UNIVERSIDADE ANHEMBI MORUMBI Ana Rita Valverde Peroba Design Social: um caminho para o designer de Moda? DISSERTAÇÃO DE MESTRADO MESTRADO EM DESIGN PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO STRICTO SENSU São Paulo, março/2008 UNIVERSIDADE ANHEMBI MORUMBI Ana Rita Valverde Peroba Design Social: um caminho para o designer de Moda? DISSERTAÇÃO DE MESTRADO Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Design Mestrado, da Universidade Anhembi Morumbi, como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Design. Orientadora: Profa. Dra. Rosane Preciosa São Paulo, março/2008 UNIVERSIDADE ANHEMBI MORUMBI Ana Rita Valverde Peroba Design Social: um caminho para o designer de Moda? Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Design Mestrado, da Universidade Anhembi Morumbi, como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Design. Aprovada pela seguinte Banca Examinadora: Profa. Dra. Rosane Preciosa Orientadora Mestrado em Design Anhembi Morumbi Profa. Dra. Suzana Avellar Fundação Armando Álvares Penteado Centro Universitário Belas Artes Profa. Dra. Claudia Marinho Mestrado em Design Anhembi Morumbi Prof. Dr. Jofre Silva Mestrado em Design Anhembi Morumbi São Paulo, março/2008 Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução total ou parcial do trabalho sem autorização da Universidade, do autor e do orientador. Ana Rita Valverde Peroba Graduada em desenho industrial habilitação em programação visual pela Universidade Federal de Pernambuco. Professora dos cursos de Tecnologia em Design de Moda da Faculdade Senac Pernambuco e da Faculdade Maurício de Nassau. Atua principalmente com o seguinte tema de pesquisa: Design Social. Ficha Catalográfica Peroba, Ana Rita Valverde Design Social um caminho para o designer de moda? São Paulo, 2008. 103 p. Dissertação apresentada ao programa de Mestrado Stricto Sensu da Universidade Anhembi Morumbi. Área de concentração: Design, Arte e Tecnologia. Orientadora: Profa. Dra. Rosane Preciosa 1. Design Social. 2. Responsabilidade Social. 3. Sustentabilidade. 4. Artesanato. 5. Projeto Sistêmico. I título. CDU: 391. DEDICATÓRIA Dedico esta dissertação aos meus pais Lília (in memoriam) e Luis, que sempre incentivaram a busca pelo conhecimento. AGRADECIMENTOS Made in Recife A minha madrinha Fafá, pelos bons conselhos. As colegas da Especialização Carmem Valente Adélia Collier Mara Ayub pelo incentivo e dicas valiosas. A minha irmã Emanuela, por sempre segurar as pontas. Made in São Paulo Aos colegas da primeira turma do mestrado em Design: Lu, Junia, Mercedes, Vera, Eli, Elo, Valéria, Mércia, Zé, Geraldo, Marcelo, Flavio, Gui, Gu (saudades hipermidiáticas) e meu eterno presidente Rabib! Aos professores Ana Mae, Claudia, Gisela, Vânia e Mauro. Aos meus amigos Suzane e Daniel, que me acolheram com o jeito pernambucano na capital paulista. Ao paulista João, pelas caronas e amizade que se transformaram em dedicação e amor. A profa. Suzana Avellar, pelas entrevistas e disponibilidade. A Silvia Sasaoka pela receptividade. A todos os funcionários do campus Morumbi, em especial à direção. À coordenação do Mestrado. À Rosane A Preciosa, pelo afeto das broncas, pela paciência de anjo, pela dedicação. Sem ela(s) eu não teria conseguido chegar ao fim. You have to make up your mind either to make sense or to make money, if you want to be a designer. Buckminster Fuller Design Social: um caminho para o designer de Moda? Palavras-chave: Design Social. Responsabilidade Social. Sustentabilidade. Artesanato. Projeto sistêmico. Resumo O design, ao optar por projetos que adotem uma abordagem social, distanciando-se de um modelo exclusivamente voltado para o mercado, pode contribuir para modificar práticas sociais, culturais e econômicas de pequenas comunidades artesãs. O pressuposto desta dissertação é discutir a importância do papel social do designer no contemporâneo. Ao ativar o potencial criativo dessas comunidades e auxiliar no fortalecimento de vínculos entre seus membros, é capaz de gerar produtos coletivos que inauguram novas formas de existência auto-sustentáveis nestas comunidades. Em contrapartida, essa comunidade responde a esse diálogo e também é capaz de oferecer, a esse profissional de design, mudanças significativas em seu repertório criativoprojetual. A partir desse processo, as comunidades tornamse independentes, aprendem a dar continuidade ao seu fazer artesanal, fortalecendo suas raízes através das inovações propostas. O projeto A mão na Moda, desenvolvido pelo designer de moda Walter Rodrigues em parceria com as rendeiras do Piauí, comparece nesta dissertação, configurando-se como um exemplo consolidado dessa abordagem social do design. Key words: Social Design. Social Responsibility. Sustainability. Craftwork. Systemic Projects. Abstract The design while opting for projects that adopt a social approach, being distanced of a model exclusively turned to the market, can contribute in order that craftsmen modify social, cultural and economical practices of small communities. The presupposition of this dissertation is to discuss the importance of the social paper of the designer in the contemporary. While activating the creative potential of these communities and auxiliary in the strengthening of bonds between his members, it is able to produce collective products that inaugurate the new auto-sustainable forms of existence in these communities. In counterentry, this community responds to this dialog and also it is able to offer, to this professional of design, significant changes in his creative repertoire - projetual. From this process, the communities become independent, learn to give continuity to own way to do craft, strengthening his roots through the proposed innovations. The project A mão na Moda, developed by the fashion designer Walter Rodrigues in partnership with the lacemakers of the Piauí, Brasil. Appears in this dissertation, being shaped like a consolidated example of this social approach of the design. SUMÁRIO 1.0 Palavras iniciais p. 15 2.0 O Movimento Arts & Crafts e sua atualidade p. 23 2.1 O papel Designer ontem p. 28 2.2 Concepção artesanal e concepção industrial p. 32 2.2.1 Concepção digital 3.0 O que é Design Social 3.1 O papel da Sustentabilidade no Contemporâneo p. 36 p. 41 p. 48 3.1.1 A questão ecológica p. 50 3.1.2 Inclusão Social p. 60 3.1.3 Responsabilidade Social e Responsabilidade Social Corporativa(RSC) p. 63 3.2 Uma Abordagem Sistêmica p. 70 4.0 A Mão na Moda - Relato de uma experiência p. 79 5.0 Considerações finais p. 91 Epílogo p. 94 6.0 p. 95 Referências Bibliográficas Apêndices LISTA DE ILUSTRAÇÕES Imagens do entorno da fábrica ACTEX - Recife - PE John Heskett Victor e Sylvia Margolin Pevsner Exposição A mão na Moda Papel de parede William Morris William Morris John Ruskin Rafael Cardoso AWN Pugin Palácio de Cristal Henry Cole Edwin Maxwell Fry Tierry Kazazian Pegada na areia Aloísio Magalhães a Prédio da ESDI- 1 Escola Supeior de Design do Brasil Vilém Flusser Logo da Rio Eco-92 Carlo Vezzoli Klaus Krippendorf Sérgio Sena Heliana Pacheco Rachel Cooper Nigel Whitley Capas das edições do livro Design for The Real World Henry Way Kendall Ma Cecília Loschiavo dos Santos Ezio Manzini Gui Bonsiepe Logo do Museu A Casa Imagem da fachada do Museu A Casa Convite da Exposição A Mão na Moda Imagens da Exposição A Mão na Moda Fachada Museu do Estado de Pernambuco Produto desenvolvido em parceria Estudantes de Einhoven parceria Artesão trabalhando o couro Imagens da Exposição Serrita p. 15 p. 17 p. 20 p. 21 p. 22 p. 23 p. 24 p. 24 p. 25 p. 25 p. 26 p. 27 p. 28 p. 29 p. 35 p. 35 p. 36 p. 39 p. 42 p. 43 p. 44 p. 46 p. 47 p. 50 p. 51 p. 51 p. 52 p. 76 p. 77 p. 79 p. 79 p. 79 p. 79 p. 79 p. 80 p. 80 p. 80 p. 80 p. 80 LISTA DE ILUSTRAÇÕES(cont.) Rendeira Trabalhando com a almofada de bilro Detalhe da almofada de bilro Detalhe da almofada de bilro Walter Rodrigues Imagem de conjunto de rendas produzidas em Morro da Mariana Imagem de conjunto de rendas produzidas em Morro da Mariana Amostra de galão de renda Amostra de renda Amostra de galão de renda Amostra de renda Vestido da coleção desenvolvida por Walter Rodrigues. Walter vestindo a manequim Detalhe de busto criado por Walter e as rendeiras Detalhe das costas criada por Walter e as rendeiras Walter vestindo a manequim Detalhe de vestido criado por Walter e as rendeiras Tag do Artesanato solidário Silvia Sassaoka Marisa Silva Imagem de uma blusa produzida antes do projeto Imagem de detalhe das costas de um vestido do projeto A mão na moda Renda do Morro da Mariana p. 82 p. 82 p. 82 p. 84 p. 84 p. 84 p. 85 p. 85 p. 85 p. 85 p. 86 p. 87 p. 87 p. 87 p. 87 p. 87 p. 88 p. 88 p. 89 p. 90 p. 90 p. 93 1.0 Palavras Iniciais O trabalho como designer em indústrias de confecção na cidade do Recife, Pernambuco, me trouxe um convívio com a dinâmica sócio-cultural que existe neste microcosmo. Percebi o grande paradoxo entre os trabalhadores, funcionários das indústrias e as comunidades do entorno das fábricas. (Vide Apêndice1) Apesar da qualidade de vida assemelhada entre esses dois públicos, ainda assim, um abismo os separa. De um lado, o público interno, funcionários de carteira assinada, o denominado chão-de-fábrica no jargão da indústria, criando produtos de moda, objetos de desejo que são revendidos nos maiores e melhores magazines. De outro, os moradores da comunidade que vivem sem um sistema sanitário. Servidos por poucas escolas, sofrem a violência interna das redes de tráfico que, nos dias de hoje, dominam o local. E também vivenciam uma violência externa, porque do outro lado da rua assistem a uma vida sonhada: emprego, carteira assinada, o tão desejado salário, além de vislumbrar as escolas particulares, repletas de recursos, carros importados, mães bem cuidadas, shoppings, todo um modo de vida inatingível para a sua condição social. Os habitantes dessas comunidades pobres são tomados de uma sensação de que jamais poderão banhar-se naquelas águas. Todos os dias os dois públicos se cruzam, tendo a violência e o medo como principal forma de contato entre eles. Os trabalhadores muitas vezes são submetidos a assaltos 15 constantes, a poucos passos do portão da fábrica. Diariamente exposta a esse cotidiano, fui aos poucos levada a refletir sobre o papel que o designer vem desempenhando no contemporâneo, suas relações com o mercado e a sociedade, e me perguntava como ele poderia intervir em contextos como esse, marcados por tamanha desigualdade social. 16 Buscar respostas para essas perguntas vem sendo minha principal motivação para escrever essa dissertação. Pensar a profissão de designer numa perspectiva social, em que a 1 conjuntura política revela-se desfavorável ao bem-estar humano, parece ser hoje um desafio proposto a todo pesquisador dessa área de conhecimento. "Abordar problemas sociais em projetos de Design não é um tema novo. (...) Mas nos coloca mais uma vez defronte da (...) necessidade de questionamento da ordem vigente (...) e de encararmos (...) o papel do designer como um formador de opinião com um discurso ativo na produção de contribuições significativas à sociedade". (COUTO & MARTINS, 2006) A questão social sempre esteve presente desde o início da formação do design, reaparecendo agora dentro de um outro contexto sócio-político, reinserindo-se no debate neste início de século XXI, e se tornando o foco das discussões que estão sendo realizadas. Apresentaremos alguns percursos e pensadores que discutiram este viés no design ao longo destes séculos, e os estudiosos brasileiros que levantam esta questão e a formulam como crucial para o futuro da profissão. Traremos essas discussões para pensar o Design, de forma mais abrangente, e o Design de Moda, mais pontualmente, 1 bem-estar- Estado de satisfação plena das exigências do corpo e do espírito, conforto e tranqüilidade. buscando compreender como a moda pode contribuir com projetos práticos de produtos com uma visão social sistêmica. Verificamos que o design tem, ao longo da sua evolução histórica, procurado equilibrar as tensões entre continuar dentro de um modelo de produção e desenvolvimento que é artesanal ou mudar, evoluir para um novo modelo, com a HESKETT,John. John. HESKETT, (1937-) inserção de maquinário e tecnologia, alterando o (1937-) Graduou-se na London School of Economics e em 1976, ganhou o prêmio Goldsmith´Travelling Fellowship pelo estudo do design alemão no século XX. É professor do Institute of Design da Unversidade de Illinois, em Chicago. Tem atuado como professor visitante em diversas universidades ao redor do mundo: Turquia, Japão, Chile, Alemanha, Dinamarcae Finlandia. Autor de vários livros importantes no estudo do Design. Suas pesquisas tem especial interesse em como o design cria valor econômico. organograma da produção de objetos em geral. Estas passagens, de um modelo de produção para o outro, Artesanal/Industrial-Industrial/Artesanal, não são escolhas puras e simples de um grupo, elas fazem parte da evolução do design, cujo crescimento acontece de forma rizomática, abrangendo cada vez mais áreas, inserindo novos paradigmas na criação e absorvendo as diversas influências sociais, políticas, espaciais, temporais, psíquicas, ambientais, organizacionais e econômicas. Portanto, quando tratamos de Design, o tema da Revolução Industrial retorna, a nosso ver, e se torna uma obrigatoriedade mencioná-lo. Formado e configurado no seio dessas mudanças que levaram a primeira grande revolução dos meios produtivos que influenciaram a sociedade, o Design não pode prescindir da análise da evolução de suas conformações. (HESKETT, 1998, p. 7) Procuraremos dentro deste contexto, dar ênfase ao Design Social, que à primeira vista seria a concepção de objetos realizada com o viés amplo do pensamento social. Notamos que esta forma de olhar sempre esteve presente, e volta à tona, nos dias de hoje, reforçada pelos fatores sócio-éticoeconômico-ambientais que se apresentam neste início de século XXI. Acreditamos que daqui por diante será cada vez 17 mais difícil não concebermos o Design como Social; assim sendo, analisaremos este fenômeno de um ângulo já indicado por diversos historiadores e pensadores acrescido de algumas contribuições de leituras nossas. Nas palavras de John Heskett (1998, p. 8) "(...) as profundas mudanças provocadas pela industrialização têm sido examinadas considerando-se o design como fenômeno social". E, por isso mesmo, uma expressão da cultura, que convoca no designer responsabilidade e intervenção. Pretendemos delinear alguns conceitos de Design Social (DS), suas implicações e questões relevantes, como o resgate da cidadania e inserção social, no sentido de melhorar a compreensão do papel do designer no trabalho com comunidades. Segundo Heliana Soneghet Pacheco (1996, p. 56), é através da "(...) prática do DS com o interlocutor e a comunidade envolvida, que fica evidente a existência de um Design que projeta acontecimentos e produz coletivos sujeitos, e não comunidades e objetos de consumo." Ou seja, o diálogo travado entre o designer e a comunidade na construção de um projeto de design preocupado com os movimentos sociais advindos da sua implementação, e o designer e o cliente, interlocutor, que também será participante da construção do projeto, é fundamental para o crescimento destas comunidades. Fortalecem as relações entre os sujeitos e cria uma unidade de pensamento no grupo que ajuda a nortear a busca por uma solução harmônica. Assim, a 18 probabilidade de sucesso de um projeto destes é bem maior. A criação de objetos, o desenvolvimento de projetos de produtos utilitários, reúne desde premissas intrínsecas a qualquer ser humano, como facilitar uma tarefa ou conseguir, por instrumentos, realizar uma tarefa, até construir um meio ambiente sócio-ético mais justo e saudável através do processo do design. Quando o ser humano necessitou de um instrumento que facilitasse a caça de animais, nos primórdios, desenvolveu a lança: pedra lascada atada com cipós ou pele de animais a um galho. Mesmo que esse desenvolvimento, essa criação, viesse a contribuir com o bem-estar social da sua comunidade, fomentando o seu crescimento e desenvolvimento, este, talvez, não fosse o foco principal. Hoje em dia, não podemos negar que o é. Não é mais possível conceber projetos sem analisar a influência da função social destes, mesmo que estes estejam sujeitos à "(...) pluralidade das forças e influências que moldaram suas formas e caracterizaram seu papel social". (HESKETT, 1998, pp.8-9) Em muitos projetos, a função social destes não é analisada na fase de planejamento, ela ocorre como conseqüência natural. A dicotomia entre forma e função, e qual dos dois deve prevalecer num projeto é uma questão que exige reflexão. Para nós, ambas, seguem o contexto social. Apesar das mudanças e evoluções inevitáveis em qualquer projeto, o foco deve garantir a coesão e idoneidade deste. Concordamos com Heskett (op. cit.) quando ele se baseia "(...) na crença de que a diversidade do design exige uma consideração de seus vários papéis e funções", ou seja, por mais preciso que seja