X Encontro Nacional de Educação Matemática Educação Matemática, Cultura e Diversidade Salvador – BA, 7 a 9 de Julho de 2010 ARGUMENTAÇÃO NO ESTUDO DA GEOMETRIA NOS ANOS FINAIS DO ENSINO FUNDAMENTAL: LIVROS DIDÁTICOS E FORMAÇÃO DE PROFESSORES Luiz Carlos Pais Universidade Federal de Mato Grosso do Sul Resumo: O objetivo deste artigo é analisar aspectos didáticos da argumentação no estudo da geometria a partir de práticas prescritas em livros didáticos brasileiros, dos anos finais do Ensino Fundamental, articulando o tema com questões relativas à formação de professores e às práticas docentes. As atuais orientações curriculares abordam as funções previstas para o ensino das provas em geometria. Em consequência dessas orientações, livros didáticos avaliados pelo poder público propõem atividades que visam contemplar as tendências indicadas, porém, as práticas concernentes nem sempre são vivenciadas pelos futuros professores de Matemática nos tempos de sua formação inicial. Este é o esboço inicial do problema que artigo pretende desenvolver. Nesse sentido, foram analisados livros didáticos destinados aos atuais dois últimos anos do Ensino Fundamental, publicados entre 1986 e 2002. O referencial utilizado é constituído por conceitos propostos por André Chervel e por outros autores que compartilham do campo da história das disciplinas escolares. Quanto às especificidades das práticas da disciplina, utilizamos idéias propostas por Yves Chevallard, na abordagem antropológica do estudo da Matemática. Foi possível constatar nos livros didáticos analisados uma diversificação recente considerável na maneira didática de sistematizar o estudo relativo à argumentação no domínio da geometria. Um destaque expressivo diz respeito a uma ampliação dos exercícios propostos com objetivo de explorar aspectos informais ou experimentais das provas e uma diminuição considerável das demonstrações formais como privilegiavam livros didáticos mais antigos. Palavras-chave: Argumentação Matemática; Demonstração e Prova; Validação do saber matemático; Práticas argumentativas docentes. 1. Considerações iniciais As últimas três décadas registraram um avanço considerável da produção acadêmica da área de Educação Matemática brasileira. Hoje, estão disponíveis vários indicadores relativos ao aumento do número de pesquisas, dos cursos de mestrado e de doutorado, da publicação de trabalhos científicos e da diversificação das temáticas de estudo. Em paralelo com esse aumento quantitativo, tem ocorrido também um aprimoramento dos instrumentos de avaliação qualitativa em diferentes níveis e com variada abrangência. Entretanto, apesar desse avanço, ainda persistem grandes desa fios a serem superados, pois grande parte da produção acumulada nos últimos anos não chegou Anais do X Encontro Nacional de Educação Matemática Mesa Redonda 1 X Encontro Nacional de Educação Matemática Educação Matemática, Cultura e Diversidade Salvador – BA, 7 a 9 de Julho de 2010 nas salas de aula da Educação Básica e nem mesmo estão nas práticas vivenciadas pelos acadêmicos dos cursos de licenciatura. Por esse motivo, ao estudar a argumentação em geometria, destacamos o desafio de aproximar os resultados de pesquisa existentes, atualmente, nas universidades das atuais propostas de curso de formação inicial de professores de Matemática. Essa aproximação não é um processo fácil de ser realizado porque está em jogo uma complexa rede de instituições, envolvendo: poder público, universidades, escolas, professores, editoras e sociedades científicas, entre outras forças consorciadas ao problema. Esses agrupamentos sociais procuram construir suas histórias de legitimação, mas devem ser levados ao exercício da autocrítica e rever suas posições. Muitas vezes, a obstrução do diálogo passa por raízes mergulhadas no pensamento positivista. Em particular, a maneira de tratar o tema da argumentação em geometria exemplifica, assim pensamos, uma das áreas de conflito entre as diferentes visões que permeiam o campo da educação matemática. O estudo da argumentação é um tema relevante na fundamentação do trabalho do professor porque envolve uma base entrelaçada por aspectos didáticos e epistemológicos. A argumentação está associada aos aspectos didáticos, no sentido de envolver as práticas de validação dos conhecimentos trabalhados na sala de aula e também está ligada às condições de produção do saber matemático. Essa dupla vinculação desperta o nosso interesse para compreender o funcionamento das práticas de ensino das demonstrações no domínio da geometria. Por esse motivo, ao optarmos por uma vertente da Educação Matemática que valoriza a dimensão conceitual da Matemática, como ciência de referência, consideramos o tema motivador para realizar trabalhos de pesquisa em diferentes níveis. Nesse sentido, um dos desafios iniciais concernentes ao assunto consiste em questionar a passagem das condições determinadas pela produção acadêmica, muitas vezes ainda dominada de formalismo, para as realidades pertinentes ao contrato didático de uma instituição que pretenda trabalhar com a validade de proposições matemáticas em nível da Educação Básica. Em seguida, mesmo sendo possível constatar mudanças no que diz respeito ao grau de sistematização com que tem aparecido nos livros didáticos atuais, a argumentação continua presente entre as tarefas propostas para a educação matemática. Anais do X Encontro Nacional de Educação Matemática Mesa Redonda 2 X Encontro Nacional de Educação Matemática Educação Matemática, Cultura e Diversidade Salvador – BA, 7 a 9 de Julho de 2010 Dessa maneira, a análise do livro didático constituiu para nós um ponto de partida para estudar