the formative and forming nature of the Fenix project, the school success of an organisation depends, among many factors, on the “school effect” (schools can make the difference). Results show that there were very tenuous changes in the pedagogical and organisational practices of the school cluster we studied. In the opinion of all respondents, the pedagogical supervision was close to inexistent, which confirmed the distance and lack of articulation between decision taking and leadership, as well as a weak appropriation of the project. Keywords: success, leadership, school improvement and effectiveness iv Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. ÍNDICE AGRADECIMENTOS ii RESUMO iii ABSTRACT iv ÍNDICE v LISTA DE SIGLAS x LISTA DE QUADROS xi LISTA DE FIGURAS xi LISTA DE TABELAS E GRÁFICOS xii INTRODUÇÃO 1 CAPÍTULO I - PRINCÍPIOS DA ESCOLA COM TODOS E PARA TODOS 2 1. A problemática das igualdades face à escola e à escolarização 2 1.1. Igualdade de oportunidades de acesso 2 1.2. Igualdade de oportunidades de sucesso 6 1.3. Igualdade de usufruto dos bens educacionais 11 2. Factores de inovação e melhoria: breve enunciação 14 v Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. 2.1. Flexibilização 2.2. Diferenciação 2.3. Mudança, inovação e resistência 19 2.4. Liderança e transformação 24 2.5. Profissionalidade docente e qualidade do ensino 31 CAPÍTULO II - A ESCOLA COMO ORGANIZAÇÃO – UMA PERSPECTIVA DE ANÁLISE 3.1. O “modelo escolar” 3.1. Modos de ver a escola enquanto organização CAPÍTULO III – MAIS SUCESSO ESCOLAR – PROJECTOS DE COMBATE AO INSUCESSO ESCOLAR NO ENSINO BÁSICO 14 16 36 36 38 43 4.1. Prevenção do insucesso 43 4.2. O Projecto TurmaMais 45 4.3. O Projecto Fénix 45 4.4. Conclusão 46 CAPÍTULO IV - ESTUDO EMPÍRICO – O OBJECTO DE ESTUDO 47 5.2. Descrição do estudo 47 5.3. Contexto de estudo 48 5.4. O ponto de partida – A adesão ao Projecto Fénix 49 5.5. Questões de investigação 53 5.6. Objectivos do estudo 53 vi Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. CAPÍTULO V - METODOLOGIA UTILIZADA NA INVESTIGAÇÃO REALIZADA 55 6.1. Considerações metodológicas e técnicas de investigação 54 6.2. Recolha de dados 55 6.2.1. Procedimentos metodológicos e instrumentos 55 6.2.1.1. Inquéritos por questionários 56 6.2.1.1.1. Os inquiridos 58 6.2.1.2. Inquérito por entrevista 60 6.2.1.2.1. Os entrevistados 61 6.2.1.3. Análise documental 62 CAPÍTULO VI – APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS 64 7.1. As relações de poder 7.1.1. Processo de tomada de decisão e influência nas políticas da escola 7.1.2. Estilos de liderança e poder 7.2. Organização e gestão curricular 63 63 66 68 7.2.1. Recursos utilizados e a sua gestão no âmbito do Projecto Fénix 7.2.2. Importância relacional estabelecida entre alunos e professores 7.2.3. Envolvimento das lideranças e dos professores no âmbito do Projecto Fénix 68 7.2.4. Garantia de articulação horizontal / vertical 78 71 72 vii Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. 7.2.5. Flexibilidade na gestão curricular 79 7.2.6. Concepção e organização dos PCT (Fénix) 81 7.3. Desenvolvimento profissional 86 7.3.1. Formação/contexto de trabalho 87 7.3.2. Formação e profissionalidade docente 88 7.3.3. Partilha de saberes construídos 91 7.3.4. Comunicação das mudanças na praxis 91 7.4. Consequências da implementação do Projecto Fénix no sucesso escolar 93 7.4.1. No sucesso académico dos alunos 93 7.4.2. Nas concepções de avaliação na praxis educativa 98 7.4.3. Na participação dos alunos 102 7.4.4. No comportamento e na disciplina 103 7.4.5. Nas aprendizagens dos alunos 106 7.4.6. Nas práticas pedagógicas nos Ninhos 111 7.4.7. Na mudança das práticas educativas 116 7.4.8. Na satisfação dos professores 119 7.4.9. Na supervisão pedagógica 122 7.4.10. Na qualidade do ensino 122 7.4.11. Nas reflexões individuais e conjuntas 124 viii Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. 7.4.12. Na concepção da escola como organização aprendente 125 CAPÍTULO VII – CONCLUSÕES E CONSIDERAÇÕES FINAIS 129 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 138 REFERÊNCIAS CITOGRÁFICAS 147 ANEXOS 148 Anexo 1: Solicitação de autorização para realização de investigação ao presidente da Comissão Administrativa Provisória do Agrupamento. Anexo 2: Planeamento e preparação do inquérito por questionário. Anexo 3: Inquérito por questionário aos docentes. 149 155 Anexo 4: Guião de entrevista colectiva aos alunos. 166 Anexo 5: Guião de entrevista aos professores. 169 Anexo 6: Transcrição da entrevista com a anterior directora executiva do Agrupamento Abuja. Anexo 7: Transcrição da entrevista com a Professora com funções de Coordenação do Projecto Fénix. Anexo 8: Transcrição da entrevista com a Professora com funções de Direcção de Turma do 3º ciclo. Anexo 9: Transcrição da entrevista com o coordenador de estabelecimento. Anexo 10: Transcrição da entrevista com o actual director executivo do agrupamento. Anexo 11: Transcrição da entrevista com os alunos da turma Fénix, do oitavo ano de escolaridade. 173 153 193 216 260 279 299 ix Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Lista de siglas ASE – Acção Social Escolar DRELVT – Direcção Regional de Educação de Lisboa e Vale do Tejo EB1 – Escola Básica de 1º ciclo GAVE – Gabinete de Avaliação Educacional PAM – Plano de Acção para a Matemática PCT – Projecto Curricular de Turma PF – Projecto Fénix PNL – Plano Nacional de Leitura PMSE – Programa Mais Sucesso Escolar OCDE – Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico TIC – Tecnologias de Informação e Comunicação x Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Lista de quadros Pág. Quadro 1: Quadro síntese das categorias atinentes a cada tipo 32 de liderança Quadro 2: Dois tipos de líderes transformacionais – algumas 33 comparações comportamentais Quadro 3: Anos de escolaridade contratualizados e respectivas 55 disciplinas (PMSE) Quadro 4 : Dados da realização das entrevistas 66 Quadro 5: Dados sobre os professores entrevistados 67 Lista de figuras Pág. Figura 1: Representação gráfica dos sucesso/insucesso por disciplina – 1º período níveis de 100 Figura 2: Representação gráfica dos sucesso/insucesso por disciplina – 2º período níveis de 100 Figura 3: Representação gráfica dos sucesso/insucesso por disciplina – 3º período níveis de 100 xi Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Lista de tabelas e de gráficos Pág. Tabela 1: Domínios de intervenção na concepção e organização dos PCT 87 Tabela 2: Mobilidade entre Ninhos e Turma Mãe do 3º ciclo – ano lectivo 2009/2010 120 Tabela 3: Mobilidade entre Ninhos e Turma Mãe do 3º ciclo – ano lectivo 2010/2011 121 Tabela 4: Mobilidade entre Ninhos e Turmas Mãe do 1º ciclo – ano lectivo 2010/2011 121 Gráfico 1.1. Grupos etários dos inquiridos 63 Gráfico 1.2. Género dos inquiridos 63 Gráfico 1.3. Departamento curricular dos inquiridos 63 Gráfico 1.4. Tempo de serviço dos inquiridos 63 Gráfico 1.5. Situação profissional dos inquiridos 64 Gráfico 1.6. Habilitação académica dos inquiridos 64 Gráfico 1.7. Frequência actual de algum curso 64 Gráfico 1.8. Cargos/funções desempenhados no agrupamento 64 Gráfico 2.1. Influência do inquirido sobre as decisões 68 Gráfico 2.2. Influência do departamento do inquirido sobre as decisões Gráfico 2.3. Influência do conselho pedagógico nas tomadas de decisão Gráfico 2.4. Influência do grupo disciplinar do inquirido nas tomadas de decisão Gráfico 2.5. Influência da direcção executiva nas tomadas de decisão Gráfico 2.6. Influência do conselho geral nas tomadas de decisão 68 Gráfico 2.7. Influência do conselho de directores de turma nas tomadas de decisão Gráfico 2.8. Influência da associação de pais nas tomadas de 69 69 69 69 69 69 xii Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. decisão Gráfico 2.9. Influência dos conselhos de turma nas tomadas de decisão Gráfico 2.10. Influência da associação de estudantes nas tomadas de decisão Gráfico 3.1. Exercício da liderança e poder Gráfico 4.1. A implementação do Projecto Fénix partiu da sugestão de um grupo de professores do agrupamento Gráfico 4.2. A implementação do Projecto Fénix decorreu de um processo de negociação inter-disciplinar e inter-departamental Gráfico 4.3. A implementação do Projecto Fénix foi veiculada pela direcção executiva Gráfico 4.4. Disponibilizei-me e mostrei interesse em ser um dos agentes educativos no âmbito do Projecto Fénix Gráfico 4.5. A continuidade pedagógica foi um dos critérios para elencar os professores às turmas Fénix Gráfico 4.6. O envolvimento do professor no PF decorreu unicamente da distribuição da componente lectiva Gráfico 4.7. O Projecto Fénix levou a uma optimização dos recursos existentes Gráfico 4.8. Os recursos envolvidos no Projecto são adequados Gráfico 5.1. A implementação do Projecto Fénix contribui para uma melhor relação entre alunos e professores Gráfico 6.1. O Projecto Fénix promove uma melhor articulação entre os docentes e os órgãos de gestão do agrupamento Gráfico 6.2. As sugestões apontadas pelos docentes/técnicos são tomadas em consideração pelas estruturas de liderança do agrupamento Gráfico 6.3. As estratégias utilizadas pelas estruturas de liderança no que respeita às orientações fornecidas sobre o desenvolvimento do Projecto foram adequadas Gráfico 6.4. A actuação da direcção executiva foi adequada aquando a explicitação do Projecto Fénix Gráfico 6.5. A actuação dos coordenadores de directores de turma foi adequada aquando a explicitação do Projecto Fénix Gráfico 6.6. A actuação do coordenador de projectos do agrupamento foi adequada aquando a explicitação do Projecto Fénix Gráfico 6.7. A actuação do coordenador de departamento foi adequada aquando a explicitação do Projecto Fénix Gráfico 6.8. A actuação do coordenador do Projecto Fénix foi adequada aquando a explicitação do mesmo Gráfico 6.9. A actuação do director de turma foi adequada aquando a explicitação do mesmo Gráfico 7.1. Com o Projecto Fénix foi promovida uma melhor 69 69 71 73 73 74 74 75 75 75 75 76 77 77 77 78 79 79 79 80 82 83 xiii Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. articulação vertical Gráfico 7.2. Com o Projecto Fénix foi promovida uma melhor articulação horizontal Gráfico 7.3. O Projecto Fénix facilitou a articulação das áreas curriculares disciplinares com as áreas curriculares não disciplinares Gráfico 8.1. O Projecto Fénix tem implicações na gestão curricular das diferentes disciplinas Gráfico 8.2. O Projecto Fénix permite uma maior flexibilidade na gestão curricular Gráfico 8.3. A flexibilidade curricular permite o desenvolvimento das competências essenciais de ciclo Gráfico 9.1. O Projecto Fénix permitiu aumentar a produtividade das reuniões de conselho de turma Gráfico 9.2. O processo e os resultados que o Projecto Fénix vai proporcionando, são apreciados pelos docentes envolvidos com muita frequência Gráfico 9.3. Do apurado dessa apreciação os professores das turmas Fénix gerem/reconstroem o PCT Gráfico 9.4. Os resultados dessas apreciações são divulgados nos departamentos e em conselho pedagógico Gráfico 10.1. As dinâmicas do conselho de turma foram as adequadas para o desenvolvimento e aperfeiçoamento do Projecto Fénix Gráfico 10.2. O Projecto Fénix promove o envolvimento e a participação activa de todos os docentes Gráfico 10.3. O Projecto Fénix desenvolve a capacidade de confrontar e negociar ideias e experiências entre os intervenientes Gráfico 11.1. A formação desenvolvida no âmbito do Projecto Fénix foi pertinente Gráfico 11.2. O projecto Fénix favorece a formação dos intervenientes no projecto Gráfico 11.3. A monitorização por parte de entidades externas (Beiriz) contribui para um melhor ajustamento do Projecto Fénix Gráfico 11.4. A monitorização por parte de entidades externas (UCP) contribui para um melhor ajustamento do Projecto Fénix Gráfico 11.5. A monitorização por parte de entidades externas (DREL) contribui para um melhor ajustamento do Projecto Fénix Gráfico 12.1. Com o Projecto Fénix releva-se a aprendizagem colaborativa sobre a individual Gráfico 13.1. O Projecto Fénix conduziu à necessidade de os professores fazerem registos escritos das suas experiências/mudanças nas práticas pedagógicas Gráfico 14.1. A implementação do Projecto Fénix contribuiu para a melhoria dos resultados escolares dos alunos (2009/2010) 83 84 85 85 85 88 89 89 89 93 93 93 94 94 94 95 95 97 98 102 xiv Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Gráfico 14.2. A implementação do Projecto Fénix contribuiu para a melhoria dos resultados escolares dos alunos (2010/2011) Gráfico 14.3. A existência dos ninhos favorece a melhoria dos resultados escolares dos alunos Gráfico 14.4. O auto-conceito académico dos alunos aumentou desde o início do Projecto Fénix Gráfico 15.1. O Projecto Fénix facilita o processo de avaliação dos alunos Gráfico 15.2. O Projecto Fénix contribui para a diversificação dos modos e instrumentos de avaliação Gráfico 15.3. O Projecto Fénix valoriza a avaliação contínua e formativa dos alunos Gráfico 15.4. O Projecto Fénix favorece a auto e co-avaliação dos alunos Gráfico 16.1. O Projecto Fénix estimula a participação dos alunos nas decisões sobre o seu processo de aprendizagem Gráfico 17.1. A implementação do Projecto Fénix contribui para a melhoria das relações entre os alunos Gráfico 17.2. A implementação do Projecto Fénix contribui para uma melhor relação entre os alunos nos trabalhos de grupo Gráfico 17.3. A gestão comportamental em sala de aula nas disciplinas de intervenção é facilitada em relação às outras disciplinas/áreas Gráfico 17.4. A gestão comportamental em sala de aula é facilitada nos ninhos Gráfico 17.5. Os alunos que têm necessidade de frequentar os ninhos sentem-se integrados nesses grupos Gráfico 17.6. Existem diferenças significativas, para melhor, ao nível do comportamento, entre as disciplinas para as quais existem ninhos e as restantes Gráfico 17.7. A possibilidade de recorrer a um técnico social é eficaz para a resolução de problemas comportamentais na sala de aula Gráfico 17.8.O carácter mais homogéneo ao nível das aprendizagens dos alunos da turma Fénix contribui para melhor ambiente em sala de aula Gráfico 17.9.O Projecto Fénix contribui, de forma geral, para a melhoria da auto-estima dos alunos Gráfico 17.10.Os alunos abrangidos pelo Projecto Fénix sentemse integrados nas turmas Gráfico 18.1. A criação das turmas Fénix contribui para uma melhoria do processo de ensino-aprendizagem Gráfico 18.2. A criação dos Ninhos contribui para uma melhoria do processo de ensino-aprendizagem Gráfico 18.3. Com o Projecto Fénix os alunos conseguem compreender melhor os conteúdos leccionados Gráfico 18.4.O Projecto Fénix valoriza e facilita o trabalho de 102 104 104 105 105 107 107 109 110 110 111 111 111 111 112 112 112 112 113 113 116 116 xv Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. grupo Gráfico 18.5.O Projecto Fénix desenvolve a autonomia dos alunos Gráfico 18.6.Com as turmas Fénix os alunos sentem-se mais confortáveis para exporem dúvidas ou colocarem questões Gráfico 18.7.Com os Ninhos os alunos sentem-se mais confortáveis para exporem dúvidas ou colocarem questões Gráfico 19.1.O funcionamento em pequeno grupo (Ninhos) permite a utilização bem sucedida de estratégias diversificadas Gráfico 19.2.É fácil gerir o processo de mobilidade entre os Ninhos e a Turma Mãe Gráfico 20.1.O Projecto Fénix conduz à mudança das situações /contextos das práticas educativas Gráfico 20.2. O Projecto Fénix facilitou a quebra de hábitos e rotinas de trabalho Gráfico 20.3. A implementação do Projecto Fénix permitiu encontrar soluções para os problemas das práticas educativas Gráfico 21.1. Estou satisfeito(a) com o Projecto Fénix Gráfico 21.2. Senti que o Projecto Fénix aumentou o meu autoconceito profissional Gráfico 22.1. No âmbito do Projecto Fénix os docentes solicitam acompanhamento por parte dos seus pares , nomeadamente observação de aulas Gráfico 22.2.No âmbito do Projecto Fénix os coordenadores de departamento desenvolvem um acompanhamento próximo das práticas pedagógicas, nomeadamente observação de aulas Gráfico 23.1.O Projecto Fénix , de um modo geral, contribui para a melhoria da qualidade do ensino Gráfico 24.1.O número de sessões de reflexão/avaliação com todos os envolvidos no Projecto Fénix foi suficiente Gráfico 24.2.O Projecto Fénix promove o trabalho conjunto , tendo-se proporcionado vários momentos(departamentos, grupos disciplinares) para reflexão individual e conjunta Gráfico 25.1.O Projecto Fénix contribui para a melhoria da organização escolar Gráfico 25.2.Com o Projecto Fénix utilizam-se dispositivos (formação, reuniões, troca de experiências, leituras…)para facilitar a sua contextualização Gráfico 25.3.Registou-se mudanças do 1º para o 2º ano de implementação do Projecto Fénix 117 117 117 119 119 125 125 127 127 127 128 129 130 132 132 134 134 135 xvi Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. INTRODUÇÃO Ao longo da última década, o estado da arte tem vindo a produzir evidências empíricas de que o sucesso escolar depende de uma teia complexa de factores. Já há mais de duas décadas, Formosinho (1988) defendia que o (in)sucesso e o abandono escolares são apenas as faces mais perceptíveis de um insucesso educativo institucional mais amplo. A focalização excessiva nos alunos tem constituído uma das maiores falácias que nos embala e adormece (Azevedo, 2010), esquivando-se de um olhar mais atento sobre a complexidade da problemática do (in)sucesso. Contudo, há evidências significativas entre as escolas com repercussão nos resultados dos seus alunos Mortimore et al (1995), determinando a eficácia da escola a partir de factores escolares contextualizados. Recentemente, em Portugal, algumas escolas alteraram as condições organizacionais e educativas, ousando tocar o coração da escola, com a intenção de responder aos desafios da escolaridade obrigatória. De entre elas, destaca-se o inovador Projecto Fénix (concebido no Agrupamento de Escolas Campo Aberto – Beiriz) que, a partir das vontades partilhadas de várias lideranças e professores, criou um conjunto de estratégias geradoras de mais oportunidades de aprendizagem, no sentido de proporcionar maior sucesso para todos. As experiências de trabalho da escola e dos professores, os exemplos de boas práticas produzidos na base, foram uma inspiração para uma decisão de topo, invertendo o invariável conjunto de decisões top-down, propondo a generalização e a difusão das boas práticas junto de várias escolas a nível nacional. Iremos efectuar o nosso estudo num Agrupamento de Escolas que aderiu àquele projecto, visando conhecer a apropriação do mesmo através da alteração das condições organizacionais e educacionais que lhe estão inerentes, consubstanciado na incorporação de práticas inovadoras no trabalho quotidiano da escola e dos professores, de forma a promover o sucesso educativo. 1 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. CAPÍTULO I - PRINCÍPIOS DA ESCOLA COM TODOS E PARA TODOS Neste capítulo faz-se uma abordagem à problemática das (des)igualdades face à Escola e à escolarização de todos, assim como uma breve enunciação dos factores de inovação e melhoria da Escola. 3. A problemática das igualdades face à escola e à escolarização 3.1. Igualdade de oportunidades de acesso Os valores de analfabetismo e de escolarização primária, em Portugal, reflectem o enorme desinvestimento na Educação. No século XIX, Portugal tinha acima de 90% de analfabetos (não muito diferente de outros países europeus do Sul da Europa). No início do século XX, Portugal apresentava 78% de analfabetos, destacandose já dos países industrializados da Europa, onde aquele indicador tinha diminuído para valores da ordem de 10-30%, assim como de países Mediterrânicos, que apresentavam diminuição da taxa de analfabetismo, sustentada em indicadores de 53% para Espanha e de 46% para a Itália. “ (…) o ritmo de escolarização de jovens é lento no nosso país pelo que a redução do iletrismo faz-se a passo de caracol durante toda a segunda metade do século XIX e início do século XX”. ( Carneiro, 2001, p.35). Cumulativamente, na opinião de Roberto Carneiro, acresce um nítido desinvestimento no ensino primário, sendo que, no início do século XX, Portugal apresenta uma taxa de escolarização no ensino primário de 4,62%, a qual, em termos comparativos, é inferior à verificada na vizinha Espanha em 1850 (5,33%). O mesmo autor menciona que: “ Nos anos 70 deste século [XX], quando muitos países do centro e norte da Europa atingiam já 90% de taxa de escolarização secundária, Portugal ainda se debatia com o cumprimento de uma escolaridade básica mínima de 6 anos, e com taxas de analfabetismo próximas dos 30%.”. (2001, p.36). 2 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. A partir da Revolução de Abril de 1974, o advento da democracia trouxe um impressionante progresso educativo, permitindo o acesso à escola para muitas crianças e jovens portugueses. Contudo, após uma recuperação extraordinária face ao atraso acima referido, vemo-nos em pleno século XXI e perante dinâmicas transversalmente vividas em todo o mundo. “A sociedade do conhecimento está a acenar-nos.” (Hargreaves, 2003, p.276) Vivemos os desafios desta nova Era, radicalmente diferentes dos que enfrentámos num passado tão próximo. É um presente que não deu tréguas ao passado por cumprir, adivinhando-se cenários múltiplos que nos exigem atitudes proactivas. Talvez face a um dos possíveis cenários, é que a “ Lei Orgânica do Ministério da Educação, aprovada pelo Decreto-Lei n.º 208/02, de 17 de Outubro procurou dar resposta “ao desafio de qualificação dos recursos humanos em termos conformes ao papel de Portugal na União Europeia e no mundo e às necessidades da competitividade da economia global.” Um dos aspectos a salientar, é a criação da Direcção-Geral de Formação Vocacional, vocacionada para uma actuação transversal na concretização dos objectivos de qualificação, ao longo da vida, dos jovens e adultos, tendo como objectivo prosseguir metas aferidas internacionalmente e uma educação aberta ao mundo, que prepare os jovens para os desafios da globalização”.(Eurybase, p. 348) Parece-nos que é fundamental dar passos seguros, no sentido de oferecer igualdade de oportunidades de acesso a uma educação melhor e de qualidade a todos os portugueses, continuando a contrariar os efeitos de um longo atraso de duzentos anos. Para Azevedo (2010, pp.7-9), “temos aprendido, as mais das vezes de modo muito dramático, que o colossal investimento realizado na massificação do acesso se revela ineficaz sem a personalização do sucesso.” As sociedades actuais, as sociedades da “segunda modernidade” (Azevedo, 2004, pp. 7-9), estão a braços com a necessidade de reconstruir uma educação para todos os cidadãos e apta a conciliar a tradicional tarefa da transmissão do thesaurus cultural com as novas necessidades educativas das pessoas, num tempo manifestamente novo (idem). 3 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. A educação necessita de reflectir uma visão projectada para o futuro, sendo que Caraça (2001), no âmbito do estudo de uma prospectiva da educação em Portugal no horizonte do ano 2020, elucida-o: “De facto, fazer prospectiva é a melhor maneira de iluminar o tempo presente bem como as suas antinomias; um olhar prospectivo passa por detectar as tendências pesadas da evolução passada até ao presente, por analisar os comportamentos institucionais e as suas interacções, por observar o que de novo surge (as sementes do futuro) e o que de obsoleto se esbate.” ( p.83) Para Oliveira Martins estamos perante uma nova visão do desenvolvimento, segundo a qual a educação “se torna o grande veículo de expansão do conhecimento, de consciencialização, de autonomia e de emancipação solidária”. Contudo, o autor adverte: “Importa, porém, ter consciência de que as mudanças muito rápidas induzidas pela globalização, pela multiculturalidade e pelos avanços científicos e técnicos são responsáveis pela coexistência de sinais contraditórios. Se é verdade que se constituem novos saberes e novos modos de pensar e agir, se é verdade que os sentimentos de pertença se diversificam, não é menos certo que o consumismo e o imediatismo tendem a harmonizar padrões de comportamento, enquanto os novos saberes criam novos modos de exclusão. Põe-se, assim, com especial acuidade, a questão da função do educador e da profissão de professor _ colocados perante circunstâncias novas, a exigir novas estratégias e postos perante o desafio de ensinar cada vez melhor, num tempo em que os alunos aprendem cada vez mais fora da escola.” (2001, p. 21) Na Era da globalização, a educação precisa de oferecer aos alunos coerência e experiência comuns, a par de práticas diversas e de atenção individualizada. A este propósito, Hopkins (2003) destaca três desafios que carecem de especial atenção: “Em primeiro lugar, as exigências que se fazem aos jovens e os desafios que eles enfrentam neste século [XXI] são enormemente diferentes dos do passado. Hoje, os requisitos de uma economia moderna produtiva e de uma sociedade inclusiva obrigam o nosso sistema educativo a desenvolver as capacidades específicas de cada um dos seus alunos (…).Em segundo lugar, as exigências dos jovens estão a mudar. Devemos preocupar-nos bastante com um inquérito recente que sugere que 70% dos alunos do ensino secundário afirmam sentir-se enfadados. A explicação convencional para este facto tem sido afirmar que o problema reside no currículo. Não há dúvida de 4 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. que neste campo ainda há margem para melhorar, mas a questão é outra. Existe um desencontro fundamental entre aquilo que sabemos despertar o interesse dos jovens e o modo como os ensinamos. Se não estimularmos a imaginação dos nossos alunos e não lhes dermos prazer na aprendizagem, então, para além de não conseguirmos melhorar os seus níveis de desempenho, também violaremos as nossas finalidades educativas. Em terceiro lugar, o desafio relativo ao modo como ensinamos assume toda a relevância de que, no Reino Unido, por exemplo, a variação dos desempenhos dos alunos no interior dos estabelecimentos de ensino é quatro vezes superior à variação desses desempenhos entre escolas.”(pp.10-11). De acordo com os actuais desafios, temos a noção que o direito à educação não se pode limitar ao direito de ir à escola. A igualdade de oportunidades de acesso à educação não se pode confinar apenas à transmissão de conhecimentos, mas deve proporcionar o ensino do aprender a aprender, o alargamento de horizontes e o desenvolvimento dos professores, numa tentativa de combater a mediocridade e as tentações uniformizadoras. A corroborar esta ideia, Azevedo (2010) considera que: “A escola das elites não serve todos os que chegam agora à escola. Continua a servir apenas alguns, exactamente os mesmos, embora jogando agora quer o jogo profundamente ambíguo a que o mesmo “programa” resolveu chamar mérito quer baixando a qualidade e o rigor exigidos à educação escolar.”(pp.7-9). Atrevemo-nos a dizer que a igualdade de oportunidades de acesso à educação é permitir que se alcance o Elemento. Relativamente à sua obra (O Elemento), Ken Robinson1, salientando a importância da Pedagogia no acto de ensinar, afirma: “Com efeito, a educação só solucionará os seus verdadeiros desafios se conferir poder aos professores criativos e apaixonados, e estimular a imaginação e a motivação dos alunos.” A educação para todos exige, assim, atenção aos percursos individuais e à compreensão dos valores comuns, bem como uma nova relação com o saber e o tempo, de modo a integrar a complexidade e a capacidade de criar e de inovar. Apesar de todas as mudanças no mundo da ciência e da técnica e do aperfeiçoamento dos métodos de ensino e dos seus instrumentos, temos de nos lembrar, porém, que a educação continua a ser fundamentalmente uma interacção de pessoas. 1 Investir na Pedagogia. Investir nos Professores. Investir na Autonomia, in http://terrear.blogspot.com/2010/11/investir-na-pedagogia-investir-nos.html, recuperado em Novembro de 2010. 5 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. E é neste âmbito, na peculiaridade da interacção de pessoas no universo complexo que é a escola, que, em seguida, iremos abordar questões relativas ao sucesso. 3.2. Igualdade de oportunidades de sucesso O sucesso ou o seu parente mais próximo _ o insucesso _ são referentes preciosos para determinar a harmonia ou o desajustamento do funcionamento do sistema educativo. Mas… sucesso/insucesso de quem ou de quê? Não desejamos enveredar pela parte mais fácil que é a da atribuição de culpas, pelo que considerámos vantajoso para o nosso estudo convocar diversos argumentos do Estado da Arte (nacional e internacional). Na perspectiva de Azevedo (2010), “(…) o falhanço institucional da educação escolar deve-se, entre outros aspectos, ao facto de não termos aliado, crítica e permanentemente, a esse esforço em prol da igualdade de oportunidades de acesso, a contínua e lenta construção de percursos escolares de qualidade para todos e para cada um dos cidadãos.” E o autor sublinha: “Acresce que as escolas, em Portugal, regra geral, vogam ao sabor de políticas nacionais, uniformizantes, centralistas, focadas no controlo a priori, que se alteram cada vez que mudam os ministros, e eles têm mudado bastante, nos mais de trinta anos que já leva a Terceira República. Políticas que se focam nas questões técnicas, melhor dizendo, que se refugiam em sucessivas alterações técnicas, à falta de capacidade de as colocar no espaço público, de as erguer com a polis e na polis, de as refazer como políticas sociais, políticas com e não políticas para.” (p.8). Na mesma linha, Roberto Carneiro (2000) escreveu “2020: 20 Anos para Vencer 20 Décadas de Atraso Educativo”_ hoje, dez anos decorridos, podemos afirmar que percorremos metade do caminho para vencer aquela meta, e que a mesma nuvem negra continua a ensombrar o sistema educativo português. Assim, parece tornar-se evidente que as políticas educativas são as primeiras a serem galardoadas com o grammy do insucesso. 6 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. A indefinição ou o insucesso na abordagem do sucesso obrigam-nos a sistematizar este conceito. Para Formosinho (1988, pp. 107), quando abordamos o conceito de sucesso escolar na perspectiva do que comummente se objectiva como sendo o sucesso individual dos alunos, deveríamos apreciar os principais componentes da educação: a instrução, a socialização e a estimulação. Contudo, frequentemente, as análises do (in)sucesso escolar remetem-se ao domínio que mais facilmente é mensurável: o sucesso/insucesso na instrução. Ao longo deste trabalho, procuraremos “destapar” as faces ocultas da problemática do insucesso, desvendando sempre que possível, e numa tentativa de exorcizar o espírito fatalista (quiçá fadário… esse sentimento tão só nosso, que nem outra língua consegue traduzir), caminhos promocionais do sucesso. Ao abordarmos a problemática da igualdade de oportunidades de sucesso, não nos conseguimos alhear das teorias da justiça e da meritocracia, pelo que as vamos convocar numa tentativa de melhor perceber o que nos inquieta. No final da primeira metade do século XX, através da análise dos discursos dos ministros da educação nacional, constatamos que a escola tinha como missão seleccionar uma elite. Na época, pensava-se que o insucesso dependia do Quociente de Inteligência dos alunos, sendo, por isso, da inteira responsabilidade dos mesmos. Entretanto, o handicap sócio-cultural das famílias foi sendo referido como factor privilegiado para justificar o insucesso. A propósito daquele handicap, Abreu (2005) refere: “A abordagem que cada indivíduo faz à escola é condicionada não tanto pelo que ele foi ou traz do seu passado, mas por aquilo que ele quer ser no futuro. Na maioria das vezes, as metas definidas por cada um têm como modelo o meio sóciocultural de onde provém, e o seu investimento na escola é proporcional ao caminho que quer percorrer, uma vez que a escola está formatada para reconhecer e atribuir sucesso aos que atingem os patamares académicos mais elevados e de grande exigência teórica, é fácil o estabelecimento de uma relação próxima entre meio de origem e insucesso escolar.” (p. 91) 7 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Remetendo para uma visão crítica da meritocracia, em que a estratificação social surge como uma natural e legítima consequência para o fenómeno do insucesso, também Matias Alves (2008) salienta: “Segundo a teoria meritocrática, a posição social dos sujeitos e as suas oportunidades de vida, nas sociedades democráticas modernas, deriva do seu quociente de inteligência (QI) e do seu investimento e esforço pessoal que coloca em cena na frequência do sistema escolar.” (pp.12-13). A propósito da fragmentação existente no modelo meritocrático, o mesmo autor, acrescentando que embora considere ser uma questão mais ideológica do que técnica, aproveita para mencionar: “Se se aceitar que essa missão [da escola ] é transmitir às jovens gerações o património científico que devem herdar e operar, segundo o modelo meritocrático, a estratificação social mantendo as desigualdades sociais e as oportunidades de vida, então a avaliação formativa e o ensino diferenciado têm pouco sentido e lugar na escola.” (p.45) O modelo da escola meritocrática de massas incrementou o grau de escolarização de todos, mas as diferenças entre os grupos não se atenuaram, o que nos induz à problematização sobre a justiça da escola. A propósito, François Dubet sublinha: (…) uma certa crueldade do modelo meritocrático. Na verdade, quando adotamos o ideal de competição justa e formalmente pura, os “vencidos”, os alunos que fracassam, não são mais vistos como vítimas de uma injustiça social e sim como responsáveis por seu fracasso, pois a escola lhes deu, a priori, todas as chances para ter sucesso como os outros. (p.543) Concordamos com aquele autor, quando refere que o princípio meritocrático dissemina sérios problemas pedagógicos, uma vez que nem todos os alunos conseguem acompanhar o mesmo ritmo de aprendizagem (como se todos fossem um) e, ao competir com os outros, aquando da prestação de provas para aferir o mérito, iniciam uma marcha solitária no desespero da competição. No entanto, Dubet reconhece que o modelo de uma justiça baseada no mérito é uma ficção necessária. As sociedades democráticas ao postularem a igualdade entre 8 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. todos, criaram desigualdades legitimadas pelo mérito pessoal como alicerce de desigualdades justas. Para Matias Alves (2008): “As diferenças aprofundam-se rapidamente ao longo da escolarização e alguns alunos parecem incapazes de continuar a competir. Na competição com os outros, eles perdem, desesperam e desanimam os seus professores. Deixados de lado são marginalizados em currículos diferenciados ou alternativos e ficam cada vez mais enfraquecidos. No final de contas, o sistema meritocrático cria grandes desigualdades entre os alunos bons e os menos bons.” (p.132) Seguindo de perto aquele investigador, equacionemos a proposta, de entre várias, apresentada por ele (2008, p.136), no sentido de se construir uma escola justa: • “Desenvolvimento efectivo de uma pedagogia personalista, humanizada e obrigatoriamente diferenciada; • Efectiva autonomia e responsabilidade profissional, organizacional e social únicas saídas para práticas educativas contextualizadas e adequadas às pessoas concretas; • Promoção das diversas inteligências e a sua valorização escolar e social; • Uma escola empenhada em discriminar positivamente quem tem menos para que as desigualdades, no mínimo, se não agravem e combatendo o persistente efeito Mateus2 regulado pelo princípio da acumulação.” Referindo-se às desigualdades e ao insucesso escolar, Philippe Perrenoud (2002) compara o esforço dispendido para os colmatar a uma “incapacidade mesclada de cansaço”. O autor desafia: “ Um professor de quarenta ou cinquenta anos poderia pensar, de boa fé, que o sistema educativo que o emprega “tudo fez” para eliminar o insucesso escolar e as desigualdades sociais com que a educação se defronta: reformas estruturais, ciclos de orientação, desenvolvimento da educação pré-primária, diversificação de vias de ensino além da escolaridade obrigatória, modernização dos programas, ligação à vida, 2 O autor refere o efeito Mateus como um dispositivo que dá mais a quem tem mais, e retira o pouco a quem já tem pouco, alienando a igualdade de oportunidades. http://terrear.blogspot.com/search/label/efeito%20Mateus. 9 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. formação mais exaustiva dos professores, audiovisuais e novas tecnologias, diálogo mais aberto com as famílias, respeito pelos direitos dos alunos, sensibilidade em relação às diferenças culturais, apoio pedagógico, trabalho de grupo pelos alunos, projectos das escolas, zonas de educação prioritária. À força de tanto se ouvir falar, poderia mesmo acrescentar-se: avaliação formativa, pedagogia diferenciada, ciclos de aprendizagem e abordagem por competências, imaginando que estas ideias já estão em prática …” (pp.17-44) Ironicamente, Perrenoud conclui que, apesar de todas a medidas enunciadas, subsistem “os insucessos escolares, os abandonos a meio dos estudos e as desigualdades”. O óbvio será cairmos num marasmo de “impotência com laivos de cansaço”? (idem, ibidem). O autor sugere que não há motivos para tal, se olharmos para o nível de escolarização que estatisticamente tem subido, e convida-nos a: “ Podemos, portanto, ser levados a opor a imagem de um copo meio cheio à de um copo meio vazio. Não escamoteemos, porém, o facto de que as competências e saberes de uma parte dos jovens fica largamente aquém dos objectivos visados pelos sistemas educativos, ao mesmo tempo que se considera que estes objectivos correspondem a uma dotação de base, a um “salário mínimo cultural”, abaixo do qual não é possível pretender controlar a nossa existência e participar com conhecimento de causa (…). ” Quase que nos conforta verificar que, afinal, não estamos tão orgulhosamente sós _ As preocupações que nos assolam, saltam fronteiras e incomodam muitos d’Aquém e d’Além mar. No reverso da medalha, entre os níveis de escolarização a subir e os conhecimentos dos alunos a submeterem-se a uma fasquia muito baixa, Perrenoud constata: “Se continuamos “longe da conta”, não é de admirar: as nossas tentativas mantêm-se irrisórias quando comparadas com a força dos mecanismos a neutralizar, as nossas didácticas e políticas de democratização continuam mais próximas da gesticulação dos médicos de Moliére do que de uma abordagem séria dos problemas.” Continuaremos a evocar esta ambígua e preocupante realidade_ de que baixar a exigência se tornou o produto de troca directa da ênfase na obrigatoriedade de frequência escolar. Para que a educação saia da crise, não são necessárias mais 10 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. reformas educativas que vêm oferecer mais do mesmo, encapotando os erros passados com o efeito cebolal de mezinhas inócuas; a educação tem de se transformar. O conhecimento produzido no domínio da educação, tem permitido constatar que o sucesso depende de muitos factores: dos modos e dos modelos de escolarização, da organização da escola e do currículo escolar, das lideranças, da relação pedagógica, do clima vivenciado, dos modos de trabalho pedagógico que são adoptados, das práticas profissionais docentes, da perseverança dos alunos, do apoio das famílias, entre tantos outros. E são precisamente alguns dos factores de que depende o sucesso escolar, que, em seguida, passaremos a evidenciar. 3.3. Igualdade de usufruto dos bens educacionais Como referimos anteriormente, contrariamente às sociedades aristocráticas que atribuíam prioridade ao nascimento e não ao mérito, as sociedades democráticas escolheram convictamente o mérito como um princípio fundamental de justiça. Assim, a escola é justa porque cada um pode obter sucesso nela em função do seu trabalho e das suas qualidades. No entanto, esta concepção puramente meritocrática da justiça escolar confronta-se com grandes dificuldades, e de entre várias, iremos focar a nossa atenção na igualdade de oportunidades de uso dos bens educacionais. Depreende-se que uma escola de massas possibilita a atribuição de diplomas a todos os alunos. Depreende-se, também, que os diplomas atribuídos são bens dotados de utilidade e que os indivíduos (alunos) os utilizem para a construção de um projecto de vida, tornando-se homens e mulheres capazes de retirar benefícios pessoais a partir dos diplomas adquiridos. Contudo, sabemos bem que tal ideário é ilusório, sabemos que determinados diplomas têm muito mais valor do que outros. 11 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Teixeira (2010) enuncia que, “O ensino secundário manteve essa marca de elite, desresponsabilizando-se e desresponsabilizando o fracasso escolar dos alunos, eregindo como baluarte a falácia do não é obrigatório , expedindo anualmente carregamentos de jovens para os canais de abastecimento do monstro do ensino paralelo, bem como no quadro de uma mentalidade terceiro mundista. Esta desadequação entre os ritmos da mudança e os ritmos da evolução das mentalidades, cria, no campo das representações sociais, uma problemática que a linguagem comum traduz por cultura do canudo, devido ao valor e ao estatuto adquiridos pela certificação.” (p. 10). Para melhor orientarmos o nosso “olhar” para as (des)igualdades e (in)justiças numa escola de massas, pensámos ser pertinente evocar alguns dos argumentos de François Dubet sobre aquela(s) problemática(s). Este autor considera que, “ Uma das grandes causas da injustiça provém do fato de que determinados diplomas têm grande utilidade, ao passo que outros não têm nenhuma, numa escola de massas onde todos _ ou quase todos_ obtêm diploma. (…) é escandaloso observar que certos diplomas não têm quase nenhuma utilidade, especialmente os que provêm de cursos de formação geral mais fraca, que não oferecem nem uma profissão, nem um nível de qualificação capaz de fazer diferença no mercado de trabalho.” (p. 548). Esta problemática torna-se ainda mais inquietante quando nos apercebemos que muitos cursos são criados ardilosamente, no sentido de manter “ocupados” os jovens que, mais cedo ou mais tarde, irão descobrir que o seu diploma está desvinculado do mercado de emprego. Evidenciando certos efeitos perversos da massificação que contribuem para a exclusão escolar, François Dubet enuncia, “ (…) a seletividade escolar encaminha os alunos mais fracos para as trajetórias menos qualificadas, o que, por sua vez, aumenta suas “chances” de desemprego e de precariedade. No outro extremo, os diplomas nos níveis mais elevados oferecem uma proteção relativa diante do desemprego.” (p. 35). Nesta dualidade entre exclusão escolar e exclusão social proposta por Dubet, atrevemo-nos a acrescentar outro fenómeno, o qual está relacionado com o apoio à aprendizagem fora da escola. Indubitavelmente, os alunos provenientes de famílias mais abastadas têm mais oportunidades e garantias em aceder a apoios que os conduzam à obtenção de diplomas, do que os alunos que provêm de famílias com 12 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. menor suporte financeiro. Numa análise da relevância académica e social do fenómeno das explicações, é aludido por Ventura (2006) que, “ (…) as repercussões das explicações sobre os resultados escolares poderem levar a uma reequação dos princípios de equidade e igualdade de oportunidades.” (p.2). Os impactos deste fenómeno não se limitam ao domínio da relevância académica e social, sendo de referir o seu impacto no domínio sócio-económico. A este propósito, Ventura (2006, 2008) refere, “ A problemática da crise do Estado e a afirmação de políticas neoliberais são contornos de uma discussão que não pode escamotear a tendência para a “privatização” crescente das responsabilidades, presente quer na tomada de decisão (devolvida às famílias) quer nos encargos mensais que representam as despesas com educação: sabe-se hoje que as explicações representam uma parcela bem significativa dos custos que muitas famílias têm de suportar com a educação dos seus filhos”. (p. 699). De facto, a este tipo de actividade que visa a melhoria dos resultados escolares, só têm acesso aqueles que beneficiam de maior estabilidade financeira, assim como implica um enorme esforço económico para as famílias que vêem nas explicações um recurso fundamental, potencializando o sucesso nos exames e o ingresso numa formação escolar de nível superior de prestígio. No âmbito do Projecto Xplika , procedendo à análise do fenómeno das explicações, os investigadores (Jorge Adelino Costa, Neto Mendes e Alexandre Ventura) tecem algumas considerações que pensamos ser pertinentes: “Este cenário tão dinâmico desafia sistemas educativos em todo o mundo e cria questões desconfortáveis, no que diz respeito à equidade e igualdade de oportunidades do sistema formal de educação. Esta situação faz-nos lembrar a célebre frase de George Orwell na sua obra “Animal Farm”(1945), Todos os estudantes são iguais mas alguns são mais iguais que outros.Com esta indústria da educação em crescimento e catalizada em diversos países, abertamente ou não, por políticas governamentais, as condições para a obtenção de sucesso pelos alunos não são as mesmas. Para além disso, e ao mesmo tempo, a este passo, os sistemas estatais de ensino poderão estar em perigo dentro de algumas décadas”. (2006, p. 16). 13 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. 4. Factores de inovação e melhoria: breve enunciação Numa sociedade que se rege por princípios democráticos e de procura da concretização da justiça social as questões de sucesso escolar têm, necessariamente, de ser alvo privilegiado das políticas educacionais e das medidas que as concretizam. Não é por acaso que a primeira Lei de Bases do Sistema Educativo Português, publicada em 1986, enunciou como um dos princípios orientadores deste sistema a igualdade de oportunidades de acesso e de sucesso escolares. Em Portugal, através da Gestão Flexível do Currículo, pretendeu-se organizar a escola para que fosse mais humana, mais criativa, com capacidade para assegurar o desenvolvimento integral dos alunos. Com base nas experiências e na reflexão dos implicados na Gestão Flexível do Currículo, iniciou-se o processo de Reorganização Curricular do Ensino Básico que sustentava a transformação da Escola, onde dimensões como a confiança, o desenvolvimento profissional e o desenvolvimento do currículo se reconhecem em escolas capazes de aprender e em que, a melhoria das aprendizagens dos alunos, é fulcral no processo. Em seguida, são apresentados de forma breve, alguns dos princípios da mudança pretendida (será que alcançada?) e dos factores facilitadores de inovação. 4.1. Flexibilização O projecto de inovação denominado de Gestão Flexível do Currículo, desenvolvido entre 1997-2001, surgiu num contexto histórico de mudanças sociais e culturais, em que se tornou recorrente uma sociedade do conhecimento e da globalização, destacando-se o conceito de formação ao longo da vida que se constitui num paradigma para a educação e o desenvolvimento das pessoas e da sociedade. A realidade emergente daquele conceito veio questionar a escola e a sua forma de organizar e de transmitir cultura/conhecimento às gerações vindouras. 14 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. O princípio da flexibilidade esteve presente na concepção do projecto que pretendemos conhecer melhor. Como refere Moreira (2009), “ (…) o Projecto Fénix baseia-se num modelo de organização em que ficou claro, desde o início, que as soluções se devem adaptar aos problemas e às pessoas.” (p.69). Currículo e flexibilização são indissociáveis, e tal como Roldão (1999) menciona: “ Flexibilizar o currículo pode entender-se no sentido de organizar as aprendizagens de forma aberta, possibilitando que, num dado contexto (nacional, regional, de escola, de turma) coexistam duas dimensões como faces de uma mesma moeda: a clareza e delimitação das aprendizagens pretendidas e a possibilidade de organizar de forma flexível a estrutura, a sequência e os processos que a elas conduzem.” (p. 54). Flexibilizar é, justamente, olhar a(s) realidade(s) e equacionar processos organizativos que permitam encontrar respostas contextualizadas. A escola, qual árvore de folha perene, tem mantido uma lógica defensiva, mantendo imutáveis as estruturas do seu funcionamento, tornando-se insensível à(s) realidade(s). Como temos vindo a demonstrar, uma das realidades da escola prende-se com o insucesso ( o seu próprio insucesso, como organização, bem como o dos alunos). A corroborar esta ideia, Roldão (1999) considera que: “ Os alunos que hoje estão na escola e não aprendem são vistos como um problema incomodativo para a escola, do qual ela procura descartar-se através de estratégias de recurso, fundadas em excelentes princípios, mas resultando em remediações em larga medida falhadas (as NEE, as aulas de apoio, etc.).” (p.28). As lógicas de funcionamento das escolas deverão passar pela constatação de que se confrontam com um grande problema (no caso, o insucesso), e que, como qualquer outra organização, deverá agir no sentido de perspectivar a sua resolução. À semelhança de uma empresa perante os seus insucessos, Roldão sugere que a escola coloque questões contextualizadas, apresentando algumas passíveis de análise: 15 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. “Como organizar-se de outro modo que permita fazer estes alunos todos aprenderem? Porque não há-de a escola mudar os espaços e os tempos, os agrupamentos e a rotação de professores, ou organizar de outro modo o seu trabalho em função de grupos específicos de alunos? Porque não reinventar um sistema do tipo das tutorias, ou reconceptualizar os moldes e estruturas de agrupamento que se cruzem com a sacrossanta e imutável turma? Terá toda a aprendizagem que decorrer dentro dessa estrutura? Ou poderão existir outras estruturas mais móveis que se organizem para criar bolsas e momentos de aprendizagens que não requerem o agrupamento da turma?” (p.28) Precisamente neste contexto, Moreira (2009, P. 69) apresenta como condição essencial ao sucesso do Projecto Fénix, “uma gestão flexível dos recursos humanos e físicos, gestão flexível do tempo (essencial num projecto que aposta em ritmos de aprendizagem diferenciados), gestão flexível dos grupos-turma, gestão flexível do currículo…” . Parece-nos que a flexibilização decorrente dos princípios organizadores do referido projecto vai ao encontro do desafio de Roldão (1999): “ Se um grupo de professores pensar em criar uma escola tal como julga que seria melhor, talvez descubra processos organizativos expeditos e eficientes que não são catastróficos, podem ser económicos e vantajosos, e contudo talvez rompam com a estrutura escolar a que nos habituámos.” (p.28). Próximo deste conceito de flexibilização, outro nos surge com igual pertinência e importância _ a diferenciação. E é sobre ele que, no ponto que se segue, irá recair a nossa atenção. 4.2. Diferenciação Numa abordagem simplista ao conceito, poderíamos afirmar que a diferenciação do ensino é romper com a indiferença às diferenças (Bordieu). O conceito de diferenciação deve assumir efectiva centralidade, conduzindo a uma reconceptualização da aprendizagem escolar (do ofício de ensinar e aprender), 16 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. tornando-se um referente para a organização escola e “não como desvio a uma norma tornada insignificativa na escola de hoje”. (Roldão, 2005, p.19). Este reconhecimento, de que é imperativo organizar estratégias de diferenciação autêntica, implicará, decerto, inevitáveis alterações nas práticas dos professores, no sentido de que estes profissionais do ensino tenham em conta a diversidade dos alunos na gestão das suas estratégias. Todavia, para que este reconhecimento seja proveitoso, há que, como refere Roldão (2005): “ (…) abandonar a ilusão de que se pode diferenciar práticas docentes ou gerir diferenciadamente um currículo nacional comum no quadro de uma escola que se continue a pensar como organização uniformista obsoleta, fiel à herança de um passado que já não existe.” (p.18). Azevedo (2010) considera que a diferenciação pedagógica deve ser pensada e realizada como uma estratégia de prevenção, pelo que se deve abandonar a lógica prevalecente de a pensar e realizar como estratégia de remediação: “Precisamos de cuidar dos percursos escolares de cada um dos alunos como o cuidado máximo que uma escola tem de desenvolver e aplicar. E não um cuidado que se tem de ter em certos momentos, por exemplo, no 1.º, no 5.º, no 8.º ou 10.º anos de escolaridade, ou como resposta pontual a Programas Nacionais para a Matemática ou para o Inglês, mas como uma atenção contínua, sistemática, que vai acumulando experiência e conhecimento, que requer tempo e persistência, ciclos longos de trabalho e de avaliação de resultados, tranquilidade para trabalhar.” (pp. 2223). Para aquele autor, a diferenciação pedagógica deve ser olhada como estratégia de optimização das aprendizagens, consubstanciada num ambiente de conhecimento e de metaconhecimento (preferencialmente) profissional dos professores. Estes, não se devem limitar a obedecer e a consumir sem qualquer reflexão crítica, mas sim adoptar posturas de empenho e de participação activa na capacitação progressiva dos alunos. “(…) ou temos escolas exigentes, focadas rigorosamente no essencial, verdadeiros locais de trabalho, porque estaleiros de humanidade, ou elas continuarão a ser, por desnorte, incúria, facilitismo ou por mero seguidismo face às normas da 17 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. administração, sempre em mudança, fábricas de reprodução das desigualdades sociais.” (idem, p.23). O referencial de uma escola que abrace as diversidades como o seu paradigma organizacional, conduzirá a determinadas implicações ao nível da organização do trabalho de ensinar e aprender (Roldão, 2005), enfrentando uma das magnas questões que hoje se coloca : Como ensinar a quem não quer aprender? 3 De acordo com Roldão (2005), as principais implicações na organização do trabalho de ensinar e aprender, no quadro do currículo escolar, baseiam-se em: • • • • • • • • • “Outras unidades de agrupamento que não a classe; Outras tipologias de trabalho que não a exposição, aplicação-verificação ou apresentação de tarefas rotineiras; Abandono da segmentação como critério da organização do tempo e do espaço; Abandono da propriedade individual do professor sobre o espaço e o tempo da «sua» aula; Abandono da distribuição unidireccional _ e largamente inerte ou retórica e mecânica _ da informação, do discurso e da pergunta; Organização do espaço e do tempo escolar em formatos diversos (pequeno grupo , pares, seminário e apresentações por professores e alunos, horas e tempos dedicados a actividades determinadas e flexíveis); Organização do trabalho dos professores em termos de (1) disponibilização consistente e organizada de saber científico e de modos de a ele aceder, (2) passagem de informação estruturante, (3) apoio/tutorização de grupos de alunos por professores que de facto orientem percursos de aprendizagem individuais e interacções dos alunos na construção de saber, (4) mecanismos constantes de regulação do trabalho desenvolvido e das aquisições e sua apropriação e uso por todos os aprendentes; Acesso a, e incorporação de, outros agentes sociais de divulgação de saber e cultura(s) , de forma a permitir o máximo de apropriação cultural efectiva e não reprodução mimética dessa versão particular do saber que se constitui como um corpo de dados inerte a que chamamos «cultura escolar»; Regulação social externa, face às competências e saberes assumidos como core curriculum, equitativamente tornado comum.” (pp.18-19). Em conformidade com esta autora, Matias Alves (2010)4 refere a complexidade do ofício de ensinar, pelo que exalta a necessidade de, contextualizando as diversidades e ousando enfrentar os problemas que se colocam, encontrar respostas para várias questões, de entre as quais destacamos: 3 http://terrear.blogspot.com/2010/05/como-ensinar-quem-nao-quer.html , consultado em Dezembro de 2010. 4 http://terrear.blogspot.com/2010/05/como-ensinar-quem-nao-quer.html , recuperado em Dezembro de 2010. 18 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. • • • • “ O que é que os alunos não querem aprender? Que escola é que não querem? Qual a relação entre esse não querer e o modelo didáctico usado? Quem pode querer aulas de 90 minutos passadas a ler o manual, a ouvir uma exposição interminável sobre matérias pensadas como inúteis? • Quem pode querer aprender se a escola lhe ensinou que ele é incapaz, e está condenado ao insucesso?”. Sem dúvida que diferenciar é abandonar a zona de conforto, é assumir que, actualmente, a missão docente não consiste na transmissão de saberes, nem que todos os alunos estão perfeitamente na disposição de assimilá-los. Ao continuarem na sua zona de conforto, os professores distanciam-se da realidade e é como se, tal como refere Perrenoud (2002), dissessem: “ Dêem-me alunos que queiram aprender, gostem de aprender, dominem a linguagem escolar e todos os códigos, beneficiem de todos os apoios familiares e eu comprometo-me a eliminar o insucesso escolar”. (p.3). 4.3. Mudança, inovação e resistência Para fazer face às novas circunstâncias, próprias de um sistema de ensino de massas, a administração educativa tem promovido reformas tendencialmente arreigadas ao carácter centralista e burocrático do poder central, com o intuito de introduzir mudanças nas escolas. Estas inúmeras tentativas de mudança que são, teórica e normativamente, ideais para promover um ensino de qualidade, tornam-se estéreis quando nos deparamos com a maioria das práticas nas escolas. Quando se procura explicar a ineficácia das mudanças e das inovações decididas pelo centro político-administrativo, também se encontram mudanças no estado da arte sobre esta problemática. Canário (2005) esclarece a alteração verificada nas explicações para a relativa incapacidade de produzir mudanças na escola. Inicialmente, o “bode expiatório” do falhanço das reformas era assacado aos seus destinatários: 19 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. “ Se é verdade que a dificuldade em produzir mudanças efectivas nas escolas ganhou, desde cedo, um carácter óbvio, também é verdade que as propostas de explicação sofreram uma alteração significativa. Numa primeira fase, foi dominante uma explicação de carácter tautológico baseada no conceito de “resistência à mudança”. Ou seja, as escolas e os professores não mudam porque resistem à mudança.” (pp.92-93). Posteriormente, concluiu-se que até se verificam mudanças, mas que a sua concretização depende das dinâmicas organizacionais das escolas. “ A experiência acumulada e a produção de conhecimento científico sobre os processos de mudança vieram, pelo contrário, a pôr em evidência a importância das dinâmicas que, ao nível das escolas, comandam e regulam, de facto, os ritmos e a natureza das mudanças. (…) Pode pois, concluir-se que não há falta de mudanças , mas sim dificuldades em as articular de forma coerente, dinâmica e fértil.” (idem, p.93). Certamente, os legisladores não têm em conta que, para fazer acontecer a mudança na escola, é necessário implicar os destinatários. Como refere Matias Alves (2002), é preciso mudar com as pessoas e não contra as pessoas. Para este autor, a mudança só germinará se se atrever a tocar o coração da escola, se se fizer crer e houver vontade no lugar concreto de trabalho dos docentes, alunos e outros profissionais de educação, se for determinada nas suas convicções e nas decisões adequadas aos contextos. “ E o coração da escola é a relação pedagógica, é o uso do espaço e do tempo, são as condições de trabalho, é a autonomia e a responsabilidade. (…) Uma mudança que articule e mobilize recursos. (…) Uma mudança que explicite metas, propósitos, vantagens, dificuldades. Pois nenhuma mudança se mantém no engano de alma, na manipulação e encenação. Uma mudança que não confunda o essencial com o acessório, que saiba que o termómetro não faz baixar a febre, que a lei do mercado não é o destino do homem, que os exames não são a panaceia que tudo resolvem.” Esta visão tinha já sido sublinhada por Perrenoud prioritário “chegar” às pessoas: 5 5 (2002), que considera http://terrear.blogspot.com/2009/11/fazer-crer.html. Recuperado em Dezembro de 2010. 20 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. “ É necessário que alguém se aproxime dos professores sem ser para os chamar à atenção, antes se interesse pelo que fazem, acabando com a solidão protectora mas também conservadora. Isto não pode ser feito contra a profissão e deve portanto ter em conta todos os receios de abuso de poder, de concorrência, de salário por mérito, etc. (…) A obsessão pelos indicadores e pelos resultados está quase a pôr em risco a concepção e o desenvolvimento de sistemas subtis e cooperativos de 6 acompanhamento de pessoas.” Contudo, o mesmo autor refere que um dos entraves à mudança e às inovações são a falta de intervenientes qualificados: “Sem pretender resolver o problema, queria apenas colocá-lo e insistir no facto de o conjunto dos dispositivos nacionais, académicos e locais, que rodeiam as pessoas de estímulos, incitações e projectos não estarem à altura do desafio. (…) Os que dominam todos os códigos arranjam boas colocações (…)”. E é, talvez, esse hiato epistemológico que leva Perrenoud a questionar: “ Mas como alcançar pessoas que mudam de assunto quando se fala de pedagogia ou quando surge um desacordo, ou quando se sentem pouco à vontade por que não podem justificar tudo o que fazem?” O modelo burocrático da escola ajudou a fomentar a conformidade, a obediência, a passividade, a subordinação, a não-acção. De acordo com Formosinho (2005): “ A racionalidade técnico-burocrática da organização escolar dá-nos conta de uma realidade que existe para além da acção dos professores: a escola está munida de uma pedagogia “oficial” e estrutura e condiciona o pensamento e a acção dos que nela trabalham.” (p.52). O sistema educativo defende o centralismo como um mal menor, pelo que os seus referentes são o medianismo, de forma a minimizar a desadequação da centralidade administrativa. Paralelamente, conforme Formosinho (2005, p. 55), “ acaba por favorecer a mediocridade de funcionamento da escola enquanto organização burocrática.” Este mesmo autor defende que o valor burocrático possui a 6 http://terrear.blogspot.com/2010/03/nao-enterrar-cabeca-na-areia.html. Recuperado em Dezembro de 2010. 21 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. pedagogia óptima como ferramenta indispensável, baseada numa perspectiva única (e como a melhor), consubstanciando-se num currículo centralizado e uniforme. “ A pedagogia óptima concretiza-se num programa óptimo para todos os professores e alunos, uma duração de aula óptima, um tamanho de classe óptimo, uma estrutura da escola óptima, etc., cujas bases científicas foram contestadas desde o início, dado que a “boa” pedagogia deve ter em conta quem a usa, para quem é dirigida e em que condições é usada”. (ibidem, p. 55) Por seu lado, Formosinho menciona que, mesmo neste característico círculo vicioso burocrático da escola, a mudança tornou-se inevitável. Cepticamente, o autor vê-a como uma mudança nascida de uma “qualquer” crise, criada num qualquer gabinete da máquina administrativa _ a mudança top-down _ aplicada uniformemente em todas as escolas. Nas palavras de Formosinho: “A inovação por decreto tem por base a filosofia de que no topo se inova e na base apenas se executa. Mesmo quando se apropria de inovações produzidas por iniciativa de “minorias activas” de professores ou movimentos pedagógicos que, parecem desfazer a uniformidade que constitui a imagem de “marca” da pedagogia colectiva, a lógica de generalização das “boas práticas” pelo processo burocrático não belisca o “núcleo duro” da organização da classe que permanece, nos horários, na constituição das turmas, na divisão das disciplinas, na transmissão do saber, no processo de classificação dos alunos, na relação pedagógica”. (pp. 55-56). Na sequência das ideias deste autor, a proclamada autonomia das escolas nada mais é do que uma inovação de carácter burocrático: “ A constituição “em concreto dos Agrupamentos de Escolas mobilizou esta retórica de “promoção” do local, acompanhada por práticas de intervenção burocrática nos processos de elaboração dos regulamentos internos das escolas e dos seus projectos educativos, (…) A preocupação com a “identidade própria” , mais que com a “salvaguarda” da já existente e do seu aprofundamento, tem-se traduzido na uniformização de processos e das orientações pedagógicas: os mesmos manuais, os mesmos projectos (educativo e curricular), as mesmas actividades, as mesmas planificações”. (ibidem, p.57). De acordo com esta “burocraticidade inovativa”, Roldão (2008) chama a atenção para a: “(…) tendência de pensar aditivamente, em vez de reconceptualizar criticamente, que constitui uma das tendências mais fortes identificadas no campo da prática curricular, (…) com frequência pratica-se processo aditivo nas situações de 22 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. mudança ou inovação curricular _ acrescenta-se alguma coisa, para manter tudo o resto intocado”. (p. 25-26). A autora menciona, também, a questão da ideia da “substituição”, muito frequente entre os docentes. Para ela, os professores “vêem” conceitos novos (ou não) como uma ameaça aos que utilizam habitualmente, pressupondo que os farão desaparecer. Esta situação conduz a equívocos, no sentido de que os professores pensam que, “ (…) para desenvolver processos se negligenciam os produtos, ou que para aprender a compreender se deixa de memorizar, ou que para trabalhar segundo metodologias de pesquisa se abandona a passagem de informação, ou que uma abordagem interdisciplinar é oposta ao aprofundamento de cada saber disciplinar”. (ibidem). Quantas vezes os professores se deparam com terminologias que lhes parecem vazias de sentido? (competências, diferenciação, gestão curricular, avaliação formativa, etc.). Utilizam-se conceitos que hoje estão na escola e no discurso dos professores, mas será que significa que ocorreu uma mudança real nas práticas? Pensamos que a estas (e outras) inquietações subjaz um hiato epistemológico, atendendo a que nem todos, como referiu Perrenoud, dominam o mesmo código. Face a este cenário, da necessidade de se (re)conceptualizar códigos e práticas profissionais comuns, Roldão (2008) conclui que não se precisa de acrescentar novos conceitos aos discursos , mas: “Precisa, isso sim, de uma outra atitude profissional dos professores e das escolas, de modo a que se organizem para ler sobre, debater em conjunto, confrontar com investigação realizada, eventualmente discutir com formadores ou investigadores que apoiem essa interformação organizada, gerida pelas escolas. Essas são a meu ver as mudanças estruturais necessárias _ e largamente dependentes de iniciativa e dinamização das mesmas escolas e seus professores _ para mudarem a filosofia que subjaz ao modo de trabalhar existente na maioria das situações”. (p. 48). Enunciadas estas questões, parece-nos pertinente apresentar alguns argumentos sobre profissionalismo docente e qualidade do ensino, pelo que mais adiante os retomaremos. 23 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Ao debruçarmo-nos sobre alguns estudos acerca da mudança, da inovação e da resistência, apercebemo-nos de que importa revisitar o papel da(s) liderança(s), no sentido de clarificar quais são as marcas identificadoras de líderes que facilitam e orientam para a mudança , através de processos participados, dinâmicos, transparentes, honestos e criativos. 4.4. Liderança e transformação Vivemos um tempo de mudança, consubstanciado no novo quadro normativo da gestão escolar e decorrente da aplicação do Decreto-Lei nº 75/2008, de 22 de Abril, que veio alterar o regime de autonomia e administração das escolas. Para a consecução dos principais objectivos daquele normativo, baseados numa lógica de acção gerencialista7, surgem os directores das escolas, legitimados por um reforço da liderança (explicitamente decretado), expectavelmente menos próximos da colegialidade da profissão docente e esperançosamente cooptados para gerirem e aplicarem as novas políticas públicas. Na opinião de Natércio Afonso (2009): A construção de consensos sobre políticas específicas já não se organiza tanto na base dos grandes princípios estruturantes da acção política (o ideal da igualdade de oportunidades do “modelo social europeu”, a “educação para todos” como um bem público), mas mais em torno de mecanismos e instrumentos políticos concretos que se crê produzam os resultados desejados (autonomia das escolas, autoavaliação das escolas, planeamento estratégico, envolvimento parental, chequesensino, “rankings”, progressão na carreira com base no mérito, etc.”.(pp. 15-24). A corroborar e a propósito das políticas educativas do XVII Governo Constitucional Português, Martins (2009) considera que aquele tem publicado legislação avulsa que, por sua vez, tem trazido uma série de alterações, nomeadamente no que à administração das escolas diz respeito. A autora refere que essa legislação avulsa, de carácter disperso e fragmentado, é exemplificativa da maior intensidade de concentração de poderes na figura da Direcção Executiva, em detrimento de outros órgãos colegiais de professores, especificamente do Conselho 7 Abordagem gestionária implícita na pressão das recentes medidas governamentais (Afonso, 2009, 15-24) 24 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Pedagógico. Assim, os órgãos colegiais vêem diminuir a possibilidade de participação nas escolhas que, anteriormente, eram realizadas colegial e democraticamente pelos professores. Na sua análise, Martins (2009) menciona: “ (…) a análise aqui desenvolvida apresenta como fio condutor a tendência do controlo da organização escola transitar de órgãos colegiais para órgãos unipessoais. Assim, estes últimos vêem reforçados os seus poderes, o que lhes permite tomar decisões com pouca ou nenhuma participação ou consulta, nomeadamente dos professores”. (p.262). Constata-se, efectivamente, que há um conjunto de novas competências concentradas (nomeadamente a da avaliação de desempenho docente) na figura do Director Executivo, que toma “o comando e controlo hierárquico e da limitação do poder dos professores para decidirem nas matérias em causa”. (Martins, 2009, p.215). Sendo que as tomadas de decisão nas escolas são processos micropolíticos, elas devem ser (ou deveriam ser) deliberadas no seio dos órgãos colegiais. Contudo, vários autores apontam para a debilidade factual dessas deliberações, chegando a inferir que se encontram sujeitas a estratégias e a formas de controlo. No seu estudo, Martins revela-nos variadíssimas opiniões, de entre as quais destacamos: • Lima caracteriza como passiva a participação discente e docente na gestão na escola pública, apresentando uma interpretação sui generis para tal, “ os custos da participação activa parecem ser considerados elevados, sobretudo a partir do momento em que se compreende que não é possível participar na decisão daquilo que, em boa parte dos casos, decidido está”. (p. 184). • Ball refere que as reuniões revestem-se de um elevado grau de formalidade, tornando-se em ritos de reiteração do poder hierárquico que estabelece as formas e os temas da discussão, evitando a discussão explícita de assuntos, ou apresentando aspectos como se de factos consumados se tratem sem que tenha existido um debate prévio. Mais enuncia que, “ na maioria das escolas estatais as reuniões de pessoal é tipicamente uma oportunidade para repetir e confirmar a definição 25 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. oficial de escola. Os professores passam a condição de público. (…) A reunião é uma camuflagem, uma diversão”. (p. 184). Martins (2009) defende que, “temos aqui diferentes tipos de controlo sob as escolas: por um lado, pelo poder central ao vedar decisões políticas e, por outro, no âmbito das decisões sobre procedimentos gerenciais estas concentram-se, agora com maior intensidade, no órgão de gestão e, finalmente, quando algumas dessas ainda se mantêm nos órgãos colegiais, a tomada de decisão, não raras vezes, é um processo controlado pelo órgão de gestão”. (pp. 186-186). A autora, ao invocar a hipocrisia organizada para compreender a actual administração das escolas, reforça nas considerações finais do seu estudo: “ (…) reforçamos o registo das normas híbridas. Os discursos e algumas orientações, onde transparece a ideologia colegial e democrática. A acção, onde se revela o gerencialismo e a concentração de poderes no órgão de gestão”. (398). Sendo a escola uma organização complexa, onde se regista uma vasta teia de interacções sociais, importa revisitar o papel da(s) liderança(s), no sentido de clarificar quais são as marcas identificadoras dos lideres que se querem, capazes de responder à complexidade dos problemas de uma “escola de massas” respeitando a democraticidade social e política que nela deve(ria) ser uma constante. Tomámos como referência a argumentação de alguns especialistas, cujas teses pugnam pela distinção entre liderança e gestão. Entre alguns, mencionados por Cunha et al (2003; p.269),destacamos: • Bennis e Nanus (1985) aventam que gerir consiste em provocar, realizar, assumir responsabilidades, comandar. Diferentemente, liderar consiste em exercer influência, guiar, orientar. • Para Rost e Smith (1992), a liderança é uma influência de relacionamento, ao passo que a gestão é um relacionamento de autoridade. • Também para estes autores, a liderança envolve líderes e seguidores que procuram mudanças reais na organização, enquanto a gestão 26 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. envolve a coordenação de pessoas e recursos para a produção e venda de bens e/ou serviços numa organização. • Segundo House et al (1997), liderança e gestão são actividades distintas, uma vez que a liderança envolve a articulação de uma visão organizacional, a introdução de mudanças vultuosas, a actuação inspiracional e a capacidade para lidar com a turbulência do ambiente externo. • Concomitantemente, a gestão está como que na cauda de um cometa (percepcionando o cometa como o líder), sendo que, a gestão representa a implementação da visão do líder e das mudanças por ele introduzidas, e a manutenção e administração das infraestruturas organizacionais. O estudo da liderança tem assumido grande relevância, pelo que ao longo do século passado foram sendo desenvolvidas várias teorias, de entre as quais destacamse a transaccional e a transformacional. A liderança transformacional surge como um factor passível de iniciar processos de liderança em que se favoreçam o empenhamento dos seguidores e que se gerem grandes mudanças e elevados desempenhos. Este tipo de liderança “ promove a consciência dos seguidores apelando a valores como justiça, liberdade, humanitarismo, paz _ e não através de emoções como o medo, a cobiça, inveja e ódio”. (Cunha et al, 2003, p.309). Por seu lado, a liderança transaccional envolve a atribuição de recompensas aos seguidores em troca da sua obediência, pelo que se depreende que este tipo de liderança fomenta o seguidismo e a subsequente retribuição de favores. Cunha et al (2003) elaboraram um quadro síntese (cf. Quadro 1), numa tentativa de explicitar a existência de quatro categorias atinentes a cada tipo de liderança. 27 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Tipos Componentes Transformacional Influência idealizada (carisma) Liderança inspiracional Estimulação intelectual Consideração individualizada Transaccional Recompensa contingente Gestão activa por excepção Gestão passiva por excepção Liderança laissez-faire (não-liderança) Explanação O líder adopta comportamentos (e.g, de respeito e elevação moral) que activam fortes emoções nos seguidores, suscitam a confiança e identificação destes com ele, influenciam os seus ideais e os aspectos “maiores do que a vida”. O líder comunica uma visão apelativa, usa símbolos para fomentar o esforço dos seguidores, actua como um modelo de comportamento, instila optimismo. O líder estimula nos seguidores a tomada de consciência dos problemas, dos seus próprios pensamentos e imaginação. Ajuda-os a reconhecer as suas próprias crenças e valores. Fomenta-lhes o pensamento inovador/criativo. Incita-os a questionarem as suas assunções. O líder atende às necessidades de desenvolvimento dos seguidores, apoia-os, encoraja-os, treina-os, tenta desenvolver o seu potencial, fornece-lhes feedback, delega-lhes responsabilidades. O líder clarifica para o seguidor o que este deve fazer para ser recompensado pelo esforço. O líder monitoriza o desempenho dos seguidores e adopta acções correctivas se eles não alcançarem os padrões estabelecidos. O líder aguarda que os problemas ocorram para que, então, sejam tomadas acções correctivas. O líder praticamente abstém-se de tentar influenciar os subordinados. Quadro 1: Quadro síntese das categorias atinentes a cada tipo de liderança (Cunha et al, 2003, p.310). Para aqueles autores a liderança transformacional origina inegável popularidade comparativamente à transaccional, bastando atentar no inerente potencial apelativo do conceito e da teoria. Contudo, os dados do estudo mostram os efeitos positivos da recompensa contingente, constituinte de uma liderança transaccional. Subsiste algum consenso na opinião de que os líderes mais eficazes são híbridos _ são transformacionais e transaccionais. (ibidem, p.311). Singularmente interessante, é a proposta dos mesmos autores para que, recorrendo-se a uma dimensão ética, se distinga entre os líderes transformacionais autênticos e os pseudo-transformacionais. Assim, identificam a existência de um tipo de liderança pseudo-transformacional, em que o líder parece transformacional, age como tal, mas realmente não o é. De facto, Bass (2000, cit. in Cunha et al, 2003, p. 311) traçou a diferença entre o transformacional autêntico e o impostor, ao declarar: “ Eu penso que a autenticidade e o comportamento ético estão intimamente associados à liderança transformacional. Penso que existem grandes diferenças entre os líderes transformacionais detentores de um lado escuro e os que o não têm. Os líderes transformacionais com esse lado escuro não elevam o nível moral dos seus seguidores!”. 28 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Atendendo à dificuldade avaliativa que, a priori, permita descortinar da autenticidade de um líder transformacional, Cunha et al (2003) categorizaram alguns comportamentos, que auxiliam na distinção entre os dois tipos de liderança supra mencionados, e que iremos reproduzir num quadro síntese ( cf. Quadro 2). Categorias Pseudo-transformacional • Influência idealizada • • • • Motivação inspiracional • • • Estimulação intelectual • • • • • Consideração individualizada • • • • Procura poder e posição mesmo a expensas dos seguidores. Promove a obediência cega. Argumenta que prossegue o bem da organização, mas almeja o seu auto-engrandecimento. Exorta as pessoas a confiarem nele, mas a verdade é que não se pode depositar essa confiança. Sente que tem as respostas honestas e correctas para os problemas. Mas a verdade é que chega a mentir a si próprio acerca das suas competências. Lamenta os despedimentos e os seus efeitos. Mas essas são “lágrimas de crocodilo”! Focaliza-se nas conspirações, conluios, perigos inexistentes, situações perigosas. Inventa obstáculos fictícios, inimigos imaginários, visões quiméricas. Fala do empowerment das pessoas, mas a verdade é que procura erigir e manter controlos sobre elas, tratando-as como crianças. É capitão navegando sob falsa bandeira. É líder espiritual mas falso profeta. Sobrepesa a autoridade e subpondera a razão. Apropria-se das boas ideias dos outros. Usa os outros como bodes expiatórios dos seus fracassos. Alimenta-se da ignorância dos seguidores para que estes não decifrem as ambiguidades, inconsistências e má-fé. É ambicioso e astuto, comportando-se como gigante perante pessoas de menor intelecto. É vendedor de “banha da cobra”. Fomenta o favoritismo. Promove a competição entre os seguidores sob a capa de pretender ajudá-los. Procura manter com os seguidores uma relação de dependência infantil. Projecta uma imagem de salvador, mas é realmente impostor, egoísta, demagogo. Serve-se das pessoas para alcançar fins pessoais. Autenticamente transformacional • • • • • • • • • • • • • • • • Apela à fraternidade. Orienta a sua necessidade de poder para benefício da organização e dos seus seguidores. Está disposto a fazer auto-sacrifícios. O seu objectivo não é ser idolatrado _ mas obter a adesão dos seguidores a ideais. Regra geral, é honesto, autêntico, confiável. Promove políticas, procedimentos, processos e cultura éticos. Fomenta os valores da lealdade, justiça, honestidade, direitos humanos, verdade, franqueza, harmonia, trabalho sério. Focaliza-se no desenvolvimento dos colaboradores. Está interior e exteriormente preocupado com o bem do grupo, da organização ou da sociedade como um todo. Ajuda os seguidores a questionarem as assunções e a gerar soluções mais criativas. Persuade os outros na base dos méritos do assunto. Tolera e fomenta a expressão de pontos de vista diferentes dos seus próprios. Trata cada seguidor como indivíduo. Proporciona apoio, mentoria e oportunidades de crescimento aos colaboradores. Procura desenvolver competências de liderança nos seguidores. Ajuda-os a serem mais competentes e bem sucedidos. Para ele, as pessoas são um fim em si mesmo. Quadro 2: Dois tipos de líderes transformacionais – algumas comparações comportamentais. (Cunha et al, 2003, p.312) 29 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Neste âmbito, Costa, J., e Castanheira, P. (2005) efectuaram um estudo exploratório que tinha como objectivo auscultar até que ponto as lideranças transformacional, transaccional e laissez-faire têm lugar no quadro da gestão das escolas públicas em Portugal. Os autores consideram que: “Através da análise dos resultados encontrados podemos verificar que os comportamentos mais frequentemente observados nos 95 presidentes dos Conselhos Executivos são uma mistura de comportamentos de liderança transformacional e transaccional, sendo estes últimos os mais observados. A alguma distância, com um valor que, contudo, não é de desprezar, encontra-se a liderança de tipo laissez-faire”. (p. 80). Este estudo permitiu que os investigadores concluíssem que, em Portugal, o perfil comportamental dos líderes de diferentes escolas públicas registam maior número de comportamentos construtivos e correctivos típicos da liderança transaccional, do que comportamentos de liderança transformacional “tais como o instilar orgulho nos seguidores por se encontrarem associados ao líder, o agir de forma a incutir o respeito por si enquanto líder e o demonstrar um sentido de poder e de confiança”. (idem, p. 79). Retomando a análise do novo quadro normativo da gestão escolar, Afonso anuncia que aquele “acompanha e reforça a tendência para alargar a autonomia e a responsabilização do director no quadro conceptual da nova gestão pública”, acrescentando que: “(…) muitas medidas supostamente fomentadoras da autonomia e da responsabilização das escolas têm sido tomadas numa perspectiva “top-down”, com a crença ingénua de que o que é legislado é realmente concretizado nas escolas”. (pp. 15-24). Neste contexto de análise, seria interessante abordar a questão da autonomia da escola como cenário da aprendizagem organizacional e da mudança educativa. Para Matias Alves (1999), a “autonomia é a capacidade e a possibilidade das pessoas e das organizações se darem as próprias normas de acção”. (p.19). Esta ideia vem contrariar o já comprovado exercício solitário que se verifica na gestão e administração da maior parte das escolas. 