FOUCAULT E PROVA BRASIL Walquíria Silva Carvalho Borges Pós-graduanda em Educação – UFG / Jataí [email protected] Maria de Lourdes Faria dos Santos Paniago UFG / Jataí [email protected] RESUMO O artigo tem como objeto de análise a avaliação externa Prova Brasil e os discursos retratados, na implementação desta, nas escolas públicas. Para tanto utiliza-se das teorias de Michel Foucault sobre a relação de poder e verdade. No que tange essas relações, a legislação por meio do Decreto 6094 de Abril de 2007, veicula, aos municípios, sua adequação ao sistema de avaliação externa. Desde os primeiros escritos sobre a avaliação o MEC (Ministério de Educação e Cultura), estabelece uma relação de poder ao retratar que todos os municípios se tornem por “voluntariedade” aptos a realizar a Prova Brasil e, assim, contribuir para que o MEC possa vistoriar as escolas públicas de Educação Básica. Desse modo, para detectar as suas fragilidades e assumir uma postura de auxílio dessas escolas em prol de uma educação de melhor qualidade, cria-se o IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação básica), para ditar as regras e regulamentar os resultados. Diante do exposto, com base em Foucault, a verdade fornece condições para a análise em torno do discurso que envolve a Prova Brasil. Assim, o intuito de melhorar a Educação básica se torna uma verdade que circula nas instituições escolares. A avaliação externa se torna uma ferramenta para que a “verdade” se propague e favoreça o controle das questões políticas, sociais e econômicas que envolvem a Prova Brasil. Enfim, estabelece uma relação de poder que circula sobre as instituições, que se veem “obrigadas” a colaborar com resultados positivos para o ranking da qualidade da Educação Básica. PALAVRAS-CHAVE: Prova Brasil. IDEB. Discurso. Verdade. Poder. CONSIDERAÇÕES INICIAIS O presente artigo se propõe a realizar uma análise em torno da legislação de implementação da Prova Brasil. Assim com base na teoria Foucaultiana, discutiremos a relação de poder, saber e verdades que são produzidas a partir da realização da avaliação externa, verificando como o discurso que envolve a prova tem contribuído para criação de “verdades” no contexto escolar e que se propagam entre os estudantes, professores e comunidade. Os interesses do MEC (Ministério de Educação e Cultura) relacionados com a prática pedagógica desenvolvida nas escolas em busca da realização da avaliação externa e divulgação de resultados na construção do ranking. Uma análise realizada, sob a ótica da teoria Foucaultiana, com os conceitos de poder, de saber e de verdade, estabelece a relação existente em torno do discurso utilizado para a realização da prova e seus embates na educação básica. Os resultados configuram a grande ferramenta na discussão e elaboração de um ranking que envolve as escolas públicas, com o intuito de melhoria para a Educação. A busca de respostas para questões, como: Que verdades são construídas pela Prova Brasil? De que forma as verdades são construídas? Qual sujeito (professor) as verdades, em torno da Prova Brasil, estão querendo formar? Assim, a partir destes questionamentos, analisaremos o embate que a avaliação externa tem causado no ambiente escolar e na prática pedagógica do professor. Esta última se vê em meio a um processo de mudança no que diz respeito aos resultados que a Educação Básica precisa alcançar. TEORIAS FOUCAULTIANAS E PROVA BRASIL Para relacionar a Prova Brasil às teorias Foucaultianas, tomaremos com base a relação de poder, saber e verdade em torno do discurso que envolve a avaliação e as leis que efetivam a sua constituição. A utilização do discurso de melhorias para a Educação básica e os reflexos na ação pedagógica com a busca de resultados que atinjam as metas estabelecidas para alcançar os resultados esperados pelo IDEB. Em Arqueologia do saber, Foucault trata da questão do enunciado, sendo este conceito apresentado, sob uma forma de reflexão sobre o trabalho realizado e sobre projetos futuros: ...gostaria de mostrar que o discurso não é uma estreita superfície de contato, ou de confronto, entre uma realidade e uma língua, o intrincamento entre um léxico e uma experiência; gostaria de mostrar, por meio de exemplos precisos, que, analisando os próprios discursos, vemos se desfazerem os laços aparentemente tão fortes entre as palavras e as coisas, e destacar-se um conjunto de regras, próprias da prática discursiva.