André Luiz Portela Martins Filho A MEMÓRIA CÓSMICA: GÊNESE DA POÉTICA MANOELINA Rio de Janeiro, 2º semestre de 2008 A MEMÓRIA CÓSMICA: GÊNESE DA POÉTICA MANOELINA André Luiz Portela Martins Filho Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Letras Vernáculas da Universidade Federal do Rio de Janeiro como quesito para a obtenção do título de Mestre em Letras Vernáculas (Literatura Brasileira). Orientador: Prof. Doutor Ronaldes de Melo e Souza Rio de Janeiro Agosto de 2008 ??? MARTINS FILHO, André Luiz Portela. A memória cósmica: gênese da poética manoelina / André Luiz Portela Martins Filho. Rio de Janeiro, 2008. 100 f.: Dissertação (Mestrado em Letras Vernáculas) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Faculdade de Letras, 2008. Orientador: Prof. Doutor Ronaldes de Melo e Souza 1. Literatura Brasileira. 2. Manoel de Barros. 3. Letras Vernáculas – Teses. I. Souza, Ronaldes de Melo e (Orient.). II. Universidade Federal do Rio de Janeiro. Faculdade de Letras. III. Título. CDD: ???? A memória cósmica: gênese da poética manoelina André Luiz Portela Martins Filho Orientador: Professor Doutor Ronaldes de Melo e Souza Dissertação de Mestrado submetida ao Programa de Pós-Graduação em Letras Vernáculas da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, como parte dos requisitos necessários para a obtenção do título de Mestre em Letras Vernáculas (Literatura Brasileira). Examinada por: _________________________________________________ Presidente, Prof. Doutor Ronaldes de Melo e Souza _________________________________________________ Profa. Doutora Rosa Maria de Carvalho Gens – UFRJ _________________________________________________ Prof. Doutor Antônio José Jardim e Castro– UFRJ _________________________________________________ Prof. Doutor Alberto Pucheu Neto – PPG Ciência da Literatura – UFRJ, Suplente _________________________________________________ Prof. Doutor Manuel Antonio de Castro – UFRJ, Suplente Rio de Janeiro Agosto de 2008 A meus pais, que me deram (a)o mundo. Agradecimentos À Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), por ter fomentado a realização de um sonho; Ao Professor Doutor Ronaldes de Melo e Souza, pela liberdade e confiança em mim depositadas durante a orientação de meus estudos; Aos meus pais, pela insistência quando ousei vacilar; A Alê, minha irmã, responsável pelo meu despertar para a língua portuguesa e suas literaturas; Aos queridos amigos e amigas, verdadeiros irmãos nessa jornada sobre a terra, pela compreensão; Às demais pessoas que deram sentido a este sonho, mesmo sem sabê-lo, ou, sabendo, não mais se encontram próximas. Tudo o que não invento é falso. (Manoel de Barros)1 Naquele tempo de dantes não havia limites para ser. (Manoel de Barros)2 Ah, eu estou vivido, repassado. Eu me lembro das coisas, antes delas acontecerem... (João Guimarães Rosa)3 BARROS, Manoel de. Livro sobre nada. 11.ed. Rio de Janeiro: Record, 2004, p.67. ____. Retrato do artista quando coisa. 4.ed. Rio de Janeiro: Record, 2004, p.77. 3 ROSA, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas. São Paulo: Círculo do Livro, 1986, p. 25. 1 2 RESUMO MARTINS FILHO, André Luiz Portela. A memória cósmica: gênese da obra manoelina. Rio de Janeiro, 2008. Dissertação (Mestrado em Letras Vernáculas) – Faculdade de Letras, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2008. O estudo que se empreende versa sobre a questão da memória, na obra de Manoel de Barros, como um componente inventivo. Nota-se uma diferença entre uma memória de história e uma memória de cosmos. Na poesia manoelina, a memória apresenta uma peculiaridade que a distancia da memória geral. Trata-se de uma memória criativa, cosmogônica – que inventa a própria poesia. As forças imaginantes criam, ao mesmo tempo, o novo e o profundo e anterior. O puro relato decompõe, enquanto a memória poética gera. O principal objetivo da dissertação reside na natureza da criação literária moldada pela poesia de Manoel de Barros. Toma-se, como preocupação maior, a investigação da gênese dessa poesia cósmica, destacando-se as cinco temáticas geradoras de sua poética : memória, infância, terra, (meta)linguagem e inutilidades . A fim de conhecer o processo e o sentido cosmogenético da poesia de Manoel de Barros, o método a ser utilizado será o da hermenêutica . A principal fonte hermeneuta a que se recorreu foram as teorias filosóficas de Gaston Bachelard. A memória, se criativa, restaura a poiésis e instala um novo cosmos. Em Manoel de Barros, a memória é o princípio, a gênese de um cosmos que se arraiga no nada. ABSTRACT MARTINS FILHO, André Luiz Portela. A memória cósmica: gênese da obra manoelina. Rio de Janeiro, 2008. Dissertação (Mestrado em Letras Vernáculas) – Faculdade de Letras, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2008. The study which undertakes turns to the question of memory, in Manoel de Barros` work, as an inventive component. There is a difference between a memory of history and a memory of cosmos. In Manoel`s work, memory presents a peculiarity that keeps it far from the general memory. This is a creative memory, cosmogonical - that invents its own poetry. The imaginative forces creates, at the same time, the new and deep and previous. The pure report decomposes, while the poetic memory generates. The main objective of the dissertation resides in the nature of the literary creation shaped by Manoel de Barros` poetry. Takes up, as major concern, the investigation of the genesis of that cosmic poetry, standing out the five thematic creators of its poetic: memory, infancy, land, (meta)language and inutilities. In order to know the cosmogenetic process and sense of Manoel de Barros` poetry, the method being used will be of the hermeneutics. The main hermeneutist source which was called were the philosophical theories of Gaston Bachelard. The memory, if creative, restores the poiésis and installs a new cosmos. In Manoel de Barros, the memory is the beginning, the genesis of a cosmos in which deppen its roots into the nothingness. Sumário 1 Introdução 11 1.1 Breve nota sobre a crítica 14 2 Recordações poéticas 22 2.1 Poesia, fonte do ser – temáticas cosmogônicas 27 3 Memória, potência cósmica 33 4 (Meta)linguagem: despalavra 46 5 O berço das origens 57 6 A geopedagogia dos ensinamentos pelo chão 66 7 Inutensílios – refugo do utilitarismo 75 8 Pórtico; ou roteiro metapoético; ou Manoel por Manoel 84 9 Últimas palavras 88 10 Referências bibliográficas 93 1 Introdução Filho legítimo da modernidade literária, cujos propagadores principais foram Baudelaire, Mallarmé e Rimbaud, Manoel Wenceslau Leite de Barros possui obra poética de relevo no cenário da literatura brasileira (e mundial, diríamos, uma vez que algumas de suas obras foram traduzidas para o francês – Les paroles sans limites, de 2003 –, espanhol – Todo lo que no invento es falso, de 2003 –, inglês – Para encontrar o azul eu uso pássaros, livro de edição bilíngüe, de 1999 – e até mesmo para o alemão – Das Buch der Unwissenheiten, em edição de 1996 da revista Alkzent). Nascido no ano de 1916, em Cuiabá, Mato Grosso, Manoel de Barros inicia a publicação de sua obra em 1937, com Poemas concebidos sem pecados, sempre com intervalos de tempo consideráveis entre as datas de publicação dos livros, chegando a ficar 14 anos sem publicar novo título (referimo-nos à distância cronológica entre Face imóvel, de 1942, e Poesias, de 1956). A informação, por si, faz suspeitar do cuidado que o artista tem com a produção de seus versos: é poeta meticuloso, que trabalha exaustivamente a palavra. A modernidade pode ser contemplada sob vários pontos de vista; consideramos a poesia manoelina4 como exercício do pensamento moderno sob o ponto de vista do uso da linguagem. Em sua obra, o enfoque não está na significação das palavras (ao menos não no sentido usual), mas na construção poética e nos desdobramentos do significado. O artista moderno tem o hábito de refletir sobre seu objeto estético; Manoel de Barros reflete sobre a linguagem. Dá continuidade, pois, à tradição da ruptura, inserindo-se na tradição Sobre a opção pelo adjetivo manoelino(a): Andréa Serpa de Mendonça e Ricardo Alexandre Rodrigues, em seus respectivos estudos, adotam o adjetivo barreano(a); Afonso de Castro usa tanto a primeira quanto a segunda formas (utiliza barreano com maior freqüência); optamos por manoelino(a), obedecendo aos versos do poeta, em que diz escrever em “idioleto manoelês archaico” (Barros, 2004-b, p.43). Ambas as denominações, entretanto, estão corretas. 4 moderna do poeta-crítico da palavra. Ao se desdobrar em poeta crítico e teórico da própria poesia, Manoel de Barros não pode deixar de recorrer à metalinguagem, ao metapoema. O tema principal deste estudo é a função instauradora da memória na poesia de Manoel de Barros. Trata-se de uma memória cósmica, poética, que se diferencia da memória biográfica, que apenas rememora. O puro relato decompõe, enquanto a memória poética gera, é cosmogônica. A memória cósmica, na obra manoelina, tem o condão de trazer as coisas de suas ancestralidades enterradas nas origens para a vida do poema. A partir deste tema principal, pensaremos a obra manoelina em outras quatro fontes temáticas genéticas: (meta)linguagem, infância, terra e inutilidades. Dificilmente se poderá estabelecer uma hierarquia entre os temas, e cada um deles merecerá capítulo à parte na dissertação, sempre com a preocupação de estabelecer as relações de cada temática com as demais. A obra de Manoel de Barros reclama este cuidado: todos os temas articulam-se na poesia. A questão da memória, portanto, é principal para o nosso estudo, por acreditarmos que contribui para a crítica manoelina examinando um aspecto até então pouco aprofundado; para a obra manoelina, a memória é tema que se iguala aos demais, não possuindo soberania sobre nenhum outro. Para abordar os cinco temas, guiar-nos-emos principalmente pelos ensaios do filósofo Gaston Bachelard (em especial, A poética do devaneio e A intuição do instante) e do ensaísta Ronaldes de Melo e Sousa (com o ensaio “A criatividade da memória”). Nos textos de ambos os pensadores encontramos observações com as quais concordamos e julgamos serem adequadas ao presente estudo. Feitas as advertências necessárias, cumpre ressaltar o cuidado com o texto poético. Estamos diante de uma poesia que deixa o leitor desorientado, que não fornece referências por onde o leitor possa se escorar, se amparar, diante do delírio da palavra. É o exercício da língua que foge do costumeiro, e não se pode classificar aquilo que foge aos padrões da normalidade (classificar é comparar; com o que o leitor poderia comparar a poesia manoelina?). A obra de todo grande autor requer leitura própria, viés específico. Manoel de Barros, nome celebrado pela crítica mais séria e douta, não pode ser compreendido senão por sua própria poesia, i.e., a poesia manoelina orienta sua própria leitura. Nas palavras de Antonio Houaiss, na introdução a Arranjos para assobio, de 1982: “a poesia de Manoel de Barros tem a sua máxima expressão na poesia de Manoel de Barros.” (Barros, 1982, p.10). O escopo teórico faz-se oportuno na medida em que enriquece aquela leitura, desdobrando-se em outras. Contudo, é necessário refrear o uso excessivo das teorias, evitando o agravo à palavra inaugural de Manoel de Barros, tão refratária ao racionalismo, com o risco de nos afastarmos daquilo que nos move – a poesia. Tomemos o sábio ensinamento do verso drummondiano: “Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.” (Andrade, 2004, p.158). Prossigamos, pois, ladeando a poesia. 1.1 Breve nota sobre a crítica De acordo com o que registra Afonso de Castro, em A poética de Manoel de Barros: a linguagem e a volta à infância (sobre o qual se falará adiante), de 1991, as primeiras manifestações da crítica acerca da obra do poeta mato-grossense têm início a partir de 1988. São artigos específicos, publicados em jornais e revistas, com o intuito jornalístico de divulgação. Por se destinarem a um público – de certa forma – amplo e variado, abordam o fazer poético manoelino em linguagem acessível, sem ousados vôos críticos, sendo, muitas vezes, repetitivas as observações. A esta época, a obra de Manoel de Barros era alheia à grande massa; hoje, embora sua obra não se tenha massificado (felizmente, talvez, e dificilmente tal poesia meticulosa e trabalhada alcançaria uma compreensão massiva), é já amplamente conhecida e reconhecidamente notória. Os críticos de outrora, desbravadores, tiveram acesso a um projeto poético ainda em formação. É bem certo que a maturidade poética de Manoel de Barros se evidencia, principalmente, a partir de 1974, com Matéria de poesia, e muito provavelmente a crítica não se encontrava ainda preparada para compreender o esplendor e a singularidade de sua poesia. Os grandes poetas estão sempre um passo adiante de seu tempo, de modo que serão estudados pela crítica futura. Por fim, convém ressaltar, lembra-nos Afonso de Castro, o trabalho de alguns críticos, a saber, o de Ana Accioly, de Berta Waldman e de Sérgio Rubens Sossélla, que, em suas notações, “foram além dos objetivos primeiros dos artigos – dar informações – e aventuraram a aprofundar a sua crítica, estabelecendo parâmetros mais originais e pontos de vista como hipóteses de leituras da obra de Manoel de Barros.” (Castro, 1991, p. 62). O estudo monográfico pioneiro, assim nos parece, foi o de José Fernandes, publicado em 1987, intitulado A loucura da palavra. Creditando à poesia manoelina características de uma estética madura e aguçada, Fernandes identifica imediatamente na potência poética da palavra (i.e., a “loucura da palavra”), três aspectos ímpares de sua poesia: a organização singular das idéias, o lide com a linguagem e a preocupação em registrar sua poética (metalinguagem). Partindo da linguagem, o crítico destaca o exercício imagético manoelino, centrado, segundo crê, no cromatismo. Parece acertar, em alguns momentos, ao observar que a imagética trabalhada através da cor é, na poesia de Manoel de Barros, um rico processo de revitalização da língua, do léxico. Entretanto, o viés crítico de Fernandes procura equiparar a obra manoelina com o projeto estético-artístico de 1922, de modo que tende a enquadrá-la dentro de um tipo de regionalismo literário (por repetidas vezes, Fernandes parece ler nosso poeta à luz de Cassiano Ricardo, tão recorrentes que são as citações que faz deste). Assim, partindo de uma noção de telurismo cromático, chega à concepção de um tropicalismo telúrico. Embora seja inegável que, na obra manoelina, “o artista se valha da natureza e das tradições locais” (Fernandes, 1987, p.12), nota-se a exasperada preocupação de ler Manoel de Barros com a lupa do Modernismo. O grande exagero descompassado que José Fernandes comete, parece-nos, é a aproximação forçada do poeta à estética surrealista, ao dizer que o processo poético manoelino “alia à técnica cubista os princípios estéticos surrealistas referentes à realidade, quando cria imagens explosivas que visam a ultrapassar a gratuidade do mundo com sua lógica e suas leis (i) racionais.” (Fernandes, 1987, p.20). Obstinado, o crítico vai ao extremo: “Conhecedor profundo dos filetes estéticos do modernismo, filia-se ao surrealismo (...)” (Fernandes, 1987, p.24). Sem compreender talvez o onirismo poético da palavra manoelina, entende que sua poesia apresenta uma visão surreal da realidade. Ora, será que existe arte verdadeiramente fiel ao real, mimética a ponto de sê-lo? Em certo sentido, toda arte é su-real, pois é um novo real, reordenado a partir do original. Maurice Joyeux, em ensaio intitulado “O surrealismo em questão”, chama atenção para um quadro mais abrangente: Estaríamos tentados a escrever que o procedimento intelectual, cujo fruto será o surrealismo, teria sido um procedimento clássico no avançar das idéias, no decorrer da história, se o surrealismo não tivesse escolhido, num determinado momento, romper com o sistema econômico, político, social e moral, cuja expressão cultural havia sido até ele, o prudente apaziguador. (Coêlho, 2001, p. 27). Desvincular o surrealismo do contexto político, colhendo dele apenas o apelo estético, parece-nos tendencioso. Manoel de Barros, assim como os surrealistas, esnoba o racionalismo (o que, para os surrealistas, era, primeiramente, uma postura ideológica) e investe no onirismo – além de apresentar outros pequenos pontos de contato. Teria a obra manoelina se abastecido de influências surrealistas? Em parte, sim, e este fato não faz de sua poesia surrealista. Em outra parte, abasteceu-se do classicismo. Do romantismo. Dos poetas árcades – enfim, a literatura nutre-se de literaturas, de modo que o esquema de referências é múltiplo. Em alguns trechos, porém, José Fernandes se contradiz – e, ao fazê-lo, acerta: “Falar é fugir do nada. Através da linguagem o poeta cria realidades contrárias à lógica, mas que possuem uma verdade: a de sua própria existência” (Fernandes, 1987, p.61). Criar “realidades contrárias à lógica” pragmática não torna necessariamente surrealista a poesia. Os acertos que o crítico faz surgem a partir do momento em que se vale das leituras de Martin Heidegger. Quando abandona o homem e examina as coisas, confere mais consistência às suas observações: “O poeta, no momento da criação, é um deus que infunde vida às coisas através do nome.” (Fernandes, 1987, p.54). Ou, ainda, ao entender que a essência da poesia manoelina “é a transmigração das essências das coisas.” (Fernandes, 1987, p.71). Ainda assim, como nota Afonso de Castro, Fernandes não domina a teoria heideggeriana, e talvez por isso não se aprofunde nas questões do ser – distanciando-se, então, do poço poético de Manoel de Barros. Na conclusão, reafirma e conclui sua intenção primeira, ou seja, examinar a obra manoelina tendo-se como parâmetro o modernismo (em especial, o brasileiro), de forma a enquadrá-la dentro da estética modernista, realçando-lhe forçosamente os tons surrealistas. Toda leitura se faz a partir do aparato crítico que se tem às mãos; no caso de Fernandes, seus óculos foram as teorias surrealistas (em nosso caso, serão as da hermenêutica); não há crítica que abarque a totalidade. Ressalvados os exageros, contudo, o estudo do professor José Fernandes foi fundamental para o surgimento de novos caminhos para o estudo da poesia de Manoel de Barros, particularmente o competente trabalho de Afonso de Castro. Em 1991, surge, no meio acadêmico, A poética de Manoel de Barros: a linguagem e a volta à infância, de Afonso de Castro, defendida como dissertação de mestrado na Universidade de Brasília. A crítica da obra manoelina avança qualitativamente, em trabalho de firme competência teórica que se utiliza, como fonte, das teorias hermenêuticas de Martin Heidegger, Hans-Georg Gadamer e Gaston Bachelard – bem como das concepções de Paul Ricoeur sobre a metáfora. Não é apenas o domínio da teoria que confere vigor ao estudo de Afonso, mas, principalmente, sua capacidade de ler a poesia manoelina a partir dela própria – entendimento de que a própria poesia estabelece os roteiros de sua leitura. A grande conquista deste ensaio monográfico é a de investigar os caminhos poéticos que definam a poética manoelina. Logo, parece-nos louvável o resultado obtido, uma vez que Afonso não dispunha de Fortuna Crítica em que se pudesse amparar; teve de desbravar nova rota, e, tratando-se de explicitar a poética