Universidade Gama Filho O TRABALHO DOS COMANDANTES DE GRANDES JATOS: UM ESTUDO SOBRE APTIDÃO FÍSICA, SAÚDE E QUALIDADE DE VIDA Alexandre Palma Instituto de Educação Física da UGF RESUMO PALMA, Alexandre. O trabalho dos c o m a n d a n t e s de grandes jatos: um estudo sobre aptidão física, saúde e qualidade de vida. Artus - Rev. Ed. Fís. Desp., v. 18, n. 1, p. 38-52, 1998. A p e s a r da e v o l u ç ã o dos p r e s s u p o s t o s teóricos da e d u c a ç ã o física em direção a uma p e r s p e c t i v a crítica, as i n t e r v e n ç õ e s desta no âmbito das relações de trabalho ainda manifestam-se c o m o um processo que se estabelece nos fenômenos biológicos de causa e efeito. O objetivo do presente estudo foi, então, o de investigar c o m o as relações de trabalho dos pilotos de grandes jatos podem gerar i n s a t i s f a ç õ e s , p r o b l e m a s de s a ú d e , piora na qualidade de vida, deterioração na condição física etc. e discutir o papel da e d u c a ç ã o física nesse contexto. Para isto, questionam-se os conceitos de a p t i d ã o física, s a ú d e e q u a l i d a d e de vida; realiza-se um l e v a n t a m e n t o das c o n d i ç õ e s e o r g a n i z a ç ã o do trabalho; e, por fim, discute-se criticamente o papel da atividade física e do lazer na m e l h o r i a da produtividade, da satisfação no trabalho, b e m c o m o , da qualidade de vida numa p e r s p e c t i v a da " S a ú d e do T r a b a l h a d o r " . Ao apontar as doenças e as insatisfações, foi possível c o n s t a t a r q u e a o r g a n i z a ç ã o do t r a b a l h o do aeronauta reflete negativamente sobre seu corpo, sua s a ú d e e q u a l i d a d e de vida e que a atuação do educador físico reside na educação crítica dos problemas da corporeidade. 38 Unitermos: saúde do trabalhador, aeronauta, aptidão física e produção humana, qualidade de vida. Introdução De um m o d o geral, os estudos sobre o processo saúde-doença, na perspectiva do trabalho, incidem sobre as análises em função das respostas não específicas a qualquer demanda feita sobre o organismo, que " m o d e r n a m e n t e " são conhecidos como estresse, reduzindo o e x a m e criterioso das categorias sociais e distanciando-as de uma percepção da totalidade historicamente determinada. O pensamento clássico sobre o processo s a ú d e - d o e n ç a reside no entendimento dos fenômenos biológicos e ocupa-se das relações de causa e efeito, estatisticamente comprovadas, ou seja, dos c o n d i c i o n a n t e s f í s i c o s , q u í m i c o s , psicológicos ou biológicos que p o d e m causar as doenças. M e s m o no campo que estuda a saúde desde a perspectiva do trabalho, esta corrente de pensamento tem se mantido hegemônica. Tal como uma categoria social, o trabalho deve, diferentemente, ser tratado conforme parte constitutiva da dimensão humana. Assim, o campo de estudo da Saúde do Trabalhador é a ação desenvolvida para resgatar a condição humana do trabalho, através da compreensão do processo saúde-doença, construído no espaço da saúde pública e concatenado aos interesses e direitos dos próprios atores sociais. Artus - Rev. Ed. Fís. Desp., v. 18, n. 1, p. 38-52, 1998. ARTUS O plano teórico de análise, neste ensaio, abrange as questões inerentes à aptidão física, à saúde e à qualidade de vida dos comandantes de grandes jatos da aviação civil brasileira, sob a compreensão dos eventos originados das relações sociais, configurados historicamente. Os termos aptidão física, saúde e qualidade de vida são de difícil conceituação, principalmente porque seus entendimentos permitem diversas acepções. Os critérios para defini-los não são uniformes e variam de acordo, entre outros fatores, com a área do conhecimento humano e com a visão de mundo que ora se aplica às definições, ou ainda, com os objetivos específicos e preestabelecidos. Apesar disto, vislumbra-se a possibilidade de estudar estes aspectos na relação com o processo de trabalho dos pilotos, a partir de várias disciplinas que se ocupam do assunto, evitando, contudo, cair em reducionismos de ordem biológica, psicológica ou sociológica. E s t e e s t u d o tem, e n t ã o , o objetivo de investigar como as relações de trabalho dos pilotos de g r a n d e s j a t o s p o d e m gerar insatisfações, problemas de saúde, piora na qualidade de vida, deterioração na condição física etc. e qual o papel da educação física nesse contexto. Deste modo, busca-se, num primeiro momento, discutir os conceitos de aptidão física, saúde e qualidade de vida, b e m como engendrar um referencial teórico para o estudo em questão. Uma segunda parte consta de um levantamento das condições e organização do trabalho dos comandantes de grandes jatos e suas repercussões sobre o corpo humano. Na terceira parte propõe-se estabelecer a relevância da educação física para com a promoção da saúde e melhoria da qualidade de vida dos pilotos, numa perspectiva crítica. Por fim, cabe atentar para o perigo da busca de modelos estratégicos com o fim de aumentar a produtividade ou melhorar a satisfação no trabalho, ou ainda esquemas de causalidades por associação Artus - Rev. Ed. Fís. Desp., v. 18, n. 1, p. 38-52, 1998. de fenômenos quantificáveis. Decerto, não se encontrará esta preocupação neste ensaio. Pelo contrário, tentar-se-á contextualizar, criticamente, a condição humana dos aviadores e buscar, não uma solução, mas um processo educacional com o intuito de contribuir para a melhoria da saúde e da qualidade de vida. Aptidão física, saúde e qualidade de vida O t e r m o aptidão física é m u i t a s vezes compreendido (Leite, 1985; Clark, citado