UNIVERSIDADE DE PERNAMBUCO FACULDADE DE CIÊNCIAS DA ADMINISTRAÇÃO DE PERNAMBUCO – FCAP MESTRADO EM GESTÃO DO DESENVOLVIMENTO LOCAL SUSTENTÁVEL JOSÉ ADERSON GONÇALVES DE BRITO AGRICULTURA FAMILIAR E SUSTENTÁVEL: UM ESTUDO DE CASO DA ASSOCIAÇÃO VANGUARDA, DO MUNICÍPIO DE CABO DE SANTO AGOSTINHO - PE Recife 2011 JOSÉ ADERSON GONÇALVES DE BRITO AGRICULTURA FAMILIAR E SUSTENTÁVEL: UM ESTUDO DE CASO DA ASSOCIAÇÃO VANGUARDA, DO MUNICÍPIO DE CABO DE SANTO AGOSTINHO - PE Dissertação apresentada à Coordenação do Curso de Mestrado em Administração, com área de concentração em Gestão do Desenvolvimento Local Sustentável e linha de pesquisa em Políticas Públicas para o Desenvolvimento Local Sustentável, da Faculdade de Ciências da Administração de Pernambuco – FCAP, para obtenção do grau de Mestre em Administração. Orientador: Fernandes Recife 2011 Prof. Dr. Múcio Luiz Banja Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Biblioteca Leucio Lemos Faculdade de Ciências da Administração de Pernambuco – FCAP/UPE B862a Brito, José Aderson Gonçalves de. Agricultura familiar e sustentável: um estudo de caso da Associação Vanguarda, do município de Cabo de Santo Agostinho (PE) / José Aderson Gonçalves de Brito; orientador: Múcio Luiz Banja Fernandes. – Recife, 2011. 81 f. : il. ; graf. ; tab. Dissertação (Mestrado). Universidade de Pernambuco, Faculdade de Ciências da Administração de Pernambuco, Recife, 2011. Programa de Pós Graduação em Gestão do Desenvolvimento Local Sustentável. 1. Agricultura Sustentabilidade. Título. sustentável. 2. Agricultura familiar. 3. I. Fernandes, Múcio Luiz Banja. (orient). II. 631.15 CDU (2007, 2. Ed.) 20 -2011 Emanuella Bezerra - CRB-4/1389 JOSÉ ADERSON GONÇALVES DE BRITO AGRICULTURA FAMILIAR E SUSTENTÁVEL: UM ESTUDO DE CASO DA ASSOCIAÇÃO VANGUARDA, DO MUNICÍPIO DE CABO DE SANTO AGOSTINHO – PE Dissertação apresentada à Coordenação do Curso de Mestrado em Administração, com área de concentração em Gestão do Desenvolvimento Local Sustentável, com linha de pesquisa em Políticas Públicas para o Desenvolvimento Local Sustentável, da Faculdade de Ciências da Administração de Pernambuco – FCAP, para obtenção do grau de Mestre em Administração. Aprovado em: ________________________________________ BANCA EXAMINADORA ________________________________________________ ARANDI MACIEL CAMPELO – Doutor Universidade de Pernambuco ________________________________________________ GERALDO JORGE BARBOSA DE MOURA – Doutor Universidade Federal Rural de Pernambuco ________________________________________________ ANDREA KARLA PEREIRA DA SILVA – Doutora Universidade de Pernambuco AGRADECIMENTOS Esse trabalho de dissertação, quando observados apenas os esforços do mestrando em suas incursões nos livros, na realidade virtual da web ou na pesquisa de campo, é fruto de um trabalho pretensamente solitário. Digo assim porque, sem a participação de outras pessoas que tanto colaboraram para sua feitura, o mesmo não teria superado o status de um anteprojeto. Longe de mencionar todos aqueles que, de uma ou de outra forma me ajudaram na realização desse trabalho, gostaria de registrar um muito obrigado especialmente a meus pais, em memória, Francisco Mamede de Brito e Maria Carmen Gonçalves de Brito, primeiros incentivadores à busca do conhecimento; a Rosa Barbosa da Silva que, sendo analfabeta, ensinou-me sobre outras possibilidades de interpretar o mundo; ao professor e orientador Múcio Banja, cuja serenidade e bom humor me proporcionaram as necessárias autoconfiança e motivação; à presidente da Associação Vanguarda, Sra. Aureni, por me facilitar o contato com os agricultores familiares da região sob pesquisa; ao Sr. Arnaldo, agricultor e mototaxista, que, sob sol ou sob chuva, me conduziu em sua moto de propriedade em propriedade, apresentando-me cada um dos trinta e cinco agricultores entrevistados; aos meus sobrinhos Caio César de Brito e Maria Martha de Brito; ao meu superior hierárquico no Banco do Brasil S.A, Robson Braulino, pela gentil compreensão acerca da difícil tarefa que se impõe a quem decide conciliar o trabalho e uma especialização de mestrado; a minha amiga Dayse Correia e a Célia Ximenes, secretária da coordenação do curso de mestrado, sempre presente e solícita. “Debulhar o trigo Recolher cada bago do trigo Forjar no trigo o milagre do pão E se fartar de pão.” Chico Buarque de Holanda RESUMO Essa dissertação tem como objetivo principal avaliar a sustentabilidade da agricultura familiar praticada pelos produtores rurais integrantes da Associação Vanguarda, situada no município de Cabo de Santo Agostinho (PE), durante o ano safra 2009/2010. Para alcançar esse fim, foi construído um indicador de sustentabilidade específico para a localidade sob pesquisa, utilizando-se a abordagem de estudo de caso. Para a coleta de dados, foram aplicados questionários quali-quantitativos em uma amostra de trinta e cinco agricultores familiares pertencentes a um universo de sessenta produtores, além da observação assistemática com fins de interpretação dos eventos espontâneos. A pesquisa revelou o caráter não sustentável da agricultura desenvolvida pelos produtores da Associação Vanguarda, quando observadas as dimensões ambiental, social e econômica. Palavras-chave: Agricultura Sustentável, Agricultura Familiar, Sustentabilidade ABSTRACT This essay aimes to assess the sustainability of family farming practiced by the Vanguarda Association farmers , in the city of Cabo de Santo Agostinho (PE), during the 2009/2010 crop year. To achieve this target, it was built a specific sustainability indicator to the location under research, using the case study strategy. For data collection, qualitative and quantitative questionnaires were applied to a sample of thirty-five family farmers belonging to a universe of sixty producers, as well as systematic observation for purposes of interpreting spontaneous events. The research revealed a non-sustainable agriculture developed by the producers of the Vanguarda Association, regarding the environmental, social and economic aspects. Keywords: Sustainable Agriculture, Family Farming, Sustainability SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO 9 2 OBJETIVOS 13 2.1 OBJETIVO GERAL 13 2.2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS 13 3 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA 14 3.1 AGRICULTURA FAMILIAR: CARACTERÍSTICAS ESSENCIAIS 14 3.2 A NOVA EPISTEMOLOGIA DO SABER AMBIENTAL E SUAS 18 IMPLICAÇÕES NAS POLÍTICAS PÚBLICAS VOLTADAS PARA AGRICULTURA FAMILIAR BRASILEIRA 3.2.1 Principais Políticas Públicas de Apoio à Agricultura Familiar 23 3.2.1.1 Política de Assistência Técnica e Extensão Rural para a Agricultura 23 Familiar e Reforma Agrária 3.2.1.2 Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar – 25 PRONAF 3.2.1.3 Programa de aquisição de alimentos da agricultura familiar 29 3.3 32 O PAPEL DA AGRICULTURA FAMILIAR NA SEGURANÇA ALIMENTAR 4 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS 37 4.1 37 ÁREA ESTUDADA 4.1.1 Localização 37 4.1.2 Relevo 37 4.1.3 Dados Demográficos 38 4.1.4 A Bacia do Pirapama 38 4.1.4.1 Zona Urbana da Bacia do Pirapama – Aspectos Físicos e Sócio- 38 econômicos 4.1.4.2 A Produção Agrícola 39 4.2 40 DELINEAMENTO DE PESQUISA 4.2.1 Abordagem Epistemológica 41 4.2.2 Tratamento dos Dados 42 4.2.2.1 O Indicador de Sustentabilidade 42 4.2.2.2 Aferição de Sustentabilidade 45 4.2.2.3 Aspecto Econômico: Cálculo da Renda e Valor Escolhido como Ponto 48 de Corte 4.2.2.4 Aspecto Ambiental: A Diversidade de Cultura 49 4.2.2.5 Aspecto Ambiental: O Uso de Agrotóxico 50 4.2.2.6 A Propriedade da Terra 50 4.3 A AMOSTRA 51 4.4 CONSIDERAÇÕES ÉTICAS 51 5 RESULTADOS E DISCUSSÃO 52 5.1 52 A IDADE DO AGRICULTOR FAMILIAR DA ASSOCIAÇÃO VANGUARDA 5.2 A ÁREA DA TERRA 54 5.3 A DIVERSIDADE DE CULTURAS 55 5.4 A ASSISTÊNCIA TÉCNICA 57 5.5 O SOLO 58 5.6 A TERRA 61 5.7 A OBTENÇÃO DE RENDA FORA DA ATIVIDADE AGRÍCOLA 61 5.8 O ABANDONO DA ATIVIDADE AGRÍCOLA 63 5.9 A CONTINUIDADE DA ATIVIDADE AGRÍCOLA PELOS FILHOS 65 5.10 OS INSUMOS E A DEPENDÊNCIA DO MERCADO 67 5.11 O USO DE AGROTÓXICOS 67 5.12 OS INSTRUMENTOS DE TRABALHO 68 5.13 A SUBSISTÊNCIA 69 5.14 A RENDA 69 5.15 DEPOIMENTOS 70 6 CONCLUSÕES 74 REFERÊNCIAS 76 1 INTRODUÇÃO A institucionalização da Agricultura Familiar (AF) no Brasil, a partir de meados da década de 1990, com o propósito de sua fomentação por meio de política públicas específicas, constituiu uma significante conquista para o pequeno produtor brasileiro, porquanto historicamente esquecido e preterido, notadamente, segundo MOREIRA (1999), no decorrer do projeto modernizante para a agricultura consolidado a partir de 1964, durante o regime militar instalado naquele ano, cuja política desenvolvimentista privilegiava o empreendimento agrícola monocultor latifundiário, voltado para a exportação de commodities1 e capaz de gerar divisas para equilibrar a balança comercial. Este procedimento, no entender de Santos (2007), é razoável quando compreendido que a política econômica dos Estados é comandada pela ideologia do crescimento, parecendo normal aos poderes públicos direcionar subsídios onde o capital se acumula mais rapidamente. A despeito de uma conjuntura bastante desfavorável à sua reprodução social, a AF tem resistido por meio de uma impressionante capacidade de adaptação e de racionalidade econômica, aspectos essenciais que serão abordados mais adiante. Ploeg (2008, p.60), ao referir-se à orientação para a produção do máximo valor agregado como uma importante característica da agricultura camponesa comenta que “os ambientes hostis são enfrentados através da produção de renda independente, usando basicamente, embora não exclusivamente, recursos auto-criados e auto-manejados”. No Brasil, contrariamente aos países capitalistas avançados, onde o Estado, desde cedo, apoiou fortemente a produção agrícola familiar com o objetivo estratégico de baratear os custos de alimentação da massa de mão de obra do setor secundário (ABRAMOVAY, 2007), a AF ressentiu-se, nas décadas de 1960 a 1980, de uma presença planificadora do Estado, capaz de compreender sua importância na economia interna e desenvolver políticas públicas aptas a atender às reais necessidades do pequeno produtor rural, em seu contexto social, ambiental, cultural e econômico. Essa importância pode ser observada nos dados estatísticos segundo os quais 70% dos alimentos que chegam à mesa dos brasileiros são oriundos da AF, sendo que as cadeias do 1 N. de T. Termo inglês que significa “mercadoria”. No comércio internacional “significa um tipo especial de mercadoria em estado bruto ou produto primário de importância comercial”. (SANDRONI, 1999 apud BASTOS, 2006). 10 segmento respondem por 10% de todo o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. (BRASIL, Ministério..., 2010) Lamarche (1998, p. 26), ao discorrer sobre a posição central da AF no atual debate sobre a crise econômica, social e ecológica engendrada pelo modelo produtivista, defende que: [...] uma faixa de agricultores e até mesmo de agrônomos enfatizam novamente o caráter familiar da empresa agrícola, único modelo susceptível de preservar uma certa qualidade dos alimentos, à qual os consumidores podem pretender, e principalmente de implementar técnicas agrícolas susceptíveis de preservar melhor a fertilidade dos solos ou a variedade genética dos rebanhos e de respeitar alguns grandes princípios ecológicos. Dessa forma, a adoção de políticas públicas adequadas, a exemplo do decreto 1.946 de 28 de junho de 1996, que cria o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (PRONAF) e da Política Nacional da Agricultura Familiar e Empreendimentos Familiares Rurais, instituída por meio da lei 11.326 de 24 de julho de 2006, veio, ainda que tardiamente, reparar uma falha do Estado ao longo das décadas em que se desenvolveu a agricultura no Brasil, período em que, na visão de Bastos (2006, p. 41), “havia um projeto claro de desenvolvimento que privilegiava a grande produção, excluía a pequena produção ou a marginalizava, e não analisava com profundidade as especificidades do meio rural”. As políticas públicas surgidas traziam em suas diretrizes uma preocupação com a atual problemática do desenvolvimento sustentável, buscando promover a melhoria de vida do agricultor familiar em harmonia com os pilares da sustentabilidade, quais sejam os aspectos econômico, social, ambiental e cultural. Dessa forma, alinham-se à estratégia da Agenda 21 Brasileira, resultante da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada no Rio de Janeiro, em 1992 porquanto, de acordo com o Ministério do Meio Ambiente (2000), a Agenda 21 Brasileira elegeu a Agricultura Sustentável como uma área temática expressiva de nossa problemática sócio-ambiental. Assim, temos no decreto 1.946 de 28 de junho de 1996, que cria o PRONAF, em seu artigo 2º, parágrafo 2º, itens a) e b), as diretrizes que confirmam o caráter de sustentabilidade que deve ser observado na execução do programa. § 2° As ações do Programa orientar-se-ão pelas seguintes diretrizes: a) melhorar a qualidade de vida no segmento da AF, mediante promoção do desenvolvimento rural de forma sustentada, aumento de sua capacidade produtiva e abertura de novas oportunidades de emprego e renda; b) proporcionar o aprimoramento das tecnologias empregadas, mediante estímulos à pesquisa, desenvolvimento e difusão de técnicas adequadas à AF, com vistas ao 11 aumento da produtividade do trabalho agrícola, conjugado com a proteção do meio ambiente. (BRASIL, 1996) Ratificando as diretrizes estabelecidas na criação do PRONAF, temos, no artigo 4º da lei 11.326, que estabelece as diretrizes para a formulação da Política Nacional da Agricultura Familiar e Empreendimentos Familiares Rurais, que: “Art. 4o A Política Nacional da Agricultura Familiar e Empreendimentos Familiares Rurais observará, dentre outros, os seguintes princípios: [...] II - sustentabilidade ambiental, social e econômica; [...]” (BRASIL, 2006) Acreditando na importância da AF no contexto social, ambiental e econômico do país, porquanto uma atividade potencialmente capaz de prover a segurança alimentar nacional por meio do manejo sustentável da natureza, da oferta abundante de alimentos saudáveis livres de contaminação química, de geração de emprego e renda no meio rural, da fixação das famílias no campo, dentre outros fatores positivos, suscitou-me a curiosidade os seguintes questionamentos: a AF é, de fato, uma atividade sustentável sob os aspectos econômico, social e ambiental? Estaria a AF provendo renda e alimento suficiente ao produtor rural para sua subsistência? A AF está sendo exitosa em manter o produtor na zona rural, evitando o êxodo para os centros urbanos? As técnicas de cultivo da AF alinham-se ao conceito de uma agricultura sustentável, quando observada sua relação com o ecossistema em que está inserida? Dessa forma, essa pesquisa pretende abordar a questão da sustentabilidade na AF e avaliar se a mesma pode ser considerada uma atividade sustentável quando considerados os aspectos econômico, social e ambiental. Nessa pesquisa, para fins de definição de agricultura sustentável, entendendo que se trata de termo relativamente recente, surgida no esteio da emergente problemática do desenvolvimento sustentável, será utilizado o conceito da Food and Agriculture Organization (FAO), qual seja: O manejo e a conservação da base de recursos naturais, e a orientação da mudança tecnológica e institucional, de maneira a assegurar a obtenção e a satisfação contínua das necessidades humanas para as gerações presentes e futuras. Tal desenvolvimento sustentável (na agricultura, na exploração vegetal, na pesca) resulta na conservação do solo, da água e dos recursos genéticos animais e vegetais, além de não degradar o ambiente, ser tecnicamente apropriado, economicamente viável e socialmente aceitável. (FAO, 1991 apud EHLERS, 1998, p. 92). 