(...) não mais tratar os discursos como conjunto de signos (elementos significantes que remetem a conteúdos ou a representações), mas como práticas que formam sistematicamente os objetos de que falam. Certamente os discursos são feitos de signos; mas o que fazem é mais que utilizar esses signos para designar coisas. É esse mais que os tornam irredutíveis à língua e ao ato da fala. É esse e mais, Que é preciso fazer aparecer e que é preciso descrever. (Foucault, 1986, p.56) Como citado não há enunciado que não esteja apoiado em um conjunto de signos. Todavia, o que importa é o fato de essa função caracterizar-se por quatro elementos básicos: um referente (ou seja, um princípio de diferenciação), um sujeito (no sentido de posição a ser ocupada), um campo associado (isto é, coexistir com outros enunciados) e uma materialidade específica por tratar de coisas efetivamente ditas, escritas, gravadas em algum tipo de material, passíveis de repetição, como no caso da Prova Brasil e todos os seus embates sobre as escolas que a ela são submetidas. Foucault estabelece que, por mais que o enunciado não seja oculto, nem por isso é visível. Este não se oferece à percepção como portador manifesto de seus limites e caracteres. É necessária uma conversão do olhar e da atitude para poder reconhecê-lo e considerá-lo em si mesmo. Trata-se de um esforço de interrogar a linguagem. O que efetivamente foi dito sem a intencionalidade de procurar referentes ou de fazer interpretações reveladoras de verdades e sentidos reprimidos. Assim, consideramos, por meio da análise dos discursos que circulam em torno da Prova Brasil, que os reais pontos de referências e os objetivos desta configuram aquilo que o ranking busca ao classificar as escolas públicas do país. Entender como se estabelece a relação entre o poder e a verdade em torno do discurso, é necessário para a nossa análise as ponderações abaixo. Para esse filósofo (FOUCAULT, 2001h, p. 12), cada sociedade possui seu “regime de verdade”, sua “’política geral’” (aspas do autor) de verdade, o que significa dizer que não existe verdade fora do poder ou sem poder. Assim, a verdade é produzida a partir de múltiplos elementos: a) os tipos de discurso que cada sociedade acolhe e faz funcionar como verdadeiros; b) os mecanismos e as instâncias que permitem distinguir os enunciados verdadeiros dos falsos, a maneira como se sanciona uns e outros; c) as técnicas e os procedimentos que são valorizados para a obtenção da verdade; d) o estatuto daqueles que têm o encargo de dizer o que funciona como verdadeiro. (FOUCAULT apud PANIAGO, 2005 p.123) A relação do poder e da verdade parte da relação do discurso, dos enunciados como demonstrado nos dois primeiros elementos que a autora nos coloca. É a posição da posição da sociedade que faz esse discurso funcionar como verdadeiro. Os mecanismos utilizados para distinguir o falso do verdadeiro, nos elementos que se seguem partem das técnicas e procedimentos para a obtenção da verdade e designam a função de quem deve exercer o que funciona como verdadeiro. Os discursos se tornam variáveis a maneira como que são colocados e articulados pelas pessoas que o conduzem de acordo com a sociedade e suas necessidades diante do objeto (Prova Brasil), produzindo, portanto, as verdades que fazem os discursos que envolvem a avaliação externa. A análise segue com base em outras características como cita Paniago (2005, p.123). Em função disso, Foucault (2001, p. 13) afirma que, em nossas sociedades, a “’economia política’” (aspas do autor) da verdade tem cinco características, que fazem com que: a) seja centrada na forma do discurso científico e nas instituições que o produzem; b) esteja submetida a uma constante incitação econômica e política, porque tanto a produção econômica quanto o poder político necessitam de uma “verdade”; c) seja de muitas maneiras, objeto de uma grande propagação e de um grande consumo, porque circula nos aparelhos de educação e de informação, que, apesar de rigorosas limitações, têm imensa penetração no corpo social; d) seja produzida e difundida sob o controle dominante de alguns grandes aparelhos políticos e econômicos (universidade, exército, escritura, meios de comunicação); e) seja objeto de debate político e de luta social (as