Universidade Gama Filho
O TRABALHO DOS COMANDANTES DE GRANDES JATOS: UM ESTUDO SOBRE APTIDÃO FÍSICA, SAÚDE E QUALIDADE DE VIDA Alexandre
Palma
Instituto de Educação Física da UGF
RESUMO
PALMA, Alexandre.
O trabalho dos
c o m a n d a n t e s de grandes jatos: um estudo sobre
aptidão física, saúde e qualidade de vida. Artus
- Rev. Ed. Fís. Desp., v. 18, n. 1, p. 38-52,
1998. A p e s a r da e v o l u ç ã o dos p r e s s u p o s t o s
teóricos da e d u c a ç ã o física em direção a uma
p e r s p e c t i v a crítica, as i n t e r v e n ç õ e s desta no
âmbito das relações de trabalho ainda
manifestam-se c o m o um processo que se
estabelece nos fenômenos biológicos de causa e
efeito. O objetivo do presente estudo foi, então,
o de investigar c o m o as relações de trabalho dos
pilotos de grandes jatos podem gerar
i n s a t i s f a ç õ e s , p r o b l e m a s de s a ú d e , piora na
qualidade de vida, deterioração na condição física
etc. e discutir o papel da e d u c a ç ã o física nesse
contexto. Para isto, questionam-se os conceitos
de a p t i d ã o física, s a ú d e e q u a l i d a d e de vida;
realiza-se um l e v a n t a m e n t o das c o n d i ç õ e s e
o r g a n i z a ç ã o do trabalho; e, por fim, discute-se
criticamente o papel da atividade física e do lazer
na m e l h o r i a da produtividade, da satisfação no
trabalho, b e m c o m o , da qualidade de vida numa
p e r s p e c t i v a da " S a ú d e do T r a b a l h a d o r " . Ao
apontar as doenças e as insatisfações, foi possível
c o n s t a t a r q u e a o r g a n i z a ç ã o do t r a b a l h o do
aeronauta reflete negativamente sobre seu corpo,
sua s a ú d e e q u a l i d a d e de vida e que a atuação
do educador físico reside na educação crítica dos
problemas da corporeidade.
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Unitermos: saúde do trabalhador, aeronauta,
aptidão física e produção humana, qualidade de vida.
Introdução
De um m o d o geral, os estudos sobre o
processo saúde-doença, na perspectiva do
trabalho, incidem sobre as análises em função das
respostas não específicas a qualquer demanda feita
sobre o organismo, que " m o d e r n a m e n t e " são
conhecidos como estresse, reduzindo o e x a m e
criterioso das categorias sociais e distanciando-as
de uma percepção da totalidade historicamente
determinada.
O pensamento clássico sobre o processo
s a ú d e - d o e n ç a reside no entendimento dos
fenômenos biológicos e ocupa-se das relações de
causa e efeito, estatisticamente comprovadas, ou
seja, dos c o n d i c i o n a n t e s f í s i c o s , q u í m i c o s ,
psicológicos ou biológicos que p o d e m causar as
doenças. M e s m o no campo que estuda a saúde
desde a perspectiva do trabalho, esta corrente de
pensamento tem se mantido hegemônica.
Tal como uma categoria social, o trabalho
deve, diferentemente, ser tratado conforme parte
constitutiva da dimensão humana. Assim, o campo
de estudo da Saúde do Trabalhador é a ação
desenvolvida para resgatar a condição humana do
trabalho, através da compreensão do processo
saúde-doença, construído no espaço da saúde
pública e concatenado aos interesses e direitos dos
próprios atores sociais.
Artus - Rev. Ed. Fís. Desp., v. 18, n. 1, p. 38-52, 1998.
ARTUS
O plano teórico de análise, neste ensaio,
abrange as questões inerentes à aptidão física, à
saúde e à qualidade de vida dos comandantes de
grandes jatos da aviação civil brasileira, sob a
compreensão dos eventos originados das relações
sociais, configurados historicamente.
Os termos aptidão física, saúde e qualidade
de vida são de difícil conceituação, principalmente
porque seus entendimentos permitem diversas
acepções. Os critérios para defini-los não são
uniformes e variam de acordo, entre outros fatores,
com a área do conhecimento humano e com a visão
de mundo que ora se aplica às definições, ou ainda,
com os objetivos específicos e preestabelecidos.
Apesar disto, vislumbra-se a possibilidade de
estudar estes aspectos na relação com o processo
de trabalho dos pilotos, a partir de várias disciplinas
que se ocupam do assunto, evitando, contudo, cair
em reducionismos de ordem biológica, psicológica
ou sociológica.
E s t e e s t u d o tem, e n t ã o , o objetivo de
investigar como as relações de trabalho dos pilotos
de g r a n d e s j a t o s p o d e m gerar insatisfações,
problemas de saúde, piora na qualidade de vida,
deterioração na condição física etc. e qual o papel
da educação física nesse contexto.
Deste modo, busca-se, num primeiro
momento, discutir os conceitos de aptidão física,
saúde e qualidade de vida, b e m como engendrar
um referencial teórico para o estudo em questão.
Uma segunda parte consta de um
levantamento das condições e organização do
trabalho dos comandantes de grandes jatos e suas
repercussões sobre o corpo humano.
Na terceira parte propõe-se estabelecer a
relevância da educação física para com a promoção
da saúde e melhoria da qualidade de vida dos
pilotos, numa perspectiva crítica.
Por fim, cabe atentar para o perigo da busca
de modelos estratégicos com o fim de aumentar a
produtividade ou melhorar a satisfação no trabalho,
ou ainda esquemas de causalidades por associação
Artus - Rev. Ed. Fís. Desp., v. 18, n. 1, p. 38-52, 1998.
de fenômenos quantificáveis. Decerto, não se
encontrará esta preocupação neste ensaio. Pelo
contrário, tentar-se-á contextualizar, criticamente,
a condição humana dos aviadores e buscar, não uma
solução, mas um processo educacional com o intuito
de contribuir para a melhoria da saúde e da qualidade
de vida.