o problema atual do ensino dos processos de argumentação em geometria. O interesse em tomar o livro didático como fonte de pesquisa justifica-se pelo fato desse tipo de publicação figurar como um dos recursos mais usados pelos professores na condução do ensino da matemática, funcionando como uma espécie de fonte privilegiada de referência para validar as práticas e as teorias associadas aos conteúdos. Tanto para alunos como para professores, de modo geral, o livro didático se constitui como uma fonte segura de informações para orientar o estudo da matemática, onde a generalidade, a formalidade e particularmente o problema da validação assumem um estatuto diferenciado. Os dados da pesquisa foram obtidos em 24 livros didáticos, sendo 12 do atual 8º ano e os outros 12 do atual 9º ano do Ensino Fundamental, publicados no Brasil, entre 1997 e 2002. Esses livros estão identificados no anexo I deste artigo. A definição do período ocorreu em função da implantação do Programa Nacional de Livros Didáticos (PNLD), em 1995. Evento este que serviu, de certa forma, como fonte de influência para orientar a cultura escolar em implantação na educação matemática. A partir de nossos pressupostos e com base nessas fontes, procuramos levantar elementos de respostas às seguintes questões: como o ensino da argumentação geométrica tem sido conduzido do ponto de vista didático e epistemológico em livros didáticos brasileiros publicados nos últimos anos? Quais são as principais diferenças quanto ao ensino da argumentação geométrica, quando comparamos livros didáticos mais antigos com aqueles publicados mais recentemente? 2. Aspectos teóricos e metodológicos Uma das tarefas centrais do trabalho docente é a exposição dos conteúdos, a qual está ligada a outros dois elementos igualmente importantes que são os programas de ensino ou as indicações curriculares e os diferentes tipos de exercício propostos aos alunos cujas raízes podem se estender por uma longa tradição histórica. Esse triângulo serve de ponto inicial para tratarmos da argumentação no estudo da geometria nos anos finais do ensino fundamental. Esses três elementos constituem parte da cultura escolar teorizada por André Chervel e por outros autores que compartilham do mesmo campo de pesquisa. Trata-se de buscar raízes históricas de práticas escolares sustentadas por valores culturais Anais do X Encontro Nacional de Educação Matemática Mesa Redonda 3 X Encontro Nacional de Educação Matemática Educação Matemática, Cultura e Diversidade Salvador – BA, 7 a 9 de Julho de 2010 conservados durante determinados períodos. São elementos presentes na educação básica e no ensino universitário com diferentes enfoques de formalidade. (CHERVEL, 1990) A intenção de destacar esses três elementos decorre da necessária articulação entre as práticas vivenciadas na formação inicial e as práticas que os professores estão desafios a implementar em sala de aula. Nesse sentido, somos levados a destacar a existência de uma dupla triangulação. Na formação inicial, os estudantes são levados a praticar uma maneira acadêmica de conceber as relações entre a exposição dos conteúdos, as indicações curriculares e os exercícios. Mas, quando o jovem professor inicia sua carreira e entra no terreno vivo da sala de aula, a relação entre esses três elementos não funciona no mesmo ritmo vivenciado nas práticas universitárias. Pode haver muito conflito nessa transposição. Se esse conflito existe de maneira geral em relação aos outros conteúdos, no caso da argumentação ela assume conotações mais complexas por envolver uma dimensão nuclear da atividade matemática que é a validação do conhecimento envolvido. Os exercícios geralmente praticados pelos estudantes dos c ursos de licenciatura e as atividades propostas em livros didáticos, na parte referente à argumentação em geometria, trazem em comum uma questão de natureza metodológica. Nas vertentes mais tradicionais da prática de ensino a exposição dos conteúdos geométricos segue caminhos axiomáticos, muitas vezes, colocando a formalidade na frente da compreensão dos conceitos. Esses exercícios envolvem práticas de validação do conhecimento matemático nos seus diferentes níveis de formalidade. Antes de tudo, esse tipo de exercício envolve questões de método, ou seja, dizem respeito à construção de diferentes caminhos para sistematizar e validar o saber. Mas não existe modelo previamente definido para seguir, nem mesmo a axiomática sintetizada por Euclides nos Elementos deveria ser entendida, esta é a nossa concepção, como referência inicial para o estudo da argumentação da geometria. Existem diferentes maneiras de relacionar esses três elementos que estão inseridos na educação matemática. A exposição está mais relacionada à dimensão metodológica; enquanto que os exercícios estão mais próximos das atividades realizadas pelos alunos e as indicações curriculares dizem respeito aos rumos sinalizados pelas fontes oficiais de influência da transposição didática. A coordenação desses três elementos resulta nas práticas escolares e existem várias maneiras do professor implementá- las em sala de aula. Anais do X Encontro Nacional de Educação Matemática Mesa Redonda 4 X Encontro Nacional de Educação Matemática Educação Matemática, Cultura e Diversidade Salvador – BA, 7 a 9 de Julho de 2010 A exposição é uma tarefa implementada pelo professor, e consiste em comunicar os conteúdos previstos nas indicações curriculares de uma forma metodológica compatível com o nível dos alunos. Muitas vezes, o compromisso docente com a exposição não envolve a categoria da explicação, quando esta é entendida como sendo a disponibilidade para tratar de detalhes