por Barbanti, 1990) como a capacidade requerida ao indivíduo para que este realize suas tarefas rotineiras. Assim, as situações do dia-a-dia, especialmente as físicas, exigem adaptações morfo-fisiológicas que atendam a um mínimo necessário para a realização destas tarefas. Neste sentido, refere-se ao estado de condicionamento físico que determina se o indivíduo está apto a realizar uma determinada atividade. Bouchard et al. (1990) explicam que a aptidão física, como definida pela Organização Mundial da Saúde, é a habilidade para desempenhar um trabalho muscular satisfatoriamente, c o m p r e e n d e n d o a resistência cardiorrespiratória, a força muscular, a resistência musculai" e a flexibilidade, e é determinada por diversas variáveis, tais como a prática regular de atividade física, a dieta e a hereditariedade, entre outras. A aptidão física é comumente relacionada à s a ú d e (Blair, 1 9 9 3 ; B o u c h a r d et al., 1990; Paffenbarger, 1988), embora possa t a m b é m estar associada aos fatores relacionados a habilidades motoras (Nahas & Corbin, 1992; Faria Jr., 1991; Barbanti, 1990). Assim, aspectos c o m o força, resistência muscular, resistência aeróbia, flexibilidade e composição corporal quando desenvolvidos poderiam beneficiar, de alguma forma, a prevenção às doenças. Todavia, um entendimento simplista muitas vezes gera uma relação causal entre a aptidão física e a saúde, de tal modo que Barbanti (1990, p. 13) afirma: 39 Universidade Gama Filho A aptidão física relacionada à saúde mede a q u a l i d a d e da s a ú d e q u e p o d e ser representada ao longo de um continuum em q u e em um e x t r e m o o indivíduo estaria doente, acamado, com nenhuma possibilidade de fazer qualquer atividade, e de outro, ele estaria c o m u m a saúde ótima, com grande capacidade funcional, em todos aspectos da vida. No m e s m o sentido, Paffenbarger, H y d e & Wing (1990, p. 33) destacam que "as interações entre exercício, aptidão, saúde e seus opostos podem ser representadas pelas séries de razões: ativo / sedentário; apto / não apto; saudável / doente; vida longa / vida curta", caracterizando assim, a conduta ingênua das associações de causa e efeito. De outra forma, a aptidão física tem sido associada ao trabalho profissional, no sentido de promover uma relação adequada entre ambos e, assim, permitir melhores rendimentos no desempenho ocupacional, aumentar a produtividade industrial e diminuir o absenteísmo (Samulski & Lustosa, 1996; Moreira, 1991; Shepard, 1990; Astrand & Rodahl, 1987). Desta maneira, esse " e s t a d o d e c o n d i c i o n a m e n t o " d e v e r i a ser melhorado, de tal forma que seu nível representasse uma capacidade ótima para a realização do trabalho, de acordo com as exigências da produtividade. Decerto, o quadro teórico que representa estas concepções é frágil e pobre, uma vez que se reduz ao paradigma dos fatores biológicos e tenta interpretar os fenômenos sociais pela soma dos fatos singulares, bem como sustenta uma essência funcionalista, devido ao seu caráter de causalidade. C o n t u d o , é razoável sustentar que o sedentarismo é considerado um dos fatores de risco à saúde do h o m e m moderno. Sua manutenção facilita o aparecimento de doenças e distúrbios que p o d e m l e v a r até à m o r t e . A s d o e n ç a s cardiovasculares, responsáveis pela principal causa mortis no Brasil em 1988 (Chor et al., 1995), a 40 obesidade e a osteoporose são alguns exemplos (Pollock & Wilmore, 1993). A prática de exercício físico regular pode, então, contribuir para reduzir a morbidade e a mortalidade, exercendo um efeito benéfico sobre a saúde e qualidade de vida do homem (Borms, 1991; Costa, 1991). Todavia, é c o m c a u t e l a que se d e v e m interpretar estes dados, pois sua exacerbação não é, inevitavelmente, verdadeira. Assim, as afirmações de Barbanti (1990) e Paffenbarger et al. (1990) citadas anteriormente não refletem essas evidências, uma vez que "níveis elevados não significam, necessariamente, melhor saúde" (Nahas & Corbin, 1992, p. 49) e, pelo contrário, p o d e m até provocar eventuais prejuízos à própria saúde, fato corroborado por Faria Jr. (1991). Focalizando o processo rendimentoprodução e pautando-se na referência ao gasto energético e em seu "controle" - que, como b e m delineou Breilh ( 1 9 9 1 , p. 79) "incrementa o potencial produtivo, aumentando o potencial de suas funções, 'reparando' seus danos" - a educação física torna-se um tipo de saber-poder que mobiliza e disciplina os homens em prol da economia vigente, ainda que esta p r o m o ç ã o da aptidão física com vias ao aumento da produtividade seja discutível face às modernas tecnologias de extração de mais-valia relativa. Neste sentido, os sujeitos, c o m o aponta Chanlat (1993), tornam-se apenas recursos, isto é, quantidades materiais cujo rendimento deve ser satisfatório do mesmo modo que os equipamentos e instrumentos. P o r outro l a d o , D e j o u r s ( 1 9 9 2 , p . 