30 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Bolivar (2010) defende que a melhoria da educação, entre outros factores, passa por mudanças nos modelos das direcções das escolas. Para este autor: “A diferença no século XXI deve ser criar escolas que assegurem a todos os alunos em todos os lugares, o êxito educativo. Quando as direcções dos estabelecimentos de ensino se limitam a uma mera gestão administrativa, a sua responsabilidade sobre as aprendizagens dos alunos ficam diluídas; quando o enfoque das lideranças são as aprendizagens, estas são uma responsabilidade central. Por isso, para melhorar o desempenho da gestão é entendê-la como uma liderança para a aprendizagem, que vincula o seu exercício com as aprendizagens e os resultados da escola”. (p.11). A autonomia das escolas passa por, dentro das margens que num determinado contexto lhe é dada, cada escola poder definir a sua política educativa, devendo, para isso, o órgão de gestão convocar à participação todas as inteligências que nela habitam. O cenário traçado explicita a diversidade de lideranças, sendo nosso entendimento que aquela que leva à transformação (transformacional) é a que não tem uma visão restrita das lideranças, é a que aposta numa visão partilhada e em acções conjuntas. A capacidade para a melhoria das escolas depende, de maneira relevante, das direcções e de equipas de liderança que ajudem a estimular, apoiar e incentivar, aprendendo a desenvolver a organização e ajudando a construir uma capacidade interna de melhoria. 4.5. Profissionalidade docente e qualidade do ensino A abordagem à profissionalidade docente que para o senso comum parece de fácil conceptualização, mereceu-nos aturada atenção. O estatuto da profissionalidade docente, nas palavras de Nóvoa (1999) ainda se encontra muito próximo da ideia criada no Estado Novo, de que os professores recebiam uma “gratificação” por leccionarem, porque, implicitamente, se considerava a profissão de professor como uma “dupla actividade”. (p. 24). 31 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Na opinião de vários autores, a profissionalidade docente é vista como uma semi-profissionalidade (Sacristán, 1995; Roldão, 2005), na medida em que o saber próprio do docente constitui o elo mais fraco (Roldão, 2005) na construção social da sua afirmação como profissional pleno. Este conjunto de considerações levam-nos a questionar sobre: o que é um professor? Quais os atributos, socialmente construídos, que permitem distinguir esta profissão de outros tipos de actividades? A profissão “professor” é uma profissão do “conhecimento”. O compromisso do trabalho docente tem sido transformar esse conhecimento em aprendizagens relevantes para os alunos, pressupondo uma função específica: a função de ensinar. Há décadas que essa função tem sido delegada aos docentes, os quais têm liberdade e relativa autonomia para o exercício da sua actividade. Contudo, essa liberdade tem estado confinada, na maior parte das situações, a um individualismo que impede a emancipação da identidade profissional da profissão docente. Vários autores defendem que: “ A ideia de liberdade de acção do professor é lida, pelos próprios, como muita investigação comprova, exactamente (…) como sinónimo do direito arbitrário de agir como quiserem, e, sobretudo, sem interferências externas, o que configura, por parte dos professores, a crença enraizada na não necessidade de legitimar ou justificar perante os outros a sua acção. Esta crença, socialmente construída e persistentemente passada na cultura docente é indicador de não profissionalidade”. (Roldão, 2005). Estas crenças e lógicas de acção são o legado de um modelo burocrático e centralizador, e são um constructo colectivo transmitido por socialização na classe docente. As representações fortemente arreigadas à classe docente têm, lapidarmente, dificultado a constituição de colectivos autónomos dos agentes de ensino, enquanto grupo de profissionais que se auto-organiza e defende o seu saber próprio. Como tal, não se pode responsabilizar os docentes, como actores individuais, do afastamento de uma desejada identidade profissional. “ A presença estatal no âmbito do ensino é importante, nomeadamente para assegurar uma equidade social e serviços de qualidade, mas o seu papel de supervisão 32 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. deve exercer-se numa lógica de acompanhamento e de avaliação reguladora, e não numa lógica prescritiva e de burocracia regulamentadora. Esta mudança de atitude coloca a profissão docente perante desafios inadiáveis, aos quais os professores e as suas organizações não têm sabido responder com criatividade”. (Nóvoa, 1999, p. 25). “ A liberdade lida como livre arbítrio, exercida no espaço fechado da solidão da sua aula, a não se modificar, mantê-los-á [ a autora refere-se aos docentes ] reféns de um estatuto que os subalterniza, que proletariza a sua acção, que os empurra cada vez mais para papéis de funcionários e os distancia mais e mais do estatuto de profissionais”. (Roldão, 2005, p. 9). Como se constata, o modelo burocrático do sistema educativo português apropriou-se do controle sobre a classe docente, através da verificação do cumprimento exacerbado de normativos. Roldão (2005) considera que esse controlo não tem grande utilidade, uma vez que, “ (…) o contributo para a eficácia do que se ensina e do que se aprende nunca ninguém pergunta, ou na falaciosa publicitação de bons e maus resultados em abstracto – os rankings cegos - , desencarnados das circunstâncias, dos contextos, e do rigor do exercício do ensino pelos professores que, essas sim, devem ser objecto de avaliação e controlo rigorosos”. (p. 10). Para Nóvoa (1999), a fim de recriar a profissão professor, urge um projecto de autonomia profissional, exigente e responsável. Para tal, é necessário que os docentes encontrem estímulos dentro da organização, sejam eles de índole económica, cultural, intelectual, profissional, etc. Segundo este autor: “Contrariamente a outras organizações, as escolas dedicam muito pouca atenção ao trabalho de pensar o trabalho, isto é, às tarefas de concepção, análise, inovação, controlo e adaptação”: (p. 24). A função de ensinar que temos vindo a referir, é aquela que mobiliza vários saberes profissionais docentes (científico, didáctico, pedagógico…), no sentido de fazer aprender alguma coisa a alguém, o que sabe fazer com que os outros saibam (Roldão, 2005, p.12). Contudo, a visão da função de ensinar que tem prevalecido é a de transmissão de um saber conteudinal. O estatuto da profissionalidade docente será reforçado quando se abandonar essa visão redutora e escolástica que remete o saber ensinar para uma acção meramente transitiva, que ainda se mantém nas práticas docentes, e, neste caso, os docentes são profissionais de um único saber – o 33 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. conteudinal. A função de ensinar deve ser algo que é específico ao professor – a passagem de um saber ao aluno – não pertencendo a quaisquer outros actores (nomeadamente aqueles que estão convictos que a função de ensinar é fácil, resumindo-se apenas a saber bem a matéria e a controlar os alunos). A não ser assim, em breve a escola e os professores ver-se-ão esvaziados de sentido. Nesta perspectiva, Roldão ( 2005) anuncia que: “ a sua profissionalidade esbate-se cada vez mais, na medida em que essa função de transmitir um saber deixará a curto prazo de ser socialmente relevante na medida em que o saber está hoje disponível de muitas outras maneiras que não a fala do professor”. (p. 13). Tal como nos refere Santos ( 2009): “ O mundo que nós conhecemos mudou: as gerações de alunos que estão nas escolas usam o telemóvel “colado à mão”, estão sempre online na Internet, vêem pouco televisão. Têm acesso a informação “digerida” quase infinita, podem participar em redes sociais à escala planetária e quase todos têm quase tudo “à mão”. Em consequência, estes alunos do século XXI já “não cabem” nas escolas e nas salas de aula onde os seus pais e professores estudaram!”. (p. 13). São estes desafios sentidos por todos que têm de nortear o desenvolvimento profissional docente, que têm de despertar o conjunto de saberes que habita nas escolas e que tantas vezes passa despercebido, bastas vezes desvalorizado e mantido incomunicável no colectivo profissional docente. Sobre este colectivo, Nóvoa (1999) afirma: “ Eles constituem não só um dos mais numerosos grupos profissionais, mas também um dos mais qualificados do ponto de vista académico. Grande parte do potencial cultural (e mesmo técnico e científico) das sociedades contemporâneas está concentrado nas escolas”. (p. 31). A exemplo de que a vontade colectiva é, sobremaneira, o caminho que se impõe, registamos uma análise referida por Tardif et al: “ (…) certos estabelecimentos , principalmente graças a uma capacidade de mobilização colectiva, da qual nem os docentes nem o chefe do estabelecimento estão ausentes, conseguem criar condições tais que os docentes cumprem mais do que 34 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. convenientemente a sua missão, e tiram disso uma forte satisfação profissional e identitária”. (p. 259). Uma visão de trabalho que valorize o(s) conhecimento(s) existente(s) em cada um dos professores, com vista a melhorar as práticas e conseguir transformar a escola numa organização aprendente, é o passo fundamental e inevitável para a construção de uma educação escolar de qualidade. Pensamos ter traçado brevemente alguns trilhos que, uns a evitar e outros a serem percorridos, possam contribuir para a reinvenção democrática da escola pública portuguesa. Essa vontade passa, principalmente, pela reflexão, pela acção e pela prática dos professores como trabalhadores intelectuais e profissionais conscientes da importância de uma participação activa, fundamentada e crítica. 35 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. CAPÍTULO II - A ESCOLA COMO ORGANIZAÇÃO – UMA PERSPECTIVA DE ANÁLISE Neste capítulo, recorremos à utilização de algumas perspectivas teóricas de análise, indispensáveis para compreender o nosso objecto de estudo, e que passamos a enunciar sucintamente: i. Uma visão crítica do modelo escolar prevalecente. ii. A perspectiva burocrática, anárquica e micro-política da acção educativa e organizacional. iii. Uma abordagem à anarquia organizada como forma de ver o funcionamento da organização escolar. 3.2. O “modelo escolar” O modelo escolar que tem vindo a permanecer praticamente imutável, caracteriza-se por um conjunto de factores que, na nossa opinião, dificulta as desejáveis práticas promocionais de sucesso. Assim sendo, vejamos alguns daqueles factores: i) unidades de agrupamento de alunos em classe (supondo que todos vão aprender como um só); ii) estrutura do currículo uniforme - “pronto a vestir de tamanho único” (Formosinho, 1988,p. 113) - , sendo exactamente o mesmo para todos os alunos, todas as escolas e todos os professores, independentemente das características e aptidões dos que o transmitem e dos que o recebem e das condições da sua implementação (idem); iii) o modelo de organizar o progresso dos alunos na escola – a aprovação ou reprovação de uma ano escolar é evidentemente o efeito do (in)sucesso escolar (ibidem, p.116) ; iv) a descontinuidade nas transições entre ciclos e níveis de aprendizagem (Silva, 1987 cit. in Moreira, 2009); v) a distribuição dos professores por turmas – Formosinho (1988, p. 119) questiona: “Será que a distribuição dos professores pelas turmas é feita de modo a privilegiar com bons professores as turmas já privilegiadas escolar e socialmente ou o inverso?”; vi) uma uniformidade pedagógica para uma uniformidade da avaliação (idem); vii) 36 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. determinação da carga horária uniforme por disciplina, distribuição rígida dessa carga horária, da duração de cada aula (ibidem), segmentação como critério da organização do tempo e do espaço (Roldão, 2005, p. 19). A propósito deste último, apresentamos um comentário acutilante de Rubem Alves: “ (…) é difícil escolher o absurdo [da escolarização] mais estúpido porque são incontáveis. (…) Mas, em geral, é essa curiosa prática escolar de marcar o pensamento por intervalos regulares. Toca a campainha, hora de pensar matemática. Quarenta e cinco minutos pensando matemática. Toca a campainha, hora de parar de pensar matemática. Hora de pensar geografia. Quarenta e cinco minutos pensando geografia. Toca a campainha, hora de parar de pensar geografia. E assim por diante. Ainda não consegui identificar a psicologia em que tal prática se baseia”. (Entrevista ao Correio da Educação, 2005). Como temos vindo a referir, a forma como a escola está organizada tem sido fiel ao modelo burocrático e meritocrático, cuja matriz conceptual é “ancorada na avaliação, no mérito, na capacidade, na inteligência, na competição, na selecção e na exclusão”. (Baptista, 2007,p. 257). Quase que parece uma contradição continuar-se a insistir num modelo que evidencia fragilidades e que debilmente proporciona aprendizagens sustentadas aos alunos, mas as razões que o explicam são várias. Neste sentido, um ponto mais ou menos consensual entre diferentes autores consiste no facto de considerarem o modelo meritocrático como uma ficção necessária (Alves, 2008, p.132), ou como um modelo inelutável, que o faz parecer como natural e que contribui para a estabilidade da escola (Canário, 2005, p. 62). Muito embora se saiba que o sistema escolar actual tem uma forte matriz historicamente construída para acolher públicos pouco numerosos, homogéneos e regulados de forma diferenciada, convivendo harmoniosamente com princípios que se mostram contraditórios _ o mérito e a justiça, que já anteriormente tivemos oportunidade de referir _ confronta-se, hoje, com uma acelerada perda de sentido da escola. Diversos autores enunciam razões que apontam as inconsistências do modelo, A organização escolar que historicamente conhecemos corresponde a modos específicos de organizar os espaços, os tempos, os agrupamentos dos alunos e as 37 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. modalidades de relação com o saber.(…) O problema da escola pode ser sintetizado em três facetas: a escola, na configuração histórica que conhecemos é obsoleta, padece de um défice de sentido para os que nela trabalham (professores e alunos) e é marcada, ainda, por um défice de legitimidade social, na medida em que faz o contrário do que diz (reproduz e acentua desigualdades, fabrica exclusão relativa)”. (Canário, 2005, pp. 68-87). “O modelo da escola, do ensinar a todos como se todos fossem um só (…) é um modelo impossível, se ideologicamente defendemos uma escola sucedida para todos aqueles que se esforçam por aprender. Daqui decorre que tem de haver uma outra lógica de organizar os agrupamentos de alunos, a docência e a discência”. ( Alves, 2010, pp.51-52). “Num livro anterior, descrevi o modo como as escolas que estavam a preparar os jovens para a mudança rápida e para a complexidade de um mundo pósmoderno e pós industrial permaneciam, na realidade, presas aos princípios modernos (ou até pós-modernos) da fábrica e do mosteiro. As escolas continuavam a ser reguladas pelas campainhas, pelos períodos escolares e pelas turmas e as crianças eram agrupadas por idades e aprendiam conhecimentos memorizáveis através de um currículo estandardizado que era testado de uma forma convencional. Grande parte deste “modernismo” habitual nos nossos sistemas educativos mantém-se através da acção dos profissionais e dos burocratas que olham para o próprio umbigo, para os costumes e para as certezas do seu próprio conhecimento especializado e das suas rotinas, em vez de olharem para o exterior, para as preocupações dos alunos, das famílias e das comunidades”. (Hargreaves , 2003, p.41). “Esta estruturação organizativa, bem como a cultura escolar e docente que lhe corresponde, permanecem evidentes na escola actual, com persistentes sinais de ruptura e inadequação às situações pós-massificação escolar, bem como à concretização da designada sociedade do conhecimento. (…) A grande “crise da escola, de que falamos hoje constantemente, não é tão grave assim; está simplesmente ligada a este desajuste de fundo: queremos aplicar um tipo de escola idêntico – nos planos organizativo e curricular – a uma situação que é totalmente diferente”. (Roldão, 1999, pp. 11-31). E chegados a este ponto, consideramos oportuno no ponto que se segue, convocar algumas das perspectivas de análise organizacional, que nos fornecem uma leitura complementar dos discursos e das acções dos actores em contexto, face à implementação de inovações disruptivas. 38 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. 3.3. Modos de ver a escola enquanto organização A compreensão da escola enquanto organização complexa, obriga-nos a convocar, tal como mencionámos no ponto anterior, perspectivas sociológicas de análise organizacional que, em virtude da sua pluralidade, pensamos que nos irão permitir captar determinadas facetas da complexidade daquela, como refere Ferguson (1994; in Lima, 2006, p. 20), organizacção8. No que concerne à realidade portuguesa, aproveitamos para salientar a opinião de Lima (2006), no sentido de que a organização educativa tem um modo de funcionamento díptico. Para este autor, a acção organizacional pode apresentar simultaneamente um modo de funcionamento conjuntivo e disjuntivo, admitindo que tanto a ordem burocrática como a ordem anárquica podem coexistir no funcionamento das escolas. O esquema sociológico apresentado (Lima, 2001, p.47) revela que o funcionamento é díptico, na medida em que ele é dobrado em dois a partir de um eixo constituído pelo plano da acção e por referência ao plano das orientações para a acção, ora exibindo mais um lado, ou face (por exemplo a face burocrática-racional), ou outra face (a metaforicamente representada como anárquica, ou ainda aquelas mais associadas aos modelos políticos, ou culturais e subjectivos), ora ainda apresentando as duas faces em simultâneo. Com efeito, e de acordo com o modelo burocrático, a escola é considerada como serviço local do estado. Nas palavras de Silva (2006, pp. 81-83), as características deste modelo enformam: i. A legalidade, fundada na existência de normas formais obrigatórias, que estipulam um funcionamento previsível da organização, num quadro definido de regras; ii. A hierarquia, na base da qual se define uma estrutura de autoridade e controlo e uma organização de cargos, cabendo a cada ocupante de um cargo o desempenho de funções em conformidade com as atribuições. 8 Organizacção ( organização + acção organizacional). O autor propõe que “ a organização precisa de ser pensada mais como um verbo do que como um substantivo, como algo que as pessoas fazem e não como uma unidade estática”. 39 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Essa hierarquia é um dos fundamentos da burocracia, impondo que cada indivíduo ocupe um determinado lugar na estrutura da organização, segundo um sistema resolutamente ordenado de mando e subordinação no qual há uma supervisão dos postos inferiores pelos superiores; iii. A impessoalidade, caracterizada pela distribuição de tarefas de acordo com os cargos e segundo critérios definidos de tal forma que as pessoas são consideradas simples ocupantes de cargos; iv. A racionalidade, que se exprime pela conformidade entre os meios e os fins, de tal maneira que a acção organizacional se restringe a regras legais produzindo, por isso, a uniformidade de procedimentos. Por outro lado, as organizações educacionais podem ser analisadas e compreendidas através de um modelo político. Conforme este modelo, as escolas podem ser entendidas como pequenos sistemas políticos; organizações ou entidades políticas complexas, ou arenas de luta e liberdade, onde existem grupos de interesse e conflitos similares aos da sociedade em geral (Silva, 2006). No mesmo âmbito, nas palavras de Costa (1995, p.115), e à luz deste modelo, a escola apresenta os seguintes referentes: i. A escola é um sistema político em miniatura cujo funcionamento é análogo ao das situações políticas existentes nos contextos macrosociais; ii. Os estabelecimentos de ensino são compostos por uma pluralidade e heterogeneidade de indivíduos e de grupos que dispõem de objectivos próprios, poderes e influências diversas e posicionamentos hierárquicos diferenciados; iii. A vida escolar desenrola-se com base na conflitualidade de interesses e na consequente luta pelo poder; iv. Os interesses (de origem individual ou grupal) situam-se quer no interior da própria escola, quer no seu exterior e influenciam toda a actividade organizacional; 40 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. v. As decisões escolares, tendo na base a capacidade de poder e de influência dos diversos indivíduos e grupos, desenrolam-se e obtêmse, basicamente, a partir de processos de negociação; vi. Interesses, conflito, poder e negociação são palavras-chave no discurso utilizado por esta abordagem organizacional. Esta análise micropolítica das lógicas de acção na escola, leva o mesmo autor a mencionar que: “ As escolas, devido a algumas especificidades da sua composição, estruturação e comportamento organizacional, têm vindo a ser concebidas, por vários autores, como espaços organizacionais privilegiados para a aplicação dos modelos políticos e, por isso, como organizações relativamente às quais a metáfora da arena política encontra sucesso”. (1995, p. 122). Na mesma linha, Rocha (2007), referindo-se às relações de poder que se operam nas organizações educativas, destaca que: “Definitivamente, concepções tais como poder, conflito, interesse, oportunismo, regateio, negociação, bluff e lobbying, entre outros, irão assumir um estatuto de relevância na análise das organizações educativas”. (p. 15). Em conformidade com Costa (1995) e com Lima (2006) que consideram o uso das metáforas como úteis e inevitáveis para o estudo das organizações, também iremos recorrer a essa linguagem metafórica, no sentido de nos servirem de lentes para melhor olhar a realidade (as lógicas de acção na organizacção da escola). “A natureza epistemológica e heurística das metáforas tem sido destacada, pela sua capacidade de criação e de expressão de significados que nos permitem interpretar a realidade e criar ‘verdades parciais’”. (Lima, 2006, p. 23). Continuaremos a ter como referência diferentes leituras que nos sugerem preciosas metáforas para salientar a ambiguidade das racionalidades manifestadas nas organizações educativas: a escola como anarquia organizada, a decisão organizacional como caixote do lixo, a escola como um sistema debilmente articulado e como sistema caótico. Costa (1999) refere a ambiguidade existente na escola, a qual se tornou o aspecto prevalecente da sua actividade organizativa em domínios como a identificação 41 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. dos objectivos, o planeamento, as tecnologias, a tomada de decisões, o ambiente e a liderança. (p. 139). A metáfora da “anarquia organizada” foi utilizada por March e Olsen (1976) com o intuito de evidenciar a ambiguidade de funcionamento das organizações escolares, pela forma como organizam e aplicam o currículo, que se traduz internamente por uma falta de coordenação, com interferências constantes ou pela exclusividade das suas áreas de trabalho. Externamente, parece haver uma imensa organização: existência de horário, apresentação e explicação de objectivos aos pais, remete-se para os problemas se eles existirem, mas, no fundo, tratam-se de requisitos formais que apenas dão uma determinada aparência que não é a realidade. Com as lentes desta metáfora, a escola é um local onde se produz informações pouco claras, carece de um estreito controlo sobre os processos e os produtos, a participação dos actores é sobremaneira fluída e dispersa, assim como a tomada de decisões não decorre de um processo linear de resolução de problemas (são tomadas decisões avulsas, sem haver vontades partilhadas para a resolução dos problemas). A corroborar, Rocha (2007), baseando-se nas ideias de Cohen, March e Olsen (1972), considera que na “anarquia organizada” se vislumbra uma organização que opera na base de uma variedade de preferências inconsistentes e doentiamente definidas. Pode ser descrita como uma colecção de ideias soltas do que como uma estrutura coerente. (pp.11-12). A conceptualização da organização como “caixote do lixo” assenta numa análise do processo de tomada de decisão, o qual é visto como, “ um caixote do lixo – património colectivo organizacional – onde coexistem problemas e soluções raramente tão conexos e unívocos como as perspectivas clássicas deixam antever. Uma organização sob a conceptualização da metáfora do “caixote do lixo” é uma organização onde se verifica uma “desarticulação parcial” entre os problemas e os constrangimentos organizacionais e a sua forma e tempo de resolução”. (Rocha, 2007, p. 12). Relativamente à análise de todos os factores das organizações vistas como um “sistema debilmente articulado” (Costa, 1995, pp. 139-150) ou como organizações 42 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. “debilmente acopladas” (Rocha, 2007, p. 12), os eventos não ocorrem sempre articuladamente, existindo, por isso, uma “ articulação débil entre indivíduos, entre sub-unidades, entre organizações, entre níveis hierárquicos, entre ideias, entre actividades e entre intenções e acções”. (Rocha, 2007, p. 12). Em síntese, e de acordo com a literatura desenvolvida, a manterem-se inalterados os modos de funcionamento e de organização escolares, condena-se o sucesso ao insucesso educativo. 43 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. CAPÍTULO III – MAIS SUCESSO ESCOLAR – PROJECTOS DE COMBATE AO INSUCESSO ESCOLAR NO ENSINO BÁSICO Num quadro de autonomia e sabendo que o insucesso escolar ainda penaliza muitos alunos a quem o sistema educativo deve proporcionar as oportunidades de uma aprendizagem de qualidade, respostas eficazes ao insucesso exigem a mobilização das escolas e dos professores no desenho de estratégias pedagógicas adequadas aos contextos de aprendizagem e às dificuldades pelos alunos. Neste capítulo, apresentamos sumariamente os Projectos desenvolvidos no âmbito do Programa Mais Sucesso Escolar e a pertinência das medidas que pretendem prevenir o insucesso escolar. 4.1. Prevenção do insucesso O insucesso escolar é um problema relativamente recente que, de acordo com o que temos vindo a referir, resultado da expansão do sistema educativo nos últimos trinta anos. No passado, antes de criada a dinâmica de acelerada democratização e massificação escolar, a selecção escolar e social era acto automatizado: seleccionar significava restringir o acesso de um grande número de alunos ao último ciclo do ensino básico e ao ensino secundário, sem que tal se constituísse um problema. Quando a crescente democratização do sistema incorporou nos níveis mais avançados uma maioria de estudantes, que antes não chegavam a “passar da porta”, Escola e docentes confrontaram-se com o desafio de ensinar um universo muito heterogéneo. Social e institucionalmente, a retenção era[é] um constructo sobre o (in)sucesso subjacente à heterogeneidade dos alunos, estabelecendo-se como a forma mais viável e sem-par no sentido de assegurar a (des)igualdade na escolarização. Sobremaneira, e particularmente quando ocorre muito cedo no percurso escolar dos alunos, ela é o início de um caminho marcado pelas dificuldades de aprendizagem e por retenções múltiplas que podem conduzir ao abandono escolar. A Escola que retém um aluno, uma ou repetidas vezes, pouco ou nada lhe tem para oferecer, para além da 44 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. experiência do insucesso e da sanção oficial da sua incapacidade para aprender aquilo que os outros colegas conseguiram. Perante a problemática do insucesso, várias reflexões produzidas por organismos internacionais (OCDE)9, fazem sobressair duas ideias nucleares: • Prevenção – as dificuldades apresentadas pelos alunos devem ser identificadas o mais cedo possível e intervencionadas imediatamente a um nível pedagógico. Quanto mais precoce for o diagnóstico e mais eficaz a resolução das dificuldades encontradas, tornar-se-á menos necessário recorrer num futuro próximo a medidas de compensação/recuperação de discutível eficiência pedagógica, como a retenção. • Estratégicas pedagógicas alternativas – os debates sobre as estratégias mais eficazes para reduzir os níveis de insucesso e para a melhoria da qualidade das aprendizagens, inevitavelmente intimam o estatuto construído da eficácia pedagógica da retenção. Contudo, estas discussões são amiudadas vezes sustentadas de forma excessivamente dicotómica e redutora, como se a única alternativa a um sistema que contempla o uso da retenção fosse um que estabelecesse a passagem administrativa dos alunos. Estes debates parecem ser alicerçados em falsos princípios, porque a alternativa à retenção, quando os alunos aduzem dificuldades na aprendizagem, não deve ser a passagem administrativa, mas antes a diversificação de estratégias pedagógicas capazes de responder às dificuldades contextualizadas (no aluno, nas disciplinas). Estas estratégias assentam numa lógica de trabalho individualizado e diversificado, de maior exigência e de mais apoio orientado para os alunos com dificuldades, o que implica maior mobilização de recursos humanos, pedagógicos e tecnológicos. Com base na experiência e no desenvolvimento de projectos de sucesso lançados por iniciativa de algumas escolas, a administração central decidiu conceder 9 Exemplo do estudo realizado pela OCDE (2007), intitulado No more failure. Ten steps to Equity in Education. 45 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. apoios a projectos de escola que desenvolvam trabalho e estratégias com os objectivos de melhorar os resultados, reduzir a retenção e o abandono escolar. Neste âmbito, passamos em seguida a apresentar dois projectos que se destacam como exemplos da diversidade possível das boas práticas ao nível das intervenções pedagógicas contra o insucesso e abandono escolares. 4.2. O Projecto TurmaMais A estratégia pedagógica da TurmaMais, nascida na Escola Secundária com 3º ciclo Rainha Santa Isabel, em Estremoz, assenta na constituição de uma turma sem alunos fixos, que agrupa temporariamente estudantes provenientes de várias turmas do mesmo ano de escolaridade, que vão circulando durante algumas semanas. Cada grupo fica sujeito a um tempo de trabalho semelhante ao da sua turma de origem, com a mesma carga horária e o mesmo professor por disciplina. Os grupos temporários vão trabalhando as mesmas aprendizagens desenvolvidas no seu grupo turma, podendo usufruir de um apoio mais próximo e individualizado, atendendo às características algo semelhantes em termos de ritmo de aprendizagem do grupo temporário, sem sobrecarga de horas semanais. Este Projecto valoriza a coesão da equipa pedagógica, através da atribuição de todas as turmas do mesmo ano de escolaridade aos mesmos professores, que, desde que o número de horas o permita, só leccionam esse ano de escolaridade. A missão da equipa pedagógica é levar os alunos até ao final do ciclo com uma taxa de repetência o mais reduzida possível. 4.3. O Projecto Fénix A operacionalização deste projecto é alicerçada num design inovador concebido no Agrupamento Campo Aberto – Beiriz, cujo principal objectivo é o de que todos os alunos que entrem no pré-escolar cumpram a escolaridade obrigatória, sem retenções e com o menor número de níveis negativos possível. Os princípios funcionais daquele 46 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. projecto são: o princípio do sucesso plural; o princípio da homogeneidade relativa e o princípio da flexibilidade da organização escolar em termos de currículo e recursos. A autora Luísa Moreira (grande impulsionadora do Projecto Fénix) enunciou um conjunto de características operacionais distintivas ao nível da gestão pedagógica e da gestão de recursos, implícitas a esta inovação pedagógica: o agrupamento de alunos em turmas de menor dimensão, relativamente homogéneas quanto às dificuldades de aprendizagem destes (turmas Fénix); os grupos de apoio temporário, que reforçam a homogeneidade quanto à especificidade das dificuldades ou ritmos de aprendizagem dos alunos (os Ninhos); a mobilidade entre turmas (Fénix) e Ninhos; a gestão flexível do currículo e dos recursos humanos; e o trabalho articulado e cooperativo gerado. 4.4. Conclusão Considerando o nosso objecto nuclear de estudo – condições organizacionais e educativas no sentido de promover o sucesso escolar - procurámos sistematizar ao longo destes três capítulos o contributo de cada focalização, tendo em conta diversas dimensões que auxiliam a “ler” o (in)sucesso escolar. Assim, chegámos ao fim do enquadramento teórico que nos possibilitará iluminar o propósito do nosso estudo. Estamos certos que ao utilizarmos as “lentes” do conhecimento sistematizado, fruiremos de condições para melhor compreender e explicar as realidades que observámos. E, de alguma maneira, acrescentar um pouco de saber ao que já se sabe. É esta intenção que queremos agora cumprir. 47 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. CAPÍTULO IV - ESTUDO EMPÍRICO – O OBJECTO DE ESTUDO Este capítulo apresenta uma estrutura composta por três partes. A primeira consiste num relato descritivo das razões da adesão ao Projecto Fénix no agrupamento estudado. A segunda e a terceira parte correspondem, respectivamente, às questões de investigação concebidas e aos objectivos de investigação daí decorrentes. 5.1. Descrição do estudo Esta investigação pretende verificar se existe alguma relação entre a implementação de um projecto promocional de sucesso e a alteração das condições organizacionais e educacionais de um agrupamento. A adesão do Agrupamento Abuja ao Programa Mais Sucesso Escolar e a contratualização do Projecto Fénix aconteceu no ano lectivo 2009-2010. Conceptualmente, o referido projecto pretende a alteração das características dos modelos de escolarização tradicionais (organização do currículo, dos espaços, dos tempos, dos agrupamentos dos alunos), da relação pedagógica, da constituição de equipas educativas, da relação escola-família, ou seja, alterar as condições organizacionais e educacionais. No agrupamento que é o nosso objecto de estudo, o Projecto Fénix consistiu na constituição de turmas de homogeneidade relativa – Turmas Fénix -, constituídas por alunos com dificuldades às disciplinas nucleares e/ou dificuldades em anos lectivos anteriores. Estas mesmas turmas eram apoiadas por dois grupos temporários, os Ninhos, a funcionar em simultâneo no exterior, recebendo no tempo curricular específico de Português e de Matemática grupos de alunos oriundos das Turmas Fénix, usufruindo estes mesmos alunos de um ensino intensivo e mais individualizado dos conteúdos previstos para as turmas Fénix original, sendo este leccionado por docentes distintos. 48 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. 5.2. Contexto de estudo Considerando que conhecíamos um agrupamento que se enquadrava na nossa problemática, visto que, a partir do ano lectivo 2009/2010, após candidatura ao Programa Mais Sucesso Escolar- Tipologia Fénix, contratualizava com o Ministério da Educação a implementação do referido projecto com o objectivo de diminuir o insucesso e o abandono escolares, dispusemo-nos a estudá-lo. O estudo desenvolve-se num Agrupamento de Escolas (pré-escolar, ensino básico e ensino secundário), que no ano lectivo 2009/2010 decidiu aderir a um programa nacional de promoção do sucesso escolar, via Projecto Fénix. Sendo curiosos em relação às dinâmicas inerentes à inovação pedagógica, pareceu-nos ser uma oportunidade para aprender mais sobre as questões centrais do estudo. O interesse deste estudo está em compreender como reage o agrupamento escolhido como contexto de investigação à mudança, entendendo que o Projecto Fénix, pelos seus princípios e medidas, traz implicações na organização pedagógica das escolas e que os processos que lhe estão subjacentes não se desenvolvem por decreto (autonomia decretada), mas antes de forma gradual e apoiada, assentes em tomada de decisões participadas e adequadas às especificidades dos contextos e dos alunos (autonomia desejada). Naturalmente que o acesso ao campo implicou a autorização formal do presidente da Comissão Administrativa Provisória do Agrupamento de Escolas Abuja, ao qual foi apresentada a fundamentação e os objectivos do nosso estudo acompanhada do pedido de autorização formal (Anexo 1). À data da candidatura, a população escolar do agrupamento era constituída por um número total de 949 alunos, beneficiando 344 alunos de ASE, e 42 discentes usufruírem do disposto no Decreto-Lei n.º 3/2008. O Agrupamento insere-se no concelho X, de raízes rurais, onde predominam o pequeno comércio e as pequenas empresas, insuficientes em termos de empregabilidade. A proximidade da vila com Lisboa torna-a num dormitório. As opções culturais e desportivas são reduzidas. 49 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. As escolas mais rurais são unitárias, com poucos alunos, à excepção de Vila Y, que mantém dois lugares. Verifica-se um êxodo estudantil para a vila, o que causa uma sobrelotação nas três escolas da mesma. O agrupamento conta com os projectos: PNL, PAM, Eco-Escola, Desporto Escolar, TIC 2º ciclo, Testes Intermédios, Clube Jornalismo, Clube Artes, Clube Artes Plásticas, Projecto Multidisciplinar como Complemento Pedagógico, Clube Rádio, Crescer Saudável, Clube História, Clube Laboratório da Matemática. 5.3. O ponto de partida – A adesão ao Projecto Fénix A candidatura do Agrupamento Abuja ao Programa Mais Sucesso Escolar mereceu despacho favorável do Director de Serviços de Apoio Pedagógico e Organização Escolar (DRELVT), no dia 14 de Agosto de 2009. O agrupamento realizou um diagnóstico10, em que identificava as dificuldades sentidas: • Turmas grandes que não permitem ao professor um acompanhamento individual e de proximidade dos alunos com dificuldades e em risco de insucesso ou abandono. • Famílias com baixo nível cultural e escolar e que valorizam pouco a escola11. • Famílias de baixo nível socioeconómico12. • Famílias destruturadas13. • Ruralidade de alguns locais de proveniência dos alunos14. • Fraca correlação entre o nível de escolaridade e a oferta de emprego. 10 Excerto retirado do Documento Candidatura ao projecto Mais Sucesso Escolar (s/d). 11 Parece-nos configurar-se o que Dubet escreveu no seu artigo A Escola e a Exclusão , enunciando o dualismo escolar e o tipo de recrutamento das diversas ‘clientelas’ que marcaram o sistema educativo até meados do século XX: “(…) são as desigualdades sociais que comandam directamente o acesso às diversas formas de ensino. Uma das consequências desse sistema é que a escola aparece justa e ‘neutra’ no seu funcionamento, enquanto as injustiças e as desigualdades sociais é que são directamente a causa das desigualdades escolares.” Cadernos de Pesquisa, n. 119, p.29-45,Julho 2003. 12 O mesmo autor continua a revelar as contradições do modelo meritocrático, que já tivemos a oportunidade de abordar no capítulo I deste estudo: “ Essas desigualdades estão ligadas às condições sociais dos pais, mas também ao seu envolvimento com a educação, ao apoio que dão aos filhos, bem como à sua competência para acompanhá-los e orientá-los.(…) O modelo de igualdade de oportunidades meritocrático pressupõe, para ser justo, uma oferta escolar perfeitamente igual e objectiva, ignorando as desigualdades sociais dos alunos.” Cadernos de Pesquisa, v.34,n.123.set./dez.2004. 13 Idem. 14 Formosinho (1988) sublinhou: “(…) a não formação fundamentada dos professores impede-os de se consciencializarem de facto de normalmente a interacção deles , na sala de aula, com os alunos ser selectiva. O professor tende a interactuar mais com os alunos que o gratificam em termos de aprendizagens sucedidas, o que, dada a dependência do sucesso escolar da posição social, conduz a uma interacção socialmente selectiva.” 50 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. A par do referido diagnóstico, o Agrupamento apresentava no mesmo documento as necessidades de formação dos professores decorrentes do projecto: Nas áreas/disciplinas de intervenção a definir de acordo com as necessidades e gestão comportamental na sala de aula; as metodologias de avaliação do projecto indicando os intervenientes em cada acção: O Projecto deve ser avaliado em função do nível de satisfação do Agrupamento, dos docentes, dos técnicos envolvidos, das famílias e dos alunos, serão analisados os dados de avaliação e os relatórios apresentados pela Coordenadora e docentes envolvidos no projecto, realizar-se-ão reuniões trimestrais ou sempre que se justifique com todos os intervenientes; os recursos humanos: 5 professores do 1º ciclo, 1 professor de Matemática, 1 professor de Língua Portuguesa e 1 professor de Inglês para o 7º ano, 1 psicólogo e 1 assistente social; e o orçamento previsível. O Programa Mais Sucesso Escolar no Agrupamento é contratualizado a 13 de Novembro de 2009, comprometendo-se a Escola a: melhorar em 1/3 o nível de sucesso escolar referenciado aos anos de escolaridade (quadro 3) envolvidos no projecto; garantir as condições organizacionais, pedagógicas e logísticas, ao acompanhamento, monitorização e avaliação do projecto; integrar a rede de Escolas Mais Sucesso e disponibilizar-se para dinamizar e participar em encontros e sessões de trabalho para apresentação e divulgação de resultados e disseminação de boas práticas15. Ano de Nº de turmas Nº de alunos Disciplinas escolaridade (ensino regular) (ensino regular) 2º 7 85 LP Matemática 7º 1 27 LP Matemática QUADRO 3 – Anos de escolaridade contratualizados e respectivas disciplinas (PMSE) A estrutura conceptual deste projecto16 no Agrupamento que estudámos é definida para o 1º e 3º ciclo, no 2º ano e no 7º ano, e assenta nos princípios funcionais 15 Excerto retirado do Contrato entre a directora do agrupamento e a DRELVT. “No 1º ciclo, identifica-se por ano de escolaridade, os alunos que apresentam maiores dificuldades na Língua Portuguesa e Matemática. Estes alunos, durante uma parte do dia, são retirados para um espaço que funciona simultaneamente com o da sala de aula, onde um docente intervém em pequeno grupo, trabalhando as competências não atingidas. Nas turmas de 7º ano, à semelhança do 1º ciclo, serão identificados os alunos com maiores dificuldades em Língua Portuguesa, Matemática e Inglês. Nestas disciplinas, estes alunos, serão retirados da sua turma e apoiados de acordo com o seu nível de conhecimentos, noutras 16 51 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. anteriormente enunciados, para que em cada ano de escolaridade contratualizado, existam turmas constituídas pelos alunos com mais dificuldades que frequentam esse ano, intituladas turmas Fénix; a particularidade do 3ºciclo consistia em só existirem duas turmas de sétimo ano de escolaridade, pelo que a turma Não Fénix ficou constituída pelos alunos com menos problemas ao longo do seu percurso escolar. A formação dessas turmas realizou-se com base em critérios decididos pela direcção executiva, no decurso do mês de Agosto de 2009. A turma Fénix de 7º ano foi constituída pelos alunos que apresentavam como características do seu histórico escolar níveis inferiores a três a Língua Portuguesa e Matemática, ou que apresentavam número de níveis inferiores a três no ano lectivo anterior, sendo distribuídos de forma homogénea, de forma a existir heterogeneidade dentro de alguma homogeneidade – homogeneidade relativa. Simultaneamente existiu para cada ano, para as disciplinas de Língua Portuguesa e de Matemática, dois pequenos grupos de apoio – Ninhos – que foram integrando alunos que, dentro das turmas Fénix, revelaram dificuldades de acompanhamento, hiatos nas aprendizagens de anos anteriores, grande desfasamento entre o que está a ser leccionado e as competências do ano de escolaridade, ritmos diferenciados de aprendizagem. O ninho número um era formado por alunos com mais dificuldades e maior distanciamento relativamente às aprendizagens que deveriam estar adquiridas e, como tal, requerendo um acompanhamento mais individualizado, isto é, de um apoio reforçado na disciplina. O ninho número dois formou-se com alunos que, apesar de revelarem igualmente dificuldades, estavam num nível superior aos do grupo anterior, mas inferior aos das Turmas Fénix, precisando igualmente de um acompanhamento mais individualizado. Conceptualmente, este modelo pressupõe uma grande rotatividade dos alunos, tornando a constituição instantânea das turmas Fénix e dos grupos Ninhos bastante transitórias, flexíveis e dinâmicas17 e prevê que os alunos retornem à turma original, assim que superem as suas dificuldades. salas, à mesma hora que as 2 turmas existentes neste ano de escolaridade e a terem a mesma disciplina”. Excerto retirado do documento Candidatura ao projecto Mais Sucesso Escolar (s/d). 17 Abstemo-nos, de momento, de conjecturar sobre a pressuposta dinâmica e mobilidade dos Ninhos; voltaremos a abordar este assunto na discussão dos resultados. 52 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. O Agrupamento Abuja descreveu a metodologia de avaliação do projecto18. Para proceder à planificação conjunta de estratégias, foram efectuadas reuniões semanais19 entre os professores que leccionam Matemática e Língua Portuguesa das turmas Fénix e dos Ninhos. No ano lectivo 2010/2011, decorrente da reorganização da rede escolar, é instituída pela administração central e local (as autarquias foram auscultadas relativamente a este assunto) a fusão entre o agrupamento vertical de escolas com jardim de infância e ensino básico e a escola secundária do concelho. Como é do conhecimento geral, a contestação à formação dos vulgarmente designados megaagrupamentos foi largamente difundida pelos media, este processo provocou alguma instabilidade e desconforto ao nível das lideranças de topo das organizações escolares concelhias e no corpo docente das unidades orgânicas envolvidas. Aparentemente, o ano lectivo iniciou-se “dentro da normalidade”, não nos competindo, de momento, tecer quaisquer considerações sobre o processo. Os mecanismos ou características operacionais do Projecto Fénix, já acima mencionadas, têm de se miscigenar com um conjunto de condições organizativas facilitadoras que possibilitem o seu bom desenvolvimento. Fullan (1986, cit. in Huberman, 1983) refere a necessidade de um ethos escolar disseminador do sentido de um trabalho colectivo, com um papel activo dos directores escolares, como requisitos facilitadores da inovação. Igualmente, Moreira (2010) confirma esse imperativo, “ A liderança deve ser aberta e partilhada, favorecendo a autonomia e responsabilização de todos os profissionais, com descentralização de decisões e de tarefas, quer ao nível individual, quer ao nível de grupos intermédios, como por exemplo, Departamento/Grupo Disciplinar; Conselho de Directores de Turma; Equipas Educativas, entre outros.” ( p.82) 18 “ O Projecto deve ser avaliado em função do nível de satisfação do Agrupamento, dos docentes, dos técnicos envolvidos, das famílias e dos alunos. Serão analisados os dados de avaliação e os resultados apresentados pela Coordenadora e docentes envolvidos no projecto. Realizar-se-ão reuniões trimestrais, ou sempre que se justifique com todos os intervenientes, nomeadamente a Instituição de Ensino Superior.” Excerto retirado do Documento de Candidatura ao Projecto Mais Sucesso Escolar (s/d). 19 Da definição destas reuniões, não conseguimos encontrar qualquer referência nos documentos oficiais consultados. Só nos começámos a aperceber da sua existência, através da leitura de memorandos dos encontros semanais realizados pelos docentes dos Ninhos e pelo docente de Língua Portuguesa da Turma Fénix, do 7ºano. 53 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. 5.4. Questões de investigação É neste enquadramento que, para analisarmos se a candidatura e adesão a um projecto nacional altera as condições organizacionais e educacionais de um agrupamento de escolas no sentido de encontrar caminhos promocionais de sucesso escolar, que chegámos às seguintes questões de investigação: I. As tomadas de decisão na escola são deliberadas no seio dos órgãos colegiais resultantes de vontades partilhadas para a resolução dos problemas, ou decorrem de procedimentos concentrados no órgão de gestão? II. Como decorreu a participação e a implicação das lideranças (de topo e intermédias) no desenvolvimento do projecto Fénix? III. Como decorreu a participação e a implicação dos diferentes actores na organização e gestão curricular decorrente do desenvolvimento do projecto Fénix? IV. Qual o impacto do Projecto Fénix na formação e no desenvolvimento profissional? V. Quais as consequências da implementação do Projecto Fénix no sucesso escolar (no sucesso académico dos alunos; na praxis educativa; na supervisão pedagógica; na escola como organização aprendente)? 5.5. Objectivos do estudo Os objectivos emergentes da investigação elencam-se com a operacionalização empírica das questões que lhes deram origem. Assim sendo, passamos a explicitá-los. 1. Conhecer as características das relações de poder no Agrupamento. 2. Analisar as formas de organização e gestão curricular. 3. Verificar a existência de práticas conducentes ao desenvolvimento profissional. 4. Identificar as consequências da implementação do Projecto Fénix no sucesso escolar. 54 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. CAPÍTULO V – METODOLOGIA UTILIZADA NA INVESTIGAÇÃO REALIZADA Neste capítulo apresentam-se e justificam-se todos os procedimentos e opções tomadas na produção deste trabalho de investigação. Com a presente investigação pretende-se averiguar se, a candidatura e adesão a um projecto nacional altera as condições organizacionais e educacionais de um agrupamento de escolas no sentido de encontrar caminhos promocionais de sucesso escolar. Concretizando, deseja-se compreender o impacto provocado pelo Projecto Fénix nas condições organizacionais e educacionais do Agrupamento Abuja. 6.1. Considerações metodológicas e técnicas de investigação Sendo nosso objectivo desenvolver um estudo, ao nível da organização escola, que contemplasse o confronto entre os discursos dos actores educativos face à implementação de um projecto e as suas práticas, optámos por incluir, no nosso trabalho, um estudo de caso de tipo descritivo. Estávamos conscientes de que esta forma de investigação é considerada indicada para investigadores isolados (Bell, 1997, p.22). Esta opinião é corroborada por J. Nisbett & J. Watt (1984, p. 76) referindo-se ao estudo de caso, “ It is a style of inquiry which is particularly suited to the individual researcher, in contrast to other styles which require a researche-team”. Também a propósito do estudo concreto e aprofundado das práticas no contexto do estudo de caso, Lima (1992) afirma: "Nestas circunstâncias, porém, o que está em jogo não é a capacidade de generalização (e nunca de um ponto de vista estatísticoinferencial) mas sim a transferibilidade a partir do caso analisado, e sujeita obviamente a diferentes critérios, dos quais a avaliação/comparação entre o caso estudado e outros casos fica, em boa parte, nas mãos de terceiros detentores de ambas as informações". (p.397) Uma das características do estudo de caso reporta ao recurso a uma variedade de fontes de informação. Tal como declara Costa (1986, p.140) o estudo de caso “não se pode socorrer duma única técnica, mas duma pluralidade delas, accionadas 55 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. alternadamente e simultaneamente pelo investigador.” A partir da mobilização deste conjunto de métodos e técnicas torna-se possível proceder à triangulação da informação, uma vez que a utilização de três ou mais métodos diferentes para explorar um problema aumenta as possibilidades de exactidão (cf. Woods, 1987, p. 102). Atribuímos importância à triangulação como forma de superar o possível enviesamento e controlar a validade das informações. Assim sendo, no nosso estudo privilegiámos diferentes técnicas de recolha da informação, a saber: inquérito por questionário, entrevistas e análise documental. 6.2. Recolha de dados Os dados recolhidos são, conforme a tipologia de Van der Maren (1995, cit. in Santos, 2007), dados invocados, resultantes da observação directa de documentos do acervo do Agrupamento; e dados suscitados por nós, através de entrevistas e de inquéritos por questionário. 6.2.1. Procedimentos metodológicos e instrumentos No processo de recolha de dados, considerámos diversos aspectos de natureza ética, como o processo de negociação do desenvolvimento da investigação, numa tentativa de obter o consentimento informado dos participantes (Lima, 2006) e preservando, na medida do possível, a confidencialidade dos dados recolhidos. Neste sentido, foi de extrema importância o nosso papel enquanto investigadores e a relação estabelecida com os participantes, sendo nossa constante preocupação os seus direitos e possíveis consequências que a divulgação dos resultados pode ter para os intervenientes, atendendo ao facto de que se trata de uma investigação que versa as respectivas percepções sobre a escola onde leccionam. 56 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. 6.2.1.1. Inquéritos por questionários O inquérito por questionário constituiu, como anteriormente referimos, uma das técnicas de recolha de dados integrada na desejável triangulação das informações. Com base neste entendimento, o questionário teve como principal finalidade conhecer opiniões sobre formas de organização e de desenvolvimento do Projecto Fénix e opiniões sobre potencialidades e constrangimentos que limitam ou facilitam as práticas organizativas e educativas inerentes ao Projecto Fénix, no contexto do Agrupamento Abuja, conhecer a forma como este influencia o quotidiano escolar, quais as dinâmicas que implica. Antes de aplicarmos o questionário à população definitiva procedemos a um pré-teste desenvolvido em dois momentos distintos. Primeiramente solicitámos a uma docente que exerce a sua actividade profissional no agrupamento, que, na nossa presença, preenchesse o questionário e nos fosse relatando as suas impressões e sentido(s) que ia dando a cada uma das questões, ao mesmo tempo que medimos o tempo necessário ao seu preenchimento. Num segundo momento, aplicámos o questionário a dois docentes que fariam parte da amostra considerada para o nosso objecto de estudo. Deste processo resultou a exclusão de algumas questões que não foram consideradas pertinentes para o estudo em causa e a alteração na redacção de outras consideradas menos claras. Do ponto de vista técnico, o questionário foi construído tendo como referente um previamente validado20, e no que respeita à validade interna do conteúdo, como anteriormente referimos, foi validado por professores envolvidos no Projecto Fénix e pelo Doutor Matias Alves, enquanto especialista na área em estudo. O inquérito que aplicámos foi dirigido aos docentes (de primeiro e terceiro ciclos) envolvidos no Projecto Fénix. Na sua construção privilegiámos o recurso a questões fechadas, apresentando a lista das respostas previstas de entre as quais, consoante os casos, os inquiridos foram convidados a indicar a resposta mais adequada; seleccionar um número determinado de respostas consideradas mais 20 Matriz do Inquérito por questionário utilizado no âmbito da dissertação de Maria Luísa Moreira (2009) para a obtenção do grau de Mestre. Projecto Fénix – um projecto de inovação pedagógica: operacionalização e impacto no Agrupamento Campo Aberto – Beiriz. 57 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. adequadas; escolher e ordenar a totalidade das respostas que considerassem mais adequadas de acordo com o critério apresentado. Para operacionalização da recepção dos questionários preenchidos solicitámos a sua entrega em sede de conselho de turma ou de conselho de docentes. No sentido de aumentar a taxa de retorno dos questionários, durante o prazo que concedemos para o seu preenchimento e devolução, fizemos notar a nossa presença, procurando responder simultaneamente a eventuais dúvidas. Apesar de pretendermos entregar o questionário a todos os professores do universo pretendido (31), e de termos desenvolvido esforços nesse sentido, em dois casos tal não foi possível devido a razões várias, nomeadamente porque alguns docentes se encontravam de atestado médico. Dos 29 inquéritos distribuídos foram-nos devolvidos 21. Os questionários foram aplicados em Abril de 2011. Para a sua administração procedemos a uma distribuição pessoal a cada um dos inquiridos, ao mesmo tempo que fornecemos informações sobre o modo e prazos de devolução, reforçando as indicações que acompanhavam os questionários. Para facilitar o posterior tratamento dos dados, as questões fechadas foram pré-codificadas e em relação à questão aberta, depois de analisarmos algumas respostas, elaboramos um conjunto de categorias fazendo de seguida corresponder cada uma das respostas a uma das categorias construídas. No âmbito das questões fechadas, os itens apresentavam uma escala tipo Likert com opções de 5 níveis de resposta (sendo um, não sei/não respondo). Parte dos itens, relativos à capacidade de influência dos órgãos/actores na tomada de decisões contemplavam a escolha de entre os graus nenhuma, pouca, moderada, muita, total; e os referentes à intervenção dos órgãos/actores na concepção dos PCT, estavam subjacentes à inferência nos domínios iniciativa, elaboração, aprovação, colaboração, avaliação. Os tratamentos estatísticos a que recorremos são muito simples, resultando basicamente na elaboração de tabelas de frequências e correspondente representação gráfica, através do Microsoft Excel 2010. 58 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Esteve presente a preocupação de tornar visível a consistência e pertinência do questionário enquanto instrumento capaz na exploração do nosso objecto de estudo, abrindo novos caminhos para explorar as suas implicações na mudança das práticas e ampliando a sua reflexão. 6.2.1.1.1. Os inquiridos Caracterizámos os inquiridos no âmbito do nosso estudo, com base em: grupos etários; género; departamentos que integram; tempo de serviço; situação profissional; habilitações académicas; frequência de cursos; desempenho no exercício de cargos. (Cf. Gráficos n.ºs 1.1. a 1.8.). Gráfico 1.2. Género dos inquiridos Gráfico 1.1. Grupos etários dos inquiridos 25 14 12 10 20 menos de 30 8 de 30 a 40 15 Masculino 6 de 41 a 50 10 Feminino 4 mais de 50 5 2 0 0 Gráfico 1.3. Departamento Curricular dos inquiridos 8 7 6 20 1º ciclo Línguas 5 4 3 2 Gráfico 1.4. Tempo de serviço dos inquiridos Ciências Exactas e Experimentais Até 3 anos 15 De 4 a 6 anos 10 De 7 a 25 anos Ciências Sociais e Humanas 5 Expressões 0 Mais de 25 anos 1 0 59 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Gráfico 1.5. Situação profissional dos inquiridos 10 QNDE 8 6 QND outra escola 4 CP 2 CNP 0 Gráfico 1.6. Habilitação académica dos inquiridos 25 20 Mestrado 15 Licenciatura 10 Bacharelato Outra 5 0 Gráfico 1.7. Frequência actual de algum curso Gráfico 1.8. Cargos/funções desempenhados no agrupamento 1,2 10 1 Conselho Geral 8 0,8 Pós-graduação 0,6 Graduação 0,4 6 Conselho Pedagógico 4 Director(a) Turma 2 Representante área disciplinar 0,2 0 0 Os inquiridos situam-se maioritariamente na faixa etária dos 30 aos 40 anos (Cf. Gráfico 1.1.), são essencialmente do género feminino (Cf. Gráfico 1.2.), e mais de cinquenta porcento tem mais de 7 anos de serviço (Cf. Gráfico 1.4.). A dispersão dos departamentos que integram, permite a percepção das representações de docentes das diversas áreas (Cf. Gráfico 1.3.). Todos os professores têm licenciatura, sendo que um tem mestrado (Cf. Gráfico 1.6.), e dois estarem a frequentar pós-graduações ou graduações (Cf. Gráfico 1.7.). Praticamente cinquenta porcento destes professores são contratados havendo a salientar que dois deles não são detentores de profissionalização (Cf. Gráfico 1.5.). Grosso modo, já experienciaram funções inerentes aos cargos de direcção de turma, representação disciplinar, membros do conselho pedagógico e do conselho geral. 60 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. 6.2.1.2. Inquérito por entrevista A entrevista, ou inquérito por entrevista, é uma técnica mais frequentemente associada à investigação qualitativa e muito usada nas Ciências Sociais e Humanas. Pode ser conduzida de forma individual, - face a face - que é o mais comum, mas pode também ser realizada em grupo. Quanto ao formato da entrevista, pode ser estruturada, semi-estruturada ou não estruturada (Tuckman, 2005). No presente estudo, utilizámos a entrevista individual e semi-estruturada no caso dos professores, e utilizámos a entrevista grupal e semi-estruturada a quatro alunos. No nosso estudo entrevistámos seis professores e quatro alunos. Os participantes foram seleccionados com base numa combinação de vários critérios: os cargos ocupados e a disponibilidade para participar. Assim, o nosso universo de entrevistados é composto por elementos do órgão de gestão e administração: o presidente da comissão administrativa provisória do agrupamento de escolas (mega agrupamento) decorrente da reorganização da rede escolar e o coordenador de estabelecimento da escola com maior número de alunos e professores envolvidos no Projecto Fénix (ex-subdirector da extinta unidade orgânica, com funções inerentes ao cargo no ano lectivo 2009/2010, aquando da adesão ao Programa Mais Sucesso Escolar); ex-elementos da direcção executiva (directora da extinta unidade orgânica, com funções inerentes ao cargo no ano lectivo 2009/2010, aquando da adesão ao Programa Mais Sucesso Escolar); a coordenadora do Projecto Fénix no agrupamento e, cumulativamente, coordenadora do conselho de docentes do primeiro ciclo do agrupamento; a directora de turma do oitavo ano de escolaridade directamente envolvido no Projecto Fénix; alunos da turma de oitavo ano de escolaridade directamente envolvido no Projecto Fénix. De forma a aquilatar a investigação no sentido de recolher maior número de informações de intervenientes na tomada de decisão em questões relevantes para o objecto do nosso estudo, foi nossa intenção entrevistar professores com desempenho de cargos inerentes aos órgãos de gestão intermédia e alunos de turmas envolvidas no Projecto Fénix. 61 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. As entrevistas decorreram entre Março e Julho de 2011, maioritariamente já depois de terem sido aplicados, recolhidos e sumariamente tratados, os inquéritos por questionário. As entrevistas foram realizadas em diferentes espaços, com predominância do gabinete de trabalho contíguo à coordenação de estabelecimento. O presidente da comissão administrativa provisória do agrupamento foi entrevistado no seu gabinete. No local apenas estavam presentes os entrevistadores e o entrevistado, a quem pedimos autorização para a gravação áudio da entrevista, explicando-lhes que esta técnica possibilita a transcrição integral da mesma e a codificação dos dados recolhidos para posterior análise. 6.2.1.2.1. Os entrevistados No quadro que se segue apresentamos informações sobre a realização das entrevistas (Quadro 4). Quadro 4 - Dados da realização das entrevistas Codificação E1 Entrevistado Ex-Directora do agrupamento E2 Presidente da Comissão Administrativa Provisória do agrupamento Alunos da turma do 3º ciclo envolvidos no Projecto Fénix Directora de Turma da turma do 3º ciclo envolvida no Projecto Fénix Coordenadora do Projecto Fénix Coordenador de Estabelecimento (EBI) E3 E4 E5 E6 Local Gabinete anexo à coordenação do estabelecimento Gabinete de trabalho Duração 1h 02’ 23’’ N.º de páginas 20 58’ 57” 20 Gabinete anexo à coordenação do estabelecimento Sala disponível na sede do agrupamento (escola secundária) Sala disponível na EBI 35m 27s 20 1h 52’ 3’’ 44 53’ 23 58’ 57” 19 Gabinete anexo à coordenação do estabelecimento 62 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Em seguida, apresentamos informações sobre os professores entrevistados (Quadro 5). Quadro 5– Dados sobre os professores entrevistados Código do entrevistado E1 E2 E4 E5 E6 Habilitações académicas Curso do magistério primário e licenciatura complemento de formação Curso do magistério primário e licenciatura complemento de formação Licenciatura em FísicoQuímica Curso do magistério primário e licenciatura como complemento de formação Licenciatura em Teologia Situação profissional Quadro de nomeação definitiva da escola Quadro de nomeação definitiva da escola Contratada profissionalizada Quadro de nomeação definitiva da escola Quadro de nomeação definitiva da escola Formação para o exercício de cargos Especialização em administração educacional Especialização em administração e gestão escolar; especialização em Economia; frequência de Mestrado em Economia Não tem Não tem Não tem 6.2.1.3. Análise documental A análise dos documentos revestiu-se de uma importância fundamental para a compreensão do modelo geral de organização da escola e dos “perfis de mudança” definidos para a mesma. Procedemos à leitura e análise de actas das várias estruturas educativas do Agrupamento de Escolas Abuja (conselho pedagógico, conselho de docentes, conselho de turma, departamentos, conselho de directores de turma) respeitantes aos anos lectivos 2009/2010 e 2010/2011, bem como nos foi facultada a consulta de outros documentos pertinentes para o nosso estudo (relatórios, candidatura ao Projecto Fénix, pautas de avaliação, correspondência expedida e recebida). Todos estes documentos foram objecto de tratamento através de uma análise de conteúdo pouco formalizada, que procurou agrupar significações, que se mostraram importantes para a compreensão da realidade e para o prosseguimento do trabalho empírico. 63 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. CAPÍTULO VI – APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS Neste capítulo apresentamos os resultados obtidos através da análise dos dados recolhidos nos inquéritos por questionário aos docentes envolvidos no Projecto Fénix; damos a conhecer os testemunhos obtidos através das entrevistas realizadas a docentes e a discentes; inserem-se trechos de documentos relativos às estruturas educativas do Agrupamento de Escolas Abuja. Propõe-se encontrar as formas como os professores vêem a organização e como dizem abordar os assuntos relativos ao Projecto Fénix, reflectindo sobre o que é que os inquiridos/entrevistados registam sobre aquilo que pensam e como agem. Assim, este espaço de análise dos dados colectados pauta-se pela exploração das percepções dos sujeitos implicados nos inquéritos e nas entrevistas, bem como pela pesquisa integrada e transversal proporcionada pela análise documental. 7.1. As relações de poder A percepção dos professores sobre as relações de poder era uma das categorias que gostaríamos de conhecer. Esta foi organizada em duas subcategorias, estruturadas em dimensões sinalizadas nos gráficos de 2.1. a 3.1. 7.4.13. Processo de tomada de decisão e influência nas políticas da escola Nesta subcategoria analisámos a opinião dos inquiridos relativamente à capacidade de influência dos actores e/ou dos órgãos nas tomadas de decisão no agrupamento. Gráfico 2.1. Influência do inquirido sobre as decisões 10 12 10 8 6 4 Gráfico 2.2. Influência do departamento do inquirido sobre as decisões Pouca 8 Pouca Moderada 6 Moderada Muita 4 Muita 2 2 0 0 64 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Constatamos que os respondentes admitem ter pouca ou moderada capacidade individual no que concerne às tomadas de decisão (Cf. Gráfico n.º 2.1.). Gráfico 2.4. Influência do grupo disciplinar do inquirido nas tomadas de decisão Gráfico 2.3.Influência do conselho pedagógico nas tomadas de decisão 15 12 10 Nenhuma Pouca 8 Moderada 6 Muita 4 Total 10 5 0 0 Gráfico 2.5.Influência da direcção executiva nas tomadas de decisão Nenhuma Muita Total 2 10 Moderada Não respondeu Gráfico 2.6.Influência do conselho geral nas tomadas de decisão 10 Nenhuma 8 Pouca 8 Pouca 6 Moderada 6 Moderada 4 Muita 4 Muita 2 Total 2 Total Não respondeu 0 Não respondeu 0 Gráfico 2.8.Influência da associação pais nas tomadas de decisão Gráfico 2.7.Influência do conselho directores de turma nas tomadas de decisão 10 12 Nenhuma 10 8 Pouca 8 6 Moderada 6 4 Muita 4 2 Total 2 0 Não respondeu 0 Nenhuma Pouca Total Não respondeu Nenhuma Pouca Moderada 6 6 Muita 4 4 Total 2 0 Muita 8 8 2 Moderada 10 14 10 Pouca gráfico 2.10.Influência da associação estudantes nas tomadas de decisão Gráfico 2.9.Influência dos conselhos de turma nas tomadas de decisão 12 Nenhuma Não respondeu Moderada 0 65 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. A análise dos gráficos evidencia que, na opinião dos inquiridos, é a direcção executiva ou a comissão administrativa provisória que tem maior capacidade na tomada de decisões no Agrupamento Abuja (Cf. Gráfico n.º. 2.5.), relegando para segundo plano a capacidade de influência na globalidade das matérias relativas às estruturas colegiais de professores, sejam estes de gestão de topo como o conselho pedagógico (Cf. Gráfico n.º. 2.3.), estruturas de gestão intermédia como os departamentos curriculares (Cf. Gráfico n.º 2.2.), conselhos de turma (Cf. Gráfico n.º 2.9.), conselho de directores de turma (Cf. Gráfico n.º 2.7.). Constatamos, também, que para os respondentes a associação de pais tem um grau de influência tendencialmente moderado (Cf. Gráfico nº 2.8.); havendo a salientar que a associação de estudantes é a que tem menor influência na tomada de decisões. Cumulativamente, na fala dos nossos entrevistados, nomeadamente os que têm exercido funções de direcção, as representações que têm do conselho pedagógico consubstanciam-se em: “Eu, francamente, não deixo de pensar que é um órgão de decisão, embora na sua essência nas suas competências não seja um órgão propriamente deliberativo [referindo-se ao decreto-lei 75/2008].” ( E2); “Para mim, o conselho pedagógico é um órgão de decisão (…)Eu acho que não faz sentido ser de consulta (…)cabe-lhe a ele decidir…uh… o presidente do conselho pedagógico nesta altura, digamos, acumula o cargo com o de director (…).” (E1). Assim, a “figura” do conselho pedagógico define-se como um órgão de decisões em teoria, assumindo-se, cada vez mais, como um espaço de justificação das decisões tomadas pela direcção executiva. Como foi descrito no ponto 2.4. do capítulo um, invocamos a hipocrisia organizada para compreender a actual administração das escolas que, se por um lado os discursos e as orientações transparecem ideologias duma lógica colegial e democrática, na acção revela-se o gerencialismo e a concentração de poderes no órgão de gestão. 66 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. 7.4.14. Estilos de liderança e poder Esta subcategoria permitiu-nos permitiu “olhar” a percepção dos professores e de outros actores envolvidos no Projecto Fénix relativamente aos estilos de liderança e poder. Para isso, apresentaram-se se uma série de afirmações, solicitando-se solicitando se aos inquiridos que as ordenassem segundo determinado determinado critério, obtendo resultados dispostos de forma ordinal. "Este tipo de classificação tem o mérito de forçar os sujeitos a escolher entre várias alternativas. (…) Habitualmente, Habitualmente, os dados classificados são analisados, somando a cotação de cada resposta osta em todos os sujeitos, obtendo-se obtendo se assim um valor conjunto ou posição de ordem das alternativas." Tuckman, Bruce (2005, pp. 317317-318). De acordo com o autor, após termos procedido a uma análise dos dados classificados e à soma das cotações atribuídas pelos inquiridos a cada afirmação, ordenámos as alternativas propostas ordenadas desde a plena concordância até nenhuma concordância. concordância Gráfico 3.1. Exercício da liderança e poder 200 100 0 A B C D E F G H I J A - O clima criado é humano e profissional. G - A preocupação com a equidade e a justiça está sempre presente. E - Os objectivos do agrupamento são alcançados através da motivação dos professores. I - O poder é realmente partilhado. C - O processo de tomada de decisão é verdadeiramente democrático. D - A direcção executiva/CAP raramente partilha poder. F - A negociação é mínima nima e não há partilha de poder. J - A abertura aos professores é apenas aparente. B - É criado um clima autoritário de desconfiança e supressão do diálogo. H - O Executivo promove a confrontação / agressividade para atingir os seus objectivos. 67 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Os respondentes consideram que, em primeiro lugar, o clima de escola é “humano e profissional”, sendo que para muitos autores (Halpin e Croft, 1963) o estilo de liderança determina o clima da escola. No entanto, o conceito não pode ser tão linearmente apreciado, havendo que ponderar algumas dimensões na génese do clima escolar. Elias (2008) afirma que: “A construção do clima de escola está associada a uma dinâmica interactiva que se gera entre os actores escolares (…) está assim directamente relacionada com o sistema de tomada de decisões, com as formas de comunicação estabelecidas, com as normas e funções utilizadas e com os papéis assumidos.” (p. 122) Ora, se está directamente relacionada com o sistema de tomada de decisões, e considerando que no ponto anterior inferimos que a maior parte dos inquiridos julgou que a tomada de decisões no Agrupamento Abuja está concentrada no órgão de gestão, parece-nos constituir alguma incoerência. Poder-se-á equacionar se, o facto de os professores considerarem o clima de escola como o potencial caracterizador dos estilos de liderança e poder no Agrupamento, estará relacionado com a opinião de Goleman (2002, pp.9-10) de que “a tarefa essencial da liderança é de natureza emocional”, relacionando-se com a sua capacidade para despertar sentimentos nas pessoas que são lideradas. De acordo com o que foi mencionado no capítulo um, podemos estar na presença de uma liderança pseudo-transformacional, como é referido por Cunha et al (2003), (cf. Quadro 2), em que os actores, neste caso os professores, se sentem confortavelmente “embalados” entre o tradicional modelo burocrático e o “acenar” por parte de uma liderança que se quer afirmar transformacional. Para explicitar melhor a nossa convicção, socorremo-nos do discurso de um dos nossos entrevistados: “(…) Eu tento sempre responsabilizar as diferentes estruturas e, portanto, eu passava-lhe, conversava com a directora de turma, e passava-lhe o que é que eu achava que devia de ser e a colega implementava.” (E1). Em todo o caso, se os professores elegem que o clima criado é humano e profissional, à partida uma inovação “chegada” encontraria um “terreno fértil” para se disseminar. Permitimo-nos concordar com a opinião de Canário (2005, p. 93), sendo que o termo inovação designa processos de mudança endógenos à[s] escola[s], em que existe coincidência ou, pelo menos, uma relação muito próxima e directa entre os que 68 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. concebem, decidem e executam”. Como tínhamos enunciado no capítulo 2, a concretização das mudanças dependem das dinâmicas organizacionais das escolas; o Projecto Fénix no Agrupamento Abuja foi recebido como um processo de mudança exógeno, regulando-se pelas dificuldades da escola em articular a[s] mudança[s] de forma coerente, dinâmica e fértil. 7.5. Organização e gestão curricular Outra categoria que era nossa intenção conhecer, relacionava-se com a forma como se procedeu à organização e gestão curricular. Concretizando, quais foram as dinâmicas do Agrupamento Abuja na implementação da metodologia organizacional Fénix. Foi organizada em seis subcategorias, estruturadas em dimensões sinalizadas nos gráficos de 4.1. a 9.4. e na tabela 1. 7.5.1. Recursos utilizados e a sua gestão no âmbito do Projecto Fénix Na presente subcategoria desejámos saber quais foram os recursos implicados e como se geriram no processo de implementação do Projecto Fénix. Gráfico 4.2.A implementação do Projecto Fénix decorreu de um processo de negociação interdisciplinar e inter-departamental Gráfico 4.1.A implementação do Projecto Fénix partiu da sugestão de um grupo de professores do agrupamento 10 8 6 10 Concordo Discordo 0 6 Concordo Discordo 4 4 2 8 Não sei/Não respondo 2 Não sei/Não respondo 0 O silêncio dos respondentes relativamente à hipótese de a implementação do Projecto Fénix partiu da sugestão de um grupo de professores do agrupamento (Gráfico n.º 4.1.), parece-nos revelador de pouca clareza quanto aos processos de 69 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. decisão e negociação, ou decorrer do facto de dez dos professores inquiridos serem contratados, como constatámos aquando da análise dos dados sócio demográficos. A este propósito, os entrevistados referem: “(…)nós sabemos que, por exemplo, pelo menos nós, professores contratados, chegamos à escola e deparamo-nos com as turmas e com os projectos, sem termos a mínima noção de como é que eles são trabalhados e como é que foram escolhidos.” (E4). Também nos parece de relevar a posição mais céptica dos professores inquiridos relativa ao item a implementação do Projecto Fénix decorreu de um processo de negociação inter-disciplinar e inter-departamental (Cf. Gráfico n.º 4.2.). Para já, estes parecem ser indicadores expressivos do facto de que, para a implementação do Projecto Fénix, não se recorreram a práticas de auscultação, participação, implicação, compromisso individual e colectivo. Esta circunstância é referida pelos nossos entrevistados: “Eu acho que aqui na escola, foi parte onde o projecto inicialmente falhou; ou seja, partiu muito do órgão de gestão. Foi apresentado um pouco ao conselho de turma já no início do ano e, depois, a nível de departamentos, por culpa se calhar da direcção na altura; depois por culpa, se calhar, de todos que não fizeram um esforço, e apercebemo-nos mais tarde, não fizeram um esforço para perceber o que era o projecto.” (E6). “ (…) eu acho que é muito importante, quando a gente aplica este tipo de projecto ou que a gente os cria, que parta sempre de um grupo que esteja motivado. Não é porque a esta turma pertencem estes professores, têm de ficar no projecto e acabou. Devia de haver a hipótese de podermos seleccionar e contar com a adesão das pessoas, livremente, não ser por imposição. Eu acho que é um dos principais constrangimentos. As pessoas poderem dizer assim: Eu quero participar! Eu falo por mim, a motivação é muito importante. É assim… é mais uma turma, tens que fazer… eu acho que isso faz com que as coisas não resultem, ou pelo menos que não resultem tão bem.” (E5). gráfico 4.4. Disponibilizei-me e mostrei interesse em ser um dos agentes educativos no âmbito do projecto Fénix Gráfico 4.3.A implementação do Projecto Fénix foi veiculada pela Direcção Executiva 15 Concordo 15 Discordo 10 10 5 0 Não sei/Não respondo Concordo Discordo 5 0 Não sei/Não respondo 70 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Os dois testemunhos supra parecem contrariar a opinião dos inquiridos que consideram ter demonstrado interesse e disponibilidade para ser um dos agentes educativos no âmbito do Projecto Fénix (Cf. Gráfico n.º 4.4), assim como vêm confirmar que a adesão ao Projecto Fénix decorreu de uma decisão do órgão de gestão do Agrupamento (Cf. Gráfico n.º 4.3.). Gráfico 4.6. O envolvimento do professor no PF decorreu unicamente da distribuição da componente lectiva Gráfico 4.5. A continuidade pedagógica foi um dos critérios para elencar os professores às turmas Fénix 20 Concordo 15 10 5 0 Discordo Não sei/Não respondo 15 Concordo 10 Discordo 5 0 Gráfico 4.7. O Projecto Fénix levou a uma optimização dos recursos existentes 20 15 10 5 0 Não sei/Não respondo concordo totalmente Gráfico 4.8.Os recursos (humanos, materiais) envolvidos no Projecto Fénix são adequados 20 15 concordo 10 discordo 5 concordo totalmente concordo discordo 0 Com base na frequência de respostas obtidas nas dimensões que integram esta subcategoria, registamos uma maior frequência de respostas positivas. Este posicionamento pode ser revelador de uma percepção do Projecto Fénix como um potencial meio para o aproveitamento e gestão de recursos facilitadores para a sua implementação. Contudo, também se registam circunstâncias que, como evocámos no capítulo 1, predispõem à participação passiva ou não participação docente na gestão na escola, que de acordo com Lima (in Martins, 2009, p.184) se encontra subjacente à 71 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. compreensão de que não é possível concretizar uma participação activa, porque na maior parte dos casos tudo está previamente decidido. 