Moda: desafios e inovações Série Modapalavra Volume 8 Organização: Monique Vandresen, Lourdes Maria Puls e Mara Rúbia Sant`Anna Universidade do Estado de Santa Catarina, 2013 1 MODAPALAVRA VOLUME 8 : Moda: desafios e inovações. Este livro foi financiado pelo Fundo de Apoio à Extensão da Universidade do Estado de Santa Catarina e patrocinado pelo Departamento de Moda, do Centro de Artes da mesma Universidade SANT’ANNA, Mara Rúbia. (Org). Moda: desafios e inovações. Série Modapalavra. Vol. 8. Florianópolis : UDESC, 2013. XXX.p ISBN: xxxxxxxxxxxxxx 1. Moda. 2. Vestuário Indústria. 3. Moda Aspectos Sociais. 4. Moda história. I Sant’Anna, Mara Rúbia II.. Universidade do Estado de Santa Catarina – Departamento de Moda CDD 391 Organização: Profª. Dra. Mara Rúbia Sant’Anna Supervisão de Impressão: Leonardo Heitor de Oliveira e Bethânia Rezek Projeto Gráfico: Laboratório de Design/CEART-UDESC Editoração: Aricia Malburg Martins Capa: Arte: Diórgines Pavei Diagramação: Aricia Malburg Martins Coordenação de Editoração: Laboratório de Design/CEART-UDESC 2 Dedicatória Aos jovens Designers de Moda que transformam, com seu espírito inovador, os desafios do III Milênio em criatividade e soluções para uma sociedade mais feliz. 3 Sumário Apresentação 6 Parte I-Desafios sociais: novos personagens e sensibilidades no mercado de moda Gestão de marcas verdes na moda: fortalecendo a imagem da marca através do desenvolvimento sustentável. Rochelle Cristina Santos Claudia Schemes Denise Castilhos de Araujo 12 Renda de Bilro: As dimensões da sustentabilidade na perspectiva da Slow Fashion Neide Köhler Schulte 30 Luciana Dornbusch Lopes Feminilidades e masculinidades: um desafio para a moda contemporânea Ivana Guilherme Simili Emerson Roberto de Araujo 47 Pessoa 4 O conforto em lingeries: moda, praticidade e inovação 67 Com que roupa eles iam? O desafio de constituir acervos de indumentária no Brasil Laura Ferrazza de Lima 81 Parte II-Inovações: a tecnologia e o ensino a serviço de uma nova sociedade Dinâmica competitiva: prospectivas e novos desafios Sandra Regina Rech 102 Reflexões sobre as experiências vivenciadas no ensino e aprendizagem do desenho de moda Lourdes Maria Puls 134 Modelagem do vestuário com a tecnologia CAD – avaliação do treinamento Icléia Silveira Amanda da Silva Inovações têxteis modernidade Maria Izabel Costa Rafaela Pires da pós- 180 A construção do conhecimento na cooperação interinstitucional para o fomento da inovação e do design no setor têxtil Maria Izabel Costa Icléia Silveira 206 151 5 Apresentação Completou-se a primeira década do novo milênio, ninguém mais fala em século XX, e os anos 90 já parecem época remota. Em 2012, a mídia e as publicações voltadas para o grande público alertavam que o ano seria um tempo limiar para uma nova era de grandes transformações. Muitos foram os anúncios que anteviram o fim do humano, o caos geral e o apocalipse bíblico no horizonte desses novos tempos. Todavia, a sociedade não para a despeito das preocupações que circulam no universo imaginário das massas, e planejamentos estratégicos para anos à frente continuaram sendo concebidos. A pesquisa das macrotendências não descartou as ansiedades e premonições anunciadas, contudo as transformou em potencialidades de consumo, inspirando trabalhos distintos ao longo do mundo. E o universo da moda, com seus sistemas produtivos e criativos, com suas amplas redes de difusão e comercialização, não se colocou à margem de todas essas discussões. Muito ao contrário, apropriou-se de tudo isso e canalizou de formas diversas para novos impulsos de consumo e, antes dele, de criação e inovação. Os mercados e seus milhares de consumidores tanto impulsionaram quanto aguardaram as inovações tecnológicas e humanas que vinham a qualificar a vida, favorecer a produção e, principalmente, o prazer. Tudo isso, ontem e hoje, se coloca como grande desafio a quem trabalha no setor, mas especialmente a quem, numa postura reflexiva, se empenha em equacionar as mudanças e os comportamentos, em identificar as continuidades e as rupturas que se dão no social, no imaginário e no cognitivo. Foi nessa conjuntura que se projetou o volume 8 da série ModaPalavra, a partir de duas definições nucleadoras: Desafiar – verbo transitivo: 1. Chamar a desafio. 2. Provocar algo ou alguém (para que diga ou faça). 3. Inspirar cobiça anseios e vontades. 4. Dar ignição ao almejo de algo. 5. Fazer perder a paciência. 6 Inovar – verbo transitivo (latim, innovo, are): 1. Introduzir novidades, informações repentinas em. 2. Renovar, inventar, criar algo que seja novo. 3. Conceber o inédito. Sem perder a paciência, o desafio das discussões em torno da inovação no campo da moda se tornou o eixo temático do volume, e os autores, cada um a seu modo, se empenhou em pensar o seu objeto a partir desse prisma. Antecipar soluções é provocação e desafio aos que - atuando com as tecnologias e suas relações com a produção, a difusão e o consumo - se encontram apressados diante de um futuro que não mais aguarda sua vez de acontecer. Numa dissolução total dos territórios numa época do cyberespaço, o tempo se evapora como referência de existência e se propõe como um infinito agora, na antecipação do amanhã. Se a máquina não para, o pensar se apressa em conter nas suas rígidas estruturas lógicas o mutante que se retroalimenta daquilo que concluem a respeito dele e do mundo das academias e da ciência2 ; mesmo que os velhos livros continuem a possuir seus fetiches, o saber não pode mais se retardar. Portanto, a moda, como motor de produção da paixão incessante pelo Novo, convoca aos brados que as inovações sejam realizadas e que os desafios sejam enfrentados, para que uma sociedade, ainda mais apaixonada por si e sua capacidade de ser Outra, exista além do tempo e do espaço de Agora3 . 1 DICIONÁRIO PRIBERAM da Língua Portuguesa, disponível em http://www.priberam.pt/ dlpo/default.aspx?pal. Acesso 16 de abril de 2012. 2 Ver GIDDENS, Anthony. As conseqüências da modernidade. São Paulo: Ed. da UNESP, 1991. 3 Ver SANT’ANNA, Mara Rúbia. Teoria de moda: sociedade, imagem e consumo. São Paulo: Estação das Letras, 2007. 7 Esse livro, o oitavo da série ModaPalavra, tornou-se um lócus para essa discussão instigante de como a Moda, entre desafios e inovações tecnológicas, teóricas, sociais e de criação, se encontra no pensar brasileiro. Foi dividido em duas partes: 1. Desafios sociais: novos personagens e sensibilidades no mercado de moda; 2. Inovações: a tecnologia e o ensino a serviço de uma nova sociedade. Na primeira parte, foram reunidos textos, resultantes de reflexões aprofundadas bibliograficamente e da pesquisa de campo, cujas problemáticas enfatizem a presença de novos sujeitos sociais – ou os de sempre, mas com novas preocupações e ocupações sociais – e a produção de outras sensibilidades que estarão desafiando para a construção de novas proposições criativas e produtivas para o mercado de moda. Sempre considerando o universo da moda como campo privilegiado de discussão, a argumentação congrega teorias pertinentes e apontamentos metodológicos precisos que colaboram com os profissionais dos setores ligados à moda, convidando-os a refletir sobre seu próprio fazer, renovando a visão que possuíam sobre o campo que recepciona sua produção e as consequências de suas ações. Nessa parte, temos cinco capítulos, desenvolvidos com foco nos sujeitos sociais. Os dois primeiros tratam de assuntos relacionados à sociedade contemporânea e sua preocupação com a sustentabilidade da vida humana e do próprio planeta. Movidas por essa temática, Rochelle Cristina dos Santos, Neide Schulte e Luciana Lopes desenvolvem ricas discussões em torno de marcas verdes e slow fashion. Outros capítulos voltaram-se mais para o passado que o presente, buscando na história e na necessidade 8 de preservação do passado respostas e reflexões sobre o presente, este é o caso dos textos assinados por Claúdia Schemes e Denise Araújo ao nos falar sobre as relações entre o conforto e as lingeries, e o de Laura Lima que nos alerta sobre os compromissos com a conservação e preservação dos acervos indumentários. Transitando sobre o futuro e o passado, o texto de Ivana Simili e Emerson Pessoa nos propõe pensar o presente e as zonas indeterminadas de nossas identidades. A segunda parte reuniu trabalhos voltados para o relato, a discussão e o questionamento da inovação tecnológica realizada na atualidade e que, de alguma forma, está implicando na proposição de reformulações na sociedade e no ensino oferecido aos profissionais ou estudantes de Moda, seja em seus aspectos mais produtivos ou sociais. Entende-se por tecnologia aqui toda a combinação de fatores, por meio científico, que visa à produção de uma solução viável aos desafios humanos. Por isso, as reflexões em torno do ensino aplicado ao campo da moda são reunidas nessa segunda parte por proporem estudo e soluções aos desafios de preparar o futuro profissional de moda para o trabalho com qualidade e repercussão social. Em torno dessas relevantes discussões, foram desenvolvidos outros cinco capítulos. O de Sandra Regina Rech coloca em análise as dinâmicas competitivas aplicadas ao mundo fashion. Dando continuidade, Lourdes Maria Puls e Icléia Silveira com Amanda Silva ponderam as possibilidades do ensino no universo da moda, seja ele voltado para a formação de um Bacharel em Moda ou para a capacitação de profissional atuante no setor produtivo das indústrias de Moda. Finalizando o livro, Maria Izabel Costa assina dois textos, com outros coautores, tratando sobre o universo têxtil e seu potencial inovador e por isso desafiador diante do universo contemporâneo da moda. Dessa forma, caros leitores desse volume 8 da Série ModaPalavra, abaixo se desenrolam vários textos os quais, temos certeza, trazem novidades e 9 inspirações a vocês para continuarem enfrentando desafios e gerando inovações em seus campos de trabalho. Boa leitura a todos e votos de breve reencontro. Profa. Dra. Mara Rúbia Sant’Anna, organizadora. 10 PARTE I Desafios sociais: novos personagens e sensibilidades no mercado de moda 11 Gestão de marcas verdes na moda: fortalecendo a imagem da marca através do desenvolvimento sustentável Rochelle Cristina Santos Introdução Adequando-se ao objetivo maior da organização do livro “Moda: desafios e inovações”, buscou-se compreender as aplicações dos sentidos dos verbos desafiar e inovar. Ao desafiar, podemos inspirar novas vontades4 , sendo essa uma das pretensões do marketing: provocar desejos. Os desafios ainda podem ser considerados etapas que exijam um esforço maior a quem os propõe. Neste sentido, o ato de desafiar requer, em muitos casos, inovações, a fim de atender expectativas muitas vezes não intencionadas. Ao inovar, busca-se introduzir algo inédito em um determinado processo . Apropriando-se deste conceito para o universo da moda, podemos ressaltar que a inovação de um produto pode trazer benefícios em relação à proposta que se pretende atingir. Em diferentes campos do saber, é essencial a discussão do desenvolvimento sustentável, da preservação, da limitação dos impactos ambientais na produção e no consumo. Uma das maiores preocupações atuais no campo da moda, está pautada tanto nas pressões sociais que concentram esforços em fortalecer a necessidade de minimizar os impactos ambientais, bem como em novos nichos de mercado consumidor que surgem influenciados por estes discursos preservacionistas. Assim, como explicitado na Introdução deste livro, [...]o universo da moda, com seus sistemas produtivos e criativos, com suas amplas redes de difusão e comercialização, não se coloca à margem de todas essas discussões. Muito ao contrário, se apropria de tudo isso e canaliza de formas diversas para novos impulsos de consumo e, antes dele, de criação e inovação.(SANT’ANNA, 2013, p. ) 4 http://www.priberam.pt/dlpo/default.aspx?pal= acessado em 16 de abril de 2012. 5 Ibdem 12 Para relacionar esta articulação entre Moda e interesses sociais, investigou-se uma possibilidade de associar o consumo sustentável com ações de marketing das empresas de moda, que se apropriam de discursos preservacionistas, para agregar valor aos produtos e, desta forma, atender a novos nichos de mercado. Com reflexões e conceitos sobre a prática do discurso e as transformações de ações através das vozes autorizadas, identifica-se que o consumo sustentável muitas vezes está ancorado apenas nas informações consumidas como verdadeiras, e não no empenho do consumidor (ou dos produtos) em realmente exercerem a função de preservacionistas. Dentro da unidade “Inovações: a tecnologia e o ensino a serviço de uma nova sociedade”, a pesquisa relaciona algumas propostas tecnológicas e discursivas voltadas ao consumo sustentável, bem como indica estudos realizados no campo acadêmico sobre este nicho de consumidores “verdes”. Entende-se que a própria lógica de exercer um consumo sustentável é um desafio atual, visto que muitos produtos não estão adequados aos padrões exigidos por determinados grupos que buscam minimizar os impactos ambientais gerados pelo consumo. Sendo assim, a necessidade de inovar é constante, sendo inovações no campo tecnológico, ou mesmo nas práticas discursivas. O que se pôde perceber é que em muitos casos o desafio se mostra mais penoso do que se imagina, sendo comum que, na prática, as inovações se fundamentem muito mais em estratégias de marketing do efetivamente em solucionar questões ambientais. Esta pesquisa foi adequada ao campo de investigação que compreende a Gestão do Marketing na Moda, capacitando o desenvolvimento e o raciocínio estratégico de atitudes voltadas para o mercado. Portanto, o desafio deste trabalho é propor a reflexão sobre as atitudes do profissional de marketing de moda perante a sociedade. Inovação Ao falar em inovação é recorrente pensar em ideias relacionadas a novas tecnologias. Contudo, para que algo se concretize tecnologicamente é necessário que uma pessoa realize a tarefa de pensar e projetar algo. Quando tratamos de pessoas inovadoras, muitas vezes relacionamos à inovação, à criatividade, e é neste sentido que se buscou compreender os perfis de pessoas inovadoras identificadas no livro “As 10 faces da inovação: estratégias para turbinar a criatividade” (KELLEY; LITTMAN, 2007). Os autores asseguram que a cultura da inovação é essencial para o crescimento 13 duradouro de uma marca, e que isto só pode ocorrer a partir de iniciativas com um “toque humano”. (KELLEY; LITTMAN, 2007, p. 4-5). É com uma classificação que identifica 10 perfis inovadores em três categorias de ação que serão especificadas para posterior análise de quais perfis se mais ajustam ao sistema produtivo de moda sustentável. Com características de “aprendizado”, “As pessoas que desempenham papel de aprendizado são bastante humildes para questionar suas próprias visões de mundo e, assim, se mantêm abertas a novas ideias todos os dias.” (KELLEY; LITTMAN, 2007, p. 8). São classificadas da seguinte forma: - Antropólogo: tem como principal característica observar o comportamento humano, desenvolvendo uma extensa compreensão sobre as pessoas. - Experimentador: tem o perfil de assumir riscos para sugerir ideias e implementá-las. - Polinizador: explora diversos setores culturais, mesmo não diretamente relacionados ao seu campo de trabalho e faz adaptações para melhorias no seu próprio empreendimento. Ainda existem as pessoas que organizam, esses inovadores relacionam suas ideias com processos de orçamento, alocação de recursos, burocracias e politicagens. (KELLEY; LITTMAN, 2007, p. 9). Seriam eles: - Saltador de obstáculos: está determinado a não impedir que suas ideias sejam executadas por impossibilidades passageiras. - Colaborador: costuma ser um líder de grupos mais ecléticos, busca soluções interdisciplinares. - Diretor: assim como o colaborador é líder. No entanto, ele ajuda a construir equipes mais direcionadas. O último grupo de classificação é o grupo das pessoas de construção. As pessoas identificadas neste grupo “aplicam os insights gerados pelos papéis de aprendizado e canalizam a capacitação produzida pelos papéis de organização para realizar a inovação” (KELLEY; LITTMAN, 2007, p. 10). Normalmente as pessoas deste grupo encontram-se no centro da ação que promove a inovação. Suas características são: 14 - O arquiteto de experiências: este perfil projeta experiências que vão além da funcionalidade do produto, ele sugere desejos aos clientes. Trabalha muito com a questão da performance. - O cenógrafo: busca a alteração de ambientes físicos para influenciar comportamentos e atitudes. - O cuidador: busca inovar para atender de forma cada vez mais eficaz as necessidades dos clientes. - O contador de histórias: reforça no âmbito externo da empresa a conscientização dos valores que estão sendo transmitidos. Realizado este levantamento de perfis inovadores, identificaram-se aqueles que mais se ajustam aos desafios e inovações propostos na pesquisa. No campo da aprendizagem, o perfil do Antropólogo é o que mais se destaca por estar atento ao comportamento humano. Neste caso, os consumidores também estão se adequando a novos discursos. A própria aceitação desses discursos requer atenção – dos Antropólogos – para que seja compreendido o comportamento do consumidor. Na moda, muito do que se vê são pesquisas de comportamento que são também reconhecidas como pesquisas de tendências, para adequar produtos aos interesses do público consumidor. No campo da organização, percebe-se que o inovador colaborador é mais adequado aos interesses do marketing verde para moda sustentável. A logística da produção de moda interfere em inúmeras áreas e, por este motivo, uma pessoa que busque soluções interdisciplinares teria mais sucesso. No perfil das pessoas de construção, identificou-se que o arquiteto de experiências está mais ligado aos interesses de marketing. É este perfil que busca projetar experiências que vão além da funcionalidade do produto. O que importa nesse caso é o valor agregado atribuído ao produto, e não a função que ele exerce. Na moda sustentável, isso é muito evidente: a roupa serve para cobrir, para aquecer, enquanto a roupa sustentável pressupõe uma relação produtiva que coloca seu usuário em uma experiência direta com questões sociais. Ainda no campo da inovação relacionada a características empreendedoras, ou seja, que partem de um sujeito para posteriormente ser aplicada a uma tecnologia, destacam-se sete fontes para descoberta de 15 possibilidades inovadoras. (DRUCKER, 2011, p. 46). As primeiras quatro fontes estão relacionadas a instituições empresariais ou públicas, inseridas em setores industriais ou de serviços, sendo elas: - O inesperado – o sucesso inesperado, o fracasso inesperado, o evento externo inesperado. - A incongruência – entre a realidade como ela é de fato, e a realidade como se presume ser ou como “deveria ser”. - A inovação baseada na necessidade do processo. - Mudanças na estrutura do setor industrial ou na estrutura do mercado que apanham a todos desprevenidos. (DRUCKER, 2011, p. 46) Conforme será melhor explicitado no decorrer do texto, a inovação necessária para acompanhar as mudanças dos paradigmas sociais em relação à sustentabilidade, está muito relacionada a mudanças nas estruturas industriais, bem como ao acompanhamento das novas necessidades mercadológicas. Digamos que em relação à indústria as inovações encontram-se também no âmbito das novas necessidades dos processos de produção. As inovações, para atender as novas estruturas de mercado, podem estar melhor relacionadas às estratégias de marketing. O outro grupo de mudanças apresentado está diretamente relacionado com questões externas à empresa, sendo elas: “Mudanças demográficas (mudanças populacionais). Mudanças em percepção , disposição e significado. Conhecimento novo, tanto científico como não científico.” (DRUCKER, 2011, p. 46) As inovações percebidas com as exemplificações da pesquisa apontam para inovações em relação à percepção e disposição de significados. Os discursos transmitidos através de estratégias de marketing buscam atender nichos específicos de mercado que têm uma maior preocupação ambiental, assim como tentam difundir para um grupo maior de consumidores novos significados sobre a moda sustentável. Sobre esta delimitação, Peter Drucker afirma que “A inovação deliberada e sistemática começa com a análise das oportunidades. Começa com a cogitação do que chamei de fontes de oportunidades inovadoras. [...] todas as fontes de oportunidade inovadora devem ser sistematicamente analisadas e estudadas.” (DRUCKER, 2011, P. 190) 16 Ao trabalhar com um produto de moda, não podemos esquecer que moda também é um projeto de design. Sendo reconhecido como uma ferramenta de gestão, o design é capaz de criar diferenciações entre produtos e conceitos. Estas diferenciações, em sua grande maioria, partem de inovações e aperfeiçoamento de produtos. O design tem uma dimensão conceitual que tem uma capacidade de unir todos os inovadores em torno de um objetivo comum focado no cliente. [...] A inovação em design está relacionada com o marketing estratégico orientado ao usuário. O que os disigners procuram é uma orientação para o mercado, ou a introdução da satisfação do usuário em todas as áreas da inovação. A natureza do design muda. Passa a ser um processo que ao mesmo tempo é fonte de ideias e de mudança organizacional, alterando a cadeia de valor por meio da ampliação da orientação para o mercado. (MOZOTA: COSTA, 2011, P. 150). Através de métodos para aplicação e geração de conceitos para produto, bem como relacionando seus significados a estratégias de marketing, percebe-se que a inovação é um campo profícuo de atribuições à gestão de marcas verdes no mercado que se mostra cada dia com necessidades de sustentabilidade. Esta é a relação direta que se percebe no que diz respeito ao tema central do livro e a proposta da pesquisa aqui apresentada. Sustentabilidade: um interesse social Pode-se afirmar que o tema Sustentabilidade é um tema de interesse social por abarcar diferentes segmentos para os quais, de certa forma, convergem a utilização e necessidade de preservação de recursos naturais. Para Zulauf, “A defesa do meio ambiente, conceito que inclui a restauração de ecossistemas, é uma atividade que teve seu desenvolvimento como conjunto de ações ordenadas iniciado em meados do século que se finda [...]”(ZULAUF, 2000, p. 186). Para o autor, existem três fases que agrupam de forma didática os estudos sobre meio ambiente. Na fase pioneira, existe a percepção de que a humanidade deveria modificar algumas atitudes em relação ao convívio social e a utilização dos recursos naturais. Mas ainda não existia a percepção de que um indivíduo 17 era responsável por seus atos, era sempre uma preocupação que estava direcionada a atitude do outro. Um misto de curiosidade e de concordância com as teses dos ecologistas fez crescer a vontade social de mudar comportamentos predadores por outros com respeito pela natureza, mesmo que, individualmente, essa mesma sociedade ainda não estivesse preparada para efetivamente fazer a sua parte. Muitos achavam que, se os outros melhorassem o meio ambiente, eles, pessoalmente, poderiam continuar a cometer seus pecadilhos ambientais sem dar na vista. (ZULAUF, 2000, p. 186) A segunda fase é considerada pelo autor a fase política e do “enforcement”. É neste momento que o meio ambiente é compreendido como um movimento social político, ocasionando inclusive a criação dos “Partidos Verdes”, fortemente engajados nas questões ambientais. A pressão dos movimentos ecologistas, amplificada pela mídia, e a inserção do tema no discurso político, a par do desenvolvimento técnico nos institutos oficiais de defesa do meio ambiente e científico nas universidades, levou as autoridades governamentais, em todos os níveis, a editarem leis, decretos, normas técnicas e demais instrumentos de enforcement, isto é, de controle ambiental. No Brasil, aproveitou-se a própria Assembléia Nacional Constituinte de 1988 para inserir um moderno e abrangente capítulo sobre meio ambiente na Constituição Federal. (ZULAUF, 2000, p. 187) A terceira fase é talvez a mais próxima dos estudos focados na relação da sustentabilidade com a moda, ou seja, a moda sustentável. Esta última fase é denominada por Zulauf como fase do mercado (ZULAUF, 2000, p. 88). É o momento em que se percebe uma demanda de necessidades tecnológicas e de consumidores envolvidos pelos discursos propostos sobre meio ambiente, desenvolvimento sustentável e preservação de recursos naturais. A preocupação de indústrias e empresas não se dá apenas por aceitação dos discursos propostos por ambientalistas, mas sim por leis e determinações de incentivos que percebem o mercado de consumo como um grande usufruidor de recursos naturais. O interesse aqui é minimizar os impactos ambientais causados pelo mercado. 18 Instrumentos mais sofisticados de mercado surgiram, por exemplo, com as séries de certificados ISO-9000 e ISO-14000, pelas quais as indústrias globalizadas não têm outras alternativas senão produzir com competência e com responsabilidade ambiental. Mais uma força na direção da ampliação do mercado verde (ZULAUF, 2000, p. 88) Ancorando a pesquisa nos discursos sobre a relação entre o desenvolvimento sustentável e a moda, compreende-se que as narrativas do consumo se constituem não apenas para atender a determinadas demandas, mas sim que as demandas se formam a partir da construção de fortes discursos sociais. A moda e a sustentabilidade O mercado de moda gira em torno de renovações constantes e isso pressupõe o uso de recursos naturais em excesso, bem como a produção de objetos descartáveis socialmente. As coleções de moda são lançadas a cada semestre, ou seja, no período de um ano há pelo menos duas coleções importantes: Outono/Inverno e Primavera/Verão. A identificação das macrotendências e tendências é um dos primeiros passos a serem dados pelos agentes desse mercado. “[...] o conceito de tendência que se generalizou na sociedade contemporânea foi construído com base nas ideias de movimento, mudança, representação do futuro, evolução, e sobre critérios quantitativos.”(CALDAS, 2004, p.22). As macrotendências influenciam e alteram diversos setores, tais como: a vida social, o consumo, a economia. Os direcionamentos propostos por macrotendências costumam ter longa duração: seriam as tendências de fundo. O que se entende por tendências de moda, ou seja, as mudanças ocorridas a cada estação ou num período ainda mais curto, são as tendências de ciclo curto. Portanto, a sociedade está sempre inserida em um contexto que a direciona para um mesmo caminho, seguindo sempre as macrotendências e tendências que regem os hábitos e o consumo. (CALDAS, 2004, p. 96) Para Dario Caldas, o lançamento de tendências está incutido no próprio indivíduo e nas relações culturais. Traçando um panorama sobre “uma” história da difusão da moda, ele nos aponta que o funcionamento da moda ocidental tem cinco momentos: 19 a) Período anterior a 1857, em que, via de regra, a moda era utilizada apenas pelas elites, buscando diferenciação ou distinção em relação a seus pares. (CALDAS, 2004, p.54); b) A alta-costura surge com a abertura da maison do costureiro Charles Frederick Worth em Paris no ano de 1858 (ERNER, 2005, p.32), “ [...] a partir daí e durante cem anos, as mulheres abrem mão do seu poder de decisão e legitimam a autoridade dos grandes costureiros, sem questionála”(CALDAS, 2004, p.54); c) Na década de 1950, após a II Guerra Mundial, o universo da moda aderiu ao Ready-to-wear6 e ao Prêt-à-Porter. “Assim, quando a ideia de coordenação dos elos da cadeia têxtil se desenvolveu com mais força, as tendências foram concebidas como ‘redutores de incerteza’ para a indústria.”(CALDAS, 2004, p. 56). d) A moda institucional a partir da década de 1980: neste momento, a moda passa a aderir referências de períodos anteriores, bem como a agregar novos padrões ou conceitos que nortearam deu desenvolvimento. e) Período de 1990-20037: de acordo com Dario Caldas, é neste momento que se percebe a maior inclusão do “indivíduo” comum no universo da moda. Para o autor, A força do indivíduo na cultura contemporânea pode ser medida pela expressão inglesa trendsetter (aquele que aponta tendências). Cada período histórico teve os seus personagens referenciais, homens e mulheres que funcionavam simultaneamente como ícones da elegância e árbitros do bom gosto. O que muda, no presente, é que, do ponto de vista do mercado, o indivíduo comum pode ter o mesmo peso das figuras de referência do passado, via de regra pertencentes às elites. Identificar esses trendsetters é parte da atividade do ‘caçador de tendências’(CALDAS, 2004, p. 60) 6 Pronto para usar. 7 Lembrando que o livro de Dario Caldas foi publicado em 2004. 8 Termo de origem inglesa Commodity que no plural fica commodities. Significa: mercadoria. 20 Diante da complexidade na produção de uma coleção de moda, torna-se evidente a necessidade de uma ação consciente e profissional por parte do estilista ou designer de moda. Suas produções não são aleatórias, pois estão envolvidas nesse percurso criativo de reconhecimento e apropriação do que é definido como espírito do tempo. “Historicamente, o conceito de ‘espírito do tempo’ origina-se do alemão Zeitgeist, usado com maior frequência a partir do final do século XVIII, com a acepção de opiniões válidas num determinado tempo, gosto ou desejo”. (CALDAS, 2004, p. 70-71). A moda é considerada um dos vetores sociais que melhor se apropria do uso e do conceito de espírito do tempo. Ao levarem para passarelas temas diversificados, e considerando a importância destinada aos eventos e às manifestações de moda na contemporaneidade, os estilistas e produtores de moda não levam apenas commodities8 do vestir. Conscientes de suas ações, das escolhas pautadas nas pesquisas de tendência, muitos optam por assuntos em evidência nas pautas sociais, o que seriam as macrotendências. Essas circunstâncias permitem pensar a moda como um condutor de ideias, um agente de pluralização dos efeitos das problematizações sociais atuais, uma vez que os agentes do mercado da moda se organizam de forma a solidificarem determinadas tendências. Para Caldas, [...] a tendência corresponde ao primeiro momento, à propensão. Sem propensão não há tendência, portanto não há difusão, nem poderia haver moda. Outro ponto fundamental é a ideia de crença: está claro que a tendência só poderá existir se houver predisposição dos indivíduos à crença naquilo que a tendência representa. (CALDAS, 2004, p. 47) E neste sentido de compreender as tendências de moda como um processo vinculado a necessidades e desejos do indivíduo, é importante pensar se a moda sustentável é apenas uma tendência ou uma compreensão da necessidade de preservar. Parte das fontes são pesquisas acadêmicas vinculadas ao Projeto ECOMODA, um Programa de Extensão do Curso de Moda da Universidade do Estado de Santa Catarina. O ECOMODA que: Surgiu em 2004 com o objetivo de disseminar o conceito de sustentabilidade ambiental através da produção e consumo consciente. Outro objetivo do programa também é promover a interação entre 21 os acadêmicos e a comunidade, contribuindo para a questão sócioambiental. O programa promove projetos, eventos, cursos e outras atividades como palestras, exposições, entre outros. As ações acontecem na grande Florianópolis e algumas cidades do estado de Santa Catarina. Ao longo dos seus quase dez anos, o EcoModa tem participado também de eventos e palestras em outros estados do Brasil além de países da Europa e America Latina. (SCHULTE, 2012) Idealizado pela professora Neide Schulte, o ECOMODA conta com parceiros do mercado da moda que vislumbram no mercado sustentável a possibilidade de atender as necessidades políticas e sociais, bem como aproveitar a demanda de um nicho específico do mercado que são consumidores preocupados com as suas atitudes particulares no que tange à preservação do meio ambiente. Mas relacionar a temática do desenvolvimento sustentável com fenômeno moda, que por sua própria definição pressupõe a lógica da renovação, não é uma tarefa fácil. Para Schulte, “O desenvolvimento sustentável é um grande desafio para a criação de novos produtos para o vestuário de moda, pois o ciclo de vida muito curto destes produtos, e o apelo ao consumismo, representam um entrave.” (SCHULTE; LOPES, 2008, P. 30). As primeiras preocupações ambientais relacionadas ao campo da moda estão diretamente relacionadas aos poluentes emitidos pelas indústrias têxteis. Os maiores poluentes da indústria têxtil acontecem na fase de produção, denominada beneficiamento. [..] a etapa do beneficiamento consiste em um conjunto de processos aplicados aos materiais têxteis para transformá-los, a partir do estado natural, em artigos brancos, estampados, tingidos e acabados. Inclui as operações de lavagem, tingimento e estamparia. É nessa fase da produção que se emprega o maior número de substâncias químicas e envolvem processos de intensos riscos ambientais e poluidores. Tal efeito poluidor se reflete principalmente na água e no ar, com seus resíduos sólidos, líquidos e gasosos (ROSA, 2008, p. 34). A água é o recurso natural mais utilizado pelas indústrias têxteis no processo de fabricação das roupas. É neste âmbito que começaram as preocupações sociais com o meio ambiente por parte das indústrias. 22 Isso ocorreu não necessariamente porque as preocupações partiram dos executivos das indústrias, mas sim porque determinados discursos ambientalistas foram solidificados, através da divulgação de vozes autorizadas. Através de leis de incentivo, ou proibitivas, empresas passaram a ter um cuidado maior com o impacto de suas produções. Muitos dos cuidados com uso indiscriminado da água surgiram apenas através de uma nova forma de pensar na reutilização deste recurso natural, ou mesmo na filtragem da água antes de devolvê-la à natureza. E pode-se afirmar que a contribuição destes discursos ambientalistas, no que tange à eficácia da preocupação ambiental, pode ser mensurada em dados específicos. Hoje se necessita 50 vezes menos água para lavar a lã, 15 vezes menos água para refinar o petróleo [...]. Muitas indústrias reciclaram sua água, reduzindo sensivelmente suas extrações e também na mesma oportunidade, seus dejetos (aliviando, portanto seu problema de tratamento de águas usadas) (VERNIER apud ROSA, 2008, P. 38) Todas as ações voltadas ao melhor desempenho ambiental das indústrias são válidos, no entanto não são o foco deste estudo. O que interessa pensar - e o que vem sendo discutido no Projeto ECOMODA - , é nas possíveis tendências de consumo que viabilizam atender mercados em crescimento, como o denominado “consumo verde”. Os consumidores passaram a agir em relação a questões verdes, pois elas passaram a atingir seus lares. Os noticiários em horário nobre nos mostram desastres ambientais em nossas praias. Vemos nossas florestas e animais selvagens destruídos. É o lixo gerado por nós que cria a necessidade de novos aterros sanitários em nossas vizinhanças (OTTMAN, 1994, p. 4) Não tardou para executivos de marketing perceberem que um novo nicho de mercado estava se formando. Para enquadrar o consumo de moda, as necessidades e desejos dos consumidores, recorremos ao conceito de Marketing que afirma: “A essência do marketing é o desenvolvimento de trocas em que organizações e clientes participam voluntariamente de transações destinadas a trazer benefícios para ambos.”(CHURCHIL; PETER, 2000, p. 4). Podemos enquadrar esta percepção como: Marketing Pró-ativo 23 ou de Previsão que reconhece uma necessidade latente ou emergente. No marketing são muito trabalhadas as questões das necessidades e desejos: as necessidades referem-se a bens ou serviços que os consumidores ou compradores organizacionais requerem para sobreviver; os desejos referemse a bens e serviços específicos que satisfazem necessidades adicionais que vão além da necessidade de sobrevivência. Dentro das orientações para o marketing, encontramos a orientação com enfoque em criar valor para o cliente, ou seja, nesta orientação os profissionais de marketing se concentram em desenvolver e entregar um valor superior para os clientes como modo de alcançar objetivos da organização. (CHURCHIL; PETER, 2000, p. 19). O valor para cliente seriam os benefícios percebidos mais os custos percebidos. Percebeu-se que o consumo verde poderia gerar valor aos produtos destinados àqueles consumidores preocupados com as questões ambientais, com a criação de produtos e serviços que utilizam, em seus discursos de divulgação e comercialização, toda uma abordagem ecológica. E isto se reflete também no âmbito da moda, mesmo que sua lógica esteja pautada na lógica da renovação, diversificação e estilização de modelos. De acordo com Lipovetsky, “A sociedade centrada na expansão das necessidades é, antes de tudo, aquela que reordena a produção e o consumo de massa sob a lei da obsolescência, da sedução e da diversificação, aquela que faz passar o econômico para a órbita da forma moda.” (LIPOVETSKY, 2007, p. 184). Entretanto, a indústria da moda consegue reformular seus produtos e seus conceitos de forma a atender novas demandas de mercado. De acordo com matéria publicada em 2007, “Não basta separar o lixo orgânico do reciclável, é preciso vestir a camisa se quiser fazer sua parte para viver num lugar melhor. E isso está cada vez mais fácil porque ser ecologicamente correta virou moda de verdade.” (JORGE; MACEDO; ROOY, 2007). A matéria nos traz informações de grifes que vão de roupas a cosméticos, de joias a sapatos, que aderiram de alguma forma os discursos ambientalistas em suas produções, e conseguiram produzir produtos que vêm atender a novos desejos (ou necessidades?) dos consumidores. Os recursos naturais utilizados ganham destaques nas comunicações das marcas, é importante ressaltar aos clientes como o material a ser consumido foi produzido. 24 Algodão orgânico: É cultivado sem o uso de pesticidas, fertilizantes químicos e reguladores do crescimento. Para ser 100% orgânico, no processo de tingimento devem ser usados pigmentos naturais. Fibra de bambu: Planta de crescimento rápido, o que significa que é altamente renovável. Reproduz-se em abundância sem o uso de pesticidas e fertilizantes. Sua fibra é naturalmente antibactericida, biodegradável e extremamente macia. Tem característica termodinâmica, deixa a peça fresca no verão e mais quente no inverno. Garrafas PET: O plástico reciclado é transformado em fibras que produzem um tecido forte, mas macio. Em geral, elas são combinadas com algodão, que dá um toque ainda mais confortável. Juta: Com aparência semelhante a do linho, é plantada na região amazônica, sem nenhum impacto ambiental. É preciso apenas água para o seu cultivo, sem a necessidade do uso de agrotóxicos. Além disso, é biodegradável. (JORGE; MACEDO; ROOY, 2007) Um consumidor mais desatento aos temas ambientais é capaz de usufruir produtos sem se preocupar com as questões relacionadas aos recursos naturais utilizados na fabricação produtos a serem consumidos. O consumo consciente implica refletir sobre: o que consumir, por que precisamos de determinados produtos, quais as implicações destes produtos e do nosso consumo em relação à sociedade. Os trabalhos desenvolvidos pelo projeto ECOMODA norteiam principalmente a questão do consumo por parte dos veganos, que possuem uma forma de consumir altamente consciente e se preocupam com a produção de todos os tipos de produtos, inclusive com os mais básicos de uso cotidiano. Uma definição para o termo é que “Veganismo é o mesmo que vegetarianismo estrito, ou ainda, vegetarianismo profundo. Veganos não consomem nenhum produto de origem animal, nem fazem uso de animais para o trabalho, experimentação, entretenimento, entre outros.” (SCHULTE; PORTINARI; GODOY, 2011, p. 3). Verificando as noções de discursos e vozes autorizadas, bem como do discurso sobre Sustentabilidade e Meio Ambiente, é mantida a inquietação sobre a fundamentação das demandas criadas por novos produtos de moda, ou novos nichos pautados em necessidades e desejos de consumidores constituídos a partir da difusão destes discursos. Que interesses reais teria um consumidor em produtos que em sua fabricação não agridem o meio 25 ambiente, caso esta temática não estivesse tão em voga? A maior preocupação não é apenas em como a demanda surgiu, ou se ela está de acordo, ou não, com as necessidades ambientais. A maior preocupação é perceber se as indústrias e empresas que se utilizam de discursos ambientais, e de uma ou outra estratégia que minimizam os impactos ao meio ambiente, estão realmente adequadas a produzir com responsabilidade social e ambiental. Muito do consumo sustentável, muitos dos adeptos a este tipo de produtos oferecidos não sabem distinguir os processos de produção e se contentam em ter uma informação de que o algodão é orgânico, por exemplo. Não questionam sobre onde o algodão é produzido para comprovar a possibilidade de a informação estar correta, ou não. Ou mesmo não se questionam se a tinta do tingimento é natural ou química. Sendo que a tinta natural desbota com mais facilidade e é mais cara, estaria o cliente disposto a pagar mais por algo que dura menos? Nas fontes utilizadas nesta pesquisa percebeu-se que os assuntos são tratados com superficialidade, apenas com tags e informações sem muito aprofundamento. O projeto ECOMODA, em contrapartida, realiza um trabalho de educação focado no consumo consciente, porém também de acordo com um olhar determinado pela visão dos organizadores e de suas opções particulares de modos de vida. A preocupação maior está no fato de que os receptores destas mensagens apenas aceitem os discursos promovidos por estas vozes autorizadas sem ao menos terem uma compreensão aprofundada sobre um tema tão importante como o desenvolvimento sustentável e o consumo consciente. Fato que pode comprovar que em muitos casos a sustentabilidade permanece no discurso e não na prática é o ranking das 50 melhores marcas verdes de 2012 que não classificou nenhuma marca especificamente de moda9 . A Adidas aparece em 22º posição e Nike em 26º, ambas como marca de esportes. 9 Disponível em http://chocoladesign.com/as-melhores-marcas-globais-verdes-de-2012 acessado em outubro de 2012. 26 Considerações finais Considera-se que este trabalho é o início de um pensamento que poderá ser mais bem explorado em outras instâncias. Inclusive a ideia aqui exposta é passível de discussões em diferentes campos do saber, sendo que a mesma foi apresentada em partes no 2º Simpósio Internacional de História Ambiental e Migrações, provando seu profícuo campo de análise. Sendo assim, a partir desta pequena explanação de ideias, foi possível identificar que existe um problema a ser levado em consideração na gestão do marketing verde em relação à moda (podendo se estender a reflexão a outros segmentos mercadológicos). Verifica-se que a função de um comunicólogo ao propor ideias e estratégias para aumentar o consumo de determinadas mercadorias, ou mesmo de atender a determinadas demandas de mercado, vai além da venda de produtos. Com o título de “vozes autorizadas” sobre determinados aspectos sociais, como a sustentabilidade, estes comunicólogos são parcialmente responsáveis por mudanças e alterações nas percepções do consumo e da forma como os consumidores se relacionam com os produtos a serem adquiridos. A Moda enquanto Sistema permite um alcance abrangente em relação à sociedade, e por este motivo julgou-se necessário propor a reflexão sobre o papel do Marketing de Moda, compreendendo os desafios inerentes a este campo, e sugerindo que inovações podem contribuir com novas necessidades e desejos mercadológicos . Referências Bibliográficas BORJA DE MOZOTA, Brigitte; KLÖPSCH, Cássia; COSTA, Filipe Campelo Xavier da. Gestão do design: usando o design para construir valor de marca e inovação corporativa . Porto Alegre: Bookman, 2011 xii, 343 p. BOURDIEU, Pierre. A economia das trocas linguísticas. In: ORTIZ, Renato. Pierre Bourdieu: sociologia. São Paulo: Ática, 1994. cap. 5, p. 156182 CALDAS, Dário. Observatório de sinais: teoria e prática da pesquisa de tendências. Rio de Janeiro: Senac Rio, 2004. 221 p. CHURCHILL, Gilbert A; PETER, J. Paul. Marketing: criando valor para os clientes. 2.ed. São Paulo: Saraiva, 2000.p.4 27 DRUCKER, Peter F. Inovação e espírito empreendedor: prática e princípios. São Paulo: Cencage Learning, 2011. ERNER, Guillaume. Vítimas da moda?: como criamos, por que a seguimos. São Paulo: Ed. SENAC, 2005 253 p. JORGE; MACEDO; ROOY, 2007. Disponível em http:// planetasustentavel.abril.com.br/noticia/atitude/conteudo_268727.shtml . Visitado em 10 de julho de 2012. KELLEY, Tom; LITTMAN, Jonathan,. As 10 faces da inovação: estratégias para turbinar a criatividade. Rio de Janeiro: Campus, 2007. 263 LIPOVETSKY, Gilles. O império do efêmero: a moda e seu destino nas sociedades modernas . São Paulo: Companhia das Letras, 2007 PEDRO, Joana Maria. SCHEIBE, Luiz Fernando. Construção coletiva do Programa de Pós-graduação Interdisciplinar em Ciências Humanas da UFSC. PIETROFORTE, Antonio Vicente. Semiótica visual: os percursos do olhar. 2. ed. São Paulo: Contexto, 2007 ROSA, Bárbara Jung da. Indústria têxtil: poluição ambiental e práticas mais limpas. 2008. 51 p. : Monografia (graduação)- Universidade do Estado de Santa Catarina, Centro de Artes, Curso de Moda, Florianópolis, 2008. SANT’ANNA, Mara Rúbia. Teoria de Moda: sociedade, imagem e consumo. Barueri, SP: Estação das Letras Editora, 2007. SCHULTE, Neide; LOPES, Luciana. Sustentabilidade Ambiental: um desafio para a moda. Modapalavra e-periódico. Ano 1, n.2, ago-dez 2008, pp. 30 - 42. ISSN 1982-615 SCHULTE, Neide; PORTINARI, Denise; GODOY, Ilma. Ser e viver o veganismo: proposta para o design da humanidade. IX Simpósio Interdisciplinar do LaRS: palavras e coisas Rio de Janeiro: Departamento de Artes e Design, PUC-Rio, 2011. ISBN: 978-85-99959-12-1 28 SCHULTE, Disponível em http://www.ecomoda.ceart.udesc.br/?page_ id=839 . Acesso em 10 de julho de 2012 ZULAUF, Werner. E. O meio ambiente e o Futuro. Estud. av. vol.14 no.39 São Paulo May/Aug. 2000. 29 Renda de Bilro: As dimensões da sustentabilidade na perspectiva da Slow Fashion Neide Köhler Schulte Luciana Dornbusch Lopes 1 Introdução Cada vez mais os consumidores de diversas esferas sociais estão se preocupando com o que compram, levando em consideração, ao decidir pela aquisição de um novo produto, questões socioambientais e também culturais. A humanidade está vivenciando a necessidade de uma nova “visão de mundo”, motivada pelas grandes mudanças climáticas que geram consideráveis prejuízos, além da degradação do planeta, resultante do modo de vida dos humanos. Eles vêm consumindo os recursos naturais do planeta e gerando um grande acúmulo de resíduos e poluentes. Assim, reciclar, reutilizar, reaproveitar e customizar são conceitos cada vez mais presentes no cotidiano dos profissionais envolvidos com o mundo da moda e que, em maior ou menor grau, estão presentes também em toda a sociedade. O designer desses novos tempos, além de possuir a tarefa de criar coleções “vendáveis”, gradativamente precisa conscientizar os consumidores acerca de sua responsabilidade em relação às questões ambientais e o consumismo na atualidade. Segundo Papanek (1997, p.14), o “designer tem sido sempre (...) um professor, estando em posição de informar e influenciar o cliente. Com a atual confusão ambiental é ainda mais importante que ajudemos a orientar a intervenção do design, de modo que seja natural e humana. Temos de alargar nossas próprias áreas de conhecimento, e simultaneamente reorientar os nossos modos de trabalhar”. Com o objetivo de investigar e propor um novo direcionamento para os produtos do vestuário, que contribua para o desenvolvimento humano sustentável, foi criado, em 2005, o Programa de Extensão Ecomoda UDESC. 30 O Programa passou a existir após a participação do projeto “Coleção de Moda para o 1° Veg Fashion” no 36° Congresso Mundial de Vegetarianismo (2004), em Florianópolis, com um desfile. O desafio para esse evento foi criar peças para o vestuário sem uso de material de origem animal e com menos impacto ambiental. Desde então, o Programa de Extensão Ecomoda vem se destacando, por meio de seus projetos, como um difusor dos conceitos de produção sustentável e de consumo consciente na área da moda. Fundamentado na ética ambiental biocêntrica, nos princípios do veganismo e na preservação do artesanato local, o trabalho do Programa Ecomoda UDESC vem utilizando, em suas criações, rendas de bilro, artesanato típico da cultura açoriana na Grande Florianópolis, além de fios e tecidos de algodão orgânico e reciclado. A coleção de roupas “Primavera Silenciosa” apresentada em novembro de 2010, na Università degli Studi di Firenze, Itália, foi o primeiro trabalho com utilização de rendas de bilro nas roupas. O segundo trabalho foi apresentado no Paraty Ecofashion, em agosto de 2011. O diferencial, em relação ao primeiro trabalho, são as rendas feitas com fios de algodão orgânico e reciclado. 2 Ecodesign e sustentabilidade ambiental O ecodesign propõe a união entre a natureza e a tecnologia. Os materiais devem ser escolhidos, levando em consideração sua toxicidade, abundância na natureza e possibilidade de regeneração ou reciclagem (BROWER, 2005). Como a moda é uma das indústrias de maior alcance nas diversas camadas sociais e também a que gera um dos maiores índices de poluição em toda sua cadeia produtiva, os designers de moda precisam considerar as questões ambientais, em suas criações, em todo processo, da matériaprima ao pós-uso, utilizando tecidos ecológicos, evitando os sintéticos e as peles. Os consumidores estão buscando, cada vez mais, por produtos com inovações a partir de processos com menor impacto ambiental. O conceito de sustentabilidade ambiental foi criado no início da década de 70, na Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente, para sugerir que era possível conseguir um crescimento econômico e uma industrialização sem destruir o meio ambiente. O modelo proposto para o desenvolvimento sustentável foi uma tentativa para harmonizar o desenvolvimento humano com os limites da natureza. 31 Na visão de Vezzoli (2005, p.27), as ações humanas, para serem consideradas sustentáveis, devem atender os seguintes requisitos: a) basearse fundamentalmente em recursos renováveis e, ao mesmo tempo, otimizar o emprego dos recursos não renováveis (compreendidos como ar, água e o território); b) não acumular lixo que o ecossistema não seja capaz de reutilizar (isto é, fazer retornar as substâncias minerais orgânicas, e, não menos importante, as suas concentrações originais); c) agir de modo com que cada indivíduo e cada comunidade das sociedades “ricas” permaneça nos limites de seu espaço ambiental, bem como que cada indivíduo e cada comunidade das sociedades “pobres” possa efetivamente gozar do espaço ambiental ao qual potencialmente tem direito. O grande interesse pela questão ambiental, através de encontros, trabalhos acadêmicos e reuniões envolvendo nações de todo o mundo, demonstra uma crescente preocupação com a utilização dos recursos da Terra. No entanto, apesar de todo o reconhecimento da importância de um desenvolvimento compatível com os ciclos naturais, caminha-se para um futuro que desafia qualquer noção de desenvolvimento sustentável e de respeito à natureza. 3 A ética ambiental biocêntrica e os princípios do veganismo 3.1 A ética ambiental biocêntrica A investigação teórica acerca dos princípios da ética ambiental biocêntrica partiu do estudo da proposta de Paul Taylor apresentada no livro Respect for Nature: a theory of environmental ethics (1987). Essa investigação foi desenvolvida como fundamentação da pesquisa da tese “Contribuições da ética ambiental biocêntrica e do veganismo para o design de vestuário sustentável”, apresentada pela autora em 2011, visando ao título de doutora em Design. Segundo Mendonça (2008), o livro de Taylor marcou definitivamente o futuro da ética ambiental, com a proposta para uma ética biocêntrica, na qual desenvolve um sistema de crenças visando ao respeito do “bem próprio” das coisas vivas em sua singularidade. A teoria de Taylor foi denominada, por outros esteticistas, como “individualismo biocêntrico”, pois o autor se afasta de concepções holistas que consideram moralmente respeitáveis as espécies, em detrimento dos indivíduos que a compõem. 32 A proposta de Taylor é uma tentativa de estabelecer as bases racionais de um sistema de princípios morais, através do qual o tratamento humano, para com o ecossistema natural e as comunidades selvagens, deva ser guiado. Taylor argumenta que, independente dos deveres que os humanos possuem para com os outros seres humanos, os humanos são moralmente requeridos a se preocuparem com certas ações que possam beneficiar ou prejudicar os seres selvagens no mundo natural. Assim, considera que o mundo natural não é um simples objeto a ser explorado pelos humanos, nem as criaturas utilizáveis como recursos de nosso uso e consumo. Ao contrário, as comunidades de vida selvagens são merecedoras de preocupação moral e consideração pelos humanos, pois possuem um tipo de valor que pertence a elas inerentemente. A formulação de uma ética ambiental, segundo Taylor, é necessária, porque as plantas e os animais não são reconhecidos como tendo interesses ou valores que devam ser levados em conta por si mesmos. Portanto, para que ocorra a preservação do mundo natural, é preciso que seja respeitado o valor inerente das coisas vivas, independente de qualquer valor instrumental que possam ter para os humanos. Na teoria da ética ambiental biocêntrica elaborada por Taylor, os humanos devem identificar a sua existência, as suas relações com os outros seres vivos e o conjunto de ecossistemas naturais em seu planeta, como membros da “comunidade de vida da Terra”. Ou seja, os humanos devem considerar-se parte integrante da natureza, e como tal, procurar valorizar todas as formas de vida, permitindo a sua existência. Colborn (2002) e outros biólogos colaboradores apresentaram um levantamento detalhado e criterioso sobre os problemas ambientais e humanos, causados por agentes químicos criados pelo homem e colocados na natureza. O livro de Colborn é considerado como um dos mais importantes sobre os efeitos de diversos produtos que estão sendo condenados pelos ecologistas há mais de trinta anos. O primeiro livro que demonstrou os efeitos dos produtos químicos sobre a vida selvagem foi de Rachel Carson, em 1962, “Primavera Silenciosa”. O clamor que se seguiu à sua publicação forçou a proibição do DDT e instigou mudanças revolucionárias nas leis que dizem respeito ao ar, terra e água. A preocupação apaixonada de Carson com o futuro de nosso planeta reverberou poderosamente por todo o mundo, e seu livro foi determinante para o lançamento do movimento ambientalista. 