Mecânica Aplicada Engenharia Biomédica Apontamentos Parte 2 - CINEMÁTICA Versão 0.2 Dezembro de 2003 J.A.C. Martins I.S.T., Dep. Eng. Civil e Arquitectura, Gab. 4.11 [email protected] Sumário: 1. CINEMÁTICA DAS PARTÍCULAS. 2. REFERENCIAIS MÓVEIS, MUDANÇAS DE REFERENCIAL E MOVIMENTO RELATIVO. 3. CINEMÁTICA DOS CORPOS RÍGIDOS. 1. CINEMÁTICA DAS PARTÍCULAS Como se referiu na secção de introdução, os movimentos das partículas podem ser descritos em relação a referenciais que, por simplicidade, se consideram neste curso ser sempre ortonormados e directos. Para a descrição do movimento das partículas, a escolha do referencial utilizado é arbitrária dado que, conhecido o movimento de uma partícula em relação a um certo referencial, é sempre possível determinar o movimento da mesma partícula em relação a outro referencial. Assim, a posição de uma partícula P relativamente à origem F de um referencial é dada pelo vector de posição (ver Figura 1.1) → → x = FP. (1.1) Figura 1.1. Trajectória, posição e velocidade de uma partícula → Se a partícula estiver em movimento, o vector de posição x varia no tempo, descrevendo a sua extremidade P uma trajectória. Define-se velocidade da partícula (em relação ao referencial considerado) como a taxa de variação no tempo do vector de posição, → dx v = dt , → (1.2) que é também uma grandeza vectorial e que é tangente à trajectória descrita pela partícula (Figura 1.1). A derivada da velocidade em ordem ao tempo, isto é, a segunda derivada em ordem ao tempo do vector de posição, designa-se por aceleração da partícula (relativamente ao referencial considerado), → → d v d2 x a = dt = dt2 , → (1.3) a qual, como as duas grandezas anteriormente definidas (posição e velocidade), também é uma grandeza vectorial. Na secção de introdução referiu-se também que os referenciais em que as leis do movimento têm a forma mais simples são os referenciais de inércia e que, nos problemas tratados neste curso e nos problemas de mecânica clássica em Engenharia Biomédica, o erro resultante de se considerar que um referencial ligado à Terra é um referencial de inércia é desprezável para o grau de precisão requerido. Por simplicidade de linguagem, designar-se-á →F →F →F um tal referencial por referencial "fixo", o referencial (F, e 1 , e 2 , e 3 ) da Figura 1.1. 1.1 Movimento rectilíneo: integração das equações da cinemática Nesta secção descrevem-se alguns casos típicos de integração das equações da Cinemática. Esta questão é relevante porque, como é sabido, a entidade cinemática que intervém na lei de Newton é a aceleração, que é a segunda derivada da posição em relação ao tempo. Assim, se as forças que actuam na partícula forem conhecidas, a aceleração obtém-se dividindo a soma das forças que actuam na partícula pela massa da mesma: Σ → F a= m . → Então, para conhecer todas as características do movimento produzido pelas forças (a evolução no tempo da velocidade e da posição da partícula) há que proceder à integração no tempo das equações diferenciais cinemáticas em (1.3). A dificuldade dessas integrações depende muito da natureza das forças, isto é, da forma como essas forças (e consequentemente a aceleração) dependem do tempo, da posição ou da velocidade da partícula. No que se segue consideraremos o caso do movimento rectilíneo, em que x é a variável que define a posição ao longo da recta a partir de um dado ponto da mesma. Os escalares que representam a aceleração e a velocidade são, respectivamente, dv a = dt , dx v = dt . (1.4) (1.5) Consideraremos sucessivamente, os casos de a aceleração a ser função do tempo t, da posição x, ou da velocidade v. Obviamente que, destes casos, o que tem uma resolução mais elementar é o primeiro, uma vez que nesse caso basta proceder, sucessivamente, à integração no tempo de (1.4) e de (1.5): (i) Caso de a = a(t). Integrando (1.4) relativamente ao tempo entre t = 0 e o instante genérico t obtém-se t t dv a(t) dt = ⌠ dt (t) dt = v(t) − v(0). ⌠ ⌡ ⌡ 0 0 Conhecida a velocidade inicial v(0) = v0, a variação da velocidade v no tempo vem: t v = v(t) = v0 + ⌠ a(t) dt. (1.6) ⌡ 0 Conhecida a posição inicial x(0) = x0 e integrando (1.5) relativamente ao tempo, entre t = 0 e o instante genérico t, obtém-se de forma análoga, a dependência temporal da posição x: t x = x(t) = x0 + ⌠ v(t) dt, ⌡ 0 (1.7) (ii) (*) Caso de a = a(x). Neste caso, de (1.4), da regra de derivação de funções compostas, v = v(x(t)), e de (1.5) obtém-se dv dv dx dv a = dt = dx dt = dx v. Separando então as variáveis (x no membro da esquerda, v no membro da direita) vem a(x) dx = v dv, (1.8) que, por integração entre os valores no instante inicial (x0, v0) e os valores (x, v) num instante genérico, conduz a 2 x v v2 v0 a(x) dx = v dv = − ⌠ ⌠ 2 2 , ⌡ ⌡ x0 v0 que por sua vez dá a dependência da velocidade v relativamente à posição, v = v(x): x 2 v2 = v2(x) = v0 + 2 ⌠ a(x) dx. (1.9) ⌡ x0 Separando então as variáveis em (1.5) (t no membro da esquerda e x no membro da direita), dx dt = v(x) , (1.10) e integrando entre o instante inicial (t = 0, x = x0) e um instante genérico (t, x) obtémse t x dx t = ⌠ dt = ⌠ v(x) ≡ A(x), ⌡ ⌡ 0 x0 Esta expressão permite determinar a dependência de x em relação a t: (1.11) x = x(t) = A−1(t), (1.12) em que A−1 é a função inversa da função A obtida em (1.11). (iii) (*) Caso de a = a(v). Uma vez que, tal como anteriormente, se tem a = dv/dt e a = dv/dx v, é possível neste caso começar por proceder a uma das duas separações de variáveis seguintes: dv dt = a(v) , (1.13) v dv dx = a(v) . (1.14) Optando pela integração de (1.13), resulta t v dv t = ⌠ dt = ⌠ a(v) ≡ B(v), ⌡ ⌡ 0 v0 (1.15) que caracteriza a variação da velocidade (v) no tempo (t): v = v(t) = B−1(t), (1.16) em que B−1 é a função inversa da função B obtida em (1.15). Com este resultado, procede-se então à integração no tempo de (1.5), que conduz a x = x(t), exactamente como em (1.7) do caso (i). Se, alternativamente, se optar por começar por integrar (1.14) obtém-se v v dv x x = x0 + ⌠ dx = x0 + ⌠ a(v) = C(v), ⌡ ⌡ x0 v0 (1.17) que caracteriza a var:iação de v relativamente a x: v = v(x) = C−1(x), (1.18) em que C−1 é a função inversa da função C obtida em (1.17). Obtido este resultado, utiliza-se então precisamente a separação de variáveis (1.10) e a integração (1.11) da segunda integração do caso (ii), para se obter x = x(t). Exemplo E.1.1. (*) Oscilador linear. Uma partícula de massa m = 4 kg, ligada a uma mola de comportamento elástico linear com constante de rigidez K desconhecida, é libertada com velocidade 5 cm/s na configuração de equilíbrio, em que o alongamento é nulo. Sabendo que a velocidade da partícula se anula quando o alongamento da mola é de 1 cm, determine a rigidez K. Figura E.1.1 Resolução A única força que actua na partícula é a força de restituição elástica da mola que é proporcional e oposta ao alongamento da mola. Pela lei de Newton, a equação do movimento deste sistema tem a forma −Kx=ma pelo que K a = a(x) = − m x, que se insere no Caso (ii) acima. Então a separação de variáveis (1.8) e a integração entre os valores no instante inicial (x0 = 0 cm, v0 = 5 cm/s) e os valores no instante em que a velocidade se anula (x1 = 1 cm, v1 = 0 cm/s) conduz a K x1 K x2 x1 − m ⌠ x dx = − m 2 ⌡ x 0 x0 2 2 2 K x1 K x1 x0 =−m 2 − 2 =−m 2 v1 v dv = ⌠ ⌡ v0 2 2 2 2 v0 v v1 v1 v0 2 = 2 − 2 = − 2 v 0 Igualando os dois últimos resultados obtém-se: 2 v0 K = m x = 4 × 52 = 100 kg s−2 = 100 N m−1 1 Exemplo E.1.2. (*) Amortecedor linear Uma partícula de massa m = 4 kg, ligada a um amortecedor de comportamento linear com constante de amortecimento C, é libertada com velocidade v0 na configuração x0 = 0. Determinar: a) a evolução da velocidade com o tempo; b) a evolução do espaço percorrido com o tempo; c) a relação entre a velocidade e o espaço percorrido. Figura E.1.2 Resolução a) A única força que actua na partícula é a força do amortecedor, que é proporcional e oposta à velocidade da partícula. Pela lei de Newton, a equação do movimento deste sistema tem a