de um autor, encontrou pela frente intransponível Adamastor. Ao se propor a descobrir a poética manoelina, obteve êxito explicitando as principais características da composição de sua poesia. Atento, Afonso de Castro identifica já em Poemas concebidos sem pecados (1937), primeiro livro de Manoel de Barros, algumas das características estéticas que marcam sua obra, tais como o aproveitamento engenhoso do linguajar corumbaense (em vocábulos como “disremelar”, “disilimina”, “bigiando”, “disaprender”, etc.), a escolha de tipos como crianças, loucos, exóticos, etc. e a presença da metáfora como ferramenta de trabalho do poeta. Aponta – certeiramente, acreditamos – para a existência de metáforas-gérmens recorrentes ao longo de sua obra posterior. A função particular da metáfora na obra manoelina mereceu importante capítulo em seu trabalho, no qual soube mostrar a relação genética entre a metáfora e a imagem na estruturação da poesia – a metáfora como tensão entre identidade e diferença durante a criação poética, veículo da imaginação inaugurando o novo, no esplendor da imagem, aurora da palavra: “Tudo depende da imaginação para poder ver a diferença e produzir-se um sentido novo.” (Castro, 1991, p.80). Todavia, é ao abordar o poder instaurador da palavra e o retorno à infância que o estudo de Afonso de Castro define seus contornos de louvor. Preocupado com a linguagem, o ensaísta destaca com minúcias o processo criativo por meio das palavras comuns, das criações vocabulares, seja por paradigmas (“olhoso”, “pedral” e “vespral”, por exemplo, em que se vale do paradigma da derivação sufixal para constituir tais palavras), por associações sinestésicas (“amareluz”, “anubranco”) ou por livre inovação vocabular (como em “boquiabriu-se”, “peschibeque”) – ou, ainda, por “aderências” às palavras, a fim de captar-lhes o encantamento e fluir suas essências. O poeta inaugura a agramaticalidade como possibilidade de revitalização lúdica da linguagem. O crítico parece encontrar o sentido da poética manoelina na medida em que reconhece em seus temas variações do mesmo, o encantamento da palavra inaugural: “Transforma-se em poeta de um só tema: a palavra a ser inventada e, com ela, toda a realidade.” (Castro, 1991, p.12). Há na palavra, realmente, a fonte do ser; contudo – e apesar de que todos os temas da poética manoelina se apresentem de fato como espécies de variações deste mesmo tema –, há outros temas igualmente importantes em sua obra, que serão discutidos mais adiante. O poeta ausculta o emergir das palavras, nomeando o ser nas coisas emergentes, conferindo-lhes presença na vida do poema. Em contato com o cosmos, a matéria enérgica atravessa a voz poética da poesia manoelina, tomando corpo pela palavra. A palavra é original e originante. Neste processo, a nadificação se faz necessária para constituir o deveniente: “Ninguém é pai de um poema sem morrer” (Barros, 1982, p. 23). O poeta, pai do poema, precisa descer ao nada para o acontecer poético. Assim, tornase necessário dizer com Bachelard: “Não há poesia anterior ao ato da palavra poética. Não há realidade anterior à imagem literária.” (Castro, 1991, p.104). Manoel de Barros, encantador de palavras, comunga da visão a partir do horizonte das coisas, pois “o que desabre o ser é ver e ver-se.” (Barros, 2003-d, p.23). Chega-se, então, à descoberta maior de Afonso de Castro, revelação principal de seu estudo: “Atingir a linguagem inaugural é o objetivo poético de Manoel de Barros.” (Castro, 1991, p.142). Sobre a palavra, há de se destacar ainda a relevante observação que o ensaísta faz sobre dois processos de utilização da linguagem na obra manoelina: os arquissemas e as gags. Os primeiros são “palavras ancestrais que poderosamente lhe comandam o subterrâneo de seu ser. São mais ou menos as seguintes: Parede, árvore, sapo, lesma, antro, musgo, boca, rã, água, pedra e caracol.” (Castro, 1991, p.144-145). Já as gags, são molecagens do idioma, espécies de piadas poéticas, de humor imagético. Nas palavras do próprio Manoel de Barros: “gags – são alegres sandices cometidas com imagens. Eu faço gags com as palavras.” (Barros, apud Castro, 1991, p.145). Exemplo de gags: “Lagartixas têm odor verde.” (Barros, 2004-d, p.29). Se a palavra é fulcral para o poeta, a infância, contato primeiro com a linguagem, não poderia deixar de sê-lo, igualmente. Deslumbramento na contemplação do mundo pela primeira vez, lugar/tempo ideal da vida, a infância é, ao mesmo tempo, a revitalização do presente e o mergulho na ancestralidade. É o berço das origens, ou, como menciona Ronaldes de Melo e Souza: “A infância é a potência poética do homem (...) A infância permanente é a garantia da poesia da vida (...)”. (Souza, apud Castro, 1991, p.176). O retorno à infância, potência cósmica de todas as possibilidades, permite “uma cosmicização do homem e uma humanização do universo.” (Castro, 1991, p.178). A partir do tema da infância, portanto, Afonso de Castro traça o elo invisível entre infância e palavra, em que a infância é a verdadeira matriz da linguagem. Parece-nos, assim, uma observação atenta ao fazer poético de Manoel de Barros, uma vez que o retorno às origens, em sua obra, é a origem das coisas; a transubstanciação das coisas e dos seres tem na infância seu manancial, raiz liquida. Afonso aponta, com Bachelard, para o poder da inocência no arquétipo da infância, esplendor maravilhado do onirismo mágico, instauração incessante de novas imagens, de um novo cosmos: “Só a inocência, como estado de beatitude, desprezível aos preocupados homens em conquista da vida, instaura o mundo sonhado pelo poeta.” (Castro, 1991, p.187). Palavra e infância, então, apresentamse indissociáveis na obra do poeta mato-grossense. Adiante retomaremos alguns apontamentos de Afonso – em especial, um ponto com o qual concordamos: a memória, na obra manoelina, não lembra fatos históricos. Por fim, Afonso de Castro conclui que a evolução poética de Manoel de Barros tem na palavra o centro e o substrato de seu motivo de ser. A princípio, ao se referir aos primeiros livros do poeta, o estudioso fazia menção, constantemente, a um projeto poético. Foi competente, no decorrer do estudo, ao identificar, com a publicação de Arranjos para Assobio, de 1982, a consolidação da poética manoelina. Soube, inclusive, rastrear com acerto os futuros passos da poesia manoelina (publicada após 1991), de modo que seus apontamentos são atualíssimos, podendo ser notados inclusive no último livro do poeta, Memórias inventadas: a segunda infância, de 2006 (cronologicamente, há livro mais recente, Poeminha em língua de brincar, de 2007; contudo, Memórias é livro mais relevante). Crítico atento e minucioso, Afonso não deixa de condenar, implicitamente, no último parágrafo de seu estudo, a insistência catalográfica de José Fernandes para com o surrealismo: “O presente trabalho não teve a finalidade ou pretensão de querer relacionar o poeta Manoel de Barros a qualquer outro poeta nacional, a correntes poéticas ou a movimentos literários contemporâneos.” (Castro, 1991, p. 215). Afirma – e concordamos – que Manoel de Barros é único, e sua obra não aceita rótulos ou agrupamentos forçados. Sua força vigora pela originalidade, pela diferença – indiferente às correntes literárias. O referido estudo, pelo acima exposto, abriu caminho para estudos mais maduros, mais atentos às peculiaridades da poesia manoelina, à metapoética do autor. Não se encerra aqui a Fortuna Crítica da obra de Manoel de Barros; porém, acreditamos que os referidos estudos são os mais dignos de nota – o de José Fernandes, pelo pioneirismo, e o de Afonso de Castro, por desvendar os alicerces da poética manoelina, pondo em foco questões originais por meio de observações tão justas que ainda hoje não foram superadas. 2 Recordações poéticas O verso inaugural de Poemas concebidos sem pecado (1937) funda o processo poético de Manoel de Barros, batizando o nascimento de “Cabeludinho”5, uma representação mnêmica de uma infância inventada: Sob o canto do bate-num-quara nasceu Cabeludinho bem diferente de Iracema desandando pouquíssima poesia o que desculpa a insuficiência do canto mas explica a sua vida que juro ser o essencial - Vai desremelar esse olho, menino! - Vai cortar esse cabelão, menino! Eram os gritos de Nhanhá. (Barros, 2005, p.9). Em livro recente – portanto, distanciado no tempo em relação ao de 1937 -, intitulado Memórias inventadas: a infância (2003), a figura de “Cabeludinho” retorna em texto homônimo (espécie de prosa poética), juntamente com outras fabulações de um tempo anterior: Quando a Vó me recebeu nas férias, ela me apresentou aos amigos: Este é meu neto. Ele foi estudar no Rio e voltou de ateu. Ela disse que eu voltei de ateu. Aquela preposição deslocada me fantasiava de ateu. Como quem dissesse no Carnaval: aquele menino está fantasiado de palhaço. Minha avó entendia de regências verbais. Ela falava de sério. Mas todo-mundo riu. Porque aquela preposição deslocada podia fazer de uma informação um chiste. E fez. E mais: eu acho que buscar a beleza nas palavras é uma solenidade de amor. E pode ser instrumento de rir. De outra feita, no meio da pelada um menino gritou: Disilimina esse, Cabeludinho. Eu não disiliminei ninguém. Mas aquele verbo novo trouxe um perfume de poesia à nossa quadra. Aprendi nessas férias a brincar de palavras mais do que trabalhar com elas. Comecei a não gostar de palavra engavetada. Aquela que não pode mudar de lugar. Afonso de Castro informa, inclusive, que o primeiro livro de Manoel de Barros, cujo título conhecido é Poemas concebidos sem pecado, teve por título, inicialmente, Cabeludinho (Castro, 1991, p.19). 5 Aprendi a gostar mais das palavras pelo que elas entoam do que pelo que elas informam. Por depois ouvi um vaqueiro a cantar com saudade: Ai morena, não me escreve / que eu não sei a ler. Aquele a preposto ao verbo ler, ao meu ouvir, ampliava a solidão do vaqueiro. (Barros, 2003, p.37). O episódio da avó (Nhanhá) que “fantasia” o neto de ateu, a partida de futebol em que se encena o inusitado neologismo e a cantiga do vaqueiro (cujo nome – Cláudio – pode inferir o leitor que cotejar ambos os livros) encontram-se presentes, cada qual, em diferentes poemas de Poemas concebidos sem pecado. Os episódios são agora reencenados, e o vínculo factual com a realidade é já desautorizado na epígrafe destas Memórias inventadas: “Tudo o que não invento é falso” (outro dialogismo interno, uma vez que o verso se encontra em Livro sobre nada, de 1996). Sem nos esforçarmos em busca de originalidade, aceitamos a lição do mestre português: “o poeta é um fingidor” (Pessoa, 1977, p.164). A questão da memória, como se começa a perceber, apresenta-se na obra de Manoel de Barros em um sentido que ultrapassa o senso comum. Não se trata da memória que rememora um episódio vivido. Segundo o entendimento aqui adotado, a rememoração é partícula, composição minúscula da memória em sua poesia. Seria mais oportuno entendê-la, a memória, como uma espécie peculiar: a recordação poética é invenção, imaginação. Para ser mais apropriado a um estudo da poesia de Manoel de Barros, buscase entender que o pensamento imaginário resulta da produção de encantamentos. A estruturação da realidade interna da poesia manoelina leva em consideração o poder do encantamento, apoiando-se assiduamente nas percepções e reminiscências externas – sem, com isso, distanciar-se totalmente do real (a função anímico-poética do encantamento expõe-se com maior acuidade ao leitor em Ensaios fotográficos, de 1998). A imaginação é elemento imanente à composição artística (em especial, no caso da poesia), de modo que associá-la ao estruturar-se de uma outra realidade – a do objeto artístico – tornou-se uma assertiva freqüente nos discursos da Crítica. Todavia, a ressalva sensível ao poder mágico da poesia consiste num aspecto característico da poética do mato-grossense Manoel de Barros. Aquilo que é conservado pela memória (os núcleos de infância, para Bachelard6) está em comunhão íntima com uma (re)criação desta memória a partir da imaginação/invenção: a transformação da realidade e a formação das (novas) imagens. Nas palavras de Manoel de Barros a seu editor: “Quando falei um dia que não seria capaz de continuar as Memórias Inventadas com as partes da mocidade e da velhice, falei que era porque eu só tive infância! (...) Porque me abasteço na infância e minha palavra é Bem-deraiz e bebe na fonte do ser”7 (contracapa de Memórias inventadas: a segunda infância, de 2006). Fonte, nascedouro, jorro cosmogônico da memória, da palavra, da poesia – de tudo. A infância é o instante poético cristalizado, fragmento puntiforme de uma memória cósmica capaz de dinamizar toda uma poética. Distanciado no tempo pela cronologia do relógio em relação à infância, sob o olhar encantado do poeta, está próximo até mesmo das ancestralidades primitivas, pois “Quem se/ aproxima das origens se renova.” (Barros, 2006-a, p.59). Beber na infância, fonte do ser, é a garantia de uma poesia encantada pela magia da palavra poética, cosmogônica. Nota-se uma diferença entre uma memória de história e uma memória de cosmos. Não se trata de observações feitas pelo biógrafo, registros datados no espaço-tempo, à revelia da dinâmica mnêmica. A memória de cosmos é incapaz da rememoração cronológica: “Um dia Nhanhá Gertrudes fazia bolo de arroz./ Negra Margarida socava Na Poética do devaneio, em capítulo sobre “Os devaneios voltados para a infância”, Gaston Bachelard procura mostrar como o devaneio poético se vale da infância para (re)criar memórias. Para o filósofo, o poeta é uma criança solitária, que se isola para encontrar no fundo de si a origem das origens. (Bachelard, 2006, p. 94). 7 Também na Poética do devaneio, Bachelard menciona que “a infância é o poço do ser” (Id., p. 109). 6 pilão./ E eu nem sei o que fazia mesmo.” (Barros, 2005, p.40). Não há certeza factual, de modo que a veracidade histórica dos acontecimentos não importa e nem pode ser comprovada. O fato, na memória de cosmos, é fluido. Éter! Na obra de Manoel de Barros, portanto, a memória apresenta uma peculiaridade que a distancia da memória geral. Seja a memória (inventada) do “eu”, seja a das coisas e dos seres, seja a da terra ou mesmo a da própria memória, em sua poesia, a memória é criativa, cosmogônica – e inventa a própria poesia: “Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que/ são inventadas.” (Barros, 2004-b, p.69). As forças imaginantes criam, ao mesmo tempo, o novo e o profundo e anterior. É sempre uma potência criativa na obra de Manoel de Barros, memória da imaginação, e aglutina o que passou e o que virá (presentificado no vir-a-ser do poema). Simultaneamente, a memória instaura a palavra, a palavra instala a memória: “Nunca morei longe do meu país./ Entretanto padeço de lonjuras” (Barros, 2003-a, p.49). A inventividade mnêmica da palavra manoelina reflete uma necessidade por lonjuras primitivas, que a biografia do homem por trás do poeta não registrou, pois dorme no poço do homem, na infância coletiva e anônima. Curiosamente, os versos citados são de poema intitulado “Doença”, em que assume seu olhar para as coisas rentes do chão e perdidas na memória órfã das origens como um exílio da morada racionalista do ser, como busca da memória cósmica. A memória como fundamento cósmico de uma obra de arte é o que ressalta a função poética de seu discurso. O puro relato decompõe, enquanto a memória poética põe em estado de geração contínua – e daí se compreende que episódios como os de Cabeludinho “fantasiado” de ateu possam ressurgir de forma diversa na obra de um mesmo autor, porque em incessante recriação. Além disso, a cada nova obra o poeta morre, como anunciam os versos do poema “Auto-retrato”, de Ensaios fotográficos (2000): “Depois eu já morri 14 vezes./ (...) Escrevi 14 livros” (Barros, 2003-a, p.45). E a cada obra renasce: “São todos repetições do primeiro.” (Id., ibid.). 2.1 Poesia, fonte do ser – temáticas cosmogônicas O principal objetivo do nosso estudo reside na natureza da criação literária moldada pela poesia de Manoel de Barros. Toma-se, como preocupação maior, a investigação da gênese dessa poesia cósmica, destacando-se as cinco temáticas geradoras de sua poética: memória, (meta)linguagem, infância, terra e inutilidades. Chamamos de inutilidades as miudezas, os inutensílios poético-telúricos, as insignificâncias e desimportâncias privilegiadas ao longo de sua obra, tais como pregos, latas, brejos, pedras, estrumes, mendigos, liquens, índios bugres, etc. Todos seres de miúda importância para o mundo pragmático dos homens. Ao reconhecer os temas, procura-se não estabelecer hierarquias, uma vez que todos eles se apresentam inter-relacionados – e de modo que nenhum dos temas possui autonomia absoluta (ainda assim, porém, a simples enumeração dos temas já implica uma relação valorativo-hierárquica.). Uma análise estanque de cada tema soa empobrecedor. Antes, porém, procura-se agregar os cinco temas, uma vez que exploram resoluções diferentes para um mesmo impulso criador. As temáticas voltadas para a terra e miudezas envolvem forças germinativas materiais. Suscitam – nas palavras de José Américo Motta Pessanha, em “Bachelard: as asas da imaginação”, estudo introdutório a O direito de sonhar, de Gaston Bachelard – as “quatro raízes ou elementos primordiais que Empédocles de Agrigento apontava como as quatro grandes províncias-matrizes do cosmos: o ar, a água, a terra, o fogo.” (Pessanha, 1991, p.xiv). Quando da verificação de tais temas, será de extremo relevo para nosso estudo a contribuição dada pelas teorias de Bachelard acerca da imaginação material. A fim de conhecer o processo e o sentido cosmo-genético da poesia de Manoel de Barros, o método a ser utilizado será o da hermenêutica. As duas principais fontes hermeneutas a que se recorrerá serão as teorias filosóficas de Gaston Bachelard e o ensaio “A criatividade da memória”, de Ronaldes de Melo e Souza (que nos será fundamental para o entendimento cósmico e telúrico da memória). A teoria filosófica fulcral em que se apoiará a dissertação será a do hermeneuta Gaston Bachelard. Afastando-se da concepção bergsoniana, Bachelard compreende a matéria como força vital e de elementaridade energética. Posiciona-se à distância do primado racionalista e ocupa-se da constituição poética do devaneio humano. Este filósofo procura entender o devaneio como uma fuga para fora do real, para um novo universo regido por leis próprias. Neste sentido, o devaneio é poético e cósmico, atemporal e anônimo (daí se poder equiparar o sonho da criança ao devaneio dos poetas). Bachelard aproveita para suas teorias o rendimento poético da memória, da terra e da infância – o que reforça a importância de seus apontamentos para o presente estudo. Segundo o hermeneuta, o cosmo antecede o homem (por isso, uma memória cósmica/poética não tem data e é anônima; decorre daí não se poder entendê-la como rememoração). Destacam-se, ainda, o papel da imagem e o da imaginação na poesia. Enquanto uma imagem poética pode ser o germe de um mundo, a imaginação tem sua importância, para Bachelard, na medida em que existe como processo criador. A imaginação opera a imagem. Pode-se entender que, na criação poética, a consciência imaginante está relacionada à criatividade da memória. O referido estudo do professor e ensaísta Ronaldes de Melo e Souza nos pareceu de fundamental e inovadora relevância para um