33 Hoje, os efeitos dos produtos químicos, para desespero da atual civilização antropocêntrica, também estão evidentes no animal humano. Segundo pesquisas que vêm sendo publicadas cada vez com mais frequência, muitos produtos consumidos, principalmente alimentos e roupas (que estão diretamente em contato com o corpo humano), contêm produtos químicos que podem ser nocivos à saúde humana, podendo até matar gradativamente, desencadeando câncer e outras doenças graves. A proposta da ética ambiental biocêntrica pode trazer uma grande contribuição para o gerenciamento do desenvolvimento humano sustentável, avaliando suas ações, de forma a permitir que outros seres nãohumanos, rios, florestas, possam ter uma existência sem uma interferência desmedida, e sem destruição e extinção. Esse é o grande desafio da humanidade no século XXI: rever o desenvolvimento humano de forma que seja possível manter áreas naturais sem destruição. As sociedades humanas desenvolveram a capacidade de intervir no ambiente e nos processos naturais segundo objetivos e modelos próprios. Por isso elas têm a responsabilidade de não destruir a qualidade do ambiente em que vivem e agem no uso dessa capacidade. Essa é a base da ética ambiental10. 3.2 Os princípios do veganismo O conceito de Veganismo surge em 1944, criado por Donald Watson e Elsie Shrigley, fundadores da Vegan Society britânica, em função da percepção da inadequação do conceito de vegetarianismo no que concerne a uma atitude ética coerente em relação aos animais não-humanos (FOX, 1993). O conceito amplamente aceito naquela época restringia-se à esfera alimentar e baseava-se na abstenção do uso de alimentos advindos 10 Ética ecológica: antropocentrismo ou biocentrismo? José Roque Junges. Disponível em <http://www.faje.edu.br/periodicos/index.php/perspectiva/article/view/801/1232> acesso em 15/07 2011. 34 diretamente da morte de um animal. Admitia-se, contudo, no vegetarianismo, uma dieta que incluísse produtos de origem animal, tais como leite, ovos e mel, ainda que os mesmos também acarretem danos aos animais de quem são extraídos esses produtos, o que resulta, em última instância, na sua morte provocada. Nos anos 1980, cresceu a vertente abolicionista do movimento em defesa dos animais, despertada pela expansão sem precedentes da exploração animal, com a consequente escalada de abusos, levando a uma percepção mais crítica e radical do paradigma bem-estarista e ao foco na centralidade do problema da redução dos animais à condição de objetos e propriedade dos seres humanos. O abolicionismo beneficiou-se da expansão do pensamento intelectual sobre os direitos animais (STEPANIAK, 2000). O veganismo ressalta a necessidade de uma alimentação saudável que respeite os animais. Enfatiza a importância de preservar o solo e o uso correto da terra, para que futuras gerações não a encontrem com erosão, queimada, sem os minerais necessários para uma vida saudável. Os veganos confiam em métodos naturais (alimentação pura, ar fresco, sol, exercício etc.) ao invés de vacinas e medicamentos para manter corpo e mente saudáveis. A partir dos fundamentos da ética ambiental biocêntrica e dos princípios do veganismo, que propõem uma relação de equidade entre humanos e natureza, o desenvolvimento humano poderá efetivamente ser mais sustentável. Para o vestuário, o uso de matérias-primas como fios e tecidos orgânicos, a reciclagem dos resíduos gerados, a valorização do trabalho e da cultura local são os caminho para uma produção e um consumo mais coerentes com os novos tempos. 4 Do fast fashion ao slow fashion Para compor a identidade de cada indivíduo, que é singular, mas que é influenciada pelo sistema de moda, atualmente existe um modelo de comercialização que abastece o mercado com as novidades do mundo fashion de forma muito rápida. É a chamada “Revolução Fast Fashion”, que exige uma complexa estratégia de organização, reunindo várias áreas de uma mesma empresa, para que a produção de uma roupa seja muito rápida. A moda oferece muitas opções, para cada indivíduo compor sua identidade através do seu vestuário. 35 Segundo Cietta11 , nos anos 80, o mecanismo era copiar e vender o que havia sido definido como moda para a temporada seguinte. Já nos anos 90, o mercado passou a ter coisa demais para copiar. Atualmente, há o poder das marcas e, além disso, copiar apenas não basta, tornou-se um risco. Por isso, até as confecções menores passaram a investir no design. O fast fashion envolve o consumidor no/pelo design do produto, na medida em que é produzido aquilo que o consumidor deseja. O design é local, e a velocidade exige que a produção também seja feita no local. No Brasil, ainda é um movimento recente, mas com a internacionalização da moda brasileira, o modelo de negócio no país vem se aprimorando e se tornando cada vez mais importante para o consumo de massa. Com o fast fashion, prever as tendências de consumo, característica de muitas indústrias na cadeia têxtil-vestuário, é tarefa cada vez mais difícil em razão da extensa variabilidade dos produtos, da forte segmentação, da grande quantidade de informações que é necessário levar em consideração, e dos ciclos de vida do produto, cada vez mais breves. É a diferenciação horizontal do produto, a variabilidade infinita, a participação do consumidor no processo de produção que tornam a previsão da tendência da estação sucessiva muito mais complexa (CIETTA, 2010). O fast fashion é a expressão máxima da efemeridade na moda e, como antítese, surgiu o slow fashion. É o conceito que define que a moda terá uma velocidade menor, com peças perenes, ou que, pelo menos, persistam por mais de uma estação. É o movimento que defende peças duráveis, de qualidade, para serem guardadas e não descartadas. Não se trata de uma tendência e sim de um movimento, pois cada vez mais os consumidores pensam na hora de comprar. As crises econômicas e ambientais, certamente, contribuíram para a mudança no comportamento de consumo. A quantia investida no consumo passa a ter importância e, por consequência, o produto será melhor avaliado pelo consumidor. Existem definições tratando o slow fashion como moda sustentável. Usando tecidos ecológicos, agindo eticamente com os trabalhadores (fairtrade), há uma mudança em relação ao sistema da moda. É a indicação 11 Disponível em: http://moda.ig.com.br/modanomundo/voce+sabe+o+que+e+fast+fashion/ n1237795692971.html Acesso em 17/06/2011. 36 de que algo tem que mudar em relação ao planejamento das coleções, à produção, aos calendários, etc. Com o slow fashion também se deve reorganizar o conceito de luxo, apontando que o luxo não será ligado ao preço do produto, e sim à sua disponibilidade e ao seu acesso. O acesso deve ser restrito, atendendo aos desejos dos consumidores de serem únicos. É o que se pode chamar do luxo simples, sem grandes exageros, sem gastar enormes quantias para obter o produto. Ter exclusividade é fundamental, ou seja, trata-se de produtos que não estão à venda em lugares de grande acesso ou até mesmo nas lojas mais consagradas. A estilista sueca Sandra Backlund12 está sendo chamada de precursora do slow fashion. As peças que cria são todas feitas à mão pela própria estilista. Ela faz peças por encomenda e se recusa a participar das temporadas de moda em Londres, por ser contra o ritmo alucinante da moda. Outro exemplo é dado pelos estilistas uruguaios Ana Livni e Fernando Escuder13. Os produtos criados pela dupla são quase artísticos e, muitas vezes, feitos à mão. São únicos, sem a preocupação da produção em massa e a necessidade de novidades para o consumidor. O foco é diminuir o consumo em excesso e trazer ao mercado peças duráveis e versáteis. O julgamento da moda atual – como o de qualquer manifestação artística que se desenvolve sob nossas vistas – é provisório e depende sempre de uma revisão futura, quando o afastamento no tempo, isentando-nos das coerções do momento, mostra-nos até onde a aceitação ou rejeição dos valores estéticos dependeu das condições sociais (SOUZA, 1996, p. 22) Com o slow fashion parece que a lógica do sistema da moda começa a ser alterada, mas, para que seja possível saber se efetivamente está em curso uma mudança, é necessário uma avaliação no futuro. 12 Disponível em: http://www.sandrabacklund.com Acesso em 18/06/2011. 13 Disponível em: http://www.analivni.com/MODAlenta-SLOWfashion/filosofia.html Acesso em 18/06/2011. 37 5 Coleções “Primavera silenciosa” e “Um dia especial” Partindo dos conceitos de ecodesign e de sustentabilidade ambiental, fundamentados na ética ambiental biocêntrica, nos princípios do veganismo e na preservação do artesanato local, a coleção “Primavera Silenciosa” homenageia a bióloga Rachel Carson, considerada pelo jornal britânico The Guardian, em 2006, como a pessoa que mais contribuiu para a defesa do meio ambiente natural em todos os tempos. Com sua obra “Primavera Silenciosa”, publicada em 1962, Carson inicia uma verdadeira revolução em defesa do meio ambiente natural, desencadeando investigações sobre os danos dos inseticidas e outros produtos químicos à saúde humana e para as demais formas de vida. Reagindo, a indústria química multimilionária gastou milhares de dólares para difamar sua pesquisa e seu caráter. Por ser mulher, cientista, sem doutorado, amante de pássaros, coelhos, gatos, ser solteira aos 54 anos, foi considerada uma histérica cuja visão alarmista do futuro podia ser ignorada ou, caso necessário, silenciada. Figura 1: Rachel Carson Fonte: http://clinton2.nara.gov/WH/EOP/OVP/24hours/carson.html 38 Carson lutava, ao mesmo tempo, contra um inimigo mais poderoso do que a indignação das corporações: um câncer no seio que evoluiu rapidamente para uma metástase. Ela deixou o alerta de que “a humanidade parece estar se envolvendo cada vez mais em experiências de destruição de si própria e de seu mundo”. Com a colaboração de alunos da UDESC, alguns já graduados pela instituição, outros graduandos, além de professores e parcerias com fornecedores, a coleção “Primavera Silenciosa” foi desenvolvida como uma proposta para se repensar o sistema da moda diante da emergência por um modo de vida ambientalmente mais sustentável. Foram pesquisados materiais com menor impacto ambiental, como os tecidos orgânicos, reciclados e reaproveitados. Também foram utilizados produtos da cultura local como as rendas de bilro e os acessórios feitos por artesãos. Além disso, buscou-se trabalhar com uma estética menos efêmera, mais atemporal, para que as roupas sejam usadas por mais tempo, não (“menos” não ficaria melhor?) sujeitas à moda passageira. O Ipê, uma árvore da mata atlântica brasileira, que floresce durante os meses de agosto e setembro, geralmente com a planta totalmente despida da folhagem e cujos frutos amadurecem a partir de setembro a meados de outubro, foi o tema escolhido para criação da coleção “Primavera Silenciosa”. Os estágios de transformação do Ipê durante o ano: no inverno, folhas e galhos secos, parecendo estar sem vida, então renasce na primavera com suas flores brancas, amarelas, rosas e roxas, e no verão, o verde exuberante das folhas e o marrom do tronco harmoniza o calor entre o céu e a terra, inspiraram a estrutura da coleção “Primavera Silenciosa” que apresenta peças com formas básicas, baseadas na alfaiataria. Uma roupa feita para sair da passarela e ser usada por uma mulher consciente do mundo que a cerca, que se veste bem e prima pela qualidade no vestir. 39 Figura 2: Looks da Coleção Primavera Silenciosa Fonte: arquivo pessoal 40 O trabalho foi apresentado em Firenze, no Palazzo Medici, em 2010. Durante a apresentação, mostrou-se todo processo de criação e execução da coleção “Primavera Silenciosa”, desde a escolha do tema – uma homenagem à bióloga Rachel Carson; as referências – o Ipê com suas fases: seco, floração e verde; a escolha dos materiais – o algodão reciclado da Eco Simple, o algodão orgânico da Justa Trama, as rendas de bilro de Zéllia dos Santos; até o uso de sementes nas bijuterias desenvolvidas por Andréa Alves, os chapéus artesanais de Yone Vecchi, as carteiras de retalhos de Isabel Possidônio e os sapatos forrados com algodão reciclado pela empresa Raphaella Booz. A segunda coleção, com rendas de bilro, “Um dia especial”, foi desenvolvida a partir da formação do grupo AME (ONG ALICE, Museu da UFSC e Ecomoda UDESC) em março de 2011, uma parceria para desenvolver projetos de pesquisa e extensão entre as universidades UFSC e UDESC, e a Ong ALICE14 com o objetivo de trabalhar no resgate da renda de bilro, artesanato típico da Ilha de Santa Catarina, pesquisar a história do saber das rendeiras, apresentar alternativas de aplicação das rendas em outros produtos, como: roupas, acessórios, objetos de decoração e produtos artísticos. A coleção de roupas “Um dia especial” foi criada para o Paraty Ecofashion, 2011. O objetivo do evento Paraty Ecofashion foi promover em Paraty um grande encontro de estilistas, designers e estudantes de moda, que tivessem como propósito a “Eco” moda. Escolas e faculdades com seus alunos de moda de todo o Brasil mostraram no evento o resultado de suas pesquisas traduzidas em vestimentas e outras peças. A coleção de roupas “Um dia especial” apresentou roupas para um dia muito importante na vida da mulher, o dia do casamento, dia em que se celebra o início de uma vida compartilhada. Para celebrar esse dia, a coleção foi desenvolvida com algodão orgânico e algodão reciclado, com acabamentos em renda de bilro feita com fios de algodão orgânico e reciclado; também foram reaproveitadas rendas prontas. Além das roupas, foram criadas outras peças para o vestuário, como bolsas, carteiras, bijuterias e sapatos. 14 (Agência Livre para Informação, Cidadania e Educação, uma Organização não Governamental com o objetivo desenvolver projetos de comunicação voltados para a área social; discutir o comportamento, a ética e as tendências da grande imprensa; formar leitores críticos; e contribuir para democratizar e qualificar a informação no país). 41 Maria Morena e tramóia foram pontos (piques) escolhidos para a coleção, além de outras rendas tradicionais utilizadas em roupas para um dia especial na vida da mulher, o dia do casamento. Do despertar, com uma lingerie sob um chambre, ao momento do “sim”, num vestido de noiva, a coleção apresenta uma proposta de roupas leves, estéticas e com rendas delicadas para serem usadas nesse dia, e nos demais dias, enquanto as roupas durarem. FIGURA 3 – Coleção “Um dia especial” no Paraty Ecofashion FONTE: acervo pessoal (2011) O grupo AME também participa do desenvolvimento do projeto “Vivo de Renda” que dá visibilidade à tradição das rendeiras de bilro de Florianópolis, por meio da produção de livro, documentário, exposição fotográfica, entre outros, reunindo depoimentos, história, projetos, e um catálogo de rendas e de piques (moldes utilizados para elaborar os diferentes tipos de renda de bilro). Ao amplificar vozes, imagens e modos de vida das rendeiras e das comunidades, o projeto interliga diversas propostas elaboradas por instituições da região, colaborando para a interação e o debate. Promove a participação ativa das rendeiras, contribui para a construção uma rede capaz de transformar ações isoladas em processo comunitário, e processos comunitários em projetos institucionais. 42 Assim, o projeto propõe documentar e, por meio da comunicação, compor uma parceria para a preservação de um patrimônio cultural através de sua difusão e discussão de projetos de geração de renda e sustentabilidade. A renda de bilro é uma manifestação cultural e, como tal, deve ser entendida como atividade social realizada por uma determinada coletividade. Desse modo, ao aprendê-la, o sujeito apropria-se, não somente de um fazer, mas de toda a história e valores que a caracterizam, sendo que, ao mesmo tempo, imprime a estes sua marca singular. Ser renderia consiste, assim, dadas as transformações que vêm re-organizando o viver dessas mulheres nesse contexto social específico, em saber tecer, envolverse afetivamente com a atividade e comprometer-se com a sua história (Zanella et. al, 2000). Fazer renda, segundo as autoras, é o movimento em que o trançar fios de significados produz novas rendas, onde o sujeito que tece é tecido pela trama da história de que faz parte/participa. A renda de bilro, também conhecida como renda de almofada, era, no século XIX, uma atividade feminina praticada no âmbito doméstico. Surgiu provavelmente do bordado, porém diferencia-se deste por trabalhar com pontos no ar, sem tecido. Provavelmente sua origem remonta ao século XV, na Itália, e foi introduzida na Ilha de Santa Catarina, então Desterro, no século XVIII, pelos açorianos. A confecção de renda é uma atividade que se desenvolveu principalmente nas regiões litorâneas habitadas por pescadores e sua confecção contribuía para a renda doméstica. É uma atividade passada de mãe para filha e é comum gerações de rendeiras trabalhando juntas. Com a aquisição da Coleção de rendas de bilro “Doralécio Soares”, em 2007, pelo Museu Universitário Oswaldo Rodrigues Cabral da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), através da Caixa Econômica Federal, o acervo de rendas do museu tornou-se o maior e mais conhecido no estado, constituindo uma referência para pesquisadores interessados nessa atividade. A referida coleção é constituída por 224 peças. Enfatiza-se a importância da incorporação ao patrimônio do museu, por sua significação e abrangência. O fato de sua guarda ser de uma instituição pública, que tem como compromisso, entre outros, a difusão do conhecimento, é uma garantia de que este patrimônio poderá ser usufruído pela coletividade. Doralécio Soares, atualmente com 97 anos, é um pesquisador preocupado com essa atividade, tendo publicado uma série de trabalhos sobre a renda. 43 O novo espaço expositivo do Museu da UFSC, finalizado em 2012, constitui o maior espaço museal de Santa Catarina. Assim, os esforços têm sido dirigidos para os trabalhos de pesquisa, catalogação e captação de recursos para a informatização dos dados, visando a sustentar, de maneira consistente e responsável, a ampliação do papel que desempenha um museu no quadro científico e cultural do estado. 6 Considerações finais O conceito de sustentabilidade pode ser trabalhado na moda desde que as dimensões social, ambiental e cultural sejam consideradas no desenvolvimento de produtos para o vestuário, propondo-se, para eles, um ciclo de vida mais longo e fechado. A proposta do slow fashion pode ser a direção para um novo sistema de moda, onde o ethos do novo seja obtido não apenas pelo uso de matériaprima nova, mas também pela proposta de transformação de produtos pela customização, reciclagem e outras técnicas artesanais ou industriais. No caso de produtos feitos com matéria-prima nova, deve-se optar por orgânicos ou reciclados que se regenerem no meio ambiente. Quanto à dimensão cultural, o trabalho realizado com a renda de bilro em peças para o vestuário estimulou as rendeiras tradicionais da ilha de Santa Catarina e também as “novas rendeiras” a continuarem com um trabalho artesanal que gera peças únicas e com valor agregado. Como a moda tem forte influência nos jovens, trabalhar as rendas de bilro em peças do vestuário com um visual jovem traz para o universo deles o aspecto tradicional da cultura local. Além disso, ao se utilizarem materiais orgânicos e reciclados, as peças têm um valor agregado a mais: a busca pela sustentabilidade. Existe uma convergência no discurso entre os teóricos da ética ambiental biocêntrica, os veganos e alguns pesquisadores da sustentabilidade ambiental quanto à necessidade de mudanças no sistema de valores éticos. Essas mudanças de valores terão impacto direto nas ações humanas e, desse modo, um desenvolvimento sustentável não parecerá algo forçado como atualmente: será algo natural. O programa de extensão Ecomoda, em conjunto com a pesquisa da tese de doutorado que buscou os fundamentos da ética ambiental biocêntrica e com os princípios do veganismo, pretende contribuir para uma mudança 44 na visão de mundo, a fim de que efetivamente se consiga harmonizar o desenvolvimento humano com a preservação do meio ambiente natural. As duas coleções desenvolvidas são exemplos de que o designer deve aliar fundamentos teóricos ao fazer prático. A educação é fundamental para uma sociedade sustentável. Os alunos e a sociedade precisam ser educados para terem consciência de que o futuro se constrói no presente, e que é necessário agir nesse presente, para que a humanidade seja sustentável e sua existência viável no futuro do Planeta Terra. Referências bibliográficas BROWER, MALLORY, OHHLMAN. Diseño Eco-Experimental: arquitetura/moda/produto. Barcelona: Editorial Gustavo Gili, 2005. BACKLUND, Sandra. Disponível em: http://www.sandrabacklund.com Acesso em 18/06/2011. 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Tese de Doutorado em Psicologia da Educação, PUC - Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 1997. 46 Feminilidades e masculinidades: um desafio para a moda contemporânea Ivana Guilherme Simili Emerson Roberto de Araujo Pessoa Introdução A concepção de que o corpo é uma produção cultural possibilita pensar a relação entre a moda e os gêneros. Não precisamos de muito esforço para entender a assertiva. Basta olharmos à nossa volta para percebermos que não existe um corpo somente biológico, ele se dá a ver e é identificado pelo modo como se revela aos nossos olhos. Nesse mostrar-se, há uma operação de construção de significados para o corpo por intermédio do vestuário, dos ornamentos corporais e de gestos, ou o que podemos denominar de “estilística” apropriada aos gêneros, conforme pensada por Berenice Bento (2006, p.04), ao anunciar que “o gênero adquire vida através das roupas que compõem o corpo, dos gestos, dos olhares, ou seja, de uma estilística”, concebida nas sociedades e nas culturas como “apropriada” ao sexo masculino e ao feminino. Portanto, nas estilísticas pessoais e individuais, ou entre os corpos e as roupas, está a moda. Assim, quando olhamos para uma pessoa e a identificamos como homem ou mulher, estamos disparando os gatilhos dos “dispositivos sociais e culturais” da moda, concepção de Lipovestky (1989) que se caracteriza como um instrumento de regulação e de normatização das aparências. No entanto, observamos, também, que existem pessoas que se vestem de modo a confundir o que concebemos como moda feminina e masculina. Essas pessoas produzem imagens de si e para si, de forma a embaralhar os princípios com os quais estamos acostumados a lidar, pautados pelas classificações de artefatos indumentários e aparências masculinas e femininas e as dicotomias macho/fêmea; homem/mulher; feminilidades/ masculinidades. Quem são elas? São aqueles classificados como “diferentes”, “estranhos”, “esquisitos” e uma série de outros adjetivos para nomear que suas práticas de vestir e as aparências que ostentam diferem da “maioria”. São os chamados 47 andróginos, travestis, drag-queens ou “crianças e pessoas problemas”, porque não aceitam as regras e as normatizações da moda e não se curvam à heteronormatividade que a fundamenta, com seus modelos hegemônicos de masculino e de feminino. Podemos afirmar que esses personagens visibilizam uma sociedade e cultura com múltiplos gêneros, que desafiam, questionam a concepção do que é a moda e de como ela é praticada e representada. Isso porque eles colocam no centro do debate da moda as subjetividades e as sensibilidades, ou o modo como concebem a si, o corpo e as roupas. “A noção de sensibilidade parte das formas de ser e estar no mundo”, escreveu Pesavento (2005). As sensibilidades desses personagens rompem com os discursos universalizantes da heteronormatividade na moda, inserindo com seus modos de ser e de vestir a pluralidade de vivências e de representações de corpo, roupa e moda. Neste ponto, lembramos, também, o que escreveu Bérgamo (1998, p.1): “O sentido da moda está nas vivências, nas representações e naquilo que orienta a relação das pessoas com as roupas, aprovando e desaprovando, emitindo juízos de valor”. Por essa razão, as práticas de vestir e de ornamentar os corpos, desenvolvidas por estes personagens, como produto das sensibilidades nas relações estabelecidas com os corpos e nas vivências com as roupas, instituem-se em caminho para pensar os desafios que eles/ elas fazem/lançam à moda, problemática que norteia os textos deste livro. Entre os significados de desafiar está o de “provocar”. Esse é o sentido que assumimos como verbo denotativo da ação desses personagens. Consideramos que eles/elas provocam o debate sobre o que é moda, de que ela é feita e como ela é construída. Ao provocarem, eles/elas permitem pensar sobre como a sociedade e a cultura vêm lidando e tratando as diferenças de corpos e gêneros, como a moda vem respondendo às demandas sociais e culturais feitas pelos segmentos populacionais que não se enquadram nos padrões estéticos e estilísticos dominantes; que não se curvam aos apelos de uniformização e de uniformidade das aparências; que não aceitam a concepção de identidades para as roupas e os ornamentos corporais como masculino e feminino de maneira fixa e imutável. Para chamar esses personagens para o diálogo, escolhemos analisar a trajetória de dois personagens, conforme retratadas pela cinematografia. O uso de filmes para a exploração de questões e temáticas de gênero vem se revelando fecunda, dado os modos de operar da cinematografia diante de 48 problemáticas sociais e culturais. No caso em particular de nossa proposta de análise, da produção cinematográfica passível de análise, fizemos a seleção dos filmes “Minha vida em cor de rosa” (Ma vie em Rose, 1997), dirigido por Alain Berliner, que narra a história de Ludovic, um menino de sete anos que produz discursos para a sensibilidade e as vivências de um garoto em seu contato e diálogos com seu corpo e as roupas da moda infantil; e “Beautiful boxer (2004)”, dirigido por Ekachai Uekrongtham, que conta a biografia do lutador tailandês de kick Boxer Nong Toom e seu drama entre o corpo masculino e a subjetividade feminina. Para Alcides Freire Ramos (2008, p.163), os filmes, juntamente com as cartas, os diários, os romances, as memórias, os poemas, as pinturas, as canções, as peças de teatro etc., constituem-se em documentos e em vias de acesso para o conhecimento das sensibilidades – dos sentimentos em suas diferentes formas e manifestações – rancores, temores, ódios, desejos, sonhos aos quais incluímos medo, insegurança, dor, sofrimento, afeto. O autor afirma ainda que as potencialidades dos documentos e seus conteúdos, quando examinados sob o olhar das sensibilidades, constituemse em evidências do sensível, capazes de socializar e de fazer compartilhar sensações e emoções, visto que o “sentir” está “nos outros e em nós”. Portanto, os trabalhos de memória cinematográfica, para narrar os sentimentos e as experiências vivenciadas por dois personagens, conduziram a escolha dos filmes. Sua seleção foi orientada pela percepção do que cada um dos indivíduos, em particular, retratados e representados nas narrativas fílmicas, oferecia algo para pensar as sensibilidades: as maneiras de sentir o corpo, de perceber e de usar as roupas, ou seja, algum conteúdo que podia ser explorado para refletir sobre a moda e os questionamentos de gênero a ela endereçados, do que é ser “macho”, do que é ser “masculino”, do que é a “masculinidade”. Ludovic: o gosto e o prazer pelas cores e formas O que diferencia Ludovic, personagem central do filme Minha vida em cor de rosa, dos outros garotos de sua idade (sete anos), é que ele gosta de se vestir como menina. Ele gosta de vestidos, de brincos, de maquiagem. O garoto usa cuecas, mas o faz de modo invertido – de trás para frente, de forma a se assemelhar com uma calcinha. Como criança que é, Ludovic gosta de brincar, entretanto, os brinquedos e as brincadeiras preferidas são as bonecas e “coisas de menina”. Ele gosta também de dançar, mas o faz com 49 gestos e jeitos delicados, semelhantes aos das bailarinas. Além das roupas, os cabelos de Ludovic, com o corte “Chanel” e franja, também criam para o menino a aparência de menina. A afetividade e a sexualidade de Ludovic, ou as formas de expressar interesse sexual e afeto pelo outro, ocorrem por meio do colega e vizinho, com quem brinca de se casar, vestido de noiva, inclusive. Primeira cena: os pais oferecem uma festa para os vizinhos, dos quais alguns são seus colegas de trabalho. Ludovic se prepara e desce as escadas da casa maquiado, usando um vestido vermelho e sapatos de salto alto. “Eu queria ficar bonito” é a explicação que o garoto oferece à mãe quando ela pede que ele tire a roupa que estava vestindo e que lave o rosto. Em outra cena, depois de ser pego brincando de casar-se com um menino, representando-se como noiva, Ludovic justifica-se com a mãe: “Não queria fazer nada de errado. Era uma surpresa”. Como entender Ludovic? A beleza para ele estava nas vestimentas, nos ornamentos corporais e nos acessórios (brincos e sapatos) usados pelas mulheres. Era “certo”, para ele, a surpresa que envolvia o casamento e o vestido de noiva. Seria possível dizer que Ludovic age e pensa como menina? O que é ser menina? Ludovic, assim como nós, acredita que ser menina é ter determinados comportamentos, é usar determinados tipos de roupas; é criar para si uma narrativa compatível com o que a sociedade e a cultura esperam de uma menina. As expectativas sociais e culturais, que recaem sobre as meninas, narram um modelo de feminino e de feminilidade por intermédio das roupas. Neste modelo, o feminino predominante está no uso de vestidos, de maquiagem, de sapatos altos; está no vestido de noiva, como marcador de uma etapa da vida e da sexualidade heterossexual, em que, por intermédio do casamento, a família ratifica o modelo conjugal; está na calcinha como símbolo e marcador de uma cobertura para o sexo e uma referência para a sexualidade que historicamente foi concebida para a procriação. 50 Fonte: Minha Vida em Rosa Ludovic expressa e comunica, com todas as letras, seu gosto pelas cores e formas “femininas”. O que o garoto dá a ver, pelo seu modo de olhar para o mundo e para as roupas, são construções de aparências femininas sobre um corpo biológico de menino. Ao expor seu gostar, ele produz discursos e visualidades que ajudam a pensar as operações de gêneros sobre os corpos e as aparências. Ludovic obriga a pensar sobre as construções de gênero que permearam a história da moda. Ele exige que seja recordado que o surgimento da moda no século XIV, na Europa ocidental, na interpretação de Lipovestky, foi marcado por um ato inaugural de uma forma de conceber os corpos e as roupas. Na ótica do autor, o processo de crescimento das cidades europeias e a organização da vida na corte, que está na base da constituição da moda, foram associados a outro fator, que diz respeito à separação e à distinção entre as roupas para homens e para mulheres. O “gibão”, estofado e curto para os homens, que destacava o tórax, e os calções longos, apertados nas pernas e com braguilhas que, por vezes, tinham formas fálicas, e a nova linha do vestuário feminino, sublinhando as “ancas” e fazendo aparecer no decote “os ombros e o colo”, teriam sido emblemáticos na moldagem dos corpos e das aparências de homens e mulheres. Ainda, de acordo com o autor, a separação e a distinção de corpos e roupas, ocorreram por intermédio da valorização de certas partes corporais, em detrimento de outras, que, além de definir o masculino e o feminino, passaram a exercer 51 um papel importante na estimulação do olhar, dos jogos de sedução e de encanto entre uns e outros. Na interpretação de Lipovestky, encontramos subsídios para pensar como o modelo da heterossexualidade norteou o surgimento da moda e, principalmente, como as roupas serviram para dotar de significado a heterossexualidade. A produção e a reprodução desse modelo ressoarão no século XVII, acompanhando a noção de infância e de roupas adequadas aos meninos e às meninas. Rousseau, como um dos pais da moda infantil, vai expressar e comunicar que a cultura dos corpos e das aparências para meninos e meninas ajudaria no desenvolvimento infantil, o qual devia ser conduzido de forma que cada um pudesse cumprir os papéis sociais como homens e mulheres. Na leitura de Roche (2007, 40-423), as concepções teóricas de Rousseau para a infância em seus elos com as roupas são definidas no livro Emílio. Para aquele pensador, as roupas das crianças deviam ser ajustadas de forma que pudessem explorar o mundo, para que brincassem com liberdade, para que fosse uma expressão da idade e não uma réplica dos adultos e suas indumentárias. Porém, elas deviam ser usadas de acordo com a sua “natureza”, a qual era concebida como elementos “biológicos e naturais” a uns e outros. Portanto, as roupas deviam preparar as crianças para serem homens e mulheres, seguindo o modelo dominante de masculino e feminino, ou seja, para o homem, a vida cívica, o espaço público do trabalho e seus negócios; para a mulher, a vida doméstica e as coisas que lhe pertencem: a família, o marido, a cozinha, etc. Muitos anos se passaram. No entanto, esta história está nos livros e em nossa memória porque dela participamos, na medida em que também fomos educados pelas roupas e pela moda. Conforme escreveu Crane (2006, p.454): “as roupas da moda personificam os ideais e valores hegemônicos de um período determinado”. Por outro lado, “as escolhas de vestuário refletem as formas pelas quais os membros de grupos sociais e agrupamentos de diversos níveis sociais vêem-se a si mesmos em relação aos valores dominantes”. Os ideais e os valores hegemônicos para definir e caracterizar o masculino e o feminino podem ser narrados por intermédio de nossas roupas e, certamente, daquelas que vestiram Ludovic até o momento em que, aos sete anos, ele começou a fazer as suas escolhas e seu olhar recaiu sobre formas, cores e detalhes da indumentária feminina. Os vestidos, as bijuterias, os 52 sapatos de salto alto, o cor de rosa encantam e seduzem Ludovic e ele os prefere. Certamente o pai e a mãe do garoto o vestiram como menino e acreditaram que as roupas ajudariam a fazê-lo entender o papel social que devia desempenhar como homem. Com certeza o vestiram na maternidade e durante muitos anos com roupas azuis, com os trajes adequados à idade e ao desenho de seu sexo. Tanto é verdade que o short, uma versão das calças, normatizadas pela moda como indumentária masculina, no formato curto, permeia a narrativa dos visuais do menino. Na infância dos meninos, o short e a bermuda se tornaram emblemáticos do masculino ou das modelagens das subjetividades dos garotos como pertencentes aos segmentos masculinos da população. As concepções de que os meninos são mais inquietos, mais conquistadores, desbravadores e exploradores do mundo que as meninas – definições estas que foram compartilhadas pelas sociedades e culturas ocidentais e que a escola, a família, a Igreja e outras esferas pedagógico-culturais trataram de produzir e reproduzir, tais como a literatura, o cinema, mídia etc. – é que vieram a transformar o short/bermuda em elemento da formação das identidades de gênero. Nesse sentido é que caminha a reflexão de Hollander (1997, p. 17), ao mencionar que “na moda moderna, a sexualidade das roupas é a sua primeira qualidade; as roupas dirigem-se em primeiro lugar ao eu da pessoa, e somente depois ao mundo”. Para completar, a autora afirma que “A excitação com o transexualismo no vestir mostra apenas o quão profundamente acreditamos, ainda, em separar simbolicamente as roupas dos homens e das mulheres, mesmo que em muitas ocasiões ambos se vistam da mesma forma”. Pois bem, embora na atualidade os shorts e as bermudas sejam usados por meninos e meninas – muito embora hoje a roupa “aproxime” simbolicamente os dois universos, o que para muitos é denominado de “unissex” –, na verdade, são dois mundos separados e distintos, em razão de que expectativas diferentes recaem sobre as crianças quando as usam. Esses múltiplos sentidos foram captados pela cinematografia para narrar a trajetória de Ludovic. Em uma das cenas, de bermuda e camiseta, ele dança com a mãe. Neste momento, ela concebe que os “gostos e os modos de Ludovic” são decorrentes da idade e de suas fantasias. Trata-se de um instante leve e alegre vivenciado por mãe e filho, no qual ele veste bermuda e camiseta. 53 Fonte: Minha Vida em Rosa Entretanto, as cenas de tolerância, a compreensão familiar, os gestos de carinho e respeito entre pai, mãe e filho são substituídos por um roteiro de horror e dor. Não demora muito para as pressões sociais dos vizinhos começarem a ser sentidas pela família. Os vizinhos, que são também colegas de trabalho do pai, cobram dele uma atitude. A demissão do pai piora a crise familiar. Ludovic percebe que é o pivô da história e pergunta: “é minha culpa?”. A “diferença” do menino passa a ter nome: “é o viado”. As pressões para a família “limpar o espaço” da rua, tirar dali quem incomoda – o garoto – completam-se com a pichação do muro da casa. Chamam-no de viado e pedem à família que vá embora do lugar. É curioso notar que, no mesmo dia, Ludovic acorda sentindo dores na barriga e acha que ficará menstruado, como ocorria com a irmã: “Mamãe! Minha barriga dói, é minha menstruação”. Ao ler a pichação, pergunta: “porque viados têm que ir embora?”. Ludovic nada entende, mas sente, e como sente! As pressões sociais são respondidas com muita agressividade. É possível sentir e perceber que Ludovic nada responde aos rompantes de ira e raiva paterna e materna. Nas entrelinhas, a família o culpa por tudo o que lhe acontece. Pai e mãe tentam “mudar” Ludovic: cortam-lhe os cabelos, deixando-os curtos e com “cara de menino”; estimulam os comportamentos considerados adequados a um homem, como o de demonstrar interesse por meninas, tentando desenvolver nele a afetividade heterossexual do beijo em 54 garotas. Além disso, os gestos corporais de tocar nas partes íntimas sobre as roupas, como é o caso de ajeitar o pênis e o saco escrotal, também são motivados. Pai e mãe passam a acreditar que a psicologia pode dar conta desse recado e transformar o filho em homem, tanto que o levam para ser “tratado”. Em casa, Ludovic ouve gritos: “Você é um homem, jamais será uma menina”! As cores mudam. A roupa é a mesma: bermuda e/ou calça de moletom e camiseta e/ou blusa de moletom. Reforçam-se, assim, os princípios educativos das roupas e das aparências para a masculinidade. A maneira como Ludovic responde a isso tudo é o silêncio e o olhar triste. Foto: Minha vida em cor de Rosa A cena retrata a mudança da família do local onde morava. A imagem fala pelas roupas usadas pelos personagens. Os papéis e as expectativas sociais também. O pai, provedor da família e dela protetor e responsável, era o que a família espera que Ludovic seja um dia. As calças dos meninos comunicam a preparação para a vida adulta. Vestido também de calças, a fisionomia de Ludovic comunica a sua dor e incômodo. Ele diz com todas as letras que aquela aparência não era dele, ele não se via nela e com ela, mas com as roupas de menina. O último episódio das incursões de Ludovic às roupas de meninas acontece quando a família está acomodada na nova casa e o garoto é convidado para uma festa. A brincadeira entre as crianças faz que ele aceite 55 a proposta da aniversariante para trocarem de roupas. Ela se veste como menino e ele como menina, como apreciava fazer. A prova evidente de que Ludovic continuava o mesmo leva a mãe ao desespero. Ele apanha da mãe, chora e diz: “vou me vestir normal”. Aliás, o sofrimento de Ludovic é o que o filme faz o espectador sentir. O menino parece questionar a plateia em busca de respostas às perguntas: por que não posso me vestir e me comportar como uma menina? Onde e quem escreveu que existem corpos, roupas, comportamentos, desejos e fantasias de homem e mulher? Quem inventou isso e por quê? Digam-me: por que razão não posso adotar a aparência de menina, se ao meu olhar ela é mais bonita e interessante que a de menino? Por que meu gostar de “coisas de mulheres” faz que as pessoas me vejam e digam que sou “viado”? O pior é que ninguém da plateia ousa responder. Talvez a resposta tenha sido dada na última cena, em que a menina, a aniversariante, confessa à mãe de Ludovic que partiu dela a proposta de troca de roupas, a qual é acompanhada pela “naturalidade”com que a mãe da garota concebe o gesto e o comportamento das crianças. Este momento do filme é extremamente rico para refletirmos sobre como as mudanças sociais e culturais promovidas por segmentos sociais e grupos étnicos, raciais e de gênero, estão se refletindo na moda. Talvez fosse mais apropriado dizer que o filme é uma narrativa para as alterações nos comportamentos e nas subjetividades coletivas diante dos questionamentos que personagens como Ludovic fizeram e fazem à moda. Se dividirmos o filme em dois momentos, é possível afirmar que, num primeiro instante, o modo de ser e de viver de Ludovic é interpretado como “garoto problema” pela sociedade, representada pelos vizinhos; num segundo, a aceitação das diferenças mostra-se suavizada pelas “novas vizinhas”, a filha e a mãe. Em nossa maneira de entender, o filme parecer metaforizar as mudanças nas percepções sociais com relação aos “diferentes”, as quais, sem sombra de dúvida, tiveram a contribuição dos movimentos femininistas que se propuseram entender os fios de suas análises para as masculinidades. O que ficou claro para as feministas dos anos 1990, época do filme, é que as feminilidades e as masculinidades deviam ser entendidas de forma relacional, pois era preciso entender como se constituíam os masculinos e os femininos, e que a fixação do olhar sobre as mulheres comprometeria as alterações sociais e culturais almejadas. 56 Para esclarecer a afirmação, recorremos ao balanço historiográfico sobre gênero e feminismos em suas interfaces com temáticas relacionadas às mulheres e aos homens e, por consguinte, com tópicos relativos aos modelos consagrados de feminilidades e de masculinidades. Patrícia de Sant’Anna (2005, p. 90) observou que o movimento feminista iniciado na década de 1970, ao questionar símbolos e códigos arraigaidos de mulher, tais como o casamento, a maternidade etc., foi acompanhado por um outro movimento, o qual foi conduzido por homossexuais que questionavam e reivindicavam a visibilidade para as suas causas, entre elas, a sua especificidade social e sexual. Foi a partir desses movimentos que o modelo tradicional de homem, “seu estatuto de universal e genérico”, começou a ser questionado, prolongando-se até a contemporaneidade. Um dos eixos dos estudos e debates foi gerado pela percepção de que os conceitos de virilidade, força, coragem, entre outros elementos culturais que pertenciam ao universo masculino e formatavam o modelo de masculinidade, precisavam ser enfrentados. Sem ações claras e nítidas nas atitudes dos homens na relação que mantinham com eles mesmos – com seus corpos, seus comportamentos, seus sentimentos –, e em seu relacionamento com as mulheres, o mundo social pautado pelas relações igualitárias entre os gêneros ficaria comprometido. Em suma, era e é preciso mudar um e outro, homens e mulheres, para que exista uma sociedade mais justa e democrática, pautada e orientada pelo respeito, pela solidariedade entre os gêneros. Na moda, em particular, na história do vestuário, a percepção registrada por Hollander, pode ser tomada como fio condutor para pensar nas permanências e nas mudanças que ainda se fazem necessárias nas relações entre as roupas e os gêneros. Diz a autora: A história do vestuário, inclusive a história atual, até agora tem sido entendida como um dueto para homens e mulheres que se apresentam no mesmo palco. Poderá chegar o dia em que a sexualidade não será considerada corretamente dividida em duas categorias principais e visualizada no modo de vestir, mas isso ainda está longe (HOLLANDER, 1996, p.18). Concordamos com Hollander. Embora muitas mudanças sejam notadas na moda e o segundo momento da história de Ludovic – sendo, nesse 57 sentido exemplar - estamos longe do tempo em que as roupas e a moda não desempenharão o papel de modeladoras de aparências de gênero. No entanto, devemos agradecer a Ludovic e às “novas vizinhas” pelas contribuições que deram à moda para pensar as masculinidades e as roupas em outros moldes, avançando e arejando as concepções arraigadas e os modelos tradicionais de homem e de masculino. As construções de travestilidades: Toom/Parinya “Beautiful Boxer”, título do filme que narra a história do lutador tailandês Noog Toom, é significativo do ponto de vista de definir o assunto que é nele abordado: a beleza de um esportista, marcada pelos embaralhamentos e fabricações das noções de corpo e de aparências masculinas e femininas em múltiplos diálogos com a moda. Em linhas gerais, podemos apresentar Toom como um menino que, assim como Ludovic, gostava de “coisas de meninas” – roupas, acessórios e maquiagens. Na infância, preferia brinquedos e brincadeiras de menina, tais como brincar de boneca, de pular corda e de dançar, em uma nítida evidência de que gostava de atividades físicas, leves, suaves e delicadas, em vez de práticas físicas e esportivas concebidas pelas sociedades e culturas ocidentais como apropriadas aos meninos, tais como as lutas corporais fortes e pesadas, além do futebol. Na juventude, por acaso, Toom envolve-se com a luta marcial e oriental do Muay Tay, transformando-se em lutador profissional. A projeção social de Toom no mundo dos esportes acontece de forma muito particular: ao mesmo tempo em que se mostra como um lutador arrojado e vencedor, a aparência que fabrica e expõe ao universo esportivo é cercada por cuidados estéticos. Ele maquia-se para os combates, destacando os traços do rosto, em especial, a boca, com batons; preocupa-se com a pele, usando cremes hidratantes; enfeita-se e cria para os eventos esportivos uma imagem para si que pode ser caracterizada como “modos e aparências femininas”. 58 Fonte: Beautiful boxer, 2004. A descrição do conteúdo que atravessa e confere sentido à narrativa fílmica, a qual pode ser dimensionada pela imagem selecionada para o contato visual do/a leitor/a, traz elementos suficientes para pensarmos os desafios lançados por pessoas que, como Toom, ultrapassam os conceitos restritos de masculinidade e de feminilidade. Biologicamente, ele é um homem, porém, visualmente, fabrica para si uma imagem “efeminada”, construída por meio das roupas, cores, gestos e estética do rosto. No entanto, o percurso de nosso personagem vai além da criação de narrativas visuais com teores de feminilidade, oriundos das vestimentas, da maquiagem e das expressões corporais. Os ganhos financeiros obtidos nas conquistas como lutador são usados de forma estratégica para modificar a materialidade corporal. O processo de mudança envolveu o emprego de hormônios para moldar o corpo, dotando-o com o formato estético feminino, e uma cirurgia de ressignificação sexual. Nessas ações, Toom faz nascer Parinya, uma lutadora, com desenho corporal e traços femininos: Fonte: Beautiful boxer, 2004. 59 Com Parinya, os sonhos estéticos acalentados por Toom transformamse em realidade visual. Os cabelos longos, apreciados pelo garoto desde a infância, como algo bonito e que gostaria de, um dia, incorporar à sua estética, juntamente com os detalhes dos seios que as roupas passaram a delinear, revelam um homem transformado. O percurso visual de Toom a Parinya é finalizado no filme por intermédio de uma frase: “É duro ser homem e é difícil ser mulher, mas o mais difícil é tentar não esquecer quem de verdade queremos ser”. A frase condensa um diálogo entre dois “eus”, um masculino, que cede lugar a outro feminino. A parte masculina do jovem diz que precisa ir e que a linda mulher em que Toom se transformou já não precisava mais dele. Podemos entender a frase como reflexo de um debate íntimo, entre corpo e alma, ou entre matéria e espírito. O que Toom parece tentar dizer pode ser sintetizado com uma das discussões de Foucault: De certa forma, é o corpo que faz a lei para o corpo. Contudo, a alma tem seu papel a desempenhar, e os médicos a fazem intervir: pois é ela que incessantemente se arrisca a levar o corpo além da sua mecânica própria e de suas necessidades elementares; é ela que incita a escolher momentos que não são apropriados, a agir em circunstâncias suspeitas, a contrariar as disposições naturais.(FOUCAULT, 1985, p. 136) A exposição da história de Toom/Parinya, seja na linguagem fílmica, seja na imprensa, visto que seu percurso veio a se constituir em veículo para a reflexão sobre sexualidade e esportes, sempre foi acompanhada por intensos debates acerca da relação entre corpo/masculinidade/feminilidade. Isso porque ele/ela destacam nas práticas e representações corporais a provisoriedade e as infinitas possibilidades de modificá-lo, aperfeiçoá-lo, significá-lo e (re)significá-lo. Ele/ela permitem, sobretudo, entender que a construção de um corpo é constantemente atravessada por diferentes marcadores sociais como raça, gênero, geração, classe social e sexualidade (FIGUEIRA, 2003). Muito embora a cultura oriental e tailandesa deva ser considerada na análise do percurso do personagem, dado o fato de que as concepções estéticas e os valores de feminino e de masculino são sempre variáveis e dependentes das sociedades nas quais são produzidos; muito embora as imagens tecidas para a trajetória de Toom/Parinya, nos suportes 60 cinematográficos e midiáticos, sejam permeadas pelos crivos e pelas seleções de versões, pautadas por leituras e interpretações que ele realiza para si, disseminando representações sobre/para a sua trajetória, consideramos que as representações por meio das quais ele/ela se dão a ver e a conhecer expõem as maneiras como os modos de ser e de existir das pessoas constituem-se em mecanismos de subversão da ordem e das normas da masculinidade hegemônica. A masculinidade hegemônica, explica Sabat (2001), é marcada por características como força física, agressividade, competitividade e heterossexualidade. Porém, assevera a autora, nas últimas décadas está sendo minada por outros códigos de representação, como a androginia, o homem metrossexual. Na emergência de novos códigos e símbolos, a moda e a mídia desempenham papéis importantes, ou seja, manifestam o surgimento de novos padrões estéticos para as masculinidades. Nesse ponto, é preciso esclarecer que falar em masculinidade hegemônica não significa dizer que existe uma forma correta de ser homem. Significa dizer que há um padrão construído que envolve determinados tipos de comportamentos, de sentimentos, de interesses e de vestimentas. São todos significantes construídos junto a significados que constituem em determinado momento histórico o que é percebido como masculino, ou melhor, como a masculinidade, que se opõe à feminilidade, e que se sobrepõe a outras formas de masculinidade. Em paralelo às representações dominantes e hegemônicas para a masculinidade, desde os anos 1960, grupos sociais desenvolveram formas de vestir e de construir aparências que desmontam suas bases de sustentação. Segundo Crane (2006, p.382), naqueles anos, como parte do movimento de liberação sexual, “subculturas gays” puderam florescer mais abertamente na Europa e nos Estados Unidos e um dos questionamentos por eles endereçados à moda dizia respeito às definições existentes de masculinidade e de feminilidade, fazendo experimentações com identidades de gênero e estilos de vida. Nos anos 1970, essas subculturas haviam se constituído como um mercado de consumo, convertendo-se em formadores de opinião para o resto da população, difundindo produtos (entre os quais perfumes e adereços para homens), roupas e cortes de cabelo. Ainda de acordo com Crane (2006, p.386), nos anos 1980, na Europa, observa-se um movimento mais amplo do mercado da moda, pautado na preocupação de alguns estilistas de inserirem a expressividade sexual 61 dos homens como assunto do estilismo. Fazem parte desse momento/ movimento as calças agarradas, os shorts, as bermudas e calças justas de ciclistas, que passam a ser usadas nas ruas, e que foram criados para “revelar, não para esconder os genitais”. Os cabelos longos, na forma de “perucas empoadas do século XVIII, completavam as alusões à feminilidade”. Crane (2006, p. 387) menciona também que esses “desafios à masculinidade hegemônica” prosseguiram na década de 1990, com o uso de materiais e acessórios identificados com as mulheres, como bijuterias, fitas de cetim, xadrez de gingham rosa e blusa de nylon azul pastel. “De acordo com um estilista, ‘se as roupas são para homens ou mulheres é algo que está na cabeça de cada um”. Portanto, as mudanças observadas na moda masculina e nas masculinidades desde os anos 1960 indicam que, embora as representações hegemônicas e dominantes estejam sendo minadas ou dividam espaços com outras formas de conceber as aparências, no geral, asseverou Crane (2006, p. 354) que “para a mentalidade popular, a identidade masculina é fixa e inata e não socialmente construída”. Nessa mentalidade, o interesse pela moda e pelos usos de vestuário tende a ser interpretado como algo efeminado. “Um homem considerado masculino não precisa cuidar da aparência, pois a masculinidade não é tida como função da aparência”. Voltando ao nosso personagem, Toom/Parinya, pode-se afirmar que ele/ela produz vários discursos de moda e performances visuais que ultrapassam os usos das roupas e dos acessórios femininos ou de cuidados com as aparências. Se concordarmos com Kathia Castilho (2004, p.89), para quem a moda é uma linguagem que plasma ou modela o corpo por meio da apropriação do corpo biológico do sujeito, promovendo transformações que agregam novos sentidos, conferem novos valores e desencadeiam o jogo entre o ser e o parecer”, é possível dizer que o que Toom/Parinya faz é aproximar o parecer do ser. Em outras palavras, ele/ ela usa a moda para mostrar como sente o corpo. O que ele/ela evidencia, nas etapas de seus percursos, é que a moda serve para exteriorizar como se vê, como dimensiona a relação entre corpo e alma, em que as roupas e as modificações corporais servem para expressão do que traz no íntimo de seus pensamentos e modos de ver a si. Talvez a grande contribuição desses sujeitos à moda esteja justamente em indicar a necessidade de a moda pensar/refletir sobre os modelos consagrados de feminino e de masculino, sobre os quais a sua história foi 62 construída. Neste ponto, trazemos para o texto as reflexões de Taisa Sena (2011) e de Adair Marques Filho; Samarone Nunes e Ana Lucia Galinkin (2012). Sena (2011) comenta que vivenciamos um momento em que o masculino, assim como o feminino, é relido. Nesse instante, seus valores não são abandonados, mas atualizados e confirmados de uma maneira plural, verificada na construção imagética masculina, em que as alterações nas manifestações artísticas e de mercado apontam para a redefinição e ampliação do espaço, para que os sujeitos masculinos reorganizem novos sentidos. Assim, observa-se que o homem contemporâneo, a partir do vestir, constrói novos significados sobre o seu corpo e começa a manipular muito mais os elementos estéticos para sua constituição. Marques Filho, Nunes e Galinkin (2012, p.86-87), ao analisarem as influências das imagens midiáticas na emergência de novos padrões corporais e imagéticos masculinos na sociedade brasileira contemporânea, afirmam que é possível estarmos adentrando em outro momento histórico: “Momento em que as representações de masculinidades estejam sendo redefinidas pelas imagens veiculadas pelos canais midiáticos, pelas novas organizações de parentalidade, pelas novas configurações identitárias, pelos deslocamentos conceituais percebidos na pós-modernidade”, mediante a diluição dos conceitos do sexo fundamentado no biológico e nas identidades fixas. Sendo assim, é inegável que cada vez mais homens e mulheres adotam novos padrões de comportamento mediados por imagens, e a moda certamente contribui para isto. Os autores afirmam que, na sociedade e cultura contemporâneas, muitas mudanças são observadas nos conceitos e definições de corpo e moda. Nessas e para essas mudanças, Toom/Parinya deu as suas contribuições para fazer pensar. Finalizando, o que Ludovic e Toom/Parinya demonstram em suas trajetórias de vida são as relações entre construções estéticas e corporais e as nossas definições e vivências de masculinidades e feminilidades. O modo como vivenciam suas subjetividades permitem questionar premissas e balizas naturalizantes que relacionam o sexo, o corpo e as roupas. Ao construírem para si imagens femininas com a utilização da indumentária, eles demonstram a plasticidade dos corpos e dos gêneros, suas definições de acordo com cada cultura e os desafios a serem enfrentados pela moda contemporânea. 