56) constata um efeito paradoxal nesta práxis, pois "o alívio da carga de trabalho permite a intensificação da produtividade. O que foi ganho de um lado é perdido do outro". O problema não é o aumento da produção em si, mas, decerto, o aumento desta produção às custas do sofrimento do trabalhador. Artus - Rev. Ed. Fís. Desp., v. 18, n. 1, p. 38-52, 1998. ARTUS Assim, o entendimento da aptidão física articula-se de tal modo ao contexto socioeconômico, que deve inserir-se, no campo da intervenção educacional, numa perspectiva crítica. O conceito de saúde da Organização Mundial da Saúde (OMS) é o de "um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não apenas a ausência de doença ou enfermidade" (World Health Organization, citado por Lewis, 1986, p. 1.100) e refere-se a uma compreensão estática e à m a r g e m da sociedade em que se encontra. Além disto, o que significa bem-estar? Lewis (1986, p. 1.100) afirma que este conceito é "uma forma implícita de dizer que ninguém pode ser sadio ". O termo é, ainda, entendido sob alguns critérios, como por exemplo, negativos ou positivos. Caso recorra-se a uma análise das medidas de mortalidade e morbidade, não se identificará a saúde, mas a "má-saúde", ou seja a medida negativa da saúde; o m e s m o ocorre no processo de "culpabilização" dos doentes. Conceitos de n o r m a l i d a d e são t a m b é m utilizados, muito embora recaiam nos critérios de negatividade e positividade e apresentem incompatibilidade entre o fenômeno, o normal e a saúde. A obesidade, por exemplo, poderia ser um padrão normal, mas não, necessariamente, representar um estado saudável. Um certo rompimento com estes enfoques reconstrói-se a partir de um novo saber, que se reflete numa efetiva interação social - algo que represente uma capacidade de agir e reagir, uma possibilidade de transformação social, um f o r t a l e c i m e n t o da r e f l e x ã o c r í t i c a s o b r e o pensamento em saúde. Nesta perspectiva, desenvolvem-se análises do processo saúde-doença sob a conjuntura socioeconômica vigente e tendese superar a dicotomia "social-biológico". Na perspectiva da saúde, em seu campo de e s t u d o saúde-trabalho, e n c o n t r a - s e a s a ú d e ocupacional, que, através de uma ação multi disciplinar, busca intervir nos locais de trabalho, com Artus - Rev. Ed. Fís. Desp., v, 18, n. 1, p. 38-52, 1998. o objetivo de controlar os riscos ambientais, além de a s s e g u r a r a p r o t e ç ã o dos t r a b a l h a d o r e s , adaptando-os às necessidades laborativas. Decerto, o papel que esta cumpre é o de aumentar o potencial produtivo e, para isso, há de se "consertar" a mercadoria que é a força (humana) de trabalho. O clichê sócio-político-econômico utilizado reconhece os fatores sociais inerentes ao processo s a ú d e doença, mas o faz de forma causal, sob uma listagem de causas e efeitos que estes possam formar. Esta concepção, ingênua, engendra um modelo funcionalista que anula o p a p e l da multidisciplinaridade, muitas vezes dificultado pelas lutas corporativistas, além de estar dissociada do terreno da saúde pública. Diferentemente, tratar da saúde do trabalhador não é um problema semântico; é, antes, uma questão importante para a superação do quadro hegemônico que associa as pessoas ao conjunto de recursos. "Dado o lugar central que o trabalho ocupa em qualquer sociedade, parece inegável que tem que ser um conceito chave em qualquer tentativa estruturada de explicar as origens sociais da doença" (Laurell, 1981, p. 9). Neste contexto, o entendimento de saúde enunciado no Relatório Final da VIII Conferência de Saúde (1992, p. 10) é: a resultante das condições de alimentação, habitação, renda, meio ambiente, trabalho, transporte, emprego, lazer, liberdade, acesso e p o s s e da terra e a c e s s o a s e r v i ç o s de saúde. É, assim, antes de tudo, o resultado das formas de organização social da produção, as quais p o d e m gerar grandes desigualdades nos níveis de vida. Assim sendo, saúde é, antes de tudo, um direito de cidadania definido historicamente numa determinada sociedade. O entendimento do que seja qualidade de vida é, de todos, o que se mostra mais frouxo. A percepção de que a realização de exercício físico, 41 Universidade Gama Filho a abstinência ao álcool e tabagismo, a alimentação apropriada e o "controle" do estresse constituam os paradigmas para a qualidade de vida é, sem dúvida, uma visão reducionista e discriminadora das possibilidades de vida do Homem. Na tentativa de referendar este t e r m o , buscaram-se conceitos alternativos que, muitas vezes, têm uma concepção aproximada. Assim, a e x p r e s s ã o " p a d r ã o de vida", s e g u n d o Gould (1986), designa: 1) as condições reais de vida dos indivíduos, também descrito como nível de vida; 2) a s c o n d i ç õ e s d e v i d a a s p i r a d a s por c e r t o s indivíduos, mesmo que não possam desfrutá-las; e 3) as condições de vida normativas, definidas por objetivos específicos e que servem para avaliação da situação social e sua adequação às necessidades, tais como estabelecimento de salários; jornadas de trabalho; possibilidades de saúde, educação e lazer; condições sanitárias e ambientais; além do consumo de outros bens e serviços. Samulski e Lustosa (1996, p. 60) explicam que qualidade de vida "é o resultado das condições subjetivas de um indivíduo nos vários subdomínios que compõem sua vida como, por exemplo, seu trabalho, sua vida social, sua saúde física, seu humor etc." Devido à complexidade do sistema social, depreende-se a necessidade de uma abordagem c o n s t r u í d a no r e c o n h e c i m e n t o das situações particulares dos atores sociais. Deste modo, Minayo (1994, p. 26) pondera: Aqui começa a tarefa de distinguir o fato de que as condições de vida e de trabalho qualificam de forma diferenciada a maneira pela qual as classes e, no seu interior, os grupos sociais específicos (segmentos de classe, g ê n e r o , etários, grupos com determinada experiência urbana, rural, religiosa, de tradição, etc.) pensam, sentem e agem a respeito da saúde e da doença. ... e por que não dizer da qualidade de vida? 42 Um exemplo marcante refere-se às investigações citadas por Minayo (1994), que, além de terem causado