A PRODUÇÃO DE RECURSOS TECNOLÓGICOS
NA ATIVIDADE DE INTEGRAÇÃO CURRICULAR
André Luis Castro de Freitas
Professor do Centro de Ciências Computacionais, Universidade Federal do Rio Grande (FURG)
[email protected]
Luciane Albernaz de Araujo Freitas
Professora do Instituto Federal Sul Rio Grandense de Educação (IFSUL)
[email protected]
RESUMO: Constata-se na educação a dificuldade de engendrar novas formas de relações, principalmente no que
tange a prática das atividades no espaço tempo da sala de aula. Este ensaio, realizado a partir de uma experiência
pedagógica, intenciona problematizar a importância das relações interpessoais, por meio da introdução de
recursos tecnológicos, para a ressignificação dos saberes. A tecnologia aplicada à área da educação requer um
olhar abrangente, envolvendo novas formas de ensinar e de aprender. A pesquisa, embasada em uma ordem:
intuitiva, processual e relacional, busca evidências do engajamento dos acadêmicos frente à relação educacional.
Tem–se assim neste trabalho o objetivo de problematizar a aplicabilidade das tecnologias da informação e
comunicação na atividade de integração curricular, no sentido de tornar esta ação uma experiência envolvente na
busca de ajustar o ensino às condições da aprendizagem. Dentro da perspectiva qualitativa de pesquisa, utilizouse a técnica de pesquisa-ensino. Nesta a educação acontece como um processo de comunicação caracterizado pela
idéia de ser humano como ser social capaz de significação. Envolveram-se na investigação acadêmicos de uma
turma da atividade de integração curricular, no ano de 2010. Em meio a este processo de significativas reflexões e
construções os acadêmicos foram solicitados a produzirem artefatos computacionais no intuito de integrar os
saberes da série. Estes materiais, juntamente com os relatos e as anotações do diário de campo, compuseram o
corpo de análise. Ao analisar os dados constatou-se que as tecnologias viabilizam mudanças no modelo
educacional e criam conexões e redes de comunicação importantes na qualificação dos acadêmicos.
ABSTRACT: There is the difficulty in education to generate new forms of relations, especially regarding the
practice of activities in classroom. This test done from an educational experience intends to discuss the
importance of interpersonal relationships through the introduction of technological resources for the redefinition
of knowledge. The technology applied in the education requires a comprehensive look, involving new ways of
teaching and learning. The research, based on intuitive, procedural and relational order, looking for evidence of
the engagement of students on this educational relationship. It has been working well in order to discuss the
applicability of information and communication technologies in curriculum integration activity, making this
action an experience adjusting the teaching conditions of learning. From the perspective of qualitative research,
we used the technique of teaching research. This education takes place as a process of communication
characterized by the idea of humans as social beings, capable of creating meaning. Students of one class of
activity curriculum integration, in 2010, became involved in the investigation. In this process of reflection and
significant buildings students were oriented to produce computational artifacts in order to integrate the knowledge
of the series. These materials, along with accounts and notes from the field diary, composed the body of analysis.
In analyzing the data to be contacted technologies enable changes in the educational model and create
connections and networks important in the training of students.
1. Introdução
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A tecnologia aplicada à área da Educação requer um olhar abrangente, envolvendo novas formas de ensinar e
aprender.
Atualmente, tenta superar os limites de espaço e tempo, proporcionando aos indivíduos acesso
à informação o que, consequentemente, promove uma vivência diferenciada dos princípios organizadores do
conhecimento.
Estas possibilidades quando pautadas em princípios que privilegiam a produção dos sentidos passam a
requerer dos educadores novas competências e atitudes para um modo de educar diferenciado. Segundo Deleuze
(2009, p.158) ‗aprender é o nome que convém aos atos subjetivos operados em face da objetidade do problema
(Idéia), ao passo que saber designa apenas a generalidade do conceito ou a calma posse de uma regra das
soluções‘.
Quando se reflete sobre a necessidade de promover novas práticas pedagógicas questiona-se sobre os
modelos capazes de permitir iniciativas com recurso às tecnologias. Acredita-se que estas tecnologias possam
promover o aprender como uma experiência que envolve o ser como um todo e o ensino se ajusta às condições da
aprendizagem, desde que ele próprio seja uma experiência.