12 A importância da pesquisa concentra-se na proposta de aferir a sustentabilidade da AF, possibilitando indicar eventuais fragilidades em quaisquer das variáveis econômica, social e ambiental, de forma a contribuir para uma melhor adequação de políticas públicas já existentes em prol dessa atividade. 2 OBJETIVOS 2.1 OBJETIVO GERAL Avaliar a sustentabilidade da agricultura familiar praticada pelos produtores integrantes da Associação Vanguarda, localizada no município de Cabo de Santo Agostinho – PE, durante o ano safra 2009/2010. 2.2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS 1) Verificar a aderência da AF às práticas de manejo sustentável da natureza, que priorizem o manejo ecologicamente sustentável dos recursos naturais disponíveis como alternativa ao uso de fertilizantes e defensivos agrícolas químicos e à prática da monocultura; 2) Investigar se a AF está contribuindo para a fixação do produtor rural no campo; 3) Aferir a capacidade da AF de prover a auto-subsistência; 4) Averiguar a possibilidade de a AF se reproduzir socialmente ao longo do tempo, de uma geração para outra; 3 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA 3.1 AGRICULTURA FAMILIAR: CARACTERÍSTICAS ESSENCIAIS O conceito de AF é tópico controverso na literatura sobre o tema, valendo-se alguns autores de termos distintos para denominá-la. O fato explica-se por tratar-se de uma instituição, no que diz respeito ao seu reconhecimento pelo Estado brasileiro, relativamente recente. Ricardo Abramovay foi quem utilizou o termo pela primeira vez em sua tese de doutorado de 1991, sendo seguido posteriormente por Eli da Veiga, em 1994, em estudo realizado para a Organização para a Alimentação e a Agricultura. (BASTOS, 2006). A utilização de termos diversos na literatura, tais como agricultura de subsistência, agricultura camponesa ou agricultura semi-mercantil, apenas expressam características que, embora presentes na AF, não são suficientes para defini-la. Dessa forma, o grau de relação com o mercado, fator determinante para identificar a agricultura de subsistência, é apenas um das características observadas para caracterizar a AF, conforme veremos adiante. A AF encerra, pois, um conjunto de características capazes de conferir-lhe uma identidade institucional e distingui-la das demais atividades da agropecuária, notadamente a Agricultura Empresarial ou Industrial, aqui entendida como aquela fortemente vinculada ao mercado, coexistindo com a pressão dos mercados de insumos e de processamento e que, alinhando-se ao modo industrial de produção, apresenta características típicas do setor como especialização do trabalho, foco na maximização do lucro em detrimento do ritmo e limites da natureza, trabalho assalariado, produção de monocultura em larga escala, utilização intensiva de adubos e defensivos químicos, etc. Ploeg (2006), sem referir-se especificamente a uma agricultura familiar, mas a um modo de produção camponês, que é contraposto a um modelo empresarial de produção agrícola, menciona as seguintes características: a) Relativa escassez de recursos disponíveis. No modo de produção camponês, os agricultores precisam obter o maior resultado possível com uma dada quantidade de recursos sem perda da qualidade destes recursos; b) Produção intensiva. Devido à escassez de recursos, o trabalho é relativamente abundante, ao passo que os objetos de trabalho (terra, animais, utensílios) são relativamente escassos, resultando em uma produção por objeto de trabalho relativamente alta; 15 c) A base de recursos não é separada em elementos opostos e contraditórios (como trabalho e capital; trabalho manual e intelectual). Os recursos materiais e sociais disponíveis representam uma unidade orgânica e são possuídos e controlados por aqueles diretamente envolvidos no processo de trabalho; d) Relativa autonomia em relação ao mercado, pois cada ciclo de produção é construído a partir dos recursos produzidos e reproduzidos nos ciclos anteriores; e) Basicamente orientado para a busca de criação de valor agregado e de empregos produtivos, contrário, portanto, ao modo de produção capitalista e empresarial, onde os lucros e os níveis de renda podem ser ampliados por meio de uma redução contínua no uso de trabalho. A emancipação ou enfrentamento bem-sucedido de um ambiente hostil implica, necessariamente, a ampliação do valor agregado por unidade de produção. Ploeg (2008), novamente ao confrontar a agricultura camponesa e a estratégia de produção capitalista, registra outras particularidades do modo de produção camponesa, quais sejam: utilização de recursos auto-criados e auto-manejados para enfrentamento de ambientes hostis; mão de obra abundante com relação aos objetos de trabalho disponíveis resultando em trabalho intensivo de elevada produtividade; as inter-relações no trabalho derivam de repertórios culturais locais e relações de gênero; criatividade e inventividade para confecção de ferramentas e utensílios, propiciando um desenvolvimento continuado; pluriatividade; troca de experiências e compartilhamento de aprendizado com as unidades agrícolas vizinhas; destinação de parte do produto final (insumos e alimentos) para o consumo. Já Buainain (2007, p. 22), contrapondo-se a uma visão romântica que antagoniza ideologicamente os agricultores familiares e a forma capitalista de produção, reflete que: Na visão romântica, os agricultores familiares o são por tradição e opção, e não por imposição. A hipótese de que não buscam a maximização do lucro e sim um conjunto de outros objetivos que incluem desde a preservação do patrimônio para gerações futuras até a geração de ocupação para os membros da família é tomada como paradigma de uma racionalidade econômica própria, e não como o resultado de restrições reais enfrentadas no passado e no presente. Lamarche (1998), ao analisar a agricultura familiar no contexto de suas relações com a economia de mercado, estabelece três graus de dependência: 16 a) Dependência tecnológica; b) Dependência financeira e c) Dependência do mercado. E define três tipos de lógica familiar, em função de sua relação com as variáveis terra, trabalho e reprodução do estabelecimento: a) Muito familiar; b) Medianamente familiar e c) Pouco familiar. Para propor quatro modelos teóricos de funcionamento dos estabelecimentos, conforme ilustrado no gráfico 1, definidos a partir das lógicas familiares e do grau de dependência, alertando para que mesmos inexistem de forma absoluta na realidade concreta: a) Modelo empresa: caracteriza-se por relações de produção pouco (ou não) familiares e fortemente dependentes. Nesse modelo, a propriedade fundiária familiar e o apego a essa propriedade são menos importante que em outros modelos, estando o grupo pouco ligado à noção de patrimônio familiar. Utiliza regularmente força de trabalho externa e recorre abundantemente aos empréstimos para financiar seus investimentos, produzindo exclusivamente para o mercado; b) Modelo empresa familiar: organização do trabalho estruturada principalmente em torno da mão de obra familiar. Nesse modelo, o patrimônio é uma noção exclusivamente familiar e o futuro da unidade de produção é pensando em termos de reprodução familiar. A produção, no entanto, é muito dependente do exterior; c) Modelo agricultura camponesa e de subsistência: define-se por forte predominância das lógicas familiares e fraca dependência em relação ao exterior. Os estabelecimentos produzem pouco e utilizam técnicas bastante tradicionais, sendo o principal objetivo satisfazer as necessidades da família. O projeto do estabelecimento camponês, referenciando-se por um sistema de valores mais complexos, distingue-se do estabelecimento de subsistência, que consiste em conservar estruturas permitindo a sobrevivência do grupo doméstico; 17 d) Modelo agricultura familiar moderna: estrutura-se em torno de uma dupla dinâmica, buscando, de um lado, a diminuição constante do papel da família nas relações de produção e, de outro, a maior autonomia possível. Em termos absolutos, esse modelo representa um modo de funcionamento liberto das limitações familiares materiais e ideológicas e das dependências técnico-econômicas. Gráfico 1 – Representação gráfica dos modelos produtivos Lógica pouco familiar 4 Modelo agricultura familiar moderna 1 Modelo empresa Lógica Lógica pouco dependente muito dependente 3 Modelo agricultura camponesa ou de subsistência 2 Modelo empresa familiar Lógica muito familiar Fonte: (LAMARCHE, 1998, p. 68) Sabourin (2009) identifica a reciprocidade ou reprodução de prestação de favores como uma geradora de vínculos sociais e consiste em alternativa, presente em muitas unidades agrícolas familiares, de garantir sua existência social. Há, nesse caso, um forte vínculo do trabalhador com a comunidade, embasada em valores de sentimento de pertencimento, solidariedade e coletividade. Apesar de haver um senso comum quanto à dicotomia AF versus Agricultura Empresarial, não há uma delimitação perfeita entre um e outro modelo, chegando mesmo a 18 existir uma zona cinzenta onde se localizam produtores que estão em fase de transição de um processo para o outro. (PLOEG, 2008). Para fins de execução de políticas públicas, o Estado, ao estabelecer, na lei 11.326, de 24 de julho de 2006, as diretrizes para a formulação da Política Nacional da Agricultura Familiar e Empreendimentos Familiares Rurais, define como agricultor familiar rural aquele que pratica atividade rural e atenda cumulativamente aos seguintes requisitos: a) não detenha, a qualquer título, área maior do que quatro módulos fiscais; b) utilize predominantemente mão de obra da família; c) tenha renda familiar predominantemente oriunda da atividade econômica de seu estabelecimento; d) dirija seu estabelecimento em conjunto com a família. (BRASIL, 2006). Apesar de delimitar um conceito acerca do agricultor familiar, a lei o faz para fins de políticas públicas, não revelando, tampouco é sua competência fazê-lo, outros aspectos igualmente importantes da produção familiar, conforme já citados anteriormente, que traduzem um modelo particularmente dinâmico de reprodução social, capaz de gerar riqueza e trabalho, contrariando, dessa forma, vertentes do pensamento acadêmico e político, que consideram a AF um atraso ao desenvolvimento econômico. 3.2 A NOVA EPISTEMOLOGIA DO SABER AMBIENTAL E SUAS IMPLICAÇÕES NAS POLÍTICAS PÚBLICAS VOLTADAS PARA AGRICULTURA FAMILIAR BRASILEIRA Modos diferentes de investigar a história do conhecimento, a partir dos estudos de Michel Foucault e seu método de pesquisa denominado "arqueologia”, tem demonstrado que este não se desenvolve a partir de um fluxo ordenado e contínuo de retroalimentação, encadeado por um processo de atualização, mas, antes, de rupturas significativas em sua estrutura lógica e teórica, dando início a novos saberes, que passam a pertencer aos saberes aceitos de uma determinada época. A construção do conhecimento é realizada, pois, por descontinuidades em uma ordem estabelecida do saber, abrindo espaço para um novo conjunto organizado de postulados, teorias e afirmações, que configuram um novo saber distinto e independente do anterior. Sobre esse fenômeno da descontinuidade, Foucault (2008, p. 4) tem a dizer que “sob as grandes continuidades do pensamento, sob as manifestações 19 maciças e homogêneas do espírito, sob o realizar-se obstinado de uma ciência que luta para existir e para se realizar desde seu começo, procura-se, agora, detectar a incidência das interrupções”. Com referência neste modo de ver, serão relacionados, a partir de agora, tendo como ponto de partida os saberes engendrados e disseminados pela Revolução Verde, algumas das principais discussões acerca da sustentabilidade da agricultura que engendraram um saber voltado para a questão da agricultura sustentável e de onde resultaram contribuições para a institucionalização da AF, enquanto objeto de política pública do Estado. A Revolução Verde significou uma profunda mudança na lógica tradicional de cultivar a terra, implicando uma profunda alteração no modo de produção agrícola, sem um equivalente desde o invento da própria agricultura, há dez mil anos. Baseada em inovações tecnológicas, a exemplo de insumos fabricados em laboratório e melhoramento genético de sementes, representou, para a comunidade científica da época, devido ao incremento de produtividade obtido, uma importante alternativa capaz de solucionar a questão da segurança alimentar do planeta: o descompasso previsto por Malthus entre o crescimento populacional e a produção de alimentos. Surge, pois, uma epistemologia encerrando uma racionalidade sócio-econômica dirigida ao campo, propondo a substituição da tradicional maneira de fazer agricultura, considerada retrógrada e pouco produtiva, por novas tecnologias desenvolvidas fora da unidade agrícola. Esse novo saber estava em perfeita comunhão com a lógica da ciência econômica convencional. Segundo Cavalcanti (2010, p. 53): A economia-ciência tradicional, com efeito, não considera quaisquer conexões que possam existir entre o sistema ecológico e as atividades de produzir e consumir que representam o cerne de qualquer sistema econômico (economia-atividade), O modelo econômico típico não contempla a moldura ou restrições ambientais. Leff (2007, p. 182), ao abordar a relação entre o saber e o poder, diz que “A história da verdade e o diálogo de saberes não se reduzem à dialética entre razão e verdade, mas à forma como a verdade se estabelece em relações de poder no saber, à forma como a verdade se faz corpo e arraiga na identidade”. Em concordância, Foucault (2009, p. 12) pondera que: Cada sociedade tem seu regime de verdade, sua “política geral” de verdade: isto é, os tipos de discurso que ela acolhe e faz funcionar como verdadeiros; os mecanismos e as instâncias que permitem distinguir os enunciados verdadeiros dos falsos, a maneira como se sanciona uns e outros; as técnicas e os procedimentos que são valorizados para a obtenção da verdade; o estatuto daqueles que têm o encargo de dizer o que funciona como verdadeiro. 