o recorte realizado sobre um tema, em uma pesquisa de design, não podemos deixar de abordá-lo 19 nas suas múltiplas facetas. Cabe ao designer determinar dentro das condições apresentadas pelo cenário (fatores econômicos, físicos, políticos, climáticos, psicológicos etc.) a melhor adequação: MARGOLIN, Victor. ouvir as várias partes, equilibrar as fraquezas e oportunidades, É pesquisador e professor adjunto de História do Design da Universidade de Illinois (Chicago). Suas primeiras publicações foram na “Jester” a revista de humor do Colégio de Columbia em Nova York. Depois da graduação, teve vários empregos. Por volta dos 30 anos iniciou uma carreira acadêmica que o levou a ser o primeiro PhD em história do design nos Estados Unidos. gerar um projeto viável que reflita uma harmonia, desde a concepção até o descarte ou a reutilização dos produtos gerados, e lidar ainda com as mudanças sociais que causam e podem causar transformações ou mudanças nos sujeitos envolvidos direta ou indiretamente no projeto. Os projetos de design podem ser potencializados e influenciados por uma série de efeitos: desde decisões comerciais e políticas passando pelo contexto organizacional da empresa em que o designer atua, pela disponibilidade da matéria, as instalações e até "por conceitos sociais e estéticos predominantes: a variedade de condições possíveis é imensa." (HESKETT, 1998, p. 10) Assim, esta dissertação pretende contribuir com uma discussão sobre a atuação dos designers, e minimizar a ausência de pesquisas nessa área. Conforme aponta o casal MARGOLIN, Sylvia. É Professora aposentada da Governor's State University em Chicago, ela lecionou no College of Health Professions, Trabalho Social. Além do Queens College, CUNY, 1965., New York University, 1974 e da University of Illinois em Chicago, 1995 Margolin: "Uma razão pela qual não existe mais suporte a serviços de design social é a ausência de pesquisas que demonstrem como um designer pode contribuir para o bem-estar humano". (MARGOLIN & MARGOLIN, 2004, p. 46) No que diz respeito ao trabalho desenvolvido pelo designer de 1 moda, acreditamos que o fator bem-estar é o primordial. O conforto físico que deve ser proporcionado pelas roupas, o 20 psíquico que inclui o sentir-se bem, e, acima de tudo, o social, que implicitamente está ligado à questão econômicoambiental e circunscreve enfim o projeto destas roupas. O sistema produtivo de roupas sempre esteve diretamente ligado aos padrões sociais e econômicos, às formas de produção e ao desenvolvimento das populações. A questão da produção de têxteis e confecção de roupas sempre esteve atrelada aos processos produtivos e tecnológicos, que foram se modificando ao longo do tempo. Não discutiremos neste trabalho os valores simbólicos desses processos de apropriação e modificação de valor pela sociedade através das vestimentas. Nosso interesse é abordar apenas como a produção de roupas, moda e acessórios faz parte do disparador (starter) das mudanças nos processos produtivos que transformaram e continuam a transformar a sociedade como um todo. Além disto, os produtos de moda (roupas e acessórios) sempre estiveram na ponta das evoluções tecnológicas que marcaram o final do século XVIII, onde ocorreram as principais evoluções na indústria de fiação e tecelagem, como nos confirma Pevsner ao afirmar que "(...) a indústria têxtil era um dos sustentáculos da produção industrializada". (PEVSNER,1995, p.32) PEVSNER, Nikolaus (1902-83) Nascido na Alemanha. Foi Historiador da arquitetura inglesa. Sob o efeito de Heinrich W ö lfflin, Pevsner afirmou em muitos trabalhos seus que a arte deve ser considerada dentro do seu contexto histórico e social. Um dos maiores críticos da arquitetura do século 20. Esta é a razão da necessidade de pesquisas no campo do design de moda serem efetuadas no Brasil, trazendo para nosso cenário as questões pertinentes à criação, produção, inovação, geração e disseminação de conhecimentos da metodologia do design aplicada a produtos de moda. Para tanto, ao final de nosso trabalho relataremos um caso prático de notório sucesso, do qual pretendemos extrair algumas reflexões sobre projetos de design de moda que se 21 constituem a partir de uma abordagem social. Acreditamos ser este um processo-chave, para a atuação dos designers na realidade sócio-política-econômica e ambiental do nosso país. Nas palavras de Victor Margolin: "Quando reconhecemos nossa relação com o social como parte de nossa relação com o design, encontramos (...) história, teoria e crítica, assuntos centrais". (MARGOLIN, 2001, p. 58) Estes três campos, história, teoria e crítica, se entrelaçam e funcionam como pilares para a formulação de um percurso possível para o designer de moda. Exposição A Mão na Moda - 2001 22 2.0 O Movimento Arts & Crafts e sua atualidade "Democracia é oportunizar a todos o mesmo ponto de partida. Quanto ao ponto de chegada, depende de cada um". Fernando Sabino A referência histórica é necessária por dois fatores: o primeiro, porque nos faz percorrer as evoluções e os encaixes que foram sendo feitos ao longo do tempo, e encontrar os acertos para inová-los e ajustá-los à nossa realidade e preocupações atuais. Papel de parede de William Morris c.1897. Típico do Arts and Crafts movement. Evitando, assim, o acúmulo de erros sucessivos. "Portanto, só o resgate histórico nos possibilitará conhecer as origens e os percursos desenvolvidos para melhor compreender e analisar o presente e poder vislumbrar e prospectar o futuro." (MOURA, 2002, p. 10) O segundo fator é que esse movimento é considerado como marco fundamental no estudo do design. A influência e a interdependência dos fatos geradores daquele cenário, além da interação com as mudanças sociais e culturais que marcaram sua eclosão, são sentidas e analisadas até os nossos dias. O movimento Arts & Crafts (Artes e Ofícios) surgiu na Inglaterra, nos últimos anos do século XIX, encabeçado por dois artistas, arquitetos e pensadores do seu tempo, William Morris e John Ruskin, que se preocupavam com a procura de uma estética significativa e autêntica. Por trás desta busca estética, havia uma enorme preocupação com os fatores sociais envolvidos e as conseqüências político-econômicas advindas das relações de trabalho. 23 Desde os seus primórdios o design manteve uma preocupação intrínseca com o bem-estar social. Em muitos momentos na história porém, o entusiasmo com a evolução da tecnologia e as ferramentas utilizadas nos processos produtivos, encobriram ou mascararam essa preocupação. Ora os MORRIS, William. (1834-1896) Poeta, romancista e editor inglês, cria em 1861 o ateliê Morris, Marshall, Faulkner & Co., que se torna a fonte do Movimento Arts & Crafts (Artes e Ofícios). resultados financeiros obtidos eram o foco, ora a preocupação estética, a forma dos objetos, era o centro das atenções, mas as relações entre os trabalhadores e o meio-ambiente, entre os produtos e os dejetos, era ignorada, relegada a segundo plano. Enfim, em relação aos questionamentos sobre o papel do designer, no contexto do século XIX, e que retornam hoje em dia, com nova roupagem, nos cabe trazê-los à baila, ampliando as discussões e indicando alguns caminhos possíveis a serem trilhados em cenários futuros. De acordo com Sylvia e Victor Margolin (2004, p.43),"Desde a RUSKIN, John. (1819-1900) Pensador, crítico e educador inglês, autor de diversos títulos entre eles os cinco volumes de Modern Painters (Pintores Modernos) e os três The Stones of Venice (As pedras de Veneza). Revolução Industrial, o paradigma de design dominante tem sido o de desenhar para o mercado.” O designer atuava como parte do sistema que era submetido à indústria, segundo os ditames dos industriais e fabricantes. Igualmente ao que ocorre na moda prêt-à-porter, que desde a sua criação, se volta para a produção industrial. Cabe então nos perguntarmos: à medida que a produção em massa começa a ser processada, onde vai parar o artesão? Qual a sua função dentro desta nova cadeia produtiva que está se formando? E qual a função dos projetistas, dos designers que criam estes novos produtos para uma produção tecnológica, em série e de escala industrial? 24 Segundo Cardoso (2004, p. 72), "A filosofia do movimento Arts and Crafts girava em torno da recuperação dos valores produtivos tradicionais defendidos por Ruskin (...)Os integrantes do movimento buscavam promover uma maior integração entre projeto e execução, uma relação mais CARDOSO Denis, Rafael. PhD em história da arte pela Universidade de Londres Courtauld Institute of Art e professor do departamento de Artes & Design da Pontifícia Universidade Católica, Rio de Janeiro. igualitária e democrática entre os trabalhadores envolvidos na produção, e uma manutenção de padrões elevados em termos de qualidade de materiais e acabamento (...)" As empresas, entre oficinas e indústrias, buscavam na época um estilo que agradasse ao mercado consumidor. Esta busca de padrões reproduzíveis suscitou as críticas dos designers que viam na Revolução Industrial um viés trágico, destruidor da criação, dos valores estéticos, e por fim dos valores sociais dos artesãos, que não mais eram considerados como parte integrante do processo, mas relegados à margem deste. Este foi um dos pontos principais das críticas à Revolução Industrial, que promoveu a mobilidade social apenas à classe dos fabricantes, e condenou à perda de prestígio e estabilidade os mestres-artesãos e seus aprendizes. Por ironia, um dos motivos também das críticas, e conseqüente falha do Movimento Arts & Crafts, pois os objetos gerados pelas oficinas e empresas, que eram contra a Industrialização, Augustus Welby Northmore Pugin (18121852) Arquiteto, designer das artes decorativas ,teórico e crítico. Sua percepção em todos estes campos sempre foi liderada por sua fé Católica. tornavam-se inacessíveis à maioria da população, por serem demasiadamente caros. Problema que vemos ainda se repetir na contemporaneidade. Ainda assim, enxergamos que uma concepção do que hoje denominamos Design Social, começou a ser levantada por John Ruskin e ampliada por William Morris, iniciada através das críticas e ironias de A. W. N. Pugin. 25 "A discussão do design na Inglaterra do século XIX foi dominada pela tensão entre uma demanda constante e cada vez maior de artigos com tradição de produção artesanal, como móveis, objetos de cerâmica e de metal, e a criação de uma produção comercializada que se apropriou das formas e valores do passado e os modificou, tornando-os acessíveis a parcela maior da população." (HESKETT, 1998, P. 19) 26 A crítica que se seguiu foi tão radical aos acontecimentos gerados a partir deste início de produção em série, e das mudanças acarretadas por ele, que chegaram ao ponto de indicarem "(...) uma condenação total da indústria e seus produtos, apontando para o custo humano e sacrifício envolvidos num sistema social que exigia e produzia esses bens." (HESKETT, 1998, p. 20) The Crystal Palace at Sydenham Hill, A Exposição de 1851 foi a coroação e a constatação de todo o London. Designed por Sir Joseph Paxton for equívoco ocorrido durante o processo de industrialização e the Great. massificação da produção; ali estavam, lado a lado, o pior de (créditos: BBC Hulton Picture Library) http://images.google. todas as nações, junto da mais alta tecnologia até então com.br/imgres?imgurl desenvolvida pelo ser humano. (PEVSNER, 1974, p. 28) =http://content.answ ers.com/main/content/ wp/en-commons/ thumb/ c/c4/300pxPoderíamos dizer que foi a reação ao visual grotesco dos Crystal_Palace. PNG&imgrefurl=http: objetos exibidos na exposição de 1851 que fez surgir o //www.answers.com/t movimento Arts and Crafts. A banalização e o exagero além da opic/crystal-palace&h =215&w=300&sz=8 falta total de sensibilidade e mínimo conhecimento "em 5&hl=pt-BR&start= 1&um=1&tbnid=8lxY relação às formas, materiais, aos padrões decorativos".(PEVSNER, 2D7bbhT7SM:&tbnh= 1974, p. 29) 83&tbnw=116&prev =/images%3Fq%3Dcri stal%2Bpalace%2Bexi bition%26um%3D1% O mau gosto, a cópia mera e simples da artesania pelas 26hl%3DptBR%26clie nt%3Dfirefox-a%26 máquinas, sem o menor pudor, a menor acuidade, o menor channel%3Ds%26rls% senso estético, chocou os visitantes da exposição. O grande 3Dorg.mozilla:pt-BR :official%26sa%3DG impacto é que o mesmo fenômeno se repetia em todos os pavilhões, nas exposições de todas as nações que ali se viam representadas. Algumas perguntas se mostraram necessárias: Por que a arte foi tão esquecida? Por que os artesãos foram menosprezados, e os seus produtos desqualificados? Estas mesmas perguntas ressoam na maioria das ONG´s recentemente criadas para ajudar os artesãos de hoje a resgatar a sua cidadania, a sua dignidade e a sua fonte de renda. COLE, Henry. O ideal de melhoria dos padrões aplicados na indústria estava (1808-1882) intimamente ligado à concepção das belas artes. Morris e Sir Henry, começou a carreira no serviço público. Foi membro da Royal Society for the Encouragement of Arts, Manufactures and Commerce (RSA). Em algumas pesquisas lhe é creditado o design do primeiro selo do mundo o Penny Black. Foi organizador de várias exposições, e incubido pelo príncpe Albert de organizar a The Great Exhibition of the Works of Industry of all Nations no The Crystal Palace no Hyde Park, Londres, de 1 Maio a 15 Outubro de 1851. Ruskin acreditavam que com a apreensão das belas artes pela população, o bom gosto, o bom senso estético poderia ser disseminado, e conseqüentemente a exigência de produtos com design forçaria uma mudança de direcionamento na produção. "A convicção de que o aperfeiçoamento poderia ser efetuado por meios estéticos produziu diversas propostas práticas". (HESKETT, 1998, p. 20) O Journal of Design, editado por Henry Cole, um dos promotores da Grande Exposição de 1851 frisava em um dos seus artigos: "Se o público é incapaz de apreciar a excelência, decerto não poderemos convocar o fabricante a produzi-la por um sacrifício." (HESKETT, 1998, p. 23) Aliás, diga-se de passagem, esta excelência é perseguida e cobrada até os nossos dias, principalmente quando se trata do sistema da moda. A moda demanda a cada estação uma nova tendência, uma nova cartela de cores, uma nova inspiração. O desejo pelo novo, pelo inédito, é o que impulsiona as engrenagens do sistema. 27 Para nós, mencionar o movimento Arts and Crafts é extremamente importante, porque ele foi o disparador do pensamento social para o design, momento em que os maiores pensadores do design viram uma conexão entre os processos produtivos, a alocação da mão de obra numa cadeia industrializada e a condição social destes trabalhadores. 28 2.1 O papel do Designer ontem Foi William Morris quem trouxe a renovação do desenho do artefato, com planejamento, acuidade e estética. Ele anteviu e divulgou através de seu esforço pessoal e profissional a união entre o artesão e o designer. Os artistas deveriam ser transformados em artesãos-designers. Para tanto, o designer aprenderia com os técnicos e artesãos e estes aprenderiam com os designers. A educação e o treinamento dos operários eram vistos como uma forma de aprimorar o design produzido. Embora, muitos donos de oficinas e fabricantes, não concordassem com isto. (PEVSNER, 1974, p. 36) A revolução na sensibilidade que floresceu a partir de Ruskin e Morris, e seus companheiros no movimento idealista, mudou as concepções de criação com a incorporação da metodologia FRY, Edwin Maxwell. criativa, com a apreciação dos talentos e a participação do (1899-1987) criador em toda a sequência do processo produtivo desde a Britânico, Graduou-se arquiteto na School of Architecture da University of Liverpool. Foi um dos arquitetos que instituiu as sólidas fundações para o Modernismo britânico se expandir. origem, criação, até a conclusão do trabalho (produto acabado). Este processo carregava ainda uma preocupação na manutenção da dignidade e do papel dos artesãos e trabalhadores das indústrias e oficinas envolvidas. (FRY, 1976, p. 54) O ideário de William Morris trouxe à tona uma preocupação com as pessoas envolvidas diretamente nos processos produtivos de bens. As mudanças no pensamento da humanidade alavancaram as mudanças "no campo das idéias sociais". KAZAZIAN, Thierry (1961) O designer francês diplomado pela Domus Academy de Milão, é considerado a primeira voz a falar sobre o Ecodesign na França. Em 1988 tornou-se um dos fundadores da O2, primeira rede internacional de designers que trabalham para um desenvolvimento sustentável. Hoje, a O2 France acompanha empresas em sua abordagem de desenvolvimento sustentável, traduzindo-a para o espírito de cada atividade - produtos e serviços -, notadamente graças à ecoconcepção. Entre elas: Alcatel, Danone, Lafuma, Legrand, LVMH, Monoprix, Steelcase etc. Em pleno século XXI temos a tecnologia digital invadindo cada vez mais os meios produtivos e o quotidiano das pessoas e mais uma vez no outro lado da balança a questão social se contrapõe. Ela aparece, como que se impondo à sociedade, cobrando dela, através de um avanço terrível da violência urbana, um pouco dos ganhos que a elite absorveu com a chegada das facilidades da tecnologia digital. Entendendo aqui elite como produtores e consumidores dos bens industrializados. No início do século XIX, coube a Ruskin (2004, p. 21) produzir os primeiros textos em tom de crítica ecológica que se conhece. Trazendo o problema instaurado para humanidade neste início de século XXI pela produção inconseqüente. Kazazian (2005, p. 14) nos mostra que Ruskin pode ter sido o primeiro pensador desta tragédia, e Morris seu primeiro ativista, que buscava com seu exemplo e trabalho reverter o estado de coisas que se apresentava. "Hostil à Revolução Industrial e ao capitalismo, que, de seu ponto de vista, favorecem mais a produtividade que a qualidade e a estética, William Morris poeta, romancista e editor inglês cria em 1861 o ateliê Morris, Marshall, Faulkner & Co., que se torna a fonte do movimento Arts & Crafts, cuja ambição é embelezar o meio ambiente cotidiano pelas artes da decoração". (KAZAZIAN, 2005, p. 14) 29 Esta seria uma visão simplista, redutora das verdadeiras intenções do trabalho de Morris, embelezar, trazer senso estético e discernimento crítico à população sobre os objetos, era apenas uma das facetas de seu trabalho. Mas concordamos com Kazazian (2005, p. 14) quando, sobre Morris, afirma que "ele considera que a indústria gera uma perda de controle do criador sobre a produção e desfigura os objetos cotidianos (...)". É bem verdade que o artesão que controlava desde a concepção até a comercialização dos objetos na era do artesanato, com a industrialização, era determinado a atuar apenas numa pequena etapa da criação desde objeto. Atuando numa produção dividida em etapas cada vez menores e fazendo parte de uma equipe cada vez maior de trabalhadores. A conseqüência era a perda de contato do criador sobre o produto final. O designer, que surge neste cenário, trabalha longe, muitas vezes, física e intelectualmente desta equipe produtiva que é um dos pontos de crítica, de Morris, sobre este processo. Porém esta, também, se torna uma parte preponderante na própria definição da profissão de designer. De novo concordamos com Kazazian (2005, p. 14), quando traz a questão inicial do surgimento do Design como disciplina formatada como conhecemos hoje, e a credita a Morris. "William Morris quis transformar o ambiente de seus contemporâneos juntando, sem distinção, artes menores e maiores. Trata-se do primeiro nascimento do Design". 