7.5.2. Importância relacional estabelecida entre alunos e professores No que concerne a esta subcategoria, pretendemos apurar sobre a importância relacional que foi estabelecida entre alunos e professores envolvidos no Projecto Fénix. Gráfico 5.1.A implementação do Projecto Fénix contribui para uma melhor relação entre alunos e professores 20 concordo totalmente 15 concordo 10 5 discordo totalmente 0 Este posicionamento dos respondentes pode ser revelador de uma valorização do Projecto Fénix (Gráfico n.º 5.1.), entendido como facilitador das relações estabelecidas entre alunos e professores. Como refere Matias Alves (2010), “A relação pedagógica entre discentes e docentes é uma variávelchave, poderosa preditora do sucesso escolar. O gostar do professor(a) é, muitas vezes, a porta de acesso para gostar da “matéria” e da “disciplina”. (p.39) As opiniões de alguns dos nossos entrevistados vêm corroborar o referido: “Eu comecei na turma Fénix, e estava habituada com a forma como a stora dava a matéria, para além de ter tirado negativa, tirei uma negativa alta. Mas quando fui para o ninho dois… não sei, não gostei da maneira dela dar a aula; não consegui aprender e perdi o interesse pela matéria; tanto que eu baixei as notas… e depois, eu perco o interesse. Para além da gente ter de estar sempre calados, não brinca connosco… às vezes, a matéria tem de ser dada a brincar… a gente ganhava mais o interesse, mas ela não brinca (…) Leva aquilo tudo a eito, pronto.” (E3 A e B). “De insucesso [a professora referia-se a elementos determinantes de insucesso] é… uh… conflitos com os professores. Para mim, é o que eles me reportam, que é: Eu não consigo estudar uma disciplina em que eu não gosto do professor, 72 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. independentemente de ser um conteúdo que me interessa; se eu não sinto que o professor me incentiva, se eu não sinto que o professor me aceita, se eu não sinto que o professor tenta tudo para eu conseguir o sucesso, se o professor me rebaixa, se o professor diz que eu não consigo… eu não consigo.” (E4). 7.5.3. Envolvimento das lideranças e dos professores no âmbito do Projecto Fénix Outra das subcategorias que nos interessava conhecer estava relacionada com o envolvimento das lideranças e dos professores na nova metodologia organizacional proporcionada pelo Projecto Fénix. Gráfico 6.2.As sugestões apontadas pelos docentes/técnicos são tomadas em consideração pelas estruturas de liderança do agrupamento Gráfico 6.1.Projecto Fénix promove uma melhor articulação entre os docentes e os órgãos de gestão do agrupamento 20 concordo totalmente 15 20 concordo totalmente concordo 10 10 5 concordo discordo 0 0 Gráfico 6.3.As estratégias utilizadas pelas estruturas de liderança no que respeita às orientações fornecidas sobre o desenvolvimento do Projecto Fénix foram adequadas 16 14 12 concordo totalmente 10 concordo 8 discordo 6 discordo totalmente 4 não sei/não responde 2 0 73 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Gráfico 6.4.A actuação da Direcção Executiva foi adequada aquando da explicitação do Projecto Fénix 12 concordo totalmente 10 concordo 8 6 discordo 4 não sei/não responde 2 0 Evidencia-se que a maioria dos inquiridos considera que as estratégias utilizadas pelas lideranças no respeitante às orientações fornecidas sobre o desenvolvimento do Projecto Fénix não foram adequadas (Cf. Gráfico n.º 6.3.), assim como considera que a actuação da direcção executiva não foi adequada aquando a explicitação do Projecto Fénix (Gráfico n.º 6.4.). Recorremos aos testemunhos dos nossos entrevistados para melhor perceber as razões das inadequações referidas. Se por um lado, um deles refere: “ (…) apresentei ao conselho pedagógico a possibilidade de nos candidatarmos ao projecto e o conselho pedagógico foi unânime em aceitar essa nossa proposta… Uh… Também quero dizer que foi uma das coisas que nos fez seguir, foi essa receptividade do conselho pedagógico e é uma situação que está registada nas actas de conselho pedagógico. Portanto, durante o primeiro ano de implementação do projecto, entre dois mil e nove/dois mil e dez, o conselho pedagógico informou com regularidade os seus elementos sobre o desenvolvimento do Projecto Mais Sucesso Escolar, Tipologia Fénix.” (E1). Tendo consultado a primeira acta da reunião de conselho pedagógico referente ao ano lectivo 2009/2010, verificámos que a única alusão feita ao Projecto Fénix se encontrava no desenvolvimento do primeiro ponto da ordem de trabalhos (Informações), onde se regista: “ O Projecto Mais Sucesso Escolar foi aprovado e será aplicado ao segundo e sétimo anos de escolaridade, sendo a coordenadora do mesmo a professora [nome da docente] e as professoras [nome de duas docentes] que leccionam Língua Portuguesa e Matemática, responsáveis pela orientação das respectivas disciplinas.” (Acta da reunião de conselho pedagógico de 2 de Setembro de 2009). 74 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Desvenda-se determinada incoerência entre o discurso e a acção. De facto, como referimos, a adesão ao Programa Mais Sucesso Escolar – Tipologia Fénix concretizou-se em Agosto de 2009, por decisão unipessoal da direcção executiva. No espaço de tempo decorrido entre essa data e a data da primeira reunião de conselho pedagógico, em Setembro de 2009, não houve nem tempo nem lugar para que aquela estrutura educativa tivesse conhecimento ou deliberasse fosse o que fosse sobre o Projecto Fénix. Gráfico 6.5.A actuação dos coordenadores de directores de turma foi adequada aquando a explicitação do Projecto Fénix 10 concordo 8 6 discordo Gráfico 6.6.A actuação do coordenador de projectos do agrupamento foi adequada aquando a explicitação do Projecto Fénix 8 concordo totalmente 6 concordo 4 discordo 4 não sei/não responde 2 0 2 não sei/não responde 0 Gráfico 6.7. A actuação do coordenador de departamento foi adequada aquando a explicitação do Projecto Fénix 10 concordo totalmente 8 concordo 6 discordo 4 discordo totalmente 2 não sei/não responde 0 Na mesma linha, torna-se óbvio que as coordenações de liderança intermédia não demonstraram uma explicitação adequada do Projecto Fénix (Gráfico n.º 6.7.). Enquanto um entrevistado argumenta: “ No segundo e terceiro ciclos… Nós, também, a coordenadora do departamento de Línguas era uma pessoa muito interessada, sempre a questionar… uh… a colaborar…uh… a partilhar. Portanto, foi… e o professor de Matemática, o coordenador, o professor [nome do coordenador do departamento de Ciências Exactas e Experimentais) também…uh… pronto, há sempre aquelas pessoas que são mais próximas de determinados projectos…mas que, também, nunca…uh…sempre colaborou, na medida em que achou que devia colaborar.” (E1). 75 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Outro opina: “Realmente, as orientações passaram por mim e pelo, na altura, sub…uh…sub, subdirector, não era? O [nome do actual coordenador de estabelecimento, que, no ano lectivo anterior (2009/2010) ocupava o cargo de subdirector da direcção executiva] (…)no pedagógico, nós demos a conhecer o projecto Fénix, mas… duma maneira muito generalizada. Pronto, não se entrou muito no pormenor do que era o projecto Fénix… inicialmente, quando foi a apresentação do projecto, não. Era mais ao nível do conselho de turma e do conselho de docentes.” (E5). Sendo o anterior contrariado pela percepção do mencionado no discurso: “(…)a situação do projecto Fénix não sendo divulgada especialmente aos docentes, partindo do conselho pedagógico e chegar aos departamentos e ser apresentado o projecto como uma mais-valia para a escola. (…) Eu acho que os coordenadores de departamento sabem que existe [o Projecto Fénix], mas também não… Isto é um problema, porque as pessoas não encaram os projectos de cada turma como um projecto da escola; é um projecto daquela turma, não é? Falta aqui um pouco de cada um ir à procura do que é o projecto. Isto é um drama que se sente, porque alguns docentes do conselho de turma nem se preocuparam por sua iniciativa em saber o que é o projecto.” (E6). Aduzimos outras representações dos nossos entrevistados relativamente às dimensões em questão: “Em termos de comunidade, não creio que alguém saiba que existe sequer este projecto. Eu acho que devia ser uma coisa com a intervenção de todos os órgãos… o problema está na raiz, por todos os órgãos não se envolverem, porque se eles se envolverem, obviamente, que havia divulgação.” (E4). “É assim… Às vezes, chegava ao pedagógico; mas muitas das vezes chegava era à direcção… as informações de como estavam a ser, portanto… uh…estava a decorrer e como estava a ser implementado e, depois, como estava a decorrer o projecto. Chegava muitas vezes à direcção, a informação.” (E5). Gráfico 6.8.A actuação do coordenador do Projecto Fénix foi adequada aquando a explicitação do mesmo 12 10 8 concordo totalmente concordo 6 discordo 4 2 não sei/não responde 0 Relativamente à actuação do coordenador do Projecto Fénix no Agrupamento Abuja (Gráfico n.º 6.8.), os inquiridos têm uma opinião positiva sobre a forma como aquele o explicitou, havendo a salientar que o silêncio de alguns poderá decorrer do 76 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. facto de ser a primeira vez que leccionavam no agrupamento. No entanto, a explicitação do Projecto Fénix no que concerne a esta dimensão está implicitamente confinada a uma transmissão de informações patente nos registos da análise documental. “A coordenadora do projecto Mais Sucesso, turma Fénix, professora [nome da coordenadora do Projecto Fénix] referiu que esta turma vai participar no projecto que coordena e explicou a sua origem. Referiu que o projecto arranca no início do ano lectivo e que a turma é dividida em Turma Fénix, ninho um e ninho dois, às disciplinas de Língua Portuguesa e Matemática. Para cada uma destas disciplinas são três 21 professores que vão leccionar a disciplina em simultâneo em salas diferentes”. “ No primeiro ponto da ordem de trabalhos – informações: a equipa de monitorização do programa “Mais Sucesso Escolar – Tipologia Fénix”, em parceria com a UCP, vai realizar, em Lisboa, uma Acção de Formação, no dia vinte e um de Novembro, e estão inscritos catorze professores do agrupamento, que têm turmas 22 envolvidas no projecto”. Não nos foi relatado, bem como não encontrámos registos documentais relativos a reuniões de trabalho entre a equipa de coordenação do projecto com as outras estruturas de liderança do Agrupamento, no sentido de promover abordagens a formas diferenciadas de tecnologias/metodologias educativas de promoção do sucesso escolar, a uma divulgação do modelo organizacional Fénix e subsequente troca de ideias sobre possíveis configurações de operacionalização do modelo em questão. Este facto é assertivamente referenciado por um entrevistado: “Eu, muito francamente, acho que, pelo que me apercebi das reuniões que houve, é que houve algum défice de informação por parte dos intervenientes, ou seja, o agrupamento devia ter tido conhecimento mais transversal daquilo que o projecto preconiza. E eu próprio tive alguma dificuldade, também por disponibilidade de tempo. Acho que o ponto mais alto até ao momento, foi aquela reunião que houve há pouco tempo, solicitada pelas estruturas nacionais do projecto _ quer a coordenadora nacional, quer o responsável da Universidade Católica, quer a Direcção Regional de Educação _ e isso, de facto, até para mim, teve a vantagem de perceber melhor o que estava em causa e quais são os objectivos do projecto. Hoje, já percebo com mais proximidade aquilo que se pretende e com certeza que isso me permite apropriar o projecto de outra forma que não tinha até essa reunião.” (E2). 21 22 Excerto retirado da acta reunião de conselho de turma do sétimo ano, de 9/9/2009. Excerto retirado da acta reunião de conselho de docentes de 18/11/2009. 77 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Gráfico 6.9.A actuação do director de turma foi adequada aquando a explicitação do Projecto Fénix 10 8 concordo totalmente 6 concordo 4 discordo não sei/não responde 2 0 Contrariamente ao que verificámos anteriormente, os respondentes consideram a actuação do director de turma mais adequada do que os anteriores órgãos/estruturas (Gráfico n.º 6.9.). Este posicionamento poderá decorrer de uma valorização do trabalho e empenho por parte daquele. Neste contexto, os conselhos de turma surgem-nos como “ilhas” dentro da escola, tendo-nos sido confirmada a metáfora na voz deste entrevistado: “Eu não senti grande envolvimento para o projecto, nestes dois anos, de nenhuma estrutura sem ser o conselho de turma… muito sinceramente. (…) Na minha perspectiva, foi muito pouca coisa feita. Continuo a dizer que foi posto à parte, que foi posto só apenas em conselho de turma. Portanto, nós trabalhávamos de forma isolada. Não houve um envolvimento da escola toda e eu acho que não houve por falta de estratégias, as estratégias não existiram. (…)se fores perguntar a um colega que não faz parte do conselho de turma, é capaz de desconhecer o projecto. (…)Só em conselho de turma. Continuo a dizer, naquela primeira pergunta, se as coisas não são faladas nos outros órgãos, se praticamente nada é falado a não ser se o professor levanta… e são praticamente sempre questões burocráticas, são sempre aquelas questões administrativas.” (E4). Em síntese, da análise documental em conformidade com as representações comprovadas pelas entrevistas e pelas respostas aos inquéritos, sobressai alguma falta de articulação de informação entre os actores e os órgãos, na medida em que determinado assunto é percepcionado de muitas formas, o que leva a entender que entre os vários canais de comunicação há um défice de informação, não se coadunando com a existência de uma unidade de propósito. Afigura-se, como tivemos oportunidade de referir no capítulo 2, uma organização como um sistema debilmente articulado (Costa, 1995, 1999), debilmente acoplada (Rocha, 2007), com um modo de funcionamento díptico (Lima, 2006). É uma 78 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. organização com uma ambiguidade de funcionamento, traduzindo-se internamente por falta de coordenação, pelo que recorrendo à linguagem metafórica parece estarmos presente uma anarquia organizada (March e Olsen,1976; Rocha, 2007), em que se verifica uma desarticulação entre os problemas e a sua forma de resolução, factores que, segundo Rocha (2007), são característicos de tomadas de decisão caixote do lixo. No nosso entender, descurou-se o princípio do envolvimento (Matias Alves23, 2010,p.53; 2011, p. 65), considerado como um dos pilares na matriz conceptual do Projecto Fénix. 7.5.4. Garantia de articulação horizontal / vertical Outra das subcategorias que nos interessava conhecer relacionava-se com a garantia de que o Projecto Fénix promove a melhoria das articulações horizontal e vertical das áreas curriculares disciplinares, e destas com as áreas curriculares não disciplinares. Gráfico 7.1.Com o Projecto Fénix foi promovida uma melhor articulação vertical 15 10 Gráfico 7.2.Com o Projecto Fénix foi promovida uma melhor articulação horizontal concordo totalmente 14 12 concordo totalmente concordo 10 concordo 8 discordo 5 6 discordo 4 0 não sei/não responde 2 0 não sei/não responde 23 Segundo o autor, o Projecto Fénix estrutura-se a partir de um conjunto de princípios organizacionais: da adequação, da diversidade, da homogeneidade relativa, do limiar da complexidade, da formação na acção, da flexibilidade, da tomada de decisão, e do envolvimento. 79 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Gráfico 7.3.O Projecto Fénix facilitou a articulação das áreas curriculares disciplinares com as áreas curriculares não disciplinares 15 concordo totalmente 10 concordo discordo 5 não sei/não responde 0 Relativamente às articulações - plano vertical e horizontal - verificamos um conjunto de itens que indiciam que algo acontece de significativo através do Projecto Fénix, mas que parece acontecer mais no plano horizontal do que no vertical (Cf. Gráficos n.º 7.1. e 7.2.). Esta inferência é corroborada pela directora de uma turma do terceiro ciclo: “(…) as estratégias passam sempre por, em conselho de turma, tentarmos fazer projectos que os consigam , ou seja, consigam envolver várias disciplinas , de modo a que as estratégias que são usadas sejam … por exemplo, em termos do Português, tentarmos que em testes e em fichas, continuemos a trabalhar muito o desenvolvimento deles na escrita, porque é uma dificuldade muito grande que eles têm. Isso, nós tentamos, ou seja, ter nem que seja uma pergunta que os faça estruturar o pensamento, para eles conseguirem redigir com correcção; depois serem corrigidos, ter muito cuidado com essa correcção. (…) A articulação vertical… eu penso que foi mais difícil. Em termos do currículo, não. Não, não foi nada pensado.” (E4). Neste sentido, e entendendo que a adequação do currículo à diversidade dos contextos pressupõe organizar aprendizagens com sentido, facilitando a sua compreensão, parece-nos que a sua concretização só será possível se existir uma atenção e cuidado particulares com a sequência e integração de decisões articuladas coerentemente dentro e entre cada ciclo, bem como entre as áreas curriculares disciplinares e não disciplinares. Pensamos que predomina a visibilidade das áreas curriculares não disciplinares, potenciais promotoras de garantia da transversalidade e articulação curricular (Gráfico n.º 7.3.), quase sempre desligadas das áreas curriculares nucleares, sobre o desenvolvimento das quais o Projecto Fénix no Agrupamento Abuja é quase omisso. 80 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Oportunamente, esta dimensão elenca com a da flexibilização na gestão curricular que iremos abordar já em seguida. 7.5.5. Flexibilidade na gestão curricular Seguindo de perto Roldão (1995), a gestão curricular não pode ser concretizada sem flexibilização, uma vez que para a autora a gestão curricular concretiza-se em quatro dimensões: reconstrução curricular, diferenciação curricular, adequação curricular e construção curricular. Vejamos as representações dos inquiridos sobre as implicações do Projecto Fénix na flexibilidade da gestão curricular. Gráfico 8.1.O Projecto Fénix tem implicações na gestão curricular das diferentes disciplinas 10 8 concordo totalmente 6 concordo 4 discordo não sei/não responde 2 0 Gráfico 8.2.O Projecto Fénix permite uma maior flexibilidade na gestão curricular 20 15 10 5 concordo totalmente concordo discordo 0 Gráfico 8.3.A flexibilidade curricular permite o desenvolvimento das competências essenciais de ciclo 15 10 5 concordo totalmente concordo 0 81 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Estruturalmente o Projecto Fénix assenta em vários princípios organizacionais, de entre os quais destacamos o da flexibilidade de forma a contextualizar a dimensão em análise. O princípio da flexibilidade pressupõe que as soluções deveriam poder adaptar-se aos indivíduos e às circunstâncias. Ele é particularmente apropriado para o agrupamento das turmas, para o tempo de permanência em espaços/tempos alternativos, para a gestão do currículo, para os métodos e instrumentos de avaliação. (Matias Alves, 2010,p.53). Considerando as opiniões dos inquiridos, é indubitavelmente reconhecido que o Projecto Fénix, no Agrupamento Abuja, permite maior flexibilidade na gestão curricular, bem como legitima que a flexibilidade curricular permite o desenvolvimento das competências essenciais de ciclo. Tendo em conta as opiniões dos respondentes sobre a dimensão O Projecto Fénix tem implicações na gestão curricular das diferentes disciplinas (Cf. Gráfico n.º 8.1.), fica pouco clara a forma como os professores afirmam trabalhar a flexibilidade na gestão curricular e a flexibilidade curricular (Cf. Gráfico n.º 8.2.) e, por outro, como perspectivam o desenvolvimento das competências essenciais de ciclo (Cf. Gráfico n.º 8.3.) . Segundo Roldão (1999, p.37), a gestão curricular é um processo de tomada de decisões orientado para as finalidades que se pretendem atingir. Trata-se assim de um processo que implica analisar a situação que se apresenta e confrontá-la com aquilo que se pretende conseguir. Como tal, implica um trabalho de interacção no seio de um grupo, arrolado por uma reflexão partilhada, o que supõe o trabalho em equipa por parte da organização escolar, condição essencial para oferecer um processo de ensino e aprendizagem organizado de forma fundamentada e coerente. Mas, como já referimos anteriormente, a organização não se envolveu, não agregou vontades partilhadas, e, por isso, não estimulou nem articulou dinâmicas coerentes e alicerçadas sobre aquilo a que se propunha. Talvez este seja um dos factores explicativos da falta de clareza supra mencionada. 82 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. 7.5.6. Concepção e organização dos PCT (Fénix) Em consonância com o entendimento da flexibilidade acima enunciado e tendo em conta a importância do Projecto Curricular de Turma – permite [ou devia permitir] a passagem de uma lógica de ensinar conteúdos, devidamente estruturados em programas e apoiados em manuais, para uma lógica de aprendizagens –, interessounos conhecer o impacto do Projecto Fénix na concepção e organização dos PCT das turmas Fénix. Intervenientes Iniciativa DT/Titular de turma Coordenação DT Direcção executiva Conselho pedagógico Departamento curricular Conselho turma Conselho docentes Conselho DT Serviços Psicologia Orientação Serviços Apoio Educativo Associação pais Representante pais e EE Outros intervenientes Instituições do ensino superior Outras parcerias Elaboração Aprovação 7 6 7 5 1 3 2 1 1 1 0 0 15 0 4 0 1 12 1 2 2 5 1 0 0 0 0 0 8 0 13 12 4 8 3 7 3 3 3 5 Colaboração Avaliação 16 14 11 0 7 7 3 7 10 5 15 12 2 4 7 2 13 3 14 5 9 1 11 0 0 0 1* 0 0 0 *o inquirido mencionou a biblioteca Tabela 2- Domínios de intervenção na concepção e organização dos PCT A análise e leitura da tabela apresentam como principais intervenientes no processo de concepção do PCT (turmas Fénix) os directores de turma e o conselho de turma, fundamentalmente, com a responsabilidade de elaborar e avaliar o PCT. A coordenação dos directores de turma fica com o papel de participar ao nível da colaboração. A participação da direcção executiva situa-se, principalmente, ao nível da aprovação; a do conselho pedagógico ao nível da aprovação; o departamento curricular, os serviços de apoio educativo e os serviços de psicologia e orientação participam, essencialmente, ao nível da colaboração. A participação dos outros intervenientes é situada com pouca expressão e quase exclusivamente ao nível da colaboração. 83 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Gráfico 9.1. O Projecto Fénix permitiu aumentar a produtividade das reuniões de conselho de turma 10 8 6 concordo totalmente concordo discordo 4 2 discordo totalmente não sei/não responde 0 Uma grande parte dos respondentes consideram que o Projecto Fénix não permitiu aumentar a produtividade das reuniões de conselho de turma (Gráfico n.º 9.1.). Em conformidade com esta opinião, os entrevistados consideram que: “(…)nós tentámos em conselho de turma, o que às vezes não é fácil porque há muita burocracia, há muita papelada para preencher... pronto… uh… e somos muitos, e duas horas de reunião não chega praticamente para nada. (…) eu senti essa falta, devíamos reunir mais vezes para fazer essa partilha; não tanto com a preocupação de preencher papéis, dar notas, de atribuir resultados, mas sim de fazer essa partilha. Por que, senão, é sempre algo que fica muito arredado… no fim da reunião, cinco minutinhos, dez minutinhos…” (E4). “ (…) também não há muito espaço com tanta reunião, reuniões se calhar infrutíferas, que fazem-se, fazem-se, mas ao fim o proveito… se calhar, era mais necessário fazer aquelas reuniões menos formais, sem acta, mas para resolver essas situações; espaços de diálogo mais do que reuniões marcadas com hora e turma; mas se calhar se não se marcarem, também não existem.” (E6). Efectivamente, após leitura cronológica das actas das reuniões dos coordenadores de direcção de turma e que voltaremos a referir mais adiante, evidencia-se excessiva preocupação com o preenchimento de documentos e nunca encontrámos qualquer reflexão ou referência às dinâmicas inerentes ao Projecto Fénix. 84 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Gráfico 9.2. O processo e os resultados que o Projecto Fénix vai proporcionando são apreciados pelos docentes envolvidos com muita frequência 10 8 6 concordo totalmente concordo discordo 4 2 discordo totalmente não sei/não responde 0 Gráfico 9.3. Do apurado dessa apreciação os professores das turmas Fénix gerem/reconstroem o PCT 20 15 10 5 concordo totalmente concordo não sei/não responde 0 Gráfico 9.4.Os resultados dessas apreciações são divulgados nos departamentos e em conselho pedagógico 10 8 concordo totalmente 6 concordo discordo 4 discordo totalmente 2 não sei/não responde 0 É de salientar a contradição entre o que os respondentes assinalaram, com determinado grau de discordâncias, relativamente ao facto de que o processo e os resultados que o Projecto Fénix vai proporcionando são apreciados pelos docentes envolvidos com muita frequência (Gráfico n.º 9.2.), e com o facto de a partir do apurado dessa apreciação os professores das turmas Fénix gerem/reconstroem o projecto curricular de turma (Gráfico n.º 9.3.). Afigura-se um cuidado envolto numa 85 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. perspectiva tecnicista e burocrática, porque, fundamentalmente, se focaliza nos resultados. A corroborar esta ideia, constatámos que nem nos departamentos nem no conselho pedagógico se apresentam dados factuais relativamente ao processo e aos resultados das apreciações realizadas pelos conselhos de turma Fénix. Pode ler-se: “O coordenador de departamento apresentou os quadros estatísticos referentes aos resultados dos testes intermédios de Matemática feitos até ao momento, verificando-se o seguinte: a) Nos oitavos anos, os resultados dos testes intermédios variam entre uma média de sucesso de vinte e dois porcento (turma E) e cinquenta e quatro porcento (turma D); b) Nos nonos anos, todas as taxas de sucesso estão abaixo dos cinquenta porcento, apresentando-se aqui uma situação preocupante. Os docentes destas turmas referem uma grande falta de empenho por parte dos alunos e de persistência; c) Nos décimos anos, os resultados também não são de forma alguma razoáveis. 24 Os resultados variam entre vinte e sete e trinta e três porcento de sucesso .” “No ponto dois da ordem de trabalhos – Avaliação do terceiro período – No 2º ano do 1º ciclo, em Língua Portuguesa, 90% de sucesso (…) em Matemática 90% de sucesso. (…) No terceiro ciclo, na disciplina de Língua Portuguesa, no sétimo ano, obteve-se uma taxa de sucesso de 91%. (…) No terceiro ciclo, na disciplina de Matemática, no sétimo ano, a taxa de sucesso foi de 81%, estando as 25 duas turmas muito próximas desta média. ” “No segundo ponto da ordem de trabalhos – Foram apresentados os resultados da avaliação interna do primeiro período (…) verifica-se o seguinte: no terceiro ciclo, a taxa média de sucesso é de sessenta e quatro porcento, sendo crescente do sétimo ano (52%) para o nono ano (81%). Neste ciclo, destacam-se 26 pela negativa, as seguintes turmas: 7ºA (35%); 7ºE (39%) e 7ºB (46%) ”. Os entrevistados corroboram esta preocupação focalizada nos resultados: “Em termos da melhoria deles [alunos do oitavo ano, turma Fénix], conseguirem estar num teste intermédio nacional conseguirem quarentas e tais, e dois ou três conseguirem positiva… para eles são algumas conquistas importantes, e até para os professores, que eu acho que eles também têm de ter esse mérito, e foi falado como um número apenas [referia-se a reunião de departamento] “É preciso ter cuidado, que aqui o oitavo E” … nada de projecto, nada de Fénix… Eu estive para intervir, mas eu pensei: “Se vou intervir, vou ter de explicar a quarenta e tal professores o projecto, porque eles não o conhecem”. (…) eles sabem lá as dificuldades que eles tinham no início! Mais um, mais um número. Sem a mínima importância sequer… “Ah, temos de combater aqui este insucesso.” (E4). 24 25 26 Excerto retirado da acta de reunião do departamento de Ciências Exactas e Experimentais, de 1/6/2011. Excerto retirado da acta de reunião do conselho pedagógico de 7/7/2010. Excerto retirado da acta de reunião do departamento de Ciências Exactas e Experimentais, de 19/1/2011. 86 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Na leitura das actas de reunião da coordenação de directores de turma, que já tínhamos enunciado previamente, e das actas de reunião de conselho de turma, lemos: “Foi lido e explicado o guião elaborado para as primeiras reuniões de CT, sendo mostrados os documentos a preencher, que ficarão disponíveis numa pasta nos computadores da sala de DT, com a designação “primeiro conselho de turma”. Em seguida foi apresentada a calendarização das 27 primeiras reuniões de CT.” ”Foi lido e explicado o guião elaborado para as primeiras reuniões de avaliação intercalar, sendo mostrados os documentos a preencher, que ficarão disponíveis no dossier “impressos” e numa pasta dos computadores da sala dos DT com a designação “segundo CT” (…) foi dito que o DT não deverá esquecer de colocar todos os documentos do PCT no dossier destinado para o 28 efeito.” “Foi lido e explicado o guião elaborado para as reuniões de avaliação do segundo período, sendo dados a conhecer os documentos a preencher, que ficarão disponíveis no dossier “impressos” e numa pasta nos computadores da sala de DT. Foi também referido que a acta para a reunião de avaliação se encontra numa pasta dos computadores da sala de DT com a 29 designação “actas”. “Deu-se continuidade à operacionalização do PCT, contextualizandoo e actualizando-o o mais possível com a especificidade da escola e com o 30 grupo turma.” “No ponto definição de estratégias ou programa de acção a adoptar pelo Conselho de Turma _ deu-se continuidade à operacionalização do PCT, contextualizando-o e actualizando-o o mais possível com a especificidade da 31 escola e com o grupo turma. ” “No ponto avaliação do Projecto Curricular de Turma – Todos os objectivos delineados no Projecto Curricular de Turma foram desenvolvidos e 32 atingidos positivamente .” “No ponto avaliação do Projecto Curricular de Turma – Todos os objectivos delineados no Projecto Curricular de Turma foram desenvolvidos e 33 atingidos positivamente .” Deste modo, evidenciam-se redundâncias e repetições desnecessárias nas ordens de trabalho e no propósito das reuniões, configurando-se uma mera repetição mecânica do que é discutido, conduzindo à burocratização dos procedimentos, de modo a certificar a realização das actividades, em detrimento da sua real qualidade; 27 28 29 30 31 32 33 Excerto retirado da acta de reunião da coordenação de directores de turma de 13/9/2009. Excerto retirado da acta de reunião da coordenação de directores de turma de 21/10/2009. Excerto retirado da acta de reunião da coordenação de directores de turma de 17/3/2010. Excerto retirado da acta de reunião do conselho de turma do oitavo ano de 20/10/2010. Excerto retirado da acta de reunião do conselho de turma do oitavo ano de 21/4/2011. Excerto retirado da acta de reunião do conselho de turma de uma turma de terceiro ano, de 21/12/2010. Excerto retirado da acta de reunião do conselho de turma da mesma turma do terceiro ano, de 28/6/2011. 87 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. sendo que as estruturas intermédias permanecem marcadas por uma cultura organizacional centralista e normativa, indutora do cumprimento de normas mais do que da produção de decisões. Este tipo de posicionamento é estranho aos princípios subjacentes à lógica do Projecto entendido como espaço aberto de participação partilhada e continuada, uma vez que parece ignorar o processo. Esperamos que, salvaguardando o esforço e o trabalho desenvolvido por alguns docentes do Agrupamento Abuja, não estejamos perante o que referenciámos no capítulo 1: uma inovação de carácter burocrático ou segundo Roldão (2008) uma “burocraticidade inovativa”. 7.6. Desenvolvimento profissional Com a presente categoria, pretendemos conhecer de que forma o Projecto Fénix estimulou o desenvolvimento profissional docente, consubstanciando-se neste contexto, na finalidade de os professores se tornarem mais aptos a orientar o ensino adaptado às necessidades e interesses de cada aluno e a colaborar para a melhoria da escola, realizando-se pessoal e profissionalmente. 7.6.1. Formação/contexto de trabalho Foi nossa intenção saber se, com o Projecto Fénix, os actores educativos percepcionaram e concretizaram oportunidades de formação em contexto. 88 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Gráfico 10.1. As dinâmicas do conselho de turma foram as adequadas para o desenvolvimento e aperfeiçoamento do Projecto Fénix 15 10 Gráfico 10.2. O Projecto Fénix promove o envolvimento e a participação activa de todos os docentes concordo totalmente 20 concordo 15 discordo 5 concordo totalmente concordo 10 discordo 5 não sei/não responde 0 0 Gráfico 10.3. O Projecto Fénix desenvolve a capacidade de confrontar e negociar ideias e experiências entre os intervenientes 20 15 concordo totalmente concordo 10 discordo 5 discordo totalmente 0 Parece destacar-se dos resultados obtidos que os respondentes reconhecem que, com as dinâmicas que gerou, o Projecto Fénix pode ser responsável pela participação activa de todos os docentes (Gráfico 10.2.) dos conselhos de turma em que o Projecto foi desenvolvido, no sentido que estimulou a capacidade de confrontar ideias e experiências entre os intervenientes (Gráfico 10.3.). Contudo, a partir da análise dos dados relativos ao item de as dinâmicas do conselho de turma terem sido as adequadas para o desenvolvimento e aperfeiçoamento do Projecto Fénix (Gráfico n.º 10.1.), os professores não foram tão consistentes nas respostas. Esta posição, provavelmente, será reveladora de insegurança por parte dos protagonistas que ainda se refugiam no cumprimento estreito das normas e dos regulamentos cingidos à hegemonia de uma “operacionalização documental” induzida pelas estruturas de liderança34, que, na 89 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. nossa opinião, inibem o seu papel como agentes da mudança (Elias, 2008, p. 126), não legitimando o conhecimento profissional construído como uma oportunidade para uma formação em contexto. 7.6.2. Formação e profissionalidade docente Nesta subcategoria, pretendemos analisar como os professores intervenientes no Projecto Fénix, no Agrupamento Abuja, percepcionam a formação e o desenvolvimento profissional. Gráfico 11.1.A formação desenvolvida no âmbito do Projecto Fénix foi pertinente 12 concordo totalmente 10 concordo 8 Gráfico 11.2. O Projecto Fénix favorece a formação dos intervenientes no projecto 10 concordo totalmente 8 concordo 6 6 discordo 4 2 não sei/não responde 0 discordo 4 2 não sei/não responde 0 Gráfico 11.3. A monitorização por parte de entidades externas (coordenação Fénix-Beiriz) contribui para um melhor ajustamento do Projecto Fénix 12 10 8 concordo totalmente concordo 6 discordo 4 2 0 não sei/não responde 34 “No que concerne ao terceiro ponto da ordem de trabalhos, a presidente da reunião apresentou a calendarização das reuniões de avaliação de primeiro período para os três ciclos de escolaridade. (…) Solicitou aos coordenadores de departamento que informassem os professores sobre a necessidade do preenchimento dos documentos que em seguida se registam, antes das reuniões de conselho de turma, a saber: cumprimento de programas, identificação de dificuldades/estratégias de remediação para os alunos que não atinjam aproveitamento satisfatório, propostas de frequência de aulas de apoio pedagógico acrescido para o próximo período, relatórios das aulas de apoio pedagógico acrescido, justificação do professor da disciplina em que se verifique insucesso superior a cinquenta porcento”. (Excerto da acta de reunião de conselho pedagógico de 2/12/2009). 90 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Gráfico 11.4. O acompanhamento por parte de entidades externas (Universidade Católica Portuguesa) contribui para um melhor ajustamento do Projecto Fénix 10 concordo totalmente 8 concordo 6 discordo 4 2 não sei/não responde 0 Gráfico 11.5. A monitorização por parte de entidades externas (DREL) contribui para um melhor ajustamento do Projecto Fénix 10 8 concordo totalmente 6 concordo discordo 4 discordo totalmente 2 não sei/não responde 0 Incidindo a nossa análise, em primeiro lugar, às respostas obtidas nas primeiras dimensões, verificamos que as opiniões se dividem quanto à formação disponibilizada pelo Projecto Fénix ter sido pertinente (CF. Gráfico 11.1.) e relativamente à hipótese de se revestir de um carácter formativo para os intervenientes no projecto (Cf. Gráfico 11.2.). As vozes dos entrevistados relativamente às sessões de formação no âmbito do Projecto, auxiliam a sua percepção: “Formação em termos do projecto Fénix, em si… uh… Este ano, não tive muito conhecimento. O ano passado tive mais. O ano passado houve duas ou três reuniões, que fomos mais, do que só eu ou a [nome da coordenadora do projecto]. Mas há muita dificuldade em ter aqui a dispensa de serviço… (…)Os outros colegas, eu não tive conhecimento que tivessem ido a qualquer formação.(…) Eu não sei sequer se as estruturas de liderança participaram em alguma, com a excepção da coordenadora. E mesmo este ano, eu penso que a coordenadora não participou em muitas formações. Não, ela não esteve presente em muitas.” (E4). “Houve, houve. Houve acções de formação em que estiveram envolvidos, quer a coordenadora do projecto quer os professores, principalmente de Matemática e de Língua Portuguesa. (…) Formação, nenhuma. Não tive disponibilidade. Apenas estive nessa reunião, que considero uma acção de formação…” (E2). 91 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. “Eu acho que nós devíamos todos, obrigatoriamente, o conselho de turma estar presente nessas formações… e eu já nem digo específicas, digo gerais… formações para saber quais são as práticas nas outras escolas, como é que eles se reúnem, quantas vezes reúnem, porque são as boas práticas que depois nós podemos adoptar. E considero que devia ser obrigatório, o órgão de gestão também estar, porque são eles que depois podem organizar os nossos horários, organizarem reuniões, deixarem-nos mais livres de algumas dessas tarefas. (…)Há colegas do conselho de turma que nunca foram a uma única reunião, nunca ouviram ninguém falar da prática .” (E4). Parece-nos que a reduzida ou nenhuma participação nas sessões de formação, não advogam favoravelmente as representações dos professores sobre aquelas. Concomitantemente, a falta de participação dos intervenientes directamente implicados no desenvolvimento do Projecto Fénix no Agrupamento Abuja, justifica o silêncio dos inquiridos (6 a 8 não sabem ou não respondem) e a realidade distorcida relativamente à formação desenvolvida, acompanhamento e monitorização por parte da equipa responsável (Cf. Gráficos n.º 11.3. e 11.5.) e por instituições do ensino superior (Cf. Gráfico n.º 11.4.). Para além da reduzida participação de todos os intervenientes nos vários momentos de formação e partilha proporcionados pelas estruturas acima enunciadas, é de salientar como alguns dos actores percepcionaram o apoio disponibilizado: “As professoras fizeram o ponto da situação das aulas da turma Fénix, tendo em conta alguns aspectos abordados na reunião com a equipa coordenadora do projecto Mais Sucesso Escolar realizada, ontem de manhã, na biblioteca da escola. “As docentes foram unânimes em considerar que, se por um lado, a equipa ministerial apresentou algumas sugestões enriquecedoras, fruto do trabalho no terreno noutras escolas, por outro lado, adoptou uma postura pouco pedagógica, fazendo, por vezes, “tábua rasa” do trabalho que estava a ser desenvolvido na nossa 35 escola”. Percebemos que, salvo algumas excepções no caso em estudo, a profissão professor esvaziar-se-á enquanto se mantiver numa relação de divórcio entre a teoria e a prática, se não encarar as escolas como “lugares onde os professores aprendem” (Canário, 1995, p.6), se os docentes não aperfeiçoarem o seu conhecimento e competência profissional, numa relação cada vez mais estreita entre a teoria e prática, 35 Excerto retirado do memorando das reuniões semanais das docentes de Língua Portuguesa da turma Fénix do terceiro ciclo, datado de 9/3/2010. 92 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. já que este conhecimento é a chave para legitimar a sua autonomia e eficácia profissional (Fullan in Elias,2008, p. 125). Parafraseando Roldão (2005, pp.108-126), não se trata, assim, de criticar para culpabilizar – o que nos conduziria à gratuitidade da opinião - mas de compreender para saber agir – o que nos aproxima da valia do conhecimento. Defendemos a importância das parcerias entre a Universidade e a Escola, em virtude de contribuírem para uma mudança de paradigma na configuração do desenvolvimento profissional . A corroborar, Alonso (1999) considera que este novo paradigma é, “(…) uma forma de possibilitar uma melhor integração entre a formação teórica e prática, entre formação e investigação, entre desenvolvimento profissional e o desenvolvimento da escola, ultrapassando o academicismo e autocentração tradicional da Universidade e da formação que proporciona aos professores”. (p.302) 7.6.3. Partilha de saberes construídos Com a análise desta subcategoria, foi nossa intenção entender se o Projecto Fénix induziu a aprendizagem colaborativa em detrimento da individual, permitindo a construção partilhada do conhecimento. Gráfico 12.1. Com o Projecto Fénix releva-se a aprendizagem colaborativa sobre a individual possibilitando a construção partilhada do conhecimento 20 15 10 5 concordo totalmente concordo discordo 0 É praticamente unânime que o Projecto Fénix promoveu a colaboração que, por seu turno, contribuirá para que os docentes se afastem do individualismo impeditivo da emancipação já por nós referida. 93 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. 7.6.4. Comunicação das mudanças na praxis Decorrente da subcategoria anterior, considerando que os professores foram construindo conhecimento, pretendemos entender se a matriz do Projecto Fénix promoveu a elaboração de registos escritos pelos docentes, referentes às suas experiências e mudanças nas práticas pedagógicas. A necessidade de se realizarem esses registos está associada à ideia de que determinados saberes para se tornarem em conhecimento deverão ser escritos. De acordo com Matias Alves (2010), “Este novo modelo didáctico precisa de instrumentos de suporte à regulação (e desenvolvimento) da acção: grelhas de registos das movimentações dos alunos entre grupos; matrizes de planificação de natureza disciplinar e interdisciplinar; diários de bordo sobre as práticas docentes; diários de bordo a escrever pelos alunos; grelha 36 de registo de incidentes críticos…”. Também Alarcão e Roldão (2008) sublinham a relevância da substituição de uma resistência à escrita reflexiva por uma adesão à escrita, para que se produzam mudanças nas metodologias de trabalho: “(…) no modo de registar, de sistematizar leituras, de organizar ideias no papel, de colocar questões, de se avaliar o que mudou e no que agora se sente, por comparação com um tempo anterior. (p.47) Gráfico 13.1.O Projecto Fénix conduziu à necessidade de os professores fazerem registos escritos das suas experiências/mudanças nas práticas pedagógicas 14 12 concordo totalmente 10 concordo 8 discordo 6 4 discordo totalmente não sei/não responde 2 0 As opiniões dos inquiridos são divergentes no que concerne a esta dimensão (Gráfico n.º 13.1.) A partir da análise documental, não encontrámos evidências que comprovem o registo escrito de experiências ou práticas pedagógicas. Certamente 36 In Nota de síntese reflexiva, Encontros Regionais Projecto Matriz Fénix. 94 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. neste aspecto, como noutros que abordaremos a seu tempo, urge a necessidade de (re)conceptualizar práticas pedagógicas. Fundamentamos esta opinião quer na experiência pessoal e vivenciada no ambiente em estudo, quer nos documentos que lemos e que, eventualmente, podem ser considerados pelos professores como registos das práticas pedagógicas37 - 38. 7.7. Consequências da implementação do Projecto Fénix no sucesso escolar Outra categoria que era nossa intenção conhecer, relacionava-se com as consequências da implementação do Projecto Fénix no sucesso escolar do Agrupamento Abuja. Foi organizada em doze subcategorias, estruturadas em dimensões sinalizadas nos gráficos de 14.1. a 25.3. e nas figuras 1, 2 e 3. 7.7.1. No sucesso académico dos alunos Na presente subcategoria, para melhor percebermos as consequências da implementação do Projecto Fénix no sucesso académico dos alunos, efectuámos uma análise longitudinal dos resultados ao longo do presente ano lectivo (cf. Figuras 1, 2 e 3). Referimos limitações no nosso estudo relativamente ao acesso a dados estatísticos do ano lectivo transacto, embora seja de relevar que se tivéssemos acesso a esses dados as variáveis não seriam idênticas, em virtude de não se manter o mesmo grupo de alunos na turma de terceiro ciclo (passível de proceder a uma análise quantitativa de classificações, que a avaliação das turmas do primeiro ciclo não permite). 37 “Quanto à metodologia aplicada nos grupos Ninho da turma Fénix do 8º ano de escolaridade foi similar à do 3º ano de escolaridade: um ensino mais individualizado, a partir da realidade do aluno e tendo em consideração o seu ritmo de aprendizagem”. (Excerto retirado do relatório elaborado pela coordenadora do projecto Mais Sucesso Escolar, de 12/7/2011). 38 “As actividades desenvolvidas com o aluno foram: treino e consolidação da leitura e expressão escrita; desenvolvimento da compreensão e interpretação oral e escrita; leccionação de conteúdos do funcionamento da língua e exercícios de consolidação. O aluno revela falta de maturidade e de confiança na realização das tarefas escolares e como consequência falta de autonomia. É uma criança demasiado inquieta e tem dificuldade em se concentrar. Tem uma leitura pouco expressiva e demonstra dificuldade na produção de textos escritos. Tem preocupação em escrever sem erro, solicitando a ajuda constante do professor. No funcionamento da língua não domina todos os conteúdos leccionados porque não investe no seu estudo fora da sala de aula. Muitas vezes não realiza os trabalhos de casa.” (Relatório de frequência do projecto Mais Sucesso Escolar referente a um aluno do 3º ano, de 21/12/2010). 95 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Figura 1 – Representação gráfica dos níveis de sucesso/insucesso por disciplina – 1º período Figura 2 – Representação gráfica dos níveis de sucesso/insucesso por disciplina – 2º período 96 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Figura 3 – Representação gráfica dos níveis de sucesso/insucesso por disciplina – 3º período Observamos que no 1º período, nas disciplinas intervencionadas, os níveis de sucesso foram de 48 % em Língua Portuguesa e de 61 % em Matemática. Nas restantes disciplinas, registou-se menor sucesso em Inglês (35% de sucesso), História (35% de sucesso) e Ciências Naturais (52% de sucesso). No 2º período, verificamos que nas disciplinas intervencionadas os níveis de sucesso aumentaram, sendo que foi de 70 % em Língua Portuguesa e de 74 % em Matemática. Nas restantes disciplinas, registou-se menor sucesso em Inglês (52% de sucesso), História (48 % de sucesso) e Francês (57% de sucesso), havendo a salientar que na disciplina de Ciências Naturais o sucesso passou para 78%, que a Inglês e a História se verificou um aumento, muito embora o sucesso na disciplina de Francês39 tenha passado de 65% no 1º período para 57% no 2º período. No 3º período, atentamos que nas disciplinas intervencionadas os níveis de sucesso continuaram a aumentar, sendo que foi de 91 % em Língua Portuguesa e de 78 % em Matemática. Nas restantes disciplinas, que ao longo do ano apresentaram resultados mais baixos, o sucesso também mostrou uma considerável evolução, uma vez que na disciplina de Inglês foi de 70 %; 74% em Francês; 79% em Ciências Naturais; 52% em História. É de destacar os 100% de sucesso nas disciplinas de Ciências Físico39 Não se encontrou qualquer referência nas actas de conselho de turma sobre os motivos que poderão ter conduzido a este decréscimo. 97 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Químicas, Educação Musical, Educação Física, e às áreas curriculares não disciplinares de Estudo Acompanhado e Área Projecto. Gráfico 14.1.A implementação do Projecto Fénix contribuiu para a melhoria dos resultados escolares dos alunos (ano lectivo 2009/2010) 10 8 6 concordo totalmente concordo discordo 4 2 discordo totalmente não sei/não responde 0 Gráfico 14.2.A implementação do Projecto Fénix contribuiu para a melhoria dos resultados escolares dos alunos (ano lectivo 2010/2011) 12 10 8 concordo totalmente 6 concordo 4 não sei/não responde 2 0 É evidente que na apreciação dos respondentes o Projecto Fénix contribuiu para a melhoria dos resultados escolares dos alunos, revelando uma opinião mais consistente relativamente ao segundo ano do Projecto no Agrupamento (Gráficos n.ºs 14.1. e 14.2.). A melhoria dos resultados é corroborada em alguns dos documentos que analisámos: “Foi referido que o projecto tem tido grande sucesso, uma vez que se nota uma melhoria apreciável em todos os alunos integrados, melhoria que, em alguns casos, se consegue identificar por um menor absentismo dos alunos e pela melhoria do seu comportamento e aproveitamento. Todos os docentes referiram que se sentem 98 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. muito satisfeitos com o projecto, que notam as melhorias e que apenas têm algumas 40 dificuldades com o espaço físico onde têm de trabalhar com os diversos ninhos”. Como primeira hipótese explicativa para esta situação temos o “efeito projecto” promovendo uma dinâmica nos alunos e nos professores que transparece não só nas disciplinas intervencionadas, mas também nas outras. É de salientar as estratégias utilizadas por iniciativa do conselho de turma do terceiro ciclo, nas disciplinas de Inglês e de Ciências Naturais, que indubitavelmente favoreceram a melhoria do sucesso académico dos alunos: “Salientou-se o facto do conselho de turma e mais especificamente a docente de Inglês ter conseguido usar a sua assessoria, criando um pequeno ninho que sai da sala onde está a maioria da turma para outra sala com a assessora, de forma a rentabilizar os noventa minutos de aula semanal de uma das disciplinas em que os 41 alunos revelam muitas dificuldades.” “(…) a Ciências Naturais a professora propõe a divisão da turma em dois turnos, como já acontece com as turmas que frequentam a escola secundária. Desta forma, a atenção e concentração dos alunos melhora e há mais hipóteses de as aulas 42 serem práticas, indo ao encontro dos interesses dos alunos.” De igual modo, os nossos entrevistados declaram positivamente que: “Os resultados aumentaram… pelo menos, no sétimo ano, sim (…) mas depende muito do sítio onde se está.” (E3, aluno A). “Têm evoluído, apesar de a gente não ter atingido os objectivos no oitavo ano, a turma Fénix não baixou os seus resultados; não aumentou muito, mas manteve. Aumentou muito no ano passado, mas este ano, pelo menos, manteve. No primeiro ciclo, não. No primeiro ciclo, aumentou e bem.” (E5). “Eles são muito heterogéneos , ou seja, eles, no ano passado, estavam muito mal no início, a meio melhoraram, e no fim tiveram conquistas; no início do ano, mantiveram as mesmas conquistas, mas, no segundo período, pioraram (…) este ano foi muito cansativo… o primeiro período muito grande; o segundo muito grande; no terceiro, eles já conseguiram recuperar um bocadinho e também os professores começaram-se a aperceber que estava a correr mal, que estavam a puxar muito por eles, e voltaram mais à base e conseguiram bons resultados “. (E4). 40 Excerto retirado do relatório da reunião entre a equipa AMA-Fénix, dois elementos da DRELVT e os intervenientes do Projecto Fénix no Agrupamento, em 8/3/2010. 41 42 Excerto retirado da acta de reunião de conselho de turma de 10/2/2011. Excerto retirado da acta de reunião de conselho de turma de 1/3/2011. 99 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Gráfico 14.3.A existência dos Ninhos favorece a melhoria dos resultados escolares dos alunos 10 Gráfico 14.4.O auto-conceito académico dos alunos aumentou desde o início do Projecto Fénix 10 8 6 concordo totalmente 8 concordo 6 4 não sei/não responde 2 0 concordo totalmente concordo 4 discordo 2 não sei/não responde 0 A quase totalidade dos inquiridos reconhece que a existência dos Ninhos favorece a melhoria dos resultados dos alunos (Gráfico n.º 14.3.). Este mecanismo Fénix, que na sua matriz conceptual é uma solução temporária para colmatar dificuldades e lacunas de outros anos, é entendido como uma oportunidade de recuperar aprendizagens perdidas. Mas, como alvitra Matias Alves (2011, p.80), a permanência nesta pequena estrutura não pode ser um destino ou fim. Estar no ninho tem de significar aprender (mais rapidamente) o que ainda se não sabe, de modo a poder regressar, mais cedo ou mais tarde, à turma base. A este assunto, sobre a oportunidade de todos aprenderem a voar nos Ninhos do Agrupamento Abuja, voltaremos posteriormente. É quase consensual que o auto-conceito académico dos alunos aumentou desde o início da implementação do Projecto Fénix (Gráfico 14.4.). A comprová-lo oiçamos a sua própria voz: “Eu vou até ao décimo segundo ano, e depois não sei se vou para a universidade, ou não. É um caso a decidir.” (E3, aluno X). “(…) escolhia engenharia… não sei, há tantos cursos bonitos, mas… eu gosto muito de medicina.” (E3, aluno A). 100 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Pensamos que se o auto-conceito académico não tivesse aumentado, os alunos não teriam as expectativas representadas nos seus testemunhos. 7.7.2. Nas concepções de avaliação na praxis educativa Nesta subcategoria, direccionamos a nossa atenção para as representações dos docentes sobre avaliação. Gráfico 15.2. O Projecto Fénix contribui para a diversificação dos modos e instrumentos de avaliação Gráfico 15.1.O Projecto Fénix facilita o processo de avaliação dos alunos 15 10 concordo totalmente 20 concordo 15 discordo 5 0 10 concordo totalmente concordo 5 discordo totalmente 0 É praticamente consensual que o Projecto Fénix facilita o processo de avaliação dos alunos (Gráfico n.º 15.1.), bem como contribui para a diversificação dos modos e instrumentos de avaliação (Gráfico n.º 15.2.). Contudo, estamos muito cépticos se, na realidade, todos os docentes envolvidos diversificaram os modos e os instrumentos de avaliação. Fundamentamos este parecer com base no que ouvimos e no que nos foi possível aferir a partir da análise documental. Atentemos no discurso dos entrevistados: “As que estão implementadas na escola. Portanto, as fichas avaliativas. (…) Acho que participarem oralmente, acho que também é uma maneira como avaliam os alunos. Essencialmente é isso. No primeiro ciclo, também. À base das fichas e de participação, da maneira como os alunos correspondem oralmente. (…) Essencialmente, pelos trabalhos produzidos pelo aluno, que a gente vai vendo quais são os níveis de aprendizagem dele.” (E5). “Uh… foram efectuados os normais, as fichas de avaliação, as fichas de trabalho, as apresentações de trabalhos orais. (…) Mas, essencialmente, eu acho que, continuo a achar que nós continuamos a focar-nos muito nos critérios de avaliação que utilizamos para todas as outras turmas. Eu penso que os critérios de avaliação, aqui, 101 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. deviam ser específicos para esta turma, ou seja, deviam ter sido ou devia-nos ter sido possibilitado.” (E4). Tendo em conta o que nos foi relatado, evidencia-se alguma insegurança por parte dos professores em explicitar os modos e os instrumentos de avaliação empregues no processo de avaliação dos alunos envolvidos no Projecto Fénix, assim como denotámos alguma incoerência entre a concepção de critérios de avaliação e a[s] modalidade[s] e as práticas avaliativas utilizadas. Contextualizando, parece-nos que, inerente à problemática transversal à maior parte dos contextos educativos portugueses, a praxis educativa no Agrupamento Abuja é caracterizada pela falta de [re]conceptualização da avaliação e pelas subsequentes concepções avaliativas contraditórias. A este propósito, Roldão (2003) referencia: “No caso da escola em Portugal, e no que particularmente se refere à avaliação, a inexistência de uma cultura avaliativa, a par de uma tradição de escassa análise e reflexão curriculares na formação e na prática dos professores, e o peso de um sistema centralizado e normativo, conduzem a uma cristalização de concepções que torna difícil o questionamento.”(p.42). Como é comummente aceite, a avaliação obedece a diversas finalidades e funções. Alves (2010) menciona as maiores funções da avaliação: a de formar/orientar (avaliação formativa) e a de classificar/seriar (avaliação sumativa).Concomitantemente, o autor enfatiza: “Mas a avaliação formativa deve ser a principal modalidade e a prática mais estruturante da aprendizagem dos alunos. Porque é a que pode fazer aprender mais, se o aluno perceber os erros e compreender os caminhos da superação. Daí que este uso, esta prática de assinalar o que pode ser melhorado, sugerir os meios e as fontes de melhoria dos trabalhos realizados sejam algo de muito recomendável, se queremos colocar a acção didáctica ao serviço do desenvolvimento dos alunos.” (p. 72-73). 102 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Gráfico 15.3.O Projecto Fénix valoriza a avaliação contínua e formativa dos alunos 20 Gráfico 15.4.O Projecto Fénix favorece a auto e co-avaliação dos alunos 20 15 concordo totalmente 10 concordo 15 10 concordo totalmente concordo 5 5 0 0 Na opinião dos respondentes, o Projecto Fénix valoriza a avaliação contínua e formativa dos alunos (Gráfico n.º 15.3.), assim como favorece a auto e co-avaliação dos alunos (Gráfico n.º 15.4.). Seguindo a mesma linha do que temos vindo a referir, pensamos que o esquema de avaliação dominante no Agrupamento de Abuja espelha-se nestas dimensões. Embora os inquiridos reconheçam que matricialmente o Projecto Fénix valoriza e favorece os modos de avaliação supra mencionados, não é sinónimo que estes tenham sido assimilados nas práticas avaliativas dos docentes. Vejamos uma tomada de decisão do Agrupamento Abuja sobre o processo de avaliação: “No segundo ponto da ordem de trabalhos – Decisões sobre a realização de testes intermédios promovidos pelo Gabinete de Avaliação Educacional (…) no presente ano lectivo os testes intermédios abrangem mais disciplinas. Ficou decidido que os mesmos, além de carácter formativo, terão também um valor sumativo.” (Excerto retirado da acta de reunião de conselho pedagógico, de 27/10/2010). Analisemos, agora, o enquadramento dos testes intermédios em Portugal: “Os testes intermédios são instrumentos de avaliação disponibilizados pelo GAVE às escolas, ao longo do ano lectivo, e têm como principais finalidades permitir a cada professor aferir o desempenho dos seus alunos por referência a padrões de âmbito nacional, ajudar os alunos a uma melhor consciencialização da progressão da sua aprendizagem (…) Na sequência da avaliação da implementação do projecto em anos anteriores e, fundamentalmente, considerando as finalidades acima enunciadas, 43 é importante salientar o carácter eminentemente formativo dos instrumentos de 44 avaliação a disponibilizar.”(Fonte - GAVE). Parece-nos paradoxal que uma escola que “abraçou” um Projecto (Fénix), cuja matriz assenta numa perspectiva orientada por princípios curriculares e que preconiza o sucesso educativo centrado na avaliação formativa, tivesse decidido que testes 43 44 Nosso sublinhado. In http://www.gave.min-edu.pt/np3content/?newsId=9&fileName=Info_EE_Alunos_2010_2011.pdf 103 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. nacionais (intermédios) passassem a ter um carácter sumativo, contrariando inclusive as orientações da administração central que, como já vimos, salienta o carácter eminentemente formativo daqueles testes. A acrescentar, os alunos da turma Fénix do oitavo ano foram sujeitos à modalidade de avaliação definida no conselho pedagógico da escola, criando algum sentimento de estigmatização nos docentes que leccionam as disciplinas envolvidas nos testes intermédios, como nos é transmitido na fala dos entrevistados: “(…) em departamento quando é falado, por exemplo, o resultado das provas intermédias… eles fizeram o intermédio de Matemática, este ano… e os resultados deles foram uma média de trinta e cinco porcento (…) foi falado que havia uma turma com resultados muito baixos, independentemente de dizerem que a turma era Fénix. Sem a mínima importância sequer… Ah, temos de combater aqui este insucesso! (…) Claro que eu acho que os professores de Matemática acabam também por se sentir muito isolados e muito incompreendidos.”(E4). Cogitamos que a decisão referida favorece a situação que Roldão (2003) nos relata: “A ausência de uma visão auto-analítica permanente por parte de qualquer instituição ou organização conduz à «naturalização» de certos formatos, rotinas, modos de concretizar, que passam a adoptar-se como se fossem aquilo para que servem – ou seja, os meios e as modalizações meramente instrumentais são transformados e reproduzidos, na representação individual e colectiva, nos fins a que se destinam, com o consequente empobrecimento do desempenho da organização em causa. Por outro lado, o «uso» social de tais ritos ou formalizações atribui-lhes um estatuto de permanência que dificulta ou obscurece muitas vezes a função real a que se deveriam destinar.” (p.42). Como temos vindo a referir, o modelo organizacional do Agrupamento Abuja permaneceu praticamente inerte face à implementação do Projecto Fénix, pelo que as lógicas de acção implícitas na matriz do mesmo pouco mudaram as concepções e representações avaliativas na organização. Alves (2009), esclarecendo que é uma questão mais ideológica e não tanto técnica, sublinha: “O sucesso da avaliação formativa para além de outras variáveis, tem muito a ver com a visão pessoal, profissional e organizacional que se tem sobre a missão central da escola. Se se aceitar que essa missão é transmitir às jovens gerações o património científico que devem herdar e operar segundo o modelo meritocrático, a estratificação social mantendo as desigualdades sociais e as oportunidades de vida, 104 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. então a avaliação formativa e o ensino diferenciado têm pouco sentido e lugar na escola.” (p. 45). Revisitamos, novamente, as teorias por nós convocadas no capítulo I , sendo que o modelo de igualdade de oportunidades meritocrático gera desigualdades, contribuindo para o enfraquecimento dos alunos que não conseguem acompanhar a competição com os outros, os bons alunos. Relembramos a hipocrisia organizada e a tomada de decisões “caixote de lixo”. Se a escola preconizou a centralidade da sua missão no modelo meritocrático, a decisão de aderir a um Projecto de carácter solidamente formativo torna-se um paradoxo. Será mais uma decisão “descartável” que nem se usou e que, provavelmente, estará no mesmo “caixote” de muitas outras que foram decididas no seio de uma hegemonia híbrida. Retomamos Alves (2002): Nenhuma mudança se mantém no engano de alma, na manipulação e encenação. 7.7.3. Na participação dos alunos Outra subcategoria que nos interessava conhecer relacionava-se com a participação dos alunos no seu processo de aprendizagem. Gráfico 16.1. O Projecto Fénix estimula a participação dos alunos nas decisões sobre o seu processo de aprendizagem 20 15 10 concordo totalmente concordo 5 0 Analisando os dados, concluímos que a totalidade dos respondentes considera que o Projecto Fénix estimula a participação dos alunos nas decisões sobre o seu processo de aprendizagem (Gráfico n.º 16.1.). 105 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Este facto é corroborado pelos entrevistados: “(…) é sempre debatido, pelo menos nas áreas que eu tive com eles; os outros colegas, sinceramente, desconheço. Mas nas áreas de Formação Cívica, Área Projecto e até alguns projectos de Físico-Química, eram sempre discutidos com eles e a área de educação sexual, que era de todo o conselho de turma, foi debatido em conselho de turma, mas primeiro tinha sido debatido com eles. Portanto, o que é que iriamos fazer e depois é que eu trouxe a conselho de turma, para ver se os colegas podiam colaborar”. (E4). Confirma-se que o Projecto Fénix estimulou o princípio do envolvimento do aluno no seu processo de aprendizagem. O aluno deixa de ser um mero espectador e passa a tomar decisões e iniciativas; como actor activo aprende a responsabilizar-se pela sua aprendizagem. 7.7.4. No comportamento e na disciplina Importava-nos conhecer de que forma o Projecto Fénix tinha influenciado o comportamento dos alunos e se tinha estimulado a disciplina. Gráfico 17.2.A implementação do Projecto Fénix contribui para uma melhor relação entre os alunos nos trabalhos de grupo Gráfico 17.1. A implementação do Projecto Fénix contribui para a melhoria das relações entre os alunos 20 15 10 concordo totalmente 15 concordo totalmente 10 concordo concordo discordo 5 5 discordo 0 não sei/não responde 0 106 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Grande parte dos inquiridos é de opinião que a implementação do Projecto Fénix contribui para a melhoria das relações entre os alunos (Cf. Gráfico n.º 17.1.), bem como contribui para uma melhor relação entre os alunos nos trabalhos de grupo (Cf. Gráfico n.º 17.2.). Gráfico 17.4.A gestão comportamental em sala de aula é facilitada nos Ninhos Gráfico 17.3.A gestão comportamental em sala de aula nas disciplinas de intervenção é facilitada em relação às outras disciplinas/áreas 10 concordo totalmente 8 12 10 8 concordo 6 6 discordo 4 4 2 2 não sei/não responde 0 concordo totalmente concordo não sei/não responde 0 Verifica-se que a quase totalidade dos inquiridos considera que a gestão comportamental em sala de aula é facilitada pela escolarização induzida pelo Projecto Fénix. Esta permite a formação de outros espaços (Ninhos), em que pequenos grupos de alunos recuperam as aprendizagens perdidas. Nestes espaços, a proximidade entre alunos e professor é maior, pelo que a gestão comportamental nas disciplinas de intervenção (Matemática e Língua Portuguesa) se torna mais fácil em relação às restantes (Gráfico n.º 17.3.), e por seu turno também se encontra facilitada no pequeno grupo (Gráfico n. 17.4.). Gráfico 17.5.Os alunos que têm necessidade de frequentar os Ninhos sentem-se integrados nesses grupos Gráfico 17.6.Existem diferenças significativas para melhor, ao nível do comportamento, entre as disciplinas para as quais existem Ninhos e as restantes 15 10 concordo totalmente concordo 5 0 8 6 4 concordo totalmente concordo não sei/não responde 2 0 107 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. A confirmar que os alunos com necessidade de frequentar os Ninhos se sentem integrados nesses grupos (Cf. Gráfico n.º 17.5.), destaca-se a voz dos entrevistados: “Para nós é mais fácil, estamos separados. Não há tanto barulho, tanta distracção, estamos mais concentrados.”(E3, aluno A). De igual forma, é corroborada a opinião dos inquiridos relativamente às diferenças e consequente melhoria no comportamento dos alunos, entre as disciplinas em que existem Ninhos e as restantes (Cf. Gráfico n. º 17.6.): “ Desde que estamos distribuídos pelos ninhos e pela turma, claro que é diferente. Melhorou.” (E3, aluno B). Neste caso, a ausência de resposta de determinado número de inquiridos, poderá decorrer de termos solicitado aos inquiridos para responderem se tivessem condições de comparar, o que para os sete professores do primeiro ciclo da nossa amostra era um pressuposto (Cf. Gráfico n.º 17.6). Gráfico 17.7.A possibilidade de recorrer a um técnico social é eficaz para a resolução de problemas comportamentais na sala de aula Gráfico 17.8.O carácter mais homogéneo ao nível das aprendizagens dos alunos da turma Fénix contribui para melhor ambiente em sala de aula 10 8 concordo totalmente 15 6 concordo 10 discordo 5 concordo totalmente concordo 4 2 discordo 0 0 Gráfico 17.9.O Projecto Fénix contribui, de forma geral, para a melhoria da auto-estima dos alunos 15 10 concordo totalmente concordo 15 10 5 5 0 Gráfico 17.10.Os alunos abrangidos pelo Projecto Fénix sentem-se integrados nas turmas não sei/não responde concordo totalmente concordo 0 108 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Prestámos atenção aos inquiridos que discordavam do facto de o carácter mais homogéneo ao nível das aprendizagens dos alunos ter contribuído para melhor ambiente em sala de aula (Cf. Gráfico n.º 17.8.). Pensamos que os professores acreditam que a homogeneidade das aprendizagens seja um factor positivo para a ambiência vivida na sala de aula. Contudo, reflectimos e equacionámos que o que não se conseguiu foi a constituição de turmas acautelando-se o princípio da homogeneidade relativa. Encontrámos registos que comprovam o enunciado: “Como directora de turma, sinto que a turma é demasiado grande (27 alunos) e demasiado heterogénea. A turma apresenta alunos que têm muitas dificuldades mas que se sentem muito inibidos para as tirar, porque os elementos com menos dificuldades são indisciplinados, e desautorizam os professores em algumas aulas. Existem ainda alguns alunos que embora não sendo indisciplinados, são agitados, irrequietos e desatentos, apresentando muitas dificuldades por esse motivo. 45 Temos alunos que parecem estar deprimidos, desmotivados e desinteressados.” A concordância sobre o facto de o Projecto Fénix contribuir, de uma forma geral, para a melhoria da auto-estima dos alunos é inegável (Cf. Gráfico n.º 17.9.). Verificamos total concordância relativamente à assunção de que os alunos abrangidos pelo Projecto Fénix se sentem integrados nas turmas que se envolvem neste novo modelo didáctico (Cf. Gráfico n.º 17.10.). 7.7.5. Nas aprendizagens dos alunos Tendo sido a principal razão do nosso trabalho a descoberta de sentidos e práticas promocionais de sucesso pelo Projecto Fénix, teria toda a acuidade interessarnos pelas aprendizagens dos alunos e, legitimamente, nos processos do ensinar ao aprender. Gráfico 18.1. A criação das turmas Fénix contribui para uma melhoria do processo de ensino-aprendizagem 15 10 concordo totalmente 15 concordo 10 5 discordo 0 45 Gráfico 18.2. A criação dos Ninhos contribui para uma melhoria do processo de ensino-aprendizagem concordo totalmente concordo 5 0 não sei/não responde Excerto retirado do relatório da directora de turma do terceiro ciclo, de Novembro de 2009. 109 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Pela leitura dos gráficos, é possível verificar uma relação de consistência entre as representações que os inquiridos têm sobre a criação das turmas Fénix (Cf. Gráfico n.º 18.1.) e dos Ninhos (Cf. Gráfico n.º 18.2.), no sentido de ambos contribuírem para uma melhoria do processo de ensino-aprendizagem. O discurso dos entrevistados vem reforçar aquelas premissas, revelando, no entanto, uma face que o questionário por inquérito não conseguiu desocultar: “Algumas dificuldades deles, que eram os métodos de estudo, já conseguem, já perceberam o seu próprio método de estudo; o que eu acho que é uma conquista deles… nem que seja no fim do nono ano, mas eles saberem como é que se estuda… o seu próprio método, a maior parte já conseguiu. E lá vamos nós à chapa gasta, que é: Vamos mudar estratégias; eles não têm métodos de estudo. Então o que é que vamos fazer para o ano? Fazer com que eles adquiram métodos de estudo… Isto já está formatado, nós temos estas estratégias na pen e passamos todos os anos, e acabou…” (E4). A expressão ensino-aprendizagem, hoje profusamente utilizada, parece resumir toda a dinâmica estabelecida entre o aluno e o professor. Contudo, o que é o processo de ensino-aprendizagem? Concordamos com Roldão (1999), sendo que ensinar constitui-se como fazer aprender alguma coisa a alguém. Conforme as representações do entrevistado, e tomando como exemplo o facto por ele mencionado, os alunos mantém dificuldades que, na opinião dos professores, não ultrapassam porque não têm métodos de estudo. O mesmo entrevistado acrescenta que essa grave lacuna, a competência que permita ao aluno desenvolver métodos de trabalho e de estudo, vai sendo transferida transversal e verticalmente pelo discurso dos docentes ao longo do percurso escolar dos discentes. Assim, destaca-se da análise documental: “Tal como foi já repetidamente mencionado, os alunos desta turma apresentam muitas dificuldades relacionadas com a compreensão e interpretação de ideias, expressão escrita e oral, raciocínio lógico e/ou abstracto, domínio do cálculo e graves lacunas na apreensão e aplicação dos conhecimentos. Para além destas dificuldades, apresentam falta de hábitos e métodos de trabalho/estudo, apresentam um desinteresse pelo estudo, não realizando a totalidade dos trabalhos propostos. Não revelam interesse nem empenho na superação das suas dificuldades, 46 apresentando baixas expectativas quanto ao seu processo de ensino-aprendizagem”. 46 Excerto retirado da acta de reunião de conselho de turma do oitavo ano, de 1/3/2011. 110 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. A acção que se espera do professor é que ensine, ou seja, faça aprender alguma coisa. Esta acção não pode existir por si só, necessitando de destinatários (aqueles que justificam a intervenção educativa do professor) – os alunos. Assim, embora apareçam referidos nos discursos quase sempre em paralelo, com a expressão ensinoaprendizagem, isso não quer dizer que um implique o outro (Lourenço, in Roldão, 2005, p. 66). A mesma autora sublinha que, “(…) uma vez que se encontram em diferentes posicionamentos, tratando-se de diferentes sujeitos da acção, o ensinar não conduz automaticamente ao aprender, já que podem existir interferências entre o acto de ensinar e o acto de aprender, provenientes dos dois pólos em interacção que anulam ou prejudicam todo o processo.” (p.66) Neste contexto e em relação ao registo documental supra mencionado, obviamente que é importante que os alunos adquiram métodos de trabalho e de estudo, que revelem interesse pelo estudo e pela concretização das tarefas propostas. Mas, desejavelmente, o professor t[em]erá de orientar o processo de ensinoaprendizagem, conduzindo os alunos ao saber, motivando-os de forma a elevar as respectivas expectativas. De acordo com Moreira (2010): “Este Projecto [Fénix] assentou na expectativa de que [os] alunos teriam melhores condições para aprender, concretizando o que a literatura designa por efeito pigmaleão – a melhoria da aprendizagem provocada pela elevação das expectativas do professor e dos próprios órgãos de gestão.” (p. 107) Se o profissional docente se demitir da sua função de guiar os seus alunos nos caminhos por vezes sinuosos da aprendizagem, o professor confronta-os com um passaporte para o irremediável insucesso que os espera. (Lourenço, p. 67) Apresentamos outro registo da nossa análise documental: “A directora de turma mencionou que esta turma se tem mostrado no decorrer do Projecto de Educação Sexual, dinâmica, dedicada, e que alguns alunos são bastante voluntariosos e criativos, participando activamente em trabalhos práticos para os quais foram e são motivados devidamente, aplicando assim os seus conhecimentos de forma surpreendente.” 47 47 Excerto retirado da acta de reunião de conselho de turma do oitavo ano, de 10/2/2011. 111 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. À priori, o sujeito parece estar a referir-se a outra turma… mas não; é a mesma turma, são os mesmos alunos, só o professor é a variável. Salientamos que neste registo se elencaram algumas das palavras-chave que contribuem para um processo de ensino-aprendizagem resoluto: criatividade, participação, motivação. Pretendendo saber o que acontecia para que a concepção da turma fosse diferente quando mudava o agente discursivo, encontrámos o seguinte: “A forma como tenho lidado com esta turma na minha disciplina tem sido produtiva, talvez porque gostem da disciplina (Ciência Físico-Químicas) que é nova para eles e porque tento entusiasmá-los, mas também porque não tenho aulas de 90 minutos, só de 45 minutos, o que evita tempos mortos, que para eles são factores de 48 distracção.” Assim sendo, a opinião deste entrevistado vem confirmar que o Projecto Fénix promove a melhoria das aprendizagens dos alunos, desde que a acção docente tenha em conta de entre um alargado conjunto de ingredientes (Matias Alves, 201049) os seguintes: • • • “Uma gestão flexível dos tempos individuais de aprendizagem: nem todos os alunos aprendem no mesmo tempo. Daí ser necessário conhecer esse tempo específico, proporcionar actividades congruentes com os perfis emocionais e cognitivos dos alunos pois o sentido pessoal da escolarização passa, muitas vezes, por aí; Optimização do tempo em tarefa por parte dos alunos, isto é, o tempo de aula, tem de ser um tempo de trabalho activo, implicado, produtivo. A repetição, a recepção passiva, a uniformidade de tarefas gera o tédio e a indisciplina, numa palavra, o grau zero de aprendizagem; Desenvolvimento de uma relação pedagógica exigente, empática, estimulante, que faz crer que os alunos são capazes de aprender e que a aprendizagem é um bem essencial (…). Gráfico 18.3. Com o Projecto Fénix os alunos conseguem compreender melhor os conteúdos leccionados 15 10 Gráfico 18.4.O Projecto Fénix valoriza e facilita o trabalho de grupo 20 concordo totalmente 15 concordo 10 concordo totalmente concordo 5 5 discordo 0 0 48 49 Excerto retirado do relatório da docente de Ciências Físico-Químicas, de Novembro 2009. In Nota de síntese reflexiva, Encontros Regionais Projecto Matriz Fénix. 112 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. No que se reporta ao Projecto Fénix auxiliar os alunos na melhor compreensão dos conteúdos leccionados (Cf. Gráfico n.º 18.3.), destaca-se que a maioria dos respondentes o confirmou. Esta evidência é corroborada por este entrevistado: “ (…) se não tivesse o projecto, nós tínhamos resultados desastrosos… e não é só a Português e Matemática. A desmotivação deles é tanta, que muitos deles estariam em situação de abandono. Acredito que estariam arredados, praticamente, das aprendizagens. Sem o projecto, não conseguiam metade das conquistas que conseguiram até agora… até em termos pessoais, da sua auto-estima.” (E4). Gráfico 18.5.O Projecto Fénix desenvolve a autonomia dos alunos 15 concordo totalmente 10 concordo 5 discordo 0 No que concerne ao Projecto Fénix desenvolver a autonomia dos alunos, a maior parte dos respondentes confirma-o. As opiniões divergentes talvez decorram do que já referimos, da falta de alguns ingredientes necessários à renovação do modelo didáctico: se o tempo de aula não se concretizar em trabalho activo, implicado e produtivo, certamente que o desenvolvimento da autonomia dos alunos lhe será proporcional, isto é, nulo. Gráfico 18.6.Com as turmas Fénix os alunos sentem-se mais confortáveis para exporem dúvidas ou colocarem questões 14 12 concordo totalmente 10 concordo 8 6 discordo 0 12 10 8 6 4 4 2 Gráfico 18.7.Com os Ninhos os alunos sentem-se mais confortáveis para exporem dúvidas ou colocarem questões não sei/não responde 2 concordo totalmente concordo não sei/não responde 0 113 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Destaca-se que, com as turmas Fénix e e com os Ninhos, os alunos sentem-se mais confortáveis para exporem dúvidas ou colocarem questões (Cf. Gráficos n.ºs 18.6. e 18.7.). E é nesta linha que emerge a opinião deste entrevistado: “As duas [alunas] que integraram a turma, são alunas extremamente sossegadas, até caladas demais, pouco participativas, sem sequer dizerem quais as dificuldades que tinham, e quando integradas nesta turma, ganharam protagonismo… que é o que acontece nesta turma, eles têm essa capacidade de aceitar qualquer elemento que venha, e aceitá-lo e sentem-se tão à vontade que já esclarecem dúvidas, que já participam; coisa que numa turma dita normal, com alunos muito bons, inibiamse… e nesta turma, não; sentem-se muito bem, por ter sido aceites. É uma coisa muito boa da turma, em termos emocionais, eles amparam-se uns aos outros.” (E4). Vimos que ensino e aprendizagem integram um processo que envolve dois intervenientes: professor e aluno. Nesse processo, ambos têm papéis activos, competindo ao primeiro ser orquestrador de saberes e orientar o aluno na direcção do conhecimento. Constatámos que, de certa maneira, alguns docentes adoptam uma postura de anulação da sua função, atribuindo especial relevância à responsabilidade intrínseca ao aluno quando se verifica ausência de aprendizagens. À giza de síntese, considerando que só se ensina alguma coisa a alguém se essa for a máxima prerrogativa da acção educativa, iremos, em seguida, tentar perceber o impacto do Projecto Fénix noutro factor implícito ao acto de ensinar – as práticas educativas. 7.7.6. Nas práticas pedagógicas nos Ninhos Como o anteriormente referido, os Ninhos são espaços que acolhem, temporariamente (na matriz do Projecto Fénix), alunos que necessitam de apoio mais intensivo/específico/individualizado (Moreira, 2009, p. 76). Julgámos ter interesse para o nosso estudo, conhecer se nesses grupos de apoio foram utilizadas estratégias diversificadas e promotoras de sucesso, assim como verificar se era acautelado o princípio da mobilidade deste Mecanismo Fénix proporcionando oportunidades de aprendizagem a todos os alunos envolvidos. 