exame da gênese da poética manoelina. Nesse ensaio, Ronaldes recupera, via tradição helênica (e pré), a conexão entre cultura, culto, mito, memória e criação. Distanciando-se da memória que rememora (como bem entende o senso comum), o ensaísta repara (n)o poder de ampliação criativa que o mito opera ao atualizar a memória. A memória, se criativa, restaura a poiésis e instala um novo cosmos. Em Manoel de Barros, a memória é o princípio, a gênese de um cosmos que se arraiga no nada. Ainda no mesmo ensaio, o exame da Teogonia, de Hesíodo, e do Hino a Zeus, de Píndaro, permite contemplar a filiação da memória. O ensaísta aponta para duas genealogias: segundo uma delas, Gaia (a origem de tudo), contrai núpcias com Ouranos, gerando Mnemósyne – e das núpcias de Mnemósyne e Zeus surgem as Musas; conforme a outra, as Musas são telúricas, forças germinativas da natureza e, portanto, anteriores às Musas Olímpicas. Ronaldes demonstra como os étimos possíveis da palavra “musa” são as raízes mons (Monte) e men/mon (Memória). Após detalhada argumentação, conclui que o sentido mais coerente é aquele que remonta à Calipso, à gruta originante. Se se pode relacionar intimamente memória, musa e terra, não há como não pensar em Manoel de Barros – cujo processo poético é marcado por uma cosmo-gênese ontológica. Uma cosmologia só é possível porque existe uma gestação caótica (escondida na gruta, na terra), uma deformação que se enforma na sua constituição. A memória, na poesia manoelina, vem do poço do ser, vem do fosso do ser – da gruta do ser. É telúrica, por isso cósmica: “Nas minhas memórias enterradas/ Vão achar muitas conchas ressoando...” (Barros, 2006b, p.65). Os temas da memória e da infância (em consonância direta), portanto, serão debatidos no bojo dos textos críticos citados. Já o tema da palavra, da (meta)linguagem, será aquele que melhor articulará os demais temas, uma vez que o devaneio da palavra é a origem da poesia. Ao tratar de cada tema, já se estará tratando do tema da linguagem, uma vez que seria improvável entender as entidades cósmicas do poema sem reparar na força germinativa do verbo. As imagens da terra e da infância estão ligadas à intimidade de dentro (um interno anterior e cosmogônico). Com isso, deve-se explorar a relação entre imagem e imaginação – entre a criação e sua materialidade. A imagética da poesia de Manoel de Barros merece, portanto, atenção especial. Não se pode pensar em poesia sem antes pressupor uma linguagem poética. Ou, ainda: “Não se pode saber sem pressupor.” (Souza, 2001, p.10). Assim como a imagem, a palavra poética é instauradora. Em Manoel de Barros, encontra suas origens dentro e antes, em plumagens e infâncias que dormem num caos a ser cosmificado. O vir-a-ser deste cosmos, no caso da linguagem, é, em si, a própria constituição da poesia, con-fundindo-se constituinte e constituído. O berço caótico e silencioso da palavra é o nada, som que ignora surdamente a grandiloqüência dos grandes temas da poesia, pois não toca harpas, “Só uma viola quebrada/ Surda como uma porta/ Mais nada.” (Barros, 2005, p.69). Além das teorias críticas mencionadas acima, os pensamentos filosóficos de Martin Heidegger poderão ser oportunos na medida em que sua filosofia hermenêutica pensa o ser em seu des-velamento, num sentido de retorno à essência do ser, de encantamento e revelação (e, pode-se dizer, de surgimento, vir-a-ser). Heidegger concede especial atenção aos silêncios originantes do discurso (o ente se realiza no discurso) e da linguagem – daí ser possível crer que sua filosofia está em consonância com a poesia cósmica de Manoel de Barros. Para o filósofo, no lide com linguagem desvenda-se o ser das coisas. Em Manoel, a linguagem converte o ser das coisas. Uma vez mais, insistimos: pretende-se evitar uma concepção da memória como rememoração. Ler a poesia que trata da memória como recordação do vivido é desconhecer sua natureza poética. É mesmo difícil crer na reprodução fidedigna e irretocável que a recordação que rememora pode fazer de uma realidade vivida; convém destacar, ainda, a falta de acordo com que boa parte dos estudos da crítica voltada ao tema trata do biografismo (em sua maioria, destinada a obras de ficção). Deve-se, ainda, evitar uma aproximação exagerada da poesia de Manoel de Barros com a poesia surrealista, como José Fernandes parece fazer em A loucura da palavra (1987). A rigor, toda obra se arte se alça para além do real. No caso do poeta mato-grossense, há uma originalidade na gestação da realidade poética que se afasta da estética surrealista. Não se pode esperar de uma obra verdadeiramente poética que ela não reestruture a sintaxe e a semântica das coisas, dos sentidos e do real. O estudo que ora se inicia sobre a obra de Manoel de Barros parte do inconteste pressuposto de que a obra cria a sua própria poética. Ou seja: cada obra cria os parâmetros que regulam a sua existência. Ou, ainda: toda obra elabora os roteiros teóricos de sua interpretação. Assim, cremos que se deve encontrar na poesia de Manoel de Barros argumentos que justifiquem as interpretações da obra manoelina (novamente, explica-se o viés predominantemente hermenêutico de nosso exame). Ampliando-se esta observação para uma macro-leitura, pode-se pensar na obra como uma metapoética da poética. Em nenhuma outra poesia a natureza, os pássaros, os pregos, os ciscos, os nadas etc. adquirem uma dimensão ontológica como na de Manoel de Barros. Como o canto de Orfeu, o encanto da poesia manoelina desperta a vida que fervilha enraizada nos subsolos de suas existências. O deslumbramento das origens multiplica a vida nas coisas, exilandose da morada histórico-racionalista do homem. O princípio criativo-imaginativo enforma imagens que transformam o universo dos seres em um cosmos encantado, à maneira de uma flauta órfica. A palavra deslumbrada, na poesia manoelina, é o veículo do vir-a-ser do ser das coisas. Com isso, amplifica-se o valor dos ínfimos e desimportantes entes, uma vez que adquirem o status vivaz do ser. A palavra em estado encantado de poesia, palavra órfica, fonte do ser: “Orfeu canta a memória das origens” (Souza, 2001, p.24). Manoel de Barros, porém, recusará a flauta ou a harpa por sentir nas vibrações surdas da viola de cocho elemento mais íntimo do solo pantaneiro, onde dormem as origens de sua poesia. Torna-se mais fácil compreender, então, a peculiaridade da memória cósmica, que conserva a mesma potência mitopoética do canto órfico. 3 Memória, potência cósmica O olho vê, a lembrança revê, e a imaginação transvê. É preciso transver o mundo.8 Como bem notou Afonso de Castro, no estudo A poética de Manoel de Barros: a linguagem e a volta à infância (1991), pode-se encontrar nos primeiros livros do poeta uma recorrência aos temas do passado em Corumbá (Poemas concebidos sem pecado, de 1937; A face imóvel, de 1942; e Poesias, de 1956). A partir de 1960, com Compêndio para uso de pássaros, o encanto pela palavra reclama seu lugar de destaque na obra manoelina. Há de se destacar, contudo, que o tema da memória não abandonou seus poemas, de sorte que é possível notá-lo ao longo de suas publicações. Em Livro de pré-coisas, de 1985, o primeiro verso do poema “Narrador apresenta sua terra natal” abre o livro para o cenário poético da memória toponímica: “Corumbá estava amanhecendo.” (Barros, 2003-b, p.11). Ao resgatar os lugares do passado, o poeta inclina-se para o chão, para as aves e árvores, “Quando os meus olhos estão sujos da civilização” (Id., ibid.). Anuncia, assim, o abandono que fará no poema seguinte; ao virar a página, o leitor encontra no primeiro verso do segundo poema do livro (“Em que o narrador viaja de lancha ao encontro de seu personagem”), a renúncia à lembrança biográfica em favor de uma memória de cosmos, fagulha que lhe serve de ponto de partida para o poético: “Deixamos Corumbá tardeando.” (Id., ibid.). Empreende, assim, viagem que dura toda a sua obra, garimpando nas memórias fósseis o som da vida, tentando “ouvir nas conchas as origens do 8 BARROS, Manoel de. Livro sobre nada. 11.ed. Rio de Janeiro: Record, 2004, p.75. mundo” (Barros, 2003-c, p.63) – ouvir as conchas narrarem a memória arqueológica do cosmos. Iniciada em 2003, a série de livros Autobiografia inventada reunirá três volumes, dos quais já foram publicados Memórias inventadas: a infância (2003) e Memórias inventadas: a segunda infância (2006). Ambos livros contêm a mesma epígrafe (“Tudo o que não invento é falso”) e o seguinte texto poético (que se afigura como primeiro poema em ambos os casos), intitulado “Manoel por Manoel”: Eu tenho um ermo enorme dentro do olho. Por motivo do ermo não fui um menino peralta. Agora tenho saudade do que não fui. Acho que o que faço agora é o que não pude fazer na infância. Faço outro tipo de peraltagem. Quando era criança eu deveria pular muro do vizinho para catar goiaba. Mas não havia vizinho. Em vez de peraltagem eu fazia solidão. Brincava de fingir que pedra era lagarto. Que lata era navio. Que sabugo era um serzinho mal resolvido e igual a um filhote de gafanhoto. Cresci brincando no chão, entre formigas. De uma infância livre e sem comparamentos. Eu tinha mais comunhão com as coisas do que comparação. Porque se a gente falar a partir de ser criança, a gente faz comunhão: de um orvalho e sua aranha, de uma tarde e suas garças, de um pássaro e sua árvore. Então eu trago das minhas raízes crianceiras a visão comungante e oblíqua das coisas. Eu sei dizer sem pudor que o escuro me ilumina. É um paradoxo que ajuda a poesia e que eu falo sem pudor. Eu tenho que essa visão oblíqua vem de eu ter sido criança em algum lugar perdido onde havia transfusão da natureza e comunhão com ela. Era o menino e os bichinhos. Era o menino e o sol. O menino e o rio. Era o menino e as árvores. (Barros, 2006-a, p.5). Não se pode cair na tolice de confundir a voz poética com o poeta, a persona lírica com a pessoa física. O “Manoel” que fala pelo “Manoel” é espécie de poeta-autor implícito-inventado. Sobre estas entidades – uma vez que nos interessa separar a memória inventada da biográfica –, é conveniente fazer rápidas observações. De Charles Baudelaire em diante, com o desenvolvimento da modernidade na poesia, a corrente que balizou os estudos literários foi a crítica imanentista, hermenêutica. Os esforços iniciais de Hans Robert Jauss, já em 1967, em Konstanz, delinearam os passos de um caminho que se acreditava distinto do hermeneuta, e que se convencionou denominar estética da recepção. Até então, o foco da crítica estava voltado para a interação entre texto e autor. Valorizando um pólo relevante desconsiderado pela crítica textual, a estética da recepção localiza no leitor o elemento-chave para o vir-a-ser do texto. Os estudos literários, portanto, não mais deveriam entender a literatura centrando-se no texto como um sistema fechado, “mas tão-só através de uma teoria da história que desse conta do processo dinâmico de produção e recepção e da relação dinâmica entre autor, obra e público”. (Jauss, 2002, p.71). Após estas breves notas sobre a evolução da crítica literária durante o século passado, anunciadas as linhas teóricas da hermenêutica e da recepção, exige-se, por conseguinte, o exame do conceito de autor implícito. Antes, porém, de a estética da recepção se desenvolver por meio das teorias de seus propagadores, em 1961, Wayne C. Booth publica The rhetoric of fiction. Pondo à prova os limites do conceito de autoria, Booth apresenta a noção de autor implícito. Tradicionalmente, entende-se “autor” como aquele que produz (do latim auctor, óris). Logo, escritor, entidade física. O texto ficcional, pela própria natureza de sua gênese, é uma transformação, uma duplicação – distanciando-se, na medida em que se forma, do mundo físico, extralingüístico, de que partiu. Assim sendo, o autor, segundo a concepção mais difundida, não está presente na obra – uma vez que existe no ambiente da realidade empírica. No entanto, Booth entende que há vestígios do autor na obra. Segundo o crítico, a presença está mesmo além do mero indício: Enquanto escreve, o autor não cria, simplesmente, um “homem em geral”, ideal e impessoal, mas sim uma versão implícita de si próprio, que é diferente dos autores implícitos que encontramos nas obras de outros homens. Na verdade, pareceu a alguns romancistas que se estavam a descobrir ou a criar à medida que escreviam. [Cuando escribe, no crea simplesmente “um hombre em general”, ideal, impersonal, sino también una versión implícita de sí mismo que es diferente de los autores implícitos que nos encontramos en las obras de otros. Por cierto que parece como si, al escribir, algunos novelistas estuvieram descubriéndose o creándose a sí mismos. (Booth, 1974, p.66).]. Espécie de alter ego do escritor, o autor implícito inscreve na obra literária uma persona que lhe é externa. De certa forma, parece-nos plausível que um criador, ao se empregar cautelosamente na gênese de sua criatura, nela se reconheça, como parte de si. Assim, o artista identifica em sua arte um self de si – mas não ele mesmo. De acordo com Booth, portanto, o autor implícito é uma entidade que não é o autor, mas que não pertence à obra. Estaria, se entendemos bem, situado num intervalo: o espaço entre a ficção e a realidade extralingüística. Seria uma presença que subjaz ao texto. Chega-se, deste modo, à idéia de que o autor implícito reflete um complexo de mundividências e conceitos pertencentes ao próprio autor. Põe-se em dúvida. As teorias que deram conta da noção de autor implícito tiveram como foco a ficção, não a poesia. Quando mencionamos neste estudo o Manoel de “Manoel por Manoel” como espécie de poeta-autor implícito-inventado, tomamos a liberdade criativa de relacionar a invenção poética como reordenação da realidade primeira, sob uma alcunha provisória que ressalta seu caráter poético. O Manoel que rememora tem os resquícios do Manoel que vivenciou a memória, mas, a partir do momento em que se inventa na poesia, não é mais o Manoel conhecido, e sim a figura poética sob o signo encantado da memória cósmica. Voltemos a “Manoel por Manoel”. Note-se, no referido poema, a presença de todas as temáticas geradoras da poética manoelina presentes: a memória transcriada, travessuras inventadas pela ausência de memórias de “peraltagens” pregressas; a infância dinamizada pela própria linguagem, envolta em sonhos de um menino solitário; a terra, testemunha e cúmplice com quem o menino imagina/brinca suas brincadeiras telúricas, “no chão, entre formigas”; as inutilidades miúdas e insignificantes que inauguram nova significância no devaneio de comunhão que solidariza pedra e lagarto no mesmo patamar de utilidade. Com a licença do poeta, alegaríamos que todas as temáticas fazem comunhão. Na raiz da solidão, da criança isolada, está o poeta que cria. No devaneio da criança solitária brota a palavra cosmogônica do poeta, a graça verbal da criança que “faz comunhão” com a natureza. Ora, em que outro espaço geográfico uma poesia de comunhão com a physis poderia se dar senão no Pantanal? Berço cosmogônico de uma riqueza sem-par de vidas e organismos, filhos do Nada e do húmus que latejam sob a terra – complexo transformacional que Manoel de Barros, desde criança, contempla e admira. Assim entende Bachelard: “Toda a nossa infância está por ser reimaginada. Ao reimaginá-la, temos a possibilidade de reencontrá-la na própria vida dos nossos devaneios de criança solitária.” (Bachelard, 2006, p.94). A memória é imaginativa e cósmica; imagina e cria antes de lembrar, e, ao lembrar, recria, dá cosmos novo à memória: “Assim, a infância está na origem das maiores paisagens. Nossas solidões de criança deram-nos as imensidades primitivas.” (Bachelard, 2006, p.97). Infância, exercício da imaginação parindo “paisagens”, imagens. A solidão da criança no espaço-tempo noturno do sonho (“o escuro me ilumina”), devaneia sobre a origem primeva; não sobre a origem da memória, mas sobre a memória da origem – o que há de anterior ao antes: “esse retorno ao passado não pode ser mediante lembranças de fatos históricos, mas, por meio do devaneio, do sonho, atinge-se a verdadeira dimensão de uma infância poetizada.” (Castro, 1991, p. 189-190). Deste mesmo devaneio poético experimenta a memória na obra de Manoel de Barros. Perceba-se que nos referimos à obra, uma vez que é possível notar em cada um de seus livros (em cada um de seus poemas, diríamos, com certa ousadia) a memória cósmica articulando a poesia. A infância solitária e anterior que reside na palavra não tem nome: é anônima, é um manancial de imaginação e criatividade; é cósmica, pois está sob o signo do encantamento. As raízes da poesia manoelina estão nas infâncias geradoras da terra, da memória, da infância, das inutilidades e da linguagem. Na busca pelo berço nascedouro das palavras e de todo um cosmos, uma ontologia poética transpõe os limites da lógica para encantar as coisas – e trazê-las ao ser. Inaugura-se um novo ordenamento de tudo, uma sintaxe ontológica do real poético. Na poesia de Manoel de Barros, todo o entorno extralingüístico é transcriado num real reorganizado. Destaca-se, então, a importância cósmica da memória, que gera o ser nas coisas (inclusive e, principalmente, nos ínfimos), modelando os elementos da matéria energética profunda – que provêm das mais primitivas grutas radicadas na terra. O que não há, o que ainda não existe, prontamente é convertido em presença: Entifica-se o que se conforma, nadifica-se o que se transforma. O extremo limite do que se representa é o ermo limiar do que não se apresenta na forma. (...) Para formar o não-formado, o poeta tem de situar-se entre o anverso orgânico do cosmos e o reverso não-orgânico do caos. (...) De acordo com a tensão heraclítica dos contrários ou com o uno harmonicamente oposto (harmonisch entgegengesetzt Eines), caos e cosmos reciprocamente se correspondem, e a nadificação de um arranjo cósmico é a gestação de outro.” (Souza, 2001, p. 20-21). Por isso a memória de um Cabeludinho, já cosmificada em Poemas concebidos sem pecado, pode tornar ao nada e ser re-cosmificada pela memória poética em Memórias inventadas. Com isso, põe-se em cheque o pressuposto do passado (e mesmo a expectativa do futuro). O tempo articula-se em sua totalidade, unindo as possibilidades de conjugar passado e futuro no presente: “Hoje estou quando infante. (...)