lutas ‘ideológicas’) (aspas do autor); (PANIAGO, 2005, p.123) A verdade se faz presente na forma em que o discurso age nas instituições, e esse discurso circula para o maior alcance da população e sua aceitação pela sociedade. Não se pode descartar o caráter da incitação política e econômica em torno da realização da Prova Brasil, que ao se estabelecer resultados, tem os recursos financeiros destinados de acordo com o desempenho das instituições, as informações são repassadas e penetram no corpo social, criando uma verdade em torno do desenvolvimento da Educação Básica das escolas públicas do país. É como se, por meio do ranking, fosse possível a solução de todos os problemas e deficiências do sistema de ensino. A verdade aí não é aquilo que é, mas aquilo que se dá: acontecimento. Ela não é encontrada, mas sim suscitada: produção em vez de apofântica. Ela não se dá por mediação de instrumentos, mas sim provocada por rituais, atraída por meio de ardis, apanhada segundo ocasiões: estratégia e não método. (FOUCAULT, 2001, p.114) A verdade está presente no acontecimento, na forma em que é colocada a sua influência e na sua circulação através do discurso e a sua produção, fazendo ligação direta com o poder nas relações das instituições escolares. Ela provoca a produção e propagação por meio de uma estratégia em que o discurso se torna acessível e aceitável e por isso, circula no ambiente escolar e conduz opiniões divergentes e convergentes em prol da realização da avaliação externa. O poder se encontra na relação com a verdade a partir da ideia exposta. O poder, para Foucault, não é algo que se possa possuir, porque não é um bem alienável do qual se possa ter a propriedade. Por isso, qualquer que seja a sociedade, não existe divisão entre os que têm e os que não têm poder. No entanto, o poder sempre é exercido em determinada direção, com uns de um lado e outros de outro (PANIAGO, 2005, p.84) O poder se estabelece na relação entre as pessoas e está diretamente ligado às relações de poderes que necessitam de uma resposta do outro, numa via de mão dupla e não exatamente ocupa sempre o mesmo lugar ou sujeito. Faz parte de um movimento constante de ir e vir, de maneira natural e sutil, que não é vista como um controle, mas sim como uma forma em que essas relações se tornem viáveis e necessárias para a busca de um mesmo objetivo de melhoria da Educação Básica. Logo, as escolas almejam, nesta perspectiva do poder, alcançar sempre resultados melhores para comprovar que a educação está passando por transformações, sendo melhorada e se tornando cada dia mais eficiente em seu desempenho. Na relação com o discurso que envolve a Prova Brasil é comum encontrarmos, na lei de sua criação, o mascaramento das reais intenções que asseguram a sua inserção na escola. Do Índice de Desenvolvimento da Educação básica Art. 3o A qualidade da educação básica será aferida, objetivamente, com base no IDEB, calculado e divulgado periodicamente pelo INEP, a partir dos dados sobre rendimento escolar, combinados com o desempenho dos alunos, constantes do censo escolar e do Sistema de Avaliação da Educação Básica - SAEB, composto pela Avaliação Nacional da Educação Básica - ANEB e a Avaliação Nacional do Rendimento Escolar (Prova Brasil). Parágrafo único. O IDEB será o indicador objetivo para a verificação do cumprimento de metas fixadas no termo de adesão ao Compromisso. Capítulo III Da adesão ao compromisso Art. 4o A vinculação do Município, Estado ou Distrito Federal ao Compromisso far-se-á por meio de termo de adesão voluntária, na forma deste Decreto. Art. 5o A adesão voluntária de cada ente federativo ao Compromisso implica a assunção da responsabilidade de promover a melhoria da qualidade da educação básica em sua esfera de competência, expressa pelo cumprimento de meta de evolução do IDEB, observando-se as diretrizes relacionadas no art. 2o. § 1o O Ministério da Educação enviará aos Municípios, Distrito Federal e Estados, como subsídio à decisão de adesão ao Compromisso, a respectiva Base de Dados Educacionais, acompanhada de informe elaborado pelo INEP, com indicação de meta a atingir e respectiva evolução no tempo. § 2o O cumprimento das metas constantes do termo de adesão será atestado pelo Ministério da Educação. § 3o O Município que não preencher as condições técnicas para realização da Prova Brasil será