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REVISTA HOTDAYS:
OS ESPAÇOS DA CRÍTICA DE MODA NA IMPRENSA SOTEROPOLITANA
Udinaldo Francisco Souza Júnior1
Autor – UFRB
Renata Pitombo Cidreira2
Co-autora - UFRB
Resumo: Em que consiste os textos críticos de moda? Como eles se inserem no cenário de
jornalismo cultural brasileiro? Existem espaços, na imprensa soteropolitana, para a realização
da crítica de moda? Tendo por base uma análise da revista baiana HotDays, esperamos
promover uma discussão sobre esses questionamentos no presente texto, com a contribuição
dos trabalhos de Renata Pitombo Cidreira (2007), Daniel Piza (2004) e Ruth Joffily (1991),
compreendendo que a crítica envolve aspectos sensíveis e histórico-culturais da experiência.
Palavras-chave: Crítica; Moda; Jornalismo Cultural
Introdução
As reflexões contidas nessas linhas foram geradas a partir de um projeto de
iniciação científica do CNPq durante os anos 2014-2015, e de vivências acadêmicas no grupo
de pesquisa Corpo e Cultura, orientado pela professora Renata Pitombo Cidreira. Trata-se de
uma incursão para compreender um dos inúmeros aspectos do fenômeno moda, contribuir
com o desenvolvimento do jornalismo de moda na Bahia e desenvolver reflexões sobre o que
já tem sido produzido no estado no que concerne aos textos críticos.
A crítica no jornalismo
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Graduando em Jornalismo pela UFRB, bolsista de Iniciação Científica através do CNPq ([email protected])
Professora Adjunta da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia ([email protected])
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Ainda que discordemos de muitas das posturas propostas por Nuno Júdice em seu
ABC da crítica (2010), o professor português nos oferece uma imagem interessante sobre a
natureza do crítico. Para Júdice, o crítico é um leitor que busca ultrapassar suas sensações
imediatas de júbilo ou desprezo em contato com uma obra.
Tendo em mente que a crítica se estabelece nos passos dados além do contato
inicial e das experiências sensíveis – que, ao contrário do que Júdice defende, devem ser
levadas em consideração e fazem parte do produto final da análise – o texto crítico promovese como uma leitura específica e o crítico é um leitor, digamos, especializado. Para que essa
leitura se garanta, e o texto possua consistência, os critérios são variados e muitos autores
promoveram e ainda permanecem no debate sobre o que comporia ou não os principais
aspectos da crítica e de sua produção. Aqui tomaremos por base os textos de Daniel Piza, que
condiz melhor com nossas concepções do que formaria um texto crítico de moda inserido no
jornalismo cultural.
O autor defende que o texto crítico deve buscar a combinação de objetividade,
sinceridade, preocupação com o autor e com o tema, além de argumentar em defesa de suas
preferências e não se esgotar em adjetivos como “gostei” ou “não gostei”:
Mas o que deve ter um bom texto crítico? Primeiro, todas as
características de um bom texto jornalístico: clareza, coerência, agilidade. Segundo,
deve informar ao leitor o que é a obra ou o tema em debate, resumindo sua história,
suas linhas gerais, quem é o autor etc. Terceiro, deve analisar a obra de modo
sintético mas sutil, esclarecendo o peso relativo de qualidades e defeitos, evitando o
tom de “balanço contábil” ou a mera atribuição de adjetivos. Até aqui, tem-se uma
boa resenha. Mas há um quarto requisito, mais comum nos grandes críticos, que é a
capacidade de ir além do objeto analisado, de usá-lo para uma leitura de algum
aspecto da realidade, de ser ele mesmo, o crítico, um autor, um intérprete do mundo.
(PIZA, 2004, pág.70)
O quarto e último ponto argumentado pelo autor é fonte para uma análise mais
profunda do que se espera de um crítico: que sua peça tenha consistência para ser também um
“objeto cultural”, uma produtora de sentido. Que não se distancie da obra analisada, mas
adquira integridade para além dela. Isso só acontece quando o crítico se torna, ele mesmo um
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leitor do mundo, de maneira a forjar conexões entre o objeto examinado e outros aspectos
culturais.
