Fernanda Alves Brasil Principais defeitos de sabor do leite e suas causas. São Paulo, 2010 Fernanda Alves Brasil Principais defeitos de sabor do leite e suas causas. Monografia apresentada, como pré-requisito de conclusão do curso de Especialização Lato sensu em Higiene e Inspeção de Produtos de Origem Animal, ao Instituto Qualittas. Orientadora: Profa. Dra. Georgiana Sávia Brito Aires São Paulo, 2010 Fernanda Alves Brasil Principais defeitos de sabor do leite e suas causas. Objetivo: revisar a literatura, destacando os principais defeitos de sabor do leite e suas causas Instituto Qualittas de Pós-Graduação Especialização Lato sensu em Higiene e Inspeção de Produtos de Origem Animal Data de aprovação: ____ de __________ de 20___. Profa. Dra. Georgiana Sávia Brito Aires Resumo Brasil, F. A. Principais defeitos de sabor do leite e suas causas. 2010. Monografia (Especialização Lato sensu em Higiene e Inspeção de Produtos de Origem Animal) – Instituto Qualittas de Pós-Graduação, São Paulo, 2010. Características sensoriais agradáveis são fundamentais em qualquer alimento. O leite para ser agradável, deve apresentar aroma suave e gosto levemente adocicado. Propriedades de sabor e aroma inadequadas podem comprometer a sua aceitação pelo consumidor. Para manter o alimento seguro para o consumo, o leite pode ser submetido a diferentes tratamentos térmicos, que variam quanto ao binômio tempo temperatura, o que pode resultar em perdas de algumas qualidades, incluindo o surgimento de defeitos de sabor. Os principais defeitos de sabor detectados no leite são: sabor de vaca, de ração, de ervas, de alho, ácido, azedo, de fruta, sujo, amargo, pútrido, maltado, fenólico, rançoso, lipolítico, de sabão, cozido, exaltado, enriquecido, caramelizado, gomoso, oleoso, de papelão, oxidado, de luz solar, de peixe, metálico, de substância química e salgado. Os defeitos de sabor podem surgir no leite desde a sua produção, durante o seu beneficiamento e até a sua embalagem e transporte e podem estar relacionados à alimentação animal (sabores de vaca, de ração, de ervas e de alho), à presença de microrganismos (sabores de fruta, sujo, amargo, pútrido, maltado, fenólico e rançoso), à quebra de gordura (sabores lipolítico e de sabão), à relação tempo e temperatura do tratamento térmico (sabores cozido, exaltado, enriquecido e caramelizado), à oxidação de ácidos graxos (sabores gomoso, oleoso, de papelão, oxidado, de luz solar, de peixe e metálico), entre outros (sabores de substâncias químicas e salgado). Palavras-chave: leite, características sensoriais, tratamento térmico do leite, defeitos de sabor. Abstract Brasil, F. A. Main off-flavors on milk and their causes, 2010. Paper (Lato sensu degree Specialization on Hygiene and Inspection of Produtcts from Animals) – Instituto Qualittas de Pós-Graduação, São Paulo, 2010. Pleasant sensorial characteristics are essential in any food. Milk, to be enjoyable, must have sweet aroma and mellowly taste. Inadequate properties of flavor may compromise the acceptance by consumers. To keep food safe for consume, milk may be submitted to different heat treatments, varying due to the time-temperature binomial, which may result in losses of some qualities, including off-flavors. The main off-flavors detected on milk are: flavor of cow, ration, herbs, garlic, acid, sour, fruity, dirty, bitter, putrid, malty, phenolic, rancid, lipolytic, soapy, cooked, exaltedness, enrichment, caramelized, gluey, tallowy, cardboardy, oxidized, sunlighty, fishy, metallic, chemical substance and salty. Off-flavors may arise on milk from its production, during the processing and even during its packaging and transport and may be related to animal feed (flavors of cow, ration, herbs and garlic), presence of microrganisms (flavors of fruit, dirt, bitter, putrid, malt, phenol and rancid), breaking of fat (flavors of lipolysis and soap), relation of time and temperature from heat treatment (flavors of cooked, sunlight, fish and metal), among others (flavors of chemical substances and salt). Key words: milk,sensory, flavor, milk heat treatment, off-flavor. Lista de tabelas Tabela 1 - Características sensoriais do leite de vaca 03 Tabela 2 - Defeitos de sabor, suas causas e meios de prevenção. 11 Sumário Página de rosto ii Ficha de aprovação iii Resumo iv Abstract v Lista de tabelas vi Sumário vii 1. Introdução 01 2. Revisão de literatura 01 2.1. Definição de leite e classificação brasileira 01 2.1.1. Características sensoriais 02 2.2. Produção de leite 03 2.3. Consumo de leite 04 2.4. Seguranças alimentar e nutricional e qualidade 04 2.5. Tipos de tratamentos de leite 06 2.5.1. Termização e Pré-aquecimento 07 2.5.2. Pasteurização 08 2.5.3. Ultrapasteurização, Ultra Alta Temperatura (UAT) e Esterilização 09 2.5.4. Desidratação – Leite em pó 10 2.6. Alterações do leite – Defeitos de sabor 10 2.6.1. Influência da alimentação e odores estranhos no sabor do leite 13 2.6.2. Influência da presença de microrganismos no sabor do leite 14 2.6.3. Sabores causados por lipólise 15 2.6.4. Sabores associados com o tratamento térmico 15 2.6.5. Sabores associados à oxidação 18 2.6.6. Sabores miscelâneos 20 3. Conclusão 20 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 22 1. Introdução De acordo com BRASIL (2002) leite é definido como o produto oriundo de ordenha completa e ininterrupta em condições de higiene, de vacas sadias, bem alimentadas e descansadas. O leite de outras espécies deve denominar-se segundo a espécie de que proceda. Para manter o valor calórico e nutritivo do leite, é preciso produzi-lo, pasteurizá-lo e comercializá-lo em condições higiênico-sanitárias satisfatórias que impeçam a veiculação de microrganismos patogênicos sem, no entanto, modificar as características do produto (ALMEIDA-MURADIAN E PENTEADO, 2007). Pelo motivo do leite ser naturalmente suave, levemente adocicado, o desenvolvimento de qualquer defeito de sabor é particularmente notável no produto. Existe uma série de causas para o surgimento de defeitos de sabor, incluindo origem da alimentação, contaminação pós-pasteurização, exposição à luz artificial ou natural, temperatura de estocagem e material de embalagem (GANDY, 2008). O sabor do leite geralmente é considerado suave, especialmente quando frio, o que implica que poucas pessoas não gostam do leite. Por outro lado, a suavidade instigou pesquisas sobre os defeitos de sabor (WALSTRA et al., 2006). Esse trabalho teve como objetivo fazer a compilação dos principais defeitos de sabor do leite e suas causas através de uma revisão bibliográfica. 2. Revisão de literatura 2.1. Definição de leite e classificação brasileira De acordo com o artigo 475 do Regulamento de Inspeção Industrial e Sanitária de Produtos de Origem Animal (RIISPOA), aprovado pelo Decreto Nº 30.691 de 1952, “entende-se por leite, sem outra especificação, o produto oriundo da ordenha completa, e ininterrupta, em condições de higiene, de vacas sadias, bem alimentadas e descansadas”, sendo considerado leite normal, o produto que apresente caracteres organolépticos (cor, cheiro, sabor e aspecto) normais, padrões físico-químicos (temperatura, lacto-filtração, densidades, acidez, gordura, extrato seco total e desengordurado, índice de refração no soro cúprico e índice crioscópico) e padrões microbiológicos (prova da redutase, fosfatase, peroxidase, contagem microbiana e teste de coliformes) dentro dos limites já estabelecidos pela legislação (Brasil, 2009). O leite integral normal é um líquido branco, opaco, constituído por água, lípides, carboidratos, proteínas, vitaminas e sais, possuindo gosto levemente adocicado e odor pouco acentuado, não apresentando nenhum gosto estranho ou residual que possa retirar-lhe a sensação agradável percebida quando o mesmo é degustado (AIRES, 2002). O leite pasteurizado brasileiro é classificado em três tipos, em função principalmente da qualidade microbiótica: tipo A, tipo B e pasteurizado. Até bem pouco tempo ainda se encontrava no mercado o leite tipo C, mas o produto foi retirado de circulação por instrução normativa nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste em 2005, e nas regiões Norte e Nordeste em 2007 (AIRES, 2007). A Instrução Normativa 51 de 2002 define como leite pasteurizado: - Tipo A o leite classificado quanto ao teor de gordura em integral, padronizado, semidesnatado ou desnatado, produzido, beneficiado e envasado em estabelecimento denominado Granja Leiteira, observadas as prescrições contidas no Regulamento Técnico de produção, identidade e qualidade de leite tipo A; - Tipo B o leite classificado quanto ao teor de gordura como integral, padronizado, semidesnatado ou desnatado, refrigerado em propriedade rural produtora de leite nela mantido pelo período máximo de quarenta e oito horas, em temperatura igual ou inferior a 4°C, que deve ser atingida no máximo três horas após o término da ordenha, transportado para estabelecimento industrial, para ser processado, onde deve apresentar, no momento do seu recebimento, temperatura igual ou inferior a 7°C; - Tipo C o produto definido em Regulamento Técnico específico, não submetido a qualquer tipo de