CONHECIMENTO NA PRÁTICA Os recursos utilizados pela publicidade voltada ao público infantil e a polêmica gerada na área acadêmica, no mercado e na sociedade civil Como as empresas têm encarado o investimento na formação profissional de estudantes um ano após a nova Lei de Estágio Jovens consumidores Programas de Estágio Janeiro/2010 Ano 33 - nº 283 456 anos A visão de personagens que ajudam a traçar, no dia a dia, os caminhos da administração ção de São Paulo RAP_283.indb 1 15/01/2010 18:29:04 RAP_283.indb 2 15/01/2010 18:29:12 Carta ao leitor Parabéns, São Paulo! Esta edição, de número 283, inaugura o 33º ano da RAP – Revista do Administrador Profissional, um dos principais meios de comunicação que o Conselho Regional de Administração de São Paulo mantém com seus filiados, estudantes e instituições ligadas à área em todo o Estado. Atualmente, são distribuídos 50 mil exemplares da revista. Mas a publicação de janeiro é especial também porque marca o mês do 456º aniversário da cidade de São Paulo. Por esse motivo, sua reportagem de capa nos presenteia com o per fil de alguns daqueles que têm hoje a responsabilidade pela gestão de secretarias, órgãos e entidades de destaque no maior município brasileiro. Por trás de tamanha magnitude, existem pessoas que construíram uma carreira sólida com base na capacidade de exercer suas funções de maneira mais do que satisfatória” Trata-se de um tema fértil, curioso e polêmico. A princípio, a escolha da pauta pode parecer contraditória, já que, grande parte dos cargos de gerenciamento na área pública não é ocupada por administradores profissionais. Assim, é corriqueiro um médico comandar a pasta da Saúde, um engenheiro estar à frente do setor de Planejamento ou um professor na Secretaria de Educação. Pode-se pensar que, como entidade que representa e defende a atuação de gestores com formação acadêmica em Administração, o CRA-SP estaria, então, indo de encontro às suas mais intrínsecas convicções. Pois bem, não é esse o caso. Segundo o site oficial de turismo de São Paulo (cidadedesaopaulo.com), num perímetro de 1.530 km², a cidade conta hoje com cerca de 11 milhões de habitantes, que, para se ter uma ideia, circulam por 1.335 linhas de ônibus e mais de 60 km de linhas de metrô. É nela que está instalada a maior bolsa de valores da América do Sul, a BM&Bovespa, e onde se encontram 63% dos grupos internacionais presentes no Brasil. Como qualquer outra realidade envolvendo a gestão de recursos, pessoas e negócios em proporções colossais, a administração da cidade de São Paulo tem suas virtudes e fragilidades mais expostas. Por trás de tamanha magnitude, existem pessoas que construíram uma carreira sólida com base na capacidade de exercer suas funções de maneira mais do que satisfatória. Com destreza, levam-nos a deixar de lado o antigo pensamento generalista de que funcionário público não trabalha. São personagens que desempenham suas atividades como um meio para fazer da cidade um lugar melhor para se viver. Consequentemente, trazem avanços para toda a população e nos revelam excelentes aprendizados sobre os princípios da administração —no caso, a gestão pública. É com o intuito de conhecer mais sobre a história dessas pessoas, e permitir que suas experiências sejam compartilhadas, que o CRA-SP, por meio de sua revista, abre espaço a essa singela homenagem a todos que ajudam a fazer, diariamente, a cidade de São Paulo. Adm. Walter Sigollo Presidente do Conselho Regional de Administração de São Paulo - CRA-SP 3 RAP_283.indb 3 15/01/2010 18:29:33 Expediente Editor Conselho Regional de Administração de São Paulo 10 Conhecimento 14 Na Prática Presidente Administrador Walter Sigollo Um alerta sobre os problemas ocasioados pela publicidade excessiva ao público infantil e as alternativas que têm sido tomadas para coibi-la Diretores Adm. José Alfredo Machado de Assis Vice-presidente Administrativo Adm. Paulo Roberto Segatelli Câmara Vice-presidente de Relações Externas Adm. Cid Nardy Vice-presidente de Planejamento Adm. Joaquim Carlos Dias Vice-presidente para Assuntos Acadêmicos Adm. Teresinha Covas Lisboa 1º Secretário Adm. Roberta de Carvalho Cardoso 2º Secretário Adm. Antonio Geraldo Wolff 1º Tesoureiro Adm. Idalberto Chiavenato 2º Tesoureiro Conselheiros Marcio Gonçalves Moreira, Anna Luiza do Amaral Boranga, Carlos Antonio Monteiro, Alberto Emmanuel de Carvalho Whitaker, Hamilton Luiz Corrêa, Luiz Eduardo Reis de Magalhães, Alexandre Uriel Ortega Duarte, Milton Luiz Milioni, Luiz Carlos Vendramini Representantes no CFA: Roberto Carvalho Cardoso (efetivo) e Mauro Kreuz (suplente) Conselho Editorial para RAP 2009/2010 Coordenadora: Adm. Teresinha Covas Lisboa. Adm. Alexandre Uriel Ortega Duarte, Adm. Anna Luiza do Amaral Boranga, Adm. Cid Nardy, Adm. Hamilton Luiz Corrêa, Adm. Luiz Carlos Vendramini, Adm. Milton Luiz Milioni, Adm. Paulo Roberto Segatelli Câmara, Adm. Roberta de Carvalho Cardoso. Segundo o Centro de Integração Escola-empresa, as vagas destinadas aos estagiários crescem cerca de10% ao ano, mesmo após a criação da nova lei de estágio Produção Conselho Regional de Administração de São Paulo Depto. Marketing e Comunicação Coordenação Editorial e Gráfica.........Entrelinhas Comunicação Ltda. Editores-responsáveis Camilo Toscano e Priscila Pagliuso (MTb 51.108) Publicidade..................................Publicidade Nominal Representações Impressão.......................................................Plural Editora e Gráfica Ltda. Tiragem..............................................................................50.000 exemplares A RAP é uma publicação mensal do Conselho Regional de Administração (CRA-SP), sob a responsabilidade do Conselho Editorial do CRA-SP. As reportagens não refletem necessariamente a opinião do CRA-SP. Rua Estados Unidos, 889 - Jardim América - São Paulo - SP CEP 01427-001 - Telefone: (11) 3087-3200 [email protected] - www.crasp.gov.br RAP_283.indb 4 15/01/2010 18:29:35 06 Panorama 09 Canal Aberto 26 Perfil 30 Estilo 34 Opinião 18 Em parceria com a Dtcom, o CRA-SP proporciona cursos de atualização aos profissionais da área Tecnólogos já têm a possibilidade de efetuar registros profissionais no Conselho Conheça Sérgio Herz, diretor de operações e da área financeira da Livraria Cultura Febre entre os estudantes de Administração, os grupos de bateria de samba mostram porque até lá é necessária a presença de um administrador para coordenar com harmonia Os caminhos das empresas familiares na escolha de uma consultoria, por Sandra Regina da Luz Inácio Capa No mês de aniversário da capital paulista, a Revista do Administrador Profissional mostra como é a vida e o trabalho daqueles que estão voltados à administração da cidade RAP_283.indb 5 15/01/2010 18:29:37 Panorama CRA-SP oferece cursos de atualização Objetivo é capacitar profissionais à distância por João Novaes A integração entre canais de comunicação diversos tem se mostrado um meio eficiente no aprimoramento das organizações, seja na evolução dos processos, seja na execução da estratégia ou mesmo no treinamento de equipes. Ela é baseada na busca natural do homem pelo conhecimento e na crescente competitividade do mercado, que pede soluções para oferecer, por exemplo, capacitação à distância. Um bom exemplo é a convergência entre a TV empresarial e a Internet, que tem servido de ferramenta determinante para o crescimento profissional de muitos colaboradores nos mais variados segmentos. Atento para essa novidade e preocupado com o aperfeiçoamento constante dos administradores registrados, o Conselho Regional de Administração de São Paulo assinou, no dia 7 de dezembro de 2009, um convênio com a Dtcom. Trata-se de uma empresa de educação à distância bastante conhecida no ambiente empresarial. Com essa parceria, serão exibidos, na sede do Conselho, conteúdos sobre campos relevantes da Administração. O serviço será disponibilizado gratuitamente para todos os administradores e tecnólogos registrados e aos estudantes da área. Os usuários terão acesso a três canais: Autodesenvolvimento, Gestão Corporativa e Gestão Pública. “Nosso maior objetivo com essa empreitada é for- necer aos registrados conteúdo direcionado de forma rápida e eficaz, por meio de uma gestão dinâmica e simplificada, com eficácia atestada por inúmeras companhias. Tudo isso graças ao uso inteligente de tecnologias modernas voltadas à educação”, ressaltou o vice-presidente de Relações Externas do CRA-SP, Administrador Paulo Câmara. Criada em 2000, a Dtcom já fornece conteúdo para outras grandes empresas e instituições, como a Prefeitura de Curitiba, a Universidade Petrobras e a Eletrobrás. Ela também possui 3.500 pontos em todo o País e emite cerca de 7.000 certificados por mês. Para o Ensino a Distância (EAD), a Dtcom capacita professores especializados para desenvolverem o con- É um diferencial importante para se destacar no mercado atual” João Prosdócimo, diretor de marketing da Dtcom 6 RAP_283.indb 6 15/01/2010 18:29:46 PROFISSIONAL Revista do Conselho Regional de Administração de São Paulo • CRA-SP Desenvolvimento sustentável é tema de Congresso Internacional