Aptidão física, saúde e qualidade de vida
O t e r m o aptidão física é m u i t a s vezes
compreendido (Leite, 1985; Clark, citado por
Barbanti, 1990) como a capacidade requerida ao
indivíduo para que este realize suas tarefas rotineiras.
Assim, as situações do dia-a-dia, especialmente as
físicas, exigem adaptações morfo-fisiológicas que
atendam a um mínimo necessário para a realização
destas tarefas. Neste sentido, refere-se ao estado de
condicionamento físico que determina se o indivíduo
está apto a realizar uma determinada atividade.
Bouchard et al. (1990) explicam que a aptidão
física, como definida pela Organização Mundial da
Saúde, é a habilidade para desempenhar um trabalho
muscular satisfatoriamente, c o m p r e e n d e n d o a
resistência cardiorrespiratória, a força muscular, a
resistência musculai" e a flexibilidade, e é determinada
por diversas variáveis, tais como a prática regular de
atividade física, a dieta e a hereditariedade, entre outras.
A aptidão física é comumente relacionada à
s a ú d e (Blair, 1 9 9 3 ; B o u c h a r d et al., 1990;
Paffenbarger, 1988), embora possa t a m b é m estar
associada aos fatores relacionados a habilidades
motoras (Nahas & Corbin, 1992; Faria Jr., 1991;
Barbanti, 1990). Assim, aspectos c o m o força,
resistência muscular, resistência aeróbia, flexibilidade
e composição corporal quando desenvolvidos
poderiam beneficiar, de alguma forma, a prevenção
às doenças. Todavia, um entendimento simplista
muitas vezes gera uma relação causal entre a aptidão
física e a saúde, de tal modo que Barbanti (1990,
p. 13) afirma:
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A aptidão física relacionada à saúde mede
a q u a l i d a d e da s a ú d e q u e p o d e ser
representada ao longo de um continuum em
q u e em um e x t r e m o o indivíduo estaria
doente,
acamado,
com
nenhuma
possibilidade de fazer qualquer atividade, e
de outro, ele estaria c o m u m a saúde ótima,
com grande capacidade funcional, em todos
aspectos da vida.
No m e s m o sentido, Paffenbarger, H y d e &
Wing (1990, p. 33) destacam que "as interações
entre exercício, aptidão, saúde e seus opostos
podem ser representadas pelas séries de razões:
ativo / sedentário; apto / não apto; saudável /
doente; vida longa / vida curta", caracterizando
assim, a conduta ingênua das associações de causa
e efeito.
De outra forma, a aptidão física tem sido
associada ao trabalho profissional, no sentido de
promover uma relação adequada entre ambos e,
assim, permitir melhores rendimentos no
desempenho ocupacional, aumentar a produtividade
industrial e diminuir o absenteísmo (Samulski &
Lustosa, 1996; Moreira, 1991; Shepard, 1990;
Astrand & Rodahl, 1987). Desta maneira, esse
" e s t a d o d e c o n d i c i o n a m e n t o " d e v e r i a ser
melhorado, de tal forma que seu nível representasse
uma capacidade ótima para a realização do trabalho,
de acordo com as exigências da produtividade.
Decerto, o quadro teórico que representa
estas concepções é frágil e pobre, uma vez que se
reduz ao paradigma dos fatores biológicos e tenta
interpretar os fenômenos sociais pela soma dos
fatos singulares, bem como sustenta uma essência
funcionalista, devido ao seu caráter de causalidade.
C o n t u d o , é razoável sustentar que o
sedentarismo é considerado um dos fatores de risco
à saúde do h o m e m moderno. Sua manutenção
facilita o aparecimento de doenças e distúrbios que
p o d e m l e v a r até à m o r t e . A s d o e n ç a s
cardiovasculares, responsáveis pela principal causa
mortis no Brasil em 1988 (Chor et al., 1995), a
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obesidade e a osteoporose são alguns exemplos
(Pollock & Wilmore, 1993).
A prática de exercício físico regular pode,
então, contribuir para reduzir a morbidade e a
mortalidade, exercendo um efeito benéfico sobre a
saúde e qualidade de vida do homem (Borms, 1991;
Costa, 1991).
Todavia, é c o m c a u t e l a que se d e v e m
interpretar estes dados, pois sua exacerbação não
é, inevitavelmente, verdadeira. Assim, as afirmações
de Barbanti (1990) e Paffenbarger et al. (1990)
citadas anteriormente não refletem essas evidências,
uma vez que "níveis elevados não significam,
necessariamente,
melhor saúde"
(Nahas
&
Corbin, 1992, p. 49) e, pelo contrário, p o d e m até
provocar eventuais prejuízos à própria saúde, fato
corroborado por Faria Jr. (1991).
Focalizando o processo rendimentoprodução e pautando-se na referência ao gasto
energético e em seu "controle" - que, como b e m
delineou Breilh ( 1 9 9 1 , p. 79) "incrementa o
potencial produtivo,
aumentando o potencial de
suas funções,
'reparando' seus danos" - a
educação física torna-se um tipo de saber-poder
que mobiliza e disciplina os homens em prol da
economia vigente, ainda que esta p r o m o ç ã o da
aptidão física com vias ao aumento da produtividade
seja discutível face às modernas tecnologias de
extração de mais-valia relativa.
Neste sentido, os sujeitos, c o m o aponta
Chanlat (1993), tornam-se apenas recursos, isto é,
quantidades materiais cujo rendimento deve ser
satisfatório do mesmo modo que os equipamentos
e instrumentos.
P o r outro l a d o , D e j o u r s ( 1 9 9 2 , p . 56)
constata um efeito paradoxal nesta práxis, pois "o
alívio
da
carga
de
trabalho permite
a
intensificação da produtividade. O que foi ganho
de um lado é perdido do outro". O problema não
é o aumento da produção em si, mas, decerto, o
aumento desta produção às custas do sofrimento
do trabalhador.
Artus - Rev. Ed. Fís. Desp., v. 18, n. 1, p. 38-52, 1998.
ARTUS
Assim, o entendimento da aptidão física
articula-se de tal modo ao contexto socioeconômico,
que deve inserir-se, no campo da intervenção
educacional, numa perspectiva crítica.