63 O que a história da moda nos mostra são os caminhos percorridos para a construção de um modelo hegemônico de feminino e masculino, bem como a maneira pela qual as roupas serviram para dotar de significados a heterossexualidade, estabelecendo e limitando práticas específicas para cada gênero, e o fato de que a moda pode ser um dos caminhos a serem explorados para as novas possibilidades de vivenciar as masculinidades. De certa forma, o que os personagens selecionados para o diálogo neste texto reivindicam é o direito de elaborar uma “narrativa própria materializada num estilo de vida ou num estilo de masculinidade específico” diante de uma gama de possibilidades para o masculino, uma das características marcantes da contemporaneidade e que durante séculos foi pensado “único ou essencial”. (MONTEIRO, 2005, p. 115). Enfim, romper com conceitos hegemônicos de masculinidades e feminilidades e roupas adequadas para cada sexo pode contribuir para romper com os padrões sociais e culturais que geram os preconceitos e as desigualdades de gêneros. Referências Bibliográficas BENTO, Berenice. Corpos e Próteses: dos Limites Discursivos do Dimorfismo. In: Seminário Internacional Fazendo Gênero 7. Sexualidades, corporalidades e transgêneros: Narrativas fora da ordem. (ST16). Disponível em: <http://www.fazendogenero7.ufsc.br/artigos/B/Berenice_Bento_16. pdf>. Acesso em 23 julho, 2010 às 23:41. BEAUTIFUL boxer. 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Este artigo procura, portanto, analisar essas relações entre corpo feminino, saúde, conforto e inovação na vestimenta, através da análise de algumas peças publicitárias selecionadas. Moda e saúde A saúde da mulher esteve sob forte controle da moda, principalmente por influência do espartilho, que surgiu no século XVI e tornou-se peça obrigatória do vestuário feminino até o século XIX. Essa era uma peça que afinava a silhueta, marcava a cintura e aumentava os seios, representando o ideal de feminilidade da época. Apesar de ser prejudicial à saúde, as consequências da utilização dessa peça eram aceitas pelas mulheres que, de modo geral, não se rebelaram contra seu desconforto durante vários séculos. Desde a Antiguidade, o busto e a cintura feminina já tinham algum tipo de suporte, que eram normalmente faixas de tecido amarradas ao corpo. Na Idade Média, essas amarrações se tornaram mais firmes, e os tecidos mais rígidos, mas foi a partir do século XVI da Idade Moderna que a forma que conhecemos hoje começou a ser definida. Até o século XVIII, acreditava-se que o corpo era um volume no qual circulavam fluidos que, se fossem estagnados, levariam à doença e à 67 morte, e o espartilho era uma das peças da indumentária feminina mais propensa a esses infortúnios, já que era fonte de opressão e deformação dos seios, além de prejudicar a amamentação (RAINHO, 2001). A medicina vestimentária condenava, também, as anquinhas, os saltos altos, as crinolinas e todos os adereços que pudessem prejudicar o corpo feminino e, consequentemente, sua função básica, a maternidade. Os espartilhos, entretanto, eram aceitos para as mulheres mais velhas, pois, segundo tese apresentada na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro em 1855: Quando a mulher for emurchecendo na idade, e que essas belas formas se forem tornando descomunais, o médico poderá mesmo recomendar o espartilho, sobretudo quando for a uma senhora que já tenha parido por diferentes vezes, e que seus seios, tornando-se volumosos e flácidos, pendam dificultando o andar, causando-lhe mesmo dor, e de alguma maneira dissimulando a gracialidade de que é dotado e seu sexo. (RIBEIRO, apud RAINHO, 2001, p.126) Os médicos brasileiros condenavam a adoção da moda europeia pelas brasileiras, por causa dos malefícios causados à saúde, mas, principalmente, pelo efeito perverso da moda que, segundo eles, tornava as mulheres fúteis e mais preocupadas com a vida mundana do que com a família e os filhos (RAINHO, 2001). Da mesma forma, os cosméticos eram considerados os maiores inimigos das mulheres, pois além de estragarem a pele (água e sabão era do que as mulheres precisavam), eram os “artifícios próprios das cortesãs e das atrizes [...] e de algumas velhas que querem se apresentar como moças” (RAINHO, 2001, p.128). A moda e seus artifícios eram considerados a “infecção moral da sociedade”, pois exteriorizavam e sociabilizavam a mulher numa época em que o seu papel deveria ser apenas o de esposa e mãe. A mulher da moda era a “mulher demônio”, pois: Só pensa em joias e luxos, em rivalizar nos vestidos com as outras, em arruinar o marido, em enfeitar a cabeça (tão despida de juízo), em passear, dançar e gozar essa vida buliçosa das salas, que enche depois 68 de tédio e lhe embota os sentimentos (Revista O Sexo Feminino apud RAINHO, 2001, p.131). Entretanto, os médicos não puderam evitar o fascínio exercido pela moda sobre o sexo feminino, não demoveram as mulheres de seguir a moda, o que acabou se tornando uma das marcas mais visíveis de sua exteriorização. Para a mulher, a moda representava a possibilidade de afirmação no grupo, o homem, pelo contrário, possuía outras formas de distinguir-se na sociedade, como a boa educação e a instrução. Com o passar dos anos, a mulher foi se libertando, tanto social, quanto literalmente (o espartilho deixa de ser usado nas primeiras décadas do século XX), na medida em que as roupas passaram a ser mais confortáveis. Porém, foi a partir dos anos 1960 e 1970 que o papel da mulher sofreu uma mudança mais significativa e iniciou a verdadeira libertação feminina: o uso do anticoncepcional, a entrada no mercado de trabalho, etc. e, gradativamente, a relação mulher/moda/saúde foi se modificando. No que se refere à estética do corpo, o que se pode ver, hoje, é que as mulheres estão deixando de visar à sua saúde em função da forma física. Muitas mulheres estão mais preocupadas com a aparência (ser bela e jovem) - e muito pouco com a saúde - como se isso fosse fundamental para serem vistas com bons olhos nos diferentes grupos sociais em que vivem. Na maioria das sociedades modernas, pode-se caracterizar a beleza corporal como sendo um fato social, pois há, notoriamente, uma busca coletiva por um corpo belo, embora haja diferentes construções desse corpo. Para Andrade (2003), a imagem do que é saúde e do que é beleza, no decorrer do século XX, sofreu um deslocamento em relação aos conceitos apregoados nos períodos anteriores. Conquistar um corpo saudável e belo passou a ser um objetivo individual a ser atingido. Para tanto, é preciso um exercício intencional de autocontrole, o qual envolve força de vontade, restrição e vigilância constantes. A autora exemplifica essa busca, dizendo que, durante as últimas décadas do século XX, o consumo de açúcar diminuiu muito e, por outro lado, nas gôndolas dos supermercados (e na mesa de uma significativa parcela da população que se sente interpelada pelo discurso da boa forma), surgiram produtos light e diet, que prometem um corpo mais saudável, pois ele estaria livre de gorduras e açúcares, considerados tão prejudiciais à forma física desejada. O ato de comer, que outrora era um dos grandes prazeres da vida, 69 passou a ser vigiado constantemente, com o intuito de evitar o consumo desnecessário de calorias. E, além desse cerceamento, surgiu a necessidade de “queimar” as calorias através de atividades físicas em academias de ginástica, exigência que culturalmente recai mais sobre o corpo da mulher. A pressão por uma estética corporal Como o culto ao corpo está cada vez mais presente nas sociedades, as indústrias de beleza vêm se aprimorando a cada dia com inovações tecnológicas para que homens e mulheres estejam cada vez mais próximos da “perfeição”. As academias de ginástica triplicaram em número nesta última década e a cada dia surgem novos métodos que se adaptam a cada estilo de vida. Segundo Vargas (1998), aqueles que, por ventura, não experimentam a cumplicidade de culto ao corpo em uma academia, certamente fazem de outras maneiras, seja nas roupas que vestem, nas dietas, cirurgias plásticas, etc. O nosso atual código de ética (social) é a estética, porque ela acaba por assumir um papel de “laço” social, pois para a mulher um “corpinho sarado” vale mais que uma “mente brilhante”. As mulheres estetizam o próprio corpo mais que os homens, tanto pela roupa, quanto pela maquiagem e adereços, esculpindo-o por exercícios físicos e pela dieta. Pela atividade física e o controle do corpo, as mulheres constroem sua imagem, definindo, cada uma a sua maneira, a própria leitura de sua identidade feminina. Para Queiroz (2000), várias das características femininas e masculinas relacionadas à atratividade sexual, vêm sendo acentuadas pela moda, bem como pela cirurgia plástica – implantes de silicone, lipoaspiração, etc. Outro motivo que causa frustração às pessoas é a supervalorização da magreza. O mercado da moda produz a sua coleção baseada nos corpos das modelos que estão cada vez mais altas e magras, esquecendo que a maior parte da população que desfila pelas ruas não tem corpo de manequim. As mulheres, nessa situação, são as que mais sofrem e ficam obcecadas pela magreza e dietas que, na maioria das vezes, são malsucedidas. Ullmann (2004) coloca que a consequência dessas dietas baseadas no uso de anfetaminas, laxantes, diuréticos e até mesmo cirurgia de redução do estômago, é o aumento dos casos de anorexia, bulimia e depressão profunda. Por outro lado, é importante lembrar que a roupa é uma extensão do corpo, ela representa, de forma temporária o que o corpo quer comunicar, podendo-se moldar aos desejos do indivíduo de forma fácil. A essas 70 oscilações temporárias, denomina-se moda. Enfim, Castilho e Martins definem a relação moda e corpo da seguinte maneira: “A moda, enfim, é regida por contínuas operações de transformação do parecer do corpo sobre o ser (corpo biomorfológico)” (2005, p.83). A moda/roupa remodela o corpo, mas não pelo modo de constrição e reestruturação física; as tendências submetem o corpo a moldar-se da melhor forma, para poder portar as roupas e mostrar esse corpo. Anteriormente, apertava-se, ajustava-se, expandia-se o corpo através da roupa para obter e manter a silhueta desejada. Antigamente o vestuário era sinônimo de status e poder, hoje o corpo é quem reflete o status das pessoas, as diferencia. Interessante observar que nessa “tarefa” de remodelagem dos corpos, a lingerie tem ocupado papel contundente desde o início do uso de peças como os espartilhos, que objetivavam remodelar o corpo feminino através do esmagamento de boa parte do tronco das mulheres, até as lingeries atuais (NAZARETH, 2007). Nazareth (2007, p.155) afirma que a “indústria da lingerie procura atender à demanda por benefícios estéticos, sensoriais, de conforto e também pelas possibilidades de reconfigurar o corpo”. A afirmação do autor é possível de ser verificada no anúncio publicitário que segue, da marca de lingeries Liz. Essa peça publicitária ocupou uma página inteira de uma revista de moda feminina, a Estilo, no mês de outubro de 2010. Imagem 1 – Anúncio da marca Liz Fonte: Revista Estilo, ed. 97, ano 08, out. 2010, p.29 71 Ela é dividida ao meio, sendo que na parte superior há quatro modelos vestidas de lingeries (sutiãs, calcinhas e bodies), de cor da pele. As modelos olham diretamente para o receptor, conotando segurança e satisfação, provavelmente com seus corpos e pelas lingeries que vestem. Ao lado dessa imagem, há um texto que diz o seguinte: “Sentir-se magra, ainda mais atraente e elegante, com liberdade para escolher desde a blusa decotada até aquela calça branca tão sonhada. Por que não? Você pode, você deve. Afinal, o mundo inteiro usa. Liz solutions. Under control – Reduz medidas, remodela”. O texto explora de maneira intensa a aproximação da marca e seus produtos com as consumidoras, através do uso do pronome de tratamento “você”; como outra estratégia de convencimento, a empresa lembra à consumidora de que ela deve se sentir magra, ou, ao menos, parecer que o é, deve ser atraente e elegante também. E, para isso, sugere o uso de algumas roupas, as quais ficarão muito bem com o uso das peças íntimas anunciadas, e essas roupas ocupam lugar de sedução na sociedade, como uma blusa decotada, ou uma calça branca. Ambas as peças são, muitas vezes, refugadas pelas mulheres pelo fato de revelarem as formas corporais, mas a empresa afirma que se esse for o desejo da consumidora, ela poderá realizá-lo. Outro aspecto intrigante no anúncio é a assertiva “Afinal, todo mundo usa”, revelando, assim, que há um padrão de estética feminina, o qual é exigido atualmente. Na parte inferior do anúncio, outras três modelos estão dispostas, em pose semelhante a das modelos da parte superior. Ao lado das modelos, outro texto: “Estética. Disfarça imperfeições. Não marca sob a roupa. Sutiãs com laterais que emagrecem”. Abaixo há a logomarca e o site da empresa. A partir da leitura desse texto, observamos a necessidade de parecer ter um corpo perfeito, escondendo tudo aquilo que a sociedade não deseja que seja revelado: as imperfeições que as mulheres têm. Notamos que a lingerie não é mais somente uma peça de roupa, ela constitui-se em um meio para atingir certa construção corporal. Então, verificamos que o corpo sofre, sim, influências da moda, de várias formas, especialmente, de forma visual, porque a moda se estrutura, essencialmente, em valores estéticos. Não só as tendências de moda são responsáveis por essas mudanças, entendendo a cultura como uma relação de valores morais e estéticos, podemos dizer que estes mesmos valores culturais são grandes responsáveis por tais decisões, são imagens que a 72 sociedade impõe. Então, a fim de ser aceito, o indivíduo se sujeita a elas. Porém, as exigências estéticas modificam-se de tempos em tempos, criando novas tendências. Considerado o corpo como linguagem, afirmamos que, atualmente, é ele (o corpo) quem muda, o vestuário busca se adequar a ele, de modo que represente de forma coerente aquele corpo (CIDREIRA, 2005). Hoje, o corpo é vulgarizado, sensualizado e “plastificado”; é essa imagem que é vendida pela mídia e endossada pela cultura da sociedade. Na sociedade contemporânea há um corpo fabricado e construído por ideais estéticos ditados pela própria sociedade. A reconstrução desses corpos é impulsionada por tais valores estéticos, a partir da necessidade de embelezamento que o indivíduo passa a sentir. A adoção destes valores gera, como conseqüência, um movimento de pertencimento dentro deste grupo. Por esta razão, o indivíduo utiliza de artifícios a fim de se fazer aceito e, entre estas armas, podemos citar algumas vestimentas, que se enquadram como elementos propícios para possíveis transformações imediatas, e talvez efêmeras, mas desejadas pelo sujeito. Essa questão foi claramente abordada no artigo publicado pelo Jornal O Estado de São Paulo, em março de 2010, que alerta para o fato dos espartilhos estarem de volta com um apelo de moda muito forte, com a promessa de ajudar na redução de medidas. Segundo o jornal, o espartilho é feito com várias camadas de tecido resistente e reforçado por barbatanas de alumínio ou aço inoxidável e ele pressiona áreas estratégicas (os dois últimos pares de costelas) quando a amarração das costas é puxada e apertada. E, para modificar o formato natural dessa parte do corpo, a peça deve ser usada diariamente e por longos períodos. Imagem 2- Espartilho da marca Madame Sher Fonte:http://www.estadao.com.br/noticias/suplementos,a-volta-do-espartilho,523325,0.htm 73 Os médicos consultados pela reportagem desaprovam a utilização dessa peça do vestuário. Segundo o cirurgião vascular Fábio Haddad, o abdome é pressionado excessivamente, precipitando o aparecimento de varizes e inchaço nas pernas, o que, em casos extremos, pode causar uma trombose. Diz ainda que “a pressão interna eleva o diafragma, modificando a dinâmica respiratória. Isso pode levar à atelectasia, resultado da diminuição da ventilação pulmonar, o que pode provocar acúmulo de secreções e até uma infecção”(http://www.estadao.com.br/noticias/suplementos,a-volta-doespartilho,523325,0.htm). O uso desses novos espartilhos remete a uma reflexão já realizada por Del Priore (2000), a qual lembra que essas modificações estéticas são, muitas delas, “copiadas” de mulheres que não têm a mesma estrutura física. Ou seja, somos um povo mestiço, que tenta assemelhar-se às mulheres europeias ou americanas em algumas características físicas. A autora chama a atenção para a febre das “Barbies”, que são mulheres com seios volumosos, cabelos louros, cintura fina e lábios grossos. As mulheres contemporâneas sentem a necessidade de cuidar de seus corpos, não só para serem saudáveis, mas, principalmente, para serem bonitas (seguindo um determinado padrão de beleza). Então, “malhar” o corpo é a exigência atual, seja através de práticas esportivas, seja através de cirurgias plásticas, ou através do uso de determinadas roupas que “disfarçam” as formas indomáveis de algumas mulheres. Por outro lado, no anúncio da empresa Trifil, podemos observar uma revelação interessante, um sutiã que pode ser usado “todos os dias, o dia todo”. 74 Imagem 3 – Anúncio da marca Trifil Fonte: Revista Manequim, ed.615, out 2010, p.7 O anúncio da Trifil, publicado na revista Manequim de outubro de 2010, apresenta a imagem de uma mulher jovem usando lingerie branca, coberta com um roupão branco; ela está com os cabelos presos em um rabo de cavalo, e segura, com a mão direita, uma caneca com uma escova de dentes dentro. Com a mão esquerda, ela acaricia seu próprio rosto, estampando um sorriso, aparentemente de satisfação. Sobre essa imagem, em marca d’água há um calendário indicando os dias do mês. No canto inferior direito há o seguinte texto: “Daily. O primeiro sutiã para você usar todo dia, o dia todo”. De acordo com Nazareth (2007, p.160), “Para o dia a dia, as mulheres tendem a usar com mais frequência os modelos básicos”. O autor lembra que a ideia de básico está associada à estética do produto e não à tecnologia utilizada pelas empresas de lingeries. Uma ideia pressuposta no anúncio é a de que até a criação desse sutiã nenhum outro poderia ser utilizado de maneira constante, talvez pelo fato de causarem certo desconforto na usuária ou, por uma questão estética, não eram bonitos, por exemplo. 75 Outro texto selecionado para essa discussão é o da empresa Scala. Nesse anúncio, há a imagem de uma mulher vestida com lingerie preta: o sutiã é forrado com renda, e a calcinha tem babados nas laterais. Imagem 4 – Anúncio da marca Scala Fonte: Revista Criativa, Ed.246,out 2009, p.75 Nesse texto, sobre a imagem da modelo, há um enunciado que diz “Experimente usar nada”; e abaixo: “As lingeries que vão fazer o maior sucesso nesse verão”; e mais abaixo está a logomarca da empresa, e a frase: “Nos melhores shoppings”, bem como o site da empresa. Do anúncio da Scala, surgem duas questões interessantes: uma delas é o fato de indicar que essa lingerie é confortável, pois, ao usá-la, a mulher estará usando “nada”. A outra questão diz respeito ao aspecto de sensualidade e sedução que as roupas íntimas também podem revelar. Para Nazareth (2007), “O papel das roupas íntimas no jogo da sedução é notório. E, nesse campo de intenções, uma mulher não se contenta com pouco” (NAZARETH, 2007, p. 158). Então, lingeries podem, considerando-se seu estilo e seus materiais, exercer forte influência nas suas consumidoras, não somente pela presença de sinais de sedução (tecidos, cores, cortes), mas também pelo fato de servirem como recursos para transformações estéticas. 76 Observando esses anúncios de revistas e a matéria do Jornal Folha de S. Paulo, podemos notar que o conceito de inovação na moda - roupas íntimas - é apresentado de duas maneiras: ou pode ser um retorno ao passado e ao desconforto em prol do remodelamento do corpo (espartilho), ou a utilização de uma linha básica e cômoda ligada à inovação tecnológica com tecidos mais confortáveis (Liz, Trifil e Scala), mas também buscando o modelamento do corpo. Podemos afirmar que, em ambos os casos, identificamos uma importante regra do mercado da moda, ou seja, a adaptação às necessidades e desejos dos consumidores, apresentando, para isso, produtos inusitados (COBRA, 1997). Além disso, é importante mencionar o fato de empresas, como as dos anúncios apresentados, estarem se voltando para a utilização de materiais os quais introduzem novidades para a lingerie feminina, pois permitem mais conforto para as consumidoras, o que, como vimos nos próprios anúncios, é algo que revela novidade no setor. Conforme Cardoso (2012), “formular um desafio é projetar capacidades para além do presente, impulsionando a ação, o movimento de construir ou de ser algo diferente, de ocupar outro espaço [...] Assumir desafios é atraente e ameaçador”. Apesar dessa dicotomia, observamos que o mercado da moda está cada vez mais voltando sua atenção aos princípios da inovação: renovação, invenção, criação de algo que seja novo. Considerações finais Vive-se numa sociedade que preconiza a construção da imagem do corpo belo e saudável (independente de ser ou não realmente saudável). Neste processo, a mídia cria ícones de beleza e saúde, produz modelos a serem seguidos e que muitas vezes são tipos distorcidos de beleza e, principalmente, de saúde. Os padrões estéticos preconizados na sociedade são, algumas vezes, condições fundamentais para que o indivíduo possa considerar-se integrado a um determinado grupo. E o interessante é que, efetivamente, muitos indivíduos deixam-se persuadir por esse discurso da necessidade de ser belo, ser esbelto, ser alto, ter cintura fina, alterando suas formas físicas sem medo de algum efeito colateral. A mulher do século XXI, a despeito de toda a sua trajetória de luta contra a opressão e pela liberdade, permanece dependente de uma sociedade de 77 consumo, que se refere não somente a produtos, mas a imagens corporais desejáveis para essa época. Percebe-se, também, que a cultura circulante, em relação à mulher, enfatiza a aparência física em detrimento de sua capacidade intelectual. Entende-se que o ideal de corpo preconizado pela nossa sociedade, e que é veiculado pela mídia, leva as mulheres a uma aparente insatisfação crônica com seus corpos. Insatisfação essa que é suprida através da transformação dos corpos, seja por uma peça de roupa que aperta, enxuga, levanta, aumenta ou diminui o corpo; seja através de uma interferência mais drástica, como as cirurgias e os implantes. O corpo deve ser belo e a saúde não é o mais importante para uma grande parcela da população que almeja determinada imagem estética, a qual é, constantemente, reiterada pela mídia. E, dessa forma, cada um deve se empenhar na luta contra o tempo, na batalha contra a degeneração e obsolescência funcional do corpo (COUTO, 2001). Nesse contexto, algumas marcas de roupas íntimas parecem oferecer alternativas de conforto e bem-estar que estão associadas à transformação dos seus produtos via inovação tecnológica, ao mesmo tempo em que uma indumentária desconfortável, como o espartilho, também se apresenta como uma inovação no vestuário íntimo. Podemos inferir, portanto, que inovação em moda é um conceito no qual o novo e o tradicional convivem harmoniosamente.15 Referências bibliográficas ANDRADE, Sandra dos Santos. Saúde e beleza do corpo feminino. Algumas representações no Brasil do século XX – Revista Movimento, Porto Alegre, v.9, n.1, p. 119 – 143, janeiro/abril de 2003. CASTILHO, Kathia. Moda e linguagem. 2. ed. São Paulo: Anhembi Morumbi, 2009. Coleção Moda e Comunicação. CIDREIRA, Renata Pitombo.Os sentidos da moda: vestuário, comunicação e cultura. São Paulo: Annablume, 2005. 15 Sobre conceitos de inovação ver SIMANTOB, M. e LIPPI, R. Guia Valor Econômico de Inovação nas Empresas. São Paulo: Editora Globo, 2003. 78 COBRA, Marcos. Algumas reflexões acerca do marketing da moda. Revista de Administração de Empresas. São Paulo, v.37, n.4, outubro/ dezembro de 1997 COUTO, Edvaldo Souza. et al. Gilles Lipovetsky: Estética corporal e protecionismo técnico higienista e desportista. In: GRANDO, José Carlos. A (des)construção do corpo. Blumenau. Ed. Edifurb, 2001. DEL PRIORE, Mary. Corpo a corpo com a mulher: pequena história das transformações do corpo feminino no Brasil. São Paulo: Editora SENAC, 2000. NAZARETH,Otávio.Intimidade revelada. São Paulo: Estúdio Substância: Olhares Editora, 2007. QUEIROZ, Renato da Silva (org.). O corpo do brasileiro: estudos de estética e beleza. São Paulo: Editora Senac, 2000. RAINHO, Maria do Carmo Teixeira. A Cidade e a Moda. Brasília:Editora UNB,2002. SIMANTOB, M. e LIPPI, R. Guia Valor Econômico de Inovação nas Empresas. São Paulo: Editora Globo, 2003. ULLMANN, Dora. O peso da felicidade. Porto Alegre: RBS Publicações, 2004. VARGAS, Ângelo. Reflexões sobre o corpo. Rio de Janeiro: Ed.Sprint, 1998. CARDOSO, Carmen. Desafio: Risco e Atratividade. Disponível em: http://www.redegestao.com.br/desafio21/gec100.html. Acesso em 25/04/2012 CASTILHO, Katia; MARTINS, Marcelo M. Discurso da moda: semiótica, design e corpo. São Paulo: Anhembi Morumbi, 2005. 79 ESPARTILHO, entendendo o universo feminino. Disponível em http:// espartilho.wordpress.com/curiosidade-a-historia-do-espartilho/ Acesso em 20/09/2010 VALLERIO, Ciça. A volta do espartilho. Disponível em: http://www. estadao.com.br/noticias/suplementos,a-volta-do-espartilho,523325,0.htm Acesso em 20/09/2010 80 Com que roupa eles iam? O desafio de constituir acervos de indumentária no Brasil. Laura Ferrazza de Lima A roupa é parte de nosso cotidiano e nos lança um desafio diário. Através do que vestimos, expressamos nossas ideias, nossos gostos, nossa identidade. A carga de significados revelada pelo traje perpassa os tempos. Através dos vestígios materiais do passado, no caso das roupas, podemos tentar compreender o Outro vestido no tempo. Afinal, a indumentária moldou os gestos, as posturas e as formas corporais de homens e mulheres desde seu surgimento na pré-história. Deriva disso sua importância como um lugar de memória16 do que já foi vivido e vestido. Ela é portadora de memórias daqueles que a vestiram, que a produziram e que a viram. Carrega entre as fibras do tecido as antigas técnicas de tessitura e produção do vestuário. Além disso, um traje do passado nos dá uma ideia dos conceitos de gosto no seu tempo de produção e uso. Ajuda a compreender o funcionamento do sistema da moda e retrata, de certa forma, as sociabilidades daqueles vinculados a ele. Os estudos sobre as vestimentas nos levam também a valorizar uma história do cotidiano, do ato diário de vestir-se e dos elementos que restam para nós hoje sob a forma de cultura material. Trajes de diferentes períodos sobrevivem, e eles nos ajudam a reconstruir a história das vestimentas, dos hábitos de vestir-se. O conhecimento desses vestígios auxilia os designers da moda atual. A partir deles pode-se refletir sobre a criação de roupas no passado e torná-las mais ricas no presente. Museus próprios do traje e de tecidos encontram-se espalhados pelo mundo, além de seções dedicadas ao tema em museus mais gerais. Mesmo o Oriente que, para muitos teóricos, não assiste ao fenômeno da moda até ser influenciado pelo Ocidente17, 16 NORA, Pierre. Lieux de memoire. V 1, 2 e 3. Paris: Gallimard, 1997. 17 LIPOVETSKY, Gilles. O império do efêmero. A moda e seu destino nas sociedades modernas. São Paulo: Companhia das letras, 2003. 81 rende-se aos trajes do passado. Por sinal, um dos mais completos acervos do gênero encontra-se no Japão. Afinal, por que qualificar a roupa como um objeto da cultura material? Essa última incluiria todos os objetos manipuláveis que os homens do passado deixaram visíveis para nós, além da arquitetura, da arte e dos documentos tradicionais. Eles nos legaram pequenos nadas: os objetos de seu cotidiano, suas roupas, etc. Por que as preservaram? Eles as valorizavam, o que se comprova pelo fato de as transmitirem em testamento para a família. Encontram-se inúmeros exemplos de trajes e tecidos que são mencionados em documentos desse tipo18. Significa que esses “nadas” falam muito sobre o apreço pelo vestir. A moda difunde-se em diferentes grupos sociais e constitui uma marca de historicidade, o rastro de um tempo vivido que merece análise19. A noção de rastro, tratada por Paul Ricoeur, ultrapassa a de documento. “Rastros” seriam as marcas deixadas pelos que já passaram: uma presença viva dos mortos. Tudo pode ser rastro para o pesquisador, desde que ele formule bons questionamentos sobre esses vestígios – os quais, segundo o autor, são também produtos da atividade humana, das coisas manejáveis que deixaram uma marca. Então, a roupa é uma marca do tempo que passou? Ela própria seria um rastro, e também o material que se produziu sobre ela (imagens e textos). Dessa maneira, a roupa torna-se um “artefato”, um objeto da cultura material que merece ser preservado e receber o estatuto de documento histórico. Reside nisso outro grande desafio: convencer os pesquisadores de que a roupa, mais do que um bordado sobre o pano da história, é uma das fibras que compõem o tecido da qual essa é feita. Entram em jogo, aqui, as questões de patrimônio, de preservação e de memória. Constituir acervos de indumentária, seja no Brasil ou em qualquer lugar do mundo, é uma tarefa que deve ser tomada pelos historiadores, mas igualmente pelos museus, pelos governos, pelos designers de moda e pela própria população. Não podemos identificar a roupa apenas como uma expressão do supérfluo, dos jogos efêmeros da moda. É precisamente no caráter fugidio do fenômeno que reside sua riqueza analítica. Acreditar na validade do estudo das aparências – daquilo que está na superfície dos objetos, como é o caso da moda e das roupas – é algo que nos faz questionar o próprio estatuto do conhecimento científico, pois abala o desejo de aproximar-se de uma verdade última. Alguns filósofos acreditam 82 que a verdade das coisas esteja apenas no nível do aparente, naquilo que cada um de nós julga estar vendo20. Segundo Lars Svendsen, “vai um pouco contra a natureza da filosofia escrever sobre moda”21 . Ele refere-se à tradição platônica que coloca a realidade de um lado e as aparências de outro, distinguindo profundidade e superfície. Apesar das resistências aos estudos da moda pela filosofia, o autor traçou um panorama de diversos filósofos que trataram do tema, seja para criticá-lo ou para dele tirar conclusões; e, por fim, afirma: “a moda é pura superfície”22. Apesar disso, ou exatamente por esse motivo, o fenômeno da moda é importante: assim como os antigos céticos afirmavam que o mundo fenomênico contém suficientes complexidades para embasar e instigar o conhecimento , também naquilo que se considerou a superfície e a aparência encontram-se relevantes fenômenos a se analisar para a construção do conhecimento.23Um exemplo disso são os estudos das sensibilidades.24As sensações pertencem à esfera do imaterial, assim como os sentimentos e mesmo o “gosto”. Porém, para estudá-las, nós precisamos de fontes que as expressem, de materialidades dessas sensibilidades. No caso do gosto ou da moda em si, podem-se utilizar as imagens produzidas sobre o tema e as próprias roupas que traduzem a forma de vestir no passado. Uma vez que a roupa molda os corpos e as atitudes, ela compartilha a capacidade presente nos artefatos de agir, de produzir efeitos. Nas 18 Vide o trabalho de Daniel Roche que utiliza apenas documentos escritos para tratar sobre a moda francesa dos séculos XVII e XVIII. ROCHE, Daniel. A cultura das aparências: uma história da indumentária (séculos XVII – XVIII). São Paulo: SENAC, 2007. 19 Sobre marcas de historicidade: RICOEUR, Paul. Entre o tempo vivido e o tempo universal: o tempo histórico. IN: Estudos Avançados. Campinas: Papirus, 1997. 20 ARENDT, Hanna. A vida do espírito. O pensar. O querer. O julgar. V. 1- O pensar. Rio de Janeiro: UFRJ, 1992. SVENDSEN, Lars. Moda: uma filosofia. Rio de Janeiro: Zahar, 2010. p. 19. 21 Idem, p. 19. 22 LESSA, Renato. Veneno Pirrônico: ensaios sobre o ceticismo. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 23 1997. p. 169-170. SENNET, Richard. Autoridade. Rio de Janeiro: Record, 2001. 24 CARVALHO, Vânia Carneiro de. Gênero e Artefato. O sistema doméstico na Perspectiva da 25 Cultura Material – São Paulo, 1870 – 1920. São Paulo: EDUSP, 2008. p. 12. 83 palavras de Ulpiano Bezerra de Meneses: “os artefatos nos moldam, nos constituem”25. O movimento historiográfico que instituiu a ampliação da noção de documento não representou uma completa novidade ao reclamar o uso de documentos não verbais (caso das imagens e dos artefatos e por consequência das roupas). Conforme o autor, os historiadores atualmente estão mais sensíveis aos documentos visuais, mas nem tanto para o estudo da dimensão material da sociedade. Exemplo de um trabalho interessante nesse sentido é o livro Gênero e Artefato de Vânia Carneiro de Carvalho. Nessa obra, a historiadora analisa o sistema doméstico da cidade de São Paulo (1870 – 1920) através dos objetos da cultura material. Na introdução de seu livro, a autora define os objetos de luxo como sendo raros e inúteis. A função deles seria decorrente da capacidade socialmente atribuída aos mesmos de produzirem valores e sentidos, que podem ser mágicos, religiosos, estéticos, sociais ou políticos26. Qualquer semelhança com o consumo de roupas não é mera coincidência. O consumo de luxo possui uma estreita relação com a indústria têxtil e, por consequência, com a indústria do vestuário. Fáceis de transportar e confeccionados com matérias-primas raras e preciosas como fios de metal e seda, os tecidos eram o símbolo da riqueza dos príncipes do medievo europeu, período marcado pela forte mobilidade espacial das cortes. A partir do final do século XVIII, os tecidos estiveram no centro das transformações na estrutura de produção. Foram alvo de investimentos tecnológicos e objeto da criatividade artística. Aqui há uma referência clara à Revolução Industrial que se iniciou justamente com a invenção do tear a vapor. Começou, assim, uma transformação sem precedentes na produção de têxteis e, consequentemente, de roupas. Durante o século XIX, a fascinação pelos tecidos adamascados aconteceu graças à industrialização, que baixou os custos e tornou acessível uma mercadoria que manteve a força aurática de um objeto de luxo27. Além dessa reflexão sobre os tecidos, o trabalho de Vânia Carvalho nos propicia outros paralelos com a questão da roupa e de seus acervos. As dificuldades apontadas pela autora para a formação de coleções de objetos da cultura material aparecem também na constituição dos acervos de indumentária. Segundo ela, a reunião desse material de cunho “histórico” tem um perfil pouco sistemático, fruto de aquisições esporádicas, doações pouco seletivas, políticas descontínuas, parcos recursos financeiros e ausência de vínculos orgânicos com a pesquisa28. Essa série de problemas 84 é comum em nosso país, quando se trata da formação de diferentes tipos de conjuntos documentais. Além disso, a autora destaca que o enfoque historiográfico dado a essas coleções acaba privilegiando objetos de exceção, associados, muitas vezes, a algum personagem famoso. Encontrei uma situação semelhante no Museu Júlio de Castilhos, na cidade de Porto Alegre, quando realizei uma exposição de peças de indumentária de seu acervo29. A instituição possui certo número de exemplares de trajes, sendo que poucos deles são expostos de forma permanente. Algumas exposições de pequeno porte são idealizadas a fim de dar a ver esses documentos30. Contudo, não há uma catalogação precisa desse material. Recebido por doação em épocas remotas, sobre eles restam poucas informações a respeito dos doadores ou da história das peças. Existem exemplares que datam do século XVIII, XIX e da primeira metade do XX. A coleção é composta por sapatos, roupas e acessórios, tais como luvas e chapéus, tanto femininos como masculinos. Existem alguns itens de indumentária que pertenceram a figuras importantes da história política do estado e do país, como a cartola de Borges de Medeiros, o fraque de Júlio de Castilhos e ternos de Getúlio Vargas. Faltam recursos para um arquivamento eficaz das peças, mas deve destacar-se a dedicação e o cuidado dos funcionários do museu em conservar esse material da melhor forma possível. Daniel Roche nos fala da importância de observar as alterações no traje, para acompanhar as mudanças sociais de gosto. Para observar tais mudanças, temos de preservar da melhor maneira possível os vestígios materiais que se referem à vestimenta, desde a roupa em si, passando pela imprensa de moda, inventários, etc. Segundo ele, existem cinco categorias fundamentais de documentos específicos para o estudo da história do vestuário: as roupas, os tecidos, as fontes pictóricas, as fontes da história social, familiar ou comercial, e as fontes filológicas. Vamos nos deter aqui mais profundamente sobre o primeiro tipo de documento citado. O autor refere-se às roupas antigas como fontes originais e diretas, daí a necessidade de acessá-las. Segundo ele, as coleções de vestuário e os museus da moda devem levantar duas questões: “o que se preserva?” e “o que se pode preservar?”31. O desafio para a preservação do vestuário começa pela fragilidade do material do qual ele é feito: os tecidos. Isso explica a parcialidade das coleções; é raro encontrar em exposição roupas anteriores ao século XVII, mesmo 85 na Europa. Conservaram-se mais os trajes exteriores; roupas brancas são raríssimas. Outra colocação relevante de Roche refere-se às classes sociais mais representativas nos acervos de indumentária: “o acesso histórico direto é até certo ponto socialmente comprometido, pois predominam os trajes aristocráticos e as belas vestimentas, sendo raras as roupas comuns.” . Apesar disso, o autor, assim como outros especialistas da área, afirma a relevância desse material. Afinal, através dele, podemos aprender coisas que não se encontram em nenhum outro tipo de documento. Eles dão vida às descrições das fontes arquivísticas, permitem a reflexão sobre as formas vestimentares, o uso dos tecidos, a ornamentação dos trajes, a variedade de cortes, a utilização de bordados e outros detalhes. Revelam as variações entre as imagens que representam a indumentária de uma época e sua forma real. E ensinam, através de uma educação visual, a distância e a diferença entre os trajes do passado e os atuais. O problema da conservação dos tecidos torna-se central, uma vez que é nesse ponto que os acervos de traje sofrem grandes limitações. A lã, por exemplo, é uma vítima das traças, motivo pelo qual se perdeu uma enorme quantidade de roupas produzidas com essa matéria-prima na era moderna. Por outro lado, tecidos como a seda, o algodão, o linho e o cânhamo resistiram mais, dando às coleções de trajes expostas um ar de festa, um aspecto bucólico, uma impressão de eterno verão. Segundo Roche: “é indispensável o conhecimento dos têxteis e dos materiais empregados na confecção das roupas, pois necessitamos constantemente comparar o tecido e o traje...”33. Esse tipo de conhecimento auxilia na identificação e catalogação das peças, bem como em sua colocação no tempo e no espaço e nas categorias sociais. Conforme o autor, o estudo dos tecidos e aviamentos gera questionamentos a respeito dos hábitos sociais de uso, das variações sazonais e dos níveis de produção. Além disso, é preciso confrontar os tecidos preservados e as imagens do vestuário de um mesmo período. Afinal, a vestimenta e seus pormenores foram também representados pela arte. Se o tempo desgasta boa parte do 30 Outro exemplo foi uma exposição sobre vestidos de noiva organizada por Célia Ribeiro no Museu Júlio de Castilhos de Porto Alegre em 1989. 31 ROCHE, Daniel. Op. cit., p. 23. 32 Idem, p. 24. 86 brilho dos tecidos, as pinceladas dos artistas ou de ilustradores podem dar uma ideia de seu aspecto original. As ilustrações permitem também identificar alguns tecidos ou analisar a confecção e as técnicas de manufatura doméstica. A moda se expressa nas (e através das) imagens. Sem elas, não teríamos como conhecê-la. Ambas praticamente se confundem e possuem cada uma delas, formas materiais. No caso da moda, isso pode estar evidente nas roupas, acessórios, objetos em geral; mas ela não se restringe apenas a isso: “é um fenômeno social amplo que se aplica a todas as arenas sociais.”34 No caso das imagens, a materialidade está no suporte – ou seja, o quadro em si, a fotografia que pode ser manuseada, a estátua que podemos tocar, e assim por diante. As gravuras de moda ou fashion plates surgiram no início do século XVIII. Antes disso, já existiam os chamados costume plates, que registravam a moda depois do acontecido: ou seja, mostravam como as pessoas se vestiam em períodos anteriores (ainda que, muitas vezes, tratassem de épocas recentes). O público que consumia essas imagens era reduzido, limitando-se a aristocratas curiosos, profissionais da moda de alto nível e artistas em busca de modelos35. A novidade dos fashion plates residia, primeiramente, no fato de que essas imagens indicavam o que as pessoas deveriam usar para estarem na moda – não eram um simples registro, mas uma espécie de guia de estilo. O surgimento e a expansão dos fashion plates marcaram, portanto, o início da imprensa ilustrada de moda, o que possibilitou uma maior variedade nas roupas femininas e uma mais ampla circulação das informações sobre vestimentas. A princípio, os fashion plates eram publicados em fascículos avulsos ou em almanaques – itens de alto custo, que só podiam ser adquiridos por pessoas abastadas. Contudo, nessa época, já circulavam cópias clandestinas – ou “piratas”36 – desses figurinos. Na segunda metade do século XVIII, porém, essas gravuras passaram a ser 33 Ibidem, p. 24. 34 SVENDSEN, Lars. Op. cit., p.13. 35 ROCHE, Daniel. A cultura das aparências: uma história da indumentária (séculos XVII- XVIII). São Paulo: SENAC, 2007. p 29. 36 Idem, p. 29 87 publicadas em revistas femininas, que eram acessíveis a um público mais amplo. As primeiras edições nesse modelo surgiram na Inglaterra. O The Lady’s Magazine começou a publicá-los a partir de 1770. E, de repente, figurinos semelhantes estavam sendo publicados em toda Europa. Para nós, acostumados às ilustrações de moda, é difícil compreender que, antes da invenção do fashion plate (gravura de moda), obter informações sobre a última moda era muito trabalhoso. 37 Depois da Inglaterra, a publicação de fashion plates em revistas femininas surgiu também na França, espalhando-se daí por toda a Europa. Com isso, as imagens de moda se popularizaram de tal forma que os fascículos e os almanaques, antes restritos à nobreza e à alta burguesia, tornaram-se mais acessíveis, ganhando grande circulação. É interessante notar que, nessa época, novas tecnologias têxteis também baratearam a produção de tecidos, estendendo e alargando a possibilidade de que não apenas a nobreza acompanhasse os modismos38. Uma das mais célebres coleções de figurinos da época foi La galerie des modes, editada regularmente na forma de fascículos, entre 1778 e 1787. De acordo com Roche, trata-se da “mais bela coleção desse tipo”, que “jamais foi estudada em detalhe”.39 Era formada por mais de 435 estampas, publicadas em álbuns de três a seis folhas. Ainda segundo Roche, “é o protótipo do trabalho exemplar de uma equipe editorial reunida pela dinâmica veloz da moda em constante mutação”40. Cabe aqui discorrer brevemente sobre a forma como essas imagens eram criadas. Os fashion plates eram produzidos por especialistas nas técnicas de entalhe – que, na maior parte das vezes, copiavam desenhos feitos por outros. O papel do gravurista, geralmente, era quase o de um técnico. Em sua maioria, os desenhistas, cujas obras serviam de base a essas 37 LAVER, James. A roupa e a moda: uma história concisa. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. p. 146. 38 BOUCHER, François. Historia del traje en occidente. Barcelona, Espanha: Editora Gustavo Gili, 2009. p. 259. 39 ROCHE, Daniel. Op. cit., p. 30. 40 Idem, p. 30. 88 gravuras, não eram pintores famosos, mas especialistas na representação de vestimentas – tais como Pierre-Thomas Leclerc. Houve, contudo, exceções, como Antoine Watteau que, além de pintar quadros, também se dedicou à produção de figurinos de moda. Havia casos de artistas que eram ao mesmo tempo ilustradores e gravuristas, como Jean-Michel Moreau, o Jovem que produzia entalhes a partir de seus próprios desenhos. Outro fator que torna os fashion plates profundamente significativos é o fato de terem sido os antecessores das fotografias de moda. Annateresa Fabris, que faz um apanhado geral do impacto e dos debates gerados pela criação da fotografia, menciona em determinado momento a relação entre esta e a moda. A autora cita Mayer e Pierson, autores que enumeraram os múltiplos usos da fotografia – entre os quais se destaca a difusão dos modelos criados pela moda. Segundo os autores, esses modelos “conferem à imagem fotográfica o papel de um auxiliar poderoso numa colonização cultural discreta, (grifo meu) mas capaz de assegurar a primazia da França no mundo.”.41 Essas imagens garantiram uma ampliação sem precedentes na divulgação da moda, que antes era feita somente através das poupées des modes – bonecas de aproximadamente um metro de altura vestidas com os últimos modelos de Paris, que viajavam pelas cortes europeias em carruagens. As gravuras, por outro lado, podiam ser transportadas de forma mais rápida paraa diferentes cortes e países. A gravura de moda foi, portanto, de meados do século XVIII até pelo menos a invenção da fotografia, o mais importante meio imagético para a difusão de novidades no setor do vestuário. Contudo, seria muito redutor acreditar que a moda é tal qual aparece nas gravuras, fotografias e revistas sobre o tema, assim como nas pinturas de uma época. Elas são uma representação, e cada uma apresenta seus limites enquanto “verdade imagética”. Cada uma utiliza uma técnica diferente – a pintura e a gravura. No caso desta última, nem sempre conseguimos ver os detalhes dos bordados, das estampas, das rendas; elas fornecem principalmente uma ideia geral da estrutura dos trajes; nem mesmo as cores que utilizam são confiáveis. Tampouco podemos simplesmente acreditar que todas as mulheres seguiam à risca tais indicações. Ainda mais perigoso 41 FABRIS, Annateresa. A imagem técnica: do fotográfico ao virtual. IN: FABRIS, Annateresa; KERN, ML. Imagem e conhecimento. São Paulo: EDUSP, 2006. p. 162. 89 é acreditar nos trajes que vemos nos quadros, porque aí a liberdade dos artistas dificulta muito uma tipificação. A imagem pode transmitir um conjunto de coisas como, por exemplo, o contexto social, cultural e político em que foi elaborada, mas não de forma clara e explícita. Afinal, a imagem não deve ser vista como reflexo do real, mas sim resultado de uma trama em que tempos heterogêneos convivem; ela contém algo da época em que foi criada, mas também existe nela muito do passado e projeções de futuro.42Resumidamente, podemos dizer que a imagem é portadora de memórias, e como tal, tem muito a dizer sobre os períodos que a antecedem – mas nunca de forma linear. Observar essa montagem de tempos requer não apenas comparar as roupas entre si, mas também com imagens que as evocam, nesse jogo entre a imagem e a memória. A montagem de um acervo de indumentária requer não apenas as peças de roupas antigas, mas o cruzamento entre essas fontes tridimensionais e as referências textuais e principalmente imagéticas que possam dialogar e acrescentar reflexões sobre os trajes. Quando se procura datar uma peça de vestuário é necessário buscar referências. Podemos compará-la com outras peças já datadas, mas também com as descrições que encontramos em livros de história do vestuário, em textos do período em que ela é mencionada, seus usos, etc. Além, é claro, das imagens do período correspondente onde aquele modelo de roupa apareça representado. A descrição da indumentária de um período, seus pormenores estilísticos e a variação do pequeno até o grande detalhe podem ser relevantes. Tais minúcias trazem informações, como a hora do dia ou a ocasião em que determinado traje devia ser usado. Num sentido mais amplo, essas informações podem ajudar a localizar temporalmente as vestimentas. Assim, através da descrição de como eram os trajes de uma determinada época e dos vestígios materiais dos mesmos, podemos verificar até que ponto um artista pretendeu ser fiel ao estilo da época, ao produzir uma pintura, ou ao entalhar uma gravura. O poeta Charles Baudelaire, no século XIX, já falava na importância das imagens de moda. Em seu texto “O pintor da vida moderna”, ele exalta a qualidade de um conjunto de gravuras de moda anterior a sua época: 42 DIDI-HUBERMAN, Georges. Ante el tiempo. Historia del arte y anacronismo de las imágenes. Buenos Aires: Adriana Hidalgo, 2008. p. 137. 90 Tenho diante dos olhos uma série de gravuras de modas que começam na Revolução e terminam no Consulado. Esses trajes que provocam o riso de muitas pessoas insensatas, essas pessoas sérias sem verdadeira seriedade apresentam um fascínio de uma dupla natureza, ou seja, artístico e histórico. Eles quase sempre são belos e desenhados com elegância, mas o que me importa, pelo menos em idêntica medida, e o que me apraz encontrar em todos ou em quase todos, é a moral e a estética da época43. Nessa citação, o autor coloca num mesmo patamar as gravuras de moda e a chamada “grande arte”, reconhecendo nessas imagens uma importância histórica, apesar de vê-las como presas a seu próprio tempo. Elas o tocam e o provocam de forma suficiente para que ele as comente. Baudelaire faz uma crítica severa àqueles que não percebem o valor das vestimentas do passado, considerando-as apenas caricatas. Através da imaginação, o espectador dessas imagens da moda do passado pode vê-las em movimento, em qualquer tempo. Sua valorização das imagens de moda carrega também uma opinião sobre a importância do traje em si. A moda, apesar de exaltar a novidade, nunca é completamente nova; existem inspirações diretas ou indiretas em estilos anteriores, bem como a permanência de tecidos, estruturas do traje, etc. Porém, novos tecidos podem surgir, assim como novas técnicas, cores e formas. A união entre esses tempos, a “confusão” entre passado, presente e até futuro, também vive nas roupas e, por conseguinte, na moda. Sobre o problema do traje como fonte histórica, encontramos uma reflexão de François Boucher, historiador francês do vestuário. Em sua coletânea geral sobre a história do traje no Ocidente, o autor refletiu a respeito do uso da roupa como fonte, que ele chama de “peça documental”. 44 Para ele, assim como para Roche, o problema está no fato de que se encontram exemplares originais apenas dos últimos séculos e os mesmos estão disseminados em diversos pontos do globo. Boucher considerou essencial em seu trabalho colocar em primeiro lugar os trajes mesmos. Sempre que possível, referiu-se às peças da vestimenta que foram salvas da 43 BAUDELAIRE, Charles. Sobre a modernidade: o pintor da vida moderna. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996. p. 8. 44 BOUCHER, François. Op. cit., p. 09. 91 destruição. Deve-se levar em conta que a maior parte das peças que existem nas coleções públicas e privadas remontam raramente a períodos anteriores ao século XVII. Mesmo daquele século se conhecem poucas vestimentas autênticas, exceto na Inglaterra e nos países nórdicos, e são especialmente raras as que se conservaram desde a Idade Média. Boucher nos mostra uma deficiência mundial no que se refere a espaços de preservação do traje. Segundo ele, há poucos museus especializados no tema; na maior parte das vezes, o que se encontra são seções dedicadas às vestimentas em museus mais gerais. Porém, não existiam coleções desse gênero anteriores a 1850. Outro problema apontado é o fato de que, nesses espaços, frequentemente, os trajes só são considerados como elementos decorativos ou acessórios secundários. Um exemplo internacional de museu dedicado exclusivamente às vestimentas é o Instituto da Indumentária de Kyoto (IIK), no Japão. Ele apresenta, em seu acervo, trajes ocidentais e orientais a partir do século XVII. Essa instituição entende a vestimenta a partir de uma perspectiva sociológica, histórica e artística. A instituição considera que a vestimenta é uma forma de expressar os sentimentos humanos básicos, e que tal expressão variou ao longo do tempo 45. Foi fundada em 1978 e abriga uma das coleções de peças do vestuário mais completas do mundo. A ênfase de seu acervo é a indumentária feminina ocidental. O Instituto reúne uma ampla gama de peças históricas, como: roupas de baixo, calçados e acessórios de moda, cujas datas de fabricação vão desde o século XVII até a atualidade. Atualmente a coleção do IIK compreende dez mil artigos de vestimenta e mais de vinte mil documentos impressos. Os materiais se constituem principalmente de roupas ocidentais e artigos relacionados com a mesma, como roupa de baixo, roupa branca e acessórios. A diversidade do acervo é comprovada pela presença de peças como um corselete de ferro com o corpo bordado que data do século XVII e que se usava na época Elisabetana46, até trajes atuais de criadores como Yves Saint Laurent e Calvin Klein. O acervo foi composto através da doação de designers contemporâneos e de 45 INSTITUTO DE LA INDUMENTARIA DE KIOTO. Moda: una historia desde el siglo XVIII al siglo XX. Tomo I: siglo XVIII y siglo XIX. Colônia: Taschen, 2006. P. 13. 