/ Como quem aprecia de ir às origens de uma coisa ou de um ser.” (Barros, 2006-a, p.63). Em A intuição do instante, Bachelard debate sobre a questão temporal, opondo entre si as teorias de Henri Bergson e Gaston Roupnel. Resumidamente, a filosofia bergsoniana é aquela em que a realidade do tempo está na duração, ao passo que a filosofia roupneliana é aquela cuja realidade do tempo reside no instante. Duração e instante se opõem. Partidário da concepção roupneliana do tempo, e à luz das teoria da relatividade, de Albert Einstein, Bachelard abandona de vez a intuição do tempo como duração. Ao relativizar a duração, negamos o que poderia haver de absoluto em sua concepção. O mesmo não acontece com o instante: “o instante, estabelecido com bastante precisão, permanece, na doutrina de Einstein, um absoluto.” (Bachelard, 2007, p.34). O que se cristaliza na memória, a fonte primeira do acontecimento, é o instante. A duração é relativizada, e sofre toda sorte de alterações quanto está sujeita a trajetória de uma vida: “a lembrança da duração está entre as lembranças menos duradouras. Lembramo-nos de ter sido – não, porém, de ter durado.” (Bachelard, 2007, p.38). A memória guarda somente o instante, e ignora qualquer continuidade que lhe imponham à força. O tempo é descontínuo, fragmentado, e só nos restam as luzes isoladas de instantes-memórias. Ao poeta, resta-lhe o instante poético; onde, no êxtase da palavra, descortina-se o mundo: “eterno é tudo aquilo que vive uma fração de segundo/ mas com tamanha intensidade que se petrifica e nenhuma força o resgata” (Andrade, 2004, p.301). Segundo Bachelard, portanto, o que há é o instante. Passado e futuro são formas que derivam do instante. A consciência de passado e futuro nos chegaria pelo instante (presente). Lembrança e previsão, passado e futuro, seriam hábitos do instante, do presente. Assim, torna-se necessário entender o passado pelo presente – e não rastrear no passado justificativas para o presente. Afonso de Castro, ao se deter no universo da casa natal, centro onírico do nosso mundo, observa a força da intensidade para a palavra poética que instaura a memória, ressaltando, com palavras diferentes, o que entendemos por instante poético: “O espaço e o tempo na casa natal registram-se, pelo devaneio, num onirismo, em que a função vital da felicidade rege-os por uma cronologia e topologia poéticas, ressaltando a intensidade da alegria e a duração da vida feliz, oniricamente.” (Castro, 1991, p.203). O poeta, ao se deparar diante do instante poético de uma memória que dura nele, usa a imaginação criativa da memória para reconstruí-la. O passado acontece, passa – e, se passou, significa dizer que aquilo que foi já não é mais. Quando retorna, ressurge renovado pelas forças do instante, que permanece nas cercanias do presente. Eis que se chega ao salto da criação poética dinamizada pela memória: o retorno é o retorno para o que será criado, o retorno para frente – e não para trás; o antes é o que está por ser escrito. Toda vez em que se volta para uma lembrança, volta-se para o instante primeiro dessa lembrança, o fragmento instantâneo que permanece presente. Ao recordá-la, adiciona-se a ela nova cor, nova paisagem, novos ares, daí o retorno ser um movimento renovação – portanto, anterógrado. Recria-se e existe enquanto passado na medida em que lhe trazemos para o futuro no presente. Nos domínios da gênese poética, tudo é movente, e nas plagas indefinidas da memória cósmica, caos e cosmos obedecem à dinâmica da reversibilidade dos contrários. Memória diacosmética, pois, ao criar, uma energia sagrada traspassa o poeta, que sente o toque do divino: “Experimento o gozo de Deus.” (Barros, 2004-c, p.21). A existência da memória manoelina é, pois, fluida. Não se fixa, nem mesmo se deixa reter: “Eu sou quando e depois/ Entro em águas...” (Barros, 2001-a, p.32). O tempo do instante poético é alheio à cronologia, como o poeta nos ensina em seu penúltimo livro publicado (Memórias inventadas: a segunda infância): “Por tudo isso que eu não/ gostasse de botar data na existência. Por que o/ tempo não anda pra trás.” (Barros, 2006-a, p.63). Novamente, afirmamos: o tempo da memória cósmica, ao se voltar para o passado, cria um salto para o futuro, amplificando o presente. O isótopo radioativo carbono-14 é incapaz de datar a intensidade de uma memória, a potência de um instante. A ciência ainda não inventou máquina capaz de aferir quantos cavalos de força há no vigor de um instante de sincera felicidade cristalizado pela memória. Em “Literatura, pra que serve?”, inspirado ensaio sobre as questões que envolvem a literatura, Alberto Pucheu expõe entendimento semelhante acerca do retorno ao passado, que ultrapassa a marcação cronológica: (...) um retorno ao passado: assim, o refluxo continua sendo um disparo para continuar seguindo adiante, um gatilho para o futuro, uma denotação de mais intensidade. Nada na literatura volta para trás. A literatura é sem passado, a literatura é sem retorno. O passado da literatura é um transbordamento de um presente em direção a um futuro. (Pucheu, 2004, p.228). A memória cósmica, portanto, resgata do instante sua força poética: “Acho que o que faço agora é o que não pude fazer na infância.” (Barros, 2003-c, p.3). O que faz é ser, agora, porém, experienciado na poesia. Transforma a infância do menino solitário em lembranças de peralta metido a atrevimentos. Dá vida a latas e pregos enferrujados. Faz brinquedos com as palavras – ordena seu próprio cosmos: (...) a obra de arte é a memória concriadora da patência simultaneamente desveladora e veladora da latência ontológica, e não a mera imitação da multiplicidade dos entes circunstantes nem a repetição fidedigna de um ente paradigmaticamente concentrado em sua unicidade absoluta. (Souza, 2001, p. 22). Dissolvido pontualmente pelo instante do passado-presente-futuro, o “eu” recordado/recriado na obra poética de Manoel de Barros se despersonaliza e estende-se aos demais seres, repersonalizando-se, como se pode notar no seguinte poema de Poesias, de 1956: Meus ombros emigraram de mim para os pássaros e o corpo foge roçando nos cactos secos do deserto. Oh Deus, amparai-me. Os limites me transpõem! (Barros, 1956, p.23). Ou ainda em inúmeras outras passagens da obra manoelina. A palavra encantada, toca no tom do canto órfico, e instaura a todo instante um novo cosmos – mesmo, novas realidades. A matéria maleável se curva diante da força poética da imaginação criadora e da memória cósmica, permitindo ao poeta-oleiro moldar seus poemas e torná-los habitados por suas criaturas de barro, recém retiradas do forno do caos. Na surpreendente metáfora de Ronaldes: “o nada (...) é o véu do ser” (Souza, 2001, p.31). O poeta é o noivo que, ao desposar da palavra, estende as mãos para desvelar este tecido mágico, num matrimônio encantado. Poeta: “Indivíduo que enxerga semente germinar e engole céu/ Espécie de vazadouro para contradições” (Barros, 1982, p.37), maestro que arranja as coisas dispostas na quadratura céu-terra-divino-mortal, sujeito “inviável”, que não é via, veículo, não é caminho – é, pois para ser poeta é necessária a experiência de ser, “de ver e verse.” (Barros, 2003-d, p.23). Em um rasgo de ousadia, o poeta, que já humanizou o universo e cosmicizou a si, humaniza o tempo, e nesta arrojada tarefa, o próprio poeta se impressiona, como indica a metalinguagem: Por primeiro havia que humanizar a Manhã. Torná-la biológica. Fazê-la mulher. Antesmente eu tentara coisificar as pessoas e humanizar as coisas. Porém humanizar o tempo! (Barros, 2003-c, p.15). Fundar os organismos do tempo para poder dissecá-lo. Humanizado, o tempo só pode surgir sob símbolo do feminino, pois é matéria poética, fértil, e desperta a memória ancestral do ser. Com o tempo humanizado, pode inventar a partir do nada, como faz em entrevista concedida a Antônio Gonçalves Filho para a Folha de S. Paulo: Bom é inventar. Vou inventar. Há um silêncio parado banhando as moscas. Eu tenho nostalgia do aventureiro nômade, que eu nunca fui. Sou isso só de livro. Esse aventureiro anda agarrado em minhas palavras como craca. Quando uma palavra obtém um lado do poeta é que essa palavra está suja dele, de seus abismos, de sua infância, de seus escuros. (Barros, 1990, p.321). Reavivar a memória, no mais das vezes, incita a buscar na infância a fonte das recordações, a tornar o adulto criança, vivenciando novamente as brincadeiras pueris, num ludismo de linguagem, manuseando a elementaridade enérgica da imaginação. A memória que é poética (e cósmica), re-instaura o instante vivido num novo instante, fundindo os tempos na novidade da palavra poética. A palavra instauradora é, como a Fênix (mais um tema para a fenomenologia da imaginação, como crê Bachelard), surgimento ininterrupto: “ela se inflama em seus próprios fogos; ela renasce de suas próprias cinzas.” (Bachelard, 1990, p.52). Nos versos de Manoel de Barros: “A língua era torta/ Verbos sumiam no fogo” (Barros, 2001-a, p.47). Boca, por exemplo, meio de exteriorização da fala (também do repouso, silêncio), é “Brasa verdejante que se usa em música” (Barros, 1982, p.36). Brasa, em que há cinzas. A palavra cósmica é o fiat lux da poesia, o fogo que a origina. O poeta que se move pela dinâmica da memória cósmica quer encontrar as origens na palavra, quer encontrar “o feto do verbo”, pois urge buscar sentidos para o que é insensato diante de um mundo dominado pelo razoável – resgatar a palavra antes de ser contaminada pelos imperativos utilitaristas da Lógica: Depois que iniciei minha ascensão para a infância, Foi que vi como o adulto é sensato! Pois como não tomar banho nu no rio entre pássaros? Como não furar lona de circo para ver os palhaços? Como não ascender ainda mais até na ausência da voz? (Ausência da voz é infantia, com t, em latim.) Pois como não ascender até a ausência da voz – Lá onde a gente pode ver o próprio feto do verbo – ainda sem movimento. Aonde a gente pode enxergar o feto dos nomes – ainda sem penugens. Por que não voltar a apalpar as primeiras formas da pedra. A escutar Os primeiros pios dos pássaros. A ver As primeiras cores do amanhecer. Como não voltar para onde a invenção está virgem? Por que não ascender de volta para o tartamundo! (Barros, 2001-b, p.41). O poço originante para o poeta é onde palavras não têm penugens, substância pura. Memória pura, intacta – instante poético. O adulto se restaura na infância, terreno encantado pela magia das palavras e imagens nascentes. Eis o acontecer cósmico, impulsionado pelo poetar pensante do encantador de palavras e pela memória incessantemente originante. Se a infância é a ausência da voz, o silêncio é a continuidade caótica do nada, à espera da memória vir resgatar-lhe suas criações e criaturas, seu cosmos. Lá onde os pios, as cores, os sons são primeiros, onde a palavra é virgem, mundo do tártaro, subterrâneo aonde o poeta deve descer, tal Orfeu, e operar a catábase poética para o mundo das possibilidades de vir-a-ser do ser das coisas: “O poder de Orfeu decorre de sua descida ao subsolo materno do mundo, onde fervilham as raízes da vida. No seu canto se respira o divino zoogônico, que subage na criação de todos os entes.” (Souza, 2001, p. 23-24). Paradoxalmente, este poema da descida ao “tartamundo” tem o título de “Ascensão”, o que nos faz crer, como já mencionado anteriormente, que o retorno para baixo é, na verdade, um movimento para cima. A elevação é um movimento vertiginoso de queda para o chão (mais adiante, ao mencionarmos a figura do avô em um poema de Manoel de Barros, desenvolveremos esta imagem). A memória cósmica, na ânsia catabática de retornar à origem das origens, lança-se à frente, projetando para além da palavra encantada o nascer de uma poesia: “A gente é cria de frases” (Barros, 1982, p.27) – a palavra nos dá à luz. 4 (Meta)linguagem: despalavra Poesia é a loucura das palavras 9 Que faz o poeta sem palavras? Que ofício teria não fosse um encantador de palavras? En-canta, pluripotencializando os acordes deste canto, poeta-aedo – o portador da palavra. Na obra de Manoel de Barros, o poeta se reconhece contaminado por um dom, como doença. De ver loucura nas palavras, de ouvir o alarme nos nomes, de sentir o cheiro líquido no sopro das vogais, a enxurrada tátil e pedregosa das consoantes, o sabor áspero da palavra terra. O poeta manoelino vive a linguagem, sente pela palavra, sensibiliza-a. Põe o termômetro na boca da palavra boca, pois quer o delírio do verbo. Em sua peregrinação lingüística, abandona os despojos da Dona “Lógica da Razão” (Barros, 2007, p.8), pois é vivenciando a língua ainda não contaminada pelo racionalismo utilitarista, onde o feto do verbo tem penugens – mas não tem ordenamento pragmático, ainda –, que se pode encontrar o tesouro poético manoelino: a despalavra. Olhando rente ao chão, com o rosto à altura de coisas inominadas pela tradição poética, numa curiosidade de deus infante, ansioso pelo resgate da ancestralidade que pulsa em sua anima, o poeta só pode ter na palavra encantamentos, surgimentos: “Em poesia que é a voz do poeta, que é a voz de fazer/ nascimentos.” (Barros, 2006b, p.15). É um dar-se mútuo: a palavra é serviçal do poeta, mas é ele quem serve a ela. O escritório de ambos é a poesia: “Oficina de Desregular a Natureza.” (Barros, 2006a, p.19). Nos versos dessa língua “Devaneiam palavras” (Barros, 2003d, p.32). A primeira reação do leitor diante dos versos de Manoel de Barros talvez seja a de perplexidade, desorientação. No leitor do mundo pragmático, causa estranhamento a falta de utilitarismo da linguagem, sua agramaticalidade e sua pregada desvinculação dos 9 Barros, Manoel de. Matéria de poesia. 4.ed. Rio de Janeiro: Record, 2001, p.26. ditames da lógica racionalista (a gramática, tal como conhecemos, é serviçal da lógica). O poeta deseja desgastar o uso cristalizado e canônico da palavra, subverter a gramática: “Não gosto de palavra acostumada.” (Barros, 2004b, p.71). Busca esvaziar seu sentido útil, para preenchê-lo com novidade, com originalidades originantes de novos sentidos (atitude presente até mesmo nos inusitados títulos de seus livros: Arranjos para assobio, Compêndio para uso dos pássaros, Concerto a céu aberto para solos de ave, Gramática expositiva do chão, Livro de pré-coisas, O guardador de águas, O livro das ignorãças, Para encontrar o azul eu uso pássaros, entre outros.). Destina à palavra novos significados, novas funções, usos renovados; roça os nomes para obter o rumor de uma nova língua, fazendo “casamentos incestuosos entre/ palavras.” (Barros, 2001-c, p.9). Poesia da modernidade, experimenta o código lingüístico, testando seus limites – o que implica, em última instância, em deslocar o significado do foco das atenções (i.e., o significado usual das coisas). O ludismo da linguagem adquire destaque, a ponto de Manoel de Barros fazer brinquedos de palavra em “Língua de brincar” (Barros, 2007, p.7). Desloca, ainda, a relevância do eixo significante/significado para o anúncio pela imagem (sua poesia é, veremos, essencialmente imagética). Ora, se o poeta pretere a lógica, menospreza os significados e conceitos já dominados pelo pragmatismo lógico. Abdica da sensatez em hino ao feitiço das palavras: “Não quero a boa razão das coisas.” (Barros, 2004c, p.61). Com as lupas do racionalismo não se vê (sente) o encantamento, não se pode conhecer a verdade da poesia. A força impactante do inesperado faz-se indispensável na medida em que surpreende expectativas e regras cartesianas. [Ingrato trabalho tem o ensaísta. Estranhamente, disserta-se sobre uma linguagem que se distancia do racionalismo com os instrumentos que ele próprio, racionalismo, fornece-nos. Logo, parece-nos que para o presente texto não há como fugir da megera: torna-se necessário usar da lógica para examinar a não lógica, paradoxalmente. O poeta perdoar-nos-ia, pois “as antíteses congraçam.” (Barros, 2004-b, p.49)]. A razão, pois, na obra manoelina, não dá conta da vida. Ao recusar o racionalismo, põe a voz na boca de loucos, bocós, bêbados, andarilhos: “Poetas e tontos se compõem com palavras” (Barros, 2003-d, p.31). Uma nova razão (ilógica) se faz necessária, e o poeta precisa fundar as premissas de sua validação. Urge, então, uma metalinguagem, a linguagem como razão de si mesma: “Não tem margens a palavra./ Sapo é nuvem neste invento.” (Barros, 1982, p.16). A metalinguagem é o exercício de dar voz à linguagem para falar e falar-se. Ao inaugurar novos sentidos numa língua sem margens, o poeta relaciona um inventário de possibilidades, de palavras, de coisas, de seres: rã, caramujo, sapo, mosca, pedra, cisco, traste, prego, lodo, estrume, raiz, árvore, pássaro, fóssil, infância, lata, prego, besouro abstêmio, parafuso de veludo, alicate cremoso – et cetera. Tudo pode neste novo invento. A palavra inventa o invento, é água fontana de um novo cosmos: “A água passa por uma frase e por mim” (Barros, 2003-d, p.44). Não há margens entre poeta, linguagem, seres, trastes. O processo de apropriação da palavra, aquilo que confere importância à palavra, dáse, assim, de dentro para fora. Se o poeta não quer a palavra acostumada, ele deve partir dela. O processo de desconhecimento parte do conhecimento da língua. A palavra acostumada, gramatical, é já plena de significado, preenchida pelo conceito. Há que se apropriar dela para esvaziá-la, fazer uma assepsia às avessas, desabrigando dela a razão pura, substituindo-a pelas impurezas poéticas do inútil. Se o sentido normal das palavras não faz bem ao poema, o anormal passará a ser a norma: “A única língua que estudei com força foi a portuguesa./ Estudei-a com força para poder errá-la ao dente.” (Barros, 2003-a, p.17). Não é gratuito este processo de transformação da palavra em despalavra, nem mesmo se opera por passe de mágica; o poeta manoelino luta com as palavras, com força bruta, tal qual boiadeiro que doma boi teimoso no braço: – E sobre a palavra, ela? – Mexo com palavra como quem mexe com pimenta até vir sangue no órgão. (Barros, 1982, p.31). Em entrevista concedida a José Otávio Guizzo, para a revista Grifo, Manoel de Barros afirma, sobre a palavra, que ele “Obsessiva e sadicamente as trabalha, dobrando-as até seus pés, arrastando-as no caco de vidro, até que elas sejam eles [os poetas] mesmos.” (Barros, 1990, p.310). Na lide violenta com a palavra, o poeta ganha intimidades com esta. Se, a princípio, o contato é rude, aguerrido, aos poucos, o gesto esbanja carinhos, como na prosa poética intitulada “Escova”, de Memórias inventadas: a infância, em que o olhar do menino se encanta com a inusitada atividade do arqueólogo, de escovar ossos: “Logo pensei de escovar palavras. (...) Eu queria então escovar as palavras para escutar o primeiro esgar de cada uma. Para escutar os primeiros sons, mesmo que ainda bígrafos.” (Barros, 2003-c, p.7). Na arqueologia das palavras, busca encontrar o som dos primórdios, o “sotaque das origens” (Barros, 2006-a, p.23). Se, como vimos, a memória na obra manoelina resgata a memória das origens, é nos fósseis do mundo, no berço ancestral dos primórdios que a língua manoelina encontrará uma palavra que a expresse: “Os mestres pregavam/ que o fascínio poético vem das raízes da fala.” (Barros, 2006-a, p.59). Empreender a busca pela memória da palavra, na obra manoelina, na medida em que o retorno instaura o novo pela palavra renovada, significa constituir a palavra poética: “Não há poesia anterior ao ato da palavra poética. Não há realidade anterior à imagem literária.” (Bachelard, apud Castro, 1991, p.104). A inauguração do novo explora tanto as possibilidades que a palavra, em si, manifesta, quando o que resguarda em seu silêncio. Expõe o que já é posto, ilumina o que é velado: “Na poesia de Manoel de Barros, a dialética do não-dito institui a orla do dizer” (Castro, 1991, p.158). A palavra poética é o elo com o mundo, é o dar-se do novo mundo cosmificado, estrutura ontológica em deveniência sempiterna. Trata-se, pois, da despalavra, como se pode ler no poema homônimo: Hoje eu atingi o reino das imagens, o reino da despalavra. (...) Daqui vem que os poetas devem aumentar o mundo com suas metáforas. (...) Daqui vem que os poetas podem compreender o mundo sem conceitos. (Barros, 2003-a, p.23). Despalavra: logro da palavra (poética) sem os conceitos utilitaristas, plena pela imagem – sua função é a de abrir a Imagem, dando ser a ela. Os recursos da metáfora e da construção imagética são imprescindíveis para dar voz ao que a palavra não tem meios