forma −Cv=ma pelo que C a = a(v) = − m v, (E.1.2.a) que se insere no Caso (iii) acima. Dado que se deseja determinar em primeiro lugar a variação de v com t, optamos pela integração de (1.12), que neste exemplo é: t v dv m v dv m m v t = ⌠ dt = ⌠ C = − C ⌠ v = − C [ln v] vv = − C ln v . ⌡ ⌡ ⌡ 0 0 −mv v0 0 v0 Assim [ver Figura E.1.2 (a)] a velocidade decresce exponencialmente de acordo com a lei: C v(t) = v0 exp − m t. (E.1.2.b) b) A integração no tempo de (E.1.2.b) entre t = 0 e um instante genérico t é imediata: t t m v0 C C t m v0 C x(t) = ⌠ v(t) dt = v0 ⌠ exp − m t dt = − C exp − m t = C 1 − exp − m t. 0 ⌡ ⌡ 0 0 Esta solução mostra que a trajectória se aproxima assimptoticamente do valor mv0/C [ver Figura E.1.2 (b)]. Figura E.1.2 (a) Figura E.1.2 (b) c) O resultado desejado resulta directamente da integração (1.17) atendendo a (E.1.2.a): x v v dv m v m x = ⌠dx = ⌠ C = − C ⌠dv = − C (v − v0), ⌡ ⌡ ⌡ − v v0 0 v0 m pelo que a velocidade depende linearmente de x [ver Figura E.1.2 (c)] C v(x) = v0 − m x. Note-se que x se aproxima de mv0/C e v de 0 quando t → ∞: o ponto (mv0/C, 0) na Figura E.1.2 (c) só é atingido após um intervalo de tempo infinito. Figura E.1.2 (c) Exemplo E.1.3. Dois corpos A e B estão unidos por um fio inextensível que passa por três roldanas C, D e E, como se mostra na Figura E.1.3. As roldanas C e E são fixas e a roldana D desce com uma velocidade constante de 3 m/s. Num certo instante o bloco A começa a descer com velocidade nula a partir da posição A0, atingindo a posição A1, 8 m abaixo, com uma velocidade de 12 m/s. Para o instante em que o bloco A passa por A1, determinar, para o bloco B: (a) a variação da altura, (b) a velocidade, (c) a aceleração. Resolução Designando por sA o comprimento de cabo entre a roldana C e o bloco A, por sB o comprimento de cabo entre a roldana E e o bloco B, e por sD, o comprimento de cabo entre as roldanas C ou E e a roldana D, a inextensibilidade do cabo traduz-se por sA + sB + 2 sD = constante, (E.1.3.a) o que implica que as variações de comprimento das várias partes, bem como as suas primeiras e segundas derivadas em ordem ao tempo satisfaçam Figura E.1.3 ∆sA + ∆sB + 2 ∆sD = 0, ṡA + ṡB + 2 ṡD = 0, ˙˙ s A + ˙˙ s B + 2 ˙˙ s D = 0. (E.1.3.b) (E.1.3.c) (E.1.3.d) A informação disponível é a de que ∆sA = 8 m, ṡA0 = 0, ṡA1 = 12 m/s, ˙˙ s A = constante, ṡD = 3 ˙˙ m/s, s D = 0. Para obter os resultados (a), (b) e (c) observe-se que: (a) De (E.1.3.b) e do conhecimento de ∆sA resulta que, para determinar ∆sB, é preciso calcular primeiro ∆sD, o que, por sua vez, como a velocidade da roldana D é constante, requer o conhecimento do intervalo de tempo durante o qual o corpo A passou de A0 para A1. (b) De (E.1.3.c) e do conhecimento do valor constante de ṡD e do valor de ṡA1 é possível determinar de imediato o valor de ṡB1. (c) De (E.1.3.d), do conhecimento de que ˙˙ s D = 0 e de que ˙˙ s A é constante, resulta que ˙˙ sB também é constante e que a sua determinação depende apenas da determinação prévia do valor de ˙˙ s A. Começando pelo resultado mais simples (b), a aplicação de (E.1.3.c) conduz a ṡB1 = − ṡA1 − 2 ṡD = − 12 − 2 × 3 = − 18 m/s. Resolvendo seguidamente (c), fazendo uso de (1.9), obtém-se: sA1 (ṡA1)2 = (ṡA0)2 + 2 ˙˙ s A ⌠ ds = 2 ˙˙ s A ∆sA. ⌡ sA0 Logo (ṡA1)2 122 ˙˙ sA = = = 9 m/s2 2 ∆sA 2 × 8 e, de (E.1.3.d), ˙˙ s B = − 9 m/s2. Para finalmente resolver a alínea (a), note-se que a aceleração de A e a velocidade de D, ambas constantes, permitem calcular: ṡA1 − ṡA0 12 4 = 9 = 3 s, ˙˙ sA 4 ∆sD = ṡD ∆t = 3 × 3 = 4 m, ∆t = pelo que, de (E.1.3.b): ∆sB = − ∆sA − 2 ∆sD = − 8 − 2 × 4 = −16 m. 1.1. Movimento curvilíneo: componentes normal e tangencial, radial e transversal. → → Componentes normal e tangencial. Considere-se a trajectória x = x (t) de uma partícula com movimento plano (Figura 1.2). A curva descrita no plano pela partícula está parametrizada pela variável tempo. A velocidade da partícula é a derivada da posição da partícula em ordem ao tempo, definida matematicamente pelo limite → → v (t) = lim ∆t → 0 → x (t + ∆t) − x (t) ∆t que, se for diferente de zero, é tangente à trajectória cujo versor unitário se pode calcular por → v . (1.19) |v | A trajectória também pode ser parametrizada por uma variável s = s(t) que representa o comprimento de arco percorrido ao longo da trajectória: → et def t → s(t) = ⌠ |v (τ)| dτ, ⌡ 0 pelo que = → def ds → (t) = |v (t)| = v(t), dt (1.20) Figura 1.2 Trajectória curvilínea plana. Versores normal e tangencial. ds → → → → v = |v | e t = v e t = dt e t . → (1.21) A interpretação desta equação é a de que o vector velocidade é tangente à trajectória e tem módulo igual à taxa de variação em ordem ao tempo do comprimento de arco percorrido ao longo da trajectória. Para determinarmos a aceleração da partícula temos de derivar a expressão anterior em ordem ao tempo: → → d v d2s → ds d e t a = dt = dt2 e t + dt dt . → (1.22) → A derivada d e t/dt pode ser calculada por → → d e t d e t ds dt = ds dt (1.23) e, por definição, → → → → det e t(s + ∆s) − e t(s) ∆et = lim . ds = ∆slim ∆s →0 ∆s → 0 ∆s Pela Figura 1.3 observa-se que ∆θ ∆θ → ∆θ → → ∆ e t = 2 sen 2 − sen 2 e t + cos 2 e n, Figura 1.3 Variação dos versores normal e tangente ao longo da trajectória e, dividindo pelo comprimento de arco ∆s, ∆θ sen 2 ∆θ → ∆θ → − sen 2 e t + cos 2 e n, = ∆s ∆s 2 → ∆et (1.24) → em que, admitindo que a trajectória náo é recta na vizinhança do ponto considerado, e n é o vector unitário que existe no plano do movimento, é perpendicular à trajectória e aponta para a concavidade da mesma. Atendendo então a que ∆θ ∆θ lim sen 2 = 0, lim cos 2 = 1, ∆θ → 0 ∆θ → 0 ∆θ sen 2 ∆θ def 1 lim = lim = , ∆s ρ ∆s → 0 ∆s ∆s → 0 2 (1.25) (1.26) em que 1/ρ é a curvatura e ρ o raio de curvatura da trajectória no ponto considerado, obtémse → det 1 → ds = ρ e n . (1.27) O ponto C (ver Figura 1.2) situado sobre a linha perpendicular à trajectória em P, à distância ρ do ponto P, do lado da concavidade da trajectória, designa-se por centro de curvatura da trajectória no ponto P. Por outro lado, podemos definir o escalar (módulo da) velocidade angular do movimento de rotação da partícula em torno de C, que se relaciona com a velocidade linear e a curvatura por def ∆s ∆θ ∆θ = lim lim ∆t → 0 ∆t ∆s→ 0 ∆s ∆t → 0 ∆t v ω= . ω = lim ρ (1.28) (1.29) Coligindo os resultados (1.19), (1.20), (1.24), (1.17) e (1.26) vem, finalmente d2s → 1 ds2 → a = dt2 e t + dt e n ρ dv → v2 → = dt e t + e n ρ dv → → = dt e t + ω2ρ e n . → (1.30) A aceleração de uma partícula com movimento curvilíneo tem pois duas parcelas: uma parcela tangente à trajectória, igual à segunda derivada em ordem ao tempo do comprimento de arco percorrido ao longo da trajectória (derivada do módulo da velocidade em ordem ao tempo) e uma parcela normal, dirigida para o centro de curvatura, que se designa por aceleração centrípeta e que é tanto maior quanto for a velocidade v da partícula e a curvatura (1/ρ) da sua trajectória. É muito importante observar que a definição em (1.26) de curvatura num ponto de uma trajectória curva, 1/ρ = lim∆s→0 (∆θ/∆s) = dθ/ds generaliza, para pontos de trajectórias não necessariamente circulares, a bem conhecida relação ds = ρ dθ, entre o comprimento de arco elementar, o raio de curvatura e o ângulo ao centro elementar. Consequentemente, a validade da relação entre velocidade linear, velocidade angular e raio de curvatura, v = ω ρ, bem conhecida dos movimentos circulares, é também estendida a pontos de outras trajectórias curvas. Exemplo E.1.4 Um pino P move-se ao longo das ranhuras de dois cursores A e B, que por sua vez se deslocam ao longo de duas calhas, uma horizontal e outra vertical, respectivamente (ver Figura E.1.4). No instante representado na figura, o cursor A tem velocidade para a direita de 0.2 m/s que decresce à taxa de 0.75 m/s em cada segundo. No mesmo instante o cursor B move-se para baixo com uma velocidade de 0.15 m/s que decresce à taxa de 0.5 m/s em cada segundo. No instante considerado, determine o