46 Idem, p. 14. 92 colecionadores particulares. O ambiente é profissionalmente controlado; a temperatura e a umidade são cuidadosamente vigiadas. Esses procedimentos garantem que a coleção esteja a salvo do passar do tempo e de outros fatores de deterioração. O IIK somente substitui algum artigo da coleção quando é estritamente necessário e nesse caso o faz cuidando ao máximo dos detalhes. Segundo Akiko Fukai, diretora principal do Instituto da Indumentária de Kioto, a instituição possui uma política própria. Essa seria oposta à tendência geral das últimas duas décadas, que dá mais atenção ao estabelecimento da estrutura museística que à qualidade dos artigos contidos na instituição47. Dessa maneira, o Instituto não conta com um espaço próprio de exposição em grande escala, realizando, a cada quatro ou cindo anos, grandes mostras que são alocadas em diferentes museus pelo mundo. As exposições são concebidas, a fim de apresentar a história geral da moda ocidental como uma propriedade cultural universal da qual todos podem desfrutar. Nesse ponto surge um importante debate sobre as especificidades do trabalho com as vestimentas. Conforme a curadora do IIK, uma exposição sobre indumentária requer um enfoque diferente do que uma de pintura ou escultura48. Um exemplo dessa diferença é a necessidade do uso de manequins para mostrar a roupa. A maior parte dos museus reconhece que estes são um elemento básico para a adequada exibição das peças. Surge, então, um problema: a moda alterou-se no transcurso do tempo, tanto na técnica de fabricação da roupa como na forma básica do corpo feminino. A solução encontrada pelo IIK foi a construção de manequins específicos para cada período, representado pelas peças do acervo que foram expostas. Para isso, foi realizado um estudo das medidas de cada época. Assim, chegouse a quatro tipos de manequins especificamente desenhados e que foram reconhecidos internacionalmente por seu caráter inovador. Os principais museus internacionais com acervos de traje utilizam os manequins criados pelo IIK, entre eles o Museu da Moda e da Indumentária de Paris (Palácio Galliera), o Museu Victória e Albert de Londres, e o Metropolitan de Nova York. 47 Ibidem, p. 14. 48 INSTITUTO DE LA INDUMENTARIA DE KIOTO. Op. cit., p. 20. 93 A cidade de Paris, capital histórica da moda, não podia deixar de contar com um museu exclusivo para a roupa. Sua história inicia na década de 1920, quando a cidade recebeu a doação de 2000 peças de roupas e acessórios do pintor Maurice Leloir, então presidente-fundador da Sociedade da História do Traje. Essas peças compuseram a pequena coleção de trajes do Museu Carnavalet. Em 1954 uma exposição de trajes do século XVIII nesse museu alcançou tal sucesso que a cidade resolveu criar um museu autônomo para a indumentária. Em 1956, inaugurou-se o Museu do Traje da cidade de Paris; sua administração ficava no Museu Carnavalet e suas exposições aconteciam no Museu de Arte Moderna. Com o tempo, o aumento no volume de doações acabou gerando um problema de espaço físico49. No ano de 1977, a prefeitura de Paris decide instalar no Palácio Galliera o Museu da Moda e do Costume. Desde 1994, o museu conta com um espaço suplementar reservado ao atelier de restauração: são 5000 metros quadrados situados na periferia da cidade e equipados com tecnologia de ponta. Em 1997, o museu muda de nome para Museu Galliera, Museu da Moda da Cidade de Paris. Nessa época, as aquisições realizadas através de doações particulares e das maisons de alta costura enriqueceram consideravelmente suas coleções. Atualmente, a instituição possui mais de 100 000 vestimentas e acessórios. O acervo do Galliera é considerado um dos mais completos do mundo. Suas peças são o reflexo dos códigos do vestir e dos hábitos vestimentares na França, do século XVIII aos nossos dias. As coleções são conservadas num espaço de reserva, enquanto a conservação do Museu Galliera é organizada em departamentos. A constituição desses setores permitiu a classificação e o estudo aprofundado dos fundos, que se caracterizam em primeiro lugar pela qualidade e a diversidade. Os fundos revelam e refletem a vida cotidiana das classes superiores a partir da metade do século XVIII. A reserva é organizada levando-se em conta a semelhança entre as peças – de classificação e cronologia. A aparição das grifes, no final da década de 1860, gerou uma classificação por ordem alfabética das peças pertencentes a cada marca. As peças que não possuem marca são divididas por tipologia. O acervo do museu está sendo informatizado. A reserva do museu não é acessível 94 49 http://www.paris.fr/loisirs/musees-expos/musee-galliera 50 http://www.vam.ac.uk ao público, sendo realizada uma grande exposição anual. Além disso, a instituição organiza pequenas mostras em espaços alternativos de exposição. O Museu Victoria and Albert de Londres não é exclusivo de indumentária, mas possui uma importante seção dedicada aos trajes e à moda, e outra para têxteis. As coleções possuem uma parte de exposição permanente, além da elaboração periódica de exposições temáticas. A editora vinculada ao museu publica inúmeros livros que tratam de assuntos teóricos e práticos do campo da moda. O acervo é dividido por períodos e nota-se uma intenção didática de contar a história da vestimenta50. No Brasil, não possuímos nenhum museu exclusivamente dedicado ao traje, até o presente momento e de meu conhecimento, mas encontramos muitas coleções pulverizadas por esse extenso território. Não pretendo apontar todas nesse espaço, mas dar uma ideia geral de alguns locais, começando pelo Estado do Rio Grande do Sul. Já mencionei neste texto o acervo existente no Museu Júlio de Castilhos51. Outro lugar conhecido por possuir um pequeno acervo em exposição permanente de trajes e objetos de indumentária é o Museu da Baronesa na cidade de Pelotas52. A instituição possui roupas femininas e masculinas do século XIX e início do XX, bem como leques e objetos de toucador. No Museu Militar da cidade de Porto Alegre, encontra-se um acervo de fardas confeccionadas a partir do século XIX53. No Estado do Rio de Janeiro encontram-se acervos de trajes distribuídos em inúmeros locais. No Museu Imperial na cidade de Petrópolis encontramse roupas que pertenceram à família imperial brasileira54. Na cidade do Rio encontra-se um acervo no Museu Carmem Miranda, composto por trajes que pertenceram à cantora55. Também podem citar-se outros locais, tais como: Museu Casa de Benjamin Constant, Museu Casa de Rui Barbosa, Museu da República, Museu do Índio, e alguns museus militares. Um dos mais destacados centros de documentação no país que apresenta um acervo de trajes e iconográfico relacionado com a moda e a 51 http://museujuliodecastilhos.blogspot.com.br 52 http://www.museudabaronesa.com.br/ 53 http://www.museumilitar.com.br 54 http://www.museuimperial.gov.br 55 http://carmen.miranda.nom.br 95 indumentária é o Museu Histórico Nacional. Localizada na cidade do Rio de Janeiro, a instituição conta com uma coleção doada por Sophia Jobim Magno de Carvalho, que ministrava a disciplina de Indumentária Histórica na Escola Nacional de Belas Artes. Através de suas constantes viagens pelo mundo, colecionou um vasto acervo de trajes típicos, fundando, em 1960, o primeiro Museu de Indumentária Histórica e Antiguidades da América Latina em sua residência no bairro carioca de Santa Teresa. Os trajes típicos são preservados na reserva técnica do museu. A Biblioteca da instituição abriga livros e mais de mil documentos iconográficos sobre o tema56. A intenção deste artigo foi chamar a atenção para o desafio e a necessidade de constituirmos acervos de indumentária em nosso país. Comecemos pela valorização dos acervos já existentes, inserindo-nos como pesquisadores, a fim de desenvolver trabalhos que levem ao conhecimento de um público mais amplo a importância dos mesmos. Afinal, será que nós somos aquilo que vestimos? As roupas e ornamentos, desde a pré-história, não têm apenas funções protetoras, mas carregam uma forte carga de significados. A indumentária e a moda caracterizam diversos grupos sociais e marcam as mudanças no tempo. A moda também exercita a alteridade dos sujeitos, na medida em que esta se multiplica em formas e estilos, dando margem a escolhas que nunca são casuais, mas que estão pautadas no desejo de ter e de parecer. Nas palavras de Elizabeth Wilson, a moda revela a ambiguidade da nossa identidade, da relação do eu com o corpo e do eu com o mundo .57Conforme a autora, “as roupas parecem preencher um certo número de funções sociais, estéticas e psicológicas; elas juntam-nas e expressam-nas todas simultaneamente”58. Essas funções sociais dos trajes estão presentes desde o vestuário antigo até o moderno. Haveria um paradoxo no fato de que, por um lado, a indumentária pode servir para que o indivíduo crie uma identidade e vincule-se a outros indivíduos com quem possa compartilhála, de certa forma massificando-se. Por outro lado, a pessoa pode afirmar 56 http://www.museuhistoriconacional.com.br 57 WILSON, Elizabeth. Enfeitada de sonhos – moda e modernidade. Rio de Janeiro, Edições 70, 1985. 96 58 Idem, p.14. 59 LAVER, James. apud LURIE, Alison. A linguagem das roupas. Rio de Janeiro: Rocco, 1997. uma identidade, contrariando as expectativas sociais, através da adoção de uma determinada forma de trajar. Conforme James Laver, “as roupas são inevitáveis. São nada menos que a mobília da mente tornada visível.”59. Portanto, é necessário que tomemos para nós, historiadores e designers de moda, a tarefa de refletir sobre os acervos de trajes existentes no Brasil, bem como conhecer e valorizar o trabalho que já vem sendo feito nesse sentido. Além, é claro, de planejar a constituição de novos acervos. E quem sabe a criação de um museu brasileiro dedicado exclusivamente às vestimentas possa deixar de ser um sonho para se tornar um desafio e finalmente uma realização. Referências Bibliográficas ARENDT, Hanna. A vida do espírito. O pensar. O querer. O julgar. V. 1O pensar. Rio de Janeiro: UFRJ, 1992. BAUDELAIRE, Charles. Sobre a modernidade: o pintor da vida moderna. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996. BOUCHER, François. Historia del traje em ocidente. Barcelona, Espanha: Editora Gustavo Gili, 2009. CALLAN, Georgiana O’Hara. Enciclopédia da moda. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. 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Rio de Janeiro, Edições 70, 1985. http://carmen.miranda.nom.br http://museujuliodecastilhos.blogspot.com.br http://www.museudabaronesa.com.br/ http://www.museuhistoriconacional.com.br http://www.museuimperial.gov.br http://www.museumilitar.com.br http://www.paris.fr/loisirs/musees-expos/musee-galliera http://www.vam.ac.uk 99 100 PARTE II Inovações: a tecnologia e o ensino a serviço de uma nova sociedade 101 Dinâmica Competitiva: prospectivas e novos desafios Sandra Regina Rech As the culture of fashion has changed, so also has the fashion industry and the image of fashion, but fashion itself remains alive and well, always new, always changing. Valerie Steele Grandes transformações econômicas, políticas e tecnológicas estão acontecendo no mundo dos negócios e influenciam todos os níveis sociais. Neste contexto, as organizações buscam alternativas para sobreviver, considerando que a globalização e o aumento das exigências dos consumidores incitam modificações nas estratégias competitivas. “É uma tarefa que depende das empresas e da qualidade do ambiente em que operam. O acesso às tecnologias disponíveis (gestão, equipamentos, distribuição) é um fator decisivo para o aumento da produtividade das empresas” (CNI, 2005, p.14). Historicamente precursora dos processos de industrialização, a indústria têxtil e de confecção é uma atividade cujos investimentos em tecnologia não são excessivamente altos se comparados com outros setores, mas os custos de mão de obra são decisivos para sua competividade industrial, além da capacidade de empregar grandes contingentes de pessoal (AGIS, 2010). De acordo com a Confederação Nacional da Indústria (2006), as empresas brasileiras concorrem em mercados globais e participam em cadeias de produção integradas de modo gradual, mas devem “lidar com a realidade e investir nos fatores de diferenciação, essencialmente mais imateriais que tangíveis, onde o valor acrescentado ainda é possível de obter” (AGIS, 2010, p. 93). Ferraz (1997, p. 15) afirma que a estratégia apoiada na inovação se constitui no cerne da conduta das empresas competitivas. “Seja para capturar mercados pela introdução de novos produtos (e, concomitantemente, de novos processos), reduzir lead times, ou produzir com máximo aproveitamento físico dos insumos com o objetivo de competir em preços (quando necessário)”. 102 Consoante Vale (2002), a estratégia competitiva de uma empresa decorre, necessariamente, da redução de seus custos e/ou da ampliação do valor percebido do seu produto. Essas duas possibilidades podem ser visualizadas em uma matriz de custo/valor, onde haveria, no eixo horizontal, a dimensão do valor (menor ou maior) e, no eixo vertical, a dimensão de custo (menor ou maior). Esse modelo esquemático, com quatro alternativas excludentes, permitiria a avaliação da posição competitiva de cada empresa ou setor produtivo, seja de maneira estática, em um determinado momento, ou dinâmica associada ao seu ciclo de vida (figura 1). Figura 1. Matriz Custo/Valor Fonte: VALE (2002) Na posição alto custo e baixo valor, no canto superior à esquerda, situamse as empresas e setores em extinção que vêm sustentando altos custos, com baixa competência para agregar valor. No quadrante baixo custo e baixo valor, encontram-se as empresas que produzem produtos padronizados, commodities, com baixa capacidade de diferenciação, mas com patamares de custos reduzidos. As empresas e setores emergentes, de tecnologia de ponta, que registram grande capacidade inovadora e custos elevados localizam-se no alto à direita, de passagem de alto custo com alto valor. E, finalmente, as empresas realmente competitivas situam-se na dimensão baixo custo e alto valor, pois conseguem agregar valor ao seu produto e o foco passa a ser de valor e não mais de custo. 103 Empresas distintas - quanto aos tipos de produtos, aos métodos de produção, ao porte, à nacionalidade e à competência tecnológica podem ser competitivas se, independente do volume de capital existente, diferenciarem seus produtos, investirem em capacidade produtiva ou montarem sistemas de comercialização (FERRAZ, 1997). Agis (2010, p. 109) disserta que a “criatividade e a inovação serão o grande motor da economia mundial na próxima década, a alavanca que permitirá às empresas e aos países descolarem dos estados de paralisia e bloqueio em que se encontram”, buscando corresponder às expectativas dos clientes. A criatividade é a pilastra sobre o qual assenta a presente economia norteada pela inovação. No campo empresarial, podem-se salientar quatro macrotendências, cujas combinações estabelecem a estratégia competitiva do negócio (ZAWISLAK, 2002): • Design: bens de luxo e estilo, mesmo se ao menor custo; • Manufatura enxuta: produção em fluxo contínuo por encomenda; • Cadeia: relações próximas e cooperativas para gerar vantagens competitivas; • Foco no cliente: customização e qualidade. O consumidor, resistindo a ser simples objeto de sedução por parte das marcas, é o foco de todas as estratégias mercadológicas, sendo ele próprio quem delibera as novas tendências nos dias atuais. “É a década do cool hunting que faz transitar as ideias das ruas para as marcas. As pessoas assumem a centralidade na comunicação de forma ativa. É a década do facebook ou twitter” (AGIS, 2010, p. 198). Traçando a evolução tecnológica, produtiva e mercadológica das indústrias têxteis e de confecção, podem-se destacar duas grandes variantes competitivas: (a) valor adicionado; (b) baixo custo. O foco de agregação de valor é aquele que permite às empresas obterem ganhos muito acima do chamado cálculo econômico. Ou seja, para poderem praticar preços de mercado que estão muito acima dos custos de produção – muitas vezes essa diferença pode chegar a mais de dez vezes, o que permite margens elevadíssimas, essas empresas devem estar fortemente calçadas por estratégias de inovação naquilo que é o 104 elemento chave da validação do valor: o consumidor e seu imaginário. Diversificação de produtos, desenvolvimento de grifes, segmentação de consumo são algumas das armas disponíveis. Porém, mais do que a simples adoção de um ou outro elemento, as empresas devem estar baseadas, principalmente, por tecnologias de ponta, design avançado, altos níveis de qualidade e marketing proativo para a consolidação das marcas (ZAWISLAK, 2002, s/p.). O segundo foco de desempenho competitivo manifesta-se a partir da impossibilidade de obter as características da agregação de valor em curto prazo. Nessa conjuntura, o nível de importância para a competitividade das propriedades dos produtos irá alterar conforme o nível de renda do consumidor. Ao buscar a redução de custos, a empresa estabelece o valor do produto como sendo menor custo e o nível de qualidade mínima para o atendimento das funções desejadas, oferecendo produtos com um custo tal que o consumidor consegue comprá-los a preços competitivos no mercado. Com os custos de produção, por via de salários e da diminuição dos horários de trabalho, a dispararem nos países industrializados, desde o início da década de setenta, desenhou-se rapidamente um processo de deslocalização de produção, pelo qual as empresas se libertaram progressivamente das suas unidades produtivas não competitivas, limitando-se a conservar apenas os departamentos onde se gera maior valor acrescentado, a concepção (engineering) e design dos produtos, a produção industrial de artigos de altas gamas e tecnologicamente mais avançados e, claro está, o controle da cadeia de distribuição e vendas, passando todo o resto para os países terceiros, instalando fábricas próprias, ou adquirindo localmente a capacidade produtiva. Os efeitos imediatos estão bem de ver – menos empresas e menos empregos, mas mais crescimento nos volumes de negócios da atividade têxtil e moda (AGIS, 2010, p. 91). Para obter um desempenho acima da média industrial, Porter (1993, p. 10) afiança que os dois tipos de vantagens competitivas, associados ao escopo de atividades da empresa, conduzem a três estratégias genéricas: (a) liderança de custo; (b) diferenciação, (c) enfoque. O autor garante que se uma empresa almeja conquistar uma superioridade competitiva, tem 105 que escolher o tipo de vantagem competitiva que procura obter e sobre qual desígnio irá alcançá-la. “Ser tudo para todos é uma receita para a mediocridade estratégica e para um desempenho abaixo da média, pois normalmente significa que uma empresa não tem absolutamente qualquer vantagem competitiva” (PORTER, 1993, p. 10). Podem-se identificar quatro estratégias competitivas genéricas nos setores têxtil e de confecção: (a) volume; (b) especialização; (d) produtividade; e, (e) fragmentação ou moda (SCTDE/SP, 2005). Os fatores críticos de sucesso da estratégia de fragmentação, base da cadeia produtiva da moda, são a criação; a qualidade e a comercialização do produto. Uma indústria que opta por esta estratégia competitiva tem como preceitos: (a) a máxima diferenciação de seus produtos; (b) velocidade de resposta aos sinais do mercado; (c) incentivo criativo; (d) inovação do produto. Distingue-se, por conseguinte, pela fabricação de artigos não padronizados, de maior valor agregado e em quantidades limitadas, o que permite lucratividade elevada. Verifica-se, igualmente, um padrão nas estratégias adotadas por empresas reconhecidas internacionalmente, suscitando uma demanda mais dinâmica por meio: (a) da diferenciação dos produtos; (b) da diminuição do ciclo de vida; (c) da renovação permanente em moda, estilo e design; e, (d) da criação de novas necessidades e desejos nos consumidores. De modo alternativo, os mercados de empresas frágeis são conquistados, quer através da aquisição de firmas, quer pela eficiência em preços/qualidade/ distribuição, visando à expansão das taxas de crescimento da demanda nos produtos básicos (FERRAZ, 1997). No caso da cadeia produtiva da moda, o “importante é que a estratégia seja coerente com o ambiente externo e a cultura da empresa, maximize as oportunidades, minimize as ameaças e seja bem implementada” (GONÇALVES, 2000, p. 31). Logo, a capacitação competitiva desta cadeia produtiva decorre do estabelecimento de estratégias específicas “que deverá respeitar a racionalidade do mercado, potencializando vantagens comparativas estáticas, recursos naturais, humanos e insumos industriais locais e [...] capacitação tecnológica e empresarial” (BRUNO, 2005, p.19). Saviolo (2000) ressalta que o fato de um país desenvolver vantagem competitiva em mais de uma fase da cadeia produtiva é, em geral, determinante para a liderança em nível internacional de seus produtos. O fluxo mundial de capital, tecnologia e know-how são relevantes junto a todo o processo de desenvolvimento do produto final, tornando-se veloz e difuso 106 em nível global e proporcionando um ambiente competitivo. A European Apparel and Textile Organization – Euratex (2004) propõe três pilares para o desenvolvimento de vantagens competitivas em longo prazo para a cadeia em questão: • Uma mudança de fibras, filamentos e tecidos commodities para produtos especializados a partir de processos altamente tecnológicos e flexíveis; • O estabelecimento e a expansão dos têxteis para muitos outros setores e para novas aplicações (SANNWALD, 2003; SMITH, 2003; MATEOS, 2003, 2004; JORNAL TÊXTIL, 2004, 2005); • O fim da era da produção em massa dos produtos têxteis, mudando para um novo paradigma de customização, personalização, produção inteligente, logística e distribuição – mass customisation (BRANNON, 2000). As transformações tecnológicas ocasionaram implicações sobre a concorrência internacional, sobretudo no que se refere: (a) à demarcação de novos ambientes competitivos internacionalizados; (b) ao aceleramento da inovação tecnológica com abreviação do ciclo de vida de produtos e de processos; (c) à ampliação da diferenciação de produtos. “No novo paradigma competitivo predomina qualidade de produto, flexibilidade, rapidez de entrega e [inovação] e, além da racionalização dos custos de produção. Definem-se, consequentemente, novos critérios para a competitividade industrial” (FERRAZ, 1997, p. 33). Pereira (2003, p.1) assevera que “o valor de um produto está não só na posse do tangível, mas, sobretudo, no seu desempenho ao longo do ciclo de vida: concepção, [fabricação], manutenção, desmontagem, reciclagem e no seu conteúdo de funcionalidade”. O mercado tornou-se mais exigente, e trouxe modificações para o tecido industrial. Atualmente, requisitos como flexibilidade; qualidade; inovação; criatividade e seletividade são reconhecidos como instrumentos estratégicos para as organizações. Ferraz (1997), ante a multiplicidade de paradigmas de concorrência, analisou quatro conjuntos de indústrias: (a) grupos de indústrias produtoras de commodities, (b) de bens duráveis e seus fornecedores; (c) indústrias tradicionais; e, (d) produtores de bens difusores de progresso técnico. Para esta delimitação, os grupos foram classificados conforme 107 a demanda (tipologia das indústrias segundo as categorias de uso); e, de acordo com a oferta (sistemas técnicos de produção, padrões de geração de inovações e fluxos tecnológicos intersetoriais). As indústrias têxteis e de vestuário pertencem ao grupo de indústrias tradicionais, pois “independentemente do sistema técnico de produção adotado (contínuo ou montagem) têm como identidade a elaboração de produtos manufaturados de menos conteúdo tecnológico, destinados ao consumo final” e são setores subjugados tecnologicamente pelos seus fornecedores de equipamentos e insumos (FERRAZ, 1997, p. 34). Presentes em países industrializados e em processo de desenvolvimento, as indústrias tradicionais foram as primeiras a evoluir do artesanato para o sistema fabril. A heterogeneidade competitiva distingue esse grupo de outros setores em todo o mundo, marcada por organizações com baixos níveis de competitividade e pela não padronização uniforme de estratégias competitivas (FERRAZ, 1997). Segundo o autor, as características mais importantes deste aglomerado são: • • Atuam em mercados segmentados; O grau de importância dos atributos dos produtos como preço, marca e adequação ao uso se modifica mediante a renda dos consumidores; • Possuem atividades tecnicamente semelhantes, procurando operar em mercados totalmente diferentes; • De modo extremo, são suscetíveis às oscilações na demanda que exercem reação sobre os investimentos; • No campo do design, realizam esforços para se fixarem no mercado; • Atendem os prazos de entrega; • Predominam atividades de montagem em lotes ou em massa; • Oferecem ampla variação de produtos de pequena intensidade tecnológica e poucas exigências para escala mínima produtiva. No grupo tradicional está refletida a heterogeneidade competitiva da indústria brasileira, explicada pelos fortes desníveis de renda da população, implicando padrões de reivindicações muito diferenciados quanto aos atributos dos bens produzidos. “Como os mercados são segmentados pela renda, em todas as indústrias há grande variância nos níveis de eficiência produtiva e capacidade de atendimento a conformidades técnicas, bem como amplas faixas de preços e de sofisticação dos produtos”, acarretando 108 a fragilidade das bases de sustentação da competitividade para este tipo de indústria (FERRAZ, 1997, p.345). Contudo, por causa da inexistência de barreiras à entrada de novas firmas, em termos do capital mínimo necessário para efetuar e comercializar a produção no mercado, a demanda por bens tradicionais está relativamente saturada nos países desenvolvidos, existindo alguns fatores críticos de concorrência (quadro 1). Nesta realidade, são mais competitivas empresas aptas a fabricar e vender produtos para nichos exclusivos de consumidores, possibilidade aberta para micro e pequenas empresas profundamente individualizadas pela tecnologia, pela moda e criatividade e pela amplitude de serviço (KOTLER, 2000). Padrão de Concorrência Tradicionais Fontes das Vantagens Competitivas • Interno à Empresa • Qualidade • Gestão Controle da Qualidade • Produtividade Estruturais • Segmentação por níveis de renda e tipo de produto • Preço, marca, rapidez de entrega, adequação ao uso • Local / Internacional Mercado • Configuração da Indústria Regime de Incentivos e Regulação (inclusive fatores sistêmicos) Economias de aglomeração • Formação de redes horizontais e verticais Tecnologia industrial básica, informação tecnológica e serviços de treinamento de pessoal • • • Defesa da concorrência Defesa do consumidor • Tributação • Antidumping Quadro 1. Padrões de concorrência no grupo industrial tradicional: fatores críticos de concorrência Fonte: Adaptado de FERRAZ (1997, p. 44) 109 Tratando-se da competitividade de MPEs (micro e pequena empresas), outra probabilidade de manutenção e ampliação dos mercados refere-se à aquisição da lealdade dos consumidores, “investindo na diferenciação de produtos e eficiência na distribuição. Os custos de manutenção dessa fidelidade – desenvolvimento de produtos e esforços de venda – representam parcela significativa dos custos totais” (FERRAZ, 1997, p. 211). Como exemplo, pode-se citar a Itália, principal exportador mundial de calçados, que congrega inúmeras pequenas empresas com tradição em design. Assim sendo, na cadeia produtiva da moda, observa-se que somente as indústrias praticantes da segmentação com valor agregado e as que investem em design deverão sobreviver. Polos estratégicos de competitividade Segundo Rabellotti (1999), os novos espaços industriais podem ser demarcados em termos de quatro fatores determinantes: Fatores espaciais e locais: uma concentração espacial e uma especialização setorial de pequenas e médias empresas; • Fatores sociais e culturais: uma sólida base cultural e social comum a todos os agentes econômicos e o estabelecimento de um código de conduta largamente aceito, mas, comumente implícito; • Fatores econômicos e organizacionais: um conjunto de fortes ligações horizontais entre os agentes econômicos fundamentado na troca formal e informal de bens, serviços, informações e pessoal; • Fatores políticos e institucionais: uma rede de organizações públicas e privadas apoiando os atores econômicos operantes no espaço. • Apesar de a constituição de agrupamentos ser ainda bastante restrita no Brasil, existindo pouca tradição associativa, podem-se apontar três motivos para o estudo dos polos estratégicos de competitividade da cadeia produtiva da moda brasileira (IEL, 2000, p. 323): 110 • • • A observação “dos paradigmas e dos casos bem-sucedidos de experiência de desenvolvimento de polos enriquece muito a análise” da competitividade; Os polos devem ser protegidos, pois são minicomplexos industriais, “com elevada geração de externalidades em toda a cadeia [produtiva da moda], generalizando os benefícios desde a fiação até a confecção final, o lançamento de moda e campanhas que visam afortalecer o polo”; O exame de cases bem-sucedidos de revitalização de polos tem atributos específicos que devem ser observados num estudo da competência “de mobilização da classe empresarial, no sentido de uma ação coletiva de recuperação da capacidade produtiva e da imagem do polo, sustando um processo de degradação e fechamento de indústrias com geração maciça de desemprego”. Silva (2002) relata que, atualmente, as perspectivas de organização das empresas em distritos industriais, ou clusters setoriais especializados, são mais otimistas em função: (a) da possibilidade de superação restritiva ao crescimento; (b) do incremento da competitividade em mercados distantes, nacionais e internacionais; e, (c) da obtenção de ganhos de eficiência. Desde os anos 1980, “foram se acentuando, com mais força, o dinamismo tecnológico e competitivo de aglomerações industriais localizadas em regiões específicas [...], [que] possuem um forte poder de inovação, seja tecnológico ou mesmo organizacional” (RUPPENTHAL, 2001, p. 61). Por isso, nas últimas décadas, houve um aumento da literatura pertinente ao assunto, sendo que a ênfase na importância da proximidade geográfica e do relacionamento entre empresas é dada por autores das mais diversas áreas de estudo e correntes teóricas. Destarte, um grande número de trabalhos conduziu a uma fragmentação na literatura e confusão na terminologia, visto a diversidade de abordagens (BERGMANN, 1999). Em particular, tem-se percebido uma propensão à utilização de termos como aglomeração, cluster, difusão (embeddedness), meios (milieux), polos, complexos, de forma mais ou menos intercambiável, com significados levemente diferenciados e pouca preocupação com questões operacionais (SILVA, 2002; LIRA, 2005). A ideia central é que, por meio do desenvolvimento de tais aglomerações, é possível gerar vantagens competitivas avançadas (principalmente em matéria de conhecimento e inovação), de particular relevância para o 111 grupo de micro, pequenas e médias empresas, concentradas em um mesmo território. Porter (1993) tem sinalizado que a energia e a solidez da capacidade competitiva dos agrupamentos produtivos têm seus alicerces na criação de conhecimento especializado e na sua competência de inovação. “Estas fontes superiores de competitividade surgem da interação entre empresas que são capazes de competir e de colaborar” (LIRA, 2005, p. 86) [tradução da autora]. Pelo Termo de Referência para a Política de Apoio ao Desenvolvimento dos Arranjos Produtivos Locais - APL, elaborado pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior do Brasil – MDIC (2005), um APL distingue-se: • Pelo expressivo número de empreendimentos locais e pela atuação de indivíduos em torno de uma atividade produtiva dominante; • Pelo compartilhamento, pela cooperação e por algum mecanismo de governança, incluindo pequenas, médias e grandes empresas; No país, diversos arranjos produtivos locais já foram implantados, e estudos realizados comprovam que a criação de polos de confecções é primordial para a sobrevivência das micro, pequenas e médias empresas, ponderando que (IEL, 2000); • • • • Existe uma grande incidência dessas empresas dentro da cadeia produtiva da moda; Há uma carência de financiamento para capital de giro e para investimentos em maquinário moderno; A pequena escala de produção compromete tanto o relacionamento com fornecedores de matéria-prima como com os clientes; A centralização das compras de matéria-prima, dos canais de distribuição e a aquisição de máquinas de uso compartilhado (CAD-CAM) são vitais para a garantia da competitividade. Bruno (2005) elaborou uma análise diagnóstica dos principais polos brasileiros de confecção de malha prêt-à-porter, considerando cinco macroprocessos: (a) gestão de materiais; (b) gestão de processo; (c) gestão de 112 produto; (d) gestão da distribuição de produto; e, (e) gestão da informação. Zawislak (2002, s/p.) descreve algumas características dos polos produtores de moda: • São apoiadas “em estruturas comunitárias para o desenvolvimento de tecnologia, para o suporte financeiro e de marketing”; • Nota-se “a presença de unidades familiares coesas, relações cooperativas entre firmas e atores da comunidade, e um ambiente institucional favorável às pequenas empresas”. Conforme a bibliografia concernente ao tema, podem-se apontar alguns casos de polos produtivos bem-sucedidos no Brasil, esboçando os aspectos e as experiências de sustentação da competitividade, especialmente, de micro e pequenas empresas: • Rio de Janeiro: até a década de 1980, foi um dos maiores aglomerados brasileiros de moda. “Atualmente, existem em curso expressivos movimentos para tornar o Estado novamente um polo têxtil e de confecção de significativa importância nacional” (BRUNO, 2005, p. 21). O arranjo produtivo mais conhecido é o de Nova Friburgo, também intitulado circuito das malhas da serra fluminense. Compreendem mais de oito mil empresas, lojas e indústrias dedicadas à produção de artigos de malha dos municípios de Nova Friburgo (moda íntima e lingerie), Petrópolis (malha circular, incluindo produtos de vestuário na categoria de commodities diferenciados) e Teresópolis (malharia retilínea). A comercialização de seus produtos em atacados próprios, para sacoleiras e pequenos varejistas, é uma de suas particularidades mais marcantes. Outro importante segmento do complexo carioca é a moda praia, sendo que o Estado concentra os principais produtores do País. • Minas Gerais: é o segundo maior centro difusor de moda feminina, respondendo por 10% da produção nacional, sendo 45% comercializada localmente. “Suas características são de elevada pulverização e heterogeneidade tecnológica, com predominância de médias, pequenas e microempresas, com equipamentos tradicionais no regime familiar, com poucas empresas de médio e grande porte” (IEL, 2000, p. 344). O polo de Monte Sião, dedicado à produção de produtos de malharia retilínea, 113 engloba as cidades de Socorro, Serra Negra, Lindóia, Jacutinga, Ouro Fino e Monte Sião. Somente neste último município, 80% da população de 20 mil habitantes ocupam-se da produção de tricot. • São Paulo: as confecções e lojas atacadistas dos bairros do Brás e do Bom Retiro, da cidade de São Paulo, são responsáveis por 40% da produção estadual. O polo de Americana inclui empresas pertencentes aos municípios de Americana, Nova Odessa, Santa Bárbara d’Oeste e Sumaré. “Os quatro municípios [...] possuem tradição em um ou mais segmentos da cadeia têxtil, mantendo inter-relações com os demais elos nos municípios vizinhos“, onde se localizam atividades que se desdobram por toda a cadeia – fiação, tecelagem, tinturaria, estamparia e confecção (SOUZA, 2001, s/p.). “É o maior polo produtor de tecidos planos de fibras sintéticas e artificiais da América Latina. Esse polo guarda a importância de abrigar grandes empresas do sistema têxtil, cujas origens remontam às pequenas plantas” (IEL, 2000, p. 324). • Ceará: Sobbota (2001) relata que o Estado é um dos mais importantes centros têxteis do país, responsável por 17% da produção nacional, sendo que a principal matéria-prima utilizada é o algodão. As empresas pequenas produzem uma multiplicidade de modelos em lotes produtivos menores, destinados às distintas classes de renda, com extraordinária participação em várias linhas de produção: roupa íntima, roupa de dormir, roupa esporte, moda praia, roupa infantil, roupa masculina e jeans (MELO, 2000). • Santa Catarina: o polo do Vale do Itajaí concentrado, principalmente, em oito municípios (Brusque, Blumenau, Jaraguá do Sul, Gaspar, Rio do Sul, Timbó, Indaial e Pomerode), apresenta uma estrutura industrial diversificada. Considerado o maior aglomerado têxtil e de vestuário do Sul, é, igualmente, o principal centro exportador de confeccionados de malha e artigos de cama, mesa e banho brasileiros (BRUNO, 2005). A gestão familiar é peculiar a este arranjo, composto por, aproximadamente, 130 empresas têxteis e 244 confecções, na sua maioria, pequenas e médias. Outra característica é a modernização administrativa, com investimentos em itens de maior valor adicionado e em marcas próprias. Situam-se, nesse polo, nove das maiores empresas têxteis do país, gerando elevados faturamentos estaduais. 114 A base dos artigos têxteis produzidos pelo arranjo é o algodão, destacandose pela produção de artigos de malha para vestuário. A possibilidade da divisão das atividades produtivas na cadeia têxtil/vestuário faz com que se possa trabalhar com uma estrutura produtiva fragmentada. Assim, a estrutura industrial apresenta grande diversidade de tamanho. Existem empresas integradas verticalmente (fiação, tecelagem, acabamento e confecção), semi-integradas (tecelagem, acabamento e confecção), empresas que terceirizam suas atividades de confecção e confecções que terceirizam seus processos de acabamento e tecelagem. Normalmente, o grau de integração vertical depende do tipo de artigo comercializado. Empresas que comercializam cama, mesa e banho são normalmente integradas verticalmente. Porém, a maioria das empresas compra o fio pronto. Empresas que comercializam artigos de vestuário terceirizam pelo menos uma etapa do seu processo produtivo (BRUNO, 2005, p. 48). Figura 2. Mapa estratégico da indústria têxtil 2007-2015 Fonte: CNI (2005, p. 13) O aumento da pressão competitiva, principalmente por parte dos países em desenvolvimento, estimula a valorização dos pontos tradicionais de força das empresas e a intervenção contundente nos fracos. Saviolo (2000) expõe que o desenvolvimento da cadeia, como um todo, advém não somente do esforço empresarial individual, mas, sobretudo, da interrelação entre a empresa e os interlocutores externos – fornecedores, clientes, intermediários, consultores, governo. A autora observa as estratégias 115 interempresas como uma fonte de vantagem competitiva diferençável, seja para as microempresas, seja para todo o sistema produtivo e distributivo, implicando um desenvolvimento de fórmulas contratuais e de mecanismos operativos visando à melhoria da gestão empresarial. O escopo é avivar um processo de inovação contínua que, por si mesmo, produza vantagens competitivas sustentáveis para toda a cadeia produtiva da moda, como demonstrado no Mapa Estratégico da Indústria Brasileira (figura 2), editado pelo Governo do Brasil, expressando um conjunto de objetivos, metas e programas que envolvem o desenvolvimento de instituições e a execução de políticas basais para estimular o crescimento da economia brasileira. Modelos de competitividade: França, Inglaterra, Itália, USA, Ásia A partir dos anos 1980, o movimento de renovação da moda se acentuou em vários países - França, Inglaterra, Itália, Estados Unidos - e no continente asiático. Esses mercados, altamente instáveis, são caracterizados por: (a) produtos com ciclos curtos de vida; (b) procura não previsível por bens; (c) consumidores específicos; (d) padrões múltiplos de comércio; (e) dificuldades no comércio além-fronteiras; (f) estagnação das condições econômicas (CENESTAP, 2005). A seguir, apresenta-se uma breve referência aos modelos competitivos desses países. França: da alta-costura ao polo de luxo Feghali (2001, p. 46) relata que, a partir do século XVII, a França se impõe como grande produtora de moda. Nesse período, 20% da produção francesa era composta por materiais para o vestuário. “Veio o século XVIII, e a Europa começa a ser marcada por fortes mudanças sociopolíticas. Em relação à indústria do vestuário, por exemplo, a França comandou as soluções de criação” de moda. Contudo, no século XX, entre os anos 1980 e início de 1990, a alta-costura francesa atravessou um grande período de reestruturação financeira (MOUTINHO, 2000). “O prêt-à-porter assumiu o leme do barco da moda, e as inovações tecnológicas facilitaram a produção em massa de boa qualidade a preços acessíveis” (MOUTINHO, 2000, p. 287). A alta-costura também enfrentava outros sérios problemas, tais como: (a) a diminuição do número de maisons; (b) a delicada fase de substituição do couturier por uma segunda geração de estilistas que não portam o nome da maison; e, (c) a redução do número de clientes – hoje, se contabilizam 116 apenas duas mil clientes (SAVIOLO, 2000). O prêt-à-porter e, de forma crescente, a combinação de estilos/faixas de preço atraem consumidores em nível internacional. Assim, a estratégia adotada para a reciclagem da moda francesa, a partir da segunda metade dos anos 1990, foi a contratação de jovens estilistas para repaginar a imagem desgastada de certas maisons, conforme demonstrado na figura 3 (CALDAS, 1999). Figura 3: Coleção Dior Inverno 2013 concebida pelo designer belga Raf Simon Fonte: Harpersbazaar.com.br (Acesso em 01/09/2012). Atualmente, o polo de luxo francês é gestado por grandes grupos econômicos, orientados ao marketing e às finanças, que crescem em função das constantes aquisições de marcas e maisons. Os melhores resultados desse modelo de competitividade aparecem nas vendas de perfumaria, cosméticos e bebidas. 117 Inglaterra: do street fashion para o mundo O ápice da influência da Inglaterra na moda ocorreu na década de 1960, através da rebeldia dos jovens, expressa nas músicas e nas roupas, “quando a capital britânica era o centro da efervescência cultural” (CALDAS, 1999, p. 99). Brannon (2000) assinala que este era o primeiro movimento de street fashion: mods; Carnaby Street; a minissaia de Mary Quant e a famosa boutique Biba ainda encontram eco na moda atual em todo o mundo. Foi, também, na Inglaterra que surgiu o estilo punk, em meados dos anos 70, seguido por adolescentes, desempregados e estudantes. Laver (1989) alega que uma das evoluções mais significativas da moda, naquela década, foi a adaptação do visual punk, de rua, para as passarelas da alta moda. De certo modo, Londres nunca perdeu a forma, sobretudo no que se refere à cultura pop. [...] Outros pontos de referência para a cultura fashion são a música pop inglesa – o chamado britpop, de personalidade única no cenário internacional, [...] a vertente techno culture, [...] os melhores DJs do mundo e a cena noturna mais animada; e as revistas de estilo [...] que difundem para o mundo imagens de uma estética não-convencional e de sotaque rebelde, influenciando não só a moda internacional, a arte publicitária e a fotografia contemporâneas, como também o estilo de vida de jovens do mundo todo (CALDAS, 1999, p. 99). Portanto, pode-se afirmar que o modelo de competitividade da moda inglesa concentra-se nos jovens e na tradução e difusão do street-fashion, sendo um mercado atrativo por causa do seu volume, movimentando aproximadamente 32 milhões de libras em 2002 (PRIEST, 2003). Itália: da indústria de confecção à industrialização da criatividade Saviolo (2000) relata que o sucesso nacional e internacional; a criatividade e a flexibilidade da base competitiva do sistema de moda italiano resultam da inter-relação entre as empresas têxteis, as de confecções e as de distribuição especializada que operam conjuntamente como um grande laboratório - na criação, concepção e realização de uma ampla e inovadora série de produtos. A autora disserta que alguns elementos determinantes deste modelo conduzem a um home base competitivo, consoante o modelo de Porter: 118 • A procura por produtos extremamente sofisticados seja em nichos de mercado mais elevados, seja nos segmentos de faixa média e média baixa é um estímulo contínuo para produtores e distribuidores; • O desenvolvimento de uma estrutura distributiva especializada e de qualidade na oferta e no serviço, em grau de responder ao mais disparatado pedido e de canalizar adequadamente uma produção notavelmente diferenciada; • O grau de proximidade e de colaboração entre os estilistas (externos e internos às empresas produtoras) e o complexo no seu todo (fornecedores de tecidos, fios e componentes, confeccionistas, malharias); • Um articulado e difuso sistema produtivo especializado em dois fundamentos – comercial (orientação ao mercado e a inovação do produto) e produtivo (orientação à produção e à eficiência do produto, e, terceirização). A dinâmica deste modelo é consequência direta da relação intensa e profunda (de troca e de colaboração) entre as empresas e da capacidade produtiva de elevado conteúdo qualitativo constantes na cadeia de valor: da matéria prima ao conteúdo estilístico; da tecnologia a distribuição final, ao consumidor (SAVIOLO, 2000). Além disso, neste setor particular, a indústria italiana se tem mostrado fortemente antecipatória a respeito de algumas macrotendências gerais, tais como: • A substituição da oferta de produtos estandardizados e de massa por produtos mais especializados, personalizados, com maior conteúdo de elementos qualitativos materiais e imateriais; • A consequente reorientação tecnologias/processos organizativos/ flexibilidade. Em face do exposto, observa-se a passagem de um modelo integrado de indústrias, de máxima eficiência e de economia de escala, a uma concepção de empresa network, que associa a força produtiva e organizativa com o respeito e conhecimento mercadológico. Estados Unidos: do workwear à cadeia verticalizada Brannon (2000) menciona que a moda americana é símbolo do design sportswear, formatando uma alternativa às roupas tradicionais. Praticidade e conforto casual são as palavras-chave deste modelo competitivo. Estudiosos atestam que, enquanto a moda francesa traçou seu rumo pela alta-costura através da elaboração de peças individuais para cada cliente, o sportswear 119 americano dita a produção em massa de peças de roupas para as grandes lojas de departamentos, desenvolvendo, da mesma forma, uma distribuição de massa. Os americanos sabem fazer a moda mais comercial do mundo, diluindo as tendências europeias de modo a torná-las básicas, usáveis (e o procedimento é esse desde o começo do século, quando os grandes magazines e confeccionistas americanos compravam os moldes simplificados dos vestidos lançados pela alta-costura francesa). Os americanos entendem melhor que ninguém o funcionamento da moda: sabem que a definição de moda, em estatística, é o elemento mais frequente de uma amostra. Ou seja: moda, mesmo, só existe quando o mercado difunde uma tendência já lançada. Mas é preciso dominar o timing desses lançamentos e ter estratégias de marketing suficientemente poderosas para sustentá-los. Some-se a isso uma exigência de qualidade total (em termos de tecidos, acabamento) a um preço justo, e a receita americana está completa (CALDAS, 1999, p. 97). A alta-costura é focada na criação; o sportswear, nas mudanças do lifestyle do consumidor (figura 4). Hoje, o sportswear americano é um paradigma – luxuoso sem ostentação, estilo para mulheres que sabem o que querem – que se expandiu mundialmente como casual, esportivo, combinável; influenciando, também, a moda francesa e a italiana (BRANNON, 2000). Figura 4. Coleção Verão 2011 Tommy Hilfiger Fonte: thesewingclass.com (Acesso em 01/09/2012) 120 O atual modelo competitivo americano é centrado em uma cadeia produtiva verticalizada e em lojas de departamentos, com uma forte orientação ao mercado, capazes de ditar normas até aos fornecedores europeus. Em síntese, a roupa casual e a utilização inteligente do marketing proporcionaram a construção de uma posição competitiva aos Estados Unidos que, dificilmente, será atacada pelos concorrentes europeus (SAVIOLO, 2000). O modelo asiático: network produtivo e integrado A Ásia Oriental (região a leste da Península Indiana e a oeste da Austrália, compreendendo a China, Hong Kong, Taiwan, Coréia, Japão e países do sudeste Asiático) foi, por um longo período, exclusivamente uma área de produção a baixo custo para as empresas ocidentais. No último decênio, todavia, os países desta região obtiveram níveis surpreendentes de crescimento, estimulando o consumo local, por um lado, e de outro, promovendo o desenvolvimento de atores industriais no panorama têxtil e de confecção mundial (SAVIOLO, 2000). A produção de têxteis e confeccionados dessa área pode ser dividida em primeira migração e segunda migração. Entre os anos 1950 e 1960, a considerada primeira migração creditou a produção de têxteis e de confecções dos países industrializados (principalmente Estados Unidos e Alemanha) aos três maiores produtores asiáticos: Hong Kong, Taiwan e Coréia do Sul. As grandes empresas ocidentais, operando geralmente no mercado de massa, transferiram a produção de alguns de seus produtos para estas localidades, por causa da intensa mão de obra barata, que representa uma vantagem de custo. Neste período, a transferência de tecnologia e controle para assegurar a observação de determinado padrão qualitativo gerou um efeito de aprendizagem, por parte dos produtores locais, que tem sido progressivamente orientado aos produtos e atividades de maior valor agregado, incrementando a cota de produção destinada à exportação. O contingente combinado de Hong Kong, Taiwan e Coréia do Sul chegou a 10.3% das exportações de têxteis e confecções em 1980, atingindo 18.6% em 1990. Hong Kong é o líder dos três países, com um crescimento das exportações, na década considerada, na faixa de 365%. Ao final dos anos 1970, os países citados perderam progressivamente a atratividade como sítios produtores por causa do incremento do custo de mão de obra e da não disponibilidade de cotas de exportação, 121 transformando-se em centros logísticos e de serviço a favor da nova network produtiva. Isso favoreceu o crescimento de novos produtores na área: China, Tailândia, Malásia, Filipinas, Vietnam. Segundo Cruz-Moreira (2003, p. 97), “em meados da década de 80, outra grande movimentação da produção aconteceu desta vez partindo dos Tigres Asiáticos para outros países em desenvolvimento, principalmente para a China e o sudeste asiático, e também da Europa para a Turquia”. O forte desenvolvimento de trading companies japonesas, de Hong Kong e Taiwan, operando na área têxtil e de confecção, indica a formação regional de uma network organizada segundo o modelo flying geese que destacava sua liderança no processo de desenvolvimento econômico asiático, do mesmo modo em que o alocava como o principal interlocutor asiático com o resto do mundo (OLIVEIRA, 2003). No Japão, a subcontratação foi utilizada como estratégia de industrialização e desenvolvimento. Esta estratégia possibilitou o aprendizado industrial, aquisição de tecnologia, know-how de gestão e o conhecimento de mercados necessários para a inserção dos produtos japoneses no comércio internacional; [...] O sistema empresarial japonês tem no processo de aprendizagem seu fundamento [...], apesar da sua segmentação e rivalidades. Uma característica muito importante é as fronteiras permeáveis [...] que possibilitam processos intensos de cooperação entre as empresas que podem envolver capital, informações, recursos humanos e insumos (CRUZ-MOREIRA, 2003, p. 98). Esta modificação é definida como a segunda migração da indústria têxtil e de confecção, entendendo por migração o deslocamento produtivo dos três países para novas áreas circunvizinhas. A China é o principal país beneficiado pela segunda migração, e está sendo o principal beneficiário da eliminação do Acordo Multifibras e da liberação das exportações em nível mundial, ocorrido a partir de janeiro de 2005. Depois de 1997, com o retorno de Kong Hong à China, ocorreu um superávit nas exportações em nível mundial. Saviolo (2000) prevê que, neste milênio, a China será a mais forte produtora do mundo, enquanto Hong Kong desenvolverá importantes funções de centro financeiro e de serviço para toda a região 122 Dinâmica competitiva brasileira E se nos centramos na indústria da moda, à escala global, podemos facilmente inferir que uma revolução silenciosa está em marcha, tendo como líder dessa transformação um país que já é por si só o paradigma da miscigenação, da multiculturalidade, da fusão de raças, etnias culturais e de gosto: o Brasil (AGIS, 2010, p. 110). Até 1980, o setor produtivo do Brasil alcançou taxa média de crescimento de 9.5% ao ano dentre os países em desenvolvimento, segundo estimativas da UNIDO (1985), número superado apenas pela Coréia do Sul, Cingapura e Indonésia (FERRAZ, 1997). A base industrial resultante desse período de progresso industrial não divergia da maioria das outras economias. Contudo, a fragilidade do mercado interno nacional após o término do ciclo de substituição de importações, a medíocre conexão com o mercado internacional e, especialmente, a limitada capacidade das empresas brasileiras para desenvolver processos e produtos novos, constituía, já naquele momento, informações potencialmente desestabilizadores do processo de industrialização brasileiro. “Ao mesmo tempo em que a indústria mundial passava por um processo de intensa transformação, o investimento produtivo no País se contraía” (FERRAZ, 1997, p.55). Ao longo de toda essa fase, defrontando uma atmosfera macroeconômica extremamente adversa, as empresas escolheram estratégias de sobrevivência que, apesar de evidenciarem ampla capacidade de retorno, alteraram a trajetória na direção do novo modelo tecnológico e competitivo internacional de configuração irregular, com importantes lacunas, entre setores e companhias. A dinâmica do desenvolvimento empresarial, na cadeia produtiva da moda dos países industrializados, tem como ponto de convergência a incorporação dos conceitos de moda e estilo em detrimento dos produtos padronizados e massificados pelos grandes mercados. “O mundo da moda se conscientizou do seu caráter estratégico como elemento condicionante da competitividade das empresas produtoras de confecção” (GIMENO, 2000, p. 199). Logo, a competitividade das indústrias têxtil e de vestuário brasileiras consiste no emprego estratégico de fatores não preço, isto é, por meio das chamadas variáveis dinâmicas da competitividade. Os fatores qualidade e tecnologia já são empregados por parcela expressiva das corporações destes setores, todavia existem outros que ainda não são devidamente apreendidos 123 como um modo de aquisição de vantagens comparativas e, assim, não são aproveitados de forma estratégica, como o design de moda, não constituindo uma das prioridades na gestão das empresas. O domínio do processo de desenvolvimento de novas coleções até a sua colocação nos mercados, com êxito, torna-se assim vital para a resposta à significativa redução dos ciclos de vida do produto, ao controle efetivo do time to market e à exigência crescente, por parte dos consumidores, de produtos cada vez mais inovadores e adequados às preferências específicas. A resposta do design, em termos de gestão empresarial, abrange também a produção, com a adaptação às necessidades do mercado, com a racionalização e redução de custos e com o respeito pela sustentabilidade ambiental, possibilitando a construção de um território de equilíbrio operacional entre mercado e meios de produção (MIGUEL, 2003, s/p). Neste novo contexto, o design, a qualidade dos produtos e matériasprimas, e a conformidade dos produtos às especificações técnicas concentram as atenções, já que o item preço não é o foco concorrencial. “Essa tendência exige dos fabricantes, acima de tudo, a capacidade de organizar a produção de forma flexível, possibilitando respostas rápidas às alterações frequentes nas preferências dos mercados” (FERRAZ, 1997, p. 222). Zaccai (1996) ratifica que o design de moda, quando considerado em sua totalidade, afeta o sucesso econômico de um país e a qualidade de vida de seus cidadãos. Nas últimas décadas, a cadeia produtiva da moda, em nível global, tem atravessado uma profunda transformação que compreende: (a) a dificuldade de alguns grandes grupos históricos; (b) o redimensionamento de muitas empresas médias; (c) o fechamento de diversas unidades produtivas e distributivas; (d) a proteção da indústria nacional frente a produtos importados. Diferentes países desenvolvidos assumiram políticas setoriais específicas para induzir a reestruturação das empresas têxtil e de confecção, envolvendo a melhora produtividade, a racionalização da pesquisa e do desenvolvimento e a promoção das exportações, implementando políticas como subsídio para a criação de empregos, programas de treinamento profissional e auxílio desemprego específico para profissionais do setor. 