de dizer: “– Imagens são palavras que nos faltaram./ – Poesia é a ocupação da palavra pela Imagem./ – Poesia é a ocupação da Imagem pelo Ser.” (Barros, 2003-d, p.57). Nas palavras de Octavio Paz: O sentido da imagem (...) é a própria imagem: não se pode dizer com outras palavras. A imagem explica-se a si mesma. Nada, exceto ela, pode dizer o que quer dizer. Sentido e imagem são a mesma coisa. Um poema não tem mais sentido que as suas imagens. (Paz, 1976, p.47). Na renúncia à lógica, pulula o rompimento originante do ilógico, destituindo o conceito. Aloja-se na palavra o revés do conhecimento pragmático-racionalista: para dessaber deve-se esquecer os conceitos formais, pois é necessário ressaber pela primeira vez. O poeta abandona a cartilha retilínea do saber, trilhando por veredas ínvias em perseguição ao “antióbvio” (Barros, 2003-b, p.49). Se o poeta refuta o que há de gramatical na língua, como anteriormente mencionado, não há de haver para ele valor no peso coercitivo da correção lingüística. Se uma escrita “correta” tende ao reto, ao retilíneo, tende à exatidão, à configuração estática do conceito. A poesia manoelina é sinuosa, antióbvia, avessa ao trivial e axiomático, não-retilínea, em espiral, e move-se de acordo com a dinâmica do abrir do novo, de uma escrita cosmogenética que flui por águas pantaneiras ancestrais. Como nota Ricardo Alexandre Rodrigues, em A poética da desutilidade: um passeio pela poesia de Manoel de Barros, de 2006, o “óbvio reclama o equívoco das interpretações fechadas” (Rodrigues, 2006, p.29). Escrever com a palavra que é raiz do ser, matriz cósmica, abre caminho para o descobrimento dos avessos do mundo conhecido, do imundo de ontologia deveniente: “Notei que descobrir novos lados de uma/ palavra era o mesmo que descobrir novos lados/ do Ser.” (Barros, 2004-a, p.27). É o verbo em delírio, onirismo devaneante cujo destino natural é “imaginar um cosmos” (Bachelard, 2006, p.24). Ou seja: trazer o ser à luz na morada da imagem imaginada. No percurso em direção a uma linguagem antióbvia, de subversão da ordem lógica, a negação do racionalismo converte-se em um dos aspectos máximos da obra manoelina: a sensibilização da palavra. O poeta despe a privilegiada face altiva da palavra, o significado que nos chega via intelecto: – Difícil de entender, me dizem, é sua poesia, o senhor concorda? – Para entender nós temos dois caminhos: o da sensibilidade que é o entendimento do corpo; e o da inteligência que é o entendimento do espírito. Eu escrevo com o corpo Poesia não é para compreender mas para incorporar Entender é parede: procure ser uma árvore. (Barros, 1982, p.29) O ser não tem entendimento, compreensão; tem sensibilidade, tem ser. O caminho para leitura da poesia manoelina é a fruição, o sensível assentado no ser. Eis um desdobramento do pêndulo secular razão/emoção. Entender com o espírito é ver pelo intelecto, com o instrumental da razão. Desta forma, o poeta não pode ser uma árvore, pois a lógica nos forneceria o discernimento entre o verdadeiro e o falso, entre possível e impossível. Contrariadas as regras da lógica, ser árvore é de difícil compreensão lógica (o que move a indagação dos dois primeiros versos supracitados). Entender com o corpo é sentir, é tomar corpo na árvore, incorporá-la (ou a árvore incorporar o poeta). Para sentir não é condição indispensável o entendimento racional. As rígidas normas no intelecto são muitas vezes, em diversas experiências de vida, incapazes de traduzir um sentimento. Em entrevista concedida a Martha Barros, sua filha, para o Correio Brasiliense, Manoel de Barros questiona: “A lascívia é vermelha, o desejo arde, o perfume excita. Tem que compreender isso? Ou apenas sentir?” (Barros, 1990, p.316). A razão, soberana da civilização pragmática, comumente não consegue, com suas máquinas de calcular o entendimento, entender os sentimentos mais singelos – quais de nós já fomos incapazes de entender racionalmente a gratuidade de um afeto sincero? Para entender a poesia manoelina, deve-se entendê-la fruindo-a, sem tentar explicá-la. Vivenciá-la, experimentála. Ser árvore, pedra, rã, rio, passarinho... Ver as coisas a partir delas, pois, segundo o que se pode ler no esplendoroso verso de Manoel de Barros, “o que desabre o ser é ver e verse” (Barros, 2003-d, p.23). Entender é obstáculo, muro que só pode ser sentido com o rosto ao chão, sentindo a parede erguer-se do solo, e o que há de potência cósmica nas suas frinchas, nos seus musgos. Para sensibilizar a palavra, não há, talvez, mecanismo lingüístico melhor do que a sinestesia: “Um perfume vermelho me pensou” (Barros, 2006, p.69). Além de quebrar a expectativa lógica da linearidade do pensamento, a sinestesia sugere uma contaminação sensorial, em que o poema não tem margens, operando transfusões entre os seres que o habitam: “Manoel de Barros sempre utiliza elementos como som, cor, imagem e a palavra o mais distante possível de sua formulação conceitual, quando quer proporcionar a maior sensibilização do ser.” (Mendonça, 2002, p.28). Não se pode confundir, pois, como o fez José Fernandes, o recurso do cromatismo na obra manoelina com um objetivo estético surrealista. O poeta pretende sensibilizar a palavra, a poesia, e não há caminho mais conveniente do que o dos sentidos em profusão e confusão; transmigram as essências das coisas. Assim nos lembra Manoel de Barros: “Aquilo que mestre Aristóteles falou: – Todo conhecimento passa antes pelos sentidos. O poeta é o primeiro a tocar nos ínfimos. Nas pré-coisas.” (Barros, 1990, p.324). Desabrir o ser, eis o objetivo da poesia manoelina. Teria, então, o poeta algum desabridor de seres, desabridor de palavras ou qualquer inutensílio equivalente em sua oficina de transfazer a natureza? O instrumento há de ser um desobjeto, subversor da ordem das coisas: “Desinventar objetos. O pente, por exemplo. Dar ao/ pente funções de não pentear. Até que ele fique à/ disposição de ser uma begônia. Ou uma gravanha.” (Barros, 2006-b, p.11). Desta forma dessabida, o poeta dá as coordenadas para que se possa sentir o mistério de suas inusitadas combinações, indica o modo como esteriliza um objeto/palavra de suas funções tradicionais (pois, racionais) para que possam inaugurar novos usos, funções mais livres de um ordenamento controlado pela lógica, potencializadas sob o signo do encantamento. O nome, a palavra poética, por si só, ensina ao homem sensibilizado suas comunhões e semelhanças. Romper a casca do conceito, dar visão ao ser, ver através dele e por ele; experimentar a visão do ser, fundindo poeta, coisa, natureza, pente, chão, etc. É preciso perder a inteligência das coisas para vê-las. Ser a coisa: “– A gente é preciso de ser traste.” (Barros, 2001-a, p.25). Fazer comunhão com o traste, transubstanciar-se em todas as substâncias, de modo que não haja margens dentro da poesia: “Quando o rio está começando um peixe,/ Ele me coisa” (Barros, 1999-c, p.21). Aderir à coisa confere mais verdade à palavra, mais imagem à visão. Ora, se a poesia manoelina escreve-se com o corpo, há de haver transfusões entre as coisas; só consegue ser um caracol, por exemplo, ao “conhecer o chão por intermédio de ter visto uma lesma” (Barros, 1999-b, p.33), vendo, por coalescência, a partir da lesma – e vendo-se. Pela transubstanciação, o poeta torna-se um apêndice da natureza. Para desabrir o ser, o poeta optou pela palavra poética, pela língua em que a potência cosmogônica pulsa, desinventando objetos, errando a língua a ponto de depurá-la, brincando de nadeiras de palavras, metamorfoseando-se em traste, lata, caramujo, árvore, exercendo-os pelo e no “olhar” do traste, da lata, do caramujo, da árvore. Ampliou os horizontes a partir do inútil, nutrindo-se dos repousos cosmogônicos do silêncio, do nada. Para criar, o poeta manoelino deve descer ao tártaro inominado e caótico do nada para empreender, pela palavra poética, a gênese de um novo cosmos: “Ninguém é pai de um poema sem morrer.” (Barros, 1982, p.23). Em O guardador de águas, de 1989, ao tratar do tema do nada, antecipa alguns versos do depurado Livro sobre nada, de 1996: O nada destes nadifúndios não alude ao infinito menor de ninguém. Nem ao Néant de Sartre. E nem mesmo ao que dizem os dicionários: coisa que não existe. O nada destes nadifúndios existe e se escreve com letra minúscula.) Se trata de um trastal. (Barros, 2003-d, p.14). Contudo, convém dizer com Andréa Serpa de Mendonça, de acordo com o que se pode ler em Manoel de Barros: o poeta sobre nada, de 2002, que a simplicidade do menor, do ínfimo minúsculo, para o poeta, sustenta-se “por si só, e alçam dimensões estéticas para além do conceito formal de simples, mínimo e “ínfimo”.” (Mendonça, 2002, p.40). O nada, na obra manoelina, é o nada mesmo. Não é o nada filosófico, metafísico (aliás, não seria correto falar em metafísica na poesia de Manoel de Barros, pois a transcendência movimenta-se na palavra, e não para além dela). O nada é terreno vasto e de propriedade inominada; só pode ser de ninguém, pois na poesia manoelina não há identificação de um sujeito. Há os vários habitantes do nada, rastejantes e semoventes seres que existem do nada (do latim exsisto, “elevar-se acima de”, “provir de”). Seres que pro-vêm do nada, em incessante devir cosmogônico. Sua palavra busca no nada um alarme para o silêncio, na dialética do dito e do não-dito, busca em nadifúndios a “vivência espontânea de tudo que se torna matéria de sua poesia” (Mendonça, 2002, p.44). É a manifestação latente pela urgência do nada originário, que a tudo não cessa de criar e recriar, a emergência poética do ser e de ser outros, afinal, é o que se lê na epígrafe de Fernando Pessoa que inicia Retrato do artista quando coisa, de 1998: “Não ser é outro ser.” (Barros, 2004-c, p.9). A despalavra, palavra poética manoelina, rompe com o conceito, corrompe o racionalismo e toma posse dos nadifúndios da ilógica. O poeta manoelino desce à morada do ser, ao nada, raiz telúrica, infância de tudo, para resgatar, pela memória ancestral da despalavra, a origem de tudo, a força cosmogônica capaz de dar vida aos seres e inutilidades em sua obra. Portanto, não há, como entendemos, a ocorrência pontual e isolada de um tema, apenas (no caso do presente capítulo, o tema da linguagem). Ao ferir a sintaxe lógica da gramática em busca da despalavra, só o faz ao percorrer a palavra pelo delírio da linguagem em estado de infância, exercitada na boca de crianças anônimas, de uma memória inventada a partir de núcleos de infância, de instantes resgatados pela memória dinâmica, que bebe da terra a fonte do ser, aderindo-se aos seres desprezados pela civilização por sua falta de utilidade, que rastejam pelo chão, fazendo comunhão com a natureza; são indissociáveis, pois, do tema da (meta)linguagem, os temas da memória, da infância, da terra e das inutilidades. Todos os temas advêm do nada, dínamo silencioso, matriz poética que concilia a oposição dos contrários, elo entre mundo e imundo (reflexo invertido daquele), catalisador do caos em sua conversão em cosmos – única máquina que a palavra aceita, único sentido que a despalavra tem para entender que “A 15 metros do arco-íris o sol é; cheiroso.”, pois “A ciência ainda não pôde/ provar o contrário.” (Barros, 1999-c, p.91). Despalavra: aurora do ser, abridor de amanhecer. 5 O berço das origens Trago das raízes crianceiras a visão comungante das coisas 10 Aparentemente, toda a raça humana, em algum momento da vida adulta – na velhice, principalmente –, sente pulsar dentro de si a urgência por um retorno à infância. A literatura, em seu relacionamento de tensão com a vida, demonstra ser solo fértil para que a infância irrompa. Por ser o crono-tópos ideal da vida, visitar a infância revitaliza o presente. Traduz-se para o homem como visão primeira das coisas, contato primordial com o mundo. A infância, para um poeta, possibilita a liberdade da renovada existência de tudo, ignorando a lógica das coisas postas e já de há muito reveladas. É o dar-se primitivo, em um mundo ainda inominado, em que os sentidos, em êxtase, percorrem cada fagulha de vida com encantamento e curiosidade, desejosos de experimentar a felicidade pululante da existência. No abrir-se primeiro para o mundo, deslumbramento na sua contemplação inicial, toda novidade é alumbrada pelo encantamento, vivenciada com a intensidade originante das revelações. Assim, pela latência iminente de seres, sensações, nomes, etc., no contato primeiro com o mundo, a infância é a matriz do ser, potência cósmica de todos os desdobramentos e possibilidades. A criança, exploradora nata de tudo, verbaliza a inauguração do mundo diante de seus olhos. Ignora a lógica do conhecimento arbitrado, construindo o mundo com suas sensações e palavras. Não carece de gramática, pois a inventa tal qual mais um de seus brinquedos. Inventa os seres, as coisas, os bichos, a natureza – confabula o mundo: “Toda infância é fabulosa, naturalmente fabulosa.” (Bachelard, 2006, p.112); ou seja, toda 10 Barros, Manoel de. Memórias inventadas: a infância. São Paulo: Planeta, 2003-c, p.3. infância, ao deparar-se com o mundo, falsifica memórias (vide a primeira citação na epígrafe deste trabalho: “tudo o que não invento é falso”). O rendimento literário da infância para o poeta é infinito, pois, como lembra Ronaldes de Melo e Souza, “A infância permanente é a garantia da poesia da vida” (Souza, apud Castro, 1991, p.176). O poeta manoelino busca no onirismo devaneante da palavra em estado de infância o motor de sua linguagem, a visão do ser que comunga com todas as coisas. A palavra da criança bebe as águas mananciais da vida, pois “a infância é o poço do ser” (Bachelard, 2006, p.109). Se, como vimos ao abordar o tema da despalavra, a poesia manoelina busca o esvaziamento da palavra para dizer o novo, procura o lugar onde o verbo nasce, não pode fugir da infância para falar pela primeira vez a palavra. A força expressiva peculiar da linguagem infantil não seria capaz de encontrar na palavra acostumada, na linguagem gramatical de uso comum, o fluir do pensamento poético imaginativo e cosmogônico. A língua, na fala da infância, é poesia – eis o que nos ensina Manoel de Barros em entrevista: “a poesia tem a função de pregar a prática da infância entre os homens.” (Barros, 1990, p. 311). A infância está presente em toda a obra de Manoel de Barros, desde o primeiro livro, Poemas concebidos sem pecados, de 1937, até o último, Poeminha em língua de brincar, de 2007. Este último, inclusive, trata-se de edição voltada para o público infantojuvenil, ilustrado pelas iluminuras da artista plástica Martha Barros (filha do poeta), que anuncia logo nos primeiros versos a opção pela temática infantil: “Ele tinha no rosto um sonho de ave extraviada./ Falava em língua de ave e de criança.” (Barros, 2007, p.1). As obras de Manoel de Barros com edições voltadas para o leitor infanto-juvenil são consideráveis; além deste último livro, foram publicados Exercícios de ser criança, de 2000, O fazedor de amanhecer, de 2001, e Cantigas por um passarinho à toa, de 2003. O primeiro deles, de 2000, recebeu o Prêmio Odílio Costa Filho pela Fundação do Livro Infanto Juvenil (2000) e o Prêmio Academia Brasileira de Letras (2000), enquanto O fazedor de amanhecer rendeu a Manoel de Barros o Prêmio Jabuti de 2002, na categoria “livro de ficção do ano”. Dentre as inúmeras manifestações da infância na obra do poeta mato-grossense, destacamos a primeira parte de Compêndio para uso dos pássaros, de 1960, intitulada “De meninos e de pássaros”, por ser bastante representativa do aproveitamento literário da temática infantil. Compõe-se por cinco poemas: “Poeminhas pescados numa fala de João”, “A menina avoada” – dedicado “para Martha”, “O menino e o córrego” – dedicado “ao Pedro”, “Noções sobre João-Ferreio” e “Um bem-te-vi”. João, Martha e Pedro são os nomes dos três filhos de Manoel de Barros, que visitam sua obra poeticamente nestes poemas. No primeiro poema, a poesia é pescada na fala agramatical e cósmica de João, do menino em contato com rio, peixe, jacaré, cobrona (pois é deste modo que o aumentativo das gramáticas infantis compõe a palavra “cobra”), sapos, andorinhas, etc. Todos eles seres que tocam, em algum momento, a água rasa do rio: João foi na casa do peixe remou a canoa depois, pan, caiu lá embaixo na água. Afundou. Tinha dois pato grande. Jacaré comeu minha boca do lado de fora. (Barros, 1999-b, p.11). A visão da criança arma a morada do peixe por comparação com a moradia do homem, que habita casas. Para o poeta-menino, o lugar onde mora o peixe só tem sentido se for a “casa do peixe”. Mergulha na água para visitar o peixe – “pan”. Ora, não deve haver processo de criação de palavras que se adapte com mais justeza à fala infantil do que a onomatopéia, na qual a criança tenta traduzir o que os sentidos lhes transmitem, pela observação e tentativa de imitação do fenômeno, ignorando, pois, as regras gramaticais: “O menino caiu dentro do rio, tibum” (Id., ibid.). A onomatopéia é a língua em potência de infância. O poeta tenta aproximar-se ao máximo da linguagem infantil, usando um sem número de recursos para conferir veracidade à sua criança inventada: “Tinha dois pato grande.” (Id., ibid.) – em que ignora o plural gramatical, em face da patente obviedade do plural semântico; “Veio Maria-preta fazeu três araçás pra mim.” (Id., ibid.), “Você viu um passarinho abrido naquela casa” (Id., p.13) e “Queria que sêsse” (Id., p.21) – vale-se do erro gramatical na conjugação verbal para potencializar a criação poética; utiliza o neologismo “cobrona” (Id., p.12) em vez de “cobra grande” – ou mesmo evitando outro neologismo, “cobrão”, por querer talvez marcar o gênero feminino da palavra cobra –, simulando a atividade lingüística comum na fala das crianças, de criar expressões a partir de comparações com paradigmas da língua; aproveita as ricas possibilidades do diminutivo para a palavra em estado de infância, em expressões como “boca pequenininha” (Id., ibid.), “meu lambarizinho” (Id., ibid.), “porcariinha” (Id., p.15), “minhoquinhas” (Id., p.16), etc. – note-se que o diminutivo, além de denotar afetividade, proximidade, ingenuidade, é usado pelo poeta também para diminuir sobremaneira o que já é diminuto: pequena/pequenininha, lambari/lambarizinho, porcaria/porcariinha, minhoca/minhoquinha. Enfim, são processos lingüísticos que permitem ao poeta liberdade verbal para cosmicizar: “Então se a criança muda a função de um verbo, ele/ delira.” (Barros, 2006-b, p.15). O verbo delira pela força criativa da linguagem, que instala a imagem. A palavra poética precisa delirar para atingir o desconhecimento almejado pelo poeta: “Para voltar à infância, os poetas precisariam também de/ reaprender a errar a língua.” (Barros, 2003-d, p.64). A figura do passarinho é tratada com especial cuidado na obra manoelina. Surge comumente ligada à inocência da infância, sendo, sobretudo, elo que verticaliza e horizontaliza o leve e o pesado. O pássaro, símbolo clássico de liberdade, une Céu e Terra, pois é habitante do ar que rasteja pelo chão, distribui sua existência pelo vôo ziguezagueante entre o chão e as alturas, entre a rasura das águas e a copa das árvores, entre os insetos que cata na terra e as nuvens longínquas da troposfera. Ascende do chão, assim como a palavra almeja elevar-se para a sublimidade da fala infantil (que, curiosamente, é uma descida para a origem do ser), e tem a liberdade de