não compreendidos pelos alunos. A explicação pode ser interpretada, portanto, como uma exposição diferenciada no sentido do professor estar mais interessado na compreensão do aluno. Mas, diante das diversas tendências pedagógicas, nem todo professor está, necessariamente, empenhado em explicar a matéria para os alunos. Além do mais, a prática docente implementada depende dos referenciais escolhidos para conduzir as aulas. Por exemplo, dependendo da instituição universitária e das condições locais, o professor opta, muitas vezes, pela estratégia expositiva do tipo conferência, na qual, o objetivo é mais expor o tema do que explicar detalhes. De modo geral, a conferência é uma estratégia expositiva mais apropriada aos estudos universitários e pressupõe certa distância entre o expositor e os estudantes. A explicação pressupõe uma interatividade mais qualitativa entre o professor e os alunos, no sentido destes terem mais liberdade para explicitar suas dúvidas e vivenciar trocas cognitivas no plano social da sala de aula. Nesse caso, as práticas conduzidas pelo professor se aproximam do método socrático e devem resultar numa certa compreensão por parte dos alunos. É uma dinâmica muito difícil de ser implementada em classes com muitos alunos, pois pressupõe diálogos ou troca de compressões entre os alunos. Nos meados do século XIX, o termo explicador era usado para qualificar um tipo de professor do ensino secundário, encarregado de explicar para os alunos detalhes da matéria exposta pelo professor. No contexto aristocrático dos primeiros estabelecimentos de ensino secundário, por volta dos meados do século XIX, o estatuto atribuído aos professores era superior ao dos explicadores. Nesse sentido, é ilustrativo citar o livro Explicador de Aritmética, escrito em 1867, por Eduardo de Sá Pereira de Castro, cuja 7ª edição foi publicada em 1885 pela livraria Licolau Alves, do Rio de Janeiro. Em síntese, a exposição e a explicação são categorias didáticas da cultura escolar que estiveram mais explícitas no debate pedagógico de outros tempos. (CHERVEL, 1990) Hoje em dia, não é comum falar dessas categorias, mas acreditamos que elas estejam presentes de corpo e alma no centro da polêmica estabelecida entre a defesa de provas menos informais ou de Anais do X Encontro Nacional de Educação Matemática Mesa Redonda 5 X Encontro Nacional de Educação Matemática Educação Matemática, Cultura e Diversidade Salvador – BA, 7 a 9 de Julho de 2010 demonstrações mais formais. Essa polêmica permanece velada na distância existente entre as práticas universitárias e práticas vivenciadas pelos professores em sala de aula da Educação Básica. Os professores produzem as suas estratégias de ensino e as práticas decorrentes são implementadas, a princípio, em sintonia com as orientações ditadas pela rede de instituições na qual a escola está inserida. Por outro lado, os textos didáticos também induzem uma forma de expor os conteúdos, idealizando uma sala de aula hipotética. Por esse motivo, cabe ao professor a autonomia de decidir pelos caminhos a serem seguidos. Mas, tanto a explanação do professor como aquela proposta pelo autor do livro didático atribuem uma centralidade às atividades típicas da cultura escolar, na qual está o tema da argumentação. Ao pesquisar o processo da argumentação, Gilbert Arsac foi levado a estabelecer, com base em suas observações, a existência de uma relação de inclusão entre os conceitos de explicação, prova e demonstração, considerando este último o caso mais específico e o primeiro o caso mais geral. A prova seria, para esse pesquisador, um caso particular de explicação e a demonstração um caso particular de prova. A explicação é considerada como “todo discurso mantido por uma pessoa ou por um grupo com o objetivo de comunicar ao outro o caráter de verdade de um enunciado matemático” (ARSAC, 1992, p. 5). Com base nessa definição, a explicação é considerada em um sentido bem menos formal, porém não menos importante na condução das práticas escolares. Esse tipo de explicação não tem, necessariamente, um compromisso com o convencimento do grupo envolvido. Por outro lado, tanto a prova como a demonstração, com diferentes graus de formalidade, já teria um compromisso maior com o convencimento do grupo a respeito da verdade envolvida na proposição. Para explicitar a natureza formal do trabalho escolar, somos levados a destacar, a seguir, o problema da sistematização das práticas, procurando considerar as especificidades relativas ao tema da argumentação na geometria. Uma das razões para defender o estudo dos aspectos didáticos e epistemológicos da demonstração diz respeito à natureza específica da disciplina escolar com a qual trabalha o professor de Matemática. Esse argumento decorre do pressuposto de que a especificidade da educação matemática, enquanto prática docente, está associada às raízes da ciência de Anais do X Encontro Nacional de Educação Matemática Mesa Redonda 6 X Encontro Nacional de Educação Matemática Educação Matemática, Cultura e Diversidade Salvador – BA, 7 a 9 de Julho de 2010 referência. Os valores educacionais dos conteúdos matemáticos escolares não subsistem de forma isolada das demais disciplinas e, por outro lado, eles estão também vinculados, por laços epistemológicos, aos conteúdos clássicos dos domínios de estudo. Sem vivenciar as práticas argumentativas nesses domínios estaríamos apostando em uma educação matemática com conteúdos distantes daqueles da ciência de referência. O problema maior não é estudar o processo argumentativo, pelo contrário, o preocupante é a ausência do tema nos tempos de estudo da formação docente. Pietropaolo (2005) reforça