raio de curvatura da trajectória seguida por P e localize o respectivo centro de curvatura. P B A Figura E.1.4 Exemplo E.1.5. Um lançador de peso lançou o peso a uma distância na horizontal de 6 m. Sabendo que a altura do chão a que o peso foi lançado foi de 1.8 m e que o ângulo α0 da direcção de lançamento com a horizontal foi de 30º, determinar a velocidade inicial v0 do peso. Indicar, justificando cabalmente, qual o é ponto da trajectória do peso com a máxima curvatura. Figura E.1.5 Resolução. Uma vez que a aceleração da gravidade é vertical, o movimento do peso na horizontal é um movimento uniforme com velocidade constante igual à componente horizontal v0 cos α0 da velocidade inicial. Designando por t1 o instante (desconhecido) em que o peso atinge o chão e por x1 = 6 m o espaço percorrido na horizontal a partir de x0 = 0, tem-se: x1 = x0 + (v0 cos α0) t1 = (v0 cos α0) t1 (E.1.5.a) Por outro lado, designando por y0 = 1.8 m a altura inicial do peso, o movimento na vertical tem aceleração para baixo constante g, velocidade inicial v0 sen α0 e atinge a altura do chão y1 = 0 no instante t1: 1 2 0 = y1 = y0 + (v0 sen α0) t1 − 2 g t1. (E.1.5.b) As equações (E.1.5.a) e (E.1.5.b) constituem um sistema de duas equações com duas incógnitas, t1 e v0. Começamos por obter t1 em (E.1.5.a) t1 = x1 v0 cos α0 que substituimos em (E.1.5.b): 2 0 = y0 + (v0 sen α0) x1 1 x1 −2g v0 cos α0 v0 cos α0 pelo que: v0 = x1 cos α0 g . 2 (y0 + x1 tg α0) Substituindo os dados numéricos nesta expressão obtém-se o resultado: 6 v0 = cos30 9.81 2 (1.8 + 6 tg30) = 6.69 m/s. No que respeita ao ponto da trajectória com maior curvatura (1/ρ), esse ponto é aquele onde o raio de curvatura (ρ) é mínimo. Uma vez que a aceleração centrípeta é dada por an = v2/ρ, um mínimo de ρ = v2/an é atingido num ponto da trajectória se, nesse ponto se tiver simultaneamente um mínimo da velocidade e um máximo da aceleração centrípeta. Ora, uma vez que na horizontal o movimento é uniforme (vx = v0 cos α0), o quadrado da velocidade da 2 partícula é dado, pelo teorema de Pitágoras, por v2 = (v0 cos α0)2 + vy , que é sempre maior ou igual a (v0 cos α0)2 e só se reduz a esse valor quando vy = 0, isto é, no ponto mais alto da trajectória em que a velocidade é horizontal. Por outro lado, em todo a trajectória do peso, o → → vector aceleração é constante e igual à aceleração da gravidade a = − g e y. É este vector constante que em qualquer ponto da trajectória se decompõe nas parcelas tangencial e normal. A parcela normal (centrípeta) é máxima e igual à aceleração da gravidade se tiver a direcção e sentido desta, o que só acontece no ponto mais alto da trajectória. Pelas duas razões indicadas, o ponto da trajectória com maior curvatura é o ponto mais alto da trajectória. Componentes radial e transversal. Considere-se uma partícula que se move no plano e que, para descrever o seu movimento, se utilizam coordenadas polares (ver Figura 1.4): uma coordenada radial r que é o módulo do vector de posição da partícula no referencial "fixo" e uma coordenada transversal que é o ângulo θ formado pelo vector de posição da partícula com o eixo das abcissas do referencial "fixo". O vector de posição da partícula escreve-se assim: → → x = r e r. (1.31) Figura 1.4 Coordenadas polares, versores radial e transversal e sua variação → → → É importante notar que o versor radial e r e o versor transversal e θ (ortogonal a e r e com → → sentido correspondente a θ crescente) dependem apenas da coordenada θ : ∂ e r/∂r = ∂ e θ/∂r = → 0 . Então, a velocidade de uma partícula calcula-se por: → → → d x dr → der der → v = dt = dt e r + r dt = ṙ e r + r θ̇ . dθ → De modo análogo a (1.24) tem-se ∆θ sen 2 ∆θ → ∆θ → − sen 2 e r + cos 2 e θ = ∆θ ∆θ 2 → ∆er e, devido a (1.25), (1.32) → der → = eθ . dθ (1.33) Uma demonstração semelhante conduziria, por outro lado, a → deθ → = − er . dθ (1.34) A velocidade da partícula em coordenadas polares vale pois: → → → v = ṙ e r + rθ̇ e θ . (1.35) A correspondente expressão da aceleração obtém-se derivando esta última expressão em ordem ao tempo: → → der deθ → → a = ˙˙ r + ṙ θ̇ + ṙ θ̇ e θ + r˙˙ θ e θ + rθ̇ θ̇ dθ dθ → → → → → = ˙˙ r e r + ṙ θ̇ e θ + ṙ θ̇ e θ + r˙˙ θ e θ − rθ̇ 2 e r. → → er → → → a = (˙˙ r − r θ̇ 2) e r + (r˙˙ θ + 2ṙθ̇ ) e θ. → (1.36) → Observe-se que as expressões particulares de v e a para os movimentos rectilíneo (ao longo de um raio) ou circular (em torno da origem do referencial fixo, r = constante) são as esperadas: − − → → movimento rectilíneo radial: v = ṙ e r , → → movimento circular: v = rθ̇ e θ , → → a = ˙˙ r e r; → → 2→ a = − r θ̇ e r + r˙˙ θ eθ (centrípeta) (tangente) Exemplo E.1.6. Uma bomba centrifugadora com veios radiais (ver Figura E.1.6) roda a velocidade angular constante θ̇ = K. Considere-se um elemento do fluido bombeado como uma partícula que é introduzida sem velocidade radial no instante inicial t = 0, numa posição em que o raio é r0 e o ângulo θ0 é nulo. A partícula move-se para fora sem atrito ao longo de um veio. Uma vez que na partícula não actua qualquer força na direcção radial a sua aceleração nessa direcção é nula. Nestas circunstâncias determine (em coordenadas polares) a trajectória descrita pela partícula desde a entrada na bomba até à sua saída. Resolução A ausência de forças de atrito na direcção radial implica, pela lei de Newton, que a aceleração radial seja nula: ar = ˙˙ r − r θ̇ 2 = 0, isto é, ˙˙ r = K2 r. (E.1.6.a) Esta equação exige que as suas soluções sejam funções do mesmo tipo do das suas segundas derivadas. A função exponencial é uma boa candidata para o efeito. Substituindo em (E.1.6.a) Figura E.1.6 r(t) = A eΛt , (E.1.6.b) com A e Λ constantes a determinar, obtém-se a equação (Λ2 – K2) A = 0. Para que a solução não seja trivial (A ≠ 0), tem-se necessariamente Λ = ± K. (E.1.6.c) A solução geral de (E.1.6.a) é então uma combinação linear de dois termos da forma (E.1.6.b) com Λ igual aos valores em (E.1.6.c): r(t) = A eKt + B e−Kt. (E.1.6.d) As constantes A e B determinam-se pelas condições iniciais: r(0) = r0, ṙ(0) = 0. (E.1.6.e) Uma vez que ṙ(t) = AK eKt − BK e−Kt, a substituição em (E.1.6.e) conduz a r0 = A + B, 0 = A – B, isto é, r0 A=B= 2 e eKt + e−Kt r(t) = r0 = r0 ch(Kt). 2 (E.1.6.f) Como, por outro lado, a partícula de fluido acompanha o movimento de um dos veios da bomba, que tem velocidade angular constante K, a evolução no tempo do ângulo θ da partícula é: θ(t) = Kt + θ0 = Kt. (E.1.6.g) Assim, finalmente, a trajectória tem a forma que se obtém por substituição de (E.1.6.g) em (E.1.6.f) : r = r0 ch(θ). (E.1.6.h) Exemplo E.1.7 P B a Q A Q a Figura E.1.7 (a) Um perno P desliza na calha circular fixa centrada em A e na ranhura existente na barra OB, que, por sua vez, roda em torno do ponto O. Sabendo que a velocidade angular θ̇ da barra é constante, mostrar que o módulo da aceleração do perno P também é constante. Determinar a direcção e o sentido dessa aceleração. Interpretar o resultado obtido, caracterizando o movimento de rotação do perno em torno do centro da calha circular. Resolução Utilizando a expressão (1.33) da aceleração em coordenadas polares tem-se, atendendo a que θ̇ = K (constante), → aP → → = (˙˙ r − r K 2) e r + 2ṙK e θ . Uma observação cuidadosa da geometria do problema permite-nos concluir que o triângulo AOP é isóceles com os lados OA e AP iguais, pelo que os ângulos opostos, (POA) e (OPA) são ambos iguais a θ. Então r = 2 a cosθ, que, por derivação em ordem ao tempo, fornece, sucessivamente, ṙ = − 2 a senθ θ̇ = − 2 a K senθ ˙˙ r = − 2 a K cosθ θ̇ = − 2 a K2 cosθ. Então a aceleração do ponto P vale → aP → → = [− 2 a K2 cosθ − (2 a cosθ) K 2] e r + 2 (− 2 a K senθ) K e θ → → = − 4aK2 (cosθ e r + senθ e θ) e o seu módulo é de facto constante e igual a 4aK2. Em virtude dos sinais (negativos) de ambas as componentes radial e transversal da aceleração do ponto P, e tendo em atenção o ângulo (θ) formado com o eixo radial, conclui-se → que a P tem a direcção do raio AP da calha circular e o sentido de P para A. A razão para isto de facto é simples: o perno P tem um movimento circular uniforme em torno do centro A da calha. O ângulo que o raio AP forma com a horizontal é sempre igual a 2θ, pelo que como θ̇ é constante e igual a K, o perno P tem um movimento de rotação em torno de A com velocidade angular constante igual a 2θ̇ = 2K. A aceleração deste movimento circular de P em torno de A é apenas a sua aceleração centrípeta (de P para A) com módulo igual a (2θ̇)2 a = 4aK2, como se obteve anteriormente. P a r=2 c os a A Q a Q Figura E.1.7 (b) a 2. REFERENCIAIS MÓVEIS, MUDANÇAS DE REFERENCIAL E MOVIMENTO RELATIVO. 