30 Segundo Cardoso (2004, p. 69), "William Morris deu início a uma série de empreendimentos comerciais que iriam divulgar a importância do designer de forma inédita." Através de suas companhias procurava tratar o desenvolvimento de produtos como uma missão de vida e, com ela, alcançar um bem maior para toda população. Morris tinha como missão reorganizar os meios produtivos e os personagens neles envolvidos de uma forma coerente, que tanto os designers, os artesãos, os fabricantes e os trabalhadores das indústrias tivessem um papel digno e valorizado, atuando em conjunto para o benefício da maior parcela da população. Para Margolin (2001, p. 60), "Como pensador, Morris conseguiu ter enorme ascendência sobre designers, educadores e teóricos, por ter articulado tão poderosamente a sua oposição à racionalidade técnica da sua época. Seus argumentos se mantêm persuasivos quando nos esforçamos para conferir sentido à turbulência atual da inovação tecnológica." Portanto, 158 anos após suas primeiras ações para mudar a forma como a sociedade dispunha da tecnologia, as idéias e reflexões de William Morris difundidas através do Arts and Crafts Movement parecem ainda pertinentes, e merecem ser retomadas e repensadas. 31 2.2 Concepção artesanal, concepção industrial Quando nos dispomos a fazer algo, por exemplo, um bolo, juntamos todos os seus componentes, e ao final, o produto resultante, é completamente diferente em aparência, cor, cheiro e sabor de todos os ingredientes que utilizamos. Nós modificamos a forma destes componentes para criarmos um produto de nosso interesse. O mesmo acontece com o artesanato, os produtos manufaturados e os industrializados. Ao darmos uma nova forma aos componentes, imprimindo o nosso trabalho, transformando-os em objetos úteis, etimologicamente, estamos in-formando estes componentes, não apenas enformando (colocando em uma fôrma), mas transformando os componentes em objetos através dos processos. A criação de objetos utilitários, decorativos, ritualísticos vem acompanhando a humanidade desde sua pré-história. A partir do início do século XIX a crescente busca por artigos com um preço acessível, pela parcela da população em ascensão financeira, e a busca dos fabricantes em conceber produtos baratos com "cara" e jeito de produtos caros e exclusivos levou à destruição dos valores estéticos e artísticos destes objetos. Tornando-se apenas um fator comercial, na concepção deles. A reprodução de padrões e designs (aqui empregamos a palavra como ornamentos) clássicos da realeza, eram aplicadas para aumentar o interesse e o preço de utilitários comuns, o que se tornou uma febre, e um ideal perseguido pelas oficinas e fábricas que se formavam. 32 Desde o seu início o Design sempre estabeleceu um diálogo entre arte, artesanato e processos industriais de (re)produção. "Os escritos do alemão Gottfried Semper definiram uma teoria estética que aceitava a inevitabilidade da industrialização e SEMPER, Gottfried. (1803 - 1879) Um dos mais importantes arquitetos alemães do século XIX. Além de teórico foi professor da Academia de Dresden e diretor da seção de arquitetura da Escola Politécnica de Zurich e cofundador do Museum South Kesington, projeto que pretendia unificar arte e indústria. confrontava os problemas da inter-relação entre arte e indústria." (HESKETT, 1998, p. 27) Ou seja, o Design surgiu para ser um solucionador destes problemas. "No artesão combinam-se três atividades, de artista, produtor e vendedor" (HESKETT, 1998, p. 90). O artesão, que era a mente por trás da criação, responsável pelo cuidado construtivo, havia praticamente desaparecido com o final da era que se chamou do artesanato e o início da era industrial. Agora nas fábricas quem atuava na produção, praticamente não tinha outro contato com os produtos desenvolvidos, a não ser os demandados durante alguma fase da produção. Os trabalhadores não emitiam opinião sobre o desenvolvimento dos produtos; o trabalho tornara-se completamente impessoal, frio e mecanicista. Cada um só respondia pela parte que lhe cabia no processo perdendo a visão e o contato com o todo fabril. A qualidade estética destes produtos dependia exclusivamente dos dirigentes das fábricas, "fabricantes incultos", segundo Pevsner (1980, p. 32). Cardoso (apud MOURA, 2002, p. 12) nos explica que "a diferença entre design e artesanato reside justamente no fato de que o designer se limita a projetar o objeto para ser fabricado por outras mãos ou, de preferência, por meios mecânicos." 33 O designer estaria, assim, afastado da produção em si mesma. O artesão criava, produzia e operava em todas as fases do processo produtivo, fosse o resultado deste processo um par A pegada ecológica e o seu método de cálculo foi desenvolvido através da tese de doutorado do prof. PhD Mathis Wackernagel sob a orientação do Prof. William Rees na University of British Columbia em Vancouver, Canadá (1990-1994). Ela é uma medida de impacto das ações humanas no ambiente natural que nos sustenta. A pegada exprime a área de terra e mar que é necessária para nos alimentar, fornecer recursos, produzir energia, assimilar resíduos, e re-absorver os gases produzidos pelo uso de combustíveis fósseis. O cálculo usa a terra como “moeda” e oferece uma noção para visualização, o denominado hectare global (gha) (uma área equivalente a um hectare normal, mas ajustado para produtividade global média) para assim quantificar a área necessária para dar suporte a um indivíduo, uma comunidade ou à população de uma nação nos seus padrões atuais de vida. E também pode ser utilizada para medir o impacto da fabricação de um produto. de sapatos, um terno, uma roupa, um outro artefato qualquer. Deste modo ele era um conhecedor de todas as fases do processo, e de seus desenvolvimentos. Auxiliado apenas por ferramentas elementares, e seus aprendizes, estes processos eram demorados e os produtos quase sempre exclusivos. Com o advento das máquinas, (a vapor e elétricas), surgiram os profissonais, especialistas ou especializados, em certas etapas do processo produtivo. O operador ou colaborador participava apenas de alguma parte do processo, perdendo assim a noção de todo o processamento até o produto final. Isto faz parte da visão mecanicista da divisão do trabalho em etapas especializadas. Este procedimeto visa melhorar a qualidade final e reduzir o tempo total de produção do bem, para rapidamente o produto estar à disposição do mercado consumidor, ou seja, dos clientes. A era da produção em massa ou em série instalava-se. Havia então, muito desperdício de toda ordem. Expoente dessa era, Henry Ford tinha uma frase típica: "extraimos a matéria-prima no sábado; na terçafeira o cliente já recebeu o carro." (PALADINI, 2006, p.62) No final do século XVIII as mudanças no pensamento da humanidade e a aceleração técnica com a rápida evolução dos processos de manufatura que influenciaram e foram influenciados inclusive pelas mudanças religiosas, trouxeram à tona uma "compreensão da missão mundial" do designer, segundo Pevsner (1980, p.37), e principalmente "dos valores éticos do trabalho quotidiano". Esta talvez seja a primeira pista do espírito daquele tempo que vemos presente neste final de Calcule a sua! http://www.earthday.net/Footprint/index.asp 34 século XX e início de século XXI: a retomada das discussões sobre ética, trabalho e meio ambiente, formas de produção limpa e preocupadas com a pegada ecológica e o futuro da biosfera para as próximas gerações. Estas discussões, mais uma vez, são impulsionadas pelas mudanças no pensamento da humanidade e a expansão da tecnologia digital. 35 A partir do momento em que o designer toma consciência do seu papel de interventor no social, e direciona os seus esforços para atuar na missão de promover o bem-estar respeitando os limites e a perenidade do meio ambiente, muda completamente a perspectiva de atuação deste designer. Conforme nos alertou Aloísio Magalhães em seu discurso, na comemoração de 15 anos da ESDI, em 1977: MAGALHÃES, Aloísio. (1927-1982) Designer, artista plástico, político, foi um dos fundadores da Escola Superior de Desenho Industrial e desempenhou papel fundamental no quadro da produção e divulgação do design no Brasil. Ao longo dos anos que se seguiram, poucos infelizmente, Aloísio Magalhães trabalhou como nunca para traçar um projeto de um novo Brasil. "Transitamos num espectro amplo de diversidade de saberes e de situações muito distanciadas: da pedra lascada ao computador. Não estarão aí algumas indicações de uma reconceituação da atividade? Não será esta a tarefa que deveremos fazer?" (MAGALHÃES 1998, p. 12) Repensar o design e pensar em projetar com uma perspectiva voltada para o social, reconsiderar a abrangência das ações do design enquanto profissão, principalmente no Brasil, quando a conjuntura social, política e econômica é desfavorável ao bem-estar humano, é uma das tarefas do pesquisador. http://images.google.com.br/imgres?imgurl=http://www.fibra-ds.com/Images/logo_esdi .gif&imgrefurl=http://www.fibra-ds.com/empresa.htm&h=78&w=90&sz=1&hl=pt-BR&start= 84&tbnid=XlJFGeRe3-sh_M:&tbnh=68&tbnw=78&prev=/images%3Fq%3Desdi%2Brio%2Bde%2B janeiro%2Bbrasil%26start%3D80%26gbv%3D2%26ndsp%3D20%26hl%3Dpt-BR%26sa%3DN 2.2.1 A concepção Digital Nas palavras de Victor Margolin (1994, p. 10): "estaremos verdadeiramente no meio de uma mudança comparável à troca da cultura agrária pela Idade da Máquina? Ele, em seu FLUSSER, Vilém. (1920-1991) artigo "A Idade da Comunicação: um Desafio para designers", Nascido em Praga, viveu no Brasil de 1964 a 1976. Lecionou filosofia da Ciência como prof. Convidado na Escola Politécnica da USP. Foi um dos fundadores do curso de Comunicação Social da FAAP. acreditava que estamos. O primeiro ponto de contato entre estes dois momentos históricos dá título a este capítulo: a concepção artesanal e a concepção industrial. Para os defensores e entusiastas do processo industrial, os processos manuais foram relegados a segundo plano. Encontramos no início do século XIX, a situação em que se produzia em excesso, comprava-se em excesso, mas tudo sem qualidade e com grande desperdício. A população então crescia num ritmo alucinante e a educação ficava a desejar, consumidores vorazes e incultos foram vítimas desta espiral de erros e conseqüências. A visão de que os produtos industrializados poderiam ser fabricados com materiais de qualidade inferior e um aumento de preço na comercialização, legitimada pelo design, assim, aumentando os lucros, é uma visão distorcida do real valor do design. O design busca, com a economia de materiais, e a pesquisa de novos materiais, um equilíbrio entre a função, durabilidade, facilidade de produção e comercialização do produto. A queda dos custos e o aumento dos lucros é uma conseqüência deste trabalho, não um fim em si mesmo. Segundo Flusser (2007, p. 35), "(...) as grandes revoluções dos séculos XIV e XV tiveram origem nas oficinas e nos conflitos 36 que ali insurgiram." As oficinas na Idade Média (780A.C. ao século XIV) e as fábricas na passagem do século XVIII para o XIX, eram os locais de conflito, onde as mudanças sociais começavam a ganhar corpo, a partir das mudanças tecnológicas que influenciaram os meios produtivos. Uma outra mudança de paradigma nos meios de produção atual, que chamamos de Revolução Digital, acontece. A revolução da virada do século XX para o XXI prepara uma transformação radical nas formas de planejar o design: o Design Social. Para Villém Flusser (2007, p. 38), a chegada dos meios digitais representaria uma terceira quebra, por ele denominada de terceira Revolução Industrial, ao invés de uma Revolução Digital: "(...) terceira Revolução Industrial, aquela que implica a substituição das máquinas por aparelhos eletrônicos." Ou seja, a introdução de mecanismos microeletrônicos, automatizações e robotizações, para realização de tarefas repetitivas. Uma revolução que mais uma vez é conduzida através de fios, de teias, redes que interligam, e tramam conexões que envolvem a todos. Assim como os tecidos de algodão, a função deste tecido de comunicação é esquentar as relações, aproximar as trocas de informação e conhecimento entre as pessoas, artesãos e designers. No projeto de design e comunicação encontra-se ainda um campo para desenvolvimento de mudanças que é, para Cardoso, em seu prefácio de "O mundo codificado" de Villém Flusser (2007, p. 17), um dos poucos espaços que nos resta para utopias, isto é, para sonharmos e esgarçarmos os limites entre a matéria e as representações. "Ao ingressarmos plenamente 37 na era da imagem técnica, retornarmos, de certo modo, ao tempo anterior ao discurso linear, histórico". (idem) As possibilidades abertas pela digitalização dos meios produz novas mudanças tecnológicas que influenciam e alteram as relações sociais neste início de século XXI. A internet, os contatos e redes virtuais, o mundo virtual, enfim. Esta evolução até mesmo para ciência, foi rápida demais, e o distanciamento necessário para se avaliar a abrangência destas mudanças na sociedade, provavelmente, só será alcançado em uma década ou mais. Visualizamos o início das grandes transformações sociais no entorno das grandes transformações produtivas, no momento histórico em que as evoluções tecnológicas são implementadas. Flusser (2007, p. 37) visualizou quatro momentos na história em que o epicentro das mudanças é o local: "(...) as fábricas são lugares onde sempre são produzidas novas formas de homens: primeiro, o homem-mão, depois, o homemferramenta, em seguida, o homem-máquina, e, finalmente, o homem-aparelhos-eletrônicos. Repetindo: essa é a história da humanidade." Nosso olhar se volta para dois desses momentos: quando o homem se defronta com as máquinas e posteriormente com a digitalização dos processos. O mundo virtual trouxe novos paradigmas para o designer lidar. Novos problemas de concepção. O design de interfaces ganha força, a intermediação que acontece entre os usuários, clientes e os produtos, mídias, serviços virtuais, faz vir à tona 38 uma variedade de problemas a serem solucionados, discutidos, pesquisados. A Revolução Digital, assim como fora a Revolução industrial, abre um novo campo de atuação para o designer e o joga novamente no centro das atenções do sistema econômico e social. Projetar dentro de uma concepção virtual, de imaterialidade dos produtos, repensar suas delimitações, sua conformação no ciberespaço, traz o designer para uma nova forma de encarar a terceira dimensão. Esta concepção trouxe um novo solo para o design, trouxe o espaço, sem paredes, pisos ou tetos, sem limites dimensionais, o que para a antropometria e ergonomia, causa uma enorme diferença. Vejamos, por exemplo, o caso dos celulares: aparelhos diminutos, teclas ínfimas, que os dedos humanos são incapazes de acessar com PAPANEK, Victor. (1927-1999) Estudou design e arquitetura em Nova York e no MITMassachusetts Institute of Technology. precisão. O design junto com a tecnologia cria o problema, ao invés de buscar solucioná-lo. Surge no mercado um novo produto, a caneta de escrita virtual, não para ser utilizada em papel, mas em telas, para dar alcance preciso no acionamento de teclas diminutas em celulares do tamanho de caixas de cigarro. O design contemporâneo tem um propósito social, que os designers estão esquecendo. Este foi o alerta feito por Papanek (1971), em outra versão, outro cenário, mas que é perfeitamente plausível hoje, com as situações reais e virtuais com as quais estamos lidando. A inclusão digital, a permissão de acesso a diversos públicos da gama imensa de informação disponível nas redes impõe mais este paradigma. A facilitação ao público com dificuldades inerentes: idosos, cadeirantes, não videntes, crianças, de se movimentar, trabalhar, viver, 39 brincar com os novos produtos e serviços, dentro e fora do novo ciberespaço, abre-nos uma nova gama de possibilidades e caminhos a seguir. (MARGOLIN, 2004, p. 43) Que tendência seguirá o design neste novo milênio, ainda é uma incógnita. Mas experimentamos uma diversidade de possibilidades que convergem para um ponto em comum: o papel social do design, a responsabilidade deste papel para as futuras gerações, a necessidade de ser debatido, pesquisado, difundido com os estudantes o posicionamento ético e moral necessário para assunção desta responsabilidade. A mudança de paradigma da revolução digital não modificou apenas o tipo de produtos que são desenvolvidos, mas principalmente a maneira pela qual nos comunicamos e trabalhamos, as inter-relações advindas desta mudança. Os relacionamentos mudaram porque o ambiente onde eles ocorrem mudou. Como nos lembra Margolin (2004, pg. 44), "Os vários domínios que têm um impacto sobre o funcionamento humano são o biológico, psicológico, cultural, social, natural e físico/espacial". Ou seja, as relações humanas são as gotículas que juntas formam o mar da sociedade, onde os designers atuam para melhorar, facilitar, ampliar estes relacionamentos, favorecendo e fortalecendo estas relações. 