tratamento térmico na fazenda leiteira onde foi produzido e integral quanto ao teor de gordura, transportado em vasilhame adequado e individual de capacidade até cinquenta litros e entregue em estabelecimento industrial adequado até as dez horas do dia de sua obtenção; - Leite pasteurizado o leite tipo A, B ou C submetido à temperatura de 72 a 75°C, durante quinze a vinte segundos, exclusivamente em equipamento de pasteurização a placas, dotado de painel de controle com termorregistrador computadorizado ou de disco e termorregulador automáticos, válvula automática de desvio de fluxo, termômetros e torneiras de prova, seguindo-se resfriamento imediato em equipamento a placas até temperatura igual ou inferior a 4°C e envase; - Leite UAT o leite homogeneizado e submetido durante dois a quatro segundos a uma temperatura de 130 a 150°C, mediante um processo térmico de fluxo contínuo, imediatamente resfriado a uma temperatura inferior a 32°C e envasado sob condições assépticas em embalagens estéreis e hermeticamente fechadas (Brasil, 2002). - Leite em pó, o produto obtido pela desidratação do leite integral, desnatado ou parcialmente desnatado, mediante processo tecnológico adequado. As principais determinações para esse tipo de alimento são: acidez em ácido láctico, substâncias voláteis (umidade), resíduo por incineração (cinzas), alcalinidade das cinzas, gordura, protídios e glicídios redutores em lactose (Brasil, 1996). 2.1.1. Características sensoriais Características sensoriais adequadas são fundamentais para qualquer alimento. No caso do leite, deve ter sabor agradável, levemente adocicado e aroma suave. A utilização do leite com características sensoriais inadequadas, assim como sua utilização na produção de seus derivados comprometem sua aceitação pelo consumidor. Sabores estranhos ao leite podem ocorrer devido a vários fatores (ALMEIDA-MURADIAN E PENTEADO, 2007). O leite para ser adequado ao consumo humano deve apresentar características sensoriais próprias, indicadoras da qualidade do produto. Dentre estas características, destacam-se aspecto, cor, sabor e odor (SILVA et al., 1999). A Tabela 1 apresenta as características sensoriais do leite de vaca. Tabela 1. Características sensoriais do leite de vaca. Características Qualificações Aspecto e cor Líquido branco, opalescente e homogêneo Sabor e odor Característicos, isento de sabores e odores estranhos Fonte: CNA/DETEC (1999). A cor branca do leite resulta da dispersão da luz refletida pelos glóbulos de gordura e pelas partículas coloidais de caseína e de fosfato de cálcio. A homogeneização torna o leite mais branco, pela maior dispersão da luz. A cor amarelada é devida ao pigmento caroteno, o qual é lipossolúvel. Cores anormais podem resultar de desenvolvimento microbiano, como a cor vermelha causada por Serratia marcescens e a cor azul por Pseudomonas cyanogenes (SILVA et al., 1997 apud SILVA et al., 1999). Os principais componentes de sabor não voláteis do leite fresco são a lactose e os sais dissolvidos, que causam um sabor doce e salgado, respectivamente. A doçura causada pela lactose é diminuída pelos sais dissolvidos e pela caseína micelar no leite. Entretanto, o sabor doce prevalece. O leite desnatado e o leite integral diferem consideravelmente no sabor. Os glóbulos de gordura são largamente responsáveis pela cremosidade ou riqueza de sabor (WALSTRA et al., 2006). O leite fresco, produzido sob condições ideais, apresenta sabor pouco pronunciado, primariamente devido à relação entre lactose e cloretos, apresentando-se como doce e salgado, não-ácido e não-amargo, podendo ser afetado em condições como a ocorrência de mastite. Sabores e odores pronunciados em leite fresco são usualmente devidos à alimentação (ração, silagem) e ao ambiente de ordenha (SILVA et al., 1997 apud SILVA et al., 1999). 2.2. Produção de leite O Brasil é o sexto maior produtor de leite mundial, com aproximadamente 26,1 bilhões de litros produzidos em 2007 (IBGE, 2008). Os seis Estados de maior produção do país são, nesta ordem, Minas Gerais (42,1%), Goiás (16,3%), Paraná (15,8%), Rio Grande do Sul (15,1%) e São Paulo (10,5%) (IBGE, 2005). A produção está dividida nas regiões desta forma: região sudeste com 38,8%, região sul com 36,6%, região centro-oeste com 15,3%, região nordeste com 12,0% e região norte com 7,0% da produção nacional anual (IBGE, 2005). 2.3. Consumo de leite O leite é considerado um alimento saudável para crianças e adultos, pois constitui um dos produtos naturais mais completos sob o ponto de vista nutricional (ALVES et al., 2008). Segundo Abranches et al. (2008), o leite é considerado um alimento excelente, composto por uma mistura de nutrientes essenciais para a alimentação, como água, proteínas, carboidratos, lipídios, minerais e vitaminas, que juntos, fornecem elementos importantes á manutenção da saúde. No Brasil o consumo do leite é baixo: de acordo com Tabchoury (2002), em 2001 o consumo per capita de leite encontrava-se em torno de quarenta litros por ano enquanto que, se cada brasileiro consumisse a quantidade recomendada pela Pirâmide Alimentar proposta por Philippi et al. (1999) o consumo per capita deveria ser superior a cem litros por ano (SAMPAIO E SILVA, 2004). Em 2005, o Brasil assumiu uma importante posição de exportador de leite e derivados, entretanto, o consumo per capita de leite no país continua muito aquém do índice recomendado pelo Ministério da Saúde, que é de 600 mililitros por dia para adultos ou 219 litros por ano (ABRANCHES et al., 2008). Em relação ao tipo de leite consumido, Aires (2007) afirma que em outros países, o leite pasteurizado muitas vezes tem preferência dos consumidores em relação ao UAT, pois apresenta sabor mais próximo do leite fresco, por conta da qualidade inicial da matéria-prima ou do leite cru, bem como das temperaturas mais brandas de tratamento. Um estudo realizado por Sampaio e Silva (2004), com jovens universitárias, mostrou que o leite consumido pela maioria das jovens (79%) foi o longa vida, percebido como microbiologicamente seguro, de bom sabor e qualidade. O leite pasteurizado tipo C foi percebido como sendo de baixa qualidade tanto em termos sensoriais como microbiológicos e nutricionais, sendo consumido por 2% das entrevistadas. 2.4. Seguranças alimentar e nutricional e qualidade Segundo Sousa e colaboradores (1995), o leite é um alimento de grande importância na alimentação humana, devido ao seu elevado valor nutritivo. Como fonte de proteínas, lipídios, carboidratos, minerais e vitaminas, o leite torna-se também um excelente meio para o crescimento de vários grupos de microrganismos desejáveis e indesejáveis. A durabilidade do leite é limitada pela presença e multiplicação de microrganismos, que causam modificações físico-químicas no mesmo (VENTURINI et al., 2007). Há tempos atrás, o leite era consumido cru e os riscos à saúde associados ao leite cru foram bem documentados. Foi publicado que a tuberculose bovina foi endêmica no século XIX na Inglaterra devido à transmissão via leite não tratado termicamente. Também foi publicada a ocorrência de brucelose a partir de leite de vaca e seus derivados não aquecidos, no século XX (EARLY, 1998). O leite sempre representou um risco para o consumidor. Após incansáveis pesquisas, foram desenvolvidos diversos métodos para sua conservação e eliminação de patógenos como a pasteurização, a desidratação, o leite condensado e o processamento em diferentes subprodutos (SOUSA, 2005). O trabalho do século XIX do químico francês, Louis Pasteur, sobre fermentação e infecção e deterioração do vinho e da cerveja levou ao tratamento térmico do leite como meio de prevenir essa via de transmissão de doenças. Desta maneira o tratamento térmico passou a ser conhecido como pasteurização, apesar desse termo ter sido utilizado primeiro somente para descrever o tratamento térmico de leite infantil (EARLY, 1998). As condições precisas para a pasteurização não foram inicialmente determinadas. Após um período, o tratamento térmico do leite foi se tornando prática comum. De tempos e tempos, intoxicações alimentares associadas ao leite ocorreram. Enquanto algumas se relacionam ao consumo do leite cru, outras foram devidas à pasteurização imprópria ou pasteurização seguida de contaminação cruzada por leite cru. Apesar do desenvolvimento do tratamento térmico para o leite tenha sido inicialmente focado à segurança alimentar, alguns pontos permitiram que novas tecnologias considerassem os aspectos da qualidade do produto. Consequentemente, muitas melhorias na vida de prateleira, sabor e cor dos produtos passaram a ser observadas (EARLY, 1998). Dado a sua composição (açúcar, proteínas, gorduras, sais minerais e vitaminas), o leite torna-se um meio de cultura ideal para o crescimento bacteriano. Portanto, para que seja conduzido desde as fazendas até o consumidor urbano, o leite de consumo recebe pelo menos um tratamento térmico, visando a maior estabilidade durante sua comercialização (FARIA, 1985). A importância da ciência e da tecnologia de alimentos na melhoria da qualidade de vida do homem é ressaltada pela vital necessidade de se ter