PUC-SP recebeu a 6ª edição do evento por Gislaine Araújo teúdo destinado aos alunos. Depois de cadastrados, eles assistem a uma hora de aula e têm à disposição mais duas horas do conteúdo pela Internet. Sempre auxiliados pelo “master” (um profissional treinado da própria empresa contratante que ajuda no cadastramento e entendimento das aulas), os alunos, depois de completarem a carga horária e serem avaliados, recebem o certificado de conclusão do curso. “Essa parceria trará ao público do CRA-SP a oportunidade de capacitação por meio de uma solução inovadora e completa. Trata-se de um diferencial importante para se destacar no mercado atual, comentou João Prosdócimo, diretor de marketing da Dtcom, no ato de assinatura da parceria. “As ferramentas utilizadas pela Dtcom oferecem ao usuário alto nível de interatividade dentro de um processo atrativo e eficiente”, destacou. Confira em www.crasp.gov.br/dtcom a programação mensal completa dos canais Dtcom. O Conselho promoverá a transmissão dos cursos de segunda a sexta-feira, das 10h às 19h. Escolha, na grade de opções, atividades que estejam dentro desses horários. Para assistir aos programas, faça sua inscrição pelo e-mail eventos. [email protected] ou pelo telefone (11) 3087-3200 - Departamento de Relações Externas, indicando o programa, a data e a hora de sua escolha. Como as vagas são limitadas, as reservas deverão ser feitas com, pelo menos, uma semana de antecedência à data desejada. Mudanças climáticas, segurança, tecnologia, educação, governança empresarial, economia verde e as políticas públicas são itens importantes na nova pauta das áreas de inovação e administração. Esses indicadores sociais servirão de base para o legado mundial na gerência de recursos humanos e econômicos. Entre os dias 8 e 10 de dezembro, acadêmicos e profissionais de diversas organizações do Brasil, Holanda, China, Japão e Canadá se reuniram em debates, palestras e workshops para tratar de diversos assuntos no 6° Congresso Internacional em Inovação e Gerenciamento (ICIM 2009, sigla original em inglês), realizado no campus da PUC-SP e no auditório do Tuca, ambos no bairro de Perdizes. Além do gerenciamento e da segurança de pessoas e companhias, os especialistas reunidos discutiram tecnologia, administração responsável de bens naturais, preservação da saúde, direitos de cidadania, autosuficiência energética e alternativas para um gerenciamento “holístico”, colocando o ser humano como prioridade. O professor Arnoldo José de Hoyos Guevara, do Núcleo de Estudos do Futuro da PUC-SP e presidente do Comitê Científico do ICIM 2009, considerou o evento como estimulante e agregador. Para ele, a crise provoca a criatividade, em torno da gerência e resolução de conflitos. “O pensar coletivo, neste momento, é fundamental. O mundo está mergulhado num cenário conturbado, violento. Crises econômicas, mudanças climáticas e valores diversos estão mexendo com a vida de todos: tudo precisa ser administrado e colocado numa ordem global. A aproximação entre a academia, instituições científicas e a gestão empresarial servirá de parâmetros para os futuros líderes”, sintetizou. O congresso foi realizado pelo Núcleo de Estudos do Futuro em parceria com as universidades de Tecnologia Wuhan (China), de Yamaguchi (Japão) e das Nações Unidas-Merit (UNU-Merit, Holanda). 7 RAP_283.indb 7 15/01/2010 18:29:56 Panorama PROFISSIONAL Revista do Conselho Regional de Administração de São Paulo • CRA-SP Indicações de leitura Condutores do Amanhã Jovens que entram e dão certo no mercado de trabalho e a nova lei de estágio Ruy Leal Editora Saraiva, 2ª Edição, 2009 Páginas: 168 - Preço: R$ 23,00 Consultor há mais de 30 anos na área de Recursos Humanos, Ruy Leal traz em seu livro dicas de como buscar oportunidades de estágio e emprego em um mercado de trabalho altamente competitivo. O autor se utiliza de personagens fictícios para aproximar o leitor de situações do cotidiano. Aos pais e mentores, Leal aponta caminhos para preparar um filho frente às dificuldades e o que fazer para capacitá-lo de maneira eficaz. O livro destina ainda um capítulo para a nova lei 11788/08, dedicada ao programa de estágio. Gestão de Carreiras na Empresa Contemporânea Organizador: Joel Souza Dutra Autores: Ana C. Scalabrin, Angelin Kishore, Betina S. Miranda, Elza Fátima R. Veloso, Jacquelaine F. Borges, Luciano V. Costa, Marcos A. de A. Ferreira e Tânia Casado Editora Atlas, 1ª edição, 2009 Páginas: 232 – Preço: R$ 43,00 Organizada por Joel Dutra, professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP), a obra trata da gestão profissional sob diversos aspectos. Entre eles, os processos de transição na carreira e a sucessão nas organizações. A leitura é direcionada aos que buscam se aprofundar nas questões de estrutura e funcionamento das empresas contemporâneas, sob o ponto de vista do administrador. Registro cancelado O CRA-SP, demonstrando responsabilidade e seriedade com a carreira de Administração, torna público os cancelamentos dos registros profissionais por irregularidades de: Weber Micael da Silva, natural de São Paulo – SP RG: 27. 270.789- 2 - CPF: 198.487. 858-17 Rafael Tadeu Amaral de Oliveira, natural de São Paulo – SP RG: 33.794.416-7 - CPF: 327.396.598--30 Procure as Delegacias do CRA-SP de sua região Bauru Presidente: Adm Helson José Berçott Fagundes Tel: (14) 3226-5004 Site: www.aacb.org.br E-mail: [email protected] Campinas Presidente: Adm. João Batista Pereira Júnior Tel: (19) 3251-9660 / Fax: (19) 3251-9688 Site: www.aarc.org.br E-mail: [email protected] Jundiaí Presidente: Adm Eric Jacques Lucien Winandy Tel: (11) 4521-4867 E-mail: [email protected] Piracicaba Presidente: Adm. Roberto Tayar Tel: (19) 3402-4841/ Fax: (19) 3402-5430 Site: www.admvirtual.com.br E-mail: [email protected] Santos Presidente: Adm. Itamar Revoredo Kunert Tel: (13) 3223-2629 Site: www.adesan.org.br E-mail: [email protected] São Carlos Presidente: Adm. Marcos Silveira Aguiar Tel: (16) 3371-5342 / Fax: (16) 3371-5342 E-mail: [email protected] Sorocaba Presidente: Adm. Gilberto Dilela Filho Tel: (15) 3211-0987 Site: www.aaesr.com.br E-mail: [email protected] São José do Rio Preto Presidente: Adm. José Carlos Simões Tel: (17) 3234-1676 Site: www.siarp.org.br E-mail: [email protected] 8 RAP_283.indb 8 15/01/2010 18:30:03 Canal Aberto PROFISSIONAL Revista do Conselho Regional de Administração de São Paulo • CRA-SP Tecnólogos já podem efetuar registros profissionais nos CRAs Medida foi aprovada no final de 2009 por Gislaine Araújo O s Conselhos Regionais de Administração (CRAs) já incorporaram em seu cotidiano uma novidade para os profissionais com formação tecnológica. De acordo com as Resoluções Normativas 373 e 374 (de 12 de novembro) e 379 (de 11 de dezembro) publicadas no Diário Oficial da União, no final de 2009, os órgãos já podem registrar os diplomados em cursos superiores específicos na área de administração. As resoluções são do Conselho Federal de Administração (CFA). Seu presidente, Roberto Cardoso, avalia que a mudança irá “oxigenar e modernizar a profissão”. A medida beneficia quem obteve Graduação Tecnológica por meio de cursos com duração média de dois anos, o que possibilita a atuação no mercado na área específica de sua formação. Para regularizar seu registro nos CRAs, o tecnólogo deve ter formação em um dos cursos de Graduação em Tecnologia relacionados à Área da Administração, conforme relacionado no Catálogo Nacional dos Cursos Superiores de Tecnologia (http://catalogo.mec.gov.br). A necessidade de obter um diploma de nível superior é uma das razões para a escolha desses cursos, que têm conclusão mais breve e custam menos. Vice-presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH – Nacional), Elaine Saad diz que, com as novas resoluções, é oferecida uma nova opção para os estudantes que, por diferentes motivos pessoais ou sociais, não podem esperar quatro anos de estudos para começar a trabalhar. Entretanto, Elaine ressalta que a nova situação não isenta o aluno de se dedicar com afinco aos estudos. “O estudante deve ter em mente que o curso formador de tecnólogo não é o mesmo de uma universidade tradicional. Ele precisará continuar se aperfeiçoando”, diz Elaine. Reinaldo Frascino, presidente da Associação Paulista de Ges- tores de Pessoas (AAPSA) e há 30 anos no mercado diz que o impacto será extremamente favorável. “Antes, o fato de se ter um diploma era um diferencial. Hoje, outras competências também são necessárias”, constata o consultor. Porém, Frascino explica que, dependendo do cargo, a formação precisa ser mais ampla. “Aqueles que atuam como gestores, por exemplo, devem fazer um curso de administração”, afirma. Elaine Saad lembra também que, para contratação de tecnólogos, as empresas devem checar a regularidade do registro desses profissionais nos Conselhos Regionais. A medida beneficia quem obteve Graduação Tecnológica por meio de cursos com duração média de dois anos 9 RAP_283.indb 9 15/01/2010 18:30:16 Conhecimento A publicidade infantil precisa de limites? Questões éticas e práticas que envolvem desde a escola e a família até entidades voltadas ao consumo e o Congresso Nacional por Nathalia Molina N os intervalos, a cena se repete: “mãe, compra?”