Observa-se que no ensino, cursos de graduação e pós-graduação, nas mais diferentes Instituições, tanto na
modalidade presencial quanto na modalidade à distância, a utilização das TIC (Tecnologias da Informação e
Comunicação) tornou-se uma prática comum.
Por outro lado há uma excessiva compartimentalização do saber, pois as disciplinas, na organização
curricular, em geral, apresentam realidades estanques, sem interconexão alguma, dificultando aos acadêmicos a
compreensão do conhecimento como um todo. Por este motivo a preocupação com a utilização de tecnologias, no
sentido de minimizar tal realidade.
Este trabalho foi elaborado tomando como base pesquisa realizada na disciplina de Atividade de Integração
Curricular I, do curso de bacharelado em Sistemas de Informação, da Universidade Federal do Rio Grande,
durante o ano de 2010.
Tem-se como objetivo problematizar a aplicabilidade das TIC na atividade de integração no sentido de tornar
esta ação uma experiência envolvente na tentativa de promover ajustar o ensino às condições da aprendizagem. A
análise dos dados foi feita a partir da observação de fatos e relatos.
Este artigo está assim organizado: problematização, espaço onde serão trazidas argumentações sobre a
especialização do saber na tentativa de propiciar condições aos acadêmicos para que percebam além das
estruturas disciplinares; referencial teórico, momento em que se buscam subsídios teóricos que permitam
estabelecer relações para análise dos dados; metodologia apresenta-se os encaminhamentos utilizados para a
condução da pesquisa. Após seguem: reflexão e análise e considerações finais.
2. Problematização
Para Gallo (2008) todo o conhecimento construído ao longo da história da humanidade, desde a tecnologia
escrita, está fundamentado no processo de interpretação da realidade, e tem por objetivo buscar incessantemente a
verdade.
Na atualidade há uma excessiva compartimentalização do saber. As disciplinas, na organização curricular,
apresentam realidades estanques e, em geral, sem interconexão.
‗Sabe-se que o século XIX foi marcado pela expansão do trabalho científico. As
tecnologias de pesquisas em todos os domínios se enriqueceram prodigiosamente,
acompanhadas, em contrapartida, pela multiplicação de abordagens: o tempo
dos especialistas chegou e com ele a fragmentação do saber. As certezas se
tornaram fatos se impondo fragmentariamente‘ (MINAYO, 1994, ps.45-46).
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A especialização do saber acarreta a fragmentação do conhecimento, onde cada área enclausura-se sem
permitir o estabelecimento de ramificações que necessitam estar para além de suas fronteiras.
Esta prática, de fronteiras bem delimitadas, afirma-se na concepção de que decompor o todo em partes
facilita a aquisição dos saberes, percebendo o todo como a simples soma das partes. Esta concepção que acaba
por promover a cristalização dos currículos traz em seu cerne a mesma lógica disciplinar que a muito se vivencia
em instituições educacionais. Esta lógica tem por base o esquadrinhamento, com objetivo de controle. Assim
posto o controle pode dar-se sobre o saber ou sobre os indivíduos.
‗O momento histórico das disciplinas é o momento em que nasce uma arte do
corpo humano, que visa não unicamente o aumento de suas habilidades, nem
tampouco aprofundar sua sujeição, mas a formação de uma relação que no
mesmo mecanismo o torna tanto mais obediente quanto mais é útil, e
inversamente. Forma-se então uma política das coerções que são um trabalho
sobre o corpo, uma manipulação calculada de seus elementos, de seus gestos, de
seus comportamentos. O corpo humano entra numa maquinaria de poder que o
esquadrinha, o desarticula e o recompõe‘ (FOUCAULT, 2009, p.133).
Neste sentido, é possível pensar a academia como produzida por uma sociedade na qual se insere como
também pensá-la como produtora dessa mesma sociedade.
‗Ao longo da Modernidade, a escola estabeleceu-se como uma grande
maquinaria social e cultural, ou seja, como um grande conjunto de ‗máquinas‘
que, operando articuladamente entre si, desempenharam um papel crucial para a
formação política, cultural e econômica da sociedade ocidental. Essa
maquinaria, além de inventar espaços específicos para a educação das crianças e
dos jovens, foi decisiva para a invenção de saberes e seus respectivos especialistas, encarregados de dizer como educar, ensinar, vigiar e regular essas crianças
e esses jovens‘ (VEIGA-NETO, 2008, p.142).