20 Santos (2007, p. 15), ao analisar o papel desempenhado pela ciência econômica, argumenta que: A serviço do planejamento a economia perdeu seus status científico e se tornou simples ideologia, cujo fito é persuadir Estados e povos das vantagens daquilo que passou a ser chamado desenvolvimento: a venda da ideologia do crescimento aos Estados, a imposição de uma ideologia de sociedade de consumo às populações. Hoje, há um consenso de que a Revolução Verde não se mostrou capaz de inserir, em sua lógica produtiva, as questões pertinentes ao meio ambiente e a apropriação sustentável de seus recursos, decorrendo desse modelo uma série de externalidades negativas. Ao comentar sobre a hegemonia do conceito de agricultura resultante de processos modernizantes e de uma postura empresarial completamente integrada em mercados de insumos e de produtos, objetivando a maximização dos lucros e em franca comunhão com a lógica de mercado, Ploeg (2008, p. 33), afirma que “Não faz sentido discutir se este modelo é verdadeiro ou não. O cerne da questão está no fato de este modelo ter se tornado verdadeiro [...]” concluindo que “Foi a ciência que criou uma imagem e um modelo de ‘empresário agrícola’ – um modelo que postula o agricultor, suas práticas e as relações em que ele se envolve como se supõe que sejam”. O novo paradigma de produção agrícola que se seguiu à Revolução Verde implicou mudanças sociais, culturais e econômicas profundas, trazendo, como consequências de seu modus operandi impactos nocivos ao meio ambiente. Ao referir-se à perda da qualidade dos alimentos obtidos a partir das novas técnicas de produção agrícola, Aubert (1977, p. 31-32) argumenta que “os consumidores queixam-se principalmente de uma coisa: o sabor medíocre dos produtos”, concluindo que “três técnicas são principalmente responsáveis pela baixa qualidade dos produtos da agricultura moderna: os pesticidas, os adubos químicos e as variedades selecionadas.” Aubert (1977, p. 45), ao analisar a utilização intensiva de insumos químicos nas plantações, constata um “paradoxo: em vez do solo e do subsolo desempenharem o seu papel normal de filtro, do qual a água sai purificada, o que se dá é o fenômeno inverso; a água, na sua passagem pelo solo, carrega-se de substâncias tóxicas.” Ploeg (2008, p. 28), defende que a modernização da agricultura, capitaneada por grandes corporações capitalistas, que o autor denomina de “Impérios Alimentares”, implica a “exploração ecológica e socioeconômica descuidada, se não mesmo através da degradação da natureza, dos agricultores, dos alimentos e da cultura.” Já Mazouyer e Roudart (2010, p. 33), 21 ao realizarem um balanço dos resultados sociais, ambientais e econômicos obtidos após a Revolução Verde, avaliam que: De fato, em muitos lugares, abusos de utilização foram cometidos, que levaram a inconvenientes, até mesmo a inversões de ordem ecológica, sanitária ou social: diversos tipos de poluições, prejuízos à qualidade e à segurança sanitária dos alimentos, concentração excessiva das produções e abandono de regiões inteiras, degradação dos solos e do ambiente [...] No Brasil, os pacotes tecnológicos prescritos pela Revolução Verde tiveram uma larga aceitação do governo bem como dos setores produtivos ligados à agropecuária, pois significavam, além do aumento da produção, a abertura de um extenso mercado de máquinas, implementos, sementes e insumos agroquímicos. (EHLERS, 2009). Essa aceitação refletia-se na política de extensão rural, que passou a orientar também os agricultores familiares a partir da nova lógica produtiva, considerada panaceia definitiva, desconsiderando sua realidade e necessidades específicas e locais. O produtor familiar ressentiu-se, pois, nesse período, da falta de uma política pública específica, baseada em um saber ambiental comprometido com a lógica da sustentabilidade e adequada à sua racionalidade econômica, ambiental e cultural. A partir da década de 1970, com a Conferência de Estocolmo inaugurando o debate ambiental no ciclo de conferência da Organização das Nações Unidas (ONU), e 1980, com a Comissão Brundtland, as questões ambiental e social ganham vulto e passam a permear o discurso dos governos nacionais, principalmente dos países integrantes do primeiro mundo, preocupados com o desequilíbrio ecológico do planeta, resultante da intensa utilização dos recursos naturais para prover as atividades econômicas, e questões prementes como a fome e miséria nos países mais pobres. Os conceitos de sustentabilidade, ecoeficiência, reciclagem e justiça social ingressam no discurso dos governos nacionais, objetivando a construção de soluções para o planeta em crise. O saber ambiental insere-se, pois, em um contexto de ruptura de paradigmas, tendo como desafio a tarefa de formular novas teorias que fundamentem o modelo de um desenvolvimento sustentável. As pressões exercidas pela sociedade civil, os aspectos culturais, a receptividade do meio acadêmico às novas ideias, os interesses das corporações e as estratégias governamentais, são forças que ditam os rumos e a forma de assimilação do saber ambiental em cada sociedade, refletidas nas metodologias de pesquisa acadêmica e da legislação. Leff (2007, p. 113), ao defender a contribuição de algumas áreas das ciências sociais à epistemologia ambiental, pondera que: 22 É possível identificar algumas áreas nas quais o saber ambiental foi penetrando num processo diferenciado e desigual. Tal é o caso de disciplinas da antropologia, da economia e do direito, nas quais é possível identificar processos de “fertilização” que resultaram no avanço do saber ambiental e em sua incorporação aos paradigmas das ciências sociais. Na visão de Prieur (2001 apud MACHADO, 2010, p. 54), “nosso ambiente está ameaçado, o Direito deve poder vir em seu socorro, imaginando sistemas de prevenção ou de reparação adaptados a uma melhor defesa contra as agressões da sociedade moderna”. O Estado brasileiro, principalmente a partir do texto constitucional de 1988, proveu o corpo jurídico nacional de várias normas atentas à questão ambiental e social. Percebe-se, no capítulo VI, do texto constitucional, que trata do meio ambiente, uma estreita comunhão de sua proposta com o conceito de desenvolvimento sustentável, resultante do trabalho da Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento (CMMAD), divulgado no relatório Nosso Futuro Comum, em 1987. Assim, o artigo 225 da Constituição Federal determina que: “Todos tem direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações.” (BRASIL, 1988). Enquanto a CMMAD descreve o desenvolvimento sustentável como “desenvolvimento que é capaz de garantir as necessidades do presente sem comprometer a capacidade das gerações futuras de atenderem também às suas.” (CMMAD, 1988 apud SCOTTO; CARVALHO; GUIMARÃES, 2007, p. 9). Em 1992, durante a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada no Rio de Janeiro, foi aprovado um documento denominado Agenda 21, que estabeleceu um pacto pela mudança do padrão de desenvolvimento global para o século seguinte. A Agricultura Sustentável foi escolhida como um dos seis temas centrais da agenda. Ao analisar as referências atuais que norteiam a formulação de políticas públicas focadas na AF, Bonnal e Maluf (2007, p. 4) refletem que “as novas tendências (ideias, olhares e normas) emergiram em conexão com os debates sobre a sustentabilidade e o meio ambiente, a qualidade dos alimentos e os aspectos identitários ou culturais a ele relacionados [...]”. Movido por pressões sociais, o Estado decide pela adoção de políticas públicas voltadas para a AF, respeitando seus valores tradicionais, sem prejuízo, no entanto, do incentivo a inovações tecnológicas adequadas ao seu modelo de reprodução. Assim, a partir do decreto 1.946, de 28 de junho de 1996, a AF adquire status de instituição, reconhecida pelo Estado a 23 partir da implementação do PRONAF. A seguir, serão apresentadas as principais políticas públicas implementadas com fins de apoio à AF, notadamente as de alcance nacional, porquanto representativo das demais iniciativas de âmbito estadual e municipal. 3.2.1 Principais Políticas Públicas de Apoio à Agricultura Familiar 3.2.1.1 Política de Assistência Técnica e Extensão Rural para a Agricultura Familiar e Reforma Agrária Na esteira das iniciativas voltadas para os aspectos multifuncionais da AF, percebe-se um esforço de adequação do serviço público, a saber, os extensionistas rurais, ainda fortemente influenciados pela ideologia da Revolução Verde, à realidade ecológica do produtor familiar. Freire (2006, p. 23), ao analisar o conteúdo semântico da palavra ‘extensão’, questiona o uso do vocábulo na prática educativa do agrônomo afirmando que: O conceito de extensão não corresponde a um que-fazer educativo libertador. Com isto não queremos negar ao agrônomo, que atua neste setor, o direito de ser um educador-educando, com os camponeses, educando-educadores. Pelo contrário, precisamente porque estamos convencidos de que este é o seu dever, de que esta é a sua tarefa de educar e de educar-se, não podemos aceitar que seu trabalho seja rotulado por um conceito que o nega. Barbosa (2009, p. 48), analisando o papel da extensão rural e do crédito agrícola oferecidos no período de predominância da lógica produtivista da Revolução Verde, argumenta que: Na lógica convencional da extensão rural, o crédito e a assistência técnica cumprem papéis nefastos na desconstrução dos sistemas produtivos. São direcionados e atrelados a um único subsistema, na maioria das vezes a uma única cultura dentro do subsistema, negando a lógica da policultura e das inter-relações da agricultura familiar e condenando as famílias à lógica das monoculturas do já falido agronegócio. Essa lógica produtivista e imediatista contribuiu enormemente para um distanciamento cultural entre o agrônomo e o pequeno agricultor porquanto a proposta da extensão rural desconsiderava qualquer outra forma de conhecimento que não a veiculada no meio acadêmico. (BARBOSA, 2009). Essa postura antidialógica é corroborada por Freire (2006) ao identificar, durante seminários realizados com engenheiros agrônomos, argumentos destes 24 últimos que predispõem a inviabilidade do diálogo com o agricultor, baseados na lentidão, que não se concilia com a urgência de produtividade, bem como na ignorância técnica do produtor. A Política de Assistência Técnica e Extensão Rural para a AF e Reforma Agrária (PNATER), instituída com a lei 12.188 de 11 de janeiro de 2010 veio, pois, em atendimento às carências peculiares do agricultor familiar, valorizando sua lógica de produção e reprodução social, suas dinâmicas e experiências, conforme observado em seu rol de objetivos, dos quais são destacados aqui aqueles intrinsecamente relacionados com um modelo de agricultura sustentável: Art. 4º São objetivos da Pnater: I – Promover o desenvolvimento regional sustentável; II – Apoiar iniciativas econômicas que promovam as potencialidades e vocações regionais e locais; [...] VI – desenvolver ações voltadas ao uso, manejo, proteção, conservação e recuperação dos recursos naturais, dos agroecossistemas e da biodiversidade; VII – construir sistemas de produção sustentáveis a partir do conhecimento científico, empírico e tradicional; [...] X – promover o desenvolvimento e a apropriação de inovações tecnológicas e organizativas adequadas ao público beneficiário e a integração deste ao mercado produtivo nacional; [...] XII – contribuir para a expansão do aprendizado e da qualificação profissional e diversificada apropriada e contextualizada à realidade do meio rural brasileiro. (BRASIL, 2010). As iniciativas são melhor traduzidas em números quando se verifica que, de 2003 a 2009, o investimento em Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER) para a AF subiu de R$ 46 milhões para R$ 428 milhões ao ano, que, somados com o apoio aos assentados da reforma agrária, o valor chega a R$ 626 milhões só na safra 2009/2010, com um total de 24 mil técnicos (BRASIL. Ministério..., 2010), conforme se visualiza no gráfico 2. 25 Gráfico 2 - Investimentos em assistência técnica em R$ milhões 700 600 500 400 Valor-R$ 300 200 100 0 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 Fonte: MDA/INCRA 3.2.1.2 O Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar - PRONAF Até 1994, não havia, no Brasil, um programa institucional orientado especificamente para a AF. O poder público, desde o período colonial, por meio do sistema de capitanias hereditárias e sesmarias, instituíra e reforçara, ao longo da história, a formação de uma classe agrária latifundiária politicamente e economicamente hegemônica, em detrimento dos pequenos produtores, que sobreviviam às margens da participação política das decisões que dissessem respeito às questões agrárias e, por conseguinte, aos seus próprios interesses. Segundo Bastos (2006), outros marcos legais foram adicionados àqueles procedimentos, a exemplo da Lei de Terras, em 1850 e o Código Civil de 1916, que regulamentou as relações de trabalho na produção, como o arrendamento, a parceria e a locação de serviços, ratificando, dessa forma, os mecanismos institucionais para manutenção do latifúndio. A institucionalização do crédito rural pela Lei 4.829, de 5 de novembro de 1965, significou uma importante conquista para os agricultores brasileiros. De acordo com essa lei, o financiamento agrícola visava estimular o incremento dos investimentos rurais bem como favorecer o custeio e a comercialização de produtos agropecuários, dentre outros objetivos relacionados à melhoria das condições de vida das populações rurais, notadamente os pequenos e médios produtores. As manifestas intenções presentes na lei, no que se refere à concessão de crédito para o pequeno agricultor, não lograram, entretanto, o resultado pretendido, pois, de acordo com Bastos (2006), exigências burocráticas fora da realidade dos agricultores pobres – principalmente o uso de tecnologia inadequada, os limites políticos à mobilização e organização dos agricultores familiares, a ausência de parcerias institucionais, a 26 falta de prática dos agentes financeiros em lidar com pequenas operações de crédito, representavam obstáculos incontornáveis para que o agricultor familiar tivesse fácil acesso ao crédito. Durante a década de 1970, o Estado, visando incrementar a produção de commodities para a exportação, estimulou a modernização da agricultura por meio do crédito rural, processo em que, novamente, foram priorizados os detentores de grandes propriedades, porquanto capazes de, em resposta ao incremento de produtividade obtida a partir da mecanização da lavoura, produzir em larga escala para o mercado internacional atendendo, dessa forma às metas de exportação estabelecidas pelo Estado. Segundo Moreira (1999), nas décadas de 1970 e 1980, expandiram-se a produção e a lucratividade das matérias primas para a transformação agroindustrial e para o mercado externo, com boa parte de sua dinâmica condicionada pelos problemas do balanço de pagamentos e da dívida externa. Na visão de Bastos (2006), a marginalização da maior parte da população rural que se seguiu ao processo de modernização ocorreu não apesar dos esforços de intervenção do poder público, mas também motivado por essa intervenção. O PRONAF foi criado através do Decreto 1.946, de 28 de junho de 1996 tendo suas normas consolidadas na Resolução 2.310, de 29 de agosto de 1996. Buscou atender às reivindicações históricas dos sindicatos rurais bem como às pressões de organismos internacionais como a FAO e o Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD). A FAO já divulgara, em 1994, como resultado de convênio de cooperação técnica com o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), um relatório contendo resultados significativos para os rumos da AF no Brasil, em 1996, como resultado de projeto de cooperação técnica com o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), um relatório, elaborado à luz do censo agropecuário de 1995/96, contendo informações significativas para os rumos da AF no Brasil. (INCRA; FAO, 2000). As linhas de crédito do PRONAF podem ser divididas basicamente em: a) Pronaf-Crédito – financia mais diretamente a AF no custeio e nos investimentos necessários às atividades agropecuárias e não-agropecuárias e b) Pronaf M (Infra-Estrutura) – financia infra-estrutura e serviços nos municípios, para o fortalecimento da AF. No quadro a seguir são discriminadas as linhas de crédito do PRONAF. Percebe-se, em seus objetos de financiamento, o estímulo à produção diversificada em bases ecologicamente 27 sustentáveis, à agroindústria, ao cooperativismo e à participação da mulher e jovens dentre outros não menos importantes. Quadro 1 – Linhas de Crédito do PRONAF continua Linhas de crédito do PRONAF Público alvo e objetivo Custeio Financia atividades beneficiamento agropecuárias ou e de industrialização e comercialização de produção própria ou de terceiros agricultores familiares enquadrados no Pronaf. Investimento Financia a implantação, a ampliação ou a modernização da infraestrutura de produção e serviços, agropecuários ou não-agropecuários, no estabelecimento rural ou em áreas inclusive em comunitárias rurais próximas. Agroindústria Financia investimentos, infraestrutura, que visam ao beneficiamento, ao processamento e à comercialização da produção agropecuária e não-agropecuária, de produtos florestais e do extrativismo, ou de produtos artesanais e a exploração de turismo rural. Agroecologia Financia produção investimentos dos agroecológicos sistemas ou de orgânicos, inclusive os custos relativos à implantação e manutenção do empreendimento. Eco Financia investimentos em técnicas que minimizam o impacto da atividade rural ao meio ambiente e que permitam ao agricultor melhor convívio com o bioma em que sua propriedade está inserida. 