alimentos com alto valor nutricional, disponíveis e acessíveis à população. Desde o nascimento, o leite se apresenta quase indissociável da alimentação humana, e os avanços conquistados favorecem a produção, o processamento, a distribuição e o consumo do leite, particularmente o de origem bovina. Essas etapas, porém, induzem a alterações bioquímicas, físico-químicas, microbiológicas, nutricionais, sensoriais e reológicas, que podem comprometer a qualidade do produto final. A química do leite tornou-se um dos pilares a sustentar a garantia de qualidade e o desenvolvimento de produtos em laticínios. É evidente e motivador que o estudo da química do leite demande especialistas em diversas áreas, em razão da complexidade das interações entre os constituintes do leite e dos tratamentos tecnológicos empregados (SILVA, 1997 apud SILVA et al., 1999). A utilização de leite de baixa qualidade pela indústria tem implicações tecnológicas relevantes, que traz como consequências perdas econômicas e riscos à saúde do consumidor (SILVA et al., 1999). Dentre estes problemas tecnológicos, pode-se citar o baixo rendimento na fabricação de derivados, a diminuição da vida útil dos produtos no mercado, as alterações nas características originais do leite e dos derivados (SILVA et al., 1999). Com a introdução da Instrução Normativa Nº 51 de 2002, intensificou-se o uso de resfriadores de expansão e de imersão para o armazenamento do leite nas propriedades rurais. Esta prática, quando executada de forma inadequada, permite o desenvolvimento de microrganismos psicrotróficos, causadores de alterações no leite (SILVA et al., 1999). Os psicrotróficos são definidos como microrganismos capazes de crescer a 7°C ou menos, independentemente da temperatura ótima de crescimento. As implicações tecnológicas decorrentes da microbiota psicrotrófica está basicamente relacionada com as enzimas termorresistentes extracelulares produzidas por estes microrganismos, visto que estas bactérias são destruídas na pasteurização (ALMEIDA E FURTADO, 1993 apud SILVA et al., 1999): no leite em pó, essas enzimas provocam mudanças físico-químicas no produto, bem como defeitos nas propriedades funcionais e sensoriais do pó (CELESTINO et al., 1997 apud SILVA et al., 1999); no leite UHT, os psicrotróficos podem produzir enzimas lipolíticas e proteolíticas termorresistentes (LAW, 1979 apud SILVA et al., 1999), promovendo, por exemplo, a geleificação do produto, reduzindo a vida-útil na prateleira (SILVA et al., 1999). Em relação aos leites pasteurizados, a qualidade da matéria-prima e manutenção da cadeia de frio são as principais restrições ao ganho de durabilidade. Uma alternativa tecnológica já disponível é a pasteurização com posterior envase asséptico, o que assegura melhores propriedades de conservação ao produto. Também merece atenção para desenvolvimento o emprego de temperaturas de pasteurização superiores às adotadas atualmente (72 a 78ºC), que promoveriam maior redução na contagem de microrganismos, favorecendo a preservação até o consumo (SILVA et al., 1999). A chave para a aceitação do consumidor de leite é um sabor agradavelmente doce, sabor de leite fresco. A qualidade do leite inicia na fazenda. É interessante praticar a conferência do sabor do leite regularmente, pois o sabor do leite pode se alterar na qualidade rapidamente, se as condições de produção forem alteradas. No estudo de Schroeder e Beattie (1994), para uma avaliação mais eficaz, amostras de leite foram aquecidas e os resultados mostraram que temperaturas mais baixas tendem a mascarar defeitos de sabor potenciais. Alguns pesquisadores já procuraram determinar possíveis perdas nos teores de vitaminas do leite e produtos lácteos após diferentes tratamentos térmicos, bem como verificar a manutenção destes teores durante a estocagem. As perdas observadas variaram de acordo com o produto, o tipo de processamento e as condições de armazenamento (ABRANCHES et al., 2008). Ressalta-se, então, como relatado por Abranches e colaboradores (2008), que o leite, embora contenha a maioria das vitaminas, só pode ser considerado uma boa fonte de vitamina A, riboflavina (B2) e cianocobalamina (B12), classificando-se com deficiente em vitaminas C e D e nas demais vitaminas do complexo B. 2.5. Tipos de tratamentos do leite O leite fluido pode ser entregue ao consumidor após vários tratamentos térmicos: nenhum (leite cru), pasteurizado ou esterilizado. As propriedades do leite fluido que requerem maior atenção é a segurança para o consumidor, tempo de prateleira e sabor. A segurança é, obviamente, essencial e o consumo de leite cru não é considerado seguro. Consequentemente, a venda do leite cru para o consumo é proibida ou severamente restrita em vários países (WALSTRA et al., 2006). Praticamente a produção de todo leite e derivados lácteos envolve o tratamento térmico. Cada tratamento visa principalmente matar microrganismos e inativar enzimas, ou alcançar algumas outras mudanças, principalmente químicas. Os resultados dependem grandemente da intensidade do tratamento, isto é, a combinação da temperatura e duração do aquecimento (WALSTRA et al., 2006). Os principais objetivos do tratamento térmico são a garantia da segurança para o consumidor, o aumento da manutenção da qualidade e a estabilidade de propriedades específicas de produtos (WALSTRA et al., 2006). Duas técnicas empregadas, pasteurização e esterilização Ultra Alta Temperatura (UAT) ou Ultra High Temperatura (UHT), envolvem o tratamento térmico, o qual tem sido utilizado desde o início de 1900. A pasteurização é aplicada a muitos produtos lácteos por remover os microrganismos patogênicos presentes no leite, permanecendo, entretanto, células vegetativas viáveis. Já o processamento UAT, também conhecido como esterilizador comercial, envolve o aquecimento a uma temperatura a qual promove a destruição de quase todas as formas de microrganismos (ABRANCHES et al., 2008). Tecnologias modernas, como a microfiltração (emprego de membranas com porosidade entre 1 e 1,5 micrômetro) e a desgerminação (emprego de centrífugas automáticas) do leite, não possuem restrições técnicas para serem empregadas no Brasil, visando à redução da contagem de microrganismos. Os efeitos na melhoria da qualidade microbiológica com reflexo na durabilidade dos produtos são reconhecidos e podem estimular o investimento inicial (SILVA et al., 1999). TM Marchiori (2004) relata existir o sistema Ultrafresh , que combina os tratamentos físicos (centrifugação para redução de bactérias e células somáticas) e térmico (injeção direta de vapor), garantindo economia de processo e realce de sabor do leite. O módulo vai acoplado ao sistema de ultrapasteurização, resultando em maior produtividade e cremosidade do leite. 2.5.1. Termização e Pré-aquecimento A termização é o tratamento térmico que pode ser usado para estender o tempo de estoque do leite antes da pasteurização ou de tratamento mais severo. Esse tratamento reduz a carga microbiana do leite cru e, se refrigerado e mantido à temperatura menor de 4°C, estende o tempo de estocagem por alguns dias sem a perda da qualidade (EARLY, 1998). Walstra e colaboradores (2006) consideram a termização o tratamento térmico de intensidade mais baixa que a pasteurização lenta, usualmente vinte segundos a temperatura entre 60 e 69°C, com o propósito de eliminar bactérias, principalmente as psicrotróficas, assim como lipases e proteinases termorresistentes que podem eventualmente causar a deterioração de produtos lácteos. Exceto pela eliminação de alguns microrganismos vegetativos e pela inativação parcial de algumas enzimas, a termização quase não causa nenhuma alteração irreversível no leite. Ainda segundo Walstra e colaborares (2006), o pré-aquecimento pode ser desde um tratamento muito suave até um aquecimento intenso. Isso diz respeito a intensidades de aquecimento entre pasteurização lenta e esterilização. 