A estrutura acadêmica está organizada sobre essa compartimentalização. Nesta perspectiva, o professor
torna-se um repositório especializado em uma disciplina, tendo a função de possibilitar o acesso às informações
ali contidas, informações estas que por serem consideradas como verdades não possibilitam espaço para a
problematização.
A problematização aqui referida vai ao encontro do conceito cunhado por Foucault (2010, p.242):
‗Problematização não quer dizer representação de um objeto pré-existente, nem
tão pouco a criação pelo discurso de um objeto que não existe. É o conjunto das
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práticas discursivas ou não discursivas que faz alguma coisa entrar no jogo do
verdadeiro e do falso e o constitui como objeto para o pensamento (seja sob a
forma da reflexão moral, do conhecimento científico, da análise política, etc)‘.
Portanto, tem-se como meta uma proposta de pensar uma educação que possa instigar os envolvidos na
compreensão da realidade onde estão inseridos, propiciando condições para que percebam além das estruturas
disciplinares.
Dentro desta perspectiva propõem-se as seguintes reflexões: É possível aplicar uma nova ordem intuitiva,
processual e relacional as atividades em sala de aula a partir da produção de recursos tecnológicos, elaborados
pelos próprios acadêmicos? A partir desta nova ordem vislumbra-se uma proposta que supere a histórica
compartimentalização do saber?
Algumas hipóteses encaminharam o desenvolvimento desta pesquisa:
 os acadêmicos apresentam experiências de atividades de um ensino conservador e tradicional. Estas
experiências compartimentalizam o saber, acarretando um conhecimento fragmentado;
 os sistemas educacionais, em geral, são baseados em princípios de racionalidade instrumental, apresentando a
reprodução de valores, verdades absolutas. Para introduzir uma nova cultura, de incertezas, faz-se necessário
produzir novas subjetividades;
 os acadêmicos apresentam fortes restrições a introdução de uma nova ordem intuitiva e relacional,
principalmente no que tange ao trabalho com relações emocionadas e
 os acadêmicos demonstram facilidade na utilização de recursos tecnológicos, principalmente, recursos
disponibilizados via web.
3. Referencial Teórico
Na visão de Foucault (2009, p.133) o poder se expande por toda a sociedade, investindo sobre as
instituições e tomando forma em técnicas de dominação, possui uma tecnologia e história específica, pois,
atinge o corpo do indivíduo, realizando um controle detalhado e minucioso sobre seus gestos, hábitos, atitudes
e comportamento.
‗Esses métodos que permitem o controle minucioso das operações do corpo, que
realizam a sujeição constante de suas forças e lhes impõem uma relação de
docilidade-utilidade, são o que podemos chamar as "disciplinas". Muitos
processos disciplinares existiam há muito tempo: nos conventos, nos exércitos,
nas oficinas também‘.
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Partindo deste pressuposto, observa-se uma nova concepção de sujeito, formada pela associação dos
indivíduos a modelos de docilização e de produtividade, em uma aproximação a idéia de subjetivação e de
sujeição ao contrário da idéia de racionalidade, atividade ou soberania a natureza e ao conhecimento.
Neste sentido convive-se, diariamente, com padrões, com formas, caracterizadas como verdades absolutas
e que, por fim, são utilizadas como mecanismos de controle e homogeneização.
Percebe-se o quanto necessário é para a aceitação social, que aconteça o encaixe perfeito as formas
predeterminadas, como um grande quebra cabeças. Caso contrário se é sujeito ao sofrer a violência do
julgamento por ser diferente. Assim, por muitas vezes, exige-se negar a própria existência para não ser
arbitrariamente marginalizado.
Propõe-se um deslocamento para a área da Educação. A escola, típico ambiente disciplinar, apresenta
regras e normas a serem cumpridas, devidamente expressas em regimentos, planos de estudos e projetos
pedagógicos. Mas existem outras formas disciplinares que não se encontram nos manuais, como por exemplo:
um olhar diferenciado do professor, uma batida do apagador no quadro, alguns minutos de atraso para o
intervalo, o uso de óculos de sombra em dias de avaliação entre tantas outras formas.
Consideram-se como atitudes, pequenos detalhes, que visam manter o controle sobre os estudantes.