essa necessidade ao considerar a demonstração como objeto de estudo da educação matemática, principalmente, no campo da formação de professores. Para isso acontecer, em primeiro lugar, entendemos ser necessário conhecer como funciona o discurso matemático, como os teoremas são produzidos e validados, como a produção é redigida em textos formais com uma linguagem que lhe é peculiar. Em seguida, um segundo desafio consiste em levar a questão para o campo da didática e indagar quais são os caminhos e instrumentos mais apropriados para produzir práticas argumentativas resultantes, de um lado, das raízes epistemológicas, e de outro, da trajetória individual e coletiva das vivências pessoais. Sem essa reflexão corre-se o risco de confundir a natureza do espaço da sala de aula com o gabinete solitário do matemático acadêmico. As práticas tradicionais de formação de professores são resistentes a qualquer sinal de mudança no que diz respeito ao tratamento praxeológicos dos conteúdos conceituais específicos que ocupam o eixo central da atividade matemática. Nessa linha tradicional não é usual analisar o estatuto didático e epistemológico da argumentação. Nos tempos de estudo da formação básica de professores, geralmente, não é comum problematizar as práticas de argumentação matemática no contexto da educação escolar básica. O enfoque principal é atribuído às demonstrações de conteúdos não necessariamente presentes nos programas de ensino da educação básica. A ausência do estudo do tema da argumentação na formação inicial de professores, em se tratando da necessidade de analisar os seus aspectos didáticos e epistemológicos, gera uma distância inaceitável entre as práticas geralmente vivenciadas na universidade, nos cursos de licenciatura, daquelas que caracterizam a produção docente em sala de aula. O estudo das estratégias da argumentação é um dos aspectos sutis da cultura escolar e universitária. Os estudantes de licenciatura são geralmente levados a trabalhar com as Anais do X Encontro Nacional de Educação Matemática Mesa Redonda 7 X Encontro Nacional de Educação Matemática Educação Matemática, Cultura e Diversidade Salvador – BA, 7 a 9 de Julho de 2010 demonstrações tal qual são apresentadas nos livros-texto. Há uma inversão do discurso porque esses textos começam a exposição do conteúdo pela parte final de um trabalho prévio, realizado em tempos anteriores ao seu registro formal. Existe uma intensa atividade matemática prévia à exposição textual onde se revela a verdadeira organização didática entendida como processo pelo qual se passa a produção de uma organização matemática. (CHEVALLARD, 1999) Essa dialética entre o produto e processo, inserida na explicação antropológica proposta por Yves Chevallard, sugere um caminho para aprofundar os estudos relativos ao caso específico da argumentação em geometria. As especificidades epistemológicas do saber matemático não devem impedir as articulações entre as práticas acadêmicas e escolares, sob pena da formação de professor continuar distanciando a universidade da escola. É diante desse desafio que gostaríamos de tratar da argumentação no ensino da geometria, tentando não perder de vista as referências históricas da temática; da mesma maneira como não poderia deixar de considerar suas implicações nas práticas educativas escolares. A demonstração formal tal como concebem e praticam os matemáticos é uma atividade fundamental na produção dos saberes acadêmicos e constitui em um dos elos de ligação entre os vários campos de especialização da área. Métodos algébricos, numéricos, geométricos ou computacionais podem variar na produção d e demonstrações nos diferentes domínios, mas o que permanece com convergência comum é a valorização de uma prática e seus respectivos argumentos racionais amplamente adotados no campo. Em um trabalho publicado em 1987, Jean Dieudonné abordou o tema da demo nstração, ressaltando a sua centralidade e importância para o que ele chamou de unidade profunda da atividade matemática apesar de existir diferentes métodos e problemas com os quais trabalham os acadêmicos. (apud PIETROPAOLO, 2005, p. 48) Outro aspecto relevante destacada também pelo Ruy Pietropaolo diz respeito a uma diferença sutil relativa à conceituação dos temos demonstração e prova, quando se trata de articular o trabalho de atuação dos matemáticos com aquele dos educadores matemáticos. Em se tratando do saber acadêmico, quase sempre, os dois termos são usados de forma indistinta, os dois dizem respeito ao procedimento formal de validação de proposições. Mas, no campo da educação matemática essa identificação nem sempre ocorre e na maioria das vezes predomina o sentido de que as provas nem sempre tem a mesma formalidade ou Anais do X Encontro Nacional de Educação Matemática Mesa Redonda 8 X Encontro Nacional de Educação Matemática Educação Matemática, Cultura e Diversidade Salvador – BA, 7 a 9 de Julho de 2010 o mesmo rigor típico das demonstrações. Se recorrermos ao sentido amplo de um dicionário, realmente a prova, em língua portuguesa, pode ter um sentido bem mais amplo do que a demonstração. Mas, por certo, o dicionário não pode auxiliar muito no esclarecimento das questões porque o próprio termo demonstração também tem sentidos diversos e pode ser, no senso comum, até mesmo confundido com a ação de mostrar alguma coisa material. 3. Análise da argumentação e m livros didáticos O estudo da argumentação no domínio dos conteúdos geométricos está presente nos livros didáticos publicados nas últimas três décadas. Entretanto, constata-se uma tendência no sentido de reduzir a antecipação de aspectos formais das práticas mais tradicionais e de uma valorização cada vez acentuada de procedimentos mais intuitivos ou experimentais. As mudanças constatadas nos livros didáticos analisados, quanto à argumentação, e suas possíveis implicações nas práticas docentes constituem o assunto dos próximos parágrafos. 