28 conclusão Linhas de crédito do PRONAF Público alvo e objetivo Floresta Financia investimentos em projetos para sistemas agroflorestais; exploração extrativista ecologicamente sustentável, recomposição e manutenção de áreas de preservação permanente e reserva legal e recuperação de áreas degradadas. Semiárido Financia projetos de convivência com o semiárido, focados na sustentabilidade dos agroecossistemas, priorizando infraestrutura hídrica e implantação, ampliação, recuperação ou modernização das demais infraestruturas, incluindo projetos de produção e serviços agropecuários e não-agropecuários. Mulher Financia investimentos de propostas de crédito das mulheres agricultoras. Jovem Financia investimentos de propostas de crédito de jovens agricultores e agricultoras. Custeio e Comercialização de Financia as necessidades de custeio do Agroindústrias Familiares beneficiamento e industrialização da produção própria e/ou de terceiros de agricultores e suas cooperativas ou associações. Cota-Parte Financia investimentos para a integralização de cotas-partes dos agricultores familiares filiados a cooperativas de produção ou para aplicação em capital de giro, custeio ou investimento. Microcrédito Rural Financia as atividades agropecuárias e nãoagropecuárias de agricultores de mais baixa renda. Mais Alimentos Financia propostas ou projetos de investimentos destinados a modernizar a produção dos agricultores familiares. Fonte: Ministério do Desenvolvimento Agrário 29 As fontes de recursos do Pronaf-Crédito procedem da Secretaria do Tesouro Nacional (STN), do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDES), do Fundo Constitucional de Financiamento para o Nordeste (FNDE) e Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), sendo que, para a formalização do crédito é necessária a apresentação de uma Declaração de Aptidão, fornecida por agentes credenciados pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA). Entre as safras de 2002/2003 e 2010/2011, os recursos para custeio e investimento oferecidos por meio do PRONAF cresceram de R$ 2,4 bilhões para R$ 16 bilhões, conforme pode ser observado no gráfico 3. Gráfico 3 – Aplicação no PRONAF a partir da safra 2002/2003 16 14 12 10 8 R$ Bilhões 6 4 2 0 2002/03 2003/04 2004/05 2005/06 2006/07 2007/08 2008/09 2009/10 2010/11 Fonte: sistemas.mda.gov.br/arquivos Atualmente, encontra-se em votação, no Senado Federal, na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania, projeto de lei da Câmara dos Deputados número 27, de 2010, para criação do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar . (BRASIL, 2011) Essa medida representa mais um importante conquista do agricultor familiar, porquanto, uma vez instituída por lei, terá teoricamente garantida a execução da políticas públicas do antigo programa, não mais dependendo, portanto, da iniciativa do governante em exercício. 3.2.1.3 Programa de aquisição de alimentos da agricultura familiar Para além do crédito para custeio e investimento, o Estado preocupou-se também com a comercialização da produção da AF, integrando-a a programas de abastecimento fortemente comprometidos com a questão da segurança alimentar, assunto que será abordado mais 30 amiúde no próximo capítulo. Não obstante dificuldades verificadas durante a pesquisa relacionadas ao estoque de produção sem opções de comercialização, inclusive com risco potencial de perda, há de se registrar o Programa de Aquisição de Alimentos da Agricultura Familiar (PAA), instituído pela lei 10.696 de 02 de julho de 2003 e regulamentada pelo decreto 6.447 de 07 de maio de 2008 que prevê a aquisição de alimentos de produtores familiares por valores referenciados pelos mercados regionais, com fins de destiná-los a pessoas em situação de insegurança alimentar e nutricional. A Lei 10.696 de 02 de julho de 2003 determina: Art. 19. Fica instituído o Programa de Aquisição de Alimentos, compreendendo as seguintes finalidades: I - incentivar a agricultura familiar, promovendo a sua inclusão econômica e social, com fomento à produção com sustentabilidade, ao processamento de alimentos e industrialização e à geração de renda; II - incentivar o consumo e a valorização dos alimentos produzidos pela agricultura familiar; [...] V - constituir estoques públicos de alimentos produzidos por agricultores familiares; VI - apoiar a formação de estoques pelas cooperativas e demais organizações formais da agricultura familiar; e [...] (BRASIL, 2003). Já o Decreto 6.447 de 07 de maio de 2008 estabelece limites de valor anuais para cada agricultor familiar: Art. 5o O Programa de Aquisição de Alimentos será executado nas seguintes modalidades e observado os respectivos limites de valores máximos por agricultor familiar: I - aquisição de alimentos para atendimento da alimentação escolar, com limite de até R$ 9.000,00 (nove mil reais) por ano civil; II - compra direta da agricultura familiar para distribuição de alimentos ou formação de estoque público, com limite de até R$ 8.000,00 (oito mil reais) por ano civil; III - apoio à formação de estoque pela agricultura familiar, com limite de até R$ 8.000,00 (oito mil reais) por ano civil; IV - compra da agricultura familiar com doação simultânea, com limite de até R$ 4.500,00 (quatro mil e quinhentos reais) por ano civil; V - compra direta local da agricultura familiar com doação simultânea, com limite de até R$ 4.500,00 (quatro mil e quinhentos reais) por ano civil, e VI - incentivo à produção e ao consumo do leite, com limite de até R$ 4.000,00 (quatro mil reais) por semestre. § 1o Fica estabelecido o valor máximo de R$ 4.500,00 (quatro mil e quinhentos reais) por agricultor familiar, por ano civil, como limite para outras modalidades do Programa de Aquisição de Alimentos, definidas pelo Grupo Gestor, nos termos do inciso I do art. 3o. [...] (BRASIL, 2008) Outra importante política pública, que beneficia a agricultura familiar no que diz respeito à aquisição de parte de sua produção, é o programa Dinheiro Direto na Escola, responsável pelo atendimento da alimentação escolar dentro da política de segurança 31 alimentar. No artigo segundo da lei 11.947, de 16 de junho de 2009 estão previstas as diretrizes da alimentação escolar, destacando-se aqui o contido no inciso V: V - o apoio ao desenvolvimento sustentável, com incentivos para a aquisição de gêneros alimentícios diversificados, produzidos em âmbito local e preferencialmente pela agricultura familiar e pelos empreendedores familiares rurais, priorizando as comunidades tradicionais indígenas e de remanescentes de quilombos; (BRASIL, 2009). No artigo décimo quarto é estipulado o percentual mínimo da merenda escolar a ser abastecido com produtos da AF: Art. 14. Do total dos recursos financeiros repassados pelo FNDE, no âmbito do PNAE, no mínimo 30% (trinta por cento) deverão ser utilizados na aquisição de gêneros alimentícios diretamente da agricultura familiar e do empreendedor familiar rural ou de suas organizações, priorizando-se os assentamentos da reforma agrária, as comunidades tradicionais indígenas e comunidades quilombolas. (BRASIL, 2009). De acordo com Ministério do Desenvolvimento Agrário (2010), entre 2003 e 2009, foram realizadas pelo PAA compras de 764 mil famílias de agricultores, totalizando R$ 2,7 bilhões, proporcionando uma renda média anual de R$ 3,9 mil por família e beneficiando 7,5 milhões de consumidores por ano. Na tabela 1 estão relacionadas as modalidades de compras do PAA e suas respectivas fontes de recursos, MDA e Ministério do Desenvolvimento Social (MDS). (Quadro 2) Quadro 2 - Modalidades do PAA continua Modalidade Ação Limite/ano Compra Direta da Voltada Agricultura Familiar produtos em situação de baixa à aquisição de R$ 8 mil de preço ou em função da necessidade de atender a demandas de alimentos de populações em condição de insegurança alimentar. Recursos MDA e MDS 32 conclusão Modalidade Ação Limite/ano Apoio à Formação de Disponibiliza recursos para que R$ 8 mil Estoques pela Agricultura organizações Familiar da Recursos MDA e MDS agricultura familiar formem estoques de produtos para posterior comercialização, em melhores condições de mercado. Compra com Doação Responsável pela doação de R$ 4,5 mil Simultânea ou Compra produtos Direta Local agricultura familiar a pessoas adquiridos MDS da em situação de insegurança alimentar nutricional. PAA Leite Assegura a distribuição R$ 4 mil MDS gratuita de leite em ações de por combate à fome e à desnutrição semestre de cidadãos que estejam em situação de vulnerabilidade social e/ou em estado de insegurança alimentar e nutricional. Atende aos estados do Nordeste. Fonte: MDA 3.3 O PAPEL DA AGRICULTURA FAMILIAR NA SEGURANÇA ALIMENTAR O ano de 2011 foi marcado, no que diz respeito ao abastecimento mundial de alimentos e suas implicações econômico-sociais, por grave crise. De acordo com (A PERGUNTA..., 2011, p.43), em publicação de conteúdo da revista The Economist: Os preços mundiais dos alimentos subiram além do pico alcançado no começo de 2008 (Gráfico 4). Aquele foi um período em que centenas de milhões de pessoas caíram na pobreza, revoltas por alimentos balançaram governos em dezenas de países em desenvolvimento, exportadores estavam suspendendo a venda de grãos para o exterior.[...] 33 Gráfico 4 – Índice de preços de commodities da Economist alimentos Fonte: http://www.economist.com/node/18200618. Associado ao crescimento da população mundial, os dois grandes picos de preços dos alimentos em menos de quatro anos fizeram ressurgir receios malthusianos, pois estima-se que em algum momento próximo da virada de 2011 para 2012, a população do globo terrestre chegue a 7 bilhões e que, em 2050, é esperado um número de 9 bilhões, lançando dúvidas sobre a capacidade do mundo de alimentar sua população. (A PERGUNTA..., 2011). A teoria de Thomas Robert Malthus, formulada no século XVIII, foi baseada nos princípios de que a população, quando não detida por algum obstáculo, duplica em cada vinte e cinco anos e cresce de período em período em progressão geométrica e de que os meios de subsistência , nas condições mais propícias, não crescem mais rapidamente do que uma progressão aritmética. (ADAS, 2004). A despeito do decréscimo na taxa média de crescimento anual da população mundial, que passou de 2% em 1970 para 1,4% em 2007, supõe-se que a lógica malthusiana continua atual, ao menos no que diz respeito aos números referentes às colheitas de trigo, milho, soja e arroz, pois a produtividade das colheitas desacelerou a uma taxa maior. (A PERGUNTA..., 2011). No entanto, em 1996 , a FAO estimou que o mundo produzia comida suficiente para fornecer a cada ser humano 2.700 calorias por dia, muito mais que o considerado necessário para a maioria dos adultos, aproximadamente 2.100 calorias. O problema da alimentaçao mundial não seria, portanto, essencialmente técnico ou biológico, considerando que o mundo já produz mais que o necessário para todos os habitantes, incluindo no cálculo todos os alimentos que poderiam ser consumidos, mas que são transformados em biocombustíveis e as grandes quantidades desperdiçadas. (A PERGUNTA..., 2011). Esses receios, relacionados a uma possível escassez abrupta de alimentos, dizem respeito diretamente à questão da segurança alimentar. Segundo o Plano de Ação da Cúpula 34 Mundial da Alimentação. “Existe segurança alimentar quando as pessoas têm, a todo momento, acesso físico e económico a alimentos seguros, nutritivos e suficientes para satisfazer as suas necessidades dietéticas e preferências alimentares, a fim de levarem uma vida ativa e sã”. (FAO, 2011). Nesse cenário de escassez de alimentos, a AF tem sido indicada como uma importante solução para o abastecimento interno de alimentos, valendo-se, dentre outras vantagens de ordem social, ambiental e econômica, de sua diversidade. Ao contrário da grande empresa agrícola monocultora, os estabelecimentos familiares valem-se da diversificação como uma estratégia de reprodução social que lhes permite o máximo de autossuficiência alimentar e autonomia do mercado de gêneros alimentícios. Vale dizer, portanto, que a AF atenderia à demanda de alimentos tanto dos componentes da unidade agricultora familiar como da região em que ela está inserida, provendo variedade de alimentos. Comentando sobre o mito presente no senso comum de que apenas a grande empresa agrícola latifundiária é capaz de produzir quantidades elevadas de produtos agropecuárias para atender a demanda interna e externa, Adas (2004), argumenta contrariamente que, ao analisar-se a origem da produção agrícola de alimentos básicos em relação ao tamanho da propriedade, observa-se que são os pequenos e médios produtores rurais os responsáveis pela maior produção, ilustrando que, no Brasil, eles respondem por cerca de 80% da produção de alimentos de base. Sobre o impacto da monocultura sobre a oferta de alimentos, a história tem a revelar que prática da monocultura latifundiária na área do Nordeste açucareiro acarretou uma série de problemas de desnutrição, em função da prioridade que era dada ao cultivo da cana, aproveitando qualquer espaço de terra, em detrimento do cultivo de frutas e legumes. Ao comentar sobre a substituição da policultura pela monocultura da cana, no período colonial, Castro (2008, p.111-112) descreve que: [...] a policultura iniciada tão promissoramente foi logo estancada pelo furor da monocultura da cana: as roças de mandioca abandonadas aos cuidados primitivos do indígena, sem o amparo e o interesse do colono, as plantações de laranja, de manga, de fruta-pão abandonadas à sua sorte ou apenas limitadas aos pequenos pomares em torno das casas-grandes dos engenhos, para regalo exclusivo da família branca do senhor. Concluindo que, diante da pressão de natureza econômica, índios, negros e colonos brancos e mestiços findaram por fixar sua alimentação em torno da farinha de mandioca e do 35 feijão, complexo de alimentação muito pobre, que levou o Nordeste à condição de uma das zonas de mais acentuada subalimentação do país. (CASTRO, 2008). Ao abordar as ações necessárias para o desafio do milênio de erradicação da fome e da pobreza extrema, Silva (2009, p. 107) reconhece o importante papel da AF na segurança alimentar defendendo que: Estamos diante de uma obrigação histórica e de uma urgência institucional, que não se confunde com a simples doação de comida a quem tem fome. Embora a ajuda emergencial seja necessária em muitos casos, é preciso, sobretudo, construir bases estáveis de políticas de longo prazo que permitam às famílias prover dignamente sua própria alimentação. O apoio ao crédito e a busca de maior eficiência da agricultura familiar são elos indissociáveis dessa cadeia, especialmente na realidade da América Latina e Caribe. Maluf (2009, p. 112), ao comentar sobre os desafios da Política Nacional de Abastecimento Alimentar (PAA), argumenta que: Nessa perspectiva, adquirem prioridade a oferta organizada da produção oriunda da agricultura familiar e o incentivo às melhorias em qualidade, capilaridade e regularidade desta produção, o aprimoramento das condições de inserção no mercado dos pequenos varejistas e o estímulo às redes solidárias de produção, processamento, distribuição e consumo baseadas em empreendimentos associativos. Corroborando a importância da AF no contexto da segurança alimentar, estudo da FAO demonstra que, durante a crise mundial de alimentos, o preço da cesta básica no mundo aumentou 63%, enquanto no Brasil não chegou a 20% devido à presença de uma AF estruturada. (BRASIL. Ministério..., 2010). Apesar de ocupar, relativamente à agricultura patronal, uma área menor de cultivo e pastagem, a agricultura familiar é a principal fornecedora de alimentos básicos para a população brasileira, a exemplo do feijão (70%), leite (58%), mandioca (87%), milho (46%), aves (50%) e suínos (59%). (BRASIL. Ministério..., 2010). No gráfico 5, é apresentada a contribuição da agricultura familiar à produção nacional de alimentos. 