. Adriana explica ao filho Nicolas, de 4 anos, que não pode comprar tudo o que o pequeno vê na propaganda do desenho. Certa vez, ele pediu uma moto elétrica. A mãe tornou a usar o argumento da falta de dinheiro. “Eu tenho”, respondeu o menino, pensando nos R$ 2 que Adriana lhe deu em duas ocasiões. “Não concordo com o excesso de propaganda e sem nenhuma conotação cultural. Incentivo o hábito da leitura na minha filha (Stephanie, de 7 anos) e nunca vi um comercial de livro. São só anúncios de brinquedos e brinquedos caros”, diz Adriana Martins, de 47 anos, diretora de uma entidade alemã no Brasil. O marido dela, o alemão Jürgen P r ö h l , d e 53 a n o s , a ch a u m absurdo tanto apelo publicitário. “O Jürgen chama isso de Marken- terror (numa tradução livre do alemão, ‘terror do mercado’). Segundo ele, as marcas estão doutrinando as crianças a escolher seu produto. Com isso, elas ficam pedindo, às vezes aterrorizando os pais para comprar. E, quando não recebem, ficam frustradas e bravas.” Pensando em proteger a meninada dos efeitos que o consumismo pode ter, o Instituto Alana, criado em 1994, e outra centena de entidades querem mais do que a diminuição de anúncios para crianças: lançaram, em 9 de 10 RAP_283.indb 10 15/01/2010 18:30:20 PROFISSIONAL Revista do Conselho Regional de Administração de São Paulo • CRA-SP dezembro, um manifesto pedindo “o fim das mensagens publicitárias dirigidas ao público infantil” –o texto está disponível em www.publicidadeinfantilnao.org.br. “A ideia não é que a criança seja excluída do processo de consumo, mas que seja orientada pelos pais, que aprenda a gastar o dinheiro”, diz Isabella Hen riques, coord enadora-geral do Projeto Cria nça e Consu-mo, do Instituto Alana. Segundo o manifesto, a propaganda de produtos e serviços para menores de 12 anos deveria ser voltada para os adultos. “O m erca d o (publ i cit ár io) tem tornado suas práticas muito ma is a g r e s s i va s. Em qualquer setor, tem cri-ança no meio, mesmo que o produto não seja para ela”, afirma Carlos Thadeu de Oliveira, gerente de Informação do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), uma das entidades que endossam o abaixo-assinado. “O manifesto é uma reação a essa intensificação do alvo criança. É um pouco mais forte em comparação ao que vínhamos tentando até o momento, mas essa questão tem de ser recolocada em discussão na sociedade. É preciso ver que existe um problema: a criança é bombardeada pela publicidade.” De acordo com a coordenadorageral do Projeto Criança e Consumo, a ideia é recolher o máximo de assinaturas e levar o abaixo-assinado ao Poder Público, tanto Legislativo quanto Executivo. “A gente apoia o projeto de lei que está no Congresso (PL 5.921/2001). Esse manifesto se originou de outro texto que apresentamos na Câmara”, explica Isabella. “Queremos mostrar o que vemos diariamente no nosso trabalho: que a sociedade é a favor da mudança”, diz a advogada, autora do livro Publicidade abusiva dirigida à criança. No Brasil, o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar) é a instituição que avalia os anúncios veiculados, de acordo com o que estabelece seu código. Segundo sua assessoria de imprensa, a entidade atualmente não concede entrevistas sobre publicidade infantil por entender que já participou amplamente dessa discussão. Em 2006, o Conar adotou novas normas éticas para a publicidade desse segmento, descritas na seção 11 do capítulo II de seu código. Os anúncios não podem usar verbos no É preciso ver que existe um problema: a criança é bombardeada pela publicidade” Carlos Thadeu de Oliveira, gerente de informação do Idec 11 RAP_283.indb 11 15/01/2010 18:30:21 Conhecimento Carlotta Aloisi diz que negociar é a melhor saída quando seus dois filhos pedem presentes caros De acordo com Simone, no fim da conferência, foi criado o Núcleo de Marketing Infantil Responsável. “Nos encontros, vamos buscar alternativas para o mercado. Estudar medidas como premiar empresas que são responsáveis (na forma como trabalham com crianças).” De 16 a 18 de março, no Itaú Cultural, o 3º Fórum Internacional Criança e Consumo, promovido pelo Instituto Alana, discute o assunto de forma mais filosófica, propondo reflexões sobre o consumo e o ato de brincar. A participação é gratuita e as inscrições começam em fevereiro. O apelo à marca A propaganda nem é a principal aliada do consumo na casa de imperativo, tampouco ter crianças e adolescentes sugerindo a compra de forma direta. A visão dos europeus A propaganda não deve se aproveitar da credulidade da criança, tampouco incitá-la a consumir ou estimulá-la a constranger outras pessoas a comprar os produtos anunciados. Orientações como essas são consenso em diversos países. Mas, em alguns deles, há regras ainda mais rígidas. Uma prática comum entre os europeus é proibir a interrupção de um programa infantil por propaganda. Existem países onde não é permitida a veiculação de publicidade durante um período anterior ou posterior à programação, por exemplo, nos cinco minutos que antecedem ou se seguem ao programa infantil. A advogada Isabella Henriques destaca que a tendência é de que essas normas fiquem ainda mais rígidas. “A Europa está estudando aplicar as regras da Noruega para toda a comunidade europ éia”, explica. Na Noruega, não são permitidos anúncios de produtos e serviços para crianças de até 12 anos. Por aqui, o tema vem sendo debatido nos últimos anos tanto pelo mercado quanto por organizações não-governamentais (ONGs). Em novembro, em São Paulo, ocorreu a 1ª Conferência Internacional de Marketing Infantil e, em março, será realizado o 3º Fórum Internacional Criança e Consumo. A conferência reuniu especialistas para debater o setor. “A criança tem de ter acesso a uma bagagem de informação. Senão, a gente tira toda a propaganda e, aos 12 anos, lança tudo?”, questiona a presidente da Carpe Diem Eventos, organizadora do evento, Simone Manara. “Toda publicidade para criança tem de ser educativa e recreativa, por exemplo, falando de reciclagem e de cultura.” Toda a publicidade desenvolvida para o público infantil tem de ser educativa e recreativa” Simone Manara, presidente da Carpe Diem Eventos Carlotta Cristine Vilches Aloisi, de 34 anos. “Acho pior a influência que meus filhos recebem convivendo com os colegas na escola, especialmente na idade do mais velho”, conta a dona-de-casa, mãe de Thalita, de 8 anos, e Enzo, de 11. “Ele só pede tênis caro, roupa de marca. A saída é negociar. Cabe aos pais dar limite. Não dou presente fora de época, só no aniversário, no Dia das Crianças e no Natal.” Para a professora Maria Carneiro, 12 RAP_283.indb 12 15/01/2010 18:30:22 PROFISSIONAL Revista do Conselho Regional de Administração de São Paulo • CRA-SP da PUC-SP, o apelo à marca existe em todas as classes sociais, pois significa status também para elas. “Em geral, as crianças hoje estão ficando adultas mais cedo, mas até 10 ou 12 anos ainda não têm discernimento para decisões.” A professora explica que, se os pais têm proximidade com os menores, podem comentar a programação de TV, ressaltando o que é positivo ou não, até nos anúncios. “Mas hoje os pais ficam pouco tempo com os filhos. A intensidade do trabalho é maior. Por conta de não estarem presentes, ou tão presentes, os pais acabam comprando uma série de coisas para suprir essa ausência”, afirma. “Poderíamos diminuir a propaganda infantil. Os pais também poderiam ter consciência de que precisam dizer ‘não’.” Ana Paula Rodrigues Silveira da Rocha, de 28 anos, que enfrenta os efeitos da propaganda infantil na proporção três contra um (Mariana, 11, João Matheus, 9, e Luana, 6) adotou alguns métodos para equilibrar a renda familiar e os desejos Ana Paula Paulaa een enfrenta frenta fre nta ta a pro pr propaganda paggand a a iinfantil nfa fanti fa ntt l nti pee mittind per permitindo ndo oq que uee seu se seus e s ttrês rês ê ffifilhos ês lho hos eescolham h s lha sc sco ham ha m só só um m tip ttipo od dee gulo gguloseima u sei ulo see ma de seus pequenos. “Para preparar as lancheiras, diariamente, criei uma espécie de minimercado em casa. As crianças têm direito a escolher uma fruta, um lanchinho salgado e outro que atenda suas vontades, como os chocolates e biscoitos doces. Assim, gasto menos e mantenho uma alimentação mais saudável”, conta a mãe que definitivamente não tem medo de falar não. “Costumo dizer que a Ana PL 5.921/2001 Criança x Publicidade O PL 5.921/2001, de autoria do deputado Luiz Carlos Hauly (PSDB-PR), proíbe a publicidade para a venda de produtos infantis. Nesses oito anos, a redação original recebeu substitutivos na Comissão de Defesa do Consumidor (vetando, além da propaganda, a comunicação mercadológica para menores de 12 anos) e na Comissão de Desenvolvimento Econômico, Indústria e Comércio (acrescentando um parágrafo sobre “valores éticos e sociais”). O projeto de lei está na Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática, onde foi recebido em 15 de outubro de 2009. Antes de ser votado, será