124 As empresas internacionais são competitivas porque desenvolveram ferramentas bastante avançadas em produtividade e qualidade e conhecem a tecnologia. Para as empresas nacionais existe uma série de gargalos competitivos que devem ser avaliados (quadro 2), entretanto pode-se afirmar que “o distúrbio atual mais grave na concorrência nos setores de vestuário e calçado [...] é aquele derivado do crescimento das empresas informais” (FERRAZ, 1997, p. 237). É a conhecida concorrência desleal, dado que estas indústrias não pagam impostos e encargos devidos, e comercializam seus bens a um preço inferior, gerando poder de barganha frente ao mercado (IEL, 2005). Gorini (2003, p. 19) aponta as principais deficiências das confecções: • Alto nível de informalidade; • As empresas grandes vêm se concentrando em produtos padronizados com larga escala produtiva, por exemplo, “camisetas de malha, ou em certos nichos de maior valor agregado, procurando atuar com marca própria e mais próxima ao consumidor final, eliminando intermediários na distribuição”; • Investimentos reduzidos em canais de comercialização (tanto internos quanto externos), assim como na concepção de novos produtos, em modernas técnicas de gestão, controle dos custos e parcerias estratégicas com clientes e/ou fornecedores. Vestuário Ambiente Microeconômico Ambiente Mesoeconômico Ambiente Macroeconômico Falta de competitividade no mercado internacional Dificuldade de encontrar parcerias para diversificação de produtos Falta de informações e conhecimento do mercado internacional Empresas que atuam na informalidade Falta de linhas de crédito para renovação do parque fabril e obtenção de insumos 125 Têxtil Falta de conhecimento das tecnologias disponíveis para incremento de produtividade Falta de um órgão que proporcione unidade às empresas da cadeia Necessidade de manter área de desenvolvimento de produto altamente ativa Falta de linhas de crédito para renovação do parque fabril e obtenção de insumos Transição da empresa familiar para a gestão profissional Falta de parcerias com fornecedores de algodão Design voltado à falta de padronização dos produtos nas diversas regiões do mundo Falta de mão de obra especializada na área têxtil, especialmente em equipamentos de última geração Altas taxas de juros para financiamento Quadro 2. Gargalos da competitividade da cadeia produtiva da moda brasileira Fonte: IEL (2005) A opção por modos flexíveis de organização produtiva está associada à competitividade, porquanto permite respostas instantâneas às transformações constantes nas preferências dos mercados. Seguindo esta lógica, observa-se que os métodos gerenciais da cadeia produtiva da moda devem ser estruturados em função da flexibilidade de produção, da contemporaneidade dos produtos, do acréscimo de qualidade, da diminuição dos custos, dos desperdícios e dos estoques. Assim sendo, pode-se alegar que é imprescindível a revisão das técnicas de gestão empregadas pela cadeia produtiva da moda, por entender “que, no contexto da competição vivenciada atualmente pelos mercados, as 126 técnicas de gestão podem ser consideradas um dos principais obstáculos para o crescimento do segmento industrial em foco” (GOMES, 2002, p. 23). A dinâmica competitiva atual requer conhecimento, capacidade e habilidade para administrar recursos financeiros, tecnológicos, produtivos e operacionais, tanto por parte dos gestores como de todo o efetivo da indústria (GOMES, 2002). Neste contexto, não é mais possível gerir apenas preço. Ferraz (1997, p. 16) afirma que o novo modelo produtivo é decorrente das “transformações tecnológicas em curso na indústria mundial que para muitos estudiosos constituem as bases de uma terceira revolução industrial”. As atuais ferramentas da competitividade são: (a) qualidade do produto, design e moda; (b) flexibilidade e rapidez de entrega (quick response); (c) racionalização dos custos de produção. A integração entre estratégia tecnológica e estratégia mercadológica é fundamental para a competitividade industrial, já que as mudanças tecnológicas causam impacto na qualidade do produto, na definição dos segmentos de mercado, na mudança na fonte da concorrência, nas relações do trabalho, entre outras. A principal barreira à dilatação da competitividade do complexo têxtil brasileiro é a carência de estruturas que agenciem maiores capacitações tecnológicas e gerenciais para o grupo de médias e pequenas empresas, inclusive ações atenuantes de “suas desvantagens de escala, como o acesso cooperativado às informações de mercado, equipamentos de automação microeletrônica (CAD) entre outras” (COUTINHO & FERRAZ, 1994, p. 324). Contudo, as indústrias brasileiras, especialmente as de micro e pequeno porte, ainda carecem de alguns fatores importantes para a competitividade (FERRAZ , 1997, p. 232): • “Instituições de treinamento em sistemas de gestão, que constituem a principal deficiência das empresas do complexo”; • “Centros de difusão para empresas de menor porte de informações sobre tendências da demanda e da moda”; • “Empresas organizadoras de sistemas de marketing coletivo (promoção de eventos, desenvolvimento de canais de distribuição, propaganda conjunta)”. Finalizando, pode-se ratificar que a “questão da competitividade é decisiva para o futuro do Brasil num novo tempo histórico, muito mais 127 veloz e em que os processos de integração regional e/ou continental têm cronogramas acelerados” (FIESP/CIESP, 2005, s/p.). Consoante Agis (2010), sob um olhar amplo, as alternativas estratégicas brasileiras para a cadeia produtiva da moda, nesta década, estão sintetizadas em três opções: • Uma maior aproximação aos Estados Unidos através de uma agenda bilateral e de desenvolvimento de parceria preferencial; • Maior empenho e inserção em projetos de integração sub-regional na esfera da América do Sul, sobretudo no relançamento do papel e importância do Mercosul; • Estabelecimento de alianças extra-hemisféricas, em concreto com a União Europeia, aumentando a função de espelho dos países ibéricos, com a China e o Japão, buscando, deste modo, abalar a supremacia dos Estados Unidos, percebido categoricamente como concorrente. A cadeia produtiva da moda brasileira é uma das mais respeitáveis mundialmente, possuindo a habilidade de integrar todos os elos da cadeia de valor industrial, computando grandes designers, produtores de moda, modelos de prestígio internacional e marcas de moda “que só não conhecem maior afirmação global porque o mercado interno tem sido praticamente suficiente para suportar a sua expansão e porque a valorização do real tem sido um forte impedimento ao natural crescimento das exportações” (AGIS, 2010, p. 74). Seja como for, o Brasil é resultado de elementos, integrantes do DNA da sua identidade que, naturalmente, são compreendidos universalmente, como positivo, “e que estão a catapultar o país como um verdadeiro global fashion trendsetter, juntando-se, assim ,ao exclusivo clube composto pela Itália, a França, o Reino Unido e os Estados Unidos” (AGIS, 2010, p. 74). Referências Bibliográficas AGIS, D.; GOUVEIA, J.; VAZ, P. 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Lourdes Maria Puls Introdução Este trabalho foi realizado por meio de uma pesquisa descritiva de caráter exploratório em que as operações metodológicas foram desenvolvidas para demonstrar que a aplicação da concepção construtivista60 , no ensino e aprendizagem do desenho de moda à mão livre, contribui para antecipar soluções e projetar produtos de design de vestuário. Pretendeu-se focar neste estudo à relevância do uso de didáticas e experiências de desenho à mão livre com objetivos instrumentais, orientados para a criação de novos saberes direcionados à produção de resultados reais para a concepção projetual a ser realizada no contexto da moda. Apresenta-se o desenho, enquanto processo de aprendizagem, como recurso instrumental criativo e como instrumento do pensamento e de concretização. Entende-se que cabe ao sistema educacional e aos modelos de educação, na área de Moda, desenvolver capacidades cognitivas e manuais do aluno para ideação de projetos que criem produtos inovadores e sustentáveis. Ou ainda, que proponham soluções e melhorias nos produtos já existentes. Para a aquisição de conhecimentos sobre códigos e elementos constitutivos formais e compositivos do desenho de moda à mão livre, direcionado à prática projetual, é preciso considerar o aluno como sujeito de seu próprio processo de aquisição do saber, que pensa e é capaz de lidar com conceitos, perceber, argumentar, raciocinar, resolver problemas e 60 Esta concepção sustenta que o conhecimento humano não ocorre passivamente, vai se construindo ativamente “graças a estruturas cognitivas, que podem adaptá-lo ou modificá-lo”, possibilitando “uma organização dos objetos, do mundo ao redor deste sujeito que está em desenvolvimento, apenas o conhecendo”, e que “por interagir com o mundo, vai registrando suas experiências a partir de vivências próprias” (ROJAS, 2007, p.51). 134 projetar. Neste sentido, no ensino e aprendizagem do desenho de moda, cabe ao professor ir além da introdução dos saberes culturalmente organizados, ou seja, conseguir o maior desenvolvimento das capacidades perceptivas, cognitivas e operativas do aluno. Para tanto, o aporte bibliográfico acerca do tema que embasou a pesquisa teve apoio em Becker (2003, 1995, 1992, 1985), como guia teórico para os procedimentos educacionais. Foram selecionados os modelos pedagógicos e epistemológicos propostos pelo autor, por postularem que é o sujeito quem constrói o próprio conhecimento na relação entre ação e pensamento. Os modelos pedagógicos construtivistas de Becker estão baseados na epistemologia genética de Piaget, que sublinha a importância do conhecimento prévio do aluno61. Assim, tentou-se encontrar no desenho à mão livre a compreensão da lógica do raciocínio enquanto elemento gerador de conhecimento. Como professora este sempre foi meu desafio “como o aluno pode compreender e representar, pelo desenho à mão livre, uma ideia que comunica e informa ao mesmo tempo sobre a estrutura do objeto de vestuário”. O ensino de desenho de moda à mão livre se apoia nos recursos do desenho e em tudo a ele relacionado para dar corpo a ideias: técnicas, suportes, instrumentos, materiais e códigos. No entanto, encontram-se alunos com dificuldades e bloqueios que, apesar da posse de todo o instrumental e suportes necessários para o desenho, dependem das orientações e correções do professor, para continuar desenvolvendo exercícios propostos e experiências sugeridas. O fato de não conseguirem utilizar o desenho como um meio possível de armazenar reflexões, provocar dúvidas, críticas ou possíveis soluções ocorre 61 No caso do ensino do desenho à mão livre, torna-se imprescindível realizar uma exploração acerca da bagagem do aluno, referente ao seu nível de habilidade para o desenho e conhecimentos prévios, pois o conteúdo básico sobre desenho de moda não seria suficiente. O professor precisará considerar estes pontos: 1. quais os objetivos concretos em relação a esses conteúdos; 2. que tipo de aprendizagem sobre desenho projetual o professor deseja que o aluno alcance. Seria então indispensável à própria experiência docente, como também o diálogo entre professor e futuro designer. Do ponto de vista da ação educativa construtivista, esta é uma questão que incide na elaboração de conteúdos que contemplem variáveis referentes à individualidade dentre os alunos (PULS, 2011, p. 59). 135 pela dificuldade que têm de se expressar em uma linguagem que exige habilidades complexas e específicas do campo da expressão gráfica na área de moda. Outra questão refere-se à dificuldade do aluno, futuro designer, em compreender as características e elementos inerentes à representação gráfica que contemplem todos os atributos de um produto de vestuário. São fatos que dificultam familiarizar-se com técnicas e procedimento gráficovisuais, podendo impossibilitar uma trajetória, de forma eficiente e singular, no processo projetual inovador. O não atendimento às expectativas do aluno influencia, de forma negativa, sua motivação e todo o decurso de estudo e aprendizagem poderá ser comprometido. Portanto, tomou-se por hipótese o fato de que a articulação teoria/prática para o ensino e aprendizagem do desenho de moda à mão livre é a ação vivenciada em um conjunto de atividades que demandam procedimentos com aportes construtivistas no contexto de Moda. O Construtivismo O construtivismo, segundo Becker (1992, p.9), pode ser sintetizado pela ideia “de que nada, a rigor, está pronto, acabado, e de que o conhecimento não é dado, em nenhuma instância, como algo terminado”. Forma-se não só pela interação do indivíduo com o meio físico e social, mas também pela sua relação com o simbolismo humano, com o universo de suas vivências e experiências sociais, que se constitui por “força de sua ação, e não por qualquer dotação prévia trazida na bagagem hereditária ou no meio” (Becker, 1992, p.9). O construtivismo psicológico, gerado a partir da psicologia cognitiva, tem como enfoque o estudo sobre a origem e desenvolvimento das capacidades cognitivas. Nele, acredita-se que cada indivíduo se desenvolve em seu próprio ritmo, concebendo o sujeito como agente ativo do próprio processo de aprendizagem. Assim, os construtivistas abraçam a ideia de que o ensino é tido como um ato individual, criativo e inventivo, no qual cada aluno possui a sua maneira de processar o que lhe é dado como conhecimento. Esses processos são utilizados ao longo de toda vida, à medida que o sujeito vai se adaptando à realidade circundante de uma forma mais complexa. Interagem cooperativamente na construção do conhecimento e nas relações do ensino aprendizagem em qualquer área de saber. Esta última acepção é foco deste estudo. 136 A acepção foco deste estudo é o modelo instrucional construtivista que não está centrado no professor ou no aluno, mas nas relações em sala de aula, onde o ato pedagógico não tem significado em si mesmo, assumindo um sentido, na medida da qualidade das relações. Direcionando este modelo para as atividades ensino e aprendizagem do desenho de moda, o professor procurará conhecer o aluno, futuro designer, como uma síntese individual da interação dele com o meio. Nessa concepção, o aluno aprende e compreende por que está agindo sobre o material que ele precisa aprender e assimilar (assimilação)62, e que o professor acredita lhe seja significativo. Desse modo, o aluno poderá estruturar sua capacidade cognitiva acerca dos fundamentos das construções técnica e gráfico-expressivas do desenho projetual, se for crítico ao discernir, questionar e tomar posições, agir e problematizar a sua ação (acomodação)63 para novas assimilações. Considera-se esse processo individual e subjetivo, uma vez que o aluno se apodera cognitivamente dos objetos que lhe são externos, interiorizando-os mentalmente, para poder agir sobre eles e transformá-los. Reflexões sobre as experiências vivenciadas A representação gráfica do desenho da figura de moda como suporte projetual tem apoio no desenho de moda à mão livre enquanto possibilitador da experimentação, sensorial e estética, e consequente concretização da criação do designer de moda. A base dos conhecimentos e informações utilizada nas experimentações de sala de aula provém não só de resultados das pesquisas de campo, mas também de princípios que definem a concepção construtivista e seus vínculos com a teoria e prática de ensino e aprendizagem, cuja teorização faz emergir o desenho como representação e suporte de uma reflexão cognoscitiva da concretização projetual, contemplando, dessa forma, os objetivos deste trabalho, ao demonstrar que o ensino de desenho à mão livre, baseado no construtivismo, é uma experiência eficiente na aprendizagem do desenho para concepção projetual. Para favorecer esta compreensão, retomou-se o conceito fundamental do construtivismo, já citado anteriormente, sintetizado pela ideia “de que nada, a rigor, está pronto, acabado, e de que o conhecimento não é dado, em nenhuma instância, como algo terminado” (Becker, 1992, p.9). Verificou-se que o entendimento do aluno – de que o aprendizado é um processo único 137 e pessoal, de que cada pessoa constrói o seu cabedal a partir de explorações e interação com o meio – valoriza suas experimentações. Constatou-se, também, que a atuação do professor, ao criar as bases para que se realizasse o conhecimento, propiciando conteúdos teóricos e práticos, incentivando os alunos a continuar investigações, experiências e reflexões no sentido da concretização do que ia sendo adquirido, oferece os meios para materializar suas criações e ideações projetuais futuras. As experiências vivenciadas pelos alunos demonstraram que os conteúdos transmitidos foram estudados e verificados para, então, serem apreendidos com a prática, possibilitando o aprimoramento do desenho da figura de moda, a inclusão de ritmo, harmonia, volume e movimento, bem como a aplicação de técnicas para colorir o objeto representado. Estas experiências oportunizam o desenvolvimento de estilos pessoais de desenho de moda. O designer em formação passa, então, a processar e analisar, estabelecer comparações e estabelecer inúmeros vínculos entre teoria e prática. Nesse processo, de acordo com Derdyk (1989, p.20), “o cérebro armazena informações, sensações e percepções. Assim como também compara, analisa e materializa as abstrações”. Este contexto pode permitir que o processo de conhecimento e apreensão dos conteúdos relacionados aos elementos visuais, como: ponto, linha, forma, composição, cor, indicação espacial (bidimensional e tridimensional), relação entre luz e sombra, ilusão, ritmo e texturas sejam mais intensos no aluno e no desenho à mão livre, dando margem a identificar as necessidades individuais de cada aluno no processo de aprendizagem. Nesse sentido, as experiências agrupadas em Módulos de Ensino64 estão orientadas nas formas de agir sobre o objeto. Ao construir e repetir os desenhos, o aluno transforma e elabora novas representações para roupas 64 Módulo de Ensino, assim é chamada cada uma das experiências vivenciadas pelos alunos durante o ensino e aprendizagem da construção do desenho de moda, desenvolvidas seguindo a abordagem construtivista de incentivar o aluno a construir seu conhecimento a partir de sua ação e interação sobre o objeto de estudo. Neste caso, é a construção do desenho de moda à mão livre que possibilitará a ideação de projetos inovadores capazes de interpretar os anseios da sociedade. Os módulos encerram conteúdos e procedimentos dinâmicos importantes em seus desdobramentos. 138 e produtos e projetos de vestuário. São assimilações cognitivas, operadas durante as experiências que, quando dominadas, são transpostas para outras experiências e associadas a novos projetos, de maneira mais ampla, pela pesquisa, análise e reflexão. E assim sucessivamente, oportunizando novas ideações projetuais. Desse modo, no início da capacitação, uma avaliação do conhecimento prévio do desenho realizada individualmente em sala de aula estabelece um ponto de partida importante. Porém, não é o suficiente para que se conheçam os pontos fundamentais sobre o repertório trazido pelo aluno. Para se compreender o estágio estrutural do desenvolvimento cognitivo de cada aluno, o que se propõe são averiguações, por questionamentos escritos e dialogados, por várias representações manuais e por outras atividades que permitam que as habilidades sejam demonstradas. As experiências vivenciadas pelos Módulos de Ensino mostraram quão importantes é a nivelação da competência e habilidades manuais e perceptivas. O desenho para o conhecimento prévio das habilidades do aluno é considerado atividade essencial quanto aos objetivos didáticos, pois intervém positivamente no andamento das aulas. O posicionamento construtivista de Miras (2006, p.66), em que o professor chama a atenção para o fato de o educador estar apto a diagnosticar e a tomar decisões em sua prática profissional, direcionando-a de acordo com a realidade dos alunos, torna o ensino e a aprendizagem do desenho de moda, prazeroso e significativo. Neste momento, o professor, externando seus conhecimentos, e socializando suas experiências, abre diálogo e reflexões. À medida que há o envolvimento por parte do aluno, os recursos do desenho passam a ter novos significados, o que se dá individualmente. Durante o processo de aprendizagem, verificou-se que os alunos interagem com formas e cores, que representam e se referem a algum aspecto familiar de sua realidade. Por isso, reitera-se a necessidade de se levar em conta a subjetividade, que vai além da estética e das técnicas, porto seguro das atividades, sendo o traço ou a técnica o que lhes dá segurança tanto para desenhar novas formas como expor criações. Citando Escher por Rozestraten (2006), “são imagens de pensamento, impossíveis de serem traduzidas em palavras”. Ao ser interiorizado o conhecimento, acontece o que se chama de desenvolvimento das estruturas cognitivas de aprendizagem de determinado conteúdo. Pela teoria construtivista, houve uma ação transformadora do 139 aluno sobre o objeto de conhecimento (assimilação), e sobre si mesmo (acomodação). Pelo desenvolvimento dos Módulos de Ensino e Aprendizagem da construção do desenho de moda à mão livre, o conteúdo sobre os elementos constitutivos e técnicas plásticas se expande do nível individual para os colegas e o professor, indo além da sala de aula, pela interação com outras pessoas em outras disciplinas, atividades acadêmicas e interdisciplinares. Isto ocorre na medida em que, mediados pelo professor, os estudantes conseguem expor dúvidas e saberes, concretizados no suporte/papel e manusear com domínio cores e formas. Conseguem ampliar a capacidade de aprendizagem, mas se conscientizam de que construir o desenho à mão livre é advindo do movimento contínuo de buscas e realizações, do esforço relacionado com habilidade e destreza manual, adquiridas pela persistência em praticar exercícios constantes de transformação de formas concretas, captadas pela observação, em códigos específicos dentro da linguagem de moda. Assim, os desenhos de moda trabalhados pelos alunos carregam características inerentes de cada subjetividade que os criou. É o resultado de escolhas, opções, descartes, dificuldades mediante a constituição de saberes. A capacidade de desenvolvimento do discurso pessoal, da construção de ideias significativas, do registro gráfico visível e inteligível se sustentou na reflexão, no diálogo, nos recursos do desenho e no processo de ensino e aprendizagem. Do mesmo modo que existem diferentes tipos de ação projetiva no desenvolvimento do desenho conceptual, existem diversas dinâmicas, modos e técnicas de projetar. A compreensão do significado deste conceito é identificada e considerada pelos alunos como o início do desenvolvimento de um estilo próprio e autoral. Nessas ações, assumiram o controle da prática e do próprio processo de aprendizagem, exercitando ideias e configurações formais de objetos de vestuário. Realizando suas experiências estéticas e produtivas, o aluno acaba por se transformar no sujeito de seu próprio processo cognitivo e perceptivo. A participação ativa nas ações se insere no modelo construtivista relacional para ensino e aprendizagem de desenho de moda à mão livre, proposto neste estudo. Constitui-se, portanto, como uma estratégia a serviço do desenvolvimento das habilidades perceptivas e manuais dos acadêmicos, proporcionando aumento de suas capacidades cognoscitivas para ideação projetual. 140 Um exemplo da prática realizada são os detalhamentos criados a partir das experiências com cores, formas e técnicas, representadas visualmente pelos alunos para compor o modelo de uma peça de roupa, como: gola, decote, posicionamento dos cortes, tipo de costura, comprimento longo ou curto, entre muitas outras possibilidades e variações, incluindo tecidos, texturas, estampas. Estas configurações visuais são recursos cognitivos, criativos e perceptivos para a construção do saber desenhar. Surgem da experimentação ou de qualquer outro conhecimento obtido por meio dos sentidos, associando estética e técnica. São recursos de desenho que permitem aos alunos compreender e refletir acerca das possibilidades inúmeras que o design de vestuário oferece, tanto para inovar modelos, como para solucionar futuros problemas projetuais. São sequências de ações usadas pelos estudantes nos processos investigativos, resultantes de tentativas e acertos, de buscas, observações, interações e percepções do que aconteceu durante todo o processo de interiorização do conhecimento e utilização de recursos do desenho. Durante este estudo, o processo realizou-se pormenorizadamente até que o aluno conseguisse construir o todo, ou seja, até que visse pronto, vestido, o desenho da sua figura de moda. Assim, tendo condições e habilidades de trabalhar suas estruturas, separadamente em novos objetos, adequando técnicas, materiais e formas com esmero nas proporções, detalhes, cores, acrescentando esteticamente um visual que tanto poderia ser simples, como mais apurado em suas configurações de roupas e acessórios, como chapéus e bolsas, entre outros. Essas reflexões remetem a Solé e Coll (2006, p.12), quando afirmam que cada estágio de experiência e vivência por que passa o aluno, apresenta “possibilidades de crescimento”. Quando os objetos transmitem informações ou comunicam significados para quem os observa é porque muitos dos objetivos propostos no ensino e aprendizagem, através das experimentações e vivências, foram alcançados. Significa então dizer que, se o aluno atingiu este patamar, ele adquiriu capacidade cognitiva e habilidade motora para representar visualmente uma imagem de desenho de moda (figura de moda ou produtos e acessórios) no desenvolvimento do desenho conceptual. As experimentações realizadas confirmam a relevância da aplicação de postulados construtivistas à sequência de técnicas de aprendizagem, operacionalizadas nos sete Módulos de Construção do Desenho à mão livre para a concepção projetual do produto vestuário: 141 Módulo de Ensino 0 - Construir o desenho para análise do conhecimento prévio e uso como inspiração para outro desenho no final do semestre. Módulo de Ensino I - Tabelas de tons: atividade de destreza manual, desenvolver técnicas expressivas úmidas e secas (aquarela, pastel, guache, nanquim, grafite, lápis de cor e lápis aquarelável). Construir tabela de tons em grafite, sobreposição de cor e hachuras. Módulo de Ensino II – Aplicar sombras nos croquis: perspectiva intuitiva e tonal, direcionamento de luz e sombra. Aplicar em croquis para produzir volume e profundidade nas representações gráficas dos produtos de vestuário. Módulo de Ensino III – Estampas: criar estampas com o uso de fotoimagem e de objetos concretos, como técnica de referência para criação. Transportar e transformar imagens de um suporte para outro suporte. Módulo de Ensino IV – Texturas: construir texturas, usando os sentidos – tátil e visual - , utilizar a técnica de referência, retalhos de tecidos, peças de roupas e foto-imagem. Módulo de Ensino V – Panejamento: interpretar e representar graficamente os movimentos, caimentos e efeitos que os diferentes tipos de tecidos produzem sobre o corpo. Módulo de Ensino VI – Construir a figura de moda: representar graficamente a estrutura óssea e muscular. Detalhar as partes da figura de moda, como: olhos, rosto, cabelo, mãos, braços, pés, pernas etc. Construir a figura de moda. Módulo de Ensino VII – Desenhar a figura de moda e criar o objetoroupa Iniciado no nível elementar e básico, para o aluno ter o domínio de todos os elementos formais do desenho, foi se construindo, aos poucos, o conhecimento, em níveis cada vez mais complexos no campo da expressão gráfica, o que corrobora o fato de que o conhecimento não é algo acabado, mas um processo contínuo, um somatório de aprendizagens. Logo, são ações condizentes com os preceitos construtivistas. Os códigos, simbologias, conceitos e conteúdos significativos da linguagem de moda foram aspectos captados durante a aprendizagem e, quando interiorizados pelos alunos, estabeleceram elos entre o desenho artístico, cujo compromisso está vinculado à expressividade plástica, e o desenho conceptual para fins projetuais. O raciocínio em torno das questões visuais, subjetivas e de representação dos conceitos realizados pelo 142 desenho à mão livre pode ser primeiramente apreendido pela visualização e observação, como maneira de captação da realidade circundante, para depois ser transferido à materialização da criação conceptual. Não se percebe nenhum objeto único isolado. A visão é uma apreensão verdadeiramente criadora da realidade – imaginativa, inventiva, perspicaz e bela. Tornou-se evidente que as qualidades que dignificam o pensador e o artista caracterizam todas as manifestações da mente. [...]. Toda a percepção é também pensamento, todo o raciocínio é também intuição, toda a observação é também invenção (Arnheim, 1994). Nesse sentido, o ato de olhar o mundo vale-se da interação entre propriedades supridas pelo objeto e a natureza do aluno que as observa. O fato de o aluno estabelecer objetivamente os contextos indica que, de certo modo, ele busca as ordenações que façam sentido. Assim, pode-se dizer que as escolhas significativas acabaram gerando o que se chama de estilo próprio de desenhar e projetar. Este fato capacitou o aluno a relacionar as configurações visuais à qualidade da materialidade das formas concretas do objeto ou da imagem visual de referência. Na fase de ensino e aprendizagem do desenho, não se trabalha com a materialidade física do produto. Os alunos utilizaram o contato com os objetos, para sentir as sensações e percepções, captando as características táteis da sua materialidade. Questionamentos foram feitos somente em relação ao tipo de material ou técnica plástica, para reproduzirem à mão livre o efeito tátil percebido. O aluno precisa deste contato captado pelos sentidos, para melhor compreender e se apropriar da materialidade inerente ao objeto. Conhecendo sua feitura, refletindo e se exercitando, ele conseguirá caracterizá-la nas representações visuais realizadas no plano do suporte. Contudo, na ação da apropriação do real, se o aluno está desenhando os objetos sem a manipulação tátil ou, principalmente, a visual, se ele não compreendeu como construir a forma, inteirando-se da estrutura de suas ações, não conseguindo refletir sobre as manipulações e configurações que está realizando, uma das variantes que se supõe é que encontrou dificuldades na execução dos Módulos de Ensino. Ou que estava desinteressado na aprendizagem de desenho de moda, entre outras infinitas possibilidades. Neste caso, o professor precisa acompanhá-lo individualmente, dialogando e incentivando-o a reconstruir novamente o 143 passo a passo estrutural do desenho, direcionando seu olhar e pensamento, para o entendimento do processo compositivo visual. Quando o acadêmico entende e interioriza quais as várias ações, relações ou procedimentos foram necessários para a construção do desenho de moda à mão livre, demonstrando que consegue assimilar esse conteúdo, é porque iniciou a modificação das suas estruturas cognitivas. A partir destes fatos, o aluno volta a participar das experiências. No momento em que o aluno vivencia as experiências dos Módulos de Ensino, está assimilando conhecimento acerca da construção do desenho de moda em si mesmo, sem ter a preocupação com o desenho projetual. Isto quer dizer que o aluno está assimilando conhecimento acerca de como configurar as estruturas da figura de moda através do uso dos elementos formais e compositivos e dos recursos do desenho. Está aprendendo a manusear pincéis, lápis e tintas, para dar qualidade formal e estética ao produto, na caracterização das especificidades de cada tecido. Está assimilando o conhecimento sobre como criar as peças de roupa e como elas se comportam sobre o corpo da figura de moda, seu suporte. O domínio deste saber é um recurso indispensável à construção do desenho de moda para projeto de produto de vestuário. O desenho de moda para projeto é construído, obedecendo a critérios de clareza, eficácia, informação e adequação da linguagem projetual. Como os desenhos necessitam ser trabalhados, analisados e verificados, existem, para isso, as disciplinas de Metodologia Projetual; Projeto de Produto de Moda as quais dão fundamentos teóricos à criação do desenho de moda, para que as peças de roupas criadas possam ser produzidas industrialmente. Nestsas disciplinas, o aluno utiliza conhecimentos sobre a configuração do desenho, adquiridos durante suas experiências nos Módulos de Ensino e em outras disciplinas, como Ilustração de Moda, Desenho Técnico, Book Digital, entre outras. O profissional de Moda, que em sua formação desenvolve práticas projetuais de desenho à mão livre, dispõe de habilidade a mais na utilização dos aparatos tecnológicos. Nas práticas exercitadas, vários foram os procedimentos, conteúdos teóricos/práticos e técnicas, no sentido de definição e representação das funções e características da figura de moda na ideação projetual. A parte estético-visual da figura de moda foi onde o aluno aplicou conhecimentos plásticos expressivos, aprendidos para dar estética ao produto conceptual. 144 A figura de moda foi desenhada com a roupa, mostrando o produto final, com as características essenciais: riqueza de detalhes, de textura, de panejamento, de elementos, de cores, de nuanças, de harmonia que no seu conjunto identifica o modelo de roupa criado. E os diferentes tipos de construção da figura de moda, baseados num suposto personagem, exercitados nas experiências vivenciadas, caracterizaram desde o biótipo até a etnia, identificando o futuro usuário de um possível projeto, que ainda está virtualmente idealizado. Essa visão do devir são relações e conceitos absorvidos e realizados gradativamente pelos alunos. Todos tiveram seu tempo de aprendizado, uns alcançaram melhores resultados, outros ainda necessitam de muito treinamento, porém, como foi teorizado neste trabalho, o desenho manual é um desenho de processo de aprendizagem individual, não se destacando por seu imediatismo. Quanto mais Módulos de Ensino foram sendo desenvolvidos, sempre com disponibilidade de materiais básicos para consulta, atendimentos pessoais e extraclasses, ao longo do semestre, com professor e aluno, tentando remover os entraves ao aprendizado, mais visíveis ficavam as mudanças que ocorriam relativas ao desenho, mas principalmente em relação aos alunos. Evidenciou-se que estavam mais confiantes, pois deixavam para trás o receio de desenhar, adquiriam competências e habilidades manuais que lhes permitiam mostrar o desenho como forma de conhecimento e aptidão básica para concepção e ideação projetual. Esta capacitação do futuro designer de moda dependeu de sua própria possibilidade de encontrar maneiras de solucionar as dificuldades. Na concretude de novos desenhos, como um processo de integração dos elementos visuais e técnicas de aprendizagem para construção das configurações expressivas, o aluno mostrou que tomou posse das competências necessárias para o desenho conceptual. A partir do momento em que ele associou estética e beleza plástica à sua sensibilidade e criatividade, conseguiu trabalhar seu desenho autoral. O caminho a seguir vai ser de novas descobertas projetuais, onde não importa que ferramenta utilize, importantes serão os resultados que ele vai gerar e construir na concretude de suas ideias em projetos de design de vestuário. 145 Conclusão A elaboração deste estudo intencionou responder ao meu questionamento que se transformou em objetivo da pesquisa: como demonstrar que o ensino de desenho à mão livre, baseado na concepção construtivista, é um método eficiente na aprendizagem do desenho para concepção projetual do produto de design de vestuário. Na intenção de responder a este questionamento e contribuir para o ensino e aprendizagem de desenho de moda para ideação projetual foram elaboradas as questões referentes ao objeto da pesquisa apresentada. O percurso efetuado ao longo deste estudo foi iniciado na problematização do tema. Foi o momento em que mais se acentuou minha preocupação como professora em relação ao desenho, por isso se tornou o problema da pesquisa. O aluno passou no vestibular para entrar em um curso de Bacharelado em Moda que possui como eixos condutores de quase todas as atividades de ensino: criatividade e desenho. E aí o problema se agrava: a grande maioria dos alunos não apresenta condições para realizar um projeto que necessita de habilidades e competências em desenho, porque, infelizmente, no ensino médio, o desenho é posto de lado, o aluno não é incentivado a praticá-lo e nem a utilizá-lo como meio de reflexão projetual. Foram os desenhos que os alunos apresentavam no início das atividades acadêmicas que deram as indicações de que havia urgência em encontrar uma estratégia para que eles entendessem como configurar a estrutura formal, compositiva estética do desenho de moda de maneira prazerosa. Deveria ser um processo no qual os próprios procedimentos fariam com que os alunos se dedicassem ao saber fazer em desenho, sem ficar temerosos por terem poucas habilidades; para que pudessem superar o desafio de idealizar um projeto de produto de design de vestuário, acompanhado de toda a parte teórica. Era mesmo um desafio. No início, houve momentos angustiantes e cansativos em sala de aula, quando buscava métodos (empíricos e exploratórios) de investigação sobre como trabalhar e compartilhar com 20 alunos as diferentes técnicas e teorias. Para chegar aos resultados, não foi tarefa fácil, já que cada um deles tinha uma necessidade particular, e muitos não traziam os materiais adequados para o desenho. Com base na observação e pelos indícios captados na realidade da sala de aula, fui elaborando procedimentos, experimentos. 146 A oportunidade de realizar este estudo abriu a possibilidade para enfrentar este desafio. Oportunizou-me conhecer e aprofundar os estudos sobre o modelo instrucional construtivista de Becker, fundamentado na epistemologia genética de Jean Piaget, que culminou com a construção e aperfeiçoamento dos Módulos de Ensino. O que de mais importante aprendi sobre o construtivismo foi compreender que cada aluno possui estruturas e estágios de conhecimento, diferentes uns dos outros, e que, como professora, mas principalmente como pessoa, eu deveria respeitá-los. A reciprocidade foi imediata. Os resultados foram os desenhos construídos pelos alunos, um conjunto de atividades complexas, como o desenho de moda para ideação projetual. As reflexões sobre as experiências vivenciadas culminam com a certeza de que o desenho de moda à mão livre faz parte das ações de desenvolvimento da concepção da ideação projetual, e, sob o ponto de vista de ser usado como instrumento mediador entre o pensamento e a sua materialização, pode ocupar lugar. Para tanto, todo o referencial teórico de Becker serviu de base, de modo geral, para a configuração do objeto de estudo e, de modo específico, para o desenvolvimento dos Módulos de Ensino como técnicas para a aprendizagem do desenho. O caminho para os Módulos de Ensino referenciados nas relações de técnicas de construção estrutural e das ferramentas e recursos do desenho revelou, de forma sistemática, aspectos que dizem respeito aos fundamentos do desenho, seus objetos e seus interpretantes, ou seja, aluno e professor - ensino e aprendizagem. Os Módulos de Ensino têm como base a experiência prática em sala de aula, em anos de ensino e pesquisa em desenho no campo da expressão estética, plástica e técnica na área de Moda e sua capacidade de lidar com ideias, buscar o saber, descobrir e disseminar informações e conhecimentos. E, como ponto fundamental, a reflexão sobre a necessidade de serem permeáveis às demandas, exigências e desafios contemporâneos. São requisitos identificados que participam da adaptação às mudanças contínuas dos dias atuais, ocasionadas pelo avanço das tecnologias e da informação e suas diversas possibilidades de associações, atribuindo novos paradigmas sociais e educacionais. A principal linha de pensamento dos autores construtivistas é que o conhecimento se processa a partir de interações entre o indivíduo e o objeto, sendo que, para este estudo, a ideia de interação não se limita à relação entre 147 alunos e professores, mas envolve tudo o que se refere ao meio e ao objeto de estudo. Os elementos introduzidos no processo de ensino de desenho e as relações que se estabelecem devem estar contidos no repertório prévio do aluno. Dessa forma, os novos conhecimentos são acrescidos aos existentes, combinados e transformados. Por isso, toda a parte didático/pedagógica sobre a construção do desenho de moda para concepção projetual deve ser muito bem planejada no sentido de haver a captação do conhecimento por parte do aluno, tanto no desenvolvimento das habilidades cognitivas quanto manuais para construção do desenho. Este conhecimento é fundamental para o aluno atuar, de maneira estratégica e criativa, no campo de trabalho, pois o capacita a materializar novos produtos de design de vestuário, através de configuração formal. Ao utilizar seus conhecimentos manuais, o futuro designer, acrescenta um importante diferencial no uso do ferramental computacional. Pode-se dizer que os Módulos de Ensino são baseados em autores cujas teorias são aplicáveis à criação da representação gráfico-visual do desenho de moda e no desenvolvimento de uma base de conhecimento que proporciona ao aluno o aprendizado da ideação projetual. E em tudo o que se relaciona à teoria do desenvolvimento da aprendizagem na promoção de reflexões e no entendimento de como o aluno desenvolve sua estruturas cognitivas. São fatos conclusivos os estudos realizados por autores, como Fernando Becker (2003, 1995, 1992, 1985), que trabalham a visão construtivista por concluir que a ação do estudante na própria aprendizagem é determinante para desenvolver seu saber na ação realizada. Na concepção construtivista, o aluno parte de uma estrutura mais simples para outra mais complexa (Becker, 1992). Alcances e projeções Neste trabalho, o desenho conceptual foi pensado não apenas em termos de modelos de ensino instrucionais baseados no construtivismo, mas como um propulsor de ensino e aprendizagem, para que o aluno o utilize como um meio preponderante para criar, dar forma e qualidade ao design de vestuário. O objetivo é que esta estrutura textual permita contribuir para um pequeno avanço na compreensão, por parte do professor, de que o aluno é peça fundamental, partícipe do próprio processo de aprendizagem e seja consciente de que o conhecimento, dentro de uma abordagem 148 construtivista, é ser visto como uma construção pessoal, portanto, o aluno é sujeito da aprendizagem e sujeito de sua aprendizagem, como sujeito da representação. O que se busca mostrar, também, é o papel do professor que consiste em apresentar caminhos, desafios e possibilidades que atendam todas as diversidades e necessidades de cada um dos alunos na elaboração do desenho à mão livre para projetação em Moda. Os Módulos de Ensino são perfeitamente aplicáveis no desenvolvimento de uma base de conhecimento que proporciona o aprendizado do desenho de moda aos acadêmicos. Considera-se, portanto, que, mesmo com as delimitações necessárias, e mesmo não descrevendo as técnicas utilizadas em cada um dos Módulos de Ensino, os textos aqui descritos se constituem numa contribuição, um ponto de partida para aqueles que querem conhecer e dominar a ferramenta e os recursos do desenho de moda à mão livre. Ou, para educadores que ministram desenho, mesmo em outras áreas, que querem utilizar novas possibilidades no ensino e aprendizagem do desenho sob um enfoque construtivista. Neste contexto, existem várias possibilidades e experimentações que o professor pode utilizar como técnica de aprendizagem da construção do desenho conceptual e que está inserida na concepção construtivista. A partir daí, podem ser tecidos argumentos que revelem as ações e os procedimentos, as técnicas e mecanismos ou instrumentos, que, uma vez adotados, possibilitem processar didaticamente um modo de realizar o ensino-aprendizagem da representação gráfica do desenho de moda à mão livre. A constatação de que as imagens de representação gráfica que ilustram o universo de moda são construções singulares e simbólicas e, portanto, participam da formulação do imaginário das pessoas, abre caminho para novas investigações científicas que contemplem o desenho à mão livre na área de Moda. Referências Bibliográficas ARNHEIM, R. Arte & Percepção Visual: uma psicologia da visão criadora. FARIAS. I.T. (org.). São Paulo: Pioneira, 1994. BECKER, F. Formação de educadores: desafios e perspectivas. BARBOSA (org). São Paulo: UNESP, 2003. 149 ______. O que é construtivismo? Revista Educação AEC, Brasília, v.21, n.83, p.7-15, abr./jun. 1992. ______. A epistemologia do professor: o cotidiano da escola. 3.ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1995. ______. Para uma nova teoria de aprendizagem segundo Piaget. In: MOREIRA, M.A. (org.). Aprendizagem: perspectivas teóricas. Porto Alegre: UFRGS, 1985. DERDYK, E. O desenho da figura humana. São Paulo: Scipione, 1989. FLORES, Cláudia. Olhar, saber, representar sobre a representação em perspectiva. São Paulo: Musa Editora, 2007. MIRAS, M. Um ponto de partida para a aprendizagem de novos conteúdos: os conhecimentos prévios. In: MIRAS et al. Construtivismo na sala de aula. São Paulo: Ática, 2006. PULS, L.M. Desenho de Moda: paradigma para a construção de uma abordagem pedagógica. 2003. 123f. Dissertação (Mestrado em Gestão de Design), Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2003. ROJAS, M.E. La creatividad: desde la perspectiva de la enseñanza del desiño. México: Universidad Iberoamericana, 2007. SOLÉ, I. e COLL, C. Os professores e a concepção construtivista. In: COLL (ed.) O construtivismo na sala de aula. Tradução de C. Shilling. São Paulo: Ática, 2006. ROZESTRATEN, A.S. O desenho, a modelagem e o diálogo. Disponível em: <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/07.078/299>. Acesso em: 11 jun.2010. 150 Modelagem do vestuário com a tecnologia CAD – avaliação do treinamento Icléia Silveira Amanda da Silva 1 Introdução O uso do computador nos diversos campos de trabalho (indústria, comércio, administração, etc.), deu início a profundas modificações em todo o sistema produtivo, atingindo não só os trabalhadores, que utilizam diretamente alguma forma de automação ligada à informática, mas todo corpo social, com mudanças nas condições de vida em todos os setores e classes. As novas tecnologias são de fundamental importância para as indústrias do vestuário adequarem seus processos produtivos, favorecendo a flexibilidade no desenvolvimento dos produtos, a qualidade e precisão da modelagem, bem como a redução do tempo de trabalho. Os setores de produção do vestuário com mais inovação tecnológica são os de criação, modelagem e corte, especificamente com o sistema CAD/ CAM – Projeto Assistido por Computador e Manufatura Assistida por Computador, traduzidos do inglês Computer Aided Design e Computer Aided Manufacturing. Mudanças capazes de criar novas melhorias de desempenho organizacional, nos produtos e serviços, são introduzidas por esta inovação. No entanto, as inovações tecnológicas nos setores produtivos do vestuário, por si só, não são responsáveis pelo desempenho da organização, nem pela lucratividade da empresa. As habilidades e capacitação dos funcionários desempenham papel central. Por isso, o trabalho do modelista, com o uso do sistema computadorizado, não depende somente dos conhecimentos deste profissional, mas, também, da capacitação de uso que recebem das empresas que comercializam o sistema, dos conhecimentos sobre informática, de sua capacidade e interesse em aprender as funções do software, oferecidos no treinamento. Apresenta-se, neste estudo, análise da avaliação do treinamento para a aplicação do sistema CAD no setor de modelagem do vestuário, com vistas 151 à melhoria da sua qualidade, sob a ótica da Gestão do Conhecimento. A fim de planejar um modelo de treinamento eficiente, é preciso obter informações junto às empresas usuárias, quanto ao treinamento que receberam e como estão trabalhando com o sistema. Estas informações servem de fonte para gerar conhecimentos a serem aplicados no aperfeiçoamento dos futuros treinamentos. A tecnologia da informação é o meio que permite captar dados e informações sobre o desempenho do treinamento, gerando um banco de dados sobre as experiências vivenciadas pelos usuários do sistema CAD. O conteúdo arquivado no banco de dados pode ser gerenciado na elaboração de novos conhecimentos, para que prováveis erros não se repitam, como também para solução de problemas que possam estar enfrentando no presente. Os instrutores, tendo como base informações reais, podem seguramente planejar o treinamento, utilizando-se de ações direcionadas à disseminação e utilização do conhecimento sobre o software e sobre os usuários. Em muitos casos, o treinamento para a execução da modelagem, com o uso do sistema computadorizado, não satisfaz o cliente, dificultando o uso da tecnologia e da capacidade do software. Isto pode acontecer pela carência de informações, com vistas à avaliação do treinamento dado aos usuários, da interface, das funções do próprio sistema e da capacitação do próprio responsável pelo treinamento. A obtenção de informações sobre os clientes, processos ou produtos permite que as empresas construam conhecimentos a serem aplicados em ações, recursos estes que podem ser usados para novas oportunidades de negócio e manutenção da vantagem competitiva. Para isso, a gestão do conhecimento estabelece métodos e processos de coleta, tratamento técnico, armazenamento, análise e avaliação de dados e informações, tendo em vista a criação de novos conhecimentos a serem aplicados no ambiente empresarial. Sem dúvida, a empresa que desenvolveu o software precisa perceber que a base na manutenção da vantagem competitiva no mercado provém de sua fonte de conhecimento, que está intrinsecamente ligada à sua capacidade de captar, combinar e utilizar os dados e as informações dos clientes, criando o conhecimento e desenvolvendo competências específicas a serem usadas no treinamento dos modelistas do vestuário. 