3.1 A presença do estudo da argume ntação nos livros didáticos Para analisar essa constatação e compreender o seu funcionamento nos exercícios propostos nos livros didáticos, recorremos aos conceitos interligados de disciplina e cultura escolares propostos por Chervel (1990). Para esse autor o livro didático assume uma importância diferenciada na constituição da cultura escolar, incluindo aí a maneira como o professor conduz as práticas em função da especificidade da ciência de referência. A partir dessa idéia, passamos a olhar as especificidades da educação matemática, no que se refere ao uso do livro didático. A valorização desse recurso no ensino da Matemática decorre do fato do mesmo servir como um parâmetro para construção da objetividade, do rigor, da generalidade e de outras características do saber associado. Dessa forma, conforme a especificidade da área, o livro didático assume um estatuto diferente na condução das práticas escolares. Por esse motivo, no plano mais amplo de nossa pesquisa, estamos interessados em entender como funciona a utilização do livro didático na condução do trabalho do educador matemático. Não se trata de atribuir uma importância maior para essa fonte de influência, mas de investigar a forma como o estudo da argumentação vem sendo proposto nessas Anais do X Encontro Nacional de Educação Matemática Mesa Redonda 9 X Encontro Nacional de Educação Matemática Educação Matemática, Cultura e Diversidade Salvador – BA, 7 a 9 de Julho de 2010 publicações. O livro didático tem sido considerado uma fonte de dados para motivar pesquisas cujo interesse vem sendo resgatado nos últimos anos. Em parte, esse interesse deve-se à expansão das políticas públicas de distribuição de livros na rede pública, através do PNLD. No caso da nossa pesquisa a atenção está voltada para livros publicados nas três últimas décadas com o objetivo de explicitar tendências do ensino da geometria a partir de uma análise das estratégias e recursos propostos. A motivação para sua realização decorre da intenção de compreender parte dos elementos que determinam as relações entre a dimensão conceitual dos conteúdos específicos e as organizações didáticas associadas, entendendo que as técnicas propostas pelos autores são parcialmente condicionadas pelas fontes de influência da transposição didática, entre as quais incluímos os indicadores curriculares oficiais. A delimitação em torno da geometria justifica-se em face da continuidade de outros trabalhos já realizados, no contexto do nosso grupo de pesquisa, sobre temas correlacionados, tendo em vista alguns sinais de revalorização do ensino da geometria e mais particularmente em relação ao tema da argumentação, tal como se encontra relatado em Freitas e Pais (1999). O estudo da argumentação geométrica tal qual alguns livros didáticos mais antigos apresentam aproxima, de certa forma, da maneira como os cursos de formação de professor geralmente orientam as práticas concernentes ao tema. Nesse sentido, é possível encontrar livros didáticos publicados no início da década de 1980, onde a prioridade é atribuída ao formalismo típico das demonstrações clássicas, inclusive com a utilização da terminologia pertinente ao campo da matemática. Hipótese, tese, conjectura, contraexemplo, postulado são termos presentes em atividades propostas em algumas dessas publicações. Nos livros publicados mais recentemente a tendência é que esses termos não estejam mais presentes. Mais não se trata apenas de uma alteração nos aspectos linguísticos da disciplina escolar. É possível constatar uma tendência de mudar no estatuto atribuído à formalização da argumentação no estudo da geometria, sobretudo, não antecipando a sistematização formal antes de procurar desenvolver idéias associadas aos processos argumentativos. Essa é uma diferença que consideramos relevante de ser destacada ao comparar os livros em função da data de publicação. De modo geral, há uma tendência acentuada em minimiza r a Anais do X Encontro Nacional de Educação Matemática Mesa Redonda 10 X Encontro Nacional de Educação Matemática Educação Matemática, Cultura e Diversidade Salvador – BA, 7 a 9 de Julho de 2010 importância atribuída à maneira de formalizar as demonstrações geométricas ou de sistematizar as tarefas que envolvem a validação do conhecimento. 3.2 Sistematização das práticas argumentativas Livros didáticos publicados mais recentemente e que foram fontes da nossa pesquisa apresentam diferentes maneiras de conduzir a sistematização do saber matemático escolar. No caso da argumentação a sistematização talvez tenha sido alterada a partir da inserção de ações mais experimentais e menos formais. Mas, antes de entender a especificidade da geometria, devemos reconhecer que um dos desafios atuais das orientações prescritas pelos documentos oficiais consiste em esclarecer o sentido atribuído à sistematização do saber escolar. Do formalismo radical que predominou em livros mais antigos não estaríamos, atualmente, incorrendo no risco de recair no extremo oposto, ou seja, de uma redução excessiva da sistematização inerente à cultura escolar? Em outros termos, compete aos formadores de professores, previamente, melhor explicitar como os saberes matemáticos devem e podem ser sistematizados no contexto dos estudos escolares. A sistematização dos conteúdos matemáticos é um conceito didático que se refere à maneira como os conteúdos podem