114 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Gráfico 19.1.O funcionamento em pequeno grupo (Ninhos) permite a utilização bem sucedida de estratégias diversificadas Gráfico 19.2.É fácil gerir o processo de mobilidade entre os Ninhos e a Turma Mãe 8 15 10 concordo totalmente 6 concordo 4 concordo totalmente concordo discordo 5 não sei/não responde 0 2 0 não sei/não responde Da análise dos dados, evidencia-se que o funcionamento em Ninhos permite a utilização bem sucedida de estratégias diversificadas (Gráfico n.º 19.1.). Esta opinião é reforçada na voz deste entrevistado: “Trabalhar para um ninho como existe por exemplo em Língua Portuguesa, com cinco alunos, terá de certeza uma prática pedagógica muito diferente de um grupo de vinte e um ou vinte e dois alunos.” (E2). Contudo, outros entrevistados revelam que: “Ela [professora de Ninho] raramente deixava a gente ir ao quadro, e a gente queria ir mesmo ao quadro; e como ela tem sempre aquela velocidade de dar a matéria muito rápido, ficávamos para trás (…) Ela dizia: Ah, agora faço eu este exercício, porque vocês perdem muito tempo… E a gente raramente ia ao quadro. E, às vezes, de vez em quando, ainda é assim.” (E3, aluna A). Supomos que o testemunho anterior remete para um caso pontual, o qual, como comprovaremos, está interligado com prioridades e percepções dos professores. Relativamente à facilidade de gerir o processo de mobilidade entre os Ninhos e a Turma Mãe, há a salientar o silêncio de alguns respondentes e a discordância de outros, se bem que mais de metade da nossa amostra considere que esse processo é fácil (Gráfico n.º 19.2.). 115 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Ninho 1 (alunos envolvidos) Ninho 2 (alunos envolvidos ) 1º período Matemática (AB, BC, DE, FG, HI) (UZ, WZ, TZ, VZ, RZ, SZ) Língua Portuguesa (AA, BB, CC, DD, EE, FF, GG) ( ZA, YA, VA, UA, XA, TA, WA) 2º período Matemática Língua Portuguesa (AB, BC, NN, ZZ) (UZ, WZ, TZ, VZ, RZ, HI, PP) (TT, ZA) (UA, XA, TA, WA, KB, QB) 3º período - sem dados Tabela 2 – Mobilidade entre Ninhos e Turma Mãe do 3º ciclo – ano lectivo 2009/2010 Relativamente à mobilidade dos alunos do primeiro ciclo, no ano lectivo 2009/2010, foi impossível recolhermos dados sustentados, uma vez que não existiam grelhas de registo e as actas de conselho de docentes apresentavam referências difusas não permitindo apropriarmos o sentido de como, quem e quando: “Houve um grupo de vinte e seis alunos, do segundo ano, que frequentaram ninhos, no âmbito do projecto Mais Sucesso Escolar, usufruindo de um ensino mais individualizado na área curricular disciplinar de LP. No início do ano lectivo de dois mil e nove e dois mil e dez, para a selecção das escolas a beneficiarem de ninhos, procedeu-se à consulta das actas de final do terceiro período do ano lectivo de dois mil e oito e dois mil e nove, e fez-se um levantamento das turmas com maior número de 50 alunos propostos para apoio educativo para o ano seguinte.” 50 Excerto retirado da acta de reunião de conselho de docentes, de 21/12/2009. 116 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Ninho 1 (alunos envolvidos) Ninho 2 (alunos envolvidos ) 1º período Matemática (LO, LP, LK, LM, LT) Em Novº (FR,FE,FG, LO,LP) (YT,YU,YH,YB,YA) Em Novº- (LT, YT,YU,YH,YB) Língua Portuguesa (DE, FE, GE, IE) (ZU, DU, NU, JU, PU, YU, IU) 2º período Matemática Língua Portuguesa (FR,FE,FG,LO, PP, LK) (LT,YT,YU,YH,YB) (DE,FE, GE, IE, ZU) (DU, NU, JU, PU, YU, IU) 3º período - sem dados Tabela 3 – Mobilidade entre Ninhos e Turma Mãe do 3º ciclo – ano lectivo 2010/2011 Escolas Ninhos 1º período 2º período 3º período Turma EB1 Rosa Ninho 1 A, B A, B,C B, C F Ninho 2 D, F, G D, F, G D, F, G A H, I H, I H, I F J, K J, K J, K G L, M, N, O L, M, N, O M, N, O B P, Q, R, S, T P, Q, R, S, T P, Q, R, S, T H EB1 Azul Ninho Ninho EB1 Verde Ninho U,V,W,X U,V,W,X,Y U,V,W,X,Y A EB1 Branco Ninho Z1,Z2,Z3,Z4 Z1,Z2,Z3,Z4 Z1,Z2,Z3,Z4 A Tabela 4 – Mobilidade entre Ninhos e Turmas Mãe do 1º ciclo – ano lectivo 2010/2011 117 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Da análise das tabelas, concluímos que no ano lectivo 2009/2010 (Cf. Tabela 2), a mobilidade entre Ninhos e Turma Mãe foi a seguinte: • • • • Ninho 1 de Matemática (terceiro ciclo) – envolve 7 alunos; sendo que 2 se mantiveram no Ninho durante os 1º e 2º períodos, 1 aluno transita para o Ninho 2 no 2º período, 2 regressam à Turma Mãe no final do 1º período, recebe 2 alunos da Turma Mãe no 2º período. Ninho 2 de Matemática (terceiro ciclo) – envolve 8 alunos; sendo que 5 se mantiveram no Ninho durante os 1º e 2º períodos, recebe 1 aluno do Ninho 1 no 2º período, recebe 1 aluno da Turma Mãe no 2º período, 1 aluno volta para a Turma Mãe no final do 1º período. Ninho 1 de Língua Portuguesa (terceiro ciclo) – envolve 9 alunos; sendo que 7 regressam à Turma Mãe no final do 1º período, recebe 1 aluno do Ninho 2 no 2º período, recebe outro da Turma Mãe no 2º período. Ninho 2 de Língua Portuguesa (terceiro ciclo) – envolve 9 alunos; sendo que 4 mantém-se no Ninho durante os 1º e 2º períodos, 1 transita para o Ninho 1 no 2º período, 2 alunos regressam à Turma Mãe no 2º período, integra 2 alunos da Turma Mãe no 2º período. No ano lectivo 2010/2011, os Ninhos de apoio aos alunos do terceiro ciclo (Cf. Tabela 3) registam a seguinte mobilidade: • • • • Ninho 1 de Matemática (terceiro ciclo) – envolve 9 alunos; sendo que 1 aluno se mantém no Ninho durante os 1º e 2º períodos; em Novembro, 2 regressam à Turma Mãe, 1 aluno transita para o Ninho 2, e recebe 3 alunos da Turma Mãe que se mantém neste Ninho até final do 2º período; no 2º período, recebe 1 aluno da Turma Mãe, bem como outro aluno que já tinha transitado para a Turma Mãe em Novembro. Ninho 2 de Matemática (terceiro ciclo) – envolve 6 alunos; sendo que 4 mantém-se no Ninho nos 1º e 2º períodos; em Novembro, recebe 1 aluno do Ninho 1 que irá permanecer até ao final do 2º período, e 1 aluno regressa à Turma Mãe. Ninho 1 de Língua Portuguesa (terceiro ciclo) – envolve 5 alunos; sendo que 4 se mantém no Ninho durante os 1º e 2º períodos, e integra 1 aluno do Ninho 2 no 2º período. Ninho 2 de Língua Portuguesa (terceiro ciclo) – envolve 7 alunos; sendo que 6 se mantém no Ninho durante os 1º e 2º períodos, e transita 1 aluno para o Ninho 1 no final do 1º período. Podemos afirmar que, no terceiro ciclo, os Ninhos de Matemática (1 e 2) envolveram 15 alunos em cada ano lectivo, havendo a salientar que no ano lectivo 118 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. 2010/2011 ambos os Ninhos mantém menos alunos durante o mesmo período de tempo (1º e 2º períodos), verificando-se, também, que há mobilidade de alunos entre Ninhos e Turma Mãe sem se aguardar pelo término dos períodos lectivos. Esta situação poderá decorrer de maior confiança por parte dos professores dos Ninhos e Turma Mãe, procedendo a maior monitorização das aprendizagens dos alunos e permitindo mais mobilidade. No terceiro ciclo, os Ninhos de Língua Portuguesa (1 e 2) envolveram menos alunos no ano lectivo 2010/2011 e, contrariamente aos Ninhos de Matemática, quase que não se regista mobilidade entre Ninhos, assim como não há mobilidade entre Ninhos e Turma Mãe durante os dois períodos lectivos. A análise documental veio esclarecer que a falta de mobilidade se deve a: “Não se realizaram quaisquer mudanças de discentes entre os vários grupos que compõem a turma Fénix. No que se refere à natureza das dificuldades apresentadas ao nível das competências da Língua Portuguesa, o Ninho Um permanece um grupo heterogéneo. No entanto, o facto de serem só cinco alunos contribuiu para que continuasse a haver um apoio mais individualizado por parte da professora, factor que originou uma melhoria significativa no aproveitamento de dois discentes e uma ligeira melhoria nos resultados de outros dois alunos. Só um aluno. Apenas um dos alunos não registou a melhoria necessária para poder obter aproveitamento na disciplina, continuando a revelar grandes dificuldades ao nível da 51 Língua Portuguesa.” “No que diz respeito à natureza das dificuldades apresentadas ao nível das competências da Língua Portuguesa, o ninho 1 permanece um grupo muito heterogéneo. Nesta etapa do ano lectivo, urge que os alunos tomem consciência de que, para poderem superar as suas graves lacunas, terão de esforçar-se, trabalhando mais e fazendo sempre os trabalhos de casa. Se isto não acontecer, dificilmente poderão progredir para o nono ano de escolaridade, um ano de grande exigência em termos de domínio de todas as competências da Língua Portuguesa e que culmina em exame final.” Em relação ao primeiro ciclo, e no que concerne ao ano lectivo 2010/2011 (Cf. Tabela 4), verifica-se que praticamente não existiu mobilidade entre Ninhos e Turma Mãe ao longo do ano, com excepção de transições pontuais (3 alunos) nas escolas EB1 Rosa, EB1 Azul e EB1 Verde. Podemos concluir que a mobilidade entre Ninhos e Turma Mãe não decorreu como o previsto na matriz do Projecto Fénix – “ Por norma, os alunos não deverão estar mais do que 6 semanas no Ninho” (Moreira, 2009, p. 76). Embora não havendo 51 Excerto retirado do relatório da professora do Ninho 1, de 28/6/2011. 119 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. uma regra universal para a permanência dos alunos nos Ninhos (Alves, 2011, p. 70), pensamos que, no Agrupamento Abuja, a dificuldade sentida pelos docentes subjaz à falta de securização em relação às dinâmicas do Projecto, resultado de, como já referimos, existir uma débil articulação entre os indivíduos e entre as estruturas de liderança e, consequentemente, pela fraca monitorização do Projecto. Para Moreira (2009, p. 77) é essencial para o sucesso do Projecto que se verifique uma constante interactividade e célere comunicação entre todos os intervenientes no sentido de: • “Decidir, com base na avaliação diagnóstica, os alunos que integram os Ninhos – início do ano; • Monitorizar as dificuldades dos alunos que frequentam os diferentes Ninhos; • Delinear e ajustar estratégias de intervenção; • Articular as planificações Fénix/Ninho; • Produzir materiais pedagógicos que se ajustem às características dos alunos e que ajudem à transição harmoniosa dos alunos entre os diferentes grupos de apoio; • Articular horizontalmente o currículo – interdisciplinaridade; • Planear actividades extra-curriculares; • Elaborar e ajustar os testes conjuntos; • Monitorizar e avaliar os resultados escolares, para tomar decisões quanto à mobilidade dos alunos”. No entanto, como já foi referido pelo director de turma do terceiro ciclo, essa interactividade só se concretizava nas reuniões formais do conselho de turma (trimestralmente) e, aquando da sua realização, a maior parte do tempo era utilizado no cumprimento da supremacia burocrática. 7.7.7. Na mudança das práticas educativas Antes de começarmos a análise das dimensões subjacentes à presente subcategoria, conhecer as mudanças verificadas nas práticas educativas, citamos Alves (2011): “Substituir o aborrecimento de viver pela alegria de pensar (Bachelard), porque a acção reflectida nos faz sair das rotinas paralisantes, dos argumentos dos bodes expiatórios, que nos faz aprender, que nos faz descobrir novos horizontes, nos faz encontrar as chaves da aprendizagem, sobretudo daqueles que o não querem.” (p. 71). 120 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. É interessante constatar a divergência de opiniões dos inquiridos relativamente ao Projecto Fénix ter facilitado a quebra de hábitos e rotinas de trabalho (Gráfico nº 20.2.), a par com a plena concordância de o Projecto conduzir à mudança das situações/contextos das práticas educativas (Gráfico n.º 20.1.). Gráfico 20.1.O Projecto Fénix conduz à mudança das situações /contextos das práticas educativas 20 Gráfico 20.2. O Projecto Fénix facilitou a quebra de hábitos e rotinas de trabalho 12 10 15 10 concordo totalmente 8 concordo 4 5 6 concordo totalmente concordo discordo 2 0 0 Se bem que a totalidade dos professores admita que o Projecto Fénix promove mudanças nas práticas educativas, nem todos concordam que se tenha rompido com a rotina e com os hábitos de trabalho instalados. Encontrámos alguns testemunhos que talvez nos ajudem a compreender o cepticismo de alguns actores: “A perspectiva era sempre: Não sou eu que tenho de mudar, são eles. Ou seja, ainda há este paradigma de: Nós, aqui, damos; eles têm de se adaptar; nós até podemos mudar uma ou outra estratégia, mas se eles não estudarem , não se faz nada… eles não estudam, se não estudam os resultados não aparecem. Eu ajudei , eu dei as bases _ a perspectiva do ajudar é: eu dei as bases, eu ensinei a estudar, eu dou a matéria, eu mudei de estratégias, eu dei com power point, eu dei com quadro interactivo … as estratégias mudaram, se eles não aderem , é porque eles não estudam, é porque eles não querem saber.” (E4). Este relato demonstra que, de acordo com o que dissemos no capítulo 2, algumas práticas educativas ainda permanecem fortemente arreigadas a um modelo de escolarização do ensinar a todos como se todos fossem um só, predominantemente transmissivo, gerador de distanciamentos entre o professor e os alunos. 121 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Depreendemos que, possivelmente, a postura daqueles docentes poderá estar interligada com a preocupação de preparar os alunos para a competição que se avizinha – a avaliação externa. Os alunos pressentem a ansiedade, referindo o discurso de alguns docentes: “Tenho de dar a matéria, tenho de dar matéria…” ( E3, aluno A). “Leva aquilo tudo a eito, pronto.” (E3, aluno B). A questão dos exames institui uma preocupação desmesurada no cumprimento dos programas, para além de outros aspectos (credibilidade, fiabilidade, etc.) que não são o propósito do nosso estudo. Roldão (2003, p. 73-74), não defendendo a redução ou desaparição dos exames, contesta a natureza das provas de exame que “na nossa tradição centralista e prescritiva, têm tendido a ir ao sabor de uma prática curricular exaustiva, questionando mais o domínio de conteúdos.” Para a autora, a acrescentar a esta exigência de programas comuns, mais do que referenciais de aquisições comuns: “ Ao relacionarem-se com o ensino como o «cumprimento de um programa» - e não como a acção individual sobre um currículo pretendido através de um programa que se usa e sobre o qual se tomam decisões – os professores têm sido desapossados da sua função profissional e transformados em funcionários sem autonomia profissional. (…) Daí a dificuldade de olhar o programa naquilo que ele é – um instrumento a «usar» (entre outros possíveis), capaz de desenhar um percurso para alcançar um conjunto de aprendizagens curriculares pretendidas. Ou seja: um meio, não o fim.” (p. 28-29) É neste ponto que situamos alguns dos profissionais docentes do Agrupamento Abuja, convictos que urge «dar o programa», promovendo: “ (…) indiferença… porque a indiferença também faz a mesma coisa…o não querer saber, o dar o conteúdo e não querer saber, quem apanhou, apanhou… como, às vezes, nós costumamos dizer _ quem apanha, apanha, que não apanha, apanhasse!” (E4). E a indiferença às diferenças, considerando os alunos iguais, transformará as desigualdades em fracasso (Bordieu), o que não coexiste com o modelo didáctico 122 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Fénix. Por que «dar conteúdos, para cumprir o programa», não é sinónimo de criar níveis de sucesso diferentes ao preconizar caminhos diferenciados. Gráfico 20.3.A implementação do Projecto Fénix permitiu encontrar soluções para os problemas das práticas educativas 20 concordo totalmente 15 concordo 10 5 discordo 0 Não obstante, grande maioria dos inquiridos considera que o Projecto Fénix permitiu encontrar soluções para os problemas das práticas educativas (Gráfico n.º 20.3.). Concordamos com Marcelo (2009, p. 16), sendo que “a mudança de crenças é um processo lento, que se deve apoiar na percepção de que os aspectos importantes do ensino não serão distorcidos com a introdução de novas metodologias ou procedimentos didácticos. 7.7.8. Na satisfação dos professores A satisfação dos docentes em relação ao Projecto Fénix também mereceu o nosso interesse. Gráfico 21.2. Senti que o Projecto Fénix aumentou o meu auto-conceito profissional Gráfico 21.1. Estou satisfeito(a) com o Projecto Fénix 10 16 14 concordo totalmente 8 12 concordo totalmente 10 concordo 6 discordo 4 discordo não sei/não responde 2 discordo totalmente 8 6 4 2 0 concordo 0 123 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Maioritariamente, os professores consideram-se satisfeitos com o Projecto Fénix (Cf. Gráfico n.º 21.1.). Relativamente ao Projecto ter aumentado o auto-conceito profissional dos respondentes, revela-se alguma dispersão de opiniões (Cf. Gráfico n.º 21.2.). O facto de pensar que já se sabe tudo o que é necessário, ou que já se tem muitos anos de serviço e, por isso, já nada mais há a acrescentar ao saber profissional, poderá estar presente nas concepções de determinados docentes. Nas palavras de Formosinho (1988): “Tudo o que contribua para aligeirar a formação de professores, para minimizar a necessidade de fundamentação teórica da sua formação profissional ou para considerar a mera prática de anos de ensino como substituto da reflexão e fundamentação dessa prática será um grande contributo para a manutenção destas atitudes.” (p. 130) Mormente alguns considerem que o novo modelo didáctico nada ou pouco acrescentou ao seu auto-conceito profissional, outros há que o reconhecem como enriquecedor. A jornada inovadora de um Projecto que não subjaz a um modelo emanado pela administração central, confirmou que os professores podem ser autores, podem ser criadores de soluções à medida, podem fazer a diferença no enfrentar de problemas difíceis. (Alves, 2011, p. 68). 7.7.9. Na supervisão pedagógica Interessava-nos conhecer se o Projecto Fénix induziu a necessidade de os professores desenvolverem processos de supervisão pedagógica. Gráfico 22.1. No âmbito do Projecto Fénix os docentes solicitam acompanhamento por parte dos seus pares , nomeadamente observação de aulas 12 concordo 10 8 discordo 6 4 2 0 discordo totalmente não sei/não responde 124 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Gráfico 22.2.No âmbito do Projecto Fénix os coordenadores de departamento desenvolvem um acompanhamento próximo das práticas pedagógicas, nomeadamente observação de aulas 10 8 concordo totalmente concordo 6 discordo 4 discordo totalmente não sei/não responde 2 0 Apuramos que a maior parte dos inquiridos julga que o Projecto Fénix promoveu práticas de acompanhamento entre pares, nomeadamente na observação de aulas. (Cf. Gráfico n.º 22.1.). Por outro lado, mais de cinquenta porcento discorda da hipótese de os coordenadores de departamento terem desenvolvido a mesma lógica supervisiva ( Gráfico n.º 22.2.). Pensamos que o Projecto Fénix contribuiu para que alguns dos docentes envolvidos adoptassem práticas de supervisão, situação favorável ao conhecimento e desenvolvimento profissional. Muitos autores salientam a importância do acompanhamento supervisivo, não só na formação inicial dos professores como também num continuum próprio de sólida identidade profissional, havendo lugar a uma supervisão interpares, colaborativa. Alarcão (2008) menciona que, “As novas tendências supervisivas apontam para uma concepção democrática de supervisão e estratégias que valorizam a reflexão, a aprendizagem em colaboração, o desenvolvimento de mecanismos de auto-supervisão e autoaprendizagem, a capacidade de gerar, gerir e partilhar o conhecimento, a assunção da escola como comunidade reflexiva e aprendente, capaz de criar para todos os que nela trabalham condições de desenvolvimento e de aprendizagem.” (p. 19) 125 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Remetendo para uma célebre metáfora de Goodson (1999), é imperiosa a entrada no «jardim secreto» da acção curricular concreta e da prática docente quotidiana, uma vez que é aí que se joga o sucesso da aprendizagem e a qualidade educativa. E é assim que, em seguida, iremos centrar a nossa atenção sobre a qualidade do ensino. 7.7.10. Na qualidade do ensino A matriz conceptual do Projecto Fénix prevê que se invista numa gestão mais autónoma do currículo e, naturalmente, mais responsável pela qualidade pretendida na aprendizagem. Gráfico 23.1.O Projecto Fénix , de um modo geral, contribui para a melhoria da qualidade do ensino 12 10 8 concordo totalmente concordo 6 discordo 4 2 não sei/não responde 0 Depois da análise dos resultados, a maior parte dos respondentes considera que, de um modo geral, o Projecto Fénix contribui para a melhoria da qualidade do ensino (Gráfico n.º 23.1.). A partir de investigações realizadas, apurou-se que após a grande mudança resultante da massificação da educação, mantendo-se inalteradas as lógicas de funcionamento, as metodologias e a oferta curricular, gerou-se uma primeira vaga de acréscimo de situações de insucesso e abandono escolar. Perante tais danos, surgiu um movimento adaptativo à diversidade do público escolar que se traduziu, na opinião de Roldão (2005, p. 14) quase imperceptivelmente, num abaixamento gradual da qualidade das aprendizagens, acompanhado por uma correlativa inflação na avaliação 126 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. certificativa, como subterfúgio de recurso, usado como regulador artificial das discrepâncias encontradas. A complexidade das situações que caracteriza as sociedades do conhecimento coloca desafios a professores e a alunos que, no século XXI, requer uma abordagem qualitativamente distinta ao ensino (Andy Hargreaves, 2003, p. 10). Neste sentido, o Projecto Fénix constitui-se como um processo potencialmente adequado para articular a promoção da qualidade das aprendizagens para todos com a necessária diferenciação de abordagens. No nosso estudo, conscientes de que o conceito de qualidade é de natureza polissémica e difícil de operacionalizar, evidenciámos concepções que ainda registam alguma colagem à convicção de que diferenciar é nivelar por baixo: “ Para que os alunos revelassem interesse pelas aulas e por aquilo que lhes era ministrado, as docentes aperceberam-se de que tinham de “baixar” o nível de 52 exigência em termos de aprendizagem (…)”. Para outros diferenciar é sinónimo de facilitismo, de acordo com o que nos foi relatado: “ Senti esta grande dificuldade, de achar que a grande maioria não tem a mesma perspectiva que eu, em termos do que é que contribui para o sucesso educativo do aluno. E acharem que a maior parte do trabalho parte deles, dos alunos… Isto é muito difícil, quando há colegas com muitos anos de serviço que já têm este paradigma há muito tempo, e que não mudam; e por mais que nós façamos, continuam a achar que é tudo um facilitismo.” (E4). A literatura tem vindo a demonstrar que perante as diversidades dos alunos, a estratégia a adoptar não será o “baixar” a exigência, mas sim o despertar da crença e do reconhecimento da educabilidade do ser humano (Alves, 2011; Carneiro, 2001). A génese do Projecto Fénix visa, de entre outros objectivos, uma distribuição dos recursos mais uniforme, no sentido de elevar a qualidade do sucesso (Moreira, 2010, p. 109), conducente a uma acção educativa exigente e com rigor, compreendendo no entanto que uma exigência responsável não pode ser desproporcionada e servir para excluir (Matias Alves, 2011, p. 71). Alguns testemunhos por nós recolhidos vêm corroborá-lo: 52 Excerto retirado do relatório elaborado pelas três docentes de Língua Portuguesa, no final do ano lectivo 2009/2010. 127 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. “A minha perspectiva pessoal, e daquilo que tenho reflectido ultimamente, é que, se o que se pretende é sabermos em que sítio é que a fasquia deve ser colocada, eu entendo que a fasquia deve ser colocada no mesmo sítio que para os alunos do ensino regular, se tivesse de ser colocada… parafraseando uma colega que outro dia me dizia: Se tivesse de ser colocada face às condições que tenho, até devia ser colocada acima. Como isso não é possível, que seja colocada ao mesmo nível. Nunca se deve, no meu entendimento, descer essa fasquia e, portanto, se há aqui um desvio de percurso para fazer adaptações durante o percurso, no final a fasquia deve estar à mesma altura dos outros (…) ouvi da parte do professor [nome do responsável da Universidade Católica], nessa reunião, com o que concordo inteiramente: Se nós colocarmos a fasquia a dez centímetros do chão, banalizamos, o aluno desvaloriza; se a colocarmos a um metro e vinte, é um desafio para o aluno.” (E2). Concretizando, a qualidade do ensino depende, sobremaneira, como é referido por Hopkins (2000, p. 135-154), de práticas de ensino bem sucedidas, [que] estudadas na investigação, são recorrentemente aquelas que apostam em organizar estratégias de diferenciação autêntica para os seus diferentes estudantes. 7.7.11. Nas reflexões individuais e conjuntas Sendo o Projecto Fénix catalisador de mudanças, interessou-nos saber se as mesmas tinham sido acompanhadas de reflexões individuais e conjuntas. Gráfico 24.1.O número de sessões de reflexão/avaliação com todos os envolvidos no Projecto Fénix foi suficiente 10 8 6 concordo totalmente concordo Gráfico 24.2.O Projecto Fénix promove o trabalho conjunto , tendo-se proporcionado vários momentos(departamentos, grupos disciplinares) para reflexão individual e conjunta 14 12 10 8 4 discordo 2 discordo totalmente concordo totalmente concordo 6 4 discordo 2 0 0 Constatamos divergências nas opiniões dos inquiridos, sendo que a maior parte considera insuficiente o número de sessões para reflexão/avaliação com todos os envolvidos no Projecto Fénix (Gráfico n.º 24.1.). A necessidade de se promoverem mais momentos de reflexão é referida pelos entrevistados: 128 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. “Eu acho que, por exemplo, os casos de sucesso daquelas duas disciplinas que eu falei [Ciências Físico-Químicas e Ciências Naturais] deve-se dar maior ênfase; até porque são disciplinas que não têm ninho, e que os professores conseguiram na dinâmica da aula que, realmente, os colocou nos patamares das outras turmas. Se calhar, temos de aprender uns com outros e essa dinâmica tem que ser… Agora, esses professores é que podem dizer muito claramente como é que o conseguiram. Eu penso que isso já foi dito em contextos próprios, ainda que por vezes as pessoas tenham dificuldade e apontem causas que não são as legítimas. (E2) A(s) dificuldade(s) explicitadas no testemunho anterior, são-nos veiculadas por outro que menciona a dificuldade de se ultrapassar o mito paradigmático ainda presente: “Mas, mesmo assim, eu acho que deveriam ser mais as reuniões em que eles estariam presentes. Mas é sempre importante, porque a presença de um director, de um coordenador de estabelecimento, faz toda a diferença numa reunião… toda a diferença. O clarificar, de novo, por uma hierarquia … o que é que é preciso fazer para o projecto … De repente, toda a gente começa a perceber melhor.” (E4) Salientamos esta convicção, a de que os profissionais docentes necessitam de que lhes «seja dito o que se pretende», considerando é inibidora de uma prática profissional autónoma, informada e reflexiva. Tendo em conta as linhas teóricas antecedentes, só o desenvolvimento e o conhecimento profissional docente poderão conduzir à emancipação do professor relativamente à sua habitual representação como funcionário subserviente e cumpridor das normas. No contexto, a reflexividade poderá ser fulcral para o abandono de uma lógica de «fechamento sobre si mesmo». A reflexão certamente potenciará a capacidade de imaginar outros e novos caminhos para a acção educativa, contrariando o que nos diz este entrevistado: “A pessoa tem dificuldade em aceitar que tem a ver com uma dinâmica criada pelo colega; mais pela natureza da disciplina e menos pela dinâmica do professor instituída nas aulas.” (E2) O objectivo unificador do Projecto Fénix – garantir sucesso de qualidade – passa para além da replicação do seu modelo conceptual, exige que a organização se (re)veja como um espaço onde todos aprendem – alunos e professores, o que nos leva à subcategoria infra. 129 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. 7.7.12. Na concepção da escola como organização aprendente Segundo Kouzes e Posner (1990, p. 270), “para conseguir realizar coisas extraordinárias, é sempre necessário um grupo de pessoas a trabalharem em conjunto, com um desígnio comum, numa atmosfera de confiança e colaboração.” Este género de ethos aumenta exponencialmente as possibilidades de sucesso organizacional. Assim, interessou-nos saber se, através do dinamismo do Projecto Fénix, o Agrupamento Abuja se tinha configurado como uma organização que aprende. Gráfico 25.2.Com o Projecto Fénix utilizam-se dispositivos (formação, reuniões, troca de experiências, leituras…)para facilitar a sua contextualização Gráfico 25.1.O Projecto Fénix contribui para a melhoria da organização escolar 14 12 concordo 10 8 15 discordo 10 6 4 2 0 não sei/não responde concordo totalmente concordo 5 discordo 0 Ao analisar os dados, existem opiniões divergentes no que se refere ao Projecto Fénix ter contribuído para a melhoria da organização escolar (Cf. Gráfico n.º 25.1.). Situando-nos na linha de pensamento de Lima (2008, pp. 190-214) e de Matias Alves (2009, pp. 38-48), inspirados nos estudos desenvolvidos por Sammons, Hillman e Mortimer (1995), emerge que as escolas eficazes são organizações aprendentes quando: i) organizam o olhar sobre as suas práticas; ii) recolhem sistematicamente as evidências das suas realizações; iii) analisam de forma participada os pontes fortes e fracos; iv) consideram o erro como fonte de melhoria; v) reconhecem a mais-valia das divergências de pontos de vista; vi) integram olhares externos na avaliação das suas realizações; vii) recorrem a diversos métodos e técnicas de colecta de dados; viii) reconhecem a centralidade das pessoas na organização; ix) acreditam que podem sempre melhorar os seus processos e resultados; x) consideram que a formação dos professores deve ser realizada em contexto, na própria instituição, e focalizada nas necessidades dos docentes ao nível do trabalho na sala de aula. Sammons, Hillman e Mortimer referem ainda que a sua pesquisa sobre a eficácia da escola não deve ser encarada como um receituário milagroso, reconhecendo que iniciativas para a 130 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. melhoria da escola implicam uma atenção muito particular ao contexto específico e à compreensão da história de cada instituição. Mormente a matriz do Projecto Fénix se coadunar com as características-chave das escolas eficazes acima destacadas, parece-nos que, pelas condicionantes que temos vindo a enunciar – particularmente a lacuna de uma abordagem participativa, a qual é um dos traços distintivos das lideranças das escolas eficazes, concernente à partilha de responsabilidades e ao envolvimento da generalidade dos professores nos processos de tomada de decisão (Lima, 2008, p.195) - o Agrupamento Abuja poderia ter aproveitado a implementação da nova organização pedagógica, no sentido de suscitar maior proactividade por parte dos actores da organização escolar. A maior parte dos inquiridos considera que com o Projecto Fénix se utilizam dispositivos para facilitar a sua contextualização (Cf. Gráfico n.º 25.2.). Esta premissa parece-nos ser válida, em virtude de toda a formação externa proporcionada pela Equipa AMA Fénix e pela Universidade Católica Portuguesa, que, para além da formação oferecida nos encontros nacionais, insistentemente se deslocaram às escolas envolvidas, no sentido de proporcionar esclarecimentos e proceder a um processo constante de escuta dos professores e de outros actores educativos. Gráfico 25.3.Registou-se mudanças do 1º para o 2º ano de implementação do Projecto Fénix 12 10 8 concordo totalmente concordo 6 discordo 4 2 0 não sei/não responde A maior parte dos respondentes julga que se verificaram mudanças do primeiro para o segundo ano de implementação do Projecto Fénix no Agrupamento (Gráfico n.º 25.3.), havendo a salientar o silêncio demonstrado por alguns que, na nossa opinião, está relacionado com o facto de o segundo ano de implementação do Projecto ser o 131 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. primeiro ano em que se encontravam a leccionar no Agrupamento. A corroborar esta evidência e a partir da análise da questão aberta dos questionários, destacamos: “Houve necessidade de voltar a contextualizar o projecto, porque neste ano lectivo surgiram novos docentes e os alunos iniciaram o processo de conhecer os professores de novo com todos os constrangimentos que daí advém.” Consideramos que o constrangimento salientado reflecte a primordial importância da estabilidade do corpo docente alocado a estas turmas, pois será uma mais-valia para a securização das relações pedagógicas estabelecidas bem como para a monitorização das dinâmicas do Projecto, contribuindo, consequentemente, para que o Agrupamento se constitua como uma organização aprendente. É chegado o momento de remetermos para as conclusões finais que se apresentam no seguinte e último capítulo (capítulo VII). 132 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. CAPÍTULO VII – CONCLUSÕES E CONSIDERAÇÕES FINAIS Neste capítulo, apresenta-se uma síntese das conclusões mais significativas, implicações do estudo e sugestões para investigações futuras. Assim, pretendemos através da realização deste trabalho de investigação, tendo em conta as necessárias mudanças organizacionais que lhe estão implícitas, tirar algumas conclusões sobre o Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso, tendo por base os vários estudos publicados e, muito em especial, o trabalho empírico realizado. No estudo empírico, teceram-se algumas considerações que entendemos pertinentes relativamente à implementação do Projecto Fénix num Agrupamento de Escolas, na certeza porém de que as mesmas se reportam a um contexto específico, não podendo por isso ser generalizadas ou transpostas para outros contextos ainda que, aparentemente, similares. Seguidamente, procuraremos proceder à sistematização das conclusões da investigação realizada, desenvolvida a partir das questões de investigação formuladas e dos objectivos fundamentados a partir da literatura existente sobre a implementação de um projecto de promoção do sucesso escolar desenvolvido no Agrupamento estudado. Os resultados deste estudo permitem concluir que vários actores envolvidos no Projecto Fénix, tanto os inquiridos como os entrevistados, estimam, na generalidade, como positivo o impacto do mesmo nas condições organizacionais e educacionais do Agrupamento, havendo a salientar determinados pontos críticos sinalizados a partir do estudo realizado. No que concerne aos estilos de liderança e às relações de poder, a partir da comparação entre a análise das actas e as opiniões dos inquiridos e entrevistados, sobressai alguma falta de articulação de informação entre os órgãos, na medida em que determinado assunto é abordado por vezes num dos órgãos e no outro não, o que leva a entender que entre os vários canais de comunicação há um défice de 133 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. informação, não existindo um acréscimo qualitativo nas conclusões que deveriam ter implicações nas práticas educativas e, consequentemente, no processo de implementação do Projecto Fénix. Com o nosso estudo, confirmámos o defendido por Martins (2009), que invocando a hipocrisia organizada da actual administração das escolas, defende que a tomada de decisões está centralizada na direcção executiva. Esta acção gerencialista relega para segundo plano a capacidade de influência na globalidade dos assuntos relativos às estruturas colegiais de professores, assumindo-se que estas são espaços de justificação das decisões previamente tomadas pelo órgão de gestão e administração do Agrupamento. Quer isto dizer que, de acordo com a revisão da literatura efectuada por Sammons, Hillman e Mortimore (1995) sobre o papel das lideranças nas organizações escolares, e tal como aponta Lima (2008), se contrariou o princípio da visão e finalidades partilhadas, o qual sinaliza que as escolas são mais eficazes quando os docentes chegam a um consenso sobre as finalidades e valores essenciais da organização e os coloca em prática, através de um trabalho consistente e colaborativo, tanto na tomada de decisões, como no próprio ensino; também a unidade de propósitos e de envolvimento foi descurada, que tal como a maioria da investigação destaca, é de extrema importância a presença de uma visão partilhada para estimular as aspirações dos professores, no sentido de promover um sentido de propósito comum. A conclusão a que chegamos, de acordo com algumas entrevistas e opiniões dos inquiridos, é que a falta de conhecimento e de divulgação do Projecto Fénix prende-se, simplesmente, com a balcanização das decisões, ao modo de funcionamento díptico e ao sistema debilmente articulado da organização escolar. Quanto à organização e gestão curricular decorrente do desenvolvimento do Projecto Fénix, de acordo com as opiniões dos inquiridos e em consonância com as representações denotadas nas entrevistas, infere-se que a implementação do Projecto contribuiu positivamente para o melhor relacionamento entre alunos e professores, assim como facilitou a articulação horizontal das áreas curriculares disciplinares e não disciplinares, sendo que se verificou alguma dificuldade no plano da articulação vertical. Nota-se, contudo, alguma falta de clareza na representação dos professores relativamente à flexibilidade na gestão curricular, inferindo-se alguma rigidez na gestão curricular das diferentes disciplinas que, segundo Roldão (1999), implica um 134 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. processo de tomada de decisões a partir de uma situação apresentada e orientado para as finalidades pretendidas. Como já referimos anteriormente, a organização escolar em estudo não agregou vontades partilhadas, pelo que dificilmente se estimularam dinâmicas coerentes e alicerçadas numa unidade de propósitos. De acordo com alguns entrevistados, o Projecto Fénix é visto como um meio para melhorar a escola, todavia também realçam o aspecto demasiado burocrático em que o mesmo se desenvolveu, o que dificultou a lógica de projecto entendido como espaço de participação partilhada e continuada, parecendo o processo desconectado dos objectivos estruturais do Projecto, pelo que se infere que em determinados aspectos relativos à implementação do Projecto Fénix no Agrupamento, os mesmos se tenham revestido de uma lógica de burocraticidade inovativa. Esta evidência poderá estar relacionada com o facto de, segundo Leite (2006), existirem dificuldades institucionais para que as escolas, enquanto organizações inteligentes, reflictam colectivamente sobre si e sobre as práticas que instituem, e para que, numa voz comum, mobilizem essa aprendizagem em intervenções que envolvam e comprometam toda a comunidade na construção de um futuro que melhore a aprendizagem e a formação das crianças, jovens e adultos que as frequentam. Os testemunhos dos diferentes actores educativos demonstram que o Projecto Fénix estimulou a capacidade de confrontar ideias e experiências entre os intervenientes. No entanto, a exiguidade de tempos e de espaços comuns para trabalho conjunto foram apontados como inibidores ao desenvolvimento e aperfeiçoamento do Projecto, e voltando a citar os nossos entrevistados, o cumprimento do princípio burocrático foi marcante do ritmo da mudança, revelandose como o constrangimento que mais preenche o agir do Agrupamento, pelo que, como temos vindo a evidenciar, indicia uma apropriação tendencialmente técnicoburocrática da inovação, não legitimando o conhecimento profissional construído ou a construir. Verificámos neste estudo que alguns dos inquiridos não reconhecem pertinência na formação externa disponibilizada no âmbito do Projecto Fénix ou no acompanhamento e monitorização do Projecto por entidades externas, sendo que esta representação se consubstancia na reduzida participação dos intervenientes do Agrupamento, o que é corroborado por alguns entrevistados. A este propósito, a 135 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. investigação produzida por Mortimer et al (1998, in Lima, 2008, p. 214) revelou que só existem efeitos positivos da formação contínua ou intensiva proporcionada por especialistas externos sobre os resultados dos alunos, quando há razões convenientemente fundamentadas, do ponto de vista pedagógico ou organizacional, para os docentes frequentarem determinadas acções. É neste sentido que, para que ocorra uma mudança de paradigma na configuração do desenvolvimento profissional, Fullan (1999) e Alonso (1999) advogam a necessidade de os docentes aperfeiçoarem o seu conhecimento e competência profissional numa estreita relação entre a teoria e a prática, reforçados por apoio externo e redes de aprendizagem. Quanto às consequências da implementação do Projecto Fénix no sucesso escolar, os resultados no nosso estudo permitem afirmar que foram satisfatórias. De acordo com os resultados obtidos a partir da análise longitudinal dos níveis de desempenho dos alunos e das opiniões dos inquiridos e dos entrevistados, infere-se que a implementação do Projecto Fénix contribuiu para a melhoria dos resultados escolares dos alunos envolvidos, assim como estimulou a participação, a melhoria comportamental e a auto-estima dos alunos. Cumulativamente, permitiu-nos concluir que os alunos abrangidos pelo Projecto Fénix se sentem integrados nas turmas que se envolvem neste novo modelo didáctico. No caso específico da melhoria do comportamento e da disciplina dos alunos, com base nas opiniões dos inquiridos e em consonância com os entrevistados, inferimos que se observou consistência das práticas, característica que para Rutter et al (1979, cit. em Lima, 2008) se reverte de extrema importância no âmbito das formas de lidar com os maus comportamentos dos alunos, tendo demonstrado que há maior probabilidade que estes respeitem as orientações existentes neste domínio quando estas são aplicadas, de forma congruente, pelos vários docentes, não sendo arbitrárias dos humores individuais deste ou daquele professor. Os mesmos resultados possibilitam-nos inferir que os docentes envolvidos consideram ter diversificado os modos e os instrumentos de avaliação. Contudo, resultados fundamentados na análise documental, permitem-nos afirmar que o modelo organizacional do Agrupamento permaneceu praticamente inerte face à implementação do Projecto Fénix, pelo que as lógicas de acção implícitas na matriz do 136 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. mesmo pouco mudaram as concepções e representações avaliativas na organização. Como evidenciámos no nosso estudo, a focalização extrema nos resultados conduziu o Agrupamento a tomadas de decisão centradas simplesmente em finalidades sumativas, negligenciando as sugestões da própria tutela relativamente ao carácter formativo dos Testes Intermédios. A corroborar esta nossa conclusão, pode ler-se no Relatório Projecto Testes Intermédios 2010: (…) o feedback de numerosos interlocutores, professores, alunos e pais que indicia um uso privilegiado dos resultados com uma finalidade exclusivamente sumativa. Ou seja, o uso dos resultados unicamente como medida de certificação/verificação do processo de aprendizagem (ou talvez apenas do grau de preparação para a realização do teste) e não como uma oportunidade para a construção de um processo de aprendizagem que deve passar por uma crescente consciencialização, por parte dos alunos, das suas limitações para que, a partir delas, possam evoluir no sentido da melhoria.” (pp. 4-5) Os resultados da investigação permitem-nos concluir que, conforme a crença dos professores e dos alunos, a criação de turmas Fénix e de Ninhos contribuem para uma melhoria do processo de ensino-aprendizagem com as turmas Fénix e com os Ninhos, porquanto os alunos se sentem mais confortáveis para exporem dúvidas ou colocarem questões. Quanto à mudança na praxis educativa, os resultados obtidos possibilitam-nos inferir que, se bem que a totalidade dos professores admita que o Projecto Fénix promove mudanças nas práticas educativas, nem todos concordam que se tenha rompido com a rotina e com os hábitos de trabalho instalados. De acordo com o testemunho de alguns entrevistados, existe uma forte correlação entre a presença de práticas educativas fiéis a uma pedagogia óptima (Formosinho, 2005) – o valor burocrático por excelência é a uniformidade e há sempre the one best way para fazer as coisas - , com a preocupação de cumprir os programas de forma a preparar os alunos para os exames. Por outro lado, os resultados da investigação também nos permitem inferir que o funcionamento em Ninhos, ao facilitar a proximidade entre alunos e professores, possibilita a utilização bem-sucedida de estratégias diversificadas, potenciando a diferenciação pedagógica que, nas palavras de Azevedo (2010), deve ser olhada como estratégia de optimização das aprendizagens, 137 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. consubstanciada num ambiente de conhecimento e de metaconhecimento profissional dos professores. Baseado nos resultados da nossa investigação podemos afirmar que a grande maioria dos inquiridos e entrevistados corrobora que o Projecto Fénix constitui-se como um processo potencialmente adequado para articular a promoção da qualidade das aprendizagens para todos com a necessária diferenciação de abordagens. Contudo, os mesmos resultados permitem-nos concluir que ainda se registam concepções de que diferenciar é nivelar por baixo ou que é sinónimo de facilitismo. Pensamos que esta representação é compreensível, uma vez que se tem verificado a utilização quase exclusiva dos resultados dos alunos em testes e exames, como fonte de informação para medir a eficácia das instituições educativas (Lima, 2008). Partindo deste pressuposto socialmente aceite, justifica-se que para muitos actores educativos as escolas sejam locais destinados exclusivamente ao desenvolvimento académico, o que, como tivemos oportunidade de inferir no nosso estudo, normalmente implica que os professores sintam a desmesurada pressão de preparar os alunos para testes estandardizados e exames, onde o papel do professor é, paradoxalmente, desvalorizado ou onde estes são híper-responsabilizados, em detrimento do efectivo cumprimento da sua função de educador atento aos diferentes ritmos de aprendizagem dos alunos. Assim, concordamos com Creemers (1997, cit. em Lima, 2008, p. 358) ao enunciar que as escolas não se deveriam devotar apenas à promoção de aquisições cognitivas, mas também ao desenvolvimento de competências sociais e estéticas e de atitudes, não só porque estas são importantes em si mesmas, como por si só influenciam os próprios resultados académicos. Quanto à supervisão pedagógica, os resultados da investigação permitem-nos concluir que Projecto Fénix (talvez tenha) contribuiu[do] para que alguns dos docentes envolvidos adoptassem práticas de supervisão, sendo que só encontrámos estas referências nas opiniões dos inquiridos, relevando-se omissas ou expressas pela negativa nos testemunhos dos entrevistados e na análise documental. Por outro lado, os mesmos resultados possibilitam-nos inferir que todos os intervenientes consideram que o acompanhamento supervisivo por parte dos coordenadores de departamento foi praticamente nulo, o que vem confirmar o distanciamento e a falta de articulação 138 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. entre as tomadas de decisão e as lideranças do Agrupamento. O alheamento verificado face à implementação do Projecto Fénix por parte das estruturas intermédias, impossibilitou que, de uma forma sustentada, se conhecesse e reflectisse sobre as práticas nos níveis infra-organizacionais, sendo que, para Sammons (1999) e Lima (2008), a qualidade do ensino e da aprendizagem na sala de aula é o factor que tem um impacto maior e mais directo sobre o progresso escolar dos alunos. Cumulativamente, os resultados do nosso estudo, através do testemunho dos entrevistados e dos inquiridos, permitem-nos concluir que a esmagadora maioria dos professores considerou insuficiente o número de sessões para reflexão/avaliação das dinâmicas inerentes ao Projecto Fénix, facto que consubstancia a falta de supervisão pedagógica anteriormente referida e, ao mesmo tempo, nos permite concluir que a burocraticidade inovativa presente na operacionalização da implementação do Projecto no Agrupamento, impediu que, numa concepção de supervisão democrática (Alarcão, 2008), emergisse o desenvolvimento de mecanismos de auto-supervisão e auto-aprendizagem. Neste âmbito, Nóvoa (1999, p. 147) afirma que “é preciso levar a cabo uma reabilitação social da profissão docente”, em que “os professores ocupem um espaço mais dinâmico (e menos defensivo) a respeito das mudanças em curso” e em que descubram uma “identidade colectiva”. Por último, os resultados da nossa investigação permitem inferir que a maior parte dos envolvidos neste estudo considera que se verificaram mudanças positivas do primeiro para o segundo ano de implementação do Projecto Fénix no Agrupamento, e, com maior dispersão, pensam que o Projecto Fénix tenha contribuído para a melhoria da organização escolar. Tal como referimos anteriormente, são várias as características-chave apresentadas por Mortimer et al (1995) para que uma escola eficaz seja uma organização aprendente e, de entre elas e da sua interligação, pouco se evidenciou no nosso estudo. Estamos convictos, como têm mostrado dados empíricos inseridos em diferentes paradigmas (eficácia da escola; melhoria da escola), e na perspectiva da 4ª geração de investigação sobre escolas eficazes (Lima, 2008, p. 29), que o sucesso escolar de uma organização depende de vários factores. Destes, o “efeito de escola” (a escola faz a diferença) é o primeiro que evidenciamos que, reforçado pelo pressuposto de Gray et al (1999, in Lima, 2008, p.342) de que as 139 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. reformas educativas não deveriam continuar a partir do princípio de que todas as escolas eram iguais, parece-nos ser uma das principais conclusões do nosso estudo. Em sintonia com o que vários autores referem (Lima, 2008, p. 370), os “caminhos” para a melhoria das escolas devem ponderar o “efeito do professor”, o “efeito sala de aula”, bem como o mais recente “efeito de departamento”. Relativamente aos objectivos que estiveram na base deste estudo, com muita humildade, logramos deixar algumas considerações finais que poderão vir a ser úteis para futuras investigações: A inconformidade profissional e a vontade de contribuir para práticas promocionais de sucesso mais ajustadas à diversidade do contexto em estudo, levanos a perspectivar trabalhos futuros no campo da supervisão horizontal em sala de aula numa atitude formativa de aperfeiçoamento mútuo, no pressuposto de que os professores aprendem a sua profissão em contexto profissional e de que a observação de aulas constitui uma estratégia privilegiada de reconstrução do pensamento e acção do professor (Vieira, 2006). Em virtude de perspectivarmos o modelo formativo baseado em acções de formação avulsas como ineficaz, acreditamos que o locus da formação contínua dos professores deve ser centrado na escola, constituindo-se como a melhor resposta às necessidades formativas dos docentes e, consequentemente, à melhoria da qualidade do ensino e das aprendizagens dos alunos. Para isso, a organização escolar deve facilitar o trabalho das estruturas organizativas de forma a sustentar e tornar sistémica uma formação centrada na escola, a qual, à semelhança do que ocorre em Espanha, deve decorrer de uma acção desenvolvida com assessores externos (amigos críticos “olhados” como necessários e não como imposição à escola e aos docentes) que tem manifestado bastante eficácia e um grande potencial para gerar mudanças tendentes à melhoria da qualidade das aprendizagens dos alunos e dos professores (Ramos, Nunes, 2005). Este modelo formativo deve contar com a participação dos membros de estruturas de liderança intermédia em formação específica para as funções que lhes estão inerentes (muito em concreto, com cargos de responsabilidade pedagógica), no sentido de inverter a manutenção de uma gestão pedagógica amadora ou rotineira 140 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. (condição primeira para manter a lógica do insucesso ao nível organizacional) que, segundo Formosinho (1988), “(…) nada melhor do que desviar o assunto para a discussão de os gestores pedagógicos deverem ser eleitos ou nomeados, fazendo assim esquecer que eleitos ou nomeados continuam a não estar (na maioria dos casos) preparados para a função de organizar pedagogicamente uma escola”. (p. 126) Receamos que a lógica de acção gerencialista (Afonso, 2009; Martins, 2009), a par com a tendência do controlo da organização escolar transitar de órgãos colegiais para órgãos unipessoais (direcções executivas), permitindo-lhes, por isso, tomar decisões com pouca ou nenhuma participação ou consulta, faça perigar o envolvimento e a vontade dos professores que, ao não se sentirem implicados (a inovação e as mudanças em educação não são possíveis se não forem assumidas e aceites pelo professor), também não sentem a necessidade de alteração das práticas pedagógicas e organizativas. Preocupa-nos, sobremaneira, que os objectivos e a matriz solidamente formativa de Projectos inseridos em Programas Nacionais para Mais Sucesso se diluam no frenesim de rankings. Considerando que é imprescindível que tenhamos em conta os resultados da educação, não se deve[ria], contudo, encarar os processos educativos de uma forma meramente instrumental: haverá grande mérito se se obtiverem bons resultados nos exames de Matemática e de Português, se os processos a eles conducentes se circunscreverem a procedimentos questionáveis do ponto de vista educativo, ao nível das atitudes e dos comportamentos dos alunos, como a promoção da competitividade (galardão da meritocracia), do individualismo e do próprio cinismo dos alunos em relação ao valor e ao sentido do trabalho escolar? (Lima, 2008, p. 413). Os resultados devem ser manifestáveis, mas os processos também necessitam de ser adequados, do ponto de vista educativo; nem todos os meios justificam os fins, muito menos, quando incidem sobre um número muito restrito de áreas cognitivas, como é prática habitual na maior parte dos estudos sobre a eficácia das organizações escolares. 141 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Terminamos, fazendo nossas as palavras de Sizer (1985, citado por Stoll & Fink, 1995; e por Lima, 2088, p.320), no sentido que uma boa escola não se cria como um jantar pré-cozinhado enfiado num micro-ondas durante 15 minutos; “ela necessita de tempo para que os diferentes ingredientes se misturem cuidadosamente e os sabores possam apurar”. 142 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ABREU, Artur (2005). Um outro olhar sobre o insucesso. As experiências dos alunos. Tese de Mestrado apresentada à Universidade Católica Portuguesa. AFONSO, Natércio (2009). “A Direcção das Escolas Públicas em Portugal: Dinâmicas do Contexto e Lógicas de Acção dos Gestores Escolares”. In Barzanò, G., Culturas de Liderança e Lógicas de Responsabilidade. V.N. Gaia: Fundação Manuel Leão. ALARCÃO, Isabel; ROLDÃO, Mª do Céu (2008). Supervisão. 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Sr. Presidente da Comissão Administrativa Provisória do Agrupamento de Escolas Requerimento Ana Cristina Marques Nunes, professora do quadro definitivo da Escola Básica Integrada de Azambuja, do grupo duzentos, na qualidade de aluna/investigadora no âmbito do 2º ano de mestrado em Ciências da Educação, com especialização em Supervisão Pedagógica e Avaliação de Docentes, na Universidade Católica Portuguesa, vem apresentar a V. Exa. o projecto de investigação aprovado pelo Conselho Científico da Faculdade de Educação e Psicologia da supramencionada Universidade. O objecto de estudo da investigação emerge da necessidade de analisar e compreender como a celebração de um contrato entre um Agrupamento e a Direcção Regional de Educação, no 149 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. âmbito do Programa Mais Sucesso Escolar, contribuiu para a alteração das condições educacionais e organizacionais da escola. O referido Programa levou à criação de uma comissão de acompanhamento, convocando-se as escolas que criaram as novas metodologias organizacionais Fénix e Turma Mais, tendo como adjuvantes elementos da Direcção-Geral de Inovação e de Desenvolvimento Curricular, das Direcções Regionais de Educação das respectivas áreas de intervenção de cada escola envolvida no Programa, do Gabinete de Avaliação Educacional e da Inspecção-Geral de Educação, sendo de salientar o trabalho colaborativo e a interacção com centros de investigação e universidades que, conforme o referido no Despacho n.º 100/2010, de 5 de Janeiro, emanado pelo Gabinete da Ministra da tutela, apoiam as escolas na construção, monitorização e na avaliação do desenvolvimento daquele modelo organizacional. O estudo empírico a realizar, pretende apresentar uma descrição do desenvolvimento, operacionalização e resultados da implantação do Projecto Fénix (Projecto preconizado pelo Programa Mais Sucesso Escolar) neste Agrupamento de Escolas, o qual surgiu como uma tentativa de trabalhar o problema do insucesso e de simultaneamente maximizar as possibilidades de todos os alunos atingirem níveis elevados de sucesso escolar. Para o mencionado objecto de estudo foram delineados os seguintes objectivos: • Aferir quais são as capacidades de gestão e liderança educacional necessárias para encarar a mudança como uma aprendizagem individual e colectiva, e quais são as lógicas de acção facilitadoras. • Compreender o papel de liderança do órgão de gestão e das estruturas intermédias (Conselho Pedagógico, Coordenadores do Projecto, Departamentos, Grupos Disciplinares, Conselhos de Turma/Conselhos de Docentes) na implantação do Projecto Fénix (no que se refere à tomada de decisões, ao delinear de linhas orientadoras de actuação, às lógicas de acção). • Compreender a influência que a implantação do Projecto teve no modo como as estruturas pedagógicas da escola se organizaram. • Compreender o modo como as lideranças tiveram um papel facilitador de práticas inovadoras e de mudança na gestão e supervisão pedagógica. 150 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. • Compreender se, no contexto em análise, a inovação disruptiva facilitou uma lógica de uma organização aprendente. • Conhecer a realidade existente através de uma abordagem hermenêutica, interpretando e compreendendo a singularidade da mesma, na triangulação entre os actores envolvidos na implantação do Projecto Fénix: órgãos de gestão, professores responsáveis pela implantação do projecto em estudo, docentes, alunos e pais. • Identificar as oportunidades de aprendizagem, os métodos e estratégias de ensino proporcionados pelos professores. • Analisar os ganhos de aprendizagem e verificar a sua correlação com os resultados académicos. • Analisar e inferir o papel do Projecto Fénix no sentido da sua transformação organizacional. Neste contexto, será um estudo de caso e debruçar-se-á sobre os impactos produzidos pelo Projecto nas condições escolares de ensino e aprendizagem de professores e alunos, consubstanciados nos resultados dos alunos ao longo de uma série cronológica de um conjunto de índices de desempenho; nas lógicas de trabalho colaborativo e reflexivo entre os professores; na qualidade das lideranças e nas dinâmicas de supervisão pedagógica no quadro de implantação do Projecto Fénix, o que pressupõe a compreensão das dificuldades que se colocam aos processos de colaboração e reflexão num colectivo de professores, bem como as condições facilitadoras a essas práticas. Perante o breve enquadramento elaborado, expresso a minha vontade de realizar o estudo empírico na unidade orgânica que V. Exa. preside, convicta de que o conhecimento a produzir será útil para o Agrupamento. Considerou-se que o estudo de caso seria uma adequada abordagem metodológica, atendendo a que se trata de um plano de investigação que envolve o estudo intensivo e detalhado de uma entidade bem definida: o “caso” no seu contexto natural. 151 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. A metodologia a utilizar será essencialmente de índole qualitativa, com utilização de dados quantitativos. Encontrou-se legitimidade em combinar métodos qualitativos e quantitativos, fazendo todo o sentido recorrer a dados numéricos de natureza demográfica, como número de alunos, taxas de reprovação (etc), ou seja, indicadores quantitativos no estudo, porque proporcionarão uma melhor compreensão do “caso”. As técnicas e instrumentos preferenciais são a análise documental, a entrevista, o inquérito por questionário, prevendo-se que a sua aplicação decorrerá de Novembro de 2010 a Maio de 2011. Perante o exposto e com a finalidade de tornar possível a concretização da dissertação que compõe a minha tese de mestrado, venho requerer a autorização de V. Exa. para a realização do estudo empírico apresentado. Azambuja, 7 de Setembro de 2010. A docente, Ana Cristina Marques Nunes 152 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. ANEXO 2 PLANEAMENTO E PREPARAÇÃO DO INQUÉRITO POR QUESTIONÁRIO CONCEPTUALIZAÇÃO E CONSTRUÇÃO DAS VARIÁVEIS Variáveis e indicadores Categorias / subcategorias O profissional docente Indicadores/variáveis do questionário Dados sóciodemográficos Dados factuais de participação Estilos de liderança e poder As relações de poder Processo de tomada de decisão Género Idade Departamento Curricular Tempo de serviço Situação profissional Antiguidade no agrupamento Habilitações académicas Cargos Clima vivido, nível de partilha do poder, abertura/fechamento, processo de decisão, (…) Quem decide? Do inquirido Da liderança Dos diferentes órgãos Influência nas políticas da escola Recursos utilizados para a implementação do Projecto Fénix Organização e gestão curricular Dos representantes dos pais Dos representantes dos alunos Importância conferida Var. 2 Var. 1 Var. 3 Var. 4 Var. 5 Var. 8 Var. 6 + var. 7 Var. 9 Var. 12.1 + var. 12.2 + var. 12.3 + var. 12.4 + var. 12.5 + var. 12.6 + var. 12.7 + var. 12.8 + var. 12.9 + var. 12.10 Var. 10.1 + var. 10.2 + var. 10.3 Var. 10.4 + var. 10.1 Var. 10.5 Var. 10.2 + var. 10.3 + var. 10.4 + var. 10.6 + var. 10.7 + var. 10.10 + var. 10.11 Var. 10.8 Var. 10.9 Var. 10.4 + var. 10.5 + var. 10.6 + var.16+ var. 17 + var. 18 + var. 25 Importância relacional estabelecida entre alunos e professores Importância conferida Var. 27 + var. 46 Envolvimento das lideranças e dos professores no âmbito do Projecto Fénix Importância conferida Garantia de articulação horizontal / vertical Importância conferida Var. 15 + var. 19 + var. 20 + var. 21 + var. 22 + var. 23 + var. 24 + var. 26 + var. 28 + var. 42 + var. 44 + var. 45 Var. 29 + var. 30 + var. 31 + var. 35 + var. 36 Flexibilidade na gestão curricular Importância conferida Var. 32 + var. 33 + var. 34 153 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Desenvolvimento profissional Formação orientada para a acção e mudança na praxis educativa Consequências da implementação do Projecto Fénix no sucesso escolar Articulação curricular Importância conferida Var. 35 + var. 36 + var. 38 Concepção e organização dos PCT (Fénix) Domínio de intervenção Var. 12.1 + var. 12.2 Importância conferida Var. 37 + var. 39 + var. 40 + var. 41 Formação/contexto de trabalho Importância conferida Var. 48 Formação e profissionalismo docente Partilha de saberes construídos na formação Falta de formação específica Importância conferida Var. 49 + var. 50 + var. 77 Importância conferida Var. 51 Importância conferida Var. 52 Comunicação das mudanças na praxis Importância conferida Var. 84 No sucesso académico dos alunos Nas concepções de avaliação na praxis educativa Na participação dos alunos Importância conferida Var. 57 + var. 58 + var. 63 + var. 71 + var. 72 Var. 79 + var. 80 + var. 81 + var. 83 Importância conferida Var. 82 No comportamento e na disciplina Importância conferida Nas aprendizagens dos alunos Nas práticas pedagógicas nas turmas Fénix Nas práticas pedagógicas nos Ninhos Na mudança das práticas educativas Na satisfação dos professores Na supervisão pedagógica Na qualidade do ensino Importância conferida Importância conferida Var. 64 + var. 65 + var. 66 + var. 67 + var. 68 + var. 69 + var. 70 Var. 59 + var. 61 + var. 62 Var. 73 + var. 75 Importância conferida Var. 74 + var. 76 Importância conferida Importância conferida Var. 55 + var. 56 + var. 60 Var. 78 Importância conferida Var. 85 + var. 86 Importância conferida Var. 89 Nas reflexões individuais e conjuntas Na concepção da escola como organização aprendente Importância conferida Var. 43 + var. 53 + var. 54 Var. 87 + var. 88 + var. 90 Importância conferida Importância conferida 154 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. ANEXO 3 Universidade Católica Portuguesa Faculdade de Ciências Humanas LISBOA INQUÉRITO IMPACTOS DO PROJECTO FÉNIX NO AGRUPAMENTO FACTORES E DINÂMICAS DA CONSTRUÇÃO DO (IN)SUCESSO ESCOLAR (Dirigido aos professores do 1º e 3º ciclos) Trabalho elaborado por: Ana Cristina Nunes Orientação de: Prof. Doutor José Joaquim Matias Alves Abril de 2011 155 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. APRESENTAÇÃO Este instrumento metodológico, dirigido aos docentes dos Conselhos de Turma/Conselho de Docentes envolvidos no Projecto Fénix, enquadra-se numa investigação no âmbito de uma Dissertação de Mestrado, com o tema “Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso”, sob a orientação do Professor Doutor José Joaquim Matias Alves. Pretendemos, com estes questionários, inferir sobre o impacto, desenvolvimento e resultados do Projecto Fénix, assim como conhecer e analisar as potencialidades e os constrangimentos que se colocam ao agrupamento, perante a adesão e a celebração de um contrato no âmbito do Programa Mais Sucesso Escolar. A sua participação é muito importante para conhecermos a realidade em análise. Por isso apelamos à sua atenção para uma resposta atempada, estando conscientes do esforço que isso representa. Solicitamos que a resposta a este inquérito seja feita até ao momento de avaliação sumativa do 2º período e que, aquando da reunião de avaliação, proceda à sua entrega aos presidentes do Conselho de Turma/Conselho de Docentes. Uma vez concluído o tratamento dos questionários, enviaremos uma síntese dos resultados obtidos, à qual solicitaremos o vosso comentário. Em caso de dúvidas, poderá contactar a responsável através do E-mail: [email protected]. Comprometemo-nos desde já a manter o sigilo acerca da sua identidade. Obrigada pela sua colaboração, Ana Cristina Nunes 156 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. O presente questionário, anónimo, é constituído por itens relativos ao impacto, desenvolvimento e resultados do Projecto Fénix no agrupamento, no decurso dos anos lectivos 2009/2010 e 2010/2011, de forma a identificar as suas potencialidades e possíveis constrangimentos. Neste questionário não há respostas certas nem erradas. Pretende-se conhecer a sua sincera e clara opinião. Preencha, em cada um dos itens, com um 1- Idade Menos de 30 anos X De 30 a 40 De 41 a 50 Mais de 50 anos 2- Género Masculino Feminino 3.1 - Departamento Curricular Primeiro ciclo Línguas Ciências Exactas e Experimentais Ciências Sociais e Humanas Expressões 3.2 – Grupo disciplinar: ___________________________________________________ 4 -Tempo de serviço em 1/09/2010 Até 3 anos 5 De 4 a 6 De 7 a 25 Mais de 25 anos - Situação profissional Quadro nomeação definitiva da escola Quadro nomeação definitiva de outra escola Quadro zona pedagógica Quadro nomeação provisória Contratado Profissionalizado 6 Não profissionalizado - Habilitação académica Mestrado Licenciatura Bacharelato Outra 7– Frequência actual de algum curso Pós-graduação Graduação Não frequento 157 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. 8 – Há quantos anos consecutivos lecciona nesta escola? (inclua o actual) 9 – Por favor indique os cargos/funções que desempenhou nesta escola nos últimos 2 anos lectivos (2009/2010 e 2010/2011) Conselho Geral Direcção Executiva Assessores Conselho Pedagógico Director(a) de turma Representante Área Disciplinar 10 – Indique a capacidade de influência exercida pelos órgãos/actores abaixo indicados, sobre as decisões tomadas no agrupamento ao nível das políticas, valores, orientações, prioridades e estratégias. Nenhuma Pouca Moderada Muita Total 10.1- Pessoal (do inquirido) 10.2 - Departamento Curricular (do inquirido) 10.3 - Conselho Pedagógico 10.4 - Grupo disciplinar (do inquirido) 10.5 - Direcção Executiva/CAP 10.6 - Conselho Geral 10.7 - Conselho de Directores de Turma 10.8 - Associação de Pais 10.9 - Associação de Estudantes 10.10 - Outro Departamento (qual?) ___________ 10.11 - Conselhos de Turma 10.12 – Biblioteca 158 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. 11 - Relativamente ao processo de concepção dos Projectos Curriculares das Turmas Fénix, indique os domínios de intervenção dos órgãos/actores indicados. 11.1 - Intervenientes: Iniciativa Elaboração Aprovação Colaboração Avaliação Directores de Turma/Professores Titulares de Turma Coordenadores de Directores de Turma Direcção Executiva Conselho Pedagógico Departamento Curricular Conselho de Turma Conselho de Docentes (1º ciclo) Conselho de Directores de Turma Serviços de Psicologia e Orientação Serviços de Apoio Educativo Associação de Pais Representante dos Pais e Encarregados de Educação 11.2 - Outros intervenientes: Instituições de ensino superior Outras parcerias * *Especifique quais: __________________________________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________________________________ 159 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. 12 – Por favor, indique a sua opinião sobre a adequação das afirmações seguintes ao exercício da (s) liderança (s) neste agrupamento. Ordene de 1 a 10 por ordem de concordância com as seguintes afirmações (1 = plena concordância; 10 = nenhuma concordância). 12.1 - O clima criado é humano e profissional. 12.2 - É criado um clima autoritário de desconfiança e supressão do diálogo. 12.3 - O processo de tomada de decisão é verdadeiramente democrático. 12.4 - A Direcção Executiva/CAP raramente partilha poder. 12.5 - Os objectivos do agrupamento são alcançados através da motivação dos professores. 12.6 - A negociação é mínima e não há partilha de poder. 12.7 - A preocupação com a equidade e a justiça está sempre presente. 12.8 - O Executivo promove a confrontação/agressividade para atingir os seus objectivos. 12.9 - O poder é realmente partilhado. 12.10 - A abertura aos professores é apenas aparente. 13 – No que concerne à gestão de recursos no âmbito do Projecto Fénix, indique a sua opinião. Concordo Discordo Não sei/Não respondo 13.1. A implementação do Projecto Fénix partiu da sugestão de um grupo de professores do agrupamento. (ano lectivo 2009/2010) 13.2. A implementação do Projecto Fénix decorreu de um processo de negociação inter-disciplinar e interdepartamental. (ano lectivo 2009/2010) 13.3. A implementação do Projecto Fénix foi veiculada pela Direcção Executiva. (ano lectivo 2009/2010) 13.4. Disponibilizei-me e mostrei interesse em ser um dos agentes educativos no âmbito do Projecto Fénix. (ano lectivo 2009/2010) 13.5. A continuidade pedagógica foi um dos critérios para elencar os professores às turmas Fénix. (ano lectivo 2010/2011) 13.6. O meu envolvimento no Projecto Fénix decorreu unicamente da distribuição da componente lectiva. (ano lectivo 2010/2011) 160 Não sei/Não responde Discordo totalmente Discordo Concordo Concordo totalmente Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. 14 – As estratégias utilizadas pelas estruturas de liderança no que respeita às orientações fornecidas sobre o desenvolvimento do Projecto Fénix foram adequadas. 15 – As sugestões apontadas pelos docentes/técnicos são tomadas em consideração pelas estruturas de liderança do agrupamento. 16 – O Projecto Fénix levou a uma optimização dos recursos existentes. 17 – Os recursos (humanos, materiais…) envolvidos no Projecto Fénix são adequados. 18 – A actuação da Direcção Executiva foi adequada aquando da explicitação do Projecto Fénix. 19 – A actuação dos Coordenadores de Directores de Turma foi adequada aquando da explicitação do Projecto Fénix. 20 – A actuação do Coordenador do Projecto Fénix foi adequada aquando da explicitação do Projecto. 21 – A actuação do Coordenador de Projectos do agrupamento foi adequada aquando da explicitação do Projecto Fénix. 22 – A actuação do Coordenador de Departamento foi adequada aquando da explicitação do Projecto Fénix. 23 – A actuação do Director de Turma foi adequada aquando da explicitação do Projecto Fénix. 24 – O conjunto das estratégias do Projecto Fénix responde às necessidades sentidas ao nível do agrupamento. 25 – O Projecto Fénix promove uma melhor articulação entre os docentes e os órgãos de gestão do agrupamento. 161 Não sei/Não responde Discordo totalmente Discordo Concordo Concordo totalmente Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. 26 – O Projecto Fénix contribui para que o professor tenha um melhor conhecimento do aluno. 27 – A criação das turmas Fénix contribui para uma melhoria do processo de ensino-aprendizagem. 28 – A criação dos Ninhos contribui para uma melhoria do processo de ensino-aprendizagem. 29 – O funcionamento em pequeno grupo (Ninhos) permite a utilização bem sucedida de estratégias diversificadas. 30 – É fácil gerir o processo de mobilidade entre os Ninhos e a Turma “Mãe”. 31 – O Projecto Fénix tem implicações na gestão curricular das diferentes disciplinas. 32 – A flexibilidade curricular permite o desenvolvimento das competências essenciais de ciclo. 33 – O Projecto Fénix permite uma maior flexibilidade na gestão curricular. 34 – Com o Projecto Fénix foi promovida uma melhor articulação vertical. 35 – Com o Projecto Fénix foi promovida uma melhor articulação horizontal. 36 – As dinâmicas do Conselho de Turma foram as adequadas para o desenvolvimento e aperfeiçoamento do Projecto Fénix. 37 - O Projecto Fénix facilitou a articulação das áreas curriculares disciplinares com as áreas curriculares não disciplinares. 38 – O Projecto Fénix permitiu aumentar a produtividade das reuniões de CT. 39 – O processo e os resultados que o Projecto Fénix vai proporcionando, são apreciados pelos docentes envolvidos, com muita frequência. 40 – Do apurado dessa apreciação, os professores das turmas Fénix gerem/reconstroem o PCT. 41 – Os resultados dessas apreciações são divulgados nos Departamentos e em Conselho Pedagógico. 42 – O nº de sessões de reflexão/avaliação com todos os envolvidos no Projecto Fénix foi suficiente. 162 Não sei/Não responde Discordo totalmente Discordo Concordo Concordo totalmente Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. 43 – O Projecto Fénix tem implicações na gestão curricular das diferentes disciplinas. 44 – O Projecto Fénix promove o envolvimento e a participação activa de todos os docentes. 45 - A implementação do Projecto Fénix contribui para uma melhor relação entre os alunos e os professores. 46– A Formação desenvolvida no âmbito do Projecto Fénix foi pertinente. 47 – A monitorização por parte de entidades externas (Coordenação Fénix-Beiriz) contribui para um melhor ajustamento do Projecto Fénix. 48 – O acompanhamento por parte de entidades externas (Universidade Católica Portuguesa) contribui para um melhor ajustamento do Projecto Fénix. 49 – A monitorização por parte de entidades externas (DREL) contribui para um melhor ajustamento do Projecto Fénix. 50 - O Projecto Fénix favorece a formação dos intervenientes no Projecto. 51 - O Projecto Fénix desenvolve a capacidade de confrontar e negociar ideias e experiências entre os intervenientes. 52 – Com o Projecto Fénix releva-se a aprendizagem colaborativa sobre a individual possibilitando a construção partilhada do conhecimento. 53 – O Projecto Fénix promove o trabalho em conjunto com outros colegas, tendo-se proporcionado vários momentos (nos Departamentos, nos grupos disciplinares) para reflexão individual e conjunta. 54 – O Projecto Fénix conduz à mudança das situações/contextos das práticas educativas. 55 – O Projecto Fénix facilitou a quebra de hábitos e rotinas de trabalho. 56 – A implementação do Projecto Fénix contribuiu para a melhoria dos resultados escolares dos alunos no ano lectivo 2009/2010. 57 – A implementação do Projecto Fénix contribui para a melhoria dos resultados escolares dos alunos no ano lectivo 2010/2011. 163 Não sei/Não responde Discordo totalmente Discordo Concordo Concordo totalmente Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. 58 – Com o Projecto Fénix, os alunos conseguem compreender melhor os conteúdos leccionados. 59 – A implementação do Projecto Fénix permitiu encontrar soluções para os problemas das práticas educativas. 60 – O Projecto Fénix desenvolve a autonomia dos alunos. 61 – O Projecto Fénix valoriza e facilita o trabalho de grupo. 62 – A existência dos Ninhos favorece a melhoria dos resultados escolares dos alunos. 63 – A implementação do Projecto Fénix contribui para a melhoria das relações entre os alunos. 64 – A implementação do Projecto Fénix contribui para uma melhor relação entre os alunos nos trabalhos de grupo. 65 – A gestão comportamental em sala de aula, nas disciplinas de intervenção (LP, Mat) é facilitada em relação às outras disciplinas/áreas. 66 – A gestão comportamental em sala de aula é facilitada nos Ninhos. 67 – Existem diferenças significativas, para melhor, ao nível do comportamento, entre as disciplinas para as quais existem Ninhos e as restantes. * *responder apenas se tiver condições de comparar. 68 – A possibilidade de recorrer a um técnico social é eficaz para a resolução de problemas comportamentais na sala de aula. 69 – O carácter mais homogéneo, ao nível das aprendizagens dos alunos das turmas Fénix, contribui para melhor ambiente em sala de aula. 70 – O Projecto Fénix contribui, de forma geral, para a melhoria da auto-estima dos alunos. 71 – O auto-conceito académico dos alunos aumentou desde o início do Projecto Fénix. 72 – Os alunos abrangidos pelo Projecto Fénix sentem-se integrados nas turmas. 73 – Os alunos que têm necessidade de frequentar os Ninhos sentem-se integrados nesses grupos. 74 – Com as turmas Fénix, os alunos sentem-se mais confortáveis para exporem dúvidas ou colocarem questões. 164 Não sei/Não responde Discordo totalmente Discordo Concordo Concordo totalmente Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. 75 – Com os Ninhos, os alunos sentem-se mais confortáveis para exporem dúvidas ou colocarem questões. 76 – Senti que o Projecto Fénix aumentou o meu auto-conceito profissional. 77 – Estou satisfeito(a) com o Projecto Fénix. 78 – O Projecto Fénix facilita o processo de avaliação dos alunos. 79 – O Projecto Fénix contribui para a diversificação dos modos e instrumentos de avaliação. 80 – O Projecto Fénix valoriza a avaliação contínua e formativa dos alunos. 81 – O Projecto Fénix estimula a participação dos alunos nas decisões sobre o seu processo de aprendizagem. 82 – O Projecto Fénix favorece a auto e a coavaliação dos alunos. 83 – O Projecto Fénix conduziu à necessidade de os professores fazerem registos escritos das suas experiências/mudanças nas práticas pedagógicas. 84 – No âmbito do Projecto Fénix, de um modo geral, os docentes solicitam um acompanhamento por parte dos seus pares (no seio do grupo disciplinar, etc.), nomeadamente na observação de aulas. 85 – No âmbito do Projecto Fénix, os Coordenadores de Departamento desenvolvem um acompanhamento próximo das práticas pedagógicas, nomeadamente na observação de aulas. 86 – O Projecto Fénix contribui para a melhoria da organização escolar. 87– Com o Projecto Fénix, utilizam-se dispositivos (formação, reuniões, troca de experiências, leituras, assessores externos) para facilitar a sua contextualização. 88 – O Projecto Fénix, de um modo geral, contribui para a melhoria da qualidade do ensino. 89 – Registou-se mudanças do 1º para o 2º ano de implementação do Projecto Fénix. 165 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. 90 – Se concordou com a premissa anterior, enumere, sucintamente, as mudanças verificadas e as razões que a elas conduziram. ______________________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________________ TERMINOU O PREENCHIMENTO DESTE INQUÉRITO. OBRIGADA PELA COLABORAÇÃO 166 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. ANEXO 4 Guião de entrevista colectiva aos alunos Tema : Impactos do Projecto Fénix no Agrupamento Abuja Factores e Dinâmicas da construção do (in)sucesso escolar Categorias Objectivos Identificar o papel nas tomadas de decisão Organização e gestão curricular Questões / tópicos • • Identificar os recursos utilizados para a implementação do Projecto Fénix Identificar a importância relacional estabelecida entre alunos e professores • Como tiveram conhecimento do Projecto Fénix? Foram esclarecidos quanto às características e objectivos do Projecto Fénix? • O (a) director(a) de turma / professor(a) titular tem sido o mesmo desde que se iniciou o Projecto Fénix? • E os professores também continuam a ser os mesmos? Com o Projecto Fénix conseguiram melhorar a relação com os professores? Porquê? A mudança na praxis educativa Objectivos Conhecer aspectos de mudança na prática educativa Questões / tópicos • Uma vez que existem pequenos grupos de trabalho (ninhos), isso permitiu que os professores dessem as aulas de maneiras diferentes? Como ? • O que se faz nas turmas e nos ninhos? • O que há de diferente e de melhor nas turmas e nos ninhos? • Onde se aprende mais e porquê? • Como funcionava a vossa mudança entre os ninhos e a turma? Foi fácil adaptarem-se a essa mudança? Na vossa opinião há algo que não corra bem? E porquê? • 167 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Consequências da Subcategorias Objectivos Detectar implementação do percepções Projecto Fénix no sucesso relativamente ao escolar sucesso Questões / tópicos • • académico Nos resultados Identificar formas de participação • • • Comportamento e disciplina • • • • • Valorização e impacto do Projecto Fénix nas aprendizagens • • • • Como têm evoluído os vossos resultados? Em que áreas/disciplinas sentiram maiores progressos? Quais as razões para que isso aconteça? Quantas vezes estiveram presentes em reuniões com os vossos professores ou com a direcção da escola, no sentido de encontrarem soluções para problemas sentidos? Vocês eram consultados sobre decisões relativas à turma? E eram esclarecidos de que tinham responsabilidades nessas decisões? De que maneira alunos e professores celebravam os sucessos de cada um? Desde que foram envolvidos no Projecto Fénix consideram que o vosso comportamento melhorou? Com o Projecto Fénix há um melhor ambiente na sala de aula? Quando estavam nos ninhos, o vosso comportamento melhorava ? Conheciam bem as regras de funcionamento da escola ou as regras de funcionamento da turma? O que faziam para garantir a disciplina, a assiduidade e a pontualidade? Conseguem aprender melhor se estiverem numa turma Fénix? É mais fácil aprender quando integram os ninhos? Pertencer a uma turma Fénix faz com que sejam mais autónomos? 