impacto causado pelas péssimas condições de vida das famílias que vivem nas ruas do Rio de Janeiro, surpreendem pelo fato delas se autoconsiderarem como saudáveis, quando eram visíveis os problemas genéricos de saúde, tais como problemas de pele, de agressão física, dentários, de desnutrição, de distúrbios mentais e emocionais - c o m o também é conhecido que, muitas vezes, um indivíduo considera-se alfabetizado quando apenas sabe escrever o próprio nome. Tornam-se, assim, insuficientes estas abrangências que apóiam-se nos d o g m a s dos mecanismos biológicos e suscitam as idéias de "biopoder" pelo qual tratou Foucault (citado por R a b i n o w & Dreyfus, 1995, p. 148): "Seria necessário falar de 'biopoder' para designar aquilo que faz entrar a vida e seus mecanismos no domínio dos cálculos explícitos e faz do podersaber um agente de transformação da vida humana." Esta idéia surge numa referência às inter relações entre o saber biológico e o poder e que proliferam sob o argumento de tornar os indivíduos saudáveis e protegidos. De outro modo, cabe citar Breilh ( 1 9 9 1 , p. 43), numa analogia ao conceito ultrapassado de epidemiologia: A "velha" epidemiologia obedece aos fundamentos empírico-funcionalistas de uma atuação científica que é exercida, consciente ou inconscientemente, de forma a beneficiar os setores atrasados de nossas sociedades. Aborda os princípios da causalidade e distribuição em seus efeitos aparentes, mede e correlaciona tais efeitos para conhecer o estado ou potencialidade funcional da população, para detectar a prevalência de alterações orgânicas ou psíquicas que transtornam sua produtividade e para estabelecer bases mínimas de proteção dos grupos produtivos. É uma Artus - Rev. Ed. Fís.Desp.,v. 18, n. 1, p. 38-52, 1998. ARTUS epidemiologia que atua segundo normas de eficiência e efetividade, d e l i m i t a d a s de acordo c o m as necessidades de desenvol vimento do grande capital. Por outro lado, o referencial teórico proposto f u n d a m e n t a - s e n u m a p e r s p e c t i v a crítica d e interpretação da realidade. Enfim, a aptidão física, a saúde e a q u a l i d a d e de v i d a d e v e m ser consideradas em função das condições socioeconômicas envolvidas, da problemática de saúde d e s e n v o l v i d a p e l a s r e l a ç õ e s de t r a b a l h o e p r o d u ç ã o e os fatores culturais e políticos. Condições e organização do trabalho Os fenômenos determinantes do processo s a ú d e - d o e n ç a , emergentes da relação s a ú d e trabalho, d e v e m sofrer uma análise a partir das condições e da organização do trabalho. Todavia, torna-se pobre considerar estes conceitos isoladamente, como se um não interagisse com o outro, embora, por razões didáticas, opte-se por utilizar os conceitos definidos por Dejours (1992). As " c o n d i ç õ e s de t r a b a l h o " p o d e m ser compreendidas como todas e quaisquer propriedades biológicas, físicas ou químicas que possam intervir no ambiente de trabalho. A temperatura, pressão, vibração, umidade, gases tóxicos, fungos, características ergonômicas do posto etc. são alguns exemplos de condições de trabalho. Por "organização do trabalho" entende-se a divisão social do trabalho, sua organização quanto à distribuição de tarefas, designação hierárquica, relações de apropriação, enfim, o modo pelo qual se realiza o trabalho. O piloto submete-se a toda série de condições adversas de trabalho. Estas condições, isoladamente, parecem já contribuir para a deterioração da saúde e qualidade de vida destes profissionais. Todavia, Artus - Rev. Ed. Fís. Desp., v. 18, n. 1, p. 38-52, 1998. compreende-se que é na inter-relação entre estas condições e, sobretudo, entre essas e a organização do trabalho que poder-se-á investigar, entre outras atribuições, o processo s a ú d e - d o e n ç a , em seu campo saúde-trabalho; verificar a problemática da saúde de acordo com a divisão social do trabalho; b e m como, fomentar as reais necessidades de intervenção na área de "Saúde do Trabalhador". As vibrações são fatores físicos provenientes do deslocamento da aeronave - e de seu atrito com o ar -, das turbulências e do funcionamento dos motores. Os grandes jatos parecem sofrer u m a influência menor deste fator, mas segundo o DIESAT (1995) p o d e m favorecer o a p a r e c i m e n t o de tonturas, mal-estar e vômitos, ou até provocar alterações visuais, nos sistemas neuromuscular ou nos sistemas vasculares. Problemas na coluna vertebral, também, foram sugeridos como influenciados pelas vibrações. O ruído, como um som desagradável ou indesejável, pode ser prejudicial tanto à audição, como acarretar uma série de outros fenômenos, tais como taquicardia, elevação da pressão arterial, cefaléia, ansiedade, redução da libido, fadiga, entre outros (Gomes, 1989). O DIESAT (1995) destaca que o ruído parece ter uma influência maior em problemas como insônia, irritabilidade e o que se denominou de "fadiga de vôo". A baixa pressão atmosférica, e a conseqüente rarefação do ar no interior da aeronave, pode prejudicar a oxigenação sangüínea. A umidade relativa do ar, também alterada, mantém-se em níveis muito baixos. Esses fatores, conforme D'Acri (1991), contribuem para o surgimento de sensações de cansaço, sono, irritabilidade, ressecamento da pele etc. Coelho, citado por DIESAT, (1995, p. 6) sugere que "a profissão dos aeronautas tem sido associada com litíase renal (cálculo renal), o que tem sido relacionado à exposição a baixa umidade relativa do ar, associada a condições de sedentarismo, impostas pela própria atividade de trabalho". 