2.1. Referenciais ortonormados móvel e "fixo". Posições absoluta e relativa. →F →F →F → → → Figura 2.1. Referencial fixo (F, e 1 , e 2 , e 3 ) e referencial móvel (O, e 1, e 2, e 3) No estudo de alguns problemas, é muito útil a consideração de referenciais móveis. Por exemplo, para descrever o movimento de objectos no interior de veículos em movimento, torna-se conveniente o uso de um referencial móvel solidário com o veículo. É claro que, conhecido o movimento do objecto em relação ao veículo, para conhecer o seu movimento em relação a um referencial fixo (por exemplo, ligado à Terra), se torna indispensável saber descrever o movimento do veículo (o referencial móvel) em relação à Terra (o referencial fixo). Por outro lado, o estudo do movimento de um corpo rígido fica muito facilitado pelo uso de um referencial móvel que acompanhe o movimento do corpo. Neste caso, por definição de corpo rígido, as partículas do corpo não têm qualquer movimento em relação ao referencial móvel que o acompanha. Por estas razões, o estudo da cinemática dos corpos rígidos é precedido por esta secção dedicada a referenciais móveis. Considere-se, num certo instante t, uma partícula P e dois referenciais ortonormados →F →F →F → → → directos, em que um deles é fixo (F, e 1 , e 2 , e 3 ) e o outro é móvel (O, e 1, e 2, e 3), como se →F representa na Figura 2.1. O referencial fixo tem origem em F e vectores de base e i enquanto → → que o referencial móvel tem origem em O e vectores de base e i. Designa-se por x a posição → absoluta da partícula (vector de posição relativamente ao ponto fixo F) e por r a posição relativa da partícula em relação à origem de referencial móvel O. Como se pode observar na figura, estas duas posições estão relacionadas por → → → x = xO + r , (2.1) → em que x O representa o vector de posição da origem do referencial móvel (no referencial fixo). → A velocidade absoluta v de uma partícula P obtém-se por derivação em ordem ao tempo das duas parcelas da equação (2.1), → → → → v = x˙ = x˙ O + r˙ . (2.2) → Dado que, em princípio, as componentes de r são conhecidas no referencial móvel, tem-se → 3 → r = iΣ r e i, =1 i (2.3) → → r = Σ ṙi e i + Σ ri e˙ i, (2.4) e, consequentemente, → ˙ → → uma vez que tanto as componentes ri de r˙ como os vectores de base e˙ i, do referencial móvel podem variar no tempo. No caso particular de um corpo rígido rigidamente ligado ao referencial móvel, (2.4) reduz-se a: → ˙ → r = Σ ri e˙ i, (2.5) → e˙ i Para prosseguir este estudo, é necessário calcular as derivadas dos vectores de base do referencial móvel em ordem ao tempo. Para o efeito (ver Figura 2.2) considere-se, além do → → → → → → referencial móvel (O, e 1, e 2, e 3), um outro referencial (O, e 1' , e 2' , e 3' ) também centrado em O e de eixos paralelos ao referencial fixo, de tal modo que → →F → →F → →F e 1' = e 1 , e 2' = e 2 , e 3' = e 3 . O Figura 2.2. Dois referenciais ortonormados (2.6) 2.2 Transformação dos vectores de base. Transformações ortogonais → → → → A componente de um vector qualquer → w segundo um vector e p' da base ( e 1' , e 2' , e 3' ) é dada por → wp' = → w . e p' , pelo que o vector → w se pode escrever na forma 3 → → →' →' → →' →' → →' →' → →' →' w ' e p' = Σ (w . e p) e p = (w . e 1) e 1 + (w . e 2) e 2 + (w . e 3) e 3 w = pΣ =1 p → → → → → → → Do mesmo modo, os vectores de base e 1, e 2 e e 3 podem escrever-se na base ( e 1' , e 2' , e 3' ) na forma → → → → → → → → → → e 1 = ( e 1 . e 1' ) e 1' + ( e 1 . e 2' ) e 2' + ( e 1 . e 3' ) e 3' → → → → → → → → → → e 2 = ( e 2 . e 1' ) e 1' + ( e 2 . e 2' ) e 2' + ( e 2 . e 3' ) e 3' → → → → → → → → → → e 3 = ( e 3 . e 1' ) e 1' + ( e 3 . e 2' ) e 2' + ( e 3 . e 3' ) e 3' (2.7) Definindo os coeficientes → → → → → → → → Aip = ( e i , e p' ) = | e i | | e p' | cos ( e i , e p' ) = cos ( e i , e p' ) e agrupando-os numa matriz que se designa por matriz de Lamé, ou matriz dos co-senos directores, ou ainda matriz da transformação, [A] = [Aip], (2.8) o sistema de equações (2.7) pode escrever-se nas formas equivalentes → → ei=Σ Aip e p' , p → (2.9) → { e } = [A] { e '}, (2.10) → → → → em que nas matrizes-coluna { e } e { e '} se agrupam os vectores de base e i e e p' , respectivamente, → {e}= → → e2 → e3 e1 → { e '} = → e 1' . → e 3' → e 2' (2.11) → No que se refere à transformação inversa, o vector de base e 1' , por exemplo, escreve-se na outra base: → → → → → → → → → e 1' = ( e 1' . e 1) e 1 + ( e 1' . e 2) e 2 + ( e 1' . e 3) → → → → → → → → → = ( e 1 . e 1' ) e 1 + ( e 2 . e 1' ) e 2 + ( e 3 . e 1' ) e 3 → → → = Σ ( e i . e 1' ) e i i → = Σi Ai1 e i . É fácil concluir que a transformação inversa de (23), (24) é dada por → → e p' = Σi Aip e i, → T (2.12) → { e '} = [A] { e }. (2.13) As equações (2.9) - (2.13) permitem interpretar o conteúdo das linhas e das colunas da matriz [A]. Como se sugere na Figura 2.2, as linhas da matriz [A] são as componentes dos vectores → → → → de base e i na base ( e 1' , e 2' , e 3' ) enquanto que as colunas da matriz [A] são as → → → → componentes dos vectores de base e p' na base ( e 1, e 2, e 3). → e1→ → e 2→ → e3→ → → → e 1' e 2' e 3' ↓ ↓ ↓ A11 A12 A13 A21 A31 A23 A33 A22 A32 Figura 2.3. Conteúdo das linhas e das colunas da matriz dos co-senos directores → → → → → → Uma vez que tanto a base ( e 1, e 2, e 3) como a base ( e 1' , e 2' , e 3' ) são ortonormadas tem-se → → e i . e j = δij, → → e p' . e q' = δpq. (2.14) Então, como → → → → e i . e j = (Σ Aip e p' ) . (Σ Ajq e q' ) = Σ Σ Aip ( e→p' . e→q' ) Ajq = Σp Σq Aip δpq Ajq = Σp Aip Ajp, p q p q pode-se concluir que Σp Aip Ajp = δij, (2.15) que se escreve em notação matricial na forma [A] [A]T = [δ]. (2.16) Analogamente, → → → → → → e p' . e q' = (Σi Aip e i) . (Σj Ajq e j) = Σi Σj Aip Ajq ( e i . e j) = Σi Σj Aip Ajq δij = Σi Aip Aiq = δpq (2.17) e pode-se concluir, em notação matricial: [A]T [A] = [δ]. (2.18) As relações (2.15, 2.16) e (2.17, 2.18) designam-se por relações de ortogonalidade e as transformações cujas matrizes as satisfazem dizem-se transformações ortogonais. Das equações (2.16) e (2.18) pode-se concluir que uma transformação é ortogonal se e só se a sua inversa coincidir com a sua transposta, isto é, [A]−1 = [A]T. Por outro lado, como o determinante do produto de matrizes é igual ao produto dos determinantes das matrizes e como o determinante da transposta de uma matriz é igual ao determinante da matriz, obtém-se det ([A]T [A]) = det [A] det [A]T = (det [A])2 = 1, de onde resulta que as transformações ortogonais satisfazem: det [A] = ± 1. (2.19) Designam-se por transformações ortogonais próprias aquelas em que det [A] = + 1. Só nesse caso se tem uma rotação do sistema de eixos (ambos os referenciais directos ou ambos inversos). Nas transformações ortogonais impróprias (det [A] = − 1) há uma rotação seguida da inversão do sentido positivo de 1 ou 3 dos vectores de base. Exemplo E.2.1 Figura E.2.1 → → → Dado um referencial ortonormado directo (O, e 1, e 2, e 3), considere um novo referencial (O, → → → e 1' , e 2' , e 3' ) que se obtém do primeiro por duas rotações sucessivas, por esta ordem: 1ª): de + π/2 em torno do eixo 1; (2ª): de + π/4 em torno do eixo 2, na posição em que este ficou depois da primeira rotação. a) Determinar as matrizes de transfor-mação correspondentes a cada uma das rotações sucessivas. → → b) Determinar a matriz de transformação que traduz a transformação e i → e j' a partir das da alínea anterior e confirmar o resultado por cálculo directo a partir da representação dos dois referenciais. c) Verificar condições de ortogonalidade e determinante e identificar a matriz que representa a transformação inversa. Exemplo E.2.2 Da matriz dos cosenos directores [A] relativa a uma transformação entre os referenciais → → → → → → ortonormados (O, e 1, e 2, e 3) e (O, e 1' , e 2' , e 3' ), conhecem-se apenas os elementos indicados → → → → → → no quadro ao lado. Escreva os vectores de base e 1' , e 2' e e 3' em função de e 1, e 2 e e 3. Represente graficamente os resultados obtidos. 