168 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. ANEXO 5 Guião de entrevista aos professores Tema : Impactos do Projecto Fénix no agrupamento Abuja Factores e Dinâmicas da construção do (in)sucesso escolar Categorias Relações de poder Objectivos Identificar o perfil académico e profissional dos directores Conhecer as motivações e as expectativas quanto ao exercício de cargos Identificar as competências do Conselho Pedagógico Questões / tópicos • Relativamente à dinâmica do Conselho Pedagógico, considera que é um órgão de decisão, de tomadas de decisão, ou mais um órgão de consulta? Qual é a ideia que sobressai? Identificar as tendências de liderança, nomeadamente na concentração de poderes na DE/CAP • Quais os critérios para as escolhas de gestão curricular implementadas no agrupamento? • Conhecer as motivações que levaram à apresentação de candidatura do agrupamento ao Programa + Sucesso Escolar • Os actores são incentivados a tomar decisões e a responsabilizarem-se por elas? Quais as razões que conduziram à adesão ao Programa Mais Sucesso Escolar? Identificar os níveis de tomada de decisão • • • No que concerne ao Projecto Fénix, que liderança pedagógica assumiram as coordenações de departamento/conselho de docentes? Como percepcionaram os professores envolvidos o modelo de actuação dos Mecanismos Fénix? Como percepcionaram os pais o mesmo modelo de actuação? 169 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Objectivos Identificar o papel das várias lideranças nas tomadas de Organização e gestão decisão Identificar os recursos curricular utilizados para a implementação do Projecto Fénix Questões / tópicos Quais as estratégias de gestão do currículo inerentes ao Projecto Fénix? Em que órgãos foram delineadas? • • Quais foram os recursos (humanos, materiais, etc) necessários à implementação do Projecto Fénix? Como se alocaram os professores à(s) turma(s) Fénix? Como é feita a afectação de direcção de turma(s) Fénix? A relação desenvolvida entre alunos e professores é considerada na constituição da(s) turmas(s) Fénix? • • • Identificar a importância relacional estabelecida entre alunos e professores Procurar compreender o envolvimento das lideranças e dos professores no âmbito do Projecto Fénix • Detectar como se garante e assegura a coesão • Identificar como se garante articulação horizontal / vertical • Formação orientada para a acção e Objectivos mudança na praxis Conhecer a formação educativa disponibilizada Identificar formas de partilha do conhecimento construído Conhecer aspectos de mudança na prática educativa Quais as estratégias utilizadas pelas estruturas de liderança no que respeita às orientações para a implementação do Projecto Fénix? Como se promoveu a articulação entre os docentes e as várias estruturas de liderança do Agrupamento? • • Como é feita a monitorização e o acompanhamento do conjunto de estratégias do Projecto Fénix? Quais as estratégias utilizadas pelo conselho de turma/conselho de docentes, para garantir a articulação horizontal/ vertical? Questões / tópicos • Houve lugar a formação externa no âmbito do Projecto Fénix? • A partir da formação disponibilizada, quais as estratégias das estruturas de liderança do agrupamento para difundir o conhecimento obtido/construído? Quais as mudanças observadas na prática educativa dos professores? Quais os incentivos para que os professores partilhassem essa mudança na sua praxis? Sobre que assuntos/temáticas considera existir maior necessidade de formação? • • Identificar necessidades de formação • 170 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Consequências da Subcategorias Objectivos Detectar percepções implementação do relativamente ao sucesso Projecto Fénix no académico sucesso escolar Nos resultados Questões / tópicos • • • • Identificar as concepções avaliativas na praxis educativa • • • Identificar formas de participação • • • Comportamento e disciplina • • • Na supervisão pedagógica Valorização e impacto do Projecto Fénix nas aprendizagens • Conhecer aspectos de mudança na prática educativa • • Identificar modelos de supervisão pedagógica • • • Nas aprendizagen s da organização Identificar aspectos que contribuem para que o agrupamento se torne uma organização aprendente • • Como têm evoluído os resultados dos alunos? Em que áreas/disciplinas se observam progressos nas aprendizagens e nos resultados? Como se explica as diferentes taxas de sucesso entre áreas/disciplinas? Que elementos se revelam os determinantes dos casos de sucesso? E de insucesso? Quais as modalidades e instrumentos de avaliação utilizados? De que maneira se utilizam os modos de avaliação para identificar, explicar e regular as dificuldades surgidas? Como se procede para reorientar o processo de aprendizagem? Os alunos participam na programação das actividades, nomeadamente no respectivo PCT? Como é que os alunos são consultados e co-responsabilizados nas decisões que lhes dizem respeito? Como se estimula e se valoriza os sucessos individuais dos alunos? Os alunos têm um comportamento disciplinado? Os alunos conhecem e cumprem as regras de funcionamento da escola/da turma? Como se fomenta a disciplina, a assiduidade e a pontualidade? Que importância se atribui ao impacto das aprendizagens: Nas expectativas dos alunos; Na satisfação dos professores. Considera que houve mudanças nas práticas pedagógicas na(s) turma(s) Fénix? Quais? Considera que houve mudanças nas práticas pedagógicas nos ninhos? Quais? De que forma se desenvolveu um conhecimento mais próximo do trabalho realizado em sala de aula? Houve lugar a acompanhamento e supervisão interna da prática lectiva dos professores envolvidos no Projecto Fénix? Descreva sucintamente o modelo de supervisão construído para o efeito. A inovação revelada/desocultada pelo modelo de actuação dos Mecanismos Fénix suscitou reflexões aos níveis inter-disciplinar, interdepartamental ? Como? O Projecto Fénix contribui para o 171 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. • • incremento da qualidade das aprendizagens? De que forma? O Projecto Fénix contribui para o sucesso das turmas não Fénix? Como? Com que periodicidade e como é feita a divulgação sobre os resultados/dinâmicas/impacto do Projecto Fénix a toda a comunidade educativa? 172 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. ANEXO 6 Transcrição da entrevista com a anterior directora executiva do Agrupamento Abuja Entrevistador: Boa tarde. Professor: Boa tarde. Entrevistador: Vamos começar a entrevista, com a finalidade de tentar perceber o impacto do projecto Fénix no agrupamento. Para iniciar, gostaria, se fosse possível, alguns dados profissionais, como: a formação académica… se quiser ir já… Professor: Sim… Relativamente à formação académica, eu iniciei no ensino com o curso do magistério primário… Uh… na altura, tinha o sétimo ano, o nosso sétimo ano antigo, que equivale agora ao décimo primeiro , e depois tirei os três anos de magistério em Santarém. Leccionei no primeiro ciclo dez anos; depois, tirei a licenciatura e estou no segundo ciclo há vinte…Uh…Tirei, também, em noventa e seis, noventa e oito, mais ou menos, a especialização em administração educacional na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação, em Lisboa… Uh… e fui fazendo formação contínua no âmbito dos órgãos de administração e gestão. Entrevistador: Acabou por fazer o segundo ponto da nossa entrevista, que dizia respeito ao percurso desde a finalização da licenciatura até hoje. Os cargos de administração? Onde, porquê e a duração? Professor: Os cargos de administração que tive…uh… Tive dois anos… uh… como membro da comissão instaladora na [nome da escola] , entre Setembro de noventa e quatro a Julho de noventa e seis, e nessa altura exerci todas as funções inerentes a uma experiência piloto, como foi o caso… uh… quando começámos a trabalhar, começámos quase, poderá dizer-se, só com as mesas e com as cadeiras e quando acabámos, realmente, estava tudo devidamente instalado. Correu bem, foi uma experiência que gostei muito. Depois estive… uh… no concelho, como estava a trabalhar no concelho de Alenquer, fui convidada para a coordenação concelhia do ensino recorrente, aceitei…uh… no âmbito do centro da área educativa do oeste, também foi uma experiência que gostei muito…uh… mas depois acabei por… uh… pedir que queria, na altura, sair; na altura, o coordenador até me disse para lá continuar, mas eu tinha motivos pessoais que fizessem com que procurasse, naquela altura, ter um horário, coisa que com esta função eu não tinha… uh…e, na altura, tive questões familiares que realmente me criaram essa contingência. Depois vim para Azambuja, já estou cá há treze anos e tive todos os cargos possíveis para qualquer docente: fui directora de turma; coordenadora dos directores de turma; coordenadora 173 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. de departamento; presidente do conselho pedagógico; presidente do conselho executivo; e depois directora do agrupamento… Não sei se me falta algum cargo. Risos Entrevistador: Acabou já por referir a formação relacionada com o exercício de cargos… Professor: Sim, exacto, formação especializada para… Entrevistador: Para o cargo de directora? Professor: Para o cargo de directora, também. Entrevistador: E essa formação foi disponibilizada por quem? Professor: Fui eu que, na altura, fiquei muito motivada com aqueles dois anos que estive [escola em que pertenceu à comissão instaladora], e achei que me fazia falta ter uma formação mais específica para poder, caso um dia quisesse continuar naquela função ou noutras similares, porque mesmo a própria coordenação de educação de adultos também me exigia uma especialização, uma formação especifica… na altura, até tive alguma formação com o professor doutor Rui Canário, que estava muito ligado ao ensino recorrente; esta especialização foi tirada também, o coordenador do curso era o doutor João Barroso; foi uma equipa muito boa e…uh… acho que, na altura, senti essa necessidade e fui por iniciativa própria. Entrevistador: Quais são, ou quais foram, as motivações e expectativas quanto ao exercício do cargo de directora do agrupamento? Professor: Uh… Pronto… o que me levou a candidatar-me a directora… uh… Para já, porque tinha sido eleita e tinha exercido o cargo de presidente do conselho executivo entre dois mil e sete/dois mil e nove…Uh… e então, gosto… o gosto pelas funções foi o principal que me motivou a candidatar-me a directora. Depois, também, no mandato anterior tínhamos conseguido a melhoria dos resultados escolares, devido a uma reestruturação a nível pedagógico efectuada no mandato entre dois mil e sete/dois mil e nove, e que fez com que nesses anos lectivos e, nomeadamente, entre dois mil e sete/dois mil e oito e dois mil e oito/dois mil e nove, os resultados obtidos nos exames nacionais de nono ano de Língua Portuguesa e Matemática…uh… foram os melhores do concelho. Portanto, passámos de uns resultados inferiores que tínhamos e …uh… ultrapassámos as escolas do concelho. Isso também nos deu alguma motivação para continuar, porque afinal, a nossa tarefa pedagógica estava a surtir algum efeito. Entrevistador: E as expectativas seriam… Professor: Sim, de continuar. Outra coisa que nos deu motivação de continuar, é que tínhamos obtido a classificação de muito bom nos domínios de liderança e gestão 174 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. escolar atribuído pela Inspecção Geral de Educação ao agrupamento, no âmbito da avaliação externa. Também fomos um dos doze estabelecimentos seleccionados pela DRELVT, a participar na jornada Autonomia das Escolas Públicas, que ocorreu a um e a três de Julho de dois mil e nove, nas instalações da DRELVT, e cujo objectivo era a celebração de novos contratos de autonomia. Portanto, nesses dias, o nosso compromisso com a DRELVT era vir para a escola e colocar essa situação ao conselho pedagógico; só que, entretanto, houve ali uma mudança política…uh… creio que talvez por isso a DRELVT não avançou e nós, portanto, ficámos a aguardar. Foram várias as circunstâncias que nos fizeram acreditar que era possível continuar a exercer um cargo de direcção, e fez com que nos candidatássemos e tivéssemos cá ficado. Entrevistador: Relativamente à dinâmica do Conselho Pedagógico, considera que este é um órgão de decisão, de tomadas de decisão ou mais um órgão de consulta? Qual é a ideia que sobressai? Professor: Para mim, o conselho pedagógico é um órgão de decisão; decisão em termos pedagógicos. Eu acho que não faz sentido ser de consulta, porque tem os diferentes saberes, das diferentes pessoas, das diferentes áreas pedagógicas e, portanto, cabe-lhe a ele decidir…uh… o presidente do conselho pedagógico nesta altura, digamos, acumula o cargo com o de director; mas eu acho que há que saber distinguir…uh… como poderei dizer… a tarefa pedagógica da tarefa administrativa e… uh… da gestão das pessoas e das instalações. Há que separar as águas. Entrevistador: Na altura, quais foram os critérios para as escolhas de gestão curricular no agrupamento? Professor: Na altura, os critérios para as escolhas da…? Entrevistador: Gestão curricular…. Mais especificamente, podemos ir já ao cerne da nossa entrevista, a gestão curricular da turma Fénix. O que é que levou; quais os critérios para estabelecer essa gestão? Professor: A nossa preocupação fundamental … uh… também há uma coisa que eu ainda gostaria de acrescentar, em relação ao conselho pedagógico… Entrevistador: Vamos… Professor: Não sei se posso voltar atrás… Entrevistador: Pode. Professor: Uh… é porque uma das competências do conselho pedagógico, é propor o desenvolvimento de experiências de formação pedagógica, e foi baseado nisso que, como presidente do conselho pedagógico nessa altura, apresentei ao conselho 175 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. pedagógico a possibilidade de nos candidatarmos ao projecto e o conselho pedagógico foi unânime em aceitar essa nossa proposta… Uh… Também quero dizer que foi uma das coisas que nos fez seguir, foi essa receptividade do conselho pedagógico e é uma situação que está registada nas actas de conselho pedagógico. Portanto, durante o primeiro ano de implementação do projecto, entre dois mil e nove/dois mil e dez, o conselho pedagógico informou com regularidade os seus elementos sobre o desenvolvimento do Projecto Mais Sucesso Escolar, Tipologia Fénix. Se pudermos consultar as actas, em todas elas…uh… através dessa leitura, constatamos que foram dadas informações, tais como: o currículo essencial para trabalhar, digamos, as turmas Fénix; qual era, na verdade, a essência que devia ser trabalhada do currículo, mais flexível dos ninhos; os momentos de formação disponibilizada aos docentes envolvidos, porque houve formação… Entrevistador: Interna ou externa? Professor: Externa. Dada pelos próprios… Entrevistador: Mais à frente, já iremos focar-nos nisso… Professor: Pronto… uh… E, pronto, até a evolução das aprendizagens dos discentes eram registadas nas actas de conselho pedagógico, ou anexados os relatórios com essas informações. Portanto, em todas as actas desde Outubro de dois mil e nove, a Junho de dois mil e dez, ao consultá-las, há sempre referência ao Projecto Mais Sucesso Escolar. Daqui, se infere a importância que o projecto tinha para o conselho pedagógico. Entrevistador: Os actores educativos são incentivados a tomar decisões e a responsabilizar-se por elas? Professor: Sim… uh… eram. Eu achei sempre que os professores…uh… nunca quis decidir por eles. Acho que todos nós somos responsabilizados na nossa profissão, de acordo com as competências que nos são atribuídas, pelas tarefas que realizamos e, portanto, eu… Entrevistador: Mas estas decisões do currículo são incentivados a… Professor: São, são. São eles que estão com os alunos, em sala de aula. Portanto, eles é que sentem as dificuldades no real. Não posso, se eles me disserem: Tenho esta dificuldade… E eu: Não, olha para o lado e segue em frente… Não, nada disso. É uma coisa que eu gosto, é a parte pedagógica, sem dúvida. Entrevistador: Então, foi o ter ouvido as opiniões dos vários actores … Professor: Ah, sem dúvida! 176 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Entrevistador: Está relacionado com a pergunta que eu agora lhe queria fazer: Quais foram as razões que conduziram à adesão ao Programa Mais Sucesso Escolar? Professor: Exactamente. A adesão foi … uh… porque a nossa preocupação era com os… uh… Portanto, a tomada de decisão relativamente… Entrevistador: Às razões que conduziram à adesão ao Programa Mais Sucesso Escolar. Professor: Exactamente. As razões que nos levaram, foi ter em vista garantir a todos os alunos que entrem no primeiro ano de escolaridade, um percurso escolar de sucesso educativo sem retenções até ao final da escolaridade obrigatória. E, no primeiro ciclo, tínhamos verificado que um dos anos em que, realmente, se notava que os alunos se ressentiam, ou que teriam muitas dificuldades, era no segundo ano de escolaridade. Porquê… porque eles do primeiro para o segundo transitam, mas na verdade há muitos meninos que não têm a pré, não fazem pré-escolar, e , portanto, acaba por haver no segundo ano, ali um culminar de dificuldades. Então, achámos que, feito o tratamento de dados e a análise de resultados escolares, pareceu-nos que o segundo ano, era um ano que precisava, realmente, de ter uma especial atenção. Quando o projecto foi proposto, quando apareceu esta hipótese de nos agarrarmos… uh.. de podermos aproveitar a mais-valia de projectos desta natureza, achámos que não podíamos desperdiçar, não é… Entrevistador: Mas, para além de se ter iniciado no segundo ano de escolaridade, iniciou-se, também, no sétimo ano. Professor: No sétimo ano, porque também era um ano muito difícil… porque no sétimo ano…uh… os nossos alunos, como havia aqui uma divisão de alunos, uns optavam… podendo frequentar o sétimo ano na escola secundária, e outros aqui no agrupamento… sentíamos que os meninos que ficavam… uh… que tinham, que apresentavam, embora fossem nossos alunos, sentíamos que eles tinham dificuldades, que precisavam de ser trabalhadas. Para já, quando se acaba um ciclo, o sétimo é um ano que tem Físico-Química, Geografia, o Português é muito mais aprofundado, ou a Matemática os conceitos são cada vez mais complexos, e, portanto, como havia a possibilidade… uh… o crédito, também, era muito apertado... uh… e então, achámos mesmo que o sétimo era o ano ideal para… Entrevistador: Nunca se equacionou o quinto ano por razões de crédito ou porque não havia… Professor: Porque naquela altura, realmente, a nossa grande dificuldade era o sétimo ano, porque os alunos chegarem ao nono e poderem realizar o exame de Língua Portuguesa e de Matemática…uh… ter as mesmas oportunidades do que os outros alunos, porque há sempre aqueles que aprendem de uma forma mais lenta e aqueles de uma forma mais rápida; e estes que aprendem de uma forma que têm o seu ritmo 177 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. próprio, um pouco mais devagar, com um reforço teriam a possibilidade de ter as mesmas oportunidades quando fosse no exame de Língua Portuguesa e de Matemática. E foi essa, na altura…uh… o pensamento. Não esquecendo que a nossa ideia era alargá-lo , por nossa iniciativa, cá no agrupamento. Entrevistador: Alargá-lo? Professor: Alargá-lo a outros anos de escolaridade. A nossa intenção era, no ano seguinte, para além do crédito que nos foi concedido pelo projecto, nós estávamos a encontrar uma forma, porque tínhamos horas que eram disponibilizadas para outras… uh… outras ofertas de apoio curricular; e íamos canalizá-los e fazer a mesma, ou seja, criar a mesma situação para o segundo ciclo. Não pudemos, porque, entretanto, fomos por circunstâncias que sabemos, devido à reorganização da rede escolar…uh… fomos afastados do cargo. Entrevistador: Pois. Professor: Sabemos bem que temos um determinado crédito e pode ser usado, tem muito a ver com a pessoa que está à frente, se se preocupa com a questão pedagógica ou se se preocupa mais com ter assessores para tratar de outras coisas, que consome imensas horas e não reverte a favor dos alunos. Entrevistador: No que concerne ao Projecto Fénix, que liderança pedagógica assumiram as coordenações de departamento e de conselho de docentes? Professor: Uh… a coordenadora do departamento do primeiro ciclo acumulava funções com a coordenação do projecto. Portanto, ela foi uma grande impulsionadora do trabalho desenvolvido no segundo ano, por todo o agrupamento. Nós, na verdade, não fora os espaços que nos coibiram; os miúdos tinham nos átrios das escolas, cantinhos das salas de aula…uh… as colegas aderiram tão bem ao projecto, que elas próprias arranjavam forma simples de o concretizar, e eu ficava muito satisfeita quando vi professoras aliás coordenadoras de estabelecimento… uh… que só precisavam de trabalhar cinco horas, porque o resto era como coordenadoras de estabelecimento dava para essas atribuições, mas usaram várias dessas horas em… Batem à porta e foi necessário interromper. Professor: As colegas do primeiro ciclo foram, realmente… Voltam a batem à porta, alguém entra, pede desculpa e retira-se. Professor: As colegas do primeiro ciclo estavam motivadas e elas próprias, creio eu, que também incutiram esse gosto aos miúdos, aos alunos, e no fim disseram que, realmente, tinha sido uma boa aposta. 178 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Entrevistador: Esteve a referir às coordenações do conselho de docentes… Professor: Exacto. A [nome da professora] coordenou o primeiro ciclo, a coordenadora do conselho de docentes, soube incutir a … uh…. Portanto, o gosto pelo projecto, e as colegas acharam que tinham de ser aproveitadas as potencialidades e tudo aquilo que estava ali ao alcance para poder reverter a favor dos miúdos. Entrevistador: E as coordenações de departamento? Professor: No segundo e terceiro ciclos… Nós, também, a coordenadora do departamento de Línguas era uma pessoa muito interessada, sempre a questionar… uh… a colaborar…uh… a partilhar. Portanto, foi… e o professor de Matemática, o coordenador, o professor [nome do coordenador do departamento de Ciências Exactas) também…uh… pronto, há sempre aquelas pessoas que são mais próximas de determinados projectos…mas que, também, nunca…uh…sempre colaborou, na medida em que achou que devia colaborar. Entrevistador: Relativamente aos professores envolvidos, como é que eles percepcionaram o modelo de actuação dos mecanismos Fénix? Professor: Eu acho que os professores não tiveram qualquer…uh… problema, ou notaram alguma diferença que lhes causasse algum constrangimento. Na altura, os professores quando foram… aquele conselho de turma, na verdade, na medida do possível, foi escolhido, não é… As pessoas já sabiam para o que iam, nada lhes foi imposto. Claro que há disciplinas em tínhamos só um professor, e aí… pronto… não posso dizer que houve escolha, mas naqueles em que pode haver, atendemos ao perfil dos professores para… eu acho que isso é fundamental… uh… Depois, os pais também foram… Entrevistador: Era já a próxima questão: Como é que os pais percepcionaram este modelo de actuação? Professor: Não acharam que houvesse alguma discriminação, pelo contrário, era diferenciar para conseguir melhorar. É uma diferença muito positiva. Os miúdos, também, não tiveram qualquer constrangimento… aqueles que integraram os ninhos e que saíam com o professor do ninho para a sala ao lado, pelo contrário, creio que houve ali uma grande proximidade, porque os miúdos não estão tão constrangidos em revelar as suas dificuldades perante um grupo em que há conhecimentos em níveis diferentes… uh… e puderam, abertamente, falar com o professor quanto às dificuldades. Nunca me pareceu, e contactei várias vezes os miúdos… eu até acho que alguns tinham comportamentos mais irregulares, e este ano, também porque passou um ano, quando os vejo na biblioteca e contacto com eles, noto que há uma postura diferente, se calhar também devido à possibilidade que eles tiveram. 179 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Entrevistador: Voltando aos pais… Foram feitas, então, reuniões regulares… Professor: Sim, sim. Os pais foram todos… Entrevistador: Conselho de turma/pais, ou… Professor: Conselho de turma, pais… Portanto, os pais estavam perfeitamente esclarecidos sobre aquela dinâmica e nunca colocaram nenhuma questão, nunca, nunca, nunca! Foi uma coisa muito bem aceite. Entrevistador: Quais as estratégias de gestão de currículo que estão inerentes ao projecto Fénix? Professor: A gestão do currículo… pronto… Para os ninhos, o currículo era mais flexível naquelas disciplinas em que eles… a Português, a Matemática e a Inglês… uh… nas outras disciplinas, o currículo mais ou menos era…uh… portanto, era igual para todos… uh… Entrevistador: Havia ninhos de Inglês? Professor: No Inglês, foi uma situação diferente; havia assessorias para grupinhos específicos, por uma questão de salas. O crédito também que nos foi oferecido na altura, ao que tivemos direito, foi de vinte e cinco horas para o primeiro ciclo, e nós ultrapassámos largamente com o crédito da escola, porque as colegas disseram: Não, mas olha, assim ficará melhor, haverá… E nunca criámos qualquer objecção, nunca fizemos questão de mais duas ou três horas, ou de cinco horas de crédito, assim as professoras dissessem que, realmente, valia a pena e que os alunos iriam beneficiar. Em termos do terceiro ciclo, foi a mesma coisa; nós só tivemos direito a dez horas de crédito horário, o que foi muito pouco, só nos deram um professor, disseram-nos qual era a disciplina que queríamos, ou de Português ou de Matemática, escolhemos de Matemática…uh… Depois, tudo o resto foi crédito da escola, porque as oito horas… Português são quatro horas semanais, a Matemática são quatro horas semanais… são oito, eles eram dez. Aquelas duas horas, para já, nem sequer dava nem para reunirem, porque eles tinham que reunir todas as semanas. Por isso é que eu digo, eu acho que foi uma experiência que todos resolveram apropriar-se dela como sua, e deram o melhor que puderam, porque trabalharam muito tempo que não tinha nada a ver com o seu horário. E aí é que eu acho que foi o encanto da situação, e quando nós trabalhamos com motivação, acho que isso é… Entrevistador: Não há horas… Professor: Não há horas. E depois, para além disso… a questão do Inglês, porque aí também não havia horas, nem sequer haveria essa hipótese. Mas como os miúdos tinham, realmente, dificuldades a Inglês, e como também não tínhamos salas… porque o nosso problema, na verdade, implica que aquela turma enquanto está a ter 180 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Português é preciso ter duas ou três salas, e que nós aqui na escola sabemos que é muito complicado… uh… O Inglês, também recorremos ao crédito horário, só que em vez de ser numa sala para um ninho ao lado, a professora entrava com a professora do Inglês dentro da sala de aula. Achámos que, também, poderíamos dar esse reforço. Entrevistador: Quer dizer… já tenho aqui várias respostas numa única questão, porque uma das questões era: Quais foram os recursos humanos/materiais necessários à implementação do projecto? Professor: Foram todos aqueles que o conselho de turma considerou necessários. Entrevistador: Agora, temos de voltar um bocadinho atrás… às estratégias da gestão do currículo inerentes ao projecto, em que órgãos é que foram delineadas? Professor: Ah! Foram nos departamentos, nos departamentos e dadas a conhecer em conselho pedagógico. Quando era feito, no final de cada período lectivo…uh… quando era dada aquela informação, que era para ficar registada em acta de reunião de conselho pedagógico os conteúdos leccionados, por disciplina e nas diferentes turmas, a turma Fénix vem referenciada nas actas de conselho pedagógico, relativamente a que há conteúdos que tiveram de ser, digamos, reorganizados de outra forma para poderem ser trabalhados com os miúdos. Portanto, houve ali uma gestão, a par e passo, do currículo, sempre percebendo que eles tinham que ter as competências necessárias para enfrentar um exame de Língua Portuguesa e de Matemática. Entrevistador: Como se alocaram os professores às turmas Fénix? Professor: Ah… conversei com eles; conversei com eles…uh… e mediante aqueles que manifestaram interesse em fazer parte dessas turmas, foram assim… tudo… uh… na maior democracia Entrevistador: Como é feita a afectação da direcção de turma Fénix? Professor: O professor do primeiro ciclo… pronto, são os professores titulares de turma. No terceiro ciclo, eu antes de pensar… enquanto que pensei no conselho de turma, pensei quem seria uma boa directora de turma para agarrar, não é… Quem teria mesmo o perfil para uma coisa dessas e falei com ela, anteriormente, e só quando ela me disse que sim senhor, que estava interessada, então foi atribuído a ela. Entrevistador: É o perfil pessoal? Professor: Pessoal e profissional…uh… Entrevistador: E com formação? Professor: E com… uh… não. A colega não tinha formação específica para assumir uma direcção de turma destas; mas, na verdade…Uh… desempenhou o seu papel muito bem. 181 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Entrevistador: A relação desenvolvida entre alunos e professores é considerada na constituição das turmas Fénix? Professor: É assim… como muda de ciclo, os professores do segundo ciclo já não são os mesmos. Entrevistador: Pois, esta questão seria para hoje, para o presente ano lectivo… Professor: O problema é que eu achei que era para três anos. Se nós procuramos sempre dar continuidade pedagógica dentro do ciclo, no caso do sétimo ano. No caso do primeiro ciclo, eles iriam continuar com o professor. No caso do terceiro ciclo, também iriam continuar, caso a direcção executiva fosse a mesma. Pelo menos, aqueles que não estivessem, por questões de contrato tivessem que sair, o que não aconteceu. Mas, entretanto, sei que há professores que não estão com a turma, porque não lhes foi dada continuidade pedagógica. Mas isso já foi posteriormente, já foi neste ano lectivo que está a decorrer Entrevistador: Quais foram as estratégias utilizadas pelas estruturas de liderança… desde a coordenação de departamento ao pedagógico… no que respeita às orientações para a implementação do projecto Fénix? Foram estratégias largamente difundidas por todas as estruturas de liderança? Professor: Todas as estruturas… aliás… aqui…uh… desde as reuniões de conselho pedagógico, de departamento, de conselho de turma, de conselho de titulares de turma…eram reuniões que eram realizadas com uma regularidade. Aliás, eram agendadas no início do ano até ao final do ano; portanto, todos esses assuntos eram debatidos nas diferentes estruturas, era do conhecimento de todos, tudo o que se passava em termos pedagógicos na escola. Entrevistador: Como se promoveu a articulação entre os docentes e as várias estruturas de liderança do agrupamento? Professor: Departamentos; direcções de turma …essas estruturas estavam…uh… havia uma grande relação entre as pessoas, naquela altura e, portanto, até às vezes, muitos dos contactos eram formais, mas grande parte deles eram informais. Entrevistador: Como é feita a monitorização e o acompanhamento do conjunto de estratégias do projecto Fénix? Professor: Uh… Entrevistador: É interna, externa…? Professor: A coordenadora de projecto tinha sempre o cuidado de verificar os diferentes andamentos, as diferentes etapas, e eu também. Eu estive sempre dentro de todas as…uh… digamos, todo o desenvolvimento. Era uma questão que me tocava 182 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. bastante. Aliás, no ano em que nos candidatámos … uh… foram reuniões em Julho, em Agosto; uma, creio, a vinte cinco, vinte e seis de Agosto, que eu até tinha ali dois, três dias de férias, e acabei por ir à vinte e quatro de Julho, à reunião, porque não ia pedir à coordenadora que interrompesse as suas férias … uh… e fui eu. Portanto, era uma coisa que eu gostei sempre, a par e passo com a coordenadora, de monitorizar as diferentes etapas e o estado do projecto. Entrevistador: Mas como é que era feito? Professor: Ela fazia sempre um relatório…ela tem muitos relatórios; os professores faziam, também, os relatórios das diferentes etapas. Depois, também, recebíamos bastante apoio da equipa exterior que coordena… Entrevistador: Sempre se mostraram disponíveis? Professor: Sempre, sempre. E, além disso, eles próprios nos pediam, várias vezes, dados, informações, que nós preenchíamos na plataforma; sempre tivemos todo o apoio. Nunca houve qualquer… Nós até tínhamos um contacto directo com a directora do Agrupamento de Beiriz, e ela fazia mesmo questão… era o mail, os contactos todos… Éramos atendidos de imediato. Melhor do que um serviço qualquer, que às vezes ligamos, ligamos, e nunca ninguém atende. Entrevistador: Pois, lá está, é a vontade e o empenho… Professor: O empenho, exactamente. Entrevistador: Quais são as estratégias utilizadas pelo conselho de turma ou pelo conselho de docentes, para garantir a articulação horizontal e vertical? Professor: Isso era sempre feito entre departamentos. Nós, aqui, os departamentos reuniam por ciclos, reuniam por… o departamento vai desde o quinto ano até ao nono. Também, depois, com os directores de turma… uh… articularam sempre com todas as estruturas. Entrevistador: Mas não há uma estratégia que queira evidenciar? Professor: Não. Agora assim de repente… Entrevistador: Houve lugar a formação externa, no âmbito do projecto Fénix? Professor: Sim, houve, houve. Entrevistador: Em quantas sessões é que esteve presente? Professor: Uh… Ainda fui a algumas com a [nome da coordenadora do projecto], muitas vezes fui sozinha com a [nome da coordenadora do projecto]. Nesta última, já 183 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. não fui, que era a quinze de Julho, porque entretanto já tinha sido afastada do cargo, mas foi a [nome da coordenadora do projecto]. Entrevistador: A partir da formação que foi sendo disponibilizada, quer interna quer externamente, quais foram as estratégias das estruturas de liderança do agrupamento para difundir o conhecimento que foram obtendo ou que foram construindo? Professor: Uh… as estruturas Entrevistador: A partir da formação que foi sendo disponibilizada, talvez mais a formação externa… Professor: Os colegas, com essa formação, puderam, digamos, usá-la a favor das turmas e dos alunos com quem estavam a trabalhar. Entrevistador: Mas só era focalizada na envolvência dos grupos Fénix? Professor: Era, era. Não foi alargada. Embora elas, no fundo, acabam por dar aulas a outras turmas; acredito que essa formação acaba por ser difundida, não é? Essa é que é a verdade, acaba por ser difundida porque elas não têm só a turma Fénix, e nós sabemos que qualquer formação, qualquer novo conhecimento que nós vamos adquirindo, não vamos estancá-lo só ali num determinado sítio, mas vamos difundindo pelos outros com quem acabamos por trabalhar. Entrevistador: Quais foram as mudanças observadas na prática educativa dos professores? Professor: Eu acho que houve mudanças. Pronto, nós sabemos que a mudança encontra sempre alguma resistência, não é? Agora, na verdade, e também não se pode pedir…uh… só aos docentes que apresentem bons resultados escolares, mas também é preciso proporcionar as condições necessárias aos professores. E sabemos que aqui não fomos, não somos muito rígidos em termos…uh… técnicos. Acabamos por, com aqueles professores e com as pessoas que se disponibilizaram e que usaram tanto do seu tempo… uh… nós também acabámos por conviver com essa realidade… Eu acho que aqui estou com alguma dificuldade em responder… Fez-se uma pausa, a fim de a nossa interlocutora descansar e reflectir um pouco. Professor: Creio que relativamente à prática, se houve mudanças em relação à prática educativa, não tenho dúvidas que tenha havido. Na verdade, não foi, não houve, no aspecto de colegas poderem ir assistir, ou ver como as aulas daqueles colegas decorriam… essa prática, nós não chegámos a adoptar. Também foi o primeiro ano de projecto; portanto, foram muitas coisas que se tentaram pôr em prática, não só isto, mas os novos programas da Matemática… uh… houve várias situações em que tivemos de trabalhar aparte e, na verdade, aqui não creio… apesar de terem havido muitas 184 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. mudanças; eu própria ouvi vários professores dizer: Ah, eu agora até tenho repensado depois daquela formação… Olha, aquilo foi muito bom, mesmo… fez-me repensar…uh… a minha prática, como, às vezes, com coisas tão simples, podemos melhorar tanto o ambiente educativo dentro da sala de aula. Mas não tivemos oportunidade de desenvolver mais a fundo, e poder mesmo constatar dentro da sala de aula. Entrevistador: Quais os incentivos para que os professores partilhassem essa mudança na sua prática? Professor: No fundo, os colegas partilharam através do conhecimento …uh… do que eles contavam nas reuniões de departamento. Houve uma certa partilha; não uma partilha de poder ir à sala de aula ver, in loco… mas houve partilha de experiências, isso houve. Entrevistador: Considera que existe alguma necessidade de formação, no âmbito deste projecto? Professor: É assim… ela tem sido dada. Portanto, eu acho que é bom, porque a formação chama-nos a atenção para coisas que nós, por vezes… Entrevistador: Em alguma área específica… ? Professor: Eu acho que ali nem é bem em área… uh… Entrevistador: Sobre avaliação…? Professor: Pois, não em área disciplinar. Sei que este ano, pelo que eu ouvi uma colega, que tinha havido formação em coaching, acho que foi… porque eu agora, na verdade, estou afastada de tudo, nem nunca mais ouvi, nem ninguém quis partilhar nada comigo. Estou a brincar, mas é verdade, estou completamente afastada, fui completamente afastada de tudo…uh… Entrevistador: Até poderia ser em departamento, no actual departamento, que se falasse algo sobre isto… Professor: Mas em departamento, neste momento, desde o dia um de Setembro até ao dia… hoje, são quantos? Dezassete de Março…no total, entre reuniões de departamento de Línguas, de grupo disciplinar, seja do que for, houve quatro reuniões. Portanto… Setembro, Outubro, Novembro, Dezembro, Janeiro, Fevereiro, Março… há sete meses. Portanto, não há nada para partilhar, certamente. Entrevistador: Como têm evoluído os resultados dos alunos? Professor: O ano passado, este ano não posso referir, os professores comentaram que se não fosse aquela oportunidade, eles certamente não teriam transitado. Mas como, na verdade, tinham o reforço ali num ninho, em que grupos de pequena dimensão têm 185 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. aquela oportunidade de ter um professor quase individualizado, é um ensino praticamente individualizado, eles tiveram oportunidade de ir adquirindo mais conhecimento; coisa que se não fosse desta forma, não teriam… Entrevistador: Quer dizer que os resultados evoluíram positivamente? Professor: Positivamente, sem dúvida. Acho que é de manter, acho que é de continuar. Não nos moldes em que estão talvez este ano a ocorrer, em departamento nunca ouvi qualquer informação sobre o assunto. Entrevistador: Uma análise ou apreciação de resultados… Professor: Nunca, nunca. Estamos em Março. Nem tenho conhecimento do que se passa nas reuniões de conselho pedagógico, também não há reuniões de departamento; mas, também não creio que tenha havido alguma apreciação… mas não posso afirmar de ânimo leve. Nos departamentos não foi feita nenhuma apreciação. Entrevistador: Nem em grupo disciplinar? Professor: Nem em grupo disciplinar. Não creio que as coisas a continuarem desta forma que cheguem a bom porto. Entrevistador: Em que áreas ou disciplinas se observa progressos nas aprendizagens e nos resultados? Professor: Uh… A Português e a Matemática, porque eles tinham muitas dificuldades; eram alunos com muita dificuldade e, mesmo assim, eles já iam adquirindo algumas competências. As professoras diziam que sim, que havia, dentro do possível, alguma melhoria nessas duas disciplinas. Entrevistador: E como é que se explica as diferentes taxas de sucesso entre disciplinas ou áreas? Por exemplo, se eles tinham boas taxas de sucesso a Língua Portuguesa e a Matemática, porque é que isso não se reflectiu nas outras disciplinas… na Geografia, na História, nas Ciências…Havia muita disparidade nas taxas de sucesso? Professor: Não sei se… não tenho essa informação. Sinceramente, de momento, não me recordo já sobre essa análise. Entrevistador: Que elementos se revelam os determinantes dos casos de sucesso? Professor: Também foi no fim do ano, foi um ano difícil. Portanto, essa situação e esse estudo que nós fazíamos sempre já no pedagógico, no final de Julho, meados de Julho, toda essa apreciação, foi aqui na escola uma situação com muita turbulência e, portanto, acabei por, também, já não estar, digamos… uh…ao pormenor e com disponibilidade para essa análise, que fazíamos sempre. Aliás, era um colega nosso que 186 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. fazia sempre o tratamento de dados e a análise dos resultados de todas as disciplinas, em todas as turmas… uh, e era sempre feita uma apreciação, nestes três anos em que estivemos; mas este último ano, eu já não pedi ao colega que fizesse, ao colega e à equipa que estava com ele, já não lhe pedi essa…uh… achei que já não tinha esse direito. Entrevistador: Quais são os elementos que se revelam os determinantes de insucesso? Por exemplo, a relação pedagógica entre professores e alunos seria um determinante para o sucesso? Professor: Eu acho que é um determinante para ser caso de sucesso … a relação pedagógica. Entrevistador: É?... E a prática educativa? Professor: É. Aquela relação com o professor/aluno… Eu acho que as duas coisas estão interligadas. Quer a prática que o professor acaba por desenvolver com aquele aluno, quer aquela empatia que o aluno desenvolve com o professor… Eu acho que a relação entre professor/aluno é fundamental. Havia professores que até me diziam: Ah, ele veio-me fazer confidências lá de casa. Eu que nem sabia, agora, na verdade, até vendo bem… se calhar…até nem é de todo descabido estas atitudes que, por vezes, ele tem. Havia uma maior compreensão, o conhecimento sobre o aluno, sobre questões que lhe tocavam, também fazia que o professor tivesse uma outra forma de o olhar. Entrevistador: Quais as modalidades e instrumentos de avaliação que foram utilizados? Professor: Os colegas faziam as suas fichas e todos os seus trabalhos, mas de acordo com aquele grupo e as dificuldades do grupo Fénix, porque o grupo não é sempre o mesmo, eles vão rodando. Conforme o professor achasse que havia algum aluno que, na verdade, já podia sair… o grupo Fénix não é sempre composto pelos mesmos alunos. Portanto, aqueles trabalhos de sistematização ou para avaliação que o professor pedia ao aluno, eram feitos de acordo com… a exigência, digamos… era feita de acordo com aqueles que de momento integravam o ninho Entrevistador: De que maneira se utilizam os modos de avaliação para identificar, explicar e regular as dificuldades que foram surgindo? Professor: De que maneira… Entrevistador: Em conselho pedagógico… dando um exemplo… se era feita a análise de processos e de resultados? Certamente, os modos de avaliação utilizados… Professor: Era, era! Exactamente. O coordenador de departamento levava essas situações da turma, daquele grupo ninho, e nós, os que estávamos presentes, dávamos 187 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. sugestões…uh… outras pistas para trabalhar, no sentido de ajudar e, da nossa experiência, também poder beneficiar quer professores mais novos, quer depois a sua prática com os alunos. Entrevistador: Como é que se processa para reorientar o processo de aprendizagem? Professor: Uh… O processo de aprendizagem…uh…eu acho que ele é reorientado continuamente, porque é uma coisa que se vai desenvolvendo no dia-a-dia; por vezes, a aprendizagem, nós temos um determinado caminho que não está a resultar, temos que nos reorganizar, reinventar, e acho que era isso que era feito. Entrevistador: Mas, os professores Fénix _ vamos chamar-lhes assim_ tinham esse cuidado? Professor: Sim, eu creio que sim. Pelo menos, a directora de turma, nas reuniões do seu conselho de turma… eles reuniam várias vezes, precisamente para reorganizarem, se reestruturarem de acordo com as aprendizagens verificadas. Entrevistador: Os alunos participam na programação das actividades, nomeadamente na construção do seu Projecto Curricular de Turma? Professor: Eu acho que eles colaboravam…uh… eles eram ouvidos…uh… e, normalmente, os miúdos até escolhem, dentro das hipóteses que o professor lhe dá, eles têm essa oportunidade de ser ouvidos. Entrevistador: Como é que os alunos são consultados e co-responsabilizados nas decisões que lhes dizem respeito? Professor: É na hora de Formação Cívica, com o seu director de turma…Portanto, eles têm esse direito…uh… não digo aqui só em relação…uh…nós fazíamos reuniões com os delegados e com os subdelegados _ que eu não sei se, este ano, ocorreu _ mas eram feitas, trimestralmente; os miúdos punham as suas ideias, davam sugestões e, com as sugestões que davam, a coordenadora dos directores de turma, no ano passado, fez o tratamento de dados das sugestões dadas, e depois havia um “gráficozinho” de barras que lhes era apresentado, de acordo com as sugestões que eles tinham dado, e era um trabalho muito interessante desenvolvido com eles, sim senhor. Entrevistador: Como é que se estimula e se valoriza os sucessos individuais dos alunos? Professor: Uh… Eu acho que eles ao saberem que até já iam, de novo, voltar à turma mãe, já era estimular o aluno… Pronto, agora estás melhor nesta área; tens esta unidade que até já aprendeste bem; vais voltar, depois se for preciso voltas… Esse saber que há hipótese de voltar, e que voltava, acho que aí já é um estímulo, que o faz voltar ao grupo mãe, ao grupo turma. 188 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Entrevistador: Os alunos têm um comportamento disciplinado? Professor: Não, eram alunos com comportamento…nem todos… alguns com um comportamento irregular, mas que também ia melhorando no pequeno grupo. Entrevistador: Quer no primeiro ciclo, quer no terceiro? Professor: Sim, quer no primeiro, quer no terceiro, verificava-se uma melhoria. Entrevistador: Os alunos conhecem e cumprem as regras de funcionamento da escola ou da turma? Professor: Uh… O ano passado, as regras de funcionamento estavam nas actas de conselho de turma; eu creio que este ano, também; e eles cumpriam-nas. Este ano, noto que há…uh…mais alvoroço…uh… eles próprios, comigo como docente, já têm comentado várias vezes que as faltas não contam para nada. Não há regulamento interno, neste momento, no agrupamento. Estamos em meados de Março, não há regulamento interno, e eles sabem que andam à vontade. Pronto, na verdade, nota-se que eles andam nos corredores, há menos regras, há menos…uh… Entrevistador: Ou não há conhecimento das regras? Professor: Não há conhecimento das regras, talvez isso. Pelo menos, se não houve reuniões de delegados, subdelegados; não há, digamos, uma responsabilização desses…uh… em assembleia de delegados, se não se realizam para que eles tomem conhecimento das regras, eles não as vão poder difundir nas suas turmas. Portanto …uh… Entrevistador: Como se fomenta a disciplina, a assiduidade e a pontualidade? Professor: Como disse… Portanto, eram feitas reuniões regulares com os delegados e com os subdelegados; eles reuniam com o seu professor, na sua hora de Formação Cívica, tinham conhecimento e passavam a informação aos colegas…uh… e cumpriam. As coisas funcionavam muito bem. Aliás, a imagem que tínhamos aí, e que temos, até mesmo perante as opiniões de alguns professores da escola secundária, é que quando vieram cá em Julho e em Setembro para pequenas reuniões, ficavam admirados com a organização que aqui havia. Não era uma organização imposta, mas uma organização que tinha sido …uh… digamos, trabalhada entre todos. Entrevistador: Que importância se atribui ao impacto das aprendizagens nas expectativas dos alunos e na satisfação dos professores? Professor: Atribuía-se importância, criavam-se condições para os professores, não digo que tivéssemos o máximo de condições para os professores, porque, até mesmo em termos de instalações, tínhamos poucas salas. Portanto, também havia alguns constrangimentos, mas, realmente, tudo o que fosse para melhorar as aprendizagens e 189 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. os bons resultados que realmente nós até os conseguíamos obter… uh… até na nossa avaliação externa, que tivemos boa avaliação; até por termos sido chamados para fazer contrato de autonomia; é porque a administração, no fundo, até reconhecia que nós até estávamos a desenvolver trabalho com alguma substância… uh… Creio que sim. Entrevistador: Considera que houve mudanças nas práticas pedagógicas nas turmas Fénix? Professor: Eu, neste momento, não posso emitir opiniões nesse sentido. Sei que não foi dada continuidade…uh… Entrevistador: Nas práticas, nas práticas… Professor: Pois…uh… também não tenho conhecimento. Não tenho conhecimento. Entrevistador: E mudanças nas práticas pedagógicas nos ninhos? Professor: Também não tenho conhecimento. Entrevistador: Relativamente ao ano anterior? Não há algo que queira destacar? Professor: Não. Entrevistador: De que forma se desenvolveu um conhecimento mais próximo do trabalho realizado em sala de aula? Professor: Também, não… Entrevistador: Não houve? Professor: Sim, o trabalho de sala de aula, lá… Entrevistador: Até entre os professores, entre os pares… Professor: Pronto. Eu acho que tu, essas informações até vais conseguir , se calhar, com a directora de turma… uh… que está, como te digo… eu tento sempre responsabilizar as diferentes estruturas e, portanto, eu passava-lhe, conversava com a directora de turma, e passava-lhe o que é que eu achava que devia de ser e a colega implementava. Eu sei que ela reunia com muita frequência com os seus docentes, e que entre eles definiam como é que essas práticas, dentro de sala de aula, deviam ser trabalhadas. Na verdade, eu nunca acabei por estar muito dentro dessa prática. Entrevistador: Houve lugar a acompanhamento e supervisão interna da prática lectiva destes professores? Professor: Não. Foi tudo da responsabilidade do conselho de turma. O conselho de turma, aí, foi soberano. 190 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Entrevistador: Poderia ter estado, vamos supor, enquadrado no sistema de avaliação de desempenho… Professor: Pois, pois, pois… Não, não. Entrevistador: A inovação revelada pelo modelo de actuação dos mecanismos Fénix suscitou reflexões aos níveis interdisciplinar/interdepartamental? Professor: Sim, nas reuniões de departamento, eu creio que houve, porque na altura foi questionado aquele modelo, o que é que trazia de novo…uh… Sim, isso foi, foi largamente falado nas reuniões. Entrevistador: Na sua opinião, o projecto Fénix contribui para o incremento da qualidade das aprendizagens? Professor: Ah, sem dúvida, sem dúvida. Entrevistador: De que forma? Professor: Uh… Eu acho que estes alunos que, por algum motivo, têm uma aprendizagem, ou seja, que avançam com um ritmo mais lento, podem beneficiar de um projecto destes… Acho que é nestas alturas que temos que consolidar, ou seja, melhorar a qualidade. E a qualidade, por vezes… um professor com um grupo de vinte e sete ou de vinte e oito, por muito que se esforce, não consegue incutir a mesma qualidade de aprendizagem em todos os alunos, porque cada um está num determinado estádio e é difícil chegar lá. Mas esses alunos, se estiverem num grupo mais restrito em que possam ter essa aprendizagem mais direccionada só para eles, mais individualizada, eles certamente vão conseguir ultrapassar as dificuldades, o que é realmente muito importante. Entrevistador: O projecto Fénix contribui para o sucesso das turmas não Fénix? Professor: Eu acho que também contribui para o sucesso das turmas não Fénix, porque os professores estão a leccionar não só na turma Fénix, mas nas outras. Portanto, há ali uma osmose. Entrevistador: Com que periodicidade e como é feita a divulgação sobre os resultados, dinâmicas, e o impacto do projecto Fénix, a toda a comunidade educativa? Professor: É assim… Eu…uh… não posso saber, neste momento… creio que não há nenhuma informação. Havia, quando era feito o relatório trimestral para ser apresentado no conselho pedagógico, e aí como, logo na semana seguinte como calendarizado, havia a reunião do departamento… Portanto, se fosse de todos os departamentos, não só do departamento de Matemática e de Línguas, mas também de Expressões, em todos eles, essa informação era desmembrada e facultada a todos. 191 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Agora, neste momento, isso não acontece, realmente. Não é, digamos, não é uma prioridade. Entrevistador: Para finalizar, quais são as potencialidades e os constrangimentos (que também os há de certeza), relativamente à implementação deste tipo de inovação? Professor: Aqui na nossa escola, o constrangimento foi só, e apenas, o espaço. Poderia dizer: Ah, o constrangimento também vem das horas de crédito. Na altura, quando nos candidatámos, a proposta era uma psicóloga, uma assistente social, não sei quantas horas… Nós pedimos uma série de coisas e, na verdade, tivemos muito menos. Porquê? Porque na altura … uh… acho que se candidataram… nós fomos uma das cento e vinte ou cento e trinta escolhidas em trezentas e tal e, na verdade, eles tiveram que distribuir, não é…uh… aquele bolo por muito mais escolas. E nós acabámos por… não foi constrangimento para nós, o menos horas, o menos tempo. O nosso único constrangimento foi, realmente, as salas; porque para termos o Português a funcionar com um ou dois ninhos, em vez de uma sala precisamos de três, e nós tínhamos catorze salas de aula para dezassete turmas… e aí é que era difícil gerir os espaços. Entrevistador: E as potencialidades? Professor: As potencialidades, para mim, são enormes. São poder levar os alunos todos, desde o primeiro ano de escolaridade, a concretizar a escolaridade obrigatória sem retenções. Entrevistador: Terminámos e agradeço imenso a disponibilidade. Professor: Muito obrigada, sem dúvida. E espero que tenha conseguido contributos. Entrevistador: Claro, são tudo contributos. Professor: Muito obrigada. Entrevistador: Obrigada, eu! Duração: 1h 02m 23s 192 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. ANEXO 7 Transcrição da entrevista com a Professora com funções de Coordenação do Projecto Fénix no agrupamento Primeira pasta Entrevistador: Boa tarde. Professor: Boa tarde. Entrevistador: Vamos proceder a uma entrevista, e gostávamos de saber quais são as percepções da colega como coordenadora do Projecto Fénix, neste agrupamento. Para começar, alguns dados profissionais. Eu vou enunciando e se quiser, vai logo dizendo. A formação académica… Professor: Licenciatura em Português, História e Ciências Sociais. Entrevistador: O percurso profissional desde a finalização da licenciatura até hoje. Professor: O que eu estou a leccionar, é isso que tu queres? Entrevistador: A leccionar ou feito. Professor: Uh… Portanto, quando acabei estava na educação especial… não me peças antes, porque tenho de estar aqui a fazer contas… Estive lá até quando? Entrevistador: Não é preciso dizer os anos… Só o que foi fazendo. Professor: Uh… Portanto, educação especial, onde ei apoios a alunos cegos e com deficiência visual…uh… a seguir, vim para o primeiro ciclo, onde estou há dois anos como coordenadora do primeiro ciclo e dando apoios educativos. Chega? Entrevistador: Isto não é o que chega, é o que é… (risos) Professor: O que é, é isso. Entrevistador: Formação relacionada com exercício de cargos… de coordenação, de apoios educativos que acabou de mencionar. Professor: Fiz em relação ao apoio educativo. Muita formação na área da cegueira e da deficiência visual… Uh… Quanto aos cargos, nunca surgiu oportunidade de fazer formação. 193 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Entrevistador: E formação para supervisão pedagógica e orientação educativa? Que, no fundo, é a área que tem como coordenadora do primeiro ciclo e, o que me interessa mais, coordenadora do projecto Fénix. Professor: Não, nunca tive formação. Entrevistador: Relativamente à dinâmica do Conselho Pedagógico, considera que este é um órgão de decisão, de tomadas de decisão ou mais um órgão de consulta? Destas, qual é a ideia que sobressai. Professor: É um órgão de tomada de decisão. Entrevistador: Quais os critérios para as escolhas de gestão curricular no agrupamento? Professor: Especifica lá isso melhor, o que é que tu queres. Entrevistador: Podemos falar em oferta educativa… onde é decidida a atribuição dessa oferta educativa. Professor: É assim, é decidida no pedagógico a atribuição dessa oferta educativa. Entrevistador: Mas quais são os critérios de escolha? Professor: Estás-me a… depois, isto não registas, as perguntas difíceis… Quais são os critérios de escolha… Aquilo que vejo lá aparecerem, e´que sugerem as… o que é que se há-de oferecer… nunca lá vi estarem a… Entrevistador: Mas pelo interesse dos alunos? Professor: É. Tanto que o espanhol até se vai manter, pela adesão tão grande que teve de alunos. Ao passo que se vê que o Francês está a perder alunos. Entrevistador: Os actores… neste caso poderá estar a pensar no conselho pedagógico ou fora dele… são incentivados a tomar decisões e a responsabilizar-se por elas? Professor: São. Entrevistador: É de sua iniciativa que tomam as decisões, ou é uma decisão imposta? Professor: Não. Geralmente, é…uh… não é imposta. É questionado, não parte da iniciativa deles proporem. São questionados e aceitam ou não aceitam. Mas raramente parte deles. Entrevistador: Quais foram as razões que conduziram à adesão ao Programa Mais Sucesso Escolar, ao Projecto Fénix? 194 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Professor: Quando a gente viu surgir, portanto, o projecto na DGIDC, e vimos o que é que ele oferecia, vimos a oportunidade de nós, no primeiro ciclo, podermos, realmente, oferecer aos alunos um apoio consistente, diário, que foi uma coisa que eu sempre defendi… que era o apoio que para mim resulta, e não aquele esporádico, que a gente vai lá uma vez, de vez em quando, dar aos alunos. Era, realmente, uma maneira de a gente combater, aí, as dificuldades de aprendizagem que vão surgindo. Entrevistador: Isso em relação ao primeiro ciclo… Professor: Sim, porque a ideia inicial foi em relação ao primeiro ciclo que surgiu a adesão ao projecto. Entrevistador: Mas depois… Professor: Depois, alargou-se ao terceiro ciclo. E aí foi realmente uma maneira de responder a alunos que tinham muitas… não se pode ter muitas repetências; tinham transitado ao sétimo ano com negativa ou a Português ou a Matemática. E ver que, realmente, era uma maneira de tentar ajudar estas crianças, uma maneira que não houvesse abandono escolar, e que eles conseguissem obter sucesso Entrevistador: Foram essas as razões principais. No que concerne ao Projecto Fénix, que liderança pedagógica assumiram as coordenações de departamento e de conselho de docentes? Professor: Ah… Eu não senti grande envolvimento para o projecto, nestes dois anos, de nenhuma estrutura sem ser o conselho de turma… muito sinceramente. (alguém entra na sala e teve de se interromper a entrevista) Entrevistador: O que é que as lideranças fizeram, para que o projecto Fénix fosse conhecido? Professor: A liderança… nesse caso, sou eu, não é? Entrevistador: Há liderança de topo, que é a gestão; as intermédias… departamento, conselho de docentes… Professor: Sim, mas aí… Entrevistador: Coordenadores de directores de turma… Professor: Aí… a intervenção que houve, foi da coordenadora de departamento; não houve …uh… a nível do conselho de docentes, que é o que tu perguntas, não é? Entrevistador: E coordenações de departamento…? 195 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Professor: De departamento… Inicialmente, portanto, isso partiu sempre de mim… a informação. Eu, como coordenadora do projecto, eu é que informava esses órgãos. Entrevistador: Então, a liderança pedagógica foi, essencialmente… Professor: Minha. Entrevistador:… da coordenadora do projecto Fénix. Como é que os professores que estão envolvidos e que estiveram envolvidos, percepcionaram o modelo de actuação dos mecanismos Fénix? Entenda-se os mecanismos Fénix, como a turma com uma homogeneidade relativa, os ninhos, a sua formação e mobilidade… Como é que os professores reagiram? Como é que eles percepcionaram este modelo de actuação? Professor: Eu vou separar os ciclos. Portanto, no primeiro ciclo aceitaram muito bem, não criaram problemas, não houve dúvidas; ao nível do terceiro ciclo, foi mais complicado Entrevistador: Mais complicado porque… Professor: Ai… é assim [nome do entrevistador]… Entrevistador: Isto é a percepção dos professores. Professor: Sim… Eu encontro muito… Portanto, a percepção que me dá, é que as pessoas custa-lhes um bocadinho a aceitar lidar com este nível de dificuldades dos alunos. E por muito que o grupo seja pequeno, é complicado, às vezes, verem que têm de descer a um nível muito baixo de aprendizagens para trabalhar com eles. Entrevistador: Está a referir-se aos ninhos? Professor: Estou a referir-me aos ninhos, especialmente. E na turma mãe… quer dizer… inicialmente, foi muito complicado, porque atendendo aos comportamentos que os alunos tinham; na turma mãe, não estava fácil a situação de trabalhar com este tipo de turma. Foi uma turma que deu muita polémica, estarmos a juntar todas estas dificuldades, que eu já te falei anteriormente. É isto que tu queres? Entrevistador: Sim, sim. Professor: Vá, continua. Entrevistador: E os pais? Como é que percepcionaram este modelo de actuação? Não virem os filhos numa turma, entre aspas, normal; verem os filhos juntos, quando o critério principal, o que os juntou, foi a dificuldade de aprendizagem… O que é que os pais sentiram, quando foram informados? Professor: Uh… A sensação que eu tenho, é que acharam por bem. Viram uma oportunidade de os filhos serem ajudados. Não quer dizer que não houvesse um ou 196 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. outro, que achava que a filha não deveria estar naquela turma, mas, de uma maneira geral, aceitaram bem Entrevistador: Quais as estratégias de gestão de currículo inerentes ao projecto Fénix? Professor: A gestão do currículo? Entrevistador: A gestão do currículo inerente ao projecto Fénix Professor: E queres ouvir falar de tudo, de todas as áreas, de todas as disciplinas? Entrevistador: Sim. Professor: É assim, a nível da Matemática e da Língua Portuguesa tem-se tentado cumprir o programa, simplesmente indo mais devagar e ir de encontro às aprendizagens que os alunos conseguem realizar; mas tendo sempre em mente que no final do nono ano têm de estar preparados minimamente para o exame… isto é a ideia que as pessoas têm. Quanto às outras disciplinas, as pessoas tinham oportunidade de trabalhar os conteúdos de uma forma mais flexível. Entrevistador: Está a falar de professores/disciplinas que não estavam envolvidas directamente… Professor: Directamente no projecto; já não estou a falar do Português ou da Matemática. Em Matemática e no Português há sempre a preocupação do exame… embora trabalhem ali ao nível dos alunos, mas têm sempre em mente que no final do nono ano eles vão fazer, quer queiramos quer não, o exame de nono ano. As outras disciplinas fazem de uma forma mais flexível, se calhar não exigindo tanto naquelas coisas que são mais supérfluas no programa, indo àqueles conteúdos essenciais Entrevistador: E essas estratégias de gestão do currículo eram tomadas onde? Só na reunião do conselho de turma Fénix, ou eram tomadas em departamento e apresentadas em pedagógico? Professor: Não. Eram faladas em departamento, ou na… não era bem departamento, era mais reuniões de grupo; no caso do terceiro ciclo, era no conselho de turma. Entrevistador: No conselho de turma Fénix, porque era só uma turma de terceiro ciclo? Professor: Sim. Mas nunca chegava muito ao pedagógico. Entrevistador: Quais foram os implementação do projecto Fénix? recursos humanos/materiais necessários à Professor: Ao nível do primeiro ciclo… Quais foram, não é o que a gente tem? 197 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Entrevistador: Pode ser os que se tem e que se aproveita, ou aqueles que se pediram. Professor: Quando a gente pensou no projecto Fénix, o que a gente pensou foi que, para além dos professores, precisávamos de uma psicóloga e de uma assistente social, devido aos problemas que nós tínhamos com muitos alunos; absentismo escolar e ,portanto, achámos que quem poderia trabalhar melhor junto dessas famílias seria uma assistente social e não o professor, que é o que muitas vezes nos acontece. A psicóloga, porque atendendo aos problemas comportamentais que nós tínhamos e outros. E depois há os professores. Foi isto que, inicialmente, quando propusemos o projecto, pedimos. Entrevistador: E todos esses recursos foram atendidos? Professor: Não, só os professores. Nenhum foi atendido a não ser os professores. Entrevistador: A psicóloga que existe no agrupamento, sei que esteve, de vez em quando… Professor: Sim, de vez em quando está disponível, mas envolvida, envolvida, não. Embora que, quando a gente pede ajuda, ela vá ao conselho de turma para ver um caso outro mesmo que não seja de orientação ou de um nível que ela … necessidades educativas especiais… Ela, às vezes, tenta ajudar. Entrevistador: Como se alocaram os professores às turmas Fénix? O professor titular de turma é mais fácil, não é… Professor: No caso do primeiro ciclo, eu tive a hipótese de escolher o professor. Entrevistador: Então, a continuidade pedagógica não foi tida em conta? Professor: Não… Estás a falar do professor titular? Entrevistador: Sim. Professor: Não, o professor titular tem a continuidade pedagógica; depois, é os outros… os do ninho Entrevistador: Sim, os do ninho. Professor: Mas os do ninho foram seleccionados. Eu tive oportunidade de os seleccionar. Entrevistador: E os critérios de selecção foram…? Professor: Os critérios de selecção foram… portanto, eu tive a oportunidade de ver a relação que eles tinham com os alunos, e pessoas que, realmente, uma maneira de 198 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. lidar com as crianças que conseguem chegar muito bem até eles. Ao nível do terceiro ciclo, isso partiu da direcção… colocaram pessoas na turma. Entrevistador: Como é feita a afectação da direcção de turma Fénix? Aqui passamos, outra vez… no primeiro ciclo é o professor titular; e no caso da turma Fénix, do terceiro ciclo, como foi feita a afectação da direcção de turma? Tiveram de ser definidos critérios; certamente um perfil… Professor: É assim… Foi pelo perfil, e pelo perfil foi seleccionada a professora… Entrevistador: E qual era o perfil? Quais foram os critérios que nortearam a selecção? Professor: Não, não te vou dizer uma coisa a que eu não tive acesso. Mas é assim, falaram na [nome da directora de turma do oitavo ano envolvida no projecto Fénix] e conhecendo as características dela, realmente, achei que era uma escolha ideal para uma turma. Entrevistador: Antes de ser definido quem tinha perfil. Professor: Sim, deveria haver uma série de critérios… mas sabes que eu isto aí não tive hipótese de opinar. Entrevistador: A relação desenvolvida entre alunos e professores é considerada na constituição das turmas Fénix?... Ou seja, quando se atribui a componente lectiva aos professores, é tida em conta a relação que eles já estabeleceram, ou não? Professor: Quando se constituiu a turma Fénix, isso não era possível. Os meninos estavam a entrar no sétimo ano, era tudo novo. Entrevistador: Mas este ano, já seria… Professor: Este ano lectivo, mantiveram-se. Entrevistador: Todos? Professor: À excepção daqueles que eram contratados e que tiveram que sair Entrevistador: Nem houve nenhum caso pontual,m em que se tivesse observado uma relação menos boa entre alunos e professores e que, por isso, se tenha mudado? Professor: Não. Entrevistador: Quais as estratégias utilizadas pelas estruturas de liderança, no que respeita às orientações para a implementação do projecto Fénix?... Isto é, vamos pensar numa coordenação de departamento, coordenação de directores de turma, os próprios directores de turma, e claro, o órgão de gestão, o conselho pedagógico. Quais 199 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. foram as estratégias utilizadas, que mobilizaram todas essas estruturas de liderança, para darem orientações para facilitar a implementação do projecto Fénix? Professor: É assim… Uh… Realmente, as orientações passaram por mim e pelo, na altura, sub…uh…sub, subdirector, não era? O [nome do actual coordenador de estabelecimento, que, no ano lectivo anterior (2009/2010) ocupava o cargo de subdirector da direcção executiva] que o cargo era… Entrevistador: Mas ia a pedagógico? Professor: Ia. Mas as informações… no pedagógico, nós demos a conhecer o projecto Fénix, mas… duma maneira muito generalizada. Pronto, não se entrou muito no pormenor do que era o projecto Fénix… inicialmente, quando foi a apresentação do projecto, não. Era mais ao nível do conselho de turma e do conselho de docentes. Entrevistador: Então, tinha assento nesses órgãos a colega, como coordenadora do projecto, e o [nome do actual coordenador de estabelecimento, que, no ano lectivo anterior (2009/2010) ocupava o cargo de subdirector da direcção executiva] como subdirector? Em todas as reuniões? Professor: Do pedagógico? Entrevistador: E não só. Professor: Não. No conselho de docentes… no conselho de turma? Entrevistador: No conselho de turma. Professor: Não. No conselho de turma, não tinha assento o subdirector. Entrevistador: Então, quais foram as orientações dessa estrutura de liderança… da direcção, neste caso? Que estratégias é que a gestão, como estrutura de liderança, utilizou para que todos… não fossem só os professores envolvidos no projecto Fénix… para que toda a escola ficasse esclarecida, quanto à implementação do projecto Fénix? Professor: Não utilizou nenhumas. Entrevistador: Não? Professor: Não. Entrevistador: Como se promoveu a articulação entre os docentes e as várias estruturas de liderança do agrupamento? Como se articulavam os docentes, docentes como actores do ensino dentro da sala de aula, quer seja os do projecto Fénix, quer não, e as outras estruturas de liderança do agrupamento?... Como é que os professores envolviam o seu trabalho do projecto Fénix, dentro do seu departamento; o que é que o departamento articulava com o conselho pedagógico… ou seja, que 200 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. partilha de tudo o que dizia respeito aos mecanismos Fénix e ao trabalho dos professores? Professor: É assim… Às vezes, chegava ao pedagógico; mas muitas das vezes chegava era à direcção… as informações de como estavam a ser, portanto… uh…estava a decorrer e como estava a ser implementado e, depois, como estava a decorrer o projecto. Chegava muitas vezes à direcção, a informação Entrevistador: Os docentes que estavam mesmo envolvidos no terreno, se podemos dizer assim, dentro da sala de aula com os alunos… a forma que tinham de articular era… Professor: Geralmente, através de mim. Entrevistador: Como é feita a monitorização e o acompanhamento do conjunto de estratégias do projecto Fénix? Toca um telemóvel; a entrevista é interrompida. Segunda pasta Professor: Portanto, eu respondi; é feita através de reuniões, em que as pessoas informam como é que as coisas vão, e eu, portanto, através da avaliação, dos gráficos, vou vendo os resultados. Entrevistador: Quais as estratégias utilizadas pelo conselho de turma e pelo conselho de docentes, para garantir a articulação horizontal e vertical? Professor: Qual é o conjunto de estratégias… Entrevistador: Estratégias utilizadas pelo conselho de turma e pelo conselho de docentes, para garantir a articulação horizontal e a articulação vertical… do currículo, claro. Professor: Sim… Entrevistador: Têm isso em conta? Poderão não ter em conta… Professor: Só acho que não é uma coisa feita ao nível… no conselho de turma, é…no conselho de docentes, isso não é feito aí. Telemóvel, nova interrupção. Entrevistador: Então, era em reunião que essas estratégias eram definidas? Em reunião de conselho de turma e em reunião de conselho de docentes? Professor: Não. Em conselho de turma … E, aqui, era mais a nível de titulares com as … com o professor que estivesse no apoio ao Fénix. 201 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Entrevistador: E a articulação vertical? Era feita ou não? Professor: Nem por isso. Entrevistador: Houve lugar a formação externa, no âmbito do projecto Fénix? Professor: Sim, muita. Entrevistador: Em quantas sessões é que esteve presente? Professor: O ano passado, praticamente estive em todas, mas não me perguntes quantas. Entrevistador: E este ano? Professor: Este ano, se não me engano, faltei a uma ou duas, quase sempre estive presente. Entrevistador: A partir da formação disponibilizada nessas sessões, quais foram as estratégias das estruturas de liderança do agrupamento para difundir o conhecimento obtido ou construído? Professor: Era sempre informada a directora de turma; muitas vezes, passava a informação nos conselhos de turma… é que eu não te sei dizer, no primeiro ciclo, como é que eu reúno, porque aquilo não é conselho de turma, nem nada. Juntávamo-nos… Entrevistador: Pronto… é uma reunião. Não interessa o nome. Professor: É isso mesmo. Reuníamos e era aí que conversávamos o passado nessas… embora, no ano passado, muitos professores também estivessem sempre presentes nas formações. Entrevistador: Esses, e a colega como coordenadora do projecto, quando chegavam à escola, o que é que se fazia… não só, vocês… mas as estruturas de liderança desde o topo… Professor: Não. Passava por ali, não passava pelo topo. Entrevistador: Então… tudo o que era adquirido na formação, só ficava… Professor: Pelos grupos, pelos grupos de trabalho mais restritos, com quem trabalhava mais directamente com o Fénix. Entrevistador: Quais as mudanças observadas na prática educativa dos professores? No caso de ter havido, não é?! Pressupõe-se que sim… Professor: E houve. Entrevistador: Pode nomear algumas, se faz favor? 202 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Professor: Uh… Vou tentar explicar… Vamos falar, por exemplo, nas Ciências passou a ser mais, portanto, a trabalhar com os miúdos a um nível mais prático, para eles conseguirem adquirir os conhecimentos, em vez de ser aquela parte mais só teórico… uh… Realmente, começaram a ser mais flexíveis na gestão do currículo… Portanto, isso é a pergunta do que a formação implicou, não é? Entrevistador: Quais as mudanças observadas na prática educativa dos professores? Professor: Pois, mas foi essencialmente isso. Deve haver muitas mais, mas dessas coisas também não há registos. Entrevistador: Informalmente… Professor: Informalmente, a gente vai conversando, mas era… pronto… era isso. Entrevistador: Relativamente a Língua Portuguesa e a Matemática que são disciplinas envolvidas no projecto Fénix? Professor: Era um trabalho mais individualizado; um rebater dos exercícios; mais treino. Entrevistador: Quais os incentivos para que os professores partilhassem essa mudança na sua prática? Professor: Nas reuniões de conselho de turma ou de grupo, questionavam-se uns aos outros: Então, se consegues, partilha o que é que fazes para conseguires fazer isso. Mas era uma coisa mesmo muito discutida, mesmo muito; porque a gente… é assim… com os problemas que estávamos a ter de aprendizagem, de comportamento, partilhava-se nas reuniões o que cada um fazia. Se realmente tinha aquele sucesso, como é que lá chegava. Entrevistador: Pois, pois. Considera que existe alguma necessidade de formação, no âmbito deste projecto? Professor: É assim… Entrevistador: De um aspecto específico… por exemplo, sobre avaliação, ou qualquer outro. Os professores estão completamente esclarecidos? Professor: Às vezes, o maior problema que se põe, é os professores não entenderem que têm de levar estes miúdos de uma maneira diferente. Como trabalhar com estes problemas de aprendizagem. Entrevistador: Então, é mesmo a prática pedagógica o que está a falhar? Professor: É, prática pedagógica. Como trabalhar com aqueles miúdos. E não é para se dizer assim… portanto, se é um ninho é porque é um ninho e, se calhar, não terem de 203 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. trabalhar com a turma mãe, e como trabalhar com aquele grupo de forma diferente da turma mãe. Entrevistador: Esse seria um aspecto. Professor: Um aspecto a trabalhar na formação: como é que os professores poderiam trabalhar com aqueles grupos, diferente da turma mãe, por isso é que eles estão em ninho Entrevistador: Como é que têm evoluído os resultados dos alunos? Já vamos no segundo ano, dá para ter uma ideia… Professor: É assim… uh… a nível de, portanto, tem evoluído positivamente. É só em relação à turma Fénix, não é? Têm evoluído, apesar de a gente não ter atingido os objectivos no oitavo ano, a turma Fénix não baixou os seus resultados; não aumentou muito, mas manteve. Aumentou muito no ano passado, mas este ano, pelo menos, manteve. No primeiro ciclo, não. No primeiro ciclo, aumentou e bem. Entrevistador: Em que áreas ou disciplinas se observa progressos nas aprendizagens e nos resultados? Nas reuniões que vocês tiveram, chegaram à conclusão de que há alguma área ou alguma disciplina, em que haja progresso nos resultados e nas aprendizagens? Professor: Temos Físico-Química que tem bons resultados nos alunos. O Português também e a Matemática … mas, é assim, são progressos que são poucos, mas existe. A Língua Portuguesa, no primeiro ciclo, tem evoluído e bem. Entrevistador: E como é que se explica as diferentes taxas de sucesso entre as áreas ou disciplinas? Por exemplo, referiu que a Físico-Química tem grande sucesso. Como é que se explica que, nessa disciplina, os alunos tenham uma boa aprendizagem, os resultados académicos sejam bons, e que nas outras isso não aconteça? Professor: Daquilo que eu me apercebo, é que é a estratégia utilizada para trabalhar com os alunos. Entrevistador: E qual é essa estratégia? Professor: Essa estratégia é, portanto, do insistir, fazê-los trabalhar durante a aula; são abordados, constantemente, sobre questões que têm de responder. Portanto, tantas vezes é perguntado que eles acabam por fixar, memorizar e fazer. Entrevistador: A Físico-Química é essa a magia do sucesso? Professor: É. Entrevistador: Que elementos se revelam os determinantes dos casos de sucesso? 204 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Professor: É a repetição… portanto, eles serem constantemente abordados com questões sobre a matéria. Entrevistador: Mais nenhum que queira referir? Professor: É, essencialmente, aí. Eu vejo mais professores que, realmente, dizem que batalham, batalham, que aquilo vai ficando. Entrevistador: E de insucesso? Quais são os elementos que se revelam os determinantes de insucesso? Professor: Falta de estudo. São meninos que o que trabalham, praticamente, é na escola; fora da escola, eles não querem fazer nada... Uh… O gosto pela escola, para muitos deles, a escola não diz nada. Essencialmente esses. E depois, é os pais que também não conseguem… deles, conseguem pouco fazer. Entrevistador: Quais as modalidades e instrumentos de avaliação que foram utilizados? Professor: As que estão implementadas na escola. Portanto, as fichas avaliativas… não estou… instrumentos de avaliação… Entrevistador: Modalidades e instrumentos de avaliação. Professor: Acho que participarem oralmente, acho que também é uma maneira como avaliam os alunos. Essencialmente é isso. Entrevistador: E no primeiro ciclo, também? Professor: No primeiro ciclo, também. À base das fichas e de participação, da maneira como os alunos correspondem oralmente. Entrevistador: De que maneira se utilizam os modos de avaliação para identificar, para explicar e para regular as dificuldades surgidas? Professor: Como é que se vai utilizando? Entrevistador: Sim. Professor: Essencialmente, pelos trabalhos produzidos pelo aluno, que a gente vai vendo quais são os níveis de aprendizagem dele. Entrevistador: Fazem isso individualmente ou em reunião? 