2.5.2. Pasteurização A pasteurização é o tratamento térmico mais comumente utilizado a leites líquidos e cremes. A IDF (International Dairy Federation) define pasteurização como “um processo aplicado a um produto com o objetivo de minimizar riscos à saúde originados de microrganismos patogênicos associados ao leite pelo tratamento térmico que consiste em alterações química, física e organoléptica mínimas no produto. O produto deve apresentar resultado negativo ao teste de fosfatase imediatamente após a pasteurização” (EARLY, 1998). A pasteurização não destrói todos os microrganismos patógenos, somente os reduz a níveis que não representem risco ao consumidor. Os agentes patogênicos não formadores de esporos mais resistentes ao tratamento, a Coxiella burnetti e o Micobacterium tuberculosis, são destruídos na pasteurização (EARLY, 1998). A pasteurização por si só não tem grande efeito sobre o sabor e somente um pequeno efeito sobre o valor nutricional. Um processo de pasteurização rápida, cuidadosamente controlado, assegura uma alteração virtualmente indetectável no sabor quando comparado ao leite cru fresco (EARLY, 1998). O leite pasteurizado deve mostrar reação negativa para a prova de fosfatase alcalina, mas reação positiva ao teste de peroxidase. A fosfatase alcalina e a peroxidase são enzimas inerentes ao leite. Sua forma é desnaturada pelo tratamento térmico. A peroxidase requer uma temperatura de 80°C para inativá-la e a sua ausência no leite pasteurizado indica excesso de temperatura no tratamento. Independentemente dos efeitos negativos do tratamento acima de 80°C sobre o sabor e a cor do leite, o problema da ativação térmica de esporos fica evitado. As mensurações da atividade da fosfatase e do peróxido são usadas para indicar que o leite foi pasteurizado, que o tratamento aplicado foi apropriado e que o produto está seguro para ser consumido (EARLY, 1998). Segundo Early (1998), a pasteurização deve garantir que o leite passe por tratamento térmico à temperatura mínima de 62,8°C e máxima de 65,6°C por, no mínimo trinta minutos (pasteurização lenta) à temperatura de 71,1°C por quinze segundos, ou condições equivalentes (pasteurização rápida). Pasteurização lenta: esse é o tratamento térmico cuja intensidade é aquela que inativa a enzima fosfatase alcalina. Isso pode ser realizado pelo aquecimento por trinta minutos a 63°C. Aproximadamente todos os patógenos que podem estar presentes no leite são mortos, especificamente interessa o Mycobacterium tuberculosis, um microrganismo relativamente termorresistente que está entre os patógenos mais perigosos. Todas as leveduras e a maioria das bactérias em forma vegetativa são eliminadas. Algumas espécies de Micobacterium de crescimento lento no leite não são mortas. Ademais, algumas enzimas são inativadas, mas não todas. O sabor do leite é raramente alterado, pouca ou nenhuma proteína do soro é desnaturada, e a aglutinação pelo frio e as propriedades bacteriostáticas permanecem praticamente intactas. Um tratamento térmico mais intenso é, contudo, frequentemente aplicado. Isso causa, por exemplo, a desnaturação de imunoglobulinas (consequentemente, diminuição na aglutinação pelo frio e atividade bacteriostática) e algumas vezes, uma alteração de sabor perceptível (WALSTRA et al., 2006). De acordo com a legislação brasileira, a pasteurização lenta deve respeitar o binômio tempo-temperatura conforme segue: 63 a 65°C por trinta minutos (BRASIL, 2002). Pasteurização rápida: esse tratamento térmico é aquele cuja atividade da enzima lactoperoxidase é destruída, para o qual vinte segundos a 85°C é suficiente. No entanto, temperaturas maiores, acima de 100°C, são algumas vezes aplicadas. Praticamente todos os microrganismos vegetativos são mortos, mas não os esporos bacterianos. Muitas enzimas são inativadas, porém a proteinase e algumas lipases e proteinases bacterianas não são ou são inativadas incompletamente. Algumas propriedades bacteriostáticas do leite são destruídas. Ocorre desnaturação parcial das proteínas do soro. Um sabor distinto de cozido se desenvolve. Ocorrem alterações nutritivas insignificantes, com exceção da perda da vitamina C. A estabilidade do produto com relação à autoxidação da gordura é aumentada. Excetuando a desnaturação protéica, reações químicas irreversíveis ocorrem numa extensão limitada (WALSTRA et al., 2006). O leite processado pela pasteurização rápida terá reação negativa da fosfatase imediatamente após o processo e sob estoque a 4°C (EARLY, 1998). No Brasil, a Instrução Normativa N° 51 de 2002 determina como pasteurização rápida o tratamento com o binômio tempo-temperatura de 72 a 75 °C por quinze a vinte segundos. 2.5.3. Ultrapasteurização, Ultra Alta Temperatura (UAT) e Esterilização (longa vida) Apesar da esterilização como meio de conservar alimentos tenha sido compreendido desde o século XIX, as tecnologias requeridas para combinar processo asséptico e embalagem asséptica não eram desenvolvidas adequadamente antes da década de 50, quando o processo térmico de ultra alta temperatura se tornou realidade (EARLY, 1998). O processo UAT foi criado para oferecer produtos estéreis comercialmente que são livres de patógenos e com pequena chance de deterioração durante o transporte e o estoque sob as condições recomendadas (EARLY, 1998). O processo UAT do leite assegura que o produto é exposto a tratamentos térmicos de 135 a 150°C por poucos segundos. O tratamento não deve ser realizado com temperatura inferior a 135°C e tempo não inferior a um segundo. Todos os microrganismos deteriorantes e seus esporos devem ser destruídos. As alterações químicas, físicas e organolépticas devem ser as mínimas (EARLY, 1998). Alguns autores diferenciam leite ultra pasteurizado de leite esterilizado. Geralmente, o processo de esterilização envolve um pré-aquecimento antes do engarrafamento, seguido da esterilização a temperatura entre 112 e 140°C por tempo entre 20 e 35 minutos (EARLY, 1998). Esterilização: esse tratamento térmico tende a eliminar todos os microrganismos, incluindo os esporos bacterianos. Para isso, trinta minutos a 110°C (esterilização em garrafa), trinta segundos a 130°C, ou um segundo a 145 °C usualmente é suficiente. Os dois últimos tratamentos são exemplos do chamado tratamento UAT (Ultra Alta Temperatura, tempo curto). Alguns efeitos de cada um dos tratamentos são diferentes. O aquecimento por trinta minutos a 110°C inativa todas as enzimas, mas nem todas as proteinases e lipases bacterianas são inteiramente inativadas. Há intensa reação de Maillard, levando à pigmentação castanha, à formação de sabor de esterilizado, e a alguma perda de lisina livre. Também ocorre redução do conteúdo de algumas vitaminas, consideráveis mudanças na proteína incluindo a caseína, e decréscimo no pH do leite em torno de 0,2 unidades. Acima do aquecimento por um segundo a 145°C, reações químicas dificilmente ocorrem, a maioria das proteínas do soro permanece sem mudanças e somente um leve sabor de cozido se desenvolve. Não há a inativação de todas as enzimas, isto é, a plasmina é raramente afetada e nem todas as lipases e proteinases bacterianas (WALSTRA et al., 2006). 2.5.4. Desidratação – Leite em pó O leite é considerado um alimento saudável para crianças e adultos, pois constitui um dos produtos naturais mais completos sob o ponto de vista nutricional. Quando comercializado na forma de pó, o leite apresenta grande interesse econômico, pois permite o armazenamento e o transporte de maior quantidade de produto em menor espaço físico (ALVES et al., 2008). O principal propósito de fabricação do leite em pó é converter o líquido perecível cru em um produto que pode ser estocado sem perda da qualidade, preferencialmente por alguns anos (WALSTRA et al., 2006). 2.6. Alterações do leite - Defeitos de sabor A percepção de saboroma é altamente complexa. Tradicionalmente, duas sensações químicas são distinguidas: sabor e odor, que são sensíveis para especificar componentes hidrossolúveis e voláteis, respectivamente. Cada componente pode ser identificado e caracterizado. É bem sabido que a combinação do sabor e do odor leva à percepção do saboroma. Atualmente, a percepção de saboroma envolve outros estímulos parcialmente conhecidos. A sensação deixada na boca e a estrutura física do alimento podem ter efeitos significantes (WALSTRA et al., 2006). O bom sabor é, obviamente, uma característica de qualidade essencial no leite para bebida. O leite fresco tem um sabor suave, onde o integral apresenta um gosto mais intenso que o leite desnatado. O principal aspecto é, no entanto, a ausência de defeitos de sabor (WALSTRA et al., 2006). O leite, um alimento de importância capital para o ser humano, precisa atender as exigências físico-químicas e microbiológicas e ter um sabor característico e agradável de leite, entretanto, a maioria dos leites disponíveis em mercados menos desenvolvidos apresenta defeitos de sabor (AIRES, 2002). A correta identificação de defeitos de sabor é um dos maiores problemas em relação a esses trabalhos com sabores de leite. Durante um estudo, a equipe de Shipe e colaborares (1978) procurou primeiro desenvolver uma classificação prática de alterações de sabor. Depois, métodos para a produção de alguns dos mais comuns defeitos de sabor foram estudados. O trabalho pretendeu auxiliar no treinamento de pessoal para a pesquisa e para o controle de qualidade, na expectativa de resultar em uma terminologia mais uniforme. Aires (2002) afirma que além do gosto de cozido, também é possível encontrar o produto com sabor de ranço, de fruta, amargo, maltado, aguado, sem frescor, oxidado pela luz e ácido, entre outros. A Tabela 2 mostra a classificação utilizada por Schroeder e Beattie (1994). Tabela 2: Defeitos de sabor, suas causas e meios de prevenção. Defeitos de sabor Ração (aromático, odorífero Causas Prevenção Vacas consumindo ou inalando odores Retirar as vacas da pastagem de ração de cheiro forte de uma a três de uma a três horas antes da horas antes de ordenha; ordenha, alimentar com fibras ou artificialmente doce) aromáticas após a ordenha; Alteração brusca da alimentação; Alterar a alimentação dos Ventilação pobre no estábulo. animais gradualmente; Providenciar ventilação adequada no estábulo. Oxidado (semelhante a papelão, a oleoso, metálico) Exposição do leite a superfícies de Usar somente aço inoxidável