apreciado ainda pela Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania. 13 RAP_283.indb 13 15/01/2010 18:30:37 Na prática Qualificação dentro de casa Um ano após a criação da nova lei, empresas continuam a investir alto nos estagiários por Aline Mazzo Contratar um profissional que ainda não está completamente apto a desenvolver as atividades praticadas na empresa, investir —inclusive financeiramente— em sua capacitação e desenvolvimento e ainda destacar funcionários para acompanhar seu desempenho. Tanto empenho por alguém que não dá garantias de que cor- responderá às expectativas da corporação é cada vez mais comum nas empresas. Muitas delas fazem grandes apostas em universitários e já possuem programas de estágio consolidados. A explicação para o investimento é simples: faltam profissionais qualificados no mercado. Diante deste cenário, uma das saídas mais efi- cientes para o problema é formar, “dentro de casa”, alguém capaz de atender às necessidades da corporação. Para o universitário, é a chance de obter a tão sonhada experiência e conseguir ingressar no mercado de trabalho, sempre muito concorrido. Para se ter uma dimensão do quanto é acirrada a 14 RAP_283.indb 14 15/01/2010 18:30:45 Revista do Conselho Regional de Administração de São Paulo • CRA-SP disputa por uma vaga, em 2008, 103.344 alunos se formaram em cursos de Administração no País, segundo o Censo Universitário do Ministério da Educação e Cultura. Se forem incluídos os cursos que envolvem gerenciamento, esse número sobe para 139.989. Como beneficia empregador e estudante, o programa de estágio, que antigamente era exclusividade de multinacionais, agora se torna opção para médias e até pequenas empresas. Em comum, a necessidade de mão-de-obra especializada e de profissionais qualificados. Saldo positivo Gestores e especialistas são unânimes em dizer que as corporações só têm a ganhar com a contratação de um estagiário. Segundo o Centro de Integração EscolaEmpresa (CIEE), a admissão desse tipo de trabalhador cresce no Brasil cerca de 10% ao ano, o que mostra uma mudança de cultura das empresas. “O investimento é considerado baixo, se levarmos em conta os resultados que um bom profissional pode trazer no futuro”, destaca a gerente de treinamento do Núcleo Brasileiro de Estágios (Nube), Carmen Alonso. Ela explica que, mesmo após a criação da nova lei de estágio, vigente desde 2008, que criou novas regras para o contrato de serviço, as empresas entenderam que ainda saem ganhando na relação custo-benefício. “O salário de um estagiário não gera encargos nem verbas rescisórias. Com isso, o empregador fica livre do que mais pesa no bolso: os impostos”, diz. Do outro lado, estão jovens com muita vontade de trabalhar na área que escolheram. “São dinâmicos, pró-ativos e trazem para o meio corporativo as novidades do mercado com as quais costumam ter contato na universidade. Além disso, são profissionais sem vícios adquiridos em outras empresas e com ideias novas”, esclarece o superintendente de atendimento do Estado de São Paulo do CIEE, Luiz Gustavo Coppola. Prova disso são os projetos de redução de custos, geralmente executados por estagiários recémcontratados. “Eles têm um olhar mais global e atento, perfeito para esse tipo de trabalho”, afirma Coppola. Tal atitude precisa ser recompensada. Os especialistas alertam que se a empresa não propuser novos desafios e oportunidade de efetivação para esses estudantes, é bem provável que eles procurem rapidamente um novo emprego. “Os jovens que chegam ao mercado pertencem à geração Y. Não têm medo de mudanças e precisam a todo tempo de estímulo porque enjoam com a rotina”, esclarece a gerente do Nube. Recrutando e capacitando jovens há mais de 40 anos, o programa de estágio da General Motors do Brasil é um dos mais bem-sucedidos do País. A empresa percebeu que era difícil encontrar profissionais com a qualificação que desejava e resolveu assumir a formação deles. “Estamos sempre em busca de talentos. É o que nos move a continuar investindo”, define o gerente de desenvolvimentos de recursos humanos da GM do Brasil, Marco Antonio Vicci Vilas Boas, quando fala, orgulhoso, do projeto. O programa oferece vagas para praticamente todos os setores, desde o operacional até a parte Como se destacar no estágio O QUE É LEGAL • Saber trabalhar em grupo • Ser proativo • Ser criativo • Assumir responsabilidades • Questionar sempre que achar necessário • Perguntar como está seu desempenho O QUE NÃO PODE • Ser individualista • Demorar para se adaptar às atividades • Não ter comprometimento • Deixar de cumprir as tarefas • Não demonstrar interesse administrativa, em todos os escritórios e fábricas do Brasil. Segundo o gerente, nos últimos oito anos, foram efetivados 430 estagiários. “Nosso objetivo é reter esses talentos. Tem dado tão certo que dois Estamos sempre em busca de talentos. É o que nos move a continuar investindo” Marco Antonio Vicci Vilas Boas, gerente de desenvolvimento de recursos humanos da GM do Brasil 15 RAP_283.indb 15 15/01/2010 18:30:46 Na prática dos 15 membros do nosso comitê executivo são ex-estagiários.” Para dar suporte ao universitário que ingressa no mercado de trabalho, a empresa oferece palestras e uma espécie de tutor acompanha o desenvolvimento dos estagiários. “Existem avaliações semestrais e, ao fim do ano, eles apresentam um projeto para vários convidados, incluindo a chefia do setor. É como se fosse uma vitrine”, diz Vilas Boas. As empresas de médio e pequeno porte sem um programa de estágio estruturado podem criar atrativos aos universitários. “Estipular um reajuste para a bolsa-estágio a cada semestre, propor um rodízio de atividades, deixar que ele desenvolva projetos e premiá-lo por isso. Enfim, mostrar que há chances de ele ser contratado”, sugere Carmem Alonso, gerente do Nube. A nova legislação Em setembro de 2008, foi criada a nova lei de estágio, que causou uma br usca mudança no mercado, gerando cerca de 90 mil demissões em apenas três meses. Dentre as novas regras, a legislação prevê que o estagiário trabalhe no máximo seis horas por dia, receba bolsa-estágio e auxílio-transporte, tenha recesso remunerado de 30 dias após um ano de trabalho e fixa em dois anos o tempo máximo de estágio na mesma empresa. Ou seja, se quiser continuar com o funcionário, é preciso contratá-lo. Na opinião do superintendente geral do Instituto Via de Acesso, Ruy Leal, a mudança serviu para separar o joio do trigo. “As empresas que tinham programas sérios não tiveram problemas. Aquelas que usavam os alunos, fazendo com que praticamente pagassem para trabalhar, tiveram de se reestr uturar”, avalia. Ana Paula Santos acredita que a nova lei fez com que os estagiários fossem mais respeitados nas empresas Leal também é autor do livro “Condutores do Amanhã: jovens que entram e dão certo no mercado de trabalho”, obra que mostra como funciona o ambiente corporativo com intuito de preparar o jovem para esse novo mundo. Ele explica que num primeiro momento houve demissões, mas, a partir da compreensão das empresas e da retomada da economia no último trimestre de 2009, os estagiários voltaram a ser recrutados. Segundo ele, cerca de 1,5 milhão de jovens fazem estágio atualmente no Brasil. Para Leal, esse primeiro contato com o mercado de trabalho pode ser fundamental nas futuras escolhas e decisões. “Se a empresa trata o estagiário com respeito e aposta nele, com intuito de vê-lo crescer, essa corporação não só forma um profissional capacitado, mas também um jovem mais cidadão, que terá uma postura diferenciada nos âmbitos pessoal e profissional.” Estudo e trabalho Ana Paula Santos, 18 anos, é uma dentre os muitos estudantes que comemorou a nova Lei de Estágio. Ela conseguiu uma vaga na área comercial de uma empresa de telecomunicações há três meses e nem acredita que não precisa usar a madrugada para estudar ou fazer trabalhos. “Consigo trabalhar e estudar tranquilamente. No tempo que passo na empresa, as atividades são bem intensas, mas saindo de lá consigo me dedicar melhor ao curso”, conta. A jovem está no terceiro semestre de Administração. Ela, que também estagiou na lei antiga, diz que a mudança fez com os estagiários passassem a ser mais respeitados dentro das empresas. “Hoje sinto que quem me contratou 16 RAP_283.indb 16 15/01/2010 18:30:46 Revista do Conselho Regional de Administração de São Paulo • CRA-SP Fotos: Eduardo Lopes O fato de não ter um plano de carreira me incomodava muito” José Guilherme Brandão Soares Filho, estudante de Administração foi pelo meu trabalho, não por eu custar pouco.” Além da melhoria nas condições trabalhistas, Ana Paula diz que já consegue empregar os conhecimentos da faculdade no trabalho e vice-versa. “Quando o professor fala sobre o mercado de trabalho eu já tenho várias experiências para contar. Parece que o estágio e o curso se completam.” De olho na carreira Desestimulado pela falta de perspectiva de efetivação, José Guilherme Brandão Soares Filho, 21 anos, trocou o estágio em um órgão público pelo trabalho de analista de riscos em um banco privado no fim do ano passado. “O fato de não ter um plano de carreira me incomodava muito”, diz. O estudante, que está no quinto semestre do curso de Administração, ficou ainda mais José Guilherme preferiu trocar o estágio sem grandes perspectivas pela oportunidade como analista motivado quando descobriu que ocuparia a vaga de um estagiário que acabara de ser efetivado. “Vi que o trabalho é importante e pode abrir muitas portas.” Além de exercer o que já aprendeu sobre administração, José Guilherme conseguiu aliar uma paixão antiga ao novo trabalho: a informática. Antes de entrar na faculdade, ele costumava dar aulas de computação e este conhecimento foi um diferencial para conquistar a vaga. “Fazemos muitas planilhas e isso ninguém precisou me ensinar aqui.” Apesar do pouco contato com a nova função, o jovem já sabe que escolheu a profissão que gosta e agora pretende se especializar cada vez mais. “Já vou começar a pensar na pós-gradução”, brinca. 