205 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Professor: Não. Fazemos isso quando estamos em turma. Analisar isso, depois, tanto individualmente, o que é que a gente vai fazer para… não. Individualmente, o professor titular de turma é como faz isso. Entrevistador: Como é que se processa para reorientar o processo de aprendizagem? Principalmente, aquilo que é mais flagrante, pelo que eu tenho percebido, é que na turma Fénix, no actual oitavo ano, o processo de aprendizagem tem sido muito difícil. Como procediam para reorientar esse processo de aprendizagem? Alguma coisa não estava a funcionar… o que é que faziam para reorientar esse processo? Professor: Geralmente, nas reuniões, discutia-se e via-se que estratégias alterar, para tentar que esses miúdos conseguissem trabalhar e fazer aprendizagens. Portanto, era aí que se definiam novas estratégias para implementar com os alunos Entrevistador: Os alunos participam na programação das actividades, nomeadamente no respectivo Projecto Curricular de Turma? Professor: Eu penso que não. Entrevistador: No primeiro ciclo? Professor: Não. Entrevistador: No terceiro ciclo? Professor: Eu também penso que não. Entrevistador: Estava presente nas reuniões do terceiro ciclo? Professor: Sim, e nunca me apercebi que os alunos participassem na elaboração do Projecto Curricular de Turma. Mesmo quando há reuniões em que o aluno está presente, nunca o vi participar nisso. É assim, não participa mesmo, pronto. Entrevistador: Como é que os alunos são consultados e co-responsabilizados nas decisões que lhes dizem respeito? Professor: Geralmente, através do director de turma. Geralmente, semanalmente, trata desses assuntos com eles. Quando há problemas e o insucesso está a ser grande, são sempre assuntos debatidos com o director de turma e com eles. E perguntar-lhes o porquê… Entrevistador: E arranjavam sempre maneira… Professor: Desculpa! 206 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Entrevistador: Não. Neste caso, estava a pensar nos actores adultos (professores), se arranjavam sempre maneira de que os alunos entendessem que também tinham responsabilidades no seu processo de aprendizagem? Professor: Sim. Entrevistador: Sim? Professor: Quer dizer, eu sei que normalmente havia essa conversa com a directora de turma, e um dos assuntos abordados era, muitas vezes, as razões por que é que eles não trabalhavam. Mas também sei que os outros professores o faziam, se calhar não tão amiúde como fazia a directora de turma, que tem talvez maior responsabilidade, mas isso era feito com eles. Entrevistador: Como é que se estimula e se valoriza os sucessos individuais dos alunos? Professor: Como é que se estimula e valoriza… Entrevistador: Por exemplo, um aluno que até determinada altura estava apático, não participava… Professor: Regra geral, o que a gente faz, é dar um reforço positivo, dar-lhe os parabéns… é mais através do diálogo com o aluno. De resto, não há outros incentivos que a gente faça com eles. Entrevistador: Os alunos têm um comportamento disciplinado? Professor: Hum… Nem sempre, às vezes. Entrevistador: Quer do primeiro ciclo, quer do terceiro? Professor: Quer do primeiro ciclo, quer do terceiro ciclo. Nem todos os grupos, mas temos grupos com problemas na disciplina. Entrevistador: Os alunos conhecem e cumprem as regras de funcionamento da escola ou da turma? Professor: Nem sempre. Entrevistador: Mas conhecem? Professor: Conhecem, mas nem sempre cumprem. Entrevistador: Como é que se fomenta a disciplina, a assiduidade e a pontualidade? Professor: Como é que se… a disciplina… uh… 207 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Entrevistador: Como é que se fomenta a disciplina… no caso de haver indisciplina, como é que se fomenta a disciplina… a assiduidade e a pontualidade? Normalmente, são estes factores que preocupam. Professor: Para além do diálogo… e depende, uma das coisas que muitas vezes também se faz, é conversar com os encarregados de educação, para a assiduidade e pontualidade, e para a disciplina também. E com os alunos tenta-se e, por vezes, também há o castigo. Entrevistador: Que castigo? Professor: Sei lá… Às vezes tirarmos um intervalo… uh… Nós, ali, somos limitados… uh… Entrevistador: Nós ali… no primeiro ciclo? Professor: No primeiro ciclo. No terceiro ciclo, chegou-se ao ponto de dar, não é bem trabalho cívico, mas era um trabalho que eles tinham de ficar no horário pós-lectivo, a fazer actividades aqui a nível da escola, para verem que, realmente, havia regras e tinham que ser cumpridas. Entrevistador: No primeiro ciclo estão limitados? Professor: Em regra geral, estamos. No primeiro ciclo, os alunos, está fora de questão, ficarem depois do horário lectivo. Entrevistador: Mas aos intervalos… Professor: Sim, aos intervalos… aí, é que a gente actuava. O castigo, geralmente, era trabalho presencial no trabalho cívico, que é andarem com as tenazes a limpar os pátios; ou ficar dentro da sala de aula a fazer um trabalho. Entrevistador: Que importância, na generalidade, se atribui ao impacto das aprendizagens nas expectativas dos alunos e na satisfação dos professores? Professor: Que…? Entrevistador: Que importância, a nível de escola, se atribui ao impacto das aprendizagens nas expectativas dos alunos e na satisfação dos professores? Professor: Eu acho que, se calhar, é das principais… tens de me deixar ver a pergunta; onde é que vais? Eu acho que, se calhar, é um dos pontos mais importantes do agrupamento, é realmente as aprendizagens. Entrevistador: Mas dá-se importância a nível do agrupamento todo? Professor: Dá-se muita importância. 208 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Entrevistador: E pensa-se que as expectativas dos alunos têm de estar no máximo, para que essas aprendizagens sejam profícuas? Professor: Sim. Se eles não tiverem… Entrevistador: E na satisfação dos professores? Professor: Também é atingir o máximo. Entrevistador: Considera que houve mudanças nas práticas pedagógicas na turma Fénix? Professor: Houve. Entrevistador: Quais? Professor: A maneira de trabalhar com esta turma é diferente; os professores trabalham de maneira diferente com esta turma. Ainda há bocado, eu te disse que vão apelando mais ao trabalho… à aprendizagem pela prática, em vez de ser sempre tão teórico; pela repetição. É diferente. Entrevistador: Considera que houve mudanças nas práticas pedagógicas nos ninhos? Professor: Houve. Entrevistador: Quais? Professor: É assim… no ninho, a gente trabalha mais ao nível do aluno, e ao trabalhar ao nível do aluno, portanto… nós não fazemos um ensino generalizado; é realmente dirigido àquele aluno. Entrevistador: Essa prática pedagógica, no final do passado ano lectivo, foi muito positiva para todos os alunos que estiveram nos ninhos? Professor: O ano lectivo passado? Entrevistador: Sim, que é aquele que está mais “fechado” do que este. Professor: De uma maneira geral; houve um ou outro… Entrevistador: Todos os alunos que passaram pelos ninhos…nenhum deles ficou retido? Professor: Que eu me lembre, não. Entrevistador: Não ficou nenhum retido… Professor: Acho que não. Este ano, sim… agora, o ano passado, que eu me lembre, ninguém ficou retido no ninho. 209 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Entrevistador: Dos que passaram? Professor: Dos que passaram pelo ninho, sim. Entrevistador: De que forma se desenvolveu um conhecimento mais próximo do trabalho realizado em sala de aula? Professor: De…? Entrevistador: De que forma se desenvolveu um conhecimento mais próximo do trabalho realizado em sala de aula? Por exemplo, com a coordenação pedagógica que lhe competia, como coordenadora do projecto… Professor: Como é que eu tive mais conhecimento? Então… isto, nas reuniões, era muito debatido entre nós. Os colegas, geralmente, diziam o tipo de trabalho que faziam. Entrevistador: Mas nunca aconteceu ir ver? Professor: Não Entrevistador: Nunca foi dentro de uma sala de aula? Professor: Não. É assim, cheguei a ver a nível de, ao nível do primeiro ciclo, cheguei a observar. A nível do terceiro ciclo, não, nunca fui observar. O conhecimento que tinha, era nas reuniões em que os colegas diziam o que é que iam fazendo. Entrevistador: Pegando no ponto que focou… No primeiro ciclo, foi dentro da sala de aula? Professor: Sim. Entrevistador: Mas em que contexto? Do projecto Fénix? Professor: Em sala de aula, não; em salas de ninhos, sim. Foi numa de observar… observar por observar… não foi com o intuito de mais. Como a colega até tinha um método de trabalho do ensino da leitura, muito diferente… fui observar, para ver como é que funcionava. Entrevistador: Sendo assim, houve lugar a acompanhamento e supervisão interna da prática lectiva dos professores envolvidos no projecto Fénix? Professor: Alguma, não houve muita. Entrevistador: Mas houve. Professor: Houve, houve. Não houve muita, é o que eu estou a dizer, pronto… houve e já disse em que contexto. 210 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Entrevistador: Acompanhamento e supervisão da prática lectiva… era isso? Então, descreva sucintamente o modelo de supervisão construído para o efeito. Existia algum modelo de supervisão que era conhecido por todos os professores? Professor: Não, porque a supervisão passava muito por reuniões e eu fui à sala da colega observar, porque me suscitou curiosidade aquele método. Entrevistador: A inovação revelada pelo modelo de actuação dos mecanismos Fénix suscitou reflexões aos níveis interdisciplinar/interdepartamental? Professor: Sim, suscitou. Entrevistador: Como? Professor: Como ou onde… Entrevistador: Como é que foi evidente que, onde e como, suscitou reflexões. Professor: Nas reuniões, portanto que… Entrevistador: Em que reuniões? Professor: Reuniões de conselho de turma, reuniões de grupo ou lá como é que se chama… de conselho de turma. Entrevistador: Conselho de docentes, também? Professor: Sim, nós não temos conselhos de turma, porque nós não temos conselhos de turma, mas reunimos… Entrevistador: Aí, foram feitas reflexões? No conselho de turma, também? Professor: Sim. Agora é assim, mais no conselho de turma, porque nós ali não temos turma Fénix, só temos turma Fénix aqui deste lado .[referia-se ao lado da escola onde funciona o segundo e terceiro ciclos] Entrevistador: E interdisciplinar e interdepartamental? Professor: No próprio departamento? Entrevistador: Nos grupos disciplinares, nos departamentos… fizeram reflexões sobre os mecanismos Fénix? Professor: Não, eu penso que não. É assim, por exemplo, a nível de departamento… Entrevistador: O projecto Fénix contribui para o incremento da qualidade das aprendizagens? 211 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Professor: Penso que sim. Na minha opinião, se eu estou a trabalhar com aqueles alunos, se eu estou a tentar que eles melhorem, dou-lhes oportunidade de terem ali um apoio individualizado… portanto, eu acho que isso tem de contribuir para as aprendizagens e para o sucesso das turmas. Entrevistador: A qualidade, a qualidade das aprendizagens… Professor: Eu acho que ele está mesmo preparado para isso, para tentar ter sucesso, mas com qualidade. Entrevistador: Reportando-nos aos ninhos, onde acaba por ser aí… e não só… na turma mãe, também, mas mais nos ninhos é que se propicia um maior incremento da qualidade das aprendizagens dos alunos. Como se processava a mobilidade entre os ninhos? Professor: A turma, quando foi criada… ao criar-se até se pensava que a turma ia ser mais ou menos homogénea; homogénea, homogénea, nunca é possível, mas pronto… Entrevistador: É a homogeneidade relativa… Professor: Mas o que veio a acontecer, não foi nada disso. Parece que cada aluno era um caso, uma grande heterogeneidade. E para diagnóstico, quando se constituíram os ninhos, havia alguma movimentação, mas a movimentação era muito pouca, porque os alunos têm tantas dificuldades, tantas dificuldades, que muito dificilmente, eles conseguem regressar à turma mãe. Entrevistador: Mas isso aconteceu o ano lectivo passado… Professor: Passado, e este ano. Entrevistador: Este ano, também… Professor: Houve meninos que, no ano passado, não conseguiram regressar à turma mãe, e que este ano se tiveram de manter no ninho. Entrevistador: Não havia a determinação de um tempo limite para os alunos estarem no ninho? Professor: Não. A intervenção era: conseguiu aprender, consegue caminhar, portanto, fazer a aprendizagem da turma mãe, regressa à turma mãe. Só que isso, a maior parte das vezes, não se verificou. O aluno teve a necessidade de se manter no ninho até ao final do ano lectivo. Há alguma movimentação, mas pouca. Entrevistador: Antes de entrar nos ninhos, e na turma mãe também…por disciplina no caso do terceiro ciclo, no primeiro ciclo a mesma coisa… era feito um diagnóstico de todas as aprendizagens que eles tinham. 212 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Professor: Sim. Entrevistador: E depois, era feito um plano das aprendizagens que tinham de desenvolver, antes de sair do ninho? Professor: Não… as aprendizagens, nós levávamos para as aprendizagens do ano de escolaridade que tinham de ser atingidas. Era por aí. Entrevistador: Portanto, não era definido… Professor: Não. Entrevistador: Ele está aqui até conseguir a seguinte aprendizagem… depois nomeavam… produção escrita… Professor: Aprender a leitura… É assim, quando a gente adquire a leitura, a seguir temos o problema da escrita; mandá-lo para a turma mãe, acaba por se perder no meio dos outros… portanto, acabamos por ficar sempre com eles. Mas isso não era definido em função do programa, das aprendizagens que estão a ser feitas no momento. Entrevistador: O projecto Fénix contribui para o sucesso das turmas não Fénix? Professor: Pouco… Entrevistador: O que quer dizer o pouco? Professor: Pouco, porque é assim… se contribuísse para o sucesso das turmas não Fénix, víamos bons resultados nessas turmas, e o que a gente verifica é precisamente o contrário. É um grande insucesso nessas turmas; mais até do que na turma Fénix. No entanto, temos de ver que na turma Fénix as aprendizagens são diferentes, são mais lentas, vai-se dando as coisas mais devagar. Portanto, o grau de exigência… eu não falo no grau de exigência, mas é diferente a maneira como está a ser dado o programa nelas; ao passo que nas outras é dado normalmente, e que a gente pensava serem alunos mais ou menos com uma relativa facilidade de aprendizagem, fossem ter bons resultados… Entrevistador: Afinal, demonstraram ter o mesmo perfil ou características dos alunos da turma Fénix, é isso? Professor: Este ano. O ano passado, não quer dizer que houvesse lá alunos com dificuldades, mas, mais ou menos, a turma tinha resultado positivo. Este ano, ou pela dificuldade do grau de escolaridade, ou por entrarem alunos com retenções…este ano foi complicado, não conseguiram atingir esse sucesso. Entrevistador: O que é um bocadinho de estranhar… 213 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Professor: É. Entrevistador: Por que, de certeza, professores da turma Fénix acumulavam componente lectiva na turma não Fénix…podiam aproveitar aquilo que… Professor: Sim, porque isto não é… pode andar de um lado para o outro, não precisa de estar estanque, não é? Mas é muito difícil, nesse aspecto, chegar-se aos professores. Entrevistador: Porque diz isso? Professor: Os professores não têm uma grande abertura, nesse aspecto. Vêem o programa; aquele programa tem que ser dado… Às vezes, dá a sensação que são um bocadinho rígidos, na maneira como aquilo tem de ser tudo seguido. Entrevistador: Então, não há flexibilidade… Professor: Estou a falar para as outras turmas. Enquanto aceitam alguma flexibilidade na turma Fénix, isso depois não se verifica nas outras. Eu não falo que é o grau de exigência, falo é que, realmente, as coisas são dadas de uma maneira diferente Entrevistador: Mas o que é que os colegas diziam? Se na turma Fénix, aplicavam essa dinâmica diferente e até viam resultados… Professor: Mas aplicavam ali, porque era a turma Fénix. Como a outra não era turma Fénix, não era para aplicar. Entrevistador: Mas porquê? Nunca explicaram isso… nem informalmente? Professor: Não… não. Entrevistador: A preocupação é o programa, o programa… a fixação no programa. Professor: A fixação no programa. E, às vezes, conseguimos dar o programa de outra maneira. Entrevistador: Com que periodicidade e como é feita a divulgação sobre os resultados, a dinâmica, o impacto do projecto Fénix, a toda a comunidade educativa? Professor: Não é feito. A toda a comunidade educativa? Não é feito. Entrevistador: E, para finalizar, quais são as potencialidades e os constrangimentos relativamente à implementação deste tipo de inovação, que é chamada uma inovação disruptiva. Uma inovação, como ouvimos falar no seminário, é uma inovação que não é topo-base, mas sim base-topo, porque nasceu numa escola, nasceu à margem da orgânica do ministério da educação, e foi ele que o absorveu. Para si, quais são as potencialidades e os constrangimentos, relativamente a este tipo de inovação? 214 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Professor: As potencialidades são muitas, porque, é assim, ele nascendo no seio de … nós estamos motivados para o aplicar. Quando vem de cima, é uma coisa imposta e a gente tem que aderir. Depois, eu acho que é muito importante, quando a gente aplica este tipo de projecto ou que a gente os cria, que parta sempre de um grupo que esteja motivado. Não é porque a esta turma pertencem estes professores, têm de ficar no projecto e acabou. Devia de haver a hipótese de podermos seleccionar e contar com a adesão das pessoas, livremente, não ser por imposição. Entrevistador: Esse é um constrangimento? Professor: É. Faz com que as coisas não corram tão bem. Entrevistador: É esse o principal constrangimento? Professor: Eu acho que é um dos principais constrangimentos. As pessoas poderem dizer assim: Eu quero participar! Eu falo por mim, a motivação é muito importante. É assim… é mais uma turma, tens que fazer… eu acho que isso faz com que as coisas não resultem, ou pelo menos que não resultem tão bem Entrevistador: E terminámos. Agradeço imenso a disponibilidade. Duração: 53 minutos 215 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. ANEXO 8 Transcrição da entrevista com a Professora com funções de Direcção de Turma (Turma de oitavo ano de escolaridade envolvida no Projecto Fénix) Primeira pasta Entrevistador: Bom dia. Professor: Bom dia. Entrevistador: Vamos proceder à entrevista para ver quais são as suas sensibilidades relativamente ao envolvimento no Projecto Fénix. Professor: Certo. Entrevistador: Primeiro, gostava que falasse sobre os seus dados profissionais. A formação académica… Talvez seja melhor eu ir descriminando … Professor: Sim, vai dizendo para me ajudares. Sou licenciada em ensino da Física e da Química, variante Química. Entrevistador: Formação relacionada com exercício de cargos… Professor: Ah… Directora de turma… não tenho formação nenhuma, não, não… formação nenhuma específica. Entrevistador: Ou outros… Professor: Não, não… Entrevistador: Quer dizer, já respondeu à próxima que é formação específica para o cargo de directora de turma. Professor: Não, não… Entrevistador: Relativamente à dinâmica do Conselho Pedagógico, considera que este é um órgão de decisão, de tomadas de decisão ou mais um órgão de consulta? Destas, qual é a ideia que sobressai. Professor: A ideia que sobressai é que é um órgão de decisão. 216 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Entrevistador: De decisão… sim senhor. Na sua opinião, os actores, quer os que têm assento no pedagógico ou qualquer um que não tenha, são incentivados a tomar decisões e a responsabilizar-se por elas? Professor: Não acho, não concordo. Entrevistador: Não? Então? Professor: Acho que podem até ser questionados sobre uma decisão que seja necessário tomar, mas não sei até que ponto é que são tomados em conta quando a decisão é tomada. Entrevistador: Então, para si, é tomada a decisão e… Professor: Não digo que não possam ter isso em conta, mas pela experiência que eu tenho, normalmente, e pelas conversas que depois temos entre nós, a decisão é sempre contrária ao que a maioria diz. Portanto, eu continuo a julgar que até podem ter em conta a decisão, mas depois quem toma a decisão é quem está presente no pedagógico. Entrevistador: Quais foram as razões que conduziram à adesão ao Programa Mais Sucesso Escolar, ao Projecto Fénix? Professor: Aí, eu não posso responder, porque eu não sei. Entrevistador: Não sabe? ... Professor: Ah…não sei… ou seja, foi-me relatado que a decisão tinha como base ajudar os alunos com mais dificuldades, e que a escolha dos alunos para a constituição da turma também tinha sido essa, mais a Português e a Matemática, com alguma preocupação também pelos problemas de comportamento… Mas não participei nessa escolha, não fui tida em conta… Portanto a turma apareceu-me no colo, literalmente. Entrevistador: Portanto, não foi da sua iniciativa colocar essa preocupação a uma liderança? Professor: Não… não. Entrevistador: No que concerne ao Projecto Fénix, que liderança pedagógica é que assumiram as coordenações de departamento? Professor: Ah… Eu não senti grande envolvimento para o projecto, nestes dois anos, de nenhuma estrutura sem ser o conselho de turma… muito sinceramente. Entrevistador: Coordenação de directores de turma, coordenação de departamento… 217 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Professor: A coordenação de directores de turma salvaguardava certos aspectos, mas sempre quando chamada a atenção. Portanto, quando eu referia… atenção, que esta turma é diferente… certas medidas eram tomadas. Mas, de antemão, antes de eu sequer referir … não se esqueçam de que a turma é diferente… nada era dito. Portanto, sempre quando chamados a atenção. Um bocadinho… eu acho que o projecto está um bocadinho no canto deles… portanto, somos nós, o conselho de turma e somos bastantes, não é?!... Em termos de conselho de turma, somos vinte ao todo, sim, vinte. Estávamos dezanove neste último, mas faltava o [nome de um professor], somos vinte. Portanto aí, sim, temos um conhecimento, penso eu, que pelo menos toda a gente tem obrigação de o ter, não é… um conhecimento abrangente de tudo o que é do projecto. Agora … uh… Entrevistador: Mas não se sentiam apoiados… Professor: Não… precisamente. Ou seja, por exemplo, eu sinto as colegas , por exemplo, de Português e de Matemática também, que têm a preocupação de em departamento referir certos aspectos, mas não era nada que o coordenador pedisse para elas referirem. Entrevistador: Era da sua iniciativa? Professor: São elas que têm a iniciativa de o referir… uh… Em conselho pedagógico, também, pelo menos o meu coordenador tem sempre o cuidado de mandar-me as informações todas e nunca… Entrevistador: Não se reporte só…desculpe interromper, não se reporte só ao presente ano lectivo. Professor: Não, eu estou a falar também do ano transacto. E no ano transacto, recordo-me quando foi a reunião que vieram cá e que foi dito se isto era debatido em pedagógico, e a verdade é que não era. Passou a ser, se calhar, no pedagógico a seguir à reunião, e pouco mais. Entrevistador: Isto são as suas sensibilidades… A sua percepção. Professor: São. Sim. Entrevistador: Como é que os professores que estão envolvidos e que estiveram envolvidos, percepcionaram o modelo de actuação dos mecanismos Fénix? Quando falo em mecanismos Fénix, refiro-me à dinâmica da turma mãe, aos ninhos, etc… Professor: Uh… Eu acho, pelo menos no primeiro ano, e salvaguardando que este ano foi o primeiro ano para Matemática, que as colegas eram novas, eu sinto que a estrutura da turma mãe e dos ninhos era demasiado rígida … Isto foi o que eu senti que eles sentiram… Que achavam que assim que estavam constituídos, poucas 218 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. mudanças poderiam haver… uh… Eu acho que isto tem muito a ver com a sensibilidade de cada um; há pessoas que percebem muito bem que tem de haver mudanças e que se eles não estiverem bem, até em termos de empatia com o professor, que têm de mudar, e há outros colegas que acham que eles têm de estar ali, têm de estar ali até ter sucesso. Entrevistador: Então, quer dizer que quando fala que é rígido, não havia flexibilidade? Ou as pessoas não estavam predispostas a … Professor: Houve flexibilidade, mas nem todos estavam dispostos à mesma flexibilidade. Ou seja, o grande problema do projecto é que nem toda a gente… eu acho que devíamos aderir ao projecto, antes. Ou seja, as pessoas deviam aderir conscientemente e dizer… eu percebo o projecto, eu quero entrar e quero trabalhar desta forma, não ao contrário, que é como foi… se calhar é em todas as escolas, não sei… Entrevistador: Pois… também não sei. A ideia é conhecer… Professor: Mas em termos de dinâmica, nós sabemos que, por exemplo, pelo menos nós, professores contratados, chegamos à escola e deparamo-nos com as turmas e com os projectos, sem termos a mínima noção de como é que eles são trabalhados e como é que foram escolhidos. Entrevistador: Não são envolvidos… Professor: E depois isso faz com que cada um tenha a sua sensibilidade de trabalho. Uns acham que sim, concordam que o aluno deve transitar para outro ninho ou para a turma mãe, sempre que por exemplo, a empatia não for correcta com o professor e independentemente dos resultados; e há outros que acham que deve ficar ali, e deve ficar ali, como eu já ouvi… Tem de ficar ali, acabou, é ali que nós achamos que ele tem de ficar, independentemente de ele estar a ter sucesso ou não, ele tem de trabalhar para isso. E, às vezes, é difícil para eles trabalharem quando não sentem empatia por quem está à frente. Entrevistador: Apercebi-me disso, quando lhes fiz a entrevista… Professor: É esta a minha sensação. Agora, é o que eu digo… as pessoas se forem e conhecerem antes, já vão com outra predisposição, se forem apanhados assim de surpresa… Entrevistador: Têm o menino nas mãos, sem haver um trabalho… Professor: Precisamente. Se calhar, ao longo do tempo, as coisas mudam. Mas com o tempo, já se perdeu um ano, já se perderam dois anos, e podíamos agarrar logo no 219 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. primeiro ano e já só conseguimos agarrar, se calhar, no nono, no caso da nossa escola… e isso é um bocadinho… e eles queixam-se muito desse aspecto. Entrevistador: Eles? Os professores ou os alunos? Professor: Os alunos. Eles queixam-se muito desse aspecto. Que às vezes gostavam de mudar, nem que fosse só para ter uma outra professora à frente, um outro professor à frente, que lhes desse, se calhar, um ânimo diferente, e não têm essa hipótese se for preciso durante o ano inteiro. E têm muito essa noção, que se lhes dessem essa hipótese se calhar… até conseguiam, se calhar não… Entrevistador: Pois, mas têm um experimentar de algo diferente… Professor: E eles próprios reconhecem, dizem… ah, se calhar não resultou, professora, volte-me a pôr onde estava. Mas, sem essa experiência… Entrevistador: E essa decisão é tomada em conselho de turma e fica assim ad eterno … Professor: Eles mudam, eles mudam… Mas eu já tive a experiência de ter alunos a dizerem-me… eu gostava de mudar, já pedi para mudar, mas a professora diz que aquele é o meu lugar. E, às vezes, eu percebo que é mesmo, não é… eu também não tenho essa experiência de ninhos, eu não trabalho com eles em termos de com ninhos. E, às vezes, percebo que é bem fundamentada a razão, e explico-lhes; outras vezes, nem eu percebo, nem eles… Por que acho que, às vezes, é um bocadinho de teimosia. Entrevistador: Uma decisão muito individual… Professor: É, eu penso que sim. Entrevistador: E os pais? Como é que percepcionaram o modelo de actuação? Professor: Uh… é assim… eles concordam, estes pais concordam com tudo o que nós fizermos. Não são críticos, não sei se é por eles terem tantas dificuldades, que os pais já têm baixas expectativas em relação a eles. Portanto, tudo o que eles conseguirem, é mérito dos professores e não deles. E isto também se nota depois em termos da autoconfiança deles, é muito fraquinha. A auto-estima deles é muito baixa. Os pais percebem o projecto, sabem que o projecto é para os ajudar, mas também não se envolvem muito. Não perguntam porque é que está no ninho, se vai mudar, em que ninho é que está… Se eu lhes perguntar…em que ninho está o seu filho a Matemática… não sabem. Entrevistador: Desconhecem… Professor: Portanto, não se envolvem muito. O que eles dizem é que tudo a que a escola puder fazer para os ajudar, eles agradecem imenso. O filho nunca tem razão… esta é a postura deles. O miúdo está ali, eu estou aqui… eu digo isto e eles dizem: Pois, 220 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. não fizeste bem!... Dão-nos sempre a razão, a nós. Isso é uma coisa que eles têm de muito bom, entre aspas, mas muito mau perante o filho ou a filha, porque lhes baixa muito a auto-estima. Ou seja, as expectativas são muito baixas. Eu tive pais este ano a dizerem-me: Já me basta que ele se porte bem, pode até chumbar… Entrevistador: E ao longo destes dois anos, não sentiu que essas baixas expectativas se tenham elevado um pouco? Professor: Não, não, no ano passado foi pior, obviamente, com mais situações de disciplina, de indisciplina neste caso, que afectaram muito as expectativas dos pais. Este ano, os pais mostraram-se mais optimistas, … uh…mas sempre muito resguardados, porque eu sempre os avisei que o oitavo ano era muito complicado. Eles estavam sempre muito resguardados em relação a não sabiam muito bem se aquilo ia, realmente, avançar ou não. Agora, no fim, estavam felizes, não é… estavam todos felizes porque eles conseguiram ultrapassar as dificuldades. Agora, em termos de envolvimento no projecto, tive alguns pais a perguntar-me se o projecto ia continuar, preocupados …uh… e um bocadinho desiludidos quando eu dizia: Não sei…E eles ficavam um bocadinho… Entrevistador: Apreensivos? Professor: Sim, apreensivos. Mas mais porque os próprios filhos, esses sim, estavam preocupados, e transmitiram-lhes essa preocupação… o que é que eu vou fazer quando o projecto acabar. Isso, eu senti. Mas foi, em vinte e três, tive dois ou três com essa preocupação, dos mais fraquinhos, dos que realmente são…uh… o perfil, o perfil nato… ou seja, dos que não têm problemas de comportamento, se bem que o projecto também engloba esses problemas, mas mais aqueles mais fraquinhos que precisam mesmo de ajuda, que sem ajuda não conseguiriam estar aqui. Entrevistador: Quais as estratégias de gestão de currículo inerentes ao projecto Fénix? Professor: Uh… Deixa ver se eu percebi essa…Estás a falar das adaptações que foram feitas… Segunda pasta Professor: Em termos de gestão de currículo a única coisa que foi feita foi simplificação dos conteúdos, reforço dos conteúdos base em algumas disciplinas… portanto… uh… deixar o pormenor e ir ao essencial. Foi a única coisa, portanto, não houve gestão e, muito sinceramente, isso nunca foi falado, que nós tínhamos essa possibilidade, porque senão algumas coisas, se calhar, teriam sido feitas de forma diferente, em 221 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. algumas disciplinas; mas nunca nos foi dito que tínhamos essa possibilidade, de fazer gestão do currículo… dessa forma… Entrevistador: Sim, sim… Professor: … de horas, de fazer uma mudança, uma alteração… não… portanto, a única coisa, nós trabalhámos com o mesmo número de horas para cada disciplina… a única coisa que foi feita é, de acordo com os interesses deles, alguns assuntos eram mais aprofundados, de acordo com o que eles, que não eram tanto do agrado deles, eram mais ligeiros, mais superficiais, e sempre reforçando, por exemplo nas línguas… porque eles têm muita dificuldade nas línguas… reforçando a base que eles depois necessitam, e a parte do vocabulário não trabalhando tanto. Para eles, depois, puderem em qualquer altura da vida reforçar o vocabulário, desde que tenham a base, eles conseguem. Portanto, muito, muito reforço, de sempre a mesma coisa, trabalhando sempre a mesma coisa, eles vão conseguindo; se formos muito ao pormenor, eles vão esquecendo o que está para trás… a base… porque é mesmo muita falta de trabalho deles. Entrevistador: E essas estratégias foram delineadas em que órgão? Professor: Foi sempre no conselho de turma e depois, individualmente, cada colega em departamento. Foram fazendo a gestão no departamento e sempre foram deixando essas notas em departamento, do que estava a ser feito naquela turma em especial. Entrevistador: Partia sempre do conselho de turma? Professor: Partia sempre do conselho de turma…Portanto, vermos bem o PCT, estipularmos bem o que é que íamos dar em termos de projecto curricular de turma e depois transmitiam em departamento, planificações, se foram cumpridas se não foram cumpridas, como é que é com a turma… Mas, continuo a dizer, aquela primeira pergunta que me fizeste, tem muito a ver com o que é que os professores, depois, transmitiam em departamento; porque é-nos sempre pedido: Então, porque é que não cumpriste? ... Entrevistador: A preocupação era... Professor: A preocupação é sempre para cumprir o programa. É sempre o justificar que a turma é assim, que aqui nós temos de dar mais ênfase à base e não tanto ao pormenor…fomos trabalhando sempre assim… mas foi a única gestão que foi feita. Entrevistador: Como se alocaram os professores à turma Fénix? Professor: Como se…? Entrevistador: Alocaram. Como é que vieram para a turma Fénix? 222 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Riso Entrevistador: Contactou algum grupo de professores, porque sabia que tinham o perfil indicado para… Professor: Não, não, não…a gestão da escola fez a distribuição do horário, de serviço, e… calhou-nos. No caso da nossa escola lá em cima (EBI) como também éramos poucos, acabou por calhar aos professores de Português todos e aos de Matemática todos. Não havia grande escolha, não é… e depois, foram com os recursos humanos que havia na escola. Entrevistador: Inerente, então, à distribuição de serviço… Professor: Inerente à distribuição de serviço… pura e simplesmente. Entrevistador: … pelo órgão de gestão? Professor: Precisamente. Entrevistador: Sendo assim, a próxima também deve ser igual… Como é feita a afectação da direcção de turma Fénix? Professor: A mesma coisa. Portanto… ficas com a direcção de turma, tem um projecto, é assim… Foi-me mais ou menos explicado e depois, ao longo do ano, fomos aprendendo uns com os outros porque era novidade para todos. Entrevistador: O que é que entendes… já agora, aproveitando, isto tem de ser assim… numa entrevista, embora tenhamos o guião, mas há coisas que surgem numa altura própria… O que é o explicar mais ou menos? Professor: o explicar mais ou menos é:… Estamos no projecto que se chama assim, Mais Sucesso Escolar, tipologia Fénix; funciona da seguinte maneira … Língua Portuguesa e Matemática... tens uma turma mãe, depois eles são distribuídos por níveis de dificuldades que tenham. No ninho um são os que têm mais dificuldades, no ninho dois… depois podem variar, os alunos têm uma mobilidade de acordo com as aprendizagens que forem efectuando. Depois até podem voltar se a matéria entretanto lhes revelar alguma dificuldade, eles podem voltar aos ninhos, e vão fazendo essa transição, a Português e Matemática… As outras disciplinas, podes simplificar, podes aligeirar, porque o principio é sempre eles adquirirem as competências básicas no final de ciclo, as essenciais, e conseguires que eles melhorem os níveis de conhecimentos que têm. Portanto, foi-me transmitido desta forma. Entrevistador: Por que órgão?... ou qual a liderança? Professor: Pelo órgão de gestão e pela coordenadora do projecto. Foram os dois que falaram comigo nesse aspecto, no início do ano. 223 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Entrevistador: E ficou plenamente esclarecida? Professor: Naquela altura… e depois, fui pesquisar autonomamente. Fui tentar saber um bocadinho mais, de como é que estava a funcionar nas outras escolas. Fui ao site deles, ao da escola de Beiriz; fiquei logo a saber mais ou menos como funcionava nas outras escolas. Entrevistador: Tinha esse referente para ir seguindo… Professor: Sim. E depois, como alguns colegas foram fazendo formações, fomos aprendendo um bocadinho mais. Cada dúvida que surgia no conselho de turma, a [nome da coordenadora do projecto] tentava esclarecer … Fomos esclarecendo assim, dessa forma. Mas eu continuo a dizer… ainda hoje continuo a aprender coisas que podia fazer e não o fiz. Risos Entrevistador: Mas isso é muito bom… aprender todos os dias. Professor: Essa gestão, se calhar, dava jeito… e não fizemos. Entrevistador: Qual é o modo de agrupamento dos alunos na organização das turmas? Na generalidade, e depois no caso das turmas Fénix. Professor: Uh… Entrevistador: Como é que se pensa agrupar os alunos? Quais os critérios? Professor: Nós, quando fazemos a constituição das turmas, temos aquele cuidado de fazer aquela grelha, que agora já não se faz tanto… Fazíamos uma grelha de dificuldades que eles tinham, e de aspectos positivos, a assiduidade, a pontualidade, a facilidade ou não, nas aprendizagens… Entrevistador: O perfil da turma… Professor: O perfil individual de cada um e, de acordo com esse perfil, nós tentávamos manter, ou seja, não isolar os alunos… portanto, de sexto para sétimo foi isso que se tentou fazer, manter alguma referência… Isto é sempre o que se tenta fazer, é manter alguma referência. Depois, de acordo com os recursos que nós temos de escola, e as escolhas que eles fazem também em termos de línguas, não é… passou também a ser um dos critérios, tentar agrupá-los. Para a turma Fénix, eu não tive conhecimento quando ela foi constituída; mas tenho conhecimento quando a tive nas maõs e tive de elaborar o primeiro perfil, que havia, por exemplo, uma aluna que estava separada de qualquer referência dela… Portanto, a aluna número um foi sozinha, da turma dela, porque a maior parte veio para aqui, para a escola secundária, e ela ficou sozinha, isolada, e a minha turma tinha sete turmas. Portanto, a turma fénix tinha alunos 224 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. provenientes de sete turmas; duas de sétimo, com alunos repetentes, e as outras todas de sexto. Estava completamente retalhada… portanto, nota-se que foram escolhidos de acordo com as dificuldades que eles tinham a Língua Portuguesa e a Matemática, e foram seleccionados dessa forma…uh… Eram muitos, eram vinte e sete. Entrevistador: No ano passado? Professor: No ano passado, no sétimo ano… e completamente separados, sem qualquer referência em termos de grupo. Entrevistador: Então, pelo que eu percebo, o princípio que levou à formação da turma Fénix, da sua direcção de turma, foi a heterogeneidade? Professor: Foi a heterogeneidade e foi as dificuldades que eles tinham. Ou seja, em cada turma de sexto ano, foram escolhidos os alunos com mais dificuldade, e de acordo também com a preferência, porque alguns, se calhar, tinham dificuldades e vieram para cá, para a secundária… portanto, dos que queriam ficar, ou dos que tinham de ficar… Entrevistador: Pois, mas isso teria de ser assim. Hoje, já é um grande agrupamento… Professor: Precisamente. Tinha de ser assim, depois foram seleccionados consoante as dificuldades que eles tinham… pelo menos, foi isso que me foi transmitido. Por que depois do sétimo para o oitavo, tentei mantê-los a todos, sem divisão nenhuma. Os alunos que repetiram, só foram os que tinham o mesmo perfil, ou seja, dificuldades e que não fossem perturbar, em termos de aprendizagens, os colegas… e correu bem, porque as duas alunas que integraram a turma, tiveram sucesso este ano. Entrevistador: A relação desenvolvida entre alunos e professores é considerada na constituição da turma Fénix? Professor: Não. Entrevistador: Não? Professor: Não, não senti isso, porque é o que eu digo… são os recursos que temos e não temos muita manobra, não temos muita escolha. São os professores que temos, temos um professor de Geografia, temos um professor de História, temos um professor de Ciências… Entrevistador: Este ano já não seria assim… o leque de professores era maior… Professor: Este ano já não seria assim… mas durante estes dois anos não mudou. Entrevistador: Não mudou muito, do ano passado para este? 225 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Professor: Os professores que mudaram, foi os professores que mudaram em termos de recursos humanos da escola… de resto… Entrevistador: Pois, mas poderia, já que havia um maior leque de oferta de professores, uma vez que é um grande agrupamento. Professor: Pois, mas não foi, não foi pensado dessa forma. Continuou a ser pensado na distribuição de serviço e pouca coisa mudou. Entrevistador: Por exemplo, a professora de Geografia era uma, o ano passado… Professor: Pois, precisamente, mas teve a ver com a distribuição de serviço…penso eu, não é?! Foi afectada ao secundário e pronto, deixou de estar com a turma. Entrevistador: E relação entre essa professora e os alunos era considerada boa? Professor: Era, era. Entrevistador: E não houve uma justificação? Professor: Foi pedida, foi pedida pela própria, eu também pedi, e foi-me dito que em termos de distribuição de serviço era mais conveniente ser assim. Portanto, que era melhor ser assim para a escola e, pronto, foi assim que foi tomada a decisão. Entrevistador: Quais as estratégias utilizadas pelas estruturas de liderança, no que respeita às orientações para a implementação do projecto Fénix? … Uh… Ou seja, quando um projecto destes, que é uma inovação disruptiva, depois já falamos lá mais à frente sobre ela, quando chega a uma escola não pretende que fique como ainda há pouco referiu, isolado, num cantinho, em relação ao resto da escola. Professor: Pois, pois. Entrevistador: Pretende que toda a escola se envolva; seja professor ou não professor dessa turma. Para si, quais foram as estratégias que as estruturas de liderança da escola… departamento, pedagógico, coordenação de directores de turma… o que é que fizeram? Professor: Na minha perspectiva, foi muito pouca coisa feita. Continuo a dizer que foi posto à parte, que foi posto só apenas em conselho de turma. Portanto, nós trabalhávamos de forma isolada. Não houve um envolvimento da escola toda e eu acho que não houve por falta de estratégias, as estratégias não existiram. Portanto, o único envolvimento foi em termos administrativos, quando era necessário; quando eu sentia necessidade e falava, nessa altura intervinham. Mas se fores perguntar a um colega que não faz parte do conselho de turma, é capaz de desconhecer o projecto. Portanto, eu acho que não houve estratégias… Acho que foi mesmo… Ah, sim, o vosso 226 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. projecto… Normalmente, agora já dizem: o teu projecto, é a tua turma Fénix. Ficámos, eu sinto-me um bocadinho isolada. Entrevistador: Talvez fique um pouco fora de contexto, mas… Como se promoveu a articulação entre os docentes e as várias estruturas de liderança do agrupamento? Já falou ainda há pouco um bocadinho sobre isto; que os professores de Matemática e de Língua Portuguesa, em sede de departamento… Professor: Em sede de departamento, sim. Fazem essa menção. Mas continuo a dizer , eu sinto isso, não sei se é verdade, mas sinto que é mais como uma forma de se justificarem perante um conteúdo não dado, perante uma planificação não cumprida, perante resultados negativos … Portanto, eu acho, eu sinto, até em departamento que quando é falado, por exemplo, o resultado das provas intermédias… eles fizeram o intermédio de Matemática, este ano… e os resultados deles foram uma média de trinta e cinco porcento, com a grande maioria a atingir os quarenta e muitos, que para eles é um sucesso… e nada foi falado em departamento. Ou seja, foi falado que havia uma turma com resultados muito baixos, independentemente de dizerem que a turma era Fénix, que os resultados de trinta e cinco porcento de média para eles era fantástico, que eles tinham conseguido grandes conquistas, porque o intermédio era difícil… nada foi falado. O que eu continuo a dizer que me sinto, e claro que eu acho que os professores de Matemática acabam também por se sentir muito isolados e muito incompreendidos. Entrevistador: Então, mas se isso foi um sucesso, quer para alunos quer para professores… Professor: É assim…Não quer dizer que tenha sido um sucesso astronómico… Entrevistador: Está bem, mas… Professor: Em termos da melhoria deles, conseguirem estar num teste intermédio nacional , ao nível que os intermédios estão, que são mais difíceis…pelo menos, é o que é considerado pelos professores, mais difíceis do que o próprio exame nacional … ao nível de muitos alunos conseguirem quarentas e tais, e dois ou três conseguirem positiva… para eles são algumas conquistas importantes, e até para os professores, que eu acho que eles também têm de ter esse mérito, e foi falado como um número apenas, em mais do que uma turma… É preciso ter cuidado, que aqui o oitavo E… nada de projecto, nada de Fénix… Eu estive para intervir, mas eu pensei: Se vou intervir, vou ter de explicar a quarenta e tal professores o projecto, porque eles não o conhecem. E ficava muito difícil, e ainda para mais para mim é muito difícil, por que eu não estou dentro do Português nem da Matemática, e estar a explicar uma coisa de que trinta e cinco é um sucesso… eles sabem lá as dificuldades que eles tinham no inicio! Quem está com eles, no dia a dia, é que sabe … obviamente que eu sei as dificuldades deles, 227 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. mas não sei especificamente nas disciplinas, quais são as conquistas que eles vão fazendo Entrevistador: E está no mesmo departamento que as professoras de Matemática, não é? Também não ficaria assim tão isolada. Professor: Precisamente. Senti um bocadinho que ficámos à parte. Entrevistador: Eram um número. Professor: Mais um, mais um número. Sem a mínima importância sequer… Ah, temos de combater aqui este insucesso! Entrevistador: Como é feita a monitorização e o acompanhamento do conjunto de estratégias do projecto Fénix? Professor: É assim… a única pessoa que eu sinto… as únicas duas, vá… vamos ser sinceros… as únicas duas pessoas que eu sinto uma grande compreensão em termos de tudo o que é feito, e que tentam agilizar o máximo e que conseguem tudo o que é necessário, é a coordenadora do projecto e o coordenador de estabelecimento da nossa escola lá em cima (referia-se à Escola Básica Integrada, uma vez que a entrevista foi feita na Escola Secundária, actual sede de agrupamento) , que como conhecem muito bem o projecto, tudo o que é necessário eles tentam organizar… Agora, se também não há grandes estratégias… Entrevistador: Mas como é que fazem a monitorização? Como é que avaliam? Pressupõe-se que, um coordenador de projectos, um coordenador de estabelecimento, um órgão de gestão, ou qualquer estrutura de liderança o faça. Como é que monitorizam… tem de ser uma avaliação constante Professor: Em termos de estratégias… os relatórios. Entrevistador: Em todos os conselhos de turma são entregues relatórios? Professor: Sim, de Português e de Matemática… uh… Por vezes, são pedidas opiniões de todos os colegas do conselho de turma; como é que as coisas estão a correr e como é que pode ser melhorado… isto sempre pela coordenadora que está presente em todas as reuniões. Entrevistador: Em todas as reuniões? Professor: Em todas as reuniões de conselho de turma. O coordenador de estabelecimento está presente em algumas. E este ano esteve… portanto, sempre que foi necessário, eu pedi ao coordenador para estar; o director também esteve numa reunião… para esclarecer alguma dúvida que possa surgir que, nem eu nem a coordenadora do projecto conseguimos abranger toda a estrutura da escola. Então, o 228 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. director e o coordenador de estabelecimento foram chamados… e aí estiveram presentes. Mas, mesmo assim, eu acho que deveriam ser mais as reuniões em que eles estariam presentes. Entrevistador: Então, foi um acompanhamento… Professor: Esporádico, sempre que solicitados. Entrevistador: Não por sua iniciativa. Professor: Não. Entrevistador: Até poderem querer reunir extraordinariamente… Professor: Não. Quando falámos que as coisas estavam a correr mal e que os resultados estavam abaixo das expectativas … das minhas, pelo menos… em que conversámos, tanto eu como a coordenadora pedimos, que precisávamos de uma reunião … Entrevistador: No presente ano lectivo? Professor: No presente ano lectivo … que fizesse um ponto de situação e que esclarecesse os colegas de que as coisas tinham de mudar, não podiam ser assim. Eu acho que houve muita tentativa dos colegas de, o ano passado em que o projecto esteve implementado, vamos tentar que eles já não precisem de adaptações quase nenhumas, e o resultado foi negativo, porque eles precisam. Portanto, obviamente que eles não conseguiram atingir as expectativas, e depois teve de ser feito este balanço, em termos de estruturas de coordenação da escola de… vejam lá, que se os resultados não estão, temos de voltar ao ponto de início, outra vez… E foi necessário isso para eles conseguirem o que têm hoje. Mas é sempre importante, porque a presença de um director, de um coordenador de estabelecimento, faz toda a diferença numa reunião… toda a diferença. Entrevistador: Como assim? Já agora… explique, se faz favor. Professor: O clarificar, de novo, por uma hierarquia … o que é que é preciso fazer para o projecto … De repente, toda a gente começa a perceber melhor. Entrevistador: Ah… Então, até aí não há inteligência? Professor: Até aí, não há… ou seja, eu continuo a achar…mas, também vamos ser sinceros… para mim, é muito difícil , na posição em que eu estou, de professora contratada, de professora que está cá há menos de anos, que tem menos experiência… ter dezanove colegas, com vinte e cinco e muitos anos de experiência à frente, sentirem … como é que eu hei-de dizer?!... Algum, algum… eu não vou dizer que não tenho credibilidade… 229 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Entrevistador: Reconhecimento? Professor: Eu não queria dizer reconhecimento, e credibilidade que é muito forte. Mas, às vezes, quando vem uma estrutura acima, um coordenador de estabelecimento ou um director, a credibilidade é diferente e as coisas mudam … e, para muita pena minha, mudam … eu não gosto de dizer isto, mas parece que eu própria não tenho muita credibilidade perante os colegas… mas a verdade é esta: se for o coordenador de estabelecimento a dizer o mesmo que eu estou a dizer, tem um peso diferente. Não sei se é por os colegas acharem que são chamados à atenção, ou que foram clarificados, ou que ouviram melhor… não sei, mas a verdade é que isso acontece. É uma constatação Entrevistador: Quais as estratégias utilizadas pelo conselho de turma para garantir a articulação horizontal e vertical? Professor: Uh… Portanto, as estratégias passam sempre por, em conselho de turma, tentarmos fazer projectos que os consigam , ou seja, consigam envolver várias disciplinas , de modo a que as estratégias que são usadas sejam … por exemplo, em termos do Português, tentarmos que em testes e em fichas, continuemos a trabalhar muito o desenvolvimento deles na escrita, porque é uma dificuldade muito grande que eles têm. Isso, nós tentamos, ou seja, ter nem que seja uma pergunta que os faça estruturar o pensamento, para eles conseguirem redigir com correcção; depois serem corrigidos, ter muito cuidado com essa correcção. Isso foi uma das estratégias que utilizámos, por exemplo, este ano Entrevistador: Uma estratégia horizontal… Professor: Horizontal, sim. Tentámos fazer com que todos, até na Matemática , tivéssemos uma questão que eles pudessem fazer o seu raciocínio ,e depois escrever , traduzir esse raciocínio na Língua Portuguesa, que é uma grande dificuldade que eles têm. Portanto, isso foi uma coisa que este ano tentámos fazer. Depois, quando eles estiveram envolvidos em projectos … este ano, estiveram envolvidos em vários projectos … e, principalmente, porque eu tive a sorte de os ter em Área Projecto, e consegui envolvê-los em vários projectos… tentei fazer com que todos , horizontalmente, contribuíssem nem que fosse só uma ajuda, uma dúvida que eles tivessem em termos de cada uma das disciplinas , para eles conseguirem ter sucesso nesse projecto . Pronto, eles tentaram, mas eles não estão muito habituados a trabalhar em projecto, e levar os alunos a tentar perceber que … Entrevistador: As coisas estão formatadas… Professor: Exactamente. Isto é isto, a Matemática não tem nada a ver com isto, a Físico-Química não tem nada a ver, Ciências não tem nada a ver… eles têm muito 230 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. essa… por exemplo, para eles é difícil, mas tentámos. É uma estratégia que este ano tentámos implementar. Entrevistador: E articulação vertical… definiram estratégias? Professor: A articulação vertical… eu penso que foi mais difícil. Entrevistador: Por exemplo, no final deste ano lectivo, vocês foram pensando já o que poderiam articular para o nono ano? Professor: Não. Este ano… é o que digo… cada um , individualmente, tem a preocupação de reforçar tudo o que ficou para trás, isso temos, essa preocupação … mas em termos, por exemplo, de projectos ainda não foi nada pensado… uh… em termos… Entrevistador: Do currículo, em si… do currículo. Professor: Em termos do currículo, não. Não, não foi nada pensado. Entrevistador: Houve lugar a formação externa, no âmbito do projecto Fénix? Professor: Alguns colegas, sim, tiveram formação. Português, principalmente, e Matemática. Entrevistador: O resto do conselho de turma, não? Professor: Não. Entrevistador: Mas porque não quiseram … Professor: Em termos de conselho de turma, eu tenho o grupo no mail e faço a distribuição, normalmente quando a coordenadora faz chegar alguma formação, eu distribuo. Tenho conhecimento de alguns colegas que, realmente … é o que eu digo… Português e Matemática que vão, mas sempre com muita dificuldade, em termos de distribuição de serviço, isso em termos de terem ou não disponibilidade para faltar, para poder ir. Os outros colegas, eu não tive conhecimento que tivessem ido a qualquer formação. Pelo menos, específica… Entrevistador: Formação do projecto Fénix. Professor: Formação em termos do projecto Fénix, em si… uh… Este ano, não tive muito conhecimento. O ano passado tive mais. O ano passado houve duas ou três reuniões, que fomos mais, do que só eu ou a [nome da coordenadora do projecto]. Mas há muita dificuldade em ter aqui a dispensa de serviço… O ano passado, lembrome que queria ir a duas ou três e não pude, não me foi dada dispensa de serviço. Fui só quando não tinha serviço, pronto… a prioridade continua a ser sempre o dar aula. 231 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Entrevistador: Em quantas sessões é que esteve presente? Professor: Nos dois anos? Entrevistador: Sim. Professor: Uh… três, no máximo… quatro … mas agora não estou a precisar muito se no ano passado foram duas e neste outras duas, ou se este ano foi só uma e no outro ano , duas. Foi mais o ano passado, do que este ano. Portanto, foram duas ou três, no máximo. Entrevistador: A partir da formação que foi disponibilizada, quais as estratégias das estruturas de liderança do agrupamento para difundir o conhecimento obtido, construído por vocês? Professor: Uh… nenhuma. Eu não sei sequer se as estruturas de liderança participaram em alguma, com a excepção da coordenadora. E mesmo este ano, eu penso que a coordenadora não participou em muitas formações. Não, ela não esteve presente em muitas. Entrevistador: Nunca foi criado por nenhuma… num departamento, ou numa coordenação de directores de turma, ou até a própria gestão da escola… proporcionar um momento que envolvesse os professores da turma, quer outros, para transmitir o conhecimento que vocês obtiveram na formação? Professor: Não, nada. Entrevistador: Quais as mudanças observadas na prática educativa dos professores? Professor: Ah, isso é difícil… uh… Eu penso que a sensibilidade mudou. Agora, na prática educativa… Entrevistador: A forma de dar as aulas; a metodologia de avaliação… Professor: Eu tenho a certeza absoluta que houve alguma coisa que mudou, principalmente nos professores que têm os ninhos e a turma mãe, porque têm menor número … Esses, eu tenho a certeza que são diferentes. Agora, em termos de transmissão, há sempre esta … recebia essa informação, ou seja, os colegas diziam, e quando nós falávamos em conselho de turma, de como é que as coisas estavam e de como é que cada um de nós trabalhava, e isso houve muitas reuniões em que cada um falou como trabalhava com a turma.. uh… os colegas dos ninhos diziam sempre : Ah, nós estamos à parte, porque para nós é tudo mais facilitado; só temos cinco alunos, só temos quatro alunos , temos grupos pequenos… Portanto, as coisas funcionam de maneira diferente. Aliás, eles não tinham problemas nenhuns de disciplina e havia professores que tinham vários problemas de disciplina. Em termos de prática e de partilha, eu acho que a única pessoa, penso eu, que normalmente fez essa partilha, fui 232 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. sempre eu , porque fui sempre chamada à atenção porque tinha resultados muito bons e que isso… uh… fugia um bocadinho do que era normal na turma…E então como é que tu fazes?... Sempre fui questionada dessa forma. Já o ano passado fui, e eu sempre expliquei que estes meninos precisam é de muito carinho, mas ao mesmo tempo de regras muito rígidas em termos de sala de aula, ou seja, eu preocupo-me muito com eles, mas quando estamos para trabalhar, é para trabalhar e não há sequer uma mosca a falar. Portanto, eu transmitia algumas das práticas educativas que eu tinha com eles, particularmente. Entrevistador: E sentiu que os colegas…? Professor: Senti que os colegas tentaram fazer o mesmo, ou seja, a maior parte deles tentou impor as regras muito rígidas e ao mesmo tempo dar-lhes o carinho que eles precisavam. Isso foi partilhado, mas não sei se foi sempre muito bem recebido, porque acabei por ser, em algumas reuniões, um bocadinho, entre aspas, atacada , sempre chamada à atenção… Será que não estás a facilitar demais, e se calhar por isso é que tens bons resultados? ... E eu tenho a experiência, nunca fiz nada de diferente em relação aos outros oitavos. Portanto, o que eu faço este ano e o que fiz o ano passado, no sétimo, era igualzinho à outra turma. Eu tive o privilégio de conseguir na nossa escola, ter as duas turmas no mesmo ano. Portanto, toda a prática que eu fazia com a outra turma, fazia com eles. A única coisa que mudava era a forma de eu me relacionar com eles, em relação à outra turma… Portanto, era muito mais rígida em sala de aula em termos do que estávamos a dar, eles não abrem a boca, eles têm um respeito… Entrevistador: Sabem estar… Professor: Sabem estar comigo, sabem. Mas, depois, em contrapartida, assim que acaba a aula, eles ficam comigo na sala. Entrevistador: Então… os bons resultados devem-se, essencialmente, à relação pedagógica. Professor: Os meus bons resultados devem-se essencialmente a isso. Eles gostam de me ouvir, porque sabem que ali estamos para trabalhar e depois temos a contrapartida e , obviamente, que os conteúdos têm de ser dados muito ao interesse deles. Portanto, se eu os vejo muito interessados em, vamos supor, agricultura … vamos dar isto na perspectiva da agricultura… e se eu os vejo realmente a aderir, vamos explorar. Fazemos muito isso nessa área; eles são muito interessados em ciência. Eles têm muito melhores resultados em Ciências e até na Matemática, do que propriamente nas línguas, que é uma coisa que se calhar não relacionam tanto com o dia a dia. Entrevistador: Ou seja, não partem de um tema do interesse deles e depois adequá-lo 233 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Professor: Precisamente. Eu acho que em termos de práticas educativas, houve essa mudança. Os colegas de línguas tentam ir ao que eles gostam, ou seja, perguntamlhes: Vocês fazem o quê? O que é que fizeram nas férias?... Para tentarem pegar aí e vão ao interesse deles. Eu lembro-me que este ano houve uma participação fenomenal da turma, no fim do ano, em Inglês… o tema era poluição, ou seja, era um tema ligado à ciência, que eles gostavam, e eles aderiram, eles sabiam os termos todos… tudo, tudo, tudo … Eles sabiam, porque era uma coisa que eles gostavam . Entrevistador: Facilmente, aderem. Professor: Sim. Outra coisa, foi a parte dos crepes da nossa colega [o nome da docente de Francês] que eles aderiram muito bem, como era uma coisa prática, foram para casa uns dos outros, brincaram … eles adoraram. Tudo o que é ligado à prática, eles adoraram. Portanto, essas práticas foram partilhadas em termos de conselho de turma. Depois, cada um mostrou, realmente… pronto, o Inglês foi esta parte da poluição; o Francês, a parte dos crepes; o Português, se calahr, mais ligado a um texto que eles até gostavam e foram trabalhando esse texto… e fomos trabalhando assim, nessa área. Entrevistador: Quais os incentivos para que os professores partilhassem essa mudança na sua prática educativa? Professor: Incentivos? Não estou a perceber. Entrevistador: Incentivos de, quer de si como directora de turma, quer da coordenadora do projecto, proporcionarem a difusão das práticas que geram boas aprendizagens. Por que, sabe como é, a prática normal é que cada um se fecha na sua conchinha… Professor: O que nós tentámos em conselho de turma, o que às vezes não é fácil porque há muita burocracia, há muita papelada para preencher... pronto… uh… e somos muitos, e duas horas de reunião não chega praticamente para nada. Portanto, o que eu senti este ano, e é uma crítica que eu me faço, é que devia ter reunido muito mais com os colegas; só que nós temos sempre a tentação de reunir quando é necessário. Portanto, e quando é necessário?... É necessário quando é para preencher papéis, e nós devíamos reunir quando precisávamos de partilhar. Houve a partilha e houve esse pedido meu, da coordenadora e de alguns professores do conselho de turma que sentiram essa necessidade de partilharmos, mas sempre muito arredados, no fim da reunião, já quando está toda a gente cansada. Ou seja, não houve uma reunião para a partilha; houve uma, no ano… uma. Foi quando esteve o director e quando esteve o coordenador de estabelecimento, que foi só para essa partilha. Era necessário mais. Agora, vamos ser muito sinceros, dezanove professores conseguirmos reunir com frequência… que devia ser com frequência… vários professores chamaram 234 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. a atenção de que havia essa necessidade de, pelo menos uma vez por mês, reunirmos para fazer essa partilha, isso há, eu sinto essa necessidade. Entrevistador: Sendo assim, os horários dos professores não estavam adequados, não havia nenhum momento conjunto que lhes facilitasse esse encontro? Professor: Não. Isso só fora horário, o nocturno quase, não é… e muito dificilmente conseguíamos, por exemplo na altura das reuniões, em que vários professores estão em várias reuniões. Portanto, o problema é esse. Entrevistador: Vocês não solicitaram isso? Professor: Não. É isso que eu estou a dizer, o erro acho que também foi meu. Entrevistador: Não, não é seu. Professor: Sim, porque se houvesse essa preocupação de reunirmos com mais frequência, se calhar no início do ano, em termos de distribuição de serviço, haveria a preocupação de dizer: Tem de haver, aqui no horário, um momento para nos reunirmos Entrevistador: Agora é que é a altura certa… [reportávamo-nos à preparação do próximo ano lectivo]… Criar um momento conjunto nos horários de todos os professores da turma Professor: Precisamente. Isso, acho que até agora não, não funcionou… E eu continuo a dizer, alguma da culpa também é minha, porque bastava eu dizer que precisava de reunir. Isso foi-me dito: Se precisares de reunir mais vezes, é só dizeres. Entrevistador: Pois, mas sabe-se que, por norma, as pessoas andam cansadas, têm mais trabalho extra… Professor: Sim, há sempre essa dificuldade. Mas eu senti essa falta, devíamos reunir mais vezes para fazer essa partilha; não tanto com a preocupação de preencher papéis, dar notas , de atribuir resultados, mas sim de fazer essa partilha. Por que, senão, é sempre algo que fica muito arredado… no fim da reunião, cinco minutinhos, dez minutinhos… Entrevistador: Pois. Considera que existe alguma necessidade de formação, no âmbito deste projecto? Professor: Acho, acho que sim. E acho que devia ser obrigatório. Entrevistador: Pode enunciar que temas? Professor: Acho que de uma forma geral. 235 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Entrevistador: Mas que temas em concreto? Professor: O projecto em si. Acho que está mal entendido o projecto, por muitos professores… Uh… É o que eu digo, até eu estou constantemente a aprender coisas do projecto, que se eu tivesse uma formação abrangente do projecto, eu conseguia… quando vou às reuniões, que conheço as práticas das outras escolas, mas normalmente a prática é sempre para informar e não tanto para discutirmos, ver se funcionou… normalmente, quando vou às reuniões, tudo funcionou bem, que eu acho que não é assim, é impossível as coisas funcionarem sempre bem. De certeza que houve estratégias que foram aplicadas e que funcionaram mal, e é bom que essas também sejam partilhadas… Entrevistador: Não mostrar só o bem … ou o que saiu melhor. Professor: Precisamente. O que saiu melhor, eu até posso tirar umas ideias… quando ia às reuniões, tinha o meu livro cheio de ideias do que é que correu bem. Mas há coisas que correram mal, e se calhar nós estamos a fazer e que, no nosso caso, até podem correr bem. São ideias… o que correu mal numa escola, pode correr bem na nossa. Eu acho que nós devíamos todos, obrigatoriamente, o conselho de turma estar presente nessas formações… e eu já nem digo específicas, digo gerais… formações para saber quais são as práticas nas outras escolas, como é que eles se reúnem, quantas vezes reúnem, porque são as boas práticas que depois nós podemos adoptar. E considero que devia ser obrigatório, o órgão de gestão também estar, porque são eles que depois podem organizar os nossos horários, organizarem reuniões, deixaremnos mais livres de algumas dessas tarefas… e não, nós continuamos a ter o peso normal que qualquer outro professor da escola tem, mais este… E depois, pior, ninguém pediu para termos este; que era aquilo da outra questão… se toda a gente partilha, já está envolvido, eu sei, meti-me nisto porque quis e estou a dar um extra. Assim não, as pessoas sentem que estão a fazer extra horário, trabalho extra, esforço… quando ninguém lhes perguntou, quando alguns professores, se calhar, não têm perfil, porque não é só o perfil dos alunos, não é… É o nosso também, porque se nós não estivermos envolvidos, eles também não vão estar, eles não se sentem envolvidos. E, por isso, às vezes, há maus resultados de um lado e bons de um outro, e as pessoas não percebem porque é que há bons do outro, e se calhar até acham que se dá as respostas nos testes… e é mau; é mais fácil perceber assim, a prática resultou, porque há facilitismo… e o facilitismo resulta sempre… e é mais fácil assim do que… Entrevistador: Ver que foi de maneira diferente… Professor: Eu continuo a dizer… como ninguém lhes perguntou se eles queriam estar envolvidos, eles estão a fazer o melhor que conseguem. Como também não vão a formações… Há colegas do conselho de turma que nunca foram a uma única reunião, nunca ouviram ninguém falar da prática. 236 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Entrevistador: Nem àquela em que veio a coordenadora… Professor: Nem aquelas em que veio a equipa . O ano passado, estivemos do ninho as três professoras de Matemática, que este ano não são as mesmas… este ano as novas professoras só estiveram numa… Entrevistador: Por curiosidade… Essas três professoras continuam a estar no agrupamento? Professor: Não, as três saíram … e , por exemplo, uma das professoras de Matemática que estava cá o ano passado, mas não estava envolvida porque estava de licença de maternidade, praticamente não sabia nada do projecto. Que é que nós falávamos… estava na escola, mas não fazia ideia nenhuma do que era o projecto; sabe que há uma turma com projecto, sabe que há uma turma com dificuldades, e que até são uns terríveis… Eu já ouvi professores da escola, do segundo ciclo, que dizem: Ui! A turma Fénix!... Quando não é nada assim. E é uma situação ingrata, porque eu já estive, no ano passado e neste ano, perante colegas que vêm a meio do ano, que entram a meio do ano, em que eu tento explicar como é a turma, e eles antes de eu falar: Ai… que horror! Vai ser horrível. Como é que eu trabalho com eles? Entrevistador: Já há o estereótipo formado… Pois, quando se aprte assim, com essas expectativas, é difícil. Professor: É muito, muito difícil. Isso cria logo um handicap aos professores que vão trabalhar com esta turma. Isso é negativo. E eles não são nada assim… Eles são meninos é querem que alguém puxe por eles… se alguém puxar por eles e eles gostarem… eles basta gostarem do professor, é meio caminho andado, fazem tudo. Entrevistador: Como é que têm evoluído os resultados deles? Professor: Uh… Eles são muito heterogéneos , ou seja, eles, no ano passado, estavam muito mal no início, a meio melhoraram, e no fim tiveram conquistas; no início do ano, mantiveram as mesmas conquistas, mas, no segundo período, pioraram imenso, houve uma quebra muito acentuada. Eu fiquei muito assustada e disse O projecto não está a funcionar . É impossível. Como é que eles começam bem e agora estão neste patamar? Eu continuo a dizer que foi muito por obra de os professores acharem que eles já estavam bem … E vamos agora outra vez tentar puxar mais por eles … E quando tentaram puxar mais por eles, eles não aguentaram a pressão, porque eles não aguentam a pressão… Entrevistador: Está a referir-se às disciplinas todas? Professor: Todas. Houve uma quebra, porque eles normalmente quando quebram numa… eles são alunos , a maior parte, são alunos que se tiverem uma negativa, desmotivam imediatamente. Portanto, se eles tiverem negativa naquela disciplina, e 237 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. têm de estudar para a outra, já não vão estudar com o mesmo ânimo, já não vão estar bem… Entrevistador: A auto-estima deles é baixa… Professor: Muito baixa… Não vou conseguir, já não vou conseguir … Têm de estar constantemente a ser incentivados … Não, vocês conseguem… E a ser sempre chamados à atenção, e eu reconheço que fui muito chata com eles, porque estive sempre, sempre a falar, e eles, às vezes, precisam do outro lado, que é… Nós sabemos que vocês até tentam … Mas a posição, para mim, é: oiço os professores de um lado… Eles não estudam,m eles não trabalham , eles são uns mandriões … E, depois, tentar fazer a filtração para eles numa outra perspectiva é… Vocês não estudam, vocês não trabalham… E alguns deles vão-se abaixo. Entrevistador: Pois, sentem a pressão. Professor: Sentem... uh… e os pais, por exemplo, ontem e na semana passada quando os tive, muitos deles referiram que sentiram-nos a ficar extremamente cansados, a no final do ano já não aguentarem a pressão do estudo. E houve um decréscimo muito grande… Entrevistador: O oitavo ano… é normal. Professor: Eu considero que no terceiro ciclo, é o mais puxado em termos de conteúdos são mais complicados, e eles , a própria idade com que estão no oitavo, é muito complicado. Se bem que alguns não sentiram isso , porque já vinham muito atrasados com as outras retenções… portanto, a idade mais complicada foi no sétimo. Mas eu senti no segundo período, uma grande quebra, este ano foi muito cansativo… o primeiro período muito grande; o segundo muito grande; no terceiro, eles já conseguiram recuperar um bocadinho e também os professores começarem-se a aperceber que estava a correr mal, que estavam a puxar muito por eles, e voltaram mais à base e conseguiram bons resultados. Entrevistador: Em que áreas ou disciplinas se observam progressos nas aprendizagens e nos resultados? Professor: Uh… Eu acho que os progressos são mais notórios nas áreas, neste caso, nas disciplinas em que eles têm os ninhos, a Português e a Matemática. Eles, inicialmente, mesmo com os resultados do sétimo ano, conseguiram melhorar muito a Português e a Matemática… Uh… Eu agora não tenho presente… Entrevistador: Não é preciso números… Professor: Eles melhoraram a Português e a Matemática. Entrevistador: Só? 238 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Professor: A Físico-Química mantiveram; a Ciências têm estado a manter; melhoraram muito a Inglês, muito devido ao facto de termos feito um ninho fingido a Inglês, como foi atribuído uma assessora… a estratégia que o conselho de turma determinou… afinal até temos mais estratégias, eu é que me esqueço… Uma das estratégias que nós conseguimos no início, logo no primeiro período, foi, como tinha sido atribuído uma assessora a Inglês, resolvemos dividi-los. Fizemos ninhos, em que eles trnasitavam de ninho conforme as dificuldades. Portanto, a colega saia com sete, por exemplo, e a professora da turma ficava com o resto. Desenvolviam as mesmas actividades de formas diferentes, ou seja, constituímos um ninho. Entrevistador: A mobilidade desse ninho… Professor: A mobilidade era idêntica à de Português e de Matemática. Portanto, tentámos criar ali… uh… e houve melhorias muito grandes a Inglês, houve, isso houve. A Francês também se mantiveram os resultados. Houve um decréscimo muito grande a História, o colega teve muitas dificuldades em trabalhar com eles, este ano. Entrevistador: Mas era o mesmo professor do ano passado? Professor: Era o mesmo professor, mas houve mais dificuldades este ano do que no ano passado. A Geografia houve muitas dificuldades, não tanto nos resultados, mas mais na gestão da relação entre a professora e os alunos… muitas dificuldades mesmo e continuam-se a manter… uh… nos resultados, a colega adoptou uma estratégia de estudar com eles… uh… os alunos que têm uma bagagem… eu não digo uma bagagem… mas que têm uma preocupação um bocadinho maior, conseguem tirar bons resultados, fazendo esse estudo com eles. Portanto, se eu vou estudar com eles praticamente tudo o que vai sair, eles conseguem aderir. Agora, em termos de motivação deles próprios… muito em baixo, muito em baixo. Em relação às outras disciplinas, Educação Musical, tudo o que são disciplinas práticas, eles aderem , têm bons resultados, continuaram como no ano passado; Educação Visual, melhoraram em relação ao ano passado, a professora julgo que também mudou, ou seja, começou a fazer projectos mais práticos, alguns livres… portanto, lançar aqueles projectos que estimulam um bocadinho a criatividade, e eles aderem muito bem a isso ; eles foram buscar materiais e fizeram projectos muito engraçados. Quando é muito rígido… Vocês têm de fazer todos igual… não gostam . Aí, já houve uma mudança. Portanto, acho que em todas as disciplinas houve uma melhoria, a não ser naquelas em que já havia bons resultados e que se mantiveram: Ciências Naturais e Fisico-Química, porque eles gostam muito. A Educação Física houve também progressos, o ano passado houve algumas negativas , este ano já não houve… há ali alunos que se recusam, principalmente meninas, que se recusavam a fazer a aula , a colega já conseguiu que eles aderissem mais às actividades. E eu continuo a dizer… e foi o pior erro do projecto, na minha perspectiva, em termos até, se calhar, de ministério, não conseguir 239 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. manter os mesmos professores. Devia ser obrigatório manter os mesmos professores, nos anos em que o projecto está… Entrevistador: A concepção do projecto, a sua estrutura prevê isso mesmo… Professor: Mas é difícil de continuar… Entrevistador: A autonomia da escola… Professor: Pois, mas foi uma coisa que se perdeu… e depois, todos os anos, recomeçar tudo de novo. E não é fácil, porque uma coisa é nós falarmos e dizermos Fizemos assim, é assim… Entrevistador: Outra coisa é sentir e trabalhar… Professor: Outra coisa é sentir e viver … Eles, por exemplo, no ano passado, em termos de relação, que não foi fácil com as colegas de Matemática, pelo menos com uma colega de Matemática, a da turma mãe, a relação não foi fácil no início do ano… no fim do ano, eles estavam perdidos de amor pela colega e foi quando ela se foi embora; e eles sentem essa perda. Entrevistador: Como se explica a diferença entre taxas de sucesso nas áreas ou disciplinas? Professor: Uh… É pela empatia, a empatia pelo professor. Isto é a minha perspectiva. Entrevistador: Que elementos se revelam os determinantes dos casos de sucesso? Professor: Os casos de sucesso tem muito a ver, continuo a dizer, pela empatia que eles têm pelo professor, e pela matéria que eles estão… uh… ou seja, pela parte prática que eles sentem na aplicação. Por exemplo, se aquele conteúdo tiver aplicação na parte prática e se eles acharem que lhes vale, que lhes vai ser útil na vida, eles têm bons resultados. Entrevistador: E quais são os elementos determinantes de insucesso? Professor: De insucesso é… uh… conflitos com os professores. Para mim, é o que eles me reportam, que é: Eu não consigo estudar uma disciplina em que eu não gosto do professor, independentemente de ser um conteúdo que me interessa; se eu não sinto que o professor me incentiva, se eu não sinto que o professor me aceita, se eu não sinto que o professor tenta tudo para eu conseguir o sucesso, se o professor me rebaixa, se o professor diz que eu não consigo… eu não consigo. Entrevistador: Mas isso acontecia? Professor: Eu acho que eles sentiam que isso acontecia. Em alguns casos, ou, às vezes, por indiferença… porque a indiferença também faz a mesma coisa…o não querer 240 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. saber, o dar o conteúdo e não querer saber, quem apanhou, apanhou… como, às vezes, nós costumamos dizer _ quem apanha, apanha, que não apanha, apanhasse _ isto, para eles, para esta turma, não sei se com as outras turmas Fénix acontece, não tenho conhecimento, mas nesta turma é determinante para eles conseguirem bons resultados; e eles põem de parte as disciplinas. Entrevistador: Então o insucesso… Professor: A minha perspectiva é esta. Eu tive alunos a dizerem-me: Esta e esta, já não vale a pena, eu já não vou conseguir. Entrevistador: Então e depois… como é que se geria isso em conselho de turma? Professor: Em conselho de turma, as coisas… Entrevistador: Era abordado? Professor: As coisas eram abordadas, as estratégias eram faladas…a perspectiva era sempre: Não sou eu que tenho de mudar, são eles. Ou seja, ainda há este paradigma de: Nós, aqui, damos; eles têm de se adaptar; nós até podemos mudar uma ou outra estratégia, mas se eles não estudarem , não se faz nada… eles não estudam, se não estudam os resultados não aparecem. Eu ajudei , eu dei as bases _ a perspectiva do ajudar é: eu dei as bases, eu ensinei a estudar, eu dou a matéria, eu mudei de estratégias, eu dei com power point, eu dei com quadro interactivo … as estratégias mudaram, se eles não aderem , é porque eles não estudam, é porque eles não querem saber. Nestes miúdos, continuo a dizer, se eles não forem agarrados pelo lado emocional, não há sucesso. Agora, eu não digo que os professores não tentem… continuo a dizer, podem não ter essa sensibilidade, podem até ter essa sensibilidade, mas dão a um e outro pode ser apanhado de uma forma diferente. Eles são muito heterogéneos, eles não são todos iguais, e , às vezes, há situações , até de indisciplina, que desmotivam o professor, isso acredito… se tu vais para uma sala de aula e um aluno te ofende na sala de aula, a gestão do resto da aula já fica muito condicionada, não é… e é uma gestão difícil. Entrevistador: Quais as modalidades e instrumentos de avaliação utilizados na turma Fénix? Professor: Uh… foram efectuados os normais, as fichas de avaliação, as fichas de trabalho, as apresentações de trabalhos orais…uh… mais estratégias…os trabalhos expositivos… Entrevistador: Não pense só na sua disciplina. Professor: Não, estou a pensar em todas. Estou a tentar recordar-me de tudo o que foi falado em conselho de turma… uh… 241 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Entrevistador: Ou até em momentos informais. Na sala de professores, até poderiam referir. Professor: É isso que eu estou a tentar, a pensar. Mas, essencialmente, eu acho que, continuo a achar que nós continuamos a focar-nos muito nos critérios de avaliação que utilizamos para todas as outras turmas. Eu penso que os critérios de avaliação, aqui, deviam ser específicos para esta turma, ou seja, deviam ter sido ou devia-nos ter sido possibilitado … que eu continuo a achar que se não nos derem autorização, nós não fazemos nada… critérios de avaliação diferentes para a turma em termos de pesos. Entrevistador: E não apresentaram essa proposta? Professor: Não. Achámos que não poderíamos fazer essa mudança. Entrevistador: Porquê? Professor: Porque não sabíamos… Entrevistador: Não sabiam… Professor: Há sempre esta dúvida… será que podemos mudar os critérios de avaliação? Não, são os que foram decididos em pedagógico, são esses que tê de ser aplicados. Podemos simplificar, podemos dar mais trabalhos para eles… e esse peso ser maior em termos de avaliação; por exemplo, eles são muito bons em trabalhos práticos, ou incentivar os trabalhos práticos e, se calhar, os testes, mesmo que eles tenham as negativas, os trabalhos práticos podem… e isso foi feito…agora, o peso estava lá. A grelha que me é dada, a ponderação é a mesma. Eu acho que devemos adaptar a ponderações e, na minha sincera opinião, acho que cada projecto curricular de turma devia ter os seus critérios de avaliação, de acordo com a turma, porque há turmas… podem ser os gerais, mas podem ser distribuídos… Os relatórios, por exemplo na minha disciplina e no caso de Ciências também, relatórios experimentais; contratos de leitura, também, estou a lembrar-me de Português; em Matemática foi uma estratégia de avaliação, que em cada aula tinham uma questão de aula… portanto, a matéria era dada e no fim da aula havia uma questão que eles faziam; dez questões de aula equivaliam a um teste; em termos de peso, eles aderiram muito bem, porque tudo que for dado e compreendido naquela altura, eles sabem, não vão é depois estudar para casa, porque a desmotivação é demasiada. Aí resultou muito bem, eles conseguiram muito sucesso nessas questões de aula. Isso são coisas que, para o ano, se forem professores diferentes, lá temos de estar a transmitir, mas não é a mesma coisa. Entrevistador: Pois não. Professor: E é uma estratégia que, realmente, eles aderiram muito bem… às questões de aula. 242 