40 3.0 O que é Design Social Antes de mais nada, é importante dizer que o Design como prática projetual implica tanto o desenvolvimento de produtos quanto relações simbólicas e sociais intensas, e tais relações se constituem como o principal foco de nossa dissertação. No que diz respeito ao Design Social, ao menos duas acepções são identificadas: a primeira, que apela para a responsabilidade social do designer e a segunda que carrega o valor econômico-social do trabalho do designer. Ambas estão presentes nos projetos de design, e merecem a nossa reflexão. A definição de Design Social ainda está em construção. Victor Margolin, em seu livro Politics Of The Artificial (2002), nos traz uma especial contribuição ao introduzir a noção de que o Design Social é uma atividade produtiva para o desenvolvimento do capital humano e social ao mesmo tempo que cria produtos e processos. Deste modo, o designer daria forma tanto a produtos materiais quanto a imateriais que solucionariam problemas humanos de larga escala e contribuiria para o bem-estar social. Esta definição é compartilhada por designers que colocam ênfase na sua atuação social de forma profissional, o que afasta completamente desta definição a idéia de caridade ou de trabalho voluntário. O Design Social se torna uma atividade econômica que conduz ao crescimento e desenvolvimento do local onde o projeto é realizado. 41 iProjetos de Design Social são estratégicos: discutir sobre as implicações positivas e negativas de cada ação, procurar informação para traçar os possíveis cenários que serão estabelecidos através das ações, é essencial. Vários relatórios e Realizada de 3 a 14 de comissões foram criadas ao longo dos anos para discutir as junho de 1992, o Rio questões e apontar ações pertinentes à Sustentabilidade, de Janeiro, a Ecologia, Meio-ambiente e Sociedade: Relatório Brutland, Conferência das Nações Unidas sobre o Grupo de Roma, Agenda 21, Rio Eco 92i. Mas apenas a Ambiente e o realização destas discussões sem uma ação efetiva, bem como Desenvolvimento ações impositivas, sem discussão e consenso, são inoperantes (também conhecida frente a um contexto social adverso. Congregar governos e como Cúpula da Terra organismos políticos e sociais para analisar e discutir caminhos ou Eco-92) reuniu 108 chefes de Estado para buscar mecanismos e possibilidades é o início, propor ações e efetivá-las, faz parte da responsabilidade de todos os povos. que rompessem o abismo norte-sul Whiteley (1998, p. 70), através de seus estudos formulou preservando os algumas sugestões de modelo de design para este milênio, recursos naturais da Terra. podemos incluir nas responsabilidades do designer social, segundo ele, As bases para a Eco-92 foram lançadas em "(...) as responsabilidades em relação às questões ecológicas, tanto 1972, quando a ONU em termos de potencial do design para garantir a sustentabilidade organizou sua primeira ambiental, quanto em termos do papel negativo do design como conferência ambiental, estímulo ao sistema de valores consumistas." em Estocolmo, e em 1987. A trajetória percorrida pelo Design, ao longo de sua história, trouxe-nos às discussões sobre o Design Social, em que todas as ações são centradas no ser humano. (MARGOLIN, 2007, p. 06) Para Krippendorff (2000, p. 88), o design tem uma trajetória marcada por seis paradigmas, e destaca ao longo desta trajetória: 42 "Um aumento gradual na consideração de aspectos humanos e sociais, e corresponde à saída radical de uma cultura científica em direção àquilo que podemos chamar de cultura projetual." Entre esses paradigmas estariam: o projeto de produtos para VEZZOLI, Carlo. produção em série; a mudança de foco dos produtos para bens e serviços (abordagem também utilizada por Carlo Designer, professor da graduação e doutirado de sustentabilidade ambiental e projeto na Faculdade de Desenho da Universidade Politécnica de Milão, na Itália. Vezzoli e Ezio Manzzini); o foco nas interfaces; as redes de multi-usuários e os planejamentos. Os Designers, mas não somente, como qualquer pessoa, não podem mais negar a sua parcela de responsabilidade com o futuro do planeta. Encontrar meios de viabilizarmos as mudanças necessárias através de um planejamento consciente de ações aglutinadoras, faz parte do seu dia-a-dia. Para Margolin (1998, p.47): "O design é a atividade que gera planos, projetos e produtos. É uma atividade que produz resultados tangíveis, os quais podem funcionar como demonstrações ou como discussões das maneiras em que poderíamos viver. O design está reinventando constantemente os seus objetos de estudo, sua área de abrangência, não se limita, portanto, a categorias antiquadas de produtos. O mundo espera novidades da parte dos designers. Esta é a natureza do design." Também faz parte desta natureza projetar não só objetos ou linhas de produção, mas projetar cenários, criar um novo ambiente, mudar os paradigmas sociais com que nos deparamos neste início de século XXI. Analisar as informações, atender às necessidades básicas do ser humano para uma vida digna e saudável, ao invés de atender apenas aos seus desejos, 43 e planejar as ações que levarão a este propósito. Isto faz parte do Design Social. Ou seja, projetar cenários significa buscar antecipar os acontecimentos ajudando no sentido de afastarmos as possibilidades indesejadas e reforçarmos o caminho e as ações necessárias para o que desejamos no KRIPPENDORFF, Klaus. Ph.D. em Comunicação pela Universidade de Illinois, Urbana, 1967. Diplomado em Design, Ulm School of Design, Germany, 1961. Engenheiro (grad.), State Engineering School Hanover, Germany, 1954 futuro. Assim como afirma Arge para a sociedade, "(...) a atividade projetual tornou-se um modo de vida, que o antigo pensamento do design como criação de coisas deu lugar ao pensamento do design como algo incrustado na sociedade". (KRIPPENDORFF apud ARGE, 2000, p. 88) No entanto, por maior que seja a quantidade de dados tomada, não é possível controlar todos os resultados das ações. Mesmo dentro da melhor tecnologia empregada para a análise destes, por maior que seja a amplitude da revisão histórica, e por mais realistas que sejam as projeções, a própria dinâmica da sociedade decide o rumo que estas ações irão tomar. Do mesmo modo que a natureza muitas vezes reage de forma inusitada e consegue obter uma regeneração impensável da degradação sofrida pelo meio-ambiente. O exercício de projetar e propor cenários é baseado no que poderia acontecer. Os criadores desses prognósticos de cenários reconhecem que os eventos ou as atividades que eles estudam são muito complexas para serem controladas. Mas esses tipos de cenários tendem a ser mais pragmáticos, menos idealistas. (MARGOLIN, 2007, p.06) Ao designer cabe cercar-se da maior quantidade possível de ferramentas para traçar estratégias em conjunto com a comunidade científica e leiga, para minimizar os impactos 44 negativos e maximizar os pontos positivos das ações. O trabalho interdisciplinar, a troca de informações com outras áreas como as ciências sociais, a ecologia, a saúde, a engenharia de produção e a administração, e principalmente com a população-alvo destas ações, bem como conquistar seu engajamento nas atividades desenvolvidas é essencial. O designer não pode mais ser o único responsável pelo rumo que tomam as suas idéias. A partir do momento em que os designers contemporâneos percebem que o planejamento não é uma característica exclusiva da sua profissão, e que deve ser cada vez mais difundido em nossa realidade, partem "em direção à defesa de práticas sociais mais palatáveis", entendidas como aquelas que podem e devem ser exercidas pelo designer enquanto profissional, para atuar dentro do seu alcance, na promoção de pequenas mudanças sociais. (KRIPPENDORFF, 2000, p. 91) No intuito de buscar reforço para que estes planejamentos e cenários sejam o mais próximo possível da realidade futura, a adição das várias esferas que constituem o mundo social se faz necessária. Cabe analisar cuidadosamente e estar ciente das suas próprias esferas de conhecimento e interesse, procurar determinar sua área de abrangência e sempre que necessário, convocar profissionais de outras áreas para o planejamento. (MARGOLIN, 2007, p.06) O Design social é o resultado da dinâmica (do somatório) de todas as (rel)ações individuais. Por isso mesmo, ele é uma grande oportunidade de promover tanto as mudanças necessárias, quanto uma grande responsabilidade para toda sorte de atores sociais. Ele vai além de projetar artefatos, 45 simbologias para estes artefatos ou serviços, ele é o resultado das ações sobre os sistemas e das articulações e mediações que ocorrem entre os atores e destes para com o meioambiente. Ele é o resultado da crença de que mudanças podem ocorrer através do design. SENA, Paulo Sérgio de. "O design Social procura casar pensamento e prática para Formado em Ciências viabilizar a constituição de um estilo de viver e a constituição de pela Universidade de uma sensibilidade capaz de se fazer e sustentar esse estilo." Taubaté (1983); graduação em Ciências (PACHECO, 1996, p. 50) Biológicas pela Universidade de Taubaté (1984); mestrado em Ecologia O estilo nesta afirmação corresponde, segundo a autora, a pela Universidade de uma série de procedimentos que sustentam as práticas e Guarulhos/Instituto Butantan, (1994); respondem às inquietações vividas pela humanidade. mestrado em Ciência Ambiental pela Universidade de São Paulo (2000) e Entendemos o Design Social segundo Nigel Whiteley (1998, p. doutorando em 74), ao dizer que o design defende “(...) ideais sociais e Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo culturais mais elevados do que o consumismo a curto prazo, (Qualificado em com sua bagagem obrigatória de degradação ambiental." E 28.Fev.2008). carrega "(...) o potencial de contribuir para uma qualidade de vida melhor e mais sustentável. " (Idem) O objetivo do design social é promover uma boa qualidade de vida e garantir sua continuidade na biosfera. Promover um ambiente favorável ao desenvolvimento de todo o planeta. "O Design Social revela uma metodologia que ressalta os interesses e necessidades culturais de um povo, promovendo a interação social." (SENA, 1995, p. 91) A professora Heliana Soneghet Pacheco, em seu artigo O Design Social, a Barraca e o Desenho Coletivo na PUC-Rio, 46 assinala que "O Design Social (DS) é uma metodologia de desenvolvimento de projetos que vem caminhando e esse transformando (...). Com uma trajetória marcada pelo envolvimento direto dos alunos (designers) com os usuários, criando uma parceria na elaboração de projetos, PACHECO, H. S. Graduada em Comunicação Visual pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (1988), mestrado em Design pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (1996) e doutorado em Typography & Graphic Communication University of Reading UOR (2008). É professora titular da Universidade Federal do Espírito Santo. o DS foi descobrindo a importância do interlocutor no processo projetual. (...) Transformou-o em Desenho Coletivo por incluir no método de aprendizagem projetual, os afetos, as intuições e os acontecimentos que movimentam a coletividade." (PACHECO, 1996, p. 61.) Se partirmos do princípio de que os problemas enfrentados pela humanidade foram desenvolvidos através das ações humanas, podemos supor que ações humanas conscientes podem solucionar ou, na pior das hipóteses, parar e então minimizar, até mesmo reverter determinados problemas. Dito desta forma parece uma tarefa bem simples. Mas a rede intricada desenvolvida torna a tarefa praticamente impossível: nações, povos, políticas e interesses diversos estão sendo confrontados diariamente, e todos implicam problemas vivenciados. 47 3.1 O papel da Sustentabilidade no Contemporâneo "Foi o canadense Maurice Strong que usou em 1973 pela primeira vez o conceito de ecodesenvolvimento para caracterizar uma concepção alternativa de política do desenvolvimento. Ignacy Sachs formulou os princípios básicos desta nova visão do desenvolvimento. Ela integrou basicamente seis aspectos, que deveriam guiar os caminhos do desenvolvimento: a) a satisfação das necessidades básicas; b) a solidariedade com as gerações futuras; c) a participação da população envolvida; d) a preservação dos recursos naturais e do meio ambiente em geral; e) a elaboração de um sistema social garantindo emprego, segurança social e respeito a outras culturas, e f) programas de educação." (CAVALCANTI, 1998, p.31) Nos anos 80, a concepção do desenvolvimento sustentável se intensifica, como fruto das críticas e dos debates e relatórios relacionados ao modelo econômico e de crescimento estabelecido pelos processos de industrialização e pela democracia. "O desenvolvimento sustentável revelou-se uma nova maneira de perceber as soluções para os problemas globais, que não se reduzem apenas à degradação ambiental, mas incorporam também dimensões sociais, políticas e culturais." (CAMARGO, 2002 p.ii) "Desenvolvimento sustentável, sustainable development ou nachhaltige Entwicklung é um conceito aparentemente indispensável nas discussões sobre a política do desenvolvimento no final deste século." (CAVALCANTI, 1998, p.29) O design para sustentabilidade é uma atividade estratégica de design realizada para conceber e desenvolver soluções sustentáveis. São sistemas de produtos e serviços que 48 permitem ao homem viver melhor consumindo (muito) menos recursos ambientais e melhorando (ou, em muitos casos, regenerando) os contextos físicos e sociais da vida. Os quatro pilares de sustentabilidade são: o Ecologicamente correto, o economicamente viável, o socialmente justo e culturalmente aceito. (DIVITIIS, 2007) "Na verdade, não há uma economia da sustentabilidade nem uma única forma de chegar aos predicados de uma vida sustentável. Inexiste tampouco uma teoria única do desenvolvimento ecologicamente equilibrado. O que há é uma multiplicidade de métodos de compreender e investigar a questão." (CAVALCANTI, 1998, p.21) Concordamos com Brüseke (1998, p.36 ) quando afirma como deve ser conduzida uma teoria de desenvolvimento sustentável "uma teoria do desenvolvimento tem que: a) contribuir para a interpretação sistemática do desenvolvimento social; b) tem que demonstrar seu valor heurístico nos estudos de casos; c) deve na base da sua coerência interna servir para orientar a ação social com sentido numa situação que seria menos transparente sem a existência dessa teoria." 