Foucault acredita que os detalhes são os princípios de formação da política de controle e utilização dos
homens, os quais se desenvolvem desde a era clássica:
‗[...] pequenas astúcias dotadas de um grande poder de difusão, arranjos sutis, de
aparência inocente, mas profundamente suspeitos, dispositivos que obedecem a
economias inconfessáveis, ou que procuram coerções sem grandeza, são eles
entretanto que levaram a mutação do regime punitivo, no limiar da época
contemporânea. [...] A disciplina é uma anatomia política do detalhe‘
(FOUCAULT, 2009, p.134).
A atualidade apresenta a transformação deste modelo. De uma sociedade, definida por Foucault como
disciplinar para um modelo de sociedade, identificada por Deleuze (1996) como de controle. Crê-se que o
momento seja de transição de um modelo a outro. Deixando de viver uma forma de encarceramento para uma
espécie de controle aberto e contínuo.
Faz-se oportuno salientar que a sociedade disciplinar não deixou de existir, mas foi expandida para o campo
social de produção. Foucault afirma que a disciplina é interiorizada e exercida, basicamente, por três meios
globais absolutos: o medo, o julgamento e a destruição. Assim as instituições sociais, na atualidade, produzem
indivíduos sociais muito mais moveis e flexíveis que antes.
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A transmissão do conhecimento faz sentido na escola para a sociedade disciplinar, pois nela encontra-se o
estudante que armazena o conhecimento, gravando e decorando, cumprindo com a função de disciplinamento
em relação ao conteúdo, como elemento central.
Por outro lado na sociedade de controle o estudante assume a função de processador da informação, e a
escola deverá ajudá-lo a desenvolver habilidades para a elaboração dos processos cognitivos. O conteúdo não é
mais apropriação da escola, e do professor, mas é acessado facilmente em decorrência do desenvolvimento das
tecnologias e dos sistemas de informação.
A tecnologia permite a comunicação de muitos para muitos. Uma comunicação que promove diferentes
caminhos. Caminhos estes percorridos e criados nem sempre da mesma forma. A rede, a internet e os sistemas
informatizados possibilitam ao estudante consultar materiais muito mais ricos e detalhados do que um simples
livro didático, disponível em um ambiente escolar. Alia-se, também, a oportunidade de percorrer os objetos de
estudo em ritmo próprio por meio de ambientes variados.
Talvez represente uma direção contrária à constituição dos hábitos, ou seja, a possibilidade de transformar
hábitos de pensamento, vinculados ao disciplinamento. Tentar não repetir, na busca de alternativas, para a
criação de novos caminhos.
‗Hábitos que são necessários para incorporar determinadas coisas. O problema é
permanecer neles! Os hábitos são sempre a vida em movimento. A liberdade é
quem cria os hábitos, mas os hábitos podem abafar a liberdade. Agir nunca é
repetir, nem na ação que se prepara nem na ação totalmente preparada. Agir é
produzir diferença!‘ (DELEUZE, 2009, p.135).
Estes fatores aliados à possibilidade de estabelecer redes de cooperação com colegas, amigos, familiares e
etc, por meio de fóruns, trocas e debates ampliam os contatos com muita facilidade. O individual, o singular, em
busca da multiplicidade. A reflexão de Lévy (1999, p.132) para o conceito de universal sem totalidade parece
um paradoxo, mas representa justamente o movimento:
‗Em resumo, o programa da cibercultura é o universal sem totalidade. Universal,
já que a interconexão desse ser não apenas mundial, mas quer também atingir a
compatibilidade ou interoperabilidade generalizada. Universal, pois no limite
ideal do programa da cibercultura qualquer um deve poder acessar de qualquer
lugar as diversas comunidades virtuais e seus produtos‘.
O ciberespaço não representa uma realidade alternativa e sim um funcionamento aproximado às
descontinuidades e multiplicidades do próprio pensamento humano, um sistema rizomático.
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Mas a evolução da internet vai além. Atualmente, existem aplicativos que aproveitam a própria capacidade
da internet para se tornarem melhores conforme são utilizados pelos usuários, fazendo uso da inteligência
coletiva, como por exemplo: blogs, wikis e as redes sociais.