aço inoxidável de má qualidade ou de boa qualidade, vidros, superfícies enferrujadas. Inclui plástico ou borracha para tubulação de cobre para a água todas as superfícies de quente, cotovelos e conexões de aço contato com o leite; inoxidável de má qualidade e pias enferrujadas; Cobre, ferro ou manganês na água de abastecimento; Uso excessivo de sanitizantes clorados; Tratamento da água; Dar preferência a sanitizantes iodóforos; Proteger o leite da exposição ao sol ou luz fluorescente, proteger tubulação de vidro. Exposição do leite à luz solar ou luz fluorescente. Deteriorado ou de Bactérias psicrotróficas Higienizar os equipamentos sujo (deteriorantes); satisfatoriamente. Sanitizar (desagradável, Manipulação de leite em residual, de fruta) equipamentos sujos (tanques de Limpar as instalações e as expansão, linhas e ordenhadeiras); vacas; Vacas sujas devido à manutenção Manipular adequadamente as insuficiente do confinamento e áreas ordenhadeiras; imediatamente antes do uso; de alimentação; Lavar e secar os tetos antes Preparação imprópria dos animais da ordenha. para a ordenha; Não secagem dos tetos para a ordenha. Rançoso Agitação excessiva do leite ou Manter as teteiras ajustadas formação de espuma no leite cru; e minimizar a entrada de ar; Admissão de ar na teteira; Evitar a queda das teteiras. (amargo, semelhante a sabão, Não acionar a bomba de leite aroma de queijo) Mistura forte de temperatura do leite; Fase final de lactação ou animais com baixa produção; Rações pobres em proteína. sem o preenchimento da tubulação; Restringir a entrada de ar, prevenir furos; Resfriar o leite e manter resfriado; Descartar o leite de vacas com baixa produção e de vacas com lactação tardia; Usar ração balanceada para a alimentação dos animais. Maltado ou ácido Sujeira, equipamento mal higienizado; (azedo) Resfriamento lento ou insuficiente do Enxaguar e limpar o equipamento após cada uso e sanitizar adequadamente; leite. Resfriar o leite a 4°C prontamente e manter. Estranho Medicamentos, produtos químicos ou Usar medicação aprovada e (medicinal, químico, inseticidas usados ou armazenados inseticida com precaução, de desinfetante) inadequadamente; acordo com a bula; Concentração excessiva, uso Evitar sanitizantes e impróprio ou drenagem inadequada de desinfetantes com odor forte, agentes sanitizantes. usar concentrações recomendadas. Fonte: Schroeder e Beattie (1994). Pelo motivo do leite ser naturalmente suave, levemente adocicado, o desenvolvimento de qualquer defeito de sabor é particularmente pronunciado no leite. Existem várias causas para o surgimento de defeitos de sabor, incluindo fontes de alimentação, contaminação pós-pasteurização, exposição à luz natural ou artificial, temperatura de estocagem e material da embalagem (GANDY et al., 2008). A estabilidade do leite acondicionado é, além do ponto de vista microbiano, também afetada pelas alterações químicas das frações lipídicas, protéicas e vitamínicas. Os ácidos graxos de baixo peso molecular tais como o butírico, o capróico e o cáprico são os principais responsáveis pelo sabor extravagante do produto. A enzima lipase, por exemplo, hidrolisa os triglicerídios, alterando o aroma do leite acondicionado. A oxidação da fração gordurosa do leite resulta em sabor de sebo possivelmente pela formação de hidroperóxidos (SACHARAW E GRIFFIN, 1970 apud FARIA, 1985). A reação de oxidação é catalisada pelo calor, pela luz e pela presença de metais. Grande parte das vitaminas fotossensíveis do leite é drasticamente afetada mesmo por pouco tempo de exposição aos raios solares. Cabe, portanto, à embalagem, dentre outras funções, proporcionar proteção contra os efeitos deletérios das radiações luminosas, aumentando a vida útil do leite acondicionado, tanto do ponto de vista organoléptico quanto nutritivo (FARIA, 1985). 2.6.1. Influência da alimentação e de odores no sabor do leite (sabor de vaca, sabor de ração, sabor de ervas, sabor de alho, sabor aromático, sabor odorífero, sabor artificialmente doce) O leite fresco tem defeitos de sabor originados da alimentação das vacas. Os componentes responsáveis por isso adentram no leite pelo animal ou pelo ar e, algumas vezes por ambas as vias. Se o animal em lactação sofre de cetose, por exemplo, por causa de uma alimentação deficiente em proteína, concentrações aumentadas de cetonas são encontradas no leite. Consequentemente, o leite exibe um típico sabor de vaca (WALSTRA et al., 2006). A alimentação fornecida ao animal pode conferir sabores indesejáveis ao leite. Para minimizar ou eliminar a ação dos alimentos no sabor e aroma do leite, recomenda-se não fornecer alimentos com aromas fortes no mínimo quatro horas antes da ordenha (CARUSO E OLIVEIRA, s.n.t. apud ALMEIDA-MURADIAN E PENTEADO, 2007). Almeida-Muradian e Penteado (2007) citam Viotto e Roig (1993), que relacionam os seguintes defeitos de sabor relacionados com a alimentação do animal: a. Sabor de ração: são sabores indesejáveis produzidos por animais que consomem certos tipos de ração ou inalam o forte odor dessas rações, sendo detectados no leite quando a ingestão ou inalação ocorre de duas a quatro horas antes da ordenha. O teor de umidade da silagem que possibilita o desenvolvimento de mofo e a falta de ventilação do local onde a ração é consumida são fatores relacionados à intensidade do sabor a ração. b. Sabor de ervas: várias espécies de ervas quando consumidas pela vaca em pastagens infestadas ou misturadas a silagem, feno ou ração conferem sabor indesejável ao leite. Um dos mais comuns e facilmente reconhecidos é o causado pelo consumo de alho. Um estudo de Dougherty e colaborares (1962b, 1962c), citado por Dougherty e colaboradores (1962a) mostrou que as substâncias causadoras de defeitos de sabor no leite foram detectáveis no leite muito mais rapidamente quando entraram pelo trato respiratório do que pelo trato digestório. Por exemplo, defeitos de sabor detectáveis apareceram dentro de quinze minutos após a substância ser introduzida nos pulmões, considerando que quando as substâncias são introduzidas no rúmen requerem pelo menos trinta. Em 1757, Bradley, citado por Dougherty e colaborares (1962a), reportou que a alimentação tem efeito sobre o sabor do leite. Uma série de investigações feitas por Babcock e colaborares (1938), citado por Dougherty e colaborares (1962a), levaram a uma conclusão geral que a ingestão de certos alimentos ou a inalação de fortes odores são responsáveis por alguns defeitos de sabor no leite. Os resultados obtidos nesse estudo estão de acordo com a evidência publicada que certas substâncias de sabor podem ser transmitidas para o leite tanto pela via digestória quanto respiratória. Além de que, foi demonstrado que certos odores podem ser carreados do rúmen para os pulmões nos gases eructados e assim transmitidos para o leite (DOUGHERTY et al., 1962a). 2.6.2. Influência da presença de microrganismos no sabor do leite (sabor ácido ou azedo, sabor de fruta, sabor de sujo, sabor amargo, sabor pútrido, sabor maltado, sabor fenólico, sabor rançoso, sabor deteriorado, sabor residual, sabor desagradável) Viotto e Roig (1993) citados por Almeida-Muradian e Penteado (2007) afirmam que sabores indesejáveis do leite cru e pasteurizado, devido à presença de microrganismos, podem ocorrer em qualquer etapa da produção ou do processamento: a. Sabor ácido: esse sabor é causado pela produção de ácido láctico ou combinação de outros ácidos pela ação das bactérias lácticas, no leite cru ou pasteurizado. Bactérias lácticas são a microbiota típica do leite cru, ordenhado, estocado e transportado à temperatura ambiente. A pasteurização adequada destrói estes microrganismos, mas não melhora o sabor do leite em que a acidez já se desenvolveu. b. Sabor de fruta: esse defeito ocorre algumas vezes em leite pasteurizado, frequentemente produzido pela contaminação pós-pasteurização por Pseudomonas fragi, microrganismo que se multiplica em temperatura de refrigeração. c. Sabores de sujo, sabor amargo e pútrido: Esses sabores são produzidos por microrganismos psicrotróficos ou pela ação de suas enzimas proteolíticas, geralmente termorresistentes. O sabor de sujo aparece primeiro, sendo seguido pelo sabor amargo, resultante da quebra limitada da proteína em peptídeos. Em casos extremos, quando ocorre a decomposição de aminoácidos, há a formação do sabor pútrido. A deterioração microbiana do leite produz defeitos de sabor. Os vários defeitos são referidos como ácido, de sujo, de fruta, maltado, fenólico, amargo, rançoso, etc. (WALSTRA et al., 2006). O crescimento microbiano, antes ou após o processamento, pode causar vários defeitos de sabor. Por exemplo, os sabores de sujo ou pútrido certamente são causados por psicrotróficos. Alguns microrganismos como Pseudomonas fragii causam sabor de fruta. Bactérias lácticas eventualmente tornam o leite azedo, porém outros defeitos como sabor maltado podem ocorrer. Bacillus circulans ocasionalmente causam sabor fenólico em leite esterilizado na garrafa. O crescimento de B. cereus no leite pasteurizado prontamente leva ao sabor de sujo, sendo isso favorável, pois previne o consumidor de ingerir esses produtos, que devem conter toxina suficiente para serem perigosos. Bactérias lácticas não podem crescer em temperaturas refrigeradas, mas algumas cepas de B. cereus podem crescer a 7°C (WALSTRA et al., 2006). 