1 − 2 . [A] = . . . −1 1 − 2 . . 2.3 Velocidade angular do referencial móvel Derivando as leis de transformação (2.9) em ordem ao tempo, observando que os vectores de base do referencial fixo são independentes do tempo e utilizando as leis de transformação (2.12) obtém-se, sucessivamente, → →F → e˙ i = Σj A˙ij e j = Σj A˙ij Σ Akj e k = Σ (Σj Akj A˙ij) e→k k k (2.20) Este resultado pode ser escrito na forma → → e˙ i = Σ Ωki e k, k (2.21) se se definir a matriz das velocidades angulares do referencial móvel [Ω] por Ωki = Σj Akj A˙ij (2.22) [Ω] = [A] [Ȧ]T. (2.23) isto é, Antes de se discutir o significado físico desta matriz, observe-se que ela é antisimétrica. De facto, derivando as relações de ortogonalidade (2.16) em ordem ao tempo obtém-se [A] [Ȧ]T + [Ȧ] [A]T = [0], (2.24) o que, à luz da definição (2.23), conduz a [Ω] + [Ω]T = [0], (2.25) [Ω] = − [Ω]T. (2.26) isto é, A matriz [Ω] pode, portanto, escrever-se na forma 0 [Ω] = Ω21 −Ω13 −Ω21 Ω13 −Ω32 , 0 Ω32 0 (2.27) em que se escolheram, como componentes independentes da matriz anti-simétrica [Ω] as três componentes Ω32, Ω13 e Ω21. Dado que, no espaço tridimensional, o número de componentes independentes de uma matriz anti-simétrica é igual ao número de componentes de um vector no mesmo espaço, aquelas componentes independentes podem ser utilizadas para definir um → vector Ω que se designa por vector axial (ou dual) da matriz anti-simétrica [Ω], tal que a equação (2.21) se pode escrever na forma equivalente: → → → e˙ i = Ω × e i, (2.28) → → Para determinar a relação entre as componentes de Ω e de [Ω] para que o resultado e˙ i em → (2.21) e em (2.28) seja o mesmo, observe-se em (2.21) que Ωki é a componente k de e˙ i, isto é, → → Ωki = e k . e˙ i (2.29) → Fazendo também o produto interno de (2.28) por e k, obtém-se → → → → → → → → e k . e˙ i = e k . Ω × e i = Ω . e i × e k isto é, → → → Ωki = Ω . e i × e k . Consequentemente: (2.30) → → → → → Ω32 = − Ω23 = Ω→ . e 2 × e 3 = Ω→ . e 1 = Ω1 → → → Ω21 = − Ω12 = Ω . e ×e =Ω . e = Ω3 → →1 →2 → →3 Ω13 = − Ω31 = Ω . e 3 × e 1 = Ω . e 2 = Ω2 (2.31) No caso presente, em que a matriz [Ω] é→a matriz das velocidades angulares do referencial móvel, o correspondente vector axial Ω designa-se→ por vector velocidade angular do referencial móvel. A interpretação física detalhada de Ω será feita na secção seguinte. 2.2 Velocidade de uma partícula cujo movimento é conhecido num referencial móvel O resultado (2.28) permite-nos agora regressar às expressões (2.5) e (2.4) da derivada → → temporal do vector de posição relativa r e da velocidade absoluta v . Substituindo (2.28) em (2.5) obtém-se, atendendo à propriedade distributiva do produto externo em relação à soma → vectorial e à decomposição (2.3) de r : → ˙ → → → → → → r = Σ ṙi e i + Σ ri ( Ω × e i) = Σ ṙi e i + Ω × Σ ri e i, → → → → r˙ = Σ ṙi e i + Ω × r . (2.32) Finalmente, a introdução de (2.31) em (2.4) permite escrever → → → → → v = x˙ = x˙ O + Σ ṙi e i + Ω × r . → (2.33) Isto significa que a velocidade da partícula P é a soma de três contribuições distintas. A primeira parcela designa-se por parcela de translação, é dada por →transl v → = x˙ O (2.34) e é devida à variação no tempo da posição da origem do referencial. Note-se que, na ausência das outras parcelas, a velocidade da partícula P seria igual à da origem do referencial, o que motiva a designação desta parcela. A segunda parcela designa-se por parcela de velocidade relativa, é dada por →rel v → = Σ ṙi e i (2.35) e é devida à variação da posição relativa da partícula em relação ao referencial móvel, isto é, à → variação no tempo das componentes ri de r no referencial móvel. A terceira e última parcela designa-se por parcela de rotação, é dada por →rot v → → = Ω × r. (2.36) e é devida à variação no tempo da posição angular (rotação) dos eixos do referencial móvel, isto é [recordar (2.23), (2.29) e (2.30)], está associada à possível existência de derivadas não → nulas dos vectores de base e dos respectivos cosenos directores ( ė i e A˙ij). →transl →rot Note-se ainda que as duas parcelas v e v resultam ambas do movimento do referencial móvel. Na ausência de movimento relativo da partícula em relação ao referencial → → móvel ( v rel = 0 ), a sua velocidade resultaria exclusivamente do transporte da partícula pelo referencial, razão pela qual se designa a soma destas parcelas por velocidade de transporte. Pode então escrever-se o vector velocidade na forma → → → v = v rel + v transp, (2.37) → em que v rel é dada por (2.35) e →transp v → → → → → = v transl + v rot = x˙ O + Ω × r . (2.38) Resta agora interpretar mais detalhadamente a parcela de rotação da velocidade da partícula e justificar completamente as designações de vector →velocidade angular do referencial e matriz das velocidades angulares do referencial para→Ω e [Ω], respectivamente. → Dado que as outras contribuições para v são independentes de Ω , admitamos que elas são nulas e que, portanto, → → → → v = v rot = Ω × r . (2.39) → → → Decompondo r em duas parcelas, uma paralela a Ω e outra ortogonal a Ω , tem-se (ver Figura 2.3) → → → → r = OP = OC + CP, (2.40) e a velocidade da partícula P vem dada por → → → → → → v = Ω × (OC+CP) = Ω × CP. Figura 2.3. Vector velocidade angular do referencial móvel (2.41) → → Como, por construção, CP é perpendicular a Ω , o lugar geométrico dos pontos que acompanham o movimento do referencial móvel e têm velocidade nula é o conjunto dos → → pontos para os quais |CP| = 0, isto é, a recta que passa por O e tem a direcção de Ω . Essa recta é pois, por definição, o eixo instantâneo de rotação para o movimento de rotação do referencial . → → Da equação (2.41) pode-se→ concluir que a velocidade v : (i) é ortogonal a Ω , (ii) é ortogonal ao segmento de recta CP que define a distância entre a partícula e o eixo de rotação, (iii) tem o sentido dado pela regra do saca-rolhas e (iv) tem o módulo dado por → → → |v | = | Ω | |CP| (2.42) Esta última equação tem uma forma idêntica à bem conhecida expressão [recordar (1.26)] v = Ω ρ, (2.43) → que permite obter→o módulo v (= |v |) da velocidade de uma partícula, conhecido o raio de → curvatura ρ (= |CP|) da sua trajectória e o módulo Ω (= | Ω |) da velocidade angular do movimento de rotação em torno do centro de curvatura da sua trajectória. Verifica-se assim que a velocidade de qualquer partícula que acompanhe um → → → → → movimento de rotação de um referencial móvel ( v = v rot, v rel = v transl = 0 ) é precisamente a que se obtém em resultado de, instantaneamente (isto é, na vizinhança do instante considerado quando o intervalo de tempo dessa vizinhança tende para zero), a partícula descrever um movimento de rotação no plano ortogonal ao eixo de rotação instantânea → [recordar (i) e (ii)]. Este movimento é caracterizado por um vector velocidade angular Ω , → ortogonal ao plano do movimento, cujo sentido se relaciona com o da velocidade v pela regra do saca-rolhas [recordar (iii)] e cujo módulo é igual à taxa de variação em ordem ao tempo do ângulo rodado no plano do movimento. Com efeito, de (iv) e de (2.43) resulta que v 1 ds ds/ρ dθ Ω = = dt = dt = dt , ρ ρ (2.44) em que ds = v dt é o comprimento elementar ao longo da trajectória da partícula e dθ = ds / ρ é o ângulo elementar rodado (ver Figura 2.3). Exemplo E.2.3. Considere uma barra rígida de comprimento L, cujas extremidades O e A se deslocam ao longo das rectas