152 2 Procedimentos metodológicos Para a amostra da pesquisa foi selecionada uma empresa de tecnologia que atua no território brasileiro e 58 empresas do vestuário, usuárias do sistema, da Região Sul e Sudeste do Brasil. Utilizou-se a pesquisa qualitativa, que permitiu o aprofundamento necessário na consecução dos objetivos propostos, bem como a pesquisa descritiva, mostrando as características da tecnologia da informação aplicada à gestão do conhecimento, visando à qualidade do treinamento para o uso do sistema CAD. A coleta de dados teóricos foi baseada em livros, teses e artigos publicados. A pesquisa documental foi elaborada, a partir de documentos fornecidos pela empresa de informática (banco de dados), referente à avaliação feita pelas empresas do vestuário sobre o processo de capacitação para o uso do sistema. Para analisar estes dados, optou-se pela Técnica Análise de Conteúdo, por facilitar a manipulação das mensagens, tanto do seu conteúdo, quanto da expressão desse conteúdo explícito, registrado no banco de dados. Na aplicação desta técnica, foi realizada: leitura flutuante das informações disponibilizadas pelo banco de dados, com a definição das categorias e unidades de registro da amostra selecionada; exploração do material pela identificação, codificação e tabulação de registros e de categorias; tratamento estatístico, apresentado em quadros, gráficos e figuras. O conteúdo foi analisado de modo qualitativo, sendo confrontado com os aspectos teóricos, dando suporte a procedimentos de interpretação e validação. 3 A Tecnologia da informação e conhecimento organizacional As organizações precisam de informações de qualidade para garantir que seus produtos ou serviços satisfaçam às necessidades dos clientes, de modo a assegurar seu crescimento e permanência no mercado. As tecnologias têm sido responsáveis por mudanças significativas na forma como a informação é acessada, produzida, disponibilizada e disseminada nas organizações. Trata-se, portanto, de uma fonte aplicada à gestão do conhecimento de maneira mais rápida e eficaz. Os fundamentos teóricos abordados, na sequência, oferecem uma visão da tecnologia de informação aplicada à gestão do conhecimento organizacional. 153 3.1 Dados informação e conhecimento O processamento de dados se apresenta como a transformação de dados em informação, e esta em fonte de aplicabilidade, em conhecimento gerado por uma quantidade de dados de um determinado contexto. Todo este processo acontece no ambiente empresarial por meio da comunicação. A Figura 1 mostra a transformação dos dados em informação e esta em conhecimento. Processamento Dados Aplicação Informações Conhecimento Figura 1 - Relação Dados/Informação/Conhecimento Fonte: Desenvolvida pela autora, 2010. Ter entendimento da diferenciação entre dados, informação e conhecimento é ponto de partida importante às organizações. De acordo com Davenport e Prusak (1998, p.2), “dados são um conjunto de fatos distintos e objetivos, relativos a eventos. Num contexto organizacional, os dados são descritos como registros estruturados de transações”. Entendese que são dados brutos, como números, nomes ou quantidades. Por exemplo, “as empresas do vestuário tiveram queda de 15% nas exportações em 2011”. Observa-se que dados, por si só, não oferecem embasamento ao entendimento da situação, sobra à queda da produção. Isto significa, que os dados, podem ser totalmente descritos através de representações formais e estruturais. Sendo quantificados, podem ser armazenados em computador e processados por ele. O processamento de dados, em computador, limita-se, exclusivamente, a manipulações estruturais dos mesmos. Percebe-se que dados, por si só, têm pouca relevância, pois não revelam o verdadeiro significado do que eles representam; descrevem apenas parte daquilo que verdadeiramente são para quem os interpreta e não fornecem, previamente, um julgamento, nem qualquer base sustentável à tomada de 154 ação, mas é matéria-prima essencial na criação da informação. Já, o termo informação, segundo Rezende (2005), é o dado analisado e contextualizado. A informação é definida como sendo os dados organizados de modo significativo, subsídio útil à tomada de decisão. Os autores Nonaka e Takeuchi (1997) descrevem a informação como mensagem, geralmente na forma de documento ou uma comunicação audível ou visível. Davenport e Prusak (1998, p.4) dizem que se deve “pensar a informação como dados que fazem a diferença”, que têm por finalidade alterar o modo como o destinatário vê algo, exercer algum impacto sobre o seu julgamento ou comportamento. Com a finalidade de entender melhor, volta-se ao exemplo acima, porém como uma informação. As empresas do vestuário da Região do Vale do Itajaí, no Estado de Santa Catarina, tiveram queda de 15% nas exportações, em 2011, em consequência da desvalorização do dólar. Temos, nesta informação, uma sequência de dados: tipo de empresa, localização, números, datas e causa do fato ocorrido. Sendo assim, pode observar-se, de forma clara, que uma sequência de dados se transformou em informação. Porém, é necessário que haja contexto, a fim de que a informação se torne conhecimento, devendo ocorrer interação entre vários elementos, com ações inteligentes para solucionar problemas e obter resultado positivo, principalmente, dando novos rumo aos fatos. Assim, para que as informações se tornem conhecimento, são necessários tempo, experiência e aplicabilidade dentro de uma organização, além da consciência de que aquele (conhecimento) não pode ser pensado de forma dissociada das pessoas. São as pessoas, com seus conhecimentos e experiências vividas e já mentalmente internalizadas, que, de posse das informações, podem transformá-las em novos conhecimentos. Entende-se que cada pessoa pode, ao receber uma informação, processá-la de modo particular, talvez totalmente diferente de outros. Isto vai, então, depender do conhecimento que ela já detém sobre o assunto. Determinadas informações nada representam para algumas pessoas, não causando nenhum efeito. Segundo Nonaka e Takeuchi (1997, p.38), 155 a informação é um fluxo de mensagens, enquanto conhecimento é criado por seu próprio fluxo de informação, ancorado nas crenças e compromissos de seu detentor. Tanto a informação quanto o conhecimento são específicos ao contexto e relacionais na medida em que dependem da situação e são criados de forma dinâmica na interação social entre as pessoas. Sveiby (1998) define conhecimento como sendo a informação em ação, o que também é compartilhado por Davenport e Prusak (1998), dizendo ser o conhecimento valioso, porque ele está próximo – mais do que os dados e informações – da ação. Drucker (2000) elabora, na sequência, dado, informação e conhecimento, situando o papel da informação como agente significante do conhecimento especializado, principalmente nas organizações: “informação é dado investido de relevância e propósito. Por conseguinte, a conversão de dados em informação requer conhecimento. E conhecimento, por definição, é especializado” (2000, p. 13). Os argumentos dos autores acima deixaram bem claro que, para a informação transformar-se em conhecimento, depende da experiência de cada pessoa, do que ela acredita e de seus valores. Algumas informações, dependendo do contexto, podem passar sem causar nenhuma mudança. Mas, quando a informação é usada para definir ações de trabalho de maneira dinâmica, provocando o compartilhamento e as interações entre os envolvidos, pode transformar-se em conhecimento organizacional. Voltando ao exemplo da informação sobre a queda da exportação das empresas do vestuário: o conhecimento, com base nesta informação, será gerado à medida que as empresas avaliem as causas e as consequências da situação e, com base em suas experiências passadas, busquem novas alternativas de mercado para compensar a perda das exportações. No ambiente empresarial quem decide interpreta as informações recebidas e internaliza este conhecimento, compartilhando com os demais membros da organização, grupos de trabalho, para a tomada de decisão sobre a melhor alternativa e ações a serem desenvolvidas. Nonaka e Takeucki (1997) classificam o conhecimento em dois tipos: explícito e tácito. O explícito é o conhecimento que facilmente se codifica e se transmite. Por outro lado, o conhecimento tácito é o conhecimento 156 experimental, subjetivo e menos provável de ser transmitido. Nesse sentido, o conhecimento tácito é aquele que o indivíduo adquire por meio de suas crenças e experiências, sendo difícil de passar para outros. Cita-se, como exemplo, as habilidades adquiridas com anos de experiências práticas de uma modelista, que interpreta com muita facilidade modelos do vestuário, porém não sabe transmitir os detalhes do seu trabalho para outra pessoa, pode até conseguir ensinar, contudo a outra pessoa não fará o trabalho da mesma forma. Os autores ainda afirmam: o conhecimento tácito é pessoal, específico ao contexto e, assim, difícil de ser formulado e comunicado, enquanto que o conhecimento explícito ou “codificado” refere-se ao conhecimento transmissível em linguagem formal e sistemática (NONAKA E TAKEUCHI, 1997, p. 82). Dessa forma, o conhecimento explícito deve ser usado mais pelas organizações, padronizando, assim, as suas tarefas e atividades, sendo fácil de todos realizarem as atividades, pois estarão escritas, formalmente, em documentos. A teoria da criação do conhecimento, idealizada por Nonaka e Takeuchi (1997), destaca o conhecimento como sendo criado e expandido, através da interação social entre o conhecimento tácito e explícito. Os autores chamam essa interação de “conversão do conhecimento”, indicando que a conversão é um processo social entre indivíduos e não confinada dentro do indivíduo. O que significa dizer que não adianta nada deter conhecimento e não passá-lo adiante. As organizações que evidenciam a criação do conhecimento têm como objetivo a fusão dos dois conhecimentos, o tácito e o explícito. Nesse contexto, é apropriado que haja interação entre esses dois conhecimentos, pois um complementa o outro e, ainda, segundo Nonaka e Takeuchi (1997), a gênese do conhecimento está identificada na interação das duas perspectivas, por meio da integração das duas formas de conhecimento citadas anteriormente. Esses processos são conceituados por Nonaka e Takeuchi (1997, p. 86) como: Socialização (tácito-tácito): é o processo de compartilhamento de conhecimento tácito, por meio da experiência. Externalização (tácitoexplícito): é o processo de articulação do conhecimento tácito em conceitos explícitos, por meio de metáforas, analogias, símbolos, slogans ou modelos. 157 Combinação (explícito-explícito): é o processo de sistematização de conjuntos diferentes de conhecimento explícito. Internalização (explícitotácito): está intimamente relacionado aos processos de “aprender fazendo”, de incorporação do conhecimento explícito no conhecimento tácito. Figura 2 - Processos de conversão do conhecimento. Fonte - Nonaka e Takeuchi, 1997. Este processo foi delineado por Nonaka e Takeuchi (1997) como “a espiral do conhecimento” (FIGURA 2), na qual a interação entre o conhecimento tácito e explícito terá escala cada vez maior, na medida em que passam do indivíduo para o grupo e deste à empresa. Dessa forma, a teoria idealizada pelos dois autores se inicia no indivíduo e vai até o nível organizacional. No contexto da organização, os dados, ao serem processados, transformam-se em informações que, por meio das reflexões e análises predominantemente explícitas, trabalham a mente dos envolvidos, usando seu conhecimento tácito (o que está na mente e nas ações práticas), e o resultado desta interação pode gerar conhecimentos com soluções inovadoras para a questão em foco (FIGURA 3). O ser humano pode comportar muitas informações, porém demonstrar pouco conhecimento, porque este deve ser demonstrado por meio das ações estratégicas para novas situações de trabalho. Portanto, diferentemente de dados e informação, o conhecimento contém discernimento, através do qual se desenvolvem ações com base naquilo que já é conhecido, aprimorado em resposta a novas situações e informações. Quando se guardam informações só para si, internalizando-as, estas podem ser consideradas o mesmo que 158 nada, pois, não sendo trabalhadas e conhecidas pelos outros indivíduos, deixam de gerar novos conhecimentos. Desse modo, o conhecimento é resultado da análise e reflexão de informações que, por sua vez, foram organizadas por meio do processamento dos dados e pode resultar em sabedoria, ou seja, num elevado grau de novos conhecimentos que podem ser traduzidos em inovação capaz de ocorrer em níveis hierárquicos, conforme apresentado na Figura 3. É por meio do conhecimento que os gestores das empresas buscam compreensão mais efetiva da situação-problema. Com a interação destes profissionais no ambiente de trabalho, pode ocorrer, como resultado, a aprendizagem individual e grupal. O aprendizado é o resultado da integração de novas informações em estruturas de conhecimento já existentes, de modo a torná-las, potencialmente utilizáveis em processos futuros de processamento e de elaboração. Além disto, conhecimentos novos resultam de um processo de interferência na própria estrutura do conhecimento (BEL, 2007). O nível mais alto desta hierarquia, mostrado na Figura 3 - Sabedoria, ou seja, conhecimento altamente relevante, baseado em habilidades humanas, experiência, intuição e insight, pode levar à criação de inovações e permitir à empresa atuar com diferencial competitivo. 159 Sabedoria Inovação Novos Conhecimentos Ações Soluções Ação Experiências Conhecimento (Base conhecimento Individual e grupal) Análise Elaboração Informação Processamento Interpretação Dados Figura 2 - Níveis Hierárquicos da Informação Fonte – Elaborado pelos autores, 2011. 160 Para alcançar os níveis abordados acima, as empresas podem dispor de muitos dados e informações de natureza quantitativa e qualitativa, porém devem ser selecionadas as que vão contribuir na geração de conhecimento e, as demais, descartadas. Muitas informações, principalmente, as usadas no desenvolvimento de um produto, evitam a ocorrência de futuros problemas ou auxiliam na melhoria da nova versão do produto. O aprendizado obtido em trabalhos anteriores, sendo compartilhado pela equipe, evita a repetição de erros. Por isso, todas as informações devem ser registradas, consolidando um conhecimento explícito da organização. No entanto, as empresas, para criarem novos conhecimentos, precisam obter os dados e informações, por isso dependem de fontes de pesquisa ou de contatos, isto é, de sistemas de informação. 3.1.1 Fontes de informação As organizações precisam de base confiável de informações e necessitam do estabelecimento de estrutura de competências técnicas e fontes específicas, não só para o seu autocontrole, mas para atender às exigências externas, como as de natureza fiscal, jurídica e exigências de seus relacionamentos – clientes, fornecedores, sócios e acionistas. Saindo das fronteiras domésticas e da rotina diária, a pesquisa por fontes de informação externas requer competência e habilidades especiais. Cabe mencionar a classificação de Moresi (2000) que indica três categorias de fontes de informação: 1) Fontes de informação técnica: as normas técnicas, documentos patentes, legislação e publicações oficiais referentes à área. 2) Fontes de informação para negócios: os relatórios anuais de companhias, diferentes tipos de diretórios, relatórios de pesquisas de mercado, levantamentos sobre mercado, levantamentos industriais, revistas técnicas, manuais, guias, revistas publicadas pelas próprias companhias, revistas de negócios, publicações estatísticas, catálogos de manufaturas e jornais. 3) Fontes de informação científica: as teses, periódicos de pesquisas, artigos de revisão de literatura, anais de conferências, congressos, eventos científicos, entre outros. Barbosa et al (2003, p.4 e 5) citam exemplos da busca pelas informações no ambiente externo e interno: Fontes pessoais externas – 1. Clientes; Competidores; Associações 161 profissionais ou de negócios (fornecedores, banqueiros, advogados, analistas financeiros e outros executivos). 2. Órgãos governamentais. 3. Outras fontes pessoais Fontes de publicações externas – 1. Jornais e periódicos; 2. Publicações de governo; 3. Conferências, viagens de negócios; 4. Bibliotecas externas; 5. Relatórios de companhias de pesquisas; 6. Serviços de informações eletrônicos. Fontes pessoais internas – 1. Gerentes superiores, membros da diretoria; 2. Gerentes subordinados; 3. Pessoal de staff subordinado. Fontes de publicações internas – 1. Memorandos internos, circulares; 2. Relatórios internos e estudos; 3. Biblioteca da empresa; 4. Relatórios de gestão de sistemas de informação. No estudo feito pelos autores, acima, há uma análise sobre duas das características de fontes de informações que eles consideram importantes na pesquisa: a percepção sobre a acessibilidade da fonte e percepção sobre a qualidade da fonte. O primeiro conceito vai além do conhecimento sobre o acesso físico ou proximidade da fonte: inclui o tempo e o esforço demandado para fazer contato com ela, o custo de sua aquisição e a facilidade de seu uso. Ficou bastante evidenciado, pelo conteúdo teórico, que é necessário expandir a pesquisa por informações, não só além das fronteiras das empresas, mas do ambiente informacional interno. Para concluir, é importante destacar que a relevância da gestão organizacional está na interação dos profissionais de todos os setores, otimizando o arsenal de informações, interno e externo, independentemente do seu tamanho ou ambiente de negócios. Esta busca pela eficácia passa por uma boa gestão de recursos informacionais – ferramentas de gestão do conhecimento que há nas pessoas e nos documentos das empresas, disponibilizando-os para toda a organização para que conduzam à produção de novos conhecimentos. 3.3 Sistema de informação Um sistema de informação é o conjunto de elementos ou componentes que interagem para atingir objetivos. São sistemas com entradas, mecanismos de processamento, saída e feedback. No sistema de informação, a entrada corresponde a dados capturados, e a saída envolve a produção de informações úteis, muitas vezes, na forma de relatório. O feedback pode ser entendido como a avaliação dos procedimentos para melhorar e corrigir erros (BEL, 2007). 162 A expressão tecnologia da informação (TI) serve para referenciar a solução ou conjunto de soluções sistematizadas, baseadas no uso de métodos, recursos de informática, de comunicação e de multimídia, veiculação, processamento e reprodução de dados e a subsidiar processos que convertem dados em informações (BEAL, 2007). Segundo Drucker (1999), a tecnologia da informação é um conjunto de métodos e ferramentas, mecanizados ou não, com o objetivo de garantir a qualidade e pontualidade dentro da malha empresarial. Na visão deste autor, não há como alcançar a visão sistêmica, numa organização no século XXI, sem que a estratégia esteja intimamente ligada a altos investimentos em sofisticada tecnologia da informação. Beal (2007) afirma que um sistema de informação depende de recursos humanos (os usuários finais e especialistas), hardware (máquinas e mídia), software (programas e procedimentos), dados (bancos de dados e base de conhecimento) e redes (mídia de comunicação e apoio de rede), para executar atividades de entrada, processamento e controle que convertem recursos de dados em produtos de informação. A tecnologia da informação é utilizada por indivíduos e organizações no acompanhamento da velocidade com que as transformações vêm ocorrendo no mundo; para aumentar a produção; melhorar a qualidade dos produtos; como suporte à análise de mercados; para tornar ágil e eficaz a interação com mercados, com clientes e até com competidores. É usada como ferramenta de comunicação e gestão empresarial, de modo que organizações e pessoas se mantenham operantes e competitivas nos mercados em que atuam. Em face disso, percebe-se que, além de sua rápida evolução, é cada vez mais intensa a percepção, por parte das empresas, de que a tecnologia de informação e comunicação não pode ser dissociada de qualquer atividade, já que é importante instrumento de apoio à incorporação e compartilhamento de conhecimento. A integração de um sistema de informação dentro de uma organização é poderoso instrumento de redução de custos, aumento de produtividade e melhoria no atendimento ao cliente. Sistemas integrados oferecem a visibilidade da informação para planejamento on line, tais como previsão de demanda, níveis de estoque e cronogramas de produção. Há, também, a possibilidade de comparar informações provenientes do planejamento com as informações reais, de onde é possível extrair novas informações 163 de apoio à decisão dos gestores. As redes interativas de computadores estão crescendo exponencialmente, criando novas formas e canais de comunicação, moldando a vida e, ao mesmo tempo, sendo moldadas por ela (DRUCKER, 1999). Diante das teorias acima, pode-se dizer, então, que a tecnologia auxilia os empresários e gerentes a planejarem suas tarefas, de modo a conquistarem, cada vez mais, o cliente. O conhecimento dos clientes potenciais permite que sejam tomadas medidas específicas e eficazes para conquistá-los. A internet proporciona diversas ferramentas de comunicação que podem ser utilizadas na coordenação e integração com parceiros de negócios, contudo, também, para a troca de informações entre os próprios agentes das empresas e de outras empresas, o que traz a vantagem de permitir que problemas sejam discutidos e resolvidos imediatamente. Após identificar a contribuição da tecnologia da informação, abordase, no próximo item, a importância da tecnologia da informação na implantação da gestão do conhecimento. 3.4 Tecnologia da informação para implantação da gestão do conhecimento Como mencionado pelos autores pesquisados, a sociedade contemporânea reconhece a grande importância do conhecimento que está contido nas pessoas. A tecnologia da informação, aliada a esse conhecimento, vem adquirindo valor para o mercado, à medida que é compartilhado pelos grupos sociais, os quais usam, cada vez mais, novas tecnologias de comunicação. A tecnologia favorece o acesso a novos conhecimentos, novos conceitos, novas formas de trabalho, novos vocabulários e, no mundo globalizado, novas culturas. Porém, mesmo que as ferramentas tecnológicas, em rede ou não, possam interligar pessoas que precisam compartilhar conhecimento a distância, não se pode esquecer de que se trata apenas de sistema de distribuição e armazenamento para o intercâmbio do conhecimento. Elas não criam conhecimento e não podem garantir, nem promover a geração ou compartilhamento do conhecimento numa cultura organizacional que não favoreça a gestão do conhecimento. Nonaka e Takeuchi (1997) enfatizam a gestão do conhecimento como processo interativo de criação do conhecimento organizacional, definindo-o como a capacidade que uma empresa tem de criar conhecimento, disseminálo na organização e incorporá-lo a produtos, serviços e sistemas. 164 Para Moresi (2000), a gestão do conhecimento supre os aspectos críticos da adaptação, sobrevivência e competência das organizações diante da mudança ambiental crescente e descontínua. Essencialmente, ela incorpora processos organizacionais que buscam a combinação sinérgica da capacidade de processamento de dados e de informações dos seres humanos. O papel principal da tecnologia da informação na gestão do conhecimento consiste em ampliar o alcance e acelerar a velocidade de transferência do conhecimento. As ferramentas de gestão do conhecimento pretendem auxiliar no processo de captura e estruturação do conhecimento de grupos de indivíduos, disponibilizando este conhecimento numa base compartilhada por toda a organização. As organizações que têm no conhecimento seu insumo de negócios não devem mantê-lo em sistemas fechados e inacessíveis, sob pena de perderem sua eficácia empresarial. A mera existência de conhecimento na empresa é de pouco valor, se ele não estiver acessível. Com o uso da tecnologia, o conhecimento pode fluir por redes de comunidades, transformando a tecnologia em um meio, e o conhecimento em uma mensagem (DAVENPORT E PRUSAK, 2003). Para Davenport e Prusak (2003, p.108 a 110), a gestão do conhecimento é composta de três etapas, que não são, necessariamente, consecutivas ou ordenadas. 1. Gestão do conhecimento: a) o processo de aquisição - compra de ativos de conhecimento, aluguel, contratação de consultoria, pesquisa universitária ou institucional; b) recursos dirigidos - formação de grupos para finalidades específicas, como departamentos de pesquisa e desenvolvimento de produto, entre outros; c) fusão – “reunião de pessoas com diferentes perspectivas para trabalhar num problema ou projeto, obrigando-as a chegar a uma resposta conjunta”; d) adaptação - propensão contínua à adaptação de novos contextos e condições por parte da organização, baseada principalmente em dois aspectos: “possuir recursos e capacidades internas que possam ser utilizados de novas formas e estar aberta à mudança ou ter uma elevada capacidade de absorção”; e) redes - tanto as redes informais como as comunidades da prática. 165 2. Codificação e coordenação do conhecimento: neste caso, os autores entendem que “o objetivo da codificação é apresentar o conhecimento numa forma que o torne acessível àqueles que precisam dele”. Para codificar o conhecimento de uma empresa, sugerem que sejam seguidos alguns princípios básicos, como a definição dos objetivos dos conhecimentos que serão codificados, a identificação do conhecimento existente em suas várias formas, a avaliação do conhecimento, segundo sua utilidade e adequação em meios apropriados para sua codificação e distribuição. 3. Transferência do conhecimento: quanto a este ponto, os autores consideram que a forma mais eficaz de transferência de conhecimento é a conversa “face a face” entre os indivíduos que o detêm, mesmo considerando o notório problema da dispersão da localização dos indivíduos que, eventualmente, detenham os conhecimentos desejados. Segundo eles, “há uma profusão do conhecimento nas organizações, porém sua existência não assegura seu uso”. Como estratégias para melhor realizar a transferência do conhecimento, os autores sugerem as reuniões presenciais, o rodízio de executivos, o estímulo a bate-papos informais ao “redor do bebedouro”. Segundo os autores, “na economia regida pelo conhecimento, conversar é trabalhar”. A gestão do conhecimento depende muito da gestão da infraestrutura da tecnologia da informação. Carvalho (2003, p.40) questiona: “O que deve a empresa fazer para não prejudicar a gestão do conhecimento e ao mesmo tempo proceder às mudanças necessárias na área de tecnologia da informação”? O que se observa, diante deste questionamento, é que o cuidado para efetivar essas mudanças é pouco, devido à base cultural de cada empresa. O ambiente tem de ser preparado, no sentido de não ocorrer rejeição dos membros da empresa. Na gestão da informação há a ideia de substituir o trabalhador, ao contrário da gestão do conhecimento, a qual se concentra nas pessoas. Pergunta-se: quem possui o conhecimento? Quem gera o conhecimento? É o trabalhador. O fator humano está sempre presente (CARVALHO, 2003). Com o uso de aplicativos tecnológicos, qualquer documento produzido dentro da empresa pode ser lido e modificado por outros usuários. A mais valiosa função da tecnologia, na gestão do conhecimento, é estender o alcance e aumentar a velocidade da transferência do conhecimento. A tecnologia da informação permite que o conhecimento de uma pessoa ou 166 de um grupo seja extraído, estruturado e utilizado por outros membros da organização e por seus parceiros de negócios no mundo todo (DAVENPORT E PRUSAK, 2003). 3.4.1 Construção de uma base de dados de conhecimento O projeto de criação dos repositórios de conhecimento tem como objetivo primordial capturar conhecimentos incorporados em documentos como memorandos, relatórios, apresentações, artigos e o respectivo armazenamento em repositório onde podem ser facilmente recuperados (DRUCKER, 1999). Segundo Davenport e Prusak (2003), os três tipos básicos de repositórios são: o de conhecimento externo (inteligência competitiva), conhecimento interno estruturado (relatórios de pesquisa, materiais sobre os produtos, técnicas e metodologias) e conhecimento interno informal (banco de dados de discussão, repletos de conhecimentos e lições de aprendizagem). Ainda segundo os autores, o repositório de conhecimento externo se enquadra aos sistemas de inteligência competitiva. Os sistemas mais eficientes filtram, sintetizam e adicionam contexto à informação. O repositório de conhecimento interno estruturado tem por objetivo o armazenamento, tanto do conhecimento, quanto da informação. Quanto ao conhecimento informal interno, refere-se àquele conhecimento que reside na mente das pessoas, da organização, mas que não está estruturado nem documentado. Trata-se de repositório de conhecimento tácito. 3.4.2 Codificação do conhecimento O objetivo da codificação é apresentar o conhecimento numa forma que o torne acessível àqueles que precisam dele. A codificação, literalmente, transforma o conhecimento em código (embora não necessariamente em código de computador) para torná-lo inteligível e mais claro, portátil e organizado. Novas tecnologias desempenham papel importante na codificação do conhecimento, tornando cada vez mais promissoras as perspectivas dessas atividades. Nos princípios básicos da codificação do conhecimento, a principal dificuldade encontrada no trabalho de codificação é a questão de como codificar o conhecimento sem perder suas propriedades distintivas e sem transformá-lo em informação ou dados menos vibrantes. Na realidade, o conhecimento precisa de alguma 167 estruturação, mas não em excesso, para não impedir seu aproveitamento (DAVEMPORT E PRUSSAK, 2003). 3.4.3 Armazenamento e troca de conhecimento As organizações determinam sua estratégia de gestão do conhecimento, baseadas em suas estratégias competitivas. Os conhecimentos armazenados em banco de dados são reutilizados; outra pessoa pode necessitar da solução contida neste documento, podendo, inclusive, escolher entre várias soluções. O compartilhamento do conhecimento entre as pessoas pode ser usado, através de tecnologias de redes (webs), geralmente interativas, onde descrevem e colocam um problema encontrado ou uma nova ideia, quase em tempo real. Uma pessoa pode estar do outro lado do mundo, tendo cultura e modo de pensar completamente diferentes, mas pode dispor, durante este processo, de solução ou inovação que tenha surgido durante a troca de ideias via computador. A gestão do conhecimento eficaz só poderá ocorrer com a ampla mudança comportamental, cultural e organizacional. A instalação de modernos softwares de gerenciamento do conhecimento não trará mudanças por si só, dependerá, sempre, do conhecimento humano compartilhado (DAVEMPORT E PRUSSAK, 2003). A tecnologia é utilizada para viabilizar este processo. 3.4.4 Tecnologias para a gestão do conhecimento Há diferentes interpretações para o termo “tecnologia”. Segundo Cronin (2000), sob o ponto de vista da academia, a tecnologia se constitui na aplicação de conhecimento científico aos propósitos humanos; para a engenharia, ela se compõe de sistemas físicos que determinam a performance industrial; a gestão de negócios identifica a tecnologia como sendo os ativos utilizados na produção de bens e serviços. De acordo com Dodgson (2000), tecnologia é mais do que apenas um conjunto de artefatos tangíveis como máquinas e equipamentos. Ela também se forma no conhecimento e habilidades necessários à aplicação no desenvolvimento de produtos, processos e sistemas importantes para o processo produtivo das empresas. Quando as empresas adquirem novas tecnologias, significa a soma ou modificação do conhecimento existente na empresa. Muitas empresas enfrentam barreiras com seus profissionais no processo de adequação 168 das tecnologias, porque ela sempre provoca mudanças e exige novos conhecimentos. Com base nas teorias pesquisadas, o conceito de tecnologias da gestão do conhecimento não só é amplo, como também não é passível de uma definição clara e exata. Algumas tecnologias de infraestrutura, que normalmente não são vistas como integrantes dessa categoria, podem ser úteis na facilitação da gestão do conhecimento: videoconferência, internet e até mesmo o telefone. Essas tecnologias não captam nem distribuem o conhecimento estruturado, mas são muito eficazes na viabilização da transferência de conhecimento tácito entre as pessoas. As tecnologias do conhecimento tendem mais a ser empregadas de forma interativa, inclusive por seus usuários. Assim sendo, o papel das pessoas nas tecnologias do conhecimento é parte integrante de seu sucesso. Temos, como exemplo de repositório de conhecimento amplo, a internet. Como fonte do conhecimento externo, a internet pode superar algumas das desvantagens da assimetria e do caráter do conhecimento, uma vez que a pesquisa de um assunto trará resultados de todo o sistema. Mas, o nível de confiança no mercado do conhecimento da internet é baixo, é necessário “filtrar” os conteúdos e checar sua origem, antes de tomá-los como verdade. Para concluir, diante do contexto teórico, ficou evidenciado que a tecnologia, isoladamente, não fará com que a pessoa possuidora do conhecimento o compartilhe com as outras. A mera presença da tecnologia não criará uma organização de aprendizado contínuo nem uma empresa criadora do conhecimento. A gestão do conhecimento é muito mais do que tecnologia, mas, certamente, a tecnologia é instrumento de suporte que pode influenciar qualitativa e quantitativamente na sua implementação. As empresas terão enormes dificuldades em implantar programas de gestão do conhecimento se não quiserem usar tecnologia. Portanto, a tecnologia da informação é facilitadora de iniciativas de gestão do conhecimento. 4 Tecnologia CAD O termo CAD (Computer Aided Design) ou projeto auxiliado por computador é o nome genérico de sistemas computacionais (software), utilizados pela engenharia, geologia, arquitetura, e design para facilitar o projeto de desenhos técnicos. No caso do design, este pode estar ligado especificamente a todas as suas vertentes (produtos como vestuário, eletroeletrônicos, automobilísticos, etc.), de modo que a linguagem e 169 funções de cada especialidade são incorporadas na interface de cada programa (VOISINET, 1997). O objetivo principal dos sistemas CAD é aumentar a produtividade e a documentação do desenho detalhado do produto. Esse objetivo foi alcançado, de certa forma, quando os recursos do CAD passaram a ser aplicados extensivamente no ambiente de trabalho. Todavia, é fato que a ferramenta adequada não é condição suficiente para garantir bons resultados. Ela apenas habilita o usuário a conseguir os objetivos pretendidos, o que vai depender das habilidades, experiências e conhecimentos humanos. A interface dos usuários com os sistemas informatizados é importante. Usar uma interface mal projetada induz a erros ou deixa o usuário indeciso durante a realização de algumas operações ou, até, na forma de trabalhar de um usuário menos experiente. No sistema CAD, uma interface amigável deve conduzir o usuário na realização da operação, levando-o ao término dela, sem atropelos e sem a necessidade de tentativas prévias para entender ou dominar o recurso (DODGSON, 2000). Tem-se exigido dos sistemas CAD uma adaptação à realidade do mercado consumidor, ansioso por diversidade e qualidade nos produtos fabricados e ao dinamismo da economia globalizada. Essa não é só uma exigência feita aos sistemas CAD, mas a todas as ferramentas computacionais de suporte a projeto: de que a documentação dos dados e informações relacionadas ao projeto seja, de alguma maneira, armazenada e capturada adequadamente no computador. Este sistema de computação gráfica foi adaptado para outros setores, inclusive ao do vestuário, como se aborda a seguir. 4.1 Modelagem computadorizada A partir do uso do computador nos diversos campos de trabalho (indústria, comércio, administração, etc.), têm início profundas modificações em todo o sistema produtivo. As empresas do vestuário não ficaram fora deste contexto, sendo usadas as ferramentas do sistema CAD na criação de um software específico para a modelagem do vestuário. Destacase a importância da construção da modelagem na tela do computador e da possibilidade de arquivá-la para ser utilizada em qualquer outro momento. O sistema possibilita a graduação dos moldes, com precisão e qualidade, podendo ser automaticamente impressos no plotter, ou enviar ordem de corte, caso a sua fabricação esteja ligada ao sistema CAM. Os modelos arquivados no sistema podem, a qualquer momento, ser modificados, caso 170 seja necessário atender à exigência das novas tendências do mercado da moda (SILVEIRA, 2003). O uso desta tecnologia permite a simulação com combinações de peças do vestuário, formando inúmeros modelos, com a vantagem de manter tudo organizado, evitando a estocagem de moldes de papel. De posse das larguras corretas dos tecidos a serem cortados, pode-se encaixar as diferentes grades (tamanhos) e modelos, seguindo o planejamento dos pedidos dos clientes. Todo esse trabalho permanecerá armazenado. Surgindo a necessidade da repetição para o corte, basta “plottar” novamente, não tendo mais de serem refeitos os encaixes dos moldes. São muitos os benefícios alcançados com a implantação da tecnologia CAD que permite aos processos produtivos sustentarem as vantagens competitivas com a expansão dos negócios, aumento da competitividade, através de reduções do tempo, ciclos e custos, eliminação das atividades que não agregam valor ao produto e a melhoria da qualidade do produto final (SILVEIRA, 2003). 4.2 Conclusão Como foi apresentado na fundamentação teórica, o valor da informação é função do contexto da organização, da finalidade de utilização, do processo decisório e dos resultados das decisões. Basicamente, a informação tem duas finalidades: uma para o conhecimento dos ambientes internos e externos de uma organização e outra para atuação nestes ambientes. A tecnologia da informação desempenha a função de auxiliar no processo de captura e estruturação do conhecimento necessário nas decisões da empresa, disponibilizando este conhecimento em base de dados para toda a organização. Ocorre a gestão do conhecimento, quando os membros da empresa, de posse das informações, dão-lhes significados, ancorados em seu modelo mental e experiências, melhorando a ocorrência de aprendizagem. Diante destas conclusões, pretende-se verificar o uso da tecnologia da informação na obtenção, organização e acesso das informações aplicadas à gestão do conhecimento no processo de treinamento no emprego do software de modelagem do vestuário. Para atingir este objetivo, planejou-se trabalhar com os procedimentos metodológicos apresentados a seguir. 5 Estudo de Caso O nome da empresa de informática será preservado. As informações foram obtidas em visitas à empresa para coleta de materiais, consultas em 171 material de cunho comercial e documental. Obteve-se, também, acesso ao banco de dados com as informações da avaliação realizada pelas empresas do vestuário, quanto ao treinamento para uso do sistema CAD no setor de modelagem do vestuário. A abordagem do questionário prevê a obtenção de informações sobre o treinamento no âmbito da empresa de informática e no setor de modelagem das empresas do vestuário onde o software foi implantado. As informações são obtidas pela empresa com o suporte da tecnologia da informação, que facilita o registro, a organização e o acesso, o que pode gerar novos conhecimentos a serem aplicados na resolução dos problemas enfrentados pelos usuários, bem como nos procedimentos para rever o planejamento do treinamento. Após o treinamento (aproximadamente 10 dias), a empresa envia formulário para obter informações relacionadas aos futuros usuários do sistema, como: quem é o cliente, quem são os funcionários capacitados, data da realização do treinamento, carga horária utilizada, nível de escolaridade do usuário, cargo do usuário na empresa do vestuário e o nível de conhecimento em modelagem e informática. As informações deste formulário são analisadas e, posteriormente, é feito o contato com o cliente para efetuar a pesquisa da qualidade do treinamento. Este contato, inicialmente, dá-se via e-mail. Caso não seja respondido, após várias tentativas, a pesquisa é feita através de ligação telefônica. Durante o contato, são questionados a apresentação, a pontualidade, o desempenho e o interesse do instrutor, além de questões relacionadas ao tempo de treinamento e satisfação do cliente com relação ao produto. Estas informações são arquivadas numa base, em documento de Excel. A ordem dos dados descritos é organizada de acordo com a data do contato, na sequência pelo nome da empresa, nome do instrutor que efetuou a capacitação e os relatos mais importantes dos usuários. 6 Resultados da pesquisa A empresa disponibilizou o banco de dados do período de 14/01/2010 a 05/10/2010. Foram selecionados os relatos de 58 empresas que receberam treinamento para uso do sistema CAD vestuário. Na primeira etapa da Análise de Conteúdo, selecionaram-se, para efeito desta pesquisa, 5 questões respondidas pelas empresas do vestuário, as quais foram consideradas suficientes para o alcance dos objetivos desse trabalho. Na segunda etapa, foram definidas as unidades de análise, isto é, a unidade de registro e a 172 unidade de contexto da amostra selecionada. As unidades de registro são os critérios de avaliação usados pela empresa de tecnologia, e as unidades de contexto são os temas abordados em cada questão. Após a definição do tema central de cada pergunta – unidade de contexto – foi indicada a frequência encontrada com as respostas. O sistema de codificação das unidades de contexto, neste caso, é o tema principal das questões respondidas pelas empresas do vestuário em relação ao treinamento. O tema proposto no primeiro item do questionário (GRAFICO 1) visa a dimensionar a qualidade do método de ensino utilizado pelo instrutor; isto quer dizer: se o mesmo possui a didática necessária para ministrar o treinamento. A maioria das empresas considerou o treinamento como sendo bom ou ótimo, totalizando, assim, 58,62% dos entrevistados que assinalaram a nota 3, e 32,27% dos que escolheram a nota 4. São poucos os clientes insatisfeitos com relação ao método de ensino, indicando a baixa média das alternativas regular 6,89% e ruim 1,72%. Gráfico 1 - Métodos de Ensino Utilizado. Fonte: desenvolvido pela autora, 2011. Na segunda questão, a empresa de informática solicita um posicionamento geral do cliente com relação à qualidade do treinamento para uso do sistema computadorizado. As avaliações das empresas do vestuário, com relação a este item, apresentaram relativa satisfação no total dos clientes. Observa-se, assim, que o treinamento foi considerado ótimo para 36,20%, bom para 37,93%, 17,24% sinalizaram que o treinamento foi regular e 8,62% ruim. 173 Gráfico 2 - A qualidade do treinamento. Fonte: desenvolvido pela autora, 2011. A terceira questão investiga sobre a organização do material e as atividades do instrutor. Dentre as alternativas, a maioria dos clientes das empresas do vestuário, 53,44%, considerou a organização ótima, e 39,65% boa. O grau de insatisfação, neste caso, foi pequeno, porque apenas 6,89% das empresas consideram regular e nenhuma empresa considerou a organização do material e das atividades ruim. Gráfico 3 - Organização do material das atividades Fonte: desenvolvido pela autora, 2010 174 No Gráfico 4, é apresentada a avaliação com relação ao tempo de treinamento. Constatou-se, pelo resultado obtido neste item, que o tempo determinado para o treinamento não permite o aprofundamento do conteúdo e dos exercícios práticos da modelagem do vestuário. Neste sentido, observa-se que 20,68% dos entrevistados consideram o tempo de treinamento ruim e 37,93% relataram que o treinamento é regular. Das 58 empresas entrevistadas, somente 18,96% registram que o tempo previsto é ótimo e 22,41% que é bom. Gráfico 4 - Tempo previsto do treinamento. Fonte: desenvolvido pela autora, 2010. No último item do questionário, foi feita uma pergunta descritiva que permitiu, ao entrevistado, manifestar-se acerca do treinamento, sem sugestão de resposta. Para tanto, definiu-se como unidade de contexto o tema (corpus principal), ou seja, o treinamento. Criou-se um sistema de categorias resultantes da opinião dos entrevistados sobre o tema principal, a fim de facilitar a análise. A partir do momento que o cliente emitiu a sua própria opinião, sem alternativas para assinalar sobre o treinamento ministrado na sua empresa, ele pôde manifestar-se livremente sobre a realidade dos fatos. 175 Gráfico 5 - Avaliação Descritiva do Treinamento Fonte: desenvolvido pela autora, 2010 Contatou-se que muitos clientes manifestaram sua insatisfação em relação a maneira como a empresa de informática planeja o treinamento para o uso do sistema CAD. Ao analisar o Gráfico 5, com as categorias que descrevem os aspectos do treinamento, verificou-se que o tempo previsto para o treinamento é considerado insuficiente por 56,89% dos entrevistados. Ou seja, a maioria das empresas do vestuário, mencionada nesta pesquisa, está insatisfeita com o tempo previsto para o treinamento. Ocorreram, também, casos de incoerência entre as respostas assinaladas pelos entrevistados com as opções pré-estipuladas e a resposta descritiva da pesquisa, como pode ser verificado nos casos a seguir. Uma das empresas atribuiu conceito ótimo ao treinamento. No entanto, escreveu: “O treinamento foi realizado somente em uma tarde; e não em três dias conforme o instrutor escreveu no relatório. Ficou combinado que o mesmo voltaria para tirar dúvidas”. Outra empresa emitiu conceito máximo nas questões alternativas e, na descritivas, escreveu: “a instrutora não tinha conhecimento total do sistema, tiveram algumas dúvidas quanto ao sistema, mas a instrutora ficou de dar retorno”. Outra empresa, por sua vez, reclamou: “a instrutora, é insegura, não tem o conhecimento necessário, ficaram muitas dúvidas que não soube tirar”. Pode verifica-se que, quando o cliente se expressa livremente, ele consegue relatar o real teor dos fatos. 176 Com relação à categoria que questiona se o instrutor estava capacitado para solucionar problemas de modelagem, 27,58% das empresas relataram que o instrutor demonstrou não estar capacitado para solucionar os possíveis problemas de modelagem e que só conhecia as funções do software. Os dados mostram, ainda, que 10,34%, dos entrevistados indicaram falta de apostila durante o treinamento, com exemplos do uso das funções do sistema e espaços para observações. Foram poucos os clientes que reclamaram da didática do instrutor, demonstrando, assim, que a maioria deles possui facilidade de transmitir o conhecimento. 7 Conclusão À medida que a empresa fornecedora do sistema CAD dispõe de uma base de conhecimento proveniente da análise das informações obtidas junto aos seus clientes, sobre as características da empresa do vestuário, do futuro usuário do software e do desempenho do treinamento, pode estabelecer requisitos apropriados às características específicas de cada empresa e aos conhecimentos do usuário. Isto representa, sem dúvida, importante diferencial para o sucesso do software no mercado, pois auxilia no desenvolvendo de competências específicas a serem aplicadas na capacitação, tanto dos instrutores, quanto dos modelistas. Na aplicação dos elementos da gestão do conhecimento, as empresas devem gerenciar bem as informações provenientes dos relatos e experiências dos usuários, vivenciadas durante o treinamento. O aprendizado obtido com a qualidade do treinamento pode ocorrer, à medida que haja processo de realimentação sobre as atividades desenvolvidas no chão de fábrica. Portanto, a tecnologia da informação é o insumo para a obtenção de dados e informações, porém a empresa tem de saber usá-la transformando-a em conhecimento, por meio de novas atitudes e de ações de trabalho. A tecnologia é um instrumento que disponibiliza informações, mas precisa das pessoas, na sua interpretação, criando, assim, novos conhecimentos na forma de habilidades, aprendizagem e raciocínio na tomada de decisões. Com foco no objetivo da pesquisa, acredita-se que as empresas que fornecem o software devem, com base em informações reais, obtidas por meio de pesquisas atualizadas junto às empresas usuárias do sistema, melhorar seus procedimentos, as funções do produto, a interface do sistema 177 e atender as necessidades dos clientes. Somente através das informações poderão criar novos conhecimentos e até mesmo inovar. Isto acontece, à medida que a informação é usada na resolução de problemas, na tomada de decisões, no melhoramento dos serviços oferecidos. Quando aplicada à gestão do conhecimento, as pessoas que formam a empresa interagem entre si, compartilham seus conhecimentos, os quais se transformam em conhecimento organizacional. Referências bibliográficas BARBOSA, C. A. M.; DREUX, M.; FEIJÓ, B.. An Architecture for the Design Entity. Journal of the Brazilian Society of Mechanical Sciences and Engineering, vol. XXV, No. 1, p. 15-22, JAN-MAR/2003. BEAL, Adriana. Gestão Estratégica da Informação: Como Transformar a Informação e a Tecnologia da Informação em Fatores de Crescimento e de Alto Desempenho nas Organizações. São Paulo: Atlas, 2007. CARVALHO,Rodrigo Baroni. Tecnologia da Informação Aplicada à Gestão do Conhecimento. Belo Horizonte: FACE-FUNEC, C/Arte, 2003. CRONIN, Blaise. Esquemas conceituais e estratégicos para a gerência da informação. 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A nova riqueza das organizações: gerenciado e avaliando patrimônios de conhecimento. São Paulo: Campus, 1998. VOISINET, D. D. CAD, Projeto e Desenho Auxiliado por Computador: Introdução, Conceitos e Aplicações. Tradução por Ricardo e Roberto Bertini Renzetti. São Paulo: McGraw-Hill, 1997, 450 p. 179 Inovações têxteis da pós-modernidade Maria Izabel Costa Rafaela Pires 1 Introdução Nas últimas décadas, as empresas têxteis passaram por mudanças profundas, seja em função de mudanças conjunturais ou por inovações tecnológicas, que têm alterado funções e processos produtivos, com a utilização de inovações tecnológicas. Os efeitos das inovações dos maquinários causam mudanças que levam ao um redesenho, tanto no comportamento da empresa, quanto em sua participação no mercado. As indústrias têxteis no Brasil têm desempenhado um papel de grande relevância no processo de desenvolvimento do país. Fatores importantes neste crescimento devem ser considerados, como o uso de novos maquinários, equipamentos, novas matérias-primas e processos de acabamento, possibilitando maior uso de fibras artificiais e sintéticas que, dentre outras vantagens, tem sua produção livre de problemas relativos a safras e climas. Com as inovações tecnológicas e a ciência (nanotecnologia), é possível explorar a criatividade das técnicas têxteis, dos materiais, das estampas, do beneficiamento e do acabamento sobre o tecido. O presente trabalho teve por objetivo desvendar as características da pós-modernidade nos têxteis, evidenciando suas referências e aplicação. Desta forma, apresenta um levantamento de dados e informações referentes aos conceitos e características da pós-modernidade; exemplos de têxteis, segundo o desenvolvimento tecnológico, sustentabilidade e aplicação dos tecidos, com a finalidade de elaboração de um quadro de referência têxtil. Para tanto, utilizou-se a pesquisa qualitativa e descritiva nos procedimentos técnicos de coleta de dados em livros e artigos, bem como informações em base eletrônica, que fazem a divulgação das inovações e tecnologias têxteis. Muitas fontes foram encontradas na internet, já que, nos tempos atuais, as informações surgem a todo momento e são veiculadas pela rede com mais facilidade. Parte das interpretações realizadas sobre têxteis e condição sociocultural foi realizada de forma indutiva, quando “de fatos particulares se tira uma 180 conclusão genérica”. No entanto, outras interpretações foram de caráter dedutivo, onde o “raciocínio parte de enunciados gerais dispostos em ordem, como premissas de um raciocínio para chegar a uma conclusão particular” (LAKATOS, 2007). Citam-se, como exemplo, as interpretações gerais sobre o tema da pós-modernidade que foram abordadas, para se chegar às deduções e uniões entre estética e funcionalidade têxtil no momento histórico e os reflexos da pós-modernidade. 