2.6.3. Sabores causados por lipólise (sabor lipolítico, sabor amargo, sabor de sabão, sabor rançoso, sabor com aroma de queijo) O defeito de sabor lipolítico é causado pela cisão hidrolítica dos ácidos graxos de gordura do leite pela enzima lipase. A liberação destes ácidos graxos no leite, mesmo em pequenas quantidades, confere um sabor amargo e um aroma desagradável, que é característico dos ácidos graxos de cadeia curta. As lipases responsáveis pela rancidez hidrolítica podem ser a lipase natural do leite ou lipases microbianas. A lipase natural do leite ocorre somente no leite cru, pois é inativada pela pasteurização; se a lipólise ocorrer antes da pasteurização, o defeito permanece no leite. A lipólise por lipase microbiana se deve a lipases extracelulares produzidas por bactérias psicrotróficas, particularmente as do gênero Pseudomonas. Registros de ação lipolítica devido a lipases microbianas são raros em leites tratados termicamente. A deterioração enzimática inclui lipólise. Os ácidos graxos livres resultantes de quatro a doze átomos de carbono são responsáveis pelo sabor de sabão e rançoso. Algumas enzimas proteolíticas, incluindo a plasmina, podem atacar a caseína, aumentando os peptídeos amargos. As principais causas de indução da lipólise são agitação intensa e aeração do leite (VIOTTO E ROIG, 1993 apud ALMEIDA-MURADIAN E PENTEADO, 2007). As enzimas do leite podem causar defeitos de sabor amargo, devido à proteólise, pela plasmina, como pode ocorrer no leite UAT, e sabor de sabão ou rançoso, devido à lipólise pela lipase lipoprotéica no leite de pasteurização lenta. Entretanto, o sabor rançoso é geralmente devido à lipólise ocorrida antes da pasteurização ou pela ação da lipase microbiana termorresistente originária de psicrotróficos (WALSTRA et al., 2006). 2.6.4. Sabores associados com o tratamento térmico (sabor cozido, sabor exaltado ou enriquecido, sabor de cetona, sabor esterilizado, sabor caramelizado, sabor gomoso) O leite fresco pode já apresentar algum defeito de sabor, que geralmente não pode ser removido, embora os componentes de sabor formados pelo aquecimento possam mascarálo. O primeiro efeito do tratamento térmico, na maioria das vezes, é o disfarce do típico sabor de vaca do leite fresco, tornando-o mais suave. A ebulição relâmpago do leite, que ocorre na seção de resfriamento do aquecedor do tratamento UAT direto ou na câmara de vácuo, pode reduzir os defeitos de sabor (WALSTRA et al., 2006). Geralmente é reconhecido que o aquecimento altera o sabor do leite. O tipo e a intensidade da alteração do sabor dependem do tempo e da temperatura do tratamento térmico. Cozido, exaltado ou enriquecido e sabor caramelizado surgem no leite conforme o tratamento térmico se torna progressivamente severo (SCALAN et al., 1968). O sabor de queimado resulta de quantidades excepcionalmente elevadas de depósitos queimados em trocador de calor a placas. Pode aparecer quando todo o leite, ou parte dele, foi aquecido em altas temperaturas ou por longo tempo (VIOTTO E ROIG, 1993 apud ALMEIDA-MURADIAN E PENTEADO, 2007). Segundo Aires (2007), o leite esterilizado UAT (Ultra Alta Temperatura), possui um sabor de cozido ou de aquecido muito forte, em função da desnaturação da betalactoglobulina, que libera grupamentos sulfidrilas, sendo muitas vezes considerado grave em alguns países desenvolvidos, que já avaliam a qualidade sensorial do leite, especificamente a questão do sabor do leite há muito tempo. A indústria do leite está capaz de fabricar produtos com vida de prateleira de quarenta e cinco dias pelo uso do processo da ultrapasteurização, entretanto esse método de tratamento térmico dá um forte sabor de cozido ao leite, onde consumidores, principalmente crianças, podem considerar indesejável (CHAMPMAN E BOOR, 2001 apud GANDY et al., 2008). Os defeitos de sabor pelo tratamento térmico são divididos quanto à presença de: a. Reação de Maillard Quando aplicado um tratamento térmico mais intenso, um sabor caramelizado se desenvolve causado certamente pela reação de Maillard e produtos da caramelização. Isso também é chamado de sabor de esterilizado. Pode ser perceptível no leite esterilizado por tratamento térmico UAT indireto. É o sabor predominante do leite esterilizado na garrafa, que mascara os sabores de cozido e de cetona (WALSTRA et al., 2006). Um tratamento térmico ainda mais intenso, por exemplo, 115°C por dez a quinze minutos, leva ao sabor de esterilizado, que pode ser forte especialmente em leite concentrado. Uma série de componentes de sabor resulta da degradação da lactose, em parte via reação de Maillard. Componentes que podem ser responsáveis são formados pela decomposição química de ácidos graxos. Metilcetonas alifáticas e lactonas são formadas pela descarboxilação de ácidos graxos. O típico sabor do leite UAT é principalmente devido ao gás sulfídrico assim como pelas cetonas e lactonas citadas (WALSTRA et al., 2006). Scalan e colaborares (1968) realizaram um estudo que mostrou que a quantidade de diacetil no leite cru era de cinco ppb, enquanto a quantidade no leite aquecido era de 38 ppb, que está acima da média de sabor e aroma limiares no leite. Ficou sugerido que o diacetil contribui para o enriquecimento ou exaltação do sabor no leite aquecido. O diacetil é conhecido por ser um produto resultante de reação corante não enzimática, e muito provavelmente produzida por essa via no leite aquecido (SCALAN et al., 1968). A reação de Maillard aumenta consideravelmente com o conteúdo de água e com a temperatura. A reação leva ao escurecimento e ao surgimento de defeitos de sabor. O sabor gomoso que sempre aparece na estocagem de produtos lácteos em pó com alta quantidade de água é usualmente atribuído a reações de Maillard. Se extensas reações de Maillard ocorrem, elas sempre são acompanhadas pela insolubilização da proteína (WALSTRA et al., 2006). O chamado sabor caramelizado pode se desenvolver durante o estoque do leite em pó integral com um conteúdo de água alto a temperatura alta. Isso pode ser atribuído à formação de gama-decalactona e componentes relacionados na gordura. Os componentes envolvidos não são formados por autoxidação. A perda de valor nutritivo durante a estocagem diz respeito principalmente à perda de lisina disponível devido à reação de Maillard (WALSTRA et al., 2006). No caso do leite em pó, há perda da qualidade resultante principalmente da formação de sabores glutinoso e oleoso (devido à reação de Maillard e autoxidação, respectivamente) e decréscimo no valor nutricional (principalmente perda de disponibilidade de lisina) (WALSTRA et al., 2006). b. Gás sulfídrico O tratamento térmico leva a alteração de sabor, cuja apreciação ou desgosto variam dentre os consumidores. Todo tipo de tratamento térmico causa ganho de perfis de sabor dependendo do total de carga térmica do processo. Os principais elementos de perfil saboroso são sabor cozido, sabor de cetona (UAT), e sabor esterilizado ou caramelizado. O sabor cozido é principalmente causado pela presença de gás sulfídrico (H 2S) liberado após a desnaturação da proteína durante o processo de pasteurização rápida e ebulição. O leite UAT também apresenta sabor cozido, além do mais, tem sabor de cetona originado predominantemente na fração lipídica e é devida a metilcetonas e, numa extensão menor, a lactonas e componentes do enxofre. O sabor de cozido, assim como o sabor de cetona, depende grandemente do tipo do processo de UAT utilizado. Muitas vezes, o sabor de cozido suave do leite UAT desaparece parcialmente durante a primeira semana após o processamento devido à oxidação dos componentes de enxofre redutores (WALSTRA et al., 2006). O tratamento térmico mais intenso, por exemplo, 80 a 100°C por vinte segundos, resulta em sabor de cozido, causado principalmente por gás sulfídrico. Esse componente deriva principalmente de uma proteína da membrana do glóbulo de gordura, o que justifica por que o creme é muito mais sensível ao desenvolvimento do sabor de cozido do que o leite (WALSTRA et al., 2006). Um estudo realizado por Christensen e Reineccius (1992) citados por Gandy e colaboradores (2008) mostrou que os defeitos de sabor do leite aquecido são devido ao aumento da concentração de componentes de enxofre. Entretanto, esses pesquisadores também encontraram que os componentes de enxofre voláteis encontraram seus níveis máximos após tratamentos térmicos moderados e perduraram ou diminuíram de acordo com tratamentos térmicos mais severos. Contarini e Polvo (2002) citados por Gandy e colaborares (2008) estudaram o efeito do tratamento térmico sobre os componentes de enxofre voláteis em amostras de leite processado comercialmente. Esses pesquisadores identificaram onze componentes, cuja maioria pertence à família das cetonas. No caso do leite em pó liquefeito, frequentemente tem sabor de cozido, que resulta de componentes de sabor formados durante o pré-aquecimento e possivelmente durante a evaporação. Na maior parte das vezes, durante a secagem as condições não induzem o surgimento de defeitos de sabor. Porém, uma parte considerável dos componentes sufídricos voláteis é removida. O sabor de cozido resulta principalmente de metilcetonas e lactonas formadas pelo aquecimento de gorduras (que estão geralmente ausentes no leite em pó desnatado) e pelos produtos da reação de Maillard (Walstra et al., 2006). Walstra e colaborares (2006) ainda relatam que não é possível produzir leite em pó integral sem sabor de cozido, e ao mesmo tempo não desenvolver sabor oxidado durante a estocagem. 