fixas ortogonais entre si que passam pelo ponto F, como se representa na →F →F →F → → → Figura E.2.3: (F, e 1 , e 2 , e 3 ) é o referencial fixo e (O, e 1, e 2, e 3) é o referencial móvel que acompanha o movimento da barra. Um cursor P, de coordenada y = y(t) no referencial móvel, desloca-se ao longo da barra. a) Determinar, em função de θ, a matriz dos cosenos directores [Aij(θ)] que relaciona os vectores de base móveis e fixos representados na Figura E.2.3. b) Atendendo a (2.44) e à suas restantes propriedades, determinar o vector velocidade angular do referencial móvel representado na mesma figura. c) Para o exemplo da Figura E.2.3, proceder às derivações e identificações em (2.20), (2.23) e (2.31), por forma a obter as componentes da matriz e do vector das velocidades angulares, confirmando que estas últimas coincidem com as obtidas na alínea anterior. d) Determinar, em função de θ = θ(t) e de y = y(t), as componentes no referencial fixo dos → → → vectores de posição "absoluta" x O, x A e x P dos pontos O, A e P. Determinar as → → componentes no referencial móvel dos vectores de posição relativa r A e r P dos pontos A e P. Verificar a compatibilidade (2.1) das duas representações das posições dos pontos A e P. e) Determinar as velocidades dos pontos O, A e P, por derivação em ordem ao tempo dos → → → vectores de posição x O, x A e x P cujas componentes no referencial fixo foram anteriormente calculadas. Determinar as velocidades dos pontos A e P, utilizando o → → conhecimento das suas posições relativas r A e r P. Confirmar a compatibilidade (2.33) dos resultados obtidos pelas duas vias anteriormente indicadas e identificar as respectivas parcelas de translação, de rotação, de transporte ou relativas. Figura E.2.3 2.3 Derivada temporal de um vector de componentes conhecidas num referencial móvel → Considere-se agora um vector genérico w com componentes conhecidas no referencial móvel, → → w = Σ wi e i . (2.45) → É facil de ver que o processo de obtenção da derivada em ordem ao tempo deste vector w é → em tudo idêntico ao usado para obter a derivada do vector de posição relativa r de componentes ri. Pode por isso escrever-se, à semelhança de (3.26), → ˙ → → → w = Σ ẇi e i + Ω × w, (2.46) equação que permite obter a derivada em ordem ao tempo de um vector cujas componentes → no referencial móvel são conhecidas. A primeira parcela é devida à variação de w em relação ao referencial móvel e é habitualmente designada por → δw → = Σ ẇi e i. δt → → (2.47) → Tal como no caso do vector r , a segunda parcela, Ω × w, é devida à rotação dos eixos do referencial móvel em relação ao referencial fixo. Substituindo (2.47) em (2.46) obtém-se → ˙ w= → δw → → +Ω ×w. δt (2.48) Chama-se a atenção para o facto de a equação (2.48) ser uma equação vectorial que, consequentemente, pode ser expressa em qualquer referencial, isto é, os vectores que nelam → figuram, incluindo o vector δw/δt, podem ser expressos através das suas componentes segundo os vectores de base de qualquer referencial. No entanto, note-se que, por exemplo, os → vectores de base e i que figuram em (2.46, 2.47) são os do referencial móvel, pelo que a → aplicação natural de (2.48) (isto é, sem exprimir os vectores de base e i noutro referencial) se faz usando precisamente o referencial móvel. Quer isto dizer que, em aplicações correntes, → → → tanto Ω como w são expressos no referencial móvel e o resultado ẇ também vem expresso no referencial móvel. 2.4 (*) Aceleração de uma partícula cujo movimento é conhecido num referencial móvel Derivando em ordem ao tempo a velocidade da partícula P, dada pela equação (2.33), obtém-se a aceleração da partícula P → dv → a = dt d → → → → = dt x˙ O + Σ ṙi e i + Ω × r → d δ r → → → ˙˙ = x O + dt + Ω × r δt → → d δ r d Ω → → d → → = ˙˙ x O + dt + dt × r + Ω × dt ( r ). (2.49) δt ( ) Encarando as quantidades entre parênteses como vectores expressos no referencial móvel, recorre-se à equação (2.48) para obter as suas derivadas em ordem ao tempo. Fica então → a= → ˙˙ xO → → → → δ δ r → δ r d Ω → → δ r → → + + Ω × + dt × r + Ω × + Ω × r , δt δt δt δt (2.50) ou, após simplificação, → a= → ˙˙ xO → → → → → δ2 r d Ω → δr → → + 2 + dt × r + 2 Ω × + Ω × ( Ω × r ). δt δt (2.51) Estas cinco parcelas recebem as designaçõeseguintes: (i) parcela de translação, que resulta da aceleração da origem do referencial, dada por = ˙˙ xO ; →transl → a (2.52) (ii) parcela de aceleração relativa, que resulta da aceleração da partícula em relação ao referencial móvel, dada por →rel a → δ2 r → = 2 = Σ ˙˙ r i ei; δt (2.53) (iii) parcela de aceleração angular, que resulta do facto de a velocidade angular do referencial móvel variar no tempo, dada por → →ang a dΩ → = dt × r ; (2.54) (iv) parcela de aceleração de Coriolis, que resulta da velocidade da partícula em relação ao referencial móvel quando este está em rotação, dada por →Cor a → → δr → = 2Ω × = 2 Ω × v rel ; δt → (2.55) (v) parcela de aceleração centrípeta, que resulta do movimento de rotação, com → velocidade angular Ω , do referencial móvel, dada por →cent a → → → = Ω × (Ω × r ) . (2.56) Finalmente, note-se que as parcelas de aceleração de translação, de aceleração angular e de aceleração centrípeta resultam exclusivamente do movimento do referencial, razão pela qual, à semelhança do que se fez para as velocidades, se designa a soma destas três parcelas por aceleração de transporte, →transp a →transl =a →ang +a →cent +a = → ˙˙ xO → → dΩ → → → + dt × r + Ω × ( Ω × r ). (2.57) 3. CINEMÁTICA DOS CORPOS RÍGIDOS 3.1. Propagação de velocidades e acelerações Estudaremos agora a Cinemática dos Corpos Rígidos. Um corpo rígido é por definição um sistema de partículas em que se conservam as distâncias entre todas as partículas. Esta restrição geométrica significa que se despreza a deformação do corpo, permitindo simplificar drasticamente a descrição do seu movimento. Embora na realidade todos os materiais se deformem quando submetidos à acção de forças, o estudo do modelo de corpo rígido justificase porque: (i) este modelo fornece uma aproximação que conduz a bons resultados para determinados problemas (em que a deformação dos materiais não é relevante) e (ii) este estudo é um passo importante no processo de aprendizagem da Cinemática em geral. As equações a que obedecem as velocidades das partículas de corpos rígidos podem ser obtidas das equações obtidas na Secção 2.3, admitindo que o corpo rígido, cujo movimento se pretende estudar está rigidamente ligado ao referencial móvel utilizado naquela secção. Nestas condições, as posições das várias partículas, em relação ao referencial que acompanha o movimento do corpo rígido, não se alteram ao longo do tempo. Ou seja, para cada partícula P, a posição relativa → → r = OP, (3.1) é um vector cujas componentes no referencial móvel são constantes no tempo, o que implica → δr → r˙i = 0, v rel = = 0, δt → → (3.2) → Por outro lado, a velocidade angular do referencial Ω coincide com a velocidade angular ω do corpo rígido, → → Ω = ω. (3.3) A expressão que relaciona as velocidades de duas partículas P e O de um corpo rígido, → cuja velocidade angular é ω , pode então ser obtida introduzindo (3.1), (3.2) e (3.3) em (2.33): → vP → → → = v O + ω × OP. (3.4) Esta expressão, designada por expressão de propagação de velocidades de um corpo rígido, mostra que a velocidade de um ponto P é igual a uma parcela de translação, igual à → → velocidade do ponto O, v O, mais uma parcela devida à rotação, com velocidade angular ω , → do ponto P em torno de um eixo paralelo a ω que passa por O (ver Figura 3.1). Como a equação (3.4) caracteriza completamente a velocidade de qualquer partícula P do corpo → → rígido, uma vez conhecidos os vectores v O e ω , verifica-se que o movimento instantâneo de um corpo rígido livre tem seis graus de liberdade (isto é, é caracterizado por seis parâmetros → independentes correspondentes às três componentes da velocidade v O de um ponto qualquer → do corpo e às três componentes da