ser textualizados pelos professores em função do aval assumido pelas instituições envolvidas nas práticas. Se não houver essa melhor explicitação dos sentidos atribuídos à sistematização, corre-se o risco do discurso prescritivo recair no mesmo equívoco da vertente tradicional, quando conceitos essenciais para o estudo da matemática permanecem sem a explicitação necessária. Os livros didáticos revelam algumas alterações quanto aos diferentes graus de sistematização na maneira de organizar o estudo da argumentação no estudo da geometria. De modo geral, nos livros didáticos publicados há mais de uma década, o tratamento da argumentação é conduzido de maneira mais formal, usando, por exemplo, uma linguagem mais específica do contexto epistemológico da ciência de referência. Por outro lado, os livros didáticos mais recentes tendem a alterar essa apresentação, não somente no aspecto da linguagem como também na forma de apresentar o discurso dedutivo. Do ponto de vista teórico, alguns livros didáticos mais recentes revelam sinais de redução da abordagem euclidiana tradicional. Entendemos que o ponto de equilíbrio desejável seria a superação do euclidianismo, conforme termo usado por Josep Gascón, ao Anais do X Encontro Nacional de Educação Matemática Mesa Redonda 11 X Encontro Nacional de Educação Matemática Educação Matemática, Cultura e Diversidade Salvador – BA, 7 a 9 de Julho de 2010 descrever diferentes modelos de organizações didáticas que permeiam o espaço das práticas escolares. (GASCÓN, 2003) Não se trata de desvalorizar o estudo da argumentação, mas corrigir um exagero de formalismo que predominou muito tempo no ensino da matemática. Em consonância com a questão da sistematização, alguns livros didáticos passaram a diversificar as estratégias de ensino, incluindo o uso de recursos diferenciados para o estudo da argumentação. Nos próximos parágrafos destacamos esses aspectos. 3.3 Estratégias de ensino da argumentação A diversificação das estratégias de ensino é um pressuposto didático defendido nas atuais orientações curriculares encampadas pelo poder público. Como consequência, livros didáticos passaram a incluir práticas associadas a essas orientações. Por esse motivo, ao estudar o tema da argumentação, optamos por analisar como a diversificação das estratégias de ensino vem sendo tratada nessas publicações escolares tão usadas por professores e alunos. Embora exista uma proximidade conceitual entre método e argumentação, quando esses termos se referem aos caminhos elaborados para a validação do conhecimento, no plano didático, para implementar essas idéias no contexto da sala de aula, entendemos ser mais pertinente usar a expressão estratégia de ensino, no sentido de descrever os procedimentos pertinentes às tarefas que envo lvem a argumentação. Dessa maneira, existe uma refinada dialética praxeológica entre as organizações didáticas e matemáticas concernentes ao estudo da argumentação no ensino dos conteúdos geométricos. Em um dos pólos dessa dialética estão os argumentos ma temáticos, aqueles de natureza epistemológica tais como a validação de proposições, propriedades, teoremas, axiomas, entre outros suportes objetivos tão característicos da área. No outro pólo dessa relação estão os objetos e os argumentos didáticos produzidos pelo professor com a intenção da construir suas estratégias de ensino. A sutileza desse segundo pólo sem sempre é evidencia com a devida clareza por permear nas opções subjetivas do trabalho docente. Em vista dessas ponderações, quando se trata de ana lisar as opções metodológicas para o ensino da geometria, a argumentação deveria a ser considerada, na formação inicial de professores, como uma categoria diferenciada pelo fato dela se localizar na fronteira mutável dos aspectos didáticos e epistemológicos. De um lado dessa fronteira, a tradição Anais do X Encontro Nacional de Educação Matemática Mesa Redonda 12 X Encontro Nacional de Educação Matemática Educação Matemática, Cultura e Diversidade Salvador – BA, 7 a 9 de Julho de 2010 iniciada por Tales de Mileto e posteriormente sistematiza por Euclides, entre vários outros que ampliaram a textualização do saber matemático, está ainda no núcleo da questão epistemológica. Do outro, estão os desafios vivenciados pelo professor na produção de estratégias de ensino que visam contemplar, ao mesmo tempo, a objetividade dos conteúdos geométricos e a subjetividade dos indivíduos estudantes desses conteúdos. Alguns livros destacam explicitamente o problema da validade de um enunciado ou de uma proposição, procurando estabelecer uma estratégia de manter um diálogo com o aluno. Por exemplo, no estudo dos ângulos opostos pelos vértices, após verificar, com o uso de um transferidor, a igualdade das medidas, pode aparecer uma frase na qual o autor leva o aluno a refletir sobre a generalização do resultado observado. Nesse caso, existem no livro didático sinais de valorização de um momento exploratório do processo de estudo, tal como teoriza Chevallard (2002), para destacar a passagem do momento do primeiro contato com um tipo de tarefa para aquele que caracteriza o trabalho com a técnica propriamente dita. Mas, em livros didáticos mais antigos o tema é apresentado de maneira mais formal, após a apresentação do enunciado segue-se, de imediato, a sua demonstração. 