17 RAP_283.indb 17 15/01/2010 18:30:50 Capa Administradores da cidade Conheça os desafios de quem trabalha nas engrenagens da Prefeitura de São Paulo, uma organização de números gigantescos em recursos, funcionários, usuários e necessidades Foto: Marcos Fioravante Fotomontagem: Marcelo Barros 18 RAP_283.indb 18 15/01/2010 18:31:02 Revista do Conselho Regional de Administração de São Paulo • CRA-SP 19 RAP_283.indb 19 15/01/2010 18:31:13 Capa por Melissa Diniz S Foto: divulgação ão Paulo completa este mês 456 anos de fundação em constante corrida para vencer desafios. Transformar-se em capital de negócios e polo de serviços e cultura da América Latina foi um processo longo, intenso e não exatamente tranquilo para a maior referência industrial do Brasil no século XIX. Há muita história guardada desde seus tempos de vila, ainda no século XVI, até suas linhas de metrópole, que começam a ser delineadas a partir da década de 50. Exemplos dessa transformação estão nas mais singelas referências cotidianas. Provavelmente, a maioria dos comerciantes e do público feminino que frequenta as lojinhas de bijuterias da Ladeira Porto Geral não sabe que a rua tem esse nome porque ali era de fato um porto, junto a uma área navegável numa curva do rio Tamanduateí. Agora o local é de salve-se quem puder em véspera de Natal e, vez ou outra, de corre-corre de camelôs e agentes municipais. O Tamanduateí do século XXI, infelizmente, é lembrado quando transborda em dia de enchente. É assim: ao mesmo tempo em que São Paulo é manancial de oportunidades, sofre com as mais variadas chagas das grandes metrópoles. Quem nunca ficou preso num engarrafamento? Toda essa complexidade faz da Prefeitura Municipal uma espécie de megaempresa, uma companhia responsável por atender 11 milhões de pessoas (ou clientes), Atuar na vida pública é muito gratificante, pois permite realizar alguns sonhos” José Roberto Graziano, chefe da Supervisão Geral de Abastecimento da Secretaria Municipal de São Paulo (foto) cominúmerasnecessidades,queixas, desejos e direitos. Até mesmo a Prefeitura está localizada em outra referência de metamorfose na vocação econômica e social da cidade. O Viaduto do Chá, o primeiro de São Paulo, inaugurado em 1892 após 15 anos de obras, foi construído na área conhecida por chácara dos barões de Tatuí, onde, de fato, se plan- tava chá. É desse endereço, em seu gabinete no Edifício Matarazzo, que o prefeito Gilberto Kassab comanda diversos secretários, subprefeitos e, com a ajuda desses, todos os 162 mil servidores municipais. Na função de gerenciar recursos, encontrar soluções, liderar pessoas e responder às solicitações da comunidade estão presentes, em todos os setores da administração municipal, pessoas que, ao contrário do que prega o senso comum, levam a função pública a sério. São figuras que, na maioria das vezes, ficam nos bastidores cuidando de detalhes tão essenciais quanto desconhecidos pelos cidadãos. Muitos desses funcionários e servidores ingressaram na carreira pública em busca de estabilidade e encontraram uma oportunidade de fazer muito pela cidade. Outros são escolhidos pelos governantes por sua experiência e pela capacidade de apontar alternativas para os mais complicados problemas. A RAP foi conhecer um pouco mais da história, carreira e desafios enfrentados por alguns desses personagens. O dono da banca Quando se formou em Engenharia Agronômica, em 1975, José Roberto Graziano, 58 anos, não fazia ideia de que, 30 anos mais tarde, seria o supervisor geral de Abastecimento da cidade de São Paulo. Graziano veio para a capital em 1976 trabalhar com eletrificação rural na então Secretaria de Obras e Meio Ambiente. “Eu era um garoto simples do interior e comecei a perceber que na cidade grande era apenas um profissional a mais. Como sempre tive um jeito para negócios, decidi prestar 20 RAP_283.indb 20 15/01/2010 18:31:18 Revista do Conselho Regional de Administração de São Paulo • CRA-SP Por trás da teia da Saúde Foto: Eduardo Lopes Administração no Mackenzie.” Formou-se em 1980. De volta a sua cidade natal, Araras (SP), Graziano trabalhou por 13 anos com produção agrícola em uma usina de açúcar e álcool. Em 1995, passou a integrar a Secretaria Estadual de Agricultura, onde ficou até 1999. Após alguns anos atuando como consultor, em 2005, foi convidado a integrar a equipe da Administração Municipal, como chefe da Supervisão Geral de Abastecimento, ligada à Secretaria Municipal de Coordenação das Subprefeituras. De lá para cá, vem desenvolvendo um trabalho de resgate e recuperação dos 34 mercados municipais, além de cuidar das 888 feiras livres da cidade, do banco de alimentos –que recebe e distribui mais de 100 toneladas de comida por mês– e de projetos especiais, como o que incentiva a agricultura limpa e o plantio de baixo impacto ambiental. “Posso dizer que atuar na vida pública é muito gratificante, pois permite realizar sonhos. Quando comecei meu trabalho na Prefeitura, 44% dos mercados da cidade estavam abandonados, outros, envelhecidos e desocupados. Hoje, a situação é muito diferente. Fico feliz por poder fazer algo pelo coletivo”, diz. cação para se formar em Medicina foram apenas o começo para Flávia Porto Terzian, 57 anos, superintendente da Autarquia Municipal Hospitalar da Secretaria da Saúde. Para encarar a tarefa de gerenciar 11 hospitais, 14 postos de saúde e 4 pronto-atendimentos, nos quais chefia 15 mil funcionários, ela teria ainda que fazer uma especialização em Administração Hospitalar. “Entre as principais vantagens de ser funcionária pública da saúde está o fato de que, aqui, o profissional não Aqui, o profissional não sofre restrições em sua capacidade técnica” Flávia Porto Terzian, superintendente da Autarquia Municipal Hospitalar da Secretaria Municipal da Saúde (foto) sofre restrições em sua capacidade técnica e sua liberdade de atuação é muito mais ampla do que nos convênios. Para o médico, isso é muito gratificante”, afirma. Dentre suas funções estão questões de atendimento ao usuário, gerenciamento de suprimentos médicos hospitalares e dos recursos humanos das unidades. “Acompanho de perto tudo o que acontece nos ser- viços, faço intervenções, quando necessário, administro o orçamento destinado a essas unidades, entre outras atividades”, diz. Para se ter uma ideia da amplitude de sua função, o orçamento do setor para 2009 foi da ordem de R$ 650 milhões. Junto com os recursos que, a princípio parecem fartos, vem uma série de responsabilidades e a necessidade de atender a inúme- Os longos anos de estudo e dedi- 21 RAP_283.indb 21 15/01/2010 18:31:20 Capa ção visual; Biblioteca Pedagógica, que tem como objetivo a disseminação da informação; Expediente, que promove o trâmite de documentos; Memória Técnica Documental, que visa à preservação de documentos técnico-pedagógicos; Memorial do Ensino Municipal, que mantém informações históricas; e Vídeo Educação, que faz o registro de imagens de toda a área de ensino. Dois destes setores possuem Foto: divulgação É muito importante investir na formação continuada para se manter atualizado” Magaly Ivanov, coordenadora do Centro de Multimeios da Secretaria Municipal de Educação (foto) ras e constantes reivindicações de servidores e, claro, dos cidadãos. Por isso, se assim como Flávia você busca segurança profissional e se interessa por uma carreira na administração pública, aqui vai seu conselho: “Venha com vontade de trabalhar e não desanime diante de dificuldades.” Guardiã da memória Para Magaly Ivanov, 42 anos, coordenadora do Centro de Multimeios da Secretaria Municipal de Educação, além da estabilidade no emprego, a administração pública permite desenvolver um plano de carreira com mais segurança. Sob sua responsabilidade estão seis setores: Artes Gráficas, que desenvolve trabalhos de comunica- um acervo bastante rico sobre a história do município. A Biblioteca Pedagógica, por exemplo, reúne 25 mil títulos, 2.100 vídeos, toda a legislação da cidade desde 1898, arquivos de Diários Oficiais desde 1982, diversos periódicos e CDs de áudio: tudo disponível para empréstimo aos professores da rede municipal e para consulta aos demais usuários. Já o Memorial do Ensino Municipal, que é aberto