objeto de programa especial de estabelecimento e monitoramento das metas. Art. 6o Será instituído o Comitê Nacional do Compromisso Todos pela Educação, incumbido de colaborar com a formulação de estratégias de mobilização social pela melhoria da qualidade da educação básica, que subsidiarão a atuação dos agentes públicos e privados. (http://legislacao.planalto.gov.br/legisla/legislacao.nsf/Viw_Identificaca o/DEC%206.094-2007). O IDEB (Índice de desenvolvimento da Educação Básica) foi criado com o discurso das metas para a o avanço e melhoramento da educação. Todavia, nota-se, no texto supracitado, que é mais uma forma de controle sobre o trabalho que as escolas fazem no seu município. Destarte, a partir da criação do IDEB, as metas estabelecidas pela escola se tornam o objetivo principal a ser almejado. Com isso, os professores trabalham objetivando alcançar sempre os melhores resultados possíveis e, assim, favorecer o crescimento das médias do ranking nacional das escolas de Educação Básica. Na legislação, encontra-se o termo de adesão das escolas públicas como se o pertencer à avaliação fosse uma vontade e não um dever, ressaltando o direito de realizar ou não a Prova Brasil. Nota-se que a palavra “voluntária” aparece várias vezes, com o intuito de amenizar uma obrigatoriedade. Entretanto, todos os municípios estão sujeitos a fazer parte e cumprir suas metas em prol da melhor qualidade da Educação Básica do país. Espera-se, então, que atinjam resultados positivos de melhoria, contribuindo para um ranking classificatório de melhores e piores resultados. O IDEB se mostra principalmente como uma meta crescente de evolução, partindo de um sistema educacional frágil que busca melhorias constantes de mudanças positivas em torno do ensino oferecido na rede pública. Apesar da voluntariedade exposta pela Lei, fica subentendido que o MEC estará disposto a intervir nas escolas caso não estejam de acordo a cumprir e aderir às metas do IDEB, sob pena de controle das ações escolares do município que assim optar. Será instituído para realizar as sanções sobre o município o Comitê Nacional do Compromisso Todos pela Educação, para que, ao auxiliar o município faça cumprir as metas estabelecidas pelo MEC, por meio das normas do IDEB. Ou seja, se caso o município não queira por vontade própria aderir ao sistema de avaliação externa, o sistema de avaliação se instala dentro do município. O Compromisso Todos pela Educação se incumbirá de realizar as ações que o município não se propôs a cumprir em prol de uma Educação Básica de melhor qualidade, envolvendo, então, todo o município, a comunidade escolar e os principais agentes do processo de busca de metas, a saber, o professor. O Comitê do Compromisso Todos pela Educação é constituído como forma de amenizar e dividir a responsabilidade do MEC, qual seja, favorecer melhores condições para que a Educação possa atingir reais percentuais de evolução e qualidade para seus alunos. Para melhor entender como estão vinculados os interesses do MEC (Ministério de Educação e Cultura) e seus reflexos na atuação do professor é necessário entender a relação de poder exercido nas escolas. No material enviado pelo MEC a todos os professores das séries que passam pelo exame da Prova Brasil, encontramos as seguintes explicações. No que tange à educação básica, as metas do PDE contribuem para que as escolas e secretarias de educação possam viabilizar o atendimento de qualidade aos alunos. Isso, porque para conseguirmos atingir as metas traçadas para a educação brasileira é necessário, em primeiro lugar, que as iniciativas do MEC possam beneficiar as crianças na sala de aula. (BRASIL, MEC, 2011, p.4). O material em forma de livro traz, resumidamente, propostas pedagógicas para serem aplicadas em sala de aula pelo professor, e a apresentação do livro começa reforçando o que foi apresentado na legislação que mencionamos acima. Nele, enfatiza-se que a educação deve se voltar para as metas com o intuito de melhorar a educação que é oferecida na rede pública. Considera, ainda, que os melhores resultados estarão beneficiando a sua demanda que são os alunos. A implementação da Prova Brasil, no âmbito escolar, chega às escolas como forma aparente de melhorias e soluções conforme a proposta abaixo: Os resultados do Saeb e da Prova Brasil são importantes, pois contribuem