percorrer todos os espaços da natureza: “Os passarinhos se molhavam de/ vermelho na manhã” (Barros, 1999-b, p.22). O pássaro é o fio que tece o cosmos poético de Manoel de Barros, como o bem-te-vi cartola do poema “Um bem-te-vi”: O leve e macio raio de sol se põe no rio. Faz arrebol... Da árvore evola amarelo, do alto bem-te-vi cartola e, de um salto pousa envergado no bebedouro a banhar seu louro pelo enramado... De arrepio, na cerca já se abriu, e seca. (Id., p.31). O bem-te-vi “faz arrebol”, abre o dia. Desce “do alto” e pousa no bebedouro rente aos ramos do chão. Criatura poética que, altivo, escorado triunfalmente sobre a cerca, encontra o destino da poesia – abrir o ser. O bem-te-vi aguarda o momento do salto na árvore, lugar que marca a transitoriedade do vôo do pássaro, é elemento que, de acordo com Bachelard, pode contribuir para a verticalização transcendente do ser, como se verá no capítulo seguinte. A criança está sempre maravilhada com a apreciação do mundo, “de estar o puro entardecer/ dentro de suas mãos/ carregadinhas de amor” (Id., p.19). Quer carinhosamente abraçar o mundo, com inocência e intimidade que despertam nela o poeta – ou é o despertar da criança no adulto que faz nascer a poesia: “Crianças/ Em pleno uso de poesia/ Funcionam sem apertar o botão” (Barros, 2001-a, p.29). A imagem surpreendente diminui qualquer objeto utilíssimo da civilização, inclusive as exasperadas evoluções tecnológicas da telemática e o incomensurável poder “limpo” de uma usina nuclear: apenas as crianças têm o condão de encantar – sem que, para isso, seja preciso acionar algum botão. O tratamento que o poeta dá à palavra, como se pôde examinar no capítulo anterior, visa a desgastá-la de seus sentidos ordinários, conhecidos e aceitos por todos, uma vez que seguem as regras lógicas e gramaticais. A poesia manoelina trata a palavra acostumada com vigor e violência, “Como quem lava roupa no tanque dando porrada nas palavras.” (Barros, 1990, p.314). É preciso fazer a sangria da palavra, para que as purezas impuras do utilitarismo escoem para o ralo. O poeta deve conhecer a língua para errá-la, e para tanto não há fala melhor do que a infantil: “Crianças descrevem a língua. Arrombam/ as gramáticas.” (Barros, 2003-b, p.62). O ludismo lingüístico, a expressividade lúdica composicional, aliada à agramaticalidade, anuncia gratuitamente o acontecer do mundo; brincar com palavras, seres, cores, sensações, trastes, natureza, etc., permite ao poetamenino reordenar o mundo ordenado à sua vontade, com a liberdade de quem fabula seu entorno – intensificada pelas possibilidades ilimitadas da poesia. A partir do olhar inocente da criança, há uma troca dinâmica das essências: o homem é cosmicizado, o cosmos é humanizado. O delírio poético da palavra em estado de infância é a palavra em estado fontal. Para Bachelard, a cosmicidade da infância reside no homem, e deve ser resgatada pelos devaneios solitários do poeta, que os encontra em agrupamentos de instantes poéticos, num território longínquo e de tempo íntimo (unindo imaginação e memória, de tal modo que não é mais possível dissociá-las), que o teórico chama de núcleos de infância, i.e., “uma infância imóvel mas sempre viva, fora da história, oculta para os outros, disfarçada em história quando a contamos, mas que só tem um ser real nos seus instantes de iluminação” (Bachelard, 2006, p.94). Imerso nos devaneios verbais voltados para a infância, o poeta manoelino parece perseguir o arquétipo da criança feliz e inocente, arquétipo da felicidade simples que dorme no homem antes de conhecer as agruras do percurso terreno. As entidades que visitam a poesia manoelina, no resgate criativo da memória, compartilham uma aura de pureza feliz: a avó Nhanhá, que surge em sua obra em alguns momentos, dotada de carinhosa bondade com as crianças; o avô que está sempre a ensinar as crianças a falar a partir do chão; o pai e a mãe, com poucas aparições, mas sempre envoltos por sentimentos alegres (o pai é que, em algum momento, desaprova uma atitude do filho – porém, sem veemência); os tipos adultos – andarilhos, loucos, bêbados, prostitutas e figuras transeuntes – conversam com as crianças como iguais, tratando-as no mais das vezes com ternura. Não há espaço para a tristeza ou mesmo para a melancolia na obra manoelina quando trata da infância ou de qualquer outro tema. Ao contrário, é no exercício da infância que encontra a felicidade. É a inocência em estado de beatitude, criação pura: (...) o mundo retratado por Manoel de Barros é o mundo de sua infância ou o mundo de sua região natal. O cenário e as metamorfoses que conferem o brilho, o poder e a alegria aos poemas, é povoado de pássaros, rios, cobras, estrelas, peixes, árvores e de uma alegria que sai do sol, da natureza exuberante, da terra, da água, de uma infância impregnada pela proximidade com essa natureza forte e vibrante. (Castro, 1991, p.184). O poeta é o filho da terra que, em Face imóvel11 – segundo livro publicado pelo poeta (1942), quando residia longe da terra natal –, em poema intitulado “Balada do Palácio do Ingá” (referência ao Rio de Janeiro), dá um suspiro solitário: “Ai que saudades do Pantanal!” (Barros, 1990, p.71). A necessidade do retorno à infância fala mais alto em sua poesia, reclamando a exclamação saudosista. Vivenciar novamente a criança feliz revigora o homem, reverdece o velho: “Quando eu crescer eu vou ficar criança.” (Barros, 2001-c, p.59). Quando revisita a infância, o poeta sabe que não há mais traços de temporalidade ou espacialidade. O tempo e o terreno movediços da infância são os da memória. Ademais, o arquétipo da criança feliz deforma de tal forma as referências que apaga a autoreferenciação: “Remexo com um pedacinho de arame nas/ minhas memórias fósseis./ Tem por lá um menino a brincar no terreiro” (Barros, 2004-c, p.47). A voz que pronuncia os versos reconhece as memórias pertencentes ao próprio sujeito, a si, marcadas pelo pronome possessivo “minhas”. Trata-se, pois, das memórias dele, poeta, e nelas há uma entidade indeterminada, desconhecida, marcada pelo artigo indefinido “um”. O poeta não reconhece mais a criança que foi. Aquele menino é o poeta, agora distanciado e inominado. A infância, para ser poética, deve ser anônima, para permitir que o poeta a seja novamente – pode, inclusive, ser tantas crianças quantas quiser: “Nossa infância testemunha a infância do homem, do ser tocado pela glória de viver.” (Bachelard, 2006, p.119). Por ser anônima, Sobre este livro, é oportuno registrar que nele se encontra a maior parte dos raros momentos em que o poeta faz referências à História. Trata-se de um livro publicado em 1942, e Manoel de Barros, assim como tantos outros poetas brasileiros, não conseguiu ficar imune às reverberações da Segunda Guerra Mundial. Aparecem nos poemas palavras como “soldados”, “guerra”, “bala”, “front”, etc., como registra o primeiro verso do “Poema do menino inglês de 1940”: “A rua onde eu morava foi bombardeada.” (Barros, 1990, p.62). 11 garante ao poeta a certeza da infância como origem de tudo, latência do mundo, berço da visão de tudo, nascedouro da linguagem, memória fóssil de todas as memórias, fonte poética cosmogônica. Na infância habitam os devaneios subterrâneos, raízes ancestrais dos seres, comuns a todos eles, e nominá-la significa retirar-lhe a força poética de instauração do novo e de todas as possibilidades do ser. Se a palavra poética é atemporal, destemporalizada, seu testemunho só poderá ser anônimo, sob a pena de inviabilizar o poético; assinar é datar. Resgatar a infância é ter a memória do mundo sempre-presente, do instante em estado poético de atualização da palavra, da memória, da natureza, da terra, dos inúteis seres execrados. A criança dura na palavra poética manoelina. Faz brinquedos com as palavras, transfunde-se para as coisas inexpressivas do chão, oriundos da terra, os bichinhos, “porcariinhas”, vendo o mundo a partir delas (é as coisas), inventa as memórias universais, de todos os meninos perdidos no fóssil do instante. O tema da infância é, portanto, indissociável dos temas da memória, da palavra, da terra e das inutilidades. Na poética manoelina, a sintaxe lógico-gramatical é subvertida diante das normas originantes de sua poesia. Assim, o discurso ensaiado pela criança, repleto de oscilações e invenções lingüísticas e gramaticais, diante da contemplação primeira do mundo, balbuciando as palavras com que deverá compor seu entorno e os seres que o habitam – seu cosmos –, aproxima-se da busca pelas origens, do retorno aos nascedouros (a memória das memórias) da palavra que empreende a poesia de Manoel de Barros: “Sou hoje um caçador de achadouros de infância. Vou meio dementado e enxada às costas a cavar no meu quintal vestígios dos meninos que fomos.” (Barros, 2003-c, p.59). Criança anônima, o poeta foi vários meninos, e nele avigora o adulto que é, bugre velho. 6 A geopedagogia dos ensinamentos pelo chão De tudo haveria de ficar para nós um sentimento longínquo de coisa esquecida na terra 12 Na idade adulta, quando o homem resgata a infância para revigorar-se, o lugar de seu onirismo é o da aconchegante casa natal, adubo íntimo. Pisa novamente nas terras onde deu os primeiros passos, ou revive as brincadeiras da infância mais feliz sobre a terra. Mesmo em um mundo urbano, o resgate da infância pela memória recorda o sabor de frutas colhidas na árvore, brincadeiras sujas de poeira da terra, a curiosidade diante dos pequenos insetos e seres que povoam o chão, enfim, para voltar à infância é necessário pôr os pés novamente na terra. A terra é a grande mãe, fêmea que gesta os devaneios da infância feliz. Mas terra não é mundo, há que se fazer esta diferenciação. O professor Emmanuel Carneiro Leão, no capítulo intitulado “A técnica e o mundo no pensamento da terra”, do segundo volume de Aprendendo a pensar, ensina-nos: A Terra é mais antiga do que o homem e a história. Por isso a terra não pode ter nem lugar nem data nem certidão de nascimento. O Homem é mais antigo do que o mundo, a técnica e a tecnologia. O mundo, a técnica e a tecnologia têm lugar e data marcada, possuem certidão de nascimento. Por isso a técnica pretende submeter o homem com a tecnologia, dirigindo a história e substituindo a terra pelo mundo. (Leão, 2000, p.09). Mundo é ordenação. O homem, filho tão pequeno da terra, nela intervém subvertendo-a à ordem, convertendo-a em mundo. Portanto, é na terra – uma vez que origem – que se pode encontrar um refúgio contra o aprisionamento imposto pelos discursos do mundo, encontrar a liberdade ágrafa da palavra poética. Ainda com Carneiro 12 BARROS, Manoel de. Livro sobre nada. 11.ed. Rio de Janeiro: Record, 2004, p.17. Leão: “o mundo da técnica total só sabe mesmo produzir e nada mais. (...) No mundo sem terra, tudo ou é produto, ou é consumo, ou é produção.” (Id., p.13). Há de se resgatar a vigência da terra e da linguagem para que seja possível o viço originário da criação. O discurso pragmático da técnica, tão útil para a contemporaneidade, torna-se inútil e insuficiente quando comparado ao discurso poético. O artista intui a precedência da terra, sente o jorro cosmogônico que brota deste húmus ancestral, pois o poeta “sabe os atalhos do chão” (Barros, 2003-d, p.17). Na já referida entrevista concedida pelo poeta à filha, Martha Barros, percebe-se que Manoel de Barros compreende a fundamental importância da terra como substrato de seu cosmos poético: O que escrevo resulta de meus armazenamentos ancestrais e de meus envolvimentos com a vida. Sou filho e neto de bugres andarejos e portugueses melancólicos. Minha infância levei com árvores e bichos do chão. Essa mistura jogada depois na grande cidade deu borá: um mel sujo e amargo. Se alguma palavra minha não brotar desse substrato, morrerá seca. (Barros, 1990, p.315). A palavra é a raiz do ser, fonte ancestral da vida, e a poesia manoelina resgata na memória anônima a anterioridade de tudo (mistura-se, às memórias ancestrais, primitivas, o caldo cultural da ascendência bugre e portuguesa). Viveu uma infância trepado em árvores, ser cujas raízes unem o céu às profundezas, e que os versos do poeta definem como “aquilo que ensina de chão” (Barros, 1982, p.40). Criança que explorou o rico solo pantaneiro, e que em determinado momento teve de cultivar suas raízes crianceiras em solo urbano, em vaso raso. A terra primeira foi seu quintal, o chão pantaneiro foi o laboratório das experiências de ser criança, tutor que lhe instruiu os rudimentos da cartilha poética, da palavra encantada: “O chão é um ensino” (Id., ibid.). Por meio da geopedagogia, o poeta aprendeu a ver o mundo a partir do chão, i.e., a partir de conhecer a terra, de encostar o rosto no chão, de colear as coisas desprezíveis do chão, de se transfundir para todas as substâncias da natureza, transnominando-as, pôde ordenar o mundo poético pela palavra cósmica. Colhe no chão a cartilha de sua agramática: “Das vilezas do chão/ vêem-lhe as palavras” (Barros, 2003-d, p.31). Manoel de Barros é poeta da terra. Os temas de sua poesia ignoram a lógica pragmática do mundo contemporâneo. É, portanto, criador que se ocupa das forças primitivas da linguagem, que, em eterna gestação, participa da brotação órfica das coisas. A poesia manoelina é arcaica: “Escrevo o idioleto manoelês archaico” (Barros, 2004-b, p. 43). O estudioso Jaa Torrano, em “O mundo como função de musas”, ensaio que introduz Teogonia: a origem dos deuses, de Hesíodo, observa que, ao rastrearmos o sentido da palavra arcaico, devemos ter em conta tanto o sentido historiográfico, que aponta para “a anterioridade e a antiguidade” (Torrano, 2006, p.15), quanto o sentido etimológico, que suscita a idéia de “um princípio inaugural, constitutivo e dirigente de toda a experiência da palavra poética.” (Id., ibid.). Ao mesmo tempo em que retorna ao antes, na descida à ancestralidade do ser, projeta-se para frente, com o brotar inaugural que constitui e orienta os percursos da palavra poética. É o retorno para criar-se, catábase que possibilita a gênese: “No achamento do chão também foram descobertas as/ origens do vôo.” (Barros, 2003-d, p.11). Terra e céu unificados pelo princípio cósmico da palavra poética, “Coisa que sonha de retraves.” (Barros, 2004-b, p.43). Entre o céu e a terra, um elemento vertical se faz presente ao longo da obra de Manoel de Barros – a árvore: “por meio de ser árvore podia adivinhar se a terra/ era fêmea e dava sapos” (Barros, 1999-b, p.15). Elemento-chave na verticalidade da transcendência, a árvore pertence à categoria aérea do vôo onírico, que traz leveza ao que é pesado. Com suas raízes em contato íntimo com as profundezas da terra, alcança o airado espaço das alturas, servindo de ligação simbólica entre céu e terra, elevando o ser para uma ascensão ou, mesmo, para a queda (sem, talvez, que a descensão implique em abatimento moral; antes, a descida é, tanto quanto a elevação, um movimento de alteamento, de ampliação do ser). Ilustração maior deste fenômeno na obra manoelina é o longo poema “Introdução a um caderno de apontamentos”, de Concerto a céu aberto para solos de ave (1991), em que uma árvore surge e cresce dentro de casa, por debaixo de um gramofone, e o avô do poetamenino passa a morar na árvore, espécie de terceira margem na espacialidade do poema: Meu avô ainda não estava morando na árvore. Se arrastava sobre um couro encroado no assoalho da sala. (...) meu avô escorregou pelo couro com a sua pouca força, pegou do Gramofone, que estava na sala, e o escondeu no porão da casa. (...) Durante anos e anos raros desceram mais àquele porão da casa, salvo uns morcegos frementes. Em 1913, uma árvore começou a crescer no porão, por baixo do Gramofone. (Os morcegos de certo levaram a semente) Um guri viu o caso e não contou para ninguém. Toda a manhã ele ia regar aquele início de planta. (...) Com menos de dois anos, as primeiras folhas da árvore já empurravam o teto do porão. O menino começou a ficar preocupado. O avô foi acordado de repente com os esforços da árvore para irromper o assoalho da sala. (...) No Pentecostes, a árvore e o Gramofone apareceram na sala. O avô ergueu a mão. Depois apalpou aquele estrupício e pôde reconhecer, com os dedos, algumas reentrâncias do Gramofone. A árvore frondara no salão. Meu avô subiu também, preso nas folhas e nas ferragens do Gramofone. Pareceu-nos, a todos da família, que ele estava feliz. Chegou a nos saudar com as mãos. O pé direito da sala era de dois metros e a telha era vã. Meu avô flutuava no espaço da sala entrelaçado aos galhos da árvore e segurando o seu Gramofone. Todos olhavam para o alto na hora das refeições, e víamos o avô lá em cima, flutuando no espaço da sala e com o rosto alegre de quem estava encetando uma viagem. (...) Meu avô agora estava bem sorrindo de pura liberdade, pousado nas frondes da árvore, ao ar livre, com o seu Gramofone. (...) Falam que meu avô, nos últimos anos, estava sofrendo do moral. (Barros, 2004-a, p.9-11). O avô testemunha a elevação para um horizonte de pássaros, para uma quase sublimação do ser, em sofre do moral – deve-se advertir, porém, que, na obra manoelina, este sofrimento tem a função de despertar o olhar poético: “Estou na categoria de sofrer do moral, porque só faço coisas inúteis.” (Barros, 1999-c, p.19). Aproxima-se do olhar da criança, que vê tudo poeticamente. Submergindo das profundezas da terra, a árvore irrompe do porão (tema tão caro ao psiquismo), tomando corpo e presença no cerne da casa, dividindo com a família a importância do espaço – “Corpo em árvore feito” (Barros, 1956, p.16). Costumeiramente, a árvore é abrigo de pássaros, insetos, roedores, etc., e não habitação para o homem: “Habitar poeticamente a árvore é participar do seu universo simbólico, advindo pelo devaneio, é viver de seu vegetalismo (...) enquanto fonte geradora da vida que a árvore é.” (Castro, 1991, p.206). No escalar da árvore que cresce por dentro da casa há a simbologia do vôo verticalizante do homem em busca de novos e elevados horizontes – sem, com isso, desprender-se do chão. É atingir livremente as alturas quando fixo no chão, é buscar a libertação feliz pela poesia, pela palavra poética, transpondo os limites físicos do corpo humano. Ora, o que não transmite o verso “eu sou o apogeu do chão.” (Barros, 1982, p.39), senão a tensa fusão entre o baixo, chão, e o alto, apogeu (ou seja, posição orbital apresentada por um satélite terrestre quando, em sua revolução, se encontra mais afastado da Terra)? A ancestralidade da palavra desce ao subsolo das origens, falando rente ao chão, aderindo-se aos musgos, trastes, ciscos, na dicção mineral e áspera da pedra, “Indivíduo que tem as ruínas prosperantes de sua boca/ avidez de raiz.” (Id., ibid.). Escora-se na árvore, exercita o céu a partir do chão, pois, para o poeta manoelino, não há como saber uma coisa senão sendo-a (“ver e ver-se”): “Queria apenas me ser nas coisas. Ser disfarçado.” (Barros, 1990, p.325). Sua ancestralidade bugra, nostalgia de selva, fez com que recolhesse ao seu redor os pedacinhos de “eu” perdidos e desprezados, reclamando existência no poema. A palavra manoelina brinca com terra, e sobre ela; rasteja pelo solo, dando voz aos ecos das grutas profundas: “Uma coisa que o homem descobre de tanto seu/ encosto no chão é o êxtase do nada.” (Barros, 2004-a,p.57). A trajetória pedagógica rumo ao conhecimento poético manoelino percorre inevitavelmente os atalhos do chão. É