O conceito de saúde da Organização Mundial
da Saúde (OMS) é o de "um estado de completo
bem-estar físico, mental e social e não apenas a
ausência de doença ou enfermidade" (World
Health Organization, citado por Lewis, 1986, p.
1.100) e refere-se a uma compreensão estática e à
m a r g e m da sociedade em que se encontra. Além
disto, o que significa bem-estar? Lewis (1986, p.
1.100) afirma que este conceito é "uma forma
implícita de dizer que ninguém pode ser sadio ".
O termo é, ainda, entendido sob alguns
critérios, como por exemplo, negativos ou positivos.
Caso recorra-se a uma análise das medidas de
mortalidade e morbidade, não se identificará a saúde,
mas a "má-saúde", ou seja a medida negativa da
saúde; o m e s m o ocorre no processo de
"culpabilização" dos doentes.
Conceitos de n o r m a l i d a d e são t a m b é m
utilizados, muito embora recaiam nos critérios de
negatividade e positividade e apresentem
incompatibilidade entre o fenômeno, o normal e a
saúde. A obesidade, por exemplo, poderia ser um
padrão normal, mas não, necessariamente,
representar um estado saudável.
Um certo rompimento com estes enfoques
reconstrói-se a partir de um novo saber, que se
reflete numa efetiva interação social - algo que
represente uma capacidade de agir e reagir, uma
possibilidade de transformação social, um
f o r t a l e c i m e n t o da r e f l e x ã o c r í t i c a s o b r e o
pensamento em saúde. Nesta perspectiva,
desenvolvem-se análises do processo saúde-doença
sob a conjuntura socioeconômica vigente e tendese superar a dicotomia "social-biológico".
Na perspectiva da saúde, em seu campo de
e s t u d o saúde-trabalho, e n c o n t r a - s e a s a ú d e
ocupacional, que, através de uma ação multi­
disciplinar, busca intervir nos locais de trabalho, com
Artus - Rev. Ed. Fís. Desp., v, 18, n. 1, p. 38-52, 1998.
o objetivo de controlar os riscos ambientais, além
de a s s e g u r a r a p r o t e ç ã o dos t r a b a l h a d o r e s ,
adaptando-os às necessidades laborativas. Decerto,
o papel que esta cumpre é o de aumentar o potencial
produtivo e, para isso, há de se "consertar" a
mercadoria que é a força (humana) de trabalho. O
clichê sócio-político-econômico utilizado reconhece
os fatores sociais inerentes ao processo s a ú d e doença, mas o faz de forma causal, sob uma listagem
de causas e efeitos que estes possam formar. Esta
concepção, ingênua, engendra um modelo
funcionalista que anula o p a p e l da
multidisciplinaridade, muitas vezes dificultado pelas
lutas corporativistas, além de estar dissociada do
terreno da saúde pública.
Diferentemente, tratar da saúde do
trabalhador não é um problema semântico; é, antes,
uma questão importante para a superação do
quadro hegemônico que associa as pessoas ao
conjunto de recursos. "Dado o lugar central que
o trabalho ocupa em qualquer sociedade, parece
inegável que tem que ser um conceito chave em
qualquer tentativa estruturada de explicar as
origens sociais da doença" (Laurell, 1981, p. 9).
Neste contexto, o entendimento de saúde
enunciado no Relatório Final da VIII Conferência
de Saúde (1992, p. 10) é:
a resultante das condições de alimentação,
habitação, renda, meio ambiente, trabalho,
transporte, emprego, lazer, liberdade, acesso
e p o s s e da terra e a c e s s o a s e r v i ç o s de
saúde. É, assim, antes de tudo, o resultado
das formas de organização social da
produção, as quais p o d e m gerar grandes
desigualdades nos níveis de vida.
Assim sendo, saúde é, antes de tudo, um
direito de cidadania definido historicamente numa
determinada sociedade.
O entendimento do que seja qualidade de
vida é, de todos, o que se mostra mais frouxo. A
percepção de que a realização de exercício físico,
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a abstinência ao álcool e tabagismo, a alimentação
apropriada e o "controle" do estresse constituam
os paradigmas para a qualidade de vida é, sem
dúvida, uma visão reducionista e discriminadora das
possibilidades de vida do Homem.
Na tentativa de referendar este t e r m o ,
buscaram-se conceitos alternativos que, muitas
vezes, têm uma concepção aproximada. Assim, a
e x p r e s s ã o " p a d r ã o de vida", s e g u n d o Gould
(1986), designa: 1) as condições reais de vida dos
indivíduos, também descrito como nível de vida; 2)
a s c o n d i ç õ e s d e v i d a a s p i r a d a s por c e r t o s
indivíduos, mesmo que não possam desfrutá-las; e
3) as condições de vida normativas, definidas por
objetivos específicos e que servem para avaliação
da situação social e sua adequação às necessidades,
tais como estabelecimento de salários; jornadas de
trabalho; possibilidades de saúde, educação e lazer;
condições sanitárias e ambientais; além do consumo
de outros bens e serviços.
Samulski e Lustosa (1996, p. 60) explicam
que qualidade de vida "é o resultado das condições
subjetivas
de
um
indivíduo
nos
vários
subdomínios que compõem sua vida como, por
exemplo, seu trabalho, sua vida social, sua saúde
física, seu humor etc."
Devido à complexidade do sistema social,
depreende-se a necessidade de uma abordagem
c o n s t r u í d a no r e c o n h e c i m e n t o das situações
particulares dos atores sociais. Deste modo, Minayo
(1994, p. 26) pondera:
Aqui começa a tarefa de distinguir o fato
de que as condições de vida e de trabalho
qualificam de forma diferenciada a maneira
pela qual as classes e, no seu interior, os
grupos sociais específicos (segmentos de
classe, g ê n e r o , etários, grupos com
determinada experiência urbana, rural,
religiosa, de tradição, etc.) pensam, sentem
e agem a respeito da saúde e da doença.
... e por que não dizer da qualidade de vida?