36 Gráfico 5 - Produção de Alimentos da Agricultura Familiar – Censo Demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) 2006 90% 80% 70% 60% 50% 40% 30% 20% 10% 0% Mandioca 87% Feijão 70% Milho 46% Café 38% Arroz 34% Fonte: (BRASIL. Ministério..., 2010) Trigo 21% Soja 16% Leite 58% Aves 50% Suínos 59% Bovinos 30% 4 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS 4.1 ÁREA ESTUDADA 4.1.1 Localização A Pesquisa foi realizada no município de Cabo de Santo Agostinho, mais especificamente no entorno da Vila Pirapama, integrante da Bacia Hidrográfica do Pirapama, no estado de Pernambuco, conforme figuras 1 e 2. O município de Cabo de Santo Agostinho está localizado na mesorregião Metropolitana e na Microrregião Suape do Estado de Pernambuco, limitando-se ao norte com Moreno e Jaboatão dos Guararapes, ao sul com Ipojuca e Escada, a leste com o Oceano Atlântico e a oeste com Vitória de Santo Antão. A área municipal ocupa 446,5 Km2 tendo a sede do município uma altitude aproximada de 29 metros e coordenadas geográficas 08º 17’ 15’’ de latitude sul e 35º 02’ 00’’ de longitude oeste, distando 33,6 Km da capital. (BRASIL, 2005). Figura 1- Brasil Figura 2 - Cabo de Santo Agostinho - PE Fonte: http://maps.google.com.br/ Fonte: http://maps.google.com.br/ 4.1.2 Relevo O município apresenta, de modo geral, dois conjuntos distintos de relevo: o relevo ondulado, formado por morros e colinas, com declividades acentuadas, ocupando mais de 38 80% da área do município; e o relevo semi-plano, onde predominam as áreas baixas, localizadas na porção leste do município, englobando a área de planície flúvio-costeira, os tabuleiros e os terraços. (BRASIL, 1999). 4.1.3 Dados Demográficos De acordo com o censo 2010 do IBGE, a população residente total do município é de 185.123 habitantes, sendo 167.830 (90,65%) na zona urbana e 17.293 (9,35%) na zona rural. Os habitantes do sexo masculino totalizam 90.887 (49,1%) enquanto que do feminino totalizam 94.236 (50,9%) resultando em uma densidade demográfica de 414,60 hab./Km2. (IBGE, 2010). 4.1.4 A Bacia do Pirapama De acordo com mapeamento realizado pela Companhia Pernambucana do Meio Ambiente (CPRH) para fins de elaboração da agenda 21da Bacia do Pirapama, esta foi subdivida em cinco zonas, a saber, Costeira, de Proteção Ambiental e Ecossistemas Integrados, Urbana, Industrial e Rural Diversificada. (PERNAMBUCO, 2000). A Vila Pirapama situa-se na zona Urbana, cujas características serão a seguir discriminadas em função de fatores físicos essenciais para a prática da agricultura bem como de fatores sócioeconômicos capazes de impactar na reprodução dessa atividade. 4.1.4.1 Zona Urbana da Bacia do Pirapama – Aspectos Físicos e Sócio-econômicos Esta zona compreende áreas urbanas de baixo padrão, carentes ou precárias em infraestrutura, sendo constituída pelos núcleos urbanos de Charneca, Chamequinha, as vilas Pirapama, Comportas e assentamentos urbanos carentes no entorno da lagoa Olho d’Água. Os principais problemas que afetam essas áreas dizem respeito a: a) Ausência de infra-estrutura de saneamento básico; b) Precárias condições das vias públicas; c) Precariedade das condições de habitação; d) Condição fundiária urbana irregular; e) Carência de espaços verdes e de lazer. 39 Dentre as potencialidades da zona urbana destacam-se os grandes contingentes de baixa renda, que tem desenvolvido estratégias de sobrevivência em função do ambiente urbano. As limitações verificam-se na dificuldade de expansão da área devido a diversos fatores adversos à ocupação tais como topografia desfavorável, áreas alagadas e alagáveis, ecossistemas protegidos por lei e escassez de espaços disponíveis para expansão. (PERNAMBUCO, 2000). 4.1.4.2 A Produção Agrícola A produção da lavoura permanente1 no ano de 2009, no município de Cabo de Santo Agostinho teve nas culturas de banana e coco-da-baía sua maior representatividade, ocupando respectivamente as áreas de 500 ha e 100 ha de um total de 670 ha destinados a esse tipo de lavoura, conforme demonstrado na tabela a seguir: Tabela 1 – Lavoura permanente no município de Cabo de Santo Agostinho – 2009 Cultura Produção Área plantada Área colhida Rendimento médio Banana 2.500 t 500 ha 500 ha 5 t / ha 2.000.000 frutos 100 ha 100 ha 20.000 frutos / ha Goiaba 60 t 20 ha 20 ha 3 t / ha Laranja 25 t 10 ha 10 ha 2,5 t / ha Limão 50 t 10 ha 10 ha 5 t / ha Manga 90 t 20 ha 20 ha 4,5 t / ha Maracujá 60 t 10 ha 10 ha 6 t / ha Coco-da-baía Fonte: www.ibge.gov.br/cidadesat Já na lavoura temporária 2 do município, no ano de 2009, destaca-se a cultura de cana de açúcar, apresentando a maior produção bem como a maior produtividade. De um total de 3.457 ha utilizados para esse tipo de lavoura, 93,92% foi ocupado pela monocultura da cana de açúcar, conforme está demonstrado na tabela a seguir. 1 Lavouras permanentes- Compreendeu a área plantada ou em preparo para o plantio de culturas de longa duração, que após a colheita não necessitassem de novo plantio, produzindo por vários anos sucessivos. (BRASIL, 2011). 2 Lavouras temporárias- Abrangem as áreas plantadas ou em preparo para o plantio de culturas de curta duração (via de regra, menor que um ano) e que necessitam, geralmente, de novo plantio após cada colheita. (BRASIL, 2011). 40 Tabela 2 – Lavoura temporária no município de Cabo de Santo Agostinho – 2009 Cultura Batata doce Cana de açúcar Mandioca Produção Área plantada Área colhida Rendimento médio 150 t 10 ha 10 ha 15 t / ha 194.820 t 3.247 ha 3.247 ha 60 t / ha 320 t 200 ha 200 ha 1,6 t / ha Fonte: www.ibge.gov.br/cidadesat 4.2 DELINEAMENTO DE PESQUISA Para a realização dessa pesquisa, utilizou-se o delineamento estudo de caso, com objetivos descritivos e avaliativos, valendo-se da documentação direta por meio da pesquisa de campo quali-quantitativa. Para operacionalização da pesquisa, foram utilizadas técnicas de entrevista, por meio da aplicação de questionário semi-estruturado, e a observação assistemática. Ao traçar um paralelo com outras modalidades de pesquisa, a exemplo do experimento e do levantamento, Gil (2009, p. 10) revela que: “O estudo de caso apresenta interfaces com os outros delineamentos. O estudo de caso vale-se tanto da observação e da interrogação quanto da documentação para coleta de dados”. De acordo com Marconi (2008), a documentação direta consiste, de modo geral, no levantamento de dados no próprio local onde os fenômenos ocorrem. Campo de pesquisa é aqui entendido como, de acordo com Minayo (1992 apud NETO, 2000, p. 53), “o recorte que o pesquisador faz em termos de espaço, representando uma realidade empírica a ser estudada a partir das concepções teóricas que fundamentam o objeto de investigação”. Marconi (2008, p. 69) define pesquisa de campo como “Observação de fatos e fenômenos tal como ocorrem espontaneamente, na coleta de dados a eles referentes e no registro de variáveis que se presume relevantes para analisa-los”. Ainda segundo Marconi (2008, p. 77), a observação é uma técnica de investigação utilizada na pesquisa de campo consistindo a observação assistemática em “recolher e registrar os fatos da realidade sem que o pesquisador utilize meios técnicos especiais ou precise fazer perguntas diretas”. O questionário aplicado contém 39 perguntas e está subdividido em quatro partes, sendo elas: perfil do produtor, contendo três perguntas abertas; aspectos econômicos, com dezessete 41 perguntas, sendo onze perguntas abertas e seis perguntas fechadas; aspectos ambientais, com dez perguntas, sendo três perguntas abertas e sete do tipo fechada e aspectos sociais, com nove perguntas, sendo sete perguntas fechadas e duas abertas. Ao longo da entrevista, foram anotadas, no próprio questionário, em espaço à parte, todas as observações e comentários que complementavam as respostas e possuíam caráter revelador da percepção do agricultor referente a sua atividade e realidade social: sentimentos de realização, frustrações, aspirações, descontentamentos, desejos etc. Estando a questão da sustentabilidade referenciada por um conceito ainda incipiente, que orienta sua reflexão e aplicação em nível local, valorizando especificidades regionais, foi utilizado, como forma de aferir a sustentabilidade da AF dos integrantes da Associação Vanguarda, um indicador engendrado especificamente para os procedimentos dessa pesquisa, com fins de permitir a parametrização dos aspectos ambiental, social e econômico presentes na realidade cotidiana dos agricultores sob investigação. De acordo com Richardson (2009, p. 19), “a definição de um conceito refere-se às operações (instrumentos, medições ou códigos) realizadas para medir a presença ou ausência do fenômeno simbolizado por dito conceito”. Ao descrever os critérios necessários para assegurar rigor científico aos resultados de estudo de caso, Gil (2009, p. 34) esclarece que: “Com frequência, o pesquisador precisa valer-se de artifícios, como, por exemplo, a seleção de indicadores e sua combinação na construção de escalas que de alguma forma possibilitem a mensuração do fenômeno”. 4.2.1 Abordagem Epistemológica A despeito da utilização de um indicador para aferir o grau de sustentabilidade da AF dos agricultores da Associação Vanguarda e da apropriação de um conceito de agricultura sustentável como referencial teórico, o que pode sugerir o emprego de uma perspectiva epistemológica positivista na condução desse trabalho, privilegiou-se uma abordagem de cunho interpretativista, visando a uma coerência com o elemento objeto da pesquisa: o agricultor familiar enquanto ser social sensível, afetivo, valorativo e opinativo. Ressalte-se que a apropriação de um conceito amplamente divulgado e aceito de agricultura sustentável, bem como o uso de um indicador de sustentabilidade, prestaram apenas como meio, não sendo o objetivo dessa pesquisa a validação de um conceito de agricultura sustentável ou a generalização das conclusões obtidas, mas a avaliação do fenômeno da sustentabilidade da agricultura praticada por determinado grupo social em um contexto específico. 42 De acordo com Gil (2009, p. 30), Os interpretativistas propõem a adoção de métodos e técnicas de pesquisa social que diferem significativamente dos adotados na pesquisa no campo das ciências naturais. Assim, os procedimentos sugeridos pelos interpretativistas privilegiam mais a qualidade do que a quantidade. Voltam-se mais para a compreensão dos significados atribuídos pelos indivíduos que propriamente para a explicação causal. Também atribuem ao contexto um papel determinante na constituição dos fenômenos sociais. Dessa forma, ao longo das entrevistas, não foram coletadas apenas as respostas qualiquantitativas constantes no questionário, mas, também, os dados trazidos à luz em momentos de espontaneidade do entrevistado, e, por isso mesmo, reveladores de sua autêntica realidade. Segundo Asti-Vera (apud COLTRO, 2011) “a objetividade da ciência do homem é uma objetividade diferente: os seres humanos não são simples reações. Em síntese, a relação básica neste caso, não é de sujeito-objeto, mas de sujeito-sujeito”. Os questionários foram aplicados nos dias 17/04/11, 12/06/11, 17/07/11 e 23/07/11, em visitas realizadas à propriedade do agricultor, o que proporcionou a coleta de dados no local de trabalho do entrevistado e observação direta de aspectos não relacionados no questionário. 4.2.2 Tratamento dos Dados 4.2.2.1 O Indicador de Sustentabilidade Segundo FERRAZ (2003, p. 43), a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OECD) define indicador como “um parâmetro, ou valor derivado de parâmetros, que indica, fornece informações ou descreve o estado de um fenômeno/área/ambiente, com maior significado que apenas aquele relacionado diretamente ao seu valor quantitativo”. A despeito da incipiência do debate sobre indicadores de sustentabilidade, foi elaborado, especificamente para análise dos dados coletados nesse trabalho, um indicador com fins de aferir o grau de sustentabilidade da agricultura praticada pelos produtores da Associação Vanguarda. Masera et al. (2000 apud COSTA, 2010, p. 77), avaliando o alcance de aplicação dos indicadores de sustentabilidade, argumenta que: [...] muitos destes indicadores têm sido concebidos para aplicação à escala nacional ou macro-regional, dificultando sua aplicação no contexto local, enquanto que, noutros estudos, têm sido desenhado indicadores para projectos muito específicos, limitando sua replicabilidade. 