2.6.5. Sabores associados à oxidação (sabor oleoso, sabor de papelão, sabor oxidado pela luz solar, sabor de luz solar, sabor de peixe, sabor metálico, sabor gomoso) O leite e produtos lácteos, quando oxidados, são dotados de sabor e de aroma anormais. Tais aromas, em geral desagradáveis, são oriundos de compostos voláteis, provenientes da degradação de hidroperóxidos (FARIA, 1985). Pode ser devido à oxidação pela luz, oxidação pela luz solar ou oxidação por metais: a. Oxidação pela luz No leite pasteurizado, que na maioria das vezes é embalado em embalagens de polietileno de baixa densidade, o que pode deixar o sabor desagradável é a oxidação pela exposição à luz. A embalagem plástica não possui barreira suficiente à luz e a exposição demasiada à luz leva à oxidação, por esta servir de agente catalisador na reação de transformação do aminoácido metionina em metional, que leva ao aparecimento de um defeito de sabor extremamente desagradável (AIRES, 2007). Early (1998) publicou que sabores induzidos pela luz no leite são mais comuns, parcialmente devido ao uso de embalagens plásticas associadas à exposição à luz fluorescente (EARLY, 1998). b. Oxidação pela luz solar Os defeitos de sabor no leite podem também ser induzidos pela luz. Como o cobre, a luz pode catalisar a autoxidação da gordura. A luz do sol aplicada diretamente por dez minutos ou luz natural difundida por um tempo longo muita vezes é suficiente. Um sabor oleoso se desenvolve, não imediatamente, mas somente após algum tempo. A luz de lâmpadas fluorescentes especialmente pode induzir o sabor de papelão. A exposição do leite à luz também pode levar ao desenvolvimento do defeito de sabor oxidado pela luz solar. Na presença de riboflavina (vitamina B12), a oxidação da metionina livre pode ocorrer. Além disso, componentes –SH livres podem ser formados de aminoácidos proteína associados contendo enxofre. Presumivelmente, esses componentes juntos causam o sabor oxidado pela luz solar (WALSTRA et al., 2006). A exposição à luz pode ser altamente prejudicial ao sabor do leite, e dez minutos de luz solar direta sobre leite pasteurizado e em garrafa de vidro ou dez horas de luz fluorescente sobre o leite em caixas de papelão sem lâmina de alumínio é o suficiente para produzir esse defeito. O defeito de sabor não é formado instantaneamente, e sim durante diversas horas após a iluminação. Isso não só concerne ao sabor oxidado, mas também um bocado ao diferente sabor de luz solar. O último é principalmente devido à oxidação da metionina livre e tiol livre formados por resíduos de aminoácidos contendo enxofre. A presença de riboflavina é necessária para o desenvolvimento do sabor oxidado pela luz solar (WALSTRA et al., 2006). c. Oxidação por metais O sabor oxidado resulta da oxidação dos ácidos graxos poliinsaturados da gordura do leite, catalisada por metais como o cobre ou o ferro. O mecanismo da reação envolve uma fase de iniciação através da formação de radicais livres e peróxidos, seguida de uma fase de propagação, com reações em cadeia, em que se formam hidroperóxidos. Apesar de estes radicais livres e hidroperóxidos não terem nenhum sabor, a sua cisão produz aldeídos e cetonas de aroma e sabor acentuados. O sabor é descrito como rançoso, de papelão, de peixe, oleoso e metálico (VIOTTO E ROIG, 1993 apud ALMEIDA-MURADIAN E PENTEADO, 2007). Em geral, as alterações que ocorrem em compostos gordurosos são classificadas em reações de hidrólise e de oxidação. A hidrólise é a reação que resulta na formação de ácidos graxos livres e glicerol, devido à quebra dos ésteres glicerídicos. Esta reação é causada por enzimas e aumenta positivamente com a temperatura e a umidade do produto. A reação de oxidação, mais comumente denominada autoxidação, resulta em hidroperóxidos devido à oxidação dos componentes insaturados. Em reações de oxidação, a luz atua como agente catalisador da formação de radicais livres. Uma vez presentes, os radicais livres dão início a uma sequência de reações que definem o período de propagação da oxidação (FARIA, 1985). A autoxidação da gordura, como a causada pela ação catalítica do cobre, pode levar à rancidez oxidativa. Alguns componentes de carbono contribuem para defeito de sabor, especialmente alguns aldeídos poliinsaturados. O sabor resultante no leite é geralmente chamado de oleoso. O sabor de papelão também pode ocorrer como resultado da oxidação de fosfolípides. Esse defeito de sabor também pode ser observado no leite desnatado. Os fosfolípides no plasma aparentam ser rapidamente oxidados (WALSTRA et al., 2006). A oxidação lipídica pode ocorrer devido à contaminação do leite por cobre ou devido à exposição à luz. O defeito de sabor resultante é frequentemente chamado de oleoso ou simplesmente oxidado, mas em alguns casos um sabor de papelão pode se desenvolver. Esse último pode ser causado pela oxidação de fosfolípides, e pode ocorrer também em leite desnatado. A susceptibilidade do leite em obter sabor oxidado é muito variável, mas a rigorosa exclusão do cobre e da luz aparenta ser efetiva na prevenção da ocorrência do defeito (WALSTRA et al., 2006). A autoxidação da gordura e o surgimento dos defeitos de sabor gomoso se mostram um problema difícil quando o leite em pó integral é estocado. A taxa de autoxidação cresce intensamente com o decréscimo da atividade de água (a w), entretanto para prevenir outros tipos de deterioração (especialmente reação de Maillard), a w deve ser a menor possível (WALSTRA et al., 2006). Para manter a autoxidação dentro de limites toleráveis por um longo tempo, um número grande de medidas devem ser tomadas: 1. O leite deve ser aquecido intensamente para que haja a formação de antioxidantes. O problema é que o tratamento térmico sempre causa o sabor de cozido. 2. O conteúdo de água no pó deve ser ajustado o mais alto quanto possível sem permitir que as reações de Maillard ocorram muito rapidamente; a quantidade mais conveniente de água fica entre 2,5 e 3%. 3. O oxigênio deve ser removido o mais eficazmente quanto possível (por insuflação de gás). O problema é que os vacúolos existentes nas partículas de pó contêm ar, conseqüentemente oxigênio. Ou o pó tem raros vacúolos ou a insuflação de gás precisa ser repetida após poucos dias. O equilíbrio entre o gás no interior e no exterior dos vacúolos por difusão demora muitos dias no leite em pó integral (algumas semanas em no leite em pó desnatado). O equilíbrio se dá mais rápido quando o leite em pó sofre grande número de impactos. 4. O pó deve ser embalado de forma que não entre em contato com o ar e com a luz. Geralmente isso implica embalagem em latas. 5. Medidas rigorosas devem ser usadas contra a contaminação do leite com a embalagem. 6. Homogeneização intensiva do concentrado deve ser efetuada (WALSTRA et al., 2006). Os principais fatores envolvidos na deterioração da qualidade do leite em pó integral são: absorção de umidade, degradação do sabor do produto devido à oxidação da gordura e absorção de sabor e odor estranhos do meio ambiente (ALVES et al., 1994 apud ALVES et al., 2008). 2.6.6. Sabores miscelâneos (sabor amargo, sabor de substâncias químicas, sabor salgado, sabor estranho, sabor medicinal, sabor químico, sabor de desinfetante) São sabores que não podem ser atribuídos a uma causa específica (VIOTTO E ROIG, 1993 apud ALMEIDA-MURADIAN E PENTEADO, 2007). a. Sabor amargo: várias condições podem causar esse defeito: proteólise, lipólise da gordura do leite e certas ervas que contêm alcalóides amargos. b. Sabores de substâncias químicas: é o resultado da contaminação do leite com substâncias químicas, como por exemplo, materiais de limpeza, desinfetantes, sanificantes, herbicidas, pesticidas, gasolina, etc. Os contaminantes mais frequentes são os causados pelo cloro. c. Sabor salgado: é um sabor que pode aparecer em leite de animais em avançado estágio de lactação, mas é característico do leite de animais com infecção mastítica do úbere. 