na terra, quintal de todos nós, mãe coletiva de todas as infâncias, que gestam as forças germinativas da natureza, morada das Musas: “Elas habitam o silêncio e a liberdade dos domínios telúricos como divindades das campinas em flor, das fontes e das montanhas.” (Souza, 2001/2002, p.12). O silêncio telúrico é o êxtase do nada, atingido pela palavra manoelina no curso geopedagógico dos ensinamentos pelo chão. As referências à terra, na obra de Manoel de Barros, são muitas vezes inundadas pela água – não poderia ser diferente em uma poesia que tem seu berço telúrico no Pantanal. Aparentemente, não há como conceber a terra como fonte da vida sem a presença das águas. O solo pantaneiro obedece a um sistema hidrológico de constantes alagamentos, servindo de referencial para os habitantes da região: “Os homens deste lugar são mais relativos a águas do que a terras.” (Barros, 2003-b, p.12). Geologicamente, consiste em uma depressão no relevo que escoa as águas do interior do continente sul-americano; é a maior planície inundável do planeta. A água é tromba-d’água que engravida a terra, semeando os seres. É a eterna luta entre terra e água, alternando-se as vitórias ao longo dos ciclos da vida. Nesse embate, uma sempre vencerá a outra, que não se dará jamais por vencida; a terra absorve a água, que insiste em inundar o chão – na dialética perpétua das imagens do duro e do mole. Água é vida; terra, repouso, espera para que a vida se torne líquida. Uma vez liquefeita, a vida ganha a mobilidade dinâmica para que circule por transfusão no poema, traspassando seres, objetos, palavras, imagens. As águas fornecem ao poeta a intimidade do espelho (tão cara a Narciso) que permite a refletorização de uma paisagem recosmificada: “Desse tempo adquiri a mania de mirar-me no espelho/ das águas...” (Barros, 2005, p.40). A palavra poética flui pela água: “o olho da terra é a água (...), é a senhora da linguagem fluida, contínua, que modela o ritmo, uma matéria uniforme para ritmos diferentes.” (Castro, 1991, p.112-113). Em O guardador de águas, de 1989, por exemplo, à semelhança de Alberto Caeiro (guardador de rebanhos), nosso poeta é também pastor – porém, o que pastoreia é o incontido. Nas paradas águas, o poeta pastoreia o vir-a-ser dos seres ínfimos: rãs, larvas, moscas, besouros. É um Dialeto-Rã, palavra em que “entram coaxos” (Barros, 2003-d, p.9), na qual se alinhavam os “passos para a transfiguração” (Id., p.29). Coisifica-se a palavra, a voz poética – o próprio poeta, boiando no manancial cosmogônico das águas. No entrecruzamento destes lugares, surge a lama, o barro de Manoel de Barros, matéria de poesia: “Depois se espraia amoroso, libidinoso animal de/ água, abraçando a terra fêmea” (Id., p.19). Terra fêmea – grande útero, pura inauguração genésica. Cobertos pela lama, as pré-coisas do poeta ganham forma, edificam-se no ser: “No garfo da árvore seca uma casa de amassa-/ barro! Ele edifica com lama. A gula do podre/ influi em seus traços.” (Id., p.64). Surge a imagem do poeta oleiro, que põe a mão no barro, na matéria amorfa, povoando de seres a sua olaria, o cenário de seu cosmos. A palavra poética, energizada pela imaginação material, toca o dedo do poeta, pois as imagens terrestres, segundo Bachelard, configuram-se por matéria tátil e modelável na manufatura do artista: “são estáveis e tranqüilas; temo-las sob os olhos; sentimo-las nas mãos, despertam em nós alegrias musculares assim que tomamos o gosto de trabalhá-las.” (Bachelard, 2001, p.1). Em contato com a terra, o poeta reencontra a infância feliz, via palavra poética. As imaginações e imagens voltadas para o materialismo terrestre precedem a percepção do mundo (uma vez que ordenação, como vimos), são primitivas, ancestrais. Na teoria bachelardiana, é a massa, “um barro primitivo, apto para receber e para conservar a forma de qualquer coisa.” (Id., p.65). No entendimento acertado de Afonso de Castro, trata-se de uma “coexistência da água e da terra, oferece-se, no devaneio, como imaginação material à mão do artista ou ao poeta para transformá-la, para tocá-la e descobrir as virtualidades artísticas.” (Castro, 1991, p.107). Liga de terra e água que modela a voz do poeta. Ao descer à terra, portanto, o poeta resgata nas forças germinativas do subsolo a fonte do ser, a memória ancestral do ser, jorro primitivo que reside nos sonhos de todas as crianças. Em contato com a água, trava-se a batalha dialética entre firmeza e moleza, e deste combate resulta o barro, lodo, lama, massa – matéria indecisa do “devaneio mesomorfo” (Bachelard, 2001, p.62) entre os elementos pelejadores. A palavra pronunciada rente à terra, ao barro, é rica, poética, instauradora. O verso de Heráclito citado em Livro de pré-coisas (1985) alude ao ensinamento pelo chão: “Tudo, pois, que rasteja partilha da terra” (Barros, 2003-b, p.59). O poeta há de abaixar-se para colher no chão a voz da terra, a fala dos seres miúdos e inúteis que a civilização rejeita. Meditar sobre o tema da terra na obra manoelina é meditar sobre todos os demais. Apresentam-se indissociáveis – não nos cansamos de afirmar –, pois, as temáticas da terra, da (meta)linguagem, da memória, da infância e das inutilidades. 7 Inutensílios – refugo do utilitarismo Tudo aquilo que a nossa Civilização rejeita, pisa e mija em cima Serve para poesia 13 Já no primeiro livro de Manoel de Barros, manifesta-se a escolha pelos tipos e seres rejeitados pela sociedade: “Pela rua deserta atravessa um bêbado comprido” (Barros, 2005, p.31). O poeta demonstra apreço por bugigangas, pela urina da avó, pela graça verbal das criações lingüísticas dos meninos que jogam futebol, por lugares ermos, por loucos, bêbados, ferrugens... afinal, “se eu não sei parar o sangue, que que adianta/ não ser imbecil ou borboleta?” (Id., p.27). A razão não explica a poesia, não equaciona ao poeta de ancestralidade bugre o porquê do jorro de poesia no silêncio da noite; logo, não há motivo para não ser imbecil ou praticar o inútil, se a poesia não tem amarras com os imperativos do utilitarismo. Bêbados, loucos, crianças e poetas, na medida em que ignoram as imposições feitas pela lógica para o que é possível e o que não é, redescobrem sempre as coisas, pois vêem na linguagem a possibilidade de ver o novo. As coisas “desimportantes” apresentam o estado potencial da metamorfose. Na medida em que o poeta explora os limites da utilidade das coisas, inaugurando novas funções para o inútil dentro da poesia, considera-as como iminência do vir-a-ser, devir puro. Ricardo Alexandre Rodrigues contribui significativamente para o entendimento do processo de utilização funcional das coisas, na obra manoelina, a partir do exame do traço, contorno conceitual que determina a função de uma coisa: E porque um elemento já não existe em sua totalidade, é que podemos perceber seu traço. O traço é aquilo que evidencia a presença de um componente pela 13 BARROS, Manoel de. Matéria de poesia. 4.ed. Rio de Janeiro: Record, 2001-a, p.13. ausência do mesmo, não chegando a ser uma representação no sentido de substituir ou estar no lugar dele. Justamente por não fornecer informações precisas e exigir do observador exercícios de suposição, eis que o traço revela sua pertinência dentro da literatura escrita por Manoel de Barros como forma de ler o mundo através de outras perspectivas, tentando uma originalidade (experiência primitiva) por meio de uma sintaxe peculiar, chegando ao ponto de tornar-se extravagante. (Rodrigues, 2006, p.10-11). Segundo a lógica, um pente só é pente enquanto serve para pentear – a função determina o pente. Deve ser útil, deve ter função, para que tenha existência no mundo pragmático. Na obra de Manoel de Barros, torna-se urgente desabilitar a função utilitarista das coisas, como nos versos seguintes, mencionados no início do estudo: “Desinventar objetos. O pente, por exemplo. Dar ao/ pente funções de não pentear. Até que ele fique à/ disposição de ser uma begônia. Ou uma gravanha.” (Barros, 2006-b, p.11). Ao poeta cabe arrastar as coisas para fora do círculo de referenciais do cotidiano, apagar os traços do pente, tornar seus contornos indefinidos, sem margens para ser uma begônia, ou gravanha, ou coisa qualquer – desde que destituída de sua função tradicional. A força criadora traz as coisas à existência no poema distanciando-se da expressão do mundo. Uma coisa transmuta-se em outra, adquire funcionalidade da outra coisa por incrustações e aderências a ela, pois tudo pode no poema: “o poema é antes de tudo um inutensílio” (1982, p.23). Ademais, as transubstanciações são provisórias (pois a matéria poética é enérgica e variável, moldável e malemolente), o que explica o ressurgir renovado nas recorrências a um mesmo tema (ou coisa) ao longo da obra manoelina. A riqueza e originalidade das imagens poéticas da poesia manoelina nos chamam a atenção. Em um primeiro contato com sua obra, chegam a causar estranheza. Há, por vezes, atribuições de sentidos e características a uma determinada coisa/ser pertencentes a outro paradigma de coisas/seres, de modo que algumas atribuições, de tão novas e impensáveis num discurso dominado pela lógica, acabam sendo descartadas pelo leitor. Dizem os versos do poema citado anteriormente que as semelhanças e comparações podem ocorrer entre elementos incomparáveis: semelhanças de pessoas com árvores, pessoas com rãs, pessoas com pedras. O uso da imagem se articula com o artifício da imaginação na poesia. Enquanto uma imagem poética pode ser o germe de um mundo, a imaginação poética tem sua importância na medida em que existe como processo criador – e por vezes instaurador da própria imagem. Ora, é imanente à poesia a função poética da língua. Não se trata da linguagem corriqueira, prática e comunicativa das situações cotidianas do mundo. Aliás, como já se afirmou, não é uma poesia sobre o mundo, mas a partir da terra. A sabedoria, legado cartesiano de nossa era, é, na poesia de Manoel de Barros, a sabedoria das coisas não-pensadas, da intimidade das coisas, do encantamento poético-funcional que as palavras, imagens e construções frasais adquirem no inaugurar-se de sua poesia. É o poder do encantamento. Uma coisa não vale por sua funcionalidade – ao menos não por sua função canônica, preconizada pela lógica do mundo. Num âmbito de cosmo-gênese, deve-se pensar num rearranjo dos elementos poéticos. Não se pode esperar de uma obra verdadeiramente poética que ela não reestruture a sintaxe e a semântica das coisas, dos sentidos e do real. Na poesia manoelina, todo o entorno extralingüístico é transcriado num real reorganizado, o que possibilita ao homem praticar as características de um pássaro, árvore, pedra ou coisa desimportante qualquer. O poeta rejeita o uso acostumado das coisas, tendo predileção pelo refugo: “Só me preocupo com as coisas/ inúteis” (Barros, 1982, p.23). Deseja a palavra em delírio verbal, sedição desorientada da linguagem, despalavra que abre o ser e apaga do signo seus referentes: “Para perceber o mundo em sua singularidade ou dizer a intimidade é preciso antes despir os signos lingüísticos de seus significados convencionais, a fim de evitar que o seu peso impeça a expressividade do espírito lírico.” (Rodrigues, 2006, p.74). A valoração das coisas é um atributo arbitrário, orientado pela praticidade utilitarista, pelo determinismo funcional estipulado pelo homem. Ao nivelar as coisas, ignorando a mão humana que as ordenou, Manoel de Barros aproxima-se do questionamento constante de Martin Heidegger: “Por que há simplesmente o ente e não antes o Nada?” (Heidegger, 1999, p.33). O filósofo alemão resgata a questão da anterioridade, da precedência do Nada, para observar o aparecimento do ente e, sobretudo, o surgimento do ser. A questão heideggeriana fundamental é o esquecimento do ser, e o homem, ente privilegiado (pois é o ente que investiga a questão dos entes), tem papel decisivo neste olvidar. Mencionado o problema, convém opinar que a solução manoelina, de irmanar os entes (em vez de apagar o homem, o que seria um erro), de fazê-los comungar com a natureza, com a physis, revela a sensibilidade do poeta, que não investiga as coisas, “Mas terá o condão de sêlas” (Barros, 2004-c, p.17). Na poesia manoelina o ser encontra sua transcendência em ser, compreende a descida às grutas do ser, à mansidão potencial do nada, como metafísica em si, sem insinuar-se para além; em outras palavras, parece ser o que adverte Emmanuel Carneiro Leão na apresentação a Introdução à metafísica, de Heidegger: “que o homem só possa transcender o mundo dos entes na medida em que nele se encarna e mergulha, já mostra a finitude inexpugnável de sua transcendência.” (Heidegger, 1999, p.15). Transcender, na obra manoelina, equivale a exercer a inutilidade das coisas, dos seres: “Achava que a partir de ser inseto o homem poderia/ entender melhor a metafísica.” (Barros, 2006-b, p.101). Portanto, as coisas tornam-se inúteis (leia-se: de utilidade poética, na poesia manoelina) quando não exercem mais a função útil que lhes foram arbitradas, ou mesmo quando a própria função que o homem lhes dá é a de inutilidade. São inúteis as coisas que se despojaram do peso conceitual, da roupagem utilitarista, encontrando no âmago, no íntimo, o encantamento de ser: “Catar coisas inúteis garante a soberania do Ser./ Garante a soberania de Ser mais do que Ter.” (Barros, 2001-c, p.43). Na poesia de Manoel de Barros, a importância das coisas não depende se uma eficiência que possam ter para a civilização, mas da magia encantatória que podem despertar. O ordinário, diminuto de qualquer grandiloqüência, é modo de se expressar na poesia manoelina. Há de se falar simples para ter grandezas, balbuciar a palavra rente ao chão, como quem deseja “chegar a traste para ter grandezas...” (Barros, 2004, p.25). É a teologia do traste, as ruínas da palavra, em que o poeta relaciona os bens de sua poesia: “um fazedor de inutensílios, um travador de amanhecer, uma teologia do traste, uma folha de assobiar, um alicate cremoso, uma escória de brilhantes, um parafuso de veludo e um lado primaveril” (Barros, 1982, p.26). O tamanho das coisas não se revela pelos limites físicos da matéria, mas pela intimidade que o poeta tem com elas, pelo poder de seus encantamentos para a palavra poética: Um fotógrafo-artista me disse outra vez: Veja que pingo de sol no couro de um lagarto é para nós mais importante do que o sol inteiro no corpo do mar. Falou mais: que a importância de uma coisa não se mede com fita métrica nem com balanças nem com barômetros etc. Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós. (Barros, 2006-a, p.39). Ora, não pode a ciência, com sua lupa racionalista, calcular o potencial encantatório de um “parafuso de veludo”, “alicate cremoso”, ou mesmo de uma begônia, lata ou pingo de sol. Enquanto o olhar do homem tenta encontrar nas coisas uma serventia, uma função, o pensamento poético manoelino busca inaugurar olhares que contemplem o lado oculto das coisas, dando grandiosidade ao ínfimo e importância ao que, aos olhos da sociedade, não tem préstimo. Eis, talvez, mais um sentido para o rendimento literário da infância na poesia manoelina, pois, sob o signo da criança, a linguagem dá importância ao que, aos olhos do adulto, é insignificante, ínfimo. A criança coleciona os objetos, palavras, seres, imagens, para com elas ordenar o seu mundo; na palavra em estado de infância, tudo tem serventia, tem ser. Conhecer é sensibilizar: “Somente as crianças, os bichos e as coisas inúteis, prestes à deterioração (metamorfose) podem conhecer através do parâmetro proposto (...) pelo poeta. Somente quem experimenta as coisas, sendo-as, pode compreender o mundo.” (Castro, 1991, p.30). A visão inocente da criança ainda não está contaminada pelo conceito, mas caminha, inevitavelmente, para este destino. Por isso, o adulto que contraria o conceito, encontrando importância nas coisas inúteis, o faz sob o signo da demência (imagem recorrente da figura do avô na obra manoelina; em alguns momentos, refere-se até mesmo ao poeta), atributo dos loucos. A demência apresenta-se principalmente por meio de Bernardo da Mata – figura poética do homem em comunhão com a physis, energia totalizadora da natureza, substância de tudo –, que ensaia sua aparição em Arranjos para assobio, de 1982, ainda inominado – “O homem estava parado mil anos nesse lugar sem/ orelhas” (Barros, 1982, p.15) –, mas que tem seu “nascimento” poético na obra seguinte, Livro de pré-coisas, de 1985: Quando de primeiro o homem era só, Bernardo era. Veio de longe com a sua pré-história. Resíduos de um Cuiabá-garimpo, com vielas rampadas e crianças papudas, assistiram seu nascimento. (Barros, 2003-b, p.41). Bernardo da Mata arrasta consigo as coisas inexpressíveis, carregando-as com ele; são os inutensílios garimpados no chão, em solo cuiabano. Espécie de aler-ego do poeta, como se depreende de entrevista concedida por Manoel de Barros a Antônio Gonçalves Filho, para a Folha de S. Paulo: “Bernardo da Mata é um bandarra velho, andejo, fazedor de amanhecer e benzedor de águas. (...) Ele mora em minha fazenda (...) constrói objetos lúdicos, fivela de prender silêncio, aparelhos de ser inútil, beija-flor de rodas vermelhas, etc.” (Barros, 1990, p.322). Pelo corpo de Bernardo a natureza se expressa, nele vivenciam as coisas, inaugurando o avesso da normalidade e da utilidade, dando sentido à falta de sentido, pois a importância das coisas é regida pelo encantamento, pelo poder mágico. Bernardo é o homem quando o homem não está presente; é o homem ainda não possuído pelo conceito de homem, pelos roteiros funcionais que a ele foram atribuídos: “Poder-se-ia falar de um humanismo trastal, coisal, adâmico ou edênico” (Castro, 1991, p.168). Bernardo é o homem enquanto traste, coisa, lata, parafuso ou água: é a substância de todas as coisas reles. Em seus dois livros da série Autobiografia inventada (Memórias inventadas: a infância, 2003, e Memórias inventadas: a segunda infância, de 2006; espera-se ainda uma terceira publicação), o poeta volta-se contra os objetos fabricados pelo homem, que viram sucatas, pois não têm ser: “Vi que/ tudo o que o homem fabrica vira sucata: bicicleta, avião, automóvel. Só o/ que não vira sucata é ave, árvore, rã, pedra. Até nave espacial vira sucata.” (Barros, 2003-c, p.63). Se até mesmo a evoluída nave espacial vira sucata, o poeta não consegue ver a utilidade deste objeto. Plantar bandeirola no solo de marte é grandioso para o homem histórico; para o homem em comunhão com a natureza, o vôo de uma garça branca é mais útil (porque tem mais encanto) do que o decolar da nave: “Porque a máquina é uma geringonça fabricada pelo homem. E não tem ser.” (Barros, 2006-a, p.11). A mão do homem não é capaz de animar a sucata; a mão do poeta que busca experimentar o ser é animada por este, numa operação reflexiva recíproca, transubstanciação plena. A opção do poeta pelo ínfimo é tão explícita que se manifesta até mesmo no título de alguns de seus livros: Livro de pré-coisas (1985), Retrato do artista quando coisa (1998 – em bem-humorada alusão à obra de James Joyce, Retrato do artista quando jovem) e Tratado geral das grandezas do ínfimo (2001). A obra Retrato apresenta-se quase como um tratado metapoético sobre a utilização do inútil em sua poesia: O ser que na sociedade é chutado como uma barata – cresce de importância para o meu olho. Ainda não entendi por que herdei esse olhar para baixo. Sempre