49 3.1.1 A questão ecológica A complexidade da teia que une economia, meio ambiente e ecologia às relações sociais e políticas determina que apenas soluções complexas serão possíveis. Então percebe-se que parar, minimizar e retroceder o estado de evolução da destruição causada pela sociedade contemporânea não será nada fácil, talvez mesmo impossível. Os designers podem e estão cientes do quanto devem contribuir para estas mudanças. Desde as ações e posicionamentos iniciais de William Morris e John Ruskin passando por Victor Papanek, Tomás Maldonado, Gui Bonsiepe, chegando a Victor Margolin e Klaus Krippendorff, só para citarmos alguns arquitetos, historiadores e designers que levantam essa bandeira e abrem espaço para discussão destas questões. COOPER, Rachel "A natureza que é vista, pelo moderno, como matéria-prima, fonte Professora de Gestão em Design na Universidade de Lancaster, onde ela é o Diretora do Instituto de Lancaster das Artes Contemporâneas e também Imagination Lancaster (um centro da pesquisa em produtos, lugares e sistemas do futuro). de riqueza e exploração para o lucro, passa a ser pensada em termos de recursos finitos que exigem uma estratégia de exploração sustentável." (SENA, 1995, p. 90) A designer Rachel Cooper nos traz que "Nos anos 60, os designers começaram a considerar ativamente as implicações mais abrangentes do design para sociedade." (SANTOS, 2005, p. 80). E daí decorreram algumas correntes: a) design verde, b) design responsável (década de 1970), c) ecodesign e design ético(década de 1990) e o d) design feminista (anos 2000). 50 Para Whitele y (1998, p. 67), "O designer radical do final da década de 1960 deu lugar ao designer responsável da década de 1970, principalmente a partir da publicação do livro Design for the real world de Victor Papanek, o qual lançou a proposta dos designers assumirem um papel social WHITELEY, Nigel. Professor of Visual Arts. Department: Lancaster Institute for the Contemporary Arts. construtivo e intervencionista em oposição às forças consumistas." Nos anos 70, os designers são motivados em favor de uma abordagem mais solidária, encorajados a abandonar a política do "design pelo lucro" e voltar suas atenções para o viés social do design. Surge então "uma nova geração de designers cada vez mais voltada para questões ambientais ou verdes". Ainda mais fortalecidos pela reedição do livro de Papanek. (WHITELEY, 1998, p. 67) Nos anos 80 e 90, "A compra de produtos e serviços socialmente responsáveis e éticos foi facilitada pela disseminação de pesquisas no campo da sustentabilidade e de publicações orientadas à educação do consumidor." (SANTOS, 2005, p. 80) A década de 1990 desloca o foco para o designer ético. "(...) encara todo o design como um fenômeno ligado visceral e intimamente ao consumo e, portanto, ao sistema social e político do Ocidente moderno. (WHITELEY, 1998, p. 67) Nos anos 2000, a "acessibilidade e inclusão", as questões de ergonomia e conforto de todos os tipos de usuário têm atraído muitos designers. E mais "(...) recentemente, os designers têm voltado sua atenção para questões relacionadas ao crime." (SANTOS, 2005, p. 80) O designer seria um agente para a diminuição da violência 51 urbana. Não apenas buscando minimizar os seus efeitos, com equipamentos para a segurança pessoal e patrimonial, mas atuando nas suas causas: nas inter-relações sociais. O nosso cenário atual evoca questões prementes e urgentes: A fome, através da qual a sociedade sucumbe, as condições sub2 humanas de metade da população mundial , vivendo abaixo da linha da pobreza; a falta de educação, saúde e empregos para todos. Quanto maior a tecnologia empregada para produção de alimentos, menor é a distribuição e ainda temos que lidar com qualidade, sempre questionável, destes alimentos. Alguns defendem que refrear o consumismo que se abateu sobre a sociedade pós-industrial é a solução, outros defendem que seria o colapso total. "O complexo de problemas que desafiam os homens de todas as nações: a pobreza em meio à riqueza; a degradação do meio ambiente; a perda de confiança nas instituições; o crescimento urbano descontrolado; a insegurança no emprego; a alienação da juventude; a rejeição de valores tradicionais; e a inflação e outras rupturas econômicas e monetárias." (MARGOLIN apud MEADOWS, 1998, p. 40) Todos concordam que o estado atual de coisas não pode KENDALL, Henry Way. (1926-1999). Físico do MIT, prêmio Nobel de Física em 1990, foi o primeiro a afirmar que os seres humanos e o mundo natural estão numa rota de colisão (ISEEInternational Society for Ecological Economics, 1994). 2 permanecer em curso, pois a humanidade está em rota de colisão com o meio ambiente e a sustentabilidade da vida no planeta. Quanto tempo mais será possível continuar nesta velocidade de consumo, qual o verdadeiro grau de aceleração desta colisão provocada por nossas ações, são questões controversas. “Ao se falar de rota de colisão entre homem e natureza, não se está Aproximadamente a metade da população do mundo vive baixo da linha da pobreza, segundo um informe da Organização Internacional do Trabalho (OIT). 52 pregando catastrofismo. Muito ao contrário, realçar a noção de uma economia da sustentabilidade diz respeito ao fato de que as funções ecossistêmicas são parâmetros que não se podem modificar impunemente, necessitando de estabilidade diante de perturbações suscitadas pelas ações do homem." (CAVALCANTI, 1998, p.17) Mapear este cenário com precisão é a chave para discutirmos planos efetivos e realizáveis a curto, médio e longo prazos. Se não é possível vislumbrar o caminho, será impossível criarmos as rotas, mesmo que, seja uma rota de fuga emergencial. Segundo Cooper em entrevista concedida a Santos (2005, p.81 ), "alguns" (que Margolin identifica como empresários e grande parte da opinião pública dos países industrializados) acreditam que a simples adoção da Responsabilidade Social pelas empresas é a solução para combater a corrente que defende uma diminuição no consumo, e na produção de bens que acarretaria uma conseqüente desacelaração nos processos econômicos. (MARGOLIN, 1998, p.41) Para Cooper, "(...) a eficácia desta ação está mais direcionada para mudanças de ordem política, social, ética e ambiental." Ou seja, não basta que as empresas se digam Socialmente Responsáveis, se elas não promoverem mudanças reais de atitude empresarial e estimularem essas mudanças no seu entorno, tanto nos meios políticos como os sociais. Divulgar que é uma empresa ética e permitir atitudes antiéticas de seus colaboradores é entrar em contradição. A fase mais difícil para estas empresas é a inicial, a adaptação dos seus funcionários e fornecedores a uma nova atitude, que não é só cobrada nos negócios, mas como uma postura para a vida de cada um deles. (SANTOS, 2005, p. 80) 53 No artigo O design e a situação mundial, publicado em 1997, posterior ao Global equilibrium or global expansion: design and world situation, de 1996, Victor Margolin identifica e nomeia dois modelos de entendimento da situação mundial: o modelo de equilíbrio para o mundo e o modelo de expansão mundial. O primeiro modelo, baseado nos estudos desenvolvidos pelo Clube de Roma, desde 1972 "(...) parte da premissa de que o mundo é um ecossistema de equilíbrio delicado, baseado em recursos finitos". E portanto, cada elemento do sistema tem importância vital na manutenção do seu equilíbrio. Dentro deste sistema se algum elemento sofrer danos que provoquem o desequilíbrio deste elemento, ou mesmo o esgotamento de alguns dos recursos básicos do sistema, este sofrerá um abalo tão significativo que poderá acarretar o colapso do sistema inteiro. (MARGOLIN, 1998, p.41) O segundo modelo, defendido pelo meio empresarial internacional, apoiado por muitos governos e muitos consumidores, trabalha sobre a lógica dos mercados. Todo o sistema é compreendido como negócios e movimentações de mercadorias e bens. São excluídas deste sistema as noções de nação, sociedade e cultura. Os produtos e a quantidade de riqueza que podem gerar são sua mola propulsora. Não obstante a alocação da riqueza gerada, que poderia ser acumulada ou redistribuída, este sistema parte da premissa de que os bens e a tecnologia por eles gerados são capazes de satisfazer todas as necessidades do homem. Como se a qualidade de vida humana dependesse apenas do conforto físico e psicológico proporcionado pelos bens acumulados. 54 Nesta equação o meio ambiente foi exonerado. (MARGOLIN, 1998, p.41) "O materialismo tem se tornado parte tão integrante das noções de felicidade que o desenvolvimento de produtos encontra-se emaranhado de forma quase inextricável à busca do melhoramento da vida humana" (MARGOLIN, 1998, p.43) As leituras feitas dos textos e livros de Nigel Whiteley (1998) e Victor Margolin (1998) apontam que na maioria dos projetos de produtos é raro o questionamento sobre sua real necessidade, ou mesmo sobre os seus possíveis impactos ambientais, sociais, morais ou pessoais. A busca pelo aperfeiçoamento de produtos baseada nestas premissas, segundo Margolin, inexiste. O público é incitado a adquirir um novo produto ou trocar a versão corrente, não por uma diferenciação tecnológica ou adequação às necessidades identificadas em pesquisas com o usuário, mas apenas pelo apelo estético, muitas vezes denominado design ou pelo chamado efeito demonstração, isto é, procura-se demonstrar aos demais que se adquire status com a posse de um produto com um design diferenciado. Haja vista a inúmera quantidade de modelos e marcas de celulares espalhados pelo mercado brasileiro. A diversidade não significa que o objetivo core do produto, que é permitir ligações telefônicas dentro das áreas de cobertura dos serviços das operadoras a qualquer um que tenha um aparelho e tenha adquirido este serviço, foi ampliado ou modificado. O que não justifica que os valores destes aparelhos variem de R$ 99,00 a 2.999,00! Alguns modelos realmente incorporam novas tecnologias ou novas 55 habilidades, mas que não refletem diretamente sobre a função primordial desses aparelhos. As empresas de hoje sofrem com as exigências do consumidor, atendê-las simplesmente, não significa mais conquistar este consumidor. Empresas de mesmo porte, com produtos e tecnologias similares, atuam no mercado com preços competitivos. Buscar um diferencial, procurar se destacar num mar de ofertas, fazer a imagem da empresa "saltar" perante as outras, vai depender muito dos seus valores e atitudes. Prevalecerão aquelas que demonstrarem respeito ao meio ambiente e à sociedade, assim como as que atuarem no mercado de forma transparente, com ética e dentro de uma cadeia de sustentabilidade. A palavra de ordem do mercado de tecnologias é a "convergência", através da qual um único aparelho agrega múltiplas funções e consegue reunir conectividade, som, imagem em múltiplas tarefas, isto é, realizar ligações com transmissão de dados, voz e imagem, tudo ao mesmo tempo. A convergência também está presente nos eletrodomésticos, como as geladeiras, que possuem tela plana, com conectividade e permitem a navegação pela web. Uma das questões que envolvem a convergência e o lançamento de novos produtos e modelos é o aumento ou melhoria da qualidade destes produtos. No entanto, não temos parâmetros para determinar quais são as características de um determinado produto com uma qualidade suficiente e "percebida" pelos usuários. 56 Para Krippendorff (KRIPPENDORFF, 2000, p. 89), "Não reagimos às qualidades físicas das coisas, mas ao que elas representam para nós." Por isto que o designer passou a projetar marcas, identidades, a criar conceitos e organizar informações. A atividade passou de projetos materiais para projetos imateriais. E esta percepção levou à conclusão de que os projetos eram muito mais práticas sociais do que meros objetos de uso. O foco dos projetos mudou dos objetos para o homem, o usuário, o cliente, as pessoas e suas relações. E daí, para as pessoas e suas atitudes perante a vida e ao planeta. "Freqüentemente, a qualidade do produto está além daquilo que o usuário3 pode aproveitar mas, mesmo assim, a compra é efetuada porque o produto representa o que há de melhor e isto vem a constituir-se em uma declaração simbólica." (MARGOLIN, 1998, p.43) Este tipo de visão vai de encontro às questões relacionadas com a Responsabilidade Social Corporativa, pela qual não apenas os aspectos econômicos devem prevalecer, mas principalmente os critérios não econômicos devem influenciar as escolhas dos consumidores. (SANTOS, 2005, p. 80) Lançar no mercado produtos tidos de luxo, com preços exorbitantes e funções que nunca serão exploradas pelos usuários, apenas para se criar uma nova necessidade, um novo parâmetro para o status social de quem adquire estes produtos, bem como criar novos mercados para produtos que nem existiam, é uma das estratégias utilizadas pelas indústrias. Projetar e determinar o tempo máximo de vida da "novidade" para em seguida surgir com o mais novo modelo, que em breve sucumbirá e assim sucessivamente. Este é o modelo 57 adotado pela maioria das empresas e o sistema da moda usa a pesquisa de tendências como ferramenta para auxiliar nesta estratégia. (MARGOLIN, 1998, p. 41) "A moderna sociedade industrial se caracteriza, por sua vez, por fluxos de sentido único, em que matéria e energia de baixa entropia se convertem continuamente em matéria e energia de alta entropia, não integrados nos ciclos materiais da natureza. Não se pode ter sustentabilidade dessa forma. Um modelo sustentável tem que se basear em fluxos que sejam fechados dentro da sociedade ou ajustados aos ciclos naturais (Eriksson, 1992). Este é um desafio ponderável para a compreensão científica das relações entre o homem e seu referencial ecológico, entre sociedade e natureza." (CAVALCANTI, 1994, p.19) Os processos industriais são resumidos em uma entrada de matéria que com o acréscimo de energia é transformada em produto e deste processo as sobras são deixadas para a natureza. Após esta etapa, o produto é lançado no mercado para ser consumido pela sociedade, parte dele (invólucros, embalagens), mais uma vez são deixados para a natureza se encarregar de absorvê-los, e após o primeiro ciclo de consumo do produto, novos dejetos serão lançados de novo na natureza. Desta forma, quanto mais evoluídos os processos e maior e mais rápida a circulação de mercadoria e o consumo, maior será o acúmulo destes dejetos, o que torna impossível a absorção e transformação destes pela natureza em tempo de restabelecer o seu equilíbrio natural. Este é considerado um modelo insustentável de produção, segundo Cavalcanti (1998, p. 19), um modelo de rota de colisão entre a economia e a natureza. "The terms ecodesign and sustainable design now characterize products that embody a design strategy that is consistent with the 58 values of minimizing waste, using less energy, and reducing the amount of material we relegate to landfills." (MARGOLIN, 2002, p. 49) 3 As inúmeras campanhas promovidas em diversos países a cerca dos problemas das fontes de energia, a utilização de fontes renováveis e limpas a busca de novas fontes, demonstram a importância deste aspecto nos projetos. Para Margolin (2002, p. 49) "(…) however, there is a new consciousness regarding product recycling and reuse." (MARGOLIN, 2002, p. 49)4 "As incumbências do design podem ser divididas em bases de simples critérios, o mais importante deles é a relação entre os vários aspectos do meio ambiente e os indivíduos que interagem com ele (...)." (MOLES, 1989, p. 77) A Terra pede planejamento, organização, disciplina, perseverança e responsabilidade, por parte de todos os seres vivos que coabitam os seus sistemas em toda a biota.5 3 “Os termos ecodesign e desenho sustentável agora caracterizam produtos que personificam uma estratégia de desenho que é compatível com os valores de minimizar resíduos, usando menos energia, e reduzindo o montante do material que relegamos a aterros." (MARGOLIN, 2002, p. 49) (livre tradução do autor) 4 "(…) de qualquer forma, existe uma nova consciência no que diz respeito à reciclagem e reutilização dos produtos." (livre tradução do autor). 6 “Biota - Refere-se à parte que tem vida de um ecossistema. A biota é também chamada de flora e fauna." (DASHEFSKY, 2001, p. 48) 59 3.1.2 Inclusão Social A Inclusão Social não se refere apenas aos PPD - Pessoa Portadora de Deficiência, ou portadores de necessidades especiais. Incluir socialmente significa também capacitar, dar condições para que a inclusão se faça de forma plena. Neste trabalho iremos tratar de uma inclusão social específica, aquela promovida pelo trabalho em conjunto de designers que disparam novos processos criativos e produtivos em comunidades artesãs. Nas palavras de Campos (2006, p.12), "Incluir socialmente os mais pobres significa dar-lhes dignidade, propiciar recursos para uma alimentação adequada e para suas necessidades básicas, zelar pela proteção de seus direitos, assegurar uma política de assistência social, de segurança alimentar e nutricional, por meio de uma rede de proteção e promoção social, na perspectiva de consolidação do exercício pleno de democracia." Inclusão Social é também trazer para o convívio social uma pessoa alijada por qualquer motivo, seja econômico, cultural, político, religioso, ambiental, racial, sexual. O fator gerador do processo de exclusão pode ser permanente, imutável ou não, nestes casos o que estabelece a exclusão é a falta de acolhimento social do indivíduo. E este acolhimento, esta convivência, pode ser ensinada, pode-se aprender a tolerar e respeitar os direitos de cada um, necessários para a operação dessa inclusão. Mudar este estado de coisas é o primeiro passo para uma sociedade mais justa. 