2 Reflexos da pós-modernidade na criação do substrato têxtil Quando se fala em pós-modernidade, logo é lembrado o desenvolvimento científico de ponta, niilismo, mundo globalizado, hedonista e os meios virtuais. Por trás desses conceitos, há um longo período histórico que, lentamente, foi se formando, envolvendo a ponderação do pensar com o uso do bom senso, revisão de ideias e conceitos já sedimentados ao longo do tempo, quebra de valores e desconstrução de estruturas sociais (BLAINEY, 2010, p. 209). Na visão de Lyotard (1998), a pós-modernidade designa o estado de cultura após as transformações que afetaram as regras dos jogos da ciência, da literatura e das artes, a partir do final do século XIX. Eagleton (1998) explica que o termo pós-modernidade alude a um período histórico específico, que questiona as noções clássicas da verdade, da razão, da identidade e da objetividade, da ideia de progresso ou emancipação universal, dos sistemas únicos, das grandes narrativas ou dos fundamentos definitivos de explicação. Conceituar pós-modernidade não é algo fácil, pois não se sabe, com exatidão, se esse fenômeno relativamente recente representa um novo período na civilização; se é uma mudança paradigmática, um movimento cultural ou se pode ser considerado como uma reavaliação crítica dos modos modernos de pensamento, pois questiona as dicotomias rígidas, criadas pela modernidade entre realidade objetiva/subjetiva, fato/imaginação, secular/sagrado, público/privado, científico/vulgar. Para Terrén (1999), a análise do que vem depois da modernidade é complexa. O discurso da pósmodernidade oferece uma série de dificuldades específicas que obrigam a aceitá-lo como algo fragmentado, contraditório e incompatível. Diante das citações acima, entende-se que a pós-modernidade está associada ao momento histórico no qual se constituiu uma crítica à modernidade, particularmente nos campos da arte e da produção do 181 conhecimento acadêmico, estabelecendo-se um debate caracterizado como pós-modernismo, que é orientado em torno do repensar e da superação de alguns preceitos modernos. Neste período, acelerou-se e foi aprimorado o desenvolvimento industrial, que é o conhecimento chave para a transformação de um novo mundo que deixou para trás regimes absolutistas em direção a governos mais abertos. Este conhecimento foi aplicado nas máquinas que substituíram o trabalho humano e, por consequência, houve mais desemprego; porém, a busca por conhecimentos intelectuais, foi impulsionada ainda mais. Lentamente, qualquer um poderia ser bem sucedido, independente da posição social em que houvesse nascido. No setor têxtil, “a manufatura foi o primeiro exemplo de industrialização, criando uma demanda por máquinas e ferramentas, fato que estimulou a mecanização” (BLAINEY, 2010, p.302). A cadeia têxtil foi sempre se renovando, acelerando e aumentando a produção, assim como a renda e a autonomia. Especialmente, dentre os períodos de guerras se evidenciou com grande força o que era possível ser feito através do conhecimento aliado à técnica: “As aeronaves e rádios iam de um continente a outro”, mísseis eram programados para viajar de um país, atingindo seu alvo em outro, bombas de hidrogênio, bombas nucleares prejudicando populações com apenas um comando eletrônico, propagandas televisivas influenciando milhares de pessoas ao mesmo tempo (BLAINEY, 2010, p.302). E a fria competição entre americanos e russos, com a corrida de qual nacionalidade chegaria primeiramente à lua, fato transmitido em 1969, através de satélites por imagens, reproduzidas na televisão para uma imensa massa de audiência. O mundo realmente havia se tornado pequeno, abrindo espaço para uma compulsão por inovações e desenvolvimentos tecnológicos, com os Estados Unidos na dianteira. Pode-se dizer que a chamada “pós-modernidade” tenha se firmado por volta das décadas de 1950 e 1960, quando máquinas de difusão da informação, através de interfaces virtuais, como a televisão e o rádio foram popularizados. Neste mesmo período, as metrópoles já haviam se formado e iriam, paulatinamente, compactar seus nichos, sobrepondo moradores cada vez mais individualistas que, futuramente, estariam conectados a todos os acontecimentos do mundo, através de suas telas de computador com acesso à internet; telas ou interfaces virtuais que 182 podem estar na casa ou no bolso, iphones, ipads, celulares ou notebooks com programas personalizados do interesse do usuário, acompanhado-os em todos os lugares possíveis (BLAINEY, 2010). Da mesma maneira que a técnica parece ter marcado a modernidade, na pós-modernidade pode-se notar um ponto de confluência em destaque que seria, justamente, a digitalização. O conhecimento aliado à técnica promove a informação que hoje está disponível a todos por meio digital. A virtualização de processos está tão inserida no cotidiano das pessoas, nos corpos, nos pensamentos, desejos e atitudes que, por vezes, mal conseguem diferenciar o que é real, natural, do que é virtual (LÉVY, 1999, p. 47). Entende-se que a virtualidade quebra conceitos arraigados da modernidade, tornando os indivíduos desterritorializados, dando total liberdade de ser e escolher o que quiser. Fato que ressalta também a complexidade de personalidades múltiplas, ecléticas, com diferentes gostos e ideais. Fato que, por outro lado, pode levar também ao narcisismo hedonista e individualista. A mudança parece ter se tornado um status quo na vida de todos, assim as palavras “adaptação” e “flexibilidade” parecem ser uma máxima para quem pretende sobreviver junto à frenética sociedade digital globalizada. Neste sentido, o mercado se coloca à frente, beneficiando-se com a criação de soluções para qualquer necessidade que possa surgir, ao mesmo tempo em que cria no consumidor o desejo por tendências de moda e de produtos tecnológicos. Neste ambiente, o design se destaca, inovando as características funcionais, estéticas e simbólicas dos produtos, com a finalidade de seduzir e convencer o consumidor à aquisição. O design têxtil atua neste sistema, desde a simples mudança de cartela de cores dos tecidos conforme a tendência do momento, bem como na identificação dos estados de espírito pessoais ou o espírito do tempo (Zeitgeist) do momento histórico dos consumidores. Pode-se, também, destacar a produção de peles e couros artificiais que simulam o couro e peles animais como forma de preservação ambiental. Outro destaque é o uso de tecnologias de ponta que inserem fios condutores às tramas do tecido de uma jaqueta esportiva, possibilitando o acesso à internet ou controles remotos, permitindo que o consumidor esteja, a todo o momento, conectado. Isto indica a necessidade de estar por dentro das novidades, assim como a necessidade de estar com a maior quantidade de sentidos 183 (visão, tato, audição, paladar e olfato) em alerta, como múltiplo uso do tempo, intensificando experiências. 2.1 A tecnologia a favor do design têxtil Com a evolução tecnológica construída ao longo do tempo, foi possível explorar ainda mais as técnicas ou materiais, proporcionando infinitas possibilidades de novas criações e texturas nos tecidos; sem contar com os diferentes tipos de estampas e tratamentos. Santos (2008) produz, curiosamente, uma coincidente concordância entre a trama têxtil e a trama informática para ilustrar as infinitas possibilidades de formatos têxteis. Conclui que: com o princípio binário de funcionamento do computador, através de diferentes combinações dos números 0 ou 1, é possível milhões de montagens que perpassam por circuitos elétricos, assim como a trama dos tecidos com fios, entrelaçando-se de maneira binária onde um esteja saltado e o outro preso consecutivamente; é possível também um número infindável de montagens e texturas. “Estamos num momento crucial da espiral tecido-moda-sociedade”. Segundo Chataignier (2006, p.113), os novos tecidos, “filhos” das transformações advindas da revolução industrial, iniciam sua história com a criação de tecidos artificiais (acetato, viscose, nylon, poliéster, microfibra) e chegam atualmente, aos tecidos com funções inesperadas. Seus formatos tradicionais são manipulados e transformados por meio de aplicações físicas, químicas e das últimas revelações da informática. Sua popularização no mercado de moda, porém, é lenta. Muitos dos tecidos altamente tecnológicos não são ainda produzidos em larga escala, parte deles estão, todavia, em fase de desenvolvimento e são muitas vezes financiadas por entidades públicas ou privadas. Outros, já desenvolvidos, testados e com presença no mercado, possuem altos valores, fato que, por ora, acaba dificultando sua popularização. “Estes tecidos, alguns quase miraculosos, em sua grande maioria, só são vendidos para confecções de médio a grande porte. O custo é alto e, para que se tornem viáveis para a tecelagem, exige-se que o cliente compre uma elevada quantidade do produto”. Áreas que se destacam no desenvolvimento de tecidos altamente tecnológicos são: a do esporte, a de armamento e de proteção para guerras, além da área médica hospitalar. Como exemplo dos tecidos voltados para o esporte, existem os tecidos dry fit, que não absorvem o suor, eliminando a umidade do corpo dos jogadores; tecidos com proteção ultravioleta UVA 184 e infravermelho UVB para esportistas que praticam atividades expostas ao sol; tecidos com ação bacteriostática (CHATAIGNIER, 2006, p.114). Como exemplo de tecidos médico-cirúrgicos, há novas fibras como o Spidex, fios da teia da aranha, usados como material cirúrgico em regeneração de nervos da medula espinhal. Em relação aos tecidos para proteção ou armamento em guerras, encontrou-se os que servem como músculos aumentando a força de um soldado em 30% (COLCHESTER, 2008, p.42). Muitos destes novos materiais são resultados de pesquisas realizadas na década de 1990 com a intenção de unir tecnologia têxtil com a eletrônica de plástico e a tecnologia da informação (TI). Sobretudo, os últimos avanços na nanotecnologia são os que desenrolaram especulações sobre uma possível revolução tecnológica tão significativa como a revolução industrial do século XVIII. Esta nova, porém, implica o remanejamento de materiais em escala atômica (COLCHESTER, 2008, p.19). O termo nanotecnologia vem da escala métrica “nanômetro” que se refere a um bilionésimo do metro ou 70.000 vezes menor que um fio de cabelo. É a ciência que tem como princípio básico a construção de estruturas de novos materiais, a partir da manipulação de átomos e moléculas. Tratase da aplicação da nova ciência no ramo têxtil, nas mais diversas áreas como medicamentos, cosméticos, área militar, física, bioquímica, engenharia, entre outras, trazendo mais qualidade e funcionalidade aos produtos. Com um futuro extremamente promissor na área têxtil, esta ciência encontra espaço nas mais diferentes inovações, aliando eletrônicos aos tecidos, bem como partículas de beneficiamento e até mesmo na criação de peças que filtrem determinado tipo de gás em uma guerra química, a partir da incorporação de partículas no algodão que possibilitem a filtragem (COLCHESTER, 2008). Com a ajuda da nanotecnologia, cientistas desenvolveram, nos tecidos, os mesmos mecanismos encontrados na planta aquática Lótus, que possui qualidades de limpeza natural, não permitindo a absorção de microorganismos em suas folhas. Assim, água, sujeiras, ketchup, óleo, mel, café, vinho tinto, simplesmente não são absorvidos pelo tecido. 2.1.1 Alta tecnologia no esporte O esporte moderno acabou se tornando um grande fenômeno e um dos principais produtos culturais do capitalismo. Muitas vezes utilizado 185 pelo governo como meio de dispersar manifestações populares contra as condições indignas de vida, assim como é também usado como política pública a favor da saúde física e mental dos jovens, além de ser um meio de inclusão social. Em 1996, a Speedo promoveu um concurso no qual o melhor projeto de auxílio ao esportista seria o vencedor. O projeto Fastskin ganhou o concurso e recebeu um aprimoramento do tecido, em 2004 (FastSkin FSII), que reduz o atrito da água com a pele do nadador, adiantando-o em milésimos de segundos, podendo isso ser o seu diferencial nas disputas aquáticas. Tratase de um projeto biomimético, no qual os tubarões foram o princípio desta inspiração. Criaturas extremamente velozes, cuja rapidez, segundo informações encontradas no site da Speedo, seria atribuída aos dentículos dérmicos em forma de “V”. Os dentículos que se movimentam para frente e para trás conforme o movimento da água, impulsionando-o, trazendo mais potência ao atleta. No caso do traje de natação, profissionais fizeram com que o tecido pressionasse a pele, de forma que impedisse a água de correr entre a pele do esportista e o tecido, passando pelos movimentos dos dentículos do tecido. Além disso, a pressão do tecido reduz a oscilação dos músculos, trazendo maior estabilidade ao nadador (SPEEDO, 2009). 2.1.2 Têxteis em tratamentos médicos Em busca da saúde do corpo para minimizar dores e sofrimentos, a medicina também se utiliza dos têxteis como auxílio nos tratamentos ou cirurgias. Tecidos com propriedades eletrônicas, ou não, formam interfaces externas com o organismo quando usadas no corpo. Os têxteis, usados nos procedimentos cirúrgicos, possuem o biomimetismo, tecidos com propriedades de cura para feridas e até mesmo crochets que mais se parecem com artesanato que, na verdade, são usados como implantes para clavículas. Segundo Colchester (2008), as teias de aranha poderiam ser vistas como fibras do futuro, deixando para trás muitas fibras sintéticas tecnológicas. Ela é elástica, extremamente resistente a altas temperaturas, podendo ser também magnética e condutora elétrica; atuam na reparação de nervos, tendões, ossos, porém a dificuldade está nos meios de adquirir tais fibras, pois as aranhas são canibais, o que dificulta a criação de granjas. Conforme a autora, muitos cientistas buscam desenvolvimento das mesmas propriedades em fibras sintéticas, porém não obtiveram tanto sucesso. O 186 que mais se aproximou, até agora, foi o Spidrex, que tem muitos potenciais e aplicações médicas, incluindo a regeneração de nervos para lesões da medula espinhal, desenvolvido pela Oxford Biomaterials em 2003. A empresa usou um processo de fiação que imita a forma como as aranhas secretam e expulsam o material. Outro exemplo, citado por Colchester (2008), foi o “Sensatex”, um e-textile (tecido com condutores eletrônicos), baseado em fibras que compõem uma camiseta capaz de monitorar onde e em que estado se encontra um soldado no campo de batalha. O uniforme que monitora sinais vitais do soldado pode, sem fio, relatar a localização de feridas no corpo do mesmo, economizando tempo e salvando vidas. Este mesmo projeto, Sensatex, é também vendido aos hospitais para monitoramento de bebês pre-maturos, aquecendo ou arrefecendo seus corpos. Confeccionando com este tecido uma camiseta, esta pode monitorar a frequência cardíaca e realizar o eletrocardiograma. 2.1.3 Tecidos robôs Normalmente, um robô se constitui de um grupo de dispositivos eletrônicos programados para a realização de tarefas de maneira autônoma ou através do controle humano. Suas atividades são melhoradas e realizadas com extrema precisão. Busca-se, cada vez mais, o aprimoramento de máquinas que reproduzam as funções do ser humano. Segundo Colchester (2008), David Lussey, que trabalha para as forças aéreas britânicas, desenvolveu uma partícula metálica (Quantum Tunnelling Composite (QTC), usada pela NASA nas luvas dos robôs para aumentar a capacidade do tato, agregando-lhes mais sensibilidade. Estes são sensores passivos, ativos, não só recebem como podem também responder aos impulsos: ao tato, som, calor e até sentir odor de vapores. Os tecidos com estas propriedades podem passar a absorver ou repelir água; as membranas se ajustam, abrem e fecham em resposta a sinais externos. Um ótimo desenvolvimento para desvendar o espaço sem a necessidade de astronautas correrem riscos de vida. Atualmente, no mercado, são muito utilizados em telas touchscreen de computadores, em tecidos usados em palmilhas de tênis para reconhecer onde são os pontos de maior tensão a cada impacto em bancos de carros, medidores médicos, na demarcação dos maiores pontos de pressão promovendo conforto e menor impacto físico; tecido que indica onde e em que posição está um 187 bebê sobre o tecido; tecidos para ursos de pelúcia com aplicações musicais ou iluminação; calculadoras ou controles remotos sensíveis ao toque em tecidos (LUSSEY, 2011). Outra inovação que trará imensos benefícios para o mundo da moda é a impressora 3D. As medidas em três dimensões do corpo de uma pessoa são programadas através de um software, seus dados são convertidos virtualmente e a impressora “tece” o fio do tecido, liberando o produto simplesmente pronto e acabado, sob medida. A impressão tridimensional é uma tecnologia emergente, por meio da qual, raios ultravioletas são usados para dar forma às camadas de pó fusível, termoplásticos e recicláveis (LUSSEY, 2011). O fato de o sistema reconhecer as medidas em 3D de um corpo, transformando esta informação para o mundo virtual e deste para a materialidade de uma peça perfeitamente construída, segundo as medidas captadas, demonstra as possibilidades de interação do homem entre real x virtual, um exemplo da remodelagem e otimização de processos e produtos que a tecnologia nos proporciona. 2.1.4 Tecidos com propriedades táteis, acústicas e ópticas A famosa marca de roupas de snowboard norte-americana “Burton”, em parceria com a “Apple”, lançou, em 2003, a primeira jaqueta, chamada “Amp”, com sistema integrando os fios da peça ao controle, do ipod (APPLE, 2011). A empresa informa que a jaqueta é durável e impermeável, criada exclusivamente para o uso com o ipod da Apple, sendo capaz de armazenar até 4.000 músicas, com até 10 horas de bateria e sem haver a preocupação em guardar aparelhos em bolsos, bolsas, zíperes ou luvas enquanto o usuário pratica o esporte. Basta tocar no painel de controle localizado na manga da jaqueta, e é possível trocar de música, aumentar ou diminuir o volume. A peça também é lavável, sendo necessário apenas retirar o ipod com seu módulo de interface. Outro desenvolvimento interessante realizado a partir da biomimética, que desperta os sentidos e segue a linha hedonista da beleza e prazer, é o Morphotex, que consiste num tecido que muda de cor (para azul, marrom, roxo e vermelho) conforme a luz e o ângulo no qual a luz é refletida, usando 61 camadas de poliéster e nylon alternados. A ideia veio da observação do brilho das asas da borboleta Morpho que vive na região amazônica brasileira. O projeto foi desenvolvido pela companhia japonesa Teijin, em 188 colaboração com a Nissan. Os tecidos foram utilizados no estofamento de carros da Nissan; é também usado em roupas femininas e jeans (LASCHUK, NASCIMENTO et.al. 2008, p. 2). 2.1.5 Estampas digitais Usadas como atrativos, as estampas digitais podem ser consideradas meros beneficiamentos estéticos do tecido, porém trazem consigo discursos impressos em forma de símbolos e cores em padrões de repetição que seguem as tendências de cada época. Como se vive em uma época em que a tecnologia parece fazer parte dos mais diversos aspectos do nosso cotidiano, na questão das estampas ela também não poderia ficar de fora. Destacam-se alguns exemplos: a sueca Linda Worbin desenvolveu estampas lúdicas e muito interessantes, de forma que possam interagir com o usuário, criando jogos. De seus projetos em geral, as estampas, feitas com uso de tintas termocromáticas, aparecem e desaparecem em diferentes locais do tecido com a ativação do calor. O projeto Tic Tac, por exemplo, segundo o site de design do Interactive Institut de Göteborg, funciona como um sutil jogo estético. Pode convidarse alguém para tomar um chá ou café e jogar o “jogo da velha”: conforme o posicionamento das xícaras quentes sobre o tecido, surgem desenhos de “x” ou “o” predeterminadas no tecido, e o jogo dura enquanto a xícara permanece quente (ITERACTIVE INSTITUT, 2011). O site informa que o projeto foi criado segundo conceito de tempo de espera. Argumentam que muitos objetos de comunicação são criados para facilitar tarefas, realizando-as com mais rapidez, o que produz também um tempo de espera para conexões, a fim de começar algo. O Tic Tac Textile seria um jogo estético de espera a ser usado em tempos ociosos que surgem em nosso dia a dia. Outra maneira de a estampa estar relacionada à tecnologia é o uso da estamparia digital. Diferentemente das técnicas de estamparia convencionais, a estamparia digital é diretamente impressa no tecido, através de uma impressora parecida com a impressora de fotos, porém do tamanho da largura do tecido. Não é uma nova invenção, porém sua popularização tem aumentado cada dia mais (TEXTILE INDUSTRY, 2011). Normalmente, a técnica digital costuma ser mais cara por conta das tintas e valor das máquinas, além de ser um pouco mais lenta na impressão. Não é necessária a gravação de telas ou cilindros, o que economiza tempo e 189 custos. Não há desperdício de material no início de sua tiragem. A nitidez e proximidade com a realidade da imagem são muito maiores e com a possibilidade muito mais abrangente de criação dos motivos. Alexander Mcqueen, por exemplo, em sua coleção primavera-verão 2010, fez uma mistura de estampas digitais localizadas, combinando-as com as formas da modelagem. 3. Design têxtil e sustentabilidade Com o capitalismo avançando ferozmente em busca do novo, de artifícios para satisfazer seus desejos e necessidades, produzem-se efeitos colaterais no meio ambiente, afetando o ecossistema e, por consequência, o próprio homem, bem como as próximas gerações. Posicionando-se como autores de seu próprio futuro, surgem, cada vez mais insistentemente, movimentos e grupos de auxílio ao equilíbrio ambiental, social e econômico em todo o mundo. No mercado de moda, a preocupação com o meio ambiente se tornou um forte chamativo para consumidores que partilham das mesmas ideias ou mesmo simpatizam com elas, e estes são muitos. Diversas possibilidades que não impactem o meio ambiente estão sendo pesquisadas na indústria têxtil; dentre alguns exemplos já existentes, temos os tecidos com fibras de garrafa pet, tingimentos e corantes com menos impacto nos rios, formação de novos tecidos, reutilização de materiais recicláveis como lonas, papéis, plásticos; mecanismos que produzem energia renovável inseridos no tecido; uso de fibras naturais renováveis como o algodão ou látex na fabricação de laminados vegetais em substituição ao couro, fibras de coco, bambu, abacaxi, utilizados na fabricação de tecidos. A inglesa Suzanne Lee, chamada BioCouture, desenvolveu um tecido totalmente sustentável. Trata-se de um tecido criado com a fermentação de micro-organismos, partindo do chá verde e bactérias como matéria-prima. A solução desenvolvida promove finas películas de celulose bacterial, resultando num tecido fino. Há, também, as inovações tecnológicas associadas aos tecidos e energias renováveis, como o “Climate Dress” ou “Pollution Dress”, criado pela companhia, baseada em Copenhagen “Diffus”, em colaboração com a empresa suíça “Forster Rohner”. Trata-se de bordados com fios sensores de CO2, que reagem e se iluminam conforme a quantidade de CO2 que circunda o corpo da pessoa. O bordado é elaborado com finos e macios 190 fios de LED. O sistema de iluminação natural pode ser adaptado e usado em produtos para consumidores no setor público, em hospitais, transporte, segurança e serviços de emergência e se apresenta muito interessante no uso em moda. Outro bom exemplo de energias renováveis nos tecidos é a mochila que carrega baterias conforme a pessoa que a transporta caminha. A ideia seria a possibilidade de recarregar as baterias do laptop, celular, ipad enquanto se faz uma trilha, acampamento ou mesmo para trabalhadores de resgate e soldados em locais remotos, com extrema necessidade do uso de objetos com baterias energéticas. 4 Reaproveitamento têxtil A reutilização de materiais seria o uso de materiais já existentes e beneficiados, transformados em outro objeto. É uma boa forma de preservar o meio ambiente sem que se produzam novos elementos que possam poluílo. Muitos trabalhos têm sido feitos com a reutilização, por exemplo, lonas de outdoor transformadas em sacolas ecológicas, patchworks de retalhos, reciclagem de tecidos, e etc. As vendas de roupas em brechós também são uma boa forma de reutilização dos tecidos, grandes estilistas já se aproveitaram da ideia, transformando peças de brechó em desfile fashion. O estilista Marcelo Sommer, que assina a criação da marca “Do Estilista”, lançou sua coleção outono-inverno 2011 com mix em uma mesma peça de brechó com outras partes inéditas, conferindo-lhe um ar retrô-moderno. As peças eram por vezes usadas cortadas ao meio, de forma que dois blazers diferentes, com texturas e cores distintas se unissem, formando uma só peça. A coleção toda misturou peças de brechó com tecidos novos, leves, fluidos, translúcidos ou brilhantes (FASHION FOWARD, 2011). Christian Lacroix já havia utilizado em modelos criados para espetáculos teatrais, peças de brechó. O traje criado para o personagem Otelo (de Shakspeare), por exemplo, foi feito através de reconstruções de peças de brechó como jaquetas de couro ou de lã junto a outros materiais. Além do fato de a reutilização e reciclagem de materiais na moda serem um sinal de conscientização e preservação do meio ambiente, é também uma maneira de evidenciar o movimento da coletividade. Pessoas influenciam umas as outras e com um ideal comum partilham objetos, situações ou se 191 organizam diante de um acontecimento, ganhando mais força e dimensão para fazer uma ideia acontecer. 5 Características da estética têxtil contemporânea Com os acontecimentos da pós-modernidade apresentados, no levantamento das inovações tecnológicas têxteis, bem como na apresentação de aplicação dos têxteis em tratamentos médicos, esportes, em segurança, dentre outros, obteve-se um material com o qual foram estabelecidas correlações consistentes. Neste sentido, construiu-se um quadro correlativo das características dos substratos têxteis em analogia à pós-modernidade. Desta forma, na coluna da esquerda, demonstraram-se as características e citações correspondentes, encontradas na literatura pesquisada e, na coluna da direita, exemplos têxteis relacionados à análise realizada. Para uma visão panorâmica da relação entre a atual condição sociocultural e exemplos de novos tecidos, organizou-se a tabela para reforçar conceitos e materiais ilustrativos 192 CARACTERÍSTICAS DA PÓS-MODERNIDADE X ESTÉTICA TÊXTIL CONTEMPORÂNEA TEMA / CITAÇÃO SIMULAÇÃO “A essência da pós-modernidade: preferimos a imagem ao objeto, a cópia ao original, o simulacro (a reprodução técnica) ao real [...] Simular por imagens como na TV, que dá o mundo acontecendo, significa apagar a diferença entre real e imaginário, ser e aparência. Fica apenas o simulacro passando por real” (SANTOS, 1986, p.12). EXEMPLO / COMENTÁRIO *Tecidos peludos de fibra artificial; *Tecido que simulam o couro, como Laminados vegetais da Ecológica, feitos com o uso do látex. *Estampas digitais com os mais variados motivos, paisagens, 3D, peles de animais, texturas, etc. Sempre aproximando da realidade. Comentário: Tecidos ou fibras artificiais buscam imitar peles animais por questões ambientais ou pelo alto valor do material original. Estampas digitais procuram aproximar os motivos para nossa realidade visual; buscam, assim, a criação de um hiperreal, muitas vezes muito mais colorido, chamativo, funcional, interessante e espetacular que a própria realidade. 193 MULTIPLICIDADE *Interferências e misturas culturais nos motivos de estampas. Possibilidade “Ecletismo, [...] mistura de de unir estilos divergentes. várias tendências e estilos sob o *Jaqueta Burton+Apple, é possível mesmo nome. Ele não tem unidade; utilizar diversos sentidos humanos é aberto, plural e muda de aspecto se e realizar diversas tarefas ao mesmo passamos da tecnociência para as artes tempo. plásticas, da sociedade para a filosofia *Do So Hu e sua obra com a casa (SANTOS, 1986, p.19) de tecidos proporciona a visão de uma multiplicidade convertendo-a numa unidade. Comentário: A ideia da globalização, de unificação e mistura surge em diversas vertentes. Desde uso múltiplo dos sentidos, passando pela multipotência em realizar diversas tarefas ao mesmo tempo, ou de misturar o passado com o presente, até a multiplicidade de culturas ou estilos em uma mesma peça. Fatos que provocam o caos, a desreferencialização, mas também o agregamento de valores, formas e estilos inovadores, refinamento da concentração e conhecimento 194 HEDONISMO “[...] hedonismo consumista, cultuando narcisicamente seu ego, O micro facilita-lhe a vida. Mil serviços trabalham sua aparência. A cultura psi lhe dá massagens mentais. Sempre na moda, seu gosto é eclético […] Versátil, desenvolto, o sujeito Blip – feito com fiapos de informação e vivência – não tem ego estável nem princípios rígidos”( SANTOS, 1986, p.113). *Estamparias que expressam simbologias de determinada localidade é uma forma de narcisismo e necessidade de definição da identidade. Assim como as multiculturais, demonstrando fazer parte de uma tendência global. *Instalação “Humanóids” proporciona imenso prazer e conforto. *Alianz Arena - prazer estético, como se uma enorme obra de arte estivesse em meio à cidade para promover um estádio de futebol. *Objetos têxteis que se iluminam com o toque criando uma identidade diferencial em quem porta o produto. *Morphotex, tecidos usados nos bancos dos carros, diferenciando-os dos demais no mercado. Comentário: A valorização da própria identidade parece desenvolver se conforme a globalização tenta unificar e massificar. Com certo medo de se perder em meio ao tudo e ao nada caótico do universo capitalista, o ser humano busca seu prazer individual. Aliás, busca o máximo de prazer possível em qualquer situação. Em situações extremas pode causar atitudes egoístas e isolamento. Ao passo que cada um busca no prazer de sua vaidade encontrar formas de se diferenciar dos demais, estabelecendo seus gostos e satisfação aqui e agora. 195 OTIMIZAÇÃO “Otimização acabou se constituindo numa vasta e sólida área do conhecimento. Uma área híbrida, eclética e pragmática. Com um pé na matemática e outro pé na computação. Que se nutre das ciências exatas, das biológicas, das tecnológicas. Que se dedica a solucionar problemas independentemente do contexto onde surgem. Problemas práticos e efetivos. Problemas relativos ao como determinar uma alternativa melhor que outra, dentro de um universo dado” (BENNATON, 2001). *Tecidos antibactericidas, com proteção UV, não aderem cheiro de suor, dryfit, repelem sujeira, aceleram trocas térmicas nas roupas, relaxam músculos, aliviando o stress, *FastSkin para otimização em esportes, como tecido que reduz vibração muscular e, por conseguinte, a fadiga. *Spridex, fibra têxtil usada em cirurgias, extremamente resistente e condutora de eletricidade. *Impressora 3D elimina diversas atividades da fabricação de peças, promove ainda o não desperdício de materiais. Comentário: Como o próprio sistema capitalista é baseado na troca de produtos e serviços, estes imersos em grande número de concorrentes que oferecem os mesmos resultados, devem sempre estar atentos a formas de se destacar no mercado. Sendo na funcionalidade, velocidade, qualidade, estética de seus produtos, estão sempre se desenvolvendo e abrindo espaço para novas contribuições em cima do que já construíram. 196 DESREFERENCIALIZAÇÃO OU VAZIO EXISTENCIAL “o pós contém um des - um princípio esvaziador, diluidor. O pós-modernismo desenche, desfaz princípios, regras, valores, práticas, realidades. A des-referencialização do real e a des-substancialização do sujeito, motivadas pela saturação do cotidiano, pelos signos, foram os primeiros exemplos.” (BENNATON, 2001) *Affectives Wearables - vestimentas afetivas que reconhecem seus estados emocionais. *Multiplicidade de estilos e culturas nas estampas desreferencializam identidades, causando perda em alguns valores enquanto unifica. Comentário: O universo pósmoderno promove a desestruturação de ideia ou valores. Isso provoca vazio existencial, como se estivéssemos perdidos no momento. Por outro lado, pode, também, catalisar esta desconstrução, transformando-se em algo novo, o que gera a constante mutação. 197 RESPONSABILIDADE “À medida que se considera que é na mente do indivíduo onde o conhecimento é produzido e a ação é criada, todo comportamento será compreendido como decorrente de um julgamento moral individual e a responsabilidade sempre estará voltada a este indivíduo, seja vangloriando-o ou culpabilizando-o.” (BORGES,C.; MACNAMEE, 2008, S.p.12) *Fibras ecologicamente corretas com o uso de garrafas pet, fibras de bambu, coco. *Climate Dress – Bordado direto no tecido se ilumina conforme a quantidade de CO2 no corpo. *Mochila que produz energia renovável conforme o caminhar. *Reutilização de roupas e tecidos usados. *Revestimento feito de cortiça para interiores. Comentário: O frenético desenvolvimento tecnológico e desenvolvimento econômico trouxeram-nos grande responsabilidade frente a atos que determinam ou não a existência de nosso futuro e do planeta. Com a culpa de ser causador das tragédias naturais e sociais, surgem os movimentos de proteção ambiental, meios sustentáveis, preservação da natureza, valorização da ética social, dos direitos humanos. Ainda que não seja uma preocupação unânime, muitos grupos vêm desenvolvendo cada vez mais produtos ou ações voltadas para estas questões. 198 COLETIVIDADE “[...]é uma inteligência distribuída por toda parte, incessantemente valorizada, coordenada em tempo real, que resulta em uma mobilização efetiva das competências”(LÉVY, 1998,p. 28) “O espaço do novo nomadismo não é território geográfico, nem o das instituições ou dos estados, mas um espaço invisível de conhecimentos, saberes, potências de pensamento em que brotam e se transformam qualidades do ser, maneiras de constituir sociedade” ( LÉVY, 1998, p. 15). *Estampas que expressam multiculturalismo, inteligência coletiva e espírito de um tempo criam tendências globais. *Reutilização de roupas usadas por outras pessoas. Comentário: Junto à multiplicidade, desterritorialização, encontramos também certa união de grupos de pessoas frente a uma ideia. Este reflexo pode ser encontrado, por exemplo, nos Flash Mobs (aglomeração instantânea de pessoas em um local público para realizar uma ação previamente combinada). Muitas delas, sendo organizadas no meio virtual. 199 REALIDADE AMPLIADA “entre nós e o mundo estão os meios tecnológicos de comunicação, ou seja, de simulação. Eles não nos informam sobre o mundo; eles o refazem à sua maneira, hiper-realizam o mundo, transformando-o em espetáculo. Uma reportagem a cores sobre os retirantes do Nordeste deve primeiro nos seduzir e fascinar para depois nos indagar. Caso contrário, mudamos de canal. Não reagimos fora do espetáculo.” (LÉVY, 1998,p.13) *Tecido do FastSkin, nadador pode concorrer com mais velocidade, proporcionada pelo tecido. *Jaqueta com propriedadesacústicas da Burton+Apple. Intensificação dos diversos sentidos ao mesmo tempo Adrenalina. *Tecidos que se camuflam, intensificação da proteção e ecletismo ao se mimetizar em um ambiente *Músculos têxteis, intensificação da força. *Estampas digitais e interativas, proporcionando um real intensificado. *Instalação “Humanóids”. Objetos gigantes proporcionando intenso conforto. *Alianz Arena. Projeto que lembra megalomania, mais parece um sonho que realidade. *Tecidos para enxertos médicos proporcionam uma mudança de estado no mundo real e original, por meio da interação de objetos externos. Comentário: Vivemos sob a influência de atividades virtualizadas, ampliando nossas realidades, lembrando sonhos, porém possíveis sim de existirem na realidade. A hiper-realidade está também muito associada ao hedonismo, extraindo o máximo de prazer a cada momento. 200 NOVAS PERCEPÇÕES “[...] os seres humanos diferem em seu patrimônio hereditário e nas influências do ambiente onde se desenvolvem; daí as diferenças individuais e a complexidade do comportamento humano. É na relação com o outro e com a sua cultura que é formada a subjetividade” (ARAÚJO, 2008). *So Ho Su – Instalação de uma casa de tecido translúcido. Percepção generalizada das múltiplas repartições de um ambiente, concluindo-a com uma só identidade, um só ambiente. *Instalação “Humanóids”, reavaliamos a noção de nossos corpos no espaço, de conforto e sensibilidade. *Mix de culturas ou estilos nas estampas, criando visuais inovadores *Releituras criadas sobre peças usadas de brechós. Comentário: Através da relação com o outro e por sua vez, com o mundo, somos seres múltiplos, complexos, em constante mudança, sendo quase impossível haver uma definição sobre uma personalidade. Isto pode ativar nossa percepção, descartando a necessidade de criar rótulos sobre personalidades, assumindo outra forma de entendimento. 201 PROTEÇÃO - Cocooning “O cocooning se caracteriza por uma redução do grau de socialização dos indivíduos, que cada vez mais tendem a se recolher em suas casas ou a frequentar estabelecimentos fechados, seja por questões de comodidade, seja por segurança contra o mundo exterior cada vez menos seguro” (JARDIM, 2007, p.49). *Superfícies refletoras no tecido que agem como microespelhos e refletem a luz, produzindo o efeito camuflado. Muito usado por soldados. *Tecido inteligente que sente e pensa, detecta objetos à distância, evitando colisões ou acidentes diretos. *Tecidos com propriedades bacteriostáticas, proteção UV. *Affective Weareble *Estampas com motivos, identificando uma região, de forma a “proteger” uma cultura local em meio à globalização e perda de valores. Comentário: Indica movimentos de retração e proteção. Seja físico ou emocional. Proteção da individualidade, da identidade, das opiniões, ou do espaço físico, em guerras, perigos da vida cotidiana ou eminentes. Quadro 1: Correlação das Características da Pós-modernidade com o Substrato Têxtil. Fonte: Dados Primários. 6 Conclusão No decorrer deste estudo, reconheceram-se as inúmeras possibilidades de funções e variações estéticas nos tecidos criados nos últimos tempos. Pôde-se, também, confirmar que os tecidos realmente são meios de expressão simbólica em qualquer área: desde a médica, dos esportes, robótica, arquitetura, design, artes plásticas e para a sustentabilidade do planeta. Das características sobre a pós-modernidade, destacou-se o uso da tecnologia e virtualidade em interação na vida dos seres humanos, no seu corpo. Conforme contexto teórico, a virtualidade é qualquer interface que 202 modifica nossas vidas em sua originalidade. Como por exemplo, o uso do carro para se locomover, sendo o carro a interface distorcida da originalidade de andar a pé, utilizando um meio que acelera este processo. Portanto, a incorporação de um têxtil cirúrgico na reabilitação de uma clavícula, por exemplo, seria uma forma de as pessoas saírem do estado natural em que vivem, em parte, de forma virtualizada. Através da virtualidade, todos os interconectados compartilham conhecimentos, dados, emoções, ideias e até mesmo dinheiro. Para eles, esta interação só tende a aumentar, criando um grande corpo coletivo, múltiplo e em constante mudança; como se um fosse influenciado pelo todo e todos por sua individualidade. Durante este trabalho, identificou-se que com a liberdade de criação, desenvolvimentos científicos, desejos megalomaníacos de construções hiper-reais, surgem, também, a culpa, a conscientização social e ambiental, a responsabilidade por seus atos perante si mesmo e a sociedade. Com o caos, criminalidade, ápice de adrenalina e fortes emoções surgem as necessidades do recolhimento e de proteção. Com o hedonismo, valorização de sua própria individualidade, vaidade e consumismo extremo, eclodem o desenvolvimento de novas percepções, interação com o próximo, movimentos coletivos e globais. Com o ecletismo, multiplicidade de atividades ou identidade, pensamentos e atividades fragmentadas surgem o desenvolvimento de novas percepções, bem como a criação de filtros que permitem fazer escolhas das informações realmente necessárias. Dentre os pensadores sobre a pós-modernidade, estudados para este trabalho, pode perceber-se, por um lado, otimismo quanto aos benefícios trazidos pelas futuras mudanças e, por outro, certo medo do desconhecido, transparecendo o pessimismo. Ao se observarem esses movimentos de expansão e retração, pode dizerse que, nesta linha de evolução, tenta-se a conciliação desses extremos em busca de um equilíbrio, a fim de que se possam angariar benefícios nessa caminhada evolutiva, mas, da mesma forma, sabendo filtrar as mudanças vindas pela frente. Referências Bibliográficas BLAINEY, Geoffrey. Uma Breve História do Mundo. Editora Fundamento Educacional: São Paulo, 2010. 203 CHATAIGINIER, G.. Fio a Fio: tecidos, moda e linguagem. Estação das Letras e cores: São Paulo, 2006. COLCHESTER, CHLÖE. Textiles: tendencias actuales y tradiciones. Blume: Barcelona, 2007. EAGLETON, T. As ilusões do pós-modernismo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998. LÉVI, PIERRE. Cibercultura. São Paulo: Editora 34, 1999. ______. O que é o virtual. São Paulo: Editora 34, 1996. LAKATOS, Eva MARIA. Fundamentos de metodologia científica. 6. ed. 4. reimpr. SãoPaulo: Atlas, 2007. LYOTARD, J-F. A condição pós-moderna. 5 ed. 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Em pesquisa-ação realizada em 2010, com 24 empresas do sector têxtil/confecção e com 14 Instituições de Ensino de Design de Moda do Estado de SC, pôde-se verificar a importância de a universidade conhecer as reais necessidades das empresas no que diz respeito à demanda de inovação e de design, bem como à importância do conhecimento mútuo das especificidades e potencialidades de cada instituição, para que a cooperação seja, efetivamente, um instrumento para a inovação. Observou-se, também, que uma série de fatores de ordem psicossociológica (motivações) e de ordem organizacional (estrutura formal do próprio relacionamento) interfere no desempenho da relação e no processo de construção do conhecimento. Este estudo discute a importância, facilidades e dificuldades da construção do conhecimento em processo de colaboração UniversidadeEmpresa para a inovação do sector têxtil/confecção catarinense. Fundamenta-se na teoria do relacionamento de Bonaccorsi/Picalluga (REIS, 2008), na Hélice Tríplice (ETZKOVITZ, 1995) e na teoria do conhecimento de Gibbos (GIBBOS, 1994). Neste sentido, procura levantar 206 subsídios para que se possa elucidar alguns questionamentos: Como pode ser realizada a busca de inovações pelas empresas e universidades? Quais são as especificidades da universidade e da empresa e como tem ocorrido a cooperação entre esses atores? É possível estruturar um sistema de criação, transferência ou troca de conhecimentos, a partir da universidade, sem comprometer a pesquisa fundamental, e sem prejudicar o ensino, e ainda, por meio desse relacionamento, melhorar essas missões da universidade? Quais são as contribuições da área da psicologia e da área da teoria das organizações ao referencial teórico das relações U-E? Quais as principais motivações e barreiras para que o relacionamento entre universidades e empresas seja o início do processo de inovação? Como o conhecimento é criado, transferido e disseminado nessa relação? 1 Especificidades da universidade e da empresa e a evolução da cooperação. Para Reis (2008, p. 99), a publicação, em novembro de 1968, do artigo “La ciência y la tecnologia en el desarrollo futuro de América Latina” de Jorge Sábato e Natalio Botana, na Revista de la Integración, constitui ponto de referência ao estudo acerca da relação universidade-empresa (UE). Neste artigo (SÁBATO, 1968), os autores apresentam argumentos a favor da tese de que os países latino-americanos deveriam realizar ações planejadas, sustentáveis e permanentes no campo da pesquisa científica e tecnológica visando à superação do subdesenvolvimento dessa região. Essas ações deveriam ser realizadas pela articulação e relações de cooperação que se estabeleceriam entre três atores: infraestrutura tecnocientífica (instituições de ensino e pesquisa), estrutura produtiva (empresa) e governo, o que ficou conhecido como “Triângulo de Sábato”, conforme se pode ver na Figura 1. O triângulo de Sábato se caracteriza pelas intrarrelações dentro de cada vértice, pelas inter-relações entre os três vértices (sejam elas verticais: governo e empresas, ou governo e universidades; ou horizontais: entre empresas e universidades) e pelas relações com o contorno externo. 207 Figura 1:Triângulo de Sábato Fonte: Adaptado de Stal et al., 2006, p.20. Segundo Stal et al. (2006), este modelo evoluiu para estudos mais complexos em anos recentes, como os de Leydesdorff e Etzkowitz (1998). À medida que as interações bilaterais entre os ocupantes de dois vértices aumentavam em termos de integração entre pessoas e idéias em todos os níveis, a distância entre eles diminuía, até se chegar a uma configuração metafórica denominada de Hélice Tríplice, conforme mostra a Figura 2. 208 Figura 2: Evolução do Triângulo de Sábato Fonte: Adaptado de Stal et al., 2006, p.20. Cada hélice é uma esfera institucional independente, mas trabalha em cooperação e interdependência com as demais esferas, por meio de fluxos de conhecimento entre elas. Observando-se a evolução no esquema acima, que resultou no modelo atual da Hélice Tríplice, pode-se verificar que as pessoas e as ideias, colocadas ao centro da figura, são importantes ativos intangíveis na economia do conhecimento. Da mesma forma, pode-se observar o importante papel da interdisciplinaridade neste contexto de relacionamentos. No entanto, o que se observa, principalmente nos países desenvolvidos, como grande diferencial ao ambiente cultural anterior, é o fato de que as esferas têm assumido, cada vez mais, o papel uma das outras. As universidades, que foram criadas para gerar conhecimentos científicos e tecnológicos, bem como formar recursos humanos qualificados, a partir de meados do século XX, vêm assumindo postura empresarial, licenciando patentes e criando empresas de base tecnológica. Por sua vez, as organizações têm desenvolvido uma dimensão acadêmica, compartilhando conhecimentos entre si e treinando seus funcionários em níveis elevados de qualificação (STAL, 2006; CHRISTENSEN et al., 2007; REIS, 2008)65. Para Reis (2008), há necessidade desenvolver a capacidade de resposta das universidades às solicitações da sociedade e de providenciar novos conhecimentos aos graduados, inclusive a capacidade de aprender. O processo de aproximação de empresas e universidades tem mostrado 209 que a presença desta interação tem sido um fator chave para o fomento e criação da inovação e consequente desenvolvimento de uma região. Na França, por exemplo, o governo incentiva a aproximação da pesquisa acadêmica às indústrias, desenvolvendo programas como o CIFRE (Convention Industrielle de Formation par la Recherche). O programa baseia-se no apoio financeiro concedido pelo governo a qualquer empresa que contrata um estudante de doutorado, cuja missão é desenvolver pesquisa que venha responder a alguma necessidade da empresa. Desta 65 Como exemplo de universidades empreendedoras, citam-se a Stanford University, Santa Clara University, San Jose State University nos E.U.A; Cambridge University, no Reino Unido; Université Sophia- Antipolis, na França; Katholieke Universiteit Leuven, na Bélgica; University of Art and Design Helsinki, na Finlândia); Universidade Estadual de Campinas, Brasil (LOOY et al, 2003; LOTUFO, 2010; KORVENMAA, 2009), entre outras. Por sua vez, muitas empresas vêm se preocupando com a capacitação de seus colaboradores, algumas criando as próprias universidades e institutos, como a universidade corporativa da General Motors que, em 2001, ofereceu 1.500 cursos para os 86 mil empregados; “a General Electric gastou mais de $ 1bilhão de dólares em seu treinamento gerencial, a maior parte aplicada em seu campus de 200.000 metros quadrados, em Hudson Valley-Nova York; a IBM gastou $ 500 milhões em módulos de treinamento para seus gestores” (CHRISTENSEN et.al, 2007, p. 134), com licença para comercializar seus programas para executivos de outras empresas; a Nypro Inc., empresa de moldagem por injeção de precisão, em Massachutsetts, patrocina o Nypro Institute, que goza de reconhecimento oficial do estado, oferece cursos de nível médio, MBA, entre outros (CHRISTENSEN et al., 2007). 66 A pesquisa concluiu que a presença de centros de conhecimento em uma região que interagem com o setor produtivo, é uma das principais pré-condições para o desenvolvimento de empreendimentos de alta tecnologia. Ambos, empresas e os centros de conhecimento, podem, juntos, proporcionar “a massa crítica necessária” de conhecimentos e experiências para a inovação. Segundo os autores, para ocorrer a inovação, em uma região, faz-se necessária a diversidade de domínios de conhecimento, o que exigem competências profissionais disponíveis. Por sua vez, identificam que os vários atores devem ter a habilidade de tornar seus conhecimentos visíveis e acessíveis, sendo que as empresas devem estar preparadas para colaborar, enquanto que os centros de conhecimento necessitam desempenhar o papel de “universidades empresariais”. Identificaram, também, a importância do papel dos intermediários U-E, ou seja, de escritórios de intercâmbio como instrumentos de incentivo e apoio para intermediar a relação (LOOY et al. (2003). 210 forma, ele contribui para o desenvolvimento de parcerias, por um lado, e desenvolvimento do emprego científico na França (CIFRE, 2009), por outro. As pesquisas de Looy et al. (2003), sobre políticas para estimular as potencialidades de inovação, através da colaboração da universidadeindústria, apresentam uma série de conclusões favoráveis à contribuição das parcerias U-E66. Aplicadas em várias regiões consideradas inovadoras, como o Silicon Valley (Califórnia-E.U.A), Cambridge (U.K); Sophia-Antipolis (FR); Leuven (K.U), entre outras da Alemanha, apresentam as parcerias U-E como instrumento para acelerar o desenvolvimento de uma região. No caso Brasileiro, as universidades “não têm tradição no relacionamento com as empresas, e não se preocupam em transferir os resultados das pesquisas para o setor privado, de forma a contribuir para a produção de inovações”(STAL e FUJINO, 2005). Segundo as autoras, no Brasil, configura-se um modelo (de hélice tríplice) ainda embrionário, pois cada um dos agentes tem-se apegado às especificidades do seu ambiente. Isso tem dificultado as múltiplas interações e a formação de redes eficazes entre as esferas institucionais formadas pelas hélices. Sendo assim, a configuração da hélice tríplice do Brasil apresenta os atores apenas se tangenciando. Segundo o vice-presidente da Anpei, Carlos Calmanovici, existem problemas operacionais e também estruturais significativos e relevantes que estão além da interação universidade-empresa. Menciona que o investimento em P.D&I vem aumentando no Brasil, tendo passado de 0,98% do PIB, em 2002; para 1,13% do PIB em 2008, mas a iniciativa privada contribuiu com menos de 47% desse total. Essa participação percentual foi praticamente estável, no período considerado, quando nos países desenvolvidos, segundos dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento econômico (OCDE), o percentual dos investimentos privados nos investimentos totais em P.D&I é de, no mínimo, 60%. Para Calmanovici, a comunidade acadêmica tem sido, historicamente, o principal foco de atenção das políticas e dos recursos do Sistema Nacional de Inovação (SNI). Mas o conhecimento gerado nas universidades não é utilizado pelas empresas de forma natural e automática. O caminho “está na discussão profunda da governança do SNI para garantir eficiência social e foco do trabalho acadêmico em alinhamento estratégico com os investimentos das empresas em P.D&I” (CALMANOVICI, 2010, p.11). 211 Embora haja um certo descompasso estratégico entre o investimento público e privado, alguns programas governamentais têm incentivado à cooperação entre empresas e universidade: Programa RHAE – Programa de Capacitação de Recursos Humano para Atividades Estratégicas do CNPq; o PAPPE – Programa de Apoio à Pesquisa em Empresas Fundo de Interação Universidade – Empresa (Verde Amarelo); a Lei de Incentivos Fiscais P&D (Lei 11.196/05, que substitui a Lei 8.661/93); a Lei de Informática (11.077/04) e Lei de Inovação (Lei 10.973/04, regulamentada pelo Decreto 5.563, de 11/10/2005). Os estudos realizados por Costa, Magalhães e Silveira, entre outros, (COSTA et al. 2009; COSTA e MAGALHÃES, 2008; COSTA et al., 2007) sobre a integração das instituições de ensino de moda e as empresas têxteis catarinenses, a partir de pesquisas experimentais de desenvolvimento de produtos inovadores de moda, têm concluído que as parcerias U-E podem contribuir com o processo de inovação de ambas as partes envolvidas, principalmente se estiverem direcionadas às necessidades das empresas, para que a inovação seja implementada por estas. Os autores partem da premissa de que a oferta de produtos inovadores desenvolvidos através de ações do design, em laboratório experimental, no âmbito da universidade, em parceria com as empresas, contribui com o processo de valorização do estilo (próprio) e design diferenciado. “Com isso, as empresas podem se posicionar no mercado, não só pelo potencial industrial e coorporativo, mas também por essas variáveis que, para algumas empresas da área têxtil, encontram-se enfraquecidas” (COSTA e MAGALHÃES, 2008, p.6). No entanto, os autores veem a necessidade de estudos complementares aos realizados, pois: ajudariam a indicar caminhos para a configuração de uma política de gestão inter-institucional do design têxtil catarinense, com vistas à inovação. Isto é, identificar, por um lado, quais são as variáveis de maior sensibilidade das empresas à sua inserção em uma rede de contribuição integrada de transferência e produção do conhecimento. E, por outro lado, quais as variáveis que dificultam e as que favorecem as instituições de ensino e pesquisa a assimilarem conhecimentos produzidos extramuros e a realizarem um diagnóstico mais aproximado a respeito das reais demandas da cadeia produtiva têxtil (COSTA e MAGALHÃES, 2008, p.6). 212 Outros estudos demonstram a relação entre países com alto nível de investimento em inovação e a distribuição institucional dos pesquisadores. De acordo com o Ministério da Ciência e Tecnologia (STAL et al., 2006, p. 25), em 2003, os EUA tinham 79% dos cientistas e engenheiros em empresas privadas e centros de pesquisa, enquanto no Brasil, a maior parte dos pesquisadores (72%) encontra-se dentro das universidades. Como se verifica, no Brasil a tônica é dada à capacitação em recursos humanos qualificados em pesquisa básica em detrimento da transferência para o uso produtivo. Neste sentido, a questão central, portanto, não é a de ter profissionais cientistas nas universidades a gerar invenções/inovações, mas de gerar e saber utilizar o conhecimento, garantindo o fluxo de inovação para as finalidades mais próximas do uso final. 2 Referencial teórico das relações universidade-empresa (U-E) Duas correntes de análise ganharam força, no início dos anos 90, no debate internacional sobre a relação U-E, e têm influenciado os estudos sobre o tema no Brasil (GOMES, 2001). A primeira tem indicado a existência de transformações de natureza quantitativa e qualitativa na sua dinâmica, inaugurando um padrão de relação caracterizado pelo maior impacto econômico das pesquisas realizadas na universidade. Essas mudanças estariam ocorrendo no âmbito de um novo contrato social entre a universidade e a sociedade – nomeado por Etzkowitz (In: GOMES, 2001, p.) de “Segunda Revolução Acadêmica”67 . Nesta, além das funções clássicas de ensino e pesquisa, a instituição de ensino superior incorporaria a função de participar mais ativamente no processo de desenvolvimento econômico. Associado a esta corrente está o modelo da Hélice Tríplice, acima mencionado. A segunda corrente – “A importância das relações com o entorno na competitividade das empresas” – tem sua fundamentação apoiada na teoria da inovação. “Atribui importância fundamental ao processo inovativo que ocorre na empresa e às relações que se estabelecem entre ela e seu entorno como determinante 67 A “primeira revolução acadêmica” refere-se à incorporação da pesquisa enquanto sistemática na universidade e tem como marco de referência a criação da Universidade de Berlin, em 1810 (GOMES, 2001). 