43 Universidade Gama Filho As jornadas noturnas e as realizadas de madrugada, segundo Ribeiro et al. citados por Assis e Palma (1995), são apontadas como aquelas que mais geram influências sobre o corpo do aeronauta e parecem contribuir para aumentar o quadro de fadiga geral. Outros fatores, tais c o m o exposições a radiações, variações de temperatura, transposição de fusos horários, posições desfavoráveis ao repouso, t a m b é m concorrem para aumentar os riscos à saúde. C o m sua extraordinária sensibilidade para investigar as questões pontuais em saúde do trabalhador, Laurell (1987) indica que há, contudo, de se c o m p r e e n d e r sob que o r g a n i z a ç ã o do trabalho desenvolvem-se estas condições. A organização temporal do trabalho do aeronauta, pela sua própria particularidade, é regida por escalas distribuídas no início de cada mês, em uma antecedência mínima de dois dias, com a programação de todos os vôos a serem realizados, e estabelecendo, ainda, o trabalho em turnos, os sobreavisos e as folgas. A partir desta mesma escala é possível, também, estimar a remuneração do trabalhador. S e g u n d o a C o n v e n ç ã o Internacional para Aviação Civil, citada por D I E S A T (1995), o estabelecimento da quantidade de horas de vôo e sua relação c o m o repouso deve ter a finalidade de r e d u z i r a fadiga, c o n s i d e r a n d o - s e , neste sentido, tanto a fadiga "transitória" do período normal de trabalho, quanto a fadiga "cumulativa" causada pelo descanso insuficiente. Contudo, é interessante ressaltar que o profissional que elabora as escalas, d e n o m i n a d o " e s c a l a n t e " , é desqualificado para a função, pois a ele não caberia apenas ordenar os vôos para cada piloto e avião, mas sim fazê-lo em função dos conhecimentos de psicologia, sociologia, fisiologia e, principalmente, em respeito aos interesses dos a e r o n a u t a s . A l g u m a s falas d o s a e r o n a u t a s apontam isto: 44 o pessoal da aviação, em geral, começa a apresentar uma certa dificuldade de relacionamento social, tanto em família quanto fora dela, porque normalmente você não está presente nas atividades sociais normais, isto aí é um fator de desequilíbrio. Você não c o n s e g u e manter um relacionamento pleno no lugar em que vive. (Assis & Palma, 1995, p. 108) fazer um vôo para os EUA de quatro ou cinco dias e depois de um ou dois dias de folga, fazer outro vôo para os EUA ou Europa, chegando a um total de duas semanas sem vida familiar, fora o problema do fuso. (Ferreira, 1992, p. 42) Os p r i n c í p i o s de o p e r a ç ã o da a v i a ç ã o estabelecem-se através das normas da companhia, manuais do fabricante da aeronave ou regulamentações de vôo. A hierarquia, que segue um exemplo militar, confere uma disciplina rígida e é entendida como necessária à boa segurança da aviação. Decerto, o discurso de validação da ideologia do processo assenta-se na criação de valor, cujo "tripé" é formado pela segurança, pela economia e p e l o c o n f o r t o e no q u a l a c o l e t i v i d a d e de trabalhadores, tais como comandantes, co-pilotos, comissários, engenheiros de vôo, m e c â n i c o s , controladores de vôo e t c , está engajada na tarefa de torná-lo possível. O processo de trabalho na aviação está cada vez mais automatizado e informatizado. Se por um lado, este m o d o operatório pode favorecer uma diminuição na carga de trabalho, por outro, suscita novos p r o b l e m a s . K a n t o w i t z & C a s p e r ( 1 9 8 8 , p . 158) c o r r o b o r a m tal afirmação e citam: "a automação do flight-deck (cabine de comando) oferece a oportunidade para diminuir a carga de trabalho do piloto, mas é suficiente para induzir ao tédio, aborrecimento e mesmo ao sono". Artus - Rev. Ed. Fís. Desp., v. 18, n. 1, p. 38-52, 1998. ARTUS Wiener (1988) comenta que a automação, num extremo, alivia a operação humana das altas funções cognitivas. Todavia, reduz o h o m e m ao estado de um mero "apertador de botões", tirandolhe o significado e a satisfação do trabalho: "hoje em dia, a aviação perdeu muito desse encanto porque ela é tão automatizada, o piloto tem até pouca oportunidade de pilotar" (fala de piloto, citada por Assis & Palma, 1995, p. 109). A convivência c o m esta ambigüidade é e x t r e m a m e n t e complicada e, talvez, sofrível. Kantowitz & Casper (1988) sugerem que existe uma relutância compreensível por parte dos pilotos em permitir a automação do controle de suas operações, pois, há muito recai sobre eles a responsabilidade de operação e segurança, entretanto, sentem que, também, poderiam ter o controle total da aeronave. Da m e s m a forma, este quadro tecnológico não exige mais o piloto habilidoso, e sim um profissional ambientado às máquinas e instrumentos informatizados e cada vez mais sofisticados, mesmo que sem tanta perícia para voar. Esta sensação de "coisificação", esta repressão à dimensão humana do trabalho em que o piloto começa a perder sua identidade de aviador para tomai se um operador de sistema altamente especializado, é que acaba por engendrar um "estranhamento" na atividade laborativa. Isto pode lhe causar uma certa repulsa, um desconforto, uma insatisfação e conseqüentemente repercutir em sua saúde. Este m o d o de produção projeta uma determinada forma de extrair mais-valia. E deste m o d o que deve-se apreender os conhecimentos necessários para estudar a saúde dos trabalhadores. A produção no setor de transporte aéreo é, normalmente, mensurada através dos "assentos quilômetros oferecidos e/ou utilizados"; "toneladas quilômetros oferecidas (ATK) e/ou utilizadas" e "passageiros-quilômetros