60 Quando partimos do princípio que o trabalho é a forma digna através da qual o ser humano pode alcançar condição de vida favorável, sem miséria, sem fome, sem exclusão de nenhuma espécie, percebemos que fazer estas populações, comunidades, grupos ingressarem num sistema produtivo, ou permanecerem em um sistema produtivo, mesmo que artesanal, é uma das formas de viabilizar um futuro melhor para a sociedade. Com o avanço das tecnologias, a força de trabalho humana se deslocou da importância de força física, exigida nos trabalhos escravizantes para força intectual, prevalescendo o expertise do indivíduo. Portanto o paradigma de inclusão também faz parte do modelo econômico vigente. A distribuição de renda é um dos fatores mais preocupantes da sociedade contemporânea. A qualificação alcançada por cada trabalhador está diretamente ligada a esta questão. As desigualdades sociais tendem a aumentar com a concentração do conhecimento, e principalmente quando para operacionalização das forças produtivas é necessário um conhecimento tecnológico. Transpor a barreira cada vez maior que se estabelece é um desafio para todos os povos, todas as populações. Tendemos a concordar com o deputado Ariosto de Holanda ao afirmar que: Temos de criar, com urgência, mecanismos ágeis e flexíveis de transferência de conhecimentos para a população, a partir de atalhos que avancem sobre os mecanismos tradicionais da educação e que tenham ação de massa, porque os excluídos são muitos. (Holanda, 2006, p. 63) 61 A geração de emprego, não é mais o ponto crucial, mas a geração de condições de trabalho para geração e distribuição de uma renda mínima necessária a manutenção de uma qualidade de vida boa, favorável ao desenvolvimento intelectual, espiritual e econômico da ciedade. A transformação da lógica do desenvolvimento corrente se faz necessária. "A inclusão social é certamente o caminho para mudarmos a imagem do nosso país, que é palco das maiores injustiças sociais." (MAFRA, 2008) A promoção da inclusão é a passagem para uma realidade possível na sociedade contemporânea deste início de terceiro milênio. "A cada um de nós compete à responsabilidade social de mudarmos este quadro em nosso país, buscando soluções para situações diversas." (MAFRA, 2008) A Inclusão Social implica favorecer o desenvolvimento das possibilidades de interação e vivência social das pessoas. Em se tratando do designer, significa auxiliar na busca de autonomia de comunidades, trabalhando em prol da capacitação destas, reconhecendo as diferenças e ajudando a aflorar todo seu potencial criativo. Um dos seus principais objetivos é buscar condições de crescimento sustentado. Neste sentido, o designer contribui para que uma nova sociedade seja construída, dentro de uma atuação ética, introduzindo pequenas mudanças que podem conquistar grandes transformações. 62 3.1.3 Responsabilidade Social e Responsabilidade Social Corporativa (RSC) A Responsabilidade Social está inclusa no processo de administração das empresas. E para a efetivação deste conceito, se faz necessária uma corporação, um conglomerado de indivíduos, uma organização econômica, civil ou comercial. No Brasil, a Responsabilidade Social Corporativa também é conhecida como Responsabilidade Social Empresarial (RSE). As estratégias utilizadas pelas indústrias para o lançamento de novos produtos, e criação de novas necessidades e mercados, começam a ser combatidas aos poucos pelo "consumidor verde", preocupado não apenas com a sua relação direta de uso de um determinado produto, mas com a cadeia produtiva à qual este produto pertence, e no rastro social deixado, além do que será gerado após este seu primeiro uso. Ele, o consumidor verde, é o ator principal da contemporaneidade. A segunda parte desta proposição requer um enorme esforço de todos. Estamos na fase embrionária desta nova forma de consumo e muitas adaptações e mudanças de hábitos serão necessárias principalmente nos grandes centros urbanos consumistas. Como decorrência destes movimentos ecológicos e de defesa do consumidor, as empresas passaram a se preocupar mais com suas obrigações sociais. (MONTANA & CHARNOV, 1998, p. 32) Existem alguns tipos de abordagem que são chaves para o entendimento da RSC, e foram gerados a partir das diferenças 63 de entendimento entre os teóricos do que seria a obrigação social, a Responsabilidade Social e a sensibilidade social. A primeira delas, a obrigação social, traz uma "abordagem que supõe ser o objetivo principal de uma empresa o sucesso econômico, e não a satisfação de responsabilidades sociais, e que portanto a empresa deveria meramente satisfazer as responsabilidades sociais mínimas impostas pela legislação." (MONTANA & CHARNOV, 1998, p. 32) A segunda, a da Responsabilidade Social, "(...) supõe não serem as metas da empresa meramente econômicas mas também sociais e que a empresa deveria destinar recursos econômicos para a realização dessas metas."(op.cit.) A terceira é denominada de sensibilidade social por MONTANA & CHARNOV (1998, p. 32), e pressupõe que a empresa não tem apenas metas econômicas e sociais, mas também precisa antecipar-se aos problemas sociais do futuro e agir agora para responder a esses problemas. Rachel Cooper em entrevista a Santos (2005, p. 80), chama a atenção para quatro aspectos, que seriam responsabilidades a serem assumidas pelas corporações para atingirem o que ela denomina de "uma boa cidadania corporativa": 1) econômico; 2)legal; 3)ético; 4)filantrópico. A cidadania corporativa, no aspecto econômico, busca o equilíbrio entre o custo do produto e o preço final ao consumidor, permitindo que um número maior de pessoas tenha acesso aos produtos, e trabalha na contramão dos artigos de luxo. Existe uma abertura para que o público interno tenha opção de acesso aos produtos da empresa, que sejam também seus consumidores. 64 No aspecto legal, Cooper levanta que a sua ação promove apenas uma base de aspecto moral na condução dos negócios, utilizada muito mais para coibir ações abusivas. No aspecto ético, procura-se minimizar tanto danos e prejuízos sociais internos à corporação, quanto externos. O maior capital de uma empresa é o seu capital humano, o conhecimento acumulado e a dedicação dos seus funcionários. O grande desafio para os gestores é manter este público interno sempre motivado, o que perpassa pela qualidade de vida deste público tanto dentro, quanto no período que ele passa fora da corporação. Neste aspecto estão os apoios psicológicos, a assistência à saúde, a preocupação com a alimentação e a moradia. Os departamentos de recursos humanos atuam não apenas como selecionadores e provedores da mão de obra e dos aspectos legais, mas como gerenciadores de carreiras duradouras. No aspecto filantrópico, vários estudos demonstram que empresas que assumem um posicionamento filantrópico, reunindo toda a corporação em ações que dão retorno direto à sociedade como campanhas de alimento, brinquedos e agasalho, criam um elo indissolúvel com seus associados. Algumas chegam até a atingir clientes e fornecedores, gerando uma enorme cadeia para a promoção do "bem comum" na sociedade como um todo. Uma empresa que atua no mercado, levando em conta essas quatro responsabilidades terá uma visualização ímpar. A tão buscada fidelização de clientes torna-se decorrência das suas ações e não mais apenas do marketing e da publicidade. 65 "Uma das grandes preocupações das Empresas modernas é estabelecer e manter relações equilibradas e justas com a comunidade em que estão inseridas. A cidadania empresarial é a atitude de participação desinteressada, consciente e voluntária adotada pela Empresa, que se traduz em políticas de ação corporativa, nas quais as potencialidades do seu negócio são orientadas para a realização de projetos sociais destinados a beneficiar a comunidade. Apoiar as iniciativas individuais e coletivas de seus empregados, quando da proposição de ações sociais que resultem em benefícios para a comunidade, também é fator importante no papel social da instituição." (JOCHIMS, 2006) Na visão do economista e prêmio Nobel Milton Friedman a responsabilidade social das empresas refere-se apenas aos seus acionistas, pois todo o emprego e impostos gerados e pagos pela atuação da empresa, são a sua contribuição, mais do que justa, para a comunidade em geral. E muitos empresários e industriais seguem esta linha de pensamento. "The view has been gaining widespread acceptance that corporate officials and labor leaders have a "social responsability" that goes beyond the interest of their stockholders or their members. This view shows a fundamental misconception of the character and nature of the free economy. In such an economy, there is one and only one social responsibility of business- to use its resources and engage in activities designed to increase its profits so long as it stays within the rules of the game, wich is to say, engages in open and free competition, without deception and fraud…Few 6 A visão que tem ganho maior aceitação é a de que as corporações e os funcionários lìderes têm uma "responsabilidade social" que vai além dos interesses de seus acionistas e do corpo diretor. Esta visão mostra um erro fundamental em sua concepção tanto no caráter quanto na natureza da economia de livre mercado. Neste tipo de economia existe uma e apenas uma única responsabilidade dos negócios- usar os recursos das empresas e se engajar em atividades designadas para aumentar seus ganhos por tanto tempo quanto estas forem as regras do jogo 8 8 66 trends could so thoroughly undermine the very foundation o our free society as the acceptance by corporate officials of a social responsibility other than to make as much money for their stockholders as possible." (DESSLER apud FRIEDMAN, 1998, p. 91) 6 Na visão contrária a Friedman, temos que "A Responsabilidade social corporativa, refere-se ao direcionamento para onde as empresas deveriam voltar os seus canais de recursos. Aplicá-los, mais para o melhoramento de um ou mais segmentos da sociedade ao invés de disponibilizá-los para os próprios donos e acionistas da empresa." (DESSLER, 1998, p. 89) Os stockholder seriam os acionistas propriamente ditos, aqueles que detêm parte do capital da empresa. Se a empresa influi diretamente na qualidade do meio-ambiente no qual ela se instala, por exemplo, onde descarta os dejetos de sua produção ou desmata áreas para ampliação de suas SANTOS, Ma Cecília instalações, então ela é responsável pelo seu entorno, pela Loschiavo dos Filósofa, mestre e doutora em Filosofia pela USP onde leciona Design. É coordenadora dos programas de pósgraduação em Design da Universidade de São Paulo e das Oficinas de Design Social da USP. Desde 1994 vem pesquisando 'O descarte dos produtos industriais, Design e Moradores de Rua em cidades globais'. 6 manutenção de uma boa qualidade do meio ambiente, assim como da boa qualidade de vida de seus vizinhos. "(...) a idéia de que as corporações, enquanto organizações, tem "responsabilidade social" e obrigações mais diretamente relacionadas à sociedade em geral tem se tornado popular a partir dos anos 50 e continuado nos anos 60 e 70(...) e prevaleceu e cresceu nos anos 90." (SANTOS, 2005, p. 81) econômico, isto significa dizer que, enquanto houver competição aberta e livr e, sem fraudes...Poucas tendências poderiam tão fortemente minar as fundações desta sociedade livre como o acolhimento por parte das empresas de uma outra responsabilidade social além de ganhar mais dinheiro para seus acionistas quanto for possível. (DESSLER apud FRIEDMAN, 1998, p. 91) (livre tradução do autor) 67 Existe um link entre a responsabilidade social e a ética, que muitas vezes não está claro, pois as questões morais e comportamentais perpassam pelo antepassado cultural de cada um, suas experiências pessoais, seus princípios religiosos e crenças. No caso das empresas e corporações, a responsabilidade social é extensiva à comunidade na qual ela está instalada geograficamente. A criação de empregos, e de eventos sociais e educacionais, são entendidos por muitos dos filósofos sociais como parte da responsabilidade da empresa. Segundo Gary Dessler (1998, p. 89), "Socially responsible behavior thus might include ceating jobs for minorities, controling pollution, or supporting educational facilities or cultural events."7 O designer como ator deste cenário, que carrega em seu fazer profissional a responsabilidade de ser a ponte entre os industriais e o consumidor, traduzindo os desejos e as necessidades dos consumidores em objetos que serão viabilizados e produzidos para o desenvolvimento das empresas, precisa trabalhar com a visão da responsabilidade social e ajudar às empresas a incorporá-la nas suas missões e visões de negócio. "Responsabilidade social pode ser a expressão a ser atualizada como pano de fundo para uma nova construção teórica. Segundo esse padrão de análise, conjugado à noção de gestão de design, essa atividade deve considerar os múltiplos aspectos envolvidos no 7 "Comportamento socialmente responsável, deveria incluir a criação de empregos para as minorias, o controle da poluição ou o suporte ao acesso à educação ou aos eventos culturais." (DESSLER, 1998, p. 89) (livre tradução do autor) 68 campo da produção, ou seja, deve se desenvolver simultaneamente sob a ótica do respeito ao consumidor, e ao trabalhador, ao fornecedor e ao distribuidor, ao investidor e à comunidade, ao meio ambiente e à necessidade produtiva" (LEITE, 2001, p. 69) Como vemos, o DS está implícito na RSE, a partir do momento em que o designer participa dos processos de planejamento e organização das corporações, ele se torna voz ativa no direcionamento das operações das empresas. Atua como elo entre as operações intra-muros e extra-muros, define matérias, formas, atuações, que serão fundamentais nas relações interpessoais e projetará o futuro destas relações. 69 3.2 Uma Abordagem Sistêmica "No século XX, a ciência trouxe a perspectiva holística da natureza, do universo como um todo, conhecida como pensamento sistêmico, que emergiu simultâneamente em várias áreas como a biologia, a física e a psicologia. E, posteriormente, surgindo a nova ciência: a Ecologia." (COSTA E SOARES, 2004, p.21) A abordagem exigida pelos projetos, na contemporaneidade, leva os designers, os projetistas a "(...) questionar os sistemas, discutir os seus valores e os seus princípios." (WHITELEY, 1998, p. 69) Para Tomás Maldonado, os designers devem buscar uma autonomia e usá-la quando possível, para fins sociais e ambientais. Confrontar as forças políticas e econômicas e as conseqüentes polarizações que surgem entre riqueza/ pobreza, fundamentalismo religioso/ humanismo, sustentabilidade ambiental/ destruição ecológica e a utopia/ resistência tecnológica. A partir do momento em que o designer sai da posição de profissional que atende ao mercado e age como um profissional que pensa o sistema, torna-se um ser autônomo, e ganha a possibilidade de atuar como beneficiário da sociedade e do ambiente. (MARGOLIN, 2007) Posicionar-se desta forma requer conhecimento e reflexão profunda dos seus valores, metas e preocupações. Saber o que incomoda o nosso olhar é saber onde devemos atuar para criarmos um ambiente favorável às mudanças, e buscar força em parcerias e instituições que tenham os mesmos objetivos.