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Um exemplo marcante refere-se às
investigações citadas por Minayo (1994), que, além
de terem causado impacto causado pelas péssimas
condições de vida das famílias que vivem nas ruas
do Rio de Janeiro, surpreendem pelo fato delas se
autoconsiderarem como saudáveis, quando eram
visíveis os problemas genéricos de saúde, tais como
problemas de pele, de agressão física, dentários,
de desnutrição, de distúrbios mentais e emocionais
- c o m o também é conhecido que, muitas vezes, um
indivíduo considera-se alfabetizado quando apenas
sabe escrever o próprio nome.
Tornam-se, assim, insuficientes estas
abrangências que apóiam-se nos d o g m a s dos
mecanismos biológicos e suscitam as idéias de
"biopoder" pelo qual tratou Foucault (citado por
R a b i n o w & Dreyfus, 1995, p. 148): "Seria
necessário falar de
'biopoder' para designar
aquilo que faz entrar a vida e seus mecanismos
no domínio dos cálculos explícitos e faz do podersaber um agente de transformação da vida
humana." Esta idéia surge numa referência às inter­
relações entre o saber biológico e o poder e que
proliferam sob o argumento de tornar os indivíduos
saudáveis e protegidos.
De outro modo, cabe citar Breilh ( 1 9 9 1 , p.
43), numa analogia ao conceito ultrapassado de
epidemiologia:
A "velha" epidemiologia obedece aos
fundamentos empírico-funcionalistas de
uma atuação científica que é exercida,
consciente ou inconscientemente, de forma
a beneficiar os setores atrasados de nossas
sociedades. Aborda os princípios da
causalidade e distribuição em seus efeitos
aparentes, mede e correlaciona tais efeitos
para conhecer o estado ou potencialidade
funcional da população, para detectar a
prevalência de alterações orgânicas ou
psíquicas que transtornam sua produtividade
e para estabelecer bases mínimas de
proteção dos grupos produtivos. É uma
Artus - Rev. Ed. Fís.Desp.,v. 18, n. 1, p. 38-52, 1998.
ARTUS
epidemiologia que atua segundo normas de
eficiência e efetividade, d e l i m i t a d a s de
acordo c o m as necessidades de desenvol­
vimento do grande capital.
Por outro lado, o referencial teórico proposto
f u n d a m e n t a - s e n u m a p e r s p e c t i v a crítica d e
interpretação da realidade.
Enfim, a aptidão física, a saúde e a
q u a l i d a d e de v i d a d e v e m ser consideradas em
função das condições socioeconômicas
envolvidas, da problemática de saúde
d e s e n v o l v i d a p e l a s r e l a ç õ e s de t r a b a l h o e
p r o d u ç ã o e os fatores culturais e políticos.
Condições e organização do trabalho
Os fenômenos determinantes do processo
s a ú d e - d o e n ç a , emergentes da relação s a ú d e trabalho, d e v e m sofrer uma análise a partir das
condições e da organização do trabalho. Todavia,
torna-se pobre considerar estes conceitos
isoladamente, como se um não interagisse com o
outro, embora, por razões didáticas, opte-se por
utilizar os conceitos definidos por Dejours (1992).
As " c o n d i ç õ e s de t r a b a l h o " p o d e m ser
compreendidas como todas e quaisquer propriedades
biológicas, físicas ou químicas que possam intervir
no ambiente de trabalho. A temperatura, pressão,
vibração, umidade, gases tóxicos, fungos,
características ergonômicas do posto etc. são alguns
exemplos de condições de trabalho.
Por "organização do trabalho" entende-se a
divisão social do trabalho, sua organização quanto
à distribuição de tarefas, designação hierárquica,
relações de apropriação, enfim, o modo pelo qual
se realiza o trabalho.
O piloto submete-se a toda série de condições
adversas de trabalho. Estas condições, isoladamente,
parecem já contribuir para a deterioração da saúde
e qualidade de vida destes profissionais. Todavia,
Artus - Rev. Ed. Fís. Desp., v. 18, n. 1, p. 38-52, 1998.
compreende-se que é na inter-relação entre estas
condições e, sobretudo, entre essas e a organização
do trabalho que poder-se-á investigar, entre outras
atribuições, o processo s a ú d e - d o e n ç a , em seu
campo saúde-trabalho; verificar a problemática da
saúde de acordo com a divisão social do trabalho;
b e m como, fomentar as reais necessidades de
intervenção na área de "Saúde do Trabalhador".
As vibrações são fatores físicos provenientes
do deslocamento da aeronave - e de seu atrito com
o ar -, das turbulências e do funcionamento dos
motores. Os grandes jatos parecem sofrer u m a
influência menor deste fator, mas segundo o DIESAT
(1995) p o d e m favorecer o a p a r e c i m e n t o de
tonturas, mal-estar e vômitos, ou até provocar
alterações visuais, nos sistemas neuromuscular ou
nos sistemas vasculares. Problemas na coluna
vertebral, também, foram sugeridos como
influenciados pelas vibrações.
O ruído, como um som desagradável ou
indesejável, pode ser prejudicial tanto à audição,
como acarretar uma série de outros fenômenos, tais
como taquicardia, elevação da pressão arterial,
cefaléia, ansiedade, redução da libido, fadiga, entre
outros (Gomes, 1989). O DIESAT (1995) destaca
que o ruído parece ter uma influência maior em
problemas como insônia, irritabilidade e o que se
denominou de "fadiga de vôo".
A baixa pressão atmosférica, e a conseqüente
rarefação do ar no interior da aeronave, pode
prejudicar a oxigenação sangüínea. A umidade
relativa do ar, também alterada, mantém-se em
níveis muito baixos. Esses fatores, conforme D'Acri
(1991), contribuem para o surgimento de sensações
de cansaço, sono, irritabilidade, ressecamento da
pele etc. Coelho, citado por DIESAT, (1995, p. 6)
sugere que "a profissão dos aeronautas tem sido
associada com litíase renal (cálculo renal), o que
tem sido relacionado à exposição a baixa
umidade relativa do ar, associada a condições
de sedentarismo, impostas pela própria atividade
de trabalho".