A web 2.0 tem sua base na participação e colaboração, apostando que os usuários tendem a criar conteúdos
ao contrário de apenas consumi-los. Uma visão extremamente diferente do início da web quando só era
possível exercer a leitura de objetos, previamente, disponibilizados.
Para Lévy (1999, p.131) a inteligência coletiva caracteriza-se pela forma de pensamento sustentável por
meio de conexões sociais que se tornam viáveis pela utilização das redes abertas da internet. O autor adverte
quanto aos problemas da inteligência coletiva e como nos constituímos como usuários destes aplicativos.
‗A inteligência coletiva constitui mais um campo de problemas do que uma
solução. Todos reconhecem que o melhor uso que podemos fazer do ciberespaço
é colocar em sinergia os saberes, as imaginações, as energias espirituais
daqueles que estão conectados a ele. Mas em que perspectiva? De acordo com
qual modelo? Trata-se de construir colméias ou formigueiros humanos?
Desejamos que cada rede dê a luz um ―grande animal‖ coletivo? Ou o objetivo é,
ao contrário, valorizar as contribuições pessoais de cada e colocar os recursos
dos grupos a serviço dos indivíduos. A inteligência coletiva é um modo de
coordenação eficaz na qual cada um pode considerar-se como um centro? Ou,
então, desejamos subordinar os indivíduos a um organismo que os ultrapassa? O
coletivo é inteligente e dinâmico, autônomo, emergente, fractal? Ou é definido e
controlado por uma instância que se sobrepõe a ele? Cada um dentre nós se
torna uma espécie de neurônio de um mega-cérebro planetário ou então
desejamos constituir uma multiplicidade de comunidades virtuais nas quais
cérebros nômades se associam para produzir e compartilhar sentido?‘
Lévy aponta a inexistência de um reservatório de conhecimentos e reflete sobre a ausência, no mundo, de
um intelectual sábio capaz de concentrar todo o conhecimento. Neste sentido problematiza que não há
conhecimento pronto, completo e perfeito no reservatório memorial ou enciclopédico de ninguém. Enfatiza que
todas as partes e em cada pessoa concentra-se algum tipo de saber, ou seja, cada pessoa sabe algo e, por vezes,
sabe algo que outro desconhece.
A comunidade virtual, quando convenientemente organizada, torna-se importante quando se considera o
nível de conhecimento distribuído, de capacidade de ação e de cooperação. Lévy (2003) percebe o papel das
comunidades como filtros inteligentes que ajudam a lidar com a quantidade excessiva de informação,
configurando assim um mecanismo que abre visões alternativas a cultura, pois a intermediação cultural
tradicional, sempre filtra demais, sem conhecer os detalhes, situações e necessidades de cada um.
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4. Metodologia
A pesquisa foi realizada numa perspectiva qualitativa a qual busca o aprofundamento da compreensão de
um fenômeno social pelas análises qualitativas da consciência articulada dos atores envolvidos no fenômeno.
Como fonte de informações lançou-se mão de questionário e relatos elaborados pelos acadêmicos
individualmente e em grupo e do diário de campo, companheiro durante o processo.
Tendo na disciplina de Integração Curricular o elo aglutinador, a pesquisa propõe, a partir da
problematização do trabalho articulado entre os docentes da série na construção de estratégias que contribuam
na produção de subjetividades em relação aos conteúdos propostos pelo professor.
Neste ensaio, o recorte concentrar-se-á na análise dos relatos elaborados pelos acadêmicos nos momentos
de diálogo a respeito de suas vivências, sentimentos e experiências em relação ao trabalho, bem como em
algumas questões do questionário.
Fez-se a opção nesta investigação por um processo no qual se busca aprimorar a prática pela oscilação
sistemática entre o agir no campo da prática e o investigar a respeito dela. O planejamento, a implementação, a
descrição e a avaliação propõem uma modificação na prática ocasionando um aprendizado no decorrer do
processo, tanto a respeito da prática quanto da própria investigação.
Neste sentido este ensaio propõe a técnica de pesquisa ensino abordada por Penteado (2010). Nesta
técnica a educação pode ser vista como um processo de comunicação caracterizado pela idéia de ser humano
como ser social o que lhe garante a possibilidade de criar cultura. Assim, a modalidade de metodologia
comunicacional transforma a sala de aula não só em um espaço de ensino, mas de investigação.