(Idem) 70 "Levar a cabo o empreendimento de integração de princípios ecológicos e limites físicos no formalismo dos modelos da economia compreende não poucas dificuldades suscitadas pela necessidade de abordagens multidisciplinares, transdisciplinares, holísticas e sistêmicas." (CAVALCANTI, 1994, p.21) Para o designer Carlo Vezzoli (2006) em entrevista concedida, disponível no site da Pós-graduação Latu sensu em Design de Produto da UNEB, a solução para os projetos de design contemporâneos é a adoção de "(...) uma perspectiva mais sistêmica para se aproximar da perspectiva ecológica." Utilizar uma abordagem partindo do ciclo de vida dos produtos, através do qual o desenho de sistemas "(...) composto por todos os processos que caracterizam o produto em seu funcionamento, ou o sistema de todos os efeitos danosos que todas as entradas e saídas deste sistema estão causando." Ou seja, uma abordagem sistêmica requer uma visão ampla do processo de desenvolvimento de produtos e serviços. Um projeto sistêmico, engloba o estudo dos sistemas anteriores à produção, os que fazem parte da produção propriamente dita e os posteriores a ela. São observados os processos desde a extração de recursos que servirão de matéria, todos os recursos consumidos durante os processos de transformação, distribuição, embalagem e empacotamento, disposição, aquisição, consumo, uso e o 1º descarte. Isto é, analisa todas as fases com potencial dano ao meio-ambiente e à sociedade em seu processo. "O desenho do projeto tem que se mover do desenho de produto para o desenho do projeto das fases do ciclo de vida desse produto 71 com o objetivo de minimizar o impacto ambiental geral". (Entrevista com VEZZOLI, 2006) Através da análise da quantidade de energia necessária à produção, o designer pode minimizar a utilização da energia e dos materiais utilizados durante os ciclos de vida do produto. Ele pode projetar inclusive os ciclos posteriores ao primeiro ciclo de utilização, o que acontece depois do seu primeiro descarte, as possibilidades de reutilização e reciclagem até a recuperação da energia gasta nos processos. Abarcar essa gama de informações envolvidas, demanda um alto conhecimento e denota a grande complexidade de um projeto desta natureza. Na contemporaneidade a complexidade e o imbricamento dos sistemas faz parte do diaa-dia. E, por isto mesmo, o trabalho com grupos, equipes de profissionais, atuando em conjunto dentro do desenvolvimento de um mesmo projeto é essencial. A troca e o fluxo acelerado de informações com as quais um projeto complexo lida, impossibilita uma ação individual. "A concepção de um design é bastante complexo, pois envolve uma relação de historicidade inserida no contexto da atualidade, aproximando-se dos problemas sócio-econômicos, e conseqüentemente, de sua dimensão política e tecnicista." (SENA, 1995, p. 91) Vezzoli (2006) levanta a questão do papel do designer neste momento histórico, e da consolidação do entendimento deste papel. Onde alguns preceitos, ou algumas considerações, devem ser premissas num projeto desta natureza. A ética e a moral são parte do 72 "(...) conceito compartilhado mundialmente para um desenvolvimento produtivo e social. O que é levado em consideração é que o desenvolvimento social e produtivo deve ter lugar dentro dos limites ajustados pelo ambiente, enfocando as necessidades da geração presente sem comprometer a durabilidade da geração futura em alcançar as suas necessidades de uma forma eqüitativa." 73 O cenário atual aponta para uma mudança radical nos padrões de consumo atuais. O que significa mudanças culturais e sociais profundas. Para Vezzoli (2006), "(...) a sustentabilidade requererá uma mudança profunda na cultura industrial." Os padrões de qualidade e quantidade de produtos consumidos passarão por uma revisão que modificará estes conceitos. Já se percebe nitidamente este redirecionamento no consumo mundial. O redesenho de projetos, mas não apenas ele, será o propulsor e difusor desta nova forma de consumo. "O que é preciso é que a nova geração de produtos e serviços confie em valores e padrões de qualidade mais coerentes com o padrão de uma sociedade sustentável." (VEZZOLI, 2006) Uma nova geração de produtos sustentáveis está nascendo. O público está participando deste nascimento, apontando direções, cobrando, exigindo dos produtores, mas este processo ainda não está massificado. "Cada trabalho revela um espectro de críticas e ideologias, resultando em uma preocupação com programas de transformação social, que envolve, desde o ambiente material mercadológicas". (SENA, 1995, p. 91) até as concepções Muitas adaptações estão sendo implementadas em processos existentes. Em alguns casos, adaptações a serviço apenas da publicidade e do marketing, do apoderamento do discurso do ecologicamente correto por empresas, marcas e produtos, mascarando as reais condições de produção. Muitas vezes, ocorre o implemento de mudanças em fases dos projetos que realmente são significativas, mas que no sistema acabam por acarretar o efeito inverso. Observar a produção de maneira segmentada, sem olhar o espectro mais amplo do sistema, pode ocasionar erros de avaliação nos processos. "O hiato entre o custo de produção e o custo social de determinado produto revela-se facilmente quando um design não contribui para a melhoria da qualidade de vida de um povo, esse hiato se forma em função de uma metodologia que não inclui o custo-benefício do produto para a sociedade, tomada como consumidora. Portanto há uma lógica interna na concepção de um Design Social, a própria lógica do usuário e não a lógica da produção." (SENA, 1995, p. 92). Por isso, destacamos a importância do desenho desses projetos abarcar os diversos sistemas que os compõem. Entender que um produto não inicia na prateleira do supermercado, ou no plantio de uma árvore para retirada da celulose, mas nas famílias de espécies da fauna e flora que foram deslocadas para o preparo do terreno para o plantio dos pinheirais, que servirão de matéria-prima para a produção da celulose que compõe as pilhas de resmas que encontramos à venda nos supermercados, e em todo o possível desequilíbrio e dano causado com esta ação. "O que é preciso é que a nova geração de produtos e serviços confie em valores e padrões de qualidade mais coerentes com o padrão de uma sociedade sustentável." (VEZZOLI, 2006) 74 O problema central é desenhar um sistema que realmente recicle os materiais, pois a grande maioria das matérias utilizadas é reciclável. É importante desenvolver-se uma arquitetura do produto que torne mais fácil esta reciclagem com um custo efetivamente menor em todo o ciclo de reciclagem, começando desde a separação do material e o seu transporte. "Tudo isso nos diz que uma nova geração de designers conscientes da sustentabilidade é necessária no Brasil e na Itália, o que significa que quem é responsável pela pesquisa e educação tem um importante papel a fazer." (VEZZOLI, 2006) Na contemporaneidade, para se estar alinhado com as exigências da sustentabilidade é necessário um realinhamento da economia. Onde aparecem as oportunidades para o desenvolvimento de produtos e o mercado orientado à sustentabilidade. Neste ponto, a revolução digital, as novas tecnologias, vêm favorecer ao "(...) aumento das possibilidades em gerenciar sistemas mais e mais complexos de interação, permitindo fluxos mais eco-eficientes de recursos em um nível sistêmico e finalmente em virtude do aumento das atividades de outsourced, liderando um potencial maior de consumo de recursos eficientes, principalmente em virtude de uma economia de escala e especialização." (VEZZOLI, 2006) O gerenciamento da quantidade de informação necessária só é possível graças aos sistemas digitais. Programas de armazenamento, análise, troca e difusão da informação e dos resultados dessas análises permitem aos gestores a organização do grande fluxo de informação. A combinação 75 dos resultados gerados em várias fontes, por vários aspectos das ciências, a montagem de uma matriz complexa, envolvendo os diversos sistemas, tem sua viabilidade através dos processos digitais. MANZINI, Ezio. Designer, engineer, architect, educator and author - is one of the most important thinkers in design today. The manuscripts available here and much of the work listed in our bibliography are accessible reading for students of design. Sustainable design theory can be daunting for newcomers, but previous knowledge in this field is not a prerequisite for understanding and implementing Manzini's ideas. "A conscientização acerca dos problemas ambientais tem como decorrência a reorientação de novos comportamentos sociais e a procura por produtos e serviços que minimizem o impacto gerado ao ambiente." ( Entrevista com MANZINI, 2007) As pesquisas em Design vêm "(...) contribuir para o desenvolvimento de uma cultura projetual capaz de enfrentar a transição para a sustentabilidade e de promover o aparecimento de uma nova geração de produtos e serviços sustentáveis." (MANZINI, 2007) O entendimento do design está sendo ampliado e transposto para um patamar mais estratégico. O design deixa o primeiro momento da sua profissionalização, de apenas conformador de produtos para um planejador, integrador de sistemas de produtos e serviços. Sistemas estes que estão sendo traçados dentro da perspectiva do design sustentável, do design social, para médio e longo prazos, mas de uma forma que sejam economicamente viáveis e socialmente aceitáveis. E desta forma inverter o quadro descrito por Papanek (1971), através das suas declarações: "There are professions more harmful than industrial design, but only a very few of them."8 e "(...) by creating whole new species of permanent garbage to clutter up the landscape, and by 8 “Existem profissões mais danosas do que o design industrial, mas realmente muito poucas.” (livre tradução da autora) (PAPANEK, 1971, p. Xxii) 76 choosing materials and processes that pollute the air we breath, designers have become a dangerous breed." 9 Nas conclusões de Gui Bonsiepe (1983, p. 2) BONSIEPE, Gui. (1934) "Serão necessários todos os instrumentos da inteligência projetual Estudou em Ulm na Hochschule für Gestaltung, onde também foi professor titular. Atuou no Chile, na argentina e em diversas universidades européias, Asiáticas, norte-americanas e latino-americanas. Fez parte de vários órgãos como ONU, OIT, UNESCO e no CNPq no Brasil. desenho industrial como atividade tecnológica deve contribuir para fazer frente a essa situação de extrema emergência. (...) o para superá-la com respostas concretas." Conforme levantado por Margolin (2002, p. 80), através da observação de Buchanan, se os designers atuarem neste contexto de problemas buscando uma saída, deverão mover-se do segundo domínio do design, o design de objetos, onde os produtos de design estiveram desde o século dezenove, para um quarto domínio, o de sistemas complexos, ou ambientes de vida, "(...) complex systems or environments for living, working, playing and learning".10 9 “(...)através da criação de diversos tipos de lixo que se entulham na paisagem, e escolhendo materiais e processos que poluem o ar que respiramos, o Design tem se tornado um perigoso ramo”. (livre tradução da autora) (PAPANEK, 1971, p. Xxii) 10 “(…)sistemas complexos ou ambientes para se viver, trabalhar, brincar e aprender.” 77 Nas palavras de Buchanan, eles deverão projetar: "(…) more and more concerned with exploring the role of design in sustaining, developing, and integrating human beings into broader ecological and cultural enviroments, shaping these enviroments when desirable and possible or adpting to them necessary." (MARGOLIN, 2002, p. 80)11 11 "(…) mais e mais conscientes, explorando o papel do design sustentável, desenvolvendo e integrando os seres humanos no vasto ambiente ecológico e cultural, modelando estes ambientes quando desejável e possível ou adaptando eles às necessidades." (MARGOLIN, 2002, p. 80) (livre tradução do autor) 78 4.0 A Mão na Moda - Relato de experiência A Casa, o museu do objeto brasileiro, através de sua diretora Renata Melão, com a coordenação da artista plástica Silvia Sasaoka, iniciou um Projeto em 2000, financiado pelo Ministério da Cultura com apoio do SEBRAE-PI (Piauí), e curadoria de Suzana Avellar, intitulado A MÃO NA MODA UMA HISTÓRIA BRASILEIRA. A exposição, fruto deste Projeto, foi realizada no Espaço Cultural Citibank em São Paulo, em 2001. Através de entrevistas com a curadoria e coordenação do projeto, além de dados obtidos na mídia sobre o designer convidado a nele atuar, a comunidade artesã e o Sebrae, pudemos reconstruir os acontecimentos fundamentais que norteram o projeto, incluindo-os neste relato. Os projetos organizados pelo museu, além de divulgar os trabalhos de arte e artesanato do país, também auxiliam as comunidades sem interferir em suas tradições, buscando sempre uma maneira de tornar estes trabalhos, artesanais num meio de vida sustentável. A idéia do A Mão na Moda surgiu através de um outro projeto de artesanato solidário, do Museu, desenvolvido na cidade de Serrita em Pernambuco, em maio de 2000 juntamente com a Academia de Design de Eindhoven, Holanda. O objetivo era trabalhar com a moda como uma área possível de geração de renda para comunidades artesanais. 79 A especialista em design, Adélia Borges, proferiu, em 21/2/2008, palestra no Museu do Estado de Pernambuco, em Recife, com o tema "A relação entre design e artesanato", encerrando o ciclo de debates realizado durante a exposição "Uma Vida", com peças de arte do acervo da coleção pessoal de Janete Costa e Borsoy. Nessa ocasião, mencionou o projeto de Serrita, e afirmou que, apesar de bem intencionado, foi mal sucedido, pois os estudantes-visitantes trouxeram o material pré-fabricado, ao invés de desenvolver todo o projeto no local, a partir das necessidades identificadas. Os estudantes vieram, beberam na fonte inspiradora da artesania do couro do sertão de Pernambuco e deixaram apenas a esperança de dias melhores para os artesãos. Não conseguiram de fato concretizar uma mudança na vida dos participantes daquela comunidade. De qualquer forma, esta foi a primeira experiência com projetos de interdisciplinaridade, trazendo designers para atuarem em comunidades artesãs, e isso capacitou o Museu a investir no projeto A Mão na Moda. 80 12 Através do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano)10, a curadora Suzana Avellar obteve dados que relatavam o alto índice de pobreza no norte e nordeste do Brasil, especificamente nos estados do Pará e do Piauí. A intenção foi trabalhar no interior, numa área que não fosse litorânea. Percebeu-se "(...) que mais do que um projeto sobre o artesanato, as comunidades que chegamos precisavam mesmo de projetos para questões como saúde, água, saneamento e educação." ( Entrevista com Suzana Avellar, 2008) Partindo desta informação buscaram identificar comunidades de artesãos que pudessem ser o foco do projeto. Segundo Avellar (2007), "A idéia era reinserir o artesanato no mercado." O projeto contou com um catálogo montado pelo Sebrae-PI, no qual constavam os grupos de artesãos e os trabalhos realizados por eles. Através deste contato foi selecionado um grupo de rendeiras. O grupo escolhido foi o das Rendeiras do Morro da Mariana. O nome surgiu como uma homenagem à Mariana, uma rendeira que ficou famosa na região. 81 O Morro da Mariana faz parte do município de Ilha Grande de Santa Isabel, no estado do Piauí, norte do Brasil, a 350Km da capital Teresina. As rendeiras daquela localidade trabalham a renda de bilro "artesanato originário da Itália, trazido pelos portugueses durante a época do Brasil- colônia" (AVELLAR, 2002). (Vide Apêndice 2) 82 A renda de bilro é feita com uma espécie de almofada, de formato cilíndrico contendo geralmente palha seca no enchimento e forrada de tecido de algodão. Na parte externa da almofada, são fixados os fios, nas pontas dos fios são atados os bilros - pequenas peças de madeira que facilitam o trançar. A rendeira fixa o desenho a ser tecido na almofada e os locais a serem contornados pelos fios (as índias utilizavam espinhos para este processo). Feito isso, a rendeira vai mudando de lugar os bilros, entrelaçando os fios até todo o desenho aparecer em forma de renda. Esse processo está praticamente extinto em diversas cidades nordestinas, que atualmente produzem apenas a renda de agulha. Por sugestão de Silvia Sassaoka, e pela sua competência e reconhecimento no círcuito da moda, o estilista Walter Rodrigues foi convidado a desenvolver o projeto junto à comunidade. 