43 Diante das várias metodologias existentes para avaliação da sustentabilidade, mais especificamente no meio rural, optou-se pela construção de um indicador que abarcasse as três variáveis mais frequentemente encontradas nos conceitos de sustentabilidade, a saber, econômica, ambiental e social. Corroborando essa ideia, Bouni (1996 apud SICHE et al. 2007, p. 142) argumenta que “a sustentabilidade é determinada por um conjunto de fatores (econômicos, sociais e ambientais), e todos devem ser contemplados no cálculo do índice de sustentabilidade através dos correspondentes indicadores”. Bellen (2006, p. 45), analisando a relação entre indicador e realidade, argumenta que “os indicadores são de fato um modelo da realidade, mas não podem ser considerados a própria realidade, entretanto devem ser construídos dentro de uma metodologia coerente de mensuração”. Dessa forma, buscou-se alinhar o indicador aos elementos característicos da agricultura sustentável a seguir discriminados, citados na versão final do documento Agricultura Sustentável, o qual serviu de referência para a formulação da agenda 21 brasileira, elaborado pelo Ministério do Meio Ambiente: a) O mínimo de impactos adversos ao ambiente; b) Retorno adequado aos produtores; c) Otimização da produção com um mínimo de insumos externos; d) Satisfação das necessidades humanas de alimentos e renda; e) Atendimento às demandas sociais das famílias e das comunidades rurais; f) A manutenção, a longo prazo, dos recursos naturais e da produtividade agrícola. Ehlers (2009, p. 65), analisando as diversas definições para agricultura sustentável, ratifica esses atributos ao afirmar que: Em suma, quase todas associam a sustentabilidade aos seguintes critérios: manutenção a longo prazo dos recursos naturais e da produtividade agrícola; mínimo de impactos adversos ao ambiente; retorno adequado aos produtores; otimização da produção das culturas com o mínimo de insumos químicos; satisfação das necessidades humanas de alimentos; e atendimento das necessidades sociais das famílias e das comunidades rurais. Adicionando que: No que se refere às práticas agrícolas, grande parte das definições inclui a redução do uso de agrotóxicos e de fertilizantes solúveis; o aproveitamento da biomassa; o 44 controle da erosão dos solos; a diversificação e a rotação de culturas; a integração da produção animal e vegetal; a busca de novas fontes de energia, entre outras práticas. A seguir, no quadro 3, é demonstrado como as perguntas do formulário de pesquisa cujas respostas subsidiaram a composição do indicador de sustentabilidade buscaram identificar as características acima descritas de agricultura sustentável. Quadro 3 – Perguntas do formulário de pesquisa e sua relação com as características da agricultura sustentável Característica da agricultura sustentável Pergunta constante no formulário de pesquisa O mínimo de impactos adversos ao ambiente Utiliza algum produto para fazer o roçado? Utiliza agrotóxico? Utiliza queimada para roçar a terra? Retorno adequado aos produtores Que preço foi obtido na última safra? Qual o total de suas despesas na produção? Otimização da produção com um mínimo de insumos Compra adubos e defensivos agrícolas no externos mercado? Quais utensílios/equipamentos utiliza na produção? Satisfação das necessidades humanas de alimentos e Quantos itens produz? renda O percentual não comercializado destinou-se a: ( ) consumo ( )ração p/criação ( ) outros. especificar Atendimento às demandas sociais das famílias e Comercializa alguma cultura na feira livre? das comunidades rurais Manutenção, a longo prazo, dos recursos naturais e Utiliza alguma técnica de descanso do solo? da produtividade agrícola Já pensou em abandonar a agricultura? Utiliza rotação de culturas? Possui assistência técnica? Considera que os filhos vão dar continuidade ao trabalho na agricultura? Fonte: Agricultores da Associação Vanguarda e Agenda 21 brasileira 45 O indicador utilizado foi construído, pois, com base em um sistema de pontuação onde as respostas às perguntas do questionário de pesquisa relacionadas às três dimensões ambiental, social e econômica são valoradas com 0 (zero) ou 1 (um) conforme a resposta indicar uma ação ou aspecto não sustentável ou sustentável, respectivamente, conforme apresentado no quadro 4 a seguir, apenas a título de exemplo: Quadro 4 – Indicador de sustentabilidade da agricultura dos produtores da Associação Vanguarda Indicador Agricultor 1 Econômico Renda ≥ 510,00 Consome o que produz Possui renda fora da agricultura Pontuação Ambiental Produz adubo orgânico na propriedade Diversidade de cultura Possui assistência técnica Descanso do solo Rotação de culturas Pratica queimada Utiliza químico para desmatar Utiliza agrotóxico Pontuação Social Terra própria Já pensou em abandonar agricultura Considera continuidade dos filhos Pontuação Resposta Valor SIM SIM SIM 1 1 0 2 NÃO SIM NÃO NÃO SIM NÃO NÃO SIM 0 1 0 0 1 1 1 0 4 SIM NÃO NÃO 1 1 0 2 Fonte: O autor, José Aderson Gonçalves de Brito. 4.2.2.2 Aferição de Sustentabilidade Para fins dessa pesquisa, a atividade agrícola dos integrantes da Associação Vanguarda foi considerada sustentável desde que atingisse uma pontuação mínima (tabela 3) de: a) Dois pontos no aspecto econômico; 46 b) 50% (cinquenta por cento) da pontuação máxima possível no pilar ambiental; c) Dois pontos no aspecto social. Tabela 3 - Pontuação mínima para caracterizar agricultura sustentável Pilar Pontuação máxima Pontuação mínima Econômico 3 2 Ambiental 8 4 Social 3 2 Fonte: O autor, José Aderson Gonçalves de Brito. Assim, o resultado sustentável ou não sustentável foi aferido baseado em ferramenta de cálculo elaborado em planilha Excel, de forma que, uma vez atingida a pontuação mínima em cada aspecto, conforme quadro 5, a agricultura foi considerada sustentável, de acordo com o ilustrado, apenas a título de exemplo, nos quadros 5 e 6. Quadro 5 - Tratamento dos dados – Aferição de sustentabilidade da agricultura – Exemplo de resultado sustentável continua Aferição da Sustentabilidade Agricultor 2 Econômico Renda ≥ 510,00 Consome o que produz Possui renda fora da agricultura Pontuação Ambiental Produz adubo orgânico na propriedade Diversidade de cultura Possui assistência técnica Descanso do solo Rotação de culturas Pratica queimada Utiliza químico para desmatar Utiliza agrotóxico Pontuação Resposta Valor SIM SIM SIM 1 1 0 2 NÃO SIM NÃO NÃO SIM NÃO NÃO SIM 0 1 0 0 1 1 1 0 4 47 conclusão Aferição da Sustentabilidade Agricultor 2 Social Terra própria Já pensou em abandonar agricultura Considera continuidade dos filhos Pontuação SUSTENTÁVEL Fonte: O autor, José Aderson Gonçalves de Brito. Resposta Valor SIM NÃO NÃO 1 1 0 2 Quadro 6 - Tratamento dos dados – Aferição de sustentabilidade da agricultura – Exemplo de resultado não sustentável Aferição da Sustentabilidade Agricultor 3 Econômico Renda ≥ 510,00 Consome o que produz Possui renda fora da agricultura Pontuação Ambiental Produz adubo orgânico na propriedade Diversidade de cultura Possui assistência técnica Descanso do solo Rotação de culturas Pratica queimada Utiliza químico para desmatar Utiliza agrotóxico Pontuação Social Terra própria Já pensou em abandonar agricultura Considera continuidade dos filhos Pontuação NÃO SUSTENTÁVEL Fonte: O autor, José Aderson Gonçalves de Brito. Resposta Valor SIM SIM SIM 1 1 0 2 NÃO SIM NÃO NÃO SIM NÃO SIM SIM 0 1 0 0 1 1 0 0 3 SIM NÃO NÃO 1 1 0 2 48 4.2.2.3 Aspecto Econômico: Cálculo da Renda e Valor Escolhido como Ponto de Corte No aspecto econômico, foi considerada a renda como uma das variáveis balizadoras da sustentabilidade da agricultura porquanto representar a capacidade de poder aquisitivo da família para arcar com despesas domésticas bem como eventual necessidade de investimento na atividade agrícola. Escolheu-se o valor do salário mínimo vigente no ano de 2010, tendo em vista que a pesquisa contemplou o plano safra 2009/2010 e ainda o seu pretenso poder de compra vislumbrado na Constituição Federal do país, no capítulo II, artigo 7º, item IV, dos Direitos Sociais: Art. 7º São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem à melhoria de sua condição social: [...] IV - salário mínimo , fixado em lei, nacionalmente unificado, capaz de atender a suas necessidades vitais básicas e às de sua família com moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social, com reajustes periódicos que lhe preservem o poder aquisitivo, sendo vedada sua vinculação para qualquer fim;[...] (BRASIL, 1988) O dado referente à renda do agricultor foi obtido de forma indireta, isto é, perguntou-se sua produção em Kg na safra 2009/2010, multiplicando-se esse dado por seu valor respectivo, constante na tabela de preços da CONAB válido para o ano de 2010, deduzindo-se a despesa durante a safra e o empréstimo PRONAF, adicionando-se a receita obtida na feira-livre. Evitou-se perguntar diretamente a receita obtida na safra 2009/2010 com fins de evitar distorções deliberadas para maior, atitude presumível e compreensível em se tratando de um tema tão caro aos brios do homem inserido em um contexto marcado fortemente pelos valores da ideologia capitalista: sucesso, status social, acúmulo de bens materiais, poder aquisitivo etc. Dessa forma, para cálculo da renda média mensal de cada produtor, foi utilizada a seguinte fórmula: RMM = (P x Vconab – D - E)/12 + R Onde: RMM = Receita média mensal P = Produção em Kg Vconab = Valor pago pela Conab por Kg D = Despesas na produção 49 R = Receita mensal obtida com culturas diversas E = Empréstimo PRONAF A receita obtida com culturas diversas (R), não foi deduzida de despesas na produção (D). Foi considerado o fato de que são culturas cujo plantio é direcionado mais para o consumo da família, havendo a comercialização de apenas um pequeno excedente na feiralivre local, ao contrário das culturas financiadas pelo PRONAF ou com recursos próprios, cuja produção excede em muito o necessário para a subsistência familiar e é destinada prioritariamente à comercialização. Não foram contabilizadas no cálculo da receita média mensal as rendas auferidas fora da atividade agrícola. Segundo Schneider et al (2006, p. 138), “A noção de pluriatividade tem sido usada como recurso pelos pesquisadores para analisar e explicar o processo de diversificação do trabalho que ocorre no âmbito das unidades familiares de produção”. Ao comentar sobre a importância da pluriatividade no incremento de renda do agricultor camponês, Ploeg (2008, p. 49) explica que: “A pluriatividade é uma forma de suplemento de renda, mas muitas vezes ela serve também para obter fundos que permitem aos camponeses investir na compra de combustíveis, bombas de irrigação, sementes, fertilizantes, bois, tratores e/ou alimentação da família”. Não obstante a presença cada vez maior da pluriatividade no meio rural, optou-se por esse cálculo visando a identificar a possibilidade de geração de renda a partir unicamente da atividade agrícola, aferindo com maior precisão, dessa forma, a sustentabilidade econômica da agricultura familiar sem o apoio de outras formas de renda. 4.2.2.4 Aspecto Ambiental: A Diversidade de Cultura O Ministério do Meio Ambiente (BRASIL, 2000, p. 75), ao abordar a diversificação dos sistemas produtivos, argumenta que: O estímulo à diversificação dos sistemas produtivos goza de plena unanimidade entre aqueles que se preocupam com a sustentabilidade da agricultura. Provavelmente, o padrão sustentável substituirá em larga escala os sistemas simplificados ou monoculturais por outros diversificados, que permitam ainda integrar a produção animal e vegetal. Nessa pesquisa, com fins de aferição de sustentabilidade, foi considerada uma agricultura diversificada aquela que cultiva duas ou mais culturas. De acordo com Ehlers 50 (2009, p. 68), “existem diferentes meios de se promover a diversificação de um agroecossistema, desde a simples consorciação entre duas culturas até os complexos sistemas de agrossilvicultura.” 4.2.2.5 Aspecto Ambiental: O Uso de Agrotóxico Evitou-se formular uma pergunta direta para fins de identificar o uso de agrotóxico pelo agricultor da Associação Vanguarda. Essa forma de abordagem poderia falsear a resposta do entrevistado considerando que ao agrotóxico vem sendo associado, por diversas mídias formadoras de opinião, ao longo dos últimos anos, um desempenho nocivo ao meio ambiente e à saúde humana. Valendo-se da pergunta, “Compra adubos e defensivos agrícolas no mercado?” com as opções de resposta “Todos”, “Uma parte” e “Produz tudo”, foi possível identificar inclusive as marcas utilizadas por meio da pergunta seguinte “Se todos/uma parte, quais?” 4.2.2.6 A Propriedade da Terra Sendo a base de sua estrutura econômica e social, porquanto dela retirando seu sustento, quer por meio da venda de seu produto, quer por meio de subsistência, e nela edificando sua habitação e lar, a terra é o espaço onde o agricultor familiar realiza-se nos aspectos profissional, afetivo, social e cultural, representando, por isso, sob sua perspectiva, um valor diferente do valor monetário ou de troca com que os imóveis normalmente são avaliados no mercado. Ao abordar a administração dos recursos disponíveis nos estabelecimentos familiares agrícolas holandeses e o distanciamento estratégico desses em relação aos mercados, Ploeg (2008) argumenta que: “Estes recursos, e especialmente a terra, que representa um valor extremamente elevado, caso seja vendida, não funcionam necessariamente como capital, no sentido clássico do termo.” Não possuir a terra que cultiva pode implicar a suspensão abrupta da atividade agrícola por motivos vários, cuja solução está fora do alcance do produtor rural como, a título de exemplo, a elevação do preço do arrendamento da terra ou sua exigência legal, motivada por terceiros que se proclamem legítimos proprietários. 51 A usurpação de terras cultivadas e habitadas durante muitos anos por famílias que sobrevivem da agricultura é possível mesmo por indivíduos vinculados ao poder público, numa espécie de reforma agrária às avessas, por meio de decretos governamentais questionáveis e aquiescência do Poder Judiciário, beneficiando grandes produtores rurais. (FORTES, 2009). Para os fins dessa pesquisa, foi considerado como proprietário da terra aquele que detém a posse de direito da mesma, incluindo aí os que habitam e cultivam as terras pertencentes aos pais por cessão, sem a necessidade de uma contrapartida em moeda ou parcela de produção. 4.3 A AMOSTRA Foram entrevistados trinta e cinco agricultores familiares de um total de sessenta integrantes do quadro de associados da Associação Vanguarda, localizada no munícipio do Cabo de Santo Agostinho, representando, portanto 58,33% do conjunto universo da amostra. 4.4 CONSIDERAÇÕES ÉTICAS Durante a pesquisa foi utilizado o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, o qual foi assinado em duas vias, sendo uma delas entregue ao entrevistado com assinatura do pesquisador. 5 RESULTADOS E DISCUSSÃO Os estudos sobre Agricultura Familiar da Vila Pirapama foram levantados a partir dos dados levantados junto aos 35 agricultores locais que forneceram importantes subsídios para esta pesquisa. 5.1 A IDADE DO AGRICULTOR FAMILIAR DA ASSOCIAÇÃO VANGUARDA A média de idade do agricultor familiar da Associação Vanguarda é de 45 anos e três meses. A ausência de um perfil mais jovem pode ser explicado pelo contato dos filhos de agricultores com novas oportunidades de trabalho, a exemplo das ofertas de emprego geradas com a implantação do complexo industrial de Suape. Pesa ainda, na escolha dos jovens, conforme veremos mais adiante ao abordar a sustentabilidade da agricultura no horizonte de tempo, o desinteresse por uma atividade, na opinião dos pais agricultores, física e moralmente desgastante, porquanto difícil a lida contra os imprevistos da natureza e desestimulante a falta de apoio do Estado. A maioria dos agricultores, 34,29%, situam-se na faixa etária entre mais de 35 anos e 45 anos, sendo que 25,71% possuem até 35 anos, 14,29% situam-se na faixa entre mais de 45 anos e 55 anos, 14,29% entre mais de 55 e 65 anos e apenas 11,42% possuem mais de 65 anos, conforme demonstrado no gráfico 6. Gráfico 6 – Idade do agricultor familiar da Associação Vanguarda Menos de 35 + 35 a 45 + 45 a 55 + 55 a 65 Fonte: Agricultores da Associação Vanguarda Mais de 65 53 Conforme apresentado no gráfico 7, a pesquisa revelou ainda que os agricultores familiares iniciaram cedo na atividade da agricultura, contribuindo com sua mão de obra para o sustento da família a partir de uma idade média de 13 anos e 7 meses de idade, sendo que 28,57% dos entrevistados iniciaram na atividade agrícola com idade até 8 anos, 42,86% com idade entre mais de 8 anos e 16 anos, 20% entre mais de 16 anos e 24 anos, 5,71% entre 25 e 32 anos e apenas 2,86% com mais de 32 anos de idade. Gráfico 7 – O agricultor da Associação Vanguarda e a idade com que iniciou na agricultura Até 8 +8 a 16 +16 a 24 +24 a 32 +32 Fonte: Agricultores da Associação Vanguarda Outro dado obtido diz respeito à experiência do agricultor da Associação Vanguarda. Consequência direta do início precoce na atividade agrícola, a pesquisa revelou que agricultores experientes, com mais de 15 anos exercendo a atividade, eram a maioria, sendo que 20% dos entrevistados possuem até 15 anos de experiência, 34% detém entre mais de 15 anos e 30 anos de experiência, 26% detém entre mais de 30 anos e 45 anos de experiência, 14% detém entre mais de 45 anos e 60 anos de experiência e 6% ingressaram na agricultura há mais de 60 anos, conforme exposto no gráfico 8. 