ao público para visitação e pesquisa, possui objetos históricos e mais de 15 mil fotos, desde a década de 40, relacionadas à educação na cidade. “Como coordenador da Educação, o profissional precisa ter habilidade para desenvolver trabalhos em equipe. É importante saber valorizar os funcionários e projetos desenvolvidos, assim como mudar o que precisa ser revisto. Acima de tudo, é importante investir na formação continuada para se manter sempre atualizado”, diz Magaly, que há dez anos trabalha como coordenadora pedagógica. O homem do dinheiro Aos 49 anos, Rubens Chammas foi incumbido, em novembro do ano passado, da difícil tarefa de administrar o gigantesco orçamento da cidade de São Paulo que, para este ano, é de R$ 27,9 bilhões. O atual secretário municipal de Planejamento, formado em Engenharia Civil e em Economia, com especialização em Engenharia Sanitária, começou na carreira pública em 1998, quando foi, entre outras funções, diretor do Departamento de Economia 22 RAP_283.indb 22 15/01/2010 18:31:25 e Orçamento da Secretaria Municipal de Planejamento (Sempla). Desde então, já ocupou cargos na Secretaria Municipal de Habitação (Sehab), na Companhia Metropolitana de Habitação (Cohab) e na Empresa Municipal de Urbanização (Emurb). Atualmente, sua rotina de trabalho inclui reuniões internas com as equipes e assessorias da secretaria, e externas, com todas as unidades da administração municipal. Por caber a sua pasta o acompanhamento da execução orçamentária, Chammas precisa conversar com todos os secretários e presidentes de empresas públicas municipais, orientando sobre as ações a serem desenvolvidas para o cumprimento do Plano de Metas. “A ocupação de um cargo público pressupõe que o profissional exerça esta função com foco no espírito público, ou seja, colocando em destaque os aspectos de desenvolvimento sustentável na tomada de decisões e no exercício da função. Ocupar um cargo desta natureza traz ao profissional uma ideia ampla e abrangente dos desafios a serem enfrentados. Trata-se de uma atividade de extrema Foto: divulgação Revista do Conselho Regional de Administração de São Paulo • CRA-SP Ocupar um cargo público pressupõe dedicação total e foco no espírito coletivo” Rubens Chammas, secretário municipal de Planejamento da Prefeitura de São Paulo (foto) 23 RAP_283.indb 23 15/01/2010 18:31:33 Capa riqueza e grande retorno de satisfação”, afirma. Sobre as pressões existentes no cargo, o secretário considera que elas apenas refletem a responsabilidade da tarefa e devem ser encaradas com naturalidade. Várias cidades numa só O assessor da Secretaria de Coordenação das Subprefeituras Amauri Luiz Pastorello, 50 anos, teve a rara experiência de administrar, nos últimos cinco anos, duas das 31 subprefeituras com necessidades totalmente diferentes: Pirituba e Sé. Formado em Engenharia Civil com MBA em Administração, Pastorello, desde 1986, é funcionário da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), onde desempenhou diversas funções e participou de projetos inovadores. Em 2005, foi emprestado à Prefeitura de São Paulo para assumir Pirituba. “Pirituba ocupava a 17ª posição entre as subprefeituras. Conseguimos fazê-la subir sete posições nesse ranking”, conta. A partir daí, assumiu o carro-chefe das subprefeituras: a Sé. Enquanto Pirituba tem 400 funcionários e um orçamento da ordem de R$ 23 milhões por ano, a Sé tem o dobro de pessoal e uma verba de R$ 130 milhões anuais. Sei que eu ainda posso contribuir muito para o desenvolvimento do município e a qualidade de vida da população” Foto: Marcos Fioravante Amauri Luiz Pastorello, assessor da Secretaria de Coordenação das Subprefeituras de São Paulo (foto) Pela região da Sé passam 3 milhões de pessoas por dia, em locais como avenida Paulista, a rua 25 de Março e a José Paulino. “É uma área em que se produzem toneladas de lixo por dia. São 15 caminhões lavando as ruas dia e noite”, explica. Representante direto do prefeito junto aos bairros, o subprefeito tem como principais tarefas cuidar do sistema de drenagem, limpeza de bocas de lobo, manutenção das galerias, corte da grama, poda das árvores, serviço de tapa buracos, fiscalização de estabelecimentos, aprovação de alvarás de construção para imóveis de até 1.500 m 2, além dos vínculos com outras Secretarias, como Esportes, Cultura, Educação e Saúde. Para Pastorello, que hoje cuida de projetos especiais desenvolvidos pelo prefeito, a carreira pública possibilita realizar muito pelas pessoas e pela cidade. “Sou movido a desafios e sei que ainda posso contribuir muito para o desenvolvimento do município e a qualidade de vida da população”, diz. Know how e arte tumular Por trás do Serviço Funerário do Município de São Paulo, está o superintendente Celso Jorge Caldeira, 53 anos. A autarquia, ligada à Secretaria Municipal de Serviços, administra 22 cemitérios públicos, um crematório e 12 agências funerárias, além de fiscalizar e normatizar outros 18 cemitérios particulares. A carreira do superintendente, que começou como assessor e consultor há 20 anos na iniciativa privada, inclui ainda a passagem pela organização de um sindicato nacional de cemitérios particulares. A experiência rendeu o convite, em 2006, para assumir como superintendente do Serviço Funerário Municipal, o maior da América Latina. O Serviço, que conta hoje com um orçamento anual de R$ 120 milhões, não recebe verbas da Prefeitura. Os recursos vêm da contratação dos serviços, aluguéis de velórios e carros fúnebres e da venda de concessão de terrenos 24 RAP_283.indb 24 15/01/2010 18:31:39 Revista do Conselho Regional de Administração de São Paulo • CRA-SP semana, para resolver problemas in loco. “Percebi que nessa área as pesquisas de mercado são muito mais ricas do que as que eu fazia no meio acadêmico, pois levam em conta aspectos culturais, Percebi que nessa área as pesquisas de mercado são muito mais ricas e me apaixonei pelo tema” Celso Jorge Caldeira, superintendente do Serviço Funerário do Município de São Paulo (foto) religiosos, econômicos, sociais, antropológicos e de costumes. Isso me fez aprender muito e a me apaixonar pelo tema”, afirma. São Paulo agradece! Foto: Marcos Fioravante nos cemitérios públicos. “Temos uma tabela de preços progressiva, quanto melhor o caixão ou a urna, mais caro o serviço, sendo que 25% de nossos atendimentos são gratuitos quando se comprova a necessidade da família ou quando a pessoa falecida é doadora de órgãos”, explica Caldeira. Para se ter uma ideia do volume do trabalho atual, a cada dia ocorrem, em média, 200 óbitos na cidade. De 18 a 20 corpos são cremados e 140 são sepultados nos cemitérios municipais. Somente o restante vai para cemitérios particulares. Foi a imigração de europeus para a cidade, nos tempos da cultura do café (meados do século XIX) que incentivou o costume de enterrar os mortos, daí a discrepância entre a quantidade de cemitérios e crematórios na cidade. O hábito motivou a elite paulistana e acabou por render à cidade importante acervo de arte tumular. Pelo menos quatro importantes locais fazem parte desse roteiro: cemitérios do Araçá, São Paulo, Morumbi, e Consolação, o mais famoso. Ao todo, 1.600 servidores respondem ao superintendente do Serviço Funerário, cuja rotina de trabalho inclui a visitação a cemitérios, pelo menos duas vezes por 25 RAP_283.indb 25 15/01/2010 18:31:41 Perfil O olhar em todas as direções Construindo conhecimento e rentabilidade por Gislaine Araújo S er herdeiro de uma empresa de ponta na área cultural em uma cidade cosmopolita como São Paulo é desafiador. Mas o administrador de empresas Sérgio Herz aceitou a proposta e foi em frente. Ele deverá ser o último do clã a se dedicar à Livraria Cultura, uma rede de lojas com 62 anos, que se tornou referência como centro cultural, ponto de encontro de amigos e –por que não?– um local para fechar negócios. Isso se explica: a Livraria Cultura entrou na era da administração profissional e, por um estatuto, a família deixará a cargo de executivos profissionais a condução da empresa. Diretor de operações e da área financeira, Sérgio Herz hoje tem prazer em administrar, mas já pensou em ser médico. Curioso, resolveu, antes disso, conhecer o empreendimento familiar e a arte de vender livros no varejo. Apaixonou-se pela atividade e assumiu o desafio: ser filho do dono e sair deste estigma com competência. Formado em Administração de Empresas pela Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), concluiu MBA na Business School São Paulo (BSP), incluindo um período na Universidade de Toronto, Canadá, e cursou também o Program for Management Development (PMD) pelo Instituto de Estudos Superiores de Empresa (IESE), ligado à Universidade de Navarra, Espanha, considerada uma das melhores escolas de negócios do mundo pela revista norte-americana The Economist. Depois de trabalhar muito durante o ano de 2009, Sérgio quer reservar um tempo para se dedicar a um hobby cultivado há anos: esquiar na neve. Antes de se preparar para o período de descanso, a Revista Administrador Profissional conversou com o executivo. A seguir, os principais trechos da entrevista. Fotos: Acervo Livraria Cultura 26 RAP_283.indb 26 15/01/2010 18:31:48 Revista do Conselho Regional de Administração de São Paulo • CRA-SP Sérgio Herz é registrado no CRA-SP pelo n.