para dimensionar os problemas da educação básica brasileira e orientar a formulação, a implementação e a avaliação de políticas públicas educacionais que conduzam à formação de uma escola de qualidade. (BRASIL, MEC, 2011, p.05). A forma de apresentação da avaliação da Prova Brasil foi definida como a solução dos problemas escolares. Ao realizá-la, o MEC apoiaria e resolveria todos os embates que retratam o quadro atual da Educação Básica, contribuindo, financeiramente, com as necessidades que impedem que se alcancem os resultados pretendidos. Os discursos asseguram uma ação que não se vê dentro do contexto escolar e que ainda há muito por fazer. Além disso, busca detectar, por meio de ranking, qual a melhor ou pior escola. A contribuição que Foucault apresenta sobre a verdade fornece condições para a análise em torno do discurso que envolve a Prova Brasil. Dessa forma, o intuito de melhorar a Educação básica se torna uma verdade que circula nas instituições escolares e que se propaga perante alunos e sociedade. As instituições escolares favorecem a circulação das verdades do discurso que envolve a Prova Brasil. Os professores procuram valorizar as metas exigidas pelo MEC, fazendo com que o poder exerça controle sobre a prática pedagógica. O trabalho, em prol de metas a serem atingidas no IDEB, deve se iniciar através do agente formador e por isso, a responsabilidade é lançada ao professor que está diretamente ligado ao aluno. Acreditamos, pois, que você, professor, possa fazer uso desse instrumental para uma reflexão sobre sua prática escolar e sobre o processo de construção do conhecimento dos alunos, considerandose a aquisição de conhecimentos e o desenvolvimento das habilidades necessárias para o alcance das competências exigidas na educação básica. (BRASIL,MEC,2011, p.05). Ao professor é lançada toda a atenção. Ele tem a responsabilidade de rever e avaliar a sua conduta para que seu trabalho seja lançado no gráfico do desenvolvimento da educação básica e se tornar, mais uma vez, estatística, apresentando números a seus resultados. A prática pedagógica se torna manipulada e direcionada para que se consiga atingir metas determinadas. Logo, o professor se torna responsável por este processo. O discurso se apresenta de maneiras diferentes, mas com o intuito de buscar resultados e classificar o bom (melhores médias) do ruim (piores médias). Cabe ressaltar que a meta principal para 2020 é média 6,0, igualando às médias dos países desenvolvidos. Essa busca reflete tanto nas instituições escolares como os profissionais que nela atuam. Não há possibilidade de exercício do poder sem uma certa economia dos discursos de verdade que funcione dentro e a partir desta dupla exigência. Somos submetidos pelo poder à produção da verdade e só podemos exercê-lo através da produção da verdade. (FOUCAULT, 2001c, p. 179-180). A verdade se produz através dos discursos que possibilitam a sua produção e faz relação com o poder tanto na produção quanto no seu exercício. Ao se buscar atingir metas e contribuir com o discurso estipulado em torno da avaliação externa, o professor exerce em sua prática o poder estabelecido pelas exigências do MEC, reproduzindo o discurso que prevalece na realização da Prova Brasil. A prática pedagógica se volta a um único objetivo, qual seja, a busca de resultados. Estes fortalecem o discurso e “verdades”. Docilidade e utilidade caminham juntas na lógica disciplinar, por isso a disciplina, segundo Foucault, na mesma medida em que amplia as forças do corpo, em termos econômicos de utilidade, reduz essas mesmas forças, em termos políticos de obediência, já que Ela [disciplina] dissocia o poder do corpo; faz dele por um lado uma “aptidão”, uma “capacidade” que ela procura aumentar; e inverte por outro lado a energia, a potência que poderia resultar disso, e faz dela uma relação de sujeição estrita. (FOUCAULT, 2002, p. 119). Dessa forma, para Foucault (2003e, p. 259), o corpo “não existe tal qual, como um artigo biológico ou como um material”, mas, ao contrário “existe no interior e através de um sistema político”. O poder político encarrega-se, atendendo exclusivamente aos seus interesses, de conceder um determinado espaço ao indivíduo: “um espaço onde se comportar, onde adaptar uma postura particular, onde sentar de uma certa maneira, ou trabalhar continuamente”. (PANIAGO, 