3.4 Argumentação e a resolução de problemas Os livros escolares de Matemática publicados no transcorrer dos últimos anos, no Brasil, revelam uma considerável tendência didática que consiste em valorizar diferentes tipos de articulação entre os conteúdos propostos, visando com isso expandir as condições de ensino e aprendizagem. Entre os diferentes tipos de articulação, constatamos a existência de um recurso que consiste em relacionar o estudo da argumentação com a resolução de problemas. Nesse caso, trata-se de propor problemas cuja resolução envolve propriedades geométricas cuja validade será trabalhada no contexto da própria resolução. Em outras palavras, quando o livro didático propõe atividades de estudo nas quais envolve a resolução de um problema no quadro da argumentação geométrica, aparentemente, existe um modo menos formal de abordar o tratamento conceitual do saber matemático. Porém, minimizar o peso dos aspectos formais nas práticas educativas ma temáticas escolares não significa reduzir a valorização didática e epistemológica da argumentação. Anais do X Encontro Nacional de Educação Matemática Mesa Redonda 13 X Encontro Nacional de Educação Matemática Educação Matemática, Cultura e Diversidade Salvador – BA, 7 a 9 de Julho de 2010 3.5 Dedução e indução na argumentação A realização a pesquisa que motivou a redação deste artigo nos permitiu constatar que livros didáticos, publicados nos últimos anos, revelam a tendência de complementar a organização lógico-dedutiva da argumentação geométrica por meio da valorização de estratégias indutivas em atividades voltadas para a validação do conhecimento. Segundo nosso entendimento, esta é uma estratégia diferenciada porque não estabelece uma única maneira de ensinar a validação do saber matemático. Estamos interpretando essa estratégia como a valorização de uma dialética entre o pensamento dedutivo e o indutivo no tratamento didático da argumentação. Caraça (1941), ao analisar a fundamentação lógica de conceitos, rejeita a idéia de atribuir ao saber matemático uma origem somente racional e defende que elaboração do saber deve passar por permanentes laços dialéticos entre a dimensão racional e aspectos experimentais. Dessa maneira, entendemos que o ensino da argumentação se constitui como uma das estratégias que pode ampliar as condições de estudo desse tema que é central da epistemologia do saber matemático. 3.6 Inversão no discurso didático A pesquisa cujos resultados motivaram a redação deste artigo foi realizada com base em uma abordagem praxeológica, no sentido definido por Chevallard (1999). Em outros termos, destacamos aspectos referentes à maneira como os autores de livros didáticos articulam técnicas e tecnologias no domínio de estudo da geometria e mais especificamente em atividades que envolvem os processos argumentativos. A nossa intenção foi focalizar as práticas prescritas pelos autores a partir da materialidade do texto apresentado, incluindo o discurso registrado na língua materna, as figuras, fotos e outros recursos usados para expor as atividades inerentes ao tema. De modo geral, as escolhas realizadas pelos autores de obras publicadas nos últimos anos acontecem, cada vez mais próximas, das orientações prescritas pelos documentos oficiais. Esse aspecto suscita uma importante questão a ser refletida no sentido mais amplo da formação de professores e da necessidade de construir práticas relativamente autônomas, de maneira que os caminhos construídos em sala de aula não dependam necessariamente do livro oficial do estado. Em outros termos, essa não é uma questão referente somente à subjetividade de um grupo de autores de livros didáticos. Existe uma Anais do X Encontro Nacional de Educação Matemática Mesa Redonda 14 X Encontro Nacional de Educação Matemática Educação Matemática, Cultura e Diversidade Salvador – BA, 7 a 9 de Julho de 2010 evidência nítida de um discurso didático oriundo em trabalhos do próprio campo, incorporado pelo poder público e pelos autores de livros didáticos. O problema é que existe um descompasso entre esse discurso e os cursos mais tradicionais de formação de professores de Matemática. Mais complexo ainda do que esse descompasso é o fenômeno da inversão na ordem de apresentação desse discurso. Na exposição argumentativa relativa ao estudo da geometria euclidiana concebida com base na lógica das demonstrações formais, tal como as práticas tradicionais valorizam, ocorre o fenômeno da inversão do discurso argumentativo, expressão usada por nós para destacar uma questão de natureza didática e epistemológica. É uma inversão no sentido do discurso matemático apresentado, de modo geral, iniciar por uma síntese ou por uma sistematização resultante de um processo anterior, precedente ao ato de expressar o conhecimento por meio de uma linguagem formal. O aspecto sintético das demonstrações geométricas está presente desde a publicação histórica dos Elementos de Euclides, obra utilizada como texto didático durante séculos e cujos procedimentos lógicos dedutivos influenciaram, de forma considerável as práticas de ensino da disciplina. Esta é uma questão que interliga os textos demonstrativos geométricos têm essa finalidade de sintetizar um conhecimento elaborado cuja validade. A produção do saber associado à argumentação geométrica, como nos outros conteúdos, não ocorre com a mesma linearidade das demonstrações apresentadas nos os textos didáticos. Na atividade matemática acadêmica, quando se trata da produção de novos teoremas, a formalização do discurso típico de uma demonstração geométrica é, normalmente, precedida de várias experiências, ensaios, avanços, retornos, verificação de casos particulares, enunciado de conjecturas e abordagens intuitivas. Em outros termos, o processo de produção do saber não se inicia com a formalidade do discurso textual resultante de uma sedimentação das essências. Por esse motivo, na transposição do tema para a escola não poderia haver inversões didáticas no sentido de apresentar, previamente, a