º 56.435-4 27 RAP_283.indb 27 15/01/2010 18:32:03 Perfil Revista Administrador Profissional: Como foi seu começo na Livraria Cultura? Sérgio Herz: Quando comecei, em 1992, havia 40 funcionários. Atualmente, são 1.500 em nove unidades. Passei por todas as áreas: fui estoquista, fiz recepção de mercadorias, fichava livros, trabalhei na área de vendas. Fui ganhando a confiança das pessoas e aprendendo a noção do todo... Até chegar aqui, como diretor geral de operações. RAP: Nesse período, houve uma multiplicação de escolas no Brasil. A qualidade do ensino foi proporcional? Herz: Ergueram-se muitos prédios, mas a situação educacional é precária. Isso chega até a gente no comércio varejista. Fala-se muito do jovem, só que ele é imediatista: não se constrói carreira assim, do dia para a noite. Digo que o caminho é árduo e longo. RAP: A Livraria Cultura também trabalha com uma grande variedade de produtos. Existe alguma novidade? Herz: Somos long tale (cauda longa) em produtos. Tenho 170 categorias nas prateleiras. Uma coisa interessante, por exemplo, é que o mercado de Long Play cresceu 20%, assim como o dos CDs. O LP voltou e significa 4% do nosso segmento de música. As lojas de discos não voltarão, mas são um nicho de mercado que não vai sumir tão cedo. Coloquei LPs para vender em 2007. E, se formos ver, todo mundo tem tocadiscos. Quem está comprando o LP é o jovem porque para ele é uma novidade. O público que procura é variado –de DJs a colecionadores. RAP: As feiras de livros, nacionais e internacionais, como a Bienal, o Salão Internacional e a de Frankfurt, ainda têm peso no negócio livreiro? Herz: São valores participativos. Hoje, esses eventos permitem que se faça uma rede de relacionamentos e se conheçam outros produtos. As compras podem ser on-line, mas o olho-no-olho é fundamental. RAP: O Kindle (equipamento que permite a leitura eletrônica de livros), na sua visão, é uma ferramenta válida para o leitor? Herz: É um começo. Ainda deixa a desejar. Para quem gosta... Eu, particularmente, acho que é um exercício grande ler uma obra inteira lá. É estranho. Gosto de manusear, ver mais de uma página, Não se constrói carreira assim, do dia para a noite. Digo que o caminho é árduo e longo” aprecio o lado lúdico do livro. Mas não posso dizer que será um fracasso. Só não me acostumei com isso, mas uma parcela dos clientes será usuária do sistema. Da esquerda para a direita: Sérgio, Pedro e Fábio Herz RAP: Ainda falando sobre a revolução digital, como a Internet influencia na condução dos negócios da livraria? Herz: Peguei o começo da Inter net no Brasil, em 1993/94. Em junho de 1995, a Liv raria Cultura iniciou também as atividades do comércio eletrônico. Vale lembrar que ainda é um mercado em amadurecimento. E o que existe hoje é um consumidor multicanal: ele compra p e l o t e l e fo n e c o n v e n c i o - 28 RAP_283.indb 28 15/01/2010 18:32:11 Revista do Conselho Regional de Administração de São Paulo • CRA-SP n a l , por meio do computador de casa, celular e também na loja. Precisamos estar preparados e disponíveis para atender esse público. Ele vai se relacionar com a empresa de diversas maneiras, mas nós temos que ser os mesmos, autênticos e atender bem. A empresa tem de ser proativa. Anteriormente, contratava-se pesquisa. Agora, t em o s vária s fer ra m ent a s para trabalhar. condições de liderar equipes. For necemos cursos de idiomas, pós-graduação, ensinamos planejamento financeiro. Mas o problema de educação é geral. Fico preocupado com essa situação. RAP: Está difícil contratar mãode-obra qualificada? Herz: Muito. Não há pessoas aptas para se contratar. E não é uma constatação só minha. Muitos empresários estão na mesma situação. O funcionário precisa se capacitar sempre RAP: O ano de 2009 foi bom em faturamento? Herz: Faturamos R$ 270 milhões este ano, 20% a mais do que foi faturado em 2008. Para o primeiro semestre de 2010, as contratações vão aquecer o nosso mercado e particularmente a nossa rede. Estarei envolvido nisso. As inaugurações das lojas: em março, no Shopping Iguatemi de Brasília; em maio, a loja de rua no bairro Aldeota, em Fortaleza (CE); e, em julho, a unidade do Shopping Salvador (BA); acarretarão muito trabalho no setor de Recursos de Humanos. Procuramos antes de tudo atender nosso público interno –os funcionários. Vou tornando-os socialmente responsáveis” RAP: O funcionário precisa ser versátil, antenado e saber filtrar o que é importante. Quais subsídios são oferecidos pela empresa? Herz: Sim, tem de estar atento a tudo. E procuramos que ele se desenvolva. É lógico que há uma gama enorme de informações à disposição dele, nem sempre confiáveis, porque não são conteúdos profissionais. O nosso legado entrará pela porta da frente. Aquele funcionário que conseguir aliar as qualidades para atender a contento o nosso cliente poderá deixar saudade. São pessoas diferenciadas, com para entender o consumidor. Um exemplo são as chamadas redes sociais que adquiriram importância: precisam ser monitoradas. A clientela nem sempre r e cla m a p a ra o co m er cia nt e diretamente, como antes. Agora, o cliente conta o que aconteceu para um amigo, que coloca is s o num blog , p or exemplo. Aconteceu aqui conosco. Uma cl i ent e r e cla m ou n o t w i tt er que não recebeu o marcador de livro, quando fez a compra. Foi uma falha: nós mandamos para a casa da leitora depois. Entretanto, o comentário dela foi com uma amiga, não se comunicou aqui com a empresa. São experiências físicas que são passadas para a área tecnológica. RAP: A empresa já atua no Terceiro Setor? Herz: Procuramos antes de tudo atender nosso público interno –os funcionários. Vou tornando-os socialmente responsáveis. Depois ajudamos em outros projetos. Sou muito crítico. Cidadania todo mundo tem de praticar. RAP: Como bom conhecedor, quais obras você indicaria aos estudantes de Administração? Herz: Para se ter uma carreira sólida são necessários co n h e ci m ent o s e s p e cíf ico s. Em Administração, os melhores liv ros ainda são aqueles de mais de 20 anos, como Michael Porter e Philip Kotler. Percebo que os gur us antigos ainda são os mais lidos. Tudo é muito sup er ficial e precisa ser reavaliado. Penso constantemente em adaptações, mudanças. RAP: Vale investir no setor cultural no Brasil? Herz: Com certeza. Fico orgulhoso que a Livraria Cultura tenha virado um centro cultural, ponto de encontro, antes de ser loja. No último mês, foram 35 horas de atrações. O teatro faz uma difusão cultural. A Internet permite que se faça propaganda das lojas. A atração mais antiga é a Traditional Jazz Band, que há nove anos se apresenta. A compra de produtos é uma consequência. 29 RAP_283.indb 29 15/01/2010 18:32:21 Estilo Batidas universitárias Foto: Bru Bruna Callegari A “paradinha” da Bateria S.A., performance que garantiu ao grupo o primeiro lugar no 1º Grand Prix de Baterias Universitárias de São Paulo A organização e o aprimoramento trazidos pela Administração a atividades “extracurriculares” 30 RAP_283.indb 30 15/01/2010 18:32:21 PROFISSIONAL Revista do Conselho Regional de Administração de São Paulo • CRA-SP por Carina Flosi e João Novaes A cada ponto conquistado nos t radicionais jogos universitários, as baterias formadas por estudantes ecoavam nos ginásios sem muito ritmo e com pouco nível técnico. O único objetivo era mesmo unir a torcida aos jogadores e usar os criativos gritos de guerra como instrumentos eficazes para dispersar a concentração dos times adversários. Porém, com o passar dos anos, esses grupos foram ficando cada vez mais organizados, numerosos e aprimorados, e tornaram-se uma das atividades “extracurriculares” mais populares no meio acadêmico. Essa transformação ocorreu, em grande parte, graças aos alunos de Administração, que puderam aplicar nessas organizações as técnicas de gestão aprendidas em sala de aula, e ocupam postos de comando em várias delas. Algumas baterias chegam a ser remuneradas para tocar em festas, baladas e casamentos, longe, no entanto, de torná-las uma atividade economicamente sustentável –todas dependem de parcerias e aportes vindos das atléticas ou centros acadêmicos. “Os instrumentos são muito caros. Só um bumbo custa R$ 700. Não precisamos comprar todo ano, mas também se gasta muito com a manutenção”, explica Igor Fonseca, 19 anos, um dos responsáveis pela administração da Bateria S.A, da Faculdade de Economia, Administração e Ciências Contábeis da Universidade de São Paulo (FEA-USP). Outra atividade, fonte de renda alternativa, foi criada pela bateria Tatu Bola, da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Em 2001, os integrantes tiveram a ideia de gravar CDs com paródias de sambasenredo, que desde então ajudam a pagar os custos. Já são cinco os discos lançados. Além de enaltecer a FGV nas músicas, também as utilizam para provocar as torcidas adversárias. “Tudo é uma grande brincadeira. Acho que o espírito da bateria está