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Entrevistador: De que maneira se utilizam os modos de avaliação diagnóstica, formativa e a sumativa de final de período, para identificar, para explicar e para regular as dificuldades surgidas? Professor: A diagnóstica foi logo utilizada para a realização do PCT, que foi feito segundo a avaliação diagnóstica e segundo o conhecimento que alguns de nós tínhamos. Depois, falámos sobre o conhecimento que já tínhamos. Depois, em cada momento que nós reuníamos, tínhamos os resultados da sumativa e das outras avaliações todas e era ponderado o que é que tinha de mudar, em relação a esses resultados… uh… e foi feito dessa forma. Entrevistador: Por todos os professores? Em conselho de turma era explicado… Professor: Por todos os professores era identificado e era explicado, sim. Por que, para mais, os resultados eram sempre assim nos cinquenta porcento de insucesso… portanto, as coisas eram realmente explicadas e, às vezes, até individualmente: o aluno tal; o aluno tal… tivemos essa preocupação. Entrevistador: Como se procede para se reorientar o processo de aprendizagem?... Se vocês chegavam à conclusão que nesta disciplina, como o exemplo de História, em que até em relação ao ano passado os progressos foram negativos… não houve progresso, não é? Professor: Portanto… Nós falávamos em conselho de turma e o professor tentava mudar as estratégias, de novo. Nunca se ia voltar a fazer o mesmo, não é? Ele, na última reunião o colega já não conseguiu mais fazer alguma alteração, mas na última foi dito … Ele disse mesmo: Fiz estas; e foram todas relatadas, até foi tudo para a acta. Foi relatado tudo o que tinha sido feito e ele disse: Vou tentar fazer mais, vou tentar fazer outras. Vamos tentar chegar a eles, isso foi sempre uma tentativa, uma preocupação. E a colega de Geografia, que também tinha muitas no segundo período, também tentou e agora conseguiu, ficou com muito menos negativas neste período, poucas, aliás, muito poucas. Entrevistador: Os alunos participam na programação das actividades, nomeadamente no seu PCT? Professor: Uh… é sempre debatido, pelo menos nas áreas que eu tive com eles; os outros colegas, sinceramente, desconheço. Mas nas áreas de Formação Cívica, Área Projecto e até alguns projectos de Físico-Química, eram sempre discutidos com eles e a área de educação sexual, que era de todo o conselho de turma, foi debatido em conselho de turma, mas primeiro tinha sido debatido com eles. Portanto, o que é que 243 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. iriamos fazer e depois é que eu trouxe a conselho de turma, para ver se os colegas podiam colaborar. Entrevistador: Eles não iam às reuniões de conselho de turma? Professor: Foram só ao… e, mesmo assim, acho que este ano foi a só uma intercalar. Entrevistador: Mas quando foi no início da operacionalização do PCT, e depois noutras reuniões de trabalho … Professor: No início, não. Foi só naquelas de avaliação intercalar e foi só uma, este ano, não tivemos no primeiro período, só tivemos no segundo período. Entrevistador: O ano passado também iam? Professor: O ano passado, foram a duas, participaram em duas, e só podiam ficar nas informações e no PCT.. e aí, sim, eles estavam presentes e deixávamos aberto à discussão o que eles quisessem contribuir, em termos da elaboração do PCT. Entrevistador: Como é que os alunos são consultados e co-responsabilizados, ou seja, fazer com que eles sintam responsabilidade nas decisões que lhes dizem respeito? Era um trabalho muito só seu, como directora de turma? Professor: Em Formação Cívica, quase todas as aulas fazíamos uma análise dos resultados deles. Portanto… como é que as coisas estavam a correr. Normalmente, eu tinha uma turma de vinte e três, eu conseguia em três aulas fazer uma análise, porque fazia um a um, e todos colaboravam. Eles próprios intervinham e diziam: Não concordo. Não fizeste o suficiente ou não estudaste o suficiente. Eles intervinham, em termos dos colegas, e eu fazia sempre um apanhado de, tanto na avaliação intercalar como na avaliação sumativa… por isso é que eu digo que dava pano para mangas… e fazíamos: Correu mal; tiveste participação disciplinar aqui, o que é que aconteceu. Os colegas colaboravam, diziam se ele tinha razão, se não tinha razão o que é que tinha acontecido. Isso, fizemos sempre e, de acordo com essa discussão, é que eu tentava depois em conselho de turma transmitir algumas dessas informações, para nós tentarmos adequar ao que tinha acontecido de errado e o que estava a acontecer de correcto. Tanto que eles próprios diziam do que é que gostam e do que é que não gostam. Eles próprios fazem essa chamada de atenção. Entrevistador: E isso era transmitido em conselho de turma… Professor: Era transmitido em conselho de turma. Entrevistador: Como é que se estimula e valoriza os sucessos individuais? Professor: Só através dessa conversa. Nessa conversa, fazíamos, precisamente, o apanhado: Conseguiste melhorar, não conseguiste melhorar… E as conversas 244 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. informais; normalmente, no fim da aula, no final da minha, eles vêm falar comigo a dizer: Tive positiva a isto, tive positiva àquilo, já consegui melhorar aqui… até em termos de, tenho uma aluna com peso excessivo e ela está a ter conquistas em termos de exercício físico, que ela não gostava de fazer; e ela vem falar comigo e diz-me: Já consegui mais não sei quantos quilos. Portanto, é mesmo nos momentos informais. Entrevistador: Mas está a falar só na sua pessoa… Professor: Só na minha pessoa. Mas eles falam muito com os outros colegas. Aqueles que eles sentem empatia tão necessária, eles falam de tudo …das disciplinas que eles conseguiram ter sucesso … A postura que eles têm comigo, também têm com os colegas com quem se dão muito bem. Entrevistador: Voltando à questão… como se estimula e se valoriza? Professor: E depois, os colegas… eu, pelo menos, faço isso; acho que os colegas fazem o mesmo… que é dizer: Muito bem, vamos continuar. Estás a conseguir, agora vamos fazer isto. Tentámos, também… houve uma aluna que veio falar connosco, não só comigo, mas com a professora da disciplina, que gostava de assistir a um apoio, não de forma formal… foi, conseguiu progressos, a colega continuou a estimular e ela continuou, e no fim estava maravilhosa, já nem precisa mais desse apoio… e não era um apoio formal, foi mesmo ela que pediu para ir. Portanto, eu acho que os colegas fizeram esse trabalho. Entrevistador: Todo o conselho de turma? Professor: Eu penso que sim. Agora, nem todos… como é que eu hei-de dizer… nem todos, se calhar, tiveram esse feedback dos alunos. Eles só falaram com quem se sentiam mais à vontade para falar dessas conquistas, e, nesse aspecto foram valorizados. Eles são acarinhados pelos professores, e os professores também … agora, não são é todos.. é o que eu digo, há empatias. Entrevistador: Os alunos têm um comportamento disciplinado? Professor: Nem todos; a maioria tem. Nesta turma, como está constituída agora, com os vinte e três, a maioria tem… mas ainda tenho quatro, cinco elementos indisciplinados. Entrevistador: Os alunos conhecem e cumprem as regras de funcionamento da escola e da turma? Professor: Com excepção desses cinco, cumprem. Entrevistador: E a excepção explica-se como? 245 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Professor: A excepção… se calhar, não expliquei bem… houve alunos do ano passado que melhoraram, em termos de disciplina. Eu não consigo explicar o porquê; já falei com eles, pessoalmente… Eu não consigo explicar o porquê. Acho que eles próprios já eram indisciplinados, mas no meio dos vinte e sete não tinham visibilidade; e agora, com a turma mais pequena, ganharam visibilidade e sentem-se com algum poder. Qual é o problema da turma? Como o resto da turma é muito sossegada, como é muito calada, não se sobrepõe a eles, e eles continuam a sentir esse poder… uh… e eu sinto que o conselho de turma, nesse aspecto, e eu transmiti isso neste ano, na última reunião, que temos de ser mais rígidos com esses elementos. Portanto, se está a perturbar, têm realmente de sair, têm de sentir, desde o inicio, que não estão a ser bem aceites, até pelos colegas, e passa por aí, porque eles não gostam de sentir que não são aceites pela turma. Eles fazem isso, porque pensam que são os melhores da turma. Mas se começarem a sentir que a turma fica melhor sem eles lá dentro, eles vão passar a aderir às regras. Isto é a minha perspectiva, conhecendo um bocadinho esses elementos… Um elemento, se calhar não, porque está agora em situação de retenção, que é muito desmotivado e o que ele quer é sair da escola, e é uma questão, penso eu, de abandono escolar, porque ele quer sair da escola mas está na escolaridade obrigatória, não o pode fazer… E esse caso é um caso aparte, já é uma indisciplina que já não é indisciplina; é o estar no canto sem fazer nada… mas, para mim, é indisciplina à mesma, porque se não adere às actividades, está a pôr-se aparte, mas não perturba. Entrevistador: Mas… uma pergunta… Todos eles integravam a turma no ano passado? Professor: Integravam, integravam. As duas que integraram a turma, são alunas extremamente sossegadas, até caladas demais, pouco participativas, sem sequer dizerem quais as dificuldades que tinham, e quando integradas nesta turma, ganharam protagonismo… que é o que acontece nesta turma, eles têm essa capacidade de aceitar qualquer elemento que venha, e aceitá-lo e sentem-se tão à vontade que já esclarecem dúvidas, que já participam; coisa que numa turma dita normal, com alunos muito bons, inibiam-se… e nesta turma, não; sentem-se muito bem, por ter sido aceites. É uma coisa muito boa da turma, em termos emocionais, eles amparam-se uns aos outros. Entrevistador: Como se fomenta a disciplina, a assiduidade e a pontualidade? Professor: De assiduidade, só tínhamos nos primeiros tempos da manhã, mas não por responsabilidade deles. A maior parte, alguns, até por responsabilidade dos encarregados de educação… muito chamados à atenção, com algumas faltas de atraso nesses casos. Eu sempre em cima deles por causa das faltas… uh… telefonemas para casa, à primeira falta telefonema para casa a saber o que é que se passa. Em termos de assiduidade e pontualidade, o único caso foi esse aluno que eu acho que está em risco de abandono; em que eu telefonava para casa, mas os pais acabavam por desculpar 246 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. um bocadinho… não tanto o pai, mas mais a mãe que desculpava essa falta de assiduidade. A falta de pontualidade era muito raro; nos intervalos intercalares, era muito raro haver faltas de atraso porque eles eram muito chamados à atenção, principalmente por mim. Eu andava sempre em cima deles; quando os via, aliás, quando os via de manhã, como eu venho sempre muito cedo, apontava para o relógio e eles começavam a correr, com o receio de que eu fosse ligar para casa… els têm muito esse receio dos telefonemas para casa; dos pais andarem um bocadinho em cima deles, e não têm muito esse hábito ou não tinham, pelo menos no segundo ciclo. Agora sim, sentem-se mais presos em termos de faltas do que se sentiam no segundo ciclo. Mas com eles é muito necessária essa estratégia; se não estivermos sempre em cima deles, eles deslizam. Entrevistador: Referiu ainda há pouco participações disciplinares; nesta questão englobava isso, como é que o conselho de turma fomentava a disciplina? Professor: Então, foi assim… no ano passado, em que os casos de indisciplina eram bastantes, nós tivemos como estratégia o serviço comunitário. Eles faziam serviço na escola, extra horário. O que é que verificámos no final do ano? ... Que a estratégia não funcionava. Por que é que não funcionava… porque a maior parte dos alunos indisciplinados gostavam de estar na escola, a limpar. Portanto, os alunos com aquelas tarefas, compareciam sempre, nunca faltavam e adoravam… Resultado, nós achámos que a estratégia não funcionava, e este ano não implementámos essa estratégia. As participações, a estratégia do conselho de turma era informação ao encarregado de educação; chegámos ao caso de um aluno que rea o mais indisciplinado, em que eu fiz um relatório descritivo do comportamento e entreguei ao órgão de gestão, para ver se havia uma penalização , que era a opinião do conselho de turma, que ele devia ser penalizado de forma mais rígida… estar, por exemplo, um dia em casa; que eu sei que, nesse aspecto, era efectivo… Nesta turma é efectivo, porque eles gostam realmente de vir à escola. Portanto, se eles ficarem em casa, é muito penalizador … eles gostam de vir à escola, não gostam é de estar na aula… mas nada foi feito. Não sei se foi já por ser no fim, se foi considerado que as participações não tinham gravidade necessária, mas nada foi feito. Entrevistador: Não foi dada resposta… Professor: Não foi dado feedback do que é que iria a acontecer. Eu continuo a dizer, não se foi por ser já… foi no início do último período Entrevistador: Pois, mas estamos a especular. E de facto não foi dada resposta. Professor: Nada para eu transmitir ao conselho de turma. O que é que foi feito, ou o que é que não foi feito… e não foi feito nada, porque eu estive com o encarregado de educação e nada lhe tinha sido transmitido. A estratégia, neste ano, nas participações disciplinares, foi pura e simplesmente conversar com o encarregado de educação e 247 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. com o aluno, e tentarmos mudar esse comportamento por meio de conversa e de diálogo. Mas aqueles serviços comunitários que nós no ano passado tentámos e não resultaram, não foi feito. E não houve nenhum caso que nos obrigasse a repensar uma estratégia para esses alunos. Os casos era sempre aquela perturbação, mas que não ia para a indisciplina… o ano passado, tivemos casos graves, de ataques com armas brancas e tudo… Portanto, este ano … Entrevistador: Esteve mais pacífico. Professor: E não só… o conselho de turma estava mais alerta e aquelas situações conflituosas são sanadas de imediato. Os professores todos conseguiram intervir antes que as coisas acontecessem. É muito bom nós termos esse conhecimento, porque há ali dois ou três que não se podem ver, e então nós afastamos logo e as coisas ficam sanadas. Entrevistador: Em conselho de turma ou até mesmo no órgão de gestão da escola, ou outros órgãos, que importância é que se atribui ao impacto das aprendizagens nas expectativas dos alunos? É falado, é valorizado… Professor: Só em conselho de turma. Continuo a dizer, naquela primeira pergunta, se as coisas não são faladas nos outros órgãos, se praticamente nada é falado a não ser se o professor levanta… e são praticamente sempre questões burocráticas, são sempre aquelas questões administrativas; cumpriste, não cumpriste. Em termos de conquistas e de valorizar as conquistas, fica só em conselho de turma. Estamos muito isolados nesse aspecto. Entrevistador: E na satisfação dos professores? Professor: Se há impacto na satisfação dos professores? Penso que sim, eu penso que sim. Não sei é até que ponto todos os professores acham que… uh… que a conquista dos alunos passa pelo trabalho do aluno, ou se é todo da responsabilidade do professor. Aí, jã não sei. Acho que faz parte da perspectiva individual de cada um. Há uns que, se calhar, acham realmente que a maior parte do trabalho foi feito por eles; há outros que acham que o trabalho é feito pelo professor, só. A perspectiva é individual, não sei. Entrevistador: Considera que houve mudança nas práticas pedagógicas? Professor: Houve, houve. Entrevistador: Quais? Professor: Uh… eles já sabem estar, e eu acho que isso influencia muito. Algumas dificuldades deles, que eram os métodos de estudo, já conseguem, já perceberam o seu próprio método de estudo; o que eu acho que é uma conquista deles… nem que 248 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. seja no fim do nono ano, mas eles saberem como é que se estuda… o seu próprio método, a maior parte já conseguiu. Entrevistador: Mas, sendo assim, considera que as práticas pedagógicas utilizadas pelos professores é que conduziram a… Professor: Algumas, sim. Algum aluno, de certeza que foi trabalho individual. Portanto, preocupação individual; eles têm mais maturidade, foi uma preocupação muito individual. Não quer dizer que as estratégias dos professores não tenham ajudado, e se calhar foram elas que permitiram que os alunos encontrassem o método de estudo adequado. Mas eu tive alguns alunos a vir ter comigo e a dizer que agora sim, que já tinham encontrado a forma de estudar sozinhos. Entrevistador: Eu volto a colocar a questão… Houve mudanças nas práticas pedagógicas dos professores? Professor: Mas eu acho que também houve. Os professores adoptaram a prática, por exemplo, do trabalho com eles, do trabalho colectivo, da proposta de trabalho… que é uma coisa que eu acho que o ano passado não se trabalhava tanto com eles. Portanto, houve essa mudança… Uh… A própria avaliação sumativa deve ter, eu penso que sim, porque se era falado, que os professores diziam que iam fazer essa mudança, deve ter mudado de acordo com o próprio aluno que estava à frente. Se o aluno tinha mais propensão para a oralidade, de certeza que foi mais valorizada a oralidade. Acho que também mudou, e isso teve impacto no sucesso deles. Entrevistador: Tudo isso está no projecto curricular de turma? Professor: Ah… eu acho que sim, não é. Estou a tentar recordar-me, mas penso que sim. Entrevistador: Considera que houve mudança nas práticas pedagógicas nos ninhos? Professor: É assim… uh… eu não sei se estou a perceber muito bem a pergunta. Mas, por exemplo, as estratégias que os professores… se houve mudanças, que se adequaram às dificuldades dos alunos. Houve e houve mudança ao longo do ano, não só do ano passado para este ano. Entrevistador: E quais? Professor: As questões de aula que foram introduzidas de acordo com o que o professor verificou que eles, realmente, conseguiam… se fosse uma avaliação imediata do conteúdo adquirido, eles conseguiam; se fosse posterior, eles já não conseguiam… Eu acho que isso foi um reflexo dos últimos conteúdos abordados, eles aderiam mais do que numa ficha sumativa… portanto, começaram a seguir essa estratégia. E a Português, também… uh… os contratos de leitura, que acho que foi uma mudança. E 249 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. agora, muito sinceramente, as outras mudanças só olhando para os relatórios, concreto de cada um, para saber quais foram as estratégias novas que foram implementadas. Entrevistador: Como é que se processou a mobilidade dos alunos entre as turmas e os ninhos? Professor: Quando eram feitos os pontos de situação. Os colegas reuniam individualmente, as três de Matemática e as três de Português, e nesse aspecto faziam a situação onde é uqe eles estavam em termos de conteúdos e faziam as mudanças. Depois, o relatório chegava até mim e à coordenadora do projecto, com as mudanças. Falar em conselho de turma: Vamos mudar o aluno tal, não era falado por causa da falta de tempo, ficava tudo escrito no relatório. Aí, sim, ficava escrito que o aluno mudou, não mudou, e eu cheguei a uma altura em que perguntava antes da reunião, em que ninho é que estavam. A partir de determinada reunião, já não conseguia perguntar… quando os papéis começaram a ser muitos, muito sinceramente, deixei de conseguir perguntar, limitava-me a ir ver aos papéis e ter uma noção, e se tivesse alguma dúvida perguntava aos colegas de forma informal. Mas em conselho de turma é impossível. E era isso que devia ser feito… cada um dizer como é que eles estavam, o que é que evoluíram, o que é que não evoluíram, e as mudanças que iam ser feitas. Este ano, sinto que foram feitas menos mudanças , menos mobilidade, do que no ano passado. Entrevistador: O que é que intui? Professor: Não sei qual foi a razão. Não sei … sinceramente, foi o que eu senti em termos de feedback dos relatórios, que tentaram manter alguma estabilidade. Não sei se é devido aos conteúdos, se os professores quiseram manter um núcleo que para eles já era mais familiar, que já conheciam; poruqe, vamos ser sinceros, a grande dificuldade que eu senti, foi que , quando vem um aluno novo, o professor desse ninho não conhece o aluno, por mais que tenha sido falado e que se fale do aluno, concretamente, não conhece o aluno, e isso também traz modificações em termos de funcionamento do ninho. Entrevistador: Mas com tanto relatório… Professor: Mas é o que eu digo, uma coisa é teoricamente … o relatório, as dificuldades, a estratégia que aderiu e a que não aderiu; outra coisa é ter o aluno à frente. Eu acho que houve esse medo, esse receio de… as coisas estão a funcionar minimamente bem, se vier vai destruturar… Então, vamos deixar, vamos ver, vamos aguardando, vamos aguardando… depois as mudanças não foram tantas. Isto foi o que eu senti e, se calhar, estou completamente enganada. Se calhar se formos ver, houve mais mudanças; mas senti que no ano passado houve mais mudanças, houve muito 250 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. mais reformulações de ninhos, houve mais acertos dos ninhos. Este ano, não, tentaram manter. Entrevistador: E era mais falado, ou era por escrito? Professor: Era mais falado… se calhar, era mais falado. Também posso não ter essa percepção, porque no ano passado foi mais falado. Este ano, sinceramente, não senti tanto essa mudança. Entrevistador: E quanto tempo é que permaneciam os alunos nos ninhos? Professor: Eu acho que era… e isto também é a minha perspectiva… de período a período. Este ano, o ano passado houve mais… o ponto da situação faz-se sempre, eu estou a falar das mudanças. Entrevistador: Quanto tempo? No conselho de turma não definiam o tempo de permanência? Professor: Não, não. Isso era só falado nas reuniões individuais das colegas de Português e de Matemática, das que tinham os ninhos e a turma mãe. Não chegava ao conselho de turma. Entrevistador: De que forma se desenvolveu um conhecimento mais próximo do trabalho realizado em sala de aula? Professor: Só no conselho de turma, das estratégias que cada um falava; era esse o conhecimento que tínhamos. Entrevistador: Por exemplo, com os bons resultados à sua disciplina e a forma diferente de os abordar, de chegar aos alunos… os colegas do conselho de turma nunca pediram ou fez a sugestão: Olha, vai à minha aula , vamos tentar observar… Professor: Não. No ano passado tentei fazer isso, estando presente para as questões de disciplina, porque havia muitas… e nas aulas em que eu estava presente, as questões de disciplina eram muitas ,não desapareciam porque eu não estava ali propriamente para monitorizar a aula, mas só a minha presença fazia com que as coisas acalmassem ligeiramente. Algumas aulas, eu fui no ano passado. Este ano, não, porque as questões disciplinares estavam mais atenuadas; tive de intervir numa ou outra aula em que tive de ir, mas foi mesmo para resolver conflitos. Nada de estar presente, por exemplo, de os colegas virem a uma aula minha ou assistirem a uma aula minha. Não houve isso, não houve essa… Entrevistador: Por que não foi falado ou porque não houve vontade? Professor: Não foi sugerido. Não sei até que ponto os colegas tinham disponibilidade para o fazer. 251 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Entrevistador: Mas para quem questionava, como ainda há pouco referiu, que… Ah, com certeza, é muito facilitismo… Professor: Eu tinha a sorte de ter alguns colegas, por exemplo, a coordenadora do projecto que já tinha ido assistir a aulas minhas, por necessidade, por ter de estar presente e até a professora de educação especial, contrapunham e diziam: Nada disso, porque eu conheço, eu já fui… Não é que eu dissesse: Ah, não, não podem entrar na minha sala. Mas, por exemplo, com a colega de Ciências, várias vezes fizemos aulas em conjunto, porque nos convinha ter os alunos todos juntos para um conteúdo. Eu tive vários colegas a virem falar comigo de forma informal, e , por curiosidade, perguntavam aos alunos como é que as minhas aulas corriam. Mas nunca houve essa questão de, olha, posso ir a uma aula tua? … Nunca houve essa vontade. Entrevistador: Houve lugar a acompanhamento e supervisão interna na prática lectiva dos professores envolvidos no projecto Fénix? Professor: Não. Entrevistador: Por coordenadores de departamento, por algum elemento do órgão de gestão… Professor: Se calhar, até foram assistir a alguma aula para a avaliação de desempenho, mas isso não tinha nada a ver com o projecto. Entrevistador: Por isso, não vale a pena descrever sucintamente o modelo de supervisão… não existiu. Professor: Não existiu, não. Entrevistador: A inovação… a tal disruptiva… que foi revelada, desocultada, pelo modelo de actuação dos mecanismos Fénix, suscitou reflexões aos níveis interdisciplinar e interdepartamental? Professor: Não… (risos). Entrevistador: Já tinha referido que em departamento, não. Mas em grupo disciplinar não existiu? Professor: Não… Talvez nos outros tenha existido. Se houve, foi por iniciativa dos professores que pertenciam ao conselho de turma. Eu tenho grandes dúvidas se todos os coordenadores sabem que nós estamos no projecto Fénix, e se têm alguma ideia do que é o projecto. Se calhar, engano-me… vem aí alguma coordenador e diz-me tudo e mais alguma coisa sobre o projecto. Mas tenho grandes dúvidas. 252 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Entrevistador: O projecto Fénix contribui para o incremento da qualidade das aprendizagens? Professor: Ah, eu acho que sim. Entrevistador: De que forma? Professor: Esta turma em concreto, onde está o projecto implementado… que depois vai afectar os resultados da escola…se não tivesse o projecto, nós tínhamos resultados desastrosos… e não é só a Português e Matemática. A desmotivação deles é tanta, que muitos deles estariam em situação de abandono. Acredito que estariam arredados, praticamente, das aprendizagens. Sem o projecto, não conseguiam metade das conquistas que conseguiram até agora… até em termos pessoais, da sua auto-estima. Entrevistador: Pois… o sucesso não passa só pelo sucesso académico. Há muitos outros sucessos. Professor: Precisamente. Isso tem um impacto muito grande e depois acaba por ter na escola toda. Entrevistador: E o projecto Fénix contribui para o sucesso das turmas não Fénix? Professor: Não, não directamente, mas indirectamente sim. Entrevistador: Os professores da turma Fénix, aquilo que vivenciaram … Professor: Se transmitem nas outras turmas? A transmissão, não. Continuo a achar aquela perspectiva de há bocado; estamos isolados. E quando vamos para os conselhos de outras turmas, até do mesmo ano, esqueceu-se aquela… é uma avaliação totalmente diferente; o nível quatro daquele não tem nada a ver com o nível quatro de outro aluno; as conquistas são diferentes; as estratégias são diferentes; está tudo muito compartimentado… os alunos compartimentam, mas nós também. Entrevistador: A título de curiosidade, não estava aqui previsto, mas não faz mal nenhum. Ontem, estive a ler actas do conselho pedagógico do ano lectivo anterior, e achei curioso que níveis de sucesso, sucesso académico só, em turmas não Fénix não eram muito diferentes. Professor: Pois não, não eram, não. E, aliás, nós temos este ano… em reuniões que eu estive presente… de na turma Fénix existir um aluno em situação de retenção; no outro oitavo, temos cinco; e nos outros oitavos que não são daqui [referia-se às turmas que estão na sede de agrupamento], em cada uma das turmas, cinco a seis. O grande impacto da turma Fénix vai, obviamente, atenuar estes resultados. Entrevistador: Pois… mas o desejável seria perceber se com estes alunos com as características que se conhecem, se conseguiu bons resultados… 253 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Professor: Pois, estou a perceber, porque é que com os outros não se consegue. Está tudo muito compartimentado. E com estes alunos nós temos a obrigação, porque nos obrigam a trabalhar de forma diferente… e com os outros, eu posso fazer o normal. O típico…eu, por exemplo, pessoalmente, os meus resultados em todas as turmas são iguais; e eu ficava preocupada se não fossem, queria dizer que estava ali qualquer coisa que não estava bem com alguma turma; eu tinha de mudar. Mas não sinto que a perspectiva seja tanto esta. Continuo a achar, e isto é um problema que não tem nada a ver com o Fénix, é uma coisa que tem a ver connosco… professores todos, não achamos que a culpa é nossa. Não quer dizer que seja sempre nossa, também não concordo com isso, há casos em que por mais que nós façamos o pino não há forma de dar a volta àquele aluno, ou àquela turma. Mas a grande maioria do poder numa sala de aula, está em nós, e se não conseguimos, o mal está em nós. E é muito difícil eu chegar a casa e dizer assim: Não consegui. O que é que vou fazer, já esgotei tudo… por vezes, chegamos a este ponto… já esgotei tudo. Entrevistador: Mas faz a reflexão… Professor: Faço a reflexão e não só… E quem faz uma reflexão dessas e depois não muda nada, nem que seja uma conversa com eles: Olhem, o que é que está mal? Isto não está a funcionar… Entrevistador: Mas está a reportar-se à sua prática… Professor: Individual, pois… Entrevistador: E à do conselho de turma Fénix? Professor: Este ano senti uma dificuldade muito grande; já o ano passado tinha sentido, em termos de conselho de turma… Uh… Talvez por sermos muitos, isto fica complicado. Senti esta grande dificuldade, de achar que a grande maioria não tem a mesma perspectiva que eu, em termos do que é que contribui para o sucesso educativo do aluno. E acharem que a maior parte do trabalho parte deles, dos alunos… Isto é muito difícil, quando há colegas com muitos anos de serviço que já têm este paradigma há muito tempo, e que não mudam; e por mais que nós façamos, continuam a achar que é tudo um facilitismo _ Como é que tu consegues numa turma assim? É impossível, é impossível que eles estejam calados. _ Mas, às vezes, acreditam quando falam com eles e dizem: É verdade, nós estamos calados… É verdade, nós conseguimos. Mas, mesmo assim, eles ficam sempre na dúvida. Entrevistador: Daí, talvez seja importante que entrem na sua sala de aula. 254 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Professor: Pois, se calhar, é uma das estratégias… mas, não sei… Ou é porque a disciplina é diferente; há sempre desculpas. Entrevistador: Mas sem se tentar, sem ir ver, sem observar… Professor: Pois, é verdade. Eu continuo a achar que há muito essa perspectiva. Por isso, é que não me choca, se calhar, que os colegas tenham, na turma Fénix, dez porcento de insucesso, e na turma ao lado quarenta porcento de insucesso… e não acham estranho, acham: Ah, mas eu ali facilitei e aqui não, aqui puxei por eles. E se o resultado não foi positivo, o que é que daí se tira? Não se faz essa reflexão; faz-se depois em departamento, com certeza, vão-nos perguntar: Então estes níveis, o que é que se passa?... E lá vamos nós à chapa gasta, que é: Vamos mudar estratégias; eles não têm métodos de estudo. Então o que é que vamos fazer para o ano? Fazer com que eles adquiram métodos de estudo… Isto já está formatado, nós temos estas estratégias na pen e passamos todos os anos, e acabou… E a reflexão verdadeira, que eu acho que muita dela tem de ser individual, embora depois possa ser colectiva, porque quem está dentro da sala somos nós… Entrevistador: Se não se provocar essa reflexão, há muitas pessoas que nem o fazem… Professor: Acredito. Eu senti-me muito desmotivada, senti-me um bocado como eles, este ano. E no ano passado já tinha, mas depois no início do ano as coisas mudaram, um ânimo adicional… mas senti muita dificuldade em, este ano, transmitir aos colegas que se devia fazer a reflexão, e que passa muito por esta tentativa de dizer: Estes meninos passam pela empatia, ponto final. A primeira conquista, é conquistá-los a eles, afectivamente, emocionalmente; se os conseguirmos conquistar, o resto vem por acréscimo. Tive muita dificuldade, porque a resposta era: Eu não tenho nada que gostar deles e eles não têm nada que gostar de mim. Eles estão aqui para aprender, eu estou aqui para ensinar. E esta perspectiva, numa reunião, segunda reunião… a partir de determinada altura deixo de falar, calo-me e digo: Okay. Então cada um faz como quer; cada um é responsável pelas suas positivas e pelas suas negativas… E depois o que é que as pessoas fazem no fim do ano? Dão muitas positivas. Entrevistador: Isso é que é facilitismo. Quem acaba por cair no facilitismo, afinal… Professor: Eu cheguei a dizer a certos colegas: Cuidado, porque eu acho que estás a baixar tanto o nível… aulas que eu assisti, por exemplo, aulas de Área Projecto, em que eu fiz questão de estar presente, até para os controlar de forma disciplinar… e eu cheguei ao ponto de dizer: Eu acho que estás a facilitar demais. Porque estar a ler uma pergunta e dizer: Esta é a pergunta um, que vai sair amanhã no teste; é uma desmotivação completa. Eu ouvi alguns alunos dizerem: Professora, já repetiu isso três vezes! Portanto, isto é passar-lhes um atestado de… Entrevistador: Que eles não gostam… 255 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Professor: Eles diziam: Nós não somos burros, nós já percebemos que isso vai sair. Não é dizer-nos que é a pergunta um ou a pergunta dois… Obviamente que depois os resultados aparecem; porque eles não são burros, não têm nada de burros! Entrevistador: Mas só se trabalha para os fins… os processos Professor: Precisamente. E é um bocado… vieram à reunião, pressionaram-nos não para dar positivas mas para nós mudarmos as estratégias, para nós obtermos resultados; e os resultados estão cá, conseguimos. Eu não sei, sinceramente, se em todas as disciplinas as conquistas deles a Português e a Matemática eu sei que sim, é impossível que não tenha sido conquistas reais e algumas disciplinas que eles me relatam; agora, há outras disciplinas que eu não sei se as conquistas foram mais os professores em puxar, ou deles a conseguir… e, aí, fico um bocadinho perdida, sem saber. Entrevistador: Com que periodicidade e como é feita a divulgação sobre os resultados, sobre as dinâmicas, sobre o impacto do projecto Fénix, a toda a comunidade educativa? Professor: (riso)… Não é feito. Uh… no primeiro período, no ano passado, com alguns trabalhinhos que eles faziam, fazia-se a divulgação no jornal escolar, mas com alguns trabalhos pontuais, não com os resultados deles. Agora, dinâmicas e impacto do projecto, não… É o que eu digo, se não chega sequer a departamento, também não passa lá para fora. O conhecimento que têm, é dos encarregados de educação e fica por aí, muito individual. Entrevistador: E se são encarregados de educação tão acríticos como referiu… Professor: São. Também não fazem disso grande conquista. Em termos de comunidade, não creio que alguém saiba que existe sequer este projecto. Eu acho que devia ser uma coisa com a intervenção de todos os órgãos… o problema está na raiz, por todos os órgãos não se envolverem, porque se eles se envolverem, obviamente, que havia divulgação. Entrevistador: Para finalizar… Quais são as potencialidades e os constrangimentos relativamente à implementação deste tipo de inovação? Professor: Eu acho que potencialidades, se forem todos… os constrangimentos é que fazem com que as potencialidades não sejam tantas. Se houver um envolvimento da escola toda, e se toda a gente tiver a noção das práticas que são feitas com o projecto, e começar a fazer as mesmas práticas… se calhar os ninhos não é possível… mas outras práticas que nós fazemos, com as outras turmas; o sucesso educativo vai aumentar imenso. Isso acredito, porque qual é o grande problema e que quase toda a gente diz que se pode fazer para ele aumentar… é, ou não é, reduzir os alunos por turma?! Isto 256 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. faz com que o conhecimento de cada aluno seja exponencial, e que consigamos ver quais são as potencialidades dele e trabalhá-las, bem como tentar trabalhar as fraquezas… As potencialidades são imensas; os constrangimentos essenciais são a escola toda não se envolver. O grande problema foi esse; individualmente, uma ou outra pessoa até se envolvia, mas depois não é falado nos órgãos da escola. E muitas pessoas não concordam com ele, já tive pessoas a dizerem-me: Eu não concordo, porque isso é facilitismo… ou seja, trabalharmos para os números é facilitismo… e continuam a dizer que se trabalha para os números. Entrevistador: Mas não é trabalhar para números… Professor: Pois não. Por isso é que eu digo que trinta e cinco porcento de média, no intermédio de Matemática, é uma conquista enorme… e não é um número que alguém goste, estar abaixo dos cinquenta. Entrevistador: E é um resultado anónimo. Eu recordo-me de, no ano passado, a taxa de sucesso a Matemática rondar os oito porcento. Professor: No início do ano, era. Mas a perspectiva não é essa… e quando houve a reunião, em que veio cá a doutora Luísa, a preocupação dos colegas era o exame nacional, os resultados do exame nacional. E é legitimo da parte deles, porque depois vamos para reunião de departamento e ao analisar os resultados do oitavo E, ou do sétimo B no ano passado, os resultados são negativos, e os professores ficam a olhar: Ah… és tu. Pois … mas isto é um projecto… Ah, está bem… E as pessoas sentem-se pressionadas a quê? A subir valores, quando não é essa a perspectiva do projecto. Continuo a dizer, a maior parte dos colegas, na última reunião de conselho de turma, a dizerem-me: Eu não concordo nada com isto. E eu perguntei porquê… Entrevistador: E esses colegas participaram em formações do projecto Fénix? Professor: Não. Entrevistador: Talvez uma das estratégias seja convidar à participação. Professor: O ano passado, convidava, mas não houve um participar efectivo. Depois, também é preciso ter interesse… Se as pessoas partirem logo de início a querer participar, de certeza que se vão disponibilizar para as formações. Entrevistador: Se eles criam logo um anticorpo à partida… Professor: Mas é que o anticorpo é logo formado antes de se ver a turma. O problema está aqui… já vão logo de pé atrás para a turma. Já foi um trabalho, no ano passado, fazer com eles se sentissem bem em ser da turma Fénix, que este ano já se sentem e não se importam nada em ser da turma Fénix, para eles até é óptimo… Vieram todos orgulhosos, ontem: A professora já viu as pautas das outras turmas? Nós 257 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. conseguimos… Vinham todos orgulhosos. E eu disse: Vêem, vocês conseguem, basta trabalharem. Mas têm de reconhecer que há muita ajuda dos professores… Ah, professora, sem dúvida. Eles reconhecem, que é tudo feito para eles. É bom eu sentir isto, a outra parte dos professores, chegar à última reunião de final do ano, a dizeremme que não concordam nada com o projecto, porque isto é tudo um facilitismo, o que se quer é passar os meninos todos. Acho que a estas pessoas faz-lhes falta serem directores de turma; faz-lhes falta, como director de turma, saberem que estão a apoiar os alunos e não os professores… porque eu não estou ali para apoiar os professores, eu estou ali para coordenar a estrutura, e principalmente para querer o melhor do aluno, não é do professor. Quando eu vou para o conselho de turma e questiono: Por que é que deste negativa? … as pessoas sentem-se atacadas… Mas estás-me a perguntar a mim? Ele é que não trabalhou. Vai perguntar-lhe a ele porque é que tem negativa. Quando há esta perspectiva… Entrevistador: São os maiores constrangimentos… Professor: São. Entrevistador: Para já, parece-me que o projecto não foi perceptível à organização. Professor: Precisamente. E os professores envolvidos, não aderiram ao projecto por vontade própria… o projecto caiu-lhes em cima. Por outro lado, eles não percebem o projecto, porque nunca foram a formações, porque as reuniões são escassas, há muita burocracia, que mesmo assim foi aliviada em relação ao ano passado. O ano passado tínhamos de fazer planos de recuperação para os alunos todos… era papel, papel, papel… Este ano, o órgão de gestão já disse que não era preciso fazer plano de recuperação, porque vocês têm os alunos todos em recuperação. De qualquer maneira, o resto da papelada toda tem de se preencher à mesma e, se as outras reuniões têm a duração de duas horas e a nossa tem o mesmo tempo, é muito difícil… Aliás, não sei se tens conhecimento, mas este ano, que tive em quase todas as reuniões marcadas com a mesma duração de outra turma, eu tive de repetir a reunião duas vezes. Entrevistador: Claro… Professor: Eu tive duas reuniões… Entrevistador: Uma para preencher papéis… Professor: Uma para preencher papéis e a outra para discutir, casos a casos. Isto é inconcebível… depois fazer com que todos os colegas percebam o projecto da mesma maneira que eu percebo e que eu entendi. E se for preciso, chegamos ao fim de uma reunião e uma colega diz assim: Ah…isso é que é o projecto?! E nós dizemos: O que é que andámos aqui a fazer o ano inteiro? Portanto, eu acho que o grande constrangimento é: os órgãos não estarem todos envolvidos; os professores não terem 258 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. sido tidos nem achados, se queriam ou não integrar o projecto, de corpo e alma; as formações que não foram feitas, entretanto; e é esta necessidade de formação para nós todos, e que nem tem nada a ver com o projecto Fénix, que é o paradigma de achar que a maior parte do sucesso do aluno, está do lado do aluno… e eles são todos tão diferentes, que para estar do lado do alunos, nós só podíamos ter um aluno na sala de aula. Entrevistador: Estamos numa escola pública, estamos no século XXI… Professor: E não é só isso, eles mudam de ano para ano. Eles mudam completamente. Nós temos alunos que querem coisas diferentes, muito diferentes… uns querem seguir, outros não sabem se querem seguir ou não, outros nem se conhecem a eles próprios; porque eles são muito imaturos, ao que eram em relação há uns anos atrás… Tem de se mudar radicalmente. Entrevistador: Acabámos. Muito obrigada pela colaboração. Duração: 1h 52m 3s 259 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. ANEXO 9 Transcrição da entrevista com o coordenador de estabelecimento (e anterior subdirector da direcção executiva), onde funcionam a maior parte das turmas Fénix Entrevistador: Bom dia. Professor: Bom dia. Entrevistador: No âmbito de uma investigação da Universidade Católica Portuguesa, vamos começar uma entrevista, de forma a podermos inferir do impacto do projecto Fénix neste agrupamento. Para iniciar, gostava que nos indicasse, se fosse possível, alguns dados profissionais. A formação académica… Professor: Sou licenciado em Teologia. Tenho o curso de habilitação pedagógica complementar em ordem a docência e outras formações. Entrevistador: O percurso desde a finalização da licenciatura até hoje. Professor: Uh… Fiz o estágio pedagógico, em ordem à docência da Educação Moral e Religiosa Católica. Depois disso fui sempre colocado nas escolas…uh… trabalhei também noutra área da Santa Casa da Misericórdia , no programa promoção social dos ciganos; na formação profissional, onde fui coordenador de toda a formação profissional. Tenho feito parte de diversas direcções das escolas, nos últimos anos. Entrevistador: Cargos de administração, onde, porque e duração. Professor: Escola Secundária Veiga Beirão, em Lisboa, que depois foi extinta, onde fui secretário. Depois, fui assessor do conselho executivo da Escola Secundária Josefa de Óbidos. Posteriormente, quando cheguei aqui à escola, fiz parte do conselho pedagógico, depois fui eleito presidente do conselho pedagógico. Depois, estive na direcção do conselho executivo como subdirector, e agora como coordenador de estabelecimento. Entrevistador: Formação relacionada com o exercício de cargos? Professor: Uh… só tenho feito formação para créditos. Entrevistador: E formação específica para o cargo de coordenador de um estabelecimento de ensino? Professor: Não fiz. Entrevistador: Nem orientações educativas e pedagógicas? 260 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Professor: Não. Entrevistador: Quais são as motivações e expectativas quanto ao exercício deste cargo, de coordenador de estabelecimento? Professor: Ao exercer estes cargos, tenho sempre a perspectiva de tentar incutir algumas melhorias, especialmente tornar que a comunidade educativa trabalhe e que sinta que há justiça na organização, começando pelos alunos que eu costumo dizer que quem trabalha na escola são a maior parte, por isso são eles os principais elementos que trabalham na escola, e por isso eles têm que estar bem; e se eles estiverem bem, acho que todos os docentes e tudo isso… é a minha principal motivação. Entrevistador: As expectativas… Professor: É precisamente isso… que os alunos, em ordem a eles que tenham os apoios, que tenham tudo muito previsível dentro da escola. Entrevistador: Relativamente à dinâmica do Conselho Pedagógico, considera que este é um órgão de decisão, de tomadas de decisão ou mais um órgão de consulta? Qual é a ideia que sobressai? Professor: O que devia ser ou o que é? Entrevistador: O que é, para si. Professor: Eu acho que o conselho pedagógico é um órgão de discussão de ideias, de saber o pulsar da escola, e tomar as decisões baseadas naquilo que se passa, na realidade. Entrevistador: Então, é um órgão de consulta? Professor: De consulta e de decisão. Entrevistador: Quais são os critérios para as escolhas de gestão curricular implementadas no agrupamento? … Não vamos pensar só neste ano lectivo, porque como se pretende apurar sobre o impacto do projecto Fénix desde o início, temos de analisar desde o ano lectivo passado. Que Critérios de gestão curricular implementadas no agrupamento; quer tenha sido para as turmas Fénix, ou não. Professor: Tentámos que os alunos tivessem as aulas chamadas teóricas sempre nos primeiros tempos; tivessem aqueles tempos que eram de oferta de escola, normalmente dedicados ao Português e à Matemática; que o Estudo Acompanhado também tivesse sempre um professor… fosse reforço a Português e a Matemática, nessas duas áreas, basicamente; e que os horários a nível de currículo fossem muito organizados, de maneira a que houvesse uma oferta de apoio educativo que não 261 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. ficasse desgarrado dos tempos que os alunos estavam na escola. É aquilo que se pode fazer. Entrevistador: Os actores educativos são incentivados a tomar decisões e a responsabilizar-se por elas? Professor: Penso que sim, penso que sim, penso que têm sido. Entrevistador: Quais foram as razões que conduziram à adesão ao Programa Mais Sucesso Escolar, no ano lectivo 2009/2010? Professor: As razões foram essencialmente os resultados escolares com que nos deparámos. Na escola, nós tínhamos uma situação em que as turmas do sexto ano, chegando ao fim do sexto ano façam uma opção entre a escola básica e a escola secundária; os alunos que fizeram a opção pela escola básica, deparei-me que eles tinham, todos eles, muitas retenções repetidas e havia que tomar aqui uma decisão. Do que eu conhecia do projecto, que nos foi apresentado pela [nome da coordenadora do projecto no agrupamento], eu achei que se encaixava perfeitamente nesta turma; por isso, ao elaborar, tentámos fazer uma turma de acordo com os pais, que estes alunos que tinham já retenções repetidas ou que transitaram com mais de dois níveis inferiores a três fizessem todos parte da mesma turma, porque esta turma precisava de uma intervenção muito especifica, diferente, porque só integrando quase todos este alunos no 3/2008, é que eles podiam ter garantia de sucesso. Entrevistador: Todos? Professor: A maioria. Não iriam todos para o 3/2008, mas uma grande…as situações mais problemáticas, só nesta situação é que conseguiriam ter sucesso, porque precisam de um apoio muito individualizado, o que pressupõe o Fénix. Entrevistador: Mas havia mais turmas do mesmo ano de escolaridade? Professor: Havia. Por isso, houve uma escolha… vamos lá a ver… dos alunos que tinham tido retenções, ou que tinham transitado com duas ou mais negativas. Entrevistador: Portanto, os critérios… Professor: Foram esses. Entrevistador: No que concerne ao Projecto Fénix, que liderança pedagógica assumiram as coordenações de departamento e de conselho de docentes? Professor: Eu acho que aqui na escola, foi parte onde o projecto inicialmente falhou; ou seja, partiu muito do órgão de gestão. Foi apresentado um pouco ao conselho de turma já no início do ano e, depois, a nível de departamentos, por culpa se calhar da direcção na altura; depois por culpa, se calhar, de todos que não fizeram um esforço, e 262 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. apercebemo-nos mais tarde, não fizeram um esforço para perceber o que era o projecto. O projecto foi explicado pela coordenadora ao conselho de turma… estou a falar do terceiro ciclo, o primeiro ciclo é outra realidade. No desenrolar do ano seguinte foi mais grave, porque o conselho de turma mudou bastante… Entrevistador: Neste ano lectivo… Professor: Exactamente. O conselho de turma mudou; não só o conselho de turma… mudou a direcção, mudou tudo. E então, como mudou tudo, não houve o cuidado de explicar o projecto e toda a dinâmica aos novos elementos do conselho de turma; situação que nos apercebemos, já com o presidente da comissão administrativa provisória, que havia essa lacuna, porque as coisas não estavam a funcionar tão bem como tinham funcionado no ano lectivo anterior, na parte final. Entrevistador: Então, no ano lectivo anterior houve dinâmica em departamentos e em conselho de docentes? Professor: Houve algumas mas devia ter havido muito mais, porque…, é assim, eu continuo a achar que o projecto devia ter sido agarrado pelos departamentos. Mas se calhar a culpa é de todos… Entrevistador: A ideia não é imputar culpas… é para perceber as sensibilidades das pessoas. Professor: é para perceber as sensibilidades das pessoas, mas eu acho que para o projecto funcionar mesmo… se calhar não funcionou mesmo porque a esse nível a escola entrou naquele processo todo de fusão de agrupamento de eleições e essas coisas todas, que não permitiram que, no essencial, as coisas com os alunos não funcionasse. Entrevistador: Como é que percepcionaram os professores envolvidos o modelo de actuação dos mecanismos Fénix? Professor: Temos, basicamente, duas realidades: os professores de Português, de Matemática e de Inglês entenderam muito bem o modelo Fénix, perceberam, entraram na dinâmica, entenderam-no e estudaram-no e quiseram implementar; a outra parte, das outras disciplinas, não se envolveram e por isso acharam sempre que estavam ali dentro de um projecto, que era do Português, da Matemática e um bocadinho do Inglês. Não sei se respondi… Entrevistador: Não há respostas certas… Existiram reuniões com encarregados de educação desses alunos? Professor: Sim. 263 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Entrevistador: Em quantas sessões é que a direcção, na altura do primeiro ano de funcionamento, e no segundo, esteve presente? Professor: Inicialmente, houve um contacto com cada encarregado de educação para explicar o projecto e saber se estavam interessados que o filho integrasse o projecto, com as vantagens e condicionantes de pertencer a esta turma. Depois, estivemos presentes numa reunião com a directora de turma e com os pais… a partir daí… Entrevistador: E como é que os pais percepcionaram este modelo de actuação? Professor: Muito bem, muito bem. Por acaso, acharam que devia ser a quase todas as disciplinas e que devia ser sempre assim. Entrevistador: Quais são as estratégias de gestão de currículo inerentes ao projecto Fénix? Professor: Uh… Entrevistador: Refiro-me às estratégias de gestão de currículo inerentes só ao projecto Fénix, não à gestão das turmas não envolvidas. Professor: Basicamente, foi dar a possibilidade de os três núcleos _ a turma mãe e os ninhos_ e que houvesse assessoria no Inglês.; não nos foram atribuídas horas para o Inglês, só dez horas para Matemática, e depois teve de se recorrer ao crédito horário… uh… e tentar que fosse sempre aos primeiros tempos. Tivemos também a preocupação de que houvesse tempos comuns para que os professores pudessem reunir, aqui não tanto o conselho de turma, mas para que pudessem planificar as actividades. Entrevistador: O conselho de turma tinha momentos comuns nos seus horários para que se pudessem reunir? Professor: O conselho de turma, não. Os professores de Português e os professores de Matemática tiveram no primeiro ano, no ano passado, dois tempos no horário para se reunir. Português reunia à segunda-feira; Matemática reunia à sexta. Entrevistador: E o conselho de turma reunia ordinariamente… Professor: Reunia ordinariamente e, extraordinariamente, duas vezes neste ano. Entrevistador: E essa gestão de currículo inerente ao projecto Fénix, em que órgãos é que as suas estratégias foram delineadas? Professor: Foi no órgão de gestão… foi basicamente no órgão de gestão. Eu acho que nunca, que essa questão não se colocou em conselho pedagógico. Entrevistador: Considera necessário existir uma adaptação do currículo para as turmas envolvidas no projecto? 264 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Professor: Teria algumas vantagens; especialmente para esta turma, ou seja, acaba por achar que tinha uma carga horária… uh… muito pesada. E depois, apercebemo-nos que eles tinham muita apetência para actividades, principalmente em Área Projecto, para actividades práticas. A nível curricular, podia-se colocar a Educação Tecnológica a nível muito mais prático do que tem sido. Depois de se aperceber a sensibilidade da turma, podia-se ter feito por aí, e que não interferia quase no currículo que está; não era preciso mexer a nível de disciplinas. Percebemos que estes alunos precisavam de aspectos práticos; sempre que foram solicitados para isso aderiam com muita… uh… em Ciências, que é parte prática; na Físico-Química não há problemas nenhuns, porque os alunos gostam dessa parte. Eles têm muitas dificuldades a nível da concentração mais a Português e a Matemática. Tudo o que é prático, eles … podia ter tido, se calhar, a nível do programa das disciplinas, e às vezes falta a sensibilidade a alguns docentes, de os colocarem a fazer coisas mais… Por exemplo, houve problemas a Educação Física sempre que se aplicou coisas teóricas. Entrevistador: Pois… Teria de haver uma planificação de estratégias em que cada disciplina, fosse ela teórica ou prática…Quais foram os recursos humanos/materiais necessários à implementação do projecto Fénix? Professor: Os recursos humanos… foram necessários mais dois professores de Português, mais dois professores de Matemática; foi necessário mais um professor para a assessoria. Foram necessárias duas salas, nos recursos materiais, duas salas. Depois, todos os outros materiais que nos foram solicitados. Entrevistador: Os recursos humanos, às vezes, são mais difíceis; os materiais também pelas condições de espaços. O agrupamento sentiu-se apoiado? Professor: É assim… Nós tínhamos pedido muito mais horas. É lógico que se atribuímos horas do crédito horário a esta turma, elas ficaram a faltar para outras; mas é uma questão de gestão e estamos com problemas para este ano, não sabemos … Entrevistador: Como se alocaram os professores às turmas Fénix? Professor: É assim… Foram escolhidos pelo perfil do professor. O director de turma… tentámos escolher…uh… por uma professora que, no ano anterior, nos tinha demonstrado muita …uh… tinha uma boa relação com eles, gostava deste tipo de projectos; a nível da Matemática não havia muito por onde escolher, porque tínhamos na altura os do quadro; tivemos depois a situação que nós pensávamos que o próprio projecto, e tinham-nos dito isso, que o professor que iniciasse o projecto tinha a garantia de que ficava os três anos, mas no caso de Matemática a professora concorreu para mais próximo de casa… 265 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Entrevistador: Mas no início do projecto como é que se procedeu à alocação dos professores? Quais foram os critérios que se utilizaram para estes professores integrarem este projecto, com aqueles alunos? Professor: Pois, mas a nível da realidade da escola, não se tem muito por onde escolher. Precisavas de três professores de Português, só tens dois no quadro do terceiro ciclo, temos a professora [nome da professora] que já tem estado no terceiro ciclo nos anos anteriores, foi por isso… É assim, a escola não tem muito mais por onde escolher, a nível da Matemática são aqueles professores… Entrevistador: Mas este ano, como grande agrupamento, já que não houve uma continuidade por algumas razões, poder-se-ia ter escolhido… Professor: Mas este ano, a situação é que foram colocados professores para horas aqui. Só houve uma situação, aliás, três situações, em que os professores circularam entre esta escola e a outra [referindo-se à sede do agrupamento, a escola secundária]. Eu acho, mas nem se pôs a hipótese, porque também não iria resultar, porque é assim… a mobilidade de ir daqui lá abaixo, como vir de lá cá acima, também não é muito do agrado do professor, não é? Se calhar, não ia resultar muito bem. Entrevistador: Estou a referir-me, também, a uma professora de Geografia que esteve no primeiro ano da implementação do projecto e depois foi para a secundária. Professor: Pois, isso é um critério de gestão. Enquanto que a outra professora de Geografia é professora do quadro do agrupamento; a outra professora é uma professora que em princípio tinha que sair da escola… desta escola, inicialmente… depois a questão foi de gestão; poderia ter trocado, mas optou-se assim. Entrevistador: A relação desenvolvida entre alunos e professores é considerada na constituição das turmas Fénix? Professor: Já respondi a essa questão. É assim… como no terceiro ciclo temos aqueles professores. Há aquelas escolas que têm muito por onde escolher, aqui não. Entrevistador: Quais foram as estratégias utilizadas pelas estruturas de liderança no que respeita às orientações para a implementação do projecto Fénix? Professor: Quais quê…? Entrevistador: Quais foram, quais são, as estratégias utilizadas pelas estruturas de liderança _ vamos focar-nos na liderança intermédia: coordenação de directores de turma, coordenações de departamento e outros, e nomeadamente pela direcção _ no que respeita às orientações para que o projecto Fénix fosse implementado e conhecido no agrupamento? 266 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Professor: É assim… uh… no agrupamento, como é que eu hei-de dizer isto, para não voltar a repetir… a situação do projecto Fénix não sendo divulgada especialmente aos docentes, partindo do conselho pedagógico e chegar aos departamentos e ser apresentado o projecto como uma mais-valia para a escola. O que é que tem sido feito, concretamente? Tem existido muitas reuniões e a direcção tenta saber junto da directora de turma e da coordenadora do projecto, como é que as coisas se estão a desenvolver. Entrevistador: Muitas reuniões? Fora do calendário normal estabelecido … Professor: Sim, sim… reuniões informais com a directora de turma para saber como é que está o aproveitamento de cada aluno; para perceber, neste ano, como estão todos os oitavos anos…uh… perceber, até juntamente com a estrutura do Fénix, como é que o oitavo ano nesta nova realidade de mega agrupamento se são só as nossas turmas que contam, se são as outras cinco turmas… Entrevistador: Já agora, um aparte… nas turmas todas de oitavo, nas de baixo e nas daqui… Professor: Para se manter o contrato Fénix? Eu penso que o contrato devia manter-se até ao fim; ficarem as duas turmas, o contrato era com duas turmas, não era com cinco, porque isso altera os resultados todos … Entrevistador: Mas os resultados das outras turmas não Fénix; os resultados académicos foram muito diferentes da turma Fénix? Professor: Sim, sim. Estão piores. Entrevistador: Piores? Professor: Sim. A turma Fénix …uh… com estratégias…com todo o dilema que existe nos professores, que existe um dilema que tem a ver com se se dá o programa, se se adapta o programa, existem exames nacionais, e os alunos serão confrontados com um exame nacional igualzinho a todos os alunos que não estiveram no projecto… tiveram de utilizar estratégias, descendo às vezes a níveis, a conteúdos que se calhar até eram do quarto ano, e estão no oitavo, de maneira a que eles entendam, que percebam a matéria que estão a dar. O professor, tanto de Português como de Matemática, tem sempre presente que tem de preparar o aluno para os exames. Eu costumo dizer que estou convencidíssimo que estes alunos nos vão surpreender pela positiva. Tanto porque se faz um esforço, é o esforço do professor… primeiro é um trabalho em equipa, e depois o professor está sempre que acha que o aluno tem aquele drama e que tem de tentar que o aluno perceba. Eu acho que os alunos sentem aquela proximidade, eles conseguem, mas vamos ver… 267 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Entrevistador: Como se promoveu a articulação entre os docentes (os envolvidos no projecto Fénix) e as várias estruturas de liderança do agrupamento? Pelo que já me apercebi, foi no conselho de turma… Professor: Sim, em conselho de turma, essencialmente. Pronto, eu já disse numa reunião, que o Fénix é um projecto excelente. Devia ser implementado nas escolas se calhar a outras turmas e se calhar também não é preciso fazer grandes malabarismos a nível de crédito horário; acho que lhes basta mexer … com estas contingências agora, não sei… se houvesse essa possibilidade de como para a Físico-Química em que há a divisão…uh… percebendo um pouco, é assim: consegue dar, os alunos têm um tempo de noventa e no horário do professor conta dois tempos. Se é possível fazer com um projecto destes, é possível fazer para , com o Fénix, fazer uma proximidade… se calhar, não era necessário a todas as turmas; podia-se apresentar o projecto não para um ano todo, se calhar podia ser pontual, podia ser durante um período, durante … para resolver situações, se calhar resultaria melhor este tipo de projecto Fénix, do que resultam os apoios individualizados, mas isto… Entrevistador: Compete às escolas com essa inteligência que têm… às vezes, pensamos que os apoios acabam por resolver muito e ajudar os alunos, mas a verdade é que só oferecem mais do mesmo. Professor: Estou a dizer, porque há uma coisa que eu faço é pensar sobre isto, e acho que o Fénix é uma ideia, tem pernas para andar, é excelente, é óptimo para os alunos e cada vez mais, uma grande parte dos alunos desta turma e que os conheço muito bem , têm dificuldades de aprendizagem, mas têm um défice de atenção do adulto para com eles. Encontram um ninho, conseguem fazer as aprendizagens, porque têm ali a atenção; um professor com quatro alunos estabelece uma relação de proximidade que nunca é possível noutra turma. Entrevistador: Como é feita a monitorização e o acompanhamento do conjunto de estratégias do projecto Fénix? Professor: A coordenadora do projecto e a directora de turma apresentam-nos … não há necessidade de ser semanal, ou mensal… mas posso quase dizer, quinzenalmente, como é que estão as coisas, quais foram as estratégias. Noutro dia, na reunião que tivemos em Lisboa, no final da reunião, uma escola estava a apresentar uma estratégia qualquer que já não me recordo; e depois, a [nome da directora de turma do oitavo ano Fénix ] Ah, podia ter falado de uma estratégia que utilizámos… E eu disse: Então, porque é que não apresentaste? … São aquelas estratégias que nós estamos a pensar que estão a surtir efeito, mas não as divulgamos; e então, como não as divulgamos, não existem, não é? Às vezes, falamos sobre tantas coisas _ o que está a resultar com o aluno A, com o aluno B; se a tutoria que foi atribuída aquele aluno está a resultar, se o 268 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. trabalho mais individualizado com aquele aluno está a resultar_ mas se depois não o divulgamos, não existe. Entrevistador: Eles tiveram programa de tutoria? Professor: Tiveram. Entrevistador: E como é que funcionaram? Estava em articulação constante com o conselho de turma? Professor: Uh…os dois ou três alunos que tiveram tutoria, foi essencialmente um acompanhamento ao nível do comportamento; especialmente numa situação que estava em risco de abandono escolar. Entrevistador: Os tutores eram docentes do conselho de turma? Professor: Não, não. Entrevistador: Quais são as estratégias utilizadas pelo conselho de turma ou pelo conselho de docentes, para garantir a articulação horizontal e a articulação vertical? Aproveitando algo que o colega disse há pouco e que é importante, em que disse que estes alunos nos ninhos estiveram a trabalhar aprendizagens do quarto ano. Por isso, se os professores do oitavo ano acabam por sentir isso, tem de haver uma articulação vertical, no sentido de informar os ciclos anteriores de que os alunos apresentam falhas nas aprendizagens, porque se verifica que eles vão progredindo na escolaridade sem ter as aprendizagens necessárias. Professor: Uh… por isso é que foi criado o Fénix. É assim… estes alunos, foram todos eles, especialmente os casos mais problemáticos, foram transitando… Porquê? Pela idade; porque já tinham retenções; porque achava-se que não tinha vantagens pedagógicas, eles ficarem retidos; eles passavam já com dificuldades do segundo para o terceiro, do terceiro para o quarto, do quarto para o quinto; depois…uh…o caso do [nome do aluno], quando foi para ele passar para o sétimo ano, passou porque o conselho de turma achou que não havia vantagem nenhuma, porque as dificuldades de aprendizagem dele, tinham mais a ver com o contexto familiar em que ele vivia, e ele, na altura, vivia numa casa pior do que uma barraca, mas entretanto a segurança social mudou. E essa situação o que é que faz? Ele tem esse défice todo de aprendizagens do primeiro ciclo desde que entrou, e tem de se chegar muitas vezes… é um caso concreto. Agora, é assim… a vantagem do Fénix, como dizia a coordenadora do projecto, é desde o primeiro ciclo. Agora, temos que reconhecer que existem muitas dificuldades em estabelecer esta relação entre os professores; na escola existe essa dificuldade, cada qual se defende na sua capelinha: eu sou professora de Português; eu sou professor do primeiro ciclo; e também não há muito espaço com tanta reunião, reuniões se calhar infrutíferas, que fazem-se, fazem-se, mas ao fim o 269 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. proveito… se calhar, era mais necessário fazer aquelas reuniões menos formais, sem acta, mas para resolver essas situações; espaços de diálogo mais do que reuniões marcadas com hora e turma; mas se calhar se não se marcarem, também não existem. Entrevistador: Na sua consideração, essa articulação vertical… Professor: Falha. Entrevistador: Um bocadinho. Professor: Um bocadinho, não, bastante. E devem existir mais, porque temos aqui o primeiro ciclo, porque se não existisse, e se não existisse aqui o primeiro ciclo, sendo esta escola integrada, ainda se consegue um bocadinho. Tenho algumas dúvidas se nas escolas que só tenham terceiro ciclo, ou só segundo e terceiro, cheguem ao primeiro ciclo. Entrevistador: A tipologia de escola integrada pretendia isso mesmo, não é? E esperemos que agora com estes mega agrupamentos exista a preocupação de levar um aluno do primeiro ao décimo segundo ano, sem estarem todos como disse, fechados na sua conchinha. Professor: Eu espero que as coisas vão mudando e a mentalidade; mas, também, tem de haver aqui um esforço, referindo a situação do docente que tem de andar entre dois edifícios, consiga estar neste edifício durante um ou dois dias e consiga estar no outro; porque se não, falha numa e noutra e depois é um professor que é da terra de ninguém… nem é daqui, nem é lá debaixo [referindo-se à sede do agrupamento, a escola secundária]. Ele tem de sentir, também, a casa. Entrevistador: Houve lugar a formação externa, no âmbito do projecto Fénix? Professor: Sim, sim. E que, pelo que os professores que participaram todos, têm muito bem a dizer. É evidente, é que os professores que participar, se calhar não se esforçaram no seu potencial para participar; também há as contingências que exigem deslocações. Entrevistador: Em quantas sessões é que esteve presente? Professor: Eu? Entrevistador: Sim? Professor: Formação, formação, não estive. Estive presente nas reuniões de…uh…para explicarmos como é que estava a correr. 270 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Entrevistador: A partir da formação disponibilizada, quais as estratégias das estruturas de liderança do agrupamento para difundir o conhecimento obtido ou construído nessas sessões de formação? Professor: Só no conselho de turma. Só no conselho de turma é que a professora divulgou… mas não de carácter formativo, divulgou como estava a correr. Entrevistador: Quais as mudanças observadas na prática educativa dos professores? Pressupondo que existiu… Professor: Eu sei que existiu. Agora, como é que ela se processou, não. Ainda na outra questão anterior, a formação devia ter sido aplicada; se o professor foi à formação, o objectivo é que ele transmitisse a… Entrevistador: Mas como não foi só um professor, foi um conjunto deles… Professor: Eu sei. O objectivo da formação do Fénix era que os professores que participem, depois também chegassem a todos, a aplicassem, fizessem que todos bebessem um pouco do que tinham aprendido. Entrevistador: Então, quais as mudanças observadas? Professor: Eu sei que aplicavam muitas das indicações, ou tentavam-nas adaptar à turma. No Português, a professora [nome da docente] fez isso; no ano passado, a professora [nome da docente] também fez. Agora, em que moldes e como, não tenho conhecimento concreto. Entrevistador: Quais os incentivos para que os professores partilhassem essa mudança na sua prática educativa? Professor: Não fizeram. Entrevistador: Considera que existe alguma necessidade de formação, no âmbito deste projecto? Professor: Sim, acho que a formação faz sempre falta. Entrevistador: Pode enunciar algum tema, algum assunto… ? Professor: Penso que o principal é um pouco uma formação que não seja dirigida só para o Português e para a Matemática, que estão condicionados. Explicar que há diferentes caminhos para levar um aluno a atingir as aprendizagens. Qual a formação? É explicar um pouco aquilo que noutro dia quando esteve cá o [nome do responsável da Universidade Católica]… se calhar, perceber que todos os alunos chegam à meta, mas… Entrevistador: Por caminhos diferentes… 271 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Professor: Exactamente. Se calhar, é um pouco que o conselho de turma tem de perceber isso, e não estar tanto preso… explicar aos professores… estamos um pouco presos ao um, dois, três, quatro, cinco a nível da avaliação; mas e não conseguimos perceber que eu posso dar um três àquele aluno, que é um três que é positivo, que o aluno tem conhecimentos e capacidades; mas eu consigo dar um três àquele aluno que não consegue tirar uma positiva , por exemplo quarenta e nove porcento, mas se calhar a nível de trabalho em aula eu consigo perceber que ao chegar ao exame, ou porque fica nervoso ou outra contingência, nunca consegue tirar e aí o Fénix tem essa possibilidade, o professor é assim e nas outras disciplinas que não conhece… Entrevistador: Assim sendo, uma das necessidades de formação poderá ser a avaliação dos alunos? Professor: Se calhar, só para o Fénix. Entrevistador: Desde que seja desenvolvida no Fénix, quem sabe se não é difundida no resto… mas isto já são conjecturas. Entrevistador: Como têm evoluído os resultados dos alunos? Professor: Positivamente. Entrevistador: Em que áreas ou disciplinas se observa progressos nas aprendizagens e nos resultados? Professor: Observa-se no Português e na Matemática, sempre condicionado com o papão do exame. Mas especialmente nas áreas práticas têm sido positivos. Entrevistador: Como se explica as diferentes taxas de sucesso entre áreas/disciplinas? Professor: Acaba um pouco por ser o que existe nas outras turmas. A gente sabe que metade da pauta tem mais dificuldades, ou bons níveis na outra parte que é mais prática, que não há se calhar aquele rigor … o rigor existe, mas não é tão parametrizado; ou seja, consegue entrar mais numa subjectividade, enquanto que os outros é mais objectivo. Entrevistador: Que elementos se revelam os determinantes dos casos de sucesso? Professor: A proximidade do professor com o aluno. Entrevistador: E de insucesso? Professor: Basicamente, a falta de apoio da família… Entrevistador: Quais as modalidades e instrumentos de avaliação utilizados? 272 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Professor: Aqui foi testes, fichas de avaliação, trabalho de grupo… acho que foi basicamente isto. Entrevistador: De que maneira se utilizam os modos de avaliação para identificar, explicar e regular as dificuldades surgidas? Professor: Da turma? Entrevistador: Sim. Professor: Não sei responder. Entrevistador: E como se processa para reorientar o processo de aprendizagem? Professor: É assim… Apercebemo-nos ao longo dos dois anos, em determinadas alturas, especialmente nas avaliações intercalares, que os resultados não estavam a corresponder e por isso houve sempre necessidade, por duas vezes, em que o órgão de gestão estivesse presente para se fazer um ponto da situação, que alguma coisa não estava a funcionar bem. E sempre que isso aconteceu não foi para condicionar a avaliação, foi pura e simplesmente para perceber que num primeiro ano alguém não tinha percebido a dinâmica do projecto; e no segundo ano a mesma questão se levantou que é não se percebeu a dinâmica, porque há alguma coisa aqui que não está a funcionar, continuasse a utilizar as mesmas estratégias e os mesmos modelos que utilizaram no outro ano… Uh… E depois, há que fazer qualquer coisa nesse aspecto, teve de se mudar perante a avaliação. Entrevistador: Os alunos participam na programação das actividades, nomeadamente na construção do seu Projecto Curricular de Turma? Professor: Penso que sim Entrevistador: Como é que os alunos são consultados e co-responsabilizados nas decisões que lhes dizem respeito? Professor: Pois… É assim… isso é mais de especificidade do conselho de turma que eu não sei responder Entrevistador: Como se estimula e se valoriza os sucessos individuais dos alunos? Professor: Apresentando os trabalhos deles, isso eu sei. Lembro-me das composições deles; foram-nos apresentados alguns trabalhos deles. Essa parte é o que eu sei. Apresentando e valorizando aquilo que eles fizeram, a nível de exposições. Entrevistador: Os alunos têm um comportamento disciplinado? 273 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Professor: Muito melhor do que quando começaram. Até porque era uma turma explosiva. Para além desses condicionantes todos das aprendizagens, tinham a questão do comportamento. Entrevistador: Os alunos conhecem e cumprem as regras de funcionamento da escola ou da turma? Professor: Sim, em geral sim. Numa ou noutra disciplina não cumprem. Entrevistador: Quais as razões? Professor: Uh… Entrevistador: Os elementos que condicionam a disciplina… Professor: Se calhar, por ser às vezes uma disciplina mais por não terem tanta ordem, terem de se levantar dos lugares; não é por estarem sentados, eles são uma turma grande e fazem logo burburinho; e depois, a falta de liderança, às vezes, ou nem é a falta, é a maneira de o docente exercer a liderança dentro da turma. Entrevistador: Isso era debatido em conselho de turma? Professor: Era debatido. Levantava-se a questão mas… foi lá várias vezes o director de turma em determinada disciplina, por essa situação. Entrevistador: Como se fomenta a disciplina, a assiduidade e a pontualidade dos alunos? Professor: Com esta turma, falar individualmente com cada um. A directora de turma está sempre muito presente. Entrevistador: Que importância se atribui ao impacto das aprendizagens nas expectativas dos alunos? Professor: Atribui-se …uh…bastante. Aí setenta porcento. Entrevistador: E na satisfação dos professores? Professor: Bastante. O que eu acho que se sente mais na turma, é aquela situação, é a avaliação… uns acham que os alunos têm que ter… é a tal questão da avaliação… acho que o três, o nível três deste aluno comparam muito com outro aluno de outra turma. Isso é um drama dentro da… Entrevistador: Considera que houve mudanças nas práticas pedagógicas nas turmas Fénix? Professor: Mudaram estratégias, perceberam que com estes alunos não podem dar uma obra literária da mesma maneira que dão a outros; se calhar tiveram de 274 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. dramatizar para que conseguissem perceber a mensagem; tiveram que fazer exercícios matemáticos muito mais práticos; tiveram que se levantar do lugar e fazer medições… Entrevistador: Está a falar só nas disciplinas intervencionadas: Língua Portuguesa e Matemática. Eu falo das práticas pedagógicas em todo o corpo docente da turma Fénix. Professor: Então, mas alterou tudo… A Educação Física teve de chegar à conclusão que a teoria não se podia dar sentada; podia dar teoria, mas não se podia sentar numa sala durante os noventa da Educação Física. E isto partiu das reuniões de conselho de turma, das reuniões que existiram, e que viram que não era possível estar a fazer com esta turma o que se estava a fazer com o oitavo A e com o oitavo B. foi perceber que estes alunos estavam nesta turma por uma razão específica, estava com uma dinâmica própria; e conseguem ser muito bons nessas áreas, mas doutra maneira. Coisas concretas, foi isso que eu presenciei. Entrevistador: Considera que houve mudanças nas práticas pedagógicas nos ninhos? Professor: Houve. Entrevistador: Quais… já acabou por referir? Professor: É assim… no ninho, eu sei que elas existiram. Agora, concretamente… Porque tiveram que existir; quando me disseram que com quatro alunos, durante um período com um professor, e que não fizeram aprendizagens nenhumas… Ou que, às vezes, também diziam isto … o professor disse que não fizeram aprendizagens, porque tinha a bitola do exame, e estava condicionado por isso. Quando, a determinada altura, se começaram a aperceber que eles chegam a um exame, vai chegar o exame, tem que chegar, mas se calhar não pode estar sempre com a mesma conversa, aí as coisas mudaram ao nível da prática. E depois começaram a perceber que afinal os alunos estavam a aprender… e aconteceu no ano anterior, aconteceu neste ano, e tenho algumas dúvidas que não vá acontecer outra vez. Entrevistador: De que forma se desenvolveu um conhecimento mais próximo do trabalho realizado em sala de aula? Professor: É assim… É muito mais simples ser a directora de turma, que está mais presente, que faz a ligação; é o contacto que eu, enquanto coordenador e porque me sinto muito ligado ao projecto e já conheço os professores de Português e de Matemática … Entrevistador: Eu refiro-me ao trabalho dentro da sala de aula… Alguma vez foram dentro da sala de aula? Professor: Não, eu não fui. 275 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Entrevistador: Houve lugar a acompanhamento e supervisão interna da prática lectiva dos professores envolvidos no projecto Fénix? Professor: Não. Entrevistador: Por isso, a seguinte não vale a pena que pedia para descrever o modelo de supervisão… A inovação revelada pelo modelo de actuação dos mecanismos Fénix suscitou reflexões aos níveis interdisciplinar/interdepartamental? Professor: Eu acho que essas reflexões todas não existiram. Eu acho que os coordenadores de departamento sabem que existe, mas também não… Isto é um problema, porque as pessoas não encaram os projectos de cada turma como um projecto da escola; é um projecto daquela turma, não é? Falta aqui um pouco de cada um ir à procura do que é o projecto. Isto é um drama que se sente, porque alguns docentes do conselho de turma nem se preocuparam por sua iniciativa em saber o que é o projecto. Entrevistador: O projecto Fénix contribui para o incremento da qualidade das aprendizagens dos alunos? Professor: Sem dúvida Entrevistador: De que forma? Professor: Estes alunos aprendem com a proximidade, quando o professor está presente. Estes alunos não têm em casa um suporte … a família existe, a família colaborou, mas se nós pedirmos mais à família para que os ajude a fazer os trabalhos, eles respondem: Eu não sei o que é que hei-de fazer! Eles não têm em casa as condições… quem se sente ao pé deles e: Mostra cá o teu caderno. Coisas tão simples quanto isto. Há aqui esta relação de proximidade, do professor que ajuda a aprendizagem, ou seja, é por estares lá presente que ele até estuda, tem o gosto de mostrar que fez aquilo porque o professor está ali; porque o professor vai ver o trabalho; porque alguém vai ver; porque lá em casa ninguém vai ver. Há casos concretos, em que o aluno diz que nunca abriu a mochila em casa. Entrevistador: O projecto Fénix contribui para o sucesso das turmas não Fénix? Professor: Uh… Contribui, especialmente naqueles professores que se envolveram, com motivação…uh… pela formação que tiveram e porque percebem que podem mudar estratégias, podem utilizar outras estratégias diferentes daquelas que utilizam. Pelo menos, é um desafio interior que o professor tem: vou ver se aquela estratégia aqui também resulta; porque, com a prática docente, a pessoa todos os anos lecciona aquelas turmas e acaba por entrar numa rotina, e se não tiver outros desafios. Acho outra coisa positiva nesta turma, que é esse facto de exigir; mais do que nos outros conselhos de turma, os professores têm de dizer o que é que estão a fazer, pelo menos 276 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. aqueles que estão muito envolvidos, que é o Português e a Matemática. Só pelo facto de saber que há ali um projecto, que se tem de dar resposta internamente à escola, e que se tem de dar exteriormente várias vezes ao ano, são confrontados pelo acompanhamento que existe… isto tudo altera a prática docente. Entrevistador: Então, considera que os professores que estavam no conselho de turma Fénix acabavam por levar para as outras turmas, em que também tinham componente lectiva, as práticas pedagógicas… Professor: Sim, sim… influenciados. Há uma comparação para o bem e para o mal, tanto no sétimo como no oitavo, estão sempre a comparar esta turma com a outra; e o facto de a comparação ter aspectos negativos, muitas vezes têm outro aspecto, porque percebem que existe uma realidade diferente. Entrevistador: Com que periodicidade e como é feita a divulgação sobre os resultados, dinâmicas, e o impacto do projecto Fénix, a toda a comunidade educativa? Professor: A toda a comunidade não existe. Entrevistador: E para finalizar, quais são as potencialidades e os constrangimentos, relativamente à implementação deste tipo de inovação? Professor: Potencialidades, existem imensas; porque acho, como há bocado disse, acho que devia-se ter a possibilidade de o projecto poder ser muito mais dinâmico, que não seja tão estanque… uh… ou seja, como está na turma, podia-se divulgar … mudar de turma… esta turma já conseguiu atingir isto, vamos à outra turma resolver aquela situação; com as mesmas horas, com tudo a funcionar. Nós estamos muito compartimentados. O outro lado da questão… Entrevistador: Constrangimentos. Professor: Constrangimentos, que eu acho que têm de ser ultrapassados… é que as escolas não podem viver em constante mudanças de normativos, de direcções, de estruturas; tem que haver mais estabilidade, porque se não há estabilidade, isto também não… No meu entender, a escola tem de ser muito previsível, ou seja, o aluno quando vier lá de fora, e os professores também, quando vierem da sociedade e entrarem o portão da escola têm de saber muito bem o que vai acontecer… para dar paz. Se a escola também viver isto; se o projecto Fénix nesta escola não funcionou melhor, teve a ver com todas estas alterações e no contexto em que se introduziu; isto cria num órgão, nas próprias pessoas que estão à frente da escola… isto é preciso ser acarinhado, abraçado, e racionalmente trabalhado. Entrevistador: O constrangimento principal foram as reformas sucessivas, que não deixam ninguém estabilizar. 