A metodologia comunicacional deve: prever a atuação em parceria entre professor e estudantes, colocando
a comunicação como eixo central do objetivo pedagógico; compreender a comunicação escolar como um
processo de comunicação específico e aprender e atuar no coletivo e em coletividade, pois é preciso refletir
sobre a correspondência entre a atuação individual e a atuação coletiva.
Sob este ponto de vista, a validade da pesquisa concentra-se em permitir a análise em termos da
administração reflexiva das opiniões dos acadêmicos em relação a um processo mais abrangente de análise
estrutural.
Como pressupostos básicos, a partir da pesquisa qualitativa aqui proposta, acredita-se: apresentar a
descrição e análise dos dados por meio de uma síntese narrativa buscando a compreensão em contextos social
e culturalmente específicos.
Fez-se um levantamento das informações e reflexão com os acadêmicos. Apresentou-se a proposta de
pesquisa e suas características, bem como, foram explanadas possíveis adequações para que se oportunizasse
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alcançar os resultados no processo e, ainda, fez-se um forte apelo ao diálogo com discussões sobre o
desenvolvimento do trabalho.
5. Reflexão e Análise
Partiu-se de uma reflexão junto à turma a cerca da importância e significado do trabalho, para além da
obrigatoriedade acadêmica. Aprovada, com entusiasmo, a proposta evidenciou uma inquietação: saberemos
desempenhar um papel de estudante que não o de receptor de conteúdos? Tratou-se de encorajar os
acadêmicos, mostrando que o trabalho é uma proposta cooperativa, uma busca de todos, inclusive do
professor. Mas, quem encoraja o professor que também se questiona: saberei desempenhar o papel de
educador que não o de transmissor de conteúdos?
O grande obstáculo a ser transposto foi vencer a forma disciplinar a qual os acadêmicos estão,
tradicionalmente, inseridos. No questionário aplicado a primeira questão era, justamente, se os acadêmicos já
tinham alguma experiência com a atividade de integração curricular em suas trajetórias de ensino aprendizagem. A maioria respondeu nunca ter contato com atividade semelhante. Alguns poucos responderam
ter trabalhado por projetos no ensino médio ou técnico e uma pequena minoria ainda fez alusão às feiras de
ciências escolares.
Percebe-se a especialização do saber presente nos currículos independente do nível. Acredita-se que esta
especialização leve a fragmentação do conhecimento. Ainda pela argumentação de alguns acadêmicos quanto à
questão percebe-se que à estratégia de compartimentalização da informação configura um dispositivo
disciplinar.
Na sequência os acadêmicos foram questionados em relação a possíveis recursos tecnológicos a serem
utilizados na elaboração dos materiais a serem integrados. A grande maioria dos acadêmicos apontou a
utilização/elaboração de páginas eletrônicas, sítios eletrônicos, tanto estáticos como dinâmicos. Fortes
manifestações em relação ao uso da ferramenta AVA (Ambiente Virtual de Aprendizagem) MOODLE (Modular
Object-Oriented Dynamic Learning Environment).
Somente alguns poucos acadêmicos demonstraram o interesse pela utilização de um blog. Após uma
discussão rápida constatou-se que estes não apreciam as redes sociais para trabalhos acadêmicos. Em sua
maioria acreditam que trabalhos ditos sérios devam ser elaborados por páginas web. Salienta-se aqui que a
própria tecnologia está vinculada a questão da transmissão do conhecimento.
A opção pelo MOODLE chama a atenção porque os docentes, envolvidos na série, utilizam a ferramenta em
suas disciplinas. Aqui faz-se oportuno um momento de intervenção, no intuito de estabelecer com os
acadêmicos uma reflexão no sentido de descobrirem-se como produtores de cultura, atuando como sujeitos e
não como meros objetos da aprendizagem.
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Nesta intervenção vislumbrou-se uma heterogeneidade de processos, individuais ou coletivos, que estão em
constante movimento de construção e desconstrução. Neste sentido questionou-se o uso do MOODLE como
repositório de informações e, de forma fatalística, ouviu-se dos acadêmicos a necessidade que, mesmo
digitalizado de diferentes maneiras, o conteúdo programático deve ser disponibilizado pelo professor na sua
totalidade.