54 Gráfico 8 – O tempo de experiência profissional do agricultor da Associação Vanguarda Até 15 +15 a 30 +30 a 45 +45 a 60 Mais de 60 Fonte: Agricultores da Associação Vanguarda 5.2 A ÁREA DA TERRA O tamanho médio do estabelecimento familiar do produtor da Associação Vanguarda é de 6,42 ha, menor que a área média de 9,30 ha dos estabelecimentos familiares do estado de Pernambuco divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2006) no Censo Agropecuário de 2006 (área total de 2.567.070 ha para 275.740 estabelecimentos). A pesquisa revelou que 37,14% dos estabelecimentos possuem até 4 ha, 31,43% entre mais de 4 ha e 8 ha, 22,85% entre mais de 8 ha e 12 ha, 2,86 % entre mais de 12 ha e 16 ha e 2,86% e mais de 16 ha. Apenas 1 agricultor, representando 2,86% dos entrevistados não soube precisar o tamanho de sua propriedade, conforme ilustrado a seguir no gráfico 9. 55 Gráfico 9 – Área em ha da propriedade do agricultor familiar da Associação Vanguarda Até 4 +4a8 + 8 a 12 + 12 a 16 + 16 Não responderam Fonte: Agricultores da Associação Vanguarda 5.3 A DIVERSIDADE DE CULTURAS No que diz respeito à quantidade de culturas cultivadas (gráfico 10), há uma grande diversidade. A pesquisa revelou que o agricultor familiar da Associação Vanguarda produz, em média, 11,19 culturas. Ainda segundo a pesquisa, apenas 2,86% dos agricultores cultivam até 5 culturas enquanto 37,14% cultivam de 6 a 10 culturas, 54,29% de 11 a 15 culturas e 5,71% de 16 a 20 culturas. A importância de uma agricultura diversificada para o meio ambiente reside no fato de que, quanto maior o número de espécies em um agroecossistema, maior será sua estabilidade, porquanto agroecossistemas diversificados tendem a absorver com maior facilidade as perturbações externas, uma vez que os impactos são dissipados entre seus vários componentes. (EHLERS, 2009). Bianchini (20--, p. 11), ao considerar a diversidade como uma característica inerente à AF, afirmar que: “A maior diversidade de cultivos na agricultura familiar se deve à busca de diferentes rendas distribuídas ao longo do ano, a busca do autoconsumo alimentar, a redução de riscos e a busca de uma menor dependência de insumos externos”. Dentre as culturas plantadas pelos produtores familiares da Associação Vanguarda, destacam-se a banana comprida, cultivada por 91,43% dos agricultores entrevistados, seguida pela macaxeira, 82,86%, o inhame, 80,00% e o coco verde, 74,29%. 56 Gráfico 10 – Quantidade de culturas desenvolvidas pelo agricultor familiar da Associação Vanguarda Até 5 +5 a 10 +10 a 15 +15 Fonte: Agricultores da Associação Vanguarda Indagados sobre se havia alguma cultura que desejariam cultivar, 57,14% dos entrevistados responderam que sim. Na tabela abaixo estão relacionadas as culturas mencionadas bem como as respostas dadas à pergunta seguinte do questionário “Por que não cultiva?”. Tabela 4 – Pretensões de cultivo do agricultor da Associação Vanguarda Cultura Produtores Porque não cultiva Muito trabalhoso, demandando muito tempo para Hortaliças 7 manutenção; falta de assistência técnica; ocorrência de pragas. Inhame da costa 5 Semente muito cara. Maracujá 3 Custos de cultivo elevados. Sapoti 1 Enxerto caro. Abacaxi 1 Espaço insuficiente: possui área de proteção ambiental na propriedade. Mamão 1 Custos elevados Alho 1 Semente muito cara. Graviola 1 Custos de cultivo elevados. Fonte: Agricultores da Associação Vanguarda 57 5.4 A ASSISTÊNCIA TÉCNICA Para a pergunta “Possui assistência técnica?”, 88,57% dos entrevistados responderam “não” e apenas 11,43% responderam “sim”, conforme pode ser visualizado no gráfico 11. A totalidade dos agricultores que responderam “não” alegou que jamais recebeu qualquer tipo de visita de um agrônomo ou técnico agrícola. Gráfico 11 – Agricultores familiares da Associação Vanguarda e a assistência técnica Não possui assistência técnica Possui assistência técnica Fonte: Agricultores da Associação Vanguarda O número de agricultores que não receberam assistência técnica revela um aspecto contraditório considerando que 54,83% dos produtores que não receberam assistência técnica financiaram parte de sua produção pelo PRONAF, Decreto nº 1.946, programa que contempla, em seu artigo segundo, parágrafo segundo: § 2° As ações do Programa orientar-se-ão pelas seguintes diretrizes: [...] b) proporcionar o aprimoramento das tecnologias empregadas, mediante estímulos à pesquisa, desenvolvimento e difusão de técnicas adequadas à agricultura familiar, com vistas ao aumento da produtividade do trabalho agrícola, conjugado com a proteção do meio ambiente; c) fomentar o aprimoramento profissional do agricultor familiar, proporcionando-lhe novos padrões tecnológicos e gerenciais; [...] (BRASIL, 1996). Em seu artigo sexto, o programa prevê a assistência creditícia ao agricultor familiar em conjunto com a assistência técnica: Art. 6° O financiamento da produção dos agricultores familiares e de suas organizações será efetuado pelos agentes financeiros, no âmbito do PRONAF, 58 segundo normas específicas a serem estabelecidas para esse fim nas instâncias competentes e de modo a atender adequadamente às características próprias desse segmento produtivo, contemplando, inclusive, a assistência técnica. (BRASIL, 1996). No entanto, os dados sobre assistência técnica dos agricultores da Associação Vanguarda mostram-se compatíveis com os dados nacionais divulgados pelo censo agropecuário brasileiro de 1996 onde 16,7% dos estabelecimentos familiares brasileiros recebem assistência técnica, sendo que esse percentual é ainda menor, apenas 2,7%, quando observada somente a região Nordeste. (BRASIL, 2000). 5.5 O SOLO Segundo Ministério do Meio Ambiente (2000, p. 75), ao indicar soluções para a prática de uma agricultura sustentável, “as rotações de culturas são um excelente meio de se manter a estabilidade de um agroecossistema, pois reduzem, de forma drástica, o risco de infestação de pragas e de certas doenças”. Além disso, os sistemas rotacionais contribuem para reduzir a erosão e melhorar a fertilidade do solo, devido à manutenção de sua estrutura física e ao retorno da matéria orgânica ao solo. (BRASIL, 2000, p. 73). Já ao abordar a queima dos canaviais e seus impactos nocivos ao meio ambiente, o Ministério do meio Ambiente (2000) defende que “além de destruir a microbiota, as queimadas diminuem a umidade e a porosidade dos solos, aumentando a compactação e, consequentemente a erosão”. De acordo com Ehlers (2009, p. 69), “a tendência de algumas culturas de exaurir o solo é contrabalançada por meio do cultivo intercalado de outras espécies que enriquecem o solo com matéria orgânica”. No que diz respeito ao solo e sua importância para a sustentabilidade da atividade agrícola, foram elaboradas quatro perguntas aos produtores, quais sejam: a) Utiliza rotação de culturas? b) Utiliza descanso do solo? c) Pratica queimada para fazer o roçado? d) Utiliza algum produto para fazer o roçado? 59 Para a pergunta “Utiliza alguma técnica de descanso do solo?”, 71% dos entrevistados responderam que passam períodos de tempo sem cultivar parte da terra, sendo que, em alguns casos, por até um ano, e 29% responderam que não praticam o pousio, conforme exposto no gráfico 12. Gráfico 12 – O agricultor da Associação Vanguarda e a utilização da técnica do pousio Praticam pousio Não praticam pousio Fonte: Agricultores da Associação Vanguarda Referente à pergunta “Utiliza rotação de culturas?”, 86% dos entrevistados responderam que sim e 14% responderam que não, conforme ilustração do gráfico 13. Gráfico 13 – O agricultor da Associação Vanguarda e a técnica de rotação de culturas Utilizam rotação de culturas Não utilizam rotação de culturas Fonte: Agricultores da Associação Vanguarda 60 Já para a pergunta “Utiliza algum produto para fazer o roçado?”, 43% dos entrevistados responderam que sim e 57% responderam que não utilizam produtos para desmatar a terra (gráfico 14). A totalidade dos que responderam ‘sim’ utilizam a marca RoundUp da fabricante Scotts Miracle-Gro e a totalidade dos que responderam ‘não’ costumam roçar a terra apenas com a enxada e estrovenga. Gráfico 14 – O agricultor da Associação Vanguarda e a utilização de produto para desmatar a terra para fazer o roçado Utilizam produto Roçam apenas com enxada e estrovenga Fonte: Agricultores da Associação Vanguarda Indagados sobre a utilização de queimadas para roçar a terra, 46% dos entrevistados afirmaram adotar a prática e 54% responderam que não (gráfico 15). Gráfico 15 – O agricultor da Associação Vanguarda e a utilização de queimada para roçar a terra Utilizam queimada Não utilizam queimada Fonte: Agricultores da Associação Vanguarda 61 5.6 A TERRA Indagados sobre a propriedade da terra que cultivam, 74,29% dos entrevistados afirmaram deter a propriedade da terra e 25,71% afirmaram não ser proprietário, sendo que 33% dos que não são proprietários habitam e trabalham em terras pertencentes aos pais ou filhos. (gráfico 16) Gráfico 16 – O agricultor da Associação Vanguarda e a propriedade da terra Sim Não Fonte: Agricultores da Associação Vanguarda 5.7 A OBTENÇÃO DE RENDA FORA DA ATIVIDADE AGRÍCOLA Para a pergunta “Possui outras rendas fora da agricultura?”, 82,86% dos entrevistados responderam que sim e 17,14% responderam que não auferem receita fora da atividade agrícola. A renda média dos agricultores que obtém receita é de R$ 319,00, obtida por meio de aposentadoria, programa Bolsa-Família, emprego fixo e biscates conforme tabela 5 a seguir: 62 Tabela 5 – Fontes de renda fora da atividade agrícola do agricultor da Associação Vanguarda Fonte Quantidade Percentual Bolsa Família 15 43% Emprego fixo 5 14% Bolsa família e emprego fixo 1 3% Aposentadoria 5 14% Biscates 3 9% Não obtém renda fora da agricultura 6 17% Total 35 100% Fonte: Agricultores da Associação Vanguarda Excluindo-se as rendas obtidas com aposentadoria e as oriundas de programas de distribuição de renda, as demais refletem um novo aspecto da realidade rural brasileira, que consiste no prática simultânea de atividades agrícolas e não agrícolas em uma mesma unidade familiar. Para Schneider el al (2006, p. 139), “Essa interação entre atividades agrícolas e nãoagrícolas tende a ser mais intensa quanto mais complexas e diversificadas forem as relações entre os agricultores e o ambiente social e econômico em que estiverem situadas”. De acordo com Carneiro (2006), o debate sobre a pluriatividade no Brasil produziu duas vertentes de interpretação: uma ressalta o aspecto da mudança do perfil socioeconômico no campo provocado pela diversificação de atividades econômicas que, concorrendo com as atividades agrícolas, podem mesmo vir a suplantá-las no longo prazo em algumas regiões do país, ensejando o falecimento de algumas formas de agricultura familiar. A outra vertente argumenta que esse tipo de prática funciona mais como um mecanismo de manutenção das unidades agrícolas familiares e menos como uma ameaça ou negação da forma familiar de produção agrícola. (gráfico 17) 63 Gráfico 17 – Os agricultores da Associação Vanguarda e a obtenção de renda fora da atividade agrícola Obtém renda fora Não obtém renda fora Fonte: Agricultores da Associação Vanguarda 5.8 O ABANDONO DA ATIVIDADE AGRÍCOLA Para a pergunta “Já pensou em abandonar a agricultura?”, 31% dos entrevistados responderam que sim e 69% responderam que nunca pensaram em abandonar a atividade agrícola. (gráfico 18) Gráfico 18 – O agricultor da Associação Vanguarda e a intenção de abandonar a agricultura Já pensou em abandonar Nunca pensou em abandonar Fonte: Agricultores da Associação Vanguarda 64 Para os produtores que responderam ‘sim’, seguiu-se a pergunta “Por que já pensou em abandonar a agricultura?”, cujas respostas estão relacionadas no quadro 7 a seguir: Quadro 7 – O agricultor da Associação Vanguarda e a intenção de abandonar a atividade agrícola: motivos Por que já pensou em abandonar a agricultura? 1. Prejuízo por perdas; falta de apoio do Estado 2. Mão de obra escassa 3. Pragas; terra fraca; dificuldades com doenças nas plantas 4. Renda da atividade é pouca 5. Lucro da atividade é pequeno 6. Idade avançada; cansaço 7. Prejuízo por perdas; falta de assistência técnica; falta de seguro contra perdas 8. Dificuldade em comercializar produção 9. Não há retorno adequado; prejuízo por perdas 10. Prejuízo por perdas 11. Atividade cansativa; trabalha sozinho Fonte: Agricultores da Associação Vanguarda 45% dos entrevistados que afirmaram já ter pensado em abandonar a agricultura migrariam para outra localidade caso tomassem essa decisão. Os destinos escolhidos e os motivos da escolha estão relacionados no quadro 8 a seguir: Quadro 8 – Abandono da atividade agrícola: para onde migraria o agricultor da Associação Vanguarda Destino Sertão de Pernambuco Brasília Zona urbana de Cabo de Santo Agostinho Motivo Região mais propícia para o comércio Maior oportunidade de trabalho Trabalharia na construção civil pois possui formação de pedreiro; Trabalharia na indústria; Maior oportunidade de emprego Fonte: Agricultores da Associação Vanguarda 65 5.9 A CONTINUIDADE DA ATIVIDADE AGRÍCOLA PELOS FILHOS Para a pergunta “Considera que os filhos continuarão a atividade agrícola?” 20% dos entrevistados responderam que sim, 74% responderam não crer que os filhos vão continuar a atividade na agricultura e apenas 6% não souberam opinar. (gráfico 19) Gráfico 19 - O agricultor da Associação Vanguarda e sua expectativa em relação à continuidade da atividade agrícola pelos filhos Acham que os filhos darão continuidade Não acham que filhos darão continuidade Não souberam opinar Fonte: Agricultores da Associação Vanguarda A despeito de não ser um questionamento constante no formulário de perguntas, a pesquisa revelou que pelo menos 27% dos entrevistados que não creem que os filhos vão sucedê-los na atividade agrícola expressaram o desejo de que o contrário fosse possível, isto é, a continuação do exercício da agricultura por seus descendentes. No quadro 9 a seguir encontram-se registradas algumas explicações que se seguiram à resposta dos agricultores que não acreditam que haverá uma continuidade da atividade pelos filhos. Quadro 9 – O agricultor da Associação Vanguarda e a descontinuidade da agricultura pelos filhos: razões continua 1. Filhos não se interessam pela agricultura. Um deles trabalha no Complexo Industrial de Suape. 2. Filho em contato com outras oportunidades de emprego. 