formalidade do texto em detrimento da elaboração do conhecimento. O tempo da produção do saber não é congruente com o tempo da redação. Pode até mesmo ocorrer produções importantes no transcorrer da textualização, porém grande parte da produção ocorre em tempo anteriores – cálculos, intuições, experiências, ensaios, Anais do X Encontro Nacional de Educação Matemática Mesa Redonda 15 X Encontro Nacional de Educação Matemática Educação Matemática, Cultura e Diversidade Salvador – BA, 7 a 9 de Julho de 2010 retornos, entre muitos outros atos que não realizados por ocasião da redação textual. E essa observação é muito importante para orientar as práticas docentes escolares. A síntese textual de um discurso argumentativo, de certo modo, inverte esse processo, ao apresentar a parte final do trabalho e omitindo os tempos anteriores. É a inversão da escrita. Encontrei essa idéia ou alguma coisa próxima disso no texto de Michel de Certeau, quando ele aborda o problema da redação do texto histórico. (DE CERTEAU, 2002, p. 66) 4. Ele mentos de síntese A pesquisa realizada com livros didáticos nos permitiu constatar, em primeiro lugar, que o tema da argumentação está presente das páginas dedicadas ao estudo da geometria em livros didáticos dos anos finais do Ensino Fundamental. Em seguida, foi possível constatar mudanças no tratamento didático do tema, quando comparamos livros publicados há duas décadas e aqueles publicados mais recentemente. Nesse sentido, foi possível constatar que as práticas argumentativas se constituem em um dos aspectos didáticos, relativamente, preservado no ensino da matemática, porém há também uma diferença significativa quanto às maneiras de sistematizar ou formalizar as demonstrações e provas. Nas praxeologias usuais da educação matemática a argumentação se faz através de procedimentos e com diferentes estatutos. Muitas vezes, a validade de uma idéia é argumentada através da simples exibição de uma figura ou da verificação de alguns casos particulares e esse nível de validação é aceito no estrito espaço da sala de aula. Evidenciase nesse caso um conflito entre as lógicas indutiva e dedutiva. Embora a indução seja uma prática utilizada no descobrimento de propriedades matemáticas, esta não é uma conduta adequada na fase de formalização do conhecimento, pois não satisfaz a exigência de generalidade da Matemática. O estatuto das provas e demonstrações se constitui num dos pontos centrais na valorização do estudo da matemática como uma ciência lógico-dedutiva. A construção desta lógica no plano escolar, embora possa ser iniciada com práticas argumentativas do quotidiano, a partir de certo nível deverá haver rupturas. Na cultura matemática escolar que está sendo consolidada, sobretudo, no transcorrer das duas últimas décadas, geralmente, o tema da argumentação geométrica não está restrito aos aspectos formais das demonstrações clássicas. É possível constatar nos Anais do X Encontro Nacional de Educação Matemática Mesa Redonda 16 X Encontro Nacional de Educação Matemática Educação Matemática, Cultura e Diversidade Salvador – BA, 7 a 9 de Julho de 2010 livros didáticos publicados mais recentemente uma inserção crescente de atividades que abordam aspectos experimentais e intuitivos das práticas argumentativas. Se por um lado, essa inserção tem um aspecto positivo por aproximar a atividade matemática escolar das práticas culturais de referência, por outra, indica também uma tendência de minimizar ao máximo a dimensão formal dos registros demonstrativos tradicionais. Entre as posições extremas, cumpre- nos construir os pontos de relativo equilíbrio para o avanço do tema. Por exemplo, no estudo da matemática, mesmo que seja legítimo defender a valorização da argumentação lógico-dedutiva, a exemplo do que é feito na apresentação textual do saber matemático, parece mais adequado considerá- lo como ponto de chegada e não de partida. Este trabalho revelou um aspecto de valorização da argumentação porque mostrou que o tema está particularmente associado aos problemas mais amplos da formação de professores. De modo geral, em vista das diversas condições de formação de professores, nem sempre há uma compreensão didática suficientemente clara das várias questões relacionadas ao ensino dos processos argumentativos. Embora a temática de formação de professores não seja aquela na qual concentramos nossas pesquisas, não podemos deixar de destacar a estreita relação existente entre as práticas docentes, a utilização de livros didáticos e os processos formativos. Referências ARSAC, Iniciation au Raisonnement Dédutif au Collège, 1992. BICUDO, M. ESPÓSITO, V. 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Anais do X Encontro Nacional de Educação Matemática Mesa Redonda 18 X Encontro Nacional de Educação Matemática Educação Matemática, Cultura e Diversidade Salvador – BA, 7 a 9 de Julho de 2010 Anexo I - Identificação dos livros didáticos analisados CÓDIGO AUTOR EDITORA ANO 8.1 e 9.1 Fernando Trotta Scipione 1986 8.2 e 9.2 Álvaro Andrini Brasil 1989 8.3 e 9.3 Gelson Iezzi, Oswaldo Dolce, Antônio Machado Atual 1991 8.4 e 9.4 José Ruy Giovanni, Castrucci e Giovanni Jr. FTD 1992 8.5 e 9.5 Edwaldo Bianchini Moderna 1993 8.6 e 9.6 Scipione Di Pierro Netto Scipione 1995 8.7 e 9.7 Oscar Guelli Ática 1997 8.8 e 9.8 Luiz Márcio Imenes e Marcelo Lellis Scipione 1999 8.9 e 9.9 José Jakubo, Marcelo Lellis e Marília Centurión Scipione 1999 8.10 e 9.10 Antônio José Lopes Bigode Scipione 2000 8.11 e 9.11 Célia Carolino Pires, Edda Curi, Ruy Pietropaolo Atual 2001 8.12 e 9.12 José Ruy Giovanni e Eduardo Parente FTD 2002 Anais do X Encontro Nacional de Educação Matemática Mesa Redonda 19