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As jornadas noturnas e as realizadas de
madrugada, segundo Ribeiro et al. citados por Assis
e Palma (1995), são apontadas como aquelas que
mais geram influências sobre o corpo do aeronauta
e parecem contribuir para aumentar o quadro de
fadiga geral.
Outros fatores, tais c o m o exposições a
radiações, variações de temperatura, transposição
de fusos horários, posições desfavoráveis ao
repouso, t a m b é m concorrem para aumentar os
riscos à saúde.
C o m sua extraordinária sensibilidade para
investigar as questões pontuais em saúde do
trabalhador, Laurell (1987) indica que há, contudo,
de se c o m p r e e n d e r sob que o r g a n i z a ç ã o do
trabalho desenvolvem-se estas condições.
A organização temporal do trabalho do
aeronauta, pela sua própria particularidade, é regida
por escalas distribuídas no início de cada mês, em
uma antecedência mínima de dois dias, com a
programação de todos os vôos a serem realizados,
e estabelecendo, ainda, o trabalho em turnos, os
sobreavisos e as folgas. A partir desta mesma escala
é possível, também, estimar a remuneração do
trabalhador.
S e g u n d o a C o n v e n ç ã o Internacional para
Aviação Civil, citada por D I E S A T (1995), o
estabelecimento da quantidade de horas de vôo
e sua relação c o m o repouso deve ter a finalidade
de r e d u z i r a fadiga, c o n s i d e r a n d o - s e , neste
sentido, tanto a fadiga "transitória" do período
normal de trabalho, quanto a fadiga "cumulativa"
causada pelo descanso insuficiente. Contudo, é
interessante ressaltar que o profissional que
elabora as escalas, d e n o m i n a d o " e s c a l a n t e " , é
desqualificado para a função, pois a ele não
caberia apenas ordenar os vôos para cada piloto
e avião, mas sim fazê-lo em função dos
conhecimentos de psicologia, sociologia, fisiologia
e, principalmente, em respeito aos interesses dos
a e r o n a u t a s . A l g u m a s falas d o s a e r o n a u t a s
apontam isto:
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o pessoal da aviação, em geral, começa a
apresentar uma certa dificuldade de
relacionamento social, tanto em família
quanto fora dela, porque normalmente você
não está presente nas atividades sociais
normais, isto aí é um fator de desequilíbrio.
Você não c o n s e g u e manter um
relacionamento pleno no lugar em que vive.
(Assis & Palma, 1995, p. 108)
fazer um vôo para os EUA de quatro ou
cinco dias e depois de um ou dois dias de
folga, fazer outro vôo para os EUA ou
Europa, chegando a um total de duas
semanas sem vida familiar, fora o problema
do fuso. (Ferreira, 1992, p. 42)
Os p r i n c í p i o s de o p e r a ç ã o da a v i a ç ã o
estabelecem-se através das normas da companhia,
manuais do fabricante da aeronave ou
regulamentações de vôo. A hierarquia, que segue
um exemplo militar, confere uma disciplina rígida e
é entendida como necessária à boa segurança da
aviação.
Decerto, o discurso de validação da ideologia
do processo assenta-se na criação de valor, cujo
"tripé" é formado pela segurança, pela economia e
p e l o c o n f o r t o e no q u a l a c o l e t i v i d a d e de
trabalhadores, tais como comandantes, co-pilotos,
comissários, engenheiros de vôo, m e c â n i c o s ,
controladores de vôo e t c , está engajada na tarefa
de torná-lo possível.
O processo de trabalho na aviação está
cada vez mais automatizado e informatizado. Se
por um lado, este m o d o operatório pode
favorecer uma diminuição na carga de trabalho,
por outro, suscita novos p r o b l e m a s . K a n t o w i t z
& C a s p e r ( 1 9 8 8 , p . 158) c o r r o b o r a m tal
afirmação e citam: "a automação do flight-deck
(cabine de comando) oferece a oportunidade
para diminuir a carga de trabalho do piloto,
mas
é suficiente para
induzir ao
tédio,
aborrecimento e mesmo ao sono".
Artus - Rev. Ed. Fís. Desp., v. 18, n. 1, p. 38-52, 1998.
ARTUS
Wiener (1988) comenta que a automação,
num extremo, alivia a operação humana das altas
funções cognitivas. Todavia, reduz o h o m e m ao
estado de um mero "apertador de botões", tirandolhe o significado e a satisfação do trabalho: "hoje
em dia, a aviação perdeu muito desse encanto
porque ela é tão automatizada, o piloto tem até
pouca oportunidade de pilotar" (fala de piloto,
citada por Assis & Palma, 1995, p. 109).
A convivência c o m esta ambigüidade é
e x t r e m a m e n t e complicada e, talvez, sofrível.
Kantowitz & Casper (1988) sugerem que existe uma
relutância compreensível por parte dos pilotos em
permitir a automação do controle de suas operações,
pois, há muito recai sobre eles a responsabilidade
de operação e segurança, entretanto, sentem que,
também, poderiam ter o controle total da aeronave.
Da m e s m a forma, este quadro tecnológico
não exige mais o piloto habilidoso, e sim um
profissional ambientado às máquinas e instrumentos
informatizados e cada vez mais sofisticados, mesmo
que sem tanta perícia para voar.
Esta sensação de "coisificação", esta repressão
à dimensão humana do trabalho em que o piloto
começa a perder sua identidade de aviador para tomai­
se um operador de sistema altamente especializado, é
que acaba por engendrar um "estranhamento" na
atividade laborativa. Isto pode lhe causar uma certa
repulsa, um desconforto, uma insatisfação e
conseqüentemente repercutir em sua saúde.
Este m o d o de produção projeta uma
determinada forma de extrair mais-valia. E deste
m o d o que deve-se apreender os conhecimentos
necessários para estudar a saúde dos trabalhadores.
A produção no setor de transporte aéreo é,
normalmente, mensurada através dos "assentos­
quilômetros oferecidos e/ou utilizados"; "toneladas­
quilômetros oferecidas (ATK) e/ou utilizadas" e
"passageiros-quilômetros transportados".