Outra questão abordada foi sobre a possibilidade de integrar os conteúdos específicos de uma disciplina por
meio de exemplos e exercícios de outra. Responderam, em sua maioria, positivamente. Entre alguns relatos:
‘A integração das disciplinas possibilita um aprendizado de maior qualidade;pois
tem disciplinas que se interligam umas com as outras e
precisamos abordar o conteúdo de forma interdisciplinar’.
Percebe-se o engajamento dos acadêmicos a proposta observando que os mesmos começam a refletir
sobre a necessidade de integração entre as disciplinas. Observa-se que estes passam a fazer uma reflexão sobre
os conceitos disciplinares, até então, criados como verdades absolutas.
Faz-se aqui a seguinte observação: os acadêmicos rejeitam a transmissão do conhecimento como forma do
ensinar a aprender, mas, ao mesmo tempo, exigem o conhecimento pronto e elaborado em sua totalidade para
cada disciplina.
O próximo questionamento versa sobre como o acadêmico se sente diante da proposta da atividade de
integração curricular. Seguem alguns relatos:
‘É uma proposta muito boa, mas muito difícil. Pois faz com que entramos na
matéria escolhida. Mas faz com que aprendamos também. Está sendo
complicado, mas até o final do ano conseguiremos superar esta etapa. Essa roda
com conversas na aula é muito bacana e me sinto bem, porém, com ressalvas
acerca do andamento do trabalho em grupo’.
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Aqui se caracteriza um paradoxo desafiador. Ao mesmo tempo em que o acadêmico acredita na proposta e
satisfaz-se com os desafios, possui um sentimento de incerteza quanto ao futuro da proposta e atividade de seu
grupo. Ansioso por ser levado ao desafio de trabalhar de forma diferente o medo cresce na mesma proporção.
O desafiador, o novo e o diferente causam estranheza ao ser. São reflexões que levam a transformação,
pois no caso contrário se estará repetindo algo e acredita-se que na repetição não se faça a ansiedade.
Outra fonte de análise são os encaminhamentos referentes à liberdade. Liberdade que gera a interação.
Neste sentido alguns relatos apontam tais reflexões:
‘Esta disciplina tem um objetivo muito mais amplo do que é visto. Nos fornece
através do professor, cito André, porque, talvez, outro não deixe e não dê a
liberdade para interagirmos como acontece; me sinto bem pela liberdade dada
para as escolhas a serem seguidas perante a proposta de Atividade de Integração
Curricular, no início fiquei sem idéias e com os pensamentos perdidos. Agora com
o passar do tempo as coisas estão começando a se encaixar. Aos poucos
conseguirei entrar na proposta da disciplina e acho a proposta interessante, pois
desta forma poderemos saber como pode ser integrada uma disciplina com a
outra. Mas vejo que estamos todos perdidos, pois não sabemos por onde
começar e o trabalho não está avançando’.
A liberdade associada à segurança são sentimentos presentes. A incerteza também se faz presente neste
momento. Questiona-se o quanto estes encaminhamentos podem reverter em um trabalho de qualidade. Os
acadêmicos esperam do professor estes pressupostos. Mas a proposta é, justamente, criação de um espaço de
exercício para o novo, para o diferente.
Pensa-se que o sujeito contemporâneo, não mais domesticado, encontre cada vez menos limites
institucionais ou regras de verdade estabelecidas. Um novo indivíduo sujeito às incertezas e a insegurança com
relação ao mundo e a si mesmo.
Uma nova lógica de poder promovendo o fim das certezas, das verdades absolutas, enfim, da centralidade
do sujeito. Mas para o acadêmico, talvez, isto passe a ser um problema em função das expectativas que
deposita no professor, aquele que domina o conhecimento, o todo.
Em relação à produção de recursos tecnológicos apresenta-se a lista dos grupos, respectivas disciplinas e
ferramentas computacionais implementadas e/ou elaboradas:
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 Grupos 1 e 6 – Introdução a Ciência da Computação – Sítio eletrônico (Figura 1);
 Grupos 2 e 4 – Sistemas para Internet – Sítio implementado utilizando a ferramenta JOOMLA (Sistema
de Gestão de Conteúdos) – figura não disponível;
 Grupo 3 - Sistemas para Internet – Google Sites (Figura 2);
 Grupo 5 – Sistemas para Internet – Blog (Figura 3);
 Grupo 7 - Matemática Discreta – Sítio eletrônico (Figura 4);
 Grupo 8 - Inglês – Blog (Figura 5) e
 Grupo 9 - Cálculo Diferencial e Integral – Exercícios (Arquivo PDF).