277 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Professor: Não há paz na escola. Entrevistador: Só tenho de agradecer a disponibilidade e obrigada pela colaboração. Duração: 58’ 57” 278 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. ANEXO 10 Transcrição da entrevista com o actual director executivo do agrupamento Entrevistador: Vamos começar a entrevista, que tem como objectivo principal inferir o impacto do projecto Fénix no agrupamento. Para iniciar, gostava, se fosse possível, de alguns dados profissionais. Professor: Força… Entrevistador: A formação académica… Professor: Professor do primeiro ciclo, com especialização em administração e gestão escolar, depois uma especialização em Economia e, actualmente, estou a tentar, dentro das minhas poucas disponibilidades, concluir o mestrado, no ISCTE, em Economia, também. É uma área que me interessa…uh… para fugir um pouco às Ciências da Educação e, também, perceber de que forma é que os nossos alunos que vão para o ensino superior e depois para as empresas fazem a sua formação inicial, e perceber todos os pressupostos associados a essa mesma formação inicial. E, portanto, entendi em determinada altura da minha vida, que em termos de Ciências da Educação que era aquela área natural que os professores normalmente seguem, mas entendi que devia procurar mais a cultura da empresa e da formação inicial das pessoas que vão para as empresas nas diferentes vertentes, e daí que tenha achado positivo e continuo a achar que, realmente, é uma área de formação académica muito interessante. Entrevistador: O percurso desde a finalização da licenciatura até hoje. Professor: Em termos de experiência profissional, penso que a experiência foi muito rica porque, em termos gerais, tive a experiência da leccionação no primeiro ciclo nos anos iniciais. Depois, tive um percurso em que estive quatro anos num programa interministerial de promoção de sucesso educativo, associado ao Governo Civil de Lisboa, e tinha a envolvência de vários ministérios e foi muito interessante, porque foi a primeira vez que, enquanto ministro o engenheiro Roberto Carneiro (ministro da educação), se criou algo do género. Portanto, tinha como principal objectivo criar estruturas que viabilizassem o sucesso dos alunos a todos os níveis, tinha a vertente apoios sociais, tinha estágios profissionais, e foi uma experiência muito rica, e tinha a envolvência de vários técnicos, nomeadamente psicólogos, tinha setenta psicólogos no país inteiro, e era muito interessante o trabalho entre docentes e técnicos, apenas com o objectivo de propiciar todas as condições aos jovens que estavam no primeiro ciclo, para garantir a finalização do primeiro ciclo com sucesso. Depois disso, estive dez anos no centro de formação de professores. Entretanto, estive cinco anos no ensino superior, na formação inicial de professores; portanto, fui professor adjunto na ESE de 279 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Lisboa, e tive pena de deixar, foi na altura que, entretanto enveredei pelo conselho executivo, pela direcção de uma escola e, portanto, a partir dessa experiência no ensino superior, optei pela carreira de gestão de uma escola, no caso a escola secundária de [nome do concelho], onde tenho estado até ao ano passado, altura em que se criou a agregação desta escola com o anterior agrupamento de escolas com jardim de infância, daí que tenha sido eu designado para essa função. O balanço que faço é positivo. Entrevistador: De certa forma já acabou por responder a algumas coisas que viriam a seguir: cargos de administração, onde, porque e duração. Professor: Acho que foi uma opção que fiz e que, certamente, alterou o meu percurso profissional, alterou definitivamente, sem dúvida. Entrevistador: A formação relacionada com o exercício de cargos, já está mencionada. A formação específica para o cargo de director, também… Professor: Também a fiz. Entrevistador: Quais são as motivações e expectativas quanto ao exercício deste cargo? Professor: Uh … As motivações, posso dizer que é muito simples de explicar; penso que do ponto de vista profissional sou uma pessoa que tem desenvolvido a minha tarefa de forma muito activa e com bastante gosto naquilo que faço. O meu interesse tem sido sempre os alunos, os alunos em concreto, e faço questão de respeitar e garantir os direitos e os deveres dos meus colegas. Portanto, tem sido esta dupla _ alunos e interacção com os meus colegas _ que, de facto, me tem dado a motivação para desempenhar o cargo…Uh… a segunda parte da pergunta… Entrevistador: Expectativas… Professor: As expectativas… as questões estão um pouco tremidas nesta fase. Neste momento, nós estamos num momento crítico em que admito a necessidade de nós passarmos a um patamar, depois de tantos anos de ensino e agora ter surgido a escolaridade obrigatória de doze anos, de ir, sem dúvida, à procura da qualidade. Tenho alguma dúvida, por muita força que tenhamos todos os envolvidos, mas há a falta de recursos; e eu não sei até que ponto é que vamos conseguir suplantar essa diminuição dos recursos com a boa vontade que temos. Depende muito, eu acho que o sistema educativo, neste momento, e em especial a escola pública, tem tido um défice de participação dos encarregados de educação e penso que a chave do futuro para de certa maneira minimizar o impacto desta quebra de recursos é uma maior intervenção dos pais, que, como parte interessada… Entrevistador: Parceiro educativo… 280 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Professor: Parceiro educativo e parte interessada. As autarquias também não têm muito por onde, de forma que francamente têm de ser os pais a dar contributos diferentes do que têm dado até aqui Entrevistador: Relativamente à dinâmica do Conselho Pedagógico, considera que este é um órgão de decisão, de tomadas de decisão ou mais um órgão de consulta? Qual é a ideia que sobressai? Professor: Eu, francamente, não deixo de pensar que é um órgão de decisão, embora na sua essência nas suas competências não seja um órgão propriamente deliberativo…uh… E acho que deve ser um órgão de decisão, porque dependendo da dinâmica que o presidente lhe dê, mas acho que a dinâmica que lhe tem de ser dada é um pouco a esse nível, porque é o órgão representativo dos departamentos curriculares, das diferentes estruturas de gestão intermédia e, portanto, só faz sentido que tenha uma posição a tomar nas actividades em concreto. É evidente que as questões estratégicas pertençam a outro órgão, mas o conselho pedagógico é uma importância essencial e penso que o decreto-lei 75/2008 não foi bem feliz na forma como lhe atribuiu essas competências, mas no que toca ao nosso agrupamento tirando o caso deste ano penso que o conselho pedagógico já reuniu bastantes vezes e durante sessões bastante prolongadas, e tem tido discussões muito interessantes relativamente ao decorrer do ano lectivo, à procura da identidade do agrupamento e a questões que se terão de colocar num futuro próximo para a definição do projecto educativo. Entrevistador: Quais são os critérios para as escolhas de gestão curricular implementadas no agrupamento? Sei que estamos numa altura difícil, como foi referido, de junção entre agrupamentos para um mega agrupamento. Professor: Estás a falar …? Entrevistador: De gestão curricular... Professor: Das ofertas educativas? Entrevistador: Também, também. Professor: Por acaso, ainda há pouco, tive uma conversa com colegas… a questão, digamos, da vocação curricular do agrupamento, muito especialmente no que toca às ofertas profissionalizantes, é uma opção absolutamente essencial. Nós temos, de facto, de identificar qual é a nossa vocação e a nossa identidade, para oferecermos com alguma continuidade de forma sistemática, um conjunto de ofertas que sejam interessantes para os jovens e para o tecido empresarial local, e que ao mesmo tempo disponhamos dos recursos humanos adequados para essa oferta educativa. Portanto, esta é a aposta actual e penso que devemos ir ao encontro dessa procura, e penso que 281 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. já temos algumas áreas identificadas; falo, por exemplo, da área da administração, da área da informática, da área de electricidade e energias alternativas… Agora, temos tido uma área nova que oferecemos este ano em que apareceram interessados em duas turmas, que é a área dos serviços do apoio à infância, portanto, os recursos humanos nível três, para serem técnicos das IPSS da região, naturalmente; e também, o ano passado, oferecemos um curso que tínhamos detectado com bastante interesse para os jovens, que foi técnico de comunicação, marketing e relações públicas. Não sabemos se vamos ficar com todas, se vamos abandonar algumas; isso tem a ver com uma avaliação que é necessário fazer das ofertas, e se definirmos que temos vocação para essas ofertas, iremos estendê-las aos activos das empresas da região e, nomeadamente, aos adultos, porque é nossa intenção, também, depois de algumas discussões que já tivemos, de fazer parcerias com as empresas locais, e já temos com algumas, nomeadamente com a Modis, que actualmente é Sonae-distribuição, com a Siva, com a Aitena, no sentido de qualificarmos profissionalmente os seus activos. Independentemente da qualificação académica, queremos ter uma vertente profissional quer para jovens quer para adultos. Do ponto de vista curricular, este ano implementámos a nível dos jovens, e de nível dois, oferecemos pela primeira vez para o concelho inteiro uma oferta PIEF, Programa de Inclusão de Educação e Formação, com uma turma nessa área que tem alunos ao nível do segundo ciclo e alunos ao nível do terceiro ciclo, e esperamos completar a nossa oferta educativa curricular para o próximo ano, se tivermos alunos nessa situação, uma sala estruturada como resposta aos alunos com necessidades educativas especiais e que, com o novo Centro Escolar, penso que temos condições para criar um espaço bem equipado para dar essa resposta. Entrevistador: Os actores educativos são incentivados a tomar decisões e a responsabilizar-se por elas? Professor: Sim, eu penso que sim. Quer dizer, a nível da direcção temos procurado exercer uma liderança forte mas que não seja inibidora de lideranças intermédias, e acho que não impedido para que haja grupos de reflexão , isso tem-se verificado recentemente relativamente à disciplina de Português e é aberto a qualquer outra disciplina, que as pessoas tenham, de facto, espaços para intervirem da forma que entenderem mais adequada e com total independência da liderança central que tem um papel muito próprio, e que não pode ser inibidora de outras susceptibilidades e de outras correntes ideológicas. Entrevistador: Tenho de colocar esta questão, embora não fosse na altura o director, mas tendo em conta aquilo que lhe foi transmitido: Quais foram as razões que conduziram à adesão ao Programa Mais Sucesso Escolar? Professor: Sim, eu penso que o Programa Mais Sucesso Escolar, como o próprio nome indica, tem a ver com uma provável insatisfação, penso eu, da parte dos actores no 282 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. que toca ao insucesso de alguns grupos de alunos. Surgiu como resposta a um problema de insucesso num grupo de alunos. Entrevistador: No que concerne ao Projecto Fénix, que faz farte deste Programa, que liderança pedagógica assumiram as coordenações de departamento e de conselho de docentes? Professor: Eu acho que, francamente, tem sido reduzida; devia ter um papel mais interventivo. Não me parece que tenha tido até agora, pelo menos nos tempos mais recentes… Este ano, eu colocaria alguma reserva relativamente à capacidade de intervenção desses órgãos neste projecto, porque, de facto, tem sido um ano complicado, com muitas mudanças, e que as pessoas têm andado envolvidas com a criação de instrumentos estruturantes do agrupamento, o que não tem permitido, realmente, ter uma intervenção mais directa. Isso não impede que relativamente ao projecto, não tivesse havido parte dos órgãos e das identidades do agrupamento a disponibilização dos recursos necessários… penso que isso aconteceu; podemos vê-lo até com a disponibilização de horas, embora não tenha tanto a ver com os departamentos, tenha a ver com o órgão de direcção. Mas penso que aquilo que tem sido pedido, tem sido disponibilizado… Entrevistador: Mas eu referia-me à liderança pedagógica, que têm responsabilidade sendo coordenador do projecto ou os coordenadores de departamento, pelo menos das disciplinas mais envolvidas… Professor: Isso tem sido garantido, sim. Entrevistador: Relativamente aos professores envolvidos, como é que eles percepcionaram o modelo de actuação dos mecanismos Fénix? Professor: Eu, muito francamente, acho que, pelo que me apercebi das reuniões que houve, é que houve algum défice de informação por parte dos intervenientes, ou seja, o agrupamento devia ter tido conhecimento mais transversal daquilo que o projecto preconiza. E eu próprio tive alguma dificuldade, também por disponibilidade de tempo. Acho que o ponto mais alto até ao momento, foi aquela reunião que houve há pouco tempo, solicitada pelas estruturas nacionais do projecto _ quer a coordenadora nacional, quer o responsável da Universidade Católica, quer a Direcção Regional de Educação _ e isso, de facto, até para mim, teve a vantagem de perceber melhor o que estava em causa e quais são os objectivos do projecto. Hoje, já percebo com mais proximidade aquilo que se pretende e com certeza que isso me permite apropriar o projecto de outra forma que não tinha até essa reunião. Entrevistador: Mas os professores envolvidos sentem-se bem com o projecto em si? 283 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Professor: Eu penso que sim, quer dizer… Eu acho é que, pelo menos no caso que toca à turma do oitavo ano, há algumas pessoas que colocam em causa os resultados e, se calhar até é bom que coloquem, mas eles deviam ser os primeiros a perceber que os resultados da turma não vai ter a ver apenas com os resultados que apresentam no final do ciclo, mas essencialmente fazerem, de uma forma objectiva, a diferença entre o ponto de partida desses alunos e o seu ponto de chegada num determinado momento. Neste caso no nono ano, e acho que é essa mensagem que tem de ser passada a essas pessoas que têm mais algumas reservas relativamente à utilidade do projecto. Entrevistador: E relativamente ao primeiro ciclo? Professor: Ao que percebi, eu acho que o primeiro ciclo não apresenta tantas reservas quanto aquela turma de terceiro ciclo. Entrevistador: Na altura, eles estão no terceiro ano, não é? Professor: Agora, estão no terceiro ano. Entrevistador: Todas as turmas do terceiro ano? Professor: Todas as turmas. Entrevistador: E os pais… como percepcionaram este modelo de actuação? Professor: Se não estou em erro, na turma do oitavo ano, houve dois alunos que saíram. Entrevistador: Saíram? Mas de sua vontade? Professor: Não… Por razões que têm a ver com o terem ficado retidos. Agora, lamento muito, mas não posso dizer com propriedade aquilo que os pais acham deste projecto, porque fui apanhado… Entrevistador: Não estava na altura em que se aderiu ao projecto… Professor: Exactamente. Estar a dizer o que seja sobre essa matéria, é estar a falar por outros ou estar a falar sem conhecimento de causa. Entrevistador: Não é isso que se pretende, claro que não. Quais são as estratégias de gestão de currículo inerentes ao projecto Fénix? Professor: A minha perspectiva pessoal, e daquilo que tenho reflectido ultimamente, é que, se o que se pretende é sabermos em que sítio é que a fasquia deve ser colocada, eu entendo que a fasquia deve ser colocada no mesmo sítio que para os alunos do ensino regular, se tivesse de ser colocada… parafraseando uma colega que outro dia me dizia: Se tivesse de ser colocada face às condições que tenho, até devia ser colocada 284 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. acima. Como isso não é possível, que seja colocada ao mesmo nível. Nunca se deve, no meu entendimento, descer essa fasquia e, portanto, se há aqui um desvio de percurso para fazer adaptações durante o percurso, no final a fasquia deve estar à mesma altura dos outros. Os alunos devem ter ao seu dispor todas as alternativas curriculares relativamente ao décimo ano; não defendo que tenham adaptações que elas sejam, nomeadamente de avaliação, no sentido de lhes dar condições que não sejam aquelas que habitualmente se dá aos alunos do ensino regular…dito regular. Entrevistador: Podemos chamá-los alunos de turma Fénix e alunos de turma não Fénix… Professor: Exactamente. Entrevistador: Regulares são todos, não é? Professor: Regulares são todos, sem dúvida; por isso, é que eu coloquei um entre parêntesis. Entrevistador: Essas estratégias de gestão do currículo… são delineadas em que órgãos? Professor: Eu penso que a serem delineadas, deveria ser por iniciativa do conselho de turma e depois levadas em sede do conselho pedagógico. Pelo menos é aquilo que habitualmente acontece, e não me parece que o Programa Mais Sucesso preveja outra hipótese que não esta. Não que dizer que os departamentos curriculares não dêem o seu contributo. Entrevistador: Quais foram os recursos humanos/materiais necessários implementação do projecto? Já não me refiro ao ano passado, mas ao presente… à Professor: Os deste ano foram, no que toca ao primeiro ciclo, vinte e cinco horas, que é aquilo que o projecto Fénix deu, e mais umas horas de uma professora que tem a tarefa de coordenadora de estabelecimento, que apoiou um ninho nas horas que nós demos de apoios educativos; a professora coordenadora do projecto, é também uma professora que faz esse trabalho nas horas de apoios educativos, que é a [nome da professora]… Entrevistador: E qual é a outra professora, já agora? Professor: A [nome da professora], cinco horas; a [nome da professora coordenadora do projecto], cinco horas; e, depois, vinte e cinco horas que são do projecto, vinte e cinco horas do projecto, mais dez horas do estabelecimento, no primeiro ciclo. No que toca ao terceiro ciclo, nós temos dez horas para a Matemática; depois temos dez horas em dois ninhos, além do ninho regular, ou seja, a escola assegura… não é um ninho… Entrevistador: A turma mãe? 285 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Professor: A turma mãe… assegura a turma mãe. Depois, do projecto Fénix, tiram-se as dez horas para a Matemática; para Português, temos também a turma mãe, e depois temos mais dois ninhos que saem do crédito da escola. Portanto, temos três … a turma mãe, mais dois ninhos a Português…e aí, é da dotação da escola. Entrevistador: Em termos materiais… Professor: Em termos materiais, a turma beneficia de todos os recursos que as outras turmas beneficiam; que, neste momento, estamos em condições de dizer que todas as relações de necessidade de qualquer uma das turmas foram garantidas e, portanto, a turma beneficia dos mesmos recursos que as outras turmas, sem excepção, e é isso que eu entendo que deve ser feito. Entrevistador: Questiono se não beneficiaram de outros recursos, por definição do conselho de turma… computadores, ou uma sala com… não? Professor: Não. Estou a dizer que sim… estou a dizer que não, não no sentido de estar a negar o que estás a dizer. Se não foram disponibilizados outros recursos, é porque não foram solicitados… é só por isso. Entrevistador: Como se alocaram os professores às turmas Fénix? Professor: Com a excepção das horas de Matemática que resultou de contratação de escola, e teve de ser recrutado de novo sem ser possível dar continuidade pedagógica; relativamente aos outros casos, foram todos de continuidade pedagógica, quer os da escola quer os que já estavam do passado. Entrevistador: Primeiro ciclo, também? Professor: Primeiro ciclo, também. Entrevistador: Como é feita a afectação da direcção de turma Fénix? Professor: Do oitavo ano, foi também a continuidade pedagógica. Entrevistador: A relação desenvolvida entre alunos e professores é considerada na constituição das turmas Fénix? Professor: Vamos ver… Eu só posso responder, na verdade, quando validei a distribuição de serviço e a continuidade das pessoas, não tinha a informação que devia ter. Aquilo que eu acho por defeito, em relação às turmas todas, é que, tanto quanto possível, deve ser garantida a continuidade pedagógica, se não houver nada contra; se achar que a continuidade pedagógica, num caso ou noutro, não deve ser garantida, deve-se alterar. Agora, eu acho que se deve sempre adequar os perfis dos professores… perfis de turmas/perfis de professores… deve ser mais ou menos equacionado. 286 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Entrevistador: Quais foram as estratégias utilizadas pelas estruturas de liderança no que respeita às orientações para a implementação do projecto Fénix? Professor: Quais…? Entrevistador: Quais as estratégias utilizadas pelas estruturas de liderança… coordenadores de departamento, coordenadores de directores de turma… Professor: Eu penso que … uh… as estratégias… penso que… Entrevistador: Não houve reuniões conjuntas; de grupo disciplinar… Professor: Sim. As turmas têm tido todas as reuniões regulares… regulares, neste sentido…todas as que estão previstas para as outras turmas, e mais aquelas que se acharam necessárias. Por exemplo, essa reunião que referi, muito importante, aconteceu…uh… irá acontecer uma nos próximos dias, face a uma avaliação que se impõe nesta fase do ano lectivo, no que toca ao terceiro ciclo. Relativamente ao primeiro ciclo, eu penso que as questões não se colocam, porque os ninhos têm objectivos mais próprios e também é mais fácil porque, na verdade, existe apenas uma relação entre duas pessoas, que é a professora do ninho e a professora titular de turma; essa interacção dispensa as reuniões formais. Já o oitavo ano, a turma do terceiro ciclo, carece de outro tipo de discussão e nesta fase impõe-se uma discussão extraordinária. Entrevistador: Essa turma de oitavo ano está a envolver que número de professores? Professor: Uh… eu não sei precisar, mas admitindo que alguns… mas se quiseres, posso ir ver… queres o número de professores da turma? Entrevistador: Não, obrigada… na generalidade, um número… Professor: Doze ou treze… Não, são mais, porque … Entrevistador: O conselho de turma todo? Professor: O conselho de turma é mais extenso, considerando professores de apoio, psicóloga, a professora de ensino especial, e considerando que a Português e a Matemática têm três professores, será superior a quinze. Mas eu posso dizer-te… Entrevistador: Está bem, depois vemos… Professor: Mas será por volta dos dezoito. Entrevistador: Como se promoveu a articulação entre os docentes (os envolvidos no projecto Fénix) e as várias estruturas de liderança do agrupamento? 287 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Professor: Eu acho que o conselho de turma é o contexto. E depois, existe a coordenação do projecto que tem de interagir com a coordenação do primeiro ciclo, no caso da pessoa que está na direcção responsável pelo primeiro ciclo; e depois com a direcção, comigo. Regularmente, é aqui. Portanto, penso que tem sido uma relação frutuosa a que se tem desenvolvido. Entrevistador: Como é feita a monitorização e o acompanhamento do conjunto de estratégias do projecto Fénix? Professor: Tem sido as reuniões do conselho de turma e essa reunião que houve com as estruturas nacionais. De facto, não tem havido outra monitorização até ao momento…e é pena. Entrevistador: Quais são as estratégias utilizadas pelo conselho de turma ou pelo conselho de docentes, para garantir a articulação horizontal e vertical do currículo? Professor: Uh… Pronto, se calhar, não tenho muito mais a dizer do que disse anteriormente. Entrevistador: Acabamos por estar a repetir, não é? Professor: A articulação deve ser esta. Se calhar, impunha-se uma articulação maior e a necessidade desta reunião decorre um pouco disso; quer dizer, analisar os resultados, mas também perceber o que é que deve ser acrescentado, para que haja uma articulação interdisciplinas, também vertical… Entrevistador: Pois. Ainda há pouco referiu essa questão de quererem baixar a fasquia, com a preocupação dos resultados do terminar do ciclo, e a sua preocupação em considerar que não deve ser assim, porque os alunos têm de ter a mesma qualidade de ensino, de forma a puderem, depois, dar continuidade ao percurso que bem entendam. Professor: Eu concordo inteiramente com isso e ouvi da parte do professor [nome do responsável da Universidade Católica], nessa reunião, com o que concordo inteiramente: Se nós colocarmos a fasquia a dez centímetros do chão, banalizamos, o aluno desvaloriza; se a colocarmos a um metro e vinte, é um desafio para o aluno. Entrevistador: E não só… Professor: Para o professor também, eventualmente. Entrevistador: Houve lugar a formação externa, no âmbito do projecto Fénix? Professor: Houve, houve. Houve acções de formação que estiveram envolvidos, quer a coordenadora do projecto quer os professores, principalmente, de Matemática e de Língua Portuguesa. 288 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Entrevistador: Em quantas sessões é que esteve presente? Professor: Formação, nenhuma. Não tive disponibilidade. Apenas estive nessa reunião, que considero uma acção de formação… considero inteiramente. Entrevistador: A partir da formação disponibilizada, mais especificamente aos professores que a frequentaram, quais foram as estratégias das estruturas de liderança do agrupamento para difundir o conhecimento obtido ou construído pelos próprios professores? Professor: Como os professores têm, no âmbito da sua componente não lectiva, foilhes dito que indo à formação tinham a obrigatoriedade de definir e criar um conjunto de espaços de disseminação dessa formação. Portanto, penso que é a estratégia que se justifica. Entrevistador: Mas que foi implementada? Professor: Foi implementada. Nos conselhos de turma que já existiram daí para cá; e foi transmitido, de facto, pelas pessoas que iam a essa formação, a obrigatoriedade de a disseminar pelos colegas que não puderam ir. Entrevistador: Fazem reuniões só para passar a formação? Professor: Sim, sim, sim. Entrevistador: Quais as mudanças observadas na prática educativa dos professores? Se é que existiu… Professor: Eu não tenho… Penso que sim, naturalmente! De certeza absoluta, ninguém é imune ao projecto e àquilo que as pessoas têm, e à envolvência, porque senão, provavelmente no âmbito da avaliação que tem sido efectuada, as pessoas já tinham desacreditado no projecto e isso não tem acontecido, as pessoas acreditam no projecto, e como tal, penso que teve interferência nas práticas. Entrevistador: Não é possível evidenciar que mudanças? ... Mesmo por muito pequeninas que tenham sido… Professor: Vamos analisar em concreto… Há alguns problemas, há pessoas que ainda têm algumas reservas em algumas disciplinas, porque acham que, especialmente as disciplinas que estão sujeitas a exame nacional… Entrevistador: Matemática… Professor: Matemática, Língua Portuguesa…As pessoas acham que os alunos deviam estar num patamar académico um pouco diferente… Entrevistador: A preocupação são os resultados… 289 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Professor: São os resultados; principalmente, a avaliação externa. Entrevistador: Quais os incentivos para que os professores partilhassem essa mudança na sua praxis? Professor: À partida, penso que houve partilha. Entrevistador: Considera que existe alguma necessidade de formação, no âmbito deste projecto? Professor: Eu não conheço, exactamente, os módulos de formação que têm sido assegurados pelo projecto Fénix, mas não tenho… não me apercebi de ninguém ainda ter referenciado défice de formação. Penso que do que as pessoas se continuam a queixar… mas isso é um problema da actualidade dos nossos jovens… é que os jovens e os pais demitem-se um pouco, não estão tão concentrados como nós desejaríamos, não investem tanto e não têm nenhum projecto académico ou nenhum projecto de formação com horizonte; isso é que é lamentável. Portanto, acho que é um problema não tem a ver só com as turmas Fénix, tem a ver com as turmas todas, e com os jovens na sua generalidade. Eu penso que nós estamos a atravessar uma fase crítica, em que a escola tem um grupo de alunos que são muito bons alunos; portanto, acho que ao contrário daquilo que muitas vezes se quer fazer passar, da escola saem jovens melhor preparados; também há jovens que poderão sair da escola mais mal preparados do que num determinado período. Agora, a nossa aposta, penso que a escola no âmbito dos vários projectos e dos diversos espaços de formação que propicia aos jovens, temos que investir mais um pouco naquele intervalo do meio, nos alunos do ensino regular, a ver se não os perdemos… Entrevistador: Em alguma área específica… ? Professor: Penso que no caso, por exemplo, da avaliação externa; penso na Matemática que continua a haver razões de queixa, temos alguns problemas identificados no Inglês, na Físico-Química… Entrevistador: Existem problemas pedagógicos, científicos? Professor: Não, nos resultados. Estamos a tentar identificar e arranjar soluções. Entrevistador: Como têm evoluído os resultados dos alunos Fénix, desde o ano lectivo passado? Professor: Eu não posso dizer uma resposta que sirva para as disciplinas todas… uh… e por isso é que vamos fazer uma reunião dos professores do conselho de turma com a liderança do agrupamento, comigo, para tentar perceber o que é que se passa; neste momento, penso que existe alguma confusão… há disciplinas, por exemplo, em que dizem que os alunos se comportam bem e há outras disciplinas que dizem que os 290 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. alunos se comportam mal; há disciplinas que têm sessenta e dois e meio porcento de sucesso e há outras que têm menos de cinquenta porcento de sucesso. Portanto, temos que perceber exactamente o que é que se está a passar. As disciplinas que têm ninhos, eventualmente estão mais queixosas dos resultados do que as outras que não têm ninho. É evidente que não podemos comparar a Língua Portuguesa com Ciências Naturais, ou a Matemática com Físico… a Matemática com a Físico-Química até se pode fazer; por incrível que pareça, há pelo menos um aluno, na disciplina de FísicoQuímica, que teve melhores resultados do que outros alunos, alguns alunos das turmas não Fénix. Portanto, isto tem que ser estudado e, eventualmente no estudo, tentarmos encontrar algumas dessas conclusões a que temos de chegar a curto prazo. Entrevistador: Em que áreas ou disciplinas se observa progressos nas aprendizagens e nos resultados? Professor: Francamente, por aquilo que eu vi, da parte do conselho de turma, há progressos em todas as disciplinas; contudo, não são os progressos que se desejariam, nomeadamente, nas disciplinas que constituem maior preocupação, Língua Portuguesa e Matemática, porque as pessoas ainda estão um bocado com o receio dos exames nacionais de nono ano, mas vão dar o seu melhor a médio prazo. Entrevistador: Como é que explica as diferentes taxas de sucesso entre áreas/disciplinas? Professor: Pois, não se explica. Vou procurar a explicação. Entrevistador: Que elementos se revelam os determinantes dos casos de sucesso e os de insucesso? Professor: Se os casos de sucesso apontam para alunos bem comportados, e os casos de insucesso, eventualmente, se apontam para um grupo que não tenha um bom comportamento; eu acho que tem a ver com a dinâmica da aula e com a relação pedagógica criada pelos docentes. Entrevistador: Quais as modalidades e instrumentos de avaliação utilizados? Professor: Eu não tenho ideia nenhuma… Aliás, isso é uma discussão que se está a ter neste momento. A ideia é que os instrumentos são os mesmos das outras turmas não Fénix; e acho que devem ser os mesmos, embora haja uma corrente que defenda instrumentos adaptados. Isso não impede que a turma Fénix, nesse aspecto, deve ter aquilo que se aplica às outras turmas; não impede que num determinado momento de conjuntura, que o professor não altere o instrumento diferente da turma A, B ou C. Isso é da soberania do próprio professor face a uma justificação própria daquela conjuntura; isso não está a querer dizer que está a baixar a fasquia, naquele momento 291 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. está a adaptar o instrumento face a uma realidade e não quer dizer que, a seguir, não volte a ir buscar o outro instrumento igual à outra turma. Entrevistador: Se me é permitido, há aí uma dificuldade conceptual…não estarão a misturar instrumento de avaliação, como seja o processo em si; quando na verdade o processo devia ser a qualidade das aprendizagens?! Professor: Sim, sim. Entrevistador: De que maneira se utilizam os modos de avaliação para identificar, explicar e regular as dificuldades surgidas? Professor: Se eu percebi bem a pergunta… Entrevistador: Os modos de avaliação: diagnóstica, formativa (formativa é ela toda), a sumativa de final de período… O que fazem para identificar, explicar o que se passa? Acabou por dar ainda há pouco um exemplo… a tentativa de explicação é reunirem… Professor: É esta reunião e avaliarmos, exactamente, o que é que está a acontecer, e o que é que se tem que haver estruturalmente, estruturalmente não digo mas conjunturalmente, alguma adaptação se isso se justifica nalgumas disciplinas; que não me parece necessário a todas. Entrevistador: E como se processa para reorientar o processo de aprendizagem? Professor: Sim. Entrevistador: Os alunos participam na programação das actividades, nomeadamente na construção do Projecto Curricular de Turma? Professor: Eu penso que participam naturalmente, como participam os alunos das outras turmas. Devem participar, para se apropriarem do seu projecto curricular de turma. Numa escola todos são agentes, os alunos não se não estiverem geneticamente envolvidos. Entrevistador: E os Fénix como é que participam na programação dessas actividades? Professor: Os Fénix têm de perceber que o projecto tenta corrigir… foi criado para que eles, realmente, tenham sucesso; e a necessidade do projecto decorre da necessidade desses alunos se envolverem no projecto Fénix, porque é um projecto próprio, dirigido a eles em concreto. Portanto, eles têm que fazer parte e envolverem-se nesse sentido. Entrevistador: Quando coloquei esta questão, o que se pretende perceber é, quando o conselho de turma se reúne para a operacionalização do projecto curricular de turma, se os alunos estão presentes nas reuniões com os seus professores, e se participam. 292 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Professor: Sim. Acredito que sim. Entrevistador: Como é que os alunos são consultados e co-responsabilizados nas decisões que lhes dizem respeito? Professor: Francamente, no caso, com especial incidência nos ninhos, acho que o caderno de encargos é perfeitamente acordado e que os alunos se envolvem de imediato; porque de outra forma não pode ser. Se existem ninhos com um determinado número de alunos reduzido em relação às outras turmas não Fénix, tem de haver uma co-responsabilização por parte dos alunos e tem de haver uma aceitação daquele caderno de encargos que é definido à partida, e que é acertado entre professor e alunos. Entrevistador: Como é que se estimula e se valoriza os sucessos individuais dos alunos? Professor: Como é que se estimula e se valoriza… Eu acho que um dos problemas que por vezes se encontra nas turmas que têm mais dificuldades, é os professores e especialmente os pais… acho que temos uma cultura de muito pouco reconhecimento; temos mais facilidade em reconhecer aquilo que está mal, do que reconhecer quando o aluno faz bem. Portanto, mesmo que isso aconteça muito poucas vezes, quando o aluno tem sucesso numa determinada tarefa, temos de evidenciar, de reconhecer. Eu acho que é um pouco por aí, que se manifeste o interesse que a escola, e especialmente os pais também, em reconhecerem quando um aluno com dificuldades consegue adquirir uma determinada competência ou ultrapassar uma determinada dificuldade curricular. Entrevistador: Mas há alguma maneira especial de se congratularem e celebrarem quando há sucessos individuais? Professor: Eu acho que, por exemplo, os casos de sucesso daquelas duas disciplinas que eu falei, deve-se dar maior ênfase; até porque são disciplinas que não têm ninho, e que os professores conseguiram na dinâmica da aula que, realmente, os colocou nos patamares das outras turmas. Se calhar, temos de aprender uns com outros e essa dinâmica tem que ser… Agora, esses professores é que podem dizer muito claramente como é que o conseguiram. Eu penso que isso já foi dito em contextos próprios, ainda que por vezes as pessoas tenham dificuldade e apontem causas que não são as legítimas. Imaginemos a possibilidade de uma disciplina como a Matemática ou o Português, dizer que os alunos têm sucesso a Físico-Química ou a Ciências, imputando apenas à natureza das disciplinas ser mais experimental ou menos experimental, no caso até é mais experimental… Entrevistador: E não à prática do professor… 293 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Professor: E não à prática do professor…ou por outra, pode ser pensado, mas pode não ser aceite. A pessoa tem dificuldade em aceitar que tem a ver com uma dinâmica criada pelo colega; mais pela natureza da disciplina e menos pela dinâmica do professor, instituída nas aulas. Entrevistador: Os alunos têm um comportamento disciplinado? Professor: Os alunos não têm, mas até ao momento não apliquei nenhuma medida disciplinar, não tenho conhecimento de… Entrevistador: Eu perguntei se têm um comportamento disciplinado… Professor: Têm um comportamento disciplinado, sim, sim. Entrevistador: Os alunos conhecem e cumprem as regras de funcionamento do agrupamento ou da turma? Professor: Penso que sim… se as cumprem… Entrevistador: Como se fomenta a disciplina, a assiduidade e a pontualidade? Professor: Eu acho que… Entrevistador: Já que é um caso de sucesso, o comportamento daqueles alunos… é porque há um trabalho… Professor: É um aparente caso, porque há professores de algumas disciplinas que dizem que não é. Se calhar, temos de perceber o que é que os professores que dizem que os alunos têm bom comportamento, o que fizeram, que tipo de aulas é que criaram… Entrevistador: O conselho de turma…só vou dar um exemplo… O conselho de turma não criou uma actuação conjunta… Professor: Tem que criar, por isso é que vamos fazer aquela reunião; para que as pessoas se entendam, porque não podemos ter em conselho de turma pessoas a dizerem que os alunos são mal comportados e outros a dizerem que são bem comportados. Os alunos são os mesmos, a escola é a mesma, a sala é a mesma… Aliás, até há referências… eu tenho dificuldade em aceitar que uma turma que está com a totalidade dos alunos, num grupo mãe mais alargado, assuma que os alunos são bem comportados; e depois, que os alunos divididos em ninhos são menos comportados. Há aqui alguma coisa que tem de ser muito bem explicada; ou as pessoas têm à partida uma exigência diferente, ou então a referência que os alunos têm por uma aula para com a outra, é diferente. 294 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Entrevistador: Que importância se atribui ao impacto das aprendizagens em duas vertentes: uma nas expectativas dos alunos, e a outra na satisfação dos professores? Professor: Pois. Neste momento, como já disse atrás, eu tenho alguma dificuldade em precisar quais são as expectativas dos alunos; relativamente às expectativas dos professores também já referi dois aspectos… Entrevistador: Satisfação. Professor: Satisfação… nos resultados? Mas falaste em expectativas, não? Entrevistador: Expectativas dos alunos e satisfação dos professores. Professor: Ah… Está bem. Acho que os professores estão insatisfeitos, porque calculam que os alunos no nono ano, nalgumas disciplinas, principalmente aquelas que estão sujeitas a avaliação externa, não estão muito satisfeitos porque podiam ter melhores resultados. Ouvi, por exemplo, um professor dos ninhos de Língua Portuguesa ter referido que o grupo dela estaria ao nível do quarto ano, ou pouco mais, e que para o ano estava sujeito a um exame nacional de nono ano. Portanto, isto é problemático face aos recursos que foram disponibilizados. Será que houve impacto da criação dos ninhos? Relativamente às expectativas dos alunos, aí sim, eu tenho alguma dificuldade, porque acho que neste momento os alunos estão a passar por uma fase em que não têm, também por culpa dos encarregados de educação, uma gestão de expectativas muito adequada. Em questão à fasquia que eu estava a colocar, é extremamente essencial para que os alunos respondam ao desafio e não banalizem a frequência do terceiro ciclo, como algo que apenas acontece para passarem o tempo e para andarem na escola com obrigatoriedade. Era bom que houvesse uma gestão de expectativas mais adequada à importância da aprendizagem, do processo ensino-aprendizagem. Toca um telemóvel, tivemos de fazer uma pausa. Entrevistador: Considera que houve mudanças nas práticas pedagógicas nas turmas Fénix? Professor: Ah, sim, claramente. A criação dos ninhos é, em si mesma, uma alteração profunda das práticas pedagógicas. Agora, se também há outro aspecto que não podemos descurar, é se existe um projecto curricular de turma que pretende ter mais sucesso na sua globalidade de conselho de turma, logo implica mudanças de práticas pedagógicas, sem dúvida. Entrevistador: Quais? Professor: Penso que, por um lado, um ensino que com certeza procurará, mesmo num grande grupo, ter um aspecto mais individualizado. Sem dúvida, a criação dos 295 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. ninhos o que pretende é que o professor chegue mais aos alunos, de uma forma mais afectuosa, de uma forma mais personalizada, de uma forma mais motivadora. Entrevistador: E houve mudanças nas práticas pedagógicas nos ninhos? Professor: Sem dúvida. Trabalhar para um ninho como existe por exemplo em Língua Portuguesa, com cinco alunos, terá de certeza uma prática pedagógica muito diferente de um grupo de vinte e um ou vinte e dois alunos. Entrevistador: Não quer dar algum exemplo? Professor: Não, não posso. Penso que não me compete a mim estar aqui a referenciar, só mesmo os professores que estão em cada um dos ninhos é que, com maior propriedade, poderão dizer de que forma concreta é que fizeram uma adaptação pedagógica e curricular no seu projecto curricular de turma. Entrevistador: De que forma se desenvolveu um conhecimento mais próximo do trabalho realizado em sala de aula? Professor: Este ano tem sido complicado para nós chegarmos às turmas, de facto. Irei utilizar aqui uma terminologia que às vezes faz parte um pouco do meu discurso, que é … este ano, em alguns casos, e em algumas turmas, eu tive de adoptar procedimentos um pouco avulsos em detrimento de procedimentos mais sistémicos. O que aconteceu com esta mudança, é que por parte da liderança de topo o que tem acontecido é que, quando se vai à turma, é porque se tem de ir por uma emergência e se tem de ir resolver avulsamente uma situação. Se calhar, não houve no caso do oitavo (turma Fénix), vai haver agora aquela reunião e houve a outra passada, porque a questão a seu tempo se colocou e vai ter resposta. Mas também não houve, de facto, nenhuma emergência que obrigasse a uma intervenção, ainda que avulsa, junto da turma. Entrevistador: Houve lugar a acompanhamento e supervisão interna da prática lectiva dos professores envolvidos no projecto Fénix? Professor: No que respeita ao órgão de direcção ou nos departamentos? Entrevistador: A outras estruturas. Professor: Sim, eu penso que a escola tem funcionado normalmente, e que a grande prioridade que definimos foi o funcionamento do ano lectivo; isso aplica-se a todas as turmas. A turma Fénix, penso que por parte dos coordenadores do projecto e das estruturas envolvidas e principalmente os professores, tem havido uma procura de soluções junto das diferentes instâncias. O facto de os professores se terem disponibilizado para ir às formações; o facto de, certamente, nos seus departamentos terem apelado a algumas intervenções de supervisão; ou colocarem directamente às 296 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. coordenações de estabelecimento questões muito concretas; com certeza que foi à procura de respostas para os problemas que se colocaram. Entrevistador: Mas não surgiu, entretanto, uma vontade de os professores, e falamos só nos do projecto Fénix, se disporem a verem supervisionado o seu trabalho dentro da sala de aula? Professor: Não, não me apercebi. O que eu me apercebi ultimamente, e daí esta reunião futura, é que as pessoas estão à procura de, eventualmente nalgumas disciplinas, terem mais segurança nos instrumentos que estão a aplicar, nos instrumentos de avaliação. E, portanto, vamos ter essa discussão muito brevemente; já fiz uma primeira consulta com a coordenadora nacional do projecto Fénix, e iremos responder por sua vez às questões que nos forem colocadas nessa reunião, que acontecerá nos próximos dias. Entrevistador: Quer dizer que não um modelo de supervisão construído para o efeito? Professor: Neste momento, provavelmente não; a não ser alguma informação que a coordenação do projecto transmita directamente ao director de turma ou aos professores. Entrevistador: A inovação revelada pelo modelo de actuação dos mecanismos Fénix suscitou reflexões aos níveis interdisciplinar/interdepartamental? Professor: Acho que sim. Entrevistador: Tem havido reflexões? Professor: Acho que sim; formais e informais. Entrevistador: O projecto Fénix contribui para o incremento da qualidade das aprendizagens dos alunos? Professor: Ah, necessariamente. Entrevistador: De que forma? Professor: A diferença entre o ponto de partida e de chegada tem que ser razoável, independentemente dos patamares de menções que os alunos vão ter. Tem que ser necessariamente, senão falhámos. Entrevistador: Antes de chegar ao falhar, temos que percorrer… Professor: Este meu falhámos é mais… é presente/futuro, e não passado. Entrevistador: O projecto Fénix contribui para o sucesso das turmas não Fénix? Ou seja, os professores das turmas Fénix têm componente lectiva noutras turmas… 297 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Professor: Provavelmente, tem impacto. Eu acho que a formação que os professores Fénix têm, naturalmente não se pode restringir às turmas Fénix. É uma informação formal que só pode ter efeitos. Entrevistador: Com que periodicidade e como é feita a divulgação sobre os resultados, dinâmicas, e o impacto do projecto Fénix, a toda a comunidade educativa? Professor: O ano passado, não sei. Este ano, vamos ver se existe algum mecanismo de divulgação dos resultados da turma. Não sei, não me apercebi que tenha havido no ano passado. Entrevistador: E para finalizar, quais são as potencialidades e os constrangimentos, relativamente à implementação deste tipo de inovação, que é uma inovação disruptiva? Ou seja, ela nasceu no seio de um grupo de professores, numa escola, e o sucesso foi tal que, pela primeira vez, o ministério da educação é que convocou o dito projecto. Professor: É mais uma das questões que eu acho que não estou bem preparado para responder. Em relação à questão do princípio, de uma escola inovar e o ministério da educação aceitar e alargar, acho que tem todo o sentido; é um pouco por aí, é o ministério da educação estar atento ao terreno e às boas práticas. Agora, resultados… Entrevistador: Potencialidades, constrangimentos… que este agrupamento sinta. Professor: Potencialidades, tem. De facto, os ninhos é algo que até pelo próprio nome é interessante; e dividir a turma em momentos diferentes e os alunos circularem por esses grupos, é algo que é uma potencialidade em si mesmo. Uma vez que os professores estão fartos de se queixar que em algumas disciplinas, face à atitude que os alunos têm, é mais produtivo dividida. Portanto, por essa razão é uma potencialidade e tem que ter impacto. Entrevistador: A nível de constrangimentos… Professor: Constrangimentos… Eu acho que o constrangimento que eu encontro neste momento, é o facto de o ano passado termos uma professora de Português e este ano termos outra. É assim aquele que eu acho mais visível. Uma professora de Português… portanto, o ano passado contratámos uma professora de Português e este ano contratámos outra, porque tinha de ser contratação de escola. Esse é o constrangimento mais evidente; podia ter sido evitado, mas por razões formais, normativas, tem explicação possível. Entrevistador: Pronto, terminámos, e só tenho de agradecer a disponibilidade. Duração: 58’ 57” 298 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. ANEXO 11 Transcrição da entrevista com os alunos da turma Fénix (Turma de oitavo ano de escolaridade envolvida no Projecto Fénix) Entrevistador: Bom dia. Alunos: Bom dia. Entrevistador: Vamos fazer uma abordagem ao projecto Fénix e à maneira como é que vocês, alunos do 8ºE, o sentem. Primeira questão: Como é que tiveram conhecimento do projecto Fénix? Reportando ao ano lectivo anterior… Aluna A: Foi quando o ano passado…foi quando a gente chegámos à escola e disseram-nos que estávamos envolvidos no projecto. Explicaram-nos as regras, o funcionamento. Entrevistador: Os objectivos… porque é que estavam… Aluna A: Sim. Entrevistador: E o que é foi dito, então? Aluna A: Foi dito que havia a turma mãe, que era a turma Fénix; havia dois ninhos, ninho um e ninho dois e iriam ser divididos consoante as capacidades de cada um; aqueles que tinham capacidades ficavam na turma Fénix, aqueles que tinham mais ou menos dificuldades, ficavam no ninho um, aqueles que não tinham muitas, mas tinham algumas, ficavam no ninho dois. Entrevistador: Quer dizer que todos vocês, pelo menos os que estão aqui presentes, sentiram-se esclarecidos nesse momento… de quais eram as características e os objectivos do projecto? Aluno X: Sentimos. Entrevistador: Sentiram-se mesmo totalmente esclarecidos? Aluno X: Sim. Entrevistador: O director de turma tem sido o mesmo? Neste caso, a mesma. Aluno X: Sim. 299 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Entrevistador: Desde o início do projecto? Aluno X: Sim. Entrevistador: E os professores… também continuam a ser os mesmos? Mais do que um aluno: Alguns. Aluno Y: Só os de Matemática é que mudaram. Entrevistador: Só os de Matemática mudaram? Já não os mesmos do ano passado? Aluno Y: E a setora de Geografia. Aluna A: E a de ET. Entrevistador: E quem? ET? Aluna A: Ya, sim… a professora de… Entrevistador: Ah… Educação Tecnológica. Também mudou… Então foi: de Geografia, de Educação Tecnológica e todos os de Matemática. Entrevistador: Consideram que, com o projecto Fénix, conseguiram melhorar a relação com os vossos professores? Aluno X: Sim… Entrevistador: Sim?! E porquê? Porque é que dizes isso, de que a relação entre alunos e professores mudou? Aluno X: Porque éramos menos por sala, e, se calhar não havia tanta… Havia mais atenção. Entrevistador: Da parte dos professores… Aluno X: E dos alunos. Entrevistador: Querem colocar alguma questão? [ainda estava latente o nervosismo por parte dos alunos] Uma vez que existem pequenos grupos de trabalho, os ninhos que vocês já referiram, na vossa opinião isso permitiu que os professores dessem aulas de maneira diferente? Daquilo que estavam habituados… Aluna B: Acho que sim. Acho que cada um tem uma maneira de explicar. Quem está na turma Fénix, a professora explica de uma maneira diferente aos que têm menos dificuldades e entendem melhor a linguagem da professora. A do ninho dois já tem que falar assim mais esclarecido para perceber; e a do ninho um tem de fazer de forma a que eles percebam e entendam o que a professora está a explicar. 300 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Entrevistador: Tu estás a referir-te à linguagem professor/aluno… Aluna B: Sim. Entrevistador: Mas o que eu questionei, é se vocês sentem que a maneira de dar as aulas, a dinâmica de aula… Aluna B: Para nós é mais fácil, estamos separados. Não há tanto barulho, tanta distracção, estamos mais concentrados. Entrevistador: Mas em termos de aula… há diferença, por exemplo, em relação a terem estado noutra turma? Aluna B: O ano passado já estávamos separados… Sim, há diferenças. Entrevistador: Há diferenças. Podes indicar algumas? Para além dessa da linguagem que já referiste. Aluna B: Uh… distracção, conversa… Entrevistador: Não há? Aluna A: Há, há… Entrevistador: Passou a haver? Aluna B: Não, agora já não há tanta como havia dantes. Entrevistador: Este ano. Mas no ano passado… Aluno X: Havia alguma. Aluna B: O ano passado ainda havia. Entrevistador: E o que é que se faz na turma e nos ninhos? Aluna A: o que se faz na turma e nos ninhos… Entrevistador: Na turma mãe e nos ninhos. Aluno X: Faz-se a mesma coisa, mas só que de maneiras diferentes. Aluna A: pois… Aluno Y: É uma forma de explicar diferente; algumas fichas diferentes. Aluna A: Nem todas. As de Matemática são iguais; as de Português algumas é que são diferentes. Depende de professor para professor. Entrevistador: onde se aprende mais? Nos ninhos ou na turma mãe? 301 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Aluna A: Na minha opinião, é na turma mãe… na de Português, e na de Matemática também gostava de lá estar , mas não estou. Entrevistador: Na turma mãe? E nos ninhos… Aluna A: Não gosto muito de estar nos ninhos, porque… não sei… não gosto da maneira como a setora explica. Percebo mais a da turma mãe. Entrevistador: E por acaso já referiste?… Gostas mais de estar na turma mãe porque… Aluna A: A setora explica de uma maneira diferente, é uma maneira mais compreensível… embora serem aqueles que têm menos dificuldades, ela explica de uma maneira que todos percebem. E a setora do ninho dois é de uma maneira que eu não percebo a maneira como ela fala. Eu depois perco o interesse sobre a matéria… Entrevistador: E vocês já tiveram essa conversa… Essa vossa preocupação com a professora do ninho dois? Aluna A: Não , por acaso nunca falei com ela; mas já tinha falado com a setora da turma Fénix para saber se podia ir para lá, mas ela disse-me que com os resultados que eu tive no teste, não podia ir. De qualquer maneira eu não percebo a matéria, não vou tirar positiva. Entrevistador: Continuas a não perceber a matéria? Aluna A: Continuo. Aluna B: Eu, no período passado, fui para o ninho da setora [nome da professora ] consegui levantar a nota. Entrevistador: Qual é a disciplina? Aluna B: Matemática… Consegui levantar a nota, lá. Eram menos alunos e consegui levantar, só que depois, já no segundo período, voltei para a turma outra vez. E pronto… mas, para mim, acho que melhorei. Entrevistador: Sendo assim, tu és de opinião que aprendes mais na turma Fénix, pelas razões que apontaste. Aluna B: Eu também sou… Entrevistador: Tu és da mesma opinião… Mas devia ser um bocadinho diferente nos ninhos, não é? Como é mais dirigido, no ninho… Aluna A: Eu comecei na turma Fénix, e estava habituada com a forma como a setora dava a matéria, para além de ter tirado negativa, tirei uma negativa alta. Mas quando 302 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. fui para o ninho dois… não sei, não gostei da maneira dela dar a aula; não consegui aprender e perdi o interesse pela matéria; tanto que eu baixei as notas… Entrevistador: Para nós era muito bom que tu conseguisses, já que o estás a afirmar, dizer porque é que não consegues compreender a matéria… É só pela linguagem que a professora utiliza? Aluna A: Sim… e depois, eu perco o interesse. Para além da gente ter de estar sempre calados, não brinca connosco… às vezes, a matéria tem de ser dada a brincar… a gente ganhava mais o interesse, mas ela não brinca. Aluna B: Leva aquilo tudo a eito, pronto. Aluna A: Leva tudo: Tenho de dar a matéria, tenho de dar matéria… Entrevistador: Cumprir o programa… Aluna A: É isso, e depois a gente não gosta. Tanto que na turma Fénix , em que se dá a matéria, explica… Aluna B: Faz exercícios… Aluna A: Mas sabe brincar. Brinca connosco… lá de vez em quando, há assim uma brincadeira. E no ninho, não. Entrevistador: E vocês os dois são da mesma opinião? Aluno X: Sim. Aluna A: Claro. Entrevistador: Claro?! Então, isso impõe-se?! Cada um tem direito à sua opinião… ora essa. Como é que funcionava … já percebi mais ou menos pelo que tu disseste … mas tenho de fazer a pergunta: Como é que funcionava a transição entre ninhos e turma? Aluna A: Era diferente. Entrevistador: Era diferente? Como é que os professores vos explicavam?... Agora ficas no ninho; e agora vais para a turma? Aluno X: Dependendo das notas que a gente tinha nos testes. Entrevistador: Só dependente da vossa avaliação nos testes? Aluna B: Se as notas tivessem em risco de negativas, nós tínhamos que ir para o ninho; mas se conseguíssemos estar no ninho e conseguíssemos levantar a negativa, voltávamos para a turma. Ou então se baixássemos ainda pior a negativa… Aluna A: No ninho dois… 303 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Aluno X: Ya… Para o ninho dois. Aluna A: Antes de voltar para a turma, voltava ao ninho dois… Do ninho um, antes de ir para a turma, voltava ao ninho dois. Depois se continuássemos no ninho dois, é que ia para a Fénix. Entrevistador: E já agora a propósito, já que falaram… Os testes são um instrumento de avaliação, como vocês sabem. Quais são os instrumentos de avaliação que os vossos professores utilizam? É única e simplesmente a ficha de avaliação? Aluno X: Não. Entrevistador: Não? Aluna A: Depende. São os trabalhos de casa… Entrevistador: Sim… Aluno X: Comportamento. Entrevistador: Sim… Aluna B: A responsabilidade, também. Os setores também contam muito com isso: trazer as fichas, o portefólio, o caderno. A nossa professora da turma Fénix, também avalia ir ao quadro, fazer os exercícios… Já disse, se estamos a ir ao quadro, estamos a… Entrevistador: Qual é a disciplina, desculpa? Aluna B: Matemática. Estamos a falar de Matemática. Aluna A: No ninho dois, ela agora deixa mais a gente ir ao quadro, porque a gente reclamou, porque raramente íamos ao quadro. Entrevistador: Ah… Afinal falaram… Aluna A: Nesse aspecto, na maneira como ela dá a matéria, não… ela devia brincar mais connosco. Entrevistador: Isso vai da maneira de ser de cada um ,não é?! Aluna A: É, mas é um bocado coiso… Entrevistador: Um bocado coiso? Diz lá o que é o coiso… Aluna A: É porque não… como é que hei-de explicar… Ela raramente deixava a gente ir ao quadro, e a gente queria ir mesmo ao quadro; e como ela tem sempre aquela velocidade de dar a matéria muito rápido, ficávamos para trás e essas coisas todas… 304 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Ela dizia: Ah, agora faço eu este exercício, porque vocês perdem muito tempo… E a gente raramente ia ao quadro. E, às vezes de vez em quando, ainda é assim. Entrevistador: E a Língua Portuguesa? Estivemos a falar de Matemática… Mas a Língua Portuguesa como é que decorre a transição entre ninhos? É da mesma maneira? Aluno X: É a mesma coisa. Aluna A: Isso não sei, nunca fui. Entrevistador: Quem é que esteve no ninho de Língua Portuguesa? Aluna A: Ele. Entrevistador: Tu e ele? Vocês os dois? Aluno X: Mas o ano passado também tive na Fénix, este ano é que estive num ninho. Entrevistador: Foi fácil, vocês adaptarem-se a essa mudança, quando passavam da turma mãe para o ninho ou vice-versa? Aluno X: Sim. Entrevistador: Ou sentiam algum problema? Alunos: Não. Aluna B: Já conhecíamos as professoras. Aluna A: Mas também depende da matéria. A professora de Português dá a matéria muito rápido, mas pronto, dá rápido mas também dá bem. Entrevistador: Pronto… Mas não sentiram algum mau estar quando passavam da turma para o ninho, ou do ninho para a turma mãe? Aluno Y: Não. Entrevistador: Na vossa opinião, há algo que não corra bem?... Já percebi; já responderam a alguns aspectos. Agora, pensem para além disto, se há algo que não corra bem… no geral. Aluna B: Às vezes desinteresse pela matéria… Aluna A: Isso perde-se logo num instante! (risos) Entrevistador: Desinteresse pela matéria… Mas não pensem sempre em assacar as responsabilidades a vocês. Pensem se há algo que não corre bem para além do 305 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. aspecto alunos, mas também do aspecto escola que não esteja a corresponder às expectativas que vos tinham explicado no início do projecto. Vocês ficaram com expectativas… com segurança? Aluna B: Sim, que iam ajudar-nos. Entrevistador: sim… Aluna B: Nós agora até temos duas professoras de Inglês, que era o que não tínhamos e conseguimos ter… e acho que isso foi bom para nós. Aluna A: Tanto que a maior parte deles conseguiu levantar as notas. Entrevistador: Então.. está tudo… tirando o que ela Há pouco referiu… não querem dizer mais nada, está tudo a correr bem? Aluno Y: Sim. Entrevistador: Como é que têm evoluído os vossos resultados escolares?... Ou seja… Agora vão tentar lembrar-se da avaliação do ano passado _ primeiro, segundo e terceiro período_ e da avaliação do primeiro, segundo e terceiro período _ bem, a deste ainda não sabem _ primeiro e segundo deste ano lectivo. Como é que têm evoluído os resultados? Não pensem só no vosso “umbiguinho”, pensem na globalidade da turma… Aluna A: Os resultados aumentaram… pelo menos, no sétimo ano, sim. Aluno Y: No sétimo ano, sim… Mas agora no primeiro período… Entrevistador: Diz lá… Aluno Y: No sétimo ano, tinha notas boas… Mas, agora, no primeiro período, já tivemos notas mais ou menos más. Entrevistador: No primeiro período deste ano lectivo… muitas negativas? Aluno Y: Mais ou menos. Aluna B: neste segundo período era para ter seis negativas, mas consegui só ter uma. Aluno Y: E eu era para ter tido oito, só tive cinco. Aluna A: Eu só tive uma. Entrevistador: Pronto… mas vocês sentem que os vosso resultados escolares , com o projecto Fénix, têm melhorado? Aluna A: Sim ; mas depende muito do sítio onde se está. 306 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Entrevistador: como assim? Aluno X e aluna A: Dos ninhos… Aluna A: Depende se se adaptam, também… Tanto que eu não gostei de estar no ninho, gostava mais da Fénix. Entrevistador: E achas que os teus resultados escolares dependem, ou estão a depender… Aluna A: O ano passado estive o tempo todo na Fénix e tirei negativa no primeiro e no terceiro período, tirei só positiva no segundo, e não me mudaram para os ninhos. Entrevistador: E explicaram-te porquê? Aluna A: Não, não me chegaram a explicar. Mas depende se sabem que a gente consegue. Aluna B: Sim, as professoras também disseram isso. Por exemplo, nós podemos tirar negativa, mas as professoras vêem que nós temos capacidades para tirar melhor nota e não é preciso ir para o ninho, conseguimos levantar na turma… Entrevistador: E ficam na turma… Aluna B: Por isso, ficamos na turma. Aluna A: Isso era no ano passado. Este ano, basta a gente tirar negativa nos testes, que passamos logo para os ninhos. Aluna B: Mas a setora, a mim, não me passou para o ninho. Estou na turma, ainda. Aluna A: Mas, a mim, bastou logo tirar negativa, que ela passou-me logo para o ninho. Entrevistador: O “ela” é que eu tenho essa dificuldade… não falo a mesma linguagem… Aluno X: A de Matemática. Entrevistador: É isso que eu preciso que vocês me vão dizendo… Em que áreas ou em que disciplinas… quando eu digo áreas é Área Projecto, Estudo Acompanhado, Educação Tecnológica… em que sentiram maiores progressos? Em relação aos anos anteriores, e do ano passado para este ano, em que é que vocês sentiram progressos? … Não pensem que é só Língua Portuguesa ou Matemática, porque o vosso currículo é constituído por várias disciplinas… Aluna A: Físico-Química. Aluna B: Sim, em Físico-Química continuo com quatro; estou a tentar subir a Inglês, já que temos duas professoras. 307 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Aluno X: Eu também estou a tentar subir a Inglês. Aluna B: A História também consegui. Entrevistador: Há disciplinas em que vocês sintam: O projecto Fénix fez com que eu progredisse a Língua Portuguesa… aquelas que são de intervenção… ou, até como dizes, História, Físico-Química. Aluna A: às vezes é da maneira como explicam ou da maneira como nós estudamos. Há quem saiba estudar e há quem não saiba, por isso, depende. Entrevistador: E as razões para que existam os progressos? Ela agora referiu… Será que posso entender assim?! Os progressos dependem sempre da maneira como o professor… Aluna A: Explica… Aluna B: E da maneira de estudar, também. Há quem não saiba estudar. Entrevistador: Quantas vezes é que estiveram presentes em reuniões com os vossos professores, com a direcção da escola, no sentido de encontrarem soluções para problemas que vocês sentissem. Aluna A: Com a direcção nunca tivemos, mas com todos os professores, já. Aluna B: Eu, não. Aluno X: Eu também não. Aluna A: Eu fui. Aluna B: Mas tu és a delegada. Entrevistador: Ah! Mas foste por ser delegada? Aluna A: Sim. Mas também houve uma no ano passado, que foi com todos os professores, e quase metade da turma não apareceu. Foi com os nossos pais, os encarregados de educação, mas a direcção não estava. Entrevistador: Não estava? Aluna A: Não. Estavam os professores, a directora de turma, os pais e nós. Entrevistador: Uma vez? Aluna A: Uma vez, só. Não sei se vocês foram, mas eu fui… Entrevistador: Vocês são consultados sobre decisões relativas à turma? 308 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Aluna A: Sim, a maior parte das vezes pedem-nos a opinião. Entrevistador: A vossa opinião é ouvida… mais por quem? Aluna A: Pela directora de turma. Entrevistador: E vocês eram esclarecidos de que tinham responsabilidades nessas decisões?... Ou dizem só as coisas por dizer, ou a sensação que têm é que, quando dizem, são responsáveis por aquilo que estão a dizer? Aluna B: A directora de turma até diz que nos gosta de ouvir, porque nós dizemos coisas… assim… que não cabe na cabeça de ninguém. Entrevistador: Até cabe, cabe na vossa que é importante. Aluna B: às vezes, até resulta. Entrevistador: Ainda bem. E de que maneira é que vocês, turma e os vossos professores, sempre que havia um sucesso seja de quem for… costumam celebrar isso? Alunos: Não. Aluna A: Normalmente, a DT fica contente… por alguém melhorar uma nota. Aluna B: Ou termos menos negativas… Entrevistador: Isso é uma forma de celebrar. Aluna A: às vezes, basta, por exemplo, na disciplina dela basta só alguém tirar uma negativa, que fica logo aborrecida; ou então, basta alguém tirar cinquenta porcento, que ela fica totalmente aborrecida… Ela sabe que a gente consegue melhor. Entrevistador: Isso é celebrar. Os outros professores fazem o mesmo? Alunos: Não. Aluna A: É só mais ela. Entrevistador: Desde que foram envolvidos neste projecto, consideram que o vosso comportamento melhorou. Alunos: Sim. Aluna B: Desde que estamos distribuídos pelos ninhos e pela turma, claro que é diferente. Agora, nas outras, já há… Entrevistador: Ah… então, há diferença no comportamento quando estão nas outras disciplinas: Geografia, História, Ciências… 309 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Aluna B: Do que Português e Matemática que estamos distribuídos; o comportamento é totalmente diferente… Há mais distracção, conversa. Entrevistador: Mas porquê? Aluna A: Pelo menos, no ninho dois, de vez em quando quero conversar com a colega do lado e não consigo.. e ela: Ai, que eu tenho de dar a matéria. E eu depois fico meio irritada, porque é uma coisa mínima, e ela fica irritada. Já me virei muitas vezes para ela, e: Olhe, mande-me para a rua. Entrevistador: Mas vocês têm a noção de que o vosso comportamento melhorou, ou não melhorou? Alunos: Melhorou. Entrevistador: Ou só melhorou nos ninhos? Alunos: Sim, sim. Entrevistador: E com o projecto Fénix há melhor ambiente na sala de aula? Em qualquer disciplina… Aluno X: Eu acho que é o mesmo. Entrevistador: Entre alunos… Aluna A: Há uma coisa que me irrita muito nos professores… É dizerem que, lá por a gente estar no projecto, fazem testes fáceis. Entrevistador: Os professores dizem isso? Aluno X: De Geografia. Aluna A: Pelo menos, a professora de Geografia diz… Aluna B: Vocês não têm nada a ver com o 8ºD… O 8ºD tem a turma toda e porta-se bem… e não sei quê. Aluna A: É mesmo só ela, porque os outros professores não fazem comparação, nem nada…. Nem fazem testes fáceis; fazem aqueles testes que acham que a gente, que a gente… Entrevistador: Que vocês são capazes de corresponder. Aluna A: Sim, não fazem testes fáceis, não fazem nada…. Fazem o que eles querem. A setora de Geografia é que diz que faz os testes fáceis. Chama sempre o projecto à… Entrevistador: À baila… 310 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Aluna A: É. Entrevistador: Mas para valorizar o projecto, ou para dizer que ele vos está a fazer mal? Aluna B: Diz que nós estamos a ser… uh… como é que eu hei-de dizer… Aluno X: Ela pensa que por a gente ter dificuldades, a gente demora quase uma página inteira em duas aulas. Entrevistador: Uma página? Então quer dizer que o recurso utilizado é sempre o manual? Aluno X: Sempre. Entrevistador: Não há outros recursos, outros materiais? Aluna B: Não. Eu, para mim, a professora nunca passou apontamentos. Aluno X: Nem a mim. Entrevistador: Uma outra maneira: power-point, filmes… isso são também recursos que nós podemos utilizar. Alunos: Não. Aluna A: Nas outras disciplinas, sim. Agora, na dela, não. Entrevistador: Entre vocês, o comportamento é razoável? Há conflitos? Aluna B: Em algumas aulas. Entrevistador: Entre vós? Aluna A: Entre nós, não. É mais entre aluno e professor. Entrevistador: Mas eu estou a referir-me à relação entre vocês. Aluna A:Nós, normalmente, damo-nos bem. Entrevistador: Não há conflitos entre os alunos da turma? Aluna A: Se houvesse, particularmente, entre alguém, a gente não leva para dentro da sala de aula. Aluna B: Há entre professores e alunos. O caso de um colega nosso com uma professora nossa, que está sempre a implicar com ele. Mesmo que ele não faça nada, está sempre a implicar com ele. Aluna A: E ela e ele, depois… ele, qualquer dia, dá-lhe uma resposta que ela não gosta. 311 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Aluna B: E depois ele não está a fazer nada e ela diz que está, e depois manda-o para a rua sem ele ter feito nada. Entrevistador: Mas para isso há uns regulamentos, há regras que são combinadas, que é outra pergunta que eu ia fazer. Aluna A: A maior parte das vezes, o Conselho Executivo só vê a atenção do professor, porque o professor é que manda dentro da sala, o professor é que tem sempre razão. Mas a DT está sempre a dizer-nos: Nunca respondam, senão perdem logo a razão. E ele tem sempre aquela coisa de responder… Aluna B: Mas é para se defender. Aluna A: Mas a gente, quando sabe que a setora está errada, a gente fala com ela. Aluna B: Mas ela, mesmo assim, tem uma implicância com ele. Hás-de reparar que é sempre com ele. Já há bocado viste que a setora, dentro da sala, estava a dizer: Ah, nós demos a matéria, mas tenho a certeza que ele depois na aula vai dizer que nós não demos matéria nenhuma! … Só para implicar. Aluna A: E ele não disse nada. Entrevistador: Pronto, mas é pontual; é um aluno com uma professora. Não é nada que se generalize à turma toda. Aluna A: E mesmo se houver conflitos entre nós, normalmente nunca levamos isso para a sala de aula. Entrevistador: Óptimo. Revela maturidade da vossa parte. Vocês conhecem bem as regras de funcionamento da escola? Aluno X: Sim. Entrevistador: E as regras de funcionamento da turma? ... Há? Aluna A: Há. Aluno X: Algumas. Aluna A: É preciso é respeitá-las. Entrevistador: Há algumas… mas há regras? E todos conhecem, professores e alunos? Aluno X: As regras básicas… Não comer e coisas assim. (risos) Aluna B: Não falar, enquanto o professor fala. 312 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Entrevistador: Não fizeram o que se costuma chamar contrato pedagógico? Definirem vocês próprios as vossas regras… Aluna A: A gente, o ano passado, fez em Formação Cívica. Fizemos, começámos a fazer o ano passado… não te lembras? Este ano, não fizemos. Aluna B: Eu até tenho isso no portefólio. Entrevistador: Mas todos tiveram conhecimento ? Até os vossos professores? Alunos: Sim. Aluna B: Até fizemos uma cartolina. Aluna A: Sim, fizemos uma cartolina. Ah, este ano fizemos uma cartolina com todas as regras. Aluna B: E tinha de andar sempre connosco, no nosso portefólio. Entrevistador: E vocês recorrem constantemente, ou não? (risos) Entrevistador: O que é que vocês fazem para garantir a disciplina? A disciplina… o comportamento. Aluno X: Não estarmos sentados ao pé dos nossos colegas por causa da conversa. Entrevistador: Evitam estar junto de amigos, de colegas, que sabem que podem suscitar um conflitozito qualquer. Têm planta de sala de aula? Aluna B: Já usámos mais. Aluna A: A algumas disciplinas, a gente ainda… Aluna B: A Francês. Aluna A: Ya, a Francês. Aluna B: Mas a Físico-Química, por exemplo, nós ficávamos ali, habituámo-nos a estar ali… Agora, já… Entrevistador: já não saem dali. Aluna A: Eu estava ao pé de uma colega que, normalmente… E agora estou ao pé dela. Ela não fala, eu também não falo. (risos) Aluna B: Se não, leva logo uma chapadona. 313 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Entrevistador: Em questão à assiduidade e à pontualidade, a turma tem algum problema para destacar, ou nem por isso? Aluna B: Alguns têm. Aluno X: Só há alguns colegas que… Entrevistador: Faltam às aulas? Faltam muito? Aluna A: Não, faltar, não… chegam atrasados. Entrevistador: Pontualidade é que é problema. E fazem alguma coisa para resolver isso? Aluna A: A DT está sempre a dizer para não repetir, senão para a próxima… Entrevistador: Ainda não te ouvi foi nada… Achas que consegues aprender melhor, estando numa turma Fénix? Aluno Y: Sim. Entrevistador: E os restantes? Aluno X: Eu também. Aluna A: Para mim, sim. Entrevistador: É mais fácil aprender quando integram os ninhos? ... Já percebi. (dirigindo-me à aluna A, atendendo ao que ela tinha previamente relatado) Aluna A: Na minha opinião, não. Aluna B e aluno Y: Mais ou menos. Entrevistador: Mais ou menos… explica lá o que é isso. Aluno Y: Depende da forma do professor explicar. Aluna B: Por exemplo, aquele professor pode dar bem aquela matéria, mas o outro já pode dar melhor outra matéria. Entrevistador: E pertencer a uma turma com estas características, faz com que se sintam mais autónomos? Aluno X: Sim. Entrevistador: Ou solicitam com mais frequência a ajuda dos professores? Aluna B: Não. Claro que nós dizemos sempre ao professor as nossas dúvidas. Somos menos… 314 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Entrevistador: Quando estão nos ninhos? Aluna A: Sim, mas há sempre aquela comparação, que a gente não gosta muito. Entrevistador: Explica lá isso melhor, para eu perceber. Aluna B: Por estarmos na turma… somos menos que os outros; somos, entre aspas, mais burros. Aluna A: É, e também… Entrevistador: Mas quem é que vos disse isso? Aluna A: E há aquela comparação de que lá por estarmos no projecto, é porque temos de… Aluna B: Temos de o aproveitar. Aluna A: A gente aproveitar, até aproveita; só que… como é que hei-de dizer? Falta-me a palavra… Entrevistador: Deixa lá ver se eu consigo traduzir isso… Vocês pensam que os outros _ neste caso, professores e alunos _ vos cobram o facto de pertencerem a uma turma do projecto Fénix? Fazem-vos sentir diferentes? Aluno X: Eu acho que não. Aluna A: É só mesmo um professor que faz, assim, a comparação. Agora, os restantes, não. Aluna B: Tanto que a nossa DT diz-nos: Vocês, só por estarem no projecto, não quer dizer que vocês sejam burros. Vocês não são burros! Simplesmente, estão cá na escola, mas querem outra coisa… querem ir trabalhar e não querem estar aqui, querem ir fazer outras coisas. Em Área Projecto, fizemos o trabalho de Azambuja, de A a Z, e a DT diz que nós fizemos o trabalho com satisfação; estávamos ali a trabalhar e não sei quê… Gostamos mais de estar a fazer coisas práticas do que estarmos a escrever, ou… Aluna A: Tanto que começaram-nos a dar mais trabalhos do que praticamente testes. Entrevistador: Ah! Uma forma de avaliar, um instrumento de avaliação novo. Aluna A: Sim, quando tirávamos negativa num teste, o trabalho era uma forma de ajudar. Entrevistador: É uma forma de demonstrar conhecimentos. Aluna A: E sempre houve trabalhos muito bons. 315 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Entrevistador: E as vossas expectativas? Quais são? O projecto é pensado para garantir que alunos concluam um ciclo de estudos; neste caso, que vocês concluam o terceiro ciclo. Quais são as vossas expectativas? O que pensam para o vosso futuro, depois de concluir o nono ano? Aluna B: Até ao décimo segundo ano. Entrevistador: Vais continuar? Aluna B: Não penso ir para a faculdade… Aluna A: Eu quero… Aluna B: Eu sei que isso rouba tempo… E há aí cursos, tira-se cursos… Entrevistador: Estás a falar do quê? Dos profissionais? Aluna B: Sim. Entrevistador: E tu? Aluno X: Eu vou até ao décimo segundo ano, e depois não sei se vou para a universidade, ou não. É um caso a decidir. Entrevistador: Mas gostavas mesmo de ir até ao décimo segundo? Aluna B: Isso não é gostar; tem mesmo de ser, porque agora é obrigatório. Nós entrámos no sétimo ano, foi obrigatório… Entrevistador: Sim, sim. A escolaridade obrigatória até aos dezoito anos, até ao décimo segundo. E… e agora perdi-me… Queria continuar uma coisa que ele estava a dizer… Aluna B: A universidade, setora. Entrevistador: Pois. Ele estava a dizer que queria concluir o décimo segundo ano… Mas, a tua expectativa é com concluir no ensino regular, se lhe podemos chamar assim, ou também como ela disse de seguir um profissional. Aluno X: No regular. Entrevistador: E perspectivas de cursos superiores? Têm alguma ideia do que gostariam, ou ficam pelo décimo segundo? É décimo segundo e acabou.. É? Vocês os dois. Aluna A: Eu tenho. Entrevistador: Diz lá. Quais são as tuas expectativas? 316 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Aluna A: Ou escolhia engenharia… não sei, há tantos cursos bonitos, mas… eu gosto muito de medicina, mas… Aluna B: São cursos muito bonitos, mas é preciso marrar muito! Entrevistador: É preciso muito trabalho, muito sacrifício… pois é. Mas é uma expectativa! Aluna A: É… Entrevistador: Não me admirava agora que um deles ou uma de vocês dissesse a minha expectativa é ser presidente da república… Porque não? Aluna A: Seria a primeira mulher. Entrevistador: Em primeiro ministro, já houve… Pintassilgo, era o seu apelido. Aluna B: Veterinária… Eu gosto muito de animais. Entrevistador: Então… e é pensar assim; não é ficar…uh, uh… E tu, quais são as tuas expectativas? Aluno Y: É ir até ao décimo segundo. Aluna A: Ele quer ser futebolista. Entrevistador: E então?! Mas sabes que até aos futebolistas é exigido uma parte de… escola. Mas, espera aí… para que clube? Aluno Y: Isso agora… Aluna A: Para o Benfica. Entrevistador: Pronto… já estragou a conversa toda. Aluna A: Se não é para o Benfica, é para o Real Madrid, para o Barcelona. Entrevistador: Pois claro. Sim senhor… Aluna A: Tanto que eu já tinha falado com a [nome de uma colega] para irmos as duas para a tropa. Entrevistador: É? Aluna A: É, nós temos de ir. Entrevistador: Para que ramo das Forças Armadas? Aluna A: Pelo menos um dia tens de lá estar [conversa cruzada com os presentes ]. 317 Projecto Fénix. À descoberta dos sentidos e das práticas promocionais de sucesso. Entrevistador: Marinha, Força Aérea… Aluna A: Era só mesmo para experimentar. Temos de ir à recepção, agora é obrigatório. Aluno X: Mas nem todas vão. Aluna A: Não, não. Desculpa lé, mas pelo menos um dia a gente tem que lá ir. Aluno X: Tens que ir lá levar os teus papéis, e só depois é que te dizem se és escolhida ou não. Aluna A: Isso, não sei. O que eu ouvi dizer é que temos de lá ficar pelo menos um dia. Entrevistador: Da minha parte, só tenho a agradecer, e muito, o vocês terem colaborado e a disponibilidade para responderem a estas questões. Se quiserem dizer mais qualquer coisa, relativamente ao projecto Fénix… por exemplo, o trabalho e a maneira de estar da vossa directora de turma. Não querem dizer nada sobre isso? Aluna A: A nossa directora de turma é um espectáculo, apoia-nos em tudo; mas quando tem de ralhar, ralha. Aluna B: Mas com razão. Entrevistador: Sim senhor. Não querem dizer mais nada? Não? Está tudo? Pronto… resto de um dia bom. Duração: 35m 27s 318