Neste sentido, o operador econômico que, aqui,
se desenrola, manifesta o avanço tecnológico e suas
conseqüências na extração da mais-valia absoluta e
Artus - Rev. Ed. Fís. Desp., v. 18. n. 1, p. 38-52, 1998.
relativa, que não pode ser descartada por quem
investiga a saúde do aeronauta. A tabela 1 apresenta a
evolução do tráfego aéreo brasileiro. Indicadores de
produtividade são reportados na tabela 2 e demonstram
que, em 30 anos, a velocidade média dos vôos e o
número de passageiros aumentaram. Este fato pode
ser explicado pelos avanços tecnológicos nas
aeronaves, que tornaram-se mais velozes e com
maiores possibilidades de transportar passageiros e é
relevante, uma vez que, para empregar maior
velocidade, é interessante voar mais alto. Esta maior
altitude nos vôos também economiza combustível e,
como já foi mencionado, pode prejudicar a saúde dos
aeronautas.
E exposto, ainda, que há um aumento na
quantidade de assentos-quilômetros e toneladasquilômetros oferecidos por aeronauta empregado,
revelando um aumento no valor da produção para
cada trabalhador. A quantidade de horas voadas
por aeronauta parece flutuante. Nos anos 60 ela
sobe, depois apresenta-se em queda. Todavia, do
final dos anos 80 para os anos 90 mostra-se
aumentada. Estes indicadores traduzem o aumento
de produtividade por parte do t r a b a l h a d o r e
remetem a reflexões sobre a extração da mais-valia
absoluta e relativa.
Ao estudar a evolução do tráfego e da
p r o d u t i v i d a d e por c o m p a n h i a aérea p ô d e - s e
observar que existem pequenas diferenças entre elas
e entre o quadro geral brasileiro (Brasil, 1994).
O Yield por passageiro é, grosso modo, um
indicador do nível do preço da passagem média.
Um estudo sobre o Yield realizado em 1994 (Brasil,
1994), pelo Instituto de Aviação Civil, constatou
uma visível tendência à queda, que indica um
barateamento nos preços das passagens nas últimas
décadas. Contudo, concomitante à diminuição do
preço da p a s s a g e m , ocorre o a u m e n t o da
produtividade. Tal como indicara Marx (1983), e
quiçá bem atual, o barateamento da mercadoria, às
custas do aumento da força produtiva, acaba por
ser hostil ao trabalhador.
45
Universidade Gama Filho
Tabela 1 - Evolução do tráfego aéreo brasileiro (Doméstico e Internacional)
Tabela 2 - Indicadores de produtividade do transporte aéreo brasileiro (Doméstico e Internacional)
Fonte: modificado de Anuário de transporte aéreo ( 1994).
C o m base em uma análise econômica, que
levou em c o n s i d e r a ç ã o a p r o d u t i v i d a d e das
empresas - verificada a partir de indicadores de
rendimento por empregado ou por cada mil dólares
de custo laborativo, denominados ATK (Available
tonne-km) - e que comparou as companhias aéreas
da América do Sul, América do Norte e Europa
entre os anos de 1977 e 1987, foi possível a Costa
(1989) indicar que, utilizando-se o ATK por
empregado, as empresas da América do Norte,
seguidas pelas européias, aparecem como aquelas
com maior produtividade, em ambos períodos.
E n t r e t a n t o , q u a n d o a s e m p r e s a s são
comparadas pelo ATK por $ 1000 de custo laborativo,
ocorre que aquelas que utilizam o trabalho como um
recurso barato, apresentam um índice de produtividade
maior, o que, obviamente, também representa uma
maior exploração da força de trabalho. Deste modo,
as empresas da América do Sul figuram no topo das
46
mais produtivas, nos dois períodos estudados. A
companhia brasileira estudada, além disto, apresentou
um acentuado aumento na produtividade entre os dois
períodos analisados.
A partir desta consideração, compreende-se
melhor a lógica do processo produtivo que engendra
o processo de valorização e de extração de maisvalia na a v i a ç ã o e q u e é i m p r e s c i n d í v e l na
investigação da saúde do trabalhador.
Os aeronautas, ainda, são submetidos a toda
uma série de controles. Exames periódicos de
competência técnica e saúde são importantes para a
manutenção da carteira de vôo e podem contribuir
para elevar o desgaste do trabalhador. O exame de
saúde é r e a l i z a d o pelo C e n t r o de M e d i c i n a
Aeroespacial (CEMAL) e tem por finalidade verificar
as condições de saúde dos aviadores e afastá-los ou
aprová-los conforme o resultado. Este órgão do
Ministério da Aeronáutica inclui algumas proibições
Artus - Rev. Ed. Fís. Desp., v. 18, n. 1, p, 38-52, 1998.
ARTUS
específicas, tais como patologia do olho, doenças do
o u v i d o , disturbios de equilíbrio, alcoolismo,
d e p e n d ê n c i a às d r o g a s , epilepsia, infarto do
miocárdio, angina pectoris, diabetes melittus e outras.
Algumas doenças emergem neste contexto.
Longe de querer identificar suas causas previsíveis,
tentar-se-á discuti-las.
O impacto da combinação do ambiente com
a organização do trabalho sobre o corpo manifesta­
se a partir de doenças tipicamente capitalistas. O
quadro nosológico instaurado parece não ter muito a
ver com as doenças virtualmente esperadas como
efeitos do ambiente do trabalho. Deste modo, o
D I E S A T ( 1 9 9 5 ) , q u a n d o apresenta os dados
estatísticos sobre prevalência de invalidez permanente
entre os aeronautas, mostra que 23,47% dos casos
decorrem de cardiopatias; 2 0 , 4 1 % de problemas
audiovisuais; 19,39% de transtornos mentais; 12,24%
de A I D S ; 3,06% de câncer; 3,06% de problemas
motores; 2 , 0 4 % de problemas neurológicos e
16,33% de problemas outros ou ignorados.