velocidade angular ω do corpo). Figura 3.1. Propagação de velocidades e de acelerações no interior de um corpo rígido Obteremos seguidamente uma relação entre as acelerações de duas partículas de um corpo rígido. Derivando a equação (3.4) em ordem ao tempo obtém-se → aP = → aO → → → dω dOP → + dt × OP + ω × dt . (3.5) → Dado que o vector OP é igual a diferença entre os vectores de posição→de P e de O em relação → → → ao referencial fixo, OP = FP − FO, a derivada do vector de posição OP em ordem ao tempo é igual à diferença das velocidades absolutas dos pontos P e O, que, por sua vez, se pode obter de (3.4): → → → → dOP dFP dFO → → → = − = v − v = ω × OP. P O dt dt dt (3.6) → Logo, definindo o vector aceleração angular α do corpo rígido como → dω → α = dt , (3.7) a equação (3.5) origina a expressão de propagação de acelerações de um corpo rígido, → aP → → → → → → = a O + α × OP + ω × ( ω × OP). (3.8) Esta expressão mostra que a aceleração de um ponto P é igual à soma de uma parcela de translação, igual à aceleração do ponto O, com outras duas parcelas devidas ao → → movimento de rotação. A parcela devida à aceleração angular, α × OP, é ortogonal à aceleração angular, tem o sentido dado pela regra do saca-rolhas ou pela regra da mão direita, e é, em módulo, proporcional ao módulo da aceleração angular e à distância do ponto P ao → eixo paralelo a α que contém O (distância DP na Figura 3.1): → → → → → → → OP = OD + DP, OD // α , DP ⊥ α , → → → → → → → α × OP = α × (OD + DP) = α × DP → → → → | α × OP| = | α | |DP| . → → → A parcela de aceleração centrípeta, ω × ( ω × OP), tem a direcção e o sentido da linha que → que une o ponto P ao ponto mais próximo do eixo paralelo a ω que passa por O (o ponto C da Figura 3.1) e é, em módulo, proporcional ao quadrado da velocidade angular e à distância → do ponto P ao referido eixo paralelo a ω que contém O (distância CP na Figura 3.1): → → → → → → → → → → OP = OC + CP, OC // ω , CP ⊥ ω , → → → → → → → → ω × ( ω × OP) = ω × [ ω × (OC + CP)] = ω × ( ω × CP) = − ω2 CP → → → → | ω × ( ω × OP)| = ω2 |CP| → → geral, paralela à velocidade angular ω , pelo Note-se que a aceleração angular α não é, em → → → → que α × OP não é em geral paralelo a ω × OP. Ver-se-á adiante que, no caso do movimento → → plano, α e ω são paralelos entre si e ortogonais ao plano do movimento. Note-se por fim que a expressão (3.8) também podia ter sido obtida anulando na equação (2.51), que dá a aceleração de uma partícula cujo movimento é conhecido num referencial móvel, as parcelas que dependem da variação da posição relativa [as parcelas de aceleração relativa e de → →Cor → →rel → 2→ 2 Coriolis: a = δ r /δt = 0 , a = 0 ] e deixando apenas as parcelas de transporte a transp (2.57). Exemplo E.3.1 Para a barra do Exemplo E.2.3., verifique que as velocidades e as acelerações das extremidades O e A satisfazem as expressões de propagação de velocidades e acelerações num corpo rígido: → aO → → → → vO = vA + ω × → → → → AO → → = a A + α × AO + ω × ( ω × AO). Represente graficamente as várias parcelas. Verifique também a validade da propriedade projectiva entre os mesmos pontos. Exemplo E.3.2 Um ciclista imprime à roda pedaleira uma velocidade angular constante ω no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio. No instante em que a perna JP passa pela vertical e a coxa AJ forma o ângulo θ0 com a horizontal, determinar: a) as velocidades angulares da coxa AJ e da perna JP; → b) a velocidade v J do joelho; c) as correspondentes acelerações angulares. Figura E.3.2 3.2. Campo Instantâneo de Velocidades de um Corpo Rígido → É importante verificar que a expressão de propagação de velocidades v de um corpo rígido → vP → → → = v O + ω × OP (3.9) → é em tudo análoga à expressão de propagação de momentos M de um sistema de forças, → → → → MP = M + PO ×→ R →O → = M O + R × OP. → (3.10) Ou seja, o papel desempenhado pelo vector principal R de um sistema de forças, no campo → de momentos M originado por essas forças, é exactamente o mesmo que o desempenhado → → pela velocidade angular ω de um corpo rígido, no campo instantâneo de velocidades v desse corpo. Por outro lado, estes campos são completamente caracterizados pelos seus elementos → → de redução num ponto genérico O: o momento resultante M O e o vector principal R , para o → campo de momentos de um sistema de forças; a velocidade v O e o vector velocidade angular → ω , para o campo instantâneo de velocidades de um corpo rígido. Assim, todas as propriedades (estudadas na Estática) que são válidas para o campo de momentos de um sistema de forças também são válidas para o campo de velocidades instantâneas de um corpo rígido. Por exemplo, o campo de velocidades de um corpo rígido goza da propriedade projectiva, isto é, para quaisquer dois pontos P e O de um corpo rígido tem-se → vP → → → . OP = v O . OP, (3.11) → → → expressão esta que se obtém internando a equação (3.9) com OP e observando que ω × OP . → OP = 0. Esta propriedade projectiva mostra que são iguais as projecções das velocidades instantâneas de dois pontos de um mesmo corpo rígido sobre a linha que os une (Figura 3.2), uma propriedade que garante que a distância entre os dois referidos pontos não varia no tempo. Note-se, a propósito, que é possível provar a validade de (3.11) directamente a partir do facto de o corpo ser rígido, sem utilizar pela expressão de propagação (3.9). Basta observar que, para um corpo rígido, → → OP . OP = constante, pelo que é nula a derivada em ordem ao tempo: → → → → dOP → d → → dOP → dOP → → → dt (OP . OP) = dt . OP + OP . dt = 2 dt . OP = 2 ( v P − v O) . OP = 0. Por outro lado, existem duas quantidades cujo valor é independente do ponto onde são → calculadas. A primeira é a velocidade angular ω que, obviamente, é a mesma para todos os pontos do corpo rígido, uma vez que, como admitido, todos os pontos acompanham o movimento do referencial móvel. A segunda resulta de, ao efectuar-se o produto interno da → → → → equação (3.9) por ω , se obter (uma vez que ω × OP . ω = 0) → vP → → → . ω = vO .ω, (3.12) para quaisquer dois pontos, O e P, do corpo rígido. Desta forma, podem definir-se para o campo instantâneo de velocidades dois invariantes, mais precisamente: → Invariante Vectorial : ω → → Invariante Escalar : v O . ω . (3.13) Figura 3.2. Propriedade projectiva do campo instantâneo de velocidades de um corpo rígido Pode também estabelecer-se uma classificação do movimento instantâneo de um corpo rígido, correspondente aos seguintes casos de redução, → v → vO . ω ≠ 0 → O Rotação + Translacção Instantâneas → → .ω=0 → ω ≠ 0 → → ω = 0 Rotação Instantânea → → vO ≠ 0 → → vO = 0 Translacção Instantânea Repouso Instantâneo (3.14) O primeiro dos casos de redução consiste numa rotação + translação instantâneas ao longo de um eixo helicoidal instantâneo, que é o lugar geométrico dos pontos onde a velocidade é mínima e paralela à velocidade angular (Figura 3.3). Este eixo é paralelo ao vector velocidade angular e a sua equação é idêntica à equação do eixo central de um campo de momentos (estudada na Estática) e dada por → → ω × vO → Q=O+ + λ ω, ω2 (3.15) → em que Q é um ponto genérico do eixo, ω representa o módulo de ω , e λ é um parâmetro real → arbitrário. Em todos os pontos do eixo helicoidal instantâneo a velocidade é paralela a ω , o → seu valor é mínimo e a sua projecção sobre ω vale ω v = → vP → .