Outro ponto caro ao autor é que o crítico não é, ou pelo menos não deveria ser,
um guia de leitura correta da obra. Ele deve se pôr enquanto um leitor que demonstre que o
contato com a obra não se restringe aos seus aspectos imediatos, apontando caminhos
interpretativos que possam ter passado despercebidos em uma primeira leitura. Ou, como
Monclar Valverde conclui sobre o processo de fruição estética:
nos termos de uma simetria entre o percurso do autor – que parte do
projeto para a obra, ou da forma formante para a forma formada – e o movimento do
fruidor, que faz o caminho inverso, partindo da obra, enquanto produto realizado,
para penetrar na dinâmica do seu processo de configuração. (VALVERDE, 2007,
pág.138)
Nesse processo, em que o bom crítico adentra os caminhos interpretativos daquilo
que analisa, muito permanece dele no processo final: seu gosto, sua sensibilidade e sua
situação histórica e cultural fixam-se como marcas do texto, o que vai de encontro a uma
concepção de profissional supostamente imparcial e de um produto que não vá demonstrar as
preferências de quem o realiza. Caso o crítico consiga atribuir e argumentar os significados de
suas experiências estéticas, o texto só tem a enriquecer.
Crítica de Moda
Como aponta Renata Pitombo Cidreira, várias questões acercam a fragilidade da
crítica de moda no Brasil. O primeiro aspecto é a ausência de padrões críticos dados aos
textos, alguns dos quais foram apontados acima, e o excesso de características que são
empobrecedoras para uma análise mais profunda do fenômeno.
Vê-se recorrentemente uma cultura de excessos: o uso abundante de adjetivos em
textos que possuem como critérios de abordagem apenas o gosto pessoal dos supostos
críticos, quando não pesa o movimento contrário onde o “excesso de impessoalidade que
reina” (CIDREIRA, 2014, pág.66). O uso abundante de imagens que, apesar de seu papel
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essencial na produção do jornalismo de moda, não substituem o trabalho crítico. Outro
problema sério enfrentado pela crítica de moda no Brasil registrado pela autora é “uma
enorme intolerância por parte dos criadores em relação a comentários críticos que apontem
aspectos negativos numa coleção” (CIDREIRA, 2014, pág. 67). Isso se dá também pelo fato
de muitos blogs ou sites de moda receberem os produtos a serem analisados diretamente de
seus fornecedores, o que torna os textos comprometidos.
Esse fenômeno não só atinge a crítica, mas o jornalismo de moda como um todo –
considerado por muitos como uma extensão do departamento de marketing das empresas e
sem objetivos e princípios bem definidos – o que acaba tornando a produção crítica nos
espaços midiáticos inibida e sem expressividade. Para Renata, a crítica de moda deve ser
capaz de
falar de uma criação, seja uma coleção ou um editorial, tentando
compreender suas conexões. Como modelagem, texturas e cores se harmonizam
numa forma cuja unidade é reconhecível e irrecusável, se impondo como algo
impactante e íntegro. Pode ainda evidenciar semelhanças e diferenças em relação a
outras coleções do mesmo estilista ou mesmo relações entre a criação deste estilista
particular e os demais da sua época. Contextualizar a criação em relação ao
ambiente cultural no qual encontra-se inserida ou, ainda, a um momento cultural que
a mesma pretende evocar. (CIDREIRA, 2014, pág 68)
Deve, portanto, ser um exame da moda e dos sistemas de beleza como espaços
simbólicos de produção e reprodução de sentidos, representação de práticas sociais e reflexões
sobre a roupa, o corpo e a aparência nesse emaranhado de contextos produzidos pelo
fenômeno moda. Um dos exemplos mais evidentes desse senso crítico no jornalismo de moda
brasileiro, apontados pela autora, é a coletânea de textos O lugar maldito da aparência (2013),
de Eduardo Motta, onde o consultor nos fornece trabalhos híbridos entre crônicas e artigos
jornalísticos, em que se sobressai a responsabilidade em fazer uma crítica de moda mais
consciente de seus princípios.
Outra autora que ressalta a importância da crítica de moda é Ruth Joffily (1991).
Para a autora, um dos aspectos que a crítica de moda deve contemplar é o reconhecimento do
valor da criação, a partir da utilização dos elementos.
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Em qualquer produção artística há que se considerar a
compet6encia do criador. A matéria-prima para a imaginação – tanto a
influência estrangeira quanto a “cor local” estão à disposição, em forma
bruta, no nosso cotidiano. É a síntese desses elementos, sua eficácia, sua
consistência, que devem ser levadas em conta. Aí independentemente da
genealogia, é que se pode medir o valor da criação. A crítica literária teve de
evoluir muito para reconhecer em Machado de Assis o tratamento a essa
questão. As mesmas relações podem se encontrar no reino da moda
(JOFFILY, 1991, p. 54-55).
HotDays
A revista HotDays foi escolhida para a análise nesse artigo por conta de sua
distribuição ser maior dentro do cenário de Salvador e região metropolitana e do seu
compromisso, afirmado no seu editorial de abertura, de fornecer um periódico com
informação e conteúdo. A revista está ativa desde dezembro de 2012, conta atualmente com
quatro edições, que são distribuídas para um mailing de 6.500 mulheres e mantida
gratuitamente em seu website.