N ã o se trata, porém, de negar os efeitos
nocivos que a altitude, a pressurização da cabine, o
ruído, as vibrações, a exposição a radiação etc.
podem engendrar ao corpo, mas sim de apreender
que o sofrimento do aeronauta decorre da totalidade
dos fenômenos ocorridos no processo de trabalho.
Assumir este ponto de vista implica questionar não
só os efeitos do a m b i e n t e , m a s t a m b é m , e
principalmente, não dissociá-los da organização do
trabalho.
Dados do C E M A L (Centro de Medicina
Aeroespacial) citados por D' Acri (1991) revelam que
o maior percentual de causas de incapacidade ao
trabalho decorrem de problemas psiquiátricos. Esta
mesma autora aponta o cansaço físico e a irritabilidade
como os sintomas e sensações mais percebidos pelos
aeronautas entrevistados.
Ferreira (1992), ao identificar as possíveis
repercussões negativas da organização do tempo de
trabalho a partir de dez itens segundo as opiniões
dos comandantes, encontrou a seguinte ordenação e
Artus - Rev. Ed. Fís. Desp., v. 18. n. 1, p. 38-52, 1998.
porcentagem: vida social (79,6%); vida familiar
(65,3%); saúde física (46,9%); sono (46,9%); humor
(40,8%); peso (28,6%); relacionamento sexual
(22,4%); saúde mental (16,3%); outros fatores
(10,2%); apetite (10,2%) e sem repercussão (8,2%).
Ora, o que se questiona, aqui, é se cada um destes
fatores não referem-se, eles próprios, à saúde.
O alcoolismo tem sido reportado como um
problema sério que afeta a saúde dos aeronautas, a
p o n t o de ser um dos p r i n c i p a i s m o t i v o s de
afastamento do trabalho no Brasil (D'Acri, 1991)
ou ser atribuído como um fator encontrado em 10%
dos acidentes aéreos fatais ( E d w a r d s , 1990),
embora Ferreira (1992) tenha verificado, na fala de
um piloto, a afirmação categórica de que o uso de
bebidas alcoólicas durante o vôo não ocorresse.
Segundo Assis & Palma (1995), em estudos
r e c e n t e s d e s e n v o l v i d o s p o r M o r e i r a et al,
"detectou-se que a obesidade foi encontrada em
mais de um terço dos avaliados e 72%
apresentavam adiposidade acima de 15% do
peso corporal. A inatividade física apareceu em
53,85% da amostra". Por outro lado, A m o r i m
(1995) cita que os valores médios de colesterol total
encontrados em comandantes foram de 222,8
mg.dl e da fração LDL, de 147,4 mg.dl , quando
os valores desejáveis estão, respectivamente, abaixo
de 200 e 130.
-1
-1
Parece, enfim, que este mosaico de condições
e organização de trabalho engendra sobre o corpo
todas suas mazelas. Aquilo que se atribui como
"fadiga de v ô o " é, então, um m o d o operatório de
trabalho que, sob certas condições, repercute contra
a integridade corporal do trabalhador.
Aptidão física para quem?
Há muito vem se tentando estabelecer alguma
relação entre atividade física e trabalho, ou, mais
precisamente, em relação à produtividade. Exemplo
marcante foi o surgimento de laboratórios de
47
Universidade Gama Filho
fisiologia do trabalho que forneciam suporte
científico ao processo de produção que se instalava.
A l é m disso, alguns autores confiam que
exista u m a certa capacidade física adequada ao
desgaste proveniente do trabalho. Muitas vezes
b a s e a d o s na teoria do estresse de Hans Salye,
acreditam que a aptidão física possa constituirse em um fator para evitar o a p a r e c i m e n t o de
acidentes de trabalho, para a u m e n t a r a
produtividade, ou, ainda, minimizar o desgaste
l a b o r a t i v o . Tanto A s t r a n d & Rodahl (1987)
quanto Moreira (1991) sugerem esta relação, da
qual se d e d u z que se o trabalhador estiver mais
c o n d i c i o n a d o f i s i c a m e n t e , m e n o r será seu
desgaste.
A l g u m a s e m p r e s a s p a r e c e m já ter
incorporado o discurso impregnado de vantagens
advindas do exercício físico. A IBM, a Ishibrás, a
Shell, a Mercedes Benz, o Banespa, entre outras,
investem e recomendam a aptidão física aos seus
funcionários. Na aviação, já no final da década de
20, quando foi criado o curso de formação de piloto
militar no Brasil, era obrigatória a aprovação em
exames de capacidade física. E se atualmente a
aptidão física não é um fator obrigatório ao piloto,
muitas vezes surge como uma indicação para vencer
o cansaço. Assim, Stone & Babcock (1988), D'Acri
(1991) e Teixeira (1995) corroboram tal afirmação,
revelando a busca dos aeronautas por estratégias
contra os fatores agressivos.
Deste modo, a atividade física regular poderia
favorecer a diminuição ou até evitar aquilo que
denominou-se de "fadiga de vôo". Mas será mesmo
que ela teria esta propriedade?
N u m a relação causal, admitir-se-ia que a
fadiga pode originar-se da falta de aptidão física.
Todavia, no processo de trabalho, ela emerge num
contexto de exploração da força de trabalho que
necessita ser apreciado.
S e r á q u e a s e s c a l a s c o n t u r b a d a s dos
aeronautas lhes permitem realizar uma atividade
física regular? Ou ainda, será que um indivíduo
48
esgotado fisicamente pelo trabalho pensa em fazer
exercícios físicos ao c h e g a r em seu destino
temporário?
A educação física, então, como uma prática
intervencionista, não p o d e tentar ocultar os
problemas corporais gerados nas relações de
trabalho, não pode, também, negá-los e deve, sim,
no âmbito de suas contradições, construir um
p r o c e s s o e d u c a t i v o que d e s p e r t e p a r a estes
problemas, um processo de desalienação dos atores
sociais que traga à tona a exploração do trabalho.