3. Conclusão São muitos os defeitos de sabor que podem estar presentes no leite, e eles podem surgir em todas as etapas de produção do leite, desde o momento da produção de leite pela vaca até a estocagem do produto pronto para o consumo. Alguns defeitos de sabor, como sabor de vaca, de ração, de ervas, de alho, aromático, odorífero e artificialmente doce, podem ser devidos a componentes vindos da alimentação dada à vaca. Esses componentes podem adentrar o animal e passar ao leite de dois modos: via inalação ou via ruminal. Para evitar esses defeitos de sabor, é indicado não alimentar a vaca de duas a três horas antes da ordenha, além de evitar rações de forte odor. A presença de microrganismos no leite também é responsável pelo surgimento de defeitos de sabor tais como sabor amargo e ácido, sabor azedo, frutado, sujo, pútrido, maltado, fenólico, rançoso, deteriorado, residual e desagradável. Podem surgir em qualquer etapa do processamento. As principais bactérias relacionadas a esses defeitos de sabor são as bactérias psicrotróficas, as bactérias lácteas e bacilos. Outra causa de defeito de sabor é a hidrólise de ácidos graxos da gordura do leite que pode ocorrer por lipase natural ou microbiana, ou ainda pela agitação excessiva com aeração do leite. Os defeitos de sabor por lipólise são o sabor lipolítico, de sabão e de aroma de queijo. O tratamento térmico do leite também é responsável pelo aparecimento de defeitos de sabor. Os sabores cozido, exaltado, enriquecido, de cetona, esterilizado, caramelizado e gomoso podem surgir conforme a intensidade do tratamento térmico, influenciados tanto pela temperatura do tratamento quanto pelo tempo. São devidos a componentes derivados da reação de Maillard ou à presença de gás sulfídrico, resultante da desnaturação protéica pelo calor. A luz, solar ou artificial, leva à oxidação do leite, pela degradação de hidroperóxidos. Isso acontece em embalagens de leite que permitem a passagem da luz. O contato com metais como cobre e ferro podem causar a oxidação de ácidos graxos poliinsaturados do leite. Esses fatos podem resultar no aparecimento dos sabores oleoso, de papelão, oxidado, de luz solar, de peixe e metálico. Outros sabores que não podem ser associados a causas específicas são sabor de substância química, salgado, estranho, medicinal, químico e de desinfetante, e podem estar relacionados a produtos de higiene ambiental, medicamentos, mastites ou estágio de lactação, entre outros. Esse estudo reconhece a rica variedade de causas para o surgimento de defeitos de sabor no leite, que devem ser evitados com maior controle durante todas as etapas da cadeia produtiva, para que as características sensoriais sejam preservadas até o consumidor final, o que poderia levar a um aumento do consumo deste produto. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ABRANCHES, M. V., DELLA LUCIA, C. M., SARTORI, M. A., PINHEIRO-SANTANA, H. M. Perdas de Vitaminas em Leite e Produtos Lácteos e Possíveis Medidas de Controle. Alim. Nutr., Araraquara, v 19, n. 2, p. 207-217, abr./jun. 2008. AIRES, G. S. B. Treinamento de um painel de estudantes para julgamento de qualidade sensorial de leite fluido. 2002. Dissertação (Mestrado em Tecnologia de Alimentos) – Faculdade de Engenharia de Alimentos, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2002. AIRES, G. S. B. Sabor do leite brasileiro merece reparos. Jornal da Unicamp, 368 ed. 20 a 26/ago., 2007. Disponível em <http://www.unicamp.br/unicamp_hoje/ju/agosto2007/ju368pag09.html>. Acessado em 29/12/2009. ALMEIDA, A. A. P., FURTADO, J. Microrganismos psicrotróficos em leite. Rev. Inst. Latic. Cândido Tostes, Juiz de Fora, n. 48, p. 287, 1993. ALMEIDA-MURADIAN, L. B. E PENTEADO, M. V. C. P. Vigilância Sanitária: tópicos sobre legislação e análise de alimentos. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2007. p. 165-181. ALVES, R. M. V., JAIME, S. B. M., ITO, D., MOREIRA, C. Q. Influência das propriedades de barreira de embalagens flexíveis na estabilidade de leite em pó integral. Brazilian Journal Food Technology, v. 11, n. 1, p. 46-53, jan./mar. 2008. ALVES, R. M. V., GARCIA, E. E. C., DANTAS, S. T., PADULA, M. Embalagem para leite fluido e em pó. Embalagens para produtos laticínios. 1. ed. Campinas: CETEA/ITAL, 1994. p. 1-19. BABCOCK, C. J. Feed Flavors in Milk and Milk Products. J. Dairy Sci, 21:661, 1938. BRADLEY, R. A general treatise of agriculture. London, 1757. BRASIL. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Aprova os regulamentos técnicos de produção, identidade e qualidade do leite tipo A, do leite tipo B, do leite tipo C, do leite pasteurizado e do leite cru refrigerado e o regulamento técnico da coleta de leite cru refrigerado e seu transporte a granel. Instrução Normativa nº 51, de 18 de setembro de 2002. Diário Oficial da União, Brasília, n. 183, 20 de set. de 2002. Seção I, p. 13. BRASIL. Ministério da Agricultura, Abastecimento e Reforma Agrária. Regulamentos técnicos de identidade e qualidade dos produtos lácteos. Portaria Nº 146, de 07 de março de 1996. Diário Oficial da União, Brasília, 11 de março de 1996. Seção 1. BRASIL. Presidência da República. Aprova o Regulamento de Inspeção Industrial e Sanitária de Produtos de Origem Animal. Decreto Nº 30.691 de 29 de março 1952. Diário Oficial da União, Brasília, 07 de julho de 1952, Seção 1, Página 10785. Acesso em 18 de dezembro de 2009. Disponível em <http://extranet.agricultura.gov.br/sislegisconsulta/consultarLegislacao.do?operacao=visualizar&id=14974 > CARUSO, J. G. B., OLIVEIRA, A. J. N. Leite – obtenção. Controle de qualidade e processamento. Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, Universidade de São Paulo. s.n.t. 116p. CELESTINO, E. L., IYER, M., ROGINSKI, H. The effects of refrigerated storage of raw milk powder stored for different periods. Dairy J., n. 7, p. 119-127, 1997. CHRISTENSEN, K. R., REINECCIUS, G. A. Gas chromatographic analysis of voltile súlfur compounds from heated milk using static headspace sampling. J. Dairy Sci. n. 75, p. 20982104, 1992. CONTARINI , G., POVOLO, M. Volatile fraction of milk: comparison between purge and trap and solid phase microextraction techniques. J. Agric. Food Chem., n. 50, p. 7350-7355, 2002. DOUGHERTY, R. W., SHIPE, W. F., GUDNASON, G. V., LEDFORD, R. A., PETERSON, R. D., SCARPELLINO, R. Physiological mechanisms involved in transmitting flavors and odors to milk. I. Contribution of eructated gases to milk flavor. J. Dairy Sci, n. 45 (4), p. 472-476, 1962a. DOUGHERTY, R. W. HILL, K. J., CAMPETI, F. L. MCCLURE, R. D., HABEL, R. E. Studies of pharyngeal and laryngeal activity during eructation in ruminants, Am. J. Vet. Research, n. 23, p. 213, 1962b. DOUGHERTY, R. W., STEWART, W. E., NOLD, M. M., LINDAHL, I. L., MULLENAX, C. H. Pulmonary absorption of eructated gas in ruminants. Am. J. Vet. Research, n. 23, p. 205. 1962c. EARLY, R. The Technology of Dairy Products. 2. ed. Londres: Blackie Academic e Professional. 1998. FARIA, J. A. F. Embalagem de leite de consumo. Viçosa, 1985. p. 1-5. GANDY, A.L., SCHILLING, M. W., COGGINS, P.C., WHITE, C. H., YOON, Y., KAMADIA, V. V. The effect of pasteurization temperature on consumer acceptability, sensory characteristics, volatile compound composition, and shelf-life of fluid milk. J. Dairy Sci., v. 91, n. 5, p. 17691777, 2008. LAW, B. A. Enzimes of psychrotrophic bactéria and their effects on milk products. J. Dairy Sci, n. 46, p. 573, 1979. MARCHIORI, E. Vida longa ao longa vida. Indústria de Laticínios, n. 51, p. 18-22, 2004. PHILIPPI, S.T. et al. Pirâmide alimentar adaptada: guia para escolha de alimentos. Rev. Nutr., Campinas, v.12, n.1, p. 65-71, 1999. SACHARAW, B. A., GRIFFIN, R. C. Food packaging. Westport: Connecticut Company, 1970. SAMPAIO, K.L., SILVA, M.A.A.P. Percepções e consumo de jovens universitárias brasileiras em relação ao leite fluido industrializado: um estudo de caso. Alim. Nutr., Araraquara, v.15, n.1, p.23-30, 2004. SCALAN, R. A., LINDSAY, R. C., LIBBEY, L. M., DAY, E. A. Heat-induced volatile compounds in milk. J. Dairy Sci, v. 51. n. 7. 1968. p. 1001-1007. SCHROEDER, J. W., BEATTIE, S. Detecting and correcting off-flavors in milk. Julho, 1994. Disponível em <http://www.ag.ndsu.edu/pubs/ansci/dairy/as1083.pdf > SHIPE, W. F., CHAIRMAN, BASSETTE, R., DEANE, D. D., DUNKLEY, W. L., HAMMOND, E. G., HARPER W. J., KLEYN, D. H., MORGAN, M. E., NELSON, J. H., SCALAN, R. A. Off-flavors of milk: nomenclature, standards, and bibliography. J. Dairy Sci, v. 61, n. 7, p. 855-869, 1978. SILVA, P. H. F., PORTUGAL, J. A. B., CASTRO, M. C. D. Qualidade e Competitividade em Laticínios. Juiz de Fora, 1999 SILVA, P. H. F., PEREIRA, D. B. C., OLIVEIRA, L. L., COSTA JÚNIOR, L. C. G. Físicoquímica do leite: métodos analíticos. Juiz de Fora: Gráfica Oficina de Impressão, 1997. 190p. SOUSA, D. D. P. Consumo de lácteos informais, um perigo para a saúde pública. Estudo dos fatores relacionados a esse consumo no município de Jacareí / SP. 2005. Dissertação (Mestrado em Medicina Veterinária Preventiva e Saúde) – Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2005. SOUZA, M. R., RODRIGUES, R., FONSECA, L. M., CERQUEIRA, M. M. O. P. Pasteurização do leite. Caderno Técnico da Escola de Veterinária UFMG, n. 13, p. 85-93, 1995. TABCHOURY, W. Consumo de leite comparado. Balde Branco, n. 455, p. 71, 2002. VENTURINI, K. S.; SARCINELLI, M. F.; SILVA, L. C. Características do leite. Boletim técnico, PIE - UFES: 01007. Edição 26.08.2007. VIOTTO, W. H., ROIG, S. M. Desvios de sabor do leite. Rev. Inst. Latic. Cândido Tostes, Juiz de Fora, v. 48, n. 288, p. 25-33, 1993. WALSTRA, P., WOUNTERS, J. T. M., GEURTS, T. J. Dairy Science and Technology. 2. ed. Taylor e Francis Group, 2006.