ω ω , (3.16) (vω é uma quantidade positiva ou negativa consoante a velocidade nos pontos do eixo → helicoidal instantâneo tem ou não o sentido de ω ). Em todos os outros pontos do corpo, para → além da componente da velocidade paralela a ω , que é sempre a mesma, adiciona-se uma → componente perpendicular a ω , cujo valor é proporcional à distância ao eixo helicoidal instantâneo (ver a Figura 3.3). Sendo este o caso de redução mais geral, no qual nenhum dos invariantes assume o valor particular zero, pode afirmar-se que o movimento instantâneo de qualquer corpo rígido é equivalente a uma rotação em torno de um eixo em simultâneo com uma translação ao longo desse eixo. Este resultado constitui o teorema de Chasles para movimentos infinitesimais, sendo obviamente o eixo a que nele se faz referência o eixo helicoidal instantâneo definido em (3.16). O segundo caso consiste numa rotação instantânea em torno de um eixo instantâneo de rotação, que é o lugar geométrico dos pontos onde a velocidade é mínima e nula. Este caso pode ser encarado como o limite do caso precedente quando a componente da velocidade → paralela a ω é nula. Por esta razão, em todos os pontos do corpo fora do eixo instantâneo de → rotação a velocidade é perpendicular a ω (Figura 3.3) e perpendicular à linha mais curta que os une ao eixo instantâneo de rotação. Finalmente, os dois últimos casos do movimento instantâneo são caracterizados por todos os pontos do corpo terem a mesma velocidade, denominando-se de translação ou de repouso consoante essa velocidade é, ou não, nula. Figura 3.3. Eixo helicoidal instantâneo e eixo instantâneo de rotação 3.3. Movimento Plano Um caso particular do movimento dos corpos rígidos é o caso do movimento plano. Este tipo de movimento ocorre quando a trajectória que cada ponto do corpo descreve está contida integralmente num plano, sendo os planos correspondentes a todos os pontos do corpo paralelos entre si. Designa-se por plano do movimento um plano paralelo a todas essas trajectórias, onde, por conveniência, se projectam todos os pontos do corpo. → As velocidades v de todos os pontos do corpo rígido são pois paralelas ao plano do → movimento e a velocidade angular ω é perpendicular ao plano do movimento. Por esta razão, o movimento plano tem apenas três graus de liberdade, correspondentes às duas → componentes da velocidade v O no plano do movimento e à componente da velocidade → angular ω ortogonal ao plano do movimento. Além disso, tem-se necessariamente → → Movimento Plano: v O . ω = 0, (3.17) pelo que só os três últimos casos de redução são possíveis, sendo impossível o caso de rotação + translação. Isto significa que, excluindo os casos mais simples nos quais as velocidades de todos os pontos do corpo são idênticas, o movimento instantâneo é equivalente a uma rotação instantânea em torno de um centro instantâneo de rotação, que é a intersecção do eixo instantâneo de rotação com o plano do movimento. Com base nesta constatação e nas considerações feitas sobre o caso de redução rotação instantânea, é possível desenvolver uma técnica de obtenção de velocidades em problemas planos baseada nos seguintes princípios (ilustrados na Figura 3.4): (I) Conhecidas as velocidades (ou, o que é mais frequente, apenas a direcção das velocidades) de dois pontos distintos de um corpo rígido com movimento plano, o centro instantâneo de rotação do corpo (ponto C) está na intersecção das linhas que passam por esses pontos e que são ortogonais às suas velocidades. (II) O cálculo das velocidades em outros pontos do corpo é feito a partir de (supõe-se que o → → plano do movimento é definido por e x e e y) → v A = ω × CA = ω e z × [(xA − xC) e x + (yA − yC) e y] , → → → → → (3.18) isto é, → vA → → = − ω (yA − yC) e x + ω (xA − xC) e y , (3.19) ou seja, em módulo, "a velocidade segundo x é igual ao produto da velocidade angular pela diferença das coordenadas y" e "a velocidade segundo y é igual ao produto da velocidade angular pela diferença das coordenadas x". Por outro lado, os sentidos das velocidades são facilmente determinados a partir do sentido da rotação em torno do centro instantâneo de rotação. Figura 3.4. Movimento plano e centro instantâneo de rotação Note-se que a aplicação da construção referida em (I) pode conduzir a um dos seguintes quatro casos particulares, que interessa discutir: (i) os dois pontos têm velocidades nulas, o que significa que o corpo está em repouso intantâneo (todos os pontos têm velocidade nula); (ii) um dos pontos tem velocidade nula, o que significa que esse ponto é precisamente o centro instantâneo de rotação; (iii) as duas linhas referidas são paralelas, encontrando-se o centro instantâneo de rotação no infinito, o que significa que o corpo está em translação instantânea (todos os pontos têm a mesma velocidade) e (iv) as duas linhas são coincidentes, caso em que a determinação da posição do centro instantâneo de rotação requer o conhecimento dos valores e sentidos das velocidades. Por último, a expressão de propagação de acelerações de um corpo rígido quando o movimento é plano pode ser simplificada. Com efeito, o triplo produto externo na equação (3.8) pode ser decomposto em duas parcelas: → → → → → → → → → ω × ( ω × OP) = ( ω . OP) ω − ( ω . ω ) OP. (3.20) → → Como no movimento plano ω é perpendicular a OP, a primeira destas parcelas é nula, pelo que a equação (3.8) toma então a forma particular (ver Figura 3.5): → aP → → → → = a O + α × OP − ω2 OP. (3.21) Figura 3.5. Propagação de acelerações num corpo rígido com movimento plano Exemplo E.3.3 Localizar o centro instantâneo de rotação da barra do Exemplo E.2.3. Por propagação a partir do centro instantâneo de rotação, determinar, em função de θ e θ̇ a) as expressões das velocidades dos pontos O e A; conferir os resultados com os dos exemplos E.2.3 e E.3.1. b) o módulo e as componentes horizontal e vertical da velocidade de um ponto P da barra que dista L/3 do ponto O. Exemplo E.3.4 Utilizando o conceito de centro instantâneo de rotação, resolva novamente as alíneas a) e b) do Exemplo E.3.2. Exemplo E.3.5 O A Figura E.3.5 A extremidade A da barra AB move-se ao longo de um eixo vertical e a extremidade B movese numa calha circular conforme se representa na figura. Num certo instante em que a configuração do sistema é a indicada na figura, a extremidade A tem velocidade vA = 80 cm/s e a aceleração aA = 30 cm/s2, ambas para baixo. Para esse instante: (a) Localize o centro instantâneo de rotação da barra AB. (b) Determine a velocidade angular ωAB da barra AB. Especifique o seu sentido. (c) Determine a velocidade vB da extremidade B da barra. Especifique a sua direcção e sentido. (d) Determine a velocidade angular ωB do movimento circular da partícula B em torno do ponto O. Qual o seu sentido? (e) Qual a componente da aceleração da partícula B segundo a normal à sua trajectória? Qual o seu sentido? (f) Determine a aceleração angular α AB da barra AB. Qual o seu sentido? Exemplo E.3.6 Sabe-se que a roda de um veículo automóvel representada na Figura E.3.6 se move no plano da figura sem perder contacto com a superfície plana em que assenta e tem uma velocidade angular maior ou igual a zero. a) Determinar, em função do valor da velocidade angular (ω) e da velocidade do eixo (vE) e os casos de redução possíveis para este movimento. b) Determinar as expressões gerais que relacionam a velocidade angular da roda (ω), a velocidade (vE) do eixo, a velocidade (vO) do ponto de contacto da roda e (sempre que possível) a localização do centro instantâneo de rotação (C) da mesma. c) Localizar o centro instantâneo de rotação no caso em que a roda tem rolamento puro e particularizar as expressões anteriores para esse caso. Qual é o ponto da roda com maior velocidade? Qual é a velocidade dos pontos do contorno da roda que estão ao mesmo nível do eixo? d) Também para o caso do rolamento puro, determinar as acelerações do eixo da roda e do ponto de contacto. e) Discutir as situações físicas a que correspondem e, sempre que conveniente, particularizar as expressões da alínea b) nos seguintes casos: e1) yC < 0; e2) yC → − ∞;vE finita; e3) 0 < yC <R; e4) yC = R; e5) yC > R; e6) yC → + ∞; vE finita. Figura E.3.6 Exemplo E.3.7 O disco de raio a da Figura E.3.7 rola sem escorregar de tal forma que, no instante representado, tem velocidade e aceleração angulares ω e α, respectivamente. Determinar, em função de ω, α e a: a) A posição do centro instantâneo de rotação da barra PR. b) A velocidade e a aceleração do eixo do disco (Ponto E). c) A velocidade e a aceleração angulares da barra PR. Figura E.3.7