Não se trata, pois, de p r o g r a m a s de
c o n d i c i o n a m e n t o físico para a u m e n t a r o
rendimento físico, prevenir o a p a r e c i m e n t o de
d o e n ç a s cardíacas, diminuir o p e r c e n t u a l de
gordura, ou mesmo, de atividades recreativas ou
de lazer próprias para desviar a a t e n ç ã o dos
trabalhadores.
Significa, ao contrário, auxiliar os
trabalhadores a r e c o n h e c e r e m seus direitos, tal
como sugeriram Mendes & Dias (1991): o direito
à informação sobre os riscos, sobre os m o d o s
de intervenção etc.; o direito à recusa ao trabalho
em condições perigosas à vida ou à s a ú d e ; o
direito à consulta prévia antes de m u d a n ç a s de
tecnologia, métodos, formas de organização e t c ;
e o direito de participação nas d e c i s õ e s dos
processos de saúde, de segurança, de educação,
d e lazer e t c
O papel social do educador físico que trabalha
com promoção da saúde é, antes de tudo e sobretudo,
apontar criticamente o que concorre para fazer
despontai" as falências físicas ou agravos à saúde.
A fadiga e a doença não podem, então, ser
c o m p r e e n d i d a s e tratadas t ã o - s o m e n t e pelos
aspectos biológicos. A injunção sócio-político­
econômica faz-se, aqui, obrigatória. A educação
física, ao tentar explicar, através da fisiologia do
esforço, o processo saúde-doença, comete um
"erro" que, de fato, significa um "fracasso produtivo",
pois não consegue dar conta de abarcar este
complexo processo.
Artus - Rev. Ed. Fís. Desp., v. 18, n. 1, p. 38-52, 1998.
ARTUS
Enfim, o educador físico deve privilegiar o
d e s e n v o l v i m e n t o da c o n s c i ê n c i a crítica dos
t r a b a l h a d o r e s / a l u n o s , a fim de q u e e s s e s
compreendam e identifiquem a prática de atividade
física e lazer como um direito fundamental, tanto
q u a n t o o são, t a m b é m , o c o n h e c i m e n t o dos
benefícios desta prática, da organização social do
trabalho, das condições básicas de alimentação,
habitação, renda, hábitos de vida etc.
Deste modo, devemos, sim, construir uma
educação física que se preocupe com a saúde, mas
esta não pode ser formulada nos pressupostos
higienistas à semelhança de projetos, outrora,
condenados pela história.
Considerações finais
O presente estudo pretendeu discutir a
aptidão física, a saúde e a qualidade de vida, no
horizonte do trabalho do piloto de grandes jatos da
aviação civil brasileira.
Esta reflexão implicou reconhecer os matizes
das relações de trabalho, seu processo, seus meios,
sua tecnologia, enfim, seu modo de produção, que,
por conseguinte, são fundamentais à investigação
ou à i n t e r v e n ç ã o no c a m p o da Saúde do
Trabalhador.
As questões aqui esboçadas apresentam-se
com forte acuidade no entendimento da Saúde do
Trabalhador. A visualização de um diferenciado
perfil epistemológico instala uma nova perspectiva
de investigação e intervenção.
Considerar estas propostas é, então, construir
o processo de saúde pelo trabalhador e, não, para
o trabalho. A percepção, assim, defronta-se com a
íntima relação entre a organização do trabalho e a
saúde e qualidade de vida dos trabalhadores.
A educação física, neste contexto, referese à c o n s c i ê n c i a c r í t i c a dos p r o b l e m a s da
corporeidade. Recusa-se a fazer apologia a sua
biologização, porém não descarta polemizar com
Artus - Rev. Ed. Fís. Desp., v. 18, n. l, p. 38-52, 1998.
as posições que a condenam quando vinculada ao
processo saúde-doença e que, portanto, fomentam
n o v a s r e f l e x õ e s s o b r e a r e p r e s e n t a ç ã o do
educador físico.
A m e l h o r a da a p t i d ã o física, q u a n d o
relacionada ao trabalho, tem estado concebida para
o aperfeiçoamento de um recurso. É contra esta
"coisificação" e em prol do sujeito criativo que o
papel educativo se manifesta e acaba por tentar
dissolver o sentido de qualificação da mercadoria
"força de trabalho".
A limitação do estudo, entretanto, pode ser
encontrada na falta de indagação à divisão social
do trabalho e na falta de uma ação não-delegada,
que contasse com a maior experiência acumulada
por parte dos aeronautas.
Contudo, este enfoque permitiu compreender
a exploração da força de trabalho e, provavelmente,
auxiliou a encontrar uma consciência distinta a
r e s p e i t o da saúde dos a e r o n a u t a s e das
possibilidades de pesquisa, bem como, da prática
profissional.
ABSTRACT
P A L M A , Alexandre. The Pilot's work: a study
about physical fitness, health and quality of life.
Artus - Rev. Ed. Fís. Desp., v. 18, n. 1, p. 3 8 ­
52, 1998. Despite physical e d u c a t i o n theories
having undergone an evolutionary process that
allow a critical perspective, its effects on w o r k
relationships still manifests itself as a process of
cause/effect in biological phenomena. The aim of
this study was to investigate how the pilots' work
relationship may cause dissatisfaction, health
p r o b l e m s , decrease on life quality, d e c a y on
physical conditioning and also to discuss the role
of physical education in this context. T h u s , the
concepts of physical fitness, health and life quality
are put in question. Beyond this a survey of work
conditions and its organization is d e v e l o p e d .
49
Universidade Gama Filho
Finally, the role of physical fitness and leisure is
c o m m e n t e d upon in relation to the productivity
i m p r o v e m e n t , the w o r k pleasure, as well as, in
the worker's life quality in the perspective of the
worker health. The aeronaut's work organization
reflects negatively on his body, his health and his
life quality. T h e a p p r e h e n s i o n of the physical
e d u c a t o r should be to e d u c a t e , critically, the
corporeity problems.
K e y w o r d s : w o r k e r health, aeronaut, h u m a n
productivity and physical fitness, quality of life.
Alexandre
Palma
Rua José Veríssimo, nº 14, ap. 101
20720-180 - Rio de Janeiro/RJ
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Um estudo sobre aptidão física, saúde e qualidade de vida