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Interessada em superar o conteúdo superficial das produções de moda comuns, a
editora e publicitária Sandy Najar propõe um periódico cujos assuntos sejam transversais e
partam da moda para a discussão de temas que ultrapassem o seu universo, com matérias
sobre comportamento, decoração, literatura e turismo. Essa análise tenta divisar em seus
textos a presença da crítica, tomando por base os conceitos de Daniel Piza.
As edições contam com aproximadamente 10 à 15 textos, escritos tanto por
jornalistas como por profissionais de área de saúde, além de uma quantidade equivalente de
ensaios fotográficos que são em sua maioria relacionados aos temas do texto. Vale ressaltar
que alguns desses profissionais são donos de clínicas de beleza e aproveitam seu espaço para
a divulgação de seus estabelecimentos, e que boa parte dos artigos possuem um clara
conotação publicitária. Levando em consideração os problemas que esse tipo de
comprometimento acarreta, passemos as análises dos textos.
Logo em sua primeira edição, temos dois artigos que precisam ser ressaltados por
cumprirem em partes as características que Cidreira (2014) aponta como enriquecedoras no
jornalismo de moda. O primeiro, assinado por Manu Carvalho, intitulado “Para não errar no
look” (2012) é um texto de dicas para uma moda mais acessível e democrática, que abarca
mais que um tipo de mulher e é preciso na ideia de liberdade na hora de vestir-se. O segundo
(intitulado “Empreender: uma arte feminina” e não assinado), traz conselhos das empresárias
de sucesso para mulheres que querem encabeçar seus próprios negócios.
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Os outros textos da edição, em geral, recorrem a alguns dos lugares comuns na
produção de moda, tais como: o reforço de conceitos sobre feminilidade, os padrões de um
corpo feminino perfeito – “como conseguir o corpo violão” – e uma discussão superficial de
temas relevantes que aparecem apenas tangencialmente nos textos. Em um artigo intitulado
“Super Bloggers” sobre 5 blogueiras de moda em Salvador, onde as mesmas são apontadas
como “inteligentes e bem nascidas”, o desenvolvimento de seu artigo não se preocupa em
trazer para debate questões importantes para a fundamentação do mesmo, recaindo numa
abordagem superficial nas entrevistas.
As outras edições seguem em essência, os mesmos padrões, elas possuem textos
cujos caminhos apontam para a responsabilidade de um jornalismo sério e outros carregados
com a cultura de excessos apontada por Cidreira (2014). O que se sobressai na produção da
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HotDays, sobretudo, é a ausência de ousadia na construção de textos que deem passos além
do conteúdo aparente, que enxergue nas pautas a possibilidade de discutir aspectos outros de
nossa cultura – totalmente relacionada, como distingue Lipovetsky (1989), com o fenômeno
da moda -, garantindo uma compreensão mais completa e justa do assunto principal da
revista.
Segundo o autor, a moda é inseparável do nascimento e desenvolvimento do
mundo moderno ocidental e sua origem está, de fato, imbricada nas maneiras diversas que os
indivíduos se relacionam uns com os outros e no modo em que vê sua própria identidade. Um
texto crítico de moda deve partir da premissa de que o fenômeno que ele pretende analisar
possui essa abrangência, caso contrário recairá no desenvolvimento raso e simplista do tema.
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Referências
CIDREIRA, Renata Pitombo. Jornalismo de Moda: Crítica, feminilidade e arte In
Recôncavos: Revista do Centro de Artes, Humanidades e Letras vol. 1 (1), 2007, p. 4653.
CIDREIRA, Renata Pitombo. Moda e critica: gosto espontâneo e gosto judicativo In Revista
Dobras. São Paulo: Editora Estação das Letras e Cores. Vol. 7, n 16, Outubro, 2014, p. 64-69.
HINERASKY, Daniela. Jornalismo de moda: questionamentos da cena brasileira.
Trabalho apresentado ao NP Pesquisa de Jornalismo, do VI Encontro dos Núcleos de Pesquisa
da Intercom, 2006.
JOFFILY, Tuth. O jornalismo e produção de moda. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1991.
JÚDICE, Nuno. ABC da crítica. Lisboa; Dom Quixote, 2010.
LIPOVETSKY, Gilles. O império do efêmero: a moda e seu destino nas sociedades
modernas. Tradução de Maria Lúcia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
PIZA, Daniel. Jornalismo cultural. 2 ed. São Paulo: Contexto, 2004.
PIZA, Daniel. Questão de gosto: ensaios e resenhas. Rio de Janeiro: Editora Record, 2000.
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