213 da competitividade dos países” (GOMES, 2001, p.8). Segundo o autor, a universidade, revigorada por aquela nova dinâmica, passa a ser considerada um agente privilegiado desse entorno para a promoção da competitividade empresarial e nacional. No caso das universidades brasileiras, apesar do aumento crescente sobre a necessidade de transferir à sociedade os resultados da pesquisa financiada com os recursos públicos, não há uma política clara relativa à gestão da propriedade intelectual, o que compromete a transferência desses resultados e a transformação dos mesmos em inovação por parte das empresas (STAL e FUJINO, 2005, p.8). Entende-se que as duas correntes de análise não são excludentes, mas, pelo contrário, contribuem para a compreensão da evolução da integração universidade-empresa. No entanto, é importante chamar atenção ao fato de que o relacionamento U-E envolve tanto pessoas quanto as organizações. Neste sentido, partese de Bonaccorsi e Piccaluga (1994) que empregam conceitos das áreas da psicossociologia e da área organizacional para explicitar as implicações derivadas do tipo de relacionamento que se estabelece entre esses atores. O modelo teórico de relações U-E desses autores aborda: as características dos processos de transferência do conhecimento e as motivações das empresas para entrar no processo de colaboração com as universidades (referentes à área da psicossociologia) e a estrutura do relacionamento e os procedimentos de coordenação adotados (referentes à área organizacional). Tratando-se de um processo de cooperação em busca de resultados, é fundamental que as motivações de ambas as instituições sejam consideradas. Tendo em vista que o modelo de Binaccorsi e Piccaluga aborda apenas as motivações das empresas para entrar no processo de cooperação com as universidades, passou-se a incluir, nesta estrutura teórica para estudos das relações, os aspectos que dizem respeito também às motivações da instituição de ensino, conforme se apresenta na Figura 3. Ademais, é justamente na diferenciação de objetivos não valorizados pelos parceiros que, muitas vezes, o processo de relacionamento deixa de ser eficaz. 214 Figura 3: Estrutura teórica para estudo das relações universidade-empresa Fonte: COSTA, 2011 - construído a partir de Bonaccorsi e Piccaluga (1994) e Reis (2008). Segundo Bonaccorsi e Piccaluga (1994), o relacionamento entre a estrutura organizacional e os processos de gestão das relações U-E (procedimentos de coordenação) não é totalmente conhecido. Uma variedade de processos de coordenação pode ser implementada em algum arranjo de estrutura interorganizacional e pode modificar as propriedades de eficiência ou desempenho do arranjo em si. Neste sentido, observa-se que a gestão das relações U-E torna-se fundamental. Por sua vez, segundo 215 esse modelo, as motivações das empresas para entrar no processo de relações com a universidade, e vice-versa, têm um impacto direto sobre suas expectativas no que se refere à criação, à transferência e à difusão do conhecimento. O desempenho ou performance do relacionamento depende, então, “da combinação entre as características do processo de transferência do conhecimento, dos procedimentos de coordenação adotados e da estrutura, em si , do relacionamento” (REIS, 2008, p.113). Conforme a Figura 3, o resultado do relacionamento é definido como derivado de uma comparação entre as expectativas e o desempenho real em termos de criação, transferência e difusão do conhecimento. 2.1 Contribuições da área da psicossociologia As contribuições dessa área às relações U-E advêm da análise psicossociológica da inovação tecnológica que investiga as motivações das empresas para entrar no processo de colaboração com a universidade e as características do processo de transferência do conhecimento Várias são as motivações para as empresas e instituições de ensino buscarem parcerias junto às universidades e estas com as primeiras. Segundo Stal et al. (2006), as universidades e institutos de pesquisas veem na parceria: - a possibilidade de obtenção de recursos financeiros para os pesquisadores e suas respectivas instituições; - o aumento da relevância da pesquisa acadêmica, com visão mais próxima da realidade e o consequente impacto no ensino; - a possibilidade de empregos para estudantes graduados; - a possibilidade de futuros contratos de pesquisa; - a demonstração de sua utilidade socioeconômica, especialmente para os órgãos financeiros públicos. Por parte das empresas, esses mesmos autores, citam como motivações: - acesso a recursos humanos qualificados; - “janela ou antena tecnológica” (conhecer os avanços em sua área de atuação); - acesso precoce a resultados de pesquisa; - solução de problemas específicos; - acesso a laboratórios e instalações; - treinamento de funcionários; 216 - melhoria de sua imagem e prestígio junto à sociedade; - necessidade de aumentar sua competitividade; - redução de riscos e custos de pesquisa. A análise psicossociológica da inovação tecnológica tem mostrado que, atualmente, as motivações para as empresas privadas entrarem no processo de relacionamento com a universidade têm mudado de direção e mostramse mais complexas (REIS, 2008). A ideia de que as empresas procuram a universidade apenas para o desenvolvimento de pesquisa aplicada está cada vez mais longe da realidade. As empresas estão precisando solidificar sua base interna de conhecimento científico, para serem capazes de identificar e explorar as oportunidades tecnológicas externas. Neste sentido, a pesquisa fundamental desenvolvida na empresa, as relações U-E, como também os acordos de cooperação entre empresas desempenham um papel muito importante. Envolvendo-se com pesquisas, interna ou externamente, as empresas podem também adiantar-se na percepção de importantes aplicações para eventuais descobertas advindas da pesquisa fundamental. Roberto Lotufo (2005; INOVA, 2010), diretor executivo da Agência de Inovação da UNICAMP - Universidade Estadual de Campinas, SPargumenta que a parceria traz contribuições a ambas as instituições, embora reconheça que existam conflitos. Enquanto a missão da universidade é a disseminação e o avanço do conhecimento, a empresa busca competitividade e sustentação financeira. Neste sentido, as parcerias devem ser estratégicas, os objetivos das duas instituições devem ser claros e explícitos, formalizados e principalmente ter os direitos legais definidos. Ainda, segundo Lotufo, os principais desafios referem-se às negociações (que são sempre custosas, envolvendo várias reuniões e baixa taxa de concretização de parcerias) e aumento da competência (nas negociações, na parte jurídica, comercial, bem como na busca de financiamentos, sendo que estes não podem competir com financiamentos para ensino e pesquisa). Na indústria da moda, os ciclos de vida dos produtos estão se tornando cada vez mais curtos, e as exigências dos consumidores estão cada vez mais aprimoradas. As pesquisas de moda, de marketing, de tendência e estudos prospectivos são fundamentais. Isso exige recursos financeiros, profissionais capacitados, habilidades na obtenção e acesso às diversas fontes de informações nacionais e internacionais, bem como sensibilidade na captação de rents (naturais, culturais, etc.), entre outros. Uma situação, 217 momentânea, ou não, de escassez de recurso, por exemplo, pode ser caracterizada como um dos principais motivos que levam as empresas a procurarem pela universidade. Segundo Bonaccorsi e Piccaluga (1994), a teoria das relações entre U-E mostra que existe uma relação entre a capacidade de recursos das empresas e a propensão para entrar em interação com a universidade. Ou seja, tanto as organizações com poucos recursos como as com muitos são impelidas a evitar este relacionamento. As que apresentam recursos escassos teriam pouco a oferecer como contrapartida. As que têm recursos abundantes teriam pouco a ganhar por participar dessas relações. Neste sentido, as empresas que têm um nível intermediário de recursos seriam as que mais se aproximariam das universidades. Elas apresentam uma contrapartida mais equilibrada. 2.2 Contribuições da área da teoria das organizações Como apresentado na Figura 3, o modelo de Bonaccorsi e Piccaluga identifica duas dimensões organizacionais do relacionamento U-E: 1.estrutura das Relações Interorganizacionais (arranjo institucional; dimensão estrutural): que se refere à forma legal do relacionamento entre as instituições e descreve formalmente as bases do acordo; 2.procedimentos de Coordenação das Relações Interorganizacionais (dimensão de atuação): que se referem às regras comportamentais que sugerem o andamento da interação entre as partes. Levando em consideração o amplo espectro de atividades de cooperação entre empresas e universidades, apresentam-se, no Quadro1, as principais formas de colaboração (tipos de estruturas ou arranjo interorganizacional), empregadas por Stal et al. (2006) e Reis (2008): 218 TIPOS DE RELAÇÕES DESCRIÇÃO EXEMPLOS Tipo A: Relações pessoais informais Ocorrem quando a empresa e um pesquisador efetuam trocas de informação, sem qualquer acordo formal que envolva a universidade. consultorias individuais (paga ou gratuita); workshops informais; publicação de pesquisas; Workshops Tipo B: Relações pessoais com acordos formais São como o anterior, porém com a existência de acordos formalizados entre a universidade e empresa. cursos do tipo “sanduíches”, bolsas de estudo e apoio à pós-graduação, períodos sabáticos para professores, intercâmbio de pessoal; Tipo C: Envolvimento de uma instituição de intermediação Quando existe uma terceira parte. Essas associações ou escritórios que intermediarão as relações podem estar dentro da universidade, ser completa-mente externas, ou, ainda, estar em posição intermediária. “laisons offices” (escritórios que promovem a interação, transferência de tecnologia); associações industriais; institutos de pesquisa aplicada; escritórios de assistência geral; consultoria institucional. 219 Tipo D: Acordos formais com objetivos específicos São relações em que ocorrem a formalização do acordo e a definição dos objetivos específicos desse acordo. serviços contratados (desenvolvimento de protótipos, testes); treinamento de funcionários das empresas; treinamento “on-the-job” para estudantes; projetos ou programas de pesquisa cooperativa (uma universidade com uma empresa). Tipo E: Acordos formais do tipo guarda-chuva São acordos formalizados como no caso anterior, mas cujas relações possuem maior abrangência, com objetivos estratégicos e de longo prazo. Empresas patrocinadoras de P&D nos departamentos universitários; Tipo F: Criação de estruturas próprias para o relacionamento São as que criam estruturas próprias para o relacionamento. Contratos de associação; consórcio de pesquisa universidadeempresa; incubadoras tecnológicas. Quadro 1 Tipos de Relações na Cooperação Universidade-Empresa Fonte: adaptado de Stal et al. (2006) e Reis (2008). No desenvolvimento de atividades entre U-E, a formalização da relação é muito importante, pois, de acordo com os níveis que assumem e sua monitorização, pode evitar conflitos, e até antevê-los (BONACCORSI & PICCALUGA, 1994). Os diferentes tipos apresentados no quadro acima têm um crescente nível de envolvimento organizacional. Nos relacionamentos do tipo A, por exemplo, o envolvimento organizacional da universidade é nulo. Por sua vez, os demais vão apresentando maior envolvimento até chegar às estruturas onde ocorre a criação de estruturas próprias. Da mesma forma, 220 as dimensões também variam: existem relacionamentos pequenos (tipo B, por exemplo), até os muito extensos, como o do tipo F, onde se cria uma estrutura específica para o relacionamento. Independentemente da forma estrutural estabelecida, estes acordos devem estar muito claros, tanto para a universidade quanto para a empresa, na medida em que interferem nos procedimentos de coordenação, ou seja, nos aspectos comportamentais estabelecidos no relacionamento. Os Procedimentos Estruturais das Relações Interorganizacionais (regras comportamentais que sugerem o andamento da interação entre as partes), estão associados ao grau de importância que se dá ao relacionamento, à forma como ocorrem as trocas de informações, aos procedimentos adotados na solução de conflitos e às recompensas esperadas. A importância dada ao relacionamento pode ser observada pela quantidade de recursos (financeiros, humano, material, tempo, laboratório, etc.) disponibilizados na relação, pelo apoio dos gestores com poder de decisão nas organizações, bem como pela disponibilidade de recursos humanos exclusivos para a função de interação. Se somente pesquisadores de baixo nível hierárquico na estrutura da universidade e somente funcionários de segundo e terceiros escalões da empresa estiverem presentes na cooperação, a ausência de atores mais relevantes pode influenciar negativamente as relações entre os parceiros, dando a ideia de pouco interesse no relacionamento. Os gestores da universidade e os da empresa não precisam, necessariamente, ser os pesquisadores, mas devem acompanhar as negociações e o desenvolvimento das pesquisas (REIS, 2008, p.127). Por sua vez, a maneira como se concretizam as trocas de informação entre os parceiros, a estrutura e a natureza dos canais de comunicação interpessoal influenciam muito os resultados, podendo transformar-se, também, em barreiras para o relacionamento. Segundo Reis (2008), devem ser consideradas três dimensões de trocas de informação: a intensidade e frequência da comunicação (pois resultados positivos da parceria estão relacionados com a maior frequência e maior intensidade de trocas); os meios de comunicação utilizados (que podem variar desde meios mais pessoais e presenciais até os impessoais, como relatórios, especificações, etc.) e a dimensão geográfica da troca de informação 68. 221 Segundo Stal, nas relações entre empresas e universidades, o entendimento dos valores culturais de cada uma das organizações, codificados no processo de comunicação por meio da linguagem, é o primeiro passo para a compreensão do modo de pensar e agir de cada um dos interlocutores e condição básica para qualquer proposta de mediação entre eles (STAL, 2006, p151). Sendo assim, se a universidade pretende aperfeiçoar as relações com a empresa, é importante criar instrumentos quer permitam superar a barreira imposta pelas diferenças entre linguagem do sistema documentário adotado na universidade e a linguagem do micro e pequeno empresário, por exemplo. Segatto e Sbragia (1996), citados por Stal (2006, p. 95), resumiram algumas barreiras à cooperação entre U-E: - a busca do conhecimento fundamental pela universidade, enfocando a ciência básica e não o desenvolvimento ou comercialização; - a extensão do tempo do processo; - a visão de que o Estado deve ser o único financiador de atividades de pesquisa universitária; - a ausência de instrumentos legais que regulamentem as atividades de pesquisa envolvendo universidades e empresas; - as regras e os procedimentos administrativos de cada parceiro; - o grau de incerteza dos projetos; - a carência de comunicação entre as partes; - a instabilidade do financiamento das universidades públicas; - a falta de confiança na capacidade dos recursos humanos, de ambas as partes; - o excesso de burocracia das universidades. 68 Para Davenport & Prusak (1998), a proximidade geográfica tem um certo grau de importância na medida em que, intuitivamente, favorece as trocas de informação, embora as novas tecnologias possam diminuir a importância desse fator. Os estudos de Van Looy et al (2003) sobre políticas para estimular a inovação por meio da relação U-E, apresentaram a proximidade das indústrias com as universidades como um dos fatores que estimulou o sucesso das regiões inovativas, tendo em vista a sinergia provocada pela comunicação. 222 Ressalta-se que, embora algumas dessas barreiras já tenham sido reduzidas ou até eliminadas, para uma colaboração eficaz, elas deverão ser levadas em consideração. No modelo teórico das relações U-E de Bonaccorsi e Piccaluga (1994), o desempenho das relações entre organizações é uma construção multidimensional que envolve a criação, transferência e a disseminação do conhecimento. As expectativas sobre cada uma dessas dimensões estão intimamente ligadas às motivações que levaram as organizações a se relacionarem. Desta forma, se os resultados do relacionamento atingem ou ultrapassam as expectativas (originadas na análise das motivações), as empresas têm incentivo para continuar o processo de relacionamento com as universidades [e vice-versa]. Caso contrário, a empresa procura corrigir ações junto à universidade para atingir tais expectativas, mas se após essas ações a insatisfação perdurar, o relacionamento terá fim (REIS, 2008, p.132). 3 A demanda de inovação e design do setor têxtil/confecção de SC Para que a cooperação Universidade-Empresa (U-E) seja, efetivamente, um instrumento para a inovação do setor têxtil, há necessidade de um bom relacionamento, bem como de conhecimento mútuo das motivações, especificidades e potencialidades de cada parceiro. A universidade precisa conhecer a realidade empresarial para uma atuação mais eficiente e eficaz. Neste sentido, apresenta-se, a seguir, uma síntese de algumas questões da pesquisa realizada em 2010, junto as 24 empresas participantes do Projeto Santa Catarina Moda Contemporânea (SCMC) e com 14 instituições de ensino de design de moda catarinenses sobre a utilização do design e a demanda de inovação das indústrias têxteis e de confecção participantes deste projeto, bem como sobre as motivações que levam as instituições a realizarem parcerias de cooperação. 3.1 Perfil das empresas O grupo de empresas participantes do SCMC apresenta diversidade de setores de atuação com predominância de empresas de confecção. É composto por pequenas, médias e grandes empresas, sendo que a maior 223 parcela, 52,2 %, é composta de grandes empresas, e a segunda maior (parcela), 43,5 %, é de média empresas. O grupo apresenta um número reduzido de pequenas empresas e nenhuma micro-empresa. Todas as empresas são de capital nacional. Somente 2,3% atua nos países do Mercosul e menos de 1% distribui produtos para outros países no exterior; 29,2% ocupam a liderança do mercado estadual em relação a seu principal produto; 25% ocupam a liderança no mercado nacional e 4,2% ocupam a liderança no mercado internacional. A maioria (70,8%) das empresas encontra-se no grupo estruturalista da estratégia sustentada na competitividade, e 25% dentro da visão reconstrutivista, sustentada na busca de mercados inexplorados. Mais da metade (54%) investem, em primeiro lugar, na diferenciação do produto como estratégia da empresa para obter sucesso na venda dos produtos. A qualidade vem em segundo lugar (29,2%), e o design em terceiro. Apenas 4% das empresas consideram a inovação incremental para esse fim, e nenhuma aponta a inovação radical. 3.2 Demanda de inovação das empresas As empresas do SCMC são, na sua maioria, empresas inovadoras e/ou potencialmente inovadoras porque implementam e realizam atividades de inovação, entre outras características (OSLO, 2003). No entanto, a inovação de produto têxtil e de confecção de moda não se sobressai frente aos outros tipos de inovação, como a inovação de processo, de marketing e a organizacional. Este dado revela que existe demanda de inovação para o desenvolvimento de produtos diferenciados, bem como pode confirmar que estas empresas têxteis e de confecção estão compatíveis com a maioria das empresas catarinenses deste setor por não se sobressaírem como criadoras de moda. É visível, contudo, que investem nos mais diversos tipos de inovação para se manterem competitivas no mercado. A maioria das inovações (73,2%) são inovações para a própria empresa; 25% são de âmbito nacional e apenas 1% para mercado mundial. As atividades inovativas mais presentes foram o treinamento de empregados ligado à inovação (89,5%) e à aquisição de máquinas e equipamentos (85%), revelando que as empresas têxteis/confecção estão preocupadas com a atualização do parque fabril e treinamento de seus colaboradores para a inovação. 224 A maior parte dos recursos direcionados para investimentos em atividades inovativas é procedente de recursos próprios (40%) e de recursos próprios mais recursos de terceiros públicos (30%), sendo baixa a utilização de programas de apoio do governo à inovação. As principais áreas para investimento em pesquisa, desenvolvimento e inovação são as de produto (70%), processo (65%) e marketing (55%). O design foi a área menos considerada para estes investimentos, mas 52,6% das empresa possuem uma área ou grupo de pessoas responsáveis pela inovação. Os principais motivos que levam as empresas a investirem em inovação referem-se à manutenção e aumento de sua participação no mercado, bem como tornar-se uma empresa com mercado exclusivo. O alto custo de aquisição de equipamentos, a carência de pessoal qualificado, a escassez de recursos financeiros próprios e os riscos elevados de retorno financeiro são os principais obstáculos à inovação apontados pelas empresas. Embora a maioria (55,0%) não se encontre entre as empresas que se caracterizam por sua capacidade de gerar e codificar o conhecimento, a maioria delas são empresas que apresentam facilidade de disseminação e compartilhamento do conhecimento apresentando sistema de gestão integrada de informações. 3.3 Utilização do design nas empresas Embora recente, o design de moda está presente em 95% das empresas pesquisadas, onde a maior frequência de contratação do profissional de nível superior encontra-se no ano de 2000 e anos subsequentes. Apenas 6 empresas têm esse profissional antes do ano 2000, com início em 1974. Mais da metade (58%) das empresas investigadas não têm profissionais de nível técnico em seu quadro profissional e 58,3% das empresas não oferecem estágio, embora identifiquem a necessidade de profissionais qualificados neste campo de atuação. A principal função do design, na maioria das empresas (79,2%) pesquisadas, é atuar no processo de desenvolvimento de produtos de moda, o que permite identificá-las no nível 3 da “Escala de maturidade” dinamarquesa de utilização do design, que apresenta quatro níveis (C.E., 2009, p.16). Ou seja, o nível 3 compreende as empresas que integram o design no desenvolvimento de processos em geral e, considerado neste estudo, o processo de desenvolvimento de produto de moda. No entanto, 2 empresas (8,4%) encontram-se no nível mais elevado, pois consideram o 225 design como elemento chave para colaborar na definição de estratégias da empresa. A maioria das empresas pesquisadas (62,5%) revela que a atuação do design centra-se na interface que realiza entre as necessidades, desejos e/ ou aspirações dos usuários, o processo de desenvolvimento do produto, e as exigências da sociedade (como por exemplo, a sustentabilidade ambiental, social, etc.). De acordo com a Comunidade Europeia (2009), esta é a essência do conceito do design para a inovação centrado no usuário. Tendo em vista ser um conceito e uma atitude nova do design, verifica-se que há necessidade de maior investigação sobre como as empresas estão entendendo esse conceito, como estão utilizando-o na prática, e quais são os resultados alcançados. A responsabilidade pela concepção dos produtos na empresa recai, principalmente (45,8%), na equipe de desenvolvimento de produto. No entanto, há uma série de composições de funções na responsabilidade da criação e evidencia-se baixa existência de departamentos autônomos de design nas empresas (4,2%). Observa-se, em 29% das empresas, a presença, nestes arranjos, de sócios e/ou pessoas da família que também atuam na responsabilidade da criação do produto (percentagem de 29,3%, obtida da soma em que os sócios aparecem nos diversos arranjos). A principal fonte de ideias (inspiração) para a fabricação de novos produtos foram as adaptações ou modificações a partir de tendências internacionais de moda (66,7%) e a criação da própria empresa (33,3%). Este dado é extremamente importante, pois, conforme é interpretado, torna-se positivo ou negativo para o setor têxtil. Se “as adaptações ou modificações” são entendidas como simples alterações estéticas nos modelos, ou adaptações climáticas, aproximam-se da cópia e revelam baixa criatividade. Por sua vez, como aborda Francesco Morace (In SENAI/CETIQT, 2007, p.37), “...não se pode entender o próprio Genius Loci [espírito do tempo] se não se está em permanente relação com outras culturas...”. Assim, defende em sua tese, a estratégia do colibri – ou da “polinização criativa” entre culturas – , onde a recepção, a seleção e a adaptação de materiais [e de ideias] criam “condições para a multiplicação de sinapses criativas, onde cada cultura se mostra em condições de fornecer uma contribuição específica e original”. A globalização e a tecnologia possibilitam a leitura de como se pode explorar nossas rents culturais e materiais, a exemplo da coleção de Ronaldo Fraga, que revigora a cultura local, utilizando a renda 226 do Ceará, de forma contemporânea e global. Vale ressaltar, também, que essas empresas estão participando, atualmente, do programa SCMC que, metodologicamente, busca interpretar ações de marcas criativas ao redor do mundo, buscando sintonizar seus produtos, imagens e história aos desejos dos novos consumidores e dos novos movimentos culturais e socais, como exercício de identificação da identidade da cultura local no contexto global. 3.4 Características da relação U-E Entre o período de 2006 e 2010, a maioria (91,5%) das empresas estive envolvida em algum tipo de arranjo cooperativo, com a pretensão de desenvolver atividades inovativas. Observou-se que os principais arranjos foram com as universidades (45,8%) e com os fornecedores (20,8%). No entanto, menos da metade das empresas estiveram envolvidas com as instituições de ensino para este fim, corroborando com o modelo da Hélice Tríplice brasileira abordado anteriormente que, segundo Stal e Fujino (2005), configura-se ainda embrionário, sem muita integração entre universidade e setores produtivos. Para verificar se os parceiros da relação U-E conhecem os principais motivos que levam as empresas e as instituições de ensino a buscarem parcerias, foram levantadas as mesmas questões para ambas as instituições: a) Que motivos levam a empresa a buscar parceria com a Universidade (instituição de ensino de moda e/ou design)? b) Que motivos levam a Instituição de Ensino a buscar parceria com as empresas? Assim, elas puderam posicionar-se em relação à concepção de motivadores tanto para si próprias quanto para seus parceiros. Na Figura 4, consta a comparação das respostas obtidas nas empresas (colunas pontilhadas - rosa) e nas universidades (coluna tracejadas - cor verde), permitindo analisar o processo como um todo, em relação às motivações para as empresas entrarem na parceira. Conforme pode ser observado, nem todas as barras relativas às universidades e empresas permaneceram próximas uma das outras, bem como nem todas foram consideradas pelas duas instituições, o que revela descompasso de opiniões, relativas a algumas motivações. 227 Os principais motivos apresentados pelas empresas, para buscarem parcerias com as universidades foram “trocar conhecimentos específicos (41,7%); ter acesso a recursos humanos qualificados (16,7%); atualizarse e/ou aumentar conhecimento da empresa (12,5%) e aumentar a sua competitividade (12,5%) que, embora não considerados na mesma intensidade, foram também identificados pelas instituições de ensino, com exceção de atualizar-se e/ou aumentar conhecimento da empresa. No entanto, as instituições de ensino acreditam que as empresas têm interesses em oferecer estágio (21,4%) e investir em inovação (14,3%), que não foram apontadas pelas empresas. Como mencionado acima, as motivações das empresas são pontos essenciais para o sucesso ou o fracasso de uma relação de cooperação (Bonaccorsi e Piccaluga, 1994). Portanto, devem ser de conhecimento dos parceiros, pois, caso não sejam consideradas, podem confrontar-se com a obtenção de resultados que não os esperados, enfraquecendo a relação de cooperação. Vale ressaltar ainda que os dados obtidos estão de acordo com a afirmação de Stal et al. (2005, p.91) de que os objetivos das empresas, de modo geral, têm se modificado, passando do aproveitamento dos recursos humanos qualificados para a agregação de novos conhecimentos ao processo produtivo. Principal motivo para buscar parceria Empresa (n=24) Outro(s) 0,0 0,0 Of erecer estágios 0,0 IES (n=14) 21,4 8,3 7,1 Solucionar problemas específ icos 0,0 0,0 Ter acesso a laboratórios e instalações 12,5 14,3 Aumentar a sua competitividade Investir em inovação 0,0 Diminuir custos de pesquisas e reduzir riscos 0,0 Of erecer capacitação para seus f uncionários 0,0 14,3 7,1 8,3 16,7 21,4 Ter acesso a recursos humanos qualif icados Trocar conhecimentos específ icos 41,7 14,3 Atualizar-se e/ou aumentar o conhecimento da empresa 0,0 0 10 12,5 20 30 40 50 60 70 80 90 100 Percentual (%) Figura 4: Comparativo de opinião U-E sobre principal motivo que leva as empresas a buscarem parcerias com as Instituições de Ensino. Fonte: Costa, 2011 228 Ao contrário da situação anterior, viu-se que, segundo Figura 5, as barras que indicam o principal motivo que levam as IE a buscarem parcerias com as empresas (aumentar a relevância da pesquisa acadêmica e consequente impacto no ensino) permaneceram altas e bem próximas (64,% e 66,7% IE), indicando que há consenso quanto ao principal motivo. Além disso, com exceção de uma alternativa (obter recursos financeiros para os pesquisadores, levantado pelas empresas), todos os demais motivadores foram apontados por ambas as instituições. Comparando com os dados da figura 4, observa-se que as empresas conhecem bem o porquê de as instituições de ensino estarem na parceria, mas a recíproca não é verdadeira. Empresa (n=24) Principal motivo para buscar parceria IES (n=14) 0,0 Outro(s) 7,1 0,0 0,0 Demonstrar sua utilidade sócio-econômica 0,0 0,0 Obter maior possibilidade de f uturos contratos de pesquisa 8,3 7,1 Aumentar a possibilidade de empregos dos estudantes graduados 8,3 Conseguir estágio para os acadêmicos 14,4 12,5 Trocar conhecimentos específ icos 7,1 66,7 64,3 Aumentar a relevância da pesquisa acadêmica 4,2 0,0 Obter recursos f inanceiros para os pesquisadores 0 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100 Percentual (%) Figura 5: Comparativo de opinião U-E sobre principal motivo que leva as Instituições de Ensino a buscarem parcerias com as empresas. Fonte: Dados primários/2011 Os tipos de instrumentos, utilizados na relação entre U-E, mais frequentemente apontados pelas empresas pesquisadas, foram as relações com acordos formais e objetivos específicos (45,8%) (também levantado pelas IEs) e relações estabelecidas por terceiros (Figura 19). As IEs afirmam que também realizam acordos pessoais informais. Das 24 empresas estudadas, 70,8% participaram do SCMC. Destas, 31,2% iniciaram a sua participação no ano de 2005, e 50% começaram entre 2009 a 2010. 229 4. A Criação, transferência e disseminação do conhecimento na cooperação interinstitucional É consenso de diversos autores proeminentes, como Peter Drucker (1985), Thomas Davenport e Prusak (1998); Nonaka e Takeuchi (1997), Giovanni Dosi (1988), entre outros, que a sociedade do conhecimento está consumada e que a criação do conhecimento, por sua vez, tem deixado de ser entendida como exógena ao processo de inovação. Ressalta-se, portanto, a importância das instituições de pesquisa e universidades em processos de interação com as unidades produtivas, já que fornecem a base do desenvolvimento científico e tecnológico para a geração do conhecimento. Para tanto, como se pode observar na Figura 6, os círculos, que representam a Hélice Tríplice, tendem a sair da condição de instituições desconexas, que se tangenciam (representado pelas linhas pontilhadas dos círculos do esquema à esquerda) para a condição de conectividade Universidade-Empresas-Governo na construção do conhecimento em prol da inovação (representado no esquema, a direita). Este processo é defendido em tese de doutorado (COSTA, 2011) como um sistema participativo de Política de Design, convergente entre universidade e empresa. Fundamentase na ideia de cooperação para a criação do conhecimento novo como forma de se chegar à inovação do setor têxtil por meio do design. Envolve o esforço de realizar a aproximação das unidades produtivas (empresas) e especializadas (universidades e centros de pesquisas) que se tangenciam em direção ao conhecimento das especificidades, potencialidades, motivações e objetivos específicos de cada unidade, para contribuir no alcance do objetivo comum: a inovação pelo design. Busca-se o Modo 2 de Produção do Conhecimento em que ambas organizações são participantes ativas desse processo. Conforme se pode observar na Figura 6, as motivações e objetivos específicos passam a ser conhecidos, e a universidade e empresa podem partilhar de projetos com objetivos em comum. A produção do conhecimento é, então, ampliada, pois ocorre no contexto de aplicação deste e na multidisciplinaridade. 230 Figura 6: Modelo de Gestão de Integração Universidade-Empresa para Política de Design para o Fomento da Inovação Fonte: COSTA, 2011. Nesse processo endógeno de criação do conhecimento, a teoria de Nonaka e Takeuchi (1997) considera tanto a dimensão epistemológica (conhecimento implícito e explícito), quanto a ontológica (níveis diferentes de agregação de conhecimento - individual, em grupo, organizacional, entre organizações etc.). Assim, a universidade e, mais especificamente, os cursos de Design de Moda, podem contribuir com a empresa, disponibilizando pesquisas, profissionais capacitados, conhecimentos específicos entre outros. Por sua vez, a organização produtiva pode interagir com as instituições de ensino, disponibilizando também seu conhecimento organizacional, a experiência de seus profissionais e conhecimento advindos da prática. Esta interação não se atém apenas a uma troca, mas a uma criação do conhecimento novo, que surge a partir do envolvimento dos pares em equipe multidisciplinar. Sedo assim, nas palavras de Nonaka e Takeuchi (1997), a criação do conhecimento dá-se quando a interação entre o conhecimento tácito e explícito eleva-se dinamicamente de um nível ontológico menor (individual) até níveis mais altos (organizacional ou entre organizações), formando um efeito crescente em espiral. 231 Reportando-se aos quatro padrões de criação do conhecimento, na dinâmica da empresa, entende-se que: (...) este inicia de ideias originais, de indivíduos autônomos e difunde-se dentro da organização. Com a interação que ocorre entre indivíduos, o conhecimento tácito transforma-se em explícito. Conceitos são criados de forma cooperativa entre o grupo e como conhecimento explícito, pode ser comunicado para outras pessoas. Neste sentido o conhecimento, já criado e justificado, é transformado em procedimentos tangíveis e pode dar início a um novo conhecimento ou ser transferido. O conhecimento organizacional por si só não existe, uma vez que ele é a soma [ou melhor, o produto] do conhecimento dos indivíduos que compõem a organização [e dos indivíduos que estão em processos de parceira com a empresa], sendo fruto de uma interação contínua e dinâmica entre o conhecimento tácito e o conhecimento explícito (SILVEIRA e COSTA, 2009, p.8). Para Reis (2008), a transferência do conhecimento continua a ser uma necessidade vital da sociedade e da economia do conhecimento, mas existem fatores culturais ou atritos que retardam ou impedem esta transferência, principalmente quando envolve instituições com especificidades e objetivos diferentes. Os atritos mais comuns e as formas de superá-los são apresentadas no Quadro 2. ATRITO Falta de confiança mútua. Construir relacionamentos e confiança mútua por meio de reuniões face a face. Diferenças culturais, vocabulários e quadros de referência. Estabelecer consenso por intermédio de educação,discussão, publicações, trabalho em equipe e rotação de funções. Falta de tempo e de locais de encontro; ideia estreita de trabalho produtivo. 232 SOLUÇÕES POSSÍVEIS Criar tempo e locais de transferência conhecimento: feiras, salas de bate-papo, relatos de conferências. Status e recompensas vão para os possuidores do conhecimento. Avaliar o desempenho e oferecer incentivos com base no compartilhamento. Falta de capacidade de absorção pelos recipientes. Educar funcionários para flexibilidade; propiciar tempo para aprendizado; basear contratações na abertura a ideias. Crença de que o conhecimento é prerrogativa de determinados grupos, síndrome do not invented here. Intolerância com erros ou necessidade de ajuda. Estimular a aproximação não hierárquica do conhecimento; a qualidade das ideias é mais importante que o cargo da fonte. Aceitar e recompensar erros criativos e colaboração; não há perda de status por não se saber tudo. Quadro 2. Atritos e soluções na transferência de conhecimento Fonte: Davenport e Prusak (apud REIS, 2008, p.20) Observa-se, a partir do quadro acima, que fatores culturais e de relacionamento podem prejudicar a transferência do conhecimento e, portanto devem ser levados em conta pela gestão de integração U-E. No entanto, cabe mencionar que a transferência do conhecimento envolve questões também estruturais que evidenciam a necessidade de uma gestão dos processos de transferência de tecnologia e conhecimento. Ferreira e Vasconcelos (2000) levantam sete dimensões a serem consideradas na análise e gestão da interação U-E, a saber: - A política de interação do organismo de pesquisa com seu ambiente industrial; - A conduta da interação durante a vida do projeto; - A preparação da transferência dos resultados; - A negociação e as condições dos contratos; - A conduta da transferência; - A harmonização das representações dos parceiros, e - A interação durante o processo de industrialização dos resultados. Nem todo professor/pesquisador está apto para conduzir tais mecanismos. O ideal é ter um profissional capacitado ou departamento 233 específico dentro da universidade ou, ainda, um órgão (externo) que aja como um gerenciador das interfaces institucionais, servindo de interlocutor entre a instituição de ensino/pesquisa e a empresa. A este caberia a função de desburocratizar e agilizar os procedimentos administrativos, facilitando a elaboração e execução de contratos. Ainda se ocuparia da formulação de um conjunto flexível de regras simples e claras que regulem suas relações com empresas de portes e necessidades distintos, e da criação de programas encarregados em levantar e divulgar o potencial tecnológico da instituição e facilitar o acesso dos empresários à universidade (LORENZO, et al., 2007). De acordo com Bonaccorsi e Piccaluga (apud REIS, 2008. p. 19), o processo de transferência de conhecimento apresenta algumas dimensões que interferem na gestão e na estrutura das relações U-E. Essas dimensões são: o tempo despendido no processo, a apropriação do conhecimento, a implicitabilidade do conhecimento e a universalidade do conhecimento. Considerações finais Sabe-se que a universidade e a empresa são organizações de natureza fundamentalmente distintas e, por isso, apresentam objetivos e finalidades diferentes. As motivações trazidas pela empresa para o estabelecimento da parceria e vice-versa nem sempre são conhecidas ou compatíveis com as da universidade. É raro as motivações das empresas não estarem relacionadas à sua produtividade. Por sua vez, mesmo que a universidade atenda essa solicitação da empresa, isto nem sempre é suficiente para atender a função de despertar as potencialidades dos acadêmicos, como o da produção de conhecimento pela pesquisa fundamental - uma das funções da universidade. Em geral, a empresa é imediatista, enquanto a unidade de ensino requer maior tempo para o desenvolvimento de pesquisas. Neste caso, a empresa e a universidade caminham em passos diferentes e ocupam espaços diferentes, que apenas se tangenciam, dificultando a criação do conhecimento. Apenas trocam ou consomem o conhecimento uma da outra, conforme se verificou neste estudo. Sendo assim, conclui-se que uma das primeiras providências a ser tomada para a aproximação e atuação produtiva é estreitar essa lacuna em prol de uma maior compreensão das especificidades, objetivos e 234 potencialidades de cada instituição. É buscar, conjuntamente, uma maneira de integrar as competências e contextos em prol de objetivos comuns e maior criação e produção do conhecimento novo para a inovação. De fato, o que parece simples de concluir, não está sendo fácil de realizar na prática. Referências bibliográficas BONACCORSI, A. PICCALUGA. A theoretical framework for the evaluation of university-industry relationships. In: R&D Management, v. 24, n. 3, p. 229-240, 1994. CALMANOVICI, Carlos. Interação universidade/empresa: um falso debate. In: Engenhar- o jornal da inovação. Sõ Paulo: ANPEI, Ano XV, n.7, mar/abr 2010, p.11. COSTA, Maria Izabel. 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Florianópolis: INPEAU, 2009. 235 COSTA, Maria Izabel . Política de Design para o Fomento da Inovação da Cadeia Têxtil Catarinense – um processo de cooperação universidadeempresa. Rio de Janeiro, 2010. 215p. Documento de Qualificação de Tese (Doutoramento). Universidade Pontifícia Católica do Rio de Janeiro. Departamento de Artes. Rio de Janeiro, RJ: PUC-Rio, 2010. ___________________; SILVEIRA, Icléia. Guatambú: Referência Sinética para o Design Têxtil. In: 5º Congresso Internacional de Pesquisa em Design, 2009, Bauru. Anais ... Bauru: ANPED, 2009. CHRISTENSEN; ANTHONY, Scott D.; ROTH, Erik A. O futuro da inovação: usando as teorias da inovação para prever mudanças no mercado. Tradução Carlos Cordeiro de Mello. Rio de Janeiro: Elsevier, 2007. DAVENPORT, T.H. & PRUSAK, L. Working knowledge. Boston, Harvard Business School Press, 1998. DE LORENZO, Helena Carvalho; FONSECA, Sérgio A.; SOUZA, Cassiana M. De. 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A indústria da moda no Brasil tem grande visibilidade e, por exigir muitos recursos naturais, é crescente a preocupação com as questões de desenvolvimento sustentável. O objetivo geral é analisar publicações acadêmicas e comerciais e confrontar as ideias propostas, verificando as influências e contribuições sociais e ambientais que essas narrativas podem causar. Como fontes, utilizaram-se artigos e outras pesquisas acadêmicas, vinculadas principalmente ao projeto ECOMODA/UDESC, bem como matérias jornalísticas publicadas em editoriais de moda que chegam facilmente às mãos do público de massa. A intenção foi confrontar os discursos, verificando paradigmas seguidos nas duas propostas textuais que, por sua vez, são fontes de formação de opinião e consumo. Renda de Bilro: As dimensões da sustentabilidade na perspectiva do slow fashion O propósito desse texto é apresentar uma reflexão a partir dos resultados da pesquisa para a tese de doutorado “Contribuições da ética ambiental biocêntrica e do veganismo para o design de vestuário sustentável” e do trabalho desenvolvido pelo grupo AME, formado pela ONG ALICE, Museu da UFSC e o Programa de Extensão Ecomoda UDESC. O grupo trabalha no resgate da renda de bilro, artesanato típico da Ilha de Santa Catarina, e na aplicação das rendas em diversas peças, como: roupas, acessórios, objetos de decoração e obras artísticas. O trabalho realizado foi norteado pelas dimensões: social, ambiental e cultural para a sustentabilidade em peças desenvolvidas com fios e tecidos de algodão orgânico e reciclado. Teve a participação de professores, alunos, artesãos e demais pessoas da comunidade que aplicaram o seu saber em peças exclusivas numa perspectiva de slow fashion. O trabalho do Programa de Extensão Ecomoda 238 UDESC é fundamentado na pesquisa sobre os conceitos da ética ambiental biocêntrica e no modo de consumo dos veganos. Feminilidades e masculinidades: um desafio para a moda contemporânea A indumentária e os acessórios corporais são produtores de significados para os corpos e para os gêneros. As práticas de vestir e de ornamentar o corpo possibilitam compreender representações de adesão ou questionamento das estruturas sociais, como por exemplo, a reprodução da aparência de masculinidades e feminilidades hegemônicas. Logo, a moda pode ser utilizada como elemento de subversão das normas sociais. O objetivo deste texto é o de analisar a produção da aparência dos travestis, como instrumento de critica social aos papéis de gênero. Procuraremos mostrar como os travestis, ao construírem seus corpos com roupas e técnicas de embelezamento, que são culturalmente associadas ao feminino, produzem sobre e para o corpo biológico masculino, aparências femininas que se configuram em práticas e discursos, rompendo com as balizas “naturalizantes e essencializantes” que associam os corpos às roupas. A reflexão será conduzida por intermédio da pesquisa bibliográfica. O conforto em lingeries: moda, praticidade e inovação Este artigo analisa as relações entre corpo feminino, saúde e vestimenta, especialmente as roupas íntimas. Procuramos refletir acerca da influência que a moda exerce não só na indumentária, mas na estética feminina desde o século XIX até o século XXI, bem como de que forma a praticidade da lingerie dos dias atuais está relacionada à inovação. A metodologia utilizada para a realização dessa investigação foi a revisão bibliográfica, na qual se buscou compreender como a medicina relacionava moda e saúde e de que forma o corpo feminino foi tratado no decorrer da história, além das consequências desse tratamento. Como fonte de pesquisa, utilizamos as revistas Estilo, Criativa e Manequim, direcionadas ao público feminino, bem como selecionamos alguns anúncios publicitários sobre roupas íntimas. 239 Com que roupa eles iam? O desafio de constituir acervos de indumentária no Brasil. A vestimenta desempenha muito mais do que uma função prática, pois é carregada de simbologias. Afinal, ela molda os gestos, as posturas, os corpos. A roupa é portadora de memórias, das técnicas de tessitura e produção do vestuário, dos gostos, da moda, das sociabilidades. Ela constitui um lugar de memória69; e, segundo Michele Perrot, a memória feminina é uma memória trajada70. Este artigo propõe uma reflexão sobre o desafio de constituir acervos de trajes, tanto no Brasil como no exterior. O motivo para a incompletude das coleções está na fragilidade dos tecidos, sendo raro que se encontrem roupas anteriores ao século XVII, mesmo na Europa. A relevância dos trajes originais está no fato de que com eles podemos aprender coisas que não se encontram em nenhum outro documento. PARTE II Dinâmica Competitiva: prospectivas e novos desafios O objetivo deste artigo foi apresentar a dinâmica do desenvolvimento empresarial na cadeia produtiva da moda, tendo como ponto de convergência a incorporação dos conceitos de moda e estilo em detrimento dos produtos padronizados e massificados pelos grandes mercados. Fezse uma breve referência aos modelos competitivos de países como França, Inglaterra, Itália, Estados Unidos e do continente asiático, bem como uma explanação sobre os polos estratégicos de competitividade brasileiros. O exame da atual conjuntura mundial é capital para arquitetar ações prócompetitividade que se alicerçam, fundamentalmente, no uso de elementos dinâmicos que asseverem a obtenção de vantagens comparativas sólidas frente às novas exigências mercadológicas. O trabalho caracteriza-se como uma pesquisa de revisão bibliográfica. 69 NORA, Pierre. Lieux de memoire. V 1, 2 e 3. Paris: Gallimard, 1997. 70 PERROT, Michelle. Práticas da memória feminina. Revista Brasileira de História. São Paulo: ANPUH, v.9, n. 18, p. 09-18, ago/set. 1989. 240 Reflexões sobre as experiências vivenciadas no ensino e aprendizagem do desenho de moda. O artigo aqui exposto, busca demonstrar que a aplicação da concepção construtivista, no ensino e aprendizagem do desenho de moda à mão livre, contribui para antecipar soluções e projetar produtos de design de vestuário. Pretendeu-se direcionar este estudo para a relevância do uso de didáticas e experiências de desenho à mão livre com objetivos instrumentais orientados à criação de novos saberes direcionados à produção de resultados reais para a concepção projetual a ser realizada no contexto da moda. Propõese a utilização do desenho, enquanto processo de aprendizagem, como recurso instrumental criativo e como instrumento do pensamento e de concretização. O trabalho aqui relatado foi realizado por meio de uma pesquisa descritiva de caráter exploratório e com um aporte bibliográfico. Avaliação do Treinamento do Sistema CAD no setor de modelagem do vestuário, sob a ótica da gestão do conhecimento. Este trabalho apresenta uma avaliação do treinamento para uso do sistema CAD no setor de modelagem do vestuário, com vistas à melhoria da sua qualidade, sob a ótica da gestão do conhecimento. O setor de modelagem do vestuário está inserido no processo do desenvolvimento de produto, diretamente ligado ao design do produto, sendo responsável pela elaboração da sua forma tridimensional. Para produzir este artigo, utilizouse a pesquisa qualitativa, que permitiu o aprofundamento necessário da busca dos objetivos proposto, bem como a pesquisa descritiva que mostra as características da tecnologia da informação aplicada à gestão do conhecimento, com vistas à qualidade do treinamento para o uso do sistema CAD. 241 Inovações têxteis da Pós-modernidade Este artigo tem o propósito de mostrar as inovações têxteis que, nas últimas décadas, passaram por profundas mudanças conjunturais e inovações tecnológicas. Fatores importantes neste crescimento devem ser considerados, como o uso de novos maquinários, equipamentos, novas matérias-primas e processos de acabamento, possibilitando maior uso de fibras artificiais e sintéticas que, dentre outras vantagens, tem sua produção livre de problemas relativos a safras e climas. O trabalho teve por objetivo desvendar as características da pós-modernidade nos têxteis, evidenciando suas referências e aplicação. A construção do conhecimento na cooperação interinstitucional para o fomento da inovação e do design no setor têxtil Para buscar a inovação em meio à competitividade do mercado, os setores produtivos passaram a investir em iniciativas orientadas a melhorar seu acesso a novos conhecimentos, ocasionando, com isso, uma maior aproximação às instituições de ensino de nível superior de moda. Esse estudo discute a importância, facilidades e dificuldades da construção do conhecimento em processo de colaboração universidade-empresa para a inovação do setor têxtil/confecção catarinense. Autores do livro ModaPalavra Cláudia Schemes: Graduada em História pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos, Mestre em História Social pela Universidade de São Paulo – USP e Doutora em História pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUC-RS. Atualmente é docente na Universidade Feevale. Icléia Silveira: Doutora em Design pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro – PUC-Rio, Mestre em Engenharia de Produção pela Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC, especialista em Moda pela Universidade do Estado de Santa Catarina – UDESC e em Atuação para Docente em Nível Superior pela Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC e possui Licenciatura em Geografia pela Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC. Atualmente é professora efetiva no Curso de 242 Moda da Universidade do Estado de Santa Catarina – UDESC, assim como também coordenadora do mesmo. Ivana Guilherme Simili: Possui graduação, mestrado e doutorado em História pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho – UNESP-Assis. Atualmente é professora associada da Universidade Estadual de Maringá e do Programa de Pós-graduação em História (PPH-UEM), na linha de pesquisa Fronteiras, Populações e Bens Culturais. Laura Ferrazza de Lima: Mestre em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, onde também fez a graduação em Licenciatura Plena e Bacharelado em História. Atualmente é doutoranda em História pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul - PUC-RS. Lourdes Maria Puls: Doutora em Design pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro – PUC-Rio, Mestre em Engenharia de Produção pela Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC. Atualmente é professora efetiva na Universidade do Estado de Santa Catarina – UDESC e coordena o livro ModaPalavra vol. 9, do projeto PublicarModa da UDESC. Professora convidada na Pós-graduação em Gestão de Moda da Faculdade Estácio de Sá – SC. Mara Rúbia Sant’Anna Possui graduação em História, Licenciatura pela Universidade Federal de Santa Catarina, mestrado em História pela Universidade Federal de Santa Catarina e doutorado em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Realizou estágio de doutoramento na École des Hautes Études en Sciences Sociales (FR). Atualmente é professora titular da Universidade do Estado de Santa Catarina e membro permanente do Mestrado em História da mesma instituição. Também é professora associada da Equipe d’Acueil 3400 “ARCHE”, filiada à Universidade de Strasbourg (FR). Maria Izabel Costa: Possui especialização em Desenho Industrial, Estilismo e Modelagem pela Universidade do Estado de Santa Catarina – UDESC e mestrado em Engenharia de Produção pela Universidade de Santa Catarina. Implantou e coordenou durante doze anos a Teciteca do Centro de Artes da UDESC. Atualmente é professora titular, assistente IV, no Curso de Moda da UDESC, desenvolve pesquisas de design de superfície, 243 transformação têxtil e tecnologia têxtil. É gestora de Criação e Integração Universidade-Empresa do Santa Catarina Moda Contemporânea – SCMC. Neide Köhler Schulte: Possui graduação em Desenho e Plástica pela Universidade Federal de Santa Maria - UFSM-RS, especialização em Ensino da Arte pela UNIVILLE e em Moda pela Universidade do Estado de Santa Catarina – UDESC. Mestre em Engenharia de Produção pela Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC e Doutora em Design pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro – PUC-Rio. Atualmente é professora titular da Universidade do Estado de Santa Catarina – UDESC. Rochelle Cristina dos Santos: Mestre em História pela Universidade do Estado de Santa Catarina – UDESC, possui especialização em Propaganda e Marketing pela Estácio de Sá e graduada em Comunicação Social – Habilitação em Publicidade e Propaganda pela Estácio de Sá. Atualmente cursa especialização em “Moda: Gestão e Marketing” pelo SENAC-SC e é professora contratada no Curso de Design da Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC. Sandra Regina Rech: Possui Licenciatura em Educação Artística pela Universidade de Caxias do Sul, Mestrado e Doutorado em Engenharia da Produção pela Universidade Federal de Santa Catarina. Atualmente, é docente associada da Universidade do Estado de Santa Catarina – UDESC e líder do grupo de pesquisa Design de Moda e Tecnologia. Coordena o projeto de pesquisa FPLab - Futuro do Presente (http://www.futurodopresente. ceart.udesc.br). É avaliadora de cursos - Inep. Série Modapalavra Moda: desafios e inovações 244