transportados". Neste sentido, o operador econômico que, aqui, se desenrola, manifesta o avanço tecnológico e suas conseqüências na extração da mais-valia absoluta e Artus - Rev. Ed. Fís. Desp., v. 18. n. 1, p. 38-52, 1998. relativa, que não pode ser descartada por quem investiga a saúde do aeronauta. A tabela 1 apresenta a evolução do tráfego aéreo brasileiro. Indicadores de produtividade são reportados na tabela 2 e demonstram que, em 30 anos, a velocidade média dos vôos e o número de passageiros aumentaram. Este fato pode ser explicado pelos avanços tecnológicos nas aeronaves, que tornaram-se mais velozes e com maiores possibilidades de transportar passageiros e é relevante, uma vez que, para empregar maior velocidade, é interessante voar mais alto. Esta maior altitude nos vôos também economiza combustível e, como já foi mencionado, pode prejudicar a saúde dos aeronautas. E exposto, ainda, que há um aumento na quantidade de assentos-quilômetros e toneladasquilômetros oferecidos por aeronauta empregado, revelando um aumento no valor da produção para cada trabalhador. A quantidade de horas voadas por aeronauta parece flutuante. Nos anos 60 ela sobe, depois apresenta-se em queda. Todavia, do final dos anos 80 para os anos 90 mostra-se aumentada. Estes indicadores traduzem o aumento de produtividade por parte do t r a b a l h a d o r e remetem a reflexões sobre a extração da mais-valia absoluta e relativa. Ao estudar a evolução do tráfego e da p r o d u t i v i d a d e por c o m p a n h i a aérea p ô d e - s e observar que existem pequenas diferenças entre elas e entre o quadro geral brasileiro (Brasil, 1994). O Yield por passageiro é, grosso modo, um indicador do nível do preço da passagem média. Um estudo sobre o Yield realizado em 1994 (Brasil, 1994), pelo Instituto de Aviação Civil, constatou uma visível tendência à queda, que indica um barateamento nos preços das passagens nas últimas décadas. Contudo, concomitante à diminuição do preço da p a s s a g e m , ocorre o a u m e n t o da produtividade. Tal como indicara Marx (1983), e quiçá bem atual, o barateamento da mercadoria, às custas do aumento da força produtiva, acaba por ser hostil ao trabalhador. 45 Universidade Gama Filho Tabela 1 - Evolução do tráfego aéreo brasileiro (Doméstico e Internacional) Tabela 2 - Indicadores de produtividade do transporte aéreo brasileiro (Doméstico e Internacional) Fonte: modificado de Anuário de transporte aéreo ( 1994). C o m base em uma análise econômica, que levou em c o n s i d e r a ç ã o a p r o d u t i v i d a d e das empresas - verificada a partir de indicadores de rendimento por empregado ou por cada mil dólares de custo laborativo, denominados ATK (Available tonne-km) - e que comparou as companhias aéreas da América do Sul, América do Norte e Europa entre os anos de 1977 e 1987, foi possível a Costa (1989) indicar que, utilizando-se o ATK por empregado, as empresas da América do Norte, seguidas pelas européias, aparecem como aquelas com maior produtividade, em ambos períodos. E n t r e t a n t o , q u a n d o a s e m p r e s a s são comparadas pelo ATK por $ 1000 de custo laborativo, ocorre que aquelas que utilizam o trabalho como um recurso barato, apresentam um índice de produtividade maior, o que, obviamente, também representa uma maior exploração da força de trabalho. Deste modo, as empresas da América do Sul figuram no topo das 46 mais produtivas, nos dois períodos estudados. A companhia brasileira estudada, além disto, apresentou um acentuado aumento na produtividade entre os dois períodos analisados. A partir desta consideração, compreende-se melhor a lógica do processo produtivo que engendra o processo de valorização e de extração de maisvalia na a v i a ç ã o e q u e é i m p r e s c i n d í v e l na investigação da saúde do trabalhador. Os aeronautas, ainda, são submetidos a toda uma série de controles. Exames periódicos de competência técnica e saúde são importantes para a manutenção da carteira de vôo e podem contribuir para elevar o desgaste do trabalhador. O exame de saúde é r e a l i z a d o pelo C e n t r o de M e d i c i n a Aeroespacial (CEMAL) e tem por finalidade verificar as condições de saúde dos aviadores e afastá-los ou aprová-los conforme o resultado. Este órgão do Ministério da Aeronáutica inclui algumas proibições Artus - Rev. Ed. Fís. Desp., v. 18, n. 1, p, 38-52, 1998. ARTUS específicas, tais como patologia do olho, doenças do o u v i d o , disturbios de equilíbrio, alcoolismo, d e p e n d ê n c i a às d r o g a s , epilepsia, infarto do miocárdio, angina pectoris, diabetes melittus e outras. Algumas doenças emergem neste contexto. Longe de querer identificar suas causas previsíveis, tentar-se-á discuti-las. O impacto da combinação do ambiente com a organização do trabalho sobre o corpo manifesta se a partir de doenças tipicamente capitalistas. O quadro nosológico instaurado parece não ter muito a ver com as doenças virtualmente esperadas como efeitos do ambiente do trabalho. Deste modo, o D I E S A T ( 1 9 9 5 ) , q u a n d o apresenta os dados estatísticos sobre prevalência de invalidez permanente entre os aeronautas, mostra que 23,47% dos casos decorrem de cardiopatias; 2 0 , 4 1 % de problemas audiovisuais; 19,39% de transtornos mentais; 12,24% de A I D S ; 3,06% de câncer; 3,06% de problemas motores; 2 , 0 4 % de problemas neurológicos e 16,33% de problemas outros ou ignorados. N ã o se trata, porém, de negar os efeitos nocivos que a altitude, a pressurização da cabine, o ruído, as vibrações, a exposição a radiação etc. podem engendrar ao corpo, mas sim de apreender