na união e na confraternização, isso é mais importante do que as próprias festas, torcidas e conquistas. Todos que entram aqui não sabem tocar de início, começam do zero”, afirmou Bruno Nogueira, diretor da Tatu Bola. Há casos em que a bateria foi incorporada pelos alunos. Nascida como uma torcida organizada, a Invasão Vermelha Mackenzista era composta e organizada por músicos contratados de escolas de samba, sem vínculo com a faculdade da Administração. “Era um erro, tinha muita gente de fora. Não tínhamos um grupo homogêneo, nem mesmo repertório ou instrumentos próprios”, conta Urian Inhauser, mestre da bateria. Tudo mudou quando, em 2007, os estudantes assumiram a direção da bateria e passaram a As principais baterias de ADM de São Paulo Data de Número de Fundação integrantes Site Bateria S.A. FEA-USP 1993 60 www.bateriasa.com.br Bateria Tatu-Bola FGV 1990 50 www.atleticagv. com.br/wordpress/ bateria-tatu-bola/ Bateria FEA-PUC FEA-PUC 2002 35 www.atleticaleaoxiii. com.br/ Invasão Vermelha Mackenzista Mackenzie 2007 40 http://invasaovermelha. wordpress.com/ contrate-bateria/ Bateria ESPM ESPM 1995 35 http://www.atleticaespm. com.br/bateria.htm Bateria Imperial Insper 2007 30 (em construção) 31 RAP_283.indb 31 15/01/2010 18:32:38 Foto: divulgação Estilo Integrantes da Tatu-bola, da FGV, uma das principais baterias de estudantes de Administração de São Paulo administrá-la diretamente. Após a reformulação, segundo Urian, ocorre uma verdadeira identificação entre a bateria, os alunos e a faculdade. Reconhecimento No último mês de dezembro, na quadra da escola de samba Barroca Zona Sul, em São Paulo, foi realizado um concurso, o 1º Grand Prix de Baterias Universitárias, envolvendo oito faculdades e a grande vencedora foi a Bateria S.A., da FEA-USP. Em uma disputa acirrada, o grupo convenceu os três jurados com suas encantadoras “paradinhas” durante a apresentação de quase meia hora e foi o primeiro colocado com nota máxima nos quatro critérios avaliados por três jurados: criatividade, equalização, ritmo e andamento. Além da premiação em dinheiro, no valor de R$ 3 mil, o grupo terá o prazer de tocar na quadra da Mangueira, no Rio de Janeiro, em fevereiro. Reconhecida até mesmo pelos Tem muito a ver com o curso. Comparo a bateria ao meio organizacional ou a uma instituição” André Herzog Kehde, mestre de bateria da FEA-PUC adversários como o gr upo mais forte dos últimos anos em São Paulo, a Bateria S.A. conta atualmente com 60 membros fixos e coleciona uma série de conquistas. Mas a chave desse sucesso não se resume somente aos dotes artísticos dos músicos: para ter atingido o topo, ela passou a ser gerida de forma profissional. Igor Fonseca avalia que gerenciá-la é um grande laboratório para o mer- cado de trabalho. “Aprendemos, na prática, a aplicar as técnicas recebidas em diferentes disciplinas. Acho que os maiores desafios são o gerenciamento do orçamento fixo que recebemos todos os anos do Cent ro Acadêmico Visconde de Cairu e a manutenção constante da integração dos alunos”, conta o estudante. A opinião é partilhada por seus principais “concorrentes” nos demais cursos de Administração. Todos têm suas próprias baterias comandadas por diretores (ou “mestres”) que tratam sua função como uma atividade muito mais significativa do que um simples hobby. Ao mesmo tempo em que aplicam os conhecimentos adquiridos para dinamizar o funcionamento da bateria, os estudantes também aprendem com as experiências acumuladas nos eventos e ensaios. “Certamente, é necessário ter uma base, principalmente para saber como administrar nossa verba. Temos uma captação de renda baixa e com o que arrecadamos temos de espremer nossos custos ao máximo. É através dessa organização que conseguimos deixar nossos instrumentos em ordem, ensinar os ‘bichos’ a tocar e traçar a logística para convocar as pessoas aos ensaios”, explica André Amá Br usco, diretor da bateria ESPM. O mestre de bateria da FEAPUC, André Herzog Kehde, conta que, além da questão organizacional, outra vantagem que a experiência lhe proporciona é a oportunidade de liderar. “Tem muito a ver com o curso. Comparo a bateria ao meio organizacional ou uma instituição na qual sou líder e tenho de aprender a tomar 32 RAP_283.indb 32 15/01/2010 18:32:55 PROFISSIONAL Revista do Conselho Regional de Administração de São Paulo • CRA-SP RAP_283.indb 33 basta um e-mail com cópia, a chamada é individual. “Mas é um tempo prazeroso”, frisa Kehde. “Encaro como um est ágio. Afinal, me ocupa o mesmo tempo. Somos apenas três pessoas para organizar tudo, desde ensaios até eventos. Durante as Economíadas (tor neio de jogos direcionado a faculdades de Economia), só conseguia voltar para casa às 11 horas da noite. Quem está de fora não consegue imaginar a dimensão e o trabalho que dá. Mas é algo que faço com prazer porque se criam vínculos de amizade muito fortes. Faço questão de sempre participar, tenho muitos amigos e namorada lá”, finaliza André. Foto: Foto: o Bru B Bruna naa Callegari Ca leg Cal eggari a ar conta. No asp ecto financeiro, implantamos uma mensalidade. Temos também um trabalho de marketing para promover nossa imagem, o que nos proporciona participar de mais eventos. Com essa experiência, acabo aprendendo a lidar com pessoas. Já me facilitou muito, por exemplo, quando tive de realizar entrevistas de trabalho”, exemplificou Kehde. Outro ponto sobre o qual todos concordam é que a bateria precisa ser levada a sério, exige dedicação diária, com reuniões e ensaio ao menos uma vez por semana, e contato direto com todos os membros. O que costuma tomar mais tempo e dar muito trabalho é a convocação de todos os integrantes aos ensaios ou eventos –para evitar abstenções, não Igor Fonseca, um dos responsáveis pela administração da Bateria S/A, da FEA-USP 15/01/2010 18:33:07 Opinião Como o CEO deve escolher uma consultoria para as empresas familiares Freud disse uma vez que tudo o que precisamos para a felicidade é “amor e trabalho”. Ambos estão em jogo nas empresas familiares, pois elas têm muito a perder e muito a ganhar. No entanto, surpreendentemente, as empresas familiares, muitas vezes, não fazem as perguntas certas antes de contratar um consultor ou conselheiro. Isso ocorre também com os supervisores que não estão preparados para lidar com as complexidades que enfrentam. Uma questão que com frequência o CEO (sigla em inglês de Diretor -Executivo) negligencia é: “como você vai trabalhar com outros profissionaisenvolvidos?”.Comoaumento do número de empresas familiares, eles estão se voltando para uma variedade de especialistas, em vez de colocar todos os seus assuntos pessoais, financeiros e legais nas mãos de uma empresa ou pessoa especializada. Os assessores também estão percebendo que as famílias têm problemas nos negócios excepcionalmente complexos que necessitam dos serviços de mais de um profissional. Eles também são mais propensos a precisar de um consultor confiável para coordenar outros profissionais. Existem vários modelos de equipes de consultoria, com base em como elas funcionam juntas, no nível de coordenação e de seu compromisso com o outro. Aqui estão várias categorias de consultoria e equipes: 1. Pré-Interdisciplinar – equipe existente / empresa; 2. Consultores multidisciplinares – em grupo de estudo, conhecer o trabalho dos outros; “Há vários modelos de consultoria, com base em como funcionam, no nível de coordenação e de seu compromisso com o outro” 3. Acidental – ligar apenas por cliente, trabalhar em conjunto com pouca coordenação; e 4. Disfuncional – desconhecidos uns dos outros, mesmo trabalhando com o mesmo cliente, sem coordenação. Como as empresas familiares se tornam mais sofisticadas e cons- cientes das melhores práticas, devem pedir e não esperar mais de seus assessores. As seguintes perguntas deverão inicialmente ser feitas em qualquer relação cliente-orientador: 1. Recebeu treinamento especial para trabalhar com empresas familiares? Se sim, onde e qual? 2. Quais as questões mais importantes que você vê na família, negócios e sistemas de propriedade? 3. Pode fornecer referências? 4. Como você nos ajudará a lidar com eles? Por onde você começaria? 5. Qual é o escopo do trabalho? Quanto custará? 6. Pertence a uma sociedade ou grupo profissional que proporciona educação continuada, focada nos desafios especiais dos negócios da família? Você participa deles? 7. Possui uma rede de profissionais que pode chamar para ajudá-lo com as complexidades? 8. Está disposto a trabalhar com meus conselheiros? Como vai evitar a “equipe” de tornar-se disfuncional? Se você não conseguir respostas satisfatórias para essas perguntas, continue procurando! Sandra Regina da Luz Inácio CRA-SP n.109431-9 Coordenadora do Grupo de Excelência de Administração de Empresas Familiares do Colab orações para est a s e ção p odem s er env iada s para o e-ma il [email protected] - Os tex tos devem conter no máx imo 3.0 0 0 caracteres (com espaço), nome completo do autor, foto em alt a resolução e o regist ro no CRA-SP. 34 RAP_283.indb 34 15/01/2010 18:33:20 RAP_283.indb 3 15/01/2010 18:29:18 RAP_283.indb 4 15/01/2010 18:29:21