Percebe-se a grande dificuldade na exploração de novas ferramentas e tecnologias para finalização dos
materiais. Foram elaborados dois trabalhos a partir da utilização de sítios eletrônicos, mais conhecidos como
páginas, somado a um terceiro que utilizou uma nova ferramenta de gestão de conteúdos, não sendo finalizado
em sua totalidade.
Dois grupos utilizaram blogs somado a um terceiro que utilizou a ferramenta Google sites. Destes todos
concluíram as atividades com um retorno satisfatório em função de poderem dedicar-se mais a elaboração dos
conteúdos do que propriamente da construção e configuração do sistema.
Cabe salientar a grande dificuldade dos acadêmicos em associar conteúdos programáticos ditos sérios a
ferramentas para internet, redes sociais entre outras. As redes sociais são consideradas tecnologias para
contatos, brincadeiras e discussões não imaginadas, pelos mesmos, como veículos para disponibilização de
conteúdos programáticos.
Os acadêmicos demonstram-se seguros quando possuem um repositório de informações dito completo.
Afirmam que o conteúdo programático deve ser disponibilizado pelo professor na sua totalidade.
Verifica-se que para os acadêmicos o professor é um grande repositório, especializado em uma disciplina,
tendo a função de possibilitar o acesso às informações ali contidas, sendo este responsável pela experiência
pedagógica, como agente de transmissão do conhecimento.
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Muitos outros questionamentos foram elaborados e discutidos durante a pesquisa, como a questão do
processo de avaliação dos acadêmicos e a inquietação sobre as trocas e articulações de experiências com
professores das outras disciplinas. Apresentou-se aqui, resumidamente, um fragmento do estágio de análise dos
dados.
6. Considerações Finais
Durante a análise dos dados surgiram algumas questões norteadoras de reflexões:
 a forma de trabalho em grupos bem como a livre escolha das disciplinas foi apontado pelos
acadêmicos como uma boa metodologia de trabalho, ao que pode-se inferir que os acadêmicos
mostraram-se incentivados pela liberdade de escolha;
 dúvidas, por parte dos acadêmicos, de como elaborar/implementar os trabalhos de integração em se
tratando que os mesmos acusaram advir de uma educação tradicional disciplinar;
 implementação/elaboração das propostas em sítios eletrônicos e blogs. Surpresa no sentido de que
nenhum dos grupos utilizou a ferramenta moodle. As redes sociais mesmo utilizadas pelos alunos em
suas atividades não foram exploradas para fins de integração acadêmica.
Observa-se o quão necessário é aprender, pois se vive tempos de incertezas, onde sentimento e razão
movimentam-se permanentemente. Acredita-se que os acadêmicos estejam retratando, em seus relatos, estas
sensações, na tentativa de aprenderem novas maneiras de posicionarem-se frente ao mundo, revendo,
constantemente valores e modos de ser.
Por fim, acredita-se oportuno contrapor parte das hipóteses. Mesmo identificando que os acadêmicos
apresentam experiências de atividades de ensino conservador e tradicional, mesmo verificando que o sistema
educacional, em grande parte, é baseado em princípios de racionalidade instrumental, pode-se perceber que os
mesmos apresentam um apelo à introdução de uma nova ordem intuitiva e relacional, principalmente, no que
tange a utilização de tecnologias, pois estas criam conexões e redes de comunicação importantes na
qualificação dos acadêmicos.
7. Referências Bibliográficas
Deleuze, G. (1996). Conversaciones. 2a ed. Valência: Editora Pré-textos.
_________. (2009). Diferença e repetição. 2a ed. Rio de Janeiro: Graal.
423
Foucault, M. (2009). Vigiar e Punir. 36a ed. Petrópolis: Editora Vozes.
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– Revista de Ciências da Educação. n. 7, p. 141-150, set./dez.
424
8. ANEXOS
Figura 1 Sítio eletrônico
Figura 2 Google sites
425
Figura 3 Blog
Figura 4 Sítio Eletrônico
426
Figura 5 Blog
427
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A PRODUÇÃO DE RECURSOS TECNOLÓGICOS NA ATIVIDADE DE INTEGRAÇÃO