que o sofrimento do aeronauta decorre da totalidade dos fenômenos ocorridos no processo de trabalho. Assumir este ponto de vista implica questionar não só os efeitos do a m b i e n t e , m a s t a m b é m , e principalmente, não dissociá-los da organização do trabalho. Dados do C E M A L (Centro de Medicina Aeroespacial) citados por D' Acri (1991) revelam que o maior percentual de causas de incapacidade ao trabalho decorrem de problemas psiquiátricos. Esta mesma autora aponta o cansaço físico e a irritabilidade como os sintomas e sensações mais percebidos pelos aeronautas entrevistados. Ferreira (1992), ao identificar as possíveis repercussões negativas da organização do tempo de trabalho a partir de dez itens segundo as opiniões dos comandantes, encontrou a seguinte ordenação e Artus - Rev. Ed. Fís. Desp., v. 18. n. 1, p. 38-52, 1998. porcentagem: vida social (79,6%); vida familiar (65,3%); saúde física (46,9%); sono (46,9%); humor (40,8%); peso (28,6%); relacionamento sexual (22,4%); saúde mental (16,3%); outros fatores (10,2%); apetite (10,2%) e sem repercussão (8,2%). Ora, o que se questiona, aqui, é se cada um destes fatores não referem-se, eles próprios, à saúde. O alcoolismo tem sido reportado como um problema sério que afeta a saúde dos aeronautas, a p o n t o de ser um dos p r i n c i p a i s m o t i v o s de afastamento do trabalho no Brasil (D'Acri, 1991) ou ser atribuído como um fator encontrado em 10% dos acidentes aéreos fatais ( E d w a r d s , 1990), embora Ferreira (1992) tenha verificado, na fala de um piloto, a afirmação categórica de que o uso de bebidas alcoólicas durante o vôo não ocorresse. Segundo Assis & Palma (1995), em estudos r e c e n t e s d e s e n v o l v i d o s p o r M o r e i r a et al, "detectou-se que a obesidade foi encontrada em mais de um terço dos avaliados e 72% apresentavam adiposidade acima de 15% do peso corporal. A inatividade física apareceu em 53,85% da amostra". Por outro lado, A m o r i m (1995) cita que os valores médios de colesterol total encontrados em comandantes foram de 222,8 mg.dl e da fração LDL, de 147,4 mg.dl , quando os valores desejáveis estão, respectivamente, abaixo de 200 e 130. -1 -1 Parece, enfim, que este mosaico de condições e organização de trabalho engendra sobre o corpo todas suas mazelas. Aquilo que se atribui como "fadiga de v ô o " é, então, um m o d o operatório de trabalho que, sob certas condições, repercute contra a integridade corporal do trabalhador. Aptidão física para quem? Há muito vem se tentando estabelecer alguma relação entre atividade física e trabalho, ou, mais precisamente, em relação à produtividade. Exemplo marcante foi o surgimento de laboratórios de 47 Universidade Gama Filho fisiologia do trabalho que forneciam suporte científico ao processo de produção que se instalava. A l é m disso, alguns autores confiam que exista u m a certa capacidade física adequada ao desgaste proveniente do trabalho. Muitas vezes b a s e a d o s na teoria do estresse de Hans Salye, acreditam que a aptidão física possa constituirse em um fator para evitar o a p a r e c i m e n t o de acidentes de trabalho, para a u m e n t a r a produtividade, ou, ainda, minimizar o desgaste l a b o r a t i v o . Tanto A s t r a n d & Rodahl (1987) quanto Moreira (1991) sugerem esta relação, da qual se d e d u z que se o trabalhador estiver mais c o n d i c i o n a d o f i s i c a m e n t e , m e n o r será seu desgaste. A l g u m a s e m p r e s a s p a r e c e m já ter incorporado o discurso impregnado de vantagens advindas do exercício físico. A IBM, a Ishibrás, a Shell, a Mercedes Benz, o Banespa, entre outras, investem e recomendam a aptidão física aos seus funcionários. Na aviação, já no final da década de 20, quando foi criado o curso de formação de piloto militar no Brasil, era obrigatória a aprovação em exames de capacidade física. E se atualmente a aptidão física não é um fator obrigatório ao piloto, muitas vezes surge como uma indicação para vencer o cansaço. Assim, Stone & Babcock (1988), D'Acri (1991) e Teixeira (1995) corroboram tal afirmação, revelando a busca dos aeronautas por estratégias contra os fatores agressivos. Deste modo, a atividade física regular poderia favorecer a diminuição ou até evitar aquilo que denominou-se de "fadiga de vôo". Mas será mesmo que ela teria esta propriedade? N u m a relação causal, admitir-se-ia que a fadiga pode originar-se da falta de aptidão física. Todavia, no processo de trabalho, ela emerge num contexto de exploração da força de trabalho que necessita ser apreciado. S e r á q u e a s e s c a l a s c o n t u r b a d a s dos aeronautas lhes permitem realizar uma atividade física regular? Ou ainda, será que um indivíduo 48 esgotado fisicamente pelo trabalho pensa em fazer exercícios físicos ao c h e g a r em seu destino temporário? A educação física, então, como uma prática intervencionista, não p o d e tentar ocultar os problemas corporais gerados nas relações de trabalho, não pode, também, negá-los e deve, sim, no âmbito de suas contradições, construir um p r o c e s s o e d u c a t i v o que d e s p e r t e p a r a estes problemas, um processo de desalienação dos atores sociais que traga à tona a exploração do trabalho. Não se trata, pois, de p r o g r a m a s de c o n d i c i o n a m e n t o físico para a u m e n t a r o rendimento físico, prevenir o a p a r e c i m e n t o de d o e n ç a s cardíacas, diminuir o p e r c e n t u a l de gordura, ou mesmo, de atividades recreativas ou de lazer próprias para desviar a a t e n ç ã o dos trabalhadores. Significa, ao contrário, auxiliar os