3. O serviço é pesado e os filhos não terão coragem. 66 conclusão 4. A renda na agricultura é pouca. Jovens preferem procurar empregos fixos. 5. Filhos só querem estudar. 6. Não há futuro na agricultura. 7. Filho trabalha no estaleiro de Suape durante à noite. Dorme durante o dia, sem tempo para ajudar. 8. Serviço muito pesado. “Tá todo mundo correndo (do serviço)” 9. Agricultura não tem futuro 10. Dificuldades em comercializar a produção. Perdas na lavoura sem cobertura pelo seguro. 11. Filhos desejam emprego fixo em Suape. 12. Filho deseja estudar arquitetura. 13. Hoje em dia ninguém quer mais. Já sofreu muito. Deseja dar condições de estudo aos filhos. Atividade é sofrida. 14. Porque há outras oportunidades. Estudar, por exemplo. 15. Agricultura não é valorizada. 16. Filhos são mecânicos de carro e não se interessam pela agricultura. Fonte: Agricultores da Associação Vanguarda Não se pode negar a influência que o Complexo Portuário e Industrial de Suape exerce nas populações que habitam na região. O complexo possui mais de cem empresas instaladas além de uma refinaria de petróleo, três plantas petroquímicas e um estaleiro, que se encontram em fase de construção, resultando em um polo que concorre intensamente com a agricultura na demanda por mão de obra. Segundo Batista (2011), em matéria veiculada em 30/01/11: A chegada do Estaleiro Atlântico Sul, da Fiat, da Refinaria Abreu e Lima e da Petroquímica Suape está abrindo novas frentes de trabalho para os pernambucanos. São empreendimentos-âncoras de novos polos produtivos e trazem a reboque dezenas de empresas fornecedoras e compradoras para o complexo de Suape e seu entorno, além de contribuírem para a expansão de um segmento tradicional e promissor, o logístico. Ainda segundo a reportagem: “Se todos os investimentos previstos para Suape forem confirmados, o complexo industrial portuário vai gerar cerca de 100 mil vagas de trabalho nos próximos anos.” (BATISTA, 2011). 67 5.10 OS INSUMOS E A DEPENDÊNCIA DO MERCADO No que diz respeito ao processo de mercantilização do consumo de insumos (adubos, defensivos etc.) utilizados pelo agricultor da Associação Vanguarda, a pesquisa mostrou que 77% dos entrevistados compram todos os insumos; 20% compram apenas uma parte, produzindo algum defensivo ou adubo a partir de recursos de sua propriedade e apenas 3% produzem todos os insumos na propriedade. Segundo Ploeg (1990; 1992 apud GAZOLLA, 2006), o fenômeno da mercantilização consiste em uma maior dependência do agricultor do mercado para executar sua reprodução social e desenvolve-se por meio da cientifização da produção agrícola, traduzida na internalização das técnicas modernas de cultivo e manejo, no uso de máquinas e equipamentos, no plantio de sementes melhoradas, na fertilização e correção das propriedades químicas e físicas dos solos, no uso dos agrotóxicos agrícolas etc. (gráfico 20) Gráfico 20 – O agricultor da Associação Vanguarda e a produção de adubos/defensivos Compra todos Uma parte Produz todos Fonte: Agricultores da Associação Vanguarda 5.11 O USO DE AGROTÓXICOS Quanto ao uso de agrotóxicos, 89% dos entrevistados utilizam defensivos químicos durante o cultivo e apenas 11% alegaram não utilizar nenhum produto químico para combater pragas, conforme demonstrado no gráfico 21. A entrevista revelou ainda que os principais agrotóxicos utilizados são Midas, Manzate, Decis, Karate, Aldrin e Folisuper. 68 Gráfico 21 – O uso de agrotóxico pelo agricultor da Associação Vanguarda Utiliza agrotóxico Não utiliza agrotóxico Fonte: Agricultores da Associação Vanguarda 5.12 OS INSTRUMENTOS DE TRABALHO A agricultura praticada pelo produtor familiar da Associação Vanguarda é baseada quase que exclusivamente na força física, não havendo a presença da mecanização e instrumentos tecnologicamente modernos. Com exceção do trator, a totalidade dos entrevistados utilizam ferramentas de utilização manual, sendo que a enxada e a foice, foram citadas pela totalidade dos entrevistados. Outros utensílios foram citados, a exemplo de alicate de poda, pá, carro de mão e serra, luvas e botas. Buainain et al (2007), ao comentar dados obtidos pelo censo agropecuário 1995/1996, realizado pelo convênio entre a FAO e o INCRA, deduz que, nos estabelecimentos familiares, as atividades de arar, semear, capinar e colher são realizadas com uso praticamente de apenas dois instrumentos, a foice e a enxada, tal qual se praticava nos tempos pré-históricos, sendo que, nas regiões Norte e Nordeste, o quadro se agrava, onde 87,1% e 61,1% , respectivamente, dos agricultores familiares usam a enxada como único instrumento de trabalho. O uso gratuito do trator está condicionado ao seu envio às unidades agrícolas familiares pela prefeitura do município de Cabo de Santo Agostinho, sendo que 66% dos entrevistados alegaram extrema dificuldade em obter o trator da prefeitura, havendo casos em que o trator não é enviado ou enviado em tempo indevido, após o período do plantio. Apenas 14% dos entrevistados alegaram conseguir o trator sem maiores dificuldades, 9% alegaram possuir terra imprópria para uso do trator, devido ao declive do terreno e 11% não teceram nenhum comentário conforme demonstrado no gráfico 22. 69 Gráfico 22 – O agricultor da Associação Vanguarda e a utilização do trator fornecido pela prefeitura local Não consegue ou consegue com dificuldade Consegue com facilidade Não utiliza Não opinou Fonte: Agricultores da Associação Vanguarda 5.13 A SUBSISTÊNCIA A pesquisa revelou que a totalidade dos agricultores da Associação Vanguarda praticam a subsistência, isto é, consomem o que produzem. A diversidade de culturas, média de 11,19 culturas por família, permite uma maior autonomia do agricultor familiar em relação ao mercado de gêneros alimentícios, fazendo-o recorrer àquele apenas para a compra de alguns poucos itens não produzidos no estabelecimento familiar, quais sejam, a título de exemplo, café, açúcar, óleo, manteiga, sal e arroz. 5.14 A RENDA Com relação à renda, a pesquisa revelou que a renda média do agricultor da Associação é de R$ 1.019,98, isto é, aproximadamente dois salários mínimos vigentes à época da realização da entrevista, valor aquém da receita média de R$ 6.684,96 (R$413.010 mil para 61.782 estabelecimentos) no estado de Pernambuco, divulgada pelo censo agropecuário de 2006, relativo apenas aos produtos vegetais. (IBGE, 2006). Conforme observado no gráfico 23, 25,71% dos entrevistados auferiram uma receita líquida mensal de até um salário mínimo vigente à época da comercialização da produção, 70 qual seja, R$510,00; 34,29% auferiram entre mais de um salário mínimo e dois salários mínimos; 11,43% auferiram entre mais de dois salários mínimos e quatro salários mínimos; 14,29% auferiram mais de quatro salários mínimos; 11,43% não obtiveram receita e apenas um agricultor, representando 2,86% dos entrevistados, não souberam informar dados relativos à sua receita em 2010. Gráfico 23 – O agricultor da Associação Vanguarda e a renda líquida mensa Fonte: Agricultores da Associação Vanguarda A receita nula ou negativa (11% dos entrevistados) deve-se a perdas na lavoura, em decorrência de pragas, e ao débito de empréstimo financiado pelo PRONAF junto às instituições financeiras. A sobrevivência desse grupo explica-se, em parte, pela subsistência, garantida, conforme explanado no item 5.13, pela diversidade de culturas desenvolvidas nos estabelecimentos familiares. Guanziroli (2011), ao abordar a estratégia de sobrevivência dos estabelecimentos familiares mais carentes, a partir dos dados obtidos com o censo agropecuário de 1996, registra que: “Nos estabelecimentos familiares mais pobres, em especial aqueles voltados à produção de subsistência, é comum encontrar casos em que a Renda Monetária é negativa. Entretanto, geralmente a Renda Total do estabelecimento é positiva, pois inclui o autoconsumo”. 5.15 DEPOIMENTOS Ao longo da entrevista, foram registrados vários depoimentos dos agricultores da Associação Vanguarda, reveladores de suas expectativas, frustrações e sua relação com a agricultura. Essas declarações possuem forte conteúdo subjetivo e, embora não 71 correspondendo necessariamente a uma pergunta do questionário de pesquisa, enriqueceram as respostas com a visão particular do agricultor sobre os temas abordados durante a entrevista. A seguir, serão relacionados alguns desses depoimentos, organizados por afinidade temática. Quadro 10 – Sobre a continuidade da atividade agrícola pelo filhos Sobre a continuidade da atividade agrícola pelos filhos “A agricultura vai se acabar” “Os velhos morrem e os moços não querem” “Antigamente era mais fácil encontrar os filhos ajudando” “Mesmo se não tivesse o Complexo de Suape, não haveria interesse pelos mais novos” “Gostaria que os filhos dessem continuidade porque no sítio há fontes de subsistência” Não gostaria que os filhos seguissem na agricultura para não pegar no pesado” “A agricultura vai se acabar porque falta continuidade dos filhos” “Os filhos não darão continuidade. Não desejo isso para eles” “Não desejo que os filhos continuem na agricultura por conta das dificuldades: trator e assistência técnica são difíceis; negociação da inadimplência no banco é difícil; os juros da inadimplência são altos” Fonte: Agricultores da Associação Vanguarda Quadro 11 – Sobre o trabalho na agricultura Sobre o trabalho na agricultura “Só entende quem trabalha. Trabalhar pesado debaixo de sol, chuva, tem as pragas” “A atividade é sofrida, mas adoro a agricultura” “Não gosto da agricultura, trabalho mais por sobrevivência” “Tudo é agricultura, mas não há apoio” Fonte: Agricultores da Associação Vanguarda 72 Quadro 12 – Sobre as políticas públicas Sobre as políticas públicas “Há um descasamento entre o prazo de colher e a compra da CONAB” “A CONAB deveria comprar sem interrupção” “Falta assistência técnica e, quando há perda, não há seguro” “Não plantei milho porque o trator não veio” “Gostaria de ter uma granja, mas não consegui recurso” “Disseram que haverá uma política de compra do governo para escola, hospital e creche, mas acho que é só conversa” “Era um projeto para criar galinhas em consórcio com a plantação. Entregaram o material do galinheiro mas não entregaram as galinhas. Vai fazer um ano” “Governo ajuda com crédito, mas não apóia a comercialização” “Solicitei uma retroescavadeira à prefeitura há quatro anos para fazer poço para irrigação e criar tilápias. Nunca apareceu” “Acho que o crédito deveria ser direto para o agricultor, sem passar pela associação” “Precisei pagar ao tratorista da prefeitura” “A perda do inhame foi devida à falta de assistência técnica” “Falta a quem vender a mercadoria” Fonte: Agricultores da Associação Vanguarda Quadro 13 – Sobre a intenção de abandonar a agricultura Sobre a intenção de abandonar a agricultura “Não. Não morreu ninguém de fome na família ainda” “Sim. Cultivo ainda porque a gente consome o que planta, sabe que tem procedência, sem produto químico” “Não. Vou morrer aqui” “Não. Só quando morrer” Fonte: Agricultores da Associação Vanguarda 73 Quadro 14 – Sobre a subsistência Sobre a subsistência “Sempre tenho o que comer” “Enricar não, mas não passo fome Fonte: Agricultores da Associação Vanguarda Quadro 15 – Sobre as técnicas agrícolas e agrotóxico Sobre as técnicas agrícolas e agrotóxico “Não planto maracujá porque depende de químico e é ´perigoso para a saúde. Soube de um caso em que a pessoa sentiu tontura e vômito” “Não utilizo muito a queimada porque tira a força da terra” “Não pratico queimada porque tira matéria orgânica da terra” “Reconheço a importância de descansar o solo, mas não faço porque a terra é pouca” “Se não tiver agrotóxico, faço um defensivo orgânico com sabão e rolo de fumo. Usei e deu certo” “Mesmo usando agrotóxico, minha plantação é orgânica porque só uso nas folhas do cará e no tronco da bananeira” “Não uso muito agrotóxico porque é muito caro” Fonte: Agricultores da Associação Vanguarda Quadro 16 – Sobre o espírito comunitário Sobre o espírito comunitário “Quando não tenho, pego feijão na propriedade do vizinho. Passo e pego. Ele faz o mesmo. Um não deixa o outro na mão” Fonte: Agricultores da Associação Vanguarda 6 CONCLUSÕES Ao final da pesquisa sobre agricultura familiar na Associação Vanguarda, foi possível concluir que: a) O sistema apresentado não é sustentável Do universo entrevistado, 35 agricultores, 69% não atingiu a pontuação mínima nos três aspectos econômico, social e ambiental, necessária para caracterizar sua prática de agricultura como sustentável, de acordo com os parâmetros estabelecidos nesse trabalho de pesquisa. 28% dos entrevistados tiveram sua prática agrícola enquadrada no perfil de sustentável e para apenas 3%, representado por um agricultor, não foi possível aferir o grau de sustentabilidade, devido à falta de informação sobre sua receita líquida mensal, imprescindível no cálculo da pontuação no aspecto econômico; b) As políticas públicas revelam-se ineficientes para atender as reais necessidades dos agricultores da Associação Vanguarda, notadamente aquelas relacionadas com seguro do crédito, assistência técnica e apoio à comercialização; c) A despeito de obter alguma receita monetária, o agricultor da Associação Vanguarda sobrevive do autoconsumo ou subsistência, que se apoia em uma grande diversidade de cultivos. A subsistência, associada a uma profunda identificação com a atividade agrícola, são as explicações razoáveis para a fixação do agricultor na zona rural. Além da subsistência, explica-se a capacidade de reprodução social dos agricultores da Associação Vanguarda por meio de um estilo de vida simples, desvinculado dos hábitos de consumo de um cidadão médio da zona urbana, a exemplo de celulares, veículos de passeio, televisores de última geração e outras modernidades eletrônicas; d) A continuidade da agricultura da Associação Vanguarda encontra-se seriamente ameaçada de interrupção pela geração seguinte, considerando as oportunidades de emprego geradas pelo Complexo Industrial de Suape e a incapacidade da agricultura de atrair os jovens para trabalhar em uma atividade fortemente associada por seus executantes ao trabalho pesado, à difícil lida com os imprevistos da natureza e à falta de apoio do Estado. Presume-se, a partir das dificuldades observadas, que, uma melhor adequação de novas tecnologias às especificidades da agricultura da região, diminuindo o trabalho braçal, e uma maior integração da AF aos mercados de consumidores, tornariam, aos olhos dos jovens, a agricultura uma atividade mais interessante, capaz de gerar satisfação profissional; 75 e) O agricultor da Associação Vanguarda sente, não obstante as dificuldades, um grande orgulho em trabalhar na agricultura, reconhecendo sua importância no contexto sócio-econômico do país e lamentando profundamente o que ele considera falta de boa vontade dos envolvidos nos projetos e políticas públicas direcionadas à AF; f) Para a aferição da sustentabilidade da agricultura da Associação Vanguarda, impõese, com fins de uma averiguação de maior abrangência e completude, a inserção de uma quarta variável de aspecto político, visando à qualificação da governança das políticas públicas voltadas para a AF, tarefa que se registra como sugestão para futuras pesquisas sobre o tema da sustentabilidade na agricultura; REFERÊNCIAS A PERGUNTA de nove bilhões de pessoas: reportagem especial sobre como alimentar o mundo. 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