12 O IDH foi desenvolvido em 1990 pelo economista paquistanês Mahbub ul Haq, e vem sendo usado desde 1993 pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento em seu relatório anual. Criado para medir o nível de desenvolvimento humano dos países a partir de indicadores de educação (alfabetização e taxa de matrícula), longevidade (expectativa de vida ao nascer) e renda (PIB per capita). Seus valores variam de 0 (nenhum desenvolvimento humano) a 1 (desenvolvimento humano total). Países com IDH até 0,499 são considerados de desenvolvimento humano baixo; com índices entre 0,500 e 0,799 são considerados de desenvolvimento humano médio; e com índices maiores que 0,800 são considerados de desenvolvimento humano alto. (Fonte:http://www.sespa.pa. gov.br/Informa%C3%A7%C3%A3o/IDH/idh_oquee.htm). Acessado em 12/2007. AVELAR, Suzana. Bacharel em Desenho de Moda pela Faculdade Santa Marcelina (1995), mestra em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (2000) e doutora em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (2005). Professora titular da Faculdades Metropolitanas Unidas, da Fundação Armando Álvares Penteado e do Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Atuando principalmente nos seguintes temas: moda, Hibridização, globalização, Cibercultura, Indústria do luxo e Projetos sociais. Segundo Suzana Avellar, antes de Walter chegar à comunidade, a primeira pessoa a fazer contato com a Associação de Rendeiras do Morro da Mariana foi Juliana Campos, pesquisadora que atuava no Piauí, contratada pelo Museu, para propor o projeto à comunidade. A partir daí uma coincidência, ajudou no encontro. Maria do Socorro Reis Galeno representante do grupo, veio a São Paulo para visitar sua filha e, aproveitando a viagem, Suzana Avellar promoveu o encontro. Assim Maria conheceu primeiro o ateliê de Walter, quando levou suas amostras de renda de bilro para ele avaliar. Após este primeiro encontro, aconteceu a primeira viagem de Walter ao Piauí. Suzana e Walter passaram uma semana com as rendeiras na Associação realizando experimentos e estabelecendo uma forma de trabalho. Segundo Suzana, foi uma época de conhecimento para todas as partes. A CASA pagou logo neste início a metade do valor acertado no trabalho a fim de que as rendeiras pudessem se dedicar ao projeto já com uma certa renda garantida. O museu enviou uma museóloga, um videomaker, para acompanhar e documentar o projeto, que foi desenvolvido ao longo de um ano. O projeto pôde contar com outros parceiros: a empresa de Linhas Círculo e o Ministério da Cultura através da Secretaria do Museu e do Patrimônio patrocinou uma parte do projeto, através do FNC- Fundo Nacional de Cultura. "Isso foi uma grande conquista para nós, pois a idéia era envolver o governo federal nessa questão social ligada à 83 moda. Era uma forma de mostrar que existem muitas possibilidades para dar autonomia financeira a uma comunidade via essa área." (AVELLAR, 2008) Em 1993, as rendeiras encontravam-se numa situação preocupante, numa encruzilhada profissional. Cada vez mais dispersas, vendo seus trabalhos desvalorizados, com os rendimentos do artesanato muito baixos, isso lhes impedia de dar a si mesmas e a seus familiares uma condição de vida adequada. Sem encontrar uma outra saída viável, cogitavam largar o ofício e buscar outra atividade que fosse mais rentável. "Se isso acontecesse, a memória da comunidade se perderia e seria uma grande perda para o país." (AVELLAR, 2002) Para solucionar o problema e mudar esse contexto, eram necessárias ações fundamentais: desenvolver o associativismo entre as rendeiras, inovar seus produtos e criar condições para torná-los mais atraentes para o mercado. Dentro desta perspectiva o SEBRAE-PI começou a desenvolver um trabalho com elas. (MACHADO, 2002) No início do projeto a Associação de rendeiras contava com apenas 8 (oito) participantes. Graças ao trabalho desenvolvido, Avellar relata que: "Hoje, mais de setenta rendeiras produzem e vendem rendas de bilro, para o Brasil e também para o exterior!" A maioria delas trabalha em casa e vende as rendas na sede da associação. A partir do projeto as rendeiras resolveram se unir e mudar o rumo daquela história. Congregar as artesãs foi o primeiro passo para dar maior visibilidade aos seus trabalhos artesanais. 84 Walter Rodrigues recebeu uma missão, quando aceitou o convite para participar do projeto: encontrar "(...) uma nova função e novo caráter para a renda de bilro." (AVELLAR, 2002) "Com a presença de Walter, de forma muito cuidadosa e delicada, as rendeiras começaram a produzir de acordo com a coleção do estilista que desfilaria esses produtos no SPFW. Nunca foi pedido que se alterasse os desenhos das rendas mas que elas trouxessem desenhos antigos que estavam guardados há muito tempo. Essa questão de mudar os desenhos é uma outra história, pois conheço outros trabalhos com elas que o designer encomenda outros desenhos e o resultado é muito bom para ambas as partes." (AVELLAR, 2008) A visita à comunidade acarretou uma inovação nos materiais por elas trabalhados. Passou-se a utilizar linhas de viscose com lycra, seda pura e de lycra com elastano. Foi-lhes sugerido ainda uma nova cartela de cores, e desenvolvidos trabalhos não só na cor preta, mas também em outras cores. (ANDRADE, 2004) "Importante dizer que Rodrigues manteve o padrão dos desenhos e da maneira de produção das rendeiras e alterou a função na forma da roupa. As rendeiras também viram novas possibilidades de criações para aquilo que mais sabiam fazer." (AVELLAR, 2002) O resultado foi tão surpreendente que a assessora de comunicação do SEBRAE, Adlene Andrade, relatando a entrevista realizada com Walter, transcreveu: 85 "Entreguei a elas toda a minha produção de rendas para a última São Paulo Fashion Week e depois encomendei 60 camisetas e 80 vestidos". (ANDRADE, 2004) Através do projeto houve um resgate da cidadania, da artesania. Segundo Suzana Avellar (2002), "O resultado foi admirável para todos que estavam envolvidos." Um ponto importante destacado por Suzana é que este grupo sempre teve um trabalho impecável, de excelente qualidade. Como primeiro resultado, as peças de roupas produzidas pelo estilista e pelas rendeiras foram apresentadas no São Paulo Fashion Week, em julho de 2001, e estavam plenamente integradas às tendências de moda naquele verão. O segundo ponto favorável é que apenas um ano após o projeto, as rendeiras, que estavam condenadas a encerrar suas atividades, tiveram que aumentar a sua produção em 50% ,e seus trabalhos passaram a ser conhecidos em toda a região. O reconhecimento do sucesso e da valorização do trabalho artesanal repercutiu na prefeitura, que reformou a sede da associação, que não tinha telefone, luz nem água. " (...) receberam computador, internet, assinatura de duas revistas de moda e, obviamente, continuaram produzindo sob encomenda podendo se sustentar com o seu próprio trabalho." (AVELLAR, 2002) "O que aconteceu portanto, assim como determinei desde o começo, foi a atualização do valor estético para um produto o qual, ainda que belo, mas sem muito escoamento. E isso é a capacidade da moda, da indústria da moda: a atualização do valor estético atraindo nosso olhar para um novo belo, despertando o desejo de apreendê-lo e de ser apreendido." 86 (AVELLAR, 2002) Através deste primeiro projeto, o estilista Walter Rodrigues, que passou a realizar um trabalho voluntário com as artesãs da Associação das Rendeiras de Morro da Mariana, convocou uma outra Associação de rendeiras, desta vez utilizando o trabalho das Bordadeiras do Acarape, grupo atendido pelas ações do Programa Sebrae de Artesanato e coordenado pela Unidade de Desenvolvimento Setorial do Sebrae Piauí. Os bordados foram inseridos na coleção Primavera/Verão 2003-2004 do estilista. O estilista realizou um trabalho de pesquisa, e descobriu um estilo de bordado da França, que datava o século XVII. Através de imagens deste bordado, enviadas por e-mail ao Sebrae, buscou grupos que pudessem reproduzir aquele estilo. Segundo Andrade (2004) "O estilista ficou surpreso, como ele mesmo conta, porque não só era possível a reprodução, como 50 mulheres já faziam produções naquela tendência, demonstrando uma rica e conservada tradição." As bordadeiras trabalharam de abril a junho, e a coleção com bordados, utilizando a temática de flores e rosas, inspirados nos anos 30 e 70, foi mostrada primeira vez no São Paulo Fashion Week 2004 no meio do ano. Em seguida, foi exibida numa das principais feiras de moda feminina da Europa, o Salão Prêt-à-Porter, de Paris, que acontece no mês de setembro, na França. (ANDRADE, 2004) A coordenadora do projeto, Silvia Sasaoka, também continuou realizando encomendas e trazendo novos 87 projetos para o Morro da Mariana, através da StraaT, empresa de consultoria de design social formada em dupla com o administrador holandês Anton van Dort. A empresa faz a ponte entre dois mundos: a periferia e o mercado. Visa promover o intercâmbio internacional de estudantes de design da Design Academy Eindhoven, da Holanda, para a criação e o desenvolvimento de novos produtos. "O artesão quer aprender a fazer um produto comercial que gere renda. Nós trabalhamos para vinculá-lo à cadeia produtiva", diz Silvia em entrevista concedida à Patricia De Cia. Após deixar suas atividades no Museu, passou a se dedicar inteiramente ao artesanato com a realização de consultoria para o ARTESOL Artesanato Solidário, atuante em todo o Brasil com mais de dezessete comunidades. O desenvolvimento da metodologia de orientação do trabalho à distância realizada por Walter Rodrigues foi um dos grandes diferenciais. Ele criou roupas em módulos. As rendeiras muitas vezes não tinham noção de como ficariam os vestidos como produto final. Elas produziam os módulos, que eram enviados ao ateliê de São Paulo para a montagem dos vestidos. SASAOKA, Silvia. Artista plástica, consultora do Programa Artesanato Solidário. Segundo Silvia Sasaoka (2008), a continuação do trabalho, através do intercâmbio com os estudantes da Academia de Design de Eindhoven, foi o que trouxe sustentabilidade para as rendeiras do Morro da Mariana. Os estudantes passaram dois meses desenvolvendo produtos ao lado das rendeiras, e, através deste trabalho, começaram a produzir acessórios, colares e peças menores, mais fáceis de fazer e que podiam ser rapidamente comercializadas. Pesquisaram diversos materiais como crina de cavalo, plástico, tnt e estudaram principalmente 88 a estrutura dos desenhos para a renda. E deste trabalho surgiram os inéditos colares de renda, que se tornaram a coqueluche do artesanato. E deram asas para que as próprias rendeiras começassem a desenvolver seus próprios colares, colocassem suas idéias nos novos produtos. Segundo Silvia (2008), este trabalho teve uma aceitação tão grande no mercado, que o próprio Walter Rodrigues, utilizou as flores desenvolvidas para o vestido usado por Dona Marisa, na posse do presidente Luís Inácio Lula da Silva. O vestido de crepe amarelo tinha uma capa sobre ele com mil e duzentas camélias de renda, que foram elaboradas em linhas de dois tons e tudo ficou pronto em apenas 20 dias. As flores foram montadas sobre um molde com desenho das camélias, elaborado pelos designers holandeses que fizeram um estágio na associação três anos antes, em 2003. Esta notícia foi divulgada na mídia em geral, o que proporcionou uma enorme propaganda para o Morro da Mariana. Um grande entrave no trabalho das rendeiras era a falta de documentação e conservação dos desenhos existentes, os motivos das rendas, ou seja, preservar o conhecimento existente. E havia também um obstáculo na criação de novos motivos, até mesmo numa simples ampliação dos desenhos já existentes. Walter Rodrigues atuou como vetor de mudanças na forma de olhar o produto das artesãs. O simples fato de ensinar a usar uma máquina xerox, disponível na cidade, ampliando e reduzindo os motivos, causou uma verdadeira revolução entre as artesãs, que antes dependiam de uma mestra para este serviço, por ser um trabalho que exigia conhecimentos em geometria. Essa tecnologia, completamente desconhecida para elas, passou a fazer parte 89 do trabalho diário. Trouxe liberdade imaginativa e criadora. Segundo Silvia, a verdadeira revolução acontece quando há troca entre o designer e o artesão à longo prazo, quando os designers participam não só da produção, mas do cotidiano da comunidade. Mesmo com a existência de um abismo social entre os estudantes de design holandeses e as artesãs piauenses, as informações sobre o que é um desenho, um projeto, como se cria, como se desenvolve, de onde vem a inspiração, enfim, do processo de criação, estava ali presente na intensa convivência entre esses dois mundos. E a troca acontece de forma que ambos se alimentam desta experiência. Avellar (2008) acredita que o projeto realizou seus objetivos, principalmente no que diz respeito à autonomia da Associação. Apenas com o fornecimento de informações e divulgando o seu trabalho de forma correta. Com o sucesso alcançado pelos produtos, e a repercussão atingida, a manutenção do saber artesanal foi assegurada, a mestra-artesã pôde continuar repassando seu ofício para as novas gerações de rendeiras e assim garantir a memória desse saber proveniente da cultura popular. Imagem do produto antes e depois do trabalho com o designer. 90 5.0 Considerações finais A formação de um tecido: tecer, armar uma estrutura que lembra uma teia, uma rede, com um espaço mínimo entre os fios que se entrecruzam, se apertam, se unem para formar o tecido. Quando mais resistentes e longas forem as fibras que compõem estes fios, mais resistente e duradouro será o tecido. Enquanto fios, frágeis, leves, delicados. À medida em que a trama se aperta, eles vão se unindo, se fortalecendo, trama e urdume, até não se poder diferenciá-los a olho nu. E quando o tecido está formado, para conseguirmos distinguir seus fios, suas fibras a matéria do qual foi forjado, só destruindo o imenso e belo trabalho da sua união. Desfazendo a trama, desvela-se a fragilidade dos seus componentes. Assim é o Design Social, tramado no seio das comunidades, favorecendo as relações inter-pessoais, fortalecendo a importância da solidariedade e do afeto em torno de um objetivo comum. Acredito muito no designer como um empreendedor, como peça chave de transformação social. E certamente em virtude de minha experiência em design de moda pude perceber que ela, ao se engajar em projetos sociais, é capaz de produzir uma reviravolta tanto no plano social quanto criativo nas pequenas comunidades artesãs em que vier a atuar. O designer é capaz de incentivar a produção não só de bens, objetos de uso e consumo, mas gerar principalmente condições favoráveis ao bem-estar humano. O projeto Mão na Moda revelou-se um exemplo inaugural nesse sentido. 91 Inúmeras são as vozes que hoje se levantam endossando o caráter insustentável da sociedade contemporânea: crescimento populacional acelerado, esgotamento dos recursos naturais, má distribuição de renda. Ou seja, uma crise desencadeada por comportamentos centrados na expansão ilimitada do consumo. E como o design pode contribuir para alterar esse contexto? Acredito que o designer não consegue mais ignorá-lo, e isso o obriga a repensar o seu papel. Vários caminhos podem ser escolhidos. A concepção de desenvolvimento sustentável é um deles. É uma opção, uma oportunidade, que deve ser compreendida à luz de uma nova sensibilidade e de uma nova razão. Poderemos ou não adotá-lo. No entanto, é oportuno dizer que uma concepção de desenvolvimento sustentável, fundamentalmente sugere que comecemos a pensar em nossas vidas de uma maneira especialmente sensível, desafiadora e inovadora. (CAMARGO, 2002) A mudança de abordagem no desenvolvimento do trabalho de um designer pode resultar na construção de uma sociedade mais justa, mais solidária e bastante criativa. Conceber e desenvolver uma abordagem sistêmica, que congregue as mais diversas áreas do pensamento e das ciências, aponta para um novo horizonte. No que diz respeito ao Design de Moda, essa perspectiva pode fortalecê-lo, ao se incumbir de quebrar paradigmas e estigmas, vendo-se 92 transformado em vetor de mudanças sociais profundas. Hoje, o papel do designer é atuar como uma conexão criativa entre tecnologia e sociedade, como uma ponte entre a inovação técnica e social a ponto de propor artefatos capazes de auxiliar as pessoas a viverem melhor. Como no caso relatado das rendeiras, o designer, ao incentivar a transmissão daquele conhecimento, viu diante de si operar-se o milagre da sobrevivência: "batendo" os bilros, fazendo eles cantarem, conversarem, enquanto entrelaçam os fios atados a eles, a renda vai se formando e o desenho aparecendo, e junto com ele um modo de vida, a união, o respeito ao fazer simples e sofisticado, que invade as passarelas do mundo globalizado. 93 Epílogo Não é possível consertar o mundo com uma dissertação de mestrado. Não é possível nem ao menos começar a fazê-lo, através de uma pesquisa. Mas também não é possível, quando se começa a aprofundar o conhecimento na busca de filósofos, historiadores, sociólogos, economistas, enfim, de pesquisadores provenientes de vários campos do saber, quando se estuda e percorre os caminhos da intelectualidade, não tentar fazê-lo. Os designers não são personal trainers*, não são deuses**, mas se não forem parte da solução, então serão parte do problema***. Eu, como designer, escolhi ser parte das possíveis soluções para os grandes problemas contemporâneos, escolhi ser responsável. Se eu nada deixar às futuras gerações, ao menos deixarei um exemplo: NUNCA deixe de tentar. *designers não são personal trainers, emprestado do título da obra Designer não é personal trainer editado pela Rosari em 2002, de autoria da jornalista Adélia Borges. **designers não são deuses. Idéia proposta por Lígia Fascioni em entrevista para o DesignBrasil em 19/12/2007, "...Mas não são deuses (apesar de alguns pensarem que sim)", disponível em http://www.designbrasil.org.br/ppd/opiniao/exibir.jhtml?idArtigo=1169 ***se não forem parte da solução, então serão parte do problema, idéia contida no livro Design for the Real World de Victor Papanek, 1972. 94 Referências Bibliográficas [1] ARGAN, Giulio C. História da arte como história da cidade. São Paulo: Martins Fontes, 1998. pp. 250-280. [2] BONFIM, Gustavo Amarante. Fundamentos de uma teroria Transdisciplinar do Design: morfologia dos objetos de uso e sistemas de comunicação. IN: Estudos em Design, V V, n 2, dez. 1997 pp 27-41. 1997. [3] BONSIEPE, Gui. Teoria y práctica del diseño industrial. Barcelona: Gustavo Gilli, 1978. [4] BRÜSEKE, Franz Josef. Parte I -A Economia da Sustentabilidade: Princípios- Parte 2. O Problema do Desenvolvimento Sustentável. 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Este trabalho foi diagramado em Corel DRAW X3. Impresso à laser em papel 2 alcalino 75g/m feito de eucaliptos reflorestados.