2005, p.232). Ao professor, é repassado o poder disciplinar. Espera-se que o mesmo faça o seu trabalho e reproduza os interesses políticos que existem no processo da avaliação externa de maneira dócil. O trabalho docente é realizado, continuamente, numa rotina de reprodução e de comportamento préestabelecido, como citado nos manuais enviados aos professores. Por fim, o resultado da atuação do professor deve ser útil para as estatísticas que compõem o quadro de resultados do IDEB, favorecendo a reprodução do discurso de melhoria da educação básica e retratando o ensino, com base nos parâmetros da Prova Brasil, como fonte estratégica da busca de resultados. CONSIDERAÇÕES FINAIS Os discursos que envolvem a Prova Brasil retratam o surgimento de verdades que mobilizam não só instituições escolares, mas também o fazer pedagógico do professor em prol de resultados. Tais resultados viabilizam interesses econômicos e políticos em contato com a Educação Básica. A avaliação externa se torna uma ferramenta para que a “verdade” se propague e favoreça o controle das questões políticas, sociais e econômicas que envolvem a Prova Brasil. Estabelece, assim, uma relação de poder que circula e predomina sobre as instituições escolares. A necessidade de melhorar resultados fará com que a verdade do discurso, hoje colocado como solução dos problemas da Educação Básica, se propague e consolide nas instituições escolares. Na verdade, prevalece a vontade dos órgãos responsáveis na busca de conseguir melhorar resultados e mostrar, por meio do ranking, que o país tem se colocado entre as melhores médias, transformando seu quadro atual da Educação Básica e melhorando a qualidade dos serviços prestados à população brasileira. A estratégia discursiva utilizada se encontra na forma em que o discurso aparece e propaga as “verdades”. Diante do exposto nota-se que a opinião pública que aceita e reproduz o ranking criado, como se os resultados fossem realmente suficientes para a classificação das escolas e seus profissionais. Com isso surge uma situação em que o discurso se faz pelo poder de veicular essas informações. Desse modo, com o poder do discurso que envolve a Prova Brasil, notase qual tipo de professor se quer fabricar no contexto das instituições escolares. Trata-se, portanto, de um professor que seja capaz de realizar um trabalho em torno da busca de resultados e que não seja crítico a ponto de não colaborar com as expectativas criadas no processo de avaliação externa. Ou seja, tem-se a perspectiva que o professor será passivo e colaborativo no discurso da Prova Brasil. As ações do docente serão controladas pelas metas que o MEC estabelece para a realização do trabalho e a busca será em prol de resultados positivos e crescentes do IDEB. Já o aluno, parte principal no processo ensino/ aprendizagem, será “treinado” para o alcance dos mesmos. O professor realiza suas funções numa forma de trabalho contínuo, fortalecendo o discurso e as “verdades” que a avaliação externa (Prova Brasil) propaga no ambiente escolar e na sociedade. Os resultados do IDEB visam o controle das ações do professor que reproduz em sua prática os interesses políticos que envolvem a realização da Prova Brasil. REFERÊNCIAS BRASIL. Ministério da Educação. Plano de Desenvolvimento da Educação: Prova Brasil: ensino fundamental: matrizes de referência, tópicos e descritores. Brasília: MEC, SEB; Inep, 2008. BRASIL, Decreto Nº 6.094, de 24 de Abril de 2007. Dispõe sobre a implementação do Plano de Metas Compromisso Todos pela Educação, pela União Federal, em regime de colaboração com Municípios, Distrito Federal e Estados, e a participação das famílias e da comunidade, mediante programas e ações de assistência técnica e financeira, visando a mobilização social pela melhoria da qualidade da educação básica. Brasília, 2007. BRASIL. Ministério da Educação. Parâmetros Curriculares Nacionais: novo ensino médio. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Básica, 1998. FOUCAULT, Michel. A arqueologia do saber. Tradução de Luiz Felipe Baeta Neves. 4ª ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1995. FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. Tradução de Laura Fraga de Almeida Sampaio. São Paulo: Edições Loyola, 1996. PANIAGO, M.L.F.S. Práticas discursivas de subjetivação em contexto escolar. São Paulo, UNESP, 2005.