imagino que venha de ancestralidades machucadas. Fui criado no mato e aprendi a gostar das coisinhas do chão (Barros, 2004-c, p.27). A instantânea associação que se faz, ao mencionar a barata, é com o asqueroso, o repugnante. Aos olhos da sociedade, além de ser inútil e indesejada, a barata é maléfica, pois veículo de contaminação. Da mesma forma o olhar utilitarista demonstra repulsa pelos seres inúteis, que contaminam a eficiência dos discursos da lógica. Para o olho do poeta, entretanto, os seres refugados pela sociedade têm utilidade, têm lugar cativo em seus versos. Na medida em que ativa a criança anônima em si, rastejando rente ao chão, íntimo da terra, filho do substrato dos pântanos, distribui seus olhares para as coisas do chão, miúdas e sem importância, cultivando um “olhar para baixo”, que, sem saber, herdou de uma ancestralidade que tem urgência por origens, pelos berços primitivos do ser, e que se manifesta na palavra poética. Criança criada no mato, o poeta, adulto, ao recuperar a infância que não teve (e as que teve, renovando-as pelas atualizações da memória poética), tem carinho especial com tudo o que é pequeno e rebaixa-se na escala de importâncias da sociedade, dando voz e dando-se para as coisas: “Um João foi tido por concha” (Barros, 2001-a, p.14). Os seres insignificantes, na poesia manoelina, usam-se do homem. Invertese por completo, desta forma, a ordem do mundo. Na poesia de Manoel de Barros, oficina de transfazer a natureza e de encantar as coisas, o homem participa do processo encantatório, na medida em que assume o condão de ser as coisas: “tudo que vem da terra para ele sabe a lesma” (Barros, 1999-b, p.16). A palavra poética congraça todas as substâncias, realçando o princípio vital que atravessa todas coisas, objetos, lembranças, etc., bens do poeta. Exercita a harmonia das existências, que transmigram dos corpos que as aprisionam, ganhando importância poética nas substâncias que assumem para o poeta: lesmas e lacraias também eram substantivos verbais Porque se botavam em movimento Sei bem que esses nomes fertilizaram a minha linguagem. Eles deram a volta pelos primórdios e serão para sempre o início dos cantos do homem. (Barros, 2006-a, p.27). Os seres inúteis e inexpressivos para o mundo racionalista têm expressão verbal na poética manoelina. Isto é: as coisas reles têm importância principal, de verbo, chumbo da dicção. Para fertilizarem a linguagem e serem a substância verbal da fala poética, as inutilidades assumem uma dicção coisal de humanismo trastal. A palavra poética, veículo do vir-a-ser das coisas na poesia manoelina, é discurso dos seres que se dizem pelo homem, pois a palavra poética é raiz do ser que encontra nos primórdios de tudo o rastejar fertilizante de lesmas e lacraias a dar início aos cantos, contornos do homem. Na poesia de Manoel de Barros, o homem é definido a partir do ínfimo e do inútil, alterando violentamente o ordenamento do mundo: “As coisas jogadas fora/ têm grande importância/ Como um homem jogado fora” (Barros, 1999-b, p.17). É nas memórias fósseis, anteriores a tudo, que o poeta resgata a origem do ser; talvez por experimentar a palavra poética em estado de criança, o poeta, em suas memórias inventadas, encontre nos seus brinquedos vivos e ínfimos que andam sobre a terra a potência significativa da inutilidade – valência mor em sua escala de encantamentos. 8 Pórtico; ou roteiro metapoético; ou Manoel por Manoel Por fim, apresentadas e comentadas as temáticas que orientam a poesia de Manoel de Barros, apresenta-se para nós um poema que reclama lugar no estudo, por se aproximar de um pórtico, espécie de arte poética do artista mato-grossense. Referimo-nos ao poema “Pre-texto” (sic.), que se encontra em Para encontrar o azul eu uso pássaros, de 1999, obra ricamente ilustrada com fotografias do Pantanal: Que as minhas palavras não caiam de louvamentos à exuberância do Pantanal. Que eu não descambe para o adjetival. Que o meu texto seja amparado de substantivos. Substantivos verbais. Quisera apenas dar sentido literário aos pássaros, ao sol, às águas e aos seres. Quisera humanizar de mim as paisagens. Mas por quê aceitei o desafio de glosar esta obra exuberante de Deus? Aceitei para botar em prova minha linguagem. Que eu possa cumprir esta tarefa sem que o meu texto seja engolido pelo cenário. (Barros, 1999-c, p.17). A força deste poema talvez não se encontre no exercício mais fiel ao estilo manoelino; de fato, trata-se de um poema atípico, em que a voz do poeta assume-se diante da criação, em que a voz do poeta não cede a vez aos seres. Porém, em seus versos há uma orientação para a leitura da obra manoelina, com as escusas eventuais de descaminhos quaisquer. O poeta reflete não apenas sobre o fazer poético, mas, de forma inequívoca sobre o conjunto da obra. Daí sua importância maior como roteiro poético do que como poema exemplar. A escolha pelo título, “Pre-texto”, suscita uma dupla leitura: 1. pré-texto – trama poética que antecede a urdidura da poesia, que remete à anterioridade, à ancestralidade da palavra (texto) e do ser; 2. pretexto – alegação, escusa, justificativa do poeta para o pré do texto, exposição dos motivos de seu fazer poético. Ambas são leituras que se complementam, ampliando e sustentando a palavra do poeta. Manoel de Barros não renunciou jamais à capacidade que seus versos têm de militar por uma ecologia, mas esse é um desvio de função. Abdicou de inúmeros rótulos e títulos catalográficos, tais como “Guimarães Rosa da poesia”, “poeta dos ínfimos”, “poeta da ecologia”, “poeta do pantanal”, etc. É inconteste a relevância do solo natal para a poesia manoelina, mas há sempre o cuidado de não ser engolido pelo Pantanal: “Que as minhas palavras não caiam de/ louvamentos à exuberância do Pantanal.”. O cenário é exuberante, e diante dele poeta e poesia correm o risco de sumir, tão diminutos que são. A poesia de Manoel de Barros, consciente desta arapuca, soube nutrir-se do Pantanal sem nele se afogar, sem relegar à sua poesia a tarefa escrava de dizer apenas a cena. Em entrevista a Martha Barros (referida anteriormente), ao responder a pergunta sobre como o poeta vê a poesia sul-mato-grossense, Manoel de Barros reforça a idéia central do presente poema: Quero dizer: é preciso evitar o grave perigo de uma degustação contemplativa dessa natureza, sem a menor comunhão do ente com o ser. Há o perigo de se cair no superficial fotográfico, na pura cópia, sem aquela surda transfiguração epifânica. A simples enumeração de bichos, plantas (jacarés, carandá, seriema, etc.) não transmitem a essência da natureza, senão que apenas a sua aparência. Aos poetas é reservado transmitir a essência. Vem daí que é preciso humanizar de você a natureza e depois transfazê-la em versos. (Barros, 1990, p.315). Não louvar o Pantanal implica a recusa ao adjetival. Raríssimas e pontuais são as quedas para o confessionalismo na poesia manoelina. O adjetival, para a palavra que rodeia o Pantanal, abre espaço para um lirismo confessional do eu; sua poesia, ao contrário, apaga as referências do eu, de modo que traz para o poema novos eus, de pedras, larvas, aves, coisas, seres inúteis. Quer preencher seu texto com substância, substantivos verbais, não adjetivos. O poeta tem avidez por sensibilizar, isto é, por participar intimamente do ser, de “ver e ver-se”, dando sentido literário “aos pássaros, ao sol, às águas e aos/ seres.” Dar sentido literário é não cair no adjetival do Pantanal, mas nutrir-se de sua essência. Apagar as referências externas do eu, de modo a misturar-se com o cosmos: “Quisera humanizar de mim as paisagens.”. Sensibilizar o ser, humanizar o traste, coisificar o homem. Tudo se equipara pela substância vital da palavra cosmogônica. Pela dialética pergunta/resposta, o poeta questiona o sentido de seu fazer poético. Afinal, por quê um poeta aceita o desafio de glosar a obra exuberante de Deus? O que move o poeta para o impulso divino? Qual o motivo de desafiar Deus, imitando-o? Se o faz, é porque o poeta é demasiado humano: “Aceitei para botar em prova minha/ linguagem.”. Em outras palavras: o caminho até a poesia é um percurso de provação, em que o homem se redime, diante de Deus, de suas limitações infinitesimais. Se o homem é limitado, a poesia, com as imagens imaginadas pela palavra cosmogônica, é uma saída para a expansão do ser humano, para ampliar seus limites, apagá-los, fazendo a comunhão de todos os seres com a natureza – permitindo que o homem, este que pisa a terra com os pés, alce vôo experimentando-se enquanto passarinho, exerça o artista enquanto coisa. Ser poeta é uma destinação obstinada, em que o homem aceita o desafio monumental de glosar a obra de Deus: “Que eu possa cumprir essa tarefa”. Ora, não há, talvez, poeta na literatura brasileira que tenha assumido a tarefa – trabalho a ele imposto – de dar vida aos minúsculos seres que a sociedade rejeita pisa e mija em cima. A obra de Manoel de Barros empenha-se em resgatar a origem primeira da palavra e do ser, a memória ancestral que deverá inventar para trazer as coisas ao ser. Desce ao subsolo fértil do nada, nascedouro de achamentos poéticos, balbuciar da linguagem – e, por isso, como vimos, a infância não poderia deixar de aparecer entre as principais temáticas de sua poesia. Falar a partir da criança é abrir o ser, possibilitar a inauguração das memórias fósseis, é reparar as coisas sem importância, sem utilidade para o mundo dos homens, mas de encantamento enérgico para o olhar da criança feliz que explora o cosmos. Resgatar nas memórias inventadas da criança a palavra instauradora que confere encantamento às coisas e seres inúteis significa dar o testemunho poético do homem enquanto mais um ser que rasteja sobre a terra, e, sob este ponto de vista, é tão importante ou inútil quanto uma lesma, caracol, lata ou estrume, pois é ser aos demais seres irmanado, comungando das potências cósmicas pantaneiras. Eis o que teve de fazer Manoel de Barros: inaugurar o poeta, transfigurando a exuberante natureza epifânica do Pantanal sem “que o meu texto seja engolido pelo cenário.”. 9 Últimas palavras Marco Polo descreve uma ponte, pedra por pedra. – Mas qual é a pedra que sustenta a ponte? – pergunta Kublai Khan. – A ponte não é sustentada por esta ou aquela pedra – responde Marco –, mas pela curva do arco que estas formam. Kublai Khan permanece em silêncio, refletindo. Depois acrescenta: – Por que falar das pedras? Só o arco me interessa. Polo responde: – Sem as pedras o arco não existe.14 Embora tenha começado a ser produzida cedo, a obra de Manoel de Barros teve de esperar aproximadamente quatro décadas para alcançar o apreço da crítica literária. O público leitor com acesso à obra manoelina sempre foi restrito, dada a aparente dificuldade que implica a leitura de seus versos. Não é obra com propensões à massa, porém também se distancia do eruditismo hermético de uma poesia “difícil”. É uma poesia em que a palavra é trabalhada meticulosamente, com o cuidado do poeta desejoso de desgastar o sentido normal que nela se encerra. Manoel de Barros inverte diametralmente as regras do jogo lógico que visa ao conhecimento: saber é desconhecer. Sabedoria não é, em sua poesia, erudição, legado que se conquista via intelecto, mas sensibilidade, patamar que só atinge quem persegue a ignorância. A ascensão para a desaprendizagem garante a soberania do ser, que se liberta da densa camada do aparato racionalista, que torna o ser obscuro. Somente ignorando o racionalismo é que se atingem as essências, moeda encantada do poeta para a fatura do poema. Como o arco da ponte e a pedra, na citação de Italo Calvino: a palavra é pedra fundamental do arco manoelino. Divulgada pela crítica apenas por volta de 1980, a obra manoelina foi estudada pela primeira vez na monografia do professor José Fernandes. Preocupado em ler a obra à luz 14 CALVINO, Italo. As cidades invisíveis. São Paulo: Companhia das Letras, 1990, p.79. da estética modernista, Fernandes acabou por limitar sua abordagem a uma tentativa de enquadramento da poesia de Manoel de Barros dentro do modernismo (insistiu, inclusive, em uma filiação surrealista). Equívocos à parte, abriu caminho para o sólido estudo de Afonso de Castro, principalmente ao lançar o foco de sua atenção sobre a ontologia das coisas, citando Heidegger. Afonso empreende a delicada tarefa de esboçar os contornos da poética manoelina, identificando na palavra e no retorno à infância os motores da poesia manoelina. De fato, acerta, chegando a prever com acerto os caminhos da obra que Manoel de Barros produziu posteriormente à publicação de seu estudo. Juntamente com os apontamentos de Gaston Bachelard, as observações de Afonso sobre a linguagem, o retorno à infância e a permanência da terra foram fundamentais para que pudéssemos definir nossa leitura da obra do poeta mato-grossense. Por se tratar de um estudo que se apóia amiúde em teorias hermenêuticas, consideramos necessária uma discriminação do escopo teórico utilizado. Ressaltamos como e de que forma as formulações filosóficas de Gaston Bachelard e o ensaísmo crítico de Ronaldes de Souza e Melo nos foram indispensáveis. Mencionamos também, ainda que brevemente, de que forma a filosofia heideggeriana nos foi útil – em especial, no capítulo voltado para o tema dos inutensílios. Iniciamos verdadeiramente o estudo a partir do tema da memória na obra manoelina. Se exercitar a memória é resgatar as origens, pensar sobre as origens da memória, na obra manoelina, levou-nos ao verso inaugural de sua poética, quando, sob o barulho da roupa lavada sendo batida na pedra, “nasceu” Cabeludinho. Eis a certidão de nascimento da representação mnêmico-poética de uma infância longínqua. Tal verso primeiro, colhido de seu primeiro livro, de 1937, se desdobra em novas representações de Cabeludinho, em livro publicado 66 (sessenta e seis!) anos depois, em 2006. Raiz de memória, Cabeludinho é o instante poético de uma infância que dura. Não se trata, portanto, de simples rememoração. O processo de revitalização da infância ultrapassa a reminiscência rememorada, pois é mote da criação, da transformação. A infância fala pela palavra encantada; os núcleos de infância, que conservam os instantes vividos quando criança, são remodelados pela imaginação criativa de uma memória cósmica (e, por isso, poética). Além da memória, pôde-se ver de que forma as outras quatro temáticas geradoras – (meta)linguagem, infância, terra e inutilidades – atuam na poética manoelina. Enfatizamos sempre a ausência de hierarquias, e procuramos mesmo demonstrar como as temáticas se coadunam para formar o tecido poético. Demos maior destaque à memória por se tratar do enfoque privilegiado por nossa investigação. Parece-nos que a memória dinamiza, juntamente com a palavra, a terra, a infância e as inutilidades, o vir-a-ser do poema. A palavra é a fonte do ser, aurora do cosmos que surge na imagem. Falar é falar-se: a palavra poética, na obra de Manoel de Barros, instaura o ser e reflete sobre a instauração. Ao procurar pelo feto do verbo, o poeta encosta o rosto na terra para aprender pelo chão, para sentir o pulsar da terra fêmea, brotação ininterrupta da vida, banhada pela fertilidade das águas. Retorna à gruta primeva do ser, âmago das intimidades anônimas, fonte sagrada do ser (assim como a morada de Calipso), para encontrar o olhar e a palavra da infância – ainda não contaminados pelos conceitos –, da contemplação do universo pela primeira vez. A palavra poética da criança feliz resgatada nas grutas e lapas da terra pela memória cósmica ainda não conhece o ordenamento do homem, o mundo. Por este motivo, desconhece o sentido arbitrado para o que é útil e o que não é. O adulto, sim, conhece o ordenamento, e pode, exercendo em si as memórias de uma infância inventada, descartar as coisas úteis, redescobrindo funções poéticas para as inutilidades. O poeta colhe na terra e na natureza as matérias enérgicas para a imaginação poética, trabalhando, à semelhança de um alquimista, a elementaridade da terra, do ar, da água e do fogo. O laboratório do poeta é a palavra: labor e oratorìum, lugar em que trabalha e ora, exercendo o sacro ofício divino da criação. Todos os temas se unem para empreenderem simultaneamente a gênese da poesia manoelina. Palavra, terra, infância, inutilidades, memória – elementos tocados pelo encantamento. O exame do papel especial da memória na obra de Manoel de Barros, portanto, não pode ser ingênuo se amparado em teorias filosóficas da envergadura de Bachelard e Heidegger, tanto como não pode ser desatento se guiado pelo pensamento crítico de Ronaldes. Descarta-se, então, o vínculo biográfico. Manoel de Barros, pessoa física, não nos interessa. Queremos o poeta. A memória do poeta. A imaginação criativa do poeta infante, da criança solitária que modela nuvens, raios de sol, córregos e barro em sua memória cósmica. Vimos como o instante de infância retido pela memória é molécula, átomo que constrói a recordação poética. O adulto recria a infância tal qual aquela que não viveu, marcada por peraltices. É na infância, fonte do ser, silêncio das palavras no caos do Nada, que a memória cósmica garimpa seus brinquedos para montar a poesia. Poeta-criança que na solidão imaginativa abandona a sensatez sisuda da razão adulta, e se permite o devaneio poético, o canto encantado e mágico da palavra poética. Palavra cosmogônica, flauta que executa o sopro da vida no retorno à memória das origens. No retorno, no revolver dos princípios de tudo, a procura pela própria fonte, lugar onde se gesta o “feto do verbo”, onde os nomes não têm penugens, onde o pio do pássaro não conhece o fio do divino, onde o dia mistura suas cores, abrindo o amanhecer – lugar onde tudo comunga da uniformidade do não-formado. No retorno ao passado de uma memória ancestral, o movimento anterógrado. Pois o que é anterior não está formado; forma-se para frente. A idéia do passado é criada no futuro. Voltando-se para as origens de tudo, a memória cósmica recria os instantes encantados e procria um novo cosmos. Esta, sim, a verdadeira memória, a da terra, da infância, das palavras, das coisas sem importância. Memória do indefinido, matéria prima da criação poética. O percurso da crítica é, quase sempre, repetir o mesmo. Raros são os casos em que a escrita é capaz de inaugurar caminhos desconhecidos ou não percorridos. Dificilmente são feitas descobertas novas. Entretanto, repetir o já dito pode ser feito de forma a renovar o conhecido. Escrever sobre a obra de Manoel de Barros, atualmente, já não enceta surpreendentes descobertas. Sua poesia, porém, permanece sob o signo do encantamento, inaugurando renovações no espírito de quem a lê. Movidos por paixão, portanto, justificamos nossa insistência em reforçar o já dito, contribuindo modestamente com mais um capítulo da Fortuna Crítica da obra de Manoel de Barros. 10 Referências bibliográficas ANDRADE, Carlos Drummond de. Antologia poética. 54.ed. Rio de Janeiro: Record, 2004. BACHELARD, Gaston. A água e os sonhos: ensaio sobre a imaginação da matéria. São Paulo: Martins Fontes, 1997. ____. A intuição do instante. Campinas: Verus Editora, 2007. ____. A poética do devaneio. 2.ed. São Paulo: Martins Fontes, 2006. ____. A terra e os devaneios do repouso: ensaio sobre as imagens da intimidade. São Paulo: Martins Fontes, 1990-a. ____. Fragmentos de uma poética do fogo. 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