trabalhadores a r e c o n h e c e r e m seus direitos, tal como sugeriram Mendes & Dias (1991): o direito à informação sobre os riscos, sobre os m o d o s de intervenção etc.; o direito à recusa ao trabalho em condições perigosas à vida ou à s a ú d e ; o direito à consulta prévia antes de m u d a n ç a s de tecnologia, métodos, formas de organização e t c ; e o direito de participação nas d e c i s õ e s dos processos de saúde, de segurança, de educação, d e lazer e t c O papel social do educador físico que trabalha com promoção da saúde é, antes de tudo e sobretudo, apontar criticamente o que concorre para fazer despontai" as falências físicas ou agravos à saúde. A fadiga e a doença não podem, então, ser c o m p r e e n d i d a s e tratadas t ã o - s o m e n t e pelos aspectos biológicos. A injunção sócio-político econômica faz-se, aqui, obrigatória. A educação física, ao tentar explicar, através da fisiologia do esforço, o processo saúde-doença, comete um "erro" que, de fato, significa um "fracasso produtivo", pois não consegue dar conta de abarcar este complexo processo. Artus - Rev. Ed. Fís. Desp., v. 18, n. 1, p. 38-52, 1998. ARTUS Enfim, o educador físico deve privilegiar o d e s e n v o l v i m e n t o da c o n s c i ê n c i a crítica dos t r a b a l h a d o r e s / a l u n o s , a fim de q u e e s s e s compreendam e identifiquem a prática de atividade física e lazer como um direito fundamental, tanto q u a n t o o são, t a m b é m , o c o n h e c i m e n t o dos benefícios desta prática, da organização social do trabalho, das condições básicas de alimentação, habitação, renda, hábitos de vida etc. Deste modo, devemos, sim, construir uma educação física que se preocupe com a saúde, mas esta não pode ser formulada nos pressupostos higienistas à semelhança de projetos, outrora, condenados pela história. Considerações finais O presente estudo pretendeu discutir a aptidão física, a saúde e a qualidade de vida, no horizonte do trabalho do piloto de grandes jatos da aviação civil brasileira. Esta reflexão implicou reconhecer os matizes das relações de trabalho, seu processo, seus meios, sua tecnologia, enfim, seu modo de produção, que, por conseguinte, são fundamentais à investigação ou à i n t e r v e n ç ã o no c a m p o da Saúde do Trabalhador. As questões aqui esboçadas apresentam-se com forte acuidade no entendimento da Saúde do Trabalhador. A visualização de um diferenciado perfil epistemológico instala uma nova perspectiva de investigação e intervenção. Considerar estas propostas é, então, construir o processo de saúde pelo trabalhador e, não, para o trabalho. A percepção, assim, defronta-se com a íntima relação entre a organização do trabalho e a saúde e qualidade de vida dos trabalhadores. A educação física, neste contexto, referese à c o n s c i ê n c i a c r í t i c a dos p r o b l e m a s da corporeidade. Recusa-se a fazer apologia a sua biologização, porém não descarta polemizar com Artus - Rev. Ed. Fís. Desp., v. 18, n. l, p. 38-52, 1998. as posições que a condenam quando vinculada ao processo saúde-doença e que, portanto, fomentam n o v a s r e f l e x õ e s s o b r e a r e p r e s e n t a ç ã o do educador físico. A m e l h o r a da a p t i d ã o física, q u a n d o relacionada ao trabalho, tem estado concebida para o aperfeiçoamento de um recurso. É contra esta "coisificação" e em prol do sujeito criativo que o papel educativo se manifesta e acaba por tentar dissolver o sentido de qualificação da mercadoria "força de trabalho". A limitação do estudo, entretanto, pode ser encontrada na falta de indagação à divisão social do trabalho e na falta de uma ação não-delegada, que contasse com a maior experiência acumulada por parte dos aeronautas. Contudo, este enfoque permitiu compreender a exploração da força de trabalho e, provavelmente, auxiliou a encontrar uma consciência distinta a r e s p e i t o da saúde dos a e r o n a u t a s e das possibilidades de pesquisa, bem como, da prática profissional. ABSTRACT P A L M A , Alexandre. The Pilot's work: a study about physical fitness, health and quality of life. Artus - Rev. Ed. Fís. Desp., v. 18, n. 1, p. 3 8 52, 1998. Despite physical e d u c a t i o n theories having undergone an evolutionary process that allow a critical perspective, its effects on w o r k relationships still manifests itself as a process of cause/effect in biological phenomena. The aim of this study was to investigate how the pilots' work relationship may cause dissatisfaction, health p r o b l e m s , decrease on life quality, d e c a y on physical conditioning and also to discuss the role of physical education in this context. T h u s , the concepts of physical fitness, health and life quality are put in question. Beyond this a survey of work conditions and its organization is d e v e l o p e d . 49 Universidade Gama Filho Finally, the role of physical fitness and leisure is c o m m e n t e d upon in relation to the productivity i m p r o v e m e n t , the w o r k pleasure, as well as, in the worker's life quality in the perspective of the worker health. The aeronaut's work organization reflects negatively on his body, his health and his life quality. T h e a p p r e h e n s i o n of the physical e d u c a t o r should be to e d u c a t e , critically, the corporeity problems. K e y w o r d s : w o r k e r health, aeronaut, h u m a n productivity and physical fitness, quality